# Os escritos de João Soares Neto > Coletânea de escritos de João Soares Neto ## Posts - [SEDEX PARA DILMA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sedex-para-dilma-diario-do-nordeste/): Antes de sua primeira eleição, participei de encontro em que você expunha a postulação. Sua fala não foi boa. Acreditava ser o seu sistema nervoso. Muitos tiraram fotos com você. Fiquei longe: será ela preparada? Sabia, por leitura, da sua participação ativa em movimentos e aparelhos. Sabia até que ficara amiga, quando presa, da cearense Rita Sipahy, irmã do Aytan, meu colega de escola. A Rita, advogada, e o Aytan, médico em São Paulo, nunca foram do mal. Assim, concluí, por inferência: você era alguém que, jovem, acreditava em mudar o Brasil. Depois, todos sabem, foi eleita e reeleita. O País parou. O seu partido, o PT, surgiu como algo novo. Carta de princípios, austeridade, intelligentsia, fim do patrimonialismo etc. Quimeras. Agora, começo de 2016, dou sugestões. Não tenha medo de impeachment. Aja para acabar com todos os "malfeitos". Afinal, quanto custa aos empresários o sistema "S" e as centrais sindicais para os empregados? Para quê? Por que a Caixa, a Petrobras, o Banco do Brasil, o BNB e outros órgãos queimam bilhões em patrocínios "culturais e esportivos" questionáveis? Por que o BNDES empresta a quem não precisa e a outros países? Acabe com o aparato em suas viagens. Você era simples, volte a ser. Mordomia vicia. Quem é pobre, poupa. O Brasil é pobre. Sem esgotos: zika. Diminua o número de ministérios para 17, o total de prédios do Niemeyer. Pare os jatinhos. Feche o cofre. Seja clara. Demita. Divulgue. O povo e o Congresso a apoiarão. Fique certa. Fale menos, trabalhe mais. Mire-­se na Angela Merkel. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/01/2016 - [DOIS FILMES QUE RECOMENDO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dois-filmes-que-recomendo-jornal-o-estado/): “Na vida real, a maioria dos atores de cinema é uma decepção”. Marlene Dietrich, atriz. Sou “cinemeiro” inveterado. Na telona dos cinemas e na tevê do meu quarto. Nunca fiz curso de cinema, mas pertenci ao “Clube de Cinema”, na sede da Associação Cearense de Imprensa, ali na Floriano Peixoto com Perboyre e Silva. Darci Costa, meu professor de inglês no Ibeu, era o dirigente. Havia conversas e debates. Eu, muito jovem, ouvia. Curioso, comecei a fazer sofríveis resenhas de filmes aos 15 anos. Estão em diários que, qualquer dia, reencontrarei. Depois, já adulto e consolidando a vida, resolvi montar, com dificuldade, os Cinemas Benfica. São quatro salas, bem equipadas e que seguem a “grade” das distribuidoras que mandam. Não há lucro para os cinemas. Os percentuais brutos para as distribuidoras são de 40%, 50% e 60%, dependendo dos critérios que elas mesmas impõem. Além disso, paga-se o ISS, os empregados, os altos custos de energia elétrica e o Ecad, entre outros. Há excessos de meias-entradas e gratuidades. Quando um projetor para, temos de chamar técnicos do Rio ou São Paulo, por avião, remuneração e diárias. É duro. Por outro lado, já ajudei na produção de alguns curtas, mas nada de tão significativo. Deixo um recado aqui: pretendo fazer, em breve, uma exibição de curtas cearenses. Quem quiser participar, pode entrar em contato. Faça-o pelo e-mail que está no cabeçalho da coluna. Na verdade, este artigo, além do nariz de cera explicativo, é para dizer de dois filmes que vi recentemente. O primeiro, em reprise. Não me arrependi. Trata-se de “Gênio Indomável”, de 1997, direção de Gus Van Saint. O então jovem ator Matt Damon, no papel de Will Hunting, membro de turma encrenqueira e sem futuro, descobre-se gênio ao resolver problema de alta matemática, exposto em lousa em corredor do Massachusetts Institute of Technology- MIT. Will era simples prestador de serviços na área de limpeza. O filme vai em crescendo do qual fazem parte Robin Williams, como um psiquiatra viúvo e desencantado, e Stellan Skarsgärd, como notável professor de matemática, detentor do prêmio “Fields”, uma espécie de “Oscar” da área. Não vou dar detalhes, mas me chamou atenção o desencanto de Robin Williams que, na vida real, se concretizou. No geral, o filme mostra que alguém superdotado pode, sem fazer esforço, se destacar e achar isso natural. Há outro fato, esse no campo afetivo. O encontro do rapaz pobre, encrenqueiro e superdotado com uma herdeira rica e preparada estudante da Harvard University. O filme vale a pena. O outro filme é de 2011. “Intocáveis” é francês. Nada a ver com o seu homônimo americano, com Robert de Niro. É filme sério-alegre, realizado por Olivier Nakache, que também produz o argumento. Embora seja comédia dramática, consegue, de forma alegre, mostrar a relação crescente entre um irreverente e improvisado “cuidador senegalês”, (Osmar Sy), e um rico e sofisticado tetraplégico francês, interpretado por François Cluzet. Mesmo sendo feito em 2011, deixa claro os guetos em que os imigrantes pobres vivem. Esse fato, além do Estado Islâmico, estão na raiz dos ataques ao semanário Charlie Hebdo e, posteriormente, nos atentados em Paris. Chama a atenção que o filme é baseado em fatos reais, contado em livro por Philippe Pozzo di Borgo. Foi o filme francês mais rentável em bilheteria e recebeu muitas premiações. Com estas duas indicações, renovo a esperança de que o polo de cinema do Ceará ultrapasse, não por rivalidade, mas por conteúdo, o já consolidado em Pernambuco. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/01/2016. - [CARTA PARA VOCÊ, JOVEM, NESTE COMEÇO DE 2016 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/carta-para-voce-jovem-neste-comeco-de-2016-jornal-o-estado/): “Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos idosos, um passado muito breve.” Schopenhauer (1788-1860) Sei existir lenda de que o jovem de hoje não lê jornais. Meia verdade. Talvez o leia pouco em papel, mas os jornais têm as suas mídias sociais, e tudo fica lá, de forma permanente nos sítios, blogs, face e nas nuvens. Não há mais jornal de ontem. Há escrito não lido, ainda. Este artigo é reproduzido em blogs com qualidade. Essa certeza me faz ciente de que é preciso contar sempre com o jovem para tudo o que é novo. O ano de 2016 está tinindo de novo. É hora de acabar com essa onda sadomasoquista de não acreditar no Brasil e falar: o jovem não tem futuro. O jovem tem futuro, sim. Desde que se prepare, estude e cumpra as etapas da vida. Ela cobra a cada dia. O maternal – ou a creche ou a casa de parentes- é o primeiro passo para a criança de hoje, com pais lutando para lhe dar melhores condições de vida. Depois, vem a escola, seja pública ou privada. Encare-a como necessária, como uma ginástica para a sua mente. As mentes precisam de informações. Elas, pouco a pouco, se transformam em conhecimento. E aí chega o Enem, o Exame Nacional de Ensino Médio, nivelando a todos e os desafiando a sair do quadrado existencial onde os hormônios da juventude impõem arritmias, de formas distintas. Nós, os que fizemos vestibulares, tínhamos as mesmas apreensões, mas os que não brincam com as letras, com a memória e com os números, passam. Não precisa ser gênio; basta não ser dispersivo, anotar o importante e ouvir, sempre. Repare, nós não tínhamos essa ferramenta fabulosa, o computador. Você a tem. E não só isso, sabe usá-la de forma rápida e eficaz. Nessa fase da vida, é natural fazer parte de uma turma, de um grupo. Mas, não tenha medo de ser careta. Procure saber dos costumes de cada um, dos vícios surgindo do nada e dos convites mais inusitados. A opção é sua, não importa zoarem contra você. Os maiores amigos são seus pais. Não influi, por acaso, se estão separados. Eles amam a você, independente de o casamento deles não haver dado certo. A vida não é estrada reta, possui curvas sinuosas, outras mais suaves, há atoleiros. Use a sua cabeça, uma espécie de tração 4X4 ou off-road. Esta carta não é autoajuda. É apenas uma maneira de dizer que já passei por essas etapas. Ouvi irrisões, bati de frente com boquirrotos, recusei bebidas – além do meu limite – e fiz tudo do meu jeito. Estou aqui para dizer que não tenha medo do ano de 2016. Nós é que fazemos o ano, a partir do que somos e do que desejamos atingir. Não se poupe, dê duro. A vida não é vitrine de loja atraente. A vida é o caminho que se traça sem alardes, com estudo, com coragem e fé em nós mesmos. Você não precisa ser validado por ninguém. Crie o seu estilo. Os pais ficam velhos, mas nem sempre são caretas, acredite. Eles são psicólogos diplomados pela dureza do existir. Eles sempre serão os seus melhores amigos, mesmo quando dizem um não. Pare, pense, e a resposta vem lá de dentro. Pode ser o contrário do desejado, mas use bem o recado da sua razão. Vou ficando por aqui e desejo a você, jovem desconhecido: trace rumos próprios e os persiga como se estivesse participando de uma maratona. A vida é uma longa maratona. Ajuste os cadarços. Feliz 2016. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/01/2016 - [O CEARÁ E A FÉ NO ANO DO BEM DE 2016 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-ceara-e-a-fe-no-ano-do-bem-de-2016-jornal-o-estado/): O Ceará começa o ano de 2016 com dois trunfos na área sagrada ou religiosa. O primeiro é Cícero Romão Batista, padre e político, nascido no Crato, agora reabilitado pela Igreja de Roma. A vida do Padre Cícero possui várias versões e foi objeto de ensaios, livros, teses acadêmicas, cordéis e publicações apócrifas. A decisão aconteceu no final de 2015, após muita espera e perorações de religiosos, de leigos e de políticos, com múltiplas pressões e viagens ao Vaticano. Francisco, latino, na qualidade de Papa, sancionou, afinal, a pública reabilitação do Padre Cícero, o demiurgo dos cariris nordestinos. O segundo trunfo veio de ato anterior: em 7 de abril de 2015, depois de ouvidas as entrâncias competentes, a Santa Sé considerou D. Hélder Pessoa Câmara, cearense de Fortaleza, como “Servo de Deus”. Esse é passo decisivo para o processo de canonização de postulante. Pernambuco adonou-se do processo e, através de seu arcebispado, apresta-se para, em pouco tempo, fazer provas de milagres – dois, pelo menos – necessários à santificação. Engajado em movimentos sociais, D. Hélder Câmara, em vida, havia sido indicado por quatro vezes para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz. Em paralelo, o governo do regime militar teria trabalhado em contrário, usando vias diplomáticas para vetar o nome dele. Em Fortaleza, cidade natal de D. Hélder, talvez no próprio Seminário da Prainha, onde perto morava, e ali foi ordenado em 1931, aos 22 anos, poder-se-ia criar um museu – aberto ao público – mostrando o trajeto da sua vida. Evoluiu de adepto do positivismo e de Plínio Salgado para postura consagradora quando, na condição de bispo, aos 43 anos, e arcebispo do Rio de Janeiro, comandou cruzada cívico-religiosa em favor de moradia para os pobres e, especialmente, como mentor da criação da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, a hoje respeitada CNBB. Em janeiro de 1964 foi nomeado Arcebispo de Olinda e Recife. Dizia-se, à época, que Pernambuco tinha a sorte de possuir dois grandes cearenses a seu serviço: o governador Miguel Arraes e D. Hélder Câmara. Veio o movimento de abril de 64, e Hélder teve postura defensora dos direitos humanos e denunciadora, no caso da morte de um padre, seu auxiliar. Acresça-se a esses trunfos as tradicionais romarias a Canindé, em homenagem a São Francisco, no final de setembro e no começo de outubro. Visão religiosa à parte, bem que o Ceará poderia consolidar-se como centro místico de visitação permanente, posto que há a tendência natural dos que demandam a Juazeiro do Norte e a Canindé. Quixadá conta, igualmente, com as romarias para Maria, Rainha do Sertão, incentivadas por D. Adélio, hoje bispo resignatário. Estes breves relatos, alinhavados e de todos conhecidos, servem como lembrete ao Estado do Ceará e ao governador Camilo Santana, originário do Cariri, para a importância a ser dada à disseminação da fé não só pelos romeiros e peregrinos, mas, igualmente, para a real difusão de roteiros, caminhos e eventos que aproximem os turistas, inclusive os não religiosos, desses fatos da História do Ceará. Assim, poderá o Ceará apropriar-se da sua história religiosa, do trabalho de todos e da fé dos sertanejos – essa força do povo a enfrentar a tragédia das secas e alguns desmandos políticos e empresariais – oferecendo o contraponto ao que é exibido por sistema nacional de televisão, a ansiar provar que “nada melhorou” 85 anos depois do relatado em “O Quinze”, romance de Rachel de Queiroz, de 1930. A todos, acreditem no ano do bem de 2016. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/01/2016. - [IDEIAS: REFUNDAR O BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ideias-refundar-o-brasil-diario-do-nordeste/): Mexeram demais com o Brasil. A maioria perdeu a fé no que está aí e no que pode vir. A ainda jovem democracia brasileira mereceria uma refundação. Como seria? Um pacto social com regras definidas por representantes de todas as áreas do conhecimento, dos políticos com mandatos, do empresariado, dos trabalhadores e da sociedade, incluindo as minorias. Utopia? É preciso ousar e sairmos do charco. Todas as pesquisas, as acreditadas e as nem tanto, mostram o impasse a que chegamos, a sociedade. Como diz o vulgo: precisamos de um freio de arrumação. Remendos não resolverão. A administração do Brasil, nesta crise, não pode prescindir de pacto orgânico, liderado, quem sabe, pela cúpula dos três poderes. Ora, direis, há neles frutas podres. Serão expurgadas, naturalmente, pela conjunção e a vontade do povo. A indústria nacional, que deveria ser o carro chefe do nosso desenvolvimento, teve uma variação negativa da produção, até o 3º trimestre de 2015 ­ em relação ao mesmo período do ano de 2014. É alarmante: ­11%, a fonte é da Unido, órgão da ONU, compilada pelo Iedi ­ Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial. É bom lembrar que a indústria é a área mais beneficiada pelo BNDES. O Brasil está na última classificação nessa área. Somado ao caos político, isso demonstra o imperativo de uma concertação nacional, que não pode tardar. Este mero artigo pode não ser o condão a deflagrar o processo, mas a democracia não é apenas arte e manha. "Ela não corre, mas chega segura ao destino", Goethe. Feliz 2016. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/01/2016 - [O SENHOR PRESIDENTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-senhor-presidente-jornal-o-estado/): “Toda a história é história contemporânea”. Benedetto Croce, filósofo italiano. Cinco de agosto de 1963. Em Washington, Distrito de Columbia, capital dos Estados Unidos, era manhã clara. Um grupo de jovens líderes brasileiros achegava-se a um dos portões laterais da grande casa de número 1.200, da Avenida Pensilvânia. Éramos universitários – os moços de paletó e gravata, as meninas bem prontas – menos de 60. Todos na faixa dos vinte anos, de diversas partes do Brasil, especialmente do Sul e do Sudeste. Havíamos sido escolhidos em concurso nacional, presencial, por vários examinadores, com múltiplos enfoques, incluindo conhecimentos gerais e quociente de geopolítica. Entre eles, um psicólogo de origem alemã que a tudo assistia com caderno e lápis a mão. A viagem internacional foi feita em avião da Pan American Airways. Aterrissamos em Nova Iorque, no grande aeroporto que, à época, era o Idlewild e viria a ser JFK. As portas automáticas se abriram e eu via – ou imaginava ver – mais carros que Fortaleza possuía. De ônibus e fomos levados para a Columbia University, na direção oeste, à altura da rua 115, na Morningside Heights, perto da Igreja de São João, o Divino. A Columbia é privada, data do século 18, e é uma das maiores universidades dos Estados Unidos. Faz parte da Ivy League, fechadíssimo grupo de oito universidades de alto nível dos EEUU. As outras, são: Harvard, Princeton, Yale, Pensilvânia, Cornell, Dartmouth e Brown. A partir da Columbia começou a minha alfabetização – ainda não concluída – sobre a cidade de Nova Iorque, usando o seu metrô ou os ônibus especiais que nos levavam para ver museus, bibliotecas, teatros e parques. De Nova Iorque para Massachussets, especialmente a Harvard University, que muitos pensam ficar em Boston, mas, na realidade, se localiza em Cambridge. A Harvard é igualmente privada, famosa, celeiro de presidentes americanos e remonta ao século 17. Os edifícios que a compõem não são monumentais, têm poucos pavimentos, revestidos de tijolos. O paisagismo que a envolve, com frondosas árvores e amplos gramados, é intercalado com jardins com flores multicores. Pois foi lá em um dos seus alojamentos, onde depositei a minha escassa bagagem e, em seguida, participei, em tempo integral, do “Life and Institutions in the United States”, com diferentes docentes e conferencistas, sob a coordenação do Professor Henry Kissinger. Mas, o que tratei no início deste artigo foi a chegada em Washington e a visita marcada com o presidente John Fitzgerald Kennedy. Ele estava no meio do seu segundo ano de mandato. Ninguém intuía que o seu filho Patrick, prestes a nascer, morreria logo em 09 de agosto, com apenas dois dias, e que JFK seria assassinado em 22 de novembro, em Dallas, no Texas. Os fatos todos imaginam saber, mas há ainda nacos de desconfiança para renitentes historiadores. Você já deve ter visto onde os presidentes americanos recebem seus colegas de outros países. Pois foi lá naqueles jardins, em meio a colunas que fomos acolhidos e esperamos a chegada do filho mais importante de Joseph Kennedy, descendente de irlandeses, grande empresário, ex-embaixador americano no Reino Unido e financiador do Partido Democrata. Na expectativa de sua chegada, surgiu a premência de urinar. Esgueirei-me e entrei na primeira porta disponível. Deveria, em algum lugar, haver um sanitário, logo encontrado. Aliviado, voltava aos jardins, quando vi, a pouca distância, John Kennedy que cumprimentava, de longe, um dos grupos em excursões diárias por áreas limitadas da Casa Branca. Disse para alguns colegas já ter divisado o Presidente. Descrevi a sua roupa: terno azul-marinho, camisa branca e estreita gravata vermelha. Em minutos assoma John Kennedy, tal como o descrevera. Havia feito 46 anos em 29 de maio. Sorridente, entre outros papos, perguntou: “quantos futuros candidatos a presidente do Brasil há entre vocês”? Nenhum, respondo agora. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/02/2016. - [A MULHER E O POETA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-mulher-e-o-poeta-jornal-o-estado/): “Apenas em torno de uma mulher que ama pode surgir uma família”. F.Von Schlegel Esta semana fui ver a fábrica comandada por uma mulher de fibra e talento. Fica no lado oeste da Praça Presidente F. D. Roosevelt, no Jardim América. Roosevelt, como se sabe, foi presidente dos Estados Unidos até quase o final da Segunda Guerra. A ele foi prestada essa homenagem pela cidade. Aqui, no Pici, por acordo entre o oscilante mando de Vargas e a América do Norte, foi montada base de apoio– por ser próximo da África e da Europa – na travessia pelo céus do Atlântico Sul e reabastecimento das tropas contra os integrantes do Eixo, composto por Alemanha e Itália. Isto sem falar do Japão, pois situado no outro lado do mundo, a Ásia. Essa digressão singela é apenas para dizer da alegria ao ver a coroação do esforço de Maria Soares Leitão, mulher, amiga e confidente de Juarez Leitão. Juarez teve livrarias, foi vereador e professor reconhecido de História Geral. Por fim, o casal montou uma fábrica de fardamentos profissionais e escolares. Na verdade, “montou” é licença poética. À frente de tudo está essa mulher destemida, bem vestida, no albor da sua maturidade e amor visível por aquilo que sabe fazer. É encanto ver a sala de demonstração ou, como falam os anglicistas, o “show room”. Centenas de modelos com pluralidade de cores e estilos. Cada peça, seja camisa, calça, jaleco, paletó, avental, macacão e outros que tais, tem corte perfeito, costuras retas e curvas com esmero. Tudo contém o toque pessoal da estilista em que Maria Leitão se tornou. E é. Ela traduz, em palavras adequadas, traçados, talhes, costuras e pespontos com sensibilidade e alegria. Quiçá o convívio com o inquieto bardo inoculou-se em seus gestos. Por trás de suas dioptrias emolduradas por óculos, ela vai dissertando sobre o fardamento escolar e a roupa profissional. As fardas exibem a imagem e o cuidado que empresas têm, respectivamente, com seus alunos e colaboradores. Não sem razão, Maria Leitão é hoje empresária de sucesso para a dimensão que definiu. Parece artesania mecanizada com costureiras em filas simétricas, sob claras luzes a produzir beleza a influir no amor próprio daquelas pessoas que as vestirão. Ainda não falei com o Juarez sobre as impressões que ora estão sendo escritas na pressa semanal de entregar o texto ao jornal. Agora, entendo, as confissões – não as de Santo Agostinho – que o poeta, professor, biógrafo e contador de “causos” me fez ao ter o seu coração renovado por bisturis, pontes e pontos. Era a consagração do liame que o atava, sem sufocar, à companheira de décadas concebendo família equilibrada e o aceitava, com ou sem versos, seus horários peculiares de sono e vigília. Maria cuida até dos sucos e da goma para as tapiocas publicitadas por infiltrado em convescotes do Juarez com amigos palradores. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/02/2016 - [BRASIL, EM TEMPOS DE TEMER - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasil-em-tempos-de-temer-jornal-o-estado-2/): O presidente Temer fala, se não me equivoco, com o jargão dos professores, ainda usando paletó e gravata, dos anos 50/60 do Largo de São Francisco, da Faculdade de Direito da USP. Ele, persistindo assim, não conseguirá se comunicar com o povo brasileiro. Parece que a sua concentração em Direito Constitucional não favorece o contato ansioso – e duro – com a imprensa sempre querendo saber o que a autoridade não deseja tornar público. Todo governo deve possuir porta-voz loquaz, comunicativo e cativante. O governo Temer não tem essa pessoa. Poderia, quem sabe, até tentar Gaudêncio Torquato? Além disso, é preciso uma espécie de equipe de retaguarda formada por ministros e assessores, que pode discordar, com argumentos, do governante. Essa retaguarda deveria fazer o trabalho pesado, de triagem, de ajustes e de enfrentamentos. O presidente Temer está aparecendo demais na televisão, sem que alguns assuntos sejam relevantes para uma coletiva de um Chefe de Estado. Outro ponto fundamental é a escolha de ministros, mesmo sendo um “governo de coalização”. Os candidatos a esses cargos precisam ser desnudados antes da escolha. Mal comparando, seria, como se dizia no passado, saber a sua “folha corrida na polícia”. Depois, sendo mais moderno, verificar os simples SPC e Serasa. A penúltima etapa seria obter cópia da declaração na Receita Federal, certidões fiscais, cíveis e criminais dele e de seu cônjuge. Sendo atual ou informatizado, procurar olhar nas famosas e infamantes redes sociais, o que a pessoa diz de si própria, a sua conversa com os seus “seguidores”. É claro que há que se olhar a outra versão, a dos “perseguidores”. A vida pública possui essa dicotomia: uns amam, outros odeiam. Antes de qualquer futuro ministro falar com o presidente deveria ser sabatinado pela equipe de retaguarda. Nessa sabatina avaliar-se-ia (créditos ao presidente) a capacidade de comunicação do candidato, algum conhecimento da área onde vai atuar e o grau de empatia com a equipe. Se esses mínimos cuidados tivessem sido feitos não haveria tanto atropelo. Sei disso, por experiência própria. Desconfie de aparências e lero-lero. Seis ministros em seis meses já caíram. Em cada queda, uma pequena, média ou grande crise. Governo não pode ficar se explicando. Precisa agir rápido, antecipar-se aos fatos. Não está acontecendo isso e a imprensa, sempre vigilante, destrói as informações toscas recebidas. Torço pelo Brasil e não acho prudente esse clima de novo “impeachment”. O Brasil precisa ficar de olho ao que está acontecendo no mundo. Estamos vivendo era perigosa. Trump é ainda incógnita. Hillary ameaça pedir recontagem de votos. O Oriente Médio recebe armas de todos os lados, inclusive, as compradas do Brasil. A Europa dá guinada para a direita e a Inglaterra tenta se isolar. A China se espraia pelo mundo real. Não podemos praticar autofagia, somos os que elegem, os que pagam impostos e os que sonegam. Os que aplaudem e os que xingam. Há baderna incitada. A hora é de exame. Resolver as pendências, sem tanta retórica, sem compadrio partidário e sem demonizar a Justiça. Ainda bem que “há juízes em Berlim”. Como disse, nesta semana, a Ministra Cármen Lúcia: “Juiz sem independência não é juiz. É carimbador de despachos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/02/2016 - [CARTA AO MESTRE JOÃO CAPISTRANO DE ABREU: DE 1916 A 2016 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/carta-ao-mestre-joao-capistrano-de-abreu-de-1916-a-2016-jornal-o-estado/): O historiador cearense João Capistrano de Abreu foi referência – e é – no Brasil e até no exterior. Sisudo, língua solta para falar a verdade, amigos conservados, pleno de problemas de saúde, apertos familiares e refundador da História e da Historiografia do Brasil. Gênio. Sou desde há muito, leitor de Capistrano e de suas famosas cartas. Por exemplo: em 16 de agosto de 1916, saindo do sério, ele escreve à família Assis Brasil: “O grande acontecimento deste aldeão é o foot-ball. O Brasil só tem pela frente o Uruguai. Vencerá? Há para isto um estimulante forte. Um Guinle, creio que Arnaldo, cabo das sociedades desportivas, disseram-me, tomará para si a dívida de mil contos de um empréstimo feito no Banco do Brasil, se o triunfo nos assegurar o campeonato sul-americano. Nunca assisti a uma partida, não posso fazer ideia de como é, e os termos técnicos soam-me aos ouvidos como a mais atravessada das gírias; mas, enquanto tudo for independente de socorros federais ou municipais, contará com minhas simpatias incondicionais o jogo do foot-ball” (vol.3, pg.70,MEC). Como você sabe, Mestre Capistrano, o Brasil perdeu. O vencedor foi o Uruguai. O que me levou a essa citação foi a sua parte final: “…enquanto tudo for independente de socorros federais ou municipais, contará com as minhas simpatias…”. Caro Mestre Capistrano, essa mania de socorros federais é uma praga e uma das causas destes problemas vivenciados, exato um século depois de sua carta de 1916. O Brasil tem jogado dinheiro fora, desde o Império e todas as repúblicas (velha, nova etc.). Está pleno de dívidas e de incertezas. O país, por suas empresas, patrocina times de futebol e de tantos esportes. Seria cediço descrever. Estamos entrando no sexto ano de seca no seu e no meu Ceará. Enquanto isso, o Brasil desmanchou estádios prontos e em funcionamento, tornando-os novos de novo. Para se adequar aos “padrões” da Fifa, a empresa multinacional a fazer eventos mundo afora metida em encrenca com polícias internacionais. Tal qual 1916, o Brasil, perdeu a Copa. Depois, outros devaneios, aí no Rio de Janeiro, terra escolhida por você para morar a maior parte de sua vida. No começo do século XX, lembra você, mexeram com o centro do Rio. Era necessário seguir as modernidades de Paris e de Washington, cidades desconhecidas, por ter optado nunca sair do Brasil. Sabe, aquela região Central do Brasil, Candelária e Avenida Rio Branco, Passeio Público, ficou bonita. A propósito, Mestre Capistrano, lembra-se da Praça Mauá? Caís da atracação do Navio Guará que o levou ao Rio, por recomendação de José de Alencar. Era dia nublado e os seus olhos míopes, embaçados. Recorda? Limpe, agora, as grossas lentes de seus óculos e, se o seu espírito puder se transportar, veja: quase tudo foi derrubado e surgiu um “Museu do Amanhã”, pomposo, caríssimo e sequer registra a sua presença naqueles pagos. Mas não ficou só nisso, mexeram na área da Marinha, hoje um grande bulevar. Criaram arenas e vilas novas. Para quê? Uma Olimpíada com jogos neste 2016, tal como na Grécia antiga, como sabe. Pois bem, o Rio de Janeiro ficou tão bonito quanto endividado. Não há dinheiro para pagar os milhares de funcionários públicos. E, como em 1916, Brasil não brilhou como devia. Estou terminando, não sem dar notícia do hoje. O Presidente atual é Michel Temer, 75 anos, paulista, filho de libaneses, advogado e político, desde sempre. Discursa e fala como tribuno, usando colocações pronominais. Está em sufoco grande. Se houvesse espaço, diria mais coisas. Hoje, peço apenas que o nosso país tome tento e supere as dificuldades. 2017 está na soleira. Ia esquecendo, sua Columinjuba possui uma academia de letras. Fui convidado e lá palestrei sobre o João mais admirável de Maranguape. O Ceará está melhor que o país. Aguarda, ansioso, a transposição das águas do Rio São Francisco, obra atrasada. Tais como as da sua época. Respeito e admiração. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/12/2016. - [FREUD, TORRE EIFFEL E O MUSEU DO AMANHÃ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/freud-torre-eiffel-e-o-museu-do-amanha-jornal-o-estado/): Já disse e repito. Minhas leituras são desorganizadas. Leio muito. De tudo, razão pela qual não sou profundo em nada. Esta semana, por exemplo, estava a ler o livro “Megalomania de Freud”, escrito por Israel Rosenfield e publicado, em português, pela Companhia das Letras. Disserta sobre um livro, “Manuscrito”, atribuído a Freud. Explico: Uma neta de Freud, Bernadette Schilder, o apresenta após a morte dele. Ela era, na verdade, neta de Adelaide, amante por longo tempo de Freud. Da relação de Freud com Adelaide nascera Emma, mãe de Bernadette. Dito isto, vamos ao que interessa. Em meio à leitura há uma referência de encontros entre Sigmund Freud e o arquiteto Maurice Koechlin, nascido na Alsácia, naturalizado suíço. Desses encontros, descubro que Koechlin foi um dos autores do projeto da “Torre Eiffel”. Koechlin trabalhava nos “Estabelecimentos Eiffel”, empresa especializada em grandes projetos, na Europa e nos EEUU, de estruturas metálicas, tais como pontes, canais, monumentos etc. Nessa época (1885), a França preparava a “Exposição Internacional de Paris” quando seriam comemorados os 100 anos da “Queda da Bastilha” ou “Revolução Francesa”. Seria, mal cotejando, como os preparativos do Rio de Janeiro para sediar as Olímpiadas de 2016. Gustave Eiffel era empresário altamente relacionado com o governo. Este procurava uma ideia para fincar como marco da Exposição. Foi aí que Koechlin e outro empregado de Eiffel, o engenheiro Émile Nouguier, sugeriam ao patrão que examinasse a ideia da construção de uma torre no jardim no centro de Paris. Eiffel topou. Após um jantar sugeriu “que poderia explorar melhor a ideia deles por conta própria, propôs comprar os direitos exclusivos à patente, tanto na França como no resto do mundo. Pagaria, a cada um deles, um por cento de toda a renda auferida pela construção (pág.127)”. Houve um concurso para a criação do símbolo. O prazo para a apresentação do projeto foi de duas semanas. Eiffel ganhou. Óbvio. A “Tour” foi erguida com honra e glória para Eiffel. Esse era um dos “grilos” de Koechlin e, em razão dele, 40 anos depois, foi parar nas mãos de Freud – ambos idosos – pois ganhara apenas “uma esmola”. Nesse “Manuscrito” surge a expressão “auto-engano”. Koechlin não se conformava, pois além da Torre de Paris, Eiffel, engrandecido, entrara na licitação para a construção do Canal do Panamá, da qual depois fora alijado sob suspeitas, sendo, inclusive, preso. Depois, solto. Notaram alguma analogia entre a Torre Eiffel e o “Museu do Amanhã”, no Rio de Janeiro? Ambos são estruturas metálicas belas, suntuosas, expostas à visitação pública. O problema de Koechlin era a desilusão ou “auto-engano”. Passo a palavra a Freud (pág.126): “A moralidade é evidentemente, irrelevante para nossas estruturas sociais e para a nossa estabilidade mental. É nossa paralisia, e não nossa culpa, que caracteriza nossa relação com a autoridade; e essa mesma paralisia é o único desafio moral e psicológico que podemos oferecer àqueles que roubaram o que, por direito, consideramos nosso”. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Se me entendem. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/12/2016. - [AINDA FIDEL: HISTÓRIA, MORTE, O AGORA E O FUTURO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ainda-fidel-historia-morte-o-agora-e-o-futuro-jornal-o-estado/): A história O jovem Fidel Castro virara um guapo advogado. Não gostava de saber que Cuba- distante apenas 90 milhas da Flórida- era conspurcada pelos “gringos” em busca de negócios, de jogos e de prazeres. Revoltado e idealista, tenta derrotar Fulgêncio Batista, o ditador apoiado pelos Estados Unidos. Restou preso e condenado. Depois de libertado, exila-se no México. Frequenta grupos de jovens “revolucionários”. Pesquisa teoria e prática de luta armada. Conhece Antonio Del Conde, mexicano, da mesma idade dele. Conde ensinava tiro, vendia armas e reformava um velho iate, “Granma” (Vovó, em inglês) que é comprado por Fidel. Paga dez mil dólares, e 20 mil após a vitória. Navega, com partidários. Aporta e sobe a “Sierra Maestra”. Após escaramuças, marca a data do ataque fatal. Havana em festa na virada de ano (1958/59). Pega Fulgêncio de surpresa, que foge. Começa a era Fidel. Primeira visita: EEUU. Em seguida, declara-se comunista. John Kennedy – JFK, mal assessorado, tenta, sem êxito, invadir Cuba via Baía dos Porcos. Castro alia-se à Rússia de Khrushchev, que instala míssil na ilha com mira certa. Guerra Fria esquenta. Faltou um triz. JFK decreta o bloqueio de Cuba. Fidel fardado, civil que era, vira “El Comandante” e propaga, mundo afora, a sua ilha. Arma os soldados e defende países, em guerra, na África. “Che” Guevara, médico argentino, desponta e, logo, se desencanta. Deixa a revolução e é morto na Bolívia. Os restos de “Che” estão em Santa Clara, perto de Cienfuegos. A morte As cinzas de Fidel foram colocadas dentro de urna de vidro semicoberta pela bandeira nacional. Saíram de Havana na “Caravana da Liberdade”, no dia 30 de novembro passado. A urna jazia em plataforma sobre rodas, deixando à mostra muitas flores brancas – símbolo da paz que nunca houve, desde 1959. Um veículo militar protegido por soldados fora atrelado à plataforma e começava o périplo, país a dentro. Paz ou guerra? Foram 900 quilômetros até chegar a Santiago de Cuba, cidade natal de Fidel Castr Ruz, filho natural de senhor de propriedades. A Folha de SP, página A16, de 04 deste dezembro, dia do funeral, relata que “entrevistar cubanos é extremamente difícil… Nunca se sabe o que estão realmente pensando ou qual parte do que pensam não querem que se saiba por medo das consequências”. Desde 1959, a Flórida recebe milhares de cubanos, pobres e ricos. De Estado atrasado agiganta-se, graças aos latinos e, foi decisivo, em novembro, para eleger Trump. Fidel morre no Black Friday. Ironia “capitalista”. O agora e o futuro O escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez tinha nove anos quando viu Fidel entrar, vitorioso em Havana. Hoje, quase setentão, diz: “… depois que vi o féretro, fiquei pensando nesse arco de tempo, entre a primeira imagem e a segunda, e isso teve um impacto em mim, toda minha vida transcorreu entre esses dois momentos. E seria outra vida se Fidel não tivesse existido”. Os americanos redescobrem Cuba, graças a Obama, e a vida cursa. Com a posse- se nada acontecer até lá- de Donald John Trump, surge, em janeiro, uma nova versão da relação entre os EEUU e Cuba. Quem viver, verá. Só não se sabe como será. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/12/2016. - [O BRASIL NÃO ACABARÁ. O QUE DEVE ACABAR É A IMPUNIDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-brasil-nao-acabara-o-que-deve-acabar-e-a-impunidade-jornal-o-estado/): Alguém precisa ter lucidez nesse mar de incertezas provocadoras. Foi preciso o Ministério Público, a Polícia, a Receita e o Judiciário, todos federais, criarem, sob a forma de forças tarefas, um conjunto de ações para aclarar o que todos sabiam ou intuíam, mas não se sabia da grandeza dos “malfeitos”. Enquanto as redes sociais são, teoricamente, anônimas, os meios de comunicação, por natureza, precisam pesquisar da forma mais profunda possível – se isso é crível – e divulgar. Os desocupados, os pagos e os invejosos são a principal fonte alimentadora das redes sociais e das badernas, a se antecipar aos meios de comunicação tradicionais. A imprensa vem mudando de forma exponencial. Empresas trocam de donos. Outras nascem, como a CNN e a Fox, para citar apenas duas, cobrindo o mundo inteiro, com correspondentes, superando as antigas agências de notícias internacionais distribuidoras de notícias do seu jeito e modo. Aqui, a Globo, a Record e a Band seguem o mesmo viés. O judiciário federal brasileiro, da primeira instância, é hoje conduzido por pessoas nascidas na segunda metade do século passado. Nessa época e logo a seguir, prosperavam revoluções e ditaduras na América Latina, o muro de Berlim caia. Etnias diferentes, em guerras intestinas, faziam a geografia da Europa apagar nomes de países e surgirem outros. A Guerra fria amornava. Nós todos, jovens, adultos e maduros, ficamos meio sem referências depois que o Vale do Silício e outros centros geradores de informação e do conhecimento começaram a desvendar o que acontecia por trás dos sistemas de segurança e de finanças dos países e dos bancos. Os bancos, quase todos, seriam malfeitores. Em 2008, por exemplo, o mundo foi sacudido, em todos os hemisférios. Não era uma marolinha, era o aclaramento da ganância de bancos a inventar nomes bonitos para fazer as mesmas tramoias, quiçá hediondas. “Prime”, “Sub-prime”, “Hedge” e tantas outras falaciosas denominações. “Default” geral. Oito anos depois, neste final de 2016, estamos apreensivos com o amanhã. Não um amanhã hipotético, mas o verdadeiro. O dia que se segue ao hoje. Voltemos ao passado. A democracia, oriunda da Grécia – onde o trabalho devia ser feito por escravos – nos deu a base que, muitos séculos depois, foi sendo aprimorada. A independência americana não conseguiu acabar com o escravagismo, tampouco a Revolução Francesa alcançou a liberdade, a igualdade e a fraternidade. O continente africano, países da Ásia e o Oriente Médio foram explorados, até à exaustão, por nações ditas civilizadas. Hoje, a barbárie impera. As guerras, as guerrilhas e as múltiplas ameaças de confrontos são resultados não só de questões de geopolítica, mas alimentadas pelos lobbies de armamentos, dos suprimentos, dos blindados, veículos de transportes, das comunicações e do aparato que uma guerra, pequena ou grande, requer. Volto ao Brasil. Este tão espoliado país urdiu a imbecil audácia de fazer, em tempos duros, uma Copa do Mundo e uma Olimpíada. A FIFA, entidade que cuida do futebol, era – e talvez ainda seja – uma arapuca de embusteiros de casaca. O Comitê Olímpico também sofre investigações. Implodimos estádios prontos para seguir os padrões FIFA. Meu Deus. A par disso somos, de dois em dois anos, obrigados a votar. Uma eleição, sabem o Tribunal Superior Eleitoral e os tribunais eleitorais estaduais, custa bilhões de reais. É hora de desamamentar essa máquina triste. Como não aceitar o povo revoltado, mesmo que açulado? Como conviver com 12 bilhões de desempregados? Como desmantelar facções criminosas a controlar o tráfico de drogas? Como derruir o carcomido sistema político com dezenas de partidos, todos vorazes? Nós, o povo, devemos trincar os dentes, acreditar na paz e na saída honrosa do trabalho, esse que nos engrandece como pessoas. A justiça deve fazer a parte dela, com apoio nosso. Chega de parasitas e malfeitores. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/12/2016. - [BRASIL, EM TEMPOS DE TEMER - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasil-em-tempos-de-temer-jornal-o-estado/): O presidente Temer fala, se não me equivoco, com o jargão dos professores, ainda usando paletó e gravata, dos anos 50/60 do Largo de São Francisco, da Faculdade de Direito da USP. Ele, persistindo assim, não conseguirá se comunicar com o povo brasileiro. Parece que a sua concentração em Direito Constitucional não favorece o contato ansioso – e duro – com a imprensa sempre querendo saber o que a autoridade não deseja tornar público. Todo governo deve possuir porta-voz loquaz, comunicativo e cativante. O governo Temer não tem essa pessoa. Poderia, quem sabe, até tentar Gaudêncio Torquato? Além disso, é preciso uma espécie de equipe de retaguarda formada por ministros e assessores, que pode discordar, com argumentos, do governante. Essa retaguarda deveria fazer o trabalho pesado, de triagem, de ajustes e de enfrentamentos. O presidente Temer está aparecendo demais na televisão, sem que alguns assuntos sejam relevantes para uma coletiva de um Chefe de Estado. Outro ponto fundamental é a escolha de ministros, mesmo sendo um “governo de coalização”. Os candidatos a esses cargos precisam ser desnudados antes da escolha. Mal comparando, seria, como se dizia no passado, saber a sua “folha corrida na polícia”. Depois, sendo mais moderno, verificar os simples SPC e Serasa. A penúltima etapa seria obter cópia da declaração na Receita Federal, certidões fiscais, cíveis e criminais dele e de seu cônjuge. Sendo atual ou informatizado, procurar olhar nas famosas e infamantes redes sociais, o que a pessoa diz de si própria, a sua conversa com os seus “seguidores”. É claro que há que se olhar a outra versão, a dos “perseguidores”. A vida pública possui essa dicotomia: uns amam, outros odeiam. Antes de qualquer futuro ministro falar com o presidente deveria ser sabatinado pela equipe de retaguarda. Nessa sabatina avaliar-se-ia (créditos ao presidente) a capacidade de comunicação do candidato, algum conhecimento da área onde vai atuar e o grau de empatia com a equipe. Se esses mínimos cuidados tivessem sido feitos não haveria tanto atropelo. Sei disso, por experiência própria. Desconfie de aparências e lero-lero. Seis ministros em seis meses já caíram. Em cada queda, uma pequena, média ou grande crise. Governo não pode ficar se explicando. Precisa agir rápido, antecipar-se aos fatos. Não está acontecendo isso e a imprensa, sempre vigilante, destrói as informações toscas recebidas. Torço pelo Brasil e não acho prudente esse clima de novo “impeachment”. O Brasil precisa ficar de olho ao que está acontecendo no mundo. Estamos vivendo era perigosa. Trump é ainda incógnita. Hillary ameaça pedir recontagem de votos. O Oriente Médio recebe armas de todos os lados, inclusive, as compradas do Brasil. A Europa dá guinada para a direita e a Inglaterra tenta se isolar. A China se espraia pelo mundo real. Não podemos praticar autofagia, somos os que elegem, os que pagam impostos e os que sonegam. Os que aplaudem e os que xingam. Há baderna incitada. A hora é de exame. Resolver as pendências, sem tanta retórica, sem compadrio partidário e sem demonizar a Justiça. Ainda bem que “há juízes em Berlim”. Como disse, nesta semana, a Ministra Cármen Lúcia: “Juiz sem independência não é juiz. É carimbador de despachos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/12/2016. - [PÉS NO CHÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pes-no-chao-diario-do-nordeste/): Creio que o Brasil cumpriu a sua fase de grandiloquência. Agora é tratar de fazer o que já deveríamos haver realizado: esgoto nas casas que não os têm e nas que serão construídas. Um SUS mais eficaz, sem macas nos corredores; escolas com professores comprometidos, merenda escolar e segurança. Combate verdadeiro aos problemas decorrentes das drogas, e emprego para os quase 12 milhões de desempregados. O Brasil não precisa apenas de coreografia, mas entender de sua geografia humana, preservar os seus recursos naturais e estabelecer vínculos permanentes de benquerença. Estamos prontos para o entendimento que não dependa apenas dos outros. Deve partir de nós mesmos, com as limitações que herdamos e não soubemos, ainda, superar. Precisamos fazer o calçamento das ruas distantes, dar dignidade aos policiais que nos protegem e estabelecer canais de diálogos entre o povo e os agentes públicos. Menos suntuosidades, presunções, menos promessas, mais feitos simples que diminuam as diferenças que a educação precária não pode dar a milhões de patrícios. Devemos reconhecer as nossas faltas e combatê-las com coragem. Esse é um trabalho coletivo que começa pela atitude de cada pessoa na relação com o próximo. Somos todos perecíveis, o Brasil é permanente e precisa mudar o seu foco para pequenos serviços, pequenos gestos, menos indiferença e mais fraternidade. Falo o que sinto, o que vejo no dia a dia, nas desabaladas motocicletas provocando acidentes graves a limitar pessoas. Nós, todos juntos e embaralhados, somos a raiz dos problemas e das soluções. Pés no chão. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/08/2016. - [NÃO CULPEM O AGOSTO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nao-culpem-o-agosto-jornal-o-estado/): As Olimpíadas terminaram de forma apoteótica em um Maracanã pleno de chuva da noite de 21 de agosto. Foram 19 medalhas por 40 bilhões de reais (FSP, 22.08, pag.1). Nessa chuva restavam acumuladas as lágrimas dos que viram a perda do Campeonato Mundial de Futebol, em 1950. Nessa chuva jaziam, igualmente, os choros de tantos brasileiros que não conseguiram a oportunidade de ver o Brasil ser campeão do mundo, em 2014. Os esportes fazem parte de um país, mas não são a sua razão ser. O mundo há mudado de forma tão veloz e contundente que a perplexidade nos convida a refletir sobre o que recebemos ao nascer e o que vemos hoje, a partir de nós mesmos – quando somos condescendentes – e dos outros – quando somos críticos. O Brasil, institucionalmente, não nos deu muita segurança, desde que nasci. O fim de Vargas, o “progresso com Brasília” de Juscelino Kubitschek, a vitória surpreendente de Jânio, incomodado com a grandiloquência da construção de Brasília, semente de um país novo que deveria surgir. Há a renúncia abrupta de Jânio. João Goulart é comboiado desde a China. Após negociações, com a presença de Tancredo, Jango assume, sem muita destreza, um país já muito complexo e perplexo. Veio o 1964 e tudo mudou. Foi um longo período em que o Brasil estabeleceu parâmetros nacionalistas para definir o seu futuro. E esse futuro não veio como se esperava. Eleições indiretas, Tancredo ganhou, mas não levou. Finou-se. Sarney, com o apoio urdido em madrugada insone, fez-se Presidente. Collor, Itamar, Fernando Henrique I e II, Lula I e II, Dilma I e parte II, compõem o quadro seguinte. Agora, neste agosto, emerge o fim de uma gestação e um embate político prolongados, entremeados de negociações, de manifestações e de juridicidades. O Senado segue rito, com a presença do STF, e deverá ser a última palavra, talvez, neste final de mês. Por tal razão, o título. Não culpem os agostos de anos distintos para os acidentes e incidentes ocorridos, ou em curso no País. Qualquer que seja o resultado, o Brasil sairá dividido. Essa divisão nos incomoda, não só pelas opiniões, mas pelas diferenças entre as naturezas e as condições de vida das pessoas que mereciam um país mais equânime, com menos ebulição, produtivo, cumprindo o que a ampla Constituição de 1988, a dita Carta Cidadã, prometeu e não nos entregou, ainda. É chegado o tempo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/08/2016. - [RELEMBRANDO AIRTON MONTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/relembrando-airton-monte-jornal-o-estado/): Bateu uma lembrança do Airton Monte. Resolvo remexer em meus escritos. A vida do médico, do poeta, do contista, do pai de família é uma história de bem. “Nunca abrirei mão dos meus sonhos, mesmo que eles se transformem em pesadelos”, dizia ele. 1.Airton Monte viveu sempre na era de Aquário. Menino de colégio marista. Adolesceu no frigir dos anos 60, jogou peladas, pintou e bordou, sem esquecer-se- de ler e estudar. Depois, já médico, andava com Rogaciano Leite Filho, entre outros, curtia os bares do Benfica, o Estoril, já aos bagaços, e amava a vida.2. Tímido como um monge trapista, limpava as grossas lentes ao ver os balanços das cadeiras. Não as de sentar. 3.Deu-se um tempo na traquinagem e casou-se com a prima, Sônia, sabedora de seus poréns, amante e companheira que lhe deu os filhos Bárbara e Pablo, hoje adultos e abalados pela perda do irmão maior que os adorava na sua esquisitice. 4.Sabia-se leitor e daí, sem deslize, passou a escrever. Primeiro, poemas. Depois, contos. A crônica já estava em seu alforje de letras fortalezenses, amante da cidade que se circunscrevia ao badalo, à casa e ao trabalho em hospitais de doentes mentais e, após, como psiquiatra cooperado da Unimed. 5.Desajeitado no computador – com que o poeta Carlos Augusto Viana o presenteara – sofria com a coisa”. Ele me ligava e eu enviava a Josilene Lima a sua casa para mexer no “bicho” que emperrava e, entre copos de cerveja, aplacar a sua saudade da senil máquina de escrever.6. Pedi-lhe, certa vez, para cuidar de um jovem com transtorno de pânico e o fez hígido em pouco tempo. Poucas pílulas, boas risadas e papos entre um cigarro e outro. Era “assim, assim” com o citado Carlos Augusto, que o transmudava do seu “solar suburbano” para os altos de um prédio mirando o mar. 6. Foi amado por José Teles, colega medical e seu anjo da guarda na vida e na morte. Dele cuidou no último lustro e até o roubou do calor do ciumento e esquentado Clube do Bode para o refrigério do restaurante do Ideal Clube.7. Quando seu pai, também Airton, estava na UTI, perguntei-lhe: já foi lá? Não tive coragem, disse-me. Apronte-se, vou apanhá-lo. E lá fomos nós ao hospital. Ele, olhos marejados, de comprida bata branca, parecia uma criança ao velar o pai inconsciente. Na volta, mãos enfiadas nos bolsos da bata, fez do silêncio a sua dor. 8. Nos últimos anos queixou-se do corpo e o Teles ataviou-se de irmão mais velho e estava lá na cirurgia que se esperava salvadora. Passou a beber cerveja sem álcool, o mal retornou. Por fim, prostrou-se e, resignado, voltou à sua casa de verde pintada.9. Estive lá há alguns dias. Bárbara me recebeu. Jornais tais como o jornaleiro entregara. Depois, entrei em seu quarto. Televisão ligada, sentado na cama. Sem camisa, comia pipoca vagarosamente, floco a floco. Pediu água e, depois, um refrigerante. Voltava a ser menino, parecia querer ver o pai que se fora antes. 10. Dia 11 de setembro de 2012, 17h30, seu ataúde foi fechado. Batemos palmas. Era a última cena. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/08/2016. - [LEGADO DE PAI - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/legado-de-pai-diario-do-nordeste/): Filhos nascem do amor ou do fortuito. O filho é apenas parte do pai, tal como parte da mãe, esse ser tão decantado, protegido e incensado. O pai, quase sempre, é ser periférico, mesmo se a relação familiar perdura. Não há como competir com a gestação e a amamentação, preceitos maternos, únicos. São laços que a neurociência tenta explicar e ainda não sabe. O pai foi, até algum tempo, o único provedor da família e isso implicava em estar menos tempo presente que a mãe no processo de educação dos filhos. Amor não se mede em tempo. Atualmente, a história soa diferente do que fora no passado. Hoje, o razoável é casar com separação de bens, pois ambos trabalham e o eterno pode ser efêmero. Todos coabitam na boa expectativa, mas a convivência faz estragos, além dos danos que a vida impõe. Não vivemos em sonho, somos reais até quando sonhamos. Vai daí que a relação entre o pai e os filhos depende, em grande parte, do comportamento da mãe e da sua afinidade, madura, com o pai. Posto isso, refiro que o legado do pai é a sua própria vida, a sua história pessoal e a abnegação aos filhos que, por amor, foram gerados. Hoje, 16º ano do século 21, há mudanças de paradigmas. Há filhos de duas mães e filhos de dois pais. Não importa. Se amor houver e se cada um fizer a sua parte. O que valerá é o legado, não o de bens, mas de bons gestos, ações e de atitudes. Foi-­se o tempo em que casamento era ofício de mulher. Amanhã será mais um Dia dos pais. Parabéns a todos. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/08/2016. - [ECOS DE UMA ELEIÇÃO ALUCINADA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ecos-de-uma-eleicao-alucinada-jornal-o-estado/): Estou vendo e ouvindo a CNN. Acompanho as campanhas de Donald Trump e Hillary Clinton ao redor dos Estados Unidos. Um país considerado “cult” para uns; “kitsch”, para outros. Há muitas origens distintas e caracteres bem diferente da ideia que se tem do antigo “american way of life”. Nem era bem adulto quando, pela primeira vez, estive por lá. Voltei outras. Nesse longo tempo já vi muita gente e coisas: presidente, manifestações de negros sobre Washington, universidades, ciclone, peças de teatro, funerais, museus, galerias de arte, parques de diversões, rua de drogados, cemitério para heróis de guerras, festivais, dias da Independência e de Ação de Graças, Natal, Ano Novo, marcha de ex-combatentes do Vietnã, Iraque etc. Conversei com professores, estudantes, motoristas, lixeiros, garçons e, cada vez mais, me convenço de que a América não é um país. É o que a Europa luta para ser, uma espécie de Confederação. Tímida, atrevida, irreverente, grandiosa, conservadora, racista, inovadora, cosmopolita, vitoriosa, derrotada, caipira, monoglota, poliglota, organizada, polivalente, tudo isso é a América e esse retrato me sai difuso, confuso, complexo e desfocado. Especialmente, quando um candidato a Presidente falar em construir muro de 3.000 km para isolar os EUA do México. Absurdo. Quando se analisa uma pessoa, embutimos no juízo de valor toda a nossa história. Quando se deseja conhecer um país é natural que entrem, de roldão, a nossa empatia, simpatia ou antipatia. Ninguém é isento diante de tantos contrastes e incongruências que constituem um Estado tão peculiar quanto os Estados Unidos. Quer-se julgar o que se vê apenas com os olhos, mas é necessário vê-lo com lente mais ampla para descobrir a ordem existente em meio a um caos aparente. Não é mera ficção ou ilusionismo. A grande maioria das empresas americanas está hoje voltada para uma concorrência global desenfreada, e isso provocou ajustamento profundo nos setores de informação e automação. Há milhões de desempregados, vivendo da segurança social. Segundo pesquisas, há desaceleração da expansão econômica, medo de desemprego maior e da concorrência estrangeira, ao mesmo tempo em que se reclama do aumento dos impostos, dos gastos governamentais, do protecionismo e do declínio da atividade industrial. Lembrem-se: a China, agora, é grande concorrente e, ao mesmo tempo, mercado para as empresas americanas. Atracão e reação. Hoje, neste agosto, três meses antes da eleição da pessoa que substituirá Barack Houssein Obama, os Estados Unidos parecem um grande computador onde quase todos acessam o que querem ou imaginam desejar, mas a chave está, digamos, com o Google, que sabe tudo de todos. O americano médio ou comum, como o imaginávamos, não existe mais. Hoje, a força dos imigrantes no trabalho, nas universidades, na tecnologia e nas ciências, deu nova face a um país que se imaginava apenas branco, anglo-saxão e protestante. Judeus, árabes, latinos, eslavos, asiáticos e europeus se miscigenaram, na medida do possível, com os nativos e tornaram os Estados Unidos esse amálgama quase indecifrável. Disso tudo, fica a sensação de haver um processo em fervura com novos paradigmas. Os que vêm de fora aceitam – ou desistem – as regras consagradas quanto à ordem e ao modelo econômico. Os “americanos” já não torcem tanto o rosto ao ver o vizinho asiático sair em um reluzente Mercedes Benz. Maior que o antagonismo atávico aos não anglo-saxões e às minorias raciais é o respeito aos que fazem a América e conseguem, superando os obstáculos da língua e da raça, ser respeitados pelo sucesso, ainda a religião mais forte do país. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/08/2016. - [O CHOCOLATE E O PAÍS DE TODOS NÓS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-chocolate-e-o-pais-de-todos-nos-jornal-o-estado/): “Não sou especialista em Brasil, mas uma coisa estou habilitado a dizer: não creiam que mão de obra barata ainda seja uma vantagem”. Peter Drucker, 1909-2005). Há uma propaganda de chocolate veiculada na televisão a fazer galhofa acerca do descobrimento do Brasil. O cenário é uma nau. Um marujo furta chocolate e Pedro Álvares Cabral se dá conta- erradamente – ter chegado às Índias, motivo básico de sua viagem, por ser recebido por silvícolas a quem oferece tal guloseima. Já vai longe essa trilha de deboche com a nossa pátria. Há piadas, concretudes e descasos que nos movem a dizer ser preciso transformar o país. O estado geral é precário. Todos nós somos a herança recebida dos pais e a convivência com os diversos grupos dos quais participamos, desde a infância. Artigo atual, assinado pelo Ministro Luís Roberto Barroso, diz: “O Estado, no Brasil, além de ineficiente, ficou grande demais, e a sociedade não consegue sustentá-lo. Aproximadamente 4% do PIB é gasto com a folha do funcionalismo”. Essa constatação é mais um alerta para que a burocracia não seja o entrave ao desenvolvimento. Há, desde muito tempo, pessoas a deter cargos comissionados e, mesmo mudando os chefes, se consideram posseiros do lugar, do conhecimento e tudo fazem para mostrar atos e serviços que, na realidade, deveriam constar das rotinas de trabalho. Por outro lado, a “Human Rights Watch”, Ong de direitos humanos, por seu CEO, Kenneth Roth, afirma: “No Brasil, é preocupante a discussão sobre a redução da maioridade penal e o novo modelo de estatuto que restringe o conceito de família a casais heterossexuais”. Com todo o respeito, Mr. Roth foi mal informado. Vive-se hoje uma sociedade plural, oportunizando a todas as pessoas permanecerem identificadas tais como são, sem a necessidade de fingir ou sublimar. Isso vale para todas as minorias. Existem radicalismos. Ele é um dos elementos de uma sociedade que precisa ouvir todas as tendências. Do entrechoque pode sair um país renovado, não conspurcado por uma só forma de pensar e agir. A discussão sobre a maioridade penal não é só um problema nosso. Os Estados Unidos, país do Mr. Roth, são muito mais severos com os infratores menores que as nossas autoridades policiais e judiciais com os delinquentes aquém dos 18 anos. Este final de ano, a partir desta semana, será uma quadra inovadora para o Brasil, pois há que se resolver problemas institucionais, sem deixar que a economia e a empregabilidade esmaeçam os esforços de uma sociedade que se comporta com responsabilidade, mesmo com a eclosão de movimentos em latitudes diferentes. Voltando ao início. A História e o Brasil não mais comportam galhofas e arrebatamentos. Pede-se a razoabilidade que deve presidir o sistema democrático. Ser brasileiro foi o nosso destino ao nascer. Que se transforme, para todos, em oportunidade para servir. Chega de bazófia, estamos precisando de ações, falas curtas de detentores de cargos públicos, regras claras, mais trabalho capaz e menos exposição. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/08/2016. - [BRASIL: A LEITURA DOS OUTROS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasil-a-leitura-dos-outros-jornal-o-estado/): Já vai longe o 17 de abril, em que Dilma foi vencida, na primeira rodada, na luta que vai prosseguir. Preferi ficar longe da TV, dos jornais, das redes sociais, telefones e afins. Na terça, 19, resolvi comprar e ler jornais estrangeiros. Alguns dos Estados Unidos. Outros da América Latina. A intenção era verificar como a imprensa de outros países nos vê neste momento crítico. Que realce nos dão? O primeiro é o “El Nuevo Herald”, em espanhol, com circulação nos EEUU. A notícia saiu na sete e ocupa meia página com grande foto em fundo verde, o slogan “Pátria Educadora” e Dilma atrás de púlpito com as armas da República. Conclui: “A mandatária disse que o governo terá uma relação ‘diferente’ com os senadores para frear o processo através de uma interlocução qualificada”. O espaço foi o mesmo dedicado ao terremoto no Equador. O segundo foi o “El Universo”, de Santiago de Guayaquil, Equador. Há pequena chamada na primeira que nos leva a 10, com espaço pouco maior. Um dos tópicos, diz: “Os analistas hão se mostrado céticos de que ela (Dilma) possa se manter no poder, ao destacar o espetacular fracasso da governante para obter apoio político, inclusive dos partidos que por muito tempo tinham integrado sua coalizão governante”. Uma submanchete informa que “a luta pelo poder continuará no Senado”. O terceiro foi o “The New York Times”. O NYT faz chamada de primeira página com foto tipo 3X4 de Dilma e nos encaminha para a página A4. Lá: “O voto pró impeachment produz comemorações, mas ainda não chegou ao fim o caos (turmoil) no Brasil. A matéria de Andrew Jacobs e Vinod Sreefharsha” não se limita a 1/3 de página e nos remete a A12. Abre com foto conjunta de Eduardo Cunha e Renan Calheiros, dizendo que os dois são fazedores de lei (lawmakers) e “são submetidos a inquéritos por corrupção”. No corpo da notícia, se lê: “No momento, todos os olhos estão no Sr. Temer, o vice-presidente, um homem taciturno que tem uma longa preferência pelas cenas de bastidores. Entretanto, ele é também objeto de uma petição de impedimento, muitos experts acreditam que a matéria cairá em razão do interesse a estabilidade nacional”. O quarto foi o “USA Today”. Folheei todo. Nada. Deixei, por último, o jornal “Clarín”, de Buenos Aires, Argentina, mas do dia 18, pois a proximidade dos “hermanos” permitiu notícia quente, logo na segunda-feira. Na capa: “Grande aval dos deputados ao juízo político. Brasil: Dilma ficou mais perto de ser destituída”. Em seguida, comenta o resultado de 367 a 137 e nos manda ir à página 3. Na página 3 não há nada. Sorrio. Folheio o “Clarín” e encontro em “El Mundo”, folhas 24 e 25. Lembro que o Clarín usa o formato de tabloide do “O Estado”. Na página 24 há foto de Dilma com Temer em que ambos confidenciam, pois estão com mãos sobre as bocas. A manchete: “Michel Temer, um político hábil e calculador detrás do poder”. Eduardo Cunha é chamado de acróbata (titiritero) nas sombras das crises”. Na 25 há foto colorida dos manifestantes em Brasília, “separados por valas”. Abaixo há dois pequenos artigos. Um de Ricardo Noblat, editorialista do jornal O Globo, com o título “A democracia será mais forte”. Outro, do deputado do PT do Acre, Raimundo Angelim, “Um processo que dividirá o país”. Por fim, deixo a critério dos leitores a interpretação dos textos que citei para informá-los como os outros nos veem. O que diz você? João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/04/2016. - [CONSELHO PEDIDO E, TALVEZ, NÃO ATENDIDO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/conselho-pedido-e-talvez-nao-atendido-jornal-o-estado/): Alguém acredita que eu possa dar conselho? Não estou seguro. A pessoa que me pede está perto de 30 anos, fez um bom curso superior e ainda não conseguiu trabalho que o animasse a enfrentar o mundo real. Resolveu, por sua conta e risco, virar “concurseiro”. Perguntei: qual a área? Tudo o que aparecer. Não sei se é por aí. Cada um deve saber das suas habilidades e suas capacidades. Participar de um concurso é acreditar em duas variáveis: seus conhecimentos e o seu comportamento quando das provas. Sem falar nos concorrentes. Sei que os cursinhos ou “cursões” dão dicas para driblar o estresse, mas cada um convive com seus grilos, seus medos e suas idiossincrasias, que se manifestam independente de suas vontades. Os concursos são uma espécie ampliada do ENEM com alto nível de generalizações e complexidades, múltiplas matérias. Eles dispersam o foco de qualquer profissional. Assim, quanto mais tempo passar como concurseiro, menor será a sua chance de conseguir um emprego na área em que se formou com razoável índice de rendimento acadêmico. Há um instante em que você deve perguntar para o espelho: o que estou fazendo? Marcando passo ou fugindo das entrevistas de emprego com várias fases. Por outro lado, sabe-se que muitas pessoas da sua faixa de idade são adictas (viciadas) em redes sociais e em “rodinhas” presenciais que tomam tempo dos estudos. Ainda não falei da vida pessoal, das cobranças dos pais, dos namorados ou parceiros. Dia desses, encontrei, em restaurante, pessoa que havia conseguido passar – e ser chamada – em um bom concurso e estava exultante. Tinha razão. Cumprira o prometido a ele mesmo. Uma pergunta direta e talvez incorreta: você acredita nos seus conhecimentos ou está frequentando aulas sem motivação? Não basta a presença física. É preciso aquela vontade incomum, a que faz um velocista terminar uma corrida mesmo que os músculos estejam fatigados. No seu caso, entretanto, não são músculos, mas neurônios, sinapses e a capacidade de memória para transformar as informações em conhecimento, sem o qual não vencerá os focados somente nesse objetivo. A vida adulta não é o prolongamento da juventude. Ela é o portal das cobranças que vão existir ao longo de todo o seu percurso. Estou quase terminando e não sei se ajudei a você ou não. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/04/2016. - [CARTA(IN) DEFINIDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cartain-definida-jornal-o-estado/): Com cartas brancas, senhor cônsul solta Pombos de papel. Erico Veríssimo Talvez existam algumas coisas a dizer a você. Vejo o meu computador cercado de papéis, livros lidos e não lidos. Não quero falar do que todos proferem. Estou sentado na ponta de uma cadeira, ao contrário do que deveria fazer. Dizem os ortopedistas, os fisioterapeutas e os demais entendidos que essa não é boa postura corporal. Deixa para lá, estou errado. E daí? Todos estamos envelhecendo. Até a minha neta mais nova fica menos nova a cada dia. Divisei uma foto e não me vi nela. Onde estão os cabelos? O castanho deles? Rarearam e sequer pediram licença. Olho à esquerda e diviso a impressora que nunca uso. Ela é nova ou seminova, pois faz algum tempo que a comprei. Usei-a muito pouco. Vai ficar igual ao meu DVD acoplado à TV. Envelheceu, sem uso. À minha frente há uma parede repleta de livros. Nela encontro uma “História Universal” de Cesare Cantu, edição de 1965. São alguns volumes com arabescos nos dorsos das capas duras e com letras douradas. Foi caindo em desuso, pois hoje tudo é geométrico, tridimensional e descartável. Está no Google. Para quê História Universal? Na prateleira acima, vejo “O Rabino”, de Noah Gordon. Na capa há um Menorah aceso com oito velas. Noah escreveu outros livros, entre ele “O Físico”. Folheio “O Rabino” e vejo alguns trechos grifados a lápis (tenho esse e outros defeitos), mas não os reproduzo aqui. Nada de sionismo. Preguiça, apenas. Ao lado dele, na desorganização absoluta das minhas prateleiras, encontro John Updike em “Uma Outra Vida”. Será que não basta uma? São contos, todavia, e narram sobre mudanças de vida, de países, novos desejos e novos amantes: novas perspectivas de uma vida ‘depois da vida’ para os homens e mulheres destas histórias, mais perto da velhice que da juventude”. Papo furado, gente perto da velhice quer saber do colesterol, do diabetes, da enxaqueca, como anda a pressão medida por essas máquinas compradas em farmácia. Pague Menos, por certo. Ouviu Deusmar? Agora me dei conta de que ia escrever uma carta, mas paro para desligar a televisão que faz um dueto entre desgraças e novelas manjadas, mesmo que aparentemente intrincadas. Tudo fica ao sabor das pesquisas. Se alguém não interpretou bem, tira-o do contexto flexível do enredo. Ainda bem que o controle remoto resolve o meu – e o seu – problema. Decido dar por encerrado este artigo, sem a tal carta, sem falar de crise, sem imigrantes, sem terrorismo, sem promessas disso e daquilo. Cá para nós, parece que estou mesmo é sem assunto. Será? Desculpe, se concluir que sim. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/04/2016. - [DIA DO JORNALISTA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dia-do-jornalista-jornal-o-estado/): “O jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter”. Jornalista Cláudio Abramo (1923-1987) Caldas Aulete, o dicionarista, morreu em 1878, mas o seu léxico continua vivo, através do Conselho Editorial dos Dicionários Caldas Aulete. A edição que consulto é a de 2004. Jornalismo é a “atividade profissional de levantamento, apuração e transmissão de notícias e comentários através de diversos meios de comunicação”. Hoje, 7 de abril de 2016, é o Dia do Jornalista. Ele faz muito mais que levantamentos, apurar fatos e transmitir notícias e comentários para os múltiplos meios de comunicação que proliferaram com o avanço tecnológico, especialmente a Web ou Internet. Ele integra jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão, blogs, site e tudo o mais cabível nestes tempos de hoje. Este jornal “O Estado”, fundado em 24 de setembro de 1936, por José Martins Rodrigues, é dirigido hoje por Ricardo Augusto Palhano Xavier, sucessor de Wenelouis Xavier Pereira, seu pai. Entretanto, Ricardo não o faz sozinho. Além de sua mãe, Wanda Palhano, Soraya Palhano, diretora financeira, Solange Palhano, diretora institucional, e Rebeca Férrer Xavier Guimarães de Andrade, cuida do marketing. Afora os citados acima há o editor geral, Carlos Alberto Alencar, e a sua equipe de repórteres setoriais, articulistas, colunistas, fotógrafos, técnicos em informática e o pessoal da distribuição. Saibam todos que o jornal O Estado, além de um blog, possui um canal de televisão que pode ser sintonizado no You Tube. Correndo o risco de esquecer algumas pessoas, a quem, desde já, peço desculpas, cito: Macário Batista, Fernando Maia, Rubens Frota, Solange Palhano, Luiz Carlos Martins, Flávio Torres, Fernando Calmon, Antônio Viana, Marcos Saraiva, Lauriberto Braga, Iratuã Freitas, Daniel Negreiros, José Nilton Jr, Carlos Chagas e Cláudio Humberto. O jornalismo cearense tem a sua gênese nas atitudes libertárias do Padre Mororó que, em 1823, ousou enfrentar o Império e foi um dos integrantes da Confederação do Equador. Como resultado, foi condenado à forca. Entretanto, ninguém aceitou ser o algoz de tão distinta figura. Mudou-se a pena para fuzilamento e alguns bacamartes o mataram no atual Passeio Público, com justa razão denominada de Praça dos Mártires. Este aligeirado artigo não pode deixar de citar os nomes dos pilares: João Brígido, Demócrito Rocha, Jáder de Carvalho, Paulo Sarasate, Creuza Rocha, Albaniza Sarasate, Perboyre e Silva, Edson Queiroz e Demócrito Dummar. Qualquer lista é sempre incompleta, mas não há como deixar de referir poucos dos muitos que já se foram, tais como Blanchard Girão, Dedé de Castro, Dorian Sampaio, Geraldo Nobre, J.C. Alencar Araripe, José Raymundo Costa, Ivonete Maia, Lustosa da Costa e Edilmar Norões. Por fim, na sua tenacidade octogenária, Adísia Sá, referência do passado e do presente, presidente que é da Associação Cearense de Imprensa. Destaco, por sua luta classista, Samira Castro, atual presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará. A todos, os nossos parabéns. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/04/2016. - [BÊ, A BÁ DO AUTISMO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/be-a-ba-do-autismo-jornal-o-estado/): Pessoa amiga liga e diz ter descoberto que um descendente é autista. A família ficou desolada. Há cinco anos procurava respostas sobre a não interação, a não comunicação e o comportamento da criança. Foram a muitos lugares e médicos. Agora, veio o diagnóstico. Tentei falar que a própria criança autista não se vê deficiente. Cada um deles vive o mundo da forma que a sua configuração genética determinou. Quem pode aferir o pequeno ou largo mundo que transita nas sinapses de cada um? Procurei, como leigo, ler sobre o assunto e parece não existir um pensamento uniforme na ciência médica sobre o tema. Do que li – e se soube ler – genes podem estar comprometidos, bem como há fatores exógenos como poluição, complicações durante a gravidez, infecções causadas por vírus, contaminação por mercúrio e outros. Segundo o CDC, Center of Disease Control and Prevent, dos Estados Unidos, com dados de 2006, nasce uma criança autista para cada 110 partos. A incidência maior seria para o sexo masculino (1 para cada 70) que poderia ser acometido do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Há, na internet, uma revista sobre o assunto: “Autismo – Informação Gerando Ação”. Descobri também que na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais há gente comprometida com o estudo. Recolho e repasso o nome do médico Walter Camargos Junior, cujo e-mail está explícito: waltercamargos@uiavip.com.br Há um questionário de triagem, decerto conhecido por pais dessas crianças, mas, por via das dúvidas, o cito. Ele consta de 23 itens que devem ser observados. Em face dessas constatações, cada uma com a singularidade que apresenta, decidi apoiar a realização de exposição que vai transcorrer por todo o mês de abril. Será de responsabilidade da instituição benemerente PINTANDO O SETE AZUL, ainda sem sede definitiva, fundada em 2015, assistindo a mais de 100 famílias, seus professores e alunos. Essa exposição constará de 32 fotos de portadores, palestras, vídeo com imagens de mais de 100 crianças e pessoas associadas, tudo ao som de músicas apropriadas. Esclarecimentos poderão ser prestados no local da exposição, Av. Carapinima, 2200, Benfica, Fortaleza, primeiro piso. É gratuita e aberta ao público. Hoje, sexta-feira, 1º. de abril, às 19 horas, haverá a solenidade de abertura no local indicado. Amanhã, sábado, às 10 horas, haverá palestra do autista Nelson Marra, que é ídolo de muitos e veio, do Rio de Janeiro, especialmente para o evento. A Exposição funcionará no horário de 10 da manhã às 22 horas. Nos domingos, das 15 às 21 horas. Este artigo resulta da consciência do problema e é um compromisso que devemos assumir com o próximo, independente da forma da comunicação atingível, do mesmo modo, com o mesmo carinho e com o respeito que devotamos a todas as pessoas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/04/2016 - [AO LEITOR. QUE LEITOR? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ao-leitor-que-leitor-jornal-o-estado/): “Leitor, coautor do texto.” – Ledo Ivo Quem escreve não pode ser escravo de um leitor que desconhece. Ora, isso é simplificar a coisa. Ao escrever não se pode ir atirando a esmo. Há que ter foco. Ao escrever em jornal a pessoa tem menos de 24 horas para captar e interessar o leitor. No dia seguinte, o jornal é descartável. Razão pela qual vou disponibilizando no meu ‘www’ ou nos dos amigos. Procuro, portanto, escrever para quem não está apenas interessado no cotidiano. Tento, a cada semana, ir mudando de rumo. A única coisa permanente é a minha forma de contar. Isso é o que se chama estilo. Para se ter estilo, seja bom ou não, é preciso mourejar com as letras, saber das vírgulas, dos pontos, das interjeições e não exclamar muito. Ser o mais natural possível. Se consigo, é outra coisa. Hoje, o leitor se depara com muitas opções que o confundem ou o atraem. No mundo digital há muito de enganação. Promete-se uma coisa e, em seguida, o usuário cai em armadilhas que o levam a caminhos não imaginados. A curiosidade, na Internet, é uma faca de dois gumes, leva a novos conhecimentos/informações ou a simples engodo. Há discussões acadêmicas sobre a natureza da crônica ou do artigo. Como diz Humberto Werneck: “Se não é aguda, é crônica.” Seriam eles alvitres literários? Trato um pouco de assuntos ligados ao cotidiano, a vidas das pessoas e os fatos que vão montando o nosso dia, desde as matinas até o arrebol. Matinas e arrebol foram apostas apenas como adereço. Não é básico que o texto seja sempre ligado ao cotidiano, ao coloquial ou ao real. Ele pode ir, além disso. Divagar para que o leitor possa experienciar algo inusitado, como está sendo a tessitura deste escrito. O meu compromisso é trazer o leitor até o ponto final, mesmo sabendo que o ponto final é imaginário. Depois dele, cabe ao leitor maquinar o que se seguiria não tivesse o ponto existido. O escritor deve aceitar como tema até uma pena que cai da asa de um pavão e isso nos levaria, por exemplo, ao Pavão Misterioso, do cantor e compositor Ednardo. Eu não sigo cânones, vou lendo os dedos sobre o teclado e o que sai, muitas vezes, é o inesperado e não aquilo que, de princípio, gostaria de escrever. Como dizia Clarice Lispector: “Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me lê é por conta própria e auto risco”. Se me tolherem a liberdade, se me pautarem, não serei eu, pois a liberdade é a minha característica. Sem ela, com certeza, ficaria aprisionado pelo assunto imposto, suas regras, seu número de palavras, a que não desejo me submeter, mesmo que a criatividade, como a de hoje, não seja o desiderato. Se não me encontro ou se me perco, resta a salvação e o arbítrio deste ponto final. PERSONALIDADES Ilona Szabó Hoje damos destaque em nossa capa para a cientista política Ilona Szabó. Nascida em Nova Friburgo no Rio de Janeiro, Ilona Szabó de Carvalho, é uma referência quando o assunto é pensar no próximo e em um futuro sustentável, ela trata e discute assuntos polêmicos com uma visão mais ampla. Fundou em 2011 o Instituto Igarapé, que produz pesquisas pioneiras, novas tecnologias e influencia políticas públicas em segurança, justiça e desenvolvimento. É hoje um dos principais think tanks do Sul Global e trabalha em parceria com governos, iniciativa privada e sociedade civil para criar soluções baseadas em dados para problemas complexos.Ilona possue larga experiência em liderança de redes globais para alavancar reformas positivas. Foi coordenadora executiva do secretariado da Comissão Global de Políticas sobre Drogas entre 2011 e 2016. Anteriormente, ela coordenou o secretariado da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia. Durante seu mandato nas duas comissões, foi responsável por auxiliar a definição de estratégias globais junto a ex-presidentes nacionais, intelectuais públicos, líderes empresariais e mundiais, incluindo o ex-Secretário Geral da ONU, Kofi Annan. Com mestrado em Estudos de Conflito e Paz pela Universidade de Uppsala, na Suécia, é especialista em Desenvolvimento Internacional pela Universidade de Oslo e bacharel em Relações Internacionais. Também participou de diversos cursos executivos, como Lideranças Transformadoras na Said Business School, da Universidade de Oxford, e Gestão de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) no Colégio de Defesa Nacional Sueco, em Estocolmo.Foi nomeada Jovem Líder Global do Fórum Econômico Mundial e Líder Responsável da Fundação BMW. Faz parte da Rede de Empreendedores Cívicos da RAPS e lançou diversas redes de experts, incluindo Pense Livre e a Rede de Transformação Pública. Ilona é descendente de húngaros. É mãe de Yasmim Zoe, nascida em 2014, e é casada com o economista e acadêmico canadense e também co-fundador do Instituto Igarapé, Robert Muggah. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/09/2017. - [AS GRAVAÇÕES, AS DELAÇÕES E O FUTURO INCERTO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-gravacoes-as-delacoes-e-o-futuro-incerto-jornal-o-estado/): “De delação em delação, nunca vai acabar a confusão.” Ouvido em boteco. Estamos quase no fim de setembro e continua como não poderia deixar de ser, o estardalhaço da imprensa, da televisão e da Internet sobre o grupo J&S/JBS e correlatos. A melhor reportagem, ao meu talante, foi a publicada no dia 07 de julho de 2017, no Caderno Eu&Fim de Semana, do Jornal Valor. O Caderno Eu&Fim de Semana é publicado às sextas-feiras e mistura economia, gestão, finanças, política, cinema, entrevistas, reportagem e cultura. Confesso, ao meu olhar, a parte mais interessante é a de Cultura. Entanto, quero chamar a atenção de todos para a reportagem de capa “A Saga da JBS”. Ela pode ser vista nas redes sociais ou no site do Jornal “Valor”. É trabalho de fôlego escrito pelos jornalistas Luiz Henrique Mendes, Vanessa Adachi, Fernando Torres e Francisco Góes. Além deles, colaboraram Fernando Lopes, Stella Fontes e Fábio Murakava. São 10 páginas escritas em letras de tipo pequeno. Deveria o Jornal “Valor” transformar essa reportagem, depois de aprofundada em livro. Um senão é citar fontes sem nomes. Invocam motivo de segurança, mas empobrecem a reportagem. No livro, quem sabe, poderiam ir mais a fundo e identificar algumas fontes, se elas não tiverem medo de sofrer represálias. A história começa no interior de Goiás, em 1953. José Batista Sobrinho – JBS, conhecido por Zé Mineiro, cria a “Casa de Carnes Mineira”, em Anápolis, com entregas a domicílio. Anápolis é próxima de onde seria fundada Brasília. Poucos anos depois, surgia JK – Juscelino Kubistchek de Oliveira, empossado presidente em 1956, no Rio de Janeiro, capital do país. JK havia sido prefeito interventor de Belo Horizonte de 1940 a 1946 e fez, entre outras obras, a bela barragem da Pampulha, juntando Niemeyer (arquitetura), Burle Marx (jardins) e Portinari (painéis). O slogan “50 anos em cinco” era o mote para a identificação do local, até invocando São João Bosco (teria apontado o local entre os paralelos 15 e 20 do hemisfério sul). Brasília surgia da prancheta de Lúcio Costa. Os edifícios são de Niemeyer. As obras começaram e Zé Mineiro passou a ser fornecedor de carnes para centenas de empregados das empreiteiras. A construção de Brasília é matéria prescrita e cabe noutra narrativa. Voltemos ao eixo. O crescimento da Friboi foi exponencial. Cresceu e cresceu. Expandiu-se em outras áreas e criou base multinacional. O foco desse relato é apenas dar destaque à delação premiada, depois da gravação sub-reptícia, às horas tantas da noite, no Jaburu, nome esquisito de Palácio. Igualmente, nova gravação faz furor. Dessa vez, inclui um diretor. Intencional ou não, acabou em prisões. O resultado é o estado caótico da política, com a segunda denúncia contra Temer pela Procuradoria Geral da República. Agora, de dirigente nova. Por outro lado, a economia melhora desde julho. A Bolsa de Valores sobe. Ressalte-se a desenvoltura e otimismo do ministro da Fazenda, Henrique Meireles. Ele era, até bem pouco, presidente do Conselho da JBS. Vá entender o Brasil. Eu não consigo, embora tente. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/09/2017. - [SETEMBRO AMARELO. ATENÇÃO E CUIDADOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/setembro-amarelo-atencao-e-cuidados-jornal-o-estado/): “A vida só se dá para quem se deu.” Vinícius de Moraes Alguns jovens, por seus comportamentos, sofrem em escolas, colégios e até em cursos superiores, o nominado “bullying”, tornando-os dissonantes da maioria dos grupos a que pertencem. Somatizam essas dores, na maioria das vezes não compartilhadas com a família e amigos, se os tem. Hoje, com o uso abusivo da Internet, há uma intoxicação de informações de má qualidade e de duvidoso sentido ético. Quem se conhece, na verdade? Fique claro, não só os jovens merecem atenção e cuidados. Todos somos seres carentes, precisamos viver em grupos e descobrirmos os nossos conflitos. Muitos conflitos e aflições são comuns aos outros. Converse, escute e aja. A vida é dom valioso. Por estas e outras razões, estou apoiando e participando, neste mês de setembro, de campanha de assunto tido como tabu e complexo para muitas pessoas e a maioria das famílias: a conscientização sobre a prevenção ao suicídio. Juntos, nessa empreitada, estão o Instituto Bia Dote, o Programa de Apoio à Vida – PRAVIDA (997387244-Talita) do Ambulatório de Saúde Mental do Hospital Walter Cantídio da UFC (Rua Capitão Francisco Pedro, 1290, Porangabussu, Fortaleza), o Centro de Valorização da Vida (atendimento gratuito pelo fone 141) e o Shopping Benfica, local aonde acontecem os vários eventos, a partir de um grande Laço Amarelo simbólico. As pessoas deixam mensagens, em “post-it” – de apoio à prevenção ao suicídio. O laço está pleno de mensagens. A par disso, desde o dia 08, ocorre o Ciclo de palestras “Males da Modernidade”, sendo o primeiro tema “Suicídio – conhecer para prevenir”. Na segunda, dia 11, foi realizada sessão especial com o filme “As vantagens de ser invencível”. Hoje, 15, às 15 horas, será discutido o tema “Como superar e vencer a timidez”. Já no dia 22, próxima sexta, também às 15 horas, será discutido o tema “Elos conflituosos entre pais e filhos”. O encerramento do ciclo será no dia 29, outra sexta-feira, mesmo horário, com “Mentes e Manias”. Como se vê, há um largo espectro de palestras sobre assuntos que circundam a prevenção ao suicídio. Além disso, segunda-feira, 11, houve atendimento psicológico com o Centro de Valorização da Vida-CVV, durante nove horas seguidas. As estatísticas informam. Há 12 mil suicídios por ano no Brasil ou mil em cada mês. O Ceará está no 5º lugar em mortes autoinfligidas e Fortaleza é a 3ª capital com maior número de óbitos por esse viés. Então, o que fazer? Não admitir serem consideradas tolices os reclamos repetidos de jovens e de pessoas outras acometidas por doenças sociais leves ou graves. Há ainda os casos de desempregados e aposentados. Alguns se consideram peso para as suas famílias. É preciso conversar e, principalmente, ouvir e aceitar as queixas, sejam reais ou imaginárias. Sabe-se ser preciso um conjunto de razões, que vão se somando, para induzir qualquer pessoa à tentativa de suicídio. Por tal fato, não se deve subestimar o comportamento estranho de filhos, cônjuges, parentes e amigos que, repetidamente, se queixam. Precisamos apresentar caminhos e não apenas criticá-los. Procurar ajuda de psicólogos, psiquiatras, psicanalistas é uma medida necessária. O CVV atende de forma gratuita e alguns hospitais públicos, também. Viver é um edifício construído peça a peça, com diversos tijolos, argamassas e telhas, carregados por nós. Há sempre questionamentos, incertezas e fases de desânimo. Não deixe ninguém do seu conhecimento se isolar. Essa pessoa deve procurar amigos ou ajuda médica. Vale a pena viver. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/09/2017. - [EXPERIÊNCIA COMO PRESIDENTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/experiencia-como-presidente-jornal-o-estado/): “As academias coroam com igual zelo o talento e a ausência dele.” Carlos Drummond de Andrade Fui, há alguns anos, presidente de uma Academia de Letras, cujo nome não vem ao caso. Intrigado, publiquei, recentemente, um livro de 138 páginas. O nome é direto ao ponto: “Experiência como Presidente” (ISBN 978-85-923210-0-0). Retrato, inclusive, com fotos, os dois anos da gestão com todos os detalhes legais, culturais, sociais. Necessários e talvez alguns supérfluos. Uma entidade de letras ou similar deve incentivar os seus membros a publicar livros e a frequentá-la. Para isso, criei selo editorial específico e, durante esses dois anos alguns livros foram lançados por consócios, participamos de duas Bienal de Livros e procuramos estimular a criação de Academias estudantis, em conjunto com a Secult e alguns colégios. Tivemos êxito. A cada ano, fizemos uma “Semana Cultural Viajando nos Livros” e uma Exposição de Livros Raros, ambos com a participação de dezenas de colégios públicos e privados. Públicos acima de mil pessoas. Realizamos festas natalinas e no aniversário da Academia. Sem dinheiro alheio. Idealizamos e criamos, com a ajuda de Regina Fiúza, de Murilo Martins e de Pedro Henrique Saraiva Leão, grupo para planejar e dar o “startup” no restauro do Palácio da Luz. Depois, concretizada por José Augusto Bezerra. A par disso, consultados os colegas e pedir-lhes colaboração para a confecção de novo Estatuto, mourejei solitário na minha gávea. Produzi documento que, através de assembleia geral convocada, foi lido e relido, pois distribuídas cópias. Na Assembleia, em 16 de junho de 2010, o Estatuto, levado à discussão, foi aprovado por unanimidade. Possui 37 artigos. Neles, estão claros os direitos e obrigações. Além do Estatuto, submeti aos pares um Regimento Interno com 22 artigos, igualmente aprovado na sobredita Assembleia. Três colegas faleceram nesses dois anos e foram devidamente pranteados. Após o período do luto oficial, significaram eleitos novos membros, sendo recomposto o quadro social. Criamos boletim mensal eletrônico e blog para noticiar os eventos, mas poucos acessos aconteceram, mercê da carência de interesse de alguns por esse mundo esquisito e definitivo da Internet. O boletim possuía conteúdo definido: palavra do presidente, acontecimentos do mês e do seguinte, pensamento de autor ilustre e a prestação de contas do mês anterior. A entidade foi homenageada com placa de prata, em sessão solene, na Câmara Municipal de Fortaleza-CMF, em outubro de 2009, por iniciativa do vereador Paulo Facó. Apresentamos ao presidente da CMF, Salmito Filho, a intenção de participar do “Pacto por Fortaleza, a cidade que queremos para 2020.” Com a Secretaria da Cultura do Ceará, parceira da gestão, sem que a ela fossem exorados recursos, criamos a ideia do “Anuário da Cultura”, aprovado pelo secretário Auto Filho. O belo Anuário saiu em 2010. Os secretários da cultura e os presidentes que nos sucederam não o levaram avante. Pena. Fizemos publicar um número da revista da entidade, com colaboração de acadêmicos. Distribuímos, gratuitamente, broches(bottons) e carteiras de identidade social. As reuniões foram descrevidas pelo secretário Eduardo Fontes. Culminamos com a eleição de nova diretoria, sem esquecer de deixar a tesouraria com caixa positivo de R$ 13.750,51. Referimos que nessa gestão não solicitamos quaisquer ajudas financeiras a pessoas ou instituições privadas ou órgãos públicos. Não homenageamos nenhuma pessoa, empresa ou entidade, pública ou privada. Foi assim. Pergunta final: Por que pessoas concorrem a eleição, às vezes duras, em Academias de Letras ou similares e, logo em seguida, após a desejada assunção, sessão de posse e coquetel, deixam de frequentá-la? Alguns, sentem-se até incomodados com a cobrança da mensalidade devida e necessária para a precária manutenção dessas entidades. Esse é um drama comum e atual de quase todas e pode servir de base para discussões e providências que urgem. PERSONALIDADES Rogéria Essa semana o Brasil se entristeceu com a notícia da partida da atriz Rogéria, símbolo da luta contra o preconceito em nosso país. Rogéria na realidade nasceu Astolfo Barroso Pinto, na cidade de Cantagalo, interior do Rio de Janeiro. Ela sempre dizia: “Em Cantagalo, nasceu a maior bicha do Brasil – no caso, eu – e o maior macho do Brasil, Euclides da Cunha”. Desde sua infância tinha consciência da homossexualidade e na adolescência virou transformista e assumiu uma carreira de maquiadora. Antes disso, foi figura assídua no auditório da Rádio Nacional, particularmente nos programas estrelados pela cantora Emilinha Borba e de quem era fã incondicional. Ao vencer um concurso de fantasias no carnaval de 1964, tentaram renomeá-la de Astolfo, “que fazia demais a ‘linha executivo’”, para Rogério, que levou o público a gritos de “Rogéria”, inspirando o nome artístico dela. Ela começou sua carreira como maquiadora da TV Rio, e ao conviver com inúmeros atores célebres teve o que descreveu como equivalente de uma estadia no Actors Studio, sendo estimulada a interpretar. Sua estreia ocorreu em 29 de maio de 1964, em um notório reduto gay de Copacabana, a Galeria Alaska. Figura frequente no cinema brasileiro, participou também como jurada em vários programas de auditório nas últimas décadas, de Chacrinha a Gilberto Barros e também Luciano Huck. Rogéria foi coreógrafa da comissão de frente da Escola de Samba São Clemente, representando Maria, a louca, num enredo que tratava dos 200 anos da vinda da família real ao Brasil. Em sua passagem, foi recebida com carinho pelo público. Em 2016, lançou sua biografia Rogéria – Uma mulher e mais um pouco, de Marcio Paschoal. Um de seus últimos trabalhos foi sua participação no filme de Leandra Leal Divinas Divas. Em 13 de julho de 2017, a atriz foi internada devido a uma infecção generalizada, permanecendo por duas semanas em uma clínica em Laranjeiras, na zona sul do Rio. Em 8 de agosto, Rogéria foi novamente internada no Hospital Unimed Barra, na Zona Oeste do Rio, devido a um quadro de infecção urinária e em 25 de agosto foi transferida da Unidade de Tratamento Intensivo do hospital para o quarto. No entanto, seu quadro clínico se agravou após uma crise convulsiva, seguida de um choque séptico, causa de sua morte no último dia 4. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/09/2017. - [FAZER CULTURA E A CAIXA-PRETA DO MinC - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fazer-cultura-e-a-caixa-preta-do-minc-jornal-o-estado/): A jornalista Luísa Bustamante assina matéria sob o título “A Caixa-Preta da Cultura”, na edição de “Veja”, de 30 de agosto passado. Ela refere que a Lei Rouanet, já com 26 anos de editada, foi responsável pela liberação de recursos para 50.000 projetos culturais, artísticos e correlatos. Durante 90 dias a Veja procurou, através do Portal da Transparência, abrir a caixa-preta dos beneficiários de incentivos/recursos em 2.400 projetos que possuem não conformidades e pendências não resolvidas. Bustamante refere: nos 26 anos, foram liberados cerca de 16 bilhões de reais. Uma média 615 milhões de reais por ano. Verificou também: 18.000 prestações de conta não tiveram nenhum tipo de exame por parte do Ministério da Cultura. A Cultura é o patinho feio dos ministérios e a ela quase nada é reservado. Há muitas controvérsias sobre o período de 2003 a 2015, era Lula – Dilma. Há críticas sobre o aparelhamento do MinC para petistas e artistas de “esquerda”. Aparelhar é, em outras palavras, reservar um determinado órgão para uso quase exclusivo do partido, da coligação ou da ideologia vigente no curso desses 13 anos. Deixemos a discussão acima para os órgãos fiscalizadores do MinC. Na gestão Temer já teve quatro ministros. Até agora. A saber: Marcelo Calero (saiu por ter sido abordado por Geddel Vieira Lima, então colega de ministério, para liberar projeto de edifício acima da altura permitida pelo IPHAN –Instituto de Patrimônio Histórico Nacional). O segundo foi o Presidente do PPS, Roberto Freire. Ao sair, disse: “A decisão de sair é política de partido. Todos achavam que deveria sair. Não volto atrás”. O terceiro ministro, interino, João Batista de Andrade, não teve tempo de fazer nada. O quarto é Sérgio Sá Leitão. Já trabalhou no MinC, nas gestões Lula/Dilma como chefe de gabinete do ministro Gilberto Gil, diretor da Ancine e Secretário de Cultura do Rio de Janeiro. caos não desapareceu nos escalões superiores, intermediários e inferiores do MinC. Leitão tem medo de ser frito. O MinC não está diferente do Brasil. Cheio de problemas, sofre assédio (palavra da moda) de bons, razoáveis e medíocres artistas, atores, intelectuais, cineastas acostumados a verbas amigas em shows/livros/filmes pelo Brasil afora. Agora, a contenção imposta pela penúria dos cofres públicos, saqueados de forma vil por maus brasileiros, deveria incluir a proibição da Caixa, BNB, BNDES, Banco do Brasil e similares de patrocinarem tudo, a torto e a direito. Deveriam parar, por tempo determinado, com propagandas nas diversas mídias: dos blogs aos grandes órgãos de comunicação. Alguém precisa dizer a todos: os cofres estão vazios e as chaves foram perdidas em meio a tormentas financeiras no Brasil, desde o começo do século XXI. Chega de bravatas e de compadrio. PERSONALIDADES Michael Jackson O maior ícone da música pop mundial, se vivo estivesse teria completado no último dia 29, 59 anos. Michael Joseph Jackson, nasceu em Gary, no Estado da Indiana nos EUA. Era o sétimo de nove filhos de Joseph e Katherine Jackson. A família inteira – incluindo os irmãos mais velhos, Rebbie, Jackie, Tito, Jermaine, LaToya e Marlon, e os mais novos, Randy e Janet – viveram juntos em uma pequena casa de dois quartos, e o pai sustentava a casa a duras penas trabalhando em uma usina siderúrgica. Por vontade da mãe, mas contra o desejo do pai, as crianças tornaram-se Testemunhas de Jeová e passaram a praticar a evangelização de porta em porta. De acordo com as regras rígidas do pai, elas eram mantidas trancadas em casa enquanto ele trabalhava até tarde da noite. Entretanto, escapavam frequentemente para as casas dos vizinhos, onde cantavam e faziam música. Os irmãos mais velhos mexiam na guitarra do pai Joseph sem sua permissão enquanto ele estava trabalhando. Até que um dia Joseph tomou consciência do talento de seus filhos e resolveu ganhar dinheiro com isso, e assim sair de Gary e ir para a Califórnia, para mais tarde serem contratados pela Motown. Assim surgiu os The Jackson 5. Na Motown, Michael e seus irmãos gravaram vários álbuns, o que lhes rendeu fama mundial. Com apenas treze anos, Michael, através dos Jackson 5, havia colocado quatro canções no topo das paradas. Ele iniciou sua carreira solo quando ainda estava na Motown, momento em que lançou 04 álbuns, todos fizeram sucesso mundialmente. Michael Jackson foi o o maior artista de todos os tempos, segundo o Guinness Book por ter vendido incríveis 1,5 bilhões de gravações em toda a sua carreira e se manter nos charts musicais desde 1969. Um dos poucos artistas a entrar duas vezes ao Rock And Roll Hall of Fame, seus outros prêmios incluem vários recordes certificados pelo Guinness World Records, incluindo “O maior artista de todos os tempos” e um para Thriller como o álbum mundialmente mais vendido de todos os tempos – 36 Grammys e 41 canções a chegar ao topo das paradas como cantor solo – e vendas que superam as 350 milhões de unidades mundialmente, Jackson recebeu centenas de prêmios, que fizeram dele o artista mais premiado da história da música popular. Alguns empresários da Sony já registram a incrível marca de mais de 750 milhões de álbuns vendidos à nível mundial, ultrapassando artistas consagrados como The Beatles e Elvis Presley deixando um marco histórico no mundo da música popular. Sua vida, constantemente nos jornais, somada a sua carreira de sucesso como popstar fez dele parte da história da cultura popular mundial. Nos últimos anos, foi citado como “a pessoa mais famosa e conhecida do mundo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/09/2017. - [O DURO ENCONTRO COM A REALIDADE - Jornal o Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-duro-encontro-com-a-realidade-jornal-o-estado-2/): “O mistério do galo não está na ilusão de que ele seja capaz de fazer nascer o sol, mas em que seu canto anuncia a existência do sol, mesmo ainda por nascer”. Cacá Diegues Conheço pessoas inteligentes, lidas, capazes, independentes e até bem-sucedidas, mas, apesar disso, não tiveram a coragem de marcar o encontro com a realidade. Vivem de deslumbramento. São infelizes. Esse encontro real é duro, fere profundamente e, na maioria das vezes, deixa sequelas. É preciso ter coragem para assumir o risco desse encontro. Não importa seja jovem ou velho, bonito ou feio, alegre ou triste, rico ou pobre, hétero ou gay, crente ou ateu, casado ou não; o importante é o encontro. Mesmo quando alguém ou circunstâncias forçam esse acontecimento, se ele aconteceu não fuja dele, não se esquive com o manto das aparências. Elas nada cobrem e despem até o nu por natureza. Esse encontro é um acerto de contas com o passado e um compromisso com o futuro. É aquele compromisso definitivo consigo mesmo, referido por Goethe. A partir desse encontro – Goethe diz – começa a acontecer todo o tipo de coisas para ajudar a você. Ele não aconteceria se esse compromisso não existisse. Uma torrente de eventos emana das decisões favorecendo a pessoa com toda a espécie de encontros imprevistos e de ajuda sem os quais pessoa nenhuma poderia sonhar achar no seu caminho. Tudo poderá ser alcançado. Sendo assim, mãos à obra. A ousadia contém genialidade, poder e magia. Deixando Goethe de lado e encarando a loucura santa do prematuramente falecido poeta Paulo Leminski, é preciso “não discutir com o destino, o que vier eu assino”. É preciso assinar, colocar o nome e a digital no que você diz e faz conscientemente, assumir o encontro com o destino. E o destino? Será, por acaso, o mundo das coisas se acasalando ou se chocando com o mundo das ideias ou das palavras? Você e a sua alma são uma coisa só. Uma não existe sem a outra. Como diria um filósofo de botequim, é preciso deixar o pessimismo para tempos melhores. Agora, todos o são. Até os insanos. A hora do encontro é tempo de cataclismo, e só se vence a tragédia com ação e riso. A ação é o remédio imediato. O riso é a capacidade de não levar a sério o seu drama (será mesmo drama?), de debochar do seu ensimesmamento (muitos se acham especiais, mas vão morrer) e encarar de peito aberto a nova consciência de sua individualidade. Ela o levaria irreversivelmente, salvo melhor juízo, para a solidão. Todos estão sujeitos a ela, não fora a solidariedade dos que ainda acreditam em você, a começar por você mesmo. É claro, essa hora do encontro nos mete medo. É preciso não ter medo do medo, pois como diz Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones: “O medo é uma coisa boa. Se você não tiver medo, pode acabar pulando pela janela”. Assuma os seus medos e admita acontecer um instante, independente das suas pretensões ou apreensões, quando tudo ficará claro e nada turvará os seus olhos. Passará a ser o colírio a mostrar o brilho da sua vida. Mas não almeje muito. Balzac dizia: “A glória é um veneno que se deve tomar em pequenas doses.” João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/10/2017. - [INTIMORATO E A INTIMORATA HISTÓRIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/intimorato-e-a-intimorata-historia-jornal-o-estado/): Em 24 de setembro do ano passado, 2016, escrevendo sobre os 80 anos do “O Estado”, afirmei: O jornal é a fonte primária da história, cada edição equivale a um telegrama. Quando decifrados, temos a narrativa de um tempo. A narração de Luís-Sérgio Santos, jornalista e professor universitário, é intensa e fecunda. Imagino as discussões para o título do livro comemorativo dos oitenta anos do Jornal O Estado-CE. O autor desse folhoso (704 páginas) volume de bela feição gráfica, com poucas fotos, optou por “Intimorata”. Data vênia, discordo sobre o nome. O adjetivo seria o mesmo, mas no masculino, não por questões de gênero, mas por contar a odisseia de um jornal independente e não por apelido de uma máquina de escrever. “Intimorato” (sem temor, intrépido) não é apenas quem escreve, tampouco a máquina usada, mas o jornal que o publica. Ele é feito por pessoas. Ao meu pensar, há uma aura a carimbar e definir o seu espírito, muito além de sua denominação. Intimorata ou Intimorato, enriquece a historiografia da imprensa e do Ceará. Vem minguando a quantidade dos nossos jornais, desde a metade do século passado. De memória, fecharam “O Jornal”, sem ideologia; “O Democrata”, de esquerda; “O Nordeste”, da Igreja Católica; “Gazeta de Notícias”, livre pensar; “Unitário” e “Correio do Ceará”, dos Diários Associados, a quase Globo da época, de Assis Chateaubriand; e “Tribuna do Ceará”, classista. Desde 1936, mudou várias vezes de “pensar” e de controladores. Esse fato está destrinchado no zigue-zague histórico de Luís-Sérgio Santos e não me atrevo a entrar nessa fogueira, não a de vaidades do Tom Wolfe, um dos criadores do novo jornalismo ao lado de Gay Talese, a quem tive a honra de conhecer. LSS conta, na página 16, do Intimorata: “O jornal viveu dois grandes ciclos: o primeiro, iniciado por José Martins Rodrigues, em 1936… A continuidade por Alfeu Aboim e Walter de Sá Cavalcante e vai até o final de 1965, quando Venelouis Xavier Pereira, através do banqueiro José Oto de Santana, adquire o jornal”. E continua: “Está claro que uma das justas ambições de Venelouis era ser reconhecido no plano político e social”. Raul Barbosa, Parsifal Barroso, Plácido Castelo e Ciro Gomes, ex-governadores, passaram pela sua redação. Esse periódico se confunde com a política, a cultura e a economia cearense. Muitos foram os ouvidos sobre a longa trajetória desse teimoso jornal, resistente às intempéries políticas, financeiras e até familiares. O jornal assumiu o modelo “standard” e circula de segunda a sexta-feira. Pode ter sido, quiçá, exemplo para o “Valor Econômico” a usar os mesmos dias. O livro precisou de “energia cósmica gravitacional que me acompanhou nesta viagem ao longo do tempo”, refere, LSS. Ele fica inscrito, desde agora, no panteão dos poucos escribas da história e das estórias da imprensa cearense, justo no tempo das outras mídias e plataformas a confundir, não a informar. Um jornal bem editorado, impresso e distribuído não produz “fake news” (notícias falsas), mas pode ser um magazine fácil de ler. “O Estado” o é. Estão de parabéns o autor LSS, colaboradores, entrevistados e todos os integrantes do Índice Remissivo. Igualmente, o superintendente Ricardo Palhano, familiares e a sua equipe. O livro será lançado hoje, às 19h00 na Livraria Cultura. Estudos substantivos acontecerão. Os meus tempos de leitura e de escrita foram corridos. O “Intimorata” pereniza “O Estado”. Ad aeternum. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/10/2017. - [CRIANÇA. O ONTEM E O HOJE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/crianca-o-ontem-e-o-hoje-jornal-o-estado-2/): Era uma vez um menino nascido ao meio-dia de uma sexta-feira. O mundo estava em guerra. Não por tal razão chorava. Havia saído a fórceps do útero de mãe primípara, por obra e graça de parteira diplomada. Seu pai só tinha 20 anos, era ciumento e não deixou a jovem mulher ser assistida por médico. Paparicado por jovens tias maternas, pois o casal estava com pressa de povoar o mundo. Depois dele, não veio o dilúvio, mas oito crianças. Uma das tias sugeriu e os seus pais aceitaram, iniciá-lo, aos quatro anos, nos estudos em escola experimental americana. Ia só. Quem o acompanhava, ficava longe. Infelizmente, durou pouco. Matricularam-no em ginásio formal. Um dia, não lembra a razão, foi o último a sair do recreio para a sala de aula. De repente, o diretor puxou-o ela orelha, ralhando. Conseguiu um telefone do próprio ginásio e ligou para o pai contando o fato. Disse: não estudaria mais ali. Dito e feito. Dezenas de anos passados, ele, já com netos em idade escolar, tenta aproximação de formas diferentes. Meio sem jeito, desde o tempo de pai. Criara (seria o prenúncio de um ficcionista?), dois personagens, a Rosinha e o Paulinho, crianças exemplos. As filhas procuravam conhecê-los. Ele driblava com evasivas: moram um pouco distante daqui, viajaram, estão de férias etc. Rosinha e Paulinho eram bons filhos, estudiosos e serviram de modelo invisível para as ainda crédulas filhotas. Agora, conta um pouco do “seu-sem-jeito” como avô. Há anos combinou com uma filha: levaria as crianças dela para a escola. Tentava maior aproximação. Entravam no carro ainda bocejando. Ele, o avô, colocara no toca cd músicas infantis e ia, desafinando, solfejando com eles. A festa durou pouco mais de uma semana. Um dia, perguntou se fazia diferença ir apanhá-los manhã cedo ou outra pessoa servia. Triste, ouviu: tanto faz. Domingo desses, combinou com outra filha, ir apanhar o seu primogênito para levá-lo a uma feira de numismática. O neto, rosto cheio de protetor solar e saco com lata de moedas repetidas. Sentados no banco da frente, cintos de segurança atados, foram conversando ao Parque da Liberdade, no centro, a antiga Cidade das Crianças, concepção pedagógica da professora Zilda Martins Rodrigues. Lá, pessoas maduras fazem o escambo e a venda de moedas. Sentou-se em uma banca. O neto, em outra. Fez as suas barganhas e, ao final, o neto queria vender, a qualquer preço, as moedas repetidas. Arrazoou: você não está precisando de dinheiro. Comprou novas moedas para o neto, inclusive, cédula de dólar com a cara do Mickey, só circulante no mundo da fantasia e no dos numismatas. Depois, foram almoçar. Antes, o neto pediu para tomar sorvete. Concordou, claro. Do almoço provou pouco, mas bebeu duas latas do excêntrico Guaraná Jesus, hoje marca da Coca-Cola. Mais um sorvete e tomou o caminho de volta. Papos, risos e abraços. Ficaram combinados, voltariam à feira. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/10/2017. - [MORTES EM DEMASIA. QUAL A SOLUÇÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mortes-em-demasia-qual-a-solucao-jornal-o-estado/): “Algumas pessoas matam. Outras, se satisfazem lendo a notícia de assassinatos”. Millôr Fernandes Não há família, grupo de amigos, empresa, igreja e assemelhados sem possuir integrante atacado ou morto em assaltos por jovens em bicicletas, por adultos com capacete em motos, por balas perdidas, por viciados de toda a espécie e por marginais institucionalizados. São presos e, logo soltos, em face de excesso de gente nas carceragens, nos presídios e nas audiências de custódia. Reportagem da socióloga e jornalista Fernanda Mena, em dupla página, sob o título “Um inquérito sobre a polícia”, no caderno Ilustríssima, FSP, em 08.02.2015, apresenta números assustadores: 54.269 pessoas foram assassinadas no Brasil, em 2013; desse total, 2.212 pessoas foram mortas por policiais civis ou militares, em serviço ou fora dele. Por outro lado, 490 policiais -civis e militares- foram abatidos em confrontos com bandidos ou suspeitos. Imaginem os números, se atualizados. Vendo-se o acontecido em países civilizados, nenhuma pessoa – nesse mesmo ano de 2013 – foi morta pelas polícias do Reino Unido e do Japão. Quanto aos crimes, observa-se: a taxa de homicídios por 100 mil habitantes nos Estados Unidos é de 4,7. No Brasil ela é quase seis vezes maior: 26,9. Em pesquisas feitas com policiais sobre o baixo desempenho, 95% informaram ser ele originado pela ausência de integração entre as diferentes polícias. Somente 30% da população confia nas polícias civil e militar. Afirmam: elas invadem residências sem mandado judicial e prendem pessoas, sem culpa formada, apenas por as considerarem “suspeitas”, pela cor, renda ou local de morada. Há no Brasil, comunicadores de emissoras de rádio e de televisão eleitos pelo estardalhaço em seus programas, deixando nua e crua a delinquência e clamando, em altos brados, por soluções para o caos social. Os barulhentos se elegem e se reelegem, prometendo ‘acabar com a frouxidão da polícia’ e resolver tudo em um mero passe de mágica. Todos, juntos, compõem as “bancadas da bala”. Pirotecnia ou busca de audiência? Jovens policiais procuram fazer novos concursos públicos em outras áreas, e, quando neles passam, deixam suas famílias aliviadas, em razão do estresse e das suspeições em casos de confrontos resultando mortos ou feridos. Saindo da reportagem de Fernanda Mena, procurei a Revista Brasileira de Segurança Pública, ano cinco, edição nove, agosto/setembro de 2011, e tive o prazer de ver a análise de Francisco Thiago Rocha Vasconcelos, mestre em sociologia, em 2009, pela Universidade Federal do Ceará, então doutorando da USP. Ele assevera: “O enfoque sociológico sobre a violência deslocado da relação entre o medo do crime e a instauração de distâncias sociais e mudanças nas relações urbanas, passou a se concentrar, então, no modo como as instituições do sistema de justiça criminal intervêm no crescimento da criminalidade urbana violenta, seja por uma participação ativa, na forma de violência ilegal ou pelo viés autoritário e estigmatizante de sua atuação, seja por sua omissão em punir as violações de direitos humanos praticadas por seus agentes ou ainda por sua incapacidade em dar conta dos novos fenômenos criminais”. Esse assunto, complexo, toma hoje nova dimensão em face da atuação firme e isenta da Polícia Federal em casos de corrupção na Petrobras, na Lava-Jato e outros. Começam a surgir, nos Estados, movimentos civis – organizados ou não –clamando pela extensão dessas operações em órgãos públicos. Ao concluir, uma pergunta: Já foi regulamentado o parágrafo 7 do art. 144 da Constituição de 1988? Ele diz: “A lei disciplinará a organização e o funcionamento dos órgãos de segurança pública, de maneira a garantir a eficiência de suas atividades”. Ou foi e eu não soube? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/10/2017. - [BENFICA 18 ANOS, ATREVIDO BENFICA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/benfica-18-anos-atrevido-benfica-jornal-o-estado/): Lutei com as forças que me faltavam do meio ao final da década de 1990. Tudo estava complicado para mim. No particular e no geral. O projeto e a execução do Shopping Benfica não contaram com apoio de ninguém. Só me diziam: aqui não dará certo. Parecia um mantra. Lembrei-me de uma frase do escritor Zuenir Ventura: “inveja não é querer que o outro tenha.” Eu era o outro. Foram anos. Um dia, cheio de problemas, resolvi marcar a data, 30 de outubro de 1999. Aniversário de D. Margarida, minha mãe. Deu certo. Assim aconteceu. Com foto e nome de todos os que trabalharam para que o Shopping Benfica saísse do papel. Do servente ao engenheiro. Havia um buraco no meio do caminho. O do Metrofor, à nossa frente. Família, colaboradores, amigos, autoridades e o reitor Martins Filho, refundador do bairro do Benfica- depois esvaziado com a criação dos campi do Pici e do Porangabussu- estavam lá. O sol era forte. Ao redor, necas de edifícios. Tudo bem, seria assim mesmo, ao som da Camerata da Universidade Federal do Ceará. Os tapumes das vazias lojas não tinham disfarces, mas dezenas de pinturas grandes de artistas locais, em concurso que marcava a criação da Galeria BenficArte. Ganhadores (Emília Porto e Audifax Rios) com passagens para os Estados Unidos e Europa. Prometido e cumprido. Manhã seguinte, véspera do Dia de Todos os Santos, bateu a realidade. Convocamos Associações e órgãos de classe, nada. Cada um na sua. Foi aí que os meus espíritos do trabalho, da cultura, da irreverência, das artes e, sobretudo, o da responsabilidade social, se juntaram e deram-me força. Desculpem a primeira pessoa, mas não tinha a segunda. O Metrofor, de esperança, transformou-se em transtorno. Tive que dar parte do nosso terreno para a abertura da Estação Benfica, só inaugurada nesta segunda década do século 21. Chega de choro. No dia 30 de outubro de 2017, o Shopping Benfica completou 18 anos. Fosse uma pessoa, teria passado, com folga no Enem, mas escolheria um curso deste Benfica, raiz e fundamento de várias Universidades, como a Federal do Ceará, a UECE, a IFCE e de cursos superiores, de vários matizes, particulares. Os nossos vizinhos tornaram-se amigos, desde a construção. Batiam papo, coçavam a cabeça, perguntavam o meu nome, como seria a obra e a conversa corria solta. Hoje, são clientes, porque já eram amigos. São tratadas como pessoas solidárias, que nos deram o azimute para os nossos sonhos não virassem pesadelo. Estamos agora a arrumar este jovem Shopping Benfica. Novas roupas, novas luzes, cara limpa, espelho d’água, jardins frondosos dão a animação indispensável ao ethos que o distingue dos demais. O Benfica foi o primeiro Shopping do Brasil a obter a certificação ISO-2001, de acreditação da Grã-Bretanha. Por diversas vezes fomos homenageados no Fórum de Líderes, em São Paulo. A pergunta que nos vinha à mente, ao subir ao palco: o que faço no meio desses “Tycoons”. Uns, quebraram. Outros… Na área da cultura ganhamos, anos seguidos, todas as premiações do “Selo Cultural”, em administrações diferentes da Secretaria da Cultura do Ceará. Ao final, fomos aquinhoados com o selo “Diamante”, o único concedido, entre empresas públicas e privadas. Depois, o selo foi extinto. Não estamos bazofiando. Externamos apenas para que a História o registre. No Ceará, tem disso. Os bem-vindos e os aquinhoados são os abençoados pelo BNDES, isenções, refis, incentivos fiscais, renúncias fiscais, fundos de pensões, dentre outros. Nós nunca tivemos nada disso. Pagamos e temos certidões fiscais do Município, do Estado e da União. Depois de tantos percalços vencidos, estamos aqui ao lado de milhares de clientes, lojistas locais e, imaginem, até multinacionais, já se instalaram no Benfica. Quem diria! Deus sabe como foi duro, mas tudo defendido pela nossa equipe cabeça-chata, pelos lojistas e por nossa clientela, gente de bem, que conversa conosco, do mesmo jeito que o fazia durante a construção. Vida que segue. Deus nos abençoe. Obrigado a todos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/11/2017. - [CENTENÁRIO DO POETA GERARDO MELLO MOURÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/centenario-do-poeta-gerardo-mello-mourao-jornal-o-estado/): Ontem, em Brasília 23 de março de 2017, com palestra do escritor e diplomata Márcio Catunda, a Associação Nacional dos Escritores – ANE, homenageou o centenário do imenso poeta, político e jornalista cearense Gerardo Majella Melo Mourão(1917-2007). Na realidade, Mourão completaria 100 anos em 08 de janeiro passado. Sabe-se que o percurso de vida de Gerardo Mello Mourão é rico em atribulações e feitos. Seminarista maior pela Ordem dos Redentoristas holandeses, abandonou a batina pouco antes de ser padre. Em seguida, estudou Direito. Mais uma vez não concluiu o curso, tal a sua incansável busca por algo maior que ocupasse a sua brilhante cabeça. Foi integralista. Cooptado quando Plínio Salgado levantou essa bandeira similar ao nacional socialismo. O Ditador Vargas o considerou traidor nacional e o condenou à morte. Depois, 30 anos de prisão. Cumpriu cinco anos e dez meses. Eram os tempos incertos da 2ª. Guerra Mundial. Com a redemocratização, passou a seguir o ideário comunista de Luiz Carlos Prestes, sem largar o batente de jornalista e poeta. Fez-se deputado federal por Alagoas por duas vezes. Em 1969 foi cassado pelo regime militar. Sua folha corrida de prisões registra 18 atos de encarceramento. Apesar disso, por seu cabedal, foi Secretário de Cultura do Rio de Janeiro. Destaca-se em sua história jornalística o tempo em que passou, como correspondente da Folha de São Paulo na China de Deng Chiao Ping, entre 1980 e 1982. O Ceará o homenageou por duas oportunidades. Primeira, em 1993, com o Título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará-UFC. Em 1996 foi agraciado com o Prêmio Sereia de Ouro, comenda maior do Sistema Verdes Mares de Comunicação. Cedo espaço ao poeta Carlos Augusto Viana, então editor do Caderno de Cultura, quando, em 2008, refere: “A obra poética de Gerardo Mello Mourão encontra-se, em sua expressão maior reunida em dois tomos. Peãs (este implicando três livros: O País dos Mourões, Peripécias de Gerardo, Rastro de Apolo) e a Invenção do Mar. A leitura de seus versos nos põe diante de um poeta que, como poucos, de modo intrigantemente natural, o lírico e o épico, de tal sorte que tais gêneros se fundem num todo indissolúvel… Assomam, desse modo, inúmeras alusões, ecos, tecidos de textos outros num jogo intertextual utilizado pelo Autor, pois este soube, vencendo a ferrugem do templo, aliar-se à pós-modernidade.” Lembro bem de uma das suas visitas a amigos, em Fortaleza. Era tempo da “Turma dos Sábados”. O acolhemos em nossa tertúlia com carinho, admiração e respeito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/03/2017. - [MULHER, EDUCAÇÃO E RECONHECIMENTO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mulher-educacao-e-reconhecimento-jornal-o-estado/): Recebi, dia desses, uma mensagem pelo WhatsApp: “Primeiro, Deus criou o homem. Depois teve uma ideia melhor. Criou a mulher.” Meus parabéns a todas as mulheres pela passagem, no último dia oito, do Dia da Mulher. Ele foi o resultado de lutas centenárias pela igualdade de direitos e deveres entre os seres humanos. Terça, 14 de março, foi o Dia da Poesia, homenagem a Antonio Frederico de Castro Alves. Parabenizo a todos e a todas poetas. Como dizia a nossa conterrânea Rachel de Queiroz, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras: “Cada coisa tem sua hora e cada hora o seu cuidado”. Nesse mesmo dia 14 aconteceu a Edição 2017, do Projeto Gente de Bem. Um laurel que se caracteriza pela isenção, pela justiça e pela certeza de que as pessoas homenageadas são ou foram, até a data da cerimônia, destacadas figuras em suas áreas de atuação. Escolhemos duas educadoras, longevas, viúvas de homens honrados, mães de famílias exemplares. Elas deram a seus filhos a educação e a responsabilidade que os preparou para a vida real, esta que se impõe a cada sol que levanta. Dáulia Bringel e Suzana Ribeiro. D.Dáulia é mãe de Edite, Natércia, Edmundo, Darival, Querubina, Graça, Edval, Euvaldo e Jânio. É viúva do Sr. Edmundo Olinda D.Suzana é mãe de Nadja, Zoya, Anya, Carlos e Isabel. É viúva do Dr. José Carlos Ribeiro. Choraram as suas perdas, mas souberam continuar a dura tarefa de professora e de manter os filhos dentro de padrões de dignidade e honra. Tempo em que as mulheres, na maioria, eram donas de casa. As águas dos rios Ipuçaba, em Ipu, e o rio Jardim, na cidade do mesmo nome, tais como o Rio Jordão, deram a Suzana e a Dáulia os batismos dos simples. O condão necessário para aliar coragem à atitude, para a conquista de suas vitórias pessoais e a de seus familiares. Hoje, pode parecer fácil. Não foi. Nunca foram aquietadas, pois as suas vidas são plenas e múltiplas, sem prejuízo das atividades profissionais e dos familiares. Cada um dos cinco filhos de D. Suzana é importante por si mesmo. Igualmente, os nove da D. Dáulia são pessoas de relevância no Ceará. Este Ceará que hoje alcança uma posição destacada na área da educação fundamental por suas escolas públicas eficazes, com 77 entre as 100 melhores do Brasil. Fortaleza está fazendo a sua parte e já se destaca. Educar é a saída. Aos seus netos e bisnetos, eu disse: orgulhem-se de suas avós e bisavós. As medalhas de prata e os diplomas que hoje recebem são provas, provadas de que suas vidas resultaram em benefícios aos outros. A todos os leitores, trago uma mensagem de Monteiro Lobato, minha referência como escritor e empresário, perseguido por suas ideias à frente do seu tempo: “Seja você mesmo, porque ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/03/2017. - [IVAN, O POSSÍVEL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ivan-o-possivel-jornal-o-estado/): O nome Ivan Sérgio pode ser oriundo de romances de Tolstói, Dostoiévski e de outros russos, lidos por Fran e Lúcia Martins, pais literatos e viajores. Houve nove czares com o nome Ivan. Um cognominado, o Terrível. Ivan Sérgio Fernandes Martins, filho de Fran e Lúcia Martins, nasceu, viveu e trabalhou no Outeiro, dito Aldeota, quiçá Meireles, do qual fazia parte o loteamento de nome Lidiapólis. Era de propriedade de Antônio Cristalino Fernandes, pai de Lúcia, sua única filha e herdeira universal. Era muita terra para ser cuidada por um casal de letrados que viam, ano a ano, o Imposto Predial subir. Poucas casas alugadas, o resto era de terrenos ao longo da hoje Av. D. Luiz. Fran era professor da Universidade Federal do Ceará, com notório saber em Direito Comercial, tendo publicado livros de uso corrente em quase todos os cursos de Direito, Brasil afora. A casa da família ficava na D. Luiz, murada e com cachorros soltos para vigiar a área que era deserta, salvo umas casas na Av. Desembargador Moreira e muitos casebres. Alguns não sabem que o apodo cachorro se originou dos amigos – vamos a casa do Ivan, dos cachorros – e depois, o singularizam. Bem criado e apessoado, no tempo certo lá se foi Ivan fazer intercâmbio de High School, em Michigan, Estados Unidos. O menino que foi, voltou guapo rapaz com muitas ideias na cabeça. Fez Administração, prevendo ser o fiel depositário da Imobiliária LM, de Lúcia Martins que pagava muito Imposto Predial nas casas que alugava na Av. Desembargador Moreira e nos terrenos ao longo da Av. Dom Luiz. Os aluguéis não cobriam o total a ser pago de IPTU. Surge, então, a Construtora LM, comandada por Ivan, Vânia, irmã; e Stênio, sobrinho-irmão. Construiu shoppings na Av. Luiz e um no Cariri. No que seria o último, Ivan ousou. Fez um complexo integrado com shopping, torres residenciais e comerciais. Obra de vulto, projeto de André Sá. Procurou um banco para obter a linha de financiamento do BNDES. Fez o contrato. O financiamento não saía (hoje, sabe-se a razão – era só para os amigos do poder). Entrou no cheque especial e a dívida crescendo. Banco não possui amigos. Nada de BNDES. Virou, mexeu e lembrou-se de usar um capítulo escrito por seu pai para o Código Comercial, a Recuperação Judicial. A obra atrasou e Ivan, com a coragem inata, reuniu os seus credores no Cine São Luiz e prometeu pagar a todos, dando os seus bens pessoais como garantia. Não saiu de lá apedrejado, como agouravam alguns. Saiu pela porta da frente, triste e altaneiro. Dito e feito, quitou as dívidas e lá se foi para São Paulo, morar com a filha Lina, única e querida. Redivivo, planeja e executa, com novos parceiros, o residencial “Cidade Jardim”, no bairro do Mondubim, ao lado da Cidade José Walter. Milhares de casas, com urbanização a incluir árvores em áreas definidas, retiradas de um viveiro/jardim que ele, certa vez, me mostrou com orgulho. Mais casas não foram construídas por culpa do Governo Federal, a atrasar desembolsos. Ivan, fez o possível. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/03/2017. - [PAUSA FRENÉTICA E NOTAS ESPARSAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pausa-frenetica-e-notas-esparsas-jornal-o-estado/): No Brasil tudo é exagerado. Na sexta-feira passada, todos estavam ansiosos pela folga do carnaval. No expediente da tarde as coisas se arrastavam. Ninguém queria mais nada com nada. Perguntei aos meus próximos o que iriam fazer. Praias, viagens longas de até 1.200 quilômetros de carro, serras e que tais. Dos que ficaram em suas casas, poucos os com um livro às mãos. Estavam a mudar de canal para ver mais do mesmo ou trocavam mensagens e fotos em seus celulares. São os tais solitários conectados, quase sempre em busca de fatos desairosos ou de humor duvidoso. A característica desse tempo foi a obrigatoriedade de parar a “chata” vida e fazer dos dias de folga o que bem aprouver. Cada qual com a alegria surgida do nada. Férias curtas com desgaste de energia e de dinheiro. Época da concessão geral e do encontro com o outro eu, aquele sem censura, enrustido nas conveniências do grupo em que cada um se enquadra. Em Fortaleza, consolida-se uma forma auspiciosa de fazer carnaval. A partir da descentralização das áreas de atração em diversos bairros, dos muitos blocos, dos cordões, dos abomináveis paredões de som e o “aterrinho” da Praia de Iracema como palco principal da festança. Na Avenida Domingos Olímpio, os combatentes, novos ou antigos, dos maracatus, das escolas de sambas e dos cordões têm bem cuidado espaço reservado no breve corredor e uma estrutura profissional de arquibancadas, locais de filmagens e boa iluminação. As mortes em estradas, os assassinatos, passam como meras estatísticas, enquanto famílias perdem provedores e entes queridos. Os acidentes com os grandes carros alegóricos no Sambódromo do Rio de Janeiro a causar 32 feridos, ganham manchetes e mostram a necessidade de acompanhamento técnico na fabricação e montagem das estruturas metálicas, suas interconexões e suas soldas. Isso é assunto de engenharia. O motorista, de um dos carros, sequer tinha visão livre, em face dos adereços. Na volta ao mundo real, que não parou lá fora, o Brasil retoma, na próxima segunda-feira, o feijão com arroz da político-econômica, enquanto jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão, retomam a mesma pauta. A mesma de sempre. Além do carnaval, só as notícias do “Oscar”, com erro grave da PwC, encarregada da gestão dos votos, na principal decisão da noite: o melhor –não para mim – filme (Moonlight, sob a Luz do Luar). Um diretor negro, Barry Jenkis, de 31 anos, ganha, depois do duplo equívoco de Faye Dunaway e Warren Beatty (será que enxergavam direito o que liam?). Os do filme “La la Land” que, haviam subido ao palco, devolveram os troféus recebidos, tiveram cinco minutos de glória e o resto da vida de desapontamento. No “Oscar” do ano passado houve queixa geral por não figurar um só ator ou diretor afrodescendente entre os vitoriosos. Este ano aconteceu o inverso. Hollywood mudou de tom e exagerou na dose. A cerimônia é longa e chata. São tantas as categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante, melhor filme estrangeiro, melhor animação – desenho animado, melhor roteiro original e, para não cansar mais, fico por aqui. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/03/2017. - [CLICHÊS DE UNS E DE OUTROS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cliches-de-uns-e-de-outros-jornal-o-estado/): “Diga-me uma coisa, compadre: por que você está brigando?” Gabriel Garcia Márquez Não faz muito tempo os empresários resumiam as suas vidas em cuidar de suas famílias e de suas empresas. Depois dos anos foram surgindo entidades e alguns dos que antes mourejavam nos chãos dos seus negócios pequenos e médios passaram a ser líderes, encaminhando pleitos a governos municipais, estaduais e federal. Viraram seres falantes. Foram tomando gosto e assentos em diretorias e conselhos, alguns remunerados, viajando por conta de nós todos e se acreditaram detentores de conhecimento, além do dia a dia de seus interesses por conta de um sistema rico e poderoso. Para os alinhados a governos, partidos políticos e os que souberam descobrir licitações, concessões, aprovações de projetos por órgãos locais ou os de desenvolvimento regionais, tipo Sudene, Zona Franca de Manaus etc., o mundo se abria risonho e franco. Depois, anos à frente, aos maiores ou audaciosos desejosos de crescer exponencialmente, os Fundos de Pensão das estatais, os bancos públicos regionais, a Caixa e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social- BNDES abriam créditos a juros subsidiados, bem amaradas. Criou-se um compadrio de resultados. O governo passou a ser sócio de muitas empresas privadas. Nomes desconhecidos foram surgindo em reportagens amestradas a tecer loas a seus méritos, descortinos e as múltiplas empresas que criavam e, subitamente, passavam a fazer parte das listas de maiores e melhores. Prêmios para cá. Prêmios para lá. Em cada Estado brasileiro há figuras assim. Do nada para o Olimpo, em pouco tempo. Ralar, por anos, é coisa de gente atrasada que não possui “networking”, aqui traduzida como a capacidade de conhecer e influenciar pessoas, gestores e políticos, com recepções opíparas, viagens conjuntas mundo afora e logo entrar no circuito dos muitos influentes. Outros, que abriram empresas e não se deram bem, viravam consultores, diretores, assessores e, sempre simpáticos, circulavam em festas e ambientes em que bilhões eram cifras citadas sem medo e a certeza de que caminhos políticos e classistas os fariam participar do mundo dos muito ricos, esse lugar para poucos, em país de miseráveis. Faço uma digressão e procuro em Lucy Kellaway, jornalista do “Financial Times”, de Londres, via Valor, no artigo “Como uma empresa consegue citar dez clichês em uma frase” comparativo com a linguagem empolada e vazia dos que pouco se instruíram e resolvem ser experts e oradores. Ela registra o caso da empresa Mondelez, fabricante de biscoitos e chocolates, ao procurar um executivo na área de marketing. O texto: “Nossa busca por um sucessor vai se concentrar em encontrar um líder que seja ‘digital-first` (que dê prioridade, ou atue na esfera digital), disruptivo, inovador, que possa ampliar o legado e mobilizar um marketing em um cenário consumidor global em plena mutação”. Como se vê, há bobagens ditas e escritas pomposamente não só aqui em Pindorama, mas em países desenvolvidos. Como todas as semanas brasileiras viraram cruciais, saio desta sinuca por escrever de véspera e não saber o desfecho no mundo real, do qual tento evadir-me com estes alinhavos meio “disruptivos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/05/2017. - [BONDADE TEM LIMITE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bondade-tem-limite-jornal-o-estado/): O tremendo “quiproquó” em que se transformou a luta da Prefeitura de Fortaleza para desmontar a pocilga a céu aberto em que foi transformada a Rua José Avelino, via estratégica para a mobilidade urbana da Capital, já era aguardada, tendo em vista a maneira como o poder público foi leniente com a ampliação daquele “fuzuê” em forma de feira. Para mais complicar a balbúrdia em torno do problema, alguns setores concordaram com isso. A prefeita Luizianne, por exemplo, poderia muito bem ter dado um freio, mas não o fez para não perder votos. No âmbito da Justiça, o Ministério Público Estadual, há mais de quatro anos, vinha cobrando da Prefeitura medidas urgentes e rigorosas para acabar com a bagunça, que servia para ajudar a sufocar o trânsito, além de causar incômodo auditivo e muita sujeira. Agora, o mesmo MP tentou deter a ação da PMF para melhorar aquela artéria. Agora, tentou impedir os trabalhos, cobrando diálogo da parte do prefeito Roberto Cláudio com os feirantes. Como a medida foi suspensa, continuam as obras da requalificação daquele local. Confusões à parte, alguns problemas terão de ser melhor investigados, em relação aos feirantes a serem deslocados para outros locais. Um deles, de extrema gravidade: a origem de muitos dos produtos comercializados, que, segundo denúncias, não são nada claras. Juntem-se a isso às perdas da municipalidade, ante a grossa sonegação de impostos a serem pagos pelos verdadeiros donos das mercadorias, muitos deles escondidos à sombra de pequenos comerciantes que eles colocavam no “feirão”. Essa confusão vai servir para desmascarar muita “marmota”. TURISMO – Quem denuncia é a Veja Online: a “marcha de prefeitos” (mais uma) está fadada a resultados pífios para os municípios ali representados. A principal causa é mais do que evidente: os ministérios de quem os prefeitos esperam muito, não têm muito a oferecer. Por conta disso, preferem mostrar suas ações em “stands” a serem admirados. E só, porque, a bem da verdade, todos os ministros estão empenhados mesmo é em captar votos pelas reformas. LAVA JATO – Não dá para evitar abordar a luta do MPF, PF e Operação Lava-Jato para limpar o terreno político do País da sujeira do “mensalão” e pelo “petrolão”. O destaque é o destino do ex-presidente Lula, mais escorregadio que baba de quiabo. Pesquisa da “Folha” entre os leitores sobre o que pode ocorrer ao filho de Garanhuns mostra: 61% dizem que será condenado; 34%, que será condenado e preso. Apenas 3% acham que ele sairá livre e solto. IDADE SAUDÁVEL – Ontem, no Parque Adhail Barreto, o prefeito Roberto Cláudio, acompanhado de secretários, assinou compromisso com o movimento Parceria para Cidades Saudáveis, instituição coordenada em apenas 50 cidades do Mundo, pela fundação norte-americana Blooberg Philanthropies. O objetivo principal é tornar essas cidades mais atrativas para os visitantes e confortáveis para os seus habitantes, em termos de mobilidade urbana. PERDAS & DANOS – Não tem como abandonar a discussão dos problemas gerados pela “embromação” dos cearenses pelo Governo Federal, que deixou o nosso estado em último lugar para receber as águas da transposição, projeto abandonado por uma empresa inidônea. Para o deputado Roberto Mesquita (PSD), o problema, agora, é saber “quem irá recompensar a economia do estado do Ceará pelas imensas perdas geradas por essa irresponsabilidade”. CONTRA A PAREDE – Um dos assuntos mais importantes discutidos em Brasília, nos últimos dias, veio rebentar em cima dos deputados federais de todos os estados, incluindo do Ceará. Trata-se da “colher de chá” do Governo Federal a milhares de prefeituras dispensadas de parte de suas dívidas com a Previdência. Satisfeitos, os gestores podem “levar à parede” os ilustres deputados por ele votados e eleitos. Se não votarem pela reforma da Previdência, adeus, votos em 2018… SEM DESPERDÍCIO – A Secretaria das Cidades, do Ceará, realiza o Seminário Internacional de Resíduos da Construção Civil. O tema é importante, tendo em vista que o objetivo é o aproveitamento de milhares de toneladas de entulho de obras civis, que em muitos países, depois devidamente reciclados são aproveitados para outras obras, principalmente em se tratando de moradias para pessoas sem teto. Aqui, até agora, esse material só causa incômodo e sujeira. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/05/2017. - [ANTÔNIO CÂNDIDO - A CRÍTICA QUE MORRE? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/antonio-candido-a-critica-que-morre-jornal-o-estado/): “Sua obra fundamental encerra o ciclo de grandes ensaios de interpretação do Brasil”. Manoel da Costa Pinto, prof. de Teoria Literária, da USP Antonio Candido, crítico literário, morreu aos 98 anos, sexta passada, 12 de maio deste 2017. A Folha de São Paulo, no dia 14, domingo, resolveu reproduzir a primeira crítica literária escrita por ele no dia 07 de janeiro de 1943. A crítica tem o nome francês “Ouverture” ou Abertura, em Português. A língua gaulesa dominava a literatura da época. Depois, o inglês. Agora, é o internetês. Nela, Antonio Candido desfila os seus postulados, que, no seu pensar de 24 anos, configurariam um padrão ou referência para alguém se tornar crítico literário. Ele diz: “Do crítico, espera-se geralmente muita coisa. Antes de mais nada, que defina o que é a crítica para ele. Acho isso muito justo, uma vez que ele é um indivíduo que vai emitir opiniões tendentes, em suma, a explicar uma obra ou um autor”. Em seguida, ele fala na possível imodéstia de um crítico literário: “Este aspecto metacrítico do ofício – que é porventura o seu fundamento e o seu mais firme esteio – é, no entanto, às vezes, uma questão de tal modo pessoal, revestindo-se de uma necessária imodéstia no seu enunciar-se, que melhor seria pedir ao crítico literário qual a sua ética – quais as imposições que se faz e quais os princípios de trabalho com os quais não transige”. A pergunta que faço aos professores Sânzio de Azevedo, Linhares Filho e Carlos Augusto Viana é se hoje, passados 74 anos desse enunciado, tais princípios teóricos subsistem? Claro que eles não podem me responder agora, sequer sei se aceitarão essa lisonjeira provocação. Entretanto, emendo com outra questão que pode ou não ser pertinente: como anda a crítica literária brasileira, nestes tempos em que os escritores formam grupos para aparecer em eventos culturais estados afora, em memória de mortos ilustres, bienais de livros, nos possíveis encontros na “Casa do Saber”, seja no Rio de Janeiro e em em São Paulo. Ou, ainda, nas anuais edições da Festa Literária de Paraty. Como se tivesse premonição, Candido afirma: “Sobretudo porque acredito que as atitudes intelectuais têm valor em função da época em que se manifestam e à qual se dirigem. Sendo assim, a tarefa do crítico será porventura integrar a significação de uma obra no seu momento cultural do que, tomando-a como pretexto, procurar tirar dela uma série de variações pessoais”. Contextualizando essa época ao hoje, em que a inteligência artificial pode até produzir “obras” de todos os gêneros e a internet das coisas nos coloca em um baú em que sensos estéticos – duvido, ainda ‒ derivam de algoritmos de programas literários de grandes universidades, mundo afora. Ouso perguntar aos doutos Antonio Torres e Edmilson Caminha: estarei errado? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/05/2017. - [O FORTALEZA E A SUA TORCIDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-fortaleza-e-a-sua-torcida-jornal-o-estado/): Converso com pessoa esclarecida e, sem querer, o futebol vem à baila. Ela diz: sou torcedor do “Fortaleza Esporte Clube” e creio falar por mim e alguns sócios torcedores, conselheiros, admiradores e afins. Há uma teimosia em trazer jogadores e técnicos rodados, sem nenhum amor ao Fortaleza. Lembrem-se do jogo Fortaleza com o Ferroviário em que ganhava por 1X0 até os 46 minutos do segundo tempo. Displicência, falta de orientação, desamor e um gol do adversário. Esse empate, somado à derrota anterior, ocasionaram o clima do terceiro jogo. Façam pesquisas e verão que o Fortaleza perdeu – ou empatou – nos últimos minutos de vários jogos. Foi assim – por algumas vezes – na Série C. Agora, também no campeonato deste ano. O gol do empate de 1X1 com o Ferroviário veio aos 46 minutos do segundo tempo. Os “estrangeiros” do Fortaleza, cansados de tantas camisas, não se importavam com o detalhe de que o jogo estava ainda em curso. Neste ano, ficou fora da decisão contra um time que não gasta mais que 10% da folha dos jogadores e da comissão técnica do Fortaleza. Azar? Não! Incompetência, imprevidência e soberba. Tudo junto e misturado. Agora, neste maio de 2017, resta ao Fortaleza a 3ª. Divisão do futebol brasileiro, da qual é membro há oito anos. Também há a Taça Fares Lopes. Não se pode – e nem se deve – brincar com essa torcida que já colocou mais de 63 mil pessoas em jogo, em que o Fortaleza decepcionou. Neste Brasil desesperançado o futebol ainda é uma válvula de escape para os que se afeiçoam a um clube. A quase ausência de torcedores nestes primeiros meses do ano de 2017 mostra a falta de credibilidade na equipe. O Fortaleza foi desclassificado de todas as competições jogadas até agora por falta de competência e garra. Isso é triste e estranho para um clube acostumado a vencer. Manter os mesmos jogadores e o técnico perdedor seria escárnio. O ideal é acreditar em meninos do sub-20, dos subúrbios e do interior do Estado e mesclar com alguns mais experientes. Isso não é poesia ou ingenuidade. É alternativa. Se erraram durante oito anos, precisa-se, sem dúvida, mudar o que fizeram nesse período. Sei que falar, reclamar e apontar erros é fácil. A lógica, entretanto, não perdoa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/05/2017. - [BRASILULA - 15 ANOS DEPOIS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasilula-15-anos-depois-jornal-o-estado/): Este artigo foi publicado, originariamente, no dia 27 de outubro de 2002, no Diário do Nordeste. Após 13 anos, em 2015, o republiquei neste “O Estado”. Agora, peço aos leitores que façam uma nova reflexão sobre o seu conteúdo. Vejam parágrafo por parágrafo, o acentuado, as dúvidas e o que realmente ocorreu, nos dois governos Lula e, em seguida, no de Dilma. Segundo as pesquisas, Lula será eleito hoje. Far-se-á a vontade da maioria. Lula, com a persistência de um Miterrand, chega à Presidência. Chega no esplendor da sua maturidade cronológica e no limiar de uma nova ordem mundial em que a recessão e a ameaça de ‘default` são variáveis em jogo. Vem com a força e a esperança de milhões de eleitores e de uma militância de fazer inveja. A sua eleição representará uma guinada para um país que teima em ser primeiro mundo, mas tem o pé na miséria. Ou melhor, tem os dois pés na lama das favelas, os membros atados com compromissos meio espúrios e a cabeça, só Deus sabe. E há os que não acreditam em Deus. Talvez seja a hora de se parar de pensar tanto em riqueza e ter-se coragem de assumir a pobreza ou abolir, pelo menos, a miséria. Bastaria mais responsabilidade social e menos demagogia, não só dos políticos, mas das elites que não praticam o que discursam e de uma classe média deslumbrada pelo consumo e o mundo das aparências. Lula emerge de uma história que remonta à redemocratização, à insubordinação sindical e se a cultura na ligação umbilical com a inteligência universitária que deu ao PT a essência de sua estrutura ideológica, hoje aromatizada. Muitos anos se passaram e foi preciso que o povo brasileiro acumulasse revoltas, salários pífios, sofrimentos, sentimento de insegurança e desamparo para que Lula emergisse da sua base histórica e fiel, para os braços generosos de eleitores ainda não politizados e de uma burguesia meio sem rumo, pouca visão de mundo e sempre com o apetite de adesão à vitória, qualquer que seja o vencedor. Há na trajetória de Lula um pouco da história da pobreza do nordestino imigrante, da força da mulher abandonada – sua mãe – que protege e cria os filhos na periferia das grandes cidades, de um sindicalismo capaz, de um partido operário consistente e da crença de que o bem pode vencer o mal. Apesar disso, Lula não é messiânico, é pessoa centrada, treinada e ajustada a uma realidade mercadológica que exigia uma postura diversa da sua essência fundamental. Lula mostrou-se, para ganhar, como a maioria queria. A essa maioria só se pode parabenizar, pois não se discute vitória, se aceita. Assim é a Democracia que, entre outras coisas, tem a capacidade de ver que o outro pode estar certo, apesar de você imaginar estar ele errado. Passada a euforia da vitória, haverá a assunção do Lula verdadeiro e da sua equipe multifacetada que não precisarão mais fazer caras e bocas e sim, tentar apresentar respostas urgentes que o Brasil e o mundo esperam de um ainda desconhecido “mix” entre Socialismo, Neoliberalismo e política de resultados. A governabilidade é uma arte de engenharia política e nela o discurso é desprezado. Por outro lado, a estrutura de poder presidencialista brasileiro, especialmente, após a lei de responsabilidade fiscal, neutraliza o voluntarismo e fará emergir, se bom senso houver, uma coalizão de forças – espera-se que a custo razoável – que respaldará as ações tão cobradas pelos que ainda acreditam em milagres. Lula não é milagreiro, é apenas um homem do povo que se fez líder capaz e persistente, adotou modos sofisticados, e vence em meio a uma tormenta, precisando mais que nunca da prudência dos que o cercam, da sabedoria dos que o assessoram, de saber transferir o cetro da oposição aos que eram governo, da confiança dos mercados internacionais, da paciência dos que o elegeram e da atenção dos meios de comunicação. Resumindo e citando o cientista político José Murilo de Carvalho: “As dificuldades de Lula serão proporcionais à esperança que criou”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/05/2017. - [O GRANDE CIRCO DE NÓS TODOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-grande-circo-de-nos-todos-jornal-o-estado/): “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe o amanhã”. Drummond citado por Edmílson Caminha. Passei, como todas as pessoas, pelas múltiplas crises brasileiras. Agora, estamos em meio a uma procela gigante. Apesar disso, posso garantir: sairemos todos dessa enrascada a nos consumir no dia a dia. A resposta não será de economistas, sequer dos grandes veículos de comunicação com grandes e pecaminosos anunciantes, dos cérebros acadêmicos e tampouco de deputados federais e de senadores. A grande vitória dessa crise em curso é a união do Ministério Público Federal com a Polícia e os juízes federais. Ao lado deles está a população brasileira. Ou melhor, a parte da população que pensa e consegue estabelecer sinapses sem o ranço partidário ou ideológico. O Supremo Tribunal Federal – STF é a instância última e, por essa razão, há de se comportar de forma moderada, política e consequente, pois depois do STF só há o limbo ou o dilúvio. O Brasil, apesar de todos os desmandos cometidos, continua no seu processo lento de crescimento institucional e econômico, atingido, primeiro, pela ressaca da marola gigantesca de 2008. Não há, todos sabem disso, ninguém imune às crises cíclicas internacionais. Depois, veio a Lava-Jato, quando o Brasil desejava ser um “player”(palavra dos financistas empolados e de tolos repetidores) internacional de primeira linha. Houve exagero nos financiamentos do BNDES, da Caixa, parcerias dos Fundos de Pensão etc. A par disso, houve a megalomania em patrocinar dois grandes eventos internacionais como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas do Rio, de 2016, tudo sob o apoio da grande mídia, a de grandes anunciantes. Sem falar na Copa das Confederações, em 2013. Não precisávamos de tanto ufanismo, participar de sorteios e de desmontar estruturas de alguns estádios, muitos deles em pleno uso e com recentes reformas. A falácia dos “cadernos de encargos” e do “padrão FIFA” foi imposta de cima para baixo. Brasil afora. Não foram só os estádios, mas vias de acesso, shows, aeroportos e tudo imaginável. A FIFA, descobriu-se em seguida, era uma grande empresa internacional dirigida por pessoas rastreadas pelos órgãos dos EEUU. Deu em prisões e banimento. O Rio de Janeiro, da mesma forma, foi revirado de ponta cabeça, bilhões gastos por sofrível participação com algumas medalhas já perdendo a coloração. Um grande engano. O Comitê Olímpico Internacional-COI não é muito diferente da FIFA. Há muitas histórias e estórias sobre o sorteio das sedes das Olimpíadas e das copas do mundo. Jornalistas investigativos lançam livros sobre esses processos e do modo como foram escolhidas as empresas que detonaram e reconstruíram estádios. Falar do passado é fácil. Só um cego em gestão pública não sabe que um país em desenvolvimento há que se concentrar em áreas carentes como saneamento básico, infraestrutura, habitação e educação. A “pujança” e exibicionismo acabaram mal. Todos conhecem os desdobramentos dos fatos. Essa minha reiteração patética não é em vão. Apesar dos pesares, sairemos desse e demais malogros compartilhados com os mesmos órgãos de comunicação que hoje fustigam a todos com os desdobramentos dos bravos e preparados trintões, quarentões e cinquentinhas da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal de 1º. Grau. Alguns, que deitam falação, e são meros coadjuvantes, desses circos armados em que nós todos fomos tratados como palhaços. A certeza é que a impermanência vence. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/06/2017. - [SOBRE O QUE ESCREVER NESTES DIAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sobre-o-que-escrever-nestes-dias-jornal-o-estado/): Há uma tendência natural, a todos os que escrevem semanalmente em jornal, a enfocar o cotidiano. O Brasil, desde 2003, virou quase um país “bolivariano”, apesar de não termos o espanhol como língua nativa, tampouco tradição de guerras fraticidas. Vou por este caminho. Simón José Antonio de Santíssima Trinidade Bolívar Palacios Ponte-Andrade y Blanco, nasceu no ano de 1783, em área de domínio espanhol que, depois passaria a ser a Venezuela de hoje. Era filho de descendentes (creoles) hispânicos de posses. Órfão do pai aos três anos de idade. Aos nove, morreu-lhe a mãe. Teve preceptor indicado por tio abonado e, aos 16 anos, foi mandado estudar na Espanha. Aos 19 anos casa-se, em 1802, com Maria Teresa. Volve à América Latina. Sua mulher morre em 1803. Ele, triste, faz votos de nunca mais casar. Retorna à Espanha. Poucos anos após, por atividade política, é expulso de lá e se exila na França, onde fermentavam os ideais de Igualdade, Liberdade e Fraternidade, com foco no Iluminismo. Em 1806, volta a terra berço nesta sul América e começa a lutar pela libertação de sua pátria. Como todos sabem, em 1808, Napoleão – em sua dominação da Europa – invade Espanha e Portugal, daí a vinda fugida da família Real para o Brasil (Colônia). Bolívar participa com San Martin-José Francisco de San Martin y Matorras, argentino, descendente de espanhóis e ex-oficial da Espanha, da Confederação dos países hispânicos, a Grã-Colômbia que produz a independência do Peru, Bolívia, Equador e Colômbia. Parte desse território passa a ser chamado de Venezuela, sob o comando de Simón Bolívar. O fundador do bolivarianismo sofreu duras penas e, por conta disso, exila-se na Ilha de Santa Marta, onde morreu aos 47 anos, em 1830. A Venezuela de hoje, em 2017, está quase em guerra civil por conta de bolivarianismo perrengue que emergiu com Hugo Chávez e permanece. Esta é apenas uma versão que conto. Toda essa conversa foi para tentar fugir da História do Brasil que, com a da queda de Napoleão, volta da família Real a Lisboa, em 1821, levando muito mais ouro do que trouxera. O Brasil passa a ter um Príncipe Regente, D. Pedro I, ainda imberbe que, em 07 de setembro de 1822, viria a dar o “Grito do Ipiranga”. Sem nenhuma gota de sangue derramada, estabelece a separação da Colônia do Reinado de Portugal. Esse mesmo “nosso” libertador, D. Pedro I, passa, poucos anos depois, a ser D. Pedro IV, para os portugueses. A estátua dele fica no Rossio, no centro de Lisboa. … Vem a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, outra ação pacífica entre amigos e fruto de falso boato da prisão de Deodoro. Alguns do próprio governo imperial (Rui Barbosa, inclusive), positivistas, maçons e os do comércio, formaram esse Governo Provisório que começou oferecendo cinco mil contos ao ex-Imperador D. Pedro II, que os recusou, e partiu para o exílio. Instituiu-se um ministério com oito componentes, com civis e militares. No curto período de dois anos houve fechamento do novo Congresso, Estado de Sítio, censura à imprensa e a renúncia do 1o Presidente, que também era Grão-Mestre da Maçonaria. Estamos, neste junho de 2017, igual, melhor ou pior do que começamos? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/06/2017. - [VOLTANDO O CALENDÁRIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/voltando-o-calendario-jornal-o-estado/): A votação no Tribunal Superior Eleitoral foi 4 a 3, a favor da cassação da chapa presidencial Dilma- Temer. O Presidente Temer resiste, entra com recurso ao Supremo Tribunal Federal-STF. Há dúvida, se será decidido por ministro, turma ou pleno. Fachin, antecipa-se, nega efeito suspensivo. O interino legal da Presidência da República é Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, do DEM, do Rio de janeiro. Ele aproveita alguns ministros do Governo Temer. Destrona outros. Há brigas entre deputados e senadores ao indicar novos nomes, todos velhos conhecidos, no terceiro rateio de ministérios, estatais, agências, BNDES, Banco do Brasil, Caixa, cargos nos Estados, no Distrito Federal e tudo o mais que compõe o complexo organograma do Governo Federal. Os jornais aumentam tiragens e as televisões fazem contínuas transmissões ao vivo. Raul Jungmann é mantido no Ministério da Defesa. As Forças Armadas ficam de sobreaviso. Estados, em conjunto, decretam ponto facultativo para evitar tumultos. Temer, aconselhado por Romero Jucá, não sair Palácio do Jaburu, como se nada tivesse acontecido no Planalto. Governos paralelos. Uma das alegações é que o meio ano letivo do Michelzinho ainda não terminou. Estamos em período em que os partidos fazem sondagens para um novo governo de coalização. O Brasil fica sem chanceler. Faltou nome de consenso. Três embaixadores devem ser removidos. Embalaram pertences, mas o Itamaraty não tem quem autorize os traslados. A Chikungunya faz mais uma vítima, o jovem e robusto Presidente da Câmara/República, Rodrigo Maia. Tem febre alta, convulsões e se faz necessário o rápido internamento em grande e bem cotado hospital. Passam-se dois dias discutindo que ele não deve ir para o Sírio Libanês ou o Einstein, em São Paulo. É honroso ir para o Rio de Janeiro, a terra natal de Maia. Neurologista famoso é consultado, e, naturalmente, indica a sua clínica carioca. A Segurança da Presidência faz restrições ao local, por ser próximo de comunidades. O Estado de Maia se agrava e o novo Ministro da Saúde, Senador Ronaldo Caiado, decide o impasse. Vai mesmo para São Paulo. Três dias se passam e as tarefas burocráticas, interrompidas, embora assinadas, teimosamente, por Temer. Índios do Pará marcham, acompanhados de membros do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, para desagravo em Belém do Pará. Marina Silva chega para acompanhar a marcha. Pretendem bloquear o Mercado Ver o Peso e o Aeroporto Val de Cãs. Não há quem autorize a concretização da concorrência para o trecho que ligaria Milagres, no Ceará, às sonhadas águas do Rio São Francisco. Deputados e senadores cearenses ficam indignados. Há greve nos portos de Paranaguá e de Santos, em solidariedade a Michel Temer. O VLT do Rio é incendiado por manifestantes e membros de comunidades invadem o Museu do Amanhã. Em São Paulo, os ex-ocupantes da Cracolândia resolvem fazer marcha pela Avenida Paulista e ocupar o vão do Museu de Arte de SP- MASP. Brasileiros de Nova Iorque levam bandeira e batucada para o Central Park. A polícia local os prende. O jato da FAB pousa em Congonhas e Rodrigo Maia é levado, sob escolta, para o Einstein. Febre de 40º, sudorese excessiva e incapacidade de falar sobre as suas queixas por problema na glote. Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva chegam juntos para visitar o enfermo presidente, mas não têm êxito. Maia está em isolamento, em face da gravidade do quadro. Cai uma chuva forte seguida de rajadas de vento, fico molhado e acordo. Sonho doido. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/06/2017. - [AO BALANÇO DA LEITURA BRASILEIRA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ao-balanco-da-leitura-brasileira-jornal-o-estado/): “Os leitores são os meus vampiros”. Ítalo Calvino Semana passada, escrevi sobre a baixa remuneração dos professores e a consequência disso no fraco aprendizado do brasileiro. Hoje, vou repassar para vocês as informações que a Câmara Brasileira do Livro, a Fundação de Pesquisas Econômicas, o Ibope Inteligência, o Instituto Pró-Livro e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros tornaram públicas na edição do dia 02 deste junho, do Caderno Eu&Fim de Semana, do Valor. Foram lançados 51.819 livros em 2016, menos 1,16% do que os 52.427 publicados em 2015. De qualquer forma, são 427,2 milhões de exemplares. O total das vendas desses exemplares corresponde a 5,27 bilhões de reais. É um número razoável, não fosse a quantidade de brasileiros aptos a comprar um livro e não o fazem. Desses 5,27 bilhões foram gastos 1, 40 bilhões de reais em aquisição pela administração pública federal, estadual e municipal. Nesse trabalho está dito que 56% dos brasileiros admitem ser leitores. Indagados se gostam de ler, as respostas foram: 30% gostam muito, 4% não sabem ler, 23% não gostam de ler e 43% admitem que gostam um pouco. Indagados se compraram um livro nos últimos três meses, 26% afirmam ter adquirido. Enquanto isso, 74% falaram que não. O que parece ir ficando claro é o provável desapego da maioria dos brasileiros pelo hábito da leitura, pois 30% nunca compraram um livro sequer. Por outro lado, neutralizando o fato, 31% afirmam que compraram um livro nos últimos três meses, enquanto 6% dizem que o fizeram nos últimos seis meses. Os que leem são influenciados pelos fatores a seguir: assunto(30%), dicas de terceiros (11%) autor (12%), título (11%), cap a(11%), dicas de professores (7%), críticas ou resenhas (5%), publicidade (2%), editora (2%), redes sociais (1%), outro (1%) e 8% não sabem ou não responderam. Sei que ler números não é prazeroso para muita gente. Todavia, os que compram livros, influenciados pelos fatores acima, necessariamente, não concluem as suas leituras, mas isso não foi levantado pelos que compõem o mercado editorial brasileiro que está em crise. Comprar não significa ler. O que me alegrou foi o fato do Nordeste possuir 26,2 milhões de leitores que são comprados por 25% da população. No Sul, ao contrário, só há 13,7 milhões de leitores. O Sudeste fica com 48,3 milhões de leitores, enquanto o Centro-Oeste conta apenas oito milhões de leitores, o mesmo número que a região Norte. Como se vê, apesar de não termos grandes editoras, ficamos em segundo lugar, leitores, perdendo apenas para a região Sudeste. De tudo o que foi enumerado e dito, conclui-se que estamos um passo atrás dos leitores europeus. Ora direis, eles têm tradição em leitura. Por essa razão é que devemos tentar ultrapassá-los. Em outra fonte, fica claro que a Bíblia é, bem longe dos demais, o livro mais lido ou consultado do planeta Terra apesar dos cristãos não serem, longe, a maioria, dos habitantes. Vou ficando por aqui. Não poderia deixar de dizer, mais uma vez, que esta semana é crucial para o Brasil, o país das crises ininterruptas. Os brasileiros estão todos ressabiados e crentes que um milagre aconteça. Afinal, Deus é brasileiro e o Papa é “hermano” argentino. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/06/2017. - [QUEM SALVA OS PROFESSORES? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/quem-salva-os-professores-jornal-o-estado/): “O homem não é nada além do que a educação faz dele”. Immanuel Kant Sábado passado foi dia chuvoso. Tempo de ler. Debrucei-me sobre um caderno especial da Folha: “Inovação Educativa”. O que isto quer dizer? Passo a vocês parte do que li. Desculpem pelos números. São necessários ao entendimento. Se é que assimilei. Neste país de mais 200 milhões de habitantes há oito milhões de pessoas matriculadas em ensino superior. Equivale a dizer que 4% da população cuida de estudar mais. Desses, quase um milhão e 500 mil optaram por cursos de licenciatura. Na licenciatura são formados professores. Quando se fala em licenciatura é preciso dizer que cursos a integram. Pela ordem, são: Pedagogia (44% do total), Educação Física (11,4 %), História (5,9%), Matemática (5,6%), Ciências Biológicas (5,3%), Geografia (3,5%), Química (2,3%), Letras/Língua Portuguesa (1,3), Letras/ Português e Inglês (1,9%) e Letras/ Inglês (1,7%). Os cursos dividem-se em presenciais (63,6%) e a distância (34,6%). Embora 74,6% sejam originários de escolas públicas de ensino médio, há uma escolha majoritária dos estudantes na área por cursos superiores de licenciatura privados (61,3%), talvez por serem noturnos, baixos preços e pouco exigirem de conteúdo. Só 38,7% optam por universidades e faculdades públicas. Os dados são do Censo de Educação de Ensino Superior Inep-MEC, 2015. O que isso nos leva a concluir? Peço ajuda a Paulo Saldaña, da Folha, e a tantos outros que participaram do 2º. Fórum de Inovação Educativa, realizado há pouco na capital de São Paulo. Por que nós temos um nível baixo de ensino nos cursos médios? Muitos professores desistem de ensinar, 20% alegam o desrespeito dos alunos. O baixo salário desestimula outros 17%. Priscila Cruz, fundadora e executiva do movimento “Todos pela Educação”, diz que “a sociedade precisa superar a ideia de que professores se equiparam a sacerdotes, que devem trabalhar por amor. Temos de tratá-los como profissionais”. Os salários dos professores ficam bem abaixo do que o mercado paga a outros profissionais com a mesma escolaridade, em outras áreas. Em tempos de crise só se fala em cortes, mas se os professores não forem valorizados a situação não melhorará e o Brasil não produzirá eleitores com senso crítico para avaliar candidatos. Logo, tudo voltará. A ideia tida como nova é o ensino investigativo e isso está na recente Base Nacional Comum Curricular. Teresa Pontual, diretora de currículos e de ensino integral do Ministério da Educação, assevera: “A base nacional traz os conteúdos que os alunos têm que aprender o que já é um avanço. Mas a gente não consegue garantir que os professores saibam os conteúdos que precisam ensinar”. Data venia. Peço permissão para responder a Sra. Teresa Pontual. O que não se consegue garantir é que os professores ganhem o suficiente para manter as suas famílias e, um pouco, para aprimorar os seus conhecimentos. O resto é consequência da baixa remuneração. O cadeado do saber só se abre com motivação e salários justos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/06/2017. - [ONTEM E HOJE NO BRASIL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ontem-e-hoje-no-brasil-jornal-o-estado/): Muitos homens, como as crianças, querem uma coisa, mas não as suas consequências. Ortega y Gasset (1883-1955), filósofo espanhol. Muitos homens, como as crianças, querem uma coisa, mas não as suas consequências. Ortega y Gasset(1883-1955), filósofo espanhol. A política vai mal. A gente de Bernardes é de inépcia rara. No Clube Militar escolheram uma comissão, cujos membros têm de declarar autênticas as famosas cartas. Trabalham secretamente como se fossem inquisidores, e os bobos hão de agitar a opinião, declaram-se satisfeitos e esperam passivamente a bomba para protestar depois do estouro. A situação resume-se em duas palavras: bernarda com o rio de lama e dos crocodilos, bernadice com o candidato das alterosas…Tudo quanto for afastar-me do ano de vergonheiras máximas que há de ser o do Centenário me seduz. O texto é do meu patrono (de letras) João Capistrano de Abreu. Foi escrito em 07 de dezembro de 1921 em carta -Correspondência, Volume 3, pag. 60- a seu amigo Sombra (Luís Pena Sombra,). São passados quase 96 anos e parece que o Brasil não mudou muito. “A política vai mal”, igual a deste final do mês de julho de 2017. Já se invocavam os militares, como os que hoje acreditam que gente fardada possa resolver as nossas mazelas desde o Império (lembra de Deodoro e o que deu?), pois daqui a um lustro, chegaremos ao segundo Centenário do Brasil independente. “Os bobos hão de agitar a opinião”, e como se agita, mestre Capistrano. Sei do seu repúdio ao que acontecia na capital do Brasil de então, o Rio de Janeiro. Hoje, a capital é outra, feita por gente das “alterosas”. De forma rápida e cara. A propósito, houve recentemente rios de lama no interior das Minas Gerais com o rompimento de barragens. Detalhe: uma pequena porção de índios-nada contra eles – que morava por perto da área atingida, vive folgazona, pois cada um está recebendo nove salários mínimos por mês. Muito dinheiro para não fazer nada, acredite. Hoje, historiágrafo Capistrano, há 627 mil funcionários públicos civis ativos no país, perto da metade são do Ministério da Educação, mas, acredite a instrução e o conhecimento do nosso povo, são parcimoniosos. Ainda há muitos analfabetos e alguns outros apenas sabem garatujar o nome. Vou dizer um número e não sei como traduzi-lo para o ilustre mestre. No ano passado, o Brasil gastou 258 bilhões de reais (a nossa moeda de agora, embora sejamos uma República) com esse amontoado de gente. Diz a imprensa de hoje, bem diferente do seu tempo em que tudo saía nos jornais, segundo as conveniências. Agora, os jornais são apenas um dos meios de comunicações. Alguns, ainda com conveniências. Há outros meios que foram surgindo e quase todos os viventes dão palpites em quase tudo. Muitos são inconvenientes, outros são inconsequentes. Salvam-se poucos. Fico triste em dar notícias assim ao senhor. Na verdade, não sei sequer se irá lê-las. A propósito, poderia me dar um sinal de que a eternidade existe? Do seu afilhado e admirador póstero. João, também. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/07/2017. - [A GRAVAÇÃO, A DELAÇÃO E O FUTURO INCERTO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-gravacao-a-delacao-e-o-futuro-incerto-jornal-o-estado/): “De delação em delação, nunca vai acabar a confusão.” Ouvido em boteco Em todo o estardalhaço da imprensa, da televisão e da Internet feito sobre o grupo J&S/ JBS, a melhor reportagem, ao meu talante, foi a publicada no dia 07 deste julho, no Caderno Eu&Fim de Semana, do Jornal Valor. O Caderno Eu&Fim de semana é publicado às sextas-feiras e mistura economia, gestão, finanças, política, cinema, entrevistas, reportagem e cultura. Confesso, ao meu olhar, a parte mais interessante é a de Cultura. Entanto, quero chamar a atenção de todos para a reportagem de capa “A Saga da JBS”. Ela pode ser vista nas redes sociais ou no site do Jornal “Valor”.É trabalho de fôlego escrito pelos jornalistas Luiz Henrique Mendes, Vanessa Adachi, Fernando Torres e Francisco Góes. Além deles, colaboraram Fernando Lopes, Stella Fontes e Fábio Murakava. São 10 páginas escritas em letras de tipo pequeno. Sugiro ao Jornal “Valor” transformar essa reportagem, depois de aprofundada, em livro. Um senão é citar fontes sem nomes. Invocam motivo de segurança, mas empobrecem a reportagem. No livro, quem sabe, poderiam ir mais a fundo e identificar algumas fontes, se elas não tiverem medo de sofrer represálias. A história começa no interior de Goiás, em 1953. José Batista Sobrinho – JBS, conhecido por Zé Mineiro, cria a “Casa de Carnes Mineira”, em Anápolis, com entregas a domicílio. Anápolis é próxima de onde seria fundada Brasília. Poucos anos depois, surgia JK – Juscelino Kubistchek de Oliveira, empossado presidente em 1956, no Rio de Janeiro, capital do país. JK havia sido prefeito de Belo Horizonte e fez a barragem da Pampulha, entre outras obras públicas. Conhecia, e bem, arquitetos e empreiteiros. O slogan “50 anos em cinco” era o mote para a identificação do local, até invocando São João Bosco (em sonho ele teria indicado o local entre os paralelos 15 e 20 do hemisfério sul). As obras começaram e Zé Mineiro passou a ser fornecedor de carnes para centenas de empregados das empreiteiras. O crescimento, a partir da Friboi, em 1970, foi exponencial. Cresceu, cresceu e cresceu. Expandiu-se em outras áreas e criou base multinacional. O foco deste relato é apenas dar destaque à delação premiada de Joesley Batista, depois da gravação sub-reptícia, às horas tantas da noite, no Jaburu, nome esquisito de Palácio. Temer, político por décadas, se deixa encantar com a conversa do maior processador de proteína animal do Brasil, financiador de campanhas para todos os partidos. O resultado é o estado caótico da política, depois da possível entrega de Michel Temer, pela Câmara dos Deputados, para ser julgado no Supremo Tribunal Federal, com afastamento liminar por 180 dias. Ressalte-se, por oportuno, o vento a favor do Ministro da Fazenda, Henrique Meireles, até bem pouco, presidente do Conselho da JBS. Vá entender o Brasil. Eu não consigo, embora tente. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/07/2017. - [O QUE É PÓS-VERDADE? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-e-pos-verdade-jornal-o-estado/): Estou estudando o adjetivo “pós-verdade” (post-truth), considerado pelos Dicionários Oxford, da Universidade de Oxford-Inglaterra, como a palavra do ano de 2016. A expressão pode ter sido criada em 1992 pelo sérvio Steve Tesish, dramaturgo. O que me alerta é o dístico da Oxford ser “Dominus illuminatio mea”, a nos remeter ao Salmo 27. Agora, ninguém nos ilumina. Vejamos o que o dicionário Oxford diz sobre Pós-Verdade: “Um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que o apelo à emoção e as crenças pessoais”. Desejo historiar – audácia minha- acerca desse fenômeno que se difundiu de forma exponencial em camadas cultas, na área filosófica e na política de grandes jornais. A aceleração da divulgação da “pós-verdade” decorre das divulgações em todos os modais da Internet (e-mail, WhatsApp, Facebook, Instagram, blog etc) e das mídias convencionais, que se renderam ao uso. Refleti, e resolvi pedir a amigos doutos que dissertassem sobre o assunto. Esta é a primeira parte. Alguns pedem para não citar o nome. Respeito. Direi algo sobre a formação de cada um: PhD em História: “ Já é tão usado aqui. Ninguém que escreve bem o usa. Mas meu neto adolescente, ontem ficou assustado se isso seria uma palavra que ele, –já sabe tudo –essa palavra não existe. Nem a sua máquina falante, e nem seus amigos nos EUA a conhecem. Quer dizer, quando você escrever sua coluna sobre essa palavra o uso dela vai revelar para muita gente no Brasil uma novidade. Nós, aqui, na Alemanha, estamos curiosos. O físico e filósofo suíço Eduard Kaeser vê na era “postfaktisch” o perigo de uma `democracia de uma sociedade que não quer saber nada/prefere ficar ignorante dos fatos` – como consequência da avalanche de informações no mundo digital, a diluir padrões essenciais e básicos como a objetividade e a verdade. O estilo de fazer política de Trump muitas vezes é entendido como post-truth. Romancista: “A filosofia sempre se ateve a discussões sobre o significado da verdade, da justiça, da ética, dentre outros termos de não somenos importância para a condição humana. Em 2016, a pós-verdade ganhou destaque. No mundo moderno agitado e movido pelas redes sociais, a verdade perdeu status, cedendo espaço para a pós-verdade. O que se posta adquire significado de verdade quase absoluta, quase incapaz de ser desmentida ou questionada. Curiosamente, a pós-verdade está aquém da própria verdade, e não além, como o termo supõe”. Ednilo Soárez, historiador: “A expressão “pos-truth” pode ser uma consequência do universo que vivemos nas comunicações digitais, nas quais as pessoas não se conformam mais em ser apenas “figuração”. Quase todas aspiram ao papel de protagonistas, daí, querem interpretar os fatos lastreados nas suas emoções, dando-lhes suas interpretações próprias”. Eduardo Diatahy PhD, Emérito da UFC–Não sei para que inventar um “conceito” novo se estamos em face de fenômeno tão antigo? Em seus processos cognitivos, a humanidade sempre se debateu com a intervenção dos aspectos emocionais, cuja importância de fato é imensa, pois que razão pura só existe na cabeça de Kant ou é como água destilada, que é pura, mas ninguém bebe. Estou mais ou menos convencido que esse rótulo de pós-verdade aguarda sua vez na lata de lixo da História, visto fazer parte de muitos outros “pós-“ que andam por aí a poluir o ambiente. Todavia, louvo seu esforço em busca de esclarecimento. Mas não se esqueça da palavra de Max Weber, em sua célebre conferência Wissenschaft als Beruf (1917): «Pois nada que ele não possa fazer com paixão tem valor para o homem enquanto homem». Este não é o final. Temos outras reflexões a mostrar. Aguardem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/01/2017. - [AS FLECHAS DE SEBASTIÃO E O DIA T DE TRUMP - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-flechas-de-sebastiao-e-o-dia-t-de-trump-jornal-o-estado/): É hoje, 20 de janeiro de 2017, a data em que o Rio de Janeiro, em pleno verão, se esbalda pelas praias e morros face o feriado pela morte de São Sebastião, duplamente festejado pelos católicos e umbandistas. Viva Oxóssi. São Sebastião, século IV, possui história controversa. Na iconografia em que aparece preso a uma árvore e flechado, não foi o dia de sua morte. Conta a história que uma mulher, Irene, o viu exangue, retirou as flechas, uma por uma, e o curou. Irene virou Santa Irene. Sebastiao voltou ao Rei Diocleciano e o afrontou. Assim, pela segunda vez, o Monarca mandou exterminar, a pancadas, o intrépido combatente da fé. Morto, jogado aos esgotos de Roma. Voltando ao Rio: Reza a lenda que São Sebastião, espada em punho, teria lutado quando da expulsão dos franceses. Os padres Anchieta e Manoel da Nóbrega, o fundador do Rio de Janeiro, Estácio de Sá, com a ajuda milagrosa dos gentios e de São Sebastião (que desviava as flechas desferidas pelos índios Tamoios, aliados dos Franceses) conseguiram, enfim, retomar a cidade dos calvinistas huguenotes, em um dia 20 de janeiro. A cidade é, entretanto, chamada de São Sebastião do Rio de Janeiro, desde 1565, em homenagem ao Monarca D. Sebastião I (introdutor do sebastianismo, mas isso é outra conversa). O povo, até hoje, vela e acredita na espada milagrosa de São Sebastião. Em razão disso, e por ser feriadão a prenunciar longo “dolce far niente” nas praias e nos morros, nos botecos e nas tabernas no Rio, de todos nós, o povo estará tomando cervejas e cachaças com tira-gostos de todos os tipos, esquecendo os dramas brasileiros e as dívidas do governo Pezão. Saravá. Enquanto isso, neste mesmo dia, a bela esplanada da capital dos Estados Unidos, Washington, D.C, planejada com arrojo e classe pelo arquiteto francês Pierre Charles L’ Enfant, inaugurada em 1800, estará recebendo, a cerimônia pública da posse de do Trump, como o 45º. presidente dos Estados Unidos. Tudo será visto ao redor do mundo, inclusive no Rio, e mostrará temperatura de 4º graus, com possibilidade de chuva, e vento frio soprado do Rio Potomac. Não devemos antecipar como será a cerimônia, mas nos cabe, neste dia, torcer para que os espíritos de A. Lincoln, G. Washington, H. Truman e do imolado J.F. Kennedy possam sobrepairar, tal como São Sebastião fez com o Rio de Janeiro, e dar ao novel ocupante da Casa Branca o equilíbrio necessário para a condução dos Estados Unidos, neste mundo em que qualquer “nerd” ou fanático pode precipitar acontecimentos indesejáveis. Que as trombetas deem discernimento e equilíbrio a Trump. Na maturidade dos seus 70 anos, recostado nos novos travesseiros e colchão da suíte presidencial, invocar os antepassados ocupantes daquele aposento, ora retrofitado. Possa, enfim, dormir em paz e acordar ciente das duras responsabilidades que lhe cabem pelos próximos quatro anos. Good Luck. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/01/2017. - [FELIZ POR TUDO, POR NADA E PLATÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/feliz-por-tudo-por-nada-e-platao-jornal-o-estado/): Vou ficar contente por estar vivo, por morar em um país em que não há terremotos e avalanches de neve, as novelas de TV são picantes e coloridas, há bons jogos de futebol onde as torcidas são animadas, mas corteses. Vou usar o grande tempo em que passo dirigindo para ouvir as músicas pacientemente escolhidas: Tiririca, Wesley Safadão e duplas sertanejas. Tampouco, reclamarei se me oferecerem água “mineral” a R$1,00 a garrafa batendo no vidro do meu carro. Tirarei fotos dos comedores de fogo, dos esquálidos meninos acrobatas com roupas esfarrapadas e dos afáveis “flanelinhas” sempre risonhos, com suas bisnagas e apetrechos. Escolhi a “Hora do Brasil” como programa de rádio favorito ao começo de cada noite. Aos domingos, optarei pelo Faustão, tão bem vestido, educado e legítimo representante do humor cordial. Ouvirei prédicas em emissoras pentecostais e as compararei com as suas congêneres católicas. Anotarei todas as contas bancárias para onde deverei mandar dízimos e comprarei terços, medalhas e imagens pela Internet. Estou pensando seriamente em fazer uma nova excursão à Terra Santa, quando arriscarei fazer as pazes entre alguns judeus e palestinos. Na volta, pararei em Roma onde há um curso sobre “Desburocratização do Vaticano”. Gravarei esses ensinamentos e repassarei para alguns “coaches”, exímios resolvedores de problemas empresariais, familiares e pessoais. Pagarei, sem reclamar, os juros altos do meu cartão de crédito e ficarei feliz em colaborar para o desenvolvimento do sistema bancário brasileiro, tão solidário com o povo sofrido. Ouvirei palestras de ex-diretores do Banco Central e me encantarei em ler artigos de ex-detentores de cargos públicos, sempre disponíveis para solucionar os fáceis problemas que encontraram e não resolveram. Acreditarei em todas as reformas propostas e aplaudirei os que, aos domingos, tomam banho de sol na Avenida Paulista. Uns de bicicleta, outros empurrando carrinhos de bebês que não choram e até aquele ex-bancário gorducho sentado na velha espreguiçadeira deixada pela tia setentona abrigada em excelente casa de repouso para idosos. Nada de falar de Gramsci, Marx, Deleuse e Guattari, dou a palavra a Platão na “República”, quando diz: “aquele que verdadeiramente gosta de saber, tem uma disposição natural para lutar pelo Ser, e não se detém em cada um dos aspectos que existem na aparência, mas prossegue sem desfalecer nem desistir de sua paixão, antes de atingir a natureza de cada Ser em si”. Falou! João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/01/2017. - [DE VOLTA AO COMEÇO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-volta-ao-comeco-jornal-o-estado/): Parodio Drummond, em “Passagem do Ano”. A meu ver, o último dia de qualquer fato/ não é o último dia da vida. Começamos o ano de 2017 com o peso da experiência vivenciada em 2016. As lembranças, telefonemas, cartões, e-mails, WhatsApp e outros aplicativos nos deixaram, mesmo de passagem, mais próximos dos que compõem o nosso mundo familiar, afetivo, social, cultural e profissional. Cada um, ao seu modo e circunstância, já teve a noção exata ou aproximada do que e como a avalanche nos atingiu. Se você passou incólume, dê graças e sorria para o mundo benfazejo. Aos demais, aqueles que a sentiram, no bolso e na alma, o meu apoio e abraço. Não há lógica neste mundo cibernético a se falar demais em algoritmos, que são, na versão atual, aquilo que se fazia automaticamente, sem saber a inter-relação de atos simples como colocar um carro em movimento (introduzir a chave – ou o controle remoto – e abrir a porta, sentar no banco do motorista, acionar o motor e dar marcha ao veículo, sem esquecer-se do que possa ser visto no retrovisor, nos espelhos laterais e pelo para-brisa, tudo junto e misturado), o tráfego ou o mundo no nosso entorno. Estamos neste janeiro de calor acentuado, expectantes em relação aos destinos das mudanças climáticas e das institucionais, ainda em curso. O país está atolado no terceiro mundismo a que se acostumou nestas quase duas dezenas de anos do século 21. Como mudar isso com o que somos e o saber acumulado? Afora os afortunados funcionários públicos de alto escalão, os demais estão reticentes e atônitos com as incertezas públicas. Em contra partida, lembro existir um axioma a dizer: “Todo aquele a parar esperando as coisas melhorarem, verificará, bem cedo, que aqueles que não pararam e colaboraram com o tempo, estarão tão longe e jamais serão alcançados”. Esse o dilema dos brasileiros, entre os quais os 12 milhões de desempregados, e os que, por conta própria, lutam a cada dia para superar obstáculos em país cartorial e excessivamente regulador e fiscalizador dos nossos mínimos atos. Este mês de janeiro, no mundo real, surge com a obrigação de pagar além das contas de água, luz, telefone e cartões de crédito, o Imposto Territorial de Propriedade Urbana –IPTU e o IPVA, aos felizes detentores de imóveis e veículos. Para os optantes pela educação privada dos filhos é tempo das matrículas em colégios e cursos superiores, sem esquecer o material escolar. Voltamos ao dia a dia: trabalho, telefonemas, olhos nos jornais, nos blogs e nas emissoras de rádio e de televisão, com expectativas de mudanças a nos injetar ânimo para continuar a jornada. Obrigado pela leitura. Não esmoreça. Lute. Abraço cordial. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/01/2017. - [DE TANTO OUVIR, PASSO ADIANTE O QUE ME PEDEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-tanto-ouvir-passo-adiante-o-que-me-pedem-jornal-o-estado/): Agradeço por estar lendo este artigo. Sei estar o Brasil com doze milhões de desempregados. Se cada um deles for responsável apenas por outra pessoa, teremos 24 milhões. Isso representa cerca de 10% da população nacional. Que o país está em crise, todos sabem. A crise não é só econômica, por razão de empresas a fechar e deixar rastros de dívidas. A crise é o resultado de tudo a acontecer nos três vértices de um triângulo imaginário: os bancos mandam na economia; os políticos fazem (ou faziam) o que querem e as grandes empresas recebem todas as benesses em editais bem urdidos. Fala-se muito na “Lava Jato”, mas há outros tantos vieses de uma estrutura contaminada pela ganância dos bancos a emprestar ao governo- com retorno seguro – e a cobrar inacreditáveis 450% de juros ao ano aos portadores de cartões de crédito. Em qualquer loja de departamentos há oferta (“Demora nada. É rápido”) de cartões de todas as bandeiras. E o processo de sedução oferece descontos, milhas para viagens etc. Aí começam as dívidas. Tome SPC, Serasa e advogados. As empresas brasileiras foram acostumadas a aliar-se ao poder. O poder tem glamour e obras a ofertar. Qualquer que seja ele. As empresas, se não aceitam o jogo, simplesmente saem do radar das grandes obras, das médias e até das pequenas. Não precisa de nenhum algoritmo para descobrir como funciona. Os adiantamentos não saem, pagamentos atrasam, naturalmente. Só os recebem os interlocutores a descobrir os caminhos ínvios. Cria-se um grupo de empresas “confiáveis” e os editais, detalhistas, dão as sutilezas para a vitória. Cria-se um rodízio, consórcios, cartéis e todos são beneficiados. Isso funciona em todos os níveis e não apenas na Petrobras. Até o acento da palavra foi roubado. De repente, um grupo de jovens juízes, bem preparados e corajosos, resolve enfrentar e afrontar um poder carcomido pelo compadrio remontando ao século passado, a atuar de forma sistêmica, usando os recursos da tecnologia para desvendar o bem e o mal. Estamos apenas no terceiro ano da Lava Jato. Há sinais de exaustão, transferências e ameaças veladas. Até no exterior juízes poliglotas sofrem com a algazarra dos que, remunerados, agem para desacreditá-los. Já disse e repito pelos outros, vejo poucas saídas para um país engolfado nesse corroído sistema de troca de favores. As bravatas com outras nações desta sul América, governada sob a égide de um pan-americanismo chinfrim, perde força. Estamos em fevereiro, carnaval às portas, cidades sendo fechadas e assaltadas por sequazes dos que, em lugares guardados pelo Estado, enviam ordens para queimar ônibus, atiçar o ódio de incautas mulheres de policiais contra os governantes de cofres vazios, à espera de milagres em tempos incréus. Como disse no título, escrevo o que ouço. E o que me pedem. Julguem vocês João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/02/2017. - [VERDADES E DÚVIDAS - João Soares Neto](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/verdades-e-duvidas-joao-soares-neto/): Voltamos a reexaminar o discorrido na sexta passada. Somos ou não verdadeiros? Por qual razão a Oxford University, escolheu “post-truth” como a palavra do ano de 2016? Terá sido por conta da saída da Inglaterra da Comunidade Europeia, no plebiscito que optou pelo “Brexit”, desoxigenando a força dada ao Euro, embora, nos seus domínios, só usasse a Libra Esterlina? Ou terá sido pela eleição de Donald Trump à Casa Branca e as suas performances diárias? Como da vez anterior, pedi a alguns “experts”, todos de maior dimensão do que este escrevinhador, para dar uma visão centrada a nos retirar do limbo. Fiz alguns cortes por conta do espaço. Obrigado e desculpem. Filomeno Moraes, Doutor, Unifor, diz: “A “pós-verdade” (e a sua variante mais recente, a dos “fatos alternativos”), substituindo o “homo sapiens” pelo “homo videns” e acentuando a idiotia do politicamente correto, da manipulação marquetológica e do engano ou autoengano, sobretudo no plano da política, ao contrário daquela promessa, é o destino nestas primeiras décadas do século XXI. Em suma, a marcha batida da insensatez por meio da alienação, da cobiça e da covardia moral que brutalizam a vida humana, alhures e… aqui, parece dizer aos últimos herdeiros da herança iluminista que a nossa república não é neste mundo.” Antônio Torres, da Academia Brasileira de Letras: “Não será pós-verdade uma forma sintética de um dizer antigo de que “o que importa não são os fatos, mas suas versões?”. Paulo Elpídio de Menezes Neto – Cientista Político: “Ela surge, de fato, pelos desvãos das redes sociais. Mas é com o escritor americano Ralph Keyes que ganha dimensão política. Maquiavel já o pressentira e identificara nos discursos e nos gestos e atitudes dos homens do poder. O “Post- Truth Politics” é uma forma de mentira, o laço pelo qual os atores políticos arrancam o apoio dos eleitores, dos súditos, ao dizerem o que as pessoas desejam ouvir. É o “pós factual”, o que se poderia chamar de “truthiness”, quando se toma uma coisa por verdadeira sobre a base de simples pressuposto afetivo. A “pós verdade política” corresponde ao fim da objetividade na política”. Antônio Colaço Martins – Reitor da UVA – “levanto duas hipóteses: se o “pós” da expressão “pós-verdade” foi usado no sentido temporal, ressalta a historicidade ou transistoricidade da verdade e suas consequências. Com efeito, historicamente, o que foi é, ou seja, continua a ser, de certo modo, em suas consequências ou desdobramentos; se o “pós” foi utilizado para significar “para além de” põe em evidência algo a mais, algo superativo da ordem objetiva ou subjetiva, como por exemplo, as emoções e crenças advindas “pós-verdade”. Neste sentido, diz-se que, para ornar a grandeza de um ser humano, além da verdade, é mister que apresente bondade e simplicidade como “pós-verdades”. Na esteira de Sócrates, dos Estoicos e de Santo Agostinho, Tomás de Aquino (1225-1274) reconhecia o valor noético da afetividade. Blaise Pascal (1623-1662) doutrinou que o coração tem razões que a própria razão desconhece e opôs as “ideias emocionantes” às “ideias claras e distintas” de Descartes (1596-1650). Sören Kierkegaard (1813-1885) é ainda mais dogmático ao concluir que: a subjetividade é a verdade. Nicolai Alexandrovitch Berdiaef (1875-1948), sem tergiversar, afirma o primado cognoscitivo do coração sobre a razão, da existência subjetiva sobre o mundo objetivo. Assevera com todas as letras: é o homem total que conhece, mas é o coração que está no centro do homem total”. Clareou? Admitindo que permaneçam dúvidas, voltaremos ao assunto. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/02/2017. - [O DURO ENCONTRO COM A REALIDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-duro-encontro-com-a-realidade-jornal-o-estado/): “O mistério do galo não está na ilusão de que ele seja capaz de fazer nascer o sol, mas em que seu canto anuncia a existência do sol, mesmo ainda por nascer”. Cacá Diegues Conheço pessoas inteligentes, lidas, capazes, independentes e até bem-sucedidas, mas, apesar disso, não tiveram a coragem de marcar o encontro com a realidade. Vivem de deslumbramento. São infelizes. Esse encontro real é duro, fere profundamente e, na maioria das vezes, deixa sequelas. É preciso ter coragem para assumir o risco desse encontro. Não importa seja jovem ou velho, bonito ou feio, alegre ou triste, rico ou pobre, hétero ou gay, crente ou ateu, casado ou não; o importante é o encontro. Mesmo quando alguém ou circunstâncias forçam esse acontecimento, se ele aconteceu não fuja dele, não se esquive com o manto das aparências. Elas nada cobrem e despem até o nu por natureza. Esse encontro é um acerto de contas com o passado e um compromisso com o futuro. É aquele compromisso definitivo consigo mesmo, referido por Goethe. A partir desse encontro – Goethe diz – começa a acontecer todo o tipo de coisas para ajudar a você. Ele não aconteceria se esse compromisso não existisse. Uma torrente de eventos emana das decisões favorecendo a pessoa com toda a espécie de encontros imprevistos e de ajuda sem os quais pessoa nenhuma poderia sonhar achar no seu caminho. Tudo poderá ser alcançado. Sendo assim, mãos à obra. A ousadia contém genialidade, poder e magia. Deixando Goethe de lado e encarando a loucura santa do prematuramente falecido poeta Paulo Leminski, é preciso “não discutir com o destino, o que vier eu assino”. É preciso assinar, colocar o nome e a digital no que você diz e faz conscientemente, assumir o encontro com o destino. E o destino? Será, por acaso, o mundo das coisas se acasalando ou se chocando com o mundo das ideias ou das palavras? Você e a sua alma são uma coisa só. Uma não existe sem a outra. Como diria um filósofo de botequim, é preciso deixar o pessimismo para tempos melhores. Agora, todos o são. Até os insanos. A hora do encontro é tempo de cataclismo, e só se vence a tragédia com ação e riso. A ação é o remédio imediato. O riso é a capacidade de não levar a sério o seu drama (será mesmo drama?), de debochar do seu ensimesmamento (muitos se acham especiais, mas vão morrer) e encarar de peito aberto a nova consciência de sua individualidade. Ela o levaria irreversivelmente, salvo melhor juízo, para a solidão. Todos estão sujeitos a ela, não fora a solidariedade dos que ainda acreditam em você, a começar por você mesmo. É claro, essa hora do encontro nos mete medo. É preciso não ter medo do medo, pois como diz Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones: “O medo é uma coisa boa. Se você não tiver medo, pode acabar pulando pela janela”. Assuma os seus medos e admita acontecer um instante, independente das suas pretensões ou apreensões, quando tudo ficará claro e nada turvará os seus olhos. Passará a ser o colírio a mostrar o brilho da sua vida. Mas não almeje muito. Balzac dizia: “A glória é um veneno que se deve tomar em pequenas doses.” João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/12/2017. - [BALANÇO E FELIZ NATAL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/balanco-e-feliz-natal-jornal-o-estado/): “Coisas e palavras sangram pela mesma ferida”. Octavio Paz Hoje, sexta-feira, 15 de dezembro de 2017, nove dias antes do Natal, comunico aos meus raros e queridos leitores: vou destinar parte do meu tempo para arrumar estantes, colocar livros em ordem menos caótica, limpar a escrivaninha atulhada e identificar papéis perdidos, sob o ruído de betoneiras, de serras elétricas e o vai-e-vem de veículos em rua próxima. Qualquer dia, quem sabe, volto aos jornais. Agora, trabalharei no meu 10º Livro. Há exatos 55 anos comecei a escrever em jornal, no Correio do Ceará. Era muito jovem e o dinheiro recebido, ao fim de cada mês, ajudava no meu projeto de poupar, sempre. Fazia, ao mesmo tempo, duas faculdades públicas, Direito e Administração. Escrevia, então, sobre informes acadêmicos, os movimentos estudantis, as implantações de faculdades ao longo da avenida-eixo do Bairro do Benfica, cobria a área cultural/arte/musical da cidade, sem esquecer de dar espaço ao Centro Popular de Cultura – CPC da União Nacional dos Estudantes. Depois, instado por Eduardo Campos, superintendente dos Diários Associados, passei a escrever sobre administração e negócios, procurando dar ênfase ao surgimento de empresas, ao celeiro de talentos saídos dos cursos de formação em técnicos em desenvolvimento econômico – TDE do Banco do Nordeste, noticiar a atuação do Projeto Azimov-UFC para implantar indústrias no interior do Ceará, entre outros. Nesse mesmo tempo, fui correspondente da Carta Econômica do Nordeste, Revista editada em Recife por Alexandrino Rocha e Fernando Câmara Cascudo. Havia, entretanto, de cuidar da minha vida profissional e assim o fiz. Fiz dois anos de doutoramento. Não valeu. Gizela Nunes da Costa é testemunha da história. Dei aulas na Escola de Administração e no Cetrede-UFC, em cursos de pós-graduação. Cumpria dupla jornada. Durou até concluir não ser possível esse ritmo. Ao mesmo tempo, constituía família. Não parei de escrever em jornal. Aqui e ali no “O Povo”. Com o surgimento do “Diário do Nordeste”, escrevia colunas soltas. Depois, por dezenas de anos, aos domingos, na sua página de Opinião. Em paralelo, “O Estado” passou a publicar artigos meus, às sextas, até o dia de hoje. Já são vários lustros neste oitentão jornal em forma de tabloide “O Estado” antecipou-se, imagine, ao “The Guardian”, de Londres. Explico: a partir de 2018, o “Guardian” passa a ser tabloide, aderindo às novas plataformas da tecnologia da informação. Neste final de 2017, pródigo em sacolejos políticos, notícias falsas (“fake news”), seca no Nordeste, ameaça de guerra nuclear, o Brasil parece ter deixado a recessão, fruto de descalabros públicos e privados, e parte para um ano eleitoral sem que o povo, este ente abstrato a incluir nós todos, saiba exatamente como votar nas eleições de outubro. Somos, há muito, um país em desenvolvimento. A infraestrutura é precária, faltam água, esgotos, estradas, ferrovias, casas e empregos. Nada está pronto. Há carência de educação básica, os saídos dos milhares de cursos superiores, salvo exceções, têm baixo nível de conhecimento e isso aumenta o desemprego. A corrupção esperneia. As seleções dos RHs exigem mais do que os candidatos têm a oferecer. A segurança pública é atingida por cartéis a se locupletarem em assaltos pesados, produção e comercialização de drogas ilícitas. Age em desvantagem, contra facções com armamentos pesados. Uma boa notícia, ao final. Pesquisa realizada, neste dezembro, deixa claro: os entrevistados preferem o Natal, com Cristo, que a figura do Papai Noel. Feliz Natal a todos. Obrigado pela companhia. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/12/2017. - [ERASMO PITOMBEIRA POR AUDIFAX RIOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/erasmo-pitombeira-por-audifax-rios-jornal-o-estado/): Cedo, respeitoso, este espaço a Audifax Rios. Ele sumarizou, antes de ir para o além, a vida de Erasmo Pitombeira, agora falecido: “Pitombeira foi criado na Fazenda Mutuca, embora tenha nascido na Fazenda Pedras, ribeira do Palhano, Vale do Jaguaribe. Filho de vaqueiro e, por parte de pai e mãe, neto, bisneto e tataraneto de vaqueiros estabelecidos no vale do rio das onças, ele viveu seus primeiros tempos acompanhando as estórias contadas no alpendre da casa grande da velha fazenda assentada nas quebradas do riacho das Imburanas. Levou a meninice botando bezerro para mamar na “tiração” de leite do curral das vacas, vendo a “ferra” dos bezerros e a “assinação” dos cabritos e cordeiros, dando banho nos animais de sela nos poços do riacho ou no açude velho, botando “pareia” de cavalo no caminho da capoeira e ouvindo os fuxicos que corriam pela cozinha e casa de farinha. Criou-se “vendo” a água cair aos “potes” nas imensas telhas da coberta da velha casa e “sentindo” o estremecido do estrondo do “pai da coalhada” lá para as bandas do caminho direito. Quando acabou o aprendizado disponível na escola de casa, foi para a capital fazer o exame de admissão. Foi quando, somente aos dez anos, ouviu pela vez primeira a pancada do mar e ficou admirado com aquele lombo d’água bonito do oceano que jamais enxergara. Seguindo o destino traçado de “ser doutor”, depois de estudar em colégios na capital, passou no vestibular da UFC e graduou-se em engenharia civil. Na sequência, em busca de aumentar sua “sapiência”, se largou por este mundo de Deus, por “seca e Meca” divagando pelo Brasil e exterior e pósgraduouse, pasmem, em Engenharia hidráulica Maritima, que nada tinha a ver com suas origens. Voltando à terra natal, o “doutor” se abancou na sua antiga Escola de Engenharia, já então Centro de Tecnologia da UFC, onde há trinta anos é professor do Curso de Engenharia Civil, lecionando as disciplinas de Portos e Engenharia Fluvial e realizando consultorias. Mas o caminhamento por este mundo afora não “afogou” o verdadeiro aprendizado que ele adquirira ao longo do tempo de menino, que foi ser sertanejo e assim, procura manter seus modos e tradições como tal e no meio da vida que leva na casa da rua sempre encontra tempo para as vivências interioranas. Conforme seus ideais de vida, quando se livrar do obrigatório trabalho e do cipoal de medo e insegurança em que se tomou a cidade, pretende voltar de vez à terra onde deixou seu umbigo enterrado na porteira do curral e por lá gastar o resto dos dias de vida que lhe foi destinado. Esgotado esse prazo, literalmente entregará seu corpo ao chão e ficará em contato total com a terra áspera e pedregosa dos tabuleiros do seu sertão, lá poderá sentir o calor do chão e a terra se molhar quando chover, ouvirá o canto soturno da “cauã” chamando a desgraça da seca para o sertão, o piado do gavião “ripina” aboletado no gancho mais alto do galho morto do angico, o cantarolar monótono da asa branca na sombra da ramada do mulungu e o gritar sem fim dos tetéus nos ariscos. Sentirá o pisado das reses e o seu cheiro quando um magote de gado ficar se batendo ou malhado no tabuleiro, botado para fora da caatinga pelo aperreio da mutuca. Poderá ver o risco inflamado de uma “zelação” na noite escura de céu estrelado e se divertir vendo os fogos de santelmo caminhando em seus perambuleios no campo santo do alto do Cruzeiro. Para o todo o sempre, amém”. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/12/2017. - [DO PÃO DE LÓ AO TRANSATLÂNTICO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/do-pao-de-lo-ao-transatlantico-jornal-o-estado/): Tenho recebido e-mails e WhatsApp (não uso os demais aplicativos) de leitores, amigos, familiares e até de estranhos, relatando a preocupação dessas pessoas com a situação econômico-institucional do Brasil. Ao mesmo tempo, pedem uma opinião minha. Vamos lá. Há um mundo de opiniões extremadas nas mídias sobre o nosso país. Há os que desejam o desaparecimento de toda a classe de políticos. Lula, Temer, Ciro, Bolsonaro, Doria e Alckmin vão de quase deuses a demônios. Há uma semi-unanimidade favorável à Polícia Federal, Operação Lava-Jato e ao Juiz Sérgio Moro. E querem outras investigações. Não há como negar que a Crise Econômica de 2008, ao contrário do que pensavam muitos, atingiu o Brasil. Foi de “marolinha” para um quase tsunami. É bem verdade, soube-se depois, que as rédeas e os cofres da economia nacional estavam à deriva. Bancos públicos se acumpliciaram de todas as formas com grandes empresas nacionais, ao mesmo tempo em que concorrências eram dirigidas sempre aos mesmos grandes “players”. Esses fatos foram reverberando para os estados membros. Só agora, começam a aparecer, de leve, na Mídia. Por outro lado, as comodities (matérias-primas) perderam o avanço de preços, face à diminuição de atividades industriais dos grandes países importadores. Assim, com menos procura, os preços caem. Simples. Somos grandes exportadores de matérias-primas. Haja prejuízos. O Brasil grande pedia Copa do Mundo e Olímpiadas. Papo, desvios e prejuízo. erificou-se que a eficiência e a eficácia prometidas nas licitações, concessões, privatizações e parcerias público-privadas, eram, quase sempre, fajutas. Não havia fiscalização. Ou quando havia, agentes públicos e lobistas facilitavam tudo. Conluios. Cada operação da Polícia Federal nos últimos anos descobre um liame solto e, ao cabo, elas atingem, quase sempre, repetidas figuras de empresários, políticos e dirigentes de órgãos públicos, especialmente os que possuíam – e ainda possuem- diretorias compostas por indicações partidárias. Brasil a dentro. Nada é novo. Apenas me desobrigo dos pedidos com ajuda de Samuel Pessôa, com circunflexo, físico com doutorado em economia, em artigo na Folha de São Paulo, 20 deste agosto de 2017, p A28. Ele refere: “O grosso das nossas distorções prejudiciais ao crescimento econômico inclusivo – a maior arma de combate à pobreza no Brasil e no mundo -não tem origem no conflito entre equidade e crescimento. Na verdade, a maior parte delas é fruto das ações dos grupos de pressões que criam isenções e favorecimentos para si em detrimento do bem comum”. E dá nome ao gado: “A lista de meias-entradas, na feliz expressão de Marcos Lisboa e Zeina Latif, é longa: aposentadoria integral de servidor público; contribuições compulsórias sobre a folha para o sistema S; grupos isentos de pagar imposto de renda; excessos de Bolsa Ditadura; excessos da Lei Rouanet; regimes tributários especiais do PIS, COFINS, ICMS, Simples e lucro presumido; empréstimos subsidiados; Zona Franca de Manaus; direito irrestrito de greve de servidor público; benefícios aos Estados do Centro-Oeste, apesar de sua renda per capita ser equivalente à de Minas Gerais; etc.” Essas atitudes precisam ser coibidas. Isso, entretanto, nunca poderá ser alcançado em nenhum governo de coalização, o que temos desde 1999. No próximo ano, haverá eleição para Presidente, Governadores, uma parte dos senadores, deputados estaduais e federais. Cada pessoa conclua o que deduziu desta análise. Daí para frente, o problema é seu. É meu. É nosso. E de todos. O Brasil superará esses descalabros, acredite. DO PÃO DE LÓ AO TRANSATLÂNTICO – João Soares Neto PERSONALIDADES Herbert de Souza Herbert José de Sousa, o Betinho, merece, mesmo depois da sua partida que aconteceu há 20 anos – 9 de agosto de 1997 – todo o reconhecimento por sua exemplar luta, empenho e dedicação à cidadania e à vida. Betinho é o terceiro filho de uma família de oito irmãos. Sua infância foi marcada por fatos incomuns, já nos primeiros anos de vida descobriu que tinha hemofilia herdada da sua mãe. Chegou a morar em uma penitenciária e uma funerária, locais que seu pai trabalhava. Formou-se, em 1962, em sociologia pela Universidade de Minas Gerais, mesmo período em que entrou para a militância política. Em 1971, durante a ditadura militar, exilou-se no Chile, com a chegada da ditadura de Pinochet naquele país, exilou-se no Canadá e depois México. Em 1979 retornou ao Brasil, tornando-se um símbolo de resistência política. No ano de 1986 recebe a triste notícia de estar contaminado com o vírus HIV, causador da AIDS, contraído em uma de suas muitas transfusões de sangue, necessárias por conta da sua hemofilia. A AIDS também atingiu dois de seus irmãos, por essa razão Betinho começou uma grande campanha para esclarecer a doença. Betinho também liderou o movimento ética na política que culminou com o impeachment do Collor. Esse movimento alicerçou o grande projeto AÇÃO CIDADANIA contra a miséria e pela vida, tornando visível o problema da fome no Brasil. Depois de 61 anos de luta, nos deixou, enquanto estava em sua casa no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/08/2017. - [COMO VAI O BRASIL? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/como-vai-o-brasil-jornal-o-estado/): Estamos, desde 2015, em processo difícil e doloroso da política e da economia brasileira. Houve mudança na presidência da República, cassações, prisões e muitos são os procedimentos em curso, quase todos decorrentes de ações da Polícia Federal. Em setembro tomará posse a nova Procuradora Geral da República, Raquel Dodge. Virou atração, a cada semana, novo escândalo, em todas as mídias, envolvendo a nata do empresariado de conglomerados na área agropecuária, da indústria pesada e da construção civil, responsáveis pela maioria das obras do governo e em empresas públicas. Não há como não ser informado, pois são apresentados gravações, tabelas, fluxogramas e infográficos que mostram o que vem sendo praticado desde sempre. A relação era e é imbricada. Há grupos empresariais comprometidos que se tornaram e são sócios do próprio governo em aeroportos, siderúrgicas, hidrelétricas etc. Investidores estrangeiros hão mostrado estupefação em face ao descalabro a que chegou o Brasil. Hoje, todos os indicadores de “ratings” internacionais, sejam de desenvolvimento, finanças, educação, “compliance” e os de natureza social estão, ano a ano, ficando mais baixos, mostrando involução já configurada nas gestões anteriores. Um país continental como o nosso, pacífico por formação, não deveria ser objeto de chacota nos mercados financeiros que, sem piedade, aumentam o grau de risco para novos investimentos estrangeiros. Paralelo a isso, a indústria automobilística possui, em estoque, nos vários pátios das empresas instaladas, milhares de veículos encalhados, sejam populares, médios ou de luxo. O mesmo cenário ocorre na área habitacional, com número superior a 50% de rescisões em contratos de aquisições financiadas de projetos em construção e, até mesmo, de obras prontas. Os prédios do “Minha Casa, Minha Vida” estão, em muitos casos, com defeitos estruturais e de acabamento. A inadimplência é elevada. O que fazer, perguntam uns. Os economistas e administradores sérios não arriscam previsões alvissareiras enquanto perdurar a desconfiança, quase absoluta, dos eleitores na classe política. O que se constata, por outro lado, é a extensão das operações da Polícia Federal, agora nos estados, de forma aleatória. Quando vai acabar, ninguém sabe, pois há desdobramentos em face de delações premiadas. A denúncia B que, por sua vez, denuncia C. Em represália, C denuncia A e tudo recomeça. Este final de ano pode ser de ajustes necessários como a reforma da Previdência, ainda em fase de negociações com o Congresso Nacional. Por outro lado, aparece uma reforma Política, talvez salvadora para os atuais congressistas. Terá tramitação dupla na Câmara Federal e no Senado. Esperemos. O Brasil está em corredor de hospital, mas não sucumbirá. O problema é o tempo em que se encontra em crise e, pessoas e empresas, não vivem no longo prazo. A cada dia o seu mal. A única certeza, por enquanto, é que no próximo ano, haverá eleições para presidente, governadores, deputados e parte do Senado. Como será o financiamento das campanhas? Você está consciente disso? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/08/2017. - [RECADO DO POVO - ROBERTO MARTINS RODRIGUES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/recado-do-povo-roberto-martins-rodrigues-jornal-o-estado/): Recado do povo – Roberto Martins Rodrigues “A diferença entre professores ordinários e extraordinários consiste no fato de que os ordinários não produzem coisas extraordinárias e os extraordinários não produzem coisas ordinárias”. Sigmund Freud (VI, 39). “É preciso que venha o salvador da Pátria do salvador da Pátria /É preciso que o povo faça o basta /No domínio dos que se salvam /Sem salvar a Pátria de todos /É preciso eliminar o pecado de ter /Para que fiquem o ter e o fazer /É preciso que o poder não seja o direito dos seus /Mas a função que a felicidade social impõe /É preciso que a vontade do povo /Não esteja na última palavra /Dos primeiros na fruição dos bens que não são de cada um /É preciso sonhar /Falar /Gritar /Cantar /E dançar /No ritmo e no som do bem comum/É preciso despertar /Agir /Despertar /Destruir /Construir /É preciso fazer de verdade /A cor de o país que fez a gente nascer /Viver /Amar / Sofrer /Conviver /É preciso acreditar /”. Os versos acima são, digamos, a primeira Ode de um poema concebido por Carlos Roberto Martins Rodrigues, o professor Roberto Martins Rodrigues, glória do magistério superior cearense, expoente máximo da Ordem dos Advogados do Brasil- Secção do Ceará e, acima de tudo, Cidadão. “Lutar /Realizar /É preciso que, De alguma maneira,/Fazer a Pátria de todos/Cantada nas canções /Dos corações do campo /Da serra /Da cidade /Da choupana /Do chalé /Do arranha-céu /Com o riso da barriga /E o amor da convivência /Igual e maior /É preciso distribuir o que é de todos /Tomado por alguns sem sonhos /Mas engravidados /Pela ânsia do tomar e do ter /É preciso fazer de verdade a Pátria geral e feliz /” Esse poema foi pensado em memória a José Martins Rodrigues, seu pai, Zilda Martins Rodrigues, sua mãe, Paulo Marcelo Martins Rodrigues, seu irmão e Carlos Maurício Martins Rodrigues, outro irmão. Entretanto, passado o tempo, vê-se a preocupação intrínseca com a Pátria. Essa tão maltratada, desde o Império até esta 5a República, carcomida no autoengano e no descalabro público e privado. “Com o sofrimento do dever incontido /Reclamado /Requerido /Determinado pelo desejo /Que já é querer /É preciso ser Brasil /É preciso lutar /É preciso ser /É preciso que o amanhã da Pátria /Seja o hoje dos seus amantes /É preciso não esquecer os que foram /Os que fizeram /É preciso expulsar os vendilhões da Pátria /É preciso ser a Pátria /O seu choro, o seu sorriso /O seu grito de alerta, de exigência definitiva /É preciso ser a Pátria Pública /A Pátria para gozo de todos, com os privilégios tomados de uns /Que profanam seu nome /Sua história /Sua glória /É preciso ser Pátria /A comunidade /O seu destino.” O crescendo de patriotismo vai sendo construído nessa tessitura livre, sem rimas, mas lançado ao Inconsciente Coletivo. Neste abril de 2017, enquanto as camarinhas políticas ficam plenas de (in) consciência e nos colocam como sujeitos passivos dessa história cuja novelo tem a ponta solta. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/04/2017. - [TIRADENTES, O HERÓI DO FERIADO DE HOJE -- Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tiradentes-o-heroi-do-feriado-de-hoje-jornal-o-estado/): “Justiça que a Rainha Nossa Senhora manda fazer a este infame Réu Joaquim José da Silva Xavier pelo horroroso crime de rebelião e alta traição de que se constitui chefe, e cabeça na Capitania de Minas Gerais, com a mais escandalosa temeridade contra a Real Soberania e Suprema Autoridade da mesma Senhora, que Deus guarde”. Parte da sentença de morte contra Tiradentes. Que continua: “Mando que com este baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta Cidade ao lugar da forca e nela morra de morte natural para sempre e que a cabeça separada do corpo seja levada à Vila Rica…” (Boletim da Polícia Militar do Rio de Janeiro, no. 53, em 18.04.2008). Em 1776 aconteceu a Independência da América, jovens brasileiros, filhos de abastados nacionais, estudavam na Europa, mormente em Portugal. Eles resolveram, seguindo a senda iluminista, aspergir a ideia da libertação da Coroa, através de cartas e de palavras candentes, quando das férias ou dos seus retornos. Anos depois, alvitrou-se, em Vila Rica (hoje, Ouro Preto), Capitania das Minas Gerais, fazer um movimento social libertário, juntando parte do clero, da intelectualidade e da burguesia. A esse movimento, a dita “Inconfidência Mineira”, aderiu Joaquim José da Silva Xavier, alferes pouco lido, de poucas posses, também protético, profissão aprendida em família, que recebera a alcunha de “Tira Dentes”, o Tiradentes. Esse movimento sequer prosperou, ficando morno. Joaquim era um boquirroto, mas também gostava de ouvir. Soube haver cheiro de traição no ar. Estava com problemas afetivos sérios, apesar de nunca haver casado. Largou o movimento, a corporação Dragões de Minas e fugiu para o Rio de Janeiro. Mesmo assim, em 1789, Joaquim Silvério dos Reis, falido e ciente do favor à Coroa, fez a denúncia sobre a possível e nunca realizada insurreição. Dou a palavra a Otávio Frias Filho em artigo nominado de “Ainda que tardia”, publicado na Folha de São Paulo, em 26 de fevereiro passado, escrevendo sobre o filme “Joaquim”, lançado, ontem, em circuito nacional. Diz Frias: “Não existe história mais recoberta de ferrugem verde-amarela, depositada em tantas décadas de reiteração escolar, que a de Tiradentes. O frescor acre que exala de “Joaquim”, exibido, na semana passada, no Festival de Berlim, decerto tem a ver com a opção do diretor Marcelo Gomes… Quando começa a acontecer o que aprendemos na escola, o filme termina”. Como se sabe, mesmo tendo sido o único morto, por conta da Inconfidência, a mando da Rainha Dona Maria I, cognominada a “Rainha Louca”, Tiradentes ou Joaquim, ficou no limbo da história até o albor do movimento republicano, em 1870. Procurava-se um herói nacional. Consta que usaram o Tiradentes. É a versão tida como requentada nos fornos da “consentida” República. Não há na Historiografia do tempo Imperial menção alguma à tal Inconfidência. Frias, no artigo já referido, diz: “Em seu livro sobre o personagem (Tiradentes: O Corpo do Herói, Martins Fontes), a historiadora Maria Alice Millet demonstra como a sua mitologia foi elaborada…”. O fato é que Tiradentes, três anos preso, foi degolado em 21 de abril de 1792 e os autos da sua condenação duraram 18 horas de alocução. Ora, se ele fosse tão desimportante assim porque o Império gastaria tantas laudas com ele? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/04/2017. - [AS INFORMAÇÕES, O PERIGO E A FÉ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-informacoes-o-perigo-e-a-fe-jornal-o-estado/): Hoje, a maioria das pessoas se acredita bem informada. Usa o Facebook, no qual nunca entrei, e descobre coisas como a cura do câncer, a última dieta para emagrecer 10 kg, uma oração para cada mal e por aí vai.A ONU – Organização das Nações Unidas, regiamente instalada em Nova Iorque, não atendeu aos reclamos da representante americana a mostrar fotos de mortos pelo ataque químico. Pouca gente está interessada em saber se os Estados Unidos da América participam do teatro de guerra na Síria, por conta de ataque químico atribuído ao próprio governo sírio. Do outro lado, a Rússia, parceira da Síria, manda mais tropas e porta-aviões para a área em conflito, onde tem base militar. Enquanto isso, em Mar El Lago, na Flórida, os presidentes da China e dos Estados Unidos passaram dois dias juntos, para acertar as diferenças nas relações comerciais entre os dois países. Briga de foice diplomática, em meio a fotos. Nesse mesmo período, trombeteado pelas fáceis linhas de comunicação dos dias de hoje, a Coreia do Norte brinca de potência nuclear e afirma ter aumentado o raio de alcance de seus bólidos. Sério ou não? Assim, entramos nesta Semana Santa esperando a misericórdia para o mundo não entrar, por potência de uns e bazófia de outros, em um conflito a descambar para uma guerra de grandes proporções. A indústria armamentista, indócil, precisa vender aviões, navios, tanques, armas, munições, meios seguros de comunicações e tudo o imaginável como: fardamentos, alojamentos, hospitais móveis, logística para alimentação em campanha e redes de Wi-Fi a permitir espionagem para quem pagar mais. Há bases aéreas militares americanas fincadas em pontos estratégicos da Europa, sem falar do aparato existente na Turquia, a fronteira defronte ao perigo. Nem digo dos drones e dos aviões não tripulados em quaisquer hemisférios. Enquanto isso, se desenrola os noticiários das múltiplas redes de televisão internacionais se espraiam com repórteres e núcleos estruturados em escritórios nas cidades mais importantes. Volto ao Brasil, enquanto o mundo pega fogo. Verifico não haver consonância em nenhum dos lados da classe política. Ela, por interesses e velhos costumes, fabricou a crise ora em transe. Nada cessará com a reforma da Previdência, tampouco, com as mudanças (im) previsíveis para as eleições de 2018. O desemprego aumenta. Briga no BBB. Ainda bem que 1/7 da humanidade é cristã e hoje, pelo menos hoje, poderá ser um dia de reflexão sobre o alinhavado acima. Não sei qual a enrascada maior. Para os que possuem fé, aconselho orar. Para os ateus, que passem a acreditar em milagres. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/04/2017. - [RELEITURA DE NILTO MACIEL UMA LUZ QUE AZULA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/releitura-de-nilto-maciel-uma-luz-que-azula-jornal-o-estado-2/): Estava na despedida de Nilto Maciel da face da terra, em 29 de abril de 2014. Será que um escritor do calibre de Nilto Maciel desaparece ao ir para além do além? Nilto me acolheu no meu começo e não era raro trocarmos ideias entre as suas baforadas de cigarro que borravam as suas grossas lentes de ler. Quem quiser saber dele poderá ler seus livros ou consultar a Wikipédia. Lá estão a produção literária e os prêmios recebidos. É fácil perceber o descortino desse cearense, formado em Direito e nas ciências da vida. Foi-se para Brasília, mediante concurso público. Cumprido o tempo, aportou em Fortaleza e aqui se espraiava em contos, poemas e romances. No oferecimento que me fez no livro de contos “Luz Vermelha Que se Azula”, Prêmio Moreira Campos, ele diz: “Ao amigo João Soares Neto, que escreve certo, estas linhas tortas”. Na verdade, Nilto não era homem de linhas tortas, tampouco de linhas óbvias, era um criador que se metamorfoseava em personagens nas histórias que criava. Dou a palavra a NM: “A maioria das minhas composições literárias surge por acaso, de inopino ou inspiração, o que deve acontecer com quase todos os criadores, Não as busco. Vêm num piscar de olhos. Não as cato nas ruas. Apresentam-se a mim como folhas mortas, papéis velhos, cacos de vidro, esterco. Acolho algumas. Lapido-as, lavo-as e faço delas literatura”. NM continua: “Outras, porém, não existem nem como ideias e, se existem, estão bem enterradas ou perdidas nas páginas de velhos alfarrábios. É o caso de algumas aqui reunidas. Fui procurá-las nas enciclopédias, nos dicionários, nas biografias, nos compêndios de história”. Interrompo a dicção de NM e passo a palavra a Aíla Sampaio, que foi minha confreira na Academia Fortalezense de Letras: “(…) O equilíbrio está no talento de Nilto Maciel para amalgamar realidade e ficção. Munido de vasta bagagem de leituras e domínio das técnicas de construção do texto literário, ele percorre veredas diversas, com seu apurado trabalho de linguagem, dá unidade ao que é diverso, puxa o leitor por caminhos inusitados e consegue, sem exauri-lo no longo percurso que se impõe da primeira à última página, prendê-lo espontaneamente ao universo de seres alucinados e fatigados de sua aventura existencial”. Agora, neste abril de 2017, três anos após, relembro aos leitores, colegas, amigos e familiares a certeza de que Nilto Maciel está em todos os lugares por onde passou e espargiu a sua premiada literatura. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/04/2017. - [ENTREVISTA COM MÁRCIO CATUNDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/entrevista-com-marcio-catunda-jornal-o-estado/): Semana passada escrevi sobre Gerardo Mello Mourão- GMM e citei o poeta e diplomata Márcio Catunda, expert em GMM. Fizera-lhe algumas perguntas. Ele as respondeu. Assim, com alegria, dou espaço a Márcio. GMM merece reverências e Márcio Catunda, tem autoridade para isso: JSN – Como você vê a trajetória de vida do poeta e do político GMM? MC – Com admiração e apreço. Ele foi um dos mais ilustres cearenses e um dos maiores poetas da língua portuguesa. Foi mais poeta que político. Mas sua erudição, sua inteligência e sua sensibilidade contribuíram para que ele desempenhasse, de forma brilhante, toda e qualquer atividade. Na literatura, foi polígrafo, imensamente criativo e fecundo. Escreveu poesia, ensaio, romance, conto, artigo de jornal e biografia. Fez até hagiografia, ao contar a vida e os milagres de São Gerardo Majella, seu patronímico. JSN – A entrada dele no integralismo foi arroubo de juventude ou pregação de Plínio Salgado? MC – Foram as duas coisas e mais. O integralismo aparecia como nacionalista com forte vertente católica, cujo Guru principal, para Gerardo, foi o filósofo e ensaísta Alceu Amoroso Lima(Tristão de Athayde) que aderiu ao Movimento. Durante a Ditadura Militar, teve cassado o seu mandato de deputado federal por Alagoas (pelo PTB) e esteve no cárcere por algumas semanas. Ameaçado de morte, saiu de Brasília com documentos falsos, embarcou para Ponta Porã, atravessou a fronteira e foi até o Paraguai. Em Assunção, foi de avião para o Chile, onde passou dois anos exilado. JSN – Depois, ele foi comunista ou era nova onda? MC – Não foi comunista em nenhum momento da vida. Já havia, no entanto, renegado o credo integralista e, em razão de sua obra e sua capacidade de fazer amigos, ficou ligado a Leonel Brizola e Darci Ribeiro, que lhe reconheceram os méritos de grande intelectual e o nomearam presidente da Fundação Rio-Arte. JSN – Como você destacaria a obra de GMM? MC – Uma obra de profunda sensibilidade, humanismo e inspiração, pautada por sua erudição clássica. Gerardo fez uma poesia eclética, versátil, em que misturava imagens e signos do seu torrão nativo, Ipueiras, com a antiga história e os mitos da Grécia e de Roma. Essas referências extraordinárias de sua poesia estão marcadamente registradas nos livros Rastro de Apolo, Peripécia de Gerardo e O País dos Mourões. Escreveu outros livros magníficos, como Invenção do Mar, epopeia das navegações e da fundação da terra brasileira, que recebeu o Prêmio Jabuti em 1999, e Algumas Partituras, este a meu ver, o mais primoroso de seus livros, escrito já na maturidade, e publicado em 2002, cinco anos antes de sua morte. Veja o que GMM me declarou, de viva voz, quando tive a satisfação de entrevistá-lo em 1998: “Rimbaud nunca vendeu nenhum livro, mas há pouco tempo uma edição daquele poeta vendeu 60 mil exemplares numa semana, quando distribuíram um de seus livros nas bancas de jornal. Nem Camões, nem Dante, nem mesmo Tales, na Grécia, encontrou mercado de trabalho para o triângulo retângulo, nem para o isósceles. No entanto, se ainda hoje existe um país chamado Grécia é porque um vadio, sem mercado de trabalho, talvez mesmo um cego de feira, chamado Homero, criou a língua e a glória sobre a qual se fundou a eternidade de uma nação”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/04/2017. - [CORPOS CANSADOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/corpos-cansados-jornal-o-estado/): Amigo liga e reclama do cansaço. Fala da fadiga em dirigir para chegar ao trabalho. Reclama dos pedintes, dos flanelinhas, dos manifestantes, dos desvios, das motos e do ar-condicionado quebrado, o que lhe dá duas opções: baixar o vidro e ficar inseguro ou subir o vidro e torrar a paciência com o calor. Liga o rádio e só ouve desgraça. Desliga. Sugiro que mande consertar o ar-condicionado do carro. Ele fala alto: como, se não tenho tempo. Coloca um CD e lembra que já o ouviu tantas vezes que sabe até a sequência das músicas. Uma delas é de Roberto Carlos. Está cheio das notícias com os pré-candidatos às eleições de 2014 e com a polêmica sobre a publicação de biografias não autorizadas do dito Roberto Carlos e das posições do Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Resume para mim o seu pensamento: as pessoas passam mais da metade da vida querendo ser famosos ou conhecidos e, em seguida, rejeitam o assédio, a crítica sobre detalhes de sua vida privada que preferem esquecer ou não tornar público. Uma ligação está na espera e peço desculpas para desligar. Zanga-se comigo. Respondo com o meu resto de resignação: retornarei. Atendo o novo chamado. A vida vai nos mostrando situações comuns às das outras criaturas. Há fatos e situações, mesmo administrados, que permeiam a nossa cota de resiliência. Todos passamos por situações semelhantes. Vivemos acossados por obrigações e somos instados a cumprir até três expedientes diários. Cobram-nos quando, exaustos, deixamos de ir a algum compromisso social ou de classe. Que jeito. Sebastião Salgado Hoje, estampa a capa do nosso caderno Linha Azul o consagrado fotógrafo Sebastião Salgado. Premiado internacionalmente, Salgado é considerado um dos maiores talentos da fotografia mundial pelo teor social em seu trabalho. Sua exposição Êxodos está em cartaz na Caixa Cultural, até dia 20 maio. Para chegar ao resultado de Êxodos, ele viajou durante seis anos, por 40 países, para mostrar a humanidade em trânsito, provocando uma reflexão sobre as questões políticas, sociais e econômicas de pessoas que foram obrigadas a deixar a sua terra natal. A curadoria é de sua esposa Lélia Deluiz Wanick Salgado e foi justamente com a câmera Leica, de Lélia, que Salgado iniciou no mundo da fotografia. Sebastião Ribeiro Salgado nasceu em Aimorés (MG), mais especificamente na Vila Conceição do Capim. Sua infância passou em expedicionário Alicio. Graduou-se em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo (1964-1967) e realizou pós-graduação na Universidade de São Paulo. No mesmo ano, casou-se com a pianista Lélia Deluiz Wanick. Eles se engajaram no movimento de esquerda contra a ditadura militar. Depois de emigrarem, em 1969, para Paris, ele escreveu uma tese em ciências econômicas, enquanto ela ingressou na École Nationale Supérieure des Beaux-Arts para estudar arquitetura. Salgado inicialmente trabalhou como secretário para a Organização Internacional do Café (OIC). Em suas viagens de trabalho para a África, muitas vezes encomendado conjuntamente pelo Banco Mundial, fez suas primeiras sessões de fotos com a Leica da sua esposa. Fotografar o inspirou tanto que logo depois ele tornou-se independente em 1973, como fotojornalista. Em 1979, depois de passagens pelas agências de fotografia Sygma e Gamma, entrou para a Magnum. Encarregado de uma série de fotos sobre os primeiros 100 dias de governo de Ronald Reagan, Salgado documentou o atentado, a tiros, cometido por John Hinckley Jr. contra o então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, no dia 30 de março de 1981, em Washington. A venda das fotos para jornais de todo o mundo permitiu ao brasileiro financiar seu primeiro projeto pessoal: uma viagem à África. Seu primeiro livro, Outras Américas, sobre os pobres na América Latina, foi publicado em 1986. Na sequência, publicou Sahel: O “Homem em Pânico” (também publicado em 1986), resultado de uma longa colaboração, de 12 meses com a ONG Médicos sem Fronteiras, cobrindo a seca no Norte da África. Entre 1986 e 1992, ele concentrou-se na documentação do trabalho manual em todo o mundo publicada e exibida sob o nome “Trabalhadores rurais”, um feito monumental que confirmou sua reputação como foto documentarista de primeira linha. De 1993 a 1999, ele voltou sua atenção para o fenômeno global de desalojamento em massa de pessoas, que resultou em Êxodos e Retratos de Crianças do Êxodo, publicados em 2000 e aclamados internacionalmente. Na introdução de Êxodos, escreveu: “Mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas…”. Ao longo dos anos, Sebastião Salgado tem contribuído, generosamente, com organizações humanitárias incluindo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, (ACNUR), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ONG Médicos sem Fronteiras e a Anistia Internacional. Com sua mulher Lélia mantém a ONG TERRA, em Aimorés, um projeto de reflorestamento e revitalização comunitária. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/03/2018. - [A FÁBULA DE GEORGE ORWELL E A VIDA DE HOJE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-fabula-de-george-orwell-e-a-vida-de-hoje-jornal-o-estado/): “A sabedoria chama lá fora, pelas ruas levanta a tua voz”. Provérbios 1:20 Eric Arthur Blair nasceu em 1905, na Índia, ocupada pela pátria de seus pais, ingleses. Vivia em condições privilegiadas em país miserável, dividido em castas e com credos distintos religiosos. Eric viu bem cedo o que acontecia na prática, com as injustiças sociais perpetradas pelos detentores do poder. Era leitor voraz, desde Dickens, Shakespeare, Karl Marx e o que se lhe aprouvesse. Com as escaramuças pela libertação da Índia, a família Blair volve à Inglaterra e Eric, além de estudar, ingressa na imprensa, com sentimentos anarquistas, participando, inclusive, da Guerra Civil Espanhola, que antecede à Segunda Guerra Mundial. Foi nesse cadinho que surgiu o seu pseudônimo de George Orwell, pelo qual seria conhecido e admirado. As suas duas obras mestras são a sátira política “A Revolução dos Bichos” (The Animal Farm), sobre a qual falarei abaixo, e “1984”, uma distopia em que a regra é “O Grande Irmão está vigiando você”. Hoje, somos todos vigiados por câmeras nas ruas, os nossos telefones indicam os nossos passos e as nossas conversas podem ser captadas por “hackers” ou por ordem judicial. Ele anteviu isso. Na minha (des) informação literária, caótica e multifacetada, a “Revolução dos Bichos” causou-me, há tempos, impressão singular, mesmo sabendo da mente anárquica do autor na análise do socialismo russo, na fase stalinista, A história, na verdade uma fábula, parece singela, mas é complexa. O velho Sr. Jones possuía a Granja do Solar (The Manor Farm). Nela viviam animais de várias espécies, entre as quais um porco (o Velho Major) que, em sonho, viu uma revolução contra o domínio do Sr. Jones, na qual os bichos seriam autossuficientes, sem tutela alguma, criando um governo igualitário. O Sr. Jones morre. O livro é cheio de metáforas. Além do Velho Major, inspirado em Karl Marx, surge Bola-de-Neve, outro porco, que possuía um assistente de sua raça, chamado Napoleão. Há traições e vinganças. Após cinco anos de dominação, Napoleão convence os outros animais de que o realizado era para o bem comum e fala no “sonho de poder”. O livro é pleno de embustes, traições e mudanças de regras. O animal “Garganta” possuía argumentos convincentes e pregava a união contra a dominação pela força bruta, a tortura e até o uso de cães treinados para matar. O fato é que a abominada casa da fazenda virou, “apenas por algum tempo”, centro das decisões dos animais que dominavam os demais. Disseminara-se a ideia de que se você andava com duas pernas, bípede humano, era alguém de má natureza. As regras do “Animalismo” continham sete princípios: 1. Os bípedes são inimigos; 2. Quem possui 4 patas e asas é amigo; 3. Nenhum animal usará roupas; 4. Nenhum dormirá em cama; 5. Ninguém beberá álcool; 6. Nenhum animal matará outro animal; 7. Todos os animais são iguais. Neste momento, em que a grande “Fazenda Brasil”, está em plena convulsão social, ainda não transformada em luta fratricida, é bom que aprendamos algo com a fábula de Orwell. O que seria? ”Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/03/2018. - [A LATA E A MANIFESTAÇÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-lata-e-a-manifestacao-jornal-o-estado/): O Apolinário é um velho conhecido meu. Encontrou-me esta semana. Horário do almoço, sol a pino. Estava suado e transtornado. Puxou-me para um bar no canto da rua e falou de sua preocupação: – Há um barulho esquisito, muito estranho, no meu celular. Perguntou-me o que achava. – Deve ser problema de sinal, depende do local onde você esteja; todos os telefones estão assim, e tentei mudar de assunto. O Apolinário pegou no meu braço e falou: Creio que estou sendo escutado; coisa séria. O chiado é estranho. Todo mundo diz que a Dilma foi gravada. Imagine eu que não tenho ninguém para me defender e orientar. E o seu nervosismo aumentava. E soltou um “ajude-me”. Eu estava apressado, mas o Apolinário não me dava trégua. Ele pedia ajuda e os seus olhos estavam marejando. Respirei fundo, olhei para o seu corpo avantajado, suado, cinturão no último furo, barba por fazer e mãos úmidas. Falei: você está com medo de quê? Fez algo errado? Há alguma coisa que não me tenha me dito? Ele pediu uma cerveja, pois o garçom nos olhava como a dizer: sentam e não vão pedir nada? Tomou um gole, limpou a boca e arrematou: – Sabe aquela passeata, a que teve quebra-quebra e em que umas pessoas foram presas? Sei não, Apolinário, já são tantas manifestações e caminhadas. Ele me diz em voz baixa: – Aquela em que a polícia baixou o pau sem dó, nem piedade e na qual uma pessoa foi atingida na cabeça por uma lata de leite em pó? E emendou – Fui eu que joguei a lata. Estava no meu escritório, aporrinhei-me e mandei a lata lá do segundo andar. A desgraçada caiu na cabeça de um policial grandão que acabara de tirar o boné para limpar a testa. Tenho acompanhado o caso. De longe, é claro, mas não sei o estado dele. Não deu nada no jornal e agora esse chiado no meu telefone. Estou sem dormir, e nem falei para a minha mulher, sabe como é, ela anda com raiva de mim faz tempo. Você não podia dar um jeito para descobrir? Fiz-lhe mais uma pergunta: – A lata estava cheia, lacrada? Ele abriu um sorriso meio maroto e gritou: não!, estou salvo, o leite voou e a lata seca não deve ter feito nenhum estrago. Sem paciência, perguntei: posso ir embora? Ele disse, distraído: pode ir, boa tarde, e concluiu: – Garçom, traga mais uma gelada. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/05/2018. - [A ÁRVORE E OS JARDINEIROS DO BEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-arvore-e-os-jardineiros-do-bem-jornal-o-estado/): “Quanto mais o indivíduo aprende, tanto mais útil se torna para si e a sociedade”. José Ingenieros (médico e filósofo argentino, séc. XX) As árvores são símbolos de produtividade, de beleza e refrigério. Resolvemos, em 2002, criar um projeto social: Árvore do Bem. Ele surgiu sem alarde, sem mídia, mas com a tenacidade dos que acreditam poder fazer algo de forma coletiva, simples, clara e com a participação espontânea de pessoas/famílias que sabiam da credibilidade e dos objetivos a serem alcançados. Este registro que hoje faço é apenas uma homenagem aos jardineiros/doadores, gente de coração e atitude. Louvo os nossos colaboradores que se envolvem e dão tempo, energia e carinho em trabalho que leva meses em planejamento, escolha de instituições, implantação e o coroamento da festa que se fazia em um só dia. Hoje, são três. Nesta semana, desde quarta e até hoje, sexta, estamos alegrando 1762 crianças desassistidas. Algumas têm câncer, outras são portadoras de alguma deficiência física ou síndromes que as tornam especiais, mas há centenas que são vivazes e estão por lá pela ausência de pais e familiares que se perderam nas drogas, o “crack”, em destaque. Os jardineiros/doadores são pessoas que não querem aparecer, que não homenageiam autoridades e nem circulam em salões cheios do vazio de muitos. Não há bebidas. No ano de 2013, o trabalho foi intenso. A ideia já foi copiada e se vê festa em que o (a) organizador (a) gasta muito, divulga nas mídias, entre fotos, drinques e acepipes, pede lençóis, brinquedos ou força compras outras. Nós não pedimos nada. Quem pede são as próprias crianças, com suas letrinhas infantis ou ajudadas pelas “tias”. Cada uma das 1762 crianças é identificada em cartão com sua foto, seu nome, sua idade, pretensão de presente e a chancela da instituição (são 20, ao todo) da qual faz parte. Cada pessoa faz a escolha livremente e, até o 15 de dezembro, retorna, alegre, com o presente solicitado. A nossa equipe de trabalho fica feliz com o excesso de quefazeres; as salas e os corredores plenos de pacotes coloridos e a azáfama contínua. Em seguida, os brinquedos são separados, catalogados por instituições e rigorosamente entregues às crianças, em meio a folguedos, sob o olhar atento de alguns doadores, pois todos são convidados a participar da entrega pública que dura, neste ano, três manhãs, tão grande é a tarefa. Se você, leitor(a), quiser vir e ver, hoje, pela manhã, é o último dia de entrega, na Av. Carapinima, 2200, 1o Piso. Quem desejar plantar outras árvores por aí afora pode seguir a nossa metodologia, acima exposta, e fazer o mesmo no próximo ano. Só não podemos ceder os nossos sentimentos e os dos nossos fiéis jardineiros doadores, a quem agradecemos, desde sempre. Estes são intransferíveis. Como dizia d. Paulo Evaristo Arns, o valor do homem como pessoa é maior que todo o dinheiro do mundo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/05/2018. - [DE MASCATE A VISCONDE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-mascate-a-visconde-jornal-o-estado/): “O prestígio sem mérito obtém considerações sem estima”. N. De Chamfort, escritor francês, séc 18. Em um dia como hoje, 28 de dezembro de 1813, há exatos duzentos anos, nascia Irineu Evangelista de Souza. Gaúcho do interior, de família pobre. Seu pai, João Evangelista de Souza, pequeno fazendeiro, foi assassinado. Em 1818 foi levado por um tio para o Rio. Partiu na vida, com três anos formais de estudo, como balconista, e já aos 15 anos, deu uma guinada. Conheceu Richard Carruthers, escocês, ávido com a abertura do porto do Rio para o Reino Unido. Com Carruthers, de quem tornou-se amigo e, depois, sócio, Irineu aprendeu a ser guarda-livros e maçom, a falar inglês, e a saber que o mundo era maior que a única viagem que até então fizera. A vida de Irineu deveria ser objeto de estudo nas boas escolas de administração deste XXI que se contentam em homenagear pessoas vivas, alguns dignos, e certos blefes nacionais. Essas escolas persistem em manter como referências modelos de gestão estrangeiros e incensa empresários europeus e/ou americanos. Pelo menos, a Associação Comercial do Rio de Janeiro, hoje presidida pelo cearense Antenor Barros Leal Filho, instituiu o prêmio Barão de Mauá, o pioneiro da industrialização brasileira. Esse galardão é conferido a pessoas e instituições que encerrem serviços prestados à formação e à difusão da educação. Mauá teve fundição, estaleiro, navios, iluminação a gás, construiu estradas de ferro, foi deputado pelo Rio Grande do Sul, fundou banco e expandiu os seus negócios para o exterior. Em 1840, já estabilizado no Rio, mandou vir dos arroios gaúchos, sua mãe, Maria de Jesus; a irmã, Guilhermina, com a filha adolescente, Maria Joaquina. No ano seguinte, Irineu, de regresso de uma das muitas viagens de negócios à Inglaterra, traz uma aliança para Maria Joaquina, a sobrinha, que vira sua esposa. Tiveram 12 filhos. Em 1854, aos 41, inaugura 15km da ferrovia que ligaria o Rio a Petrópolis, ocasião em que recebeu do próprio Imperador, Pedro II, com quem tinha desavenças, o título de barão de Mauá. Vinte anos depois recebe o título de Visconde, um nível acima do baronato, honra concedida pela monarquia por ele combatida com tanto fervor quanto o fim da escravatura. Segundo Kenneth Maxwell, historiador britânico contemporâneo, “ele se opunha ao comércio negreiro e à escravatura…No auge de sua carreira, em 1860, controlava 17 empresas no Brasil, Uruguai, Argentina, Reino Unido, França e Unidos”. Nem tudo foi glória na vida de Irineu. Chegou a falir, mas conseguiu a plena reabilitação, antes de falecer em 1889, antes da proclamação da República. Conheci, há tempos, Jorge Caldeira, professor e biógrafo, que tinha escrito, no ano de 1995, o livro “Mauá, o Empresário do Império”, pela Cia. das Letras. Fiz-lhe diversas perguntas sobre o livro e o Irineu. Jorge ficou intrigado com a minha curiosidade. Ela permanece. Irineus são poucos, ainda hoje. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/06/2018. - [RELEITURA DE NILTO MACIEL UMA LUZ QUE AZULA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/releitura-de-nilto-maciel-uma-luz-que-azula-jornal-o-estado/): Estava na despedida de Nilto Maciel da face da terra, em 29 de abril de 2014. Será que um escritor do calibre de Nilto Maciel desaparece ao ir para além do além? Nilto me acolheu no meu começo e não era raro trocarmos ideias entre as suas baforadas de cigarro que borravam as suas grossas lentes de ler. Quem quiser saber dele poderá ler seus livros ou consultar a Wikipédia. Lá estão a produção literária e os prêmios recebidos. É fácil perceber o descortino desse cearense, formado em Direito e nas ciências da vida. Foi-se para Brasília, mediante concurso público. Cumprido o tempo, aportou em Fortaleza e aqui se espraiava em contos, poemas e romances. No oferecimento que me fez no livro de contos “Luz Vermelha Que se Azula”, Prêmio Moreira Campos, ele diz: “Ao amigo João Soares Neto, que escreve certo, estas linhas tortas”. Na verdade, Nilto não era homem de linhas tortas, tampouco de linhas óbvias, era um criador que se metamorfoseava em personagens nas histórias que criava. Dou a palavra a NM: “A maioria das minhas composições literárias surge por acaso, de inopino ou inspiração, o que deve acontecer com quase todos os criadores, não as busco. Vêm num piscar de olhos. Não as cato nas ruas. Apresentam-se a mim como folhas mortas, papéis velhos, cacos de vidro, esterco. Acolho algumas. Lapido-as, lavo-as e faço delas literatura”. NM continua: “Outras, porém, não existem nem como ideias e, se existem, estão bem enterradas ou perdidas nas páginas de velhos alfarrábios. É o caso de algumas aqui reunidas. Fui procurá-las nas enciclopédias, nos dicionários, nas biografias, nos compêndios de história”. Interrompo a dicção de NM e passo a palavra a Aíla Sampaio, que foi minha confreira na Academia Fortalezense de Letras: “(…) O equilíbrio está no talento de Nilto Maciel para amalgamar realidade e ficção. Munido de vasta bagagem de leituras e domínio das técnicas de construção do texto literário, ele percorre veredas diversas, com seu apurado trabalho de linguagem, dá unidade ao que é diverso, puxa o leitor por caminhos inusitados e consegue, sem exauri-lo no longo percurso que se impõe da primeira à última página, prendê-lo espontaneamente ao universo de seres alucinados e fatigados de sua aventura existencial”. Agora, neste abril de 2017, três anos após, relembro aos leitores, colegas, amigos e familiares a certeza de que Nilto Maciel está em todos os lugares por onde passou e espargiu a sua premiada literatura. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/01/2018. - [CRIANÇA. O ONTEM E O HOJE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/crianca-o-ontem-e-o-hoje-jornal-o-estado/): Era uma vez um menino nascido ao meio-dia de uma sexta-feira. O mundo estava em guerra. Não por tal razão chorava. Havia saído a fórceps do útero de mãe primípara, por obra e graça de parteira diplomada. Seu pai só tinha 20 anos, era ciumento e não deixou a jovem mulher ser assistida por médico. Paparicado por jovens tias maternas, pois o casal estava com pressa de povoar o mundo. Depois dele, não veio o dilúvio, mas oito crianças. Uma das tias sugeriu e os seus pais aceitaram, iniciá-lo, aos quatro anos, nos estudos em escola experimental americana. Ia só. Quem o acompanhava, ficava longe. Infelizmente, durou pouco. Matricularam-no em ginásio formal. Um dia, não lembra a razão, foi o último a sair do recreio para a sala de aula. De repente, o diretor puxou-o ela orelha, ralhando. Conseguiu um telefone do próprio ginásio e ligou para o pai contando o fato. Disse: não estudaria mais ali. Dito e feito. Dezenas de anos passados, ele, já com netos em idade escolar, tenta aproximação de formas diferentes. Meio sem jeito, desde o tempo de pai. Criara (seria o prenúncio de um ficcionista?), dois personagens, a Rosinha e o Paulinho, crianças exemplos. As filhas procuravam conhecê-los. Ele driblava com evasivas: moram um pouco distante daqui, viajaram, estão de férias etc. Rosinha e Paulinho eram bons filhos, estudiosos e serviram de modelo invisível para as ainda crédulas filhotas. Agora, conta um pouco do “seu-sem-jeito” como avô. Há anos combinou com uma filha: levaria as crianças dela para a escola. Tentava maior aproximação. Entravam no carro ainda bocejando. Ele, o avô, colocara no toca cd músicas infantis e ia, desafinando, solfejando com eles. A festa durou pouco mais de uma semana. Um dia, perguntou se fazia diferença ir apanhá-los manhã cedo ou outra pessoa servia. Triste, ouviu: tanto faz. Domingo desses, combinou com outra filha, ir apanhar o seu primogênito para levá-lo a uma feira de numismática. O neto, rosto cheio de protetor solar e saco com lata de moedas repetidas. Sentados no banco da frente, cintos de segurança atados, foram conversando ao Parque da Liberdade, no centro, a antiga Cidade das Crianças, concepção pedagógica da professora Zilda Martins Rodrigues. Lá, pessoas maduras fazem o escambo e a venda de moedas. Sentou-se em uma banca. O neto, em outra. Fez as suas barganhas e, ao final, o neto queria vender, a qualquer preço, as moedas repetidas. Arrazoou: você não está precisando de dinheiro. Comprou novas moedas para o neto, inclusive, cédula de dólar com a cara do Mickey, só circulante no mundo da fantasia e no dos numismatas. Depois, foram almoçar. Antes, o neto pediu para tomar sorvete. Concordou, claro. Do almoço provou pouco, mas bebeu duas latas do excêntrico Guaraná Jesus, hoje marca da Coca-Cola. Mais um sorvete e tomou o caminho de volta. Papos, risos e abraços. Ficaram combinados, voltariam à feira. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/01/2018. - [O QUE SE FALA NO GOOGLE SOBRE O BRASIL? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-se-fala-no-google-sobre-o-brasil-jornal-o-estado/): “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Tom Jobim A Folha de São Paulo resolveu pedir ao Google informações sobre as buscas dos seus internautas acerca do Brasil. O Google aquiesceu e informou, mais ou menos, o seguinte: os próprios portugueses ao usar o sistema Google fazem, em busca mais recorrente, a seguinte pergunta: quem descobriu o Brasil? A outra pergunta deles é: quem colonizou o Brasil? É verdade, não é brincadeira. Coisas da pátria-mãe. Sobre o assunto, Patrícia Campo Mello, jornalista, informa: “Para mapear a imagem do Brasil no Mundo, o Google levantou, a pedido da Folha, o que os cidadãos de alguns países buscam em seu site sobre o País desde 2004. Afora os resultados no mínimo curiosos sobre os portugueses, o levantamento mostra que o Brasil começa a se livrar dos clichês ‘samba, futebol e carnaval’”. Mas, descobriu-se que é no nosso país que os norte-americanos pensam em certos tipos de cirurgia plástica e estética, tais como “Brazil butt lift” (cirurgia para aumentar o traseiro) e “brazilian wax” (depilação dos pelos pubianos). Enganam-se ao pensar que por aqui há sementes nativas que teriam o poder do emagrecimento nos locais certos. Por outro lado, a pesquisa, citada, mostra que ainda há perguntas, tais como: onde fica o Brasil? em que país fica o Brasil? que língua é falada no Brasil? Recorro à Patrícia: “A ignorância também permeia as buscas mais frequentes dos internautas do Iraque como: “Qual é o idioma”, “Onde fica?” e “Qual é a capital?”. Mas o sexo não sai do imaginário dos iraquianos (muçulmanos, diga-se) quando pensam no Brasil. O termo mais procurado por eles é ‘praias de nudismo, seguido de ‘sexo’ e ‘mulheres sexy do Brasil”. Aqui ao lado, na Argentina, os “hermanos” procuram saber de novelas e a que tem mais entrada no Google é “Avenida Brasil”, da TV Globo, que só foi retransmitida para lá em 2014. Fortaleza está entre as cidades mais procuradas, ao lado de Natal, Bonito – no Mato Grosso do Sul-, Itapema, em Santa Catarina e Torres, nos pampas gaúchos. Por outro lado, além das perguntas bobas ou primárias há algo um pouco mais profundo e isso vem dos franceses que procuraram saber “quais as particularidades da presidente Dilma?”, “o Brasil produz para alimentar sua população ou para vender?” e “por que chamam o Brasil de fazenda do mundo?”. Como se vê, o nosso País ainda é um ilustre desconhecido e isso nos entristece, pois acreditamos ser a sétima ou oitava economia do mundo e nem os da nossa pátria-mãe sabem quem somos. Tantas foram as viagens presidenciais pelo mundo afora, nestes últimos 20 anos, que imaginávamos um “recall” mais alvissareiro. Entretanto, algo nos alegra. O nível dos perguntadores é de ordem tão primária que há esperança de que, pelo menos, entre populações mais instruídas, tais como: jornalistas, acadêmicos e intelectuais – os que ainda leem livros e possuem uma visão mais cosmopolita- possa realmente haver informações mais qualificadas. Saber, por exemplo, que se atribui a Pedro Álvares Cabral o nosso descobrimento; que somos um país continental de 200 milhões de habitantes; que falamos a língua portuguesa e que fomos colonizados por Portugal. Hoje, temos uma democracia turbulenta, a nossa presidente é uma mulher, Dilma Vana Rousseff, filha de imigrante e estamos nos preparando para sediar as Olimpíadas de 2016, na cidade do Rio de Janeiro, patrimônio da humanidade. Ainda produzimos samba, especialmente em favelas pacificadas; tentamos, com o “coach” Dunga, voltar à hegemonia no futebol; os carnavais do Rio e de São Paulo são patrocinados por contraventores em parceria com multinacional de cerveja e mostrados via televisão. O ator Rodrigo Santoro é brasileiro e o nosso maior cantor é Roberto Carlos. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/02/2018. - [TIRADENTES, O HERÓI DO FERIADO DE AMANHÃ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tiradentes-o-heroi-do-feriado-de-amanha-jornal-o-estado/): “Justiça que a Rainha Nossa Senhora manda fazer a este infame Réu Joaquim José da Silva Xavier pelo horroroso crime de rebelião e alta traição de que se constitui chefe, e cabeça na Capitania de Minas Gerais, com a mais escandalosa temeridade contra a Real Soberania e Suprema Autoridade da mesma Senhora, que Deus guarde”. Parte da sentença de morte contra Tiradentes. Que continua: “Mando que com este baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta Cidade ao lugar da forca e nela morra de morte natural para sempre e que a cabeça separada do corpo seja levada à Vila Rica…” (Boletim da Polícia Militar do Rio de Janeiro, no. 53, em 18.04.2008). Em 1776 aconteceu a Independência da América, jovens brasileiros, filhos de abastados nacionais, estudavam na Europa, mormente em Portugal. Eles resolveram, seguindo a senda iluminista, aspergir a ideia da libertação da Coroa, através de cartas e de palavras candentes, quando das férias ou dos seus retornos. Anos depois, alvitrou-se, em Vila Rica (hoje, Ouro Preto), Capitania das Minas Gerais, fazer um movimento social libertário, juntando parte do clero, da intelectualidade e da burguesia. A esse movimento, a dita “Inconfidência Mineira”, aderiu Joaquim José da Silva Xavier, alferes pouco lido, de poucas posses, também protético, profissão aprendida em família, que recebera a alcunha de “Tira Dentes”, o Tiradentes. Esse movimento sequer prosperou, ficando morno. Joaquim era um boquirroto, mas também gostava de ouvir. Soube haver cheiro de traição no ar. Estava com problemas afetivos sérios, apesar de nunca haver casado. Largou o movimento, a corporação Dragões de Minas e fugiu para o Rio de Janeiro. Mesmo assim, em 1789, Joaquim Silvério dos Reis, falido e ciente do favor à Coroa, fez a denúncia sobre a possível e nunca realizada insurreição. Dou a palavra a Otávio Frias Filho em artigo nominado de “Ainda que tardia”, publicado na Folha de São Paulo, em 26 de fevereiro passado, escrevendo sobre o filme “Joaquim”, lançado, ontem, em circuito nacional. Diz Frias: “Não existe história mais recoberta de ferrugem verde-amarela, depositada em tantas décadas de reiteração escolar, que a de Tiradentes. O frescor acre que exala de “Joaquim”, exibido, na semana passada, no Festival de Berlim, decerto tem a ver com a opção do diretor Marcelo Gomes… Quando começa a acontecer o que aprendemos na escola, o filme termina”. Como se sabe, mesmo tendo sido o único morto, por conta da Inconfidência, a mando da Rainha Dona Maria I, cognominada a “Rainha Louca”, Tiradentes ou Joaquim, ficou no limbo da história até o albor do movimento republicano, em 1870. Procurava-se um herói nacional. Consta que usaram o Tiradentes. É a versão tida como requentada nos fornos da “consentida” República. Não há na Historiografia do tempo Imperial menção alguma à tal Inconfidência. Frias, no artigo já referido, diz: “Em seu livro sobre o personagem (Tiradentes: O Corpo do Herói, Martins Fontes), a historiadora Maria Alice Millet demonstra como a sua mitologia foi elaborada…”. O fato é que Tiradentes, três anos preso, foi degolado em 21 de abril de 1792 e os autos da sua condenação duraram 18 horas de alocução. Ora, se ele fosse tão desimportante assim porque o Império gastaria tantas laudas com ele? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/04/2018. - [HOMENAGEM DA CÂMARA MUNICIPAL DE FORTALEZA À ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS, EM SESSÃO SOLENE NO DIA 12 DE NOVEMBRO DE 2009.](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/homenagem-da-camara-municipal-de-fortaleza-a-academia-fortalezense-de-letras-em-sessao-solene-no-dia-12-de-novembro-de-2009/): Discurso do Vereador PAULO FACÓ, propositor da homenagem. Senhor Presidente vereadoras e vereadores, Senhores convidados: Dizia o poeta Filgueiras Lima que as academias, além de serem institutos de exercícios literários, têm um compromisso social de marcante importância: cabe-lhes acender ideias de elevação mental na alma do povo e aprimorar os recursos da língua nacional, assegurando-lhe o resguardo dos modos e formas expressionais da melhor beleza idiomática e de respeito aos elementos de sua formação. Tem o Ceará uma trajetória de amor às agremiações culturais. Muitas foram as que se formaram ao longo de nossa história, algumas de forma marcante, como a original PADARIA ESPIRITUAL, fundada em 1892 pelos jovens boêmios que frequentavam o “Café Java” na Praça do Ferreira, sob a generosa complacência do Mané Coco, jocosa figura de botiquineiro. Em 1894 era fundada a ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS, porventura a mais antiga do Brasil, pois antecedeu em três anos a própria ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Outras associações e grupos literários já haviam recrutado os amigos das letras, como a ACADEMIA FRANCESA, em 1873, o GRÊMIO LITERÁRIO, em 1885, e o INSTITUTO DO CEARÁ (ainda hoje em pleno vigor produtivo), em 1887. Nesses redutos de embate de ideias e manifestação estética surgiram nomes que haveriam de engrandecer as letras cearenses e romper as fronteiras da Província para brilhar à ampla e larga admiração nacional. Nomes como o de Antônio Sales, Adolfo Caminha, Rodolfo Teófilo, Rocha Lima, Juvenal Galeno, Farias Brito, Araripe Júnior e Clóvis Beviláqua. Somos uma terra de produtores de literatura. De poetas e prosadores de qualidade superior, muitos assinalados em definitivo nas páginas permanentes da imortalidade, como colunas sólidas da história literária do país. Desses anais perpétuos jamais sairão José de Alencar, Capistrano de Abreu, Franklin Távora, Domingos Olímpio, José Albano, Gustavo Barroso, Herman Lima, Raimundo Magalhães Júnior e Rachel de Queiroz. Parece que temos no Ceará uma inquietação para dizer, pelos misteriosos caminhos do encanto, os sentimentos e as emoções que nos possuem, o acicate da dor e o fogo da paixão, o plasma do delírio e o patinar obscuro do lodo, o mel e o fel de nosso jeito severino de encarar a vida. Há sete anos, um grupo de intelectuais desta cidade, reunido em torno dessa necessidade de praticar a arte da palavra, resolveu fundar mais uma Academia de Letras. Seria a Academia da cidade de Fortaleza e visava congregar e integrar entidades culturais da capital e literatos para o cultivo de ideias e divulgação de suas produções, num salutar e benfazejo convívio, onde os participantes se sentissem à vontade para a livre expressão de seus sentimentos, proclamados em prosa e verso. A ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS, que, como outras, poderia ter vida efêmera e destino passageiro, logo firmou-se no conceito da literatura de nosso Estado como uma entidade séria e respeitável, promovendo conferências de real interesse cultural, publicando uma revista e editando uma antologia, revelando, dessa forma, uma atuação de marcante presença no movimento cultural de Fortaleza. As quatro diretorias que a comandaram, presididas respectivamente por Cid Carvalho, Cybele Pontes, Ednilo Soárez e o atual, o cronista João Soares Neto, conseguiram conquistar a confiança da comunidade intelectual e dos meios acadêmicos, mas, sobretudo, obtiveram o grande feito de aproximar a elite cultural da cidade, das escolas, da juventude e de todos os que, de alguma forma, mostram interesse pelo cultivo das letras e pelo exercício da palavra escrita. Como em todos os ofícios da atividade humana, o escritor tem um compromisso com a sociedade e com a história. Mas cabe aos que escrevem uma função maior. É que o escritor faz a leitura da vida, capta os retratos de época, interpreta a natureza humana, reflete em sua criação o pensamento, as ideias e as atitudes de seu tempo, expressando-os através da crônica, do ensaio, da poesia e até da ficção, que sempre se apoia na realidade e reproduz situações concretas. Instrumento, portanto, da história, o escritor é elemento imprescindível para a memória da humanidade. Sem a sua atuação, não teríamos a Bíblia, o Livro dos Vedas, o Alcorão, a Odisséia, a Divina Comédia e Os Lusíadas. Nem saberíamos das façanhas de Carlos Magno e dos Doze Pares de França. Nem das Proezas de João Grilo ou da Peleja de Zé Pretinho com o Cego Aderaldo, pelo viés da literatura de cordel. Congregar esses seres iluminados que trabalham sobre a magia das palavras e, como deuses, criam mundos e constroem vidas, é uma missão também quase divina. Por isso, aplaudimos a existência das academias. Senhoras e Senhores: Aqui está a ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS, representada por muitos de seus membros, sob a liderança do Dr. João Soares Neto. É um cidadão vencedor. Bom de cidadania, bom de leituras e de escritura, bom de convivência. Um homem que, depois de triunfar no mundo empresarial, recorreu a sua antiga inclinação. Aquela vocação espiritual que o aluno do Colégio Cearense já demonstrava nas tertúlias do grêmio escolar, fazendo discursos e recitando poemas nas saudosas sessões lítero-musicais da escola marista. O Cônsul do México no Ceará, além de ser poliglota, dar centenas de empregos e conhecer o mundo inteiro, é um cronista de boa safra, um contemplador do cotidiano, a tecer sobre as coisas, fazeres e olhares de nosso tempo abalizados e originais comentários, num estilo leve, palatável e gramaticalmente cuidadoso. Hoje, nesta noite de grande alegria para a Casa do Povo, queremos homenagear a ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS pelo seu trabalho, por sua missão pedagógica e incentivadora, pelas intenções sublimes de seu ideal, pelo que já fez e fará pela cultura de nossa cidade. Senhores acadêmicos e escritores do Ceará: A Câmara Municipal de Fortaleza, representando o sentimento da cidade, se declara em completo estado de gratidão à ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS por todas as suas realizações. MUITO OBRIGADO. - [Boa-noite a todos os presentes à Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, nesta noite de 29 de outubro de 2019, em solenidade para a entrega da Medalha Edson Queiroz](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/boa-noite-a-todos-os-presentes-a-assembleia-legislativa-do-estado-do-ceara-nesta-noite-de-29-de-outubro-de-2019-em-solenidade-para-a-entrega-da-medalha-edson-queiroz/): Autoridades, meus familiares, colaboradores, colegas das Academias a que pertenço, representantes de Entidades assistidas pelo Shopping Benfica, integrantes da Academia de Letras estudantil, criada por nossa inspiração; e, em especial, os que compõem a mesa diretiva, nas pessoas da Desembargadora Iracema Vale, e do dirigente dos trabalhos, Deputado José Sarto Nogueira. Espero ser breve para ser ouvido porque nesta noite de terça-feira se deslocaram de suas casas, de seus trabalhos e estão aqui neste Plenário. De antemão, muito obrigado a cada um. Sintam-se acolhidos. Devo, por reconhecimento e princípio, agradecer ao Deputado José Sarto, que alia a destreza de médico cirurgião ao político que chegou à presidência desta Assembleia Legislativa por sua liderança cautelosa, pois ausculta seus pares, antes de tomar decisões de interesse público. Tanto é verdade que estou aqui, por decisão e aprovação uníssona do plenário. Receberei honrado, a Comenda Edson Queiroz, instituída por lei, em 1982. Muito obrigado, Presidente José Sarto e a todos os deputados que se acostaram ao mérito desta premiação. Merece reconhecimento o Presidente do Sindilojas, Cid Alves, que, em reunião com a sua Diretoria, indicou, por ofício, o meu nome a esta Casa, obedecendo aos trâmites necessários. Lojistas são empresários que, no dia a dia, servem ao povo, na competitiva tarefa de lidar com a concorrência, formal e informal, acompanham os avanços tecnológicos para se manter up to date. Minha gratidão ao Presidente Cid Alves. Agora, falo de Edson Queiroz, o Patrono. Edson Queiroz foi lojista. Aos 24 anos, em 1949, criou o “Abrigo Central”, ao norte da Praça do Ferreira. O Abrigo era a versão primeira de um centro comercial simples, aberto para atender a todos os que chegavam e saíam do então, coração da cidade. Delmiro Gouveia, cearense, foi o pioneiro no planejamento e construção do “Centro Comercial do Derby”, em Recife, Pernambuco, no ano de 1899. Delmiro foi o Edson Queiroz de sua época. Provado está que Edson Queiroz, o maior empresário cearense de sua geração e quiçá do século, construiu, em velocidade supersônica, um conglomerado de empresas, a partir do gás liquefeito de petróleo- GLP. E foi longe. Montou um sistema de comunicações integrado, cresceu na agroindústria, multiplicou-se em alimentos e bebidas, idealizou e fundou a Universidade de Fortaleza, hoje a maior universidade privada do Nordeste. Possui um dos maiores landbanking do Brasil. Edson ultrapassava o regional e se agigantava, como zênite, no cenário nacional, sendo destaque em premiações recebidas Brasil afora. Tinha sede de conhecimento e fazer bem feito. Era simples, direto, inteligência pulsante, gostava de cantar, dançar e fazer mágica para os netos. Edson Queiroz, aos 57 anos, morreria em desastre aéreo, em 08 de junho de 1982. Duas semanas depois, o estado do Ceará, editava a Lei 10.695, no 22 de junho do fatídico 1982, que homenageia, anualmente, empresários cearenses. D. Yolanda e Airton Queiroz, apoiados pela família e colaboradores, continuaram a missão e fizeram crescer a sua obra. Hoje, filhas e netos, de forma integrada, dinamizam o Grupo Edson Queiroz, discreto, bem estruturado e sólido, a partir de Holding capitaneada por Abelardo Rocha Neto, Edson Queiroz Neto e Igor Barroso Queiroz. Formação adequada, talento e herança genética. Parafraseando Friedrich Nietzsche: “O que provoca a minha morte faz com que eu fique mais forte”. A aura de Edson Queiroz pastoreia, de longe, as muitas coisas que criou. Creio que Edson Queiroz serviu de inspiração e referência a todos os micros, pequenos, médios e grandes empreendedores cearenses. Agora, nesta noite, sou o homenageado. Sou um batalhador há muitos anos, 50 para ser preciso. Em 1969 fundamos a Planos Técnicos do Brasil (vejam a petulância do nome), a primeira empresa cearense a trabalhar com planejamento integrado para a elaboração de Planos Diretores e de Projetos de financiamentos para a construção civil. Daí partimos para edificações, hotelaria, saneamento, estacionamentos, cinemas e centros comerciais. Tudo pequeno, acreditamos no ditado “Small is beautiful”. O pequeno é bonito. Tudo o que sou, agradeço a uma visão heterodoxa, inquietude, inventividade, arrojo e, principalmente, saber agradecer àqueles que me ajudaram e estiveram ao meu lado neste meio século. Já assinei mais de 30 mil carteiras de trabalho e resisti, sabe Deus como, às múltiplas crises brasileiras. Não sou grande, tampouco médio ou pequeno, sou inquieto e inveterado leitor a procurar saber os caminhos da faina, e da literatura. Ao redor do mundo (aqui e alhures). Ao conceber o Shopping Benfica, matutei, planejei e entendi que pessoas desassemelhadas poderiam conviver num centro comercial compacto, ousado, com atividades permanentes nas artes e nas formas de cultura, para dar aos clientes, sentimento de pertença, envolvimento, bem-estar e interação. Somos pessoas de naturezas diversas, antes de sermos consumidores. Aceitar as diferenças, encantá-los com atividades culturais, de artesania e de arte, projetos permanentes, de todas as naturezas. Amanhã, 30 de outubro de 2019, o Shopping Benfica completa 20 anos. Desafiei a geografia local, que privilegia a zona leste da cidade e aonde estavam e estão assentados empreendimentos congêneres. Ousei acreditar no pequeno bairro do Benfica, sofrido com a perda para o Pici da área de ciências e tecnologia. Descobri que os 17 bairros que o circundam estavam em nosso raio de ação e cuidados. Foi duro. Muito duro, mas realizei este sonho da maturidade. Na inauguração, realizamos uma grande exposição, doando grandes telas nuas e tintas para mais de 80 artistas plásticos cearenses. Eles acreditaram e pintaram ao vivo. Foi lindo. Os dois vencedores receberiam passagens para a Europa e os Estados Unidos. Emília Porto e Audifax Rios. Nascia a Galeria BenficArte que já realizou 412 exposições. Tudo isto acontecia, em 30 de outubro de 1999, sábado, à luz do sol, ao som harmônico da Camerata da Universidade Federal do Ceará. Até hoje, as artes plásticas, as várias formas de cultura, no Projeto Viajando nos Livros dá excelente resposta. Incentivamos os trabalhos manuais e artesanias para pessoas sãs e até de portadores das mais diversas síndromes. Temos programação musical ao vivo, com artistas emergentes. Ousamos e fizemos sessões de cinemas gratuitas para jovens e adultos cerceados de liberdade. Salas cheias, sem evasão. Na área cultural, temos convênio experimental com a Biblioteca Municipal Dolor Barreira. Nas artes e na tecnologia, firmamos com o Instituto Federal do Ceará, Campus de Fortaleza, com a duração de cinco anos, a vencer em 2024. Este é o diferencial do Benfica. Está na ânima (essência) dele. Pois foi assim e assim será. Agora, 20 anos depois é o hoje, continuamos na mesma trilha. Com orgulho, podemos afirmar que a SECULT- Secretaria da Cultura do Governo do Ceará já nos outorgou, por oito vezes consecutivas, com o Selo de Responsabilidade Social, inclusive, na categoria Diamante. Nenhuma outra empresa ou entidade cearense, pública e privada, detém este laurel. Todos os presentes a esta solenidade são convidados a comparecer e a comprovar amanhã, na nossa festa de 20 anos, que começará às 18 horas, o que o Shopping Benfica faz para ter colaboradores, lojistas e clientes como parceiros e amigos. O bolo (fruto de um reality show) que era linear e atingiu 19 metros no ano passado; agora verticalizou e tem 20 andares. Haverá avant-première da decoração de Natal, concebida e realizada pelas mãos e os talentos de todos nós, que idealizamos, construímos e fazemos o Shopping Benfica. Ouso, por fim, repetir o que Edson Queiroz deixou como frase - referência: “Se algum dia vocês forem surpreendidos pela injustiça ou pela ingratidão, não deixem de crer na vida, de engrandecê-la pela decência, de construí-la pelo trabalho”. João Soares Neto 29/10/2019 - [DISCURSO DE POSSE DA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/discurso-de-posse-da/): DESEMBARGADORA MARIA IRACEMA DO VALE NA PRESIDÊNCIA DO TRE DO CEARÁ Excelentíssimos Senhor ....................(citar as autoridades indicadas pelo cerimonial), Excelentíssimas Senhoras, Prezados amigos e familiares, De princípio, devo agradecer as saudações protocolares do Juiz Luciano Lima Rodrigues, em nome do pleno do TRE, e do advogado Valdetário Monteiro, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil – Secção do Ceará, em nome dos causídicos cearenses. Saúdo todas as mulheres presentes na pessoa de minha nora Renata do Vale, mãe extremada das minhas netas Cláudia, Lara e Lina. Gostaria de cumprimentar todos os meus professores presentes ou ausentes, não por vontades próprias, na pessoa do Dr. Carlos Roberto Martins Rodrigues, meu ilustre mestre de Direito Administrativo, na pioneira Faculdade de Direito do Ceará, depois da UFC. É com honra, alegria e humildade que assumo a Presidência do TRE do Ceará. Sejam todos bem-vindos a esta solenidade pública e publicável. Estou consciente de que o País vive um momento auspicioso de sua vida democrática, com a afirmação, em vários pleitos sucessivos, da fiel observância dos pronunciamentos populares, por meio das urnas, assegurando ao povo escolher, livremente,l os seus dirigentes políticos. Todos somos testemunhas de como a Justiça Eleitoral zela pela fidelidade às preferências dos eleitores. Sabemos como os seus Magistrados se empenham eficazmente em não permitir que as influências do poder econômico ou político, outrora tão frequentes, perturbem a legitimidade dos pleitos, embora essa tarefa nem sempre se possa cumprir em clima de respeito e harmonia. Não seremos tolerantes com as influências perniciosas, atuando com veemência para excluir da participação nas disputas eleitorais os que não se apresentam dotados das qualificações indispensáveis para o exercício de funções públicas eletivas, seja no domínio do Poder Executivo ou na representação parlamentar. A Justiça Eleitoral sempre contribuiu ao aprimoramento das eleições e à moralização da vida política em todos os seus níveis. Sabemos que não se mudam com rapidez as práticas arraigadas. É sempre difícil alterar os comportamentos das pessoas, mesmo quando se mudam as leis que elas deveriam observar. A obstinação é, nesses casos, a arma eficaz para obter as transformações desejadas. Passo a passo, daremos o tom certo, a forma adequada com o cuidado indispensável à prestação jurisdicional de qualidade. A gestão de um Tribunal deve espelhar o perfil de quem, ainda que, por honrosa delegação dos pares, o administra. Deixo claro que sou uma pessoa simples, descomplicada, obstinada e coerente nas minhas decisões. Não sou uma principiante. Aprendi com a responsabilidade inerente aos cargos de Procuradora Geral da Justiça, magistrada e como Corregedora do próprio TRE. Sou neta e filha de advogados. Procuro honrar os seus nomes. Fui filha, sou mãe, avó e, também, esposa. Mas há 31 anos sou profissional determinada, sobretudo determinada, traço de personalidade herdado de minha querida genitora Iracema Vale, cuja memória reverencio. Ela me deu a vida; ensinou-me o que é a vida; preparou-me para a vida e me recomendou os caminhos a seguir na vida passo a passo, sem medo e sem tergiversar. Se ao sexo feminino associam erroneamente a ideia de fragilidade, não confundam minhas medidas palavras com o chamado silêncio dos indiferentes; minha tolerância, com desânimo no discernir o certo do errado; minha urbanidade com recuo no deliberar na forma da lei; minha ponderação, com hesitação no agir ou no enfrentar problemas e superar desafios. Eu os enfrento e resolvo. Sou serena por natureza. Mas essa serenidade não traduz a ausência de firmeza a que me proponho no conduzir esta máquina administrativo-jurisdicional que é o TRE- Ceará/ Menos ainda, tenho temor de, nesse mister, reprimir insinuações ameaçadoras ou interferências veladas que me inibam o dever, a obrigação de decidir segundo a minha consciência e conforme o ordenamento jurídico eleitoral, doa a quem doer. Um notável elemento da evolução jurídica, contudo, incide na autoridade que a Justiça Eleitoral deve exercer sobre quaisquer desvios. Esse elemento manifesto na serenidade dos seus julgamentos deve ser alicerçado em fundamentos seguros, de modo que os poderes judiciais não se extraviem em impulsos servis a quaisquer interesses, senão somente ao cumprimento puro e simples da Justiça. A Justiça Eleitoral, pela exigência de celeridade que a qualifica, não pode deixar-se impressionar com as urgências forçadas, porque não raro ocultam as verdades e terminam mais afeitas às impressões do que às realidades. Senhoras e Senhores O TRE- Ceara tem um passado de honrosas tradições, desde a sua implantação pelo Professor e Desembargador Faustino de Albuquerque e Souza, nos anos iniciais da década de 30 do século passado. Por ele passaram Magistrados com qualificação intelectual e ética, muitos Desembargadores do nosso Tribunal de Justiça, inclusive o seu atual Presidente, Des. Luiz Gerardo de Pontes Brígido. Relembro, por necessário e oportuno, os desembargadores Ademar Mendes Bezerra, Stênio Leite Linhares, Júlio Carlos de Miranda Bezerra e Jaime de Alencar Araripe, apenas para lembrar alguns presidentes valorosos. Cheguei ao TRE-Ce há quase 3 anos e, por gratidão.não poderia deixar de referir a colaboração recebida, quando corregedora, dos Juízes Estaduais Luciano Lima Rodrigues e Raimundo Nonato Silva Santos e dos Juízes Federais, dentre os quais nomino o Dr. Jorge Luiz Girão Barreto, Dr. João Luis Nogueira Matias e o Dr. Luiz Praxedes Vieira. Distingo os Procuradores da República, nas pessoas do Dr. Márcio Andrade Torres e do Dr. Rômulo Moreira Conrado; Igualmente, os Juristas, que iluminam o Tribunal com a sabedoria de suas decisões e a altivez dos seus julgados. Sucedo, no tempo devido, a mulheres notáveis, julgadoras de finíssima formação jurídica e de inegável habilidade no trato das coisas da Justiça Eleitoral. Refiro-me às desembargadoras Auri Moura Costa, a primeira magistrada de nosso País, Águeda Passos Rodrigues Martins, Huguette Braquehais e Gisela Nunes da Costa; não as menciono como se pretendesse estabelecer uma distinção de gênero, que não devemos cultivar, mas para relembrar as suas atuações que podem nos servir de exemplos de destemor. A administração de um Tribunal Regional Eleitoral é peculiar, porque a prestação jurisdicional deve ser rápida e as condutas dos dirigentes precisam ser balizadas pela lei. Não existe espaço para atos discricionários ou para a consumação de projetos que tragam marcas pessoais. Acreditamos que a nova administração será profícua, a partir de sua composição ilustre. Destaco o Vice- Presidente e Corregedor, Des.Abelardo Benevides, por sua clareza e saber, e os dignos desembargadores Francisco de Assis Filgueiras Mendes e Maria Nailde Pinheiro, substitutos. Saibam todos os nossos propósitos nesses dois anos que hoje começa: 1.dar cumprimento ao processo de construção de uma sede adequada para a Corte, na qual o público sejam atendido; os servidores, os juízes, o Ministério Público Federal e os Advogados possam desempenhar os seus ofícios em ambiente adequado, informatizado e seguro. A atual sede do TRE é obsoleta e não comporta maiores observações. 2. Implementar, com segurança, o recadastramento eleitoral pelas impressões digitais, a chamada biometria, já iniciada em sete municípios do Ceará e que se constitui uma das metas relevantes do Tribunal Superior Eleitoral –TSE, tido como instrumento de vanguarda mundial na segurança absoluta do voto e, conseqüentemente, da democracia que merecemos ter. 3. Por fim, o planejamento das eleições de 2014, em todos os seus múltiplos detalhes, como a segurança, o treinamento e as providências de logística. Para isso, conto com a excelente equipe técnica que compõe o quadro do TRE-Ceará. Temos uma dificílima missão e, asseguro, de minha parte, que farei tudo para cumpri-la. com a ajuda de Deus. Minha vida pública espelha a minha gradativa preparação para o diálogo construtivo e para o trabalho em equipe, sem acidez ou mandonismo. Busco uma luz na sabedoria do culto Padre Antônio Vieira, no “Sermão da Terceira Dominga do Advento - Post Epiphaniam”. Ele nos assevera e ensina: “O poder tudo, consiste em poder algumas coisas e não poder outras: consiste em poder o lícito e o justo; e não poder o ilícito e o injusto; e só quem pode, e não pode desta maneira, é o Todo Poderoso”. agradeço a todos os que me acompanham nesta dupla jornada, no TRE e no Tribunal de Justiça. Sem essas equipes qualificadas não poderia realizar muito. Com elas, tenho certeza de que cumpriremos o que agora prometemos. Aos da minha querida família, peço mais dois anos de paciência. Senhoras e Senhores, ao encerrar este pronunciamento, agradeço, profunda e sinceramente, a presença de todos, sem distinção, que aquiesceram em deixar os seus afazeres e compareceram a esta solenidade, fazendo-a um acontecimento marcante na minha vida, pelo brilho invulgar que trouxeram. Muito obrigado a todos! Que Deus nos abençoe. - [Boa noite a todos,](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/boa-noite-a-todos/): Administrar uma Sociedade Consular pode ser vaidade, oportunidade, responsabilidade, descortino, devaneio ou pouco de cada uma dessas opções. 1. Em dois anos e pouco de administração a Sociedade Consular do Ceará não gastou nenhum centavo. Todas as despesas foram assumidas, pessoalmente, pela presidência e, em datas festivas, pelo quadro social. 2. Nesse período, saneamos toda a situação do quadro social e hoje estamos com 300% a mais do que encontramos em caixa. Nenhum cheque foi assinado, pois nenhuma despesa foi feita. Esta a razão pela qual reelegemos o Cônsul da Colômbia, Maurício Durán, para que, agora, ele possa começar o seu período como tesoureiro. 3. Atualizamos os Estatutos Sociais, mas não temos as atas registradas de todas as sessões em face dos compromissos acadêmicos do nosso colega José Maria Zanocchi, cônsul do Uruguai, razão pela qual o indicamos, novamente, para secretário para que, com o mestrado concluído, possa dar mais tempo ao seu mister associativo. 3. Como eu havia recebido a presidência do Marcos Soares de Castro com o compromisso de repassá-lo a um outro Soares, agora o faço. O novo presidente será o Cônsul da Finlândia, Ednilton Soárez. 4. Em outras palavras, a SC é, no momento, uma dinastia dos Soares que precisa ser rompida. Façamos uma promessa, após os dois anos, que serão profícuos, tenho certeza, nada mais de Soares no poder. Assim, esperem por 2015, não precisam ir às ruas. 5. Falando sério, destacamos que a SCC teve a honra de ser homenageada pela Câmara Municipal de Fortaleza, por ocasião do Dia do Cônsul, em agosto passado. 6. Nessa mesma ocasião, reparando uma omissão e fazendo justiça, outorgamos a Medalha Bertrand Boris ao ex-presidente e sempre companheiro, Luciano Montenegro. 7. Visitamos, em comitiva e ônibus especial, as obras do Porto do Pecém. Ficamos informados de sua implantação e já cientes de sua expansão. 8. A convite do Secretário Ferrúcio Feitosa, que gentilmente nos recebeu, tivemos, como visitantes, a antevisão do ora já inaugurado Estádio Castelão, que recebeu, em junho passado, três jogos da Copa das Confederações. 9. Igualmente, fomos recepcionados no quase concluído, à época, Centro de Eventos do Ceará. Esse equipamento, já em operação, deu um diferencial de qualidade ao nosso Estado. 10. O comandante da 10ª. Região Militar, gen. De divisão Gomes de Mattos nos ofereceu um almoço festivo nas dependências do monumento histórico que é o Quartel General, antiga Fortaleza da Nossa Senhora da Assunção. 11. Fizemos, em parceria com o Consulado da República Tcheca e a Galeria Benficarte a exposição............................. 12. Fizemos duas festas de congraçamento Natalino. A primeira no restaurante Nostradamus e a outra neste Ideal Clube. 13. A propósito do Ideal Clube, este foi o local concentrador da maioria das nossas reuniões mensais, sempre ao cair das tardes, ocasião em que discutimos as pautas necessárias ao nosso convívio. 14. Acertamos com a Dra. Mônica Barroso, dirigente da Coordenadoria de Políticas Públicas para a Mulher a realização de um Censo para um maior amparo às mulheres estrangeiras presidiárias em nosso Estado. O vice-cônsul da Itália, Roberto Misici é o nosso interlocutor para assuntos de direitos humanos. 15. Fomos recebidos, em audiência especial, pelo Governador do Estado, Cid Gomes, ocasião em que apresentamos sugestões para que os setores de comunicações e de turismo tivessem a acuidade de fazer uma programação visual multilíngüe para os pontos turísticos do Ceará e, aproveitando as copas das Confederações, já acontecida, e do Mundo, a realizar-se em 2014, para presentear o passeio externo da Av. Barão de Studart do Palácio da Abolição com um panteão de bandeiras dos países participantes. Igualmente, cobramos do governador Cid Gomes a indicação de um Assessor de Assuntos Internacionais, no que fomos imediatamente atendidos, com a sua escolha pessoal do Dr. Hélio Leitão Neto, mestre em direito, ex-presidente da OAB-Ce e professor universitário. Já falamos demais. Pedimos desculpas aos colegas por termos sido um defensor implacável da entidade que até hoje presidi, sem o que não estaríamos, nesta data, reconhecidos pela sociedade cearense e, tampouco, o Cônsul Ednilton Soarez não estaria orgulhoso em presidi-la, a partir desta noite tão bonita e agradável. A todos os colegas, os meus agradecimentos pelo comparecimento às reuniões, e aos amigos que aqui vieram para prestigiar esta solenidade, os meus respeitos. Longa vida, Honra e glória ao novo presidente, Cônsul Ednilton Soarez Viva a dinastia dos Soares. Muito obrigado a todos. - [ANOTAÇÕES PARA O DISCURSO NA ACL – FEVEREIRO DE 2013](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/anotacoes-para-o-discurso-na-acl-fevereiro-de-2013/): Boa noite a todos. Caro presidente José Augusto Bezerra. Caro................................, em nome de quem saúdo todas as autoridades integrantes da mesa. Querida ......, em nome de quem saúdo todos os integrantes da minha família: Iracema, minha mulher, irmãos, filhas, genros, netos, sobrinhos e demais parentes. Senhores membros da Academia Cearense de Letras Colegas da Academia Fortalezense de Letras, do Forum de Líderes, da Sociedade Consular, e demais entidades das quais faço parte. Caros companheiros de trabalho Colegas de escolas e das faculdades de direito e administração, Amigos e amigas, Autoridades presentes, Senhoras e senhores, Reverencio, por justiça, todos os membros perecidos desta Academia nas figuras de Natércia Campos, amiga querida; de José Maria Barros Pinho, colega de faculdade, de lutas universitárias e de letras; e de Antônio Martins Filho, um dos maiores cearenses de todos os tempos. Nesta noite, na imensidão da abóbada celeste ainda não de todo desvendada, paira o planeta Terra, no hemisfério sul, no Brasil, no Ceará, em Fortaleza, com a lua em quarto crescente, quase um plenilúnio. Somos apenas um nano ponto no Universo. Estamos no centro histórico, na Rua do Rosário, defronte à Igreja dos Homens negros, asilo de segregados pela escravatura envergonhadora. Santuário esse ressaltado e descrito em tintas pelas pinturas e pelas músicas em ritmo afro de Descartes Gadelha. Recorro, pedindo licença à Beatriz Alcântara, a algo desusado de Fernando Pessoa: "Viu-se a terra inteira de repente/surgiu redonda do azul profundo”. Somos transitórios na vida. Do albor do nascimento ao ocaso da finitude, passamos todos, sem distinção de saber ou ter. Reconhecer isso é ato de maturidade. A imortalidade, se acontecer, dar-se-á, pós-morte, por conta da futura análise de nossas vidas concretas e das letras escritas. Dizia o filósofo americano Waldo Emerson: “Everything in the universe proceeds by indirection. There are no straight lines". "No Universo tudo procede por vias indiretas. Não existem linhas retas”. Seguindo o desaviso do existir: Agora é hora de agradecer, reconhecido, aos 22 acadêmicos que me honraram com os seus votos. Aos eleitores dos outros candidatos, agradeço também, pois a academia deve primar pela diversidade de pensamento. Não o hegemônico, mas plural e sem preconceitos. A Cearense está ao meu olhar, acima de elucubrações e questiúnculas. Se assim o fosse, não se sustentaria longeva e altaneira nos seus 119 anos. Confesso não ser orador. Mas só leio o que escrevo. Sem essa de ghost writer. Bastam os meus desacertos. Aos 16 anos, um menino foi levado por Dorian Sampaio, amigo e colega de vereança do meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, ambos no além-mundo, para falar aos membros do Centro Cultural Humberto de Campos, uma provável dissidência do Grupo Clã. Não me lembro das minhas palavras, mas ouvi, nervoso, palmas e comentários do Dorian e dos seus confrades. Eles diziam: “Esse menino promete”. Em seguida, fundei e presidi o Girafa, Grupo de Instrução e Recreação Atlética de Fátima, onde se praticava esportes e debatíamos temas sérios em juris simulados. Lembro de ter sido defensor de Judas Iscariotes. Ele foi absolvido. Judas, argumentava eu, seria um instrumento para cumprir um desígnio maior. O Juiz de direito José Carneiro e a historiadora Valdelice Girão lembram-se desse tempo de folganças. Esse jovem já escrevia diários, lia de forma continuada, ia a cinemas quase todos os dias e possuía ficha de empréstimo de livros na Biblioteca Pública, então na Rua Solon Pinheiro, vizinha ao Ibeu, Instituto Brasil Estados Unidos, onde procurava aprender a língua inglesa. Anos vão passando. Um dia, um professor desse mesmo Ibeu, o acadêmico de medicina Pedro Henrique Saraiva Leão, meu primo, em segundo grau, fez-me uma proposta. Explico, antes, o parentesco: o pai dele, o Dr. Pio Saraiva Leão, era irmão de Luiza Saraiva Caminha, minha avó e aluna premiada do Colégio Imaculada Conceição. Voltando ao fio. Ele, o Pedro, convidava-me para substituí-lo na escrita diária da coluna “Informes Acadêmicos”, no jornal Correio do Ceará, pois viajaria à Alemanha para aperfeiçoar-se na língua de Goethe. Aceitei e contraí gosto pelo ofício. Por conta dele, minha cara professora Beatriz Alcântara, pude divulgar e participar de curso de arte e literatura promovido pela Academia Cearense de Letras, coordenado pelo professor Artur Eduardo Benevides. Era 1963. Lembro, cara acadêmica Marly Vasconcelos, que devo falar de Thomaz Pompeu, o patrono da cadeira 35. Ele também começou a escrever, aos 20 anos, no jornal O Cearense, do qual depois foi dirigente. A cultura e a sociedade cearenses estão, para honra minha, juntas para esta posse, na cadeira 35, patroneada por Thomaz Pompeu. Recorro à acadêmica Ângela Gutierrez para falar de seu bisavô, fundador e primeiro presidente desta casa. Ângela exortou, em discurso aqui proferido, quando da comemoração dos 105 anos da entidade, as múltiplas faces dele. Uma delas é citada: “Por que relembrar o empreendedor, o pioneiro, que fundou a primeira fábrica de fiação e tecidos do Norte-Nordeste, atentando para o aproveitamento de nossa vocação algodoeira, que foi sócio majoritário e gerente da primeira Companhia de bondes do Outeiro, que foi fundador e presidente do Banco do Ceará, do Centro Industrial e da Associação Comercial, colaborando para o progresso da terra, na crença de que progresso e ciência deveriam andar de mãos dadas”. Fica claro e insofismável, caro colega Ednilo Soárez: O fundador, Thomaz Pompeu, primeiro presidente indicado para dar o nome a esta casa, era um empreendedor. Modus in rebus, continuo: Ele era formado em Direito. Também cursei Direito. Ela era administrador público. Também já o fui. Ele era pesquisador de história. Procurei sê-lo ao dirigir profissionais de nível em diversas áreas do conhecimento e coordenar mais de 20 Planos Diretores de Desenvolvimento Econômico no Nordeste. Se consegui, é outra história. Thomaz Pompeu foi douto e exponencial em tudo isso. Por tal razão, meu caro acadêmico Virgílio Maia, ele está no panteão desta casa. Após dois anos, o Diretor Geral e empresário jornalístico Eduardo Campos, condômino dos Diários Associados e industrial, sem prejuízo de sua atividade acadêmica nesta casa e no Instituto do Ceará, convida-me para escrever outra coluna, sobre “Administração e Negócios”. Foram anos naquele jornal, meu caro Eduardo Augusto. O salário recebido a cada mês era importante, pois havias outras tarefas a impender. Fazia, ao mesmo tempo, duas faculdades e trabalhava. Tive a coragem, cedo despertada, para a inquietude, a aprender não o usual, mas o inédito, a não copiar ideias, mas criá-las. Aprendi isso em família. Dona Margarida, minha mãe, aos 93 anos, é de uma inteligência e presença de espírito notáveis. Véspera do último Natal, perguntei-lhe: "Qual será o meu presente?" Ela respondeu de bate-pronto: "Podem ser as minhas mazelas?" Se sou incisivo é genético. Em novembro de 2012, o professor Pedro Henrique rides again e me provoca: "Chegou a sua hora. Candidate-se. Estarei ao seu lado". Nesta campanha usei apenas o telefone, os Correios/motoboy e a Internet, sem visitar ou importunar a privacidade domiciliar ou profissional dos acadêmicos, sem denegrir, cumprimentando os três dignos contendores, mas acreditando no meu percurso e no apoio denodado de uma plêiade de acadêmicos cidadãos, a partir de Virgílio Maia. No dia 29 de janeiro último fui eleito com 22 votos, maioria consagradora e, a partir de hoje, 21 de fevereiro de 2013, conforme contagem rigorosa do acadêmico Murilo Martins, serei o centésimo octogésimo sexto (186º.) Integrante desta Casa de Letras. A mais representativa da cultura do Ceará, Estado hoje com oito e meio milhões de habitantes. Cara Acadêmica Regine Limaverde, chegada dos EEUU, véspera da eleição, saiba ter sido o acadêmico Pedro Henrique Saraiva Leão, o condutor maior desse pleito árduo. Sua posição foi aberta, decidida e catalisou forças. A ele já disse: muito obrigado. O que repetirei, agora, por justiça e prazer: Obrigado, Dr. Pedro. Por último, gostaria de tornar público o agradecimento já feito à minha mulher, Iracema Vale. Ela me manteve calmo ao dizer, todos os dia: vai dar certo. Assim o fiz. Assim o foi. A ela, mais uma vez, o meu obrigado. O SAUDADOR Insigne acadêmico Napoleão Nunes Maia, Agradeço seu modo gentil e franco em oferecer-se, desde antes da eleição, com o posterior agreement da presidência. Sou grato por suas doutas palavras. Elas, por sua fé de ofício e trajetória ascendente como professor, magistrado de tribunal superior e intelectual, deram visibilidade e fulgor a cada passo do meu percurso cultural. Obrigado, acadêmico Napoleão Maia. Caro acadêmico, filósofo, sacerdote e professor Manfredo Ramos, tudo na minha vida foi construído com a energia, a fé e a coragem recebida dos meus pais, dois vencedores. Educaram nove filhos todos com educação superior. Sou arrojado por ser visionário, e isso eu descobri estudando e pesquisando aqui e por continentes afora em viagens de trabalho, treinamento, cursos, seminários, congressos, palestras e debates com professores, em livros e periódicos. Faço tudo do meu jeito meio sem jeito. Não uso a vida como artimanha. Penso ser a discrição no agir. Recolhi de Miguel de Cervantes, no clássico Dom Quixote, o ensinamento: “No puede haber gracia donde no hay discrición". "Não pode haver alegria onde não há discrição”. Se desejei empreender, ler, escrever e estudar, não foi trabalho, mas prazer. Foi sonho empenhado e cumprido. SENHORAS E SENHORES, Acreditava e ainda creio: a cada dia a minha vida se encerra e recomeça na alvorada seguinte. Por tal razão, concordo com Frederick de Chateaubriand quando dizia: “Tous mes jours son des adieux". "Todos os meus dias são adeuses.” O destino, Deus ou algo insondável, dão voltas. A este então Palácio do Governo acorri muitas vezes na juventude. O meu professor Parsifal Barroso era o governador e só possuía um carro de representação, o G-1, com outras missões a rodar. Por conta disso dei-lhe carona, várias vezes, em meu Anglia. O douto professor Parsifal o chamava de “Gaforinga”. O amigo Rui Filgueiras Lima, aqui presente, era guapo oficial de gabinete do governador. SENHORAS E SENHORES, Ilustre Procuradora Cláudia Martins, Este Palácio da Luz era um próprio do Estado e foi preciso, graças à audácia e perseverança da petição bem instruída do acadêmico e presidente da ACL, o notário Cláudio Martins, para surgir um empreendedor, Tasso Ribeiro Jereissati, no exercício do Governo do Ceará, com descortino para doá-lo, em 1989, à Academia Cearense de Letras, então asfixiada em salas do Edifício Palácio Progresso. Que os nossos governantes e legisladores destinem parte dos recursos de orçamentos e verbas de emendas para o restauro indispensável ao funcionamento desta Academia Cearense de Letras, monumento histórico tombado de ampla visitação. Os antecessores na Cadeira Por justiça, engrandeço-me haver sido precedido, em linha sucessória, por acadêmicos do quilate de Cândida Galeno, do poeta Cruz Filho, do médico e intelectual Argos Vasconcelos e, historiador, intelectual e sacerdote, Alberto Nepomuceno de Oliveira, depois professsor Alberto Oliveira. Alberto Oliveira nasceu em Pacatuba, terra natal do acadêmico Eduardo Campos e do Presidente de Honra desta ACL, o príncipe dos poetas cearenses, Artur Eduardo Benevides, na lucidez de seus 90 anos. Alberto Oliveira estudou no Seminário da Prainha. Ali se ordenou padre, em 1949. Depois, formou-se em direito, licenciou-se em filosofia; em sociologia, na Itália; em pedagogia, na França; e foi a Israel para fazer atualização pedagógica. Era, igualmente, mestre da UECE e da Universidade Federal do Ceará. Escreveu, entre outros, os seguintes livros: - Droga, um perigo nacional - Juventude, Crise e Educação - Projeto de educação Anti-Tóxico - Educação Libertadora de Paulo Freire - Ressonâncias Fácil é ressaltar haver na escritura do professor Alberto Oliveira uma preocupação objetiva com os jovens brasileiros, hoje a morrer às centenas em baladas de fogo e milhões submergidos nas drogas, um endêmico problema nacional a precisar mais de soluções e menos de promessas. Além de toda a sua titulação meritória e produção cultural, o professor Alberto Oliveira teve a coragem, a sensatez e a hombridade de deixar a vida clerical para, como é próprio da natureza humana, amar e casar-se com xxxxxxxxxxxxx, aqui presente, e constituir uma família cristã, tendo a sua fé permanecido intacta. Veja como as coincidências perseguem esta narrativa. Em um sábado, 11 de setembro de 1963, exatamente, na mesma página, ao lado de minha coluna "Informes Acadêmicos", no Correio do Ceará havia um artigo do então padre Alberto Oliveira, sob o título: “A eternidade no Presente”. Dele, em certo trecho, lê-se: “a vida é a preparação para a morte”. Hoje, quase 50 anos depois, estamos relembrando e celebrando a sua vida. De fato, ele já estava preparando a sua eternidade, ou imortalidade, no sentido acadêmico. SENHORAS E SENHORAS, ESTOU QUASE A CONCLUIR. Desculpem, senhoras e senhores, o tempo que lhes tomo. Não quis fazer uma homília. A todos, mesmo assim, peço ainda paciência para uma reflexão final sobre a pesquisa de janeiro deste 2013 do Instituto Ibope Media sobre leitura. Entre nove capitais brasileiras, Fortaleza ficou em último lugar em índice de leitura. Dos entrevistados, somente 23% dos fortalezenses havia lido um livro nos últimos 30 dias. No país, como um todo, 73% das escolas públicas não possuem bibliotecas. Com amargura, o nosso romancista maior e fundador da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis, falando sobre o Brasil do seu tempo, dizia: “Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu País. ‘O país real’, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o ‘país oficial’, esse é caricato e burlesco”. Agora, falo eu : Esta nação precisa deixar de ser o país do jeitinho, do compadrio, de eleições a cada dois anos, do nepotismo disfarçado e tomar consciência: só pela educação e pela cultura seremos livres e soberanos para cuidar do presente e sonhar num futuro com alvíssaras. É tempo, quem sabe, de se diminuir o culto a celebridades ocas, rever as programações das redes de emissoras nacionais, peritas em deformar a realidade, a repensar os gastos da Petrobras com caravanas de todas as naturezas e a patrocinar a Formula Um. É tempo, Dra. Graça Foster, quem sabe, de usar esses recursos para a refinaria cearense, tão prometida e nunca cumprida. Devemos combater o abuso do álcool a matar pessoas nas vias e estradas do país, das ervas e das químicas incapacitadoras. É tempo de ajudar os milhões de brasileiros drogados. Muitas ruas do país são cracolândias permanentes e consentidas. É hora de melhorar as escolas, adicionar aulas em tempo integral e disseminar a leitura, desde a educação básica. Os governos federal, estadual, municipal, a academia e a sociedade devem agir juntos e de forma objetiva. É preciso alimentar o espírito dos jovens, mas não com baladas ou drogas. Isto não é moralismo burguês, é atitude, o civismo e a cultura do século XXI. Devemos, repito, lutar pelo desenvolvimento dos jovens carentes e adictos, através da ajuda às suas famílias. É a hora do estudo, da informação, do conhecimento e da cultura como corolários neste tempo novo a exigir qualificação para qualquer tarefa ou encargo. Hoje, em quase todos os crimes grupais há menores inimputáveis, aliciados por marginais já apenados e até reclusos em penitenciárias. Como dizia o poeta, ensaísta e prêmio Nobel de Literatura, o mexicano Octavio Paz: “Las masas humanas más peligrosas son aquellas en cuyas venas ha sido inyectado el veneno del miedo... el miedo del cambio". "As massas humanas mais perigosas são aquelas em cujas veias foi injetado o veneno do medo... o medo de mudar”. Nós todos, governos, academias e sociedade, não devemos ter medo de mudar o refletir e o atuar. Não podemos, por privilégio ou arrogância, ser insulados e acastelados no bem estar e no saber, cercados de problemas das comunidades carentes. Elas nos observam e clamam por respeito e atenção. O Ceará do século 21 brada por cultura para ter massa crítica, lógica nos raciocínios e não aceitar o atraso como fadário. Devemos ser mais abertos, menos personalistas, e mais receptivos. Devemos ocluir o olhar sobranceiro e discriminador. É preciso procurar a humildade esquecida e ativar os desejos, as sedes de leitura nos jovens, de aprendizado, de conhecimento, com a aptidão de transformar o medo em capacitação a demandar resiliência e cidadania plenas. Agradeço a presença dos familiares, amigos, colegas, autoridades, colegas acadêmicos e, especialmente, ao presidente José Augusto Bezerra, empresário e bibliófilo a capitanear esta casa de letras. Saiba, presidente, vim aqui para somar forças, não por vanglória. Conte comigo. Este não foi um discurso magnificente(ou aparatoso?). Foi do meu jeito de pensar e viver. Não posso ser outra pessoa. Sou o seu autor e me responsabilizo por seu alinhavado texto. Por fim: Parafraseando o nosso dístico: Forti nihil difficile. Para os fortes nada é difícil. Unidos, seremos fortes. Deus nos abençoe. Muito obrigado a todos. OBS E DÚVIDAS 1) qdo vc está nominando os acadêmicos ao longo do discurso, os mencionados são os que votaram no seu nome? 2)só precisa detalhar a vida do antecessor imediato? nada sobre os que o antecederam? 3) o que apontei no txt são meras sugestões. 4) achei bem mais desenvolto do meio para o fim, principalmente as págs finais. Só que me pareceu um pouco "político" demais para uma Academia de Letras. Sua ideia é apontar mais diretamente a leitura como uma das soluções dos problemas atuais, é isso? No todo, está bem mais uma conversa com os presentes do que uma peça oratória pesada, convencional. Acho que vai agradar sim, pela leveza, pelas histórias que humanizam as pessoas citadas e pela brevidade, bem de acordo com os nossos dias. Parabéns pra vc e Iracema! - [ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/academia-cearense-de-letras/): 21/02/2013 Boa noite a todos. Caro presidente José Augusto Bezerra. Caro................................, em nome de quem saúdo todas as autoridades integrantes da mesa. Queridos Iracema, minha mulher; Alessandra, minha filha; Luana, minha neta; e irmão José Caminha de Oliveira, em nome de quem saúdo todos os componentes da minha família: filhas, irmãos, netos, genros, sobrinhos e demais parentes. Meus prezados Paulo e Cláudio, em nome de quem saúdo os membros da família Vale. Senhores membros da Academia Cearense de Letras, Colegas da Academia Fortalezense de Letras, da Associação Brasileira de Bibliófilos do Brasil, do Fórum de Líderes, da Sociedade Consular, e demais entidades das quais faço parte. Caros companheiros de trabalho. Colegas das faculdades de direito e administração. Autoridades presentes. Senhoras e senhores, Reverencio, por justiça, todos os membros perecidos desta Academia nas figuras de Natércia Campos, amiga querida; de José Maria Barros Pinho, colega de faculdade, de lutas universitárias e de letras; e do Reitor Antônio Martins Filho, um dos maiores empreendedores cearenses de todos os tempos. Confesso não ser tribuno. Vou falar com a razão molhada pela emoção. Do jeito como escrevo. Peço, com acatamento, a atenção a todos. Ouçam, por favor. Silenciem, se possível. Nesta noite, quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013, na imensidão da abóbada celeste ainda não de todo desvendada, paira o planeta Terra, no hemisfério sul, no Brasil, no Ceará, em Fortaleza, com a lua em quarto crescente, quase um plenilúnio. Somos apenas um nano ponto no Universo. Desde 2000, a United Nations Education, Scientific and Cultural Organization – a UNESCO, responsável pela Educação, Ciências Naturais, Humanas e Sociais, Cultura, Comunicação e Informação, consagra este mesmo dia 21 de fevereiro como o Dia Internacional da Língua Materna. Estamos a fazer isto nesta noite solene. Cultuamos a linguagem mãe, a língua de Camões e Machado. Ocupamos agora o centro histórico de Fortaleza, na Rua do Rosário, defronte à Igreja dos Homens negros, asilo de segregados pela escravatura envergonhadora. Santuário esse ressaltado e descrito em tintas pelas pinturas e pelas músicas sincopadas no ritmo afro de Descartes Gadelha. Peço licença à Acadêmica Beatriz Alcântara, e recorro a Fernando Pessoa, não o do lugar comum. Ele fala: "Viu-se a terra inteira de repente/surgiu redonda do azul profundo”. Somos transitórios na vida. Do albor do nascimento ao ocaso da finitude, passamos todos, sem distinção do saber ou ter. Reverencio os 119 anos desta Academia de Letras. Ela é, ao mesmo tempo, fortalezense como eu. Ela é cearense como já o desejava Thomaz Pompeu a exortar seus coevos a ter “a serenidade de investigadores da verdade”. Reconhecer isso é ato de maturidade. A imortalidade, se acontecer, dar-se-á pós-morte, por conta da futura análise de nossas vidas concretas e das letras escritas. Dizia o filósofo americano Waldo Emerson: “Everything in the universe proceeds by indirection. There are no straight lines". "No Universo tudo procede por vias indiretas. Não existem linhas retas”. Agradeço, reconhecido, aos 22 acadêmicos a me honrar com os seus votos. Esta é a linha e a via do reconhecimento. Também é hora de pedir permissão a todas acadêmicas e acadêmicos para sentarmos lado a lado, em fraternidade. A todos. Confreiras e Confrades, os meus respeitos. Vós sois a referência da cultura e das letras alencarinas. Aos eleitores dos outros candidatos, agradeço igualmente, pois a academia deve primar pela diversidade de pensamento. Não o hegemônico, e sim o plural e sem preconceitos. Lembro, cara acadêmica Marly Vasconcelos, ausente por falecimento de pessoa de sua família. A cultura e a sociedade cearenses estão reunidas, para honra nossa, nesta posse, na cadeira 35, patroneada por Thomaz Pompeu. Ele começou a escrever aos 20 anos, no jornal O Cearense, do qual depois foi dirigente. Recorro à acadêmica Ângela Gutierrez para falar de seu bisavô, fundador e primeiro presidente desta casa. Ângela, em discurso aqui proferido, quando da comemoração dos 105 anos da entidade, destacar as suas múltiplas faces de jornalista, professor, pesquisador de história, geógrafo, educador, administrador público, pensador, homem de letras e, last but not least, empreendedor. Sobre essa face singular a sua bisneta refere: “Por que relembrar o empreendedor, o pioneiro, que fundou a primeira fábrica de fiação e tecidos do Norte-Nordeste, atentando para o aproveitamento de nossa vocação algodoeira, que foi sócio majoritário e gerente da primeira Companhia de bondes do Outeiro, que foi fundador e presidente do Banco do Ceará, do Centro Industrial e da Associação Comercial, colaborando para o progresso da terra, na crença de que progresso e ciência deveriam andar de mãos dadas”. Fica claro e insofismável, caro colega Ednilo Soárez. O patrono da cadeira 35, o fundador, Thomaz Pompeu, seu primeiro presidente indicado para dar o nome a esta casa, era um empreendedor. Caro acadêmico Cid Carvalho. Ouso falar agora na sua vivência e dimensão espiritual estudada, compreendida e exercida. Evoque, Senador Cid Carvalho, os seus irmãos do além e transmita, se crível, a Thomaz Pompeu, uma mensagem: Ele foi, por caminhos ínvios, uma referência para mim. Modus in rebus, peço vênia: Ele era formado em Direito. Também cursei Direito. Thomaz Pompeu era administrador público. Também o fui. Ele era pesquisador de história. Procurei sê-lo ao dirigir, por anos, profissionais de nível em diversas áreas do conhecimento, inclusive história e geografia, e dirigir / coordenei mais de 20 Planos Diretores de Desenvolvimento Econômico no Nordeste. Agora, se consegui, é outra história. Tentei com afinco. Ele grande; eu, apenas um aprendiz. São estes os meus parcos dotes. Dr. Thomaz Pompeu, posso ocupar a sua cadeira? Tentarei não desapontá-lo. Ilumine-me. Por tal razão, caro acadêmico Virgílio Maia, ele foi douto, exponencial em tudo isso e está no panteão desta Casa. Agora, vou contar como comecei a gostar de livros e da escrita. O meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, foi seminarista franciscano, colega de internato do professor Rebouças Macambira, e dali fugiu para casar com Margarida, moça bonita, sobrinha recatada e tutelada pelo Padre João Saraiva Leão. Viveram juntos por 50 anos. Ele era leitor voraz de romances policiais e comprou de José Maia para presentear-me, nos meus 15 anos, uma biblioteca com muitos livros de autores diversos, estantes em madeira e vidro. Em uma delas havia entalhada no frontispício a palavra Atheneu, em homenagem a Raul Pompeia. Começava aí o meu noviciado. Esse menino escrevia diários, lia de forma continuada, ia a cinemas quase todos os dias e possuía ficha de empréstimo de livros na Biblioteca Pública, então na Rua Solón Pinheiro, vizinha ao Ibeu, Instituto Brasil Estados Unidos, onde procurava aprender a língua inglesa. Aos 16 anos, fui levado por Dorian Sampaio, amigo dileto e colega de vereança do meu pai, o já citado Francisco Bezerra de Oliveira, ambos no além-mundo, para falar aos membros do Centro Cultural Humberto de Campos, uma presumível dissidência do Grupo Clã. Não me lembro das minhas palavras. Ouvi, nervoso, palmas e comentários do Dorian e dos seus confrades. Eles diziam: “Esse menino promete”. Caro acadêmico Juarez Leitão Em seguida, fundei e presidi o Girafa, um clube de jovens e adultos onde praticávamos esportes, líamos e debatíamos temas sérios em júris simulados. Lembro até de ter sido defensor de Iscariotes. Ele foi absolvido. Judas, argumentava eu, seria um instrumento para cumprir um desígnio maior. O Juiz de direito José Carneiro, a me suceder na presidência do Girafa, em 23 de junho de 1958, e a historiadora Valdelice Girão, então integrante do Conselho Superior da entidade, lembram-se dessas folganças. Naquela noite, esteve presente, entre outros, o escritor e poeta José Alcides Pinto, conforme relato em tinta preta, na página 41 do meu diário daquele ano. Guardo-o. Em novembro de 1962, Pedro Henrique Saraiva Leão convida-me para substituí-lo na coluna diária “Informes Acadêmicos”, no jornal Correio do Ceará. Ele viajaria à Alemanha para aperfeiçoar-se na língua de Goethe. Agradeci e aceitei. Cara poeta Giselda Medeiros. Tomei gosto pela coluna e, acidentalmente, o jornalismo aproximou-me da Academia Cearense de Letras. Fui um dos divulgadores e um dos frequentadores do Curso de Arte e Literatura, coordenado pelo professor Artur Eduardo Benevides. A aula magna de abertura, na noite do dia 12 de outubro de 1963, foi proferida no salão nobre da Reitoria pelo professor Parsifal Barroso sobre a música brasileira, especialmente Villa-Lobos, Alberto Nepomuceno e Ernesto Nazaré. Era o primeiro “flirt” de um jovem universitário com a Casa de Thomaz Pompeu. Caro acadêmico Dimas Macêdo. Voltando à lide do jornal, o Diretor e empresário jornalístico Eduardo Campos, condômino dos Diários Associados e industrial, sem prejuízo de suas participações nesta Academia e no Instituto do Ceará, das quais foi presidente, dois anos depois convida-me para escrever outra coluna diária, sobre “Administração e Negócios”. Foram anos naquele jornal, meu caro Eduardo Augusto. O salário recebido a cada mês era importante, pois havia outras tarefas a cumprir. Fazia, ao mesmo tempo, duas faculdades e trabalhava. Dou um pulo no tempo e em outro novembro, este de 2012, o professor Pedro Henrique rides again na minha vida e me provoca: "Chegou a sua hora. Candidate-se. Estarei ao seu lado". Já havia firmado um princípio: não me candidataria à Academia em vaga por falecimento de amigo. O professor Alberto Oliveira era de geração anterior à minha. Não havia impedimento moral. Inscrevi-me. Outros três pretendentes também o fizeram. Na campanha usei apenas os Correios, mototáxis, telefone e a Internet, sem visitar ou importunar a privacidade domiciliar ou profissional dos acadêmicos. Cumprimentei os dignos contendores e os respeitei. Acreditava no meu percurso cultural, nos sete livros já publicados e no apoio denodado de uma plêiade de acadêmicos cidadãos, a partir do poeta Virgílio Maia. No dia 29 de janeiro último fui eleito com 22 votos, maioria consagradora e, a partir de hoje, 21 de fevereiro de 2013, conforme contagem rigorosa do acadêmico Murilo Martins, serei o centésimo octogésimo sexto (186º) integrante desta Casa de Letras. A mais representativa da cultura do Ceará, Estado hoje com oito e meio milhões de habitantes. Cara Acadêmica Regine Limaverde, chegada dos EEUU, véspera da eleição. Saiba ter sido o acadêmico Pedro Henrique Saraiva Leão o condutor desse pleito árduo. A posição dele foi aberta, decidida e catalisou forças. A ele já disse: muito obrigado. Repetirei, agora, por justiça e prazer: Danke shoen, Dr. Pedro. Deixei por último o agradecimento já feito à Iracema Vale, minha mulher. Ela me manteve sereno ao dizer, todos os dias: vai dar certo. Assim o fiz. Assim o foi. A ela, mais uma vez, o meu obrigado. Insigne acadêmico Napoleão Nunes Maia. Agradeço seu modo gentil e franco em oferecer-se para saudar-me, desde antes da eleição, com o posterior agreement da presidência. Sou grato por suas doutas palavras. Elas, por sua fé de ofício e trajetória ascendente como advogado, professor universitário, magistrado federal de carreira, hoje ministro de tribunal superior e intelectual, homenageado ontem pelo Tribunal Regional Federal da 5ª. Região, em Recife, com a mais alta condecoração, a Medalha da Ordem do Mérito Pontes de Miranda. Suas credencias deram visibilidade e fulgor a cada passo do meu singular percurso cultural. Obrigado, acadêmico Napoleão Maia. Caro acadêmico Pe. Manfredo Ramos. tudo na minha vida foi construído com a energia, a fé e a coragem recebida dos meus pais, dois vencedores. Educaram nove filhos, todos em colégios particulares e com educação superior. Tive a coragem, cedo despertada, para a inquietude, a aprender não o usual e sim o inédito. Germinar idéias e realizá-las. Aprendi isso em uma família com destemor e unida. Dona Margarida, minha mãe, aos 93 anos, é de uma inteligência e presença de espírito notáveis. Vou contar um episódio recente: véspera do último Natal, perguntei-lhe: "Qual vai ser o meu presente?" Ela respondeu de bate pronto: "Podem ser as minhas mazelas?" Ela é assim. Se sou incisivo, é genético. Meu pai dizia: "Seja simples. Não se curve a ninguém". Cumpri o prometido, meu pai. Caro acadêmico Mauro Benevides, a quem agradeço o registro desta solenidade nos anais do Congresso Nacional. Sou impetuoso por ser visionário, e isso eu descobri lendo, estudando, aprendendo a escrever, admitindo erros, e pesquisando aqui e por continentes afora em viagens de trabalho, treinamento, cursos, seminários, congressos, palestras e debates com professores. Faço tudo do meu jeito meio sem jeito. Não uso a vida como artimanha. Penso ser obrigatória a discrição pessoal no agir e no servir. Recolhi de Miguel de Cervantes, no clássico Dom Quixote, o ensinamento: “No puede haber gracia donde no hay discrición". Não pode haver encanto onde não há discrição”. Se desejei empreender, ler, viajar, escrever e estudar, não foi trabalho. Foi prazer. Sonho empenhado e cumprido. Caro acadêmico Batista de Lima, Acreditava e ainda creio: a cada dia a minha vida se encerra e recomeça na alvorada seguinte. Por tal razão, concordo com François-René de Chateaubriand, nascido em Saint-Malo, cidade pequena e linda, quando dizia: “Tous mes jours son des adieux". "Todos os meus dias são adeuses.” Caro acadêmico e Professor Emérito Paulo Bonavides, de quem fui aluno em três momentos distintos: na Escola de Administração, no bacharelado e, depois, na pós graduação da Faculdade de Direito da UFC. Sua presença é um voto de confiança. Honrá-lo-ei. Volto a falar de seu colega e estudioso da ciência política, o professor Parsifal Barroso. (Destaco as presenças do seu filho Régis Filho, meu colega na Faculdade de Direito e Igor Barroso seu neto). Ele era governador e só possuía um carro de representação. Por conta disso dei-lhe carona, várias vezes, em meu simplório Anglia. O amigo Rui Filgueiras Lima era guapo oficial de gabinete do governador. Senhoras e Senhores. Ilustre Corregedora da Procuradoria Geral do Estado Cláudia Martins. Este Palácio da Luz era um próprio do Estado e foi graças à audácia e perseverança da petição bem instruída do acadêmico e presidente da ACL, o notário Cláudio Martins, para aparecer um empreendedor e administrador, Tasso Ribeiro Jereissati, no exercício do Governo do Ceará, com descortino para doá-lo, em 1989, à Academia Cearense de Letras, então asfixiada em salas do Edifício Palácio Progresso. Cara acadêmica Noemi Elisa Aderaldo, sobrinha do meu professor, Mozart Soriano Aderaldo, ilustre membro desta Casa Por justiça, engrandeço-me haver sido precedido, em linha sucessória, por acadêmicos do quilate de Cândida Galeno; do poeta Cruz Filho; do médico e intelectual Argos Vasconcelos; e do historiador, intelectual e sacerdote Alberto Nepomuceno de Oliveira, depois professor Alberto Oliveira. Alberto Oliveira nasceu em Pacatuba, terra natal do acadêmico Eduardo Campos e do Presidente de Honra desta ACL, o príncipe dos poetas cearenses, Artur Eduardo Benevides, na lucidez de seus 90 anos. Alberto Oliveira estudou no Seminário da Prainha. Ali se ordenou padre, em 1949. Depois, formou-se em direito, licenciou-se em filosofia; em sociologia, na Itália; em pedagogia, na França; e foi a Israel fazer atualização pedagógica. Era, igualmente, mestre da UECE e da Universidade Federal do Ceará. Escreveu, entre outros, os seguintes livros: - Droga, um perigo nacional; Juventude, Crise e Educação; Projeto de educação Antitóxico; Educação Libertadora de Paulo Freire; e Ressonâncias. Fácil é ressaltar haver na escritura do professor Alberto Oliveira uma preocupação objetiva com os jovens brasileiros, hoje a morrer às centenas em baladas de fogo. Temos milhões deles submergidos nas drogas, um endêmico problema nacional a precisar mais de soluções e menos de promessas. Além de toda a sua titulação meritória e produção cultural, o professor Alberto Oliveira teve a coragem, a sensatez e a hombridade de deixar a vida clerical para, como é próprio da natureza humana, amar e casar-se com a Sra. Edna Oliveira, aqui presente, e constituir uma família cristã, com três filhos, tendo a sua fé permanecida intacta. O celibato não é dogma de fé. É ordem impositiva. Por esta questão e intrigas outras, Joseph Ratzinger renunciou. Caro Acadêmico Veja como as coincidências perseguem esta narrativa. Em um sábado, 11 de setembro de 1963, exatamente, na mesma página, ao lado da minha coluna "Informes Acadêmicos", no Correio do Ceará havia um artigo do então padre Alberto Oliveira, sob o título: “A eternidade no Presente”. Dele, em certo trecho, lê-se: “a vida é a preparação para a morte”. Hoje, quase 50 anos depois, estamos relembrando e celebrando a sua vida. De fato, ele já estava preparando a sua eternidade, ou ser imortal, no sentido acadêmico. Desculpem, senhoras e senhores, o tempo decorrido. Não quis fazer uma homília. A todos, mesmo assim, peço licença para uma reflexão final sobre a pesquisa, de janeiro deste 2013, do Instituto Ibope Media sobre leitura. Imagine, caro professor e acadêmico Sânzio de Azevedo. Entre nove capitais brasileiras, Fortaleza ficou em último lugar em índice de leitura. Dos entrevistados, somente 23% dos fortalezenses havia lido um livro nos últimos 30 dias. No país, como um todo 73% das escolas públicas não possuem bibliotecas. A média de livros lidos por brasileiros é de apenas um livro por ano. Com amargura, o romancista maior e fundador da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis, já falava sobre o Brasil do seu tempo afirmando: “Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu País. ‘O país real’, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o ‘país oficial’, esse é caricato e burlesco”. Ilustre acadêmico e professor Genuíno Sales. Só pela educação e pela cultura seremos livres e soberanos para cuidar do presente e sonhar num futuro com alvíssaras. É tempo, quem sabe, de se diminuir o culto a celebridades, rever as programações das emissoras, peritas em deformar a realidade. Talvez repensar os gastos da Petrobras com caravanas de todas as naturezas e a patrocinar a Fórmula Um. É tempo, sugiro, de mudar e usar esses recursos desperdiçados em patrocínios amistosos, por exemplo, para a refinaria cearense, tão prometida e nunca cumprida. É hora de melhorar as escolas públicas, adicionar aulas em tempo integral e disseminar a leitura, desde a educação básica. Isto é atitude. A cidadania e a cultura do século XXI. Devemos, repito, lutar pelo desenvolvimento dos jovens carentes e dos adictos, como desejava o acadêmico Alberto Oliveira, através da ajuda a eles próprios e às suas famílias. É hora do estudo, da informação, do conhecimento e da cultura como corolários neste mundo tecnológico - e pouco cultural - a exigir qualificação para qualquer tarefa ou encargo. A educação e a cultura são chaves insubstituíveis. A educação e a cultura precisam ser protagonistas da História nos nossos dias. Como dizia o poeta, ensaísta e prêmio Nobel de Literatura, o mexicano Octavio Paz: “Las masas humanas más peligrosas son aquellas en cuyas venas ha sido inyectado el veneno del miedo... el miedo del cambio". "As massas humanas mais perigosas são aquelas em cujas veias foi injetado o veneno do medo... o medo de mudar”. Nós todos não devemos ter medo de mudar o pensar, o refletir e o atuar. Não podemos, por privilégio, ser insulados e acastelados no bem estar e no saber, cercados de problemas das comunidades carentes. Elas nos observam e clamam por respeito, cuidados e atenção. O Ceará do século 21 brada por educação e cultura para ter massa crítica, lógica nos raciocínios da maioria e não aceitar o atraso como fadário. Devemos ser mais abertos, menos personalistas, e mais receptivos. Por essa razão, quando fui presidente da Academia Fortalezense incentivei a criação e a manutenção de academias de letras estudantis, destacando as dos colégios Maria Ester, Dáulia Bringel e Sete de Setembro. Os seus jovens integrantes são parte do futuro do novo Brasil. Caro colega José Luis Lira, presidente da Academia Sobralense de Letras, a quem peço transmitir aos seus pares o meu apreço, especialmente ao acadêmico Pe. Francisco Sadoc, no seu vigor maduro. Devemos ocluir o olhar sobranceiro e discriminador. É preciso procurar a humildade esquecida e ativar os desejos, as sedes de leitura nos jovens, de aprendizado, de conhecimento, com a aptidão de transformar o medo em capacitação a demandar resiliência e cidadania plenas. Senhoras e Senhores. Agradeço, de verdade, a presença das autoridades, dos familiares, dos amigos, dos colegas de faculdades, colegas acadêmicos e, especialmente, à diretoria eleita desta ACL e ao presidente José Augusto Bezerra, empresário e bibliófilo, a capitanear esta Casa de letras. Ela vai singrar com nova vela e equilibrado timoneiro os mares abespinhado da cultura. Saiba, senhor Presidente, vim aqui não por vanglória. Vim para somar forças. Conte comigo. Por fim: Registro com respeito, o nosso dístico: Forti nihil difficile. Para os fortes nada é difícil. Unidos, seremos fortes. Deus nos abençoe. Muito obrigado a todos. João Soares Neto, 21/02/2013 - [Para Ubiratan Diniz Aguiar - Saudação](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/para-ubiratan-diniz-aguiar-saudacao/): PALÁCIO DA LUZ Academia Fortalezense de Letras Recebi a incumbência de fazer esta saudação oficial a Ubiratan Diniz Aguiar, mas o que pulsa em mim é a alegria de trazê-lo a este delírio coletivo. A pátria dos que se lançam ao desafio de expor os seus escritos aos olhos dos outros. Não importa que seja prosa, verso ou prosa poética. O que conta naquele que se mostra é a coragem de abrir suas veias e deixar que o sangue se perpetue no papel. Ubiratan, você está chegando a este Palácio da Luz, palco nos últimos duzentos anos dos mais importantes acontecimentos deste Estado do Ceará. Um Palácio que, de propriedade privada, passou a bem público e agora é a matriz a abrigar os que trabalham com palavras sob a tutela maior da Academia Cearense de Letras. Veja, você está nesta sala em cujas paredes erguidas por mãos nativas avistam-se pinturas, inclusive a maior de Raimundo Cela, a retratar de modo figurativo as nossas lutas ancestrais. Esta sala faz parte da história viva do Ceará. A história que nos traz o poeta Paula Nei, patrono de sua cadeira, que parece dizer, dando boas vindas: “Voa, minha alma, voa pelos ares Como um trapo de nuvem flutuante Vai perdida, sozinha e soluçante Distende as tuas asas sobre os mares” Sob as asas da alma de Paula Nei você ingressa hoje na Academia Fortalezense de Letras, nascida neste Século, pelo ideal de Matusaíla Santiago e José Luís Lira. Ela é compromissada com o futuro, sem deixar de ajustar sua sedimentação na argamassa da História, na água do passado e até no limo que exsuda destas paredes de tijolos dobrados. O nosso estatuto, em seu artigo terceiro, diz que o quadro social da Academia será constituído por pessoas que exerçam atividades literárias e que estejam interessadas no bom funcionamento da Instituição. Eu pergunto, como se fora um padre, pastor ou rabino em uma cerimônia de casamento: - Ubiratan, você exerce atividade literária? - Você está interessado no bom funcionamento da instituição? - Você quer se unir a ela? A cada pergunta a resposta é sim, mas não precisa dizê-la de viva voz. Faça-o com a expressão da alma, aquela que não engana. De minha parte e em nome de todos os colegas, afirmo que você exerce atividade literária e seu histórico de vida não deixa dúvida quanto ao compromisso de zelar por nossa Academia. Essa a razão de indicar seu nome, obtendo total acolhida dos nossos pares. Ubiratan é madeira de lei: um cedro menino transplantado para Fortaleza e daqui - onde suas raízes foram fundeadas – para o planalto central. Esse quase sertão vermelho cujo ar rarefeito parece, às vezes, incidir na razão coletiva. Mas Ubiratan sempre teve um plano piloto pessoal que o conduziu pelos caminhos da decência. E o faz segundo uma cronologia simples, verdadeira e consistente. Membro de família forte, a partir dos prenomes indígenas que adota, Ubiratan, filho de Araken e Maria, estudou e trabalhou de todas as formas lícitas e lúcidas, destacando-se a sua iniciação como professor de Português do Colégio 07 de Setembro, em cujos anais o presidente Ednilo encontrou os fundamentos para também subscrever o requerimento em que eu propunha o seu nome para esta Academia. O que dizer de um homem que, por seus méritos pessoais, consegue iniciar sua vida política como vereador, alça-se a condição de deputado estadual, secretário de Estado e chega já na qualidade de Deputado Federal, a ser Constituinte, Presidente da Comissão de Educação e, por duas vezes, é eleito Primeiro Secretário da Câmara Federal? O jovem universitário de Direito pela UFC tinha sonhos a cumprir desde cedo, mas carecia de uma parceira de fé, uma mulher valorosa, companheira de suas quimeras e assim o fez no verdor dos 19 anos, ao unir sua vida à de Terezita. E esse passo juvenil pode ter sido decisivo para o seu descortino e brilhante futuro. Todavia, não estamos aqui para ouvir falar do filho, marido, pai, avô, Bacharel em Direito, do político e muito menos do Ministro, esse que, sem alarde, exerce o seu múnus com responsabilidade, dignidade e aprumo, fazendo-se credor do reconhecimento da sociedade brasileira. Não queremos tampouco tecer loas ao Ministro Vice-Presidente desse fechado grupo de 09 brasileiros que formam o pleno do TCU. A sua história pessoal não pertence a esta solenidade. Ela permanecerá viva além deste Palácio da Luz. Ela já está inscrita nos registros da Câmara de Fortaleza, da Assembleia do Ceará, do Congresso Nacional e, agora, no plenilúnio de sua vida pública, nos anais e arquivos eletrônicos do Tribunal de Contas da União. Queremo-lo, Ubiratan, na luta coletiva para fazer este Palácio da Luz ainda mais esplendoroso, em conteúdo, formas e cores. Garboso na sua própria restauração física e do seu entorno. Queremo-lo na barricada em favor da iniciação sistemática de jovens nos diversos gêneros literários e na sua transformação em agentes multiplicadores da arte de pensar e escrever. Não serão Ubiratan, os seus julgados que estarão na história e nas montras ainda invisíveis desta Academia. Queremo-lo desavisado como soe acontecer aos poetas. Platão, no livro 10, de “A República” não encontrou lugar para os poetas na sociedade ideal que concebeu. Esse papel caberia aos reis e filósofos. Ao que se depreende, Platão se equivocou. Ora, se o grande pensador Platão pode ter se equivocado, por que alguns acreditam ter a capacidade unilateral de estabelecer, a seu modo, juízos de valor estético? Outra utopia. A vida real é um bem comum, diz respeito a cada um e a todos. Assim também é o imaginado pelos filósofos e o imaginário dialógico que tece o mundo literário. José de Alencar, por muitos considerado o maior escritor cearense de todos os tempos, também político de escol em sua época, disse certa vez: “O cidadão é o poeta do direito e da justiça. O poeta é o cidadão do belo e a arte”. Nessa direção, apontou a bússola existencial de Ubiratan Aguiar. Já era o Cidadão, por força de sua lida e vida. Agora, Ubiratan você espreita a vida à procura do belo e da arte. E o faz na madureza dos anos, certamente tocado pela lírica da agonia. Procura o Idioma dos Pássaros, nos signos, nas suas marcas pessoais e nas da humanidade, que são agora seus conteúdos simbólicos e preocupações permanentes. Ubiratan começou a rabiscar versos, aquietando palavras que ferviam em suas entranhas. Guardou-os, reviu-os e já publicou três livros de poemas: Idioma dos Pássaros, Versos de Vida e Passageiro do Tempo. Não são considerados aqui seus outros escritos sobre Convênios, Tomadas de Contas, a Lei de Diretrizes e Bases, mas que têm importância na eficácia da gestão pública e na educação formal e cultural dos jovens brasileiros. Esta saudação poderia ser uma espécie de Carta a um homem maduro e poeta jovem, na razão inversa do exposto por Rainer Maria Rilke ao aconselhar um jovem no seu debut literário. No seu caso, louve-se a coragem de mostrar agora sua face poética, a sua linguagem no diálogo com quem o lê. Não sei bem o que vem a ser poeta, pois não o sou. Tampouco me atrevo a fazer crítica da obra poética de Ubiratan, O leitor é sempre o maior crítico. Procurei, no entanto, pesquisar o que possa vir a ser um poeta. Para Paul Valéry “a poesia é uma hesitação prolongada entre o som e o sentido”. Pergunto: Há som na poesia de Ubiratan? Claro. Tanto o há que versos seus foram musicados e transformados em canções já constantes de três CDs. Fazer letra de música, saibam os senhores e senhoras, também era “hobby” de Machado de Assis. Dele é a letra de uma valsa lenta: “Quando ela fala”, musicada por Elisa Wanda. Ouçam Machado nesta quadra: “Quando ela fala, parece Que a voz da brisa se cala; Talvez um anjo emudece Quando ela fala”. Voltemos ao Ubiratan: Pergunto ainda: Há sentido na sua poesia? Ele sabe que sim, pois esse seu viés crepuscular o aproximou do Clube do Bode. Comunidade etérea, em desconfortáveis plásticos assentada na calçada abrasadora. Autofágica, mas gloriosa na descontração coletiva a bater palmas quando da aproximação do belo. E essa vivência com escritores, poetas, músicos, pintores, sátiros e afins, o foi encorajando a tirar a sua nau do porto da timidez e ganhar o tempestuoso mar das letras onde pode haver ataque de bucaneiros. E o faz com a modéstia de aprendiz, sem fanfarras e a busca de signos e retoques para a sua lira. Muitos poetas reconhecem um decassílabo antes que uma frase seja concluída e sabem usar rima e métrica em seus versos altaneiros. Eles são poetas, sim. Mas não será poeta quem não se ajusta às análises esquemáticas do compasso da métrica e do adorno da rima? O que dizer então da poesia livre de Pablo Neruda, prêmio Nobel de Literatura? O próprio Neruda responde: “A verdade é que não há verdade”. Recolho de Manoel de Barros, grande poeta, uma outra possível resposta: “Creio que a poesia está de mãos dadas com o ilogismo. Não gosto de dar confiança à razão, ela diminui a poesia”. Vejam Ubiratan de mãos dadas com o ilogismo: “Declinei verbos no sonho e, adormeceram no sono.” Ou quando refere: “Paz das gaivotas Voando livre No branco das asas” Robert Graves, escritor inglês, nos socorre “a poesia não é ciência, é um ato de fé”. Alguém duvida que Ubiratan não tenha fé no que escreve? Ele é Passageiro do Tempo a procurar um mundo chamado poesia. E faz seu ato de fé ao dizer: “Quantas metáforas guardam silêncio Das verdades que a razão polícia?” Ou quando revela: “Quantas vezes a linguagem dos olhos Expressa o silêncio covarde dos lábios Quantas vezes nos escondemos dentro de nós, Para não exteriorizar a vida?” Ubiratan pode ser um noviço na ordem dos poetas, mas quem falou que a poesia está adstrita a um tempo de vida? O próprio poeta responde: “Como conter palavra Na correnteza da boca? A dúvida na indagação que faz ao fim de seus versos não deixa de ser inquietação poética. E quem escreve, especialmente versos, procura fazer um acerto de contas com o seu eu profundo, medos, sonhos, história e mitos. Se esse olhar chega com a maturidade, que seja bem-vindo. É poeta, sim. E substitui, certamente orgulhoso, a seu colega de Assembleia e amigo de dezenas de anos, o meu colega de faculdade e poeta consagrado José Maria Barros Pinho que, nesta data, passa a ser Acadêmico de Honra, na vaga do inesquecível Eduardo Campos, uma das mais completas expressões literárias contemporânea do Ceará. O que digo é do meu exclusivo encargo. Não sou um purista da lírica ou da arte poética. Acredito, porém, na capacidade que palavras têm o dom de conjurar almas, expondo-as até ao torvelinho dos que querem, talvez com justa razão, o refinamento e os detalhes da rima, da métrica e da metalinguagem. Uns e outros merecem coexistir, pois a vida, já dizia o poeta Vinícius, “é a arte do encontro”. E o próprio Ubiratan, pacificador por natureza, diz em versos: “Nem por isso excelência Nós somos separatistas E este é um ponto de vista” É chegada a hora de parar. Bem sei que o novel Acadêmico merecia palavras mais briosas, mas sou assim, coloquial e aberto. Por último, pediria que o Acadêmico Ubiratan Diniz Aguiar se sentisse em casa, abraçasse os seus convidados e confraternizasse com seus novos companheiros aqui presentes, com a mesma energia que empresta à sua vida, fazendo-o como se mostra neste terceto: “expondo sentimentos submersos No conto, na poesia, na literatura, “Marcando o tempo e a criatura.” Muito obrigado a todos. João Soares Neto - Cronista, março de 2008 - [SARAMINDA E O SARNEY SENSUAL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/saraminda-e-o-sarney-sensual/): O nosso comum amigo, César Asfor Rocha, surpreendeu-me no Natal passado com a sua encomendada, mas especial dedicatória (“Ao João Soares, que tem a paixão pela letras, o abraço do José Sarney) no livro “Saraminda”. Li-o no dealbar do ano e, passado o processo eleitoral do Senado e pensadas as dores das suas incisões vesiculares, vi-me aprestado a lhe agradecer a gentileza. Aviso-o que não sou crítico literário. Faço da empresa o meu viver, sem esquecer de tecer sonhos com os sentidos. Perpetro escritos, meras crônicas descompromissadas e publicadas e, guardados estão poemas ainda virgens de outros olhos, pois a auto-censura os enclausura Além do amigo comum, restam-nos apenas a identidade do Jota e do Esse que emolduram o seu e o meu nome, mas isto é alongar conversa, para a qual não recebi permissão. Receba, como agradecimento, o que escrevi abaixo, tão isento quanto pode ser um pré- sessentão encantado por Saraminda, nossa amada. Cordialmente, João Soares Neto SARAMINDA E O SARNEY SENSUAL Saraminda prova que José Sarney não é normal. É preciso ter muito de louco para misturar personagens, beirar a criação de um realismo fantástico (“Você não está morta? Aqui todos morrem e vivem.”) com uma latinidade que o escritor brasileiro não costuma exercer e falar de comida (“Um brochete de rabo de jacaré, frito com banha de anta e conhaque, um hoko e um assado de cochon bois”), moda ( “O vestido tinha a saia comprida, de pregas que caíam da cintura e eram acompanhados pelas dobras até a barra da saia circundada por uma cinta de rendas e de franjas bordadas. Um casaco de elegante corte de sino, repartido em duas abas também rendadas, que desciam como estolas e passavam alongadas além da cintura, ladeadas por duas fileiras de botões cobertos de cetim e pequenos bordados”) e de uma guerra pelo território do Amapá (“acabo de saber que a França perdeu estas terras que agora são do Brasil. Foi uma decisão da Suíça. Amanhã, só vai haver uma bandeira, a do Brasil”) que não houve entre dois países tão distintos quanto o Brasil e França. Saraminda prova que José Sarney não é político, pois expõe, mesmo sem querer ou querendo, o seu lado sensual ao descrever como um retratista de pico de pena ou crayon o corpo(“Nela o sangue bretão, judeu, índio, banto misturou-se ao longo dos séculos, concentrou-se nos olhos, afinou os lábios, alongou-lhe o pescoço, deu-lhe sorte e sedução”), a faceirice( “Eu quero que você tenha alegria e felicidade. Prazer de coisa de amor de gente que se junta... Quero que você receba meu corpo de ouro embrulhado em papel de seda, enrolado em veludo, cheirando a patchuli”), as falas(”Seu Cleto, me trate com respeito. Não sou coisa suja, sou mulher para ser tratada com gosto. Aprecio modos. Entrei na vida mas não sou uma sem-vergonha”) dessa mulher tão simples e paradoxal, como se fora uma personagem vivida pela Sônia Braga dos áureos tempos. Saraminda prova que José Sarney não é rico. Se o fora não descreveria com tanta paixão a avidez dos garimpeiros, a cobiça(“O garimpo é de uma solidão imensa. Quando a gente olha, parece que não é no mundo. O ouro não tem cheiro. Se tivesse, o homem ia farejar e saberia onde ele está”) e a luxúria(“tive vontade de beijar, beijar com força, ficar deitado nele, mas me controlei , não dei modos para não verem onde estava minha bestitude”)que o ouro( “Não achei que fosse ouro, de tão feia, e pude então compreender que a beleza do ouro está nos homens”.) exerce sobre a razão e o imaginário de pessoas rudes com estéticas comprometidas pelas rugas e as rusgas que terminam em sangue para aplacar a ira dos deuses. Saraminda atesta que José Sarney não é romancista. É um espécime novo, um poemancista com imagens (“Na casa de sombras, era o remoer da lembrança que alimentava os fantasmas”) e figuras(“Era um brinquedo muito triste esse jogo de gostar”) dignas de um Borgesïï Saraminda fez enfim, José Sarney calar os que ainda não têm olhos para ver que, além da sua matreirice, da lhaneza, do faro e da capacidade de focar a política, sobram-lhe sentimentos lustrados em palavras ajuntadas em bateias de idéias que brotam como florestas de uma amazônia de encantamentos. João Soares Neto, especial para o DN. - [PREFÁCIO DO LIVRO: VOE COMIGO QUANDO DESMORRER](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/prefacio-do-livro-voe-comigo-quando-desmorrer/): Imagino-me passeando por Santana do Acaraú. Dou voltas pela Praça São João, benzo-me diante da sua Igreja, tento localizar o lugar onde o Pe. Antônio Tomás foi enterrado na Matriz, fotografo mentalmente o sobrado do Padre Araken, percorro a Praça do Alto da Liberdade, ouço vozes dentro do Patronato de Santana, compro uma cocada no mercado público e vou espairecer às margens do Rio Acarau. Olho para as águas, há um reflexo de luz e vejo três vultos envoltos em espumas e algas: Padre Antônio Thomaz, príncipe dos poetas cearenses, com uma sotaina preta e velha; José Alcides Pinto, a maior expressão viva da literatura santanense, ora de paletó branco, ora vestido como franciscano e Audifax Rios, com um gibão de vaqueiro, que me joga um livro e, com os outros dois, toma uma canoa feita de alfarrábios, cujos remos são duas metáforas e vão em direção ao mundo do reconhecimento, esse lugar onde só permanecem os que deixam rastros duradouros de saber entre as pessoas. Passo a mão nos olhos e não sei se realmente vi o que estou contando, mas o livro existe, está em minhas mãos e eu começo a fazer o que gosto: Leio-o ali mesmo e fico pasmo. Decido escrever sobre o que li e, por conta disso, peço a atenção por cinco minutos, das senhoras e senhores, não por mim, mas em respeito ao autor de Voe Comigo quando Desmorrer e à terra santanense que concebeu, em épocas distintas, figuras admiráveis de nossa literatura, essa que não enche algibeiras, mas nos dá alento para a vida e a futrica nesta província de Nossa Senhora da Assunção, a mesma Senhora de Santana, apenas metamorfoseada, fortificada, marítima e maior em amores e dores e que acolheu, Audifax Rios, adotando-o como filho. Vamos ao livro: Se eu fosse crítico literário ou algo parecido, certamente falaria que este novo livro de Audifax Rios completa a trilogia Memória do Encantamento, iniciada com Os Búfalos de Campanário, cresceu com Migalhas para Serpentes e agora forma o vértice ou a base desse tripé ou triângulo literário com Voe comigo quando desmorrer. Eu diria que ele tem sensibilidade narrativa, concebe e formata a estética da imaginada cidade de Campanário, no interior do nordeste, mas que poderia ser em qualquer país hispânico da América. Constrói alegoricamente um mundo fantástico com personagens que têm identidade forte, sexo, cor, ação desenvolta, vida, quase-mortes, desmortes e morte. Como não sou crítico literário, digo que o autor de “Voe comigo quando desmorrer”, Audifax Rios, é um escritor especial. Homem maduro, longelíneo, óculos, grisalho, observador nato, com jeito de não estar com pressa. Engano. Mexe com arte desde menino na cidade de Santana do Acaraú, onde nasceu e da qual garimpa a essência de seus romances. Em 1962 veio ter a Fortaleza, aqui fixou seus lápis e pincéis, constituiu família, trabalhou com nanquim, aquarela líquida, guache, acrílica e se consolidou como artista plástico múltiplo, com um claro viés de pensador, pois fazia peças de publicidade que necessitam de interlocução com o público que almeja conquistar. Além disso, poder-se-ia dizer que seria um pensador-pintor-desenhista ou um desenhista-pintor-pensador. Acontece que Audifax é mais que isso. Tirou da memória e do detalhe de cada desenho ou pintura que fez e faz a sensibilidade que aplica ao escrever com sutileza, mordacidade e atilamento. Ele foi em busca de uma identidade literária a partir do seu outro eu, colocando-se como ficcionista. O fato é que Audifax produz saber e isso já havia sido demonstrado em outros livros em que cinzela personagens, pinta cenários e cirze o enredo com uma costura que o associa ao realismo fantástico latino, sem perder a brejeirice de narrador com sua endógena nordestinidade. Com este livro que me dá a honra de prefaciar, ele conclui a trilogia referida. Não vou apresentar “spoilers” de sua obra. Para que antecipar o prazer? Basta ir em frente e começar a leitura. Não posso deixar de dizer, entretanto, que o Audifax tem jeito e pega os olhos do leitor, prende sua atenção com a narrativa e a paisagem de Campanário, sua Macondo, viva, tão detalhada que é. É um trabalho de sua memória, misturado à imaginação crítica e às muitas leituras que cada escritor faz como pesquisa, prazer ou amor ao ofício. E daí passa a construir de forma subjetiva até uma intertextualidade que é múltipla, pois herança de tudo o que ouviu, leu, intuiu e delirou. Fora isso, as personagens de Aparício Sansão e Guadalupe, para ficar nas principais, são construídas com arte e fé de ofício e restarão guardadas nas frestas da memória de quem sabe ler ou procura ler com um mínimo de atenção e capta as nuances sutis da narrativa e seus diálogos. O livro tem mortes redivivas, ambição, paixão tempestuosa, ironia, sarcasmo e vai num crescendo que deixará o leitor alerta para não perder detalhes que são como cascalhos, onde os olhos não podem pisar rapidamente. É preciso ir lendo, respirando e sentindo, como se estivesse de olhos cerrados para imaginar, ver os cenários que ele constrói e a história a se escorar em tema aparentemente simples. Fica passeando pela música, arte, gestual e sensualidade latina, especialmente do México, sem esquecer do circo, esta alegoria tão fincada em nossas raízes, da pensão de mulheres, da Igreja e do bicho-homem, entre tantas outras reinações deste escritor que consolida um estilo e o torna referência neste tempo de muitos poetas, mas escassos os que arrastam asas pelos duros caminhos da ficção, esse campo minado da fantasia, devaneio, alucinação, desditas que precisam de enredo, começo, meio e fim. Essa seqüência lógica dos baixos e altos de todas as vidas e das obras de fôlego. Abra a primeira página. Leia, vale a pena. João Soares Neto - [OS VÁRIOS CAMPOS DO EDUARDO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-varios-campos-do-eduardo/): Ontem, 11 de janeiro de 2003, Eduardo Campos completou 80 anos. E houve festa. Bonita, discreta, classuda, com a fala envolvente e intimista do aniversariante, o amor declarado da família e a benquerençade amigos escolhidos. Difícil é saber quem é Eduardo Campos. Será o menino Manoelito da Guaiuba/Pacatuba que se meteu, desde cedo, a presidente de grêmio literário e o fez com a capacidade de liderança que o caracterizaria posteriormente? Ou será o soldado Manoelito que sentou praça no 23º Batalhão de Caçadores e aprendeu a ver, do seu jeito peculiar, o Brasil com olhos de patriota? Ou seria o locutor de voz cristalina, galante e forte que ingressou na Ceará Rádio Clube quase adolescente? Curioso, instigante, inteligente, veio a ter na cidade de Fortaleza a convivência com outros jovens que mudavam o padrão cultural de uma cidade provinciana e preconceituosa. Participou de um clã e ajudou a brotar a modernidade literária em meio a bolorentos textos de então que causavam enfado e sono. Não contente, fez-se ator como Cristo e não foram poucas as marias madalenas que dele se acercaram. Era o teatro que começava a brotar em sua mente e aí a estrada se fez maior que o estirão entre Pacatuba e Fortaleza. Cioso, meticuloso e arguto foi buscar em outra messe a companheira de toda uma vida e o fez com ares quixotescos. Era a hora de estabelecer raízes e soube ser cortez para ter ao lado alguém que lhe desse segurança, amor e compreensão. Será ele o condutor da Ceará Rádio Clube, da Rádio Verdes Mares, do Correio do Ceará, do Unitário e o implantador da TV-Ceará, canal 2? Mas, o que é tudo isso? É um sonho que sonhou coletivamente com outros homens especiais, destacando-se o paraibano Assis Chateaubriand que se fez alado e alçou voos tão grandes que resultaram em um condomínio tão complexo quanto inovador. Eduardo Campos comandou tudo isso com a certeza dos que têm dúvidas, mas sabem que a vida precisa de caminhantes. E foi um bom caminhante e condutor de centenas de profissionais que hoje se espalham por todo este país. Será o ator, o teatrólogo de peças consagradas que deram ao nosso Estado uma dimensão nacional? É impossível falar em teatro no Ceará sem que se passe por “Morro do Ouro” e as interpretações de artistas que encarnaram a nossa realidade pungente e dolorosa. Será o intelectual prolífero, o escritor premiado, cioso da frase que planta, do texto que arremata, do conto que extasia, da crônica que permanece e do romance que aprofunda a sua arte de sentir e dizer? E aí acadêmico se tornou e comandou por dez anos a Academia Cearense de Letras, com voz de tribuno romano, perfil de filósofo grego e a manha do pacatubano que mirava a serra da Aratuba e sabia que estava fadado a voos de águia. João Soares Neto, Administrador e escritor - [O POETA DO PÁSSARO E DO AZUL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-poeta-do-passaro-e-do-azul/): Dizem que os nomes dos livros, especialmente os de poesia, são indicações básicas para a descoberta do que deseja transmitir o autor. Barros Pinho acaba de escrever uma “carta do pássaro”. Ora, se é verdade que os nomes dos livros decifram seus autores, pode ser que Barros Pinho não seja a exceção. Nesse livro existe uma proposta de interdisciplinaridade com as ilustrações bonitas de Vera Andrade. Os pássaros pintados são esboços fortes na cor azul. Tinha que ser. O poeta das “barrancas do rio Parnaíba” procura em seu novo livro, uma imersão lírica, entremeadas de concretudes, na sua própria vida, pelo menos a vida que conta. E diz que “só escrevo diário em verso” (p. 63, o sol da manhã). E diz também no poema “o pássaro”, p. 45: “não sei como sou não sei”, mas sabe(p.60) que uma bicicleta com asas anda no meu outono”. Vê-se, na releitura da leitura, que há no diário poético de Barros Pinho a necessidade de sobrevoar a sua vida, vendo-a de cima com olhar privilegiado, de torná-la verso e se vale de um pássaro e de uma bicicleta com asas para, altaneiro, ver com os olhos da alma aquilo que ainda não soube aclarar. O pássaro, embora fale em outono, diz que as “as estações se sucumbiram no corpo”( o sentido do nada, p. 60) e, como todo poeta maduro, é contraditório(Lembremo-nos de Fernando Pessoa). Na poesia “autolirismo” (p.52) declara que “sou poeta não escrevo nas nuvens”, mas “escrevo na asa dos pássaros”(p. 27). A bicicleta do poeta tem asas e ele, pedalando ou voando como pássaro, sabe que no azul há sempre nuvens e lá, no seu imaginário, vê e escreve. E o azul é uma constante(“Natal do castelo azul”, “Pedras do arco-íris ou a invenção no azul no edital do rio”) na poesia de Barros Pinho, como se essa cor tivesse a tonalidade do seu sonho, não obstante revele que o “meu estoque de sonho acabou no primeiro bar” (p. 48,”canção do primeiro bar”). Acabou não, no poeta o sonho nunca morre, torna-se letra e cria forma. João Soares Neto - [NATÉRCIA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/natercia/): Ao pé da porta, ainda cheirando à tinta, a nova versão de “Por terras de Camões e Cervantes”. Releio e fico atônito. Atrever-me a comentá-la, após a releitura das críticas de Benevides, Carvalho e Pinto, é uma sandice. E o que sou, se não mero escrevinhador delas? Por não bem ser do ramo, permito-me. Ou por não saber, o que fazer? Você é uma mulher de olhos grandes e, como querem os indianos, tem um terceiro olho. Pois bem, com três olhos é covardia. Tinha que gerar o que saiu em 98 e agora revive tão bem aquinhoado com as mãos, arte e benquerença de Azevedo e Jesuíno. Outra mulher de olhos grandes, Florbela Espanca, de uma das terras onde você pisou com carinho e ancinho, disse: “Fui pela estrada a rir e a cantar, as contas do meu sonho desfiando... e noite e dia, à chuva e ao luar, fui sempre caminhando e perguntando...” Essa é você, sem tirar, acrescentando a escrita. Há tanto bordado no escrito por você. Cada palavra é um ponto e o contexto mais que um nó. Arte, estética ou poética? Sei lá. Sei que é. A carta pelos caminhos de Luís e Miguel é a mais longa entre tantas que precisam deixar de repousar e tornarem-se belas inquietudes escancaradas. Med ou Mak... Obrigado por ser do seu ninho, fora do Minho. João Soares Neto, Administrador e escritor - [INTENÇÃO, PROPÓSITO E REALIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/intencao-proposito-e-realidade/): Ninguém desconhece existir boa intenção e firme propósito do Governo Lula em resolver, entre muitos outros, os problemas gravíssimos da fome, do desemprego, da assistência médica pública e dos desequilíbrios regionais. Lula tem fé de ofício nessas áreas. Saiu de Pernambuco em um Pau-de-arara, amargou fome com a família, viu a primeira mulher morrer por falta de assistência médica e foi um sindicalista proeminente no combate ao desemprego.Vivia na São Paulo dos pobres, sem participar da São Paulo dos ricos que hoje são os seus mais recentes amigos de infância. Conhece, de prova provada, o que é desequilíbrio regional. Lula tem a formação de vida nitidamente paulista, mas trás na sua história genética a dor e a angústia do nordestino retirante. Ninguém desconhece que grande parte dos atuais ministros de Lula não tinha experiência provada na gestão de graves e complexos problemas a necessitarem de soluções urgentes e equilibradas. Isto não quer dizer que as pessoas escolhidas não possam adquirir experiência, mas é preciso saber que a palavra experiência deriva de experimentar ou experienciar. Em outras palavras: leva tempo. Por outro lado, o Brasil entregue à Lula e sua equipe era e é ainda um país dividido em Capitanias na mão de lobbistas, políticos e partidos praticando pouco do que falam, especialmente diante de microfones ou em entrevistas públicas. Acresça-se a isso, a existência de uma burocracia pesada, cara e pouco eficaz, sem entender ou não querendo entender a necessidade da agilidade no serviço público. Os agentes públicos precisam ficar cientes de que todos os brasileiros, direta ou indiretamente, são contribuintes e os verdadeiros pagadores de seus salários. Ao entrar em uma repartição qualquer brasileiro se sente aturdido e desestimulado pela morosidade das informações e, muitas vezes, pela indiferença ao que acredita ser legítimo pleitear. Todo brasileiro é cliente da máquina estatal e por tal razão merece ser bem tratado, independe do que ganha, da roupa que veste ou da função que exerce. Já ouvimos falar de várias reformas, especialmente as previdenciária (para diminuir despesas) e a tributária (para gerar mais receitas). Não se falou, contudo, da necessidade de uma reforma administrativa ou gerencial para que tudo funcione. Isto me faz lembrar das intenções e propósitos de Hélio Beltrão e Paulo Lustosa que pretendiam desburocratizar o Brasil. A realidade mostrou que foram vencidos pela máquina kafkaniana da burocracia. Está na hora de mudar. João Soares Neto, administrador e escritor - [CELA NA UNIFOR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cela-na-unifor/): Tomei o carro, segui pela Av. Washington Soares, dobrei à esquerda na entrada da Unifor, contornei o Centro de Convenções e estacionei em uma área bem cuidada e com sombra farta, em frente ao discreto e belo Espaço Cultural Unifor. Fui ver a exposição de Raimundo Cela em meio a um dia de trabalho. Parei tudo o que estava fazendo e fui. Fui só. Havia recusado convites, inclusive o da abertura. A arte pictórica, para mim, é para ser contemplada sem troca de conversas, sem auxílio de bebida e com o silêncio que nos ajuda na concentração e no foco que a retina pede. Na tarde em que fui, só ouvia o leve ruído do ar condicionado, não quebrado pelas atendentes e vigilantes, tão discretos e eficientes como costumam ser os que mourejam na Unifor. Eram poucos os quietos visitantes. Entrei devagar, com o respeito de quem já conhecia a história – e parte da obra – do pintor cearense Raimundo Cela (1890 -1954), que me foi passada na juventude por um já falecido colega, Valério Cela Militão Menescal. Segui o roteiro que o meu jeito manda. Vejo as coisas da esquerda para a direita, canhoto que sou. E foi assim que ia, pouco a pouco, me deliciando com as pinturas, desenhos e gravuras que começaram em Camocim, passaram por Fortaleza e Rio de Janeiro, vararam parte da Europa, retornaram a Fortaleza e se quedaram em Niterói. É claro que tudo já foi dito na apresentação de Airton Queiroz, na introdução de Max Perlingeiro, no Prefácio de Estrigas, na cronologia apurada e nas críticas de Fábio Magalhães (pinturas), Cláudio Valério Teixeira (desenhos) e Adir Botelho (gravuras). O que mais eu poderia acrescentar a essa primorosa iniciativa cultural da Unifor? Apenas duas ideias, se é que já não foram tomadas. Primeira: prorrogar a exposição pelo período das férias escolares de dezembro a fevereiro, incluindo-a nos roteiros de operadoras de turismo nacionais e estrangeiras que trazem grupos de pessoas a Fortaleza. Segunda: produzir um filme em 35mm ou DVD para posteriores projeções em escolas públicas e privadas de todos os níveis do Ceará e do Brasil, servindo de exemplo a quantos desejam fazer da arte o seu caminho básico. Ou mesmo que assim não seja, possam ir aprimorando o olhar. Essa exposição, pela riqueza de seu acervo, bom gosto no seu layout, coerência na iluminação e curadoria profissional, tem o jeito low profile que Airton Queiroz, um amante das artes, sempre impõe as coisas que faz sem alardes, mas com competência. Mesmo que as minhas duas sugestões não sejam acatadas, veja se você consegue umas duas horas do seu tempo e vá lá até o próximo dia 12 e descubra porque William Somerset Maugham dizia que “a arte é um dos grandes valores da vida e ensina aos homens humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade”. João Soares Neto - [CAPISTRANO, POR QUEM E PARA QUEM NÃO O CONHECE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/capistrano-por-quem-e-para-quem-nao-o-conhece/): João Soares Neto, ocupante da cadeira Capistrano de Abreu na Academia Fortalezense de Letras. Diz Gabriel Garcia Márquez que “um escritor já nasce escritor, nasce com o dom e a vocação, precisando apenas aprender a escrever”. Capistrano dizia que “aprender a escrever é aprender a ler”, especialmente para ele, historiador, que parte da leitura crítica de livros, textos, traduções e documentos e os persegue em uma busca sem fim, com um estilo que faz inveja. Historia como se fizesse uma longa crônica, um ensaio, um romance e há trechos até que são poesias, plenos de belas imagens e profundos encantos. José Aurélio Saraiva Câmara, um de seus biógrafos, diz com propriedade: “Descrever uma vida como a de Capistrano de Abreu é enfrentar um seríssimo tropeço: o paradoxo que representa a humildade do homem ante a majestade da obra; a timidez e a indiferença do operário face a audácia e à afirmação granítica do trabalho realizado. Na sua história, o homem diz pouco e a obra diz tudo.” Tenho consciência disso. Falta-me maior intimidade com a sua obra. Sou curioso e o conhecimento não tem dono, mas neófito sou em admirá-lo. Não vejo em mim autoridade para descrever a vida, tampouco a obra, pois além do embasamento que não tenho, some-se a isso o exíguo tempo de menos de uma semana, sem prejuízo dos meus outros afazeres, em que fui gentilmente compelido por esta Academia Fortalezense de Letras a escrever este relato. Sabem com que credenciais? A qualidade única de ocupante da cadeira que tem Capistrano como patrono. Louvo-me da aversão declarada de Capistrano às academias e sociedades a que não quis pertencer para ter a certeza de que, na dimensão em que ele estiver, não se ocupará de dar atenção ao que aqui será brevemente mal dito. As comemorações dos 150 anos de nascimento de João Capistrano de Abreu ecoam por todo o Brasil. No Ceará houve um calendário oportunamente conduzido pela Secretaria de Cultura, universidades, Prefeitura de Maranguape e um apreciável número de artigos e ensaios nos jornais de Fortaleza. A propósito, compulsando a memória do Jornal “O Povo” de 1953, pude observar que a Prefeitura de Fortaleza lançou um concurso público sobre a vida e a obra de Capistrano por seu centenário. Apenas um candidato concorreu, Pedro Gomes de Matos. Fosse hoje, certamente, dezenas o fariam. De qualquer modo, não é mais necessário pedir vênia aos meus pares, pois declaro pública a minha incapacidade de cumprir com brilho a missão que, se juízo tivesse, não teria aceitado. Este trabalho foi feito apenas com amor, pois como dizia o próprio Capistrano: “As obras de amor são as únicas que pagam o sacrifício”. Vamos, pois, ao sacrifício. No último dia 23 deste mês de outubro de 2003 fez 150 anos que João Capistrano de Abreu, filho de Antônia e Joaquim Honório de Abreu, nasceu na Ladeira Grande, no sítio Columinjuba, Maranguape e de lá partiria para ser, provavelmente, o maior historiador brasileiro. De família simples, solitário, crítico, irônico e taciturno, foi sempre maior do que os colégios onde estudou: o Colégio de Educandos (onde hoje fica o Colégio da Imaculada Conceição), que abrigava meninos pobres; o Ateneu Cearense, o Seminário da Prainha, de onde foi desligado por seu ceticismo mordaz e, especialmente, por não ser vocacionado para padre. Posteriormente, já aos 18 anos, foi reprovado quando dos preparatórios para a Faculdade de Direito do Recife. Foi reprovado nos preparatórios porque seu aprendizado não se cingia ao conteúdo programático estabelecido para quem desejasse ser advogado, mas já se misturava em Recife aos intelectuais Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Tomás Pompeu, Tobias Barreto, Rocha Lima e outros. Já se iniciava na leitura de Stuart Mill, Spencer, Taine e Buckle e aprendia latim, inglês e francês. Voltou para Columinjuba, por conta da carta trocada entre o correspondente em Recife e seu pai, Jerônimo Honório. Debaixo de repreensões, foi para o cabo de uma enxada como um cabloco qualquer, em meio a um alambique para destilar cachaça, um engenho de açúcar e rapadura e a bolandeira que transformava a mandioca em farinha. Durou pouco esse tempo. Inquieto, desobediente, sabia que seu destino nada tinha a ver com a casa paterna. Engajou-se, em seguida, em movimentos literários e culturais de Fortaleza quando escreveu “Perfis Juvenis”, que era, na verdade, dois ensaios sobre a poesia de Junqueira Freire e Casimiro de Abreu, publicados em edições sucessivas no “Maranguapense”, jornal recém criado em Maranguape. Foi nessa época que retomou os contatos com Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico de Farias, momento em que eclodia em Fortaleza uma agitação literária chamada jocosamente de “Academia Francesa” que reunia jovens quase imberbes. Capistrano, que nem aos 20 chegara, associava-se a Araripe Júnior, João Lopes, Rocha Lima e Tomás Pompeu que, igualmente, iriam criar uma escola noturna – A Escola Popular – que objetivava educar operários, ensinando-lhes, como registrou o jornal A Constituição, de 02 de junho de 1874: “A escola noturna popular, além das aulas de primeiras letras, gramática, francês, inglês, geografia e aritmética, que começaram a funcionar, abrirá espaço para uma série de conferências do gênero das que estão fazendo na Corte com tanta aceitação Fundaram também o jornal Fraternidade, de origem maçônica e inspiração positivista, que pretendia ser arauto de um movimento libertário contra a religiosidade do clero e dos fiéis, apregoada pelo jornal A Tribuna Católica. É provável que a figura admirada e já então mítica de José de Alencar, ido e vivido na Corte, que chegara doente e alquebrado à Fortaleza em meados de 1874, tenha lhe dado o alento que faltava para deixar o Ceará. Capistrano, aos 21 anos, tinha os pés na província e os sonhos na Corte, onde precisava beber os conhecimentos que o transformariam no grande historiador que foi. De Alencar se aproximou e ganhou o respeito. Rodolfo Teófilo, em O Ateneu Cearense, narra esse encontro: “A impressão que teve o consagrado homem de letras e político, foi a que se pode ter de um caboclo matuto. Começaram a conversar e, no fim de alguns minutos, Alencar, com grande admiração, viu que ali não estava um simples sertanejo, porém um erudito.” Era efervescência demais para uma terra aquietada e pobre. Arrumou as trouxas, pediu a benção ao pai, de quem divergia no pensar e agir, pegou o vapor Guará no Porto de Fortaleza, em 12 de abril de 1875, chegando ao Rio de Janeiro antes de completar 22 anos. Seria José de Alencar quem abriria as portas do Rio para Capistrano. A partir daí é que explode a grandeza autodidata de Capistrano que admitia ser súdito do Império, mas não abria mão de ser, ao mesmo tempo, um cidadão brasileiro. É assim que José de Alencar apresenta Capistrano: “Esse moço, que já é fácil e elegante escritor, aspira ao estágio da imprensa desta Corte. Creio eu que, além de granjear nele um prestante colaborador, teria o jornalismo fluminense a fortuna de franquear a um homem do futuro o caminho da glória, que lhe estão atribuindo acidentes mínimos.” Os caminhos da sua vida nunca foram fáceis, apesar das relações tão procuradas na Corte. Seu primeiro trabalho no Rio foi na Livraria Garnier como simples resenhador de livros por ela editados. É provável que começasse aí o seu conhecimento com os intelectuais que admirava e com os jornais para os quais remetia as resenhas. Em 1876 passou a morar e a lecionar português e francês no Colégio Aquino, um emergente estabelecimento que pretendia, entre outras coisas, preparar jovens para os cursos superiores. Sua vida como redator-jornalista no Rio se inicia em 1879 na Gazeta de Notícias. Já em 1882, Valentim Magalhães, na seção Tipos e Tipões, de A Gazetinha, escreve sobre o jornalista Capistrano: “(...) quem seja aquele rapaz forte, de estatura meã, grosso de tronco, de cabeça um tanto cúbica, dessas que vêm bradando aos olhos da gente: ‘eu sou do norte’, de pescoço atlético, olhos pequeninos, piscos, míopes, escandalosamente míopes; trajando escuro com filosófico descuido, chapéu raso de que sobejam sobre a fronte cabelos pretos, ninguém sabe ou desconfia sequer quem seja ele, quando se esgueira rente à parede, cabeça levemente à banda, com o seu passo miudinho e ligeiro(...)(...) Pois esse rapaz é o Capistrano de Abreu, a cabeça mais ilustrada, mais pensadora, mais ‘curvada’ ao trabalho de quantos funcionam no escritório da Gazeta( ...).” Nesse mesmo ano de 79 fez concurso para oficial da Biblioteca Nacional, um misto de burocrata, bibliotecário e ledor de livros. Era o que sempre sonhara. Foi classificado em primeiro lugar, nomeado em 09 de agosto, e, a partir de então, começaria a consolidar a sua carreira de historiador. Seriam transformadas em marca-páginas da história suas incursões brilhantes como crítico ou ensaísta literário. Por outro lado, o seu grande sonho profissional era ser professor do Colégio Pedro II, mantido pelo Império. E como nunca perdeu a sua veia mordaz, mesmo antes de fazer o concurso e ser aprovado, já criticava o ensino de História do colégio onde pretendia ensinar. Mesmo sabendo que o prof. Matoso Maia seria, certamente, examinador de sua futura banca, critica, genericamente, o seu livro “Historia do Brasil”. Matoso Maia lhe pede para identificar os erros. Ao que ele responde, dizendo: ”Não poder satisfazê-lo, entre outros motivos, porque muito provavelmente ainda nos havemos de encontrar frente a frente e reservamos para então o prazer um pouco malicioso de dar-lhe alguns quinaus.” Tomava forma o grande historiador com ênfase na historiografia, que vem a ser a arte de escrever a história. Segundo José Honório Rodrigues, quando da morte do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, em necrológio que publicou no Jornal do Comércio, Capistrano mostrou: “m modelo de estudo sobre o mestre e o primeiro trabalho historiográfico, exemplar pelo espírito crítico, a orientação metodológica, o domínio filosófico.” Casou, em 1881, com Maria José de Castro Fonseca, filha de um Almirante, a quem dera aulas particulares, particulares até demais, como se infere de carta sua a Assis Brasil: “Casei-me a 30 de março, isto é, dois meses antes do que esperava. Ainda não tinha casa pronta, nem podia demorar o casamento sem que sobreviessem obstáculos que poderiam ser insuperáveis.” Desse casamento que durou apenas onze anos, pela morte de Maria José de febre puerperal, nasceram cinco filhos: Honorina, Adriano, Fernando, Henrique e Matilde. Os que merecem registros mais significativos em sua vasta correspondência são: a filha Honorina que viria a se tornar, em 10 de janeiro de 1911, contra a sua vontade e para sua profunda tristeza, a freira carmelita Maria José de Jesus, beatificada pela Igreja Católica e Fernando, a quem chamava de Abril, por ter nascido nesse mês e cuja morte prematura, de pneumonia dupla, em 24 de outubro de 1918, o fez baquear profundamente, aumentando a sua casmurrice e infelicidade. Em 1883, mediante concurso em que superou outros quatro candidatos, entre eles, Franklin Távora, consegue realizar o sonho de ser professor do Colégio Pedro II, de Corografia, que vem a ser o estudo ou descrição geográfica de um país, região, província ou município e História do Brasil, com a tese Descobrimento do Brasil e seu Desenvolvimento no Século XVI. Em 1889 foi excluída do currículo escolar do Colégio Pedro II a cadeira de Historia do Brasil. Capistrano se recusa a ensinar História Geral, denuncia o fato e é posto em disponibilidade. Nesse mesmo ano de 89 publica o seu primeiro livro: O Descobrimento do Brasil, escrito em 40 dias. A sua grande obra, Capítulos da História Colonial (1500-1800), foi produzida em um ano, sendo patrocinada pelo Centro Industrial do Brasil e publicada em 1907. É nela que fica realçada a sua capacidade de sintetizar, que o consagrou definitivamente como historiador e não um mero coletor de acontecimentos, nomes e datas. Capistrano, expoente que era do Movimento de 1870, que tinha como pressuposto o cientificismo ou método crítico com três elementos básicos: testemunha visual, caráter lógico do relato e coerência entre o texto e realidade, renovou os métodos de investigação científica e de interpretação historiográfica brasileira da época, partindo do determinismo sociológico - positivista que foi e deixou de ser - para, em seguida, descobrir a essência do que regia a sociedade colonial.Fica claro que sua análise da sociedade brasileira, lastreada na influência teórica da teoria realista alemã de Leopold Von Ramke, enfoca o estudo do ambiente, dos fatores corográficos, da miscigenação da raça, dos aspectos econômicos e psicológicos,sempre realçando a conquista do interior pelo brasileiro mestiço. Para ele, já mostrando a sua face republicana, o destaque não é o português ou reinol, mas a capacidade do povo e das pessoas comuns, sem expressão política, na procura de uma identidade nacional ao longo de nossa evolução histórica, deixando, cada vez mais patente, a desimportância do Rei, vice-rei, governadores e dos heróis.O povo é o sujeito da história. Por outro lado, fugindo do geral e indo para o particular, visualiza com a sua ótica corográfica a cidade do Rio de Janeiro, que o abrigou por 53 anos, permitindo antever, como se urbanista, sociólogo e antropólogo fosse, com quase um século de antecedência, o caos em que viriam a se tornar as favelas nos morros cariocas. Capistrano denuncia isso em carta a João Lúcio de Azevedo, em 11 de novembro de 1921: “Muita gente é amiga dos morros e cita em seu favor a opinião dos estrangeiros que aqui passam indiferentes ao que deixam. Sou adversário convicto: enquanto não for arrasada a maioria, morros são compartimentos estanques que impedem a circulação social.” Autodidata, lendo muito mais que escrevia. Adorava ler na rede e para onde viajava pelo Brasil – quase sempre para casa de amigos - a levava sem medo e pudor. Curioso e inquieto, não sossegou até aprender a língua alemã, além do latim, francês e inglês que já manejava. Sem nunca ter saído do Brasil, ao longo de seus 74 anos, incompletos, idade avançadíssima para a média de vida do brasileiro de sua época, foi se tornando cada vez mais culto, fechado em si mesmo, a ponto de se auto intitular, a partir de 1925, de João Ninguém, sem nunca perder a capacidade de escrever de forma simples, elegante e perspicaz, especialmente na sua vasta e dispersa correspondência aos amigos. Sua correspondência, organizada pacientemente por José Honório Rodrigues em três volumes, é, segundo alguns, a sua segunda grande obra. É ela uma demonstração de apreço aos amigos, conhecimento profundo do que falava, firmeza de ideias, capacidade de rir de si mesmo, falar das perdas familiares, suas doenças, achaques e da caturra melancolia, que o acompanhou ate à morte em sua casa, em Botafogo, Rio, em 13 de agosto de 1927, rodeado de amigos verdadeiros que, em féretro a, pé, o levaram ao Cemitério. Provavelmente, a melhor descrição de Capistrano de Abreu tenha sido feita por seu amigo João Pandiá Calógeras, um dos fundadores da Sociedade Capistrano de Abreu, em discurso no Instituto Histórico e Geográfico, logo após a sua morte. Diz Calógeras: “Rude, em sua terrível franqueza; hostil a todo o pedantismo; irremediavelmente indignado contra toda futilidade vaidosa, detestava hipócritas. Sincero admirador das mentalidades superiores era destituído de toda inveja. Indulgente, quando explicável a falta por um motivo mais alto, por amor à inteligência ou à bondade perdoava deslizes de menor alcance. Intratável em questões de honra, de lealdade e de afeição, não admitia atenuantes para o delinquente.” Este perfil poderia ser resumido em uma frase do próprio Capistrano: “Eu proporia que se substituíssem todos os artigos da Constituição por: Artigo Único – Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha cara”. Mas, adocemos a sua mordacidade com duas frases suas:“Todo artista tem um germe original que é a base e o ‘substratum’ de seu talento” e, “Nunca pensei que eu pudesse morrer”. Na verdade, não morreu. Transformou-se. As citações estão contidas na Bibliografia consultada: - AMARAL, Eduardo Lúcio Guilherme, Correspondência Cordial - Capistrano de Abreu e Guilherme Studart, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003. - BUARQUE, Virginia A. Castro. Escrita Singular - Capistrano de Abreu e Madre Maria José, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003. - CÂMARA, José Aurélio Saraiva. Capistrano de Abreu, UFC, 1999. - Modernos Descobrimentos, Capistrano de Abreu Descobridor [on line]. Rio de Janeiro, PUC, Disponível: www.modernosdescobrimentos.inf.br [22.10.2003]. - RODRIGUES, José Honório (Org.). Correspondência - Obras de Capistrano de Abreu, 03 volumes, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1977. - SÁEZ, Oscar Calavia. A Morte e o Sumiço de Capistrano de Abreu [on line]. Florianópolis UFSC. Disponível: www.cfh.ufsc.br [26.10.2003] - [APRESENTAÇÃO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/apresentacao/): JOÃO SOARES NETO, CÔNSUL HONORÁRIO DO MÉXICO E MEMBRO DA ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS José Luís Lira tem caminhado, nos últimos anos, em várias direções. Profissionalmente, escudou-se na sua formação jurídica e galgou o patamar de professor da universidade do vale que circunda a região onde moram seus sentimentos. Paralelo a isso, aportou afinidades com Mathusaila Santiago e dessa amizade surgiram duas academias. A fé gerada enquanto infante o acompanha hoje, pois sedimentada, no estudo hagiológico. E faz mais, amou Rachel de Queiroz na sua velhice e dela extraiu elementos que transformou em livro. E vai em frente. Lira é assim, inquieto, decidido, abridor de portas e de livros com o tempo que sobra aos que optam pela castidade e solteirice. Assim é José Luís. E por ser José Luís imagino-o mexendo no Google a descobrir algo que contivesse os seus dois pré-nomes. E não é que ele descobriu e bem. Surge, em sua vida, a figura beatificada de José Luís Sánchez Del Río, um jovem adolescente mexicano, nascido em 1913 e falecido aos 15 anos. O processo de canonização de uma pessoa morta passa por quatro etapas. Na primeira, um bispo ou arcebispo que responde pela Diocese em que o candidato vivia abre um processo. Esse lento processo precisa de um postulador, isto é, de alguém que advogue a sua causa, devidamente indicado pelo bispo, pelo menos cinco anos após a morte do servo de Deus em exame. Por outro lado, a Santa Sé procura, detalhadamente, a descoberta de falhas ou lacunas que invalidem a postulação. Vencida esta etapa, o Servo de Deus, por seu representante, passa a postular ser Venerável, quando é provado a teólogos, historiadores e membros da Igreja que o candidato teve uma vida ilibada com realce para suas virtudes católicas ou que faleceu em defesa da fé em Cristo. A terceira fase é a Beatificação, quando a grande burocracia do Vaticano escoima todas as questões e o “encaminha” à santificação. Foi nesta fase que Lira já encontrou seu homônimo. Para ser Santo, José Luís Sánchez Del Río tem que comprovar ainda que realizou, pelo menos, dois milagres. Com a argúcia de um “hacker” católico, Lira foi-se apropriando da história da revolução “cristera”, movimento que no final dos anos 20 colocou em cheque as relações entre a Igreja e o Estado Mexicano, originando a morte de milhares de pessoas, dentre elas a de José Luís Sánchez Del Río e viu todo o caminho percorrido até a já beatificação desse adolescente e o fez com o cuidado de um parente na fé cristã e na irmandade que possa advir da feliz coincidência de terem ambos pré-nomes idênticos. Mais não comento para não tirar o prazer da incursão em percurso tão rico na história mexicana do início do século passado, violenta, estonteante e definida, na forma cautelosa e carinhosa com que Lira cuidou de compor o “Mártir do Cristo Rei: José Luis Sánchez Del Río”. Ele mesmo diz: “O jovem beato José Sánchez Del Río deve estimular-nos a todos, principalmente, a vós, jovens, a serdes capazes de dar testemunho de Cristo na nossa vida quotidiana”. Esse livro-documento, por sua pesquisa, fará certamente parte das leituras e comentários dos que professam a fé católica, os que procuram conhecer a história mexicana, bem como os que integram a Academia Brasileira de Hagiologia, da qual é um dos membros mais atuantes. Propagar a fé em época tão carente de santidade é um ato de amor a Deus e ao próximo, ao mesmo tempo em que qualifica seu autor no caminho pessoal pelo uso da razão e da pesquisa. Como dizia Santo Agostinho: “Fé é acreditarmos no que não vemos, e a recompensa dessa fé é vermos aquilo em que acreditamos” João Soares Neto - [A VIÚVA ENCARNADA NO VESTIDO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-viuva-encarnada-no-vestido/): Conheço José Maria Barros Pinho desde 1961. Fomos colegas da turma pioneira da Escola de Administração do Ceará. Barros Pinho chegara do Piauí, via Crateús, e assentara-se na Pedro Pereira com Padre Mororó. Estudamos, lutamos, viajamos e fizemos política estudantil. Barros Pinho, por sua liderança, pagou um preço muito alto. A vida política quase pagou essa conta. Mas isto é outra história. Desde esse tempo, Barros Pinho aliava à sua retórica a veia poética que ele teima em situar nas barrancas do Rio Parnaíba. Sua poética transcende às nascentes e a foz de um rio, ela se fez mar e inundou a praia onde moureja seus versos há mais de quatro décadas. Agora, na juventude de sua maturidade, envereda pelo gênero da crônica, salvo incursão ligeira numa antologia de cronistas novos em 1971. Primeiro concorreu com o conto “O Zeca do tiro no bode da Nazária” ao Prêmio Ideal de Literatura, ano 2000, merecendo destaque. Depois, neste livro, reuniu 16 contos, editados pela Record, 2002, e, já na estréia oficial como contista, teve a honra de ser prefaciado por Gerardo Melo Mourão, o maior intelectual vivo nascido no Ceará e, sem dúvida, um dos maiores do Brasil. Se isso não bastasse, José Alcides Pinto (na orelha), Cineas Santos e Francisco Carvalho (na contra-capa) dão o fechamento, aprovação e louvação à obra de Barros Pinho. O que dizer ainda, até porque não sou crítico literário. Sou sim, um leitor crítico. Concordo com Lya Luft, no seu livro “O Rio do Meio", p. 134/135, quando diz: Impressiona-me que outros analisem com tanta clareza textos que escrevi: comentários eruditos, profundas aproximações, fazem-me parecer tão grave que chego a me inquietar, como se, de volta aos bancos de escola, andasse outra vez distraída de tarefas importantes. Essa de que aí falam sou realmente eu? Pois é, Barros Pinho, embora possa ser vaidoso de sua trajetória, não é uma pessoa grave. Barros Pinho não se desfaz da veia poética: O sol era o mais claro referencial da manhã. O rio, a mesma indiferença de sempre. A capela, no alto, erguia-se para o céu. (p.20). E vai em frente: Os peitos dela, mal comparando, eram duas nascentes de bicos finos, ver bico de beija-flor atacando no mato das veredas no início das águas (p.44) Por outro lado, constrói frases próprias de cronistas não derramados, mas aprumados em suas tramas: Os dias eram uma gulodice comendo o tempo”(p.28). “Vive da sala para o quarto, onde padece seu sofrimento de dor dentro dela. É tanto que a gente sem querer, olhando para ela, bota água nos olhos com gosto de não parar”(p.47). “Fêmea comigo hoje não tem preço e pode até custar a vida de quem meter tramela na minha tão grande vontade (p.67). Destaque-se, ainda, o tratamento dado aos personagens, com suas falas, pensamentos, medos, modos, com a pureza de um mundo não urbano talvez não mais existente, perdido em meio a rios sempre recorrentes, mesmo que o conto seja outro, e as margens dêem em lugares diferentes e nos quais nunca pisamos. Há contos com personagens duros e dramáticos em seus conteúdos, gestados na infância, paridos nesta maturidade libertária de fantasmas agourentos, trazem epílogos cruéis ou fantásticos, apascentando a alma de quem escreve, disfarçando a dor vinda de longe, não se perde com o tempo e se recria no imaginário da prosa curta, mas firme. Assim é com Zeca: O Zeca se rezava, rezava com o punhal na mão”(p.60), Bené Gavião “O Bené pulou este batente e saiu daqui com uma cabeça de onça, o corpo de homem e asas de gavião encantado (p.85) Ou com Tia Donana: Vestia o vestido encarnado da promessa feita ao italiano, seu marido, sob o olhar espantado de quantos se preparavam para assistir a cerimônia oficiada pelo cônego Deusdedith de Freitas, que nos dentros dos botões de sua batina viveu atormentado por muito tempo (p.127). JOÃO SOARES NETO Academia Fortalezense De Letras Agosto de 2003. - [A ORELHA DO PEDRO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-orelha-do-pedro/): O Pedro José Negreiros de Andrade e eu somos companheiros matutinos há anos. Andamos, procurando a forma física que nunca teremos, trocamos prosas e, aqui ou acolá, temos a tola pretensão de alterar o mundo. E o que fazemos de concreto: lemos e escrevemos. E o Pedro, médico-cardiologista, professor universitário devotado e escritor diletante, não se esconde no que escreve, mas o que ressalta em seus artigos é o seu aggionarmento, a contemporaneidade e a atitude diferenciada. Ele não é só o médico e professor, mas um espécime raro, um ‘woodstockiano’ ou virtual espadachim do bem em pleno fim da primeira década do Século XXI, este que nos acena com longevidade, mas não nos diz como apascentar nossas almas inquietas. E a alma inquieta de Pedro José juntou seus escritos em ‘Ensaios politicamente incorretos” em que se espelha na Revolução Francesa para chegar às deformações da burocracia soviética. Crítico atilado e inconformado com as leis de cotas para estudantes não brancos neste país mulato, Pedro afirma: “O chamado estatuto de igualdade racial, assim como as leis de cotas deveriam ser chamadas de estatutos da desigualdade racial”. E explica por que: “raças não existem em um país profundamente miscigenado como o nosso”. Mas, o médico e o professor também dão as caras, quando, entre outros escritos, elabora regras para evitar que se conduza mal um caso médico mostrando os caminhos do erro aos que falam de forma complexa e dão pouca atenção à queixa do paciente. Fica em dúvida, mas absolve, por sua latinidade, a Fidel Castro e até dá sugestão para reformular a Copa do Mundo, tentando acabar com os empates nas prorrogações da finalíssima, recomendando a substituição de todos os jogadores, mas admitindo a decisão por penais. Pedro é: tão destemido que me pede para escrever a orelha de um livro seu que a transcrevo em jornal com o objetivo de anunciar, antecipadamente, a todos os seus colegas médicos cardiologistas, amigos, alunos, colegas de docência da Faculdade de Medicina, que vem aí mais um livro de Pedro Negreiros um especialista genérico, um professor difuso, um cardiologista apaixonado por idéias intricadas que vão mexer com sua adrenalina por escrever o que lhe apraz, sem medo de variações sistólicas ou diastólicas de terceiros. João Soares Neto, cronista - [A ARTE EM CADA CANTO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-arte-em-cada-canto/): Mais uma vez, o Shopping Benfica abre as portas da Galeria Benficarte para receber, com alegria e respeito, seis artistas consagradas Emília Porto, Jussara Correia, Lira Juraci, Maíra Ortins, Maria Thereza Pinto e Nice Firmeza. São MULHERES EM TRÊS MOVIMENTOS que traduzem, de forma pictórica diversa, toda a sua criatividade, utilizando histórias pessoais e vivências artísticas como pano de fundo. Os pincéis são apenas meios de expressão de seus sonhos, desditas e emoções. As telas são 'cintilografias' artísticas e registros de seus olhares sobre o mundo e as suas coisas. Pelos currículos das "MULHERES EM TRÊS MOVIMENTOS " cada pessoa poderá ver, com olhos e alma, as razões e os matizes que se agregam às telas e traduzem o somatório de suas experiências. Apreciar a arte é pausar os olhos, aquietar modos e ver-se dentro do "espírito" do que lhe é mostrado com carinho. Cada quadro é um universo especial. Cada visitante terá uma absorção diferente, mas isso não importa. O que vale a pena a se ver numa exposição como MULHERES EM TRÊS MOVIMENTOS é o que fica no espírito e o rastreamento do ato de criar de cada uma das seis diferentes artistas, mulheres de um mundo vário, com suas histórias, escolas, estilos, formas e cores. Sejam bem-vindos, artistas e público. João Soares Neto, não é crítico de arte - [O CÓDIGO DA VINCI E A ARTE DE VENDER](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-codigo-da-vinci-e-a-arte-de-vender/): Junte Leonardo Da Vinci e a sua obra, um professor de Harvard quarentão e bem apessoado, uma bela policial especialista em criptologia(ocultismo), um assassinato em pleno Museu do Louvre, um monge albino fanático, um rico inglês com sequela de poliomielite e uma “intricada” história sobre Jesus, Maria Madalena e sociedades secretas, em meio a uma caçada policial entre Paris e Londres, envolvendo jatinho e limusine, e terá todas as misturas que o escritor Dan Brown utilizou para escrever o romance “O Código Da Vinci”, um fenômeno editorial no mundo, pois se diz ter vendido 15 milhões de exemplares. E o pior é que tive de ler o livro, pois o ganhei de presente e sempre era perguntado: Já leu? Acabei lendo e o li com atenção, embora não tenha, desde o começo, gostado. É claro que tudo que se escrever sobre o livro dará a ele a publicidade que a Editora Doubleday, ardilosa como a maioria das grandes editoras norte-americanas, soube construir. De cara, mandou 10 mil exemplares de graça para jornalistas, donos de livraria e outros. Depois, começou a fomentar a “polêmica” de que o livro trazia um grande segredo que poderia destruir a fé católica. A Editora Sextante, responsável pela tradução e venda no Brasil, não fez por menos. Distribuiu, com livrarias e críticos literários, brochuras com os quatro primeiros capítulos do livro e criou uma falsa ansiedade, além de grandes reportagens na mídia. O resultado é a grande vendagem. Desconfio que a grande maioria compra, começa a ler, folheia e não conclui a leitura. O livro tem 475 páginas e, adivinhem o que tem na página 476? O resumo-propaganda do próximo lançamento no Brasil do livro do mesmo Dan Brown, “Anjos e Demônios”, com o mesmo professor de Harvard, Robert Langdon, como protagonista principal. Paralelo a isso, já está em andamento a filmagem do “O Código Da Vinci” que, certamente, terá uma grande bilheteria, pois o seu diretor, Ron Howard, é o do filme “Uma Mente Brilhante”, que ganhou o Oscar em 2002. Tom Hanks será o protagonista principal. Tudo o que escrevi serve apenas para mostrar como nós, pobres leitores, somos levados, muitas vezes, a achar “excelentes” autores que apenas trilham um caminho já conhecido da construção de livros com descrição pormenorizada de lugares, coisas, objetos e instituições, respaldado por um suporte bem urdido de marketing de editora. Rever a história, descrever pessoas, lugares, objetos e instituições são hoje atos profundamente simples, que podem parecer ao leitor como erudição e talento, quando não passam de mera pesquisa que pode ser feita pelo próprio autor, qualquer boa bibliotecária ou historiadora. A propósito, a mulher de Brown, Blythe, é historiadora de arte. João Soares Neto - [CÔNSULES EM AÇÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/consules-em-acao-diario-do-nordeste/): Ontem à noite, a Sociedade Consular do Ceará-SCC, recomeçou novo biênio de gestão sob a presidência segura de Ednilton Gomes de Soárez com a posse dos demais diretores: Raimundo Viana, C.Maurício Duran, J.M. Zannochi e Fernanda Jensen. A seguir a introdução oficial do novo cônsul honorário do Chile, o ínclito Ednilo Soarez que já participou de reunião em Salvador com os cônsules daquele país andino no Brasil. A solenidade foi coroada com a apresentação do espetáculo “Sagrada”, uma fantasia sobre a sustentabilidade do planeta Terra. Os bailarinos, os figurinos, a coreografia e a musicalidade são da Edisca, essa benquista entidade criada e dirigida por Dora Andrade que acolhe jovens carentes e os transforma em artistas e cidadãos. Compõem a atual SCC os seguintes cônsules: Annette de Castro, Holanda; Beat Suhner, Suíça; C.Maurício Dominguez, Colômbia; Dieter Gerding, Alemanha; Ednilo Soárez, Chile; Ednilton Soárez, Finlândia; Reinhilde Lima, Áustria; Fernanda Jensen, França; Francisco Brandão, Portugal; Janos Fuzesi, Hungria; João Soares, México; Airton Teixeira, Belize; J.M.Zanocchi, Uruguai; Luciano Maia, Romênia; Marcos de Castro, Noruega e Suécia; Raimundo Viana, Rep. Tcheca; Roberto Misici, Itália; Sergio Bayas, Equador; e Zsofia Sales, Hungria. Nunca é demais repetir que os cônsules são acreditados pelos países que representam - de quem recebem diretrizes - e pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil que os credencia. Todos exercem suas atividades de forma permanente e voluntária nas jurisdições que lhes são confiadas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/08/2015 - [A INVASÃO DO "ENXAME" DOS EX-COLONIZADOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-invasao-do-enxame-dos-ex-colonizados-jornal-o-estado/): Enquanto nós, brasileiros, acreditamos estar no pior dos mundos, é preciso abrir os olhos para o que está ocorrendo por aí. A Europa, constituída por países que têm nas suas histórias a adjetivação pejorativa de colonizadores, sofre, desde 2011, com a migração constante de africanos e árabes. Há oito dias, exato em 30 de julho, o Premiê da Inglaterra, David Cameron, disse o seguinte: “Há um enxame de pessoas vindo pelo Mediterrâneo em busca de uma vida melhor, porque o Reino Unido tem bons empregos, a economia está crescendo, mas precisamos proteger nossas fronteiras”. E arrematou: “Devemos proteger as fronteiras para ter certeza de que os turistas britânicos poderão ir para as suas férias”. É verão na Europa. Seu pronunciamento não foi bem recebido por alguns. O Eurotúnel agora é foco de ataques. Um pouquinho de história. Quando a escravatura foi abolida, na primeira metade do século XIX, os europeus, que detiveram o comércio de seres humanos, resolveram repensar o que inventar para que as riquezas continuassem a fluir e a nutrir o progresso em curso face à revolução industrial, levariam Houve, em setembro de 1884, o “startup” - palavra da moda atual - de uma grande reunião na Alemanha que viria a ser conhecida como “Conferência de Berlim”. Desse conclave, encerrado em fevereiro de 1885, participaram, além do país sede, Reino Unido, França, Bélgica, Holanda, Áustria/Hungria, Dinamarca, Itália, Espanha, Portugal e os Estados Unidos, o único não europeu. Esses países dividiram a África segundo os seus interesses próprios, desrespeitando etnias, crenças e geografias. Atinaram que, além de mão-de-obra barata, teriam os virgens subsolos africanos para extrair as riquezas minerais possíveis. Do ouro ao ferro, do chumbo ao diamante. Admite-se que 90% do território da África foi dominado até grande parte do século passado. Encerrada a dominação colonial – e mesmo na sua constância – começa o êxodo e o desejo dos ex-colonizados de habitarem os melhores ares dos países que os dominaram de forma não muito gentil. Não muito diferente do que aconteceu na África, quase a mesma constelação de países, a partir dos grandes descobrimentos, com a chegada do português Vasco da Gama à Ásia, invadiu o sudeste asiático e o Oriente Médio. Sem precisar de Conferência, houve o que se convencionou chamar de “Partilha da Ásia”. Foi o “enxame” da voracidade europeia de expansão comercial e a introdução, por exemplo, de “plantations” para o cultivo de arroz, pelos franceses; da seringueira, pela Grã Bretanha; e da cana-de-açúcar pelos holandeses. O continente asiático, depois do fim da dominação europeia, tendo a China, o Japão e a Índia como referências, está em notável ritmo de crescimento. O mesmo, entretanto, não acontece com o Oriente Médio, onde cristãos e muçulmanos, especialmente os xiitas, os curdos e os sunitas, parecem ter despertado após as invasões do Afeganistão, da Síria e do Iraque, e do recente acordo com o Irã para a não fabricação de armas nucleares. Há muitos lados em luta, desde o surgimento e a posterior morte de Osama Bin-Laden. Estima-se que existam hoje cerca de quatro milhões de refugiados no Oriente Médio. Por tudo isso, muitos jovens árabes saíram e continuarão a tentar sair de seus países, ou do que resta deles. O caminho natural da fuga, a pé ou por veículo, passa, entre outros, pela Turquia. Os turcos já prometem construir um alto muro que impeça ou dificulte a invasão de seu território, uma das rotas para o norte da Europa. Por outro meio, o mar Mediterrâneo é o cemitério e o estuário dos africanos que fogem de problemas similares e têm morrido, aos milhares, nas travessias em velhos navios mercantes, cargueiros e até batelões improvisados. Há campos para atendimentos a refugiados, em especial na Itália e na França, trens e veículos sofrem ataques. Tudo leva a desdobramentos que ainda não sabemos onde irão parar. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/08/2015 - [LIVROS E LEITORES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/livros-e-leitores-diario-do-nordeste/): No livro “O Falecido Mattia Pascal”, de Luigi Pirandello, Nobel de Literatura em 1934, há fato ainda comum hoje em dia. Alguém morre, conta Pirandello. Foi o Monsenhor Boccamazza. Deixa o legado de livros para o município em que vivia. O município não deu à mínima “e deixou os livros empilhados, durante muitos e muitos anos, num amplo e úmido depósito, de onde, os tirou – podem imaginar em que estado – para guardá-los na igrejinha, fora de mão, de Santa Maria Liberal, dessagrada não sei por qual motivo”. Essa constatação é fácil de constatar em sebos, quando livros, sequer lidos, alguns com dedicatórias amáveis, são encontrados aos montes. Os que escrevem devem ter a consciência de que esse pode ser o destino de alguns dos seus livros, mesmo que hajam gastado tempo para a sua elaboração, revisão, edição e, se for o caso, lançamentos com pouco ou muito público. Há pessoas que declaram aos autores haver gostado muito dos seus livros, mas, na realidade, os folhearam vagamente. Reza a lenda que certo autor, desiludido, no seu último livro, a altura da centésima página, resolveu escrever um desaforo ao leitor com palavras de baixo calão. Depois, sempre que encontrava algum dos prováveis leitores desse dito livro, perguntava: leu o livro? foi até ao fim? gostou? Os elogios eram sempre fartos, a comprovar mentiras, pois nenhum se referiu à trapaça que ele armara na página 100. Portanto, escuse-se de fazer questionamentos. Deixe que o leitor expresse a sua versão. Não fique triste, pior foi o caso do Monsenhor Boccamazza. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/08/2015 - [FAMÍLIA GUINLE: DO ARMARINHO À DINASTIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/familia-guinle-do-armarinho-a-dinastia-jornal-o-estado/): “Se você deseja, não lhe fará mal”. Máxima dos Guinle Clayton Lima, da Livraria Smile, deu-me um exemplar do livro “Os Guinle – A História de uma Dinastia”, obra do historiador e professor Clóvis Bulcão. “Os Guinle” foi elaborado com cuidado, lançado em junho pela “Intrínseca”. Começa com frase de Nelson Rodrigues: “Quando desaparece um Guinle, morre um pouco do nosso passado”. Em seguida há a genealogia da família, descendente de imigrantes franceses, iniciada com Eduardo Palassim Guinle e Guilhermina Coutinho Guinle e vai até a sua quinta geração. Há uma cronologia, a partir de 1840, mas, na verdade, o ponto de partida é o nascimento de Eduardo Guinle, em 1846. No mundo dos negócios a vida começa em 1871, com a abertura de um armarinho, no antigo centro do Rio de Janeiro, quando os sócios Eduardo Guinle e Cândido Gaffrée fundaram o “Aux Tuileries” que vendia um pouco de muitas coisas. Eduardo e Guilhermina, casados em 1878, tiveram os filhos Eduardo, Guilherme, Carlos, Arnaldo, Octávio, Celina e Heloísa. Uma das características da família foi morar bem, cultivar relacionamentos com governantes, e dar aos filhos boa instrução, inclusive, com governanta estrangeira, oportunidade de aprenderem línguas e obter graus de ensino superior. O ponto de inflexão da ascensão de Eduardo, o patriarca, e de seu sócio Cândido Gaffrée, foi a disputa da licitação para operar e ampliar o Porto de Santos. O fato aconteceu em 1888, depois de duro embate. Já em 1892 era inaugurado o novo porto com 260 metros de caís construído pela sociedade. Daí para frente há a entrada na área elétrica, concorrendo com a Light, poderosa empresa canadense. Esse novo ramo de atividade também foi decisivo para o crescimento da engrenagem empresarial e social dos Guinle. Por outro lado, em 1902, surge o Fluminense Football Clube, do qual os Guinle viraram sócios. O Fluminense, ainda hoje, leva o nome de “pó de arroz”, por ter sido fundado por pessoas de bom nível social. Os Guinle tiveram influência na construção do estádio do clube onde foi disputado a decisão do campeonato Sul-americano de 1918, quando o Brasil venceu o Uruguai. Eduardo, o patriarca, morre em 1912. Em 1914, seu filho Octávio - que procurava entrar no “jet-set” americano- é preso em Nova Iorque por suposto ataque físico à americana Monica Borden, com quem, depois de um acordo em que desembolsa 50 mil dólares da época, resolve casar. Esse casamento, como era de se esperar, durou apenas dois anos. Com a urbanização do Rio de Janeiro e a inauguração da nova Avenida Central (hoje, Rio Branco) seguindo os passos da modernização da Paris de Haussmann, a família funda uma hotelaria. Em 1918, e surge o Hotel Palace, no Centro. Copacabana era o futuro do Rio e a família comprou as terras que pode e, em uma delas, resolve construir o hotel Copacabana Palace, inaugurado em 1923. “O Copa” sempre foi a obra mais visível da família, embora o grosso da fortuna da dinastia esteja ligada aos 92 anos de controle ininterrupto do Porto de Santos. Saindo da cronologia, para não atrapalhar a quem desejar ler o livro, um fato peculiar chamou-me a atenção. O regente cearense Eleazar de Carvalho foi beneficiado com uma bolsa de estudos. Arnaldo, filho de Eduardo, que assumira, em 1941, a presidência do Conselho da Orquestra Sinfônica Brasileira-OSM. Eleazar foi para a Berkshire Music Centre, em Massachussets, e recebia- da OSM- duzentos dólares- que valiam muito - a cada mês. Dou por terminado este relato, mas sem esquecer que o perigeu dos Guinle acontece, em 2004, com a morte do “playboy” Jorginho Guinle, que foi o “must” na propaganda do Copacabana Palace. O Copa foi vendido a grupo estrangeiro em 1989. A aura continua. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/07/2015 - [O BRASIL DO REAL OU O BRASIL REAL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-brasil-do-real-ou-o-brasil-real-jornal-o-estado/): “O Brasil não é para principiantes”, frase atribuída a Tom Jobim. No Brasil, há coisas estranhas, dignas de serem analisadas pela sociedade psicanalítica nacional. Houve tempo em que carros mostravam o adesivo: “Brasil, ame-o ou deixe-o». Depois, veio a luta pelas diretas e o País se veste de verde e amarelo. Tancredo vai eleito, por via indireta, e há verdadeiro carnaval. Aí, Tancredo adoece, morre, e o País se desmancha em lágrimas. Cada pessoa parecia ter perdido um pai ou um conselheiro. Surge o presidente Samey e repete, no discurso de posse, uma frase de Tancredo: “É proibido gastar”. E começa a gastar. Gasta tanto que só há uma solução: o Plano Cruzado. “Cada brasileiro ou brasileira deverá ser um fiscal do Presidente”, disse, e o povo aceitou. Nunca houve tanta delação quanto logo após a decretação do Plano Cruzado. A Sunab e a Polícia Federal ficaram encarregadas das reclamações e de trotes, dos fuxicos e das perseguições de pessoas que não gostavam de outras e, aproveitando a ocasião, haja denúncias. Sarney enxuga as lágrimas do povo brasileiro e passa a ser o nosso novo herói. Todo bom herói que se preza tem o seu fiel escudeiro, o Dilson Funaro. Menos de um ano se passou e Sarney perdeu o seu trono na paixão coletiva. Depois, o lbope disse ao Sarney que o caso de amor estava acabando juntamente com a nossa paciência. Ele resolveu arregaçar as mangas de seu jaquetão clássico, pentear os bigodes e a cabeleira e costurar o “pacto social”, que não aconteceu. Após Sarney veio o Collor, com a aceitação total da mídia e da maioria dos eleitores que não souberam ver a intranquilidade no seu olhar e no gestual. Deu no que deu. E aí veio o Itamar com o seu temperamento ciclotímico e a ideia de ressuscitar o velho Fusca. Apesar disso, quase no final do governo Itamar, Ciro Gomes e economistas de peso bolaram o Plano Real, do qual se apropriou o novo Ministro da Fazenda, FHC, e daí para a eleição foi um passeio. FHC vai reeleito, a custa de barganhas. Em meio a procelas e ajustes, o Plano Real se mantém há 21 anos e o povo, cheio de promessas, permitiu a aprovação da reeleição, deixando para depois as reformas fiscal, administrativa e previdenciária. Temos tempo. O brasileiro estava alegre, até frango comia. Saiu FHC, entrou Lula, o metalúrgico do ABC, falando a linguagem que a maioria do povo queria ouvir. Os empresários torceram os narizes. Em seguida, houve a aproximação que virou amizade. Lula vai reeleito, viaja pelo mundo, propaga um Brasil crescente, resolvido, cheio de orgulho e zera as contas com o FMI. Elege Dilma Rousseff, oriunda do Brizolismo, economista, descasada, mineira aclimatada no Rio Grande do Sul e ex-guerrilheira. Emerge o sonho da mulher descrito, entre outras, por Simone de Beauvoir, Rosa de Luxemburgo e Bertha Lutz. As mulheres vibram e Dilma vai eleita com discurso imprevisível. Passam-se quatro anos, o mundo perde o gás econômico, mas, Dilma vai reeleita por estreita margem. O país entra em 2015 nitidamente dividido, começa o segundo mandato. Empreiteiros, cambistas, ex-diretores da Petrobrás e integrantes de diversos partidos, são chamados à ordem por um juiz com sobrenome parecido com Thomas Morus-o filósofo da utopia-, que principia a deslindar a enorme teia como no “O Labirinto” de Jorge Luis Borges. Mas, e o Minotauro? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/07/2015 - [O PAPA E A FOICE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-papa-e-a-foice-diario-do-nordeste/): Pouca gente se dá conta do Vaticano ser um Estado. Por ser Estado, possui estrutura bem maior que a Igreja Católica necessitaria. Bergoglio, ao assumir o papado sob o nome de Francisco, viu-se cercado da burocracia imensa, histórias e estórias cabeludas que passaram, quase incólumes, nos dois papados que o antecederam. Sua ascendência italiana, embora argentino, facilitou o convívio com o “establisment” que manuseia todos os cordões, inclusive a distribuição de cargos nas áreas de gestão administrativa e financeira; no tribunal a julgar desde desvio de dízimos, de fé, aos nebulosos envolvimentos em pedofilia; nas promoções de padres a monsenhores e a bispos, de bispos a arcebispos, de arcebispos a cardeais; e aos cobiçados cargos diplomáticos de núncios apostólicos, embaixadores nos países com os quais o Vaticano mantém relações. A recente visita ao Equador, à Bolívia e ao Paraguai é parte desse esforço de manter a fé cristã em países que estão, no todo ou parte, com a síndrome bolivariana deflagrada por Hugo Chávez, sob a inspiração stalinista da Cuba dos irmãos Castro. Chávez, nos tempos áureos dos preços do petróleo, foi benfeitor generoso da então asfixiada economia castrista. Agora, retomadas as relações com o fim do embargo americano, Cuba não terá tanta seiva para exportar a ideologia da “pátria ou morte”. Assim, Francisco aproxima-se desse grande reduto católico que é a América Latina, sob pena de perder mais espaço para os pentecostais, os sincretismos e o bolivarismo. É a política da cruz contra a foice e os “diabinhos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/07/2015. - [O QUE SE FALA NO GOOGLE SOBRE O BRASIL? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-se-fala-no-google-sobre-o-brasil-jornal-o-estado-2/): “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Tom Jobim A Folha de São Paulo resolveu pedir ao Google informações sobre as buscas dos seus internautas acerca do Brasil. O Google aquiesceu e informou, mais ou menos, o seguinte: os próprios portugueses ao usar o sistema Google fazem, em busca mais recorrente, a seguinte pergunta: quem descobriu o Brasil? A outra pergunta deles é: quem colonizou o Brasil? É verdade, não é brincadeira. Coisas da pátria-mãe. Sobre o assunto, Patrícia Campo Mello, jornalista, informa: “Para mapear a imagem do Brasil no Mundo, o Google levantou, a pedido da Folha, o que os cidadãos de alguns países buscam em seu site sobre o País desde 2004. Afora os resultados no mínimo curiosos sobre os portugueses, o levantamento mostra que o Brasil começa a se livrar dos clichês ‘samba, futebol e carnaval’”. Mas, descobriu-se que é no nosso país que os norte-americanos pensam em certos tipos de cirurgia plástica e estética, tais como “Brazil butt lift” (cirurgia para aumentar o traseiro) e “brazilian wax” (depilação dos pelos pubianos). Enganam-se ao pensar que por aqui há sementes nativas que teriam o poder do emagrecimento nos locais certos. Por outro lado, a pesquisa, citada, mostra que ainda há perguntas, tais como: onde fica o Brasil? em que país fica o Brasil? que língua é falada no Brasil? Recorro à Patrícia: “A ignorância também permeia as buscas mais frequentes dos internautas do Iraque como: “Qual é o idioma”, “Onde fica?” e “Qual é a capital?”. Mas o sexo não sai do imaginário dos iraquianos (muçulmanos, diga-se) quando pensam no Brasil. O termo mais procurado por eles é ‘praias de nudismo, seguido de ‘sexo’ e ‘mulheres sexy do Brasil”. Aqui ao lado, na Argentina, os “hermanos” procuram saber de novelas e a que tem mais entrada no Google é “Avenida Brasil”, da TV Globo, que só foi retransmitida para lá em 2014. Fortaleza está entre as cidades mais procuradas, ao lado de Natal, Bonito - no Mato Grosso do Sul-, Itapema, em Santa Catarina e Torres, nos pampas gaúchos. Por outro lado, além das perguntas bobas ou primárias há algo um pouco mais profundo e isso vem dos franceses que procuraram saber “quais as particularidades da presidente Dilma?”, “o Brasil produz para alimentar sua população ou para vender?” e “por que chamam o Brasil de fazenda do mundo?”. Como se vê, o nosso País ainda é um ilustre desconhecido e isso nos entristece, pois acreditamos ser a sétima ou oitava economia do mundo e nem os da nossa pátria-mãe sabem quem somos. Tantas foram as viagens presidenciais pelo mundo afora, nestes últimos 20 anos, que imaginávamos um “recall” mais alvissareiro. Entretanto, algo nos alegra. O nível dos perguntadores é de ordem tão primária que há esperança de que, pelo menos, entre populações mais instruídas, tais como: jornalistas, acadêmicos e intelectuais - os que ainda leem livros e possuem uma visão mais cosmopolita- possa realmente haver informações mais qualificadas. Saber, por exemplo, que se atribui a Pedro Álvares Cabral o nosso descobrimento; que somos um país continental de 200 milhões de habitantes; que falamos a língua portuguesa e que fomos colonizados por Portugal. Hoje, temos uma democracia turbulenta, a nossa presidente é uma mulher, Dilma Vana Rousseff, filha de imigrante e estamos nos preparando para sediar as Olimpíadas de 2016, na cidade do Rio de Janeiro, patrimônio da humanidade. Ainda produzimos samba, especialmente em favelas pacificadas; tentamos, com o “coach” Dunga, voltar à hegemonia no futebol; os carnavais do Rio e de São Paulo são patrocinados por contraventores em parceria com multinacional de cerveja e mostrados via televisão. O ator Rodrigo Santoro é brasileiro e o nosso maior cantor é Roberto Carlos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/07/2015 - [UNIFOR E ELEAZAR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/unifor-e-eleazar-diario-do-nordeste/): Neste mês de julho você deve ir, levar a família e amigos para ver e ouvir o Festival Eleazar de Carvalho no campus da Universidade de Fortaleza – Unifor. Uma universidade é muito que uma instituição de ensino e pesquisa. É claro que suas faculdades e escolas devem habilitar profissionais, aprofundar conhecimentos humanísticos, científicos e tecnológicos, mas não pode esquecer as artes, em suas múltiplas manifestações. Agora, no agradável e sombreado campus da Unifor, há rebuliço de jovens e maduros que estudam, admiram ou pretendem aprender ao participar do 17º. Festival Eleazar de Carvalho, de música erudita. Eleazar de Carvalho, não é demasiado repetir, foi um grande músico e maestro cearense com dimensão internacional. Ele começou, acidentalmente, a sua vida musical na Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará, ali no Jacarecanga. Depois, ensandecido pelo ouvido 100%, teve que desenvolver suas habilidades em múltiplas formações que o elevaram ao status maior da regência. Tive a sorte de vê-lo regendo em festival em Tanglewood, Mass., grande centro musical que, como aqui na Unifor, reúne celebridades e iniciantes para devaneio das múltiplas plateias cultas e leigas, como eu. Após aquele fim de semana, houve outros ensejos de vê-lo e até de trocar dois dedos de prosa com Eleazar de Carvalho. Sônia Muniz, sua viúva, descobriu em Airton Queiroz, chanceler da Unifor, um guardião silente, profícuo e indispensável para tornar durável o sonho de formação de novos profissionais e amantes da música clássica. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/07/2015 - [OS LIBANESES DO CEARÁ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-libaneses-do-ceara-jornal-o-estado/): “O Líbano ergueu-se diante de mim com seus cimos nevados, seu aspecto severo, como convém a essa sentinela da Terra Santa”. D.Pedro II ,novembro de1876 Conta a história que o século 19 não foi muito prazenteiro com os libaneses, especialmente os que obedeciam a ritos cristãos e estavam encravados em áreas montanhosas do norte do Líbano, onde os recursos naturais eram parcos e a vida se tornava difícil. Zahle era um desses lugares. O País vivia sob a força do império turco-otomano. O destino que pretendiam os primeiros imigrantes, muitos dos que vieram para o Brasil, era a América, não a do Sul, onde aportaram, mas a do Norte, para a qual não tinham visto de entrada. Os passaportes eram turcos, face a dominação. Consta que a visita ao Líbano, em novembro de 1876, do Imperador D. Pedro II, também facilitou o processo migratório que teve como destino principal o Estado de São Paulo. Alguns desses, em diáspora já interna, vieram ter à Amazônia, seduzidos pelo ciclo da borracha. Outros, por razões diversas, chegaram ao Nordeste e ao Ceará. A revista paulista Carta do Líbano, dirigida pelo jornalista Fouad Mitri Naime, em edição deste ano, mas não datada, publicou número especial sobre a imigração libanesa no interior e na capital do Ceará. Nesse número são contadas histórias dos troncos dos imigrantes das famílias libanesas que, desde o final do século 19, aportaram na Praia de Iracema, então Praia do Peixe, antigo porto ou trapiche de Fortaleza. Os primeiros imigrantes libaneses cumpriram etapas honradas de adaptação às cidades do interior e na capital. Primeiro como mascates. Depois como varejistas, logo em seguida no atacado e daí para a indústria. Eram valorosos e aqui tiveram boa acolhida, provinciana que era a maioria das gentes locais. No Ceará, a partir de 1888, com a chegada de Demétrio Dibe, natural de Tripoli, estado litorâneo ao Norte do Líbano, deu-se a benfazeja “invasão” de emigrados libaneses que aqui, com toda a energia e esperança, fincaram raízes profundas que hoje dignificam e muito significaram para o nosso desenvolvimento. Segundo César Aziz Ary, engenheiro e professor da Universidade Federal do Ceará, em parceria com o advogado, empresário e ex-cônsul honorário do Líbano do Ceará, Samir Jereissati, foi realizado um levantamento que identificou a existência de mais de 100 sobrenomes libaneses aqui sedimentados. A saber: Abdalla, Abbas, Aboud, Acário, Abu-Marrul, Allan, Arsênio, Ary ( Al Kary), Asfour(Asfor), Assad, Assef, Auad, Azin, Al-Hauch, Bachá, Belem, Barha(Braga), Baquit, Bardawil, Barguil, Bayde, Bassila, Bittar, Boutala, Bouaiz, Braide, Brandan, Buhmara, Busgaib,Carrah, Carate, Cateb, Catrib, Chaib,Chehab, Daher, Demes, Dibe,Dieb,, Duailibe, Dummar, Elias, Farah, Feres, Fecury, Gazelli,Hachem, Haddad,Hamdan, Hagge, Havache, Hissa, Hakimmi, Hellal, Hiluy, Hosn, Ibrahim, Irucus (Roque), Jereissati, Jorge, Kalil, Kayatt, Karam, Kalume, Karbage, Kassuf, Koury, Kham,Kubrusly, Lazar, Lobo (Dib), Lopes (Lubus), Lattif, Mahamud, Mansur, Midauar, Mustafá, Mutran, Najar, Namem, Nasser, Nazar, Nedef, Nógimo, Okka, Otoch, Rachid, Rabay, Rassi, Romcy(Homsi) Rouquez (Roque), Safadi, Said, Salem, Salomão, Sarquis, Saker, Sater, Simão, Skeff, Sleiman, Tahim, Tajra, Tauil, Tebet, Turbay, Zahlut e Zarur. Hoje, entranhados com sobrenomes de origem portuguesa e de outras nacionalidades, são parte importante da sociedade cearense, sem os quais a nossa história seria, sem dúvida, bem distinta e mais pobre. É cantado e consabido o arrojo, o destemor e a energia dos que, por muitas razões, saem de sua pátria e, enfrentando obstáculos linguísticos e culturais, conseguem, em pouco mais de cem anos, formar uma descendência tão ilustre quanto as dos filhos, netos, bisnetos e já tetranetos de imigrantes libaneses no Ceará. Em qualquer área do conhecimento humanístico, cientifico e tecnológico, e em múltiplos ramos de negócios e na política, avultam nomes libaneses originais ou já adaptados por questões fonéticas. Hoje, sem dúvida, grande parte do produto interno bruto cearense tem origem nas poupanças consolidadas e transformadas em forças motrizes do nosso desenvolvimento social. Este artigo não é louvação, mas dever de um não libanês para com tantos patriarcas imigrantes que, do nada, conseguiram estruturar famílias e consolidar patrimônios em terra tão adusta como o Ceará. A edição especial da Carta do Líbano e o livro As famílias libanesas no Ceará, de César Aziz Ary ao meu olhar, deveriam ser distribuídos em bibliotecas e escolas públicas cearenses, ao mesmo tempo que, digitalizadas, deveriam constituir sites e blogs que difundissem e perpetuassem as histórias das muitas famílias hoje amalgamadas com ascendências locais, pois muitas gerações já se cristalizaram na sociedade local. Shukran. Ponte dos Ingleses ou Ponte Metálica A Ponte dos Ingleses, também chamada de Ponte Metálica, está localizada na Praia de Iracema, Fortaleza, Ceará, Brasil. Foi um projeto de melhoramento da estrutura portuária de Fortaleza. A construção do viaduto Lucas Bicalho foi iniciada em 24 de setembro de 1921, pela empresa inglesa Norton Griffts Co., para servir de porto da cidade de Fortaleza, em substituição da antiga Ponte Metálica (ponte ao lado, próxima da Avenida Almirante Tamandaré). No entanto, nunca funcionou como porto. O viaduto integrava o ante-projeto de um porto-ilha proposto pelo engenheiro Manuel Carneiro de Sousa Bandeira, e desenvolvido pelo engenheiro Lucas Bicalho. As obras foram iniciadas em 1921, durante o governo do presidente Epitácio Pessoa, e foram suspensas no governo de Artur Bernardes, no qual permaneceu inconclusa. Em 1994, foi aprovado um projeto de recuperação da ponte através da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. A ponte foi recuperada e urbanizada para o uso público, além de ter recebido uma armação de madeira sobre parte do viaduto, projeto dos arquitetos Fausto Nilo e Delberg Ponce de Leon, também responsáveis pelo projeto arquitetônico do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Atualmente, a Ponte dos Ingleses conta também com um Núcleo de Proteção dos Golfinhos e uma Torre de Observação de Cetáceos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/07/2015 - [RESILIÊNCIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/resiliencia-diario-do-nordeste/): Os que aportaram neste século 21, com a formação acadêmica e profissional da segunda metade do passado 20, estão meio sem chão neste tempo em que o romantismo e o pós-modernismo sucumbem ao politicamente correto, ao patrulhamento do modo de pensar, do escrever e do agir. Estão perplexos em meio às desavenças entre os pentecostais e os defensores da liberdade do pensar e da união homoafetiva. Todos veem o “default” da esquerda glamorosa no poder pelo poder com a repentina mudança de hábitos e atitudes. Deu no que está dando e dará, se der. Estão ainda tontos com a leitura de “O Capital no Século XXI”, do economista gaulês Thomas Piketty. O piquete, desculpe o trocadilho, armado na pracinha defronte ao touro que identifica Wall Street, foi virando ondas surreais de um novo capitalismo neste ocidente da Terra. Enquanto isso, os sunitas, com armamentos, instalações e equipamentos deixados pelos americanos ao sair do Iraque, criaram o Estado Islâmico-EI e abriram cruéis guerrilhas contra xiitas no poder e até turistas. O EI, dizem, parece receber dinheiro e apoio de parte de alguns donos do petróleo jorrante no golfo pérsico. A Turquia constrói muro contra imigrantes. Putin resmunga. A Grécia fraqueja com dívidas de bancos privados, assumidas pelo Estado. O Euro segue incólume? Neste clima de desaceleração, os que vêm do 20, mesmo perplexos, não têm medo, pois passaram por tamanhas maluquices e patriotadas que um pouco mais de sofrimento não os abala. São resilientes. Imaginam que, mais além, voltará o estado natural. Será? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/07/2015 - [Pedro Nava por Monique Le Moing - JORNAL O ESTADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pedro-nava-por-monique-le-moing-jornal-o-estado/): “Que somos nós!? Pronomes pessoais”. Mário de Andrade Gosto de ler biografias. Agora, li “A Solidão Povoada” uma biografia sobre Pedro Nava, escrita, em 1996, em português, pela acadêmica francesa Monique Le Moing, para a sua tese de doutoramento. Pedro Nava, mineiro de Juiz de Fora, era filho de Diva Mariana Jaguaribe, “moça de recursos”, e do médico cearense José Nava, membro da Padaria Espiritual, movimento fortalezense do fim do século 19. Nava nasceu, em 1903, e viu seu pai morrer logo em 1911. A a sua primeira grande perda. Foi criado pela mãe Diva e pelos tios Alice e Antônio Sales, poeta e também padeiro espiritual. Formou-se em medicina em Belo Horizonte e, em seguida, clinicou no oeste paulista. Aos 30 anos voltou ao Rio de Janeiro, onde havia concluído o ensino médio no Colégio Pedro II. Em 1942 casou-se com Nieta Penido. Com ela conviveu até a sua morte em 1984. Não tiveram descendentes. Paralelo à sua vida como médico- dirigia clínica de reumatologia e era professor da Faculdade de Medicina no Rio - participava de papos com intelectuais tais como, os “sabadoyles”, na casa de Plínio Doyle. Da roda faziam parte, entre outros, Carlos Drummond de Andrade, Afonso Arino de Melo Franco e Joaquim Inojosa. Porém, Nava só começou a escrever literatura aos 70 anos. O livro em análise é um trabalho sério de pesquisa, com a vantagem de ter sido escrito por uma não brasileira, o que pressupõe a isenção de Monique. Ela já havia - em sua tese de mestrado - dado a lume “O ciúme na obra de Machado de Assis e de Allain Robbe-Grillet: Dom Casmurro e La Jalouisie”, orientada pelo professor Silviano Santiago. Monique justifica o caminho que tomou na biografia: “Uma polêmica agitava então os meios intelectuais do Rio quanto ao fim de Pedro Nava: suicídio? Assassinato? Dizia-se que frequentava certos meios homossexuais do Rio de Janeiro e ninguém acreditava que ele fosse capaz de ter uma vida dupla, que tinha sido objeto de uma chantagem qualquer e compelido a um gesto de desespero. Meu interesse por seus escritos, incrementado pelo mistério que de repente envolvia a sua morte, assim como a recente descoberta dos arquivos, decidiram a orientação do meu trabalho”. Ao meu olhar, bastaria Monique pesquisar a estreita ligação – e correspondência - de Pedro Nava com Mário de Andrade, nos anos 1920, para dar uma pista de sua preferência sexual. Foi Pedro Nava o autor das ilustrações do famoso livro “Macunaíma, um herói sem nenhum caráter”, de Mário de Andrade. Sobre Mário, agora foi aclarada e publicizada, se bem que de todos sabida, a sua homossexualidade. Monique, diga-se, foi, igualmente, a tradutora para o francês do livro de Mário de Andrade, “O Turista Aprendiz”, em que ele tenta compreender o Brasil, lapidar sua formação, narrar as suas peripécias, tirar fotografias, o que fez em duas viagens etnográficas ao norte e nordeste do Brasil, entre 1927 e 1929. Foi entre essas duas viagens que Andrade resolveu publicar “Macunaíma”, sua obra capital, em 1928. Em ensaio da colunista Adriana Küchler, da revista sociocultural paulista “Serafina”, na Folha-SP, há uma declaração, talvez nova, sobre “Macunaíma”. Carlos Augusto Kalil, curador da Casa Mário de Andrade, diz que Mário quase copiou a obra “Vom Roraima zum Orinoco”, do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg. E tem mais, na “bricolagem” usa trechos de Couto de Magalhães e até de Capistrano de Abreu. Vou ficando por aqui, mas antes quero dizer que “A Solidão Povoada” é sólido em informações bem trabalhadas por Monique que, inclusive agregou ao texto o nome de todas as obras publicadas por Nava, incluindo poemas, trabalhos científicos e literários, memórias, prefácios, discursos, conferências, entrevistas, obras inéditas, correspondências – ativa e passiva – e, por fim, artigos escritos sobre o médico/escritor, dentre eles, o do cearense Edigar de Alencar que o refere como “Um líder de inteligência nordestina”, por ele ter raízes cearenses. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/07/2015. - [ACL E O PALÁCIO DA LUZ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/acl-e-o-palacio-da-luz-diario-do-nordeste/): Construído no fim do século XVIII, o Palácio da Luz, localizado na Rua do Rosário, ao lado da Praça General Tibúrcio, passa por mínima reforma interna que se fazia necessária. Há algum tempo, grupo formado por José Augusto Bezerra, Ubiratan Aguiar, Regina Fiuza e, entre outros, este escriba, resolveu enfrentar obstáculos e retomou projeto paralisado de restauro da sofrida estrutura física e do parco mobiliário. Na presidência de Bezerra, a Academia Cearense de Letras conseguiu reunir parte da bancada federal cearense e mostrar a real situação física do pouco aquinhoado Palácio da Luz, ex-sede de governos, domicílio da mais antiga entidade literária do Brasil, fundada que foi em 1894. Alguns deputados vendo a penúria das instalações e o risco de desabamento de sua coberta, se comprometeram a ajudar com parte dos recursos de suas emendas parlamentares. Outros deslembraram. Após isso, diligentes e com paciências de monges, Bezerra e Ubiratan andaram por “Ceca e Meca” em Brasília. A ACL só conseguiu guarida aqui com o Banco do Nordeste. Agora, a ACL já reabriu a biblioteca, renovada e climatizada. Depois de entraves, o auditório passa por ampliação, em face do uso constante – e gratuito - por mais de uma dezena de entidades que têm naquele espaço o local de suas reuniões. No segundo semestre as obras estarão concluídas. A ACL voltará a ser aberta para visitações públicas, a usar o seu auditório e a cumprir a sua programação cultural, inclusive com seminário literário dirigido por Angela Gutiérrez. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/06/2015. - [MACHADO DE ASSIS, DE RABUGENTO A COMPASSIVO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/machado-de-assis-de-rabugento-a-compassivo-jornal-o-estado/): “Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e ao corpo. As melhores digestões de minha vida são as de jantares em que sou brindado”. Machado de Assis Na posse do romancista Antônio Torres, em sessão solene na Academia Brasileira de Letras - ABL deparei-me com o diplomata e filósofo Sérgio Paulo Rouanet, de fardão. Do meu jeito irreverente, disse: ”Estarei cumprimentando o acadêmico ou a lei? ” Explico, Rouanet foi o mentor da lei de renúncia fiscal, à época do governo Collor. Sem perder a fleuma, que em anos de Itamaraty lhe foi incutida, respondeu: ”Com os dois”. Rimos. Agora, Rouanet como Coordenador- Irene Moutinho e Silvia Eleutério, como pesquisadoras -, deu a lume o quinto volume da correspondência de Machado de Assis – 1905-1908, edição da própria ABL, objeto de ensaio-reportagem de Luís Antônio Giron, no caderno Eu&Fim de Semana, jornal Valor. Pode-se depreender do lido que a ideia é retirar de Machado (1839-1908) a pecha de rabugento ou casmurro. Seria ele “O Dom Casmurro”. E isso é feito com maestria ao se trazer ao hoje trechos de correspondências passivas, cartas recebidas, e ativas, as que escrevia. A eleição de José da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, por Machado, logo em 1898, mostra que este queria dar à ABL uma dimensão simpática e compassiva de “instrumento de política externa”, ao olhar de Rouanet. Não é supérfluo repetir que Machado sofria de epilepsia- que ele chamava de vertigem-, de lapsos de memória, de depressão e, ao final da vida, de câncer intestinal. Apesar disso tudo, conseguiu ao longo dos seus 69 anos, escrever nove romances, cinco livros de poemas, nove peças de teatro, duas centenas de contos e cerca de 600 crônicas. É apropriado lembrar que não havia computador, não se socorria do Google, tampouco ele era bafejado pela sorte que tenho ao consultar o que Giron escreveu. Era ele, o seu cabedal linguístico e a sua imaginação. Machado, antes de qualquer publicação, mostrava seus textos à sua mulher, a portuguesa Carolina Novais (1835-1904) e, por carta, ao irmão dela, o cunhado, Miguel de Novais. A propósito, Roaunet informa a Giron: “espero viver para pôr a mão nessas cartas. Imagine o tempo que essas cartas levavam do Brasil a Portugal e vice-versa”. Os três autores deixam claro que a falsa impressão de “casmurro” cai por terra na leitura da correspondência, mostrando as suas fragilidades e humanidade. Todos sabem que Machado foi amigo chegado de José de Alencar (1829-1877) tendo, inclusive, o escolhido como patrono da sua cadeira na ABL. E essa amizade, após a morte do autor de Iracema, transferiu-se para o poeta Mário de Alencar, filho deste. Tanto é verdade que Mário, aos 36 anos, já integrava a ABL. Machado e Mário tinham também em comum a epilepsia. Parece-me que a ideia central dessa obra, agora editada pela Academia, além da publicação de cartas trocadas com autores como Joaquim Nabuco, José Veríssimo, Oliveira Lima, Mário de Alencar e outros, é desmitificar a decantada casmurrice e quiçá isolamento de Machado, motivado por seus males físicos, mas fazê-lo emergir como Aires, personagem leve e central do seu último livro, Memorial de Aires. Machado ficou viúvo de Carolina em 1904. Após período depressivo, voltou a escrever e a receber cartas dos amigos. Uma dessas cartas, escrita por José Veríssimo, em 18 de julho de 1908, meses antes da morte de Machado, colabora com a ideia de Rouanet de que o mito do dom Casmurro é substituído pelo leve e apaixonado personagem Aires. Um trecho de Veríssimo, citado por Giron, diz: “Você já nos tinha acostumado às suas deliciosas figuras de mulher, mas creia-me, excedeu-se em dona Carmo. Ah! Como é verdadeira que a grande arte não dispensa a colaboração do coração”. Depreende-se, repito, Aires seria o próprio Machado e dona Carmo não seria outra senão a pranteada Carolina. Por fim, louvo essa pesquisa literária e histórica de Roaunet, Moutinho e Eleutério, tão bem sumariada por Giron. Machado vive e gosta que falem sobre a sua pessoa. Reveja a epígrafe. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/06/2015. - [O TAXISTA E EU - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-taxista-e-eu-diario-do-nordeste/): Vez por outra, cansado de dirigir nesse trânsito maluco, acomodo-me ao lado de um taxista e puxo conversa. Esta semana, sem querer, descobri que um taxista, dono do próprio táxi, que começa às cinco da manhã e trabalha até quatro da tarde. Fatura, em média, cinco mil por mês. Disse-me que gostava muito do “Tirulipa”, filho do Tiririca, deputado federal e palhaço de profissão. Afirmou que o Tirulipa parodiava uma música sertaneja do Luan Santana, a quem fui apresentado naquele instante, com versão não cabível de transcrição neste espaço. Fez questão de cantar com os gestuais nada inocentes do filho do palhaço – e deputado – e, agora, macaqueador de cantores. Disse-me ainda o condutor que a sua casa, própria, possuía garagem para dois carros, pois a mulher fez fisioterapia, possui emprego de meio expediente e atende a clientes particulares. Daí ter dado um “Celta” zero para ela. Estimou, sem rodeios, que ganhava mais do que ela. Entretanto, pensava em desistir da profissão, pois estava com sobrepeso e sabia de colegas acometidos por pressão alta, AVC e até infarto, sem falar nos riscos do trânsito e os assaltos. Obedecia aos semáforos e os seus táxis, este e os passados, nunca bateram. Por tal razão, conseguia bom preço de revenda. Seu sonho: vender a vaga mais o carro para comprar caminhão/guindaste que ”renderia bem mais”. Bastaria fazer cartões de visitas, contatos com cooperativas e ficar em casa ouvindo Luan e que tais, a espera de chamadas. Argumentei que em toda atividade há muita concorrência. Ele: “se tivesse medo não moraria no Brasil”. Concordei. Boa sorte. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/06/2015 - [PARA PENSAR O CEARÁ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/para-pensar-o-ceara-jornal-o-estado/): O governador Camilo Santana deseja reunir os ex-governadores do Ceará. É medida de bom senso e demonstra que os saberes de pessoas como Cid Gomes, Lúcio Alcântara, Tasso Jereissati, Ciro Gomes, Gonzaga Mota e Adauto Bezerra não podem/ devem ficar deslembrados no momento de crise que o Ceará e o Brasil atravessam. Cada um dos citados tem história pessoal como chefe do Poder Executivo e deve oferecer contribuições significativas nas áreas mais afetadas e as sucessivas secas. São todos cientes da falsa promessa da refinaria “Premium” e do estratagema montado pela FIFA, por ocasião da promessa que foi a Copa do Mundo do ano passado, de triste memória, que nos deixou encargos a solver e obras ainda pendentes. A atitude de Camilo Santana, deve partir da premissa de que somos um Estado pobre, com máquina administrativa pesada, cara e de baixa resposta de gestão. Acredito que, serenados os óbices das diferenças naturais dos seres humanos e as desavenças de partidos e alianças políticas, há muito que agregar. Esses ex-governadores, além das relações com diferentes administrações federais, tiveram convivência com secretários de áreas fundamentais, como saúde, educação, fazenda, desenvolvimento agrário e econômico, combate às secas e planejamento para ficar apenas nas ações e carências mais visíveis. O orçamento do Ceará para 2015 prevê uma arrecadação de 23,6 bilhões de reais, o que corresponde a 1,91 % do orçamento da União, que chega a 1,235 trilhão. Ora, se somos menos de 2% da renda ou da receita bruta nacional, entre 27 Estados, é porque não atingimos o patamar de desenvolvimento que se esperava desde a primeira administração do governador Virgílio Távora, quando a energia da Chesf chegou a Fortaleza e acreditou-se, através de um Plano de Metas Governamentais- Plameg, que sairíamos do patamar baixo em que nos encontrávamos como ente federativo. O Ceará é ainda carente de infraestrutura básica que possa atrair grandes projetos. Há deficiências indesculpáveis - a causar doenças- de saneamento básico, de habitações populares, de estradas para escoamento da produção, de indústrias estruturantes e de turismo não predatório. Dessa análise superficial, emerge a certeza de que há urgência em reunir a inteligência cearense para dar um fim ao que se tomou, durante muito tempo, como conformação e destino de ser pobre e subdesenvolvido. Não como fogueira da vaidade, mas para fumar, mesmo que em termos, o cachimbo da paz necessária. Os ex-governantes têm experiência comprovada e cabedal para dar, ao aberto e ainda iniciante governo Camilo Santana, suporte de ideias e de atos consequentes que nos façam sair dessa desfavorável posição do Ceará no ranking brasileiro. O Ceará gastou com desapropriações, projetos, terraplenagem e propaganda intensiva um valor significativo, talvez algo como dois bilhões de reais, e nada recebeu, afora promessas em sucessivas pedras fundamentais da tal refinaria que, na verdade, parece nunca ter sido objeto de compromisso formal da Petrobras, tal a forma fria com que os dois últimos ex-presidentes da empresa tratavam do assunto, quando questionados aqui, na Assembleia Legislativa, em Brasília e no Rio, onde fica sua sede. Em dezembro de 2014, exato nos dias 2, 3 e 4, pouco antes de assumirem, Camilo Santana e Izolda Cela planejaram e realizaram Seminário, com conteúdo e didática, para elaborar propostas a um plano de governo. Esse documento foi enfeixado no livro “Os 7 Cearás – propostas para o plano de governo”. Na capa amarela desse opúsculo, encimando o seu nome, há sete palavras, sem vírgulas entre elas: “Conhecimento Democrático Pacífico Saudável Acolhedor Oportunidade Sustentável”. Camilo Santana tomou-o como compromisso básico e formal, com uma visão participativa de 1.300 pessoas entre técnicos, professores, acadêmicos, políticos e outros profissionais experientes reunidos no Centro de Eventos do Ceará, entre os quais cito, não por falta de merecimento dos demais, Eudoro Santana, Élcio Batista, Joaquim Cartaxo e Roberto Cláudio Bezerra. O Ceará deve ser muito maior do que as divergências pessoais/partidárias de seus representantes no Congresso Nacional, as marcações de posições dos que ficaram na oposição e a defesa dos que integram a situação na Assembleia Legislativa. O momento brasileiro pede reflexão e ação dos que podem modificar o ‘status quo’ que emperra o nosso desenvolvimento sustentável. Os deputados federais e os senadores Pimentel, Eunício e Tasso devem ouvir, opinar e ajudar. A atitude de Camilo Santana não parece jogo de cena, mas gesto voluntário para um concerto dos que, de formas antagônicas ou não complementares, são corresponsáveis pela gestão do Ceará. É preciso acreditar e agir. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/06/2015 - [O QUE É HUB? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-e-hub-diario-do-nordeste/): A palavra “hub” (riubi) significa fulcro, centro, convergência de linha aérea etc. No hub que a Latam, fusão da Lam e da Tam, planeja implantar no Nordeste estão disputando Fortaleza, Natal e Recife. Vendo o mapa mundi fácil é ver que essas cidades são às mais próximas da ponta da Europa e do sul dos Estados Unidos, sem falar nos países da América Central ao meio. As três cidades foram centros de apoio americano, um hub, na 2ª. guerra mundial. Agora, a luta é outra. A Latam quer obter vantagens fiscais, entre outros, combustível com menos impostos e um complexo aeroportuário de qualidade para passageiros, carga e logística na cidade que virará ponto de concentração de suas aeronaves. Acresça-se a isso que essa mesma Latam disputa, em Portugal, a compra da Tap, empresa de aviação estatal deficitária. Fortaleza não tem sido aquinhoada nos últimos doze anos com nada significativo do governo federal. Sequer montadoras de veículos que optaram por Pernambuco e Bahia. Esses dois estados têm, além dessas, portos e complexos industriais pesados, inclusive siderúrgicas. Tantas as promessas de Lula e Dilma em vários lançamentos da siderurgia que não saiu da desapropriação, da terraplenagem e de prejuízos para o Ceará. O Ceará, nas três eleições presidenciais, optou de forma maciça por Lula e Dilma. O retorno: apenas o “Minha casa, minha vida “e as “bolsas”. O hub será iniciativa privada, mas não há como deslembrar do saldo devedor moral- e financeiro - do governo em face da siderúrgica. A novela que nos machucou muito, tantos foram os atores envolvidos. O povo, espectador, ficou na saudade. Que venha o hub. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/06/2015 - [PARA TENTAR COMPREENDER O BRASIL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/para-tentar-compreender-o-brasil-jornal-o-estado/): “O tambor faz um grande barulho, mas é vazio por dentro”. Barão de Itararé As boas notícias desapareceram das mídias brasileiras. Quem quiser ouvir, ler e ver o mal que falam de nosso País é simples: basta ligar o rádio, seja AM ou FM. Sintonizar a televisão, fora as estatais e as dos Poderes Legislativo e Judiciário, as demais espinafram o nosso País de todas as formas e maneiras. As mídias sociais têm de tudo. Até luz sobre “apagão”. O que o Brasil, a terra brasileira, fez de errado? Aqui há praias e rios em profusão, não há abalos sísmicos e tampouco o tempo nos incomoda, pois os nascidos da Amazônia aos Pampas não padecem do calor da artificial Dubai, da inclemência que este ano assolou a Índia, dos terremotos na Ásia. Nada do frio da Sibéria. Neve? Só para fotos, em raros momentos. O problema não é o Brasil. O problema é o Estado brasileiro destruído por pessoas que foram eleitas por nós, os eleitores. Não me refiro apenas aos desmandos dos últimos doze anos do Governo Federal, mas a coisa vem de longe. O poder atrai zangões. O tão estudado Vargas, além da ditadura, foi um dos predadores e, o seu trabalhismo, copiado da Itália ainda fascista, que vige em pleno ano 15 do século 21, é um teatro do absurdo, puro Eugène Ionesco. Depois de Vargas, vieram Café Filho, Jânio Quadros e João Goulart, fracos, dissimulados e sem nenhuma capacidade de gestão sobre seus subordinados. Apenas seguiam a onda “das ruas” e dos que sempre repassam notícias privilegiadas, escondem a verdade, rondam ministérios, cargos públicos e adoram sinecuras. A revolução ou ditadura, como é dicotomicamente alcunhado o período que foi de abril de 1964 e perdurou por 24 anos, é ainda um mistério pouco desvendado. O tempo do “ Ame-o ou Deixe-o” provocou uma cisão entre brasileiros. Ainda hoje há discussões, nas comissões da verdade em todos estados brasileiros, sobre torturas, duplos agentes e o financiamento de alguns empresários às ações e torturas do Doi-Codi de São Paulo, espraiado Brasil afora. Há, ademais, o espectro fechado das polícias e dos quartéis. Governos atuais estão arcando com aposentadorias de gente, que exilado ou não, pouco trabalhou. Fernando Henrique Cardoso é citado como um exemplo emblemático dos aposentados jovens, mas, além dele, há milhares que recebem por trabalhos que não executaram ou por torturas, umas comprovados, outras, nem tanto. Ao que parece, segundo a historiografia contemporânea, não existem fatos concretos sobre enriquecimento ilícito dos generais presidentes. Alardeia-se, o contrário. Ao morrer Mário Andreazza, amigos e parentes fizeram uma “vaquinha” para as muitas despesas que envolvem doença e sepultamento. Para não me alongar muito, passo batido por Collor, Itamar, Sarney e FHC. Detenho-me apenas, nos últimos 12 anos e na emergência de um partido político novo, amado por operários e o povo, e que teve a coragem de lançar um metalúrgico, jovem, mas, tal como FHC, aposentado aos 42 anos, à presidência. Lula, de intuitiva inteligência privilegiada e capacidade encantatória, suportou derrotas seguidas, até ganhar a presidência da República, para alegria das classes desassistidas e de grande parte da inteligência brasileira. Não ouso, neste pequeno espaço, dissertar sobre os seus oito anos de governo, tampouco me alio às revistas e os jornalões que o condenaram a priori e hoje divulgam a suposta riqueza de seus familiares. O Brasil cresceu, mas o que houve, de fato, foi a elevação peculiar por muito tempo do preço mundial das commodities, produtos agrícolas e minerais. A maioria, pela crescente China. O mundo vive em ciclos. Aí veio o suposto Brasil eufórico, acreditando-se parceiro dos que estavam e ainda permanecem no tal primeiro mundo, jargão econômico que refere à boa distribuição de renda e a um hipotético estado de Bem Estar Social. Depois, veio a queda. Hoje, há quase cinco anos com Dilma, a sucessora, egressa do PDT de Brizola, e formatada por Lula, o Brasil está, como, desde quase sempre, em crise. A diferença é que o mundo tornou-se menor e tudo repercute de forma descontrolada. Agora, os preços das tais commodities estão muito baixos e, nas relações de troca, somos perdedores. Não comungo com os que só falam dos governos e não expressam essa indignação nas múltiplas ocasiões do voto. O voto é o único sinal de igualdade dos brasileiros. A nossa ancestralidade não nos permite, como existe na Grã-Bretanha, a dualidade entre comuns e lordes. Somos quase todos, frutos da mestiçagem ou da forte imigração na virada do século 20. Os escândalos que se sucederam na história brasileira, desde colônia, são alvitres da promiscuidade entre o governo e uma máquina de sangrar que foi crescendo e tornou-se gigante, infiltrada por capilaridade, afagos, viagens, doações lícitas ou não. Essas máquinas de sangrar são maiores e mais danosas que todos os PCCs juntos. O resto é balela. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/06/2015 - [DR. SYLVIO LEAL FILHO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dr-sylvio-leal-filho-diario-do-nordeste/): Anos 1980. Renovação rotária. Por Cláudio Martins, surgia o Rotary Aldeota e a imposição de dirigi-lo. Unimos bons companheiros. Um deles, Sylvio Leal Filho, oftalmologista, chegara da França com curso de pós-graduação. Sylvio, camisa social e gravata, vinha direto de sua faina médica para as reuniões semanais. Tempos depois, problema ocular com uma filha minha. Escolhi-o. Cioso da amizade e do risco cirúrgico, quase abdicou. Insisti e, ele, com ciência e zelo, resolveu o caso. O saudoso Régis Jucá recebia em Guaramiranga, sexta feira da paixão. Chovia. Ao sair, carro atolado. Marcos César Ferreira Gomes, amigo evanescido, apontou o primeiro veículo disponível. Era crepúsculo e a água a castigar os cansados limpadores do zurzido veículo que eu dirigia. Lusco-fusco. Curva, uma cabeça de ponte. Um amigo, ao lado, foi ter ao para-brisa. Não se usava cinto de segurança. O grão senhor Tibúrcio Frota, dono do sítio frontal, cedeu-me camioneta. Sabedor de que o Sylvio estava em casa da sua família, ali perto das palmeiras imperiais, a ele apelei. Largou o descanso e desceu conosco para a sala de cirurgia da São Raimundo. Fez o preciso, explicando a todos as razões do ato. Agora, décadas depois, narro o fato para dizer da sua presteza em deixar o repouso, da sua responsabilidade médica, sem honorário. Estive no velório e, agora, realço apenas alguns dos muitos gestos do Dr. Sylvio Leal Filho, entre eles o de duradouro preceptor na Universidade Federal do Ceará de médicos em formação oftalmológica. Missão altaneira. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/06/2015 - [RASCUNHO DE TEXTO E DE VIDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/rascunho-de-texto-e-de-vida-jornal-o-estado/): “Passei metade da minha vida vendendo palavras e, espero, ideias”. Winston Churchill, político e intelectual. Esta semana, ao organizar o espaço atulhado de livros, escritos, papéis, revistas, jornais, onde, todos os dias leio e escrevo, fiz uma descoberta. Encontrei rascunho de palestra que fiz em 1984, em curso/seminário promovido pelo Instituto Delmiro Gouveia. Falei para professores, administradores, estudantes de administração e outros profissionais. O texto é mero rascunho aligeirado, com erros de digitação, do que falaria no dia seguinte. Deixei-o tal como o encontrei, cincas e sem correções. Nele, relato um pouco de minha vida pessoal, profissional e intelectual até fins de 1984. Resolvi, agora, repassá-lo, sem ressalvas, às filhas. Digo-lhes que esse rascunho deve ser entendido como a minha marca registrada de ser. Direto, tal como sempre fui e sou. Não é texto para divulgação, claro. Mas ficarei feliz se as queridas filhas, e os seus descendentes, tomarem conhecimento do teor, agora ou no futuro. Não acredito que encontrem respostas para as suas vidas pessoais e profissionais. Cada um faz o seu roteiro. O texto, quando muito, dá ideia da minha personalidade e do meu modo de agir. Que pouco mudou, constato. Passaram-se trinta anos. A vida e o mundo são outros. Pondero, nesse texto há linhas gerais de um projeto de vida, ajustando cada situação ao momento e à realidade de um país que continua a nos surpreender, por tudo o que sabemos, sentimos e vivemos. Agora, maio de 2015, refiro que sou o saldo de tudo o que nele escrevinhei e, em muitos outros textos que, depois, viraram livros, estes passados a limpo. Mas o rascunho é tal como a minha vida foi, até então. Um ‘making off’ pontilhado de ações e de adversidades que tentei abduzir e superar. É claro que sofri, mas há alegria em saber que não mudei a essência, não me violentei. Fiz da resposta imediata, sem rodeios, a qualquer desafio ou afronta, referência como identidade Hoje, acredito, deveria ter pegado mais leve comigo. O trajeto exigia energia, estudo, coerência, trabalho e determinação. Sofri represálias e balelas. Alguns foram sutis; outros, escancarados. Tive que redobrar energias, sem nunca deixar de ser eu mesmo. Digo, agora, que a essência do que narro no texto, não mudou. O resultado sou eu, o que construí, o que li e estudei, o que escrevi e o que vivi. O rascunho serviu como base da palestra, na qual intercalei improvisos e respostas ao perguntado. Nada há de importante no texto, tampouco é manual. Mas, essa descoberta, tornou-o significativo para quem andou só, levou tundas e caminhou por estradas de inovação, aqui e mundo afora, de peito aberto. Nunca fui áulico de quem não acreditava. Caminhei só, sem ajuda, a não ser a que me foi transmitida pela minha família, na convivência e na herança genética, por ciência e por trabalho duro ao qual me engajo como operário. Vi, li e estudei mundo afora, sem usar tutores ou facilitadores. Cito um exemplo, a honra de, por concurso, participar, na Harvard University, do saber de Henry Kissinger de quem se podia discordar, mas a quem se devia respeitar por sua cultura polimorfa. Ele foi um dos mais importantes atores da política americana e mundial. Ouvi muitos outros. Outras ideias. Este relato é réstia que surge dessa descoberta circunstancial, ao mexer no que tenho aquietado, esperando apenas que o revolva. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/06/2015. - [NOSSOS VÍRUS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nossos-virus-diario-do-nordeste/): Plataformas como jornais, mídias sociais e televisões falam de hospitais cheios, em todo o país. Governos estaduais levam, sem razão, a culpa. Amigo comenta ser isso fruto da megalomania política. O SUS seria para todos. Todos quem? Com que dinheiro? Teríamos chegado ao Estado de Bem Estar Social queimando etapas? Seríamos fortes e nada do acontecido na crise financeira mundial de 2008 iria nos atingir. Agora, em ondas fortes, viajamos no Brasil 2015, ano que não terminou, pois estamos em fins de maio e ainda vai acontecer muita coisa nas duas casas do Congresso que o arquiteto Oscar Niemayer Soares riscou no centro do plano piloto do urbanista Lúcio Costa. A nova ideia é o ‘parla shopping’. Preferimos falar da dengue e citar, de leve, a tal de “chikungunya”, que significa ficar curvado por conta das dores nas articulações causadas pelo vírus, na língua da Tanzânia, que a exportou para o mundo, a partir de 1952. Sem esquecermo-nos do sarampo e da “Influenza” que precisam de vacinas preventivas a cada ano. A novidade é o “Zica Vírus”, identificado em 1947, em Uganda. É “primo” do “aedes” e pode ser transmitido sexualmente. Eclode o FIFA Vírus. A dengue é democrática e comum a todos. Mosquitos zunem, sem dó. O Brasil deseja assento no Conselho de Segurança da Organização das Nações (des) Unidas, na sede esplêndida em Nova Iorque, desde 1952, já ampliada com o surgimento de novos países africanos, a exportar gente, pelo desemprego e pela fome, via Mediterrâneo. Não seria prudente cuidar primeiro dos nossos vírus? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/05/2015. - [REGINA MARSHALL, "RAINHA", MULHER, MÃE E JORNALISTA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/regina-marshall-rainha-mulher-mae-e-jornalista-jornal-o-estado/): “O cenário do mundo hoje me parece tão irreal, tão distante como se tivesse feito parte de um filme. Ou de um sonho”. Regina Marshall. A jornalista Regina Marshall deixou, desde esta segunda-feira, de escrever a coluna diária que levava o seu próprio nome no Caderno 3 do jornal “Diário do Nordeste”. O faz após muitos anos no DN e, antes, em outros jornais locais. Há anos, Regina passou a editar o suplemento dominical “Gente”, que mesclava assuntos sociais e colunas de opinião. Conheci Regina, antes de ela se tornar jornalista. Morava com a família em casa próxima do solar de Francisco e Beatriz Philomeno, em Jacarecanga, bairro então no auge. Ela é originária das famílias Sampaio e Meyer que, por laços matrimoniais, se entrecruzaram. A bela e inteligente jovem Regina Sampaio Meyer foi escolhida “Rainha” da Associação Cearense de Imprensa, contra a vontade do jornalista Dorian Sampaio. Depois, Dorian se rendeu e passou a ser seu amigo. No livro sobre os 85 anos da Associação Cearense de Imprensa - ACI, o fato é narrado com riquezas de detalhes. Regina cursou comunicação social e tornou-se jornalista, por mérito próprio, e pela sua penetração natural na sociedade, posto que integrante, desde a meninice, do Ideal Clube. Casou com Henry Marshall, cidadão inglês de excelente formação profissional e cavalheiro no tratar a todos, em especial os que frequentavam a sua charmosa casa com área de lazer e piscina, aos fundos. Essa casa foi das pioneiras na inexistência de muros frontais nesta Fortaleza amuralhada. Nela, a família reunia amigos, a maioria oriunda de roda que se reunia na pérgola de telha vã à direita de quem entra pela Avenida Monsenhor Tabosa, no Ideal Clube. Entre os quais pontificavam, Régis Jucá, Bob Sales e Ananias Cysne. Do casamento com Henry Marshall, do qual é viúva há anos, vieram Marjorie, Vivian e Douglas. Este, jovem campeão de tênis, ceifado por sua generosidade, ao tentar salvar desconhecido de choque elétrico causado pela desídia da concessionária de energia, que interditou área com fios de alta tensão caídos ao chão molhado na área metropolitana de Fortaleza. Pois bem, essa mulher de fibra, após a perda irreparável do jovem e promissor filho e da longa enfermidade e morte do marido Henry, juntou todas as suas forças ancestrais e continuou a fazer do trabalho a sua ferramenta de apoio para a continuidade de sua vida pessoal e profissional. Regina, na sua maturidade, é avó devotada, recebe o carinho de filhas, genro e netos. Os seus registros jornalísticos vão da docilidade da simples divulgação de casamentos, aniversários e eventos de pouca ou grande monta à crítica acerba ao que considerava errado. Saía da zona de conforto para a análise séria, consequente e obstinada de fatos, de situações e de homens públicos que, no seu entender, estavam descumprindo os compromissos assumidos com o povo e ela ousava demonstrar isso. O jornalista Lúcio Brasileiro no “O Povo” desta terça, 26.05.2015, sob o título “Perda Irreparável”, sumariza a trajetória de Regina Marshall: “Abdicação da confreira Regina Marshall desfalca reportagem social a qual emprestou brilho invulgar, não apenas por ser oriunda de dois troncos tradicionais incluso fundadores do Ideal mas também e sobretudo pela evidente vocação jornalística”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/05/2015. - [MÉXICO E BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mexico-e-brasil-diario-do-nordeste/): Amanhã, 25, os presidentes Peña Nieto e Dilma Rousseff assinam, na sede do governo asteca, acordos que incluem, entre outros itens, a área acadêmica, cooperação agroindustrial e a diminuição de tarifas de importação. Ato importante. José Antonio Meade, secretário de Relações Exteriores (SRE) do México, diz: "esse conjunto de acordos reflete a amplitude de nossas relações". Na verdade, a pretensão é a de que, até 2025, os negócios bilaterais atinjam US$ 18 bilhões, por ano. Hoje, o Brasil importa mais produtos mexicanos do que exporta, a partir de veículos, autopeças, produtos químicos, máquinas e materiais elétrico-eletrônicos. Tive a honra de presenciar, em 2002, no Itamaraty, o "acordo mútuo de preferências tarifárias" que concede descontos nas alíquotas de importação dos dois países. Hoje, há cerca de 800 produtos cobertos. Para quem não sabe, empresas mexicanas são controladoras da América Móvil, a Claro, e da Femsa, distribuidora da Coca-Cola. Outras desejam vir. Com tato e ponderação, Rousseff e Peña tentam ajustar suas posições políticas em relação à busca pelo Brasil de cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU-Organização das Nações Unidas. Por trás das negociações há o trabalho da SRE, bem urdido, aqui no Brasil, pela embaixadora mexicana Isabel Paredes. Para os brasileiros não há mais necessidade de visto nas idas ao México. Isso favorece o turismo, ao mesmo tempo em que fortalece a compreensão das similitudes que unem os dois países. Que floresçam as relações. João Soares Neto Cônsul Honorário do México CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/05/2015 - [DO QUE FALAR EM TEMPOS DE SURF - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/do-que-falar-em-tempos-de-surf-jornal-o-estado/): “Eu não me envergonho de corrigir meus erros e mudar minhas opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender”. Alexandre Herculano. Bem que gostaríamos de falar coisas amenas, dizer das nossas conquistas no surf na praia da Barra da Tijuca, com jovens parafinados na areia. No alto dos morros há favelas. Filipe, com i, Toledo, vencedor da etapa Rio do surf mundial, é o novo herói nacional. Carros de bombeiros a postos. O surf deve ser formidável para manchetes de televisões que veem nos esportes apenas um meio de captar anunciantes. Não gostaríamos de ouvir megafones de manifestantes e grevistas a reclamar disso e daquilo, enquanto vias ficam entupidas de veículos parados à espera da saída deles que pouco estão ligando para o caos que provocam. Dizem que vivem no próprio caos e não faz mal importunar os outros. Outro dia foi pelos direitos da criança. Ontem, trabalhadores. Hoje, um velho carro de som alteradíssimo, vendendo pré-pagos da OI, em local proibido e abusando da paciência de todos. O sociólogo espanhol Manuel Castells, professor de sociologia da comunicação da Universidade da Califórnia, em palestra em Salvador, nesta semana, no ciclo “Fronteiras do Pensamento”, que reúne brasileiros apoderados, disse: “A imagem mítica do brasileiro simpático só existe no samba. Na relação entre as pessoas, sempre foi violento. A sociedade brasileira não é simpática, é uma sociedade que se mata. Esse é o Brasil que vemos hoje na internet. A única coisa que a internet faz é expressar abertamente o que é a sociedade em sua diversidade. Trata-se de um espelho”. Quem mostrou em página inteira (A2- 18.05.2015), parte dessa palestra, foi Sylvia Colombo, da Folha de São Paulo. Não vou falar que o primeiro ministro de Luxemburgo casou com um belga e virou manchete mundial. Tampouco na caçula do príncipe inglês que posou feliz com a filhota de muitos nomes próprios, inclusive o da avó falecida em discutível acidente em túnel de Paris. Tampouco de Suárez, Neymar e Messi, que ganharam, pelo Barcelona, o campeonato espanhol de futebol. Não vou dizer do Exército Islâmico que está a 100 quilômetros de Bagdad, capital do Iraque, país que vem sofrendo com guerras e ocupações, desde há muito. Este assunto não preocupa os que moram no hemisfério sul. Há uma teoria de que tudo o que acontece em algum lugar interfere na vida do outro, independente de onde vive. Bom fim se semana. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/05/2015 - [SAÚDE DO BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/saude-do-brasil-diario-do-nordeste/): A Constituição de 1988 universalizou a saúde. Todos têm direito ao SUS. O Brasil posou de rico e a realidade é o contrário. O sistema de eleições a cada dois anos é inadequado. Não há tempo para administrar. Haja política. A maioria dos municípios não possui estrutura hospitalar. Bastam as ambulâncias, próprias ou terceirizadas. As capitais ficam abarrotadas de doentes, desde gripes até cirurgias complexas. A falha é sistêmica. Enquanto o Brasil não mudar o calendário eleitoral, não sairá do atoleiro. Eleição requer dinheiro. Obtido a qualquer custo. O descoberto na Petrobras pode ser replicado no BNDES, e aí não parará mais. O sistema político está infectado, e só o povo pode mudar isso. O povo, sadio ou doente, é sujeito e objeto de tudo o que foi alardeado em ricas propagandas fantasiosas. O Estado democrático de Direito, tão citado, precisa de ajustes estruturais, como a reforma política, coincidência de eleições, prazo de cinco ou seis anos de mandato, extinguir o compadrio entre empresas/governantes, diminuir o custo Brasil retirando parte das receitas do milionário sistema "S", a viver dos trabalhadores e dos empresários, para fazer lobbies e pouco produzir. Há dirigente nesse sistema com mais de 40 anos de mandato dado por federações e sindicatos que, igualmente, precisam ser enxugados. Sem falar nas centrais sindicais, nas ONGs e tudo o que foi inventado para sugar o País. Viva a imprensa que, na democracia, pode apontar os erros de alguns mandatários que o povo não soube escolher. O maior doente é o Brasil. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/05/2015 - [A ESCRAVIDÃO, A IGREJA, OS COLONIZADORES E A FARSA DO 13 DE MAIO DE 1888 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-escravidao-a-igreja-os-colonizadores-e-a-farsa-do-13-de-maio-de-1888-jornal-o-estado/): “A história da escravidão é um abismo de degradação e miséria que não se pode sondar”. Joaquim Nabuco. Ouso sondar e o faço sem medo, pois a história sempre é contada pelos vencedores e por historiados complacentes. É claro que as poesias de Antonio de Castro Alves são um libelo e o que João Capistrano de Abreu escreveu merece fé. Ambos deveriam ser lidos por quem acredita que a escravidão foi apenas um período de degradação de história mundial. A escravidão ainda existe, embora com outros nomes. Os imigrantes indocumentados que trabalham clandestinamente são tratados como escravos. Aqui no Brasil há isso, ainda hoje. A diáspora pela sobrevivência de muitas raças é a confirmação do que explano. Um pequeno exemplo: a fuga da pobreza de haitianos para o Brasil é prova disso, sem falar na enganação dos últimos anos sobre uma ação humanitária do Brasil em países africanos. Na verdade, as grandes empresas que para lá foram queriam mercado de trabalho a base de propinas. Tal como aqui se faz. E os “nativos” foram e são usados apenas como mão de obra barata. Pessoas eruditas, e outras nem tanto, fazem cara de pena quando veem em jornais, nas revistas e nas redes de televisão o morticínio de negros africanos que, por absoluta falta de oportunidade, fogem de seus países assolados por desemprego, por fome e por doenças. Tudo comandado por ditadores patrocinados pelas potências ocidentais ou governos “democratas” locais em eleições forjadas e viciadas. Neste 2015, pessoas e famílias usam todo o dinheiro amealhado – sabe Deus como – para serem transportados em novos navios negreiros de bandeiras diferentes que, em meio ao mar mediterrâneo, afundam, jogam passageiros doentes ao oceano ou “são afundados” por guardas costeiras. Segundo estatísticas da própria Organização das Nações (des)Unidas – ONU, morreram na travessia, em 2104, 3.500 pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Estatística, dizem uns, é a ciência da dúvida. Morreram muitos mais. Se tiver a cabeça metida em um “freezer” e os pés em uma fogueira, a média estará boa. Os navios afundados – e não são poucos – repousam no fundo do mar e ninguém se importa com isso. Verdade seja dita, a Europa, que eu conheço de ponta a ponta, abomina a chegada de negros e árabes, embora disfarce. A Alemanha de hoje, além dos “abomináveis” turcos, conta com uma massa grande de árabes e negros que sobrevivem em subempregos ou servem aos traficantes de drogas que os cooptam. Os camelôs negros da Itália estão sempre próximos aos pontos de atração de um país que tem no turista uma das suas grandes fontes de renda. Hoje, eles são disputados por chefes de contrabando e de tráfico quando saem do Porto de Lampedusa e se misturam em guetos. Em outros países europeus nada é diferente da Alemanha e da Itália. Lembram-se do ataque ao tabloide “Charlie”, em Paris? A tal da libertação falaciosa dos escravos em 13 de maio de 1888 no Brasil foi pouco mais que um ato político preparando a proclamação da República. A história do tráfego de escravos em Portugal, dita nossa pátria mãe, começou no século XV, desde 1448, sob a égide de D. João III, antes mesmo da descoberta do Brasil. Como se sabe, Portugal só se lembrou da existência desta sua então colônia brasiliana depois de 1530. O reinado de Portugal, em 13 de março de 1531, instituiu as Capitanias Hereditárias, não por ser bonzinho, mas pela incapacidade de gerir tantas colônias no ocidente e oriente, até na China, onde Macau foi portuguesa até bem pouco. Era conquista demais para pátria lusitana cantada em verso nos “Lusíadas”, por Camões. Saibam vocês que o Papa Nicolau V, da Santa Igreja Católica, até editou a Encíclica “Dum Diversitas” liberando a escravatura. A “Dum” vigeu entre 1513 e 1605. Na realidade, a Igreja queria apenas cristianizar negros que tinham as suas fés próprias, ainda hoje arraigadas em todos os países em que habitam. Ao lado disso, não se pode esquecer as atrocidades da Inquisição na Idade Média. Diz Felipe de Alencastro, sobre o problema da escravocracia brasileira: “A escravidão legou-nos uma insensibilidade, um descompasso com a sorte da maioria que está na raiz da estratégia da classe dominante.” Quem leu alguma coisa de História sabe que os portugueses, os espanhóis e os ingleses foram os maiores fornecedores de escravos, a partir do século XVI. Mas, é preciso deixar claro que a escravatura é antiga, bíblica até, apesar dos discursos de democracia, consumidores e usuários de escravos. Carregar um pacote, construir monumentos e palácios não eram coisas para cidadãos. Cabia aos escravos esse “trabalho sujo”. Assim, ninguém se espante que os comerciantes, a partir do século XVI, fizessem do tráfico de negros da Costa do Marfim, Angola, Nigéria, Moçambique e outros lugares, um grande negócio. Cada navio, movido a vela e até com ajuda de remos, usando astrolábios, era uma empresa flutuante que importava e exportava, por viagem, em torno de 400 africanos para os mercados das Américas do Norte, Central e do Sul. No Brasil, as capitanias mais desenvolvidas, Pernambuco, Bahia e Rio de janeiro, tiveram os seus negócios de agricultura de açúcar e do ouro, movidos pelos braços fortes dos que eram vendidos, como mercadoria, em praças públicas. A nossa Igreja, enquanto isso se preocupava em transmitir a fé aos silvícolas e usar a sua mão de obra para a construção de templos, desde as “Missões”, no extremo sul do Brasil colonial, passando pelo Rio, as Minas Gerais, a Bahia e chegando a Pernambuco e a outras plagas. A “Lei Bill Aberdeen”, de 1845, proibiu de fato, mas não de verdade, o tráfico de escravos por navios da Inglaterra. Aqui no Brasil, em 1850, copiando – sempre por atraso no pensar – surgiu a Lei Eusébio de Queiroz, com quase o mesmo objetivo. Estas são as razões pessoais que não me fazem comemorar o dia 13 de maio. O Brasil vive momento crucial de sua história. Há tramas urdida por muitos, alimentadas apenas por interesses que já se tornam claros, pois sequer há mais um mínimo de desfaçatez. Hoje, os eleitores brasileiros tornaram-se escravos de seus próprios escolhidos, independente dos partidos políticos que os abriguem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/05/2015. - [NÓS E AS POLÍCIAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nos-e-as-policias-diario-do-nordeste/): Nós, no caso, somos todos os que compõem a sociedade. Quer moremos em comunidades ou condomínios. Somos os que acreditamos respeitar as leis, mas não nos damos conta quando cometemos infrações no cotidiano. As polícias nos são convenientes quando delas precisamos para encontrar o carro roubado e o descuidista que levou o celular exposto em mesa. Elas são importantes quando as luzes de seus veículos nos brindam com a quase certeza de estar alerta na noite alta, mas nos incomodam ao exigir o teste do bafômetro e vistoriar o carro. Por outro lado, as operações da Federal atingem objetivos. Elas nos sublevam quando não recolhem sem tetos e menores a cheirar cola ou fumar "crack" nas ruas. Para onde levá-los? Abrigos estão abarrotados. Elas são louvadas quando prendem delinquentes em operações. Elas nos chateiam ao fazer busca de armas e pedir a identidade em lugares públicos. O que seria das cidades sem as polícias? Houve e há situações limite. Confrontos recentes não foram bons. O medo e a boataria infectaram a muitos. Greves, movimentos democráticos e afins devem expressar anseios e queixas. Precisamos fazer um pacto com as Polícias. Elas precisam cumprir o seu dever e nós não podemos fugir da civilidade e da idoneidade em nossos atos pessoais, profissionais e públicos. Não é lícito denegrir instituições por conta de minorias aéticas. Se os policiais nos metem medo, há algo errado. É preciso repensar. Custa nada cumprimentá-los. As Polícias Civil, Militar e Federal são nossas guardiãs em tempos duros. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/05/2015. - [MOMENTOS DE GLÓRIA DO FUTEBOL LOCAL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/momentos-de-gloria-do-futebol-local-jornal-o-estado/): “O futebol não é uma caixa de surpresas.” JSN Na noite de quarta-feira, 29.04.2015, o Ceará Sporting Clube ganhou, com merecimento (empate e vitória), o título de campeão da Copa do Nordeste, enfrentando o “Bahia”, em Salvador e em Fortaleza. Alencar Pinto, Elias Bachá e Padre Gotardo, já falecidos, espargiam, do além, energias que se somaram às dos alvinegros de escol Luiz Campos, Eulino Oliveira, Antônio Góis e Evandro Leitão, entre milhares de outros. Deu certo. A conquista, com planejamento e uma equipe com brio e categoria, avalizou novo ânimo ao futebol cearense que, de há muito, saiu da elite do “soccer” brasileiro e do regional. Na tarde-noite de domingo, 03.05.2015, em jogo eletrizante, o “Fortaleza”, com a “raça” dos velhos tempos, conseguiu vencer o Campeão do Nordeste, seu maior adversário. O jogo foi belo, não fora o “frango” que Deola aceitou. O “Ceará”, quase ao final, foi para cima e, Assisinho, ex-Fortaleza, vibrou ao fazer o gol que daria o penta do “vovô”, em gramado. Os tricolores contestam o penta judicial. Faltavam menos de três minutos e a mística daquelas camisas, cunhada por Blanchard Girão, não aceitava o placar. Do infinito, Mozart Gomes, Francisco Bezerra de Oliveira, Otoni Diniz, José Raymundo Costa e Ney Rebouças espargiram graças que se irmanaram aos pensamentos de Silvio Carlos, Renan Viera, Osmar Baquit e Jorge Mota. Todos apelando ao Pai eterno. Foi aí que aconteceu o gol de Cassiano para o Fortaleza Esporte Clube, campeão estadual de 2015. Muitos, nos silêncios de seus quartos, por, temeridade, não irem mais aos estádios, riram e choraramZ A alegria dos resultados justos do “Fortaleza” (uma vitória e um empate) deve ser compartilhada com o eco glorioso do “Ceará” ao vencer o “Bahia”, em título nordestino, que dá ao nosso futebol a oportunidade de respirar e pensar em futuro lisonjeiro, apesar de integrantes das torcidas organizadas, que complicam. A festa esportiva virou tumulto pela insegurança da estrutura física que vê o estádio apenas com senso estético e fonte de renda. Acontece que a paixão, misturada ao álcool e à força incomum das torcidas organizadas no Brasil, causam, de forma repetitiva, grandes estragos. Domingo passado, não só em Fortaleza, mas em outras cidades, houve invasões de campo. Destaco o jogo entre Internacional e Grêmio. Basta pesquisar nas redes sociais e encontrará outros fatos degradantes. A favor do Brasil, diga-se que os “hooligans” britânicos são mais vândalos que os nossos. Os bons desportistas - a grande maioria – compram ingressos, levam familiares, sofrem, amam, têm capacidade e vontade de ajudar os clubes para os quais torcem. Fica essa certeza, passadas as emoções de domingo, 03 de maio de 2015. Por outro lado, objetivamente, creio que os presidentes do “Ceará”, Evandro Leitão, e o do “Fortaleza”, Jorge Mota, de cabeças frias, devem, com bom senso, ter o descortino de procurar, neste momento, aumentar o número de sócios torcedores, além de providências outras para que ambos os clubes possam dar novas alegrias a seus torcedores, com segurança física Parabéns merecidos aos jogadores do “Ceará” e do “Fortaleza”, aos seus milhões de torcedores de fé e às duas diretorias. O futuro sempre começa amanhã. É preciso criar um novo tempo para o futebol cearense. A Prefeitura de Fortaleza e o Governo do Estado precisam engajar-se neste movimento que dará “recall” de imagem à Fortaleza e ao Ceará. Segurança nos estádios e apoio estratégico. É hora. De público, assumimos o compromisso de ceder espaço digno, equitativo e gratuito aos dois clubes, para que as direções dos alvinegros e tricolores, em exposição rica e simultânea, mostrem os seus antigos e os atuais troféus conquistados aos torcedores. Aproveitem o ensejo e encetem campanha para conquistar novos sócios torcedores, sem rixa e com pensamento elevado, para dar sustentação ao já alcançado neste ano de 2015. Há um longo caminho ainda. Ao clube que, nessa exposição, obtiver o maior número de sócios torcedores, serão ofertados diploma e um admirável troféu, o de “Maior Clube com sócios torcedores”. O futebol no Brasil é mania entranhada que não vive apenas das copas do Mundo. Como falei dos torcedores violentos (os hooligans) da Inglaterra, socorro-me de outro inglês, o William Shakespeare, quando na peça “Vida e Morte do Rei João”, diz: “Um cetro arrebatado com violência precisa ser mantido por processos iguais ao da conquista”. Será? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/05/2015 - [RICOS EM PESQUISA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ricos-em-pesquisa-diario-do-nordeste/): A base é a pesquisa "When is enough...Enough" - Quando o suficiente...Suficiente- que pode ser vista no www.Businesstimes.Com. A partir de dados do UBS, com 2.215 entrevistados, rico, nos EUA, é quem tem patrimônio líquido acima de R$ 3 milhões e até R$ 15 milhões. Foram atrás das precisões, das intenções e dos medos dos ricos. Encontraram: a maioria ainda sente insegurança e acredita que precisa trabalhar mais. Em análogo, há quem tenha medo de perder o já amealhado. Desconfia que os seus herdeiros não sejam tão ativos quanto ele. Sobre o mesmo tema, a repórter Beatriz Cutait, do Valor Econômico, refere: "O trabalho pesado foi citado como a principal razão da geração de riqueza dos mais afortunados, que mudaram de classe social ao longo da vida". Dois terços acreditam que trabalharam muito e não atentaram para o devido cuidado com a família. Por outro lado, indagados sobre qual o maior remorso da vida, responderam, pela ordem: problema no relacionamento familiar e não fruir mais tempo com pessoas queridas. Instigados pela dolorosa pergunta: Se tivessem apenas mais cinco anos de vida, o que fariam? 64% desejam viagens de lazer, 61% esperariam ficar bem próximo da família, 44% deixariam de trabalhar e 37% mudariam os seus comportamentos, com foco na afetividade. Do que se viu pode-se concluir que os ricos, apesar da ostentação de suas posses, não surgem mais felizes que a classe média que busca segurança, moradia e veículo próprios, e viagem anual de férias. Ricos são competidores. A velha história: "a grama do vizinho é mais verde que a minha". João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/05/2015. - [AUDIFAX, RIOS DE SAUDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/audifax-rios-de-saudade-jornal-o-estado/): “É importante registrar, de antemão, para conhecimentos dos novatos que esta tertúlia há muito vem acontecendo, heterogênea e informal...”, Audifax Rios, 20.02.2002 Sábado passado, o “Clube do Bode” perdeu o seu secretário Audifax Rios. Cuidadoso, ele ligara de Santana do Acaraú, sua terra natal, e pedira ao Sérgio Braga, “pai-de-chiqueiro-mor”, que colhesse as assinaturas dos presentes. Como se sabe, o Clube do Bode é entidade “sui generis”, cunhada em 2000, a reunir, de forma desconvencional e anárquica, escritores, artistas plásticos, poetas, ex e atuais políticos de tendências mis, jornalistas, compositores, cantores, profissionais liberais, empresários e outros, cristãos ou ateus, que por lá aportam com objetivos pessoais, comuns ou peculiares. Os caprinos comparecem às sextas noturnas e aos sábados matutinos na sede aos fundos da longeva “Livros Técnicos”, justo na sala do Braga que a todos recebe no espaço conflagrado por opiniões colidentes, vozes exacerbadas, bebidas e petiscos, por conta da casa. Quando a sala superlota, o grupo se desloca para a calçada adjacente. Só aí cada um passa a pagar a sua conta, servidos por distintos garçons. Há 13 anos, Audifax virou o nosso Pedro Vaz Caminha, registrando tudo em 691 atas, a partir de 20 de fevereiro de 2002, enfeixadas em 38 volumes. Ele o fazia com precisão jornalística, não só as presenças, mas os “causos”, as gabolices, os livros lançados, caricaturava, colava recortes de jornais e, infelizmente, o registro da morte de pares. Pois não é que, logo após a ligação, ao banho, o Audifax teve encontro relâmpago e definitivo com a nefanda. Essa, sempre à espreita, modo e jeito aleatório, ceifa inteligências e outras, nem tanto. Autodidata, fez-se, por sua conta e risco, cenógrafo, ilustrador, xilógrafo, pintor, criador publicitário, romancista e, por último, jogou a timidez para o alto e assinou, por anos, crônica semanal no “O Povo”. Ele e eu tínhamos boas conversas, a partir de sua mordacidade e da sua abstemia que o fazia vigilante das tagarelices, dos egos inflamados e dos que lá vão apenas para estar perto dos que lhe interessam. Fiquei triste quando o Ubiratan comunicou-me o infortúnio. Perdi a graça. Só aquietei-me quando o vi, sereno em sua horizontalidade, com camisa multicor, pranteado pela família e por centenas de amigos e admiradores. Registro cinco depoimentos de amigos do Audifax. Cada um a seu jeito: 1-B. C. Neto: “Indescritivelmente entristecido, hoje assinarei uma ata diferente. Fugitivo, confesso das grandes dores existenciais, nunca apareço nem enfrento esses momentos. Tem sido assim. De repente, me encontro no vácuo para escrever sobre um amigo-irmão e publicar na marcante ata da vida. O Audifax sempre me lembrou de nosso sangue armorial de nordestino autêntico, que escorre, lentamente pelos córregos, veredas e tabuleiros do nosso sertão, rumo ao mar, onde recebeu carimbo e cidadania plena de cearense fidedigno. Continuaremos nossos cânticos e benditos na procissão dos lutadores”. 2. Durval Aires Filho: “Admirado por sua simplicidade, Audifax nasceu artista plástico, começando a trabalhar no canal 2, pintando cenários, convivendo com João Ramos, Emiliano Queiroz, B.de Paiva e Augusto Borges, entre outros talentos. Possuía um traço inconfundível, expressando, com carga emotiva, toda realidade do semiárido. Foi excelente escritor. Quando publicou “Bar Peixe Frito”, há quase quarenta anos, comemoramos. Depois do texto, peixe assado e aguardente. Era alegria encontrá-lo na companhia de Carlos Paiva, Augusto Pontes e Gervásio de Paula. Agora, compartilho com a D. Valda, Mariana, João e com infinidade de amigos, a tristeza de sua ausência. É a vida, meu senhor!”. 3. Paulo de Tarso Pardal: “Iniciei minha vida nas artes por meio do Audifax. Aprendi quase tudo com ele. E ele se fez meu professor, sem pedir para sê-lo: ele, simplesmente, foi me ensinando, sem saber da transformação por que eu passaria, logo após nossos primeiros encontros. Acho que, pela simplicidade e pelo prazer de ensinar. Na verdade, acredito que ele era despregado do mundo. Ele vivia aqui, porque tinha como missão ver o mundo diferentemente e ensinar as pessoas a serem assim. Penso que, em parte, ele conseguiu, porque muitos modificaram suas vidas pelos seus ensinamentos. O mais importante é que ele já está presente dentro da gente e dentro de muitas casas, mesmo não estando mais aqui.” 4. Ubiratan Aguiar: “Ele fez da simplicidade a marca registrada do seu talento. Nos traços, nas letras, nas cores de suas telas estavam presentes a alma sertaneja do homem da Santana, o verbo candente dos que clamam por justiça social. Sóbrio no dizer, fraterno nas amizades, abriu caminhos e fez história na vida cultural de Fortaleza. Encontrou-se no Clube do Bode e em um processo de simbiose ficou difícil identificar diferenças e semelhanças entre eles. Audifax escreveu sua vida com a grandeza da humildade, a disponibilidade no servir e a elevação de princípio.” 5. Virgílio Maia: “Audifax e eu nos conhecemos e travamos imediata amizade por volta de 76, quando vim de Minas: para mim, foi como achar ouro em pó. Difícil se encontrar, se é que se encontra pessoa de melhor caráter, incapaz, absolutamente incapaz de cometer, com quem quer que seja ou fosse, a mínima descortesia ou deslealdade. Possuidor de alma vocacionada à boêmia e às artes, soube, porém, mediar esse chamamento como àquela outra vocação que igualmente lhe completava: a familiar. Foi marido, pai e avô cheio de compreensão e de amorosa ternura. Fizemos várias parcerias artísticas, ele pacientemente ilustrando algum verso que eu houvera cometido. Publicamos em conjunto, pela Editora Giordano, de Sampa, a “Via-Sacra Sertaneja”. Audifax foi de um tudo: romancista, xilógrafo, cordelista, pintor, editor, publicitário: era meio renascentista, o que quisesse ser, fazia o que queria, o ‘homo faber’. Mas lá se foi meu nobre amigo Dom José de Santana: era assim que eu o chamava.” A missa de 7º. dia será hoje, sexta, 1º. de maio, às 20h30 na Paróquia de Santa Luzia. Requiescat in pace João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/05/2015 - [MELHOR DA CIDADE? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/melhor-da-cidade-diario-do-nordeste/): Semana passada, revista nacional apresentou, em suplemento, o que 29 jurados "recrutados", divididos em dois grupos (comes e bebes, 15; lazer e cultura, 14), decidiram ser "0 melhor da cidade" de Fortaleza. Nada contra os "recrutados". Há, entre eles, pessoas com capacidade analítica. Listas de premiações provocam dúvidas, em face da ausência de coerência/estratificação de faixas e das claras vinculações entre indicados e a área comercial da edição. Acresça-se que no item "como funcionou a votação" há uma decisão singular: "... Quando a questão continuou sem solução, a equipe de ...., apoiada em avaliações in loco, aplicou o voto de Minerva". A própria revista, em caso de empate, decidiu quem venceria. Procuramos ler um pouco e, no site www.ufsj.edu.br, da Universidade Federal de São João del-Rei,MG, vimos trabalho da Ph.D. Marina Bandeira. Ela diz: "A validade externa de uma pesquisa vai depender de se mostrar que os resultados obtidos não são dependentes da amostra ou da situação particular dessa pesquisa, mas que suas conclusões são verdadeiras também para outros contextos, outras pessoas (g.N)". Ora, como dar crédito a pesquisa que, no mesmo exemplar, traz propaganda paga de página inteira - e até dupla - de "premiadas"? Outro contrassenso é escolher empresas sem maturação existencial. Tempo é história. O propósito é até louvável. Mas o que se viu: publicidade e indicação. Faltou isenção e distanciamento, básicos para a confiabilidade. Cortar os anúncios e pesquisar bem seria o caminho. O suplemento sairia? Utopia? João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/04/2015 - [ELANO VIANA DE OLIVEIRA PAULA, O DEVANEADOR - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/elano-viana-de-oliveira-paula-o-devaneador-jornal-o-estado/): “Haja hoje para tanto ontem”. Paulo Leminski Elano alterou o compasso da vida de muita gente. Explico: Eu o conheci no quarto final dos anos 60. Nesse tempo, eu, recém-formado, havia voltado dos Estados Unidos, após concurso. Por último, estivera na Europa onde alguns formandos em administração tiveram a audácia de, por ideia nossa, ir ver o velho mundo. Passagens luminosas na Fundação C. Gulbekian, em Lisboa, e na École Nationale de Administration, em Paris. Rodamos, de ônibus, pela Espanha, Suíça e Itália. Em Roma, furamos o cerco e vimos o aparato do Concílio Vaticano II. De volta, posto em estudos e trabalhos múltiplos. Solteiro, participava, à noite, de turma no Náutico. Eu era o benjamim. Entre outros, pontificavam Fernando Távora, Lustosa da Costa, Lúcio Brasileiro e Danilo Marques. Um dia, o Danilo informou que iria ao aeroporto apanhar o engenheiro Elano Paula. Disse que Elano estava querendo entrar no sistema financeiro da habitação do BNH. Eu, saído, falei: li tudo sobre o BNH. Na verdade, por minha inata curiosidade e formação em direito, havia lido a legislação do SFH. Danilo arregalou os olhos e pediu para levá-lo ao velho aeroporto no meu Karmann Ghia (cupê da VW com design italiano da Ghia). O carro só possuía dois assentos na frente e um “banco da sogra” em que mal cabia um. O Elano, no assento do passageiro. O Danilo, no banco, apresentava-me e informava que eu havia lido os “livros do BNH”. Elano, de esguelha, perguntou: você sabe o que é Iniciador? Disse o que alcançara. Encurtando a história, o Elano me desafia a ir ao Rio, sede do BNH, para desentravar processo que dera entrada há tempos e não saíra. Com condição: se eu resolvesse, seria pago. Caso contrário, nada. Fui e logo alcancei o objetivo. Acontece que eu recebera convite para novo curso no exterior. As passagens esperavam na Varig, na Rua Barão do Rio Branco. Comuniquei ao Elano, que, matreiro, retrucou: “se você for ficar lá, tudo bem. Mas, se for para voltar ao no Ceará, o que você sabe já basta”. Pedi adiamento e devolvi as passagens. A ideia do Elano, salvo engano, foi apresentada pelo Danilo ao Walder Ary, jovem professor da Escola de Engenharia da UFC: criar empresas correlatadas de construção, financiamento, indústria e planejamento para atuar no nascente BNH e fora dele. Nasceram empresas. Master, -depois Master- Incosa, Iplac, Domus, Credimus, Modulus, Estrela, Planos e outras. Maturidade e arrojo. Juntaram-se à ideia valorosos nomes: João Parente, Crisanto Almeida, João Fujita, Lewton Monteiro, Antônio Porto, Lauro Lopes e outros mais. Posso dizer, sem exagero, que esse pessoal, misto de jovens e maduros, possuía multiplicidade de talentos, quase um embrião de universidade. Chegaram, depois: Ricardo Ary, Walter Monte, Raimundo Padilha, Ildefonso Rodrigues, Deusmar Queiroz, Almir Caiado, Alfredo Marques e Wagner Brito, entre outros. Todos com contribuição distinta para o êxito comum. A mim, cabia dirigir a área de planejamento, a Planos. Volto ao Elano. Ele não alcançara bom sucesso no Rio. Fora sócio do irmão, Chico Anysio, em negócios que não prosperaram. Elano fez tudo em rádio e em TV, por trás das câmeras. A letra de “Canção de Amor” é dele. A melodia é de Chocolate. É standard romântico. Aqui, montara a Incosa, atuante em construção pesada. Mas, a sua inventividade estava além de pontes, asfaltos e obras públicas. Era devaneador arguto e inveterado. Espiritualizado, cultura humanista e ideias não convencionais. Por sorte minha, trabalhamos e convivemos por cinco anos. Um dia, lá na Iplac- Indústria Plástica Cearense S.A., da qual eu era diretor administrativo, disse ao Elano: “decidi que quero ser independente e não mais participar do grupo”. Então em franco crescimento. Ele nem perguntou a razão. Apenas, comentou: “eu esperava isso”. Abraçamo-nos. O Nisabro acompanhou-me e, juntos, montamos a Cenpla. Dois anos depois, falei o mesmo a ele: “quero ficar só, para saber da minha verdadeira capacidade”. Era princípio. Permaneci com a Planos. O Nisabro se quedou com a Cenpla e com o Elano. Tudo criterioso. Mantive sempre a amizade com o Elano, a quem admirava, longe dos negócios, como pensador além da centralidade. Foi uma das centelhas que me fez conduzir a Planos até aqui, reta. Já no XXI, composto por três, ele, o Chico e eu, criamos o blog Maranguape que durou anos. Prefaciei e revi livros escritos por ele e em parceria com o Chico Anysio. Ele absorvera a Internet e passamos a trocar e-mails e a nos encontrarmos para papos aqui e no Rio, onde mantivera morada. Paredes ricas com quadros maravilhosos, inclusive alguns pintados por ele e o irmão famoso. Presenteou-me com uma “marinha” do Chico e uma “entrada com portão”, dele. Sábado, no seu velório, ouvi as falas emocionadas do seu sócio José Medeiros Neto, da sobrinha Cininha de Paula e de Deusdetiza Silva. Eu, por meu turno, olhando o seu corpo, disse quase as mesmas palavras que agora escrevi. “Canção de amor, saudade”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/04/2015. - [NOSTROMO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nostromo-diario-do-nordeste/): O romance "Nostromo", a melhor obra de Joseph Conrad, polonês naturalizado inglês, foi escrito em 1904. A edição que li, de 1991, tem tradução e posfácio de José Paulo Paes. A história acontece em país imaginário na América do Sul e narra, entre outros fatos, episódio separatista, em meio a conservadores, militares e também interesses. O país imaginado, "Costaguana", é apresentado da forma idílica como os europeus viam a luxuriante e distante América do Sul do fim do século 19. Políticos, militares e estrangeiros em luta contra a ditadura, provocando dissidência separatista a invadir a cidade de Sulaco, para formar novo país. Conrad cria história aventureira, tece considerações sobre a política, a corrupção, os amores necessários, os dramas pessoais e o compadrio entre empresas anglo-americanas e o governo que se deixa roubar. O saque é grande que Nostromo, "homem do povo", capataz de 'chata' carregada de prata, se dá bem e a encalha em ilha próxima. Diz que a barcaça naufragou e, vez por outra, vai buscar, à noite, lingotes de pratas. Não deve enriquecer rapidamente. Em uma das idas, morre por tiro errado. J.P. Paes, no posfácio, diz: "Outra fonte contextual do romance é a doutrina econômica de Adam Smith, segundo a qual o interesse privado, conquanto obedeça só à lei do egoísmo, traz paradoxalmente benefícios coletivos ao se aplicar a atividades de produção". A epígrafe do livro eleita por Conrad é de Shakespeare: "Céu tão borrascoso não se desanuvia sem uma tormenta". Agora, há raios, chuvas e tormentas. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/04/2015. - [O QUE SE LÊ, O QUE SE VÊ E O QUE SE SENTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-se-le-o-que-se-ve-e-o-que-se-sente-jornal-o-estado/): “O desagravo dos ressentimentos do vencido deve preceder o desarmamento dos vitoriosos”. Winston Churchill Os jornais, sejam os de papel ou os falados nas televisões abertas, as que estão disponíveis para qualquer televidente, como dizem os hispânicos, nos trazem, quase sempre, más notícias. É história antiga: se um cachorro morder uma pessoa, não é fato jornalístico. Agora, se alguém, bípede, humano, resolver morder um cão, a história muda. O fato jornalístico é o que causa impacto, sensação, incomoda a alguns e alegra a outros. É o instantâneo do que acontece a cada dia. Este tempo está pleno de más notícias. Até os programas que brigam por audiência procuram presos “famosos” para uma conversa longa, os chamados “talkies shows.” E a audiência aumenta, creiam. Os concorrentes criticam, mas se esquecem de que, todos os dias, exibem o que de antinatural ocorre na cidade, no Estado, no Brasil e no mundo. O papa resolve, no domingo de ressurreição, dar alguns euros para os sem tetos de Roma, e isso é boa notícia. Mas, não esqueçam que o papa Francisco é midiático, sabe como e quando deve se expor. Sempre sorridente e afagando o próximo, seja quem for. Encara luta interna contra alguns cardeais, os mandões do Vaticano. Afirma que seu pontificado será breve. É notícia para católicos e para os que, no outro lado do mundo, recebem imagens e textos do ocidente conflitado. Angeline Jolie resolve fazer mastectomia dupla e, logo em seguida, admite ter retirado o útero e os ovários. Ela sabe que esta notícia importa para mulheres que estão sujeitas às mesmas doenças. Jolie perdeu a mãe e uma tia. Escancara para o mundo o seu medo – ou seria coragem? – e toma providências radicais. Deixa-se fotografar com os filhos gerados no seu útero pretérito e com os adotados, em diversidade racial que a coloca sempre como uma referência correta. Isso é boa notícia. Warren Beatty, famoso biliardário americano, resolve ser sócio dos brasileiros que transformaram a Ambev na maior controladora de cervejarias do mundo. Agora, juntos, compram de empresas de condimentos a conservas e assemelhados. Warren, não contente com isso e já ao meio da sua octogenária estação, resolve esmiuçar a vida do excêntrico Howard Hughes, apenas conhecido por biografias e, do grande público, através do filme “O Aviador”. Hughes era um grande fornecedor do governo americano, sofreu vários processos e morreu de forma iníqua, trancando-se em diferentes hotéis, definhando, deixando a barba crescer como um ermitão. O seu império, não sei como, ainda floresce. Pois bem, aguardem. Poderá sair um novo filme sobre esse homem que inventou um avião de oito motores e não o viabilizou. Namorou mulheres bonitas e famosas de Hollywood e de outros espaços, mas deu no que deu. Não sei se isso é bom ou ruim, mas não deixa de ser notícia. A Presidente oferece um ministério palaciano ao seu ministro da Aviação Civil. Ele é do PMDB, aliado ao governo, e recusou a prenda do ministério de relações institucionais. Alegou estar com filho recém-nascido e, como tal, espera se dividir entre o planalto e os pampas. O vice-presidente Michel Temer, então, resolve assumir a coordenação política. Renan Calheiros e Eduardo Cunha se entreolham. Enquanto isso, a Síria sofre escuridão noturna ou blackout por conta de conflito armado que já vai entrar no sexto ano. O autodenominado Estado Islâmico continua a receber jovens voluntários para as suas hostes. Quatro milhões de sírios já se foram para muitos países. Brasil, incluso. Este é um dos muitos conflitos do Oriente Médio. O Irã promete não usar arma nuclear. Na parte oriental da Europa há o puxa-encolhe da mãe Rússia que fustiga e se ressente da falta das antigas repúblicas que se apartaram com o fim da URSS. Este quadro singelo é o conteúdo disponível nas emissoras de rádios, de jornais, de televisões e nas mídias sociais. Não há como fugir das desavenças humanas, da ambição, dos litígios pela fé e dos interesses de grupos econômicos e de bloco de países, entrincheirados e pressionados pela indústria de armamentos. A vida é. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/04/2015. - [FORTALEZA AMADA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fortaleza-amada-diario-do-nordeste/): Agora que tudo passou, posso contar. Houve um tempo em que fui tentado a sair daqui. Iria para o Rio de todos os brasileiros, para a São Paulo de todos os povos ou para o exterior. Houve sondagens, propostas a fascinar os que não tivessem raízes profundas nesta cidade que me viu nascer, estudar, aprender a escrever, crescer, trabalhar e viver. Por ser independente, fazer o que quero e ter a família como razão primeira, não fui mordido pela mosca azul. Conto uma: em Lima, no Peru, em certame internacional, fui contra o pensamento da maioria. Defendia meus pontos de vista, apenas. Após a reunião, alguém se achega e pergunta: você quer vir trabalhar conosco? Era de entidade forte e importante. Respondi que não e expliquei: não tenho vocação para obedecer. Mesmo assim, insistiram. Deram um tempo a mim. Na volta, conversei com a família e reafirmei o não. Amo esta cidade de verdade. Fui pequeno desbravador de parte das suas áreas, inclusive no Meireles e na Varjota. Por minha conta e risco, abri ruas, pavimentei e arborizei vias em que só havia areia; doei área para a continuação da Desembargador Moreira em direção à Raul Barbosa, cedi espaço para a Estação Benfica, do Metrofor, e concebi o Parque da Paz, onde todos se igualam. Não é vanglória. É registro. Convicção de cidadania, desde o tempo em que essa palavra sequer se ouvia. Agora, nesta semana em que Fortaleza completa mais um ano, reafirmo o meu bem querer por ela. Sei dos meus pactos com a cidade e com o seu desenvolvimento. Parabéns. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/04/2015. - [JUAREZ NOVO, DE NOVO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/juarez-novo-de-novo-jornal-o-estado/): “A vida é um jogo do qual ninguém pode retirar-se, levando apenas os lucros”. André Maurois Juarez Leitão, professor, historiador, biógrafo, poeta, acadêmico, orador consagrado, pai exemplar, conversador nato, marido responsável, andou meio amofinado por uns meses. Abusou da regra três, onde menos vale mais. Além da herança cardíaca da família, comia de tudo, de torresmo a sarrabulho, e eis que o cinturão havia, desde o século XX, passado da medida de 100 cm. Começou a ter umas coisas e foi se achegando a médicos amigos que lhe recomendaram exames. Dona Maria, sua mulher e digna consorte, também com sorte, limpou as lentes dos óculos e disse algo assim: Bem que lhe falava, Juarez. Agora, vamos ver esses exames. Registre-se que o Juarez, embora criado com limites lá no seminário de Sobral, após isso, passou a ser desrespeitador das fronteiras do bom senso e não podia ver prato cheio. Tome garfadas. Já com um pouco mais de meio século nos costados, o velho corpanzil começou a rezingar. Foram as danações lá no antigo jornal e editora do Dorian Sampaio, as comilanças no Clube do Bode, além dos churrascos noturnos nos áureos tempos do “Cirandinha” na Praia de Iracema. Então, um médico consultado desandou a explicar que o alimento ou a bebida tem um trajeto natural: boca, passa pela epiglote, caminha pelo esôfago e cai no estômago. Ouviu do bom doutor que da boca aos finalmentes, há um sistema digestório que mede 9 metros de comprimento. E tome conversa sobre intestinos delgado e grosso, digestão e prisão de ventre. O esculápio falou em fígado, vesícula biliar, pâncreas e baço, além dos já nomeados. O nosso personagem começou a suar frio. Era informação demais para a sua cabeça, ansiosa por natureza. O médico nem ligava e dizia: quanto mais ansioso o senhor ficar mais a adrenalina é liberada no seu organismo. O fluxo sanguíneo aumenta para os músculos e encéfalo e, ao mesmo tempo, diminui nas glândulas salivares. Remetido a uma ampla bateria de exames, os fez, é verdade, mas guardou os resultados sem mostrar ao médico. Deixou o tempo passar até que aconteceu o infarto. Foi assim: Certo domingo, depois de visitar o Mercado São Sebastião com o amigo Edmo Linhares e ali comer tapioca, passou pelo Raimundo dos Queijos, recanto boêmio do centro, bateu papo com amigos até às dez da manhã. Já em casa, começou a sentir uma leve dor no peito que crescia de intensidade. Escondeu tudo quanto pode da mulher e das filhas, mas quando não aguentava mais, anunciou que estava mal e precisava ser socorrido em ato contínuo. Atendido no Prontocárdio e, em seguida no Hospital São Carlos, sofreu a primeira intervenção no coração. Dois “stents” na artéria principal. Voltou disposto a mudar de vida. Emagreceu dez quilos, cancelou frituras e bebidas alcoólicas. Com o incidir do tempo, voltou a comer muito e a engordar. Um ano depois, as dores no peito volveram, agora com suores e fadigas. Uma tarde, na Academia Cearense de Letras, passou mal e foi conduzido a hospital. Rigorosos exames revelaram isquemia cardíaca. O cateterismo assustou: os stents semientupidos, várias artérias comprometidas, entre 90 e 70% de obliteração. Era um homem-bomba, sem terrorismo. Juarez decidiu. Diante do perigo da abjeta e da inominável, admitiu a cirurgia radical. Ele não tem vocação para herói. Como diz o Millôr: “O cara só é totalmente ateu quando está bem de saúde”. Avisou os amigos e a todos solicitou torcida e reza. Mobilizou o antigo colega de seminário de Sobral, Dr. Francisco José Aguiar Moura, presidente da Associação dos Betanistas, para comandar corrente de orações. A dom Edmilson Cruz, seu antigo professor, suplicou bênção e advocacia junto à Deus. Do bispo recebeu a própria Cruz Peitoral, que Dona Maria segurou com fervor durante as seis horas da cirurgia. No trajeto para o hospital olhava para as ruas com sensação de despedida. Benzia-se quando passava por uma igreja. Internou-se na véspera. Noite insone com dramáticas avaliações da vida. Era chegada a hora. Sua sorte nas mãos de Deus e dos médicos. Todas as fichas lançadas no pano verde da ciência e na réstia de fé. A equipe médica foi escolhida, com cuidados, por velho e providente amigo, o Dr. João Martins, professor da Medicina da UFC e da equipe do saudoso Dr. Regis Jucá. O cirurgião escolhido foi o médico baiano Adriano Lima, que agiu com perícia de ourives no coração do vate. O Dr. Sandro Salgueiro, mestre em cateterismo e clínico, o acompanhou no pós-operatório no Hospital da Unimed. Este, com veemência, combateu a cavilação do paciente, a tal lassidão desnecessária. Deu certo. Agora, além de versos novos na alma, Juarez porta três safenas e uma mamária. Assim, com quatro pontes, pode ser considerado quase um acesso vicinal de BR. Hoje, há amplos horizontes e a renovação com a vida. Juarez é redivivo. Tudo desatravancado, esborniado e preparado para a centúria, ainda longínqua. Depois de bom tempo quarando no hospital, a dor do caminhão sobre seu peito, foi amainando. Voltaram a brilhar as cores e as vozes da fortuna. Agora, depois da Semana Santa, da comunhão pela graça alcançada, é um homem intenso. Fagueiro, temente a Deus, loquaz e revisado. Atende, pelo celular, a amigos ávidos por tapiocas, por estórias e por afetos nos porvindouros convescotes na sua varanda do Meireles. Calma pessoal. Hosanas, primeiro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/04/2015 - [RESSURREIÇÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ressurreicao-diario-do-nordeste/): Este domingo é o dia da ressurreição para os que ainda têm a esperança da fé. Um judeu, dissidente, fez-se estranho aos seus comuns e passou a pregar uma vida nova, uma passagem - a da páscoa - que o levaria à morte e, em seguida, ressuscitaria. Segundo consta, foi vendido. O dinheiro, sempre ele. Agora, neste país imenso e complexo, vivemos o prenúncio de, quiçá, uma ressurreição. A partir da coragem de alguns contra os muitos que, na volúpia, acreditavam-se acima da lei. Deixaram-se enredar na teia da ganância, nos deslimites da dignidade. O dinheiro, sempre ele. O primeiro romance de Machado de Assis, "Ressurreição", 1872, criticado por uns e objeto de estudos por muitos, mostra a dicotomia entre o falso e o verdadeiro. O enredo é a história de Félix, um médico, e da sua incapacidade de acreditar em Lívia, uma viúva por quem se apaixona, após amores sazonais interrompidos pela dúvida. Lívia é personagem que cresce na trama e faz realçar a dúvida de Félix após receber uma carta anônima. Hoje, tal como o personagem central de "Ressurreição", estamos em dúvida entre o que se crê verdadeiro e o falso. O Brasil é uma história de amor para uns, não para outros, os que o atolaram na ignomínia. Esperamos para o desfecho no País final melhor que o de Félix, descrente e largado. Nesse mundo onde não há mais segredo por conta do ciberespaço a banalizar e vandalizar relações e comunicações, todos se creem protagonistas com ou sem respostas para a ressurreição que não ousamos ou não sabemos fazer. Feliz Páscoa. João Soares Neto Empresário CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/04/2015. - [SEXTA-FEIRA SANTA COM BREVE VIAGEM PELO MUNDO DAS CRENÇAS E DAS FILOSOFIAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sexta-feira-santa-com-breve-viagem-pelo-mundo-das-crencas-e-das-filosofias-jornal-o-estado/): “A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”. Einstein Há dois bilhões de cristãos no mundo. Católicos, anglicanos, protestantes, luteranos, evangélicos e afins. Acontece que a Terra tem mais de sete bilhões de pessoas. Assim, de cada sete pessoas, menos de duas acreditam em Deus e no seu filho unigênito, Jesus, o que surgiu há 2015 anos em meio à dominação romana, em área miserável, hoje ocupada por israelenses e palestinos. As crenças, ao longo do tempo, fizeram e fazem milhões de mortos. Tudo em nome da fé que entoavam. É contrassenso. Segundo o evangelho de Lucas, o anjo Gabriel teria dito: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Este será grande, será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus o trono do seu pai Davi; reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu reino não terá fim”. Acontece que parte dos cristãos, os não católicos romanos, não creem que Maria seja a intercessora. Admitem que ela tenha sido a escolhida, por tal razão seria santa, mãe de Jesus, mas “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23). E dizem mais: Jesus teve irmãos. Os católicos falam que eram primos de Jesus e não irmãos. Os não católicos invocam, como prova, o evangelho de João 2:12, referindo-se a ida de Jesus a Cafarnaum: “Depois disto desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos”. Quem quiser tirar as suas conclusões, pode dar uma olhada em Mateus 12.46, 13.55 e 56. Marcos 7.3 e I Timóteo 2.5. Para nós – neste tempo de exacerbação do autodenominado Estado Islâmico, de questões fundamentalistas, econômicas e bélicas que assolam o Oriente Médio –, não importa e nem cabe discutir se Maria era ou não virgem e se Jesus teve irmãos ou eram apenas primos. Ao visitar Egito, Israel e Palestina, faz alguns anos, escrevi em jornal dizendo que nunca haverá uma solução definitiva de paz. Complementei dizendo que os casamentos entre judeus e árabes, que aumentam, podem minorar o radicalismo. Além disso, há, em ambos os lados, estudiosos pacifistas. Para os seguidores de Maomé, há outra história sagrada e para isso recorrem ao Alcorão, o equivalente à Bíblia dos cristãos. Acreditam os muçulmanos, na Surata 5:72-73, que “são blasfemos aqueles que dizem: Deus é o Messias, filho de Maria, ainda quando o mesmo Messias disse: Ó israelitas, adorai a Deus, que é meu senhor e vosso. A quem atribuir parceiros a Deus, ser-lhe-á vedada a entrada no Paraíso e a sua mora no Paraíso e a sua morada será o fogo infernal”. No mesmo Alcorão, todavia, está dito que pode haver perdão para judeus e cristãos: “Mas quem praticar o bem e for ademais fiel, saberá que seus esforços não serão baldados, porque os anotamos todos”. Quando chegamos ao Oriente, onde já estivemos por duas vezes, sequer entendemos os mundos hinduísta, budista, xintoísta e a sabedoria de Confúcio. O hinduísmo não é, em sentido estrito, uma religião, mas uma filosofia de cunho de crença e reivindica ser a mais antiga de todas as fés, sem data determinada. Ele está dividido em três períodos, o védico, com o culto a deuses, como Dyans, que seria o deus supremo. Surge, tempos após, a fase Bramânica com a trindade: Brahma, a da alma imortal; Vishnu, a da preservação; e Shiva, a alma destruidora. Segundo o hinduísmo, que hoje vive uma fase híbrida, com influências de outras crenças, a trajetória que a alma terá será de acordo com as ações praticadas em vida (a lei do carma), a libertação final da moksha (espírito) impõe o fim do ciclo da morte e do renascimento. Todo o ritual hinduísta tem por fundamento a meditação e as oferendas. Na crença budista, Maya – a mãe de Sidarta Gotama, que se tornaria Buda apenas aos 29 anos –, tal como Maria, a mãe de Jesus, também era virgem e permaneceu virgem. Buda nasceu seis séculos antes de Cristo, na Índia, e os seus adeptos não o consideram Deus, mas alguém iluminado, aquele que está liberto da ignorância e pleno de sabedoria. As regras do budismo parecem simples: não fazer mal a nenhuma criatura viva, não tomar aquilo que não lhe foi dado, não se comportar de modo irresponsável na sua sexualidade, não falar falsidades, e não se entorpecer com álcool e drogas. Xinto significa “caminho dos deuses”. Reza a lenda sobre o xintoísmo que depois de sete gerações de divindades nascidas no Cosmo, apareceu consolidada, no século VI da era cristã, o último casal, Izanagi e Izanami, que teve oito filhos transformados nas oito ilhas que constituem o Japão. O xintoísmo e o budismo são praticados no Japão, sendo que o xintoísmo consagra mais o nascimento das pessoas e o budismo cuida do final, da morte. O ideário do xintoísmo é amar a natureza, respeitar os antepassados e ser politeísta. Na China, no século dois da era cristã, surgiu Confúcio que desejava descobrir o caminho superior e chegar ao “Tao” e ali encontraria a harmonia para a existência e para os mistérios do mundo. Nascia o confucionismo, que teve força espontânea até 1949, quando surgiu o comunismo e a prática foi postergada em nome da revolução cultural de Mao-Tse-Tung, que veio a seguir. Sabe-se que as dimensões do confucionismo centradas no eu, na comunidade, na natureza e no firmamento permanecem arraigadas no espírito das famílias de lá, que, quando podem, tentam seguir as suas virtudes essenciais: amar o próximo; ser justo; ter comportamento acertado; cultivar a sabedoria e a sinceridade. A família é a base da sociedade e os governantes devem amar o povo. O confucionismo é filosofia de vida, não é religião tal como concebemos no ocidente. Fizemos, numa visão aligeirada, simplista e superficial, com a ajuda de leitura de livros e buscas na Internet, uma volta ao mundo da fé e da filosofia de vida. O que mais brota em todas essas manifestações citadas é a referência temporal ao nascimento de Jesus. Nota-se que todas as crenças e filosofias possuem suas próprias contagens temporais diferentes do que, por exemplo, agora comemoramos: a morte de Cristo, o Jesus de Nazaré. Entretanto, o calendário cristão é a menção basilar para a contagem do tempo entre a vida e a morte, com ou sem esperança da eternidade. A todos os que nos acompanharam esta pequena viagem, através das crenças e das filosofias básicas da humanidade, os nossos votos: vivam em paz, sigam aquilo em que acreditam. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/04/2015 - [AMOR E BARRIGA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/amor-e-barriga-diario-do-nordeste/): Agora, em Grasse, França, descobriu-se uma acidental troca de crianças em maternidade. Casal viveu em crise, pois o marido dizia que a filha Manon não possuía seus traços. Depois de 10 anos, brigas e separação, fizeram exames de DNA. Manon não tinha nada do pai, tampouco da mãe. A mãe resolveu processar o hospital. O fato: duas crianças, com icterícia neonatal, trocadas no berçário. Após embates na justiça, a mãe descobriu a filha verdadeira, cuidada com afeição por outros pais. Houve o reencontro, mas a mãe, mesmo reconhecendo na sua filha biológica os seus traços, era apaixonada pela "filha" Manon que criara com desvelo. Final da história: optou por ficar com Manon, pois os vínculos eram profundos. Há algum tempo li o livro "Um amor sem barriga". A história: uma jovem teve duas gravidezes normais com oito meses de gestação, sempre acompanhada por médicos. Daí em diante aparecia uma anomalia que, infelizmente, acabou na morte dos dois ansiados bebês. Sofrido, o casal tentou descobrir a origem da doença das crianças perdidas. Laboratórios nacionais e estrangeiros contratados. Nada conclusivo resultou. Enxugaram lágrimas e dores, não poucas. De repente, manifestaram o desejo de adoção. Veio o primeiro bebê, sem barriga, ainda suprido com leite materno, tão amado como se concebido. Fizeram adoção de verdade. Depois, nova adoção abençoada. Hoje, pais e filhos até se parecem. São unha e cutícula. A mãe sem barriga é amantíssima e a admiro. O pai coruja não destoa. São uma família de verdade. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/03/2015. - [A IDEIA, A EXECUÇÃO, OS ÓBICES E A DURA VIDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-ideia-a-execucao-os-obices-e-a-dura-vida-jornal-o-estado/): “Chorei e acreditei”. F.R. Chateaubriand, escritor francês. Não somos iguais a ninguém. Temos as nossas próprias idiossincrasias. Nosso pai dizia: “não seja melhor, nem pior. Seja você”. Em 1999, depois de muito pensar e estudar, concluímos um projeto que durou cinco anos para ser executado: um centro comercial. Vale dizer que fomos desaconselhados, por consultores contratados, a fazê-lo no local escolhido. A maioria das pessoas de referência sondada dizia ser uma loucura investir em bairro sem grande densidade habitacional. Argumentavam: na área de humanidades da UFC há política, comício e greve. Disseram também que estaríamos próximos das sedes de partidos de esquerda. Para desanimar, falaram: o metrô não seria concluído tão cedo e a sua construção nos importunaria, pois ruas seriam fechadas por anos. E daí? Desobedecemos a todos os consultores. Ficamos surdos. Sofremos o pão que o diabo amassou. Cinco anos, sol a sol, algumas noites em claro, fazendo fé, aplicando o produto de toda uma vida árdua. No dia da inauguração, manhã de sábado, 30 de outubro de 1999, aniversário de D. Margarida - a mulher que nos trouxe ao mundo- não havia tapumes. As lojas ainda não ocupadas foram rematadas com grandes pinturas de artistas plásticos cearenses. Era o nosso primeiro concurso público de artes. Oferecemos, na exposição, duas premiações com passagem ida-e-volta aos Estados Unidos e à Europa. Emília Porto e Audifax Rios, os vencedores, preferiram o valor equivalente. Assim foi feito. Nascia o embrião da galeria de arte que se consolida até hoje. A Camerata da Universidade Federal do Ceará tocava músicas clássicas e a fita simbólica foi descerrada pelas filhas, a pequena neta Luana, o Reitor Martins Filho, D. Margarida e convidados. Padre Hermano, padre-mestre dos Remédios, fez a benção. Na parede principal estava quadro com os nomes das pessoas que trabalharam na obra inaugurada. Uma a uma. Do servente ao engenheiro chefe. Nenhum esquecido. Depois, começou a vida real, as dificuldades aumentavam a cada dia. O metrô fechou as duas principais vias de acesso e lojistas consagrados não compravam a nossa ideia. Primeiro, teríamos que nos fazer acreditados. Assim, batalha a batalha, fomos sedimentando a história com a chegada dos Mercadinhos São Luiz, da Casa dos Relojoeiros e de corajosos novos lojistas. Aos poucos, com boa equipe, íamos abrindo lojas e resistindo às adversidades. Conseguimos que uma grande empresa nacional de varejo aceitasse que fizéssemos, com nosso capital, todo o espaço, turn-key, de 1.600m2, de sua loja. A inauguração nos daria credibilidade. A loja foi inaugurada, mas, em seguida, fechada por decisão judicial que invocava uma “cláusula de raio”. Explico: inócua reserva de mercado a impedir uma mesma empresa de montar outra loja em raio de 5 km. Depois de doloroso abre-fecha, a loja voltou a funcionar e lá permanece altaneira. Um centro comercial pede alguns cinemas. Procuramos exibidoras nacionais e todas nos deram a mesma resposta: construa que, depois, entramos. Noites em claro. Resolvemos do nosso jeito. Ora, se iríamos construir para os outros, por que não fazê-lo para nós mesmos? Sabíamos da dificuldade de captar filmes, sendo pequenos e independentes. Viajamos, trocamos ideias e assumimos que seríamos nós os exibidores. Teríamos que obter o aval das distribuidoras de filmes, ligadas aos exibidores. Outra batalha. Afinal, fizemos as salas. Precisávamos mostrar que éramos organizados e planejados. Obtivemos, após inspeção, a certificação ISO-2001, através de empresa inglesa. Fomos o primeiro do Brasil na área de atuação. Paralelo a isso, lutávamos para que o Metrofor nos liberasse a frente Carapinima, ainda fechada. Marchas e contramarchas, conseguimos. Depois de anos. Faltava a localização exata da Estação Benfica do Metrofor. Cedemos ao Estado área de nosso imóvel para que parte da citada estação ali fosse fincada. Hoje, março de 2015, o metrô já funciona, mas duas vias de escoamento jazem bloqueadas. São 15 anos. Fizemos da ideia um projeto de resolução que atentava contra tendências do mercado. Optamos, por vocação e consciência, por ser um centro de referência para os clientes. Criamos 10 projetos sociais e culturais em pleno funcionamento. Por nossa conta e sem benefício fiscal. Tornamos-nos amigos dos lojistas e clientes, sem ufania. Eles são o nosso trunfo. Assim o fizemos. Assim o somos. Há, inclusive, um deles, professor universitário, que possui os números dos nossos telefones e liga para o que bem quiser. Outros nos ajudam, de forma consistente. Conversamos com todos a qualquer hora. Recebemos, por sete vezes, o selo de responsabilidade cultural conferido pela Secretaria da Cultura do Ceará. Somos a única empresa do Estado que possui este laurel. Temos espaço de leitura com biblioteca, uma fábrica artesanal para maiores de 55 anos, ginástica de baixo impacto, um clube de viver bem e mostras permanentes de artes. Promovemos o Gente de Bem, fazemos congraçamento anual com crianças portadoras de doenças, síndromes e em situações de desamparo com instituições acreditadas. Trazemos a música, os cantores e os compositores locais para os nossos eventos. Oferecemos espaços para alunos de artes, pintores consagrados, grafiteiros, blogueiros e outros. Incentivamos o carnaval, os maracatus e as festas juninas. Formamos mais de 1.800 bombeiros voluntários em parceira com o Corpo de Bombeiros Militares do Ceará. Estamos abrindo a 50ª. turma. Nada da boca para fora. Tudo com nosso envolvimento e gratuito. Novos centros comerciais foram surgindo nos últimos tempos e outros estão por vir. Sejam todos bem-vindos. O sol nasceu para todos. Este texto é claro, sem presunção. É história vivida e sofrida que continua a cada dia novo para as quase duas mil pessoas que mourejam, acreditam no que fazem, recebem bem e com alegria milhares de clientes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/03/2015. - [EQUINÓCIO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/equinocio-diario-do-nordeste/): Alguns puristas cobram-me relevância nestas 270 palavras que escrevo a cada domingo. Como diz o português Lobo Antunes, há duas literaturas: a relevante e a de entretenimento. Estas curtas linhas tentam ficar a meio caminho. Por outro lado, leitores graduados perguntam o significado de uma ou outra palavra jogada no meio do texto para não deixá-lo tão minguado de adorno. Agora, "prestenção", o dia e a noite estão, cada um, com 12 horas de duração. É o fenômeno da passagem do equinócio (noites iguais) no hemisfério sul, onde o Brasil está fincado. Das alvoradas ou dos dilúculos ao crepúsculo ou ocaso, os relógios marcam 720 minutos. Como estamos perto da linha do Equador, é fácil cronometrar o estirão do dia e o tempão da noite. Li ainda, em algum lugar, que o tal do equinócio acontece quando os raios solares incidem perpendicularmente sobre as nossas cabeças. Sei não, como sou careca, imagino que o equinócio seja quase o ano inteiro. Como nenhum astrônomo vai se dar ao trabalho de ler este suelto, fica assim mesmo. Mal as chuvas começaram e a festa de São José, celebrada na quinta, 19, leva a crer que se choveu no dia, haverá inverno. Nada sei de astrofísica, tampouco de adivinhações, mas queria dizer a quem confia que entramos no outono só pode ser pirado. Acho graça quando as moças meteorologistas das tevês anunciam o tempo do dia seguinte. Nesta terra de Alencar, os termômetros engancharam desde que Martins Soares Moreno baixou por aqui. Prefiro Rachel, em O Quinze: "Tenho fé em São José que ainda chove!" João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/03/2015 - [HOMENS COMUNS E EXTRAORDINÁRIOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/homens-comuns-e-extraordinarios-jornal-o-estado/): “Os que não conseguem relembrar o passado estão condenados a repeti-los”. George Santayana (1863-1952), filósofo americano. Caro Leitor: tenha paciência com o texto. Vá até ao final. Leia devagar. Começo: Fiódor Dostoiévski (1821-1881), grande escritor russo, autor de “Crime e Castigo”, publicado em 1866, romance geralmente apresentado em dois volumes, fala de sentimentos de personagens atormentados, daí ter sido o seu autor considerado “o homem do subsolo”, objeto de estudo de Freud. No primeiro volume, tradução de Rosário Fusco, pag. 345, Raskólnikov, personagem central, é abordado sobre artigo por ele publicado na “Palavra Periódica”. Nele fala sobre a natureza do crime. É dito que os homens são divididos em “ordinários e extraordinários”. “Os homens ordinários devem viver na obediência e não têm o direito de transgredir a lei, uma vez que são ordinários. Os indivíduos extraordinários, por sua vez, têm o direito de cometer todos os crimes e de violar todas as leis pela única razão de serem extraordinários”. Como surgem dúvidas, Raskólnikov, o autor, resolve explicar: “Não foi propriamente assim que me exprimi – começou num tom simples e modesto. – Aliás, confesso-lhe que o senhor reproduziu o meu pensamento bem de perto. Pensando bem, reproduziu-o exatamente. A única diferença é que eu não insinuo como o senhor dá a entender que aos homens extraordinários seja permitido cometer todas as espécies de crimes. Parece-me que um artigo nesse sentido não poderia ser jamais publicado. Eu somente insinuei que o homem extraordinário tem o direito, não o direito legal, mas o direito moral de permitir à sua consciência saltar certos obstáculos e, isso, somente no caso em que exige a realização de sua ideia benfeitora, para toda a humanidade”. Volto e pergunto: por acaso há alguma semelhança no passado e presente do Brasil entre pessoas que se consideraram extraordinárias e acreditaram que, em nome de uma causa, poderiam fazer o que quisessem? Ele continua: “Na maioria dos casos, esses homens reclamam, sob as mais diversas fórmulas, a destruição da ordem estabelecida em proveito de um mundo melhor. Mas, se for preciso, para fazerem triunfar as suas ideias, eles passam sobre cadáveres, atravessam mares de sangue. Dentro deles, a sua consciência permite-lhes fazê-lo em função naturalmente da importância da sua ideia”. Pausa para mim: há similar na história da pátria amada? Sigo com ele, páginas adiante: “Uma coisa é certa: é que a repartição dos indivíduos nas categorias e subdivisões da espécie humana deve ser estritamente determinada por alguma lei da natureza. Essa lei é-nos, bem entendido, desconhecida ainda até a hora presente, mas acredito que ela exista e nos possa ser revelada um dia. A enorme massa dos indivíduos do rebanho, como dissemos, não vive na face da terra senão para fazer aparecer, finalmente, no mundo, depois de uma série de longos esforços, de misteriosos cruzamentos de povos e de raças, um homem que entre mil possua a sua independência, e um sobre dez mil, sobre cem mil, à medida que o grau de independência se eleva”. Eu, de novo: teríamos nós, ao longo da nossa história, encontrados esses homens extraordinários? Teriam eles, se realmente encontrados, o direito – em nome de uma ideia – de cometer toda a sorte de crimes, com ou sem sangue? Talvez seja preciso que voltemos a reestudar a História do Brasil, desde o comércio internacional de escravos ao tempo da colonização portuguesa, depois transformada em vice-reino – fugindo de Napoleão Bonaparte e seu exército – com a “proteção” da Inglaterra; Rediscutir como aconteceu a independência do Brasil. Vale dizer que o nosso D. Pedro I, com o seu grito do Ipiranga, pouco depois, foi aclamado rei de Portugal, nominado D. Pedro IV. Há uma estátua dele no Rossio, em Lisboa. Depois, deveremos olhar a Proclamação da República, com todas as suas nuances e as influências verdadeiras, escoimadas nos livros em que as nossas crianças e nossos jovens devem acreditar. Pense nisso. Será que a Guerra do Paraguai (a tal Tríplice Aliança) não foi uma mera artimanha da protetora Inglaterra? Quem puder, pesquise e veja se estou exagerando. Desde a Proclamação da República, houve tanta confusão no Brasil que não sei como chegamos ao século 21. Repare um pouco, lembre-se de todos os ex-presidentes, os eleitos, os impostos e os gerados (Floriano Peixoto,1892, e José Sarney,1985). Aprazerem-se em procurar saber um pouco mais de cada episódio. Dostoiévski foi citado por mim, como condão ou reflexão, para que todos saibam fazer a distinção entre os homens comuns e os extraordinários que nos trouxeram até aqui. Cada um tire as suas próprias conclusões. Afinal, não há crime sem castigo da história. E no romance. Pelo menos. Obrigado. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/03/2015. - [INCERTEZAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/incertezas-diario-do-nordeste/): Escrevo antes de 13 de março de 2015. Estamos em tempo das delações premiadas, dos acordos de leniência, da abertura oficial das investigações da Operação Lava-Jato, dos pronunciamentos desequilibrados de alguns e à espera de manifestações dirigidas ou espontâneas. Há incertezas no País. Não se deve ficar alegre. O Brasil tem mais o que fazer. Estamos nauseados. Há denúncias e revelações que alimentam os noticiários de todas as mídias. É um mal-estar nacional, não digerido. Não importa de que lado você esteja e tampouco do lado que imagine que os outros estão. Incertezas rebentam. Que poderemos nós, os que já votamos tantas vezes, reclamar dos jovens desnorteados? Que país estão recebendo? Eles arriscam entender a diferença entre o que é ensinado nas escolas, o que é ouvido nas ruas, o que é falado nas famílias e o que se propaga em novas linguagens midiáticas formando núcleos distintos de pensamentos. Que exemplos amanhamos e quais frutos podem surgir de nossa história recente, tantas vezes maculada? O mundo de hoje é complexo. Não há gênio isolado que o entenda. Precisaríamos de uma concertação nacional, mas como chegar a ela, se só há embate? A rebeldia incontida dos jovens possui como fermento a emoção, o inconformismo, o raciocínio lógico (por que tem que ser assim?) dos ainda à margem da vida real. Vida cheia de estultices, manipuladores, dissimuladores e de pérvios caminhos trilhados por uns. Tudo isso, junto e misturado, só produz avisos ruins. Nada fica elucidado. As ruas murmuram. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/03/2015. - [TRÁFICO DE INFLUÊNCIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/trafico-de-influencia-jornal-o-estado/): Como se retrocedesse na cápsula do tempo neste 2015 tão complicado – e ainda estamos em março – desembarco no ano de 1868, cem anos antes do revolucionário 1968, “O Ano que não terminou”, seguindo livro homônimo de Zuenir Ventura (foto) e outros escritos por franceses. Chego e encontro José Martiniano de Alencar Júnior, no Rio. Famoso, nosso escritor maior, político importante, faz, afirmo, tráfico de influência. Olhei e vi a carta de 18 de fevereiro de 1868, do autor de “Iracema” para Machado de Assis. A carta vai resumida, em etapas. Começa assim: “Ilmo.Sr. Machado de Assis. Recebi, ontem, a visita de um poeta. O Rio de Janeiro não o conhece ainda; muito breve o há de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente; do coração, não do resto”. Como se vê, José de Alencar, que era político, tal como o pai, lembro, enxergava a dicotomia. Havia dois brasis. Um: o que se sente; do coração. Outro, o do resto. Assim, a coisa vem de longe. Voltemos à carta, a do Brasil do sentir. Alencar continua: “O Sr. Castro Alves é hóspede desta grande cidade, alguns dias apenas. Vai a São Paulo concluir o curso que encetou em Olinda. Nasceu na Bahia, a pátria de tão belos talentos: a Atenas brasileira que não cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros. Podia acrescentar que é filho de um médico ilustre. Mas para quê. A genealogia dos poetas começa com o seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus?” Agora, Alencar fala das referências do logo futuro poeta condoreiro: “O Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um dos pontífices das tribunas brasileiras. Digo pontífice, porque nos caracteres dessa têmpora o talento é uma religião, a palavra um sacerdócio”. Alencar elogia Joaquim Maria Machado de Assis, a quem a carta é dirigida, lembre. Diz o tísico, míope e brilhante filho de padre: “Lembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos títulos. Para apresentar ao público fluminense o poeta baiano... Seu melhor título, porém é outro. O senhor foi o único dos modernos escritores que se dedicou à cultura dessa difícil ciência que se chama crítica... Do senhor, pois, do primeiro crítico literário brasileiro, confio a brilhante vocação que se revelou com tanto vigor”. E conclui: “Seja o Virgílio do jovem Dante, conduza-o pelos ínvios caminhos por onde se vai à decepção, à indiferença e finalmente, à glória, que são os três círculos máximos da divina comédia do talento”. Machado de Assis respondeu no dia 28, do mesmo mês de fevereiro: “Exmo. Sr. – É boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna é recebê-lo das mãos de V.Ex., com uma carta que vale um diploma, com uma recomendação que é uma sagração. A musa do Sr. Castro Alves não podia ter melhor intróito na vida literária. Abre os seus primeiros cantos, obtêm o aplauso de um mestre”. Devo dizer, tal como José de Alencar, a carta de Machado é longa. Cada um rasga-seda maior. Poupo-o de páginas e vou direto ao final da missiva quando, após considerações críticas, Machado aduz que o jovem poeta Antônio Frederico de Castro Alves ainda não está pronto: “ A mão é inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a inexperiência. Estudou e estuda; é um penhor que nos dá. Quando voltar seus arquivos históricos ou revolver as paixões contemporâneas, estou certo que o fará com a mão na consciência. Está moço, tem um belo futuro diante de si. Venha desde já alistar-se nas fileiras dos que devem trabalhar para restaurar o império das musas. O fim é nobre, a necessidade é evidente. Mas o sucesso coroará a obra?... Lembro ao leitor que o recomendado Castro Alves escreveu a sua obra capital “Navio Negreiro” no ano seguinte, 1869, e morreu, tuberculoso, em 1871, aos 24 anos. Alencar desde cedo enfrentou a tuberculose e se quedou em 1877, aos 46. Machado de Assis, com todas as mazelas advindas da epilepsia, varou o século e se foi aos 69, em 1908. Volto ao 2015. Chove. Ouço barulhos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/03/2015. - [A NETA E A FACULDADE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-neta-e-a-faculdade-diario-do-nordeste/): Minha neta mais velha passou no Enem e escolheu Arquitetura. O que um avô analógico poderá dizer? Primeiro, parabéns. Depois, curta os trotes "cara pintada". Vi a foto. Em seguida, descubra o mundo universitário. Ele nos dá saber, mas cobra atitude com colegas de todas as tribos. Deixa a porta aberta para a formação da nossa identidade. Use o prenome. A ambiência é típica da sua geração, a chamada "Z", entre os 13 e 20 anos. Alguns parecem "nerds", focados em celulares, PCs e tabletes; outros se enturmam, fumam e tal, tocam instrumentos e gostam de baladas. Há os movidos por patriotismo recente a pensar o Brasil com olhos críticos. E há os que querem apenas estudar, formar-se e trabalhar. Escolha. Como você gosta de ler, lembro: a Arquitetura brasileira passou pelo barroco, rococó e neoclássico e assim chegou ao século 20. Pelo que sei, Lúcio Costa é o maior arquiteto desse século. Aliado ao francês Le Corbusier, deu nova face ao Centro do Rio ao conceber o prédio do Ministério da Educação com altos pilares para visão e deslumbre dos cariocas dos anos 40. Depois, de novo, Lúcio Costa, na década de 50, agora urbanista, projeta o plano piloto de Brasília, cujos prédios são de Oscar Niemeyer Soares, outro grande arquiteto. Fico nestes dois. Há muitos. Sua mãe ao ler este texto poderá dizer que me meto. Gostaria de me meter mais, estar mais perto e acompanhar o futuro dos netos, como coadjuvante. Apenas ver o (en) caminhar de vocês no Brasil do amanhã. Hoje é o seu dia e o de todas as mulheres. Beijos. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/03/2015. - [O CINTO, O CONTRATEMPO E SINTO MUITO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-cinto-o-contratempo-e-sinto-muito-jornal-o-estado/): O telefone tocou. Era uma filha. Iria deixá-la no aeroporto. Mãe recente, mora fora daqui e viera matar as saudades. Marcamos a hora. O carro tinha um assento para bebê no banco traseiro. Fomos eu e a filha, no banco da frente. No traseiro, a neta e a babá. Saímos ouvindo música, mas logo adiante havia uma batida no cruzamento de duas ruas. Dois carros enganchados e uma moto caída. Rapaz ao chão, mas com pequenos ferimentos. Contornei o problema e lá vamos nós. É noite, céu escuro, bom tráfego e chegamos ao aeroporto. Estávamos no horário. O marido iria esperá-la. Tiramos a bagagem, mas o assento para bebê resolveu criar caso. Ele, como manda a lei, estava afixado nos cintos de segurança do banco traseiro. A filha, acostumada a montá-lo e a retirá-lo, encontrou dificuldade. Uma alça cismou de não sair do engate. Depois, fui eu, crente. Resolveria em um minuto. O tempo passando. Acendi as luzes internas, liguei o pisca-alerta – estava na entrada do aeroporto. Sou canhoto e meio desengonçado, tentei, virei e mexi, comecei a suar e nada da alça sair. Foi então que tive a brilhante ideia. Vá, filha, faça o despacho que eu resolvo aqui. Ela argumenta que o assento seria preciso e que, além disso, deveria ser envelopado com plástico, pois a companhia aérea não permite que vá na cabine. Vai para o porão, em meio a malas, encomendas e animais de estimação grunhindo. Não se preocupe, eu, o pai metido a resolvedor, disse. Lá se foi ela fazer o despacho. Nada da alça soltar. O tempo correndo. Um rapaz em farda de serviço prontificou-se a ajudar. Pimpão, destravaria o engate. Foram mais dez minutos. Aí, desisti. Iria cortar o cinto, mas não sabia como fazê-lo. Afinal, na própria empresa de embalagens consegui um estilete e o repassei para o rapaz prestimoso, com a ordem de cortar o cinto do carro. Ele atordoou-se, e, como só soube depois, cortou, por engano, o cinto do assento para bebê. Agora, era embalá-lo, pois não desconhecia o cinto cortado, lembre. Tudo foi embalado, fita gomada e um aquecedor acesso soltando vapor para extrair o ar do pacote. Só tinha uma nota de R$ 100,00 e esperei pelo troco de R$ 55,00. Meio desajeitado, peguei o pacote e fui ao despacho. A filha, paciente, esperava por mim. Deu certo. Subimos de elevador, despedi-me da filha, da neta, e da babá, uma senhora que já cuidou, interestadualmente, de mais de 21 crianças. Isso eu soube antes de chegar ao aeroporto. Distribui beijos e tomei o caminho de casa. A filha ligaria ao chegar. Era noite, não tão cedo mais. Tomei banho e fui ler a revista “Veja”. Só notícias ruins. Larguei. Peguei o livro de ensaio “Amigos Escritos”, de Sueli Tomazini Barros Cassal, sobre as cartas trocadas entre Monteiro Lobato - um dos meus autores favoritos - e o escritor Godofredo Rangel. Lobato era escritor, editor e empresário. Foi quem primeiro levantou a ideia de furar poço para descobrir petróleo. E assim o fez, alardeando por carta ao presidente Vargas na imprensa a sua audácia. Era tempo de ditadura. Os do Palácio do Catete, aborrecidos com uma carta de Lobato e a pressão da imprensa para começar a exploração de petróleo, o processaram e, em seguida, prenderam Monteiro Lobato. Era 1941. O telefone toca. Era a filha. Haviam chegado. Tudo estava bem, mas ao desembrulhar o assento do bebê, faltava o tal cinto. Mal dormi. Amanhece, examino o carro e encontro o dito cinto, cortado. Incontinenti, sai à procura de maleiro. Parei no primeiro: Oficina das Malas. O dono, Macedo, senhor simpático, conversador, cearense, morara em São Paulo, com sucesso no seu negócio nos jardins. Preferiu voltar. Ele conversando. Eu esperando. Entrega o cinto, costurado e recosturado. Trocamos gentilezas. Fiz bilhete e mandei o teimoso do cinto pela ECT/Sedex. No comprovante, observação: a encomenda poderia demorar em face da greve dos caminhoneiros. Brasil,zil, zil. Ligo para a filha: o cinto estava a caminho. Se consegui trazer você até aqui e contar este caso banal de pai e avô meio sem jeito, sinto muito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/03/2015. - [JAZZ & BLUES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/jazz-blues-diario-do-nordeste/): Menino, tentei estudar piano. A professora Maria Helena Cabral ajudou. Sou canhoto. Em seguida, parti para o violão, mas havia que inverter cordas e fazer sinapses, pois estaria tocando ao contrário. Resumo: não trago habilidades manuais relevantes. Desisti. Ficou apenas o enlevo pela boa música. Jovem, passei final de semana, em Lenox, Massachussets, quando vi o festival anual de música clássica e contemporânea Tanglewood. Fui de ônibus. Descobri, alegre, que o maestro cearense Eleazar de Carvalho seria um dos regentes das muitas orquestras. Agora, maduro, quando raro passo por Nova Iorque, procuro tempo para ir à "Juilliard School". Em audições públicas, grandes mestres lapidam expoentes de diversos países. É lugar certo para cantores e músicos que desejam aprimorar teoria e habilidades com os instrumentos que usam. O dito serve para, quiçá, chancelar o grau de profissionalismo da apresentação em Fortaleza, sexta-feira passada (20), do Festival de Jazz&blues. Ricardo Bacelar, pianista e regente, unificou equipe madura e soube, com leveza, manter a plateia acesa em todo o desenrolar do show, sem fazer concessões no admirável repertório de Standards. Sala cheia. 1.500 ouvidos atilados pelo comando firme e sutil de Bacelar que, como "bandleader", explanou o programa e ensejou a cada músico mostrar a sua expertise. Nightgale. A cereja do bolo, após intervalo, foi a apresentação excelente da cantora portuguesa Jacinta, perita cantante de jazz, blues e de sua filha natural, a bossa nova. Um primor de voz. Bravo. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/03/2015 - [ESPERANÇAS 2015 - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/esperancas-2015-diario-do-nordeste/): Os indicadores econômicos de aparatosas agências internacionais de classificação de risco mostram um profundo grau de desconfiança com os níveis de governo do Brasil. Como não faço muita fé em suas isenções e análises, tenho esperanças renovadas para 2015. Os economistas, independente das escolas de pensamento que seguem, propalam alta do desemprego e da inflação, mas eles, quase sempre, só acertam o presente, quando passado. Por que não viram a crise de 2008? Só veem depois do incêndio. São péssimos em prognósticos, daí a esperança. A esperança que nutro não se apoia em governos, tampouco nas empresas que, de repente, sabem fazer tudo, desde que os contratos sejam generosos e bem aditados. A minha esperança se baseia na coragem do brasileiro comum, esse que não vive das benesses concedidas aos que estão ao lado do poder, qualquer que seja o governante. Apesar de tudo, 59% do povo ainda acredita que o Brasil é ótimo ou bom para viver. Esse povo não usa passaporte, anda de ônibus/moto/metrô, sofre para manter-se vivo, seja por falta de casa, de saneamento, de segurança, de ensino e de tudo o mais. Essa carência de confiança entranhada na mídia não é percebida, graças a Deus, pelos que não captam notícias catastróficas, pois passaram a desconfiar da astúcia. Eles se acostumaram à vida fenícia de ambulantes, de microempresários e de independentes prestadores de serviços, sem sindicatos. Tenho esperanças por saber que 74% de todos nós ainda temos orgulho do Brasil. Nada nos demove dessa fé. Fé que também é minha. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/02/2015. - [O CINZA, A GRÉCIA E O COLORIDO BESTIAL DO BRASIL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-cinza-a-grecia-e-o-colorido-bestial-do-brasil-jornal-o-estado/): “Para se saber como um povo está sendo governado, conheça a sua música”. – Confúcio Passei os dias do carnaval meio hibernando. Saí apenas para confirmar o que já intuíra em face dos comentários lidos em várias origens. O filme “Cinquenta tons de cinza” é fraco. Tal como o livro que não li, deve interessar apenas aos que ainda não percorreram as estradas da vida, da leitura e da filmografia. Parece meio inverossímil que a autora E. L. James tenha conseguido vender um milhão de exemplares. A propaganda, repetida, pode fazer milagres, especialmente quando escudada no conjunto de mídias que cria o “desejo” de ver o diferente e o “proibido”. O que se salva é a fotografia, esforço estético da diretora Sam Taylor-Wood. Como esperado, a maioria do público era jovem, especialmente mocinhas, pois a indicação permite aos maiores de 16 anos “desvendar” as tendências sado do personagem central. Até nisso houve esperteza na classificação. Por outro lado, a personagem feminina, jovem semiliberada, ainda virgem é filha de mãe vaidosa. Já no quarto casamento, a mãe reside longe e dá breves telefonemas de ofício, sem afeto. A personagem mora com uma colega mais “escolada” e, como é natural pelos hormônios latentes, cai no conto de fadas do jovem empresário rico, bem apessoado, enigmático, misógino, cercado de secretárias sensuais e com fissura psicanalítica. Foi adotado aos quatro anos. Gastei duzentas palavras com a baboseira acima e disserto agora sobre a velha/nova Grécia e o seu atual governo populista/socialista, apoiado por partido de direita. A Ática patina na sua cor simbólica azul em face de corrupção endêmica que permeia a máquina burocrática e a (in) decisão de ouvir e seguir as regras impostas pelo centralismo europeu. Angela Merkel, sem nunca sorrir, comanda processo de austeridade que ou redime ou fará sucumbir a ideia da Comunidade Europeia que dita normas e afasta os tentáculos de um Putin sedento por anexações – a Ucrânia seria apenas o começo -para fazer renascer a mãe Rússia, cheia de problemas estruturais, mas motivada pelo voluntarismo de seu dirigente. Aqui no Brasil, tão surreal que se deixa parar por dias, embalado pelos grandes e críticos bonecos das ruas de Olinda e pela cadência dos seus maracatus. Bem diferentes do langor que o cantor e animador Pingo de Fortaleza e o pintor/antropólogo Descartes Gadelha, tentam, como salva-vidas que são, manter abertos no curto circuito da avenida Domingos Olímpio. A dita avenida é esnobada pela maior parte da juventude, das famílias e dos turistas que se espraiam nas areias quentes de todo o litoral cearense, do Icapuí a Camocim, onde o mar é refrescado pelo rio Coreaú. Mas há, sobretudo, a atração industriada pela “baianidade” repetida, nos tons altos dos seus trios elétricos que atraem a muitos. “Só não vai quem já morreu”. Carlinhos Brown, Gilberto Gil, Ivete Sangalo e, “last but not least”, Cláudia Leite e Daniela Mercury dão as cartas, recauchutam suas faces, suas pernas, cantam e pulam para assegurar que estarão de volta no próximo Carnaval. No Rio, a convivência entre sambistas de verdade, contraventores disfarçados - que dominam a maioria das pacificadas escolas de todos os grupos-, artistas querendo aparecer, turistas/pagantes que se fantasiam, patrocinadores de camarotes e políticos desavisados fazem a festa pela madrugada. Tudo sob o controle do tempo hegemônico da vênus platinada a determinar horários. A área de concentração se transforma em “xixizódromo” coletivo, até que o relógio oficial determine o início do desfile cronometrado no estuário sambódromo da Marques de Sapucaí. Ressalte-se, em nome do vero Rio, que resistem com forças e desorganizações calculadas, os blocos/cordões diurnos de ruas e de bairros, com o seu humor carioca em nova fase, cáustico com os políticos, desde os tempos de Pereira Passos, Vargas e, agora, certamente, contemplando os referidos nas quizilas em curso. São Paulo, em meio à “crise hídrica”, apelido de falta d’água, reverbera seu poder com um também sambódromo e múltiplas escolas, por absoluta falta de imaginação, e mostra que por lá existe samba no pé e gente que, por duas vezes, dá mais de dois milhões de votos ao Tiririca. E, assim, paro por aqui e me recolho na platitude desta terra em que se plantando tudo dá. E como dá. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/02/2015. - [CONVERSA OBJETIVA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/conversa-objetiva-diario-do-nordeste/): A Sociedade Consular do Ceará reuniu-se terça passada com o governador Camilo Santana, na presença de Élcio Batista, chefe de Gabinete. Reunião objetiva, sem salamaleques. A função dos cônsules honorários não se limita a participar de ou realizar convescotes. A função é aproximar relações comerciais, culturais e de artes dos países representados com os governos e as entidades locais. Sob a presidência de Ednilton Soárez, cônsul da Dinamarca, compareceram os representantes da Alemanha (Dieter Gerding), Áustria (Reinhilde Elfriede), Belize (Airton Teixeira), França (Fernanda Jensen), Hungria (Janus Fuzeci, pai e filho, e Zsofia Sales), México (João Soares), Portugal (Francisco Brandão), República Tcheca (Raimundo Viana) e Uruguai (José M. Zanocchi). Cada um dos presentes fez ponderações e sugestões, destacando-se o convite de Portugal para uma visita oficial àquele país do governador. Discutiu-se a baixa utilização do Porto do Mucuripe na captação de transatlânticos que, no inverno europeu, fazem cruzeiros no verão brasileiro. O Ceará não está bem inserido nessas rotas. Aventou-se convidar o empresário mexicano Carlos Slim para conhecer e investir no Ceará. Slim é um dos mais consolidados empreendedores mundiais, sendo, no Brasil, controlador da antiga Embratel, entre outros. Os cônsules aguardam a indicação do novo assessor de Assuntos Internacionais e maior aproximação com as Secretarias de Turismo do Estado e de Fortaleza para, juntos, interagir e gerar oportunidades de negócios para o Ceará. João Soares Neto, Escritor e cônsul honorário do México CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/02/2015 - [A BANALIDADE DOS ASSALTOS, DAS MORTES E DAS CONTRATAÇÕES NO BRASIL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-banalidade-dos-assaltos-das-mortes-e-das-contratacoes-no-brasil-jornal-o-estado/): "Meu filho hoje é só uma estatística dos mortos” – pai de jovem assassinado Não há família, grupo de amigos, empresa, igreja e assemelhados que não possua integrante atacado ou até morto em assaltos perpetrados por jovens em bicicletas, por adultos com capacete em motos, por balas perdidas, por viciados de toda a espécie e por marginais institucionalizados, pois presos e, logo soltos, em face de excesso de gente nas carceragens e nos presídios. Uma reportagem da socióloga e jornalista Fernanda Mena, em dupla página, sob o título “Um inquérito sobre a polícia”, no caderno Ilustríssima, FSP, em oito deste fevereiro, apresenta números assustadores: 54.269 pessoas foram assassinadas no Brasil, em 2013; desse total, 2.212 pessoas foram mortas por policiais civis ou militares, em serviço ou fora dele. Por outro lado, 490 policiais -civis e militares- foram abatidos em confrontos com bandidos ou suspeitos. Vendo-se o que acontece em países civilizados, nota-se que nenhuma pessoa - nesse mesmo ano de 2013 - foi morta pelas polícias do Reino Unido e do Japão. Quanto aos crimes, observa-se que a taxa de homicídios por 100 mil habitantes nos Estados Unidos é de 4,7. No Brasil ela é quase seis vezes maior: 26,9. Em pesquisas feitas com policiais civis e militares sobre o baixo desempenho, 95% informaram que ele é originado pela ausência de integração entre as diferentes polícias. Hoje, somente 30% da população confia nas polícias. Afirmam que elas invadem residências sem mandado judicial e prendem pessoas, sem culpa formada, apenas por as considerarem “suspeitas”. Há no Brasil, comunicadores de emissoras de rádio e de televisão eleitos apenas pelo estardalhaço que fazem em seus programas, deixando nua e crua a delinquência e clamando, em altos brados, por soluções para o caos social. Cresce, ainda, o números de praças e oficiais militares que, líderes em suas corporações, confrontam-nas com governos, pelas limitações orçamentárias, tentativas organizacionais e espaciais (transferências) e os “excessos” das corregedorias que punem seus colegas. Há os barulhentos que se elegem e reelegem, prometendo ‘acabar com a frouxidão da polícia’ e resolver tudo em um mero passe de mágica. Todos, juntos, compõem o que alguém nomeou de “bancadas da bala”. Sabe-se que jovens policiais civis e militares procuram fazer novos concursos públicos em outras áreas, e, quando neles passam, deixam suas famílias aliviadas, em razão do estresse em que vivem e das suspeições a que estão sujeitos em casos de confrontos resultando mortos ou feridos. Saindo da reportagem de Fernanda Mena, procurei a Revista Brasileira de Segurança Pública, ano 5, edição 9, agosto/setembro de 2011, e tive o prazer de ver a análise de Francisco Thiago Rocha Vasconcelos, mestre em sociologia, em 2009, pela Universidade Federal do Ceará, então doutorando da USP. Ele assevera: “O enfoque sociológico sobre a violência deslocado da relação entre o medo do crime e a instauração de distâncias sociais e mudanças nas relações urbanas, passou a se concentrar, então, no modo como as instituições do sistema de justiça criminal intervêm no crescimento da criminalidade urbana violenta, seja por uma participação ativa, na forma de violência ilegal ou pelo viés autoritário e estigmatizante de sua atuação, seja por sua omissão em punir as violações de direitos humanos praticadas por seus agentes ou ainda por sua incapacidade em dar conta dos novos fenômenos criminais”. Este assunto, complexo e amplo, toma hoje nova dimensão em face da atuação firme e isenta da Polícia Federal em casos de corrupção na Petrobras. Por outro lado, começam a surgir, em muitos Estados, movimentos civis – organizados ou não – clamando pela extensão dessas operações em outros órgãos públicos. Antes de concluir, uma pergunta: por que até agora não foi regulamentado o parágrafo 7 do art. 144 da Constituição de 1988? Ele diz: “A lei disciplinará a organização e o funcionamento dos órgãos de segurança pública, de maneira a garantir a eficiência de suas atividades”. Qual a razão dessa demora de 27 anos? Finalizo: este artigo, embora analise o Brasil como um todo, pode, quiçá, dar algum subsídio ao Secretário de Segurança do Estado, Delci Teixeira, e, especialmente, à nova e diligente Controladora Geral das Polícias do Ceará, Socorro França. Boa sorte aos dois. É preciso inovar com ações (um só exemplo: viaturas/motos visíveis em pontos estratégicos) que gerem temor aos criminosos reincidentes; desencorajar os que se iniciam nas contravenções acreditando na impunidade e aos não tão jovens, mas que ameaçam as suas comunidades. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/02/2015 - [SOBRE AMIZADES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sobre-amizades-diario-do-nordeste/): Muito já foi dito sobre amizade. Poemas, crônicas, ensaios, romances e estudos sociais têm percorrido as nuanças do que realmente significa a palavra amizade. A socióloga americana Jan Yager, autora do livro "When Friendship Hurts" (Quando a amizade machuca), citada por Ana Paula de Oliveira, em "Equilíbrio", caderno da Folha de São Paulo, abril de 2004, refere: "Ter um mau amigo pode fazer alguém duvidar de si mesmo, de suas próprias habilidades. Em casos extremos, pode também colocar ambos em situação de risco". Ela indica tipos de não bons hábitos de amizade. Praticam-nos o que: não cumpre o apalavrado; usa a relação para exigir algo; espalha o que ouviu em segredo; foge do seu normal por álcool ou drogas; mente para encobrir falhas de caráter; fala pelos cotovelos com curiosos; usa a amizade para obter benefícios; inveja o que outro tenha, seja o que for; acha-se melhor; só vê defeitos; vive de baixo-astral; agride por palavras ou atos; alega não ser estimado; depende e aborrece o outro até para viver; o falso aconselhador; ser íntimo; passa a plagiar o outro; quer dominar a relação; sufocar por atenções. Estendi-me. Creio que o resumo vale para todos. Os de muitos ou os de poucos amigos. A complexidade das relações humanas fica banalizada em telefonemas diários, redes sociais e difusão de estórias. O repasse pela internet de textos dúbios - e o que mais se possa imaginar - obriga-nos a refletir sobre como somos para o outro, e como os outros nos veem ou tentam nos usar. Amigos são aquelas pessoas sem adjetivações. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/02/2015. - [ELEIÇÃO ACADÊMICA, AS CRÍTICAS E O PRESENTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/eleicao-academica-as-criticas-e-o-presente-jornal-o-estado/): No próximo dia 10 deste fevereiro, a Academia Cearense de Letras, a mais antiga das academias brasileiras, realizará sessão eleitoral para preencher a vaga aberta com a perda do grande poeta, ensaísta, professor e cidadão Artur Eduardo Benevides. São quatro os candidatos. Esta introdução serve apenas para analisar artigo de Mário Sérgio Conti, jornalista e escritor, sob o título “Conformismo e coonestação”, publicado em 28 de novembro de 2014, em que critica a Academia Brasileira de Letras, a maior e a mais bem aquinhoada em nomes e prendas. Ele começa dizendo: “A desimportância da Academia Brasileira de Letras emudeceria até Lobão (refere-se ao cantor, grifo meu). Ninguém liga para ela, exceto os 40 autoproclamados imortais. Que eles desfrutem em sossego do privilégio de se fantasiarem de fardão pela eternidade afora” Uma primeira observação: por que Mário Sergio Conti não emudeceu. Se ninguém liga para ela, qual o sentido e a razão de seu artigo tão candente? Ele argui, em seguida: “A Academia é um clube cujos sócios, em graus variados de senectude, se reúnem para tomar chá e trocar dois dedos de prosa acerca de seus sublimes antecessores”. Não precisa ter lido Freud, Jung ou Melanie Klein, para ver réstias de ressentimento explícito em cada frase do articulista. Ele continua: “É perda de tempo criticar a Academia. Não importa que ela sobreviva à sombra do Estado. Que jamais tenha emitido um sussurro contra a censura e os outros paus-de-arara na vida cultural”. E aduz: Que cultive a mediocridade literária (Nélida Pinõn, Murilo Melo Filho etc.) e a bajulação de poderosos (Fernando Henrique Cardoso, Marco Maciel etc.). Ninguém liga”. Claro que alguém liga. Ele próprio, Conti, está ligando e dando cavaco. Qual a razão desse seu artigo grave? Mais lá na frente, passo para evitar detalhes menores, ele se contradiz, ao afirmar: “A Academia só deixa de ser inócua quando nela entra um poeta de verdade. Isso é chato porque as más companhias têm influência e a instituição os diminui individualmente: todos os ratos são pardos no Petit Trianon” (nome da sede da ABL). Ele está falando do poeta Ferreira Gullar e acrescenta texto do próprio vate maranhense: “A Academia já fez tudo para eu entrar lá, e eu digo: não. Jamais entrarei para a Academia... Como eu não tenho cabeça acadêmica, como não é a minha, não vou entrar lá”. Parêntesis meu: Ferreira Gullar entrou na ABL em dezembro do ano passado. Sem esquecer que havia elogiado Gullar (poeta de verdade, ele disse), mais a frente, muda de ideia e o ataca: “Nem sempre conseguiu o que buscava. Seus poemas são às vezes discursivos ou demagógicos; o credo stalinista o fez tropeçar; seus versos perderam voltagem com a passagem do tempo”. Em seguida, elogia: “O resultado final, porém, é largamente positivo. Pelo que sua poesia tem de inventividade formal e insubmissão”. Como se vê, há um “morde e assopra” no escrito de Mário Sérgio Conti sobre a entrada na ABL de Ferreira Gullar, o autor, entre outros, do “Poema Sujo”. Como afirmou Tchekhov, escritor russo: “De inveja fica-se estrábico”. Por outro lado, está claro que as academias brasileiras, sejam de letras, ciências e artes, precisam repensar seus desígnios. Mudar e evoluir, ter a coragem de ajustar-se ao tempo em que vivem, às mudanças definitivas dos processos anacrônicos de escolhas de novos candidatos (por que não um debate entre os candidatos? por que não uma prova de conteúdo?), dos seus modelos de gestão em que só o presidente faz tudo. Isto não é desrespeitar a tradição, mas ter coerência com o tempo em que se vive. Sem menosprezar a tradição e os costumes, incorporar o que há de saudável e lógico nestes tempos em que antigo passa a ser tudo aquilo substituído pela voragem da inovação. A senectude, a que se refere Conti, não é a idade dos componentes, mas a permanência de métodos e ações que já não mais fazem sentido e pouco produzem resultados efetivos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/02/2015 - [QUE NAÇÃO É ESTA? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/que-nacao-e-esta-diario-do-nordeste/): Que País é este a decretar feriados inócuos? Faz Copa do Mundo. Ganha derrota inesquecível. Enterra bilhões em estádios com baixo ou nenhum uso, alguns já apresentando defeitos estruturais? Que nação é esta que não faz uma devassa geral? Só os presos no Paraná cometeram delitos? Quantas empresas e órgãos públicos, em todos os níveis, terão situação igual ou pior que a dos investigados? Que País é este em que empresas investigadas são sócias do próprio governo em projetos aqui e lá fora? Que nação é esta em que se espera o desdobramento judicial para nomear escalões de governo? Que nação é esta a criar o crédito consignado, a título de ajudar pobres? Na verdade, favorece a bancos gulosos que cobram taxas/juros além do definido e prejudicam aposentados e servidores. Que País é este em que candidato é (re) eleito para ter direito a foro privilegiado e não ser julgado? Que nação é esta em que juros de contas não pagas em cartões de crédito mensal são superiores aos rendimentos anuais da poupança? Que País é este a engendrar a contratação de médicos, por convênios internacionais, como se eles participassem de cooperativa e fossem meras commodities? Por que não pagar aos contratados? Eles pagam impostos? Que nação é esta em que só se descobre que vão faltar água e energia por conta das mídias, das torneiras e dos apagões? Que País é este em que dois presidentes prometem, em lançamentos oficiais, refinaria para o Estado do Ceará - que investiu R$ 650 milhões para obras de infraestrutura- e, por conta de desmandos outros, resolvem cancelá-la? João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/02/2015 - [O PADRE HENRI, A VIAGEM A PÉ ENTRE PARIS E ROMA E OS POBRES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-padre-henri-a-viagem-a-pe-entre-paris-e-roma-e-os-pobres-jornal-o-estado/): “O melhor dos bens é o que não se possui”. Machado de Assis O padre redentorista Henri Le Bousicard (foto), francês, 94 anos, há seis anos mora em Fortaleza, de favor. Ele ainda tem um aperto de mão forte, anda com os seus pés de caminhante e, vez por outra, fala. A voz cansada com poucas palavras talvez demonstre a carência de sinapses que a idade permite. Seu olhar azul é significativo e nos passa a ideia de que ele gosta do próximo, quem quer que seja. Ao chegar aqui, juntou papelões e montou um barraco entre os mais pobres da zona oeste. Ali viveu e espalhou o seu jeito forte de ser, liderando movimentos sociais em favor de miseráveis. Fui ver à casa que ora o abriga lá na Barra do Ceará, onde é assistido por amigos que acreditaram em seu projeto há 22 anos, quando de sua primeira visita ao Ceará, e aqui fundaram, entre outros, o Emaús Vila Velha. O movimento Emaús pretende ser defensor de pessoas em condições de miséria e risco. Sua renda provém de dádivas de papelões, roupas, móveis e objetos sem mais serventia para os doadores. Com a renda, operam. O que importa neste espaço é dizer que a história do padre Henri foi contada em prosa no livro “Aos 75 anos Paris – Roma 1500 km a Pé”, editado em português, em 2009. O livro é gostoso de ler por sua inteireza. Alguém resolve ir a Roma, saindo da Praça Notre-Dame, Paris, no dia 15 de junho de 1995. Ao fim e ao cabo de 97 dias, de sol e chuva, perdas de caminho e retomadas, chega a seu destino. Na entrada do livro, como se fora a sua senha, a chave de abertura ou a soleira da porta, ele diz: “A todos os excluídos da mesa da vida/ A todos os marginalizados pela sociedade/Aos homens da rua, aos deserdados pela sorte/Aos desempregados, aos condenados à morte/Aos sem pão, aos sem casa, aos sem abrigo/A todos aqueles que vivem na angústia do desespero/ Ao meu irmão ‘Dédé La Pipe’ que, um dia,/ no metrô, teve de gritar para um jovem ao lado: Chega para lá seu grande egoísta, pois estás ocupando o lugar de dois”. Levava duas mudas de roupas e teve a sorte de contar com um voluntário e destemido companheiro, um jovem alemão, com a metade de sua idade, com quem andava, conversava, discutia e até brigava. A ideia dele era entregar ao papa de então livros de Bernard Häring, entre eles, “Livres e Fiéis em Cristo”. Sequer, mesmo tentando, não falou com o papa João Paulo II. A burocracia da Igreja o barrou. Contentou-se em deixar no suntuoso Vaticano uma carta e os livros já referidos. Triste, rezou nas catacumbas romanas como um peregrino da fé, não alguém em busca de fama e refletores. Cumprira o seu desígnio. No livro, já quase em seu final, ele reflete sobre a sua odisseia: “Gostaria de dizer a todos Redentoristas que sejam céticos em relação à minha marcha. Não perdi meu tempo, percorrendo 1500 km a pé. Tenho impressão, quando me lembro de tantos encontros de reflexão durante a viagem, que foram três meses de autêntica missão. Foi, com certeza, uma ação insólita. Mas, quando participei em Portugal num retiro de Redentoristas, animado por um antigo conselheiro geral dos padres do Espírito Santo, fiquei admirado de ouvir o pregador dizer que a vocação dos religiosos implicava em atos excessivos. Fiquei repleto até o fundo do meu ser. Certamente que atos excessivos em amor”. Ele abandonou o conforto e a segurança de um convento francês para assumir uma postura de missionário e o fez, não só em seu país de origem – onde, em 1972, na cidade de Charenton, funda a primeira “Comunidade de Emaús- Liberdade –, mas ao viajar ao redor do mundo. Aos 52 anos passa a pregar, a agir e a fazer o bem em países tão distintos como Portugal, Brasil, Haiti, Benin, Irlanda do Norte, Alemanha, Checoslováquia, Polônia, Cabo Verde, Madagascar, Romênia, Iraque, Camarões, Congo e Mali. Ao escolher Fortaleza para o seu destino final, ele parece interrogar: “E os outros? Tendes pensado nos que mais sofrem? A miséria não é uma fatalidade. Causada pela cobiça dos homens, ela tem de ser solucionada por eles. Apenas temos de nos empenhar na luta contra as suas causas...”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/01/2015. - [ESTUDANTES DO CE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/estudantes-do-ce-diario-do-nordeste/): Está provado que os estudantes podem ser um diferencial no futuro do Ceará. Os resultados, por exemplo, dos exames vestibulares do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) mostram, há anos, que os jovens locais, quando estimulados por suas famílias e frequentando turmas de bom nível, podem superar a média dos demais concorrentes de outros Estados. Essa clara manifestação da eficácia do ensino direcionado a um objetivo nos dá orgulho e comprova que a educação é a porta mais fácil para o desenvolvimento social. O Estado do Ceará e as prefeituras municipais devem investir pesado em educação e minimizar a promoção de shows alienantes e de conteúdo musical discutível. A aproximação do Carnaval e a quase intervenção do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) demonstrando a não prioridade de festejos carnavalescos revela a irresignação de muitos prefeitos. Há um estado de estiagem em curso e nada justifica a liberalidade do poder público quando não cumpre os seus papeis básicos institucionais. Voltando ao primeiro parágrafo, só cego não vê que os municípios perdem a oportunidade de fomentar escolas de qualidade que os fariam apresentar melhores indicadores sociais. Se cada município financiar, pelo menos, uma turma de estudantes diferenciados em aprendizagem, estaremos construindo o futuro pela educação. Esse fato óbvio pode não propiciar a pirotecnia vazia que se esfumaça quando a realidade mostra a face crua do desalento de jovens cooptados pelo mercado de drogas e o aceno fácil da marginalidade. Leu ministro Cid Gomes? João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/01/2015 - [OS TELEFONES, EU E A NUVEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-telefones-eu-e-a-nuvem-jornal-o-estado/): “Não disse para o meu celular que estou quase desistindo dele”. A.d. O telefone na casa dos meus pais apareceu quando eu era meninote. Depois, fomos para o novíssimo bairro de Fátima. Área quase virgem, areias brancas e um parco riacho. Calçamento de pedra tosca, ruas sem árvores. Entre os bairros Joaquim Távora e José Bonifácio. Pois bem, assentamo-nos na Rua Monsenhor Otávio de Castro, casa nova, comprada por meu pai, em estilo dito “funcional”, seja lá o que isso fosse. Sem telefone. Acredito que o projetista havia visto o filme francês, “Meu Tio”- Mon Uncle - de Jacques Tati, um desengonçado e alto diretor e ator francês, que “deformava” a criação de um sobrinho, filho de sua irmã, dona de uma casa aparatosa, cheia de modernidades. A irmã e mãe era casada com “bem sucedido” marido que, além da casa, comprara emergentes equipamentos domésticos. A ideia mal copiada era uma laje de concreto não linear – sem telhado, pois impermeabilizada - sobre a área da varanda e um dispositivo mecânico que baixava e subia a porta horizontal da garagem em forma de alçapão. O tal dispositivo era uma caixa cheia de concreto, como contrapeso, roldanas guiadas por cabos de aço que o acionavam. Depois de muita luta, meu pai conseguiu puxar uma linha – e muitos postes - da Rua Conselheiro Tristão, quase na Rua Antônio Pompeu. Sob palmas, o “5127” tilintou e pudemos falar com parentes e amigos. Ele, afixado em um suporte de madeira na parede, tinha cor preta e era feito de um antepassado do plástico, galalite. Ficava na sala de jantar, perto do janelão envidraçado com suportes para abrir e fechar, como se fosse veneziana. Posteriormente, quando completei 18 anos, já com dinheiro poupado, sabe Deus como, resolvi fazer um quarto só para mim no amplo quintal. Contratei o “Dico”, diminutivo de Raimundo, um faz tudo, para construí-lo com o meu “projeto”. Uma água só e telhas vãs em linhas, caibros e ripas de madeiras comprados aos poucos. Esse quarto, pintado a cal, em seguida, foi enriquecido com um ar-condicionado de segunda mão, marca “Feeders”. Faltava o telefone só para mim, pois não consegui fazer a extensão. Era “longe”. Ainda não havia lido o livro “Longe é um país que não existe”, de Fernão Capelo Gaivota. Passa-se o tempo e alcanço a proeza de colocar uma linha independente da casa dos meus pais. O colega de vestibular de direito e jornalista, Francisco Newton Quezado Cavalcante, depois Lúcio Brasileiro e, em seguida, Paco, até me fez uma visita, quiçá para conferir como eu vivia. Deve ter sido aí que ele intuiu que eu era “um rapaz de futuro”, pois havia livros e máquina de escrever sobre o birô. O acesso ao quarto era independente, na lateral direita da casa. Fazia limite com fundos de residências na Rua Saldanha Marinho, onde moravam as famílias do Sr. Pascoal, dono da fábrica “Lord”, de temperos; Dona Mariinha Furtado, avó da Vânia que viera de Baturité para estudar em Fortaleza; e o Sr. Pinheiro, funcionário do Banco do Brasil que só tinha uma agência, na Praça Waldemar Falcão, ao lado do velho Mercado. Corto o tempo. Chegamos ao hoje, muitos lustros ou décadas depois. Tenho um “smartphone”, o telefone sabido. Mas não sou “geek” ou “nerd”, os adictos da tecnologia. Por conta desse telefone sabido, sou achado - ou não - por amigos e familiares. Explico: há muito tempo, tenho a deficiência de perder livros, carteira, telefone, pasta, pacotes etc. Não é coisa ainda do alemão “Alzheimer”, garanto. É esquecimento mesmo, por conta de afazeres mais importantes. Algumas vezes sou procurado e não acessado. Ligam direto: a recepcionista demora a atender na central, pela quantidade de chamadas que recebe. A secretária, quase tão avoada quanto eu, igualmente tarda a ouvir as chamadas. A culpa, então, é só minha: o “desaparecido”. Acresça-se que me esqueço de dar carga no dito cujo, o que não parece crível para alguns. Hoje, leio no Wall Street Journal, análise de Eric J. Topol, médico cardiologista e consultor do Google, sobre os tais telefones espertos. Eles passarão a ter novas funções com ferramentas e programas que permitirão, acredite, diagnosticar uma infecção de ouvido (talvez provocada pelo próprio), medir batimentos cardíacos - alterados pela desconfiança em não atendê-lo - e até um aplicativo a monitorar nossa saúde mental (os “caras” sabem que ficamos fulos quando nos perguntam: onde estava que não atendeu?). Assim, teremos “avatares” que adiarão a visita ao médico, esse que, via de regra, não nos atende bem na consulta, pois o seu celular toca e atrapalha. Ele pede desculpa, conversa um pouco, e meio sem graça, diz: era a mulher perguntando a que horas chegaria para jantar. Enfim, adeus privacidade, pois até as coceiras poderão ser fotografadas e, por ”download” (baixar), ver um programa a processar a imagem. Um algoritmo dedicado fará a leitura técnica e apontará o diagnóstico. Lembrei-me de Flash Gordon, nas séries de ficção científica, já então protagonizada por Steve Holland. Sei não, mas o falecido Alexander Graham Bell, inventor da companhia telefônica, não ousaria pensar nessas extravagâncias para o primevo e simplório aparelho que servia apenas de comunicação entre empresas e vizinhos próximos. Loucura total do futurismo, hoje está tudo arquivado na nuvem. Olho para o firmamento: qual delas? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/01/2015. - [ADAUTO E HUMBERTO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/adauto-e-humberto-diario-do-nordeste/): A maturidade chega quando as pessoas acreditam ter percorrido caminhos que as levaram ao gozo do presente ou aplainaram todas as diferenças do passado, por sabê-las inúteis. Creio que os gêmeos univitelinos, Adauto e Humberto Bezerra alcançaram este patamar. Não o digo por convivência, pois deles não sou íntimo. Tampouco como contrapresta-ção por favores que nunca pedi. Eles fizeram parte da época dos "coronéis", militares de carreira que foram. Engajados, no princípio, na política de Juazeiro do Norte, depois no parlamento ou no executivo, como governador e vice. Hoje, acolhem amigos para rodas de conversa. Eles, quando banqueiros, nunca receberam minha visita para a solicitação de empréstimo, pois nunca devi a ninguém, refratário que sou a qualquer galanteio por interesse. Por que então este artigo? O distanciamento permite-me dizer da admiração pela irmandade que nutrem, sentida e exposta. Na octogenária casa da vida, eles sabem que nasceram de uma só placenta e vivem a relação que todos os irmãos deveriam ou gostariam de ter. Foram bem sucedidos nos campos militar, político e empresarial. Cumprem tempo sabático benfazejo, calejados e gentis, garantidos e simples, com memórias no passado e antenados no presente. O porto afetivo que construíram lhes dá a convicção de que, a partir de cada algodoeiro que plantaram ou beneficiaram, de cada tostão poupado em Juazeiro, transformaram um banco local em estadual, nacional e, por fim, chinês e comunista. Paradoxo? A vida é como ela quer. Nada houve que os separasse. Esta é a maior virtude dos dois. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/01/2015 - [“JE SUIS CHARLIE”, A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E O DIREITO DAS MINORIAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/je-suis-charlie-a-liberdade-de-expressao-e-o-direito-das-minorias-jornal-o-estado/): A primeira vez em que, ainda universitário, estive na França, foi no meio da década de 60. Fiquei hospedado, em Paris, no Hotel de La République, onde, por acaso, estava a simpática seleção soviética de futebol. Fiquei encantado com o país, mas notava - como me advertira o franco-cearense Gérard Boris - que o francês é, quase sempre, resmungão e não se afinava muito com os que não são de lá. O ano de 1968 ainda não havia acontecido. Nesse mesmo tempo, percorri quase todo o interior desse belo país a bordo de ônibus. Um dia, uma amiga foi acometida de mal intestinal e o veículo parou em posto de combustível. Foi-nos dito que só dariam direito ao uso do banheiro se houvesse abastecimento. Enquanto a discussão acontecia, falei para a amiga resolver o seu problema. O gerente saiu soltando palavrões, mas o objetivo fora atingido. De outra feita, já neste século, passei um “Réveillon” por lá. Estava defronte à Torre Eiffel, era frio. O que mais se via eram fogos de artifício, imigrantes africanos e árabes. Poucos ocidentais e orientais. Táxis não apareciam. Os metrôs – nesse dia eram gratuitos – estavam apinhados. As margens do Rio Sena pareciam uma lixeira, garrafas, papelões e latas boiavam em sua superfície. A solução foi aceitar, por preço exorbitante, o uso de carro particular, dirigido por alguém de origem arábica. Ele justificou: só há um dia deste em cada ano. Esta introdução é pessoal, episódica, rasa, e refere que o francês nato não tem muita paciência com turistas (são mais de 75 milhões por ano, dez vezes o que o Brasil recebe no mesmo período). Ao mesmo tempo, dizer dessa mudança na origem das pessoas em grandes eventos de confraternização. Os nativos permaneciam em casa, os de fora pululavam nas avenidas e parques. É preciso não esquecer que a França, tal como outros países europeus, exerceu o colonialismo na África, Ásia e no Oriente Médio. O fim dessa invasão ocorreu apenas no começo da segunda metade do século passado. São muitas as ex-colônias. O fato é que os nativos desses países francofônicos se acharam com o direito de procurar melhor condição de trabalho na antiga metrópole. A par disso, as 30 ditaduras que contaminam o Oriente Médio, berço do islamismo, promoveram o surgimento de grupos tais como o Hamas, Taliban, Estado Islâmico, Jihad, Al Qaeda, Hizbollah e Boko Haram. Alguns desses grupos reivindicam a autoria de atentados, tais como o acontecido à revista “Charlie Hebdo” que, se autointitulava “journal irresponsable”. Cá para nós, o Hebdo abusou do direito de atacar a figura sagrada – para os muçulmanos – do profeta Maomé. Usava humor, sátira e até deboche. Desde 2011, a revista estava com apoio policial, face entreveros e ameaças recebidos. O repúdio natural e a comoção são reflexos da estupefação da maioria dos franceses e europeus. Entretanto, os dois irmãos encapuzados e autores do atentado – e mortos no dia seguinte – eram franceses de nascimento, mas filhos de muçulmanos. Uma primeira questão a se levantar: embora franceses, eles foram ou não integrados aos costumes da pátria do dístico “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”? Quem saiu lucrando com o episódio foi a direita francesa que, comandada por Marine Le Pen, culpou todos os seis milhões de muçulmanos que moram na França e tirou dividendos políticos para a próxima eleição presidencial. A imigração em massa de “diferentes” aconteceu conforme já referi acima e, ainda, por ser o país de De Gaulle, famoso por abrigar dissidentes de ideologias de todo o mundo. Desde a Revolução Francesa, o discurso era esse. Os dois autores do ataque, repito, eram franceses de nascimento. Aqui no Brasil não se costuma distinguir religião/credo ou a origem étnica das pessoas que assumem a cidadania brasileira. Na Europa, não é bem assim. Basta lembrar, por exemplo, a fricção permanente entre naturais da Alemanha e os turcos, que são grande parte da mão de obra local. Particularmente, creio que a humanidade deve aproveitar o episódio para reavaliar a homilia sobre a liberdade de expressão. Ela deve ser soberana ou ter limites? Sociólogos creem que ela não é um direito fundamental absoluto. É notório que grupos minoritários de todos os matizes têm sofrido discriminações e assassínios ao redor da Terra por conta de suas raças e crenças. Não está longe o tempo em que a Ku Klux Kan, composta por ultraconservadores dos Estados Unidos, matava negros e incendiava as suas casas. O mesmo acontecia na África do Sul até a libertação de Nelson Mandela e o fim do “apartheid”. Deixo, então, com Mandela, a conclusão: “Não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/01/2015. - [CAPIM ALTO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/capim-alto-diario-do-nordeste/): Quando você for às compras lembre-se como o dinheiro chegou às suas mãos. Se foi dado por alguém, que reabastece sempre, não tenha dó. Mande brasa. Se for suado, contado e fruto do seu trabalho, vá com calma. Procure fazer uma lista do que realmente precisa. O impulso é, muitas vezes, maior que a razão. Grife não produz, terceiriza e cola etiquetas. Agora, quando for comprar comida, frutas e verduras veja se não está dentro de uma multinacional atrás de nome brasileiro. Acontece assim, um português/árabe/judeu/nordestino, chega à cidade grande e monta uma mercearia. Trabalha de sol a sol. O negócio prospera, o dono aumenta a área e, tempo depois, vira mercadinho, supermercado e loja de departamentos. O mourejador cansado infarta. Morre no hospital luxuoso. Filhos choram. Uns menos que outros. Passa o luto. Herdeiros fundam uma sociedade anônima e resolvem abrir o capital. Há anúncios, reportagem em TVs e os netos chegam à festa em carrões e cabelos vaselinados. O barco vai singrando e as famílias aumentam. Há filhos, noras, genros, netos, mulheres e maridos dos netos, uns com ciúmes dos outros. Brigam e ficam distantes. Uma assembleia geral extraordinária é convocada para ouvir proposta de grupo estrangeiro. A cobiça aumenta e, após discusões, ouve-se a firma de consultoria contratada por hora. Ela diz: é hora de vender. Os "estranjas" assumem o controle e vocês recebem ações e uma parte em dinheiro. Exultam. O português/árabe/judeu/nordestino revira no túmulo que está com capim alto e as luminárias enferrujadas. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/01/2015 - [MÁRIO GOMES MORREU? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mario-gomes-morreu-jornal-o-estado/): “E andando no sol que cega,/ sentir com triste espanto/como toda a vida e o seu tormento/que corre continuamente é uma muralha/que em seu topo tem cacos pontiagudos de garrafa”. Eugenio Montale (1896-1981), poeta italiano. (Paulo) Mário (Ferreira) Gomes morreu no último dia do ano. Foram juntos, ele e o ano. Quem não conheceu Mário Gomes não é bem fortalezense. Tampouco sabe da importância do desvario alegórico dessa figura singular, abusada, que sabia ser poeta e só falava com quem elegia. Não portava identidade e fizera do centro antigo o seu habitat. A sua obra é, inclusive, objeto de tese de mestrado da jornalista Ethel de Paula. Paletó sobre camisas, calças amarfanhadas e sapatos rotos por andanças. Seria ele exemplar perdido da geração “beat”, como entendeu o e escritor Márcio Catunda? Ou pós-moderno “Carlitos”, o personagem de Chaplin? Creio que ele viveu como quis e se sabia admirável em sua franciscana, mas airosa figura, mesmo que a dorsal, aos 67 anos, não mais o deixasse ereto. O fato é que o G-1, imaginem, o site da rede Globo, estampou, quase na hora, a sua morte: “ Ceará -... Mário Gomes era conhecido como poeta descomunal e tornou-se popular como transeunte da Praça do Ferreira e no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.” A exigente Folha de São Paulo, edição desta terça, 06, página C4, registrou: “Mário Ferreira Gomes(1947-2014)- Um poeta das ruas de Fortaleza”, em negrito mesmo, escrito por Andressa Taffarel. Reproduzo duas colunas, mas foram três: “Vez ou outra, Mário Gomes convidava as pessoas para irem a seu escritório na praça do Ferreira, em Fortaleza. Se lhe perguntassem qual era o endereço exato, responderia sem subterfúgios: ‘Na praça’ – às vezes a frase vinha acompanhada de alguma palavra um tanto grosseira, não publicável aqui. O ‘escritório’ nada mais era que um dos bancos do espaço público onde Mário reunia poetas como ele, amigos e interessados em ouvir discussões sobre literatura. Além de sempre falar o que lhe vinha à cabeça, era conhecido por seu desapego aos bens materiais. Até tinha casa em um bairro da capital cearense, mas preferia viver como um andarilho pelo centro, normalmente de paletó e com uma bebida e um charuto ou cigarro nas mãos. Não admitia que lhe dessem esmolas. ‘Não sou pedinte, sou artista’, dizia. Ajuda só aceitava de pessoas próximas...” Leitor ávido de jornais que não comprava, sabia dos acontecimentos culturais. Era comum vê-lo no calçadão que medeia a Igreja do Rosário e o Palácio da Luz, quando a Academia Cearense de Letras realizava solenidades. Ficava ao largo, como a balbuciar alguns dos seus muitos poemas. Um deles: “Beijei a boca da noite/ e engoli milhões de estrelas./ Fiquei iluminado./Bebi toda a água do oceano./Devorei as florestas/ A humanidade ajoelhou-se a meus pés,/pensando que era juízo final./Apertei com as mãos, a terra/ Derretendo-a/As aves em sua totalidade/Voaram para o além/Os animais caíram do abismo espacial. /Dei uma gargalhada cínica/E fui descansar na primeira nuvem/Em que o sol me olhava/ assustadoramente./Fui dormir o sono da eternidade/ E me acordei mil anos depois/Por trás do universo.” São tantos seus versos, seus livros e suas idas e seus retornos ataviados por caronas ao Rio e a Salvador. Por fim, Mário quedou-se e se apropriou da praça e do Dragão do Mar. Ia à rua Pereira Filgueiras e à Rua Dom Joaquim, em raros sábados. No dia 31, pela manhã, o artista plástico Tota me visita e fala do estado grave do Mário. Disse que logo passaria pelo IJF. Em seguida, o Raymundo Neto liga e diz: “O Mário morreu”. Era começo da tarde, sol zenital. Chego ao IJF. Encontrei-o já no necrotério gradeado. O cadeado foi aberto por pachorrento e gentil servidor e a corrente tintilou como sino. O Mário estava sobre uma maca, lado direito, envolto em panos brancos e limpos, atados por fitas gomadas. Literalmente, empacotado. Logo ele que amava a liberdade. Desci ao Serviço Social e encontrei o escritor Raymundo Netto e o artista plástico Tota. Faltava a carteira de identidade para os seus dados oficiais. Exigência legal, mas o capitão da segurança amoleceu quando o Tota mostrou cartolina com fotos do último aniversário do ex-vivo e um livro com a sua foto na capa. Houve surpresa, a irmã chega e mostra o seu plano funerário. Mário não precisava da ajuda de ninguém. Altivo, até depois da morte. Lembrei-me que o via por aí, quase encurvado, como um arco sem flecha , entre profundas pitadas de cigarro, com passadas em zig-zag a desobedecer a lei da gravidade. Pois foi justo ela, a que chama todos os corpos para o centro da Terra, que o fez cair e passar dois dias no IJF, entre resmungos, desaforo aos médicos e aos enfermeiros e o zelo do amigo Tota. Manhã do primeiro dia de 2015. Mário de barba escanhoada, paletó com gravata, deitado para sempre no pátio da Biblioteca Pública Dolor Barreira. Ou voltará daqui a 1.000 anos? Algumas coroas, irmã, sobrinha e pouca gente. Alguns falaram, dizendo das artes e travessuras do silente. Lágrimas, risos e, por fim, um Pai Nosso. Ele já descansava na primeira nuvem branca de um céu azul e, me pareceu, que cinzas do seu cigarro caiam sobre o passeio. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/01/2015. - [PENSANDO 2015 - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pensando-2015-diario-do-nordeste/): É época de pensar e até de fazer conjeturas. De parar e refletir no que fez e, sobretudo, deixou de fazer. Por mais que estejamos alegres, tristes ou absorvidos com problemas, chega um instante em que ponderamos e nos perguntamos: e aí o que ficou de positivo? Você imagina que vai tentar fazer a coisa certa, errar menos que nos anos anteriores, será tolerante, mandará as fofocas para aquele lugar, cuidará da saúde, estimulará o corpo, mas fica algo no ar. A memória reacende com facilidade e isso, às vezes, incomoda. Neste tempo, o viver diário dá o tom da música interior. E essa música, com certeza, tem compasso lento, como se fora uma valsa de Strauss que a maioria conhece, mas não recorda o nome. A evocação não se constitui saudosismo; é como se precisássemos de refrigério para o dia a dia que se assemelha a um “rap”. Você, eu, os que não confessam e os que não sabem, estamos tontos diante de um mundo que mudou sem nos pedir licença e ficou conturbado e violento. Dizem os filósofos que o medo e a esperança andam juntos. Assim, a vida é gangorra. Gente importante como o ex-premier da Inglaterra Tony Blair revelou em livro de memória que tomava uísque puro, gim tônica e vinho para aguentar o rojão do trabalho. Aqui no Brasil, somos ainda otimistas, a presidente Dilma afirmou, antes das eleições: “eu acho que tem hora que exageram um pouco comigo... mas eu sou uma pessoa que convive perfeitamente com a crítica”. Aguardemos. Em tempo: Chegou o 2015, mas o 2014 levou o saltimbanco Mário Gomes, cara e voz da nossa contracultura. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2015. - [UM ESCRITO RASANTE: DE 1945 A 2015 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/um-escrito-rasante-de-1945-a-2015-jornal-o-estado/): “Aquela vida que é bela, não é a vida que se conhece, mas a que não se conhece; não a vida passada, mas a futura. Com o novo ano, o destino começará a tratar bem a vós, a mim e a todos os outros, e a vida feliz se iniciará. Não é verdade?” Giacomo Leopardi (1798-1837), ensaísta italiano. Quando a Segunda Guerra (1939-1945) acabou os que dirigiam o Mundo de então acreditavam que deveria ser criada uma nova ordem. Estabeleceram reparações e, entre outras decisões dividiram a Alemanha em duas. Só a queda do muro de Berlim, em 1989, e o definhamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas- URSS, depois da Perestroika de Gorbachev, foi que a Guerra Fria terminou. Essa nova ordem, discutida, avaliada e considerada, seria a ação firme da emergente Organização das Nações Unidas- ONU, constituída em 24 de outubro desse mesmo 1945. Três anos depois, cercada de muita discussão, foi realizada uma sessão especial da ONU, no dia 10 de dezembro de 1948, para emitir uma resolução sobre os direitos da humanidade. Esse documento é uma das peças mais bonitas produzidas pela inteligência moderna. Basta citar o seu artigo primeiro: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns com os outros em espírito de fraternidade”. De lá para cá já tivemos dezenas de guerras e conflitos e nada de fraternidade. Quem não sabe das guerras da Coreia e do Vietnã? Das guerrilhas na América Latina? Da questão, sem fim, entre Israel e Palestina? Das guerras internas que mudaram o mapa da Europa? Das invasões do Afeganistão e do Iraque. Das lutas envolvendo ditaduras e etnias na África e a disseminação da aids e o ebola de forma cruel. E, mais recentemente, das guerras provocadas pelo islamismo exacerbado com o surgimento do “Estado Islâmico” e o ainda vivo Al Qaeda. São tantas as guerras que não vale a pena contá-las. É claro que a ONU tem procurado resolver, de forma pacífica, os conflitos, mas a sua autoridade maior, o secretário geral (alguém lembra o nome do atual?) é apenas um burocrata bem pago e qualificado, sem autoridade perante os Estados litigantes. Os países fundadores da ONU – e os outros - não se respeitam. A propósito, o nome do secretário geral é Ban Kim Moon. Ora, como cobrar então que exista igualdade, segurança, liberdade e dignidade se a ONU tornou-se uma entidade que privilegia os detentores do comando do Conselho de Segurança e alguns poucos mais? Há, ainda, bilhões de pessoas que vivem em situações miseráveis. Quase dois bilhões vivem em condições desumanas, com parca alimentação, sem saneamento, instrução e lhes falta qualificações exigidas pela industrialização e a mecanização da agricultura. Em dezembro último, Barack Obama dribla a opinião publicada e resolve reatar relações com Cuba. Isolada que foi há 53 anos por um embargo que só poderá ser extinto pelo Congresso dos Estados Unidos. Um detalhe: a maioria, nas duas casas, é republicana, conservadora e adversária do ocupante, até janeiro de 2016, da Casa Branca. Ao mesmo tempo, Obama legalizou a maioria dos latinos “indocumentados”, mas que possuam filhos nascidos no país criado por George Washington e Abraham Lincoln. Seria um xeque-mate político e um reforço para a postulante Hillary Clinton? Por fim, vamos saudar o ano novo e desejar a todos, nesta sexta-feira, 02 de janeiro de 2015, que o Brasil supere as suas dificuldades estruturais e que os temores de uma nova retração mundial não nos atinja. Afinal, se Deus é brasileiro, como deixou o time do “San Lorenzo” ganhar a taça Libertadores da América? É preciso que o papa Francisco pare de fazer milagres em vida e Deus volte a se lembrar dos 200 milhões de brasileiros, a maioria cristãos, sendo que uma boa parte paga dízimo para viver melhor e mais feliz. Em 2014, não tivemos nenhum milagre, mas muitos pesadelos. 2015 é a bola da vez. Viva. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/01/2015. - [O PARADOXO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O DESEMPREGO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-paradoxo-da-inteligencia-artificial-e-o-desemprego-jornal-o-estado/): Enquanto o Brasil se debate com o desemprego de 12 milhões de pessoas, Cingapura, uma ilha-Estado, na Ásia, utiliza robôs para driblar a falta de mão de obra. Lá, dizem, estrangeiros pobres não são bem-vindos. A notícia é do Financial Times, de Londres(via Valor), em reportagem de Jeevan Vasagar. Ele escreve: “São muitos os que temem os avanços rápidos da inteligência artificial na Europa e nos Estados Unidos, em meio aos alertas de cientistas sobre o desemprego em massa. Em Cingapura, contudo, onde as restrições à mão de obra estrangeira deixam muitas empresas em dificuldades para encontrar pessoal, as corporações de serviços encontram cada vez mais soluções automatizadas para contornar a falta de trabalhadores”. O progresso da robótica nos deixa boquiabertos. No começo do século 20 Henry Ford criou a linha de produção em série para produzir carros da mesma marca e da mesma cor, preta. Eram homens nessa linha de montagem. Lembram de “Carlitos” no filme “Tempos Modernos”? Hoje, depois do uso científico do silício, do chip, do computador que, juntos com o homem, formam a tecnologia da inteligência artificial, há um paradoxo a ser resolvido. A Organização das Nações Unidas-ONU e a Organização Internacional do Trabalho-OIT acreditavam e afirmavam: em 2030 não haverá mais desempregados no mundo. Quimera. Com a já quase certa troca de milhares de motoristas por robôs para pilotar grandes caminhões transportadores nos Estados Unidos, haverá greves e afins nos próximos anos. Digamos, na próxima década. Pelo que sabemos os sindicatos dos motoristas de caminhões de carga de lá não vão deixar barato essa situação. Hoje, 2016, há 156 milhões de indivíduos que vivem entre a extrema pobreza (menos de US$ 1,90 por dia/ pessoa) ou de pobreza moderada (de US$ 1,90 a US$ 3,10 por dia/pessoa). Na África do Norte, o nível de desemprego chega a 30%. Nos países emergentes, grupo onde o Brasil está incluído, há falta de emprego para 13,6% da população. Nos países desenvolvidos, incluindo Estados Unidos e Europa, há uma taxa de 14,5% de desemprego que tende a aumentar por conta da imigração via Mar Mediterrâneo sem parar de crescer. Apesar das milhares de mortes nas travessias em balsas e navios sucateados, alugados a mercenários. Em 2015, 248 mil robôs foram vendidos, segundo informações da Federação Internacional de Robótica. Assim, se de um lado cresce o desemprego, do outro surgem soluções como o robô humanoide Pepper, produzido pela SoftBanks Robotics. Pelo que se vê, o desemprego e a indústria robótica crescem em linhas paralelas. Como se sabe, as linhas paralelas só se encontram no infinito. Enquanto isso não acontece, o mundo vive a perplexidade desse descompasso entre o progresso inevitável e o atraso não reduzido ao redor do mundo. E então? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/09/2016. - [O ESTADO - 80 ANOS DEPOIS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-estado-80-anos-depois-jornal-o-estado/): Caso você nunca tenha entrado em uma redação de jornal, não sabe o que está perdendo. Hoje está tudo mais tranquilo, com o suave bater das teclas dos computadores, as reuniões de pauta e o bulício do fechamento da edição. Foi-se o tempo da composição a chumbo quente. Vieram as linotipos, os computadores, esses destruidores do ontem, pois precisam sempre do amanhã, diferente do hoje. Em 1936, uma agremiação política, o Partido Social Democrático-PSD, teve a audácia de fundar, em Fortaleza, mais um jornal e deu a ele o nome pomposo de “O Estado”. Fortaleza, com 136 mil habitantes, possuía vários Jornais: Correio do Ceará, fundado em 1915; O Nordeste, em 1922; Gazeta de Notícias, em 1927; e O Povo, em 1928. O PSD escolheu um jovem advogado, José Martins Rodrigues, para dirigi-lo e assim começa a história do “O Estado”, em 24 de setembro de 1936. Agora, 80 anos depois, “O Estado-Ce” comemora o octogésimo aniversário. Percalços, muitos. Basta dizer que em 1937, como todos sabem, o Brasil entrou no “Estado Novo”, regime político ditatorial, e dele só sairia em 1945 A história do “O Estado” está sendo escrita pelo jornalista e professor Luiz Sérgio Santos, daí não precisar discorrer sobre todas as vitórias e as barreiras deste jornal que chega às bancas e às mãos dos assinantes todas as manhãs, de segunda a sexta-feira. Os 80 anos, amanhã completados, devem ser motivo de alegria para os que cultuam a democracia, a informação e a liberdade, objetivos maiores deste compacto periódico a cada dia. Ele traz o essencial do acontecido no Ceará, no Brasil e no Mundo, originado não só pelas agências de notícias e o captado pela Internet. Além do jornal impresso, “O Estado” possui blog e televisão, via Youtube. Há que se destacar a argúcia de seus articulistas explorando os eixos sobre os quais passeiam as grandezas, as sutilezas e as vilezas humanas, sem sensacionalismo e com ponderabilidade. A ascensão de Ricardo Palhano à direção do jornal, acolitado pela família, aconteceu desde a morte de Venelouis Xavier Pereira, em 1966. Procurei alguém com densidade jornalística e conhecimento das entranhas do Jornal para falar sobre “O Estado”. A escolha recaiu na pessoa do articulista Macário Batista, esse jornalista globe-trotter a temperar os seus textos diários com a argúcia de veterano, a leveza do humor, e a determinação de “foca” que sai atrás daquilo que, algumas vezes, sequer sabe definir ou mensurar. Macário diz: “Os sonhos nunca duraram tanto. Lá atrás, no tempo, quando os intelectuais-políticos, gente que sabia ler e escrever, criou O Estado, sonhavam com uma imprensa livre, com um lugar pra disseminar ideias, um canto pra repousar o ideário libertário do Ceará. 80 anos do Jornal O Estado, no meu juízo, passando por todos os instantes porque passam instituições feitas de sonhos e desejos é uma realidade madura, generosa, verdadeira, una no seu todo. Estou lá, faz coisa de 25 anos. Humildemente incluo meu nome nesses 80, crente na seriedade dos propósitos dos que deram sequência ao trabalho do saudoso Venelouis Xavier Pereira. O jornal ganhou o rosto da juventude, o gestual meigo da presidente Wanda Palhano e a coragem nunca perdida de seguir a verdade e a legitimidade das instituições democráticas”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/09/2016. - [A BOLSA E O CHANEL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-bolsa-e-o-chanel-jornal-o-estado/): Não dormira bem, apesar do velho Valium, seu companheiro há anos. Acordara cedo e sentira o absorvente higiênico embebido. Foi ao banheiro, uma ducha quente demorada, penteou os fartos cabelos ruivos, cuidou da maquiagem como a marca Esther Laudée oferecia e mirou seu corpo no grande espelho embaçado pelo vapor. Passou a manga felpuda do roupão Gucci e gostou do refletido. Era uma moça bonita. Largara tudo em Chicago e recomeçara a vida em Nova Iorque, a cidade que lhe dera aquele pequeno, mas valioso loft, em Tribeca. Solitária. Escolhia os seus homens. Transavam, dava um beijo de despedidas, tomava o seu Vallium e deitava solitária na larga cama entre lençóis de seda e fofos travesseiros, abraçando-os em posição fetal. Abriu o armário e encontrou apenas um absorvente. Passaria na drugstore no subsolo do seu trabalho, na Torre Norte, e compraria uma caixa. Ligou a cafeteira, colocou duas fatias de pão integral na torradeira e tomou o suco de tomate junto com o cotidiano Prozac. Sentou quieta e bebeu cada gole do café encorpado. Mordiscou, distraidamente, a torrada sem geleia para não engordar, escovou os alvos dentes e pincelou os lábios com o novo lançamento de batom. Escolheu um vestido negro de botões cinza-escuro como uma túnica chinesa. Era adequado para aquele setembro ainda quente. Mudou os pertences para a bolsa Louis Vuitton combinando com os confortáveis e altos sapatos a fazer do seu trajeto diário uma passarela imaginária. Havia tempo ainda. Desceu ao subsolo, escolheu um pequeno pacote do absorvente higiênico, colocou-o na cestinha e viu na gôndola próxima um vidro de Chanel nº 5. Era a velha tentação. Olhou para os lados e não teve dúvida em colocá-lo na bolsa. O calafrio criava o clima. Era um misto de medo, desafio e prazer. Já discutira isso dezenas de vezes com o seu analista. O desejo furtivo de roubar nada tinha a ver com necessidade, era um impulso incontrolável. Não importava o nome de cleptomania. Nunca fora apanhada. Cuidadosa, olhava sempre para os lados e fugia das câmeras. Dirigiu-se a um dos caixas, apresentou o absorvente e o cartão de crédito. Não vira o segurança a seguir tudo de longe. Polidamente, mas incisivo, solicitou acompanhá-lo à cabine especial. Mesa branca, cortina de veludo negro e luz forte. O segurança pediu para colocar todos os pertences de sua bolsa sobre a mesa. Ela relutou, mas parecia sentir um estranho prazer em ser apanhada. Em meio a seus pertences, lá estava o vidro de Chanel nº 5, ainda com a tarjeta magnética. O segurança tocou a campainha, ao tempo em que ecoavam imensos e prolongados estrondos. Uma viga de aço o atingiu mortalmente, grandes blocos de pedra caíram em meio à poeira, formando um escudo protetor para ela, enquanto a fragrância do Chanel nº 5 evolava pelo chão, misturando-se ao sangue da fronte do segurança. _______ Explicação: o conto acima integra o meu livro “Sobre a Gênese e o Caos”. O reproduzo pela passagem dos 15 anos dos atentados em 11 de setembro de 2001. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/09/2016. - [ATITUDES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/atitudes-jornal-o-estado/): Todos, no Brasil, resolveram cobrar o outro. Cobram tudo. Desde fraternidade expansiva, como se a maledicência e o uso indevido das confidências não fossem uma fraqueza do ser humano. Falam de gestos, querendo significar atitudes, posturas, comportamento. O gesto conhecido, com testemunhas e datas marcadas, não deve ser o que mais representa e importa. Parece-nos que a exposição, a divulgação e o conhecimento reduzem os gestos a uma mera pantomima. O que deve importar a cada um não é esperar gestos dos amigos, é descobrir – cada um a seu modo – a maneira de engrandecer a relação ou dignificá-la por paradoxal que pareça, até com o silêncio. A prestação de contas de cada pessoa é com a sua consciência, a sua crença ou os seus valores. Não acrescenta muito dizer, deixar que se saiba ou transparecer o que se faz ou deixar de fazer em benefício do próximo. Truísmos? Talvez. O fato é que a sociedade e as pessoas próximas nos veem não como somos, mas como imaginam que somos. Cada um vê o próximo a partir de seus próprios valores e do grau maior ou menor de empatia, simpatia ou antipatia que nutre. Os grupos, as famílias, os companheiros de trabalho e os partidos políticos devem procurar uma nova equação para o relacionamento, não aferindo as reações do próximo com meros atos contrários aos nossos sentimentos, interesses e desejos, mas com manifestações de liberdade, de independência e do exercício do direito de viver. É claro que tudo isso passa por uma peneira, que é a própria interação, a afinidade, a benquerença, a forma de pensar e o amor. O filósofo Emmanuel Kant, na sua obra “Crítica da Razão Pura” faz a distinção entre coisas e pessoas. Segundo Kant, o que diferencia coisas de pessoas é o valor. O valor das coisas é extrínseco, atribuído a elas por terceiros e se chama preço. O valor das pessoas é intrínseco, faz parte delas, não é atribuído por ninguém, e é o que se pode chamar de dignidade. Assim, atitudes não devem ser classificadas como produtos para que nosso “preço”, perante terceiros, seja aumentado. Atitudes não são meras representações ou dispêndios financeiros. Vêm lá do fundo, onde moram ou devem morar o que cada um tem de mais caro. Cada um deveria lembrar o que disse certa vez Abraham Lincoln: “Faço o melhor que sei, o melhor que posso, e o faço até o final. Se ao fim de tudo deu certo, o que dizem contra mim não importa. Se o fim resulta num erro total, dez anjos sussurrando em meus ouvidos que eu esteja certo não farão a menor diferença”. Pois é. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/09/2016. - [FOTOJORNALISMO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fotojornalismo-diario-do-nordeste/): O Ceará foi e é berço de excelentes fotojornalistas. Destacam­se os que mourejam agora nos jornais e nas revistas locais. Devemos lembrar que, em passado não remoto, Luciano Carneiro foi um grande fotógrafo, inclusive de guerra. Outro nome de destaque é Luiz Carlos Barreto. Ele começou a sua vida com uma máquina a tiracolo e soube, pouco a pouco, ir mudando à cinegrafia. A Galeria BenficArte está apresentando desde 6ª­feira, dia 2/8, a exposição "Olhares do Fotojornalismo Cearense". Ainda bem que os nossos fotojornalistas não vivem em países conflituosos. A foto de jornal não pode ser casual, descuidada ou atemporal. Ela deve ser ligada a uma história narrada, seja na área social, econômica, política, na policial e em situações limites, como atentados, guerras e afins. Ela deve resplandecer sobre a notícia, sem ofuscá­la, tratando de incitar o leitor a ler o texto que a acompanha. Nesta Exposição estão presentes os seguintes fotojornalistas: Bruno Macedo, Deivyson Teixeira, Edimar Soares, Érica Fonseca, Evilázio Bezerra, Fabiane de Paula, Fábio Lima, Felipe Abud, Genilson Lima, Kiko Silva, Levi Fonseca, Lex Costa, Marcos Campos, Rodrigo Carvalho, Tatiana Fontes, Thiago Gaspar e Tuno Vieira. Escolhemos, em comum acordo com o Sindicato dos Jornalistas do Ceará, homenagear os fotojornalistas Levi Fonseca, Marcos Campos e Stênio Saraiva. A todos, a Galeria BenficArte dá boas vindas e os mostra tal como quiseram ser vistos, com audácia e arte. Ao público, recomendamos uma visita à exposição com atenção aos detalhes. São eles que importam, na fotografia e na vida. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/09/2016. - [ATITUDES COBRADAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/atitudes-cobradas-jornal-o-estado/): Todos, no Brasil, resolveram cobrar o outro. Cobram fraternidade expansiva, como se a maledicência e o uso indevido das confidências não fossem uma fraqueza do ser humano. Falo de gestos, querendo significar atitudes, posturas, comportamento. O gesto conhecido, com testemunhas e datas marcadas, não deve ser o que mais representa e importa. Parece-nos que a exposição, a divulgação e o conhecimento reduzem os gestos a uma mera pantomima. O que deve importar a cada um não é esperar gestos dos amigos, é descobrir – cada um a seu modo – a maneira de enriquecer a relação ou dignificá-la por paradoxal que pareça, até com o silêncio. A prestação de contas de cada pessoa é com a sua consciência, a sua crença ou os seus valores. Não acrescenta muito deixar que se saiba ou transparecer o que se faz em benefício do próximo. Truísmos? Talvez. O fato é que a sociedade e as pessoas próximas nos veem não como somos, mas como imaginam que somos. Cada um refere o próximo a partir de seus próprios valores e do grau maior ou menor de empatia, simpatia ou antipatia que nutre. Os grupos, as famílias, os companheiros de trabalho e os partidos políticos devem procurar uma nova equação para o relacionamento, não aferindo as reações do próximo com meros atos contrários aos nossos sentimentos, interesses e desejos, mas com manifestações de liberdade, de independência e do exercício do direito de viver. É claro que tudo isso passa por uma peneira, que é a própria interação, a afinidade, a benquerença, a forma de pensar e o amor. O filósofo Emmanuel Kant, na sua obra “Crítica da Razão Pura” faz a distinção entre coisas e pessoas. Segundo ele, o que diferencia coisas de pessoas é o valor. O valor das coisas é extrínseco, atribuído a elas por terceiros e se chama preço. O valor das pessoas é intrínseco, faz parte delas, não é atribuído por ninguém e é o que se pode chamar de dignidade. Assim, é que atitudes não devem ser classificadas como produtos para que nosso “preço” perante terceiros seja aumentado. Atitudes não são meras representações ou dispêndios financeiros. Vêm lá do fundo, onde moram ou devem morar o que cada um tem de mais caro. Cada um careceria lembrar o que disse certa vez Abraham Lincoln: “Faço o melhor que sei, o melhor que posso, e o faço até o final. Se ao fim de tudo deu certo, o que dizem contra mim não importa. Se o fim resulta num erro total, dez anjos sussurrando em meus ouvidos que eu esteja certo não farão a menor diferença”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/09/2016. - [O BRASIL AINDA É ASSIM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-brasil-ainda-e-assim-jornal-o-estado/): “Mude, mas mude devagar, porque a direção é mais importante do que a velocidade”. Clarice Lispector Não há segredo: os entes públicos são os maiores anunciantes da imprensa no Brasil. Alguns jornais, emissoras de rádio e televisão, sites e blogs, querem posar de isentos e ditadores do bem e do mal. Estão longe disso. Há extravasamento de paixões, de interesses subliminares, de queixas e principalmente, da necessidade de vender espaço, tempo publicitário ou projetos especiais. Como se diz no meio, a imprensa vive do Departamento Comercial. Tudo é fonte de receita. Apesar disso, alguns órgãos, quase sempre, convivem com dívidas, multas e impostos em aberto. Como solucionador dos problemas, sempre aparece alguém “bem-intencionado” a procurar fórmulas, parcelamentos das dívidas, deixar prescrever atuações e assemelhados. Dar um jeito, enfim. Pequeno detalhe: todos os anos, jornais, revistas e cadernos especiais, após a colheita do Departamento Comercial, realizam certames premiadores. As festas são opíparas, com cerimoniais longos e enfadonhos. Em poucos desses casos os premiados até pagam as festas. São os prestadores ou recebedores de favores, os engendradores de soluções aparentemente legais em situações complexas. Atraem-se pelo poder, seja ele qual for. Os agraciados até acreditam nos 15 minutos de fama referido por Andy Warhol. Ainda há os que se descobrem recentes ‘amigos de infância’, colegas e parentes dos poderosos, dos adventícios, dos novos ricos, dos usuários de incentivos fiscais e favorecidos por juros camaradas em bancos oficiais. Dos que recebem isenções disso e daquilo. Louvam, pela frente, os políticos de todas as greis e os encastelados em Associações e Instituições de classe a bradar “ações propositivas”, meras borbulhas. Algumas dessas entidades são plenas de gente encalhada na vida, mas bem remunerada e a fazer quase nada. O pacto nacional tão falado não pode excluir uns e privilegiar outros. Um pacto é exercício de cidadania, não é explicitação de interesses escusos acobertados por pátina de seriedade. Eu, você, nós todos, somos coniventes com tal estado de coisas. Vestimos paletós e batemos palmas para uns e outros. Chega! Quinhentos e dezesseis anos após a nossa descoberta acidental por Pedro Álvares Cabral ainda brincamos de fazer e emendar Constituições. A moda agora é editar PECs – Proposta de Emenda Constitucional. Há PECs para todos os gostos e afinidades. À Constituição de 1988 já se agregaram cerca de 100 PECs, algumas casuísticas. Enquanto formos bisonhos e não tivermos a coragem de denunciar as patacoadas diuturnas, em todas as esferas do poder e do mundo real, o Brasil não se manterá sequer entre os países dos BRICs. Infelizmente, nossos tijolos são feitos de argamassas não consistentes e logo se desfazem. É pena. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/10/2016. - [MINHA HISTÓRIA JORNALÍSTICA (A PEDIDOS) - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/minha-historia-jornalistica-a-pedidos-jornal-o-estado/): Recebi, em 1962, do escritor, jornalista e empresário Eduardo Campos, superintendente dos Diários Associados, então maior grupo de comunicação do Brasil, a incumbência de substituir Pedro Henrique Saraiva Leão, titular da coluna diária “Informes Acadêmicos”, no Jornal “Correio do Ceará”. Pedro cumpriria bolsa acadêmica no exterior. Nesse tempo, o grupo dos Diários Associados no Ceará era composto da pioneira Ceará Rádio Clube (hoje, Rádio Clube-AM), da TV Ceará, canal 2, e os jornais “Unitário”, matutino, e “Correio do Ceará”, vespertino. A coluna “Informes Acadêmicos” durou um ano. Em 1963, comecei a escrever uma nova coluna: “Administração & Negócios” que durou até o ano de 1966. A partir daí, passei a escrever artigos especiais. Uma pequena digressão: o “Correio do Ceará” fora fundado por Álvaro da Cunha Mendes, em 2 de março de 1915. Nesse ano, ocorreu uma das maiores secas do Ceará, transformando Fortaleza em cidade sitiada, com medo de contaminação trazidas por flagelados do Interior. Criaram-se abrigos (“campos de concentração”, no dizer de Rachel de Queiroz, no romance “O Quinze”, 1930), meros depósitos de gente, nas entradas da Cidade, sendo o principal no então bairro do Alagadiço ou São Gerardo. Álvaro Mendes pretendia ser independente e, em consequência, face seu destemor, chegou a ser preso no 23º. Batalhão de Caçadores – então localizado no atual Quartel General da 10ª. Região Militar – ao denunciar falcatruas na IFCOS, Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, criada em 1919, depois transformada em DNOCS. Álvaro era empresário gráfico e manteve o jornal até 1937, quando o transferiu para o emergente grupo dos Diários Associados, comandado pelo paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, inovador da imprensa brasileira, a partir de Pernambuco, depois Rio, São Paulo e, por fim, todo o País. Surgia um grande condomínio de comunicação a incluir jornais, emissoras de rádio, estações de televisão e revistas, entre as quais brilhava “O Cruzeiro”. Esse condomínio fechado compartia o poder em estados brasileiros, entre outros, com o já citado Eduardo Campos e Paulo Cabral, dirigente e locutor da PRE-9, Ceará Rádio Clube. Esse, em campanha para angariar mantimentos a flagelados da seca de 1950, ficou tão popular que conseguiu ser eleito prefeito de Fortaleza, entre janeiro de 1951 e março de 1955. Foi, em seguida, eleito deputado estadual, mas o olhar clínico de Chateaubriand o transferiu para Belo Horizonte e, em seguida, ali sedimentou parte da presença dos Diários Associados. Deslocando-se, em seguida, para Brasília, já centro do poder. Em 1970, em choque com o Governo Militar, a Rede Tupi (o símbolo era um pequeno índio) nome dado por Chateaubriand ao arquipélago de televisões, perdeu a força. Consolidava-se, a partir daí, a hegemonia da Rede Globo, da família Marinho, que fundara o Jornal O Globo, em 1925. Os jornais “Correio do Ceará” e “O Unitário” funcionavam na Rua Senador Pompeu, no centro da cidade, perto da Tipografia Progresso, em imóvel que ia até a Rua General Sampaio. No nível da entrada, trabalhava a administração dos jornais; em seguida, ficava o espaço da redação, não nos moldes de hoje, mas com ortodoxas máquinas de escrever, não as elétricas, que só vieram depois. Do meio para o fim do espaço do casarão – que ia da Rua Senador Pompeu à Rua General Sampaio – funcionavam as oficinas. Era o tempo da composição a chumbo nas linotipos (A line of type), máquina criada no final do século 19. Nas oficinas, o calor era escaldante. Pois foi lá que mourejei até o dia 22 de agosto de 1969, quando escrevi o artigo “O 5º. Aniversário do BNH no Ceará”. Nesse artigo relato: “Na evolução do programa habitacional foi proposta e aceita pelo Governo do Estado a transformação da Companhia Cearense de Sondagens e Perfurações em Companhia Cearense de Saneamento”, atual Cagece. No fecho, destaco: “Este balanço que fazemos à guisa de esclarecimento demonstra que cerca de 80 bilhões de cruzeiros velhos foram carreados pelo Ceará em apenas três anos, provocando um surto animador na economia cearense, isto sem falar no número de moradias entregues para pagamento em longo prazo”. Era o tempo do BNH. Começava eu, nova fase profissional, deixando o batente diário de jornal e tornando-me colaborador semanal deste Jornal O Estado e do Diário do Nordeste. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/10/2016. - [O CONDOMÍNIO GERAL E O RATEIO DAS DESPESAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-condominio-geral-e-o-rateio-das-despesas-jornal-o-estado/): Nós, sócios vitalícios desse Condomínio, não elegemos bons síndicos nas assembleias gerais acontecidas desde 2002. Fomos desatentos e não olhávamos bem o desenrolar dos fatos. Tudo parecia, de princípio, dar certo. Acostumamo-nos a ouvir pronunciamentos, sempre com duplo sentido, como se estivéssemos disputando ou ouvindo uma partida ou campeonato de futebol. O dinheiro era farto, o mundo crescia, as commodities subiam de preço e a alegria era geral. Havia sussurros de o Condomínio estar aparelhado, isto é, milhares de pessoas passaram a ganhar cargos. Além desse fato, comum às gestões anteriores, surgiram boatos da rápida malversação do dinheiro de todos nós. O primeiro a levantar a voz foi o Jefferson, não o presidente ianque. Aí surgiu aquele vídeo de alguém recebendo propina. Merreca. A trama ia sendo desvendada, pouco a pouco, o Grande Banco e a Petrobras perdeu o acento e aumentou as obras, faziam parcerias com as big empresas, as fazedoras de tudo, sempre amigas dos síndicos. De todos. Havia um limite no ousar. Esse limite foi sendo ultrapassado, dia a dia, mês a mês, ano a ano. Os grandes empresários do Condomínio passaram a ser amigos, hospedeiros, conselheiros, ministros e convidados permanentes para as viagens internacionais do síndico. Ele propalava: aqui não haveria crise. A crise imobiliária gringa era deles. O nosso condomínio era seguro e o síndico foi até chamado de “O cara”. Acreditou e não admitiu ser mero afago, uma “joke”. No rastro do 2008 o Condomínio começou a sentir incômodos, logo qualificados de marolinhas. Não eram. Viraram ondas, depois mudaram para pequenas tempestades. Nesse meio tempo, depois de duas assembleias quadrienais, obrigatoriamente, deveria eleger nova administração. Optou-se por uma mulher-gerente. Tudo melhoraria, de novo. Destemida, temível, diligente e sozinha, afora o seu padrinho e os seus camaradas. As torneiras secavam, os jardins murchavam, a energia subiu, depois baixou. Uma solução: todos os mega poderiam obter financiamentos subsidiados no Grande Banco. Os pobres passaram a comprar casas, geladeiras, fogões, camas, mesas, motocicletas e carros em prestações. Mais dia, menos dia, tudo seria cobrado. Pagar é outra conversa. O fato é: a diligente não era tão apropriada, possuía como hábito dar gritos a torto e a direito, e pedalar. Os condôminos assoalharam haver muita conversa e pouca realidade, na história contada. Contas foram mexidas a bel prazer. Técnicos e utopistas foram atrás do rombo. Caixa e Razão. O ex-síndico passou, exultante o comando. Agora, se autonomeara embaixador plenipotenciário para um Continente, devidamente acolitado pelo Grande Banco e os mega empresários, sempre pressurosos em ceder aviões, mordomias, reparar os danos causados pela escravidão aos irmãos do outro lado do oceano. Do lado de cá, fez um porto, enquanto fumava cigarrilhas. O resto, todos não sabem ou não imaginam saber. Esta história ainda está plena de erros, hiatos, omissões e o longo curso continua. Há outro síndico no leme do Condomínio. Deus nos ajude. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/10/2016. - [REVISÃO MÉDICA NUCLEAR - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/revisao-medica-nuclear-jornal-o-estado/): Quando se passa da idade média – não a era, mas a do primeiro cinquentenário – manda a razão começar a prevenir a saúde do futuro. Ouvi de amigos, os que fizeram Pet-Scan ou Pet-CT por aí afora: devemos fazê-lo para prevenir ou descobrir doenças. PET-CT, em palavras não minhas, significa uma tomografia computadorizada por emissão de pósitrons, com substância radioativa (18-Fluor desoxiglicose ou outra). Havia tempo eu passara dos 50 agostos de vida. Um amigo ousou dizer: “Vá. O PetScan é o máximo”. Crio coragem. Ouço um médico. Ele não diz sim, tampouco não: “se quiser, faça, pois tira as suas dúvidas”. Traduzindo, PetScan, mal comparando, é uma espécie de diagnóstico como os donos zelosos de carros fazem em oficinas autorizadas. Em resumo, é um exame feito por uma máquina sofisticada, com tecnologia de ponta, com alto custo de importação e pressupõe dar diagnósticos precisos. Ele permite medir a atividade metabólica de possíveis lesões e nos leva a ter uma maior certeza de possíveis doenças neoplásicas em atividade. Para quem não sabe, onde se lê neoplásica leia-se câncer. É um trabalho a envolver medicina nuclear e radiologia. Os amigos dizem: “Pegue um avião e procure a clínica ou hospital tal. Eu já fiz lá. É simples”. Quando lhe disserem isso, não acredite. Nada é simples. Você marca tudo pelo telefone, pega um avião e só pode fazer exame um dia depois, bem cedo. Jejuar por seis horas e vai para uma clínica ou hospital. É bem atendido, imaginam ser você um retardado e começam a explicar e fazer perguntas. No meu caso, como não levei requisição médica. Liguei para cá, médico daqui e de lá conversam. A requisição por e-mail. Demorou. Cumprida essa etapa, pedem-me para assinar um documento liberando a responsabilidade deles e outros mais, inclusive passar logo o cartão de crédito. Depois dessa tardança, visto roupa descartável e entra-se na rotina do exame: injetam a substância radioativa – e passa-se uma hora de molho, esperando a agudeza no organismo. Uma hora e qualquer coisa após, relembram-se da minha existência. Levam-me para um ambiente parecido com centro cirúrgico. Ligam tudo. Ficamos eu e a máquina sofisticada. Ela começa o seu trabalho. Faz barulho. Tuco, tuco e tuco! Não tive medo. Só achava chato. A máquina indo e voltando. Dizem ser só 35 minutos. Não é. É mais. Enfim, param. Examinam o andamento em outra sala. E volta a máquina de novo ciscando sobre o corpo deitado e indefeso. Tudo concluído, saí da máquina e pedem-me para tomar litros de água a fim de retirar a radiação. Dilúvios de xixi. Muito mais que você pensa. Fico, à força, descansando por duas horas. Peço um livro. Conseguem. Passo a ler. Ao final, o médico vestido no seu jaleco, diz polidamente: “tudo correu bem e o resultado será mandado por Sedex em uma semana”. Ia esquecendo: oferecem um lanche “gratuito”. Dispensei. Queria sair de lá. Uma semana e pouco depois – tam, tam, tam, tam! – chega um imenso envelope. Após aberto, vejo-me por dentro e de corpo inteiro. Tudo colorido. São várias páginas, um CD com laudos circunstanciados para dizer isso e aquilo. Poupo-os dos detalhes. Afinal, escapei. Ufa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/10/2016. - [DONA GERCILA., " AVIS RARA" DO BEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dona-gercila-avis-rara-do-bem-jornal-o-estado/): Algumas pessoas recebem, mesmo sem saber, sinais de que seus dias serão pintados com tintas diversas. A vida não é folgança. É exercício de viver o inesperado, especialmente, quando os anos, os lustros e as décadas, vão sendo acumulados às tarefas autoimpostas ou, sabe-se lá a razão, mudam. O temporário vira definitivo, toma outra dimensão. Uma mulher simples nasce em 07 de outubro de 1922, na Fortaleza de tanto sol, nas cercanias da Prainha. Foi acumulando perdas: a mãe morreria em 1929. Começa um “crash” pessoal, não o dos alicerces atingidos na Wall Street. Em 1935, morre o pai e é acolhida por tios. Católica deixava suas lágrimas furtivas pelos corredores do Colégio das Irmãs Doroteias, na hoje vazia capela da esquina com a Av. Domingos Olímpio. Depois, seguindo, sem saber, os passos de Rachel de Queiroz, conclui o curso Normal no Colégio da Imaculada Conceição. Estava carimbada para o mundo. Era professora. Assim o fez no Colégio Santa Isabel, ali perto da Faculdade de Agronomia, e no Colégio São José, nas cercanias do Parque da Criança. Deu-se o estalo, não lhe apetecia ser uma mestra contratada. Pensou e materializou o sonho no Ano da Graça de 1950, quando fundou, em imóvel seu, o Instituto Cristo Rei, no bairro de São Gerardo, na Av. Bezerra de Menezes, 1643. Precisava de mais luzes. Resolveu estudar Teologia. Para aperfeiçoar a sua didática deu-se ao trabalho, já madura, de se graduar em Pedagogia pela Universidade Estadual do Ceará. Todos os seus dons e a sua confiança foram sendo canalizados para o ensino de crianças pobres, algumas doentes, muitas sem o amor dos pais. Elas foram fazendo do Instituto Cristo Rei um lugar de acolhimento seguro, ano após ano, para centenas de miúdos, independentes de idade, sexo, raça ou do seu nível mental. Tive a graça de conhecer Gercila Rodrigues Vieira neste século, quase oitentona. Foi benquerença espontânea. Muitas vezes, sem avisar, percorri os corredores não tão retos, tampouco bem iluminados do seu Instituto. Aos fundos, uma área de recreação onde crianças jogam bola alegremente. A casa cresceu como uma Babel do bem, formando um “L” de lar e de luta no imóvel por ela comprado com frente para a Rua Gen. Piragibe. Algumas ocasiões, dei carona a D. Gercila e aos seus pimpolhos, sempre alegres, mesmo quando apinhados. Nesses 66 anos cuidou de cerca de 4.000 crianças e jovens. Muitos se profissionalizaram. Algumas preferiram ficar por lá e ajudar na faina sem fim, como a Marinete e a D. Edite. A luta deve continuar. D. Gercila recebeu, em 2005, o título de “Gente de Bem”, no seu vestido simples, florido, óculos com armação marcante, cercada por seus meninos. Ela já fazia parte do nosso convívio. Na noite desta terça-feira, 22.11.2016, na Paróquia de São Gerardo, plena de crianças, jovens e adultos, foi celebrada a missa de 7º. dia do seu falecimento, aos 94 anos. Flores brancas enchiam jarros no ofertório, ouviam-se cânticos e respeitosos adeuses, a partir da amiga Eudismar Mendes e de muitos outros. Resquiescat in Pace. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/11/2016. - [ARI DE SÁ CAVALCANTE, PRELÚDIO DE ARTIGO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ari-de-sa-cavalcante-preludio-de-artigo-jornal-o-estado/): O meu olhar criança via o professor Ari de Sá Cavalcante – Ari de Sá – vestido, quase sempre, com ternos claros e gravata. Pouco sorriso nos lábios encimados por bigode negro e o escasso falar dos incomuns. Nesse tempo eu usava farda com calças curtas, no Farias Brito-FB, na Avenida Duque de Caxias, esquina com a Rua Major Facundo. Ali estudei desde o primeiro ano do primário até a conclusão do curso de Humanidades. Ari de Sá integrava o Partido Social Democrático, PSD, o mesmo do seu irmão, Walter de Sá Cavalcante, deputado federal. Certamente atiçado por Walter, foi candidato, duas vezes, a prefeito de Fortaleza. Meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, era seu amigo e colega no Diretório do PSD. Creio ser essa a razão maior pela qual me matriculou no FB, pois sabia a quem estava entregando o seu primogênito. Outra razão, nós morávamos ali perto, na própria Major Facundo. Andava pouco, bastava mudar de calçada e atravessar a Clarindo de Queiroz. Na última casa, antes do FB, morava o livreiro Luiz Maia, dono da “Livraria Renascença”, na mesma Major Facundo, dois quarteirões adiante, lado da sombra, logo ao atravessar a Rua Pedro Pereira. Defronte, lado do sol, Edson Queiroz montara loja da Ceará Gás Butano. Mesmo com diferentes encargos, Ari de Sá foi aprovado em concurso público para professor do Colégio Militar de Fortaleza. A sua formação bacharelesca, não o impediu a se concorrer ao ensino de Matemática. Exitoso, talvez por acreditar fosse ela a mais simples das ciências, como propalava Auguste Comte, o pai da Sociologia. Assim, saía e voltava – da sua casa na Av. D. Manuel, 482, a base do seu triângulo não equilátero, para a Av. Santos Dumont, onde ainda hoje funciona a unidade escolar do Exército em Fortaleza, e abria o ângulo em hipotética linha reta até a sede do FB, na Praça do Carmo. A diretoria do FB era composta por dois bacharéis em direito, Ari de Sá e João César. Raul Barbosa, Governador do Ceará (1951-1954), escolheu Ari de Sá para ser seu secretário da Fazenda, não pela grei partidária, mas pelo escrutínio de sua visão socioeconômica. O professor Ari, nascido em 1917, em Jucás, crescia e aparecia na sua simplicidade. Quando emergiu a hoje Faculdade de Economia, Administração, Atuária e Contabilidade, da Universidade Federal do Ceará, Ari tornou-se seu professor. Em seguida, diretor, por seis vezes, consecutivas. Criou o “CAEN – Centro de Aperfeiçoamento de Economistas do Nordeste”. O CAEN aproveitava a “expertise” de parte de seus professores, oriundos do Banco do Nordeste, pródigo em aperfeiçoá-los nos EEUU e em outros países, de onde voltavam mestres e se tornavam TDEs., Técnicos em Desenvolvimento Econômico, dando contribuição ao que Celso Furtado sonhava para a região, saber para crescer. Aos 49 anos, em São Paulo, aonde muitos vão atrás de cura, Ari de Sá se finou. Anos depois, quis a vida que o seu Farias Brito passasse por dicotomia. Nascia o Colégio Ari de Sá. Muitas vezes não entendemos por que famílias – em segunda geração- se partilham. Talvez, com a sua matemática célica, o professor Ari de Sá soubesse e, quiçá, emulasse a disputa como um sofisma matemático: dividir para multiplicar. Cada uma das organizações, agora já faculdades, em múltiplas sedes, evoca para si ser a maior do Estado. As duas, juntas, valha-me Deus. Escolhi, de propósito, o jornal O Estado para publicar este artigo. Ao tempo em que Walter Sá Cavalcante foi diretor deste matutino, Ari de Sá aqui escreveu, sob pseudônimo, crônicas, depois enfeixadas no livro “Para Ler no Bonde”. Espero, com vagar, entregar à família de Ari de Sá Cavalcante algo que supere este prelúdio, quando da comemoração do centenário do seu mentor maior, no próximo ano. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2016. - [PÁDUA, SAFIRA E A FLOR EXPOSTA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/padua-safira-e-a-flor-exposta-jornal-o-estado/): Caro Pádua Lopes, desculpe-me por me imiscuir com a sua Safira. Não a pedra preciosa azul usada nos anéis dos engenheiros e dos administradores. Escrevo sobre a mulher erigida em seu romance, de capa do mesmo matiz, “Safira Não é Flor”. Uma crendice assevera, para as pessoas nominadas Safira, personalidade com sabedoria, fidelidade e razão. Imagina! Não haveria muito a acrescentar à crítica segura de Dellano Rios (DN, 05.11.2016). Refiro, mesmo sendo óbvio, nada há em mim de crítico literário. Vou escrever o lido, o sublinhado, sem ordenação e raso como um pé de alface. Deixo para leitores cultos beber a história lavrada em 278 páginas, palavra a palavra. Admito ser modéstia do Pádua se restringir à marotice de presentear “Safira” a amigos. Obrigado, Pádua. Por favor, deixe o seu belo livro aparecer em estantes condignas nas escassas livrarias locais, aviltadas e semidestruídas pela incursão de empresas de capital aberto ou daquelas financiadas a juros mínimos. Elas se estabeleceram aqui para vender de tudo. Até livros. Safira parece ter algo a ver com o citado no livro cinco dos Atos dos Apóstolos, no Novo Testamento. Essa Safira bíblica foi, junto com o marido Ananias, condenada à morte por faltarem à verdade ao Espírito Santo. A Safira do Pádua não era santa, não foi condenada por sua escapadela à Europa com alguém apenas conhecido via Internet. Ela o fez sem sentimento de culpa, mesmo ao saber de outro estranho na empreitada. Larga o marido e os três filhos. Iria, para consumo familiar, viajar com amigas. Lá se foi Safira para a Itália, não para rezar, mas para escarafunchar museus, igrejas, lojas, restaurantes com acepipes e vinhos, hospedando-se em requintados ou simples hotéis, sem deixar de vivenciar espelunca. Passam por cidades como Veneza, Milão, Firenze e Roma. É exato aí quando o autor se desfaz em ciente de artes, contando as histórias de cada obra e do seu artífice. Ele diz: “Gostar de arte, no sentido de apreciá-la com inteligência e sensibilidade, é uma etapa atingida por quem se emociona com a mensagem estética”. Dou fé. Transpostas as soleiras de igrejas, de praças, de museus, Safira se espanta com a profusão de arte. A Itália é um grande museu, com várias exposições marcando os signos e os significados de escolas e séculos diferentes. Esse grande Museu há resistido a guerras e terremotos. Como o mais recente. Os sismos podem sacudir a terra do indefectível Berlusconi, o vário, mas não a destrói. Depois de tudo visto, a trinca foi parar na Grécia. O fim do século XX não era ainda pleno de barcaças com imigrantes árabes e africanos morrendo ou singrando o Mediterrâneo, em busca da Europa a apontar não a entrada, mas a saída ou, como dizem os ingleses, the Exit. Devo arranjar um jeito de incluir a palavra tessitura. Ela aparenta erudição. Não a possuo. Pois bem, há na tessitura de Lopes – fica chique assim – um Aracati novo na brisa literária cearense. Ele embaralha arte sacra e profana, história geral, geografia e o enlevo picante de (des)amantes de primeira viagem. De sentença em sentença, Pádua marca um ponto no bingo com o leitor. Ele dá pista, falsa ou vera, de personagens ao falar do figurante Melchior – não o Rei Mago – e de seus seguidores. Mostra pudor ao escrever “calcinha íntima” e finaliza com cartas capitais. Recomendo a leitura de Safira a quem gosta e sabe ler. Aos embevecidos com a arte. Aos informados ou curiosos da História antiga e da Renascença, com um mínimo de concentração para captar a saudável trama urdida. Parabéns, Pádua! João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/11/2016. - [VER UM SONHO COMO REALIDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ver-um-sonho-como-realidade-jornal-o-estado/): “O raciocínio lógico leva você de A para B. A imaginação leva você a qualquer paragem”. Albert Einstein Domingo passado, o Shopping Benfica completou 17 anos de funcionamento. Antes disso, foram quatro anos de projetos, obras, contratações e acabamentos. Vivemos, portanto, o Sonho Benfica há 21 anos. A inauguração foi na manhã de sábado, 30.10.1999, sem contar com o apoio de nenhum órgão público. Nas paredes viam-se 80 obras de arte, uma camerata tocava. Tínhamos a presença de dona Margarida, a matriarca da família, que completava 80 anos naquele dia. Estávamos cercados de familiares, lojistas visionários, amigos e colegas. A bênção, o coquetel e a consciência de que ali começava uma tarefa dura, cheia de adversidades, mas plena de esperança e arrojo. A arte e a cultura estavam ao nosso lado. Portas abertas, os clientes entravam extasiados com a musicalidade e a arte visualizada. Comprar era e é apenas um detalhe. Vieram mais dificuldades nestes anos todos. Somos da terra, somos simples, o poder público nos cobra. Multam até o nosso nome por ser “propaganda externa”. Não o é. É mera informação. Deveríamos não ter placas? Cedemos ao Metrofor parte do nosso terreno para a hoje Estação Benfica. Recebemos fiscalizações e pagamos impostos, sem isenções. Convidamos e acolhemos instituições públicas que, como nós, atuam nas áreas de saúde, cultura, artesanato, mobilidade urbana e bem-estar social. Trabalhamos juntos o ano inteiro, todos os anos. Hoje, agradecemos a todos os que participaram e compartilham desta missão a que nos impusemos. O povo nos deu crédito. Temos clientes de todas as áreas de Fortaleza. Estamos realizando agora uma Festa Literária. Na próxima semana poderá ser vista bela exposição de fotos com idosas, moradoras de abrigos. Nessa mostra elas estão lindas, sorriem, apesar dos abandonos, das adversidades e do tempo. Obrigado a cada um pela ajuda. Mesmo os que já não estão mais aqui. Que Deus nos abençoe e faça do Shopping Benfica instrumento do bem comum a que se propôs. Ser um shopping comprometido com os seus clientes, com a comunidade, difundindo arte, cultura, responsabilidade social, prestação de serviços e esclarecimentos sobre saúde. cultura. Não é fácil. É prazeroso. Tentam nos estresir. A diferença é “anima e cuore”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/11/2016. - [MARÇO, MULHERES DE BEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/marco-mulheres-de-bem-jornal-o-estado/): Desde sempre saudamos e procuramos compreender a mulher. Não de forma abstrata, mas particularizando atitudes. Criamos programas especiais para atendê-la nas áreas da saúde e do bem-estar. Dedicamos esforços para desenvolver espaços de convívio. Admiramos os cuidados com sua imagem pessoal. Percebemos a mulher em processo de transformação e de plena identidade. Ela é acolhida sempre na Galeria BenficArte (Av.Carapinima, 2200, 2º.piso, Benfica), como artista, pessoa de fé, profissional, ou, simplesmente, mulher. Estamos sempre com livros, jornais e revistas no “Espaço da Leitura” ao dispor de todas as mulheres. Montamos uma linda exposição com fotos e obras de arte de mulheres, através de séculos. Você pode ter a segurança de que está em um espaço livre. Entendemos as meninas-moças, colegiais em flor. Repare bem, nós temos muitas mulheres no trabalho. Em todas as áreas elas aparecem bem-dispostas. Seja na tarefa de cuidar apenas da limpeza ou de planejar e executar a nossa responsabilidade social de forma honesta e sensível. Alegra-nos interagir nas redes sociais e sabê-las vibrantes. Há sempre um sorriso na sua acolhida. A nossa faina começa cedo para tudo estar pronto e limpo. Alegramo-nos com os celulares e computadores ligados. Com a doce e exuberante algazarra das jovens, misturada às das professoras universitárias, presenças constantes. Vemo-nos alegres quando pares se descobrem. Agora, neste março de 2016, fizemos todo um espaço de arte a mostrar a nossa benquerença. Ele é seu, use-o como se em casa estivesse. Veja as mulheres enquadradas em arte, diferentes, únicas. Estamos aqui para servi-las com transparência e atenção. Com os serviços disponíveis e zelos redobrados. Você é muito importante para nós. Tenha convicção de nossa estima e respeito. Para as que primam pela meditação abrimos um espaço zen, sem nenhuma conotação religiosa, apenas uma área de meditação e de recolhimento. Além do já dito, inovamos neste março de 2016. Passaremos todo o mês de março expondo na Galeria BenficArte fotos, biografias e reconhecendo mulheres por suas trajetórias pessoais, suas lutas contra as adversidades, a coragem de persistir, o prazer de pequenas vitórias, as superações e o denodo com que foram construindo as suas histórias familiares, profissionais e sociais. Mulheres como você: com satisfação, apesar dos afazeres. Competente, com histórias pessoais e atitudes firmes. Mas, sobretudo, simples. Sem afetações. São elas: Adísia Sá, Aldeneide Teixeira de Lima, Antônia Agostinho de Sousa, Edlania da Silva Castro e Cruz, Élida Priscila Brasil de Matos Lima, Hermínia Maria Lima da Silva, Jovita Feitosa, Júlia Saraiva Caminha, Julita Teixeira Praciano, Maria Angélica Cirino, Maria da Penha, Maria Luíza Fontenele, Mônica César Praça Galeão, Nair Silva de Castro, Nice Firmeza, Nise Sanford Fraga, Olga Monte Barroso, Rosane Dantas, Raimunda Magalhães da Silva, Sinhá D’Amora, Silgene Evangelista e Simone Dionísio. Todos devem saber das lutas que elas hão vivido para não serem apenas o sexo frágil, um rosto ou corpo bonito. As mulheres nominadas, vivas ou no além, procuraram, passo a passo, atingir o conjunto diferencial que as qualificam como Mulheres do Bem. A luta remonta à História. Entretanto, nos fixamos no hoje, no simples e no razoável, no agora. Parabéns a todas e a cada uma. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/03/2016 - [TUDO FAZ SENTIDO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tudo-faz-sentido-jornal-o-estado/): Fim de semana é muito tempo. Enjoado do que vejo na televisão, vou aos jornais. Na ilustrada, 12.03.2016, Folha de SP, leio que saiu agora, em português, pela Companhia das Letras, o livro “A Conexão Bellarosa-Quatro Novelas”, de Saul Bellow. Bellow, filho de judeus russos fugidos das conflagrações que deram origem ao bolchevismo, em 1917, na imperial terra soviética. Nascido em Montreal, no Canadá, em 1915, mudou com a família, na metade dos anos vinte, para Chicago. Viveu a “Grande Depressão”, dos anos trinta. Os seus pais fomentaram nele a ideia de que naquele lugar havia a possibilidade de crescer na escala social. Era antropólogo, professor da Universidade de Chicago e escritor consagrado com o Nobel, em 1976. Faleceu em 2005. Paro um pouco. Vou às minhas desarrumadas estantes e encontro um livro de Saul Bellow, lido há anos: “Tudo Faz Sentido – Do passado obscuro ao futuro incerto”. Não é romance. É compacto de textos literários seus, de observações sobre vida, pessoas e viagens; palestras mundo afora e o encontro com o tempo, pois escrito na velhice, depois dos prêmios Pulitzer e Nobel, dos anos setenta. O livro “Tudo Faz Sentido” já está com a fenda perpendicular das traças. Nele, encontro páginas que apontei com lápis, as quais me permiti reler, enquanto buzinas, fanfarras, gritos e palavras de ordem desordenavam a quietude da noite de sábado e o dia de domingo. Chicago deu a Bellow várias visões. Primeiro, a da sua rua, onde famílias judias e de outras etnias moravam. Daí vai se alargando com as transformações que a cidade passava, erigindo novos pontos de encontros em diversas mudanças urbanas acontecidas. Depois, o mundo. No “Tudo Faz Sentido” está incluído o longo, erudito, bom, embora prolixo discurso que proferiu, em 1976, ao receber o Prêmio Nobel. Ele começa: “Há mais de quarenta anos, eu era um homem sem diploma universitário e muito voluntarioso. Certo semestre me inscrevi num curso sobre Dinheiro e Técnica Bancária e me concentrei na leitura nos livros de Joseph Conrad. Nunca me arrependi disso”. E se estende sobre o escritor Joseph Conrad, também imigrante, e outros autores. Divaga. Volto à Folha. Nela há realce para a amizade de Bellow com o escritor e acadêmico Allan Bloom. Remexo na página 317 de “Tudo Faz Sentido”. Lá, quando da morte do amigo, em 1992, Bellow afirma, em discurso: “Conheci e admirei muitas pessoas extraordinárias na vida que me foi dada, mas ninguém mais extraordinário do que Allan Bloom”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/03/2016 - [PARABÉNS A VOCÊ, NETA QUERIDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/parabens-a-voce-neta-querida-jornal-o-estado/): Quero dar os parabéns a você. Quero dizer do meu bem querer. Do embaraço em escrever algo que você possa ler. Falar da minha alegria ao vê-la nascer, faz quinze anos. Cercada dos pais e avós, primos e os amigos da família. Era a primeira filha da minha primogênita. Não era, entretanto, a primeira. Era a primeira filha para uma nova família em formação, cheia de esperanças e dando graças a Deus por vê-la no berçário, sendo lavada, surgindo bela, perfeita e ainda com os olhos embaçados. Participei de todos os seus aniversários, as festinhas que reúnem os dispersos pelas circunstâncias da vida. Vi o seu processo de crescimento, não como pai, mas avô, esse ser meio desconexo em família quase plena de meninas. Devo estar em algumas das suas muitas fotos. É fácil apontar. Basta olhar o careca e um bolo que, ano a ano, ia aumentando as velas. Agora, você quer uma festa de menina-moça e o fará para a família, os muitos primos, os amigos e, quem sabe, algum paquera que a esteja próximo. Neste meio tempo aconteceu muita coisa importante das quais você vai se apropriando. Ainda bem que não sentiu as dores do mundo ocidental no dia 11 de setembro de 2001. Não preciso contar detalhes, é sabido por todos. O fato marcou um tempo estranho: o do medo, do não saber quem é o outro, e o que ele pode fazer contra nós. Quando você começava a andar e ainda não havia ido ao maternal, o Brasil ganhava o seu último título no futebol e elegia Lula para presidente. Era um operário, sindicalista e pretendia dar uma nova face ao Brasil. O ano de 2012 terminava com esperanças. Daí em diante, não preciso narrar o que está acontecendo. Você é exímia usuária do celular, usando-os com vários dedos das duas mãos. Você sabe, desculpe repetir, mas foi Steve Jobs, um menino abandonado pelos pais, adotado por um casal simples, quem deu forma e propagou o I-phone. Mudou as relações humanas e estabeleceu conexões, sinapses, antes nunca imaginadas. Mas, isso é mais do seu mundo, que do meu. Sei que gosta de esportes, é aluna atenta e tem personalidade forte. Isso é bom, mas pode dar tilte, se exagerar na dose. Sua mãe é uma amigona, ri e chora com você. Ama-a de forma desmesurada e lamenta quando batem de frente. Queixa-se a seu pai. É natural, faz parte do processo interminável das relações entre pais e filhos. Poderia escrever mais. Paro por aqui. É época de textos curtos e me alonguei. Saiba que a liberdade é um preço caro a pagar no mundo real. Vá em frente, estude e dê luz própria ao seu caminho. Estarei por perto, espero. Eu a amo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/03/2016. - [ALEXANDRE VIDAL PORTO E SÉRGIO Y - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/alexandre-vidal-porto-e-sergio-y-jornal-o-estado/): Alexandre Vidal Porto-AVP é paulista, com origem materna cearense. Sua mãe é a artista plástica cearense Emília Vidal Porto. AVP morou algum tempo em Fortaleza, onde fez Direito na Unifor. Depois, passou no exame cobiçado do Ministério das Relações Exteriores, o Instituto Rio Branco. Fez-se diplomata, andou pelo mundo, Ocidente e Oriente, com opiniões próprias e não se esquivou de aprender outros idiomas. É indiscutível a oportunidade que o Itamaraty propicia aos seus jovens concludentes. Passam a ver o mundo com os olhos da geopolítica, mas incluem na mirada o que trazem de sua ascendência e da sua capacidade analítica dos fatos que presenciam ou o que envolve a comunidade diplomática em cada sítio em que residem e trabalhem. E quem sabe critica, pede explicações. Não contente com a sua peregrinação profissional, AVP foi mourejar na Harvard University, onde concluiu o mestrado em Direito. Tornou-se dissidente na atual fase da diplomacia brasileira e o demonstrou em artigos publicados na Folha de S. Paulo. Mas, isso é outra história. A formação do romancista AVP não é a ficção erudita que Johann Wolfgang von Goethe concebeu para “Os Anos de aprendizado de Wilheim Meister”, uma novela de formação escrita no final do Século XVIII. Alexandre Porto dista mais de dois séculos de Wilheim Meister e é pessoa real, inquieta, com ideias próprias, vanguardista, agora na jovem maturidade dos seus cinquenta anos. “Sergio Y. Vai à América” não é a primeira obra de AVP. Uma das epígrafes do livro é atribuída a Fernando Pessoa, em saudação a Walt Whitman: “E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas/De mãos dadas, Walt, dançando o universo na alma”. Como se sabe, Walt Whitman é um dos grandes poetas americanos, reverenciado por muitos. O seu grande livro de poesia, “Leaves of Grass”, foi sendo construindo ao longo da vida até se tornar a sua odisseia particular, com versos livres, contando a história do seu tempo, as suas ideias libertárias, as suas influências literárias, do seu modo e jeito. Ao cabo, contém 71 poemas. “Sergio Y. Vai à América”, romance denso, bem urdido, e nem por tal razão tedioso, conta a história de Sérgio Y. na versão de seu ex-psiquiatra/ psicanalista. Sérgio era confuso, como quase todos os jovens de família de bens, dotada. Na análise, procurava explicações sempre com base em aspectos íntimos não despontados, pois não havia se despegado da família. Um dia, sem explicações e reticente, Sérgio deixa a análise e segue a vida. Como se soube depois, por conta e alvitre do seu ex-analista, foi para Nova Iorque e se descobre outra pessoa, nova identidade e sexualidade, afeiçoada à profissão de “chef” que descobrira em sua travessia. José Castello, crítico literário, expende: “O romance é contado com contenção e comedimento… O leitor não consegue largar o livro que tem nas mãos”. O resto fica para quem quiser ler esse bom livro, editado pela Companhia das Letras, que bem refere o que muitas pessoas ainda estão por entender. Algumas famílias, menos ainda. Psicanalistas, inclusive. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/03/2016 - [A FÁBULA DE GEORGE ORWELL E A VIDA DE HOJE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-fabula-de-george-orwell-e-a-vida-de-hoje-jornal-o-estado-2/): “A sabedoria chama lá fora, pelas ruas levanta a tua voz”. Prov. 1:20 Eric Arthur Blair nasceu em 1905, na Índia, ocupada pela pátria de seus pais, ingleses. Vivia em condições privilegiadas em país miserável, dividido em castas e com credos distintos religiosos. Eric viu bem cedo o que acontecia na prática, com as injustiças sociais perpetradas pelos detentores do poder. Era leitor voraz, desde Dickens, Shakespeare, Karl Marx e o que se lhe aprouvesse. Com as escaramuças pela libertação da Índia, a família Blair volve à Inglaterra e Eric, além de estudar, ingressa na imprensa, com sentimentos anarquistas, participando, inclusive, da Guerra Civil Espanhola, que antecede à Segunda Guerra Mundial. Foi nesse cadinho que surgiu o seu pseudônimo de George Orwell, pelo qual seria conhecido e admirado. As suas duas obras mestras são a sátira política “A Revolução dos Bichos” (The Animal Farm), sobre a qual falarei abaixo, e “1984”, uma distopia em que a regra é “O Grande Irmão está vigiando você”. Hoje, somos todos vigiados por câmeras nas ruas, os nossos telefones indicam os nossos passos e as nossas conversas podem ser captadas por “hackers” ou por ordem judicial. Ele anteviu isso Na minha (des) informação literária, caótica e multifacetada, a “Revolução dos Bichos” causou-me, há tempos, impressão singular, mesmo sabendo da mente anárquica do autor na análise do socialismo russo, na fase stalinista, A história, na verdade uma fábula, parece singela, mas é complexa. O velho Sr. Jones possuía a Granja do Solar (The Manor Farm). Nela viviam animais de várias espécies, entre as quais um porco (o Velho Major) que, em sonho, viu uma revolução contra o domínio do Sr. Jones, na qual os bichos seriam autossuficientes, sem tutela alguma, criando um governo igualitário. O Sr. Jones morre. O livro é cheio de metáforas. Além do Velho Major, inspirado em Karl Marx, surge Bola-de-Neve, outro porco, que possuía um assistente de sua raça, chamado Napoleão. Há traições e vinganças. Após cinco anos de dominação, Napoleão convence os outros animais de que o realizado era para o bem comum e fala no “sonho de poder”. O livro é pleno de embustes, traições e mudanças de regras. O animal “Garganta” possuía argumentos convincentes e pregava a união contra a dominação pela força bruta, a tortura e até o uso de cães treinados para matar. O fato é que a abominada casa da fazenda virou, “apenas por algum tempo”, centro das decisões dos animais que dominavam os demais. Disseminara-se a ideia de que se você andava com duas pernas, bípede humano, era alguém de má natureza. As regras do “Animalismo” continham sete princípios: 1. Os bípedes são inimigos; 2. Quem possui 4 patas e asas é amigo; 3. Nenhum animal usará roupas; 4. Nenhum dormirá em cama; 5. Ninguém beberá álcool; 6. Nenhum animal matará outro animal; 7. Todos os animais são iguais. Neste momento, em que a grande “Fazenda Brasil”, está em plena convulsão social, ainda não transformada em luta fratricida, é bom que aprendamos algo com a fábula de Orwell. O que seria? ” Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/05/2016. - [NEM VICE E, TAMPOUCO, CANDIDATO A PRESIDENTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nem-vice-e-tampouco-candidato-a-presidente-jornal-o-estado/): “Não são os homens, mas as ideias que brigam”. Tancredo Neves Semana passada, escrevi, neste mesmo espaço, o artigo “O Brasil, vice a vice”. Nele, relatei acontecimentos políticos, a partir da redemocratização, em 1946, e parei no começo dos anos 1980. Um dos dois leitores que possuo pediu que o continuasse chamando-me a atenção por não ter falado no movimento “Diretas Já”, encabeçado pelo então deputado federal Dante de Oliveira, há tempos falecido. Mesmo sendo derrotado, o “Diretas Já” provocou a eleição indireta, em 15 de janeiro de 1985. Concorreram Tancredo de Almeida Neves (vice José Sarney) e Paulo Salim Maluf (vice Flávio Marcílio), saindo vencedor, no Colégio Eleitoral, o primeiro, por 480 votos, contra 180 do ainda hoje deputado federal por São Paulo. Em véspera da posse, exato no dia 14 de março de 1985, Tancredo é internado no Hospital de Base de Brasília – com UTI em reforma – de onde sairiam os primeiros relatos falsos sobre a saúde dele. O secretário de imprensa escolhido por Tancredo, jornalista, ex-Globo, Antonio Britto, entoava, de forma solene, as notícias. Um detalhe na história: Britto, por conta do excesso de exposição, conseguiu, pós-morte de Tancredo, escrever um livro, ser eleito deputado federal, Ministro da Previdência Social e Governador do Rio Grande do Sul. Ao ser internado, Tancredo chama o seu primo Francisco Dornelles, após admitir que devesse passar por cirurgia de emergência. Só aceitaria se tivesse certeza de que a posse aconteceria. Não era diverticulite. O fato é que um leiomioma, benigno, encapsulado em seu intestino, se rompera e havia que se estancar a hemorragia e a provável infecção em curso. Madrugada adentro, reuniram-se, entre outros, Ulysses Guimarães, Francisco Dornelles, Leitão de Abreu, José Sarney e Leônidas Pires Gonçalves, para encontrar uma saída que não se afastasse muito da Constituição de 1967. Era a constatação de que não poderia haver hiato, vazio de poder. Esse fato determinou a decisão harmonizada, não com bons vinhos, mas com múltiplos cafés e telefonemas, na longa noite. E assim se fez. Tudo engendrado e calculado. Amanheceu radioso o dia 15 de março, e José Sarney, que sequer havia sido empossado como vice, assume, de forma interina, a Presidência da República, aceitando, por completo, os nomes do ministério que Tancredo havia escolhido. A morte, aos 75 anos (a mesma idade do hoje presidente interino, Michel Temer), obituada no Instituto do Coração de SP, para o qual havia sido transferido de Brasília, ocorreu na noite do dia 21 de abril, data consagrada ao mineiro Joaquim José da Silva Xavier, Tiradentes, enforcado e esquartejado no Rio, por ordem do Império. O corpo de Tancredo Neves pede sossego, mas sai, no dia 22, de São Paulo para Brasília, daí para BH e, finalmente São João Del-Rei, sua terra natal, em comoção pátria provocada pela mídia, em especial, a televisão. Teorias de conspiração e envenenamento à parte. Após a inumação, volta-se à realidade. José Sarney, que sequer fora vice, pois posse não houvera, passa a ser o “primeiro presidente” da Nova República. Dessa forma, breve, conto a história que os mais velhos e os estudiosos já conhecem. De fato e de direito, José Sarney, que tivera bom trânsito com os militares, foi agraciado por um golpe de sorte e cumpriu todo o período. Na verdade, Sarney nunca chegou a ser vice – não se configurara o ato jurídico perfeito – e, tampouco, candidata-se a presidente da República. Deixou, como legado bom no início com os “fiscais do Sarney”, país pacificado, eleições livres com Collor presidente e a maior inflação da história, em ajustes do ministro da Fazenda, Maílson da Nóbrega. No último mês, 84%. Isto é o que sei, por ler e ouvir dizer. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/05/2016. - [O BRASIL, VICE A VICE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-brasil-vice-a-vice-jornal-o-estado/): Há tempo, muito tempo, o Brasil nos prega peças. Ou somos nós os que pregam peças ao Brasil? Não há como esquecer fatos históricos acontecidos desde a metade do século passado, época que tomei como partida. Hoje é sexta, 13 de maio de 2016. Surge Eurico Gaspar Dutra, eleito presidente, com ideias de algibeira, a mando de sua extremada esposa: decretar o fim das brigas de galos, jogos de azar, fechar os cassinos e sobressair uma capela dentro da sede do governo. Fez o trivial. O povo queria Getúlio Vargas de volta, o dadivoso mentor de legislação trabalhista baseada em princípios italianos, de Benito Mussolini, que pressupõem o patrão, vilão, e o trabalhador, vítima. Eleito, Vargas volta e monta estrutura íntima dentro do Palácio do Catete, incluindo ministros, filhos, jornalistas apadrinhados e curimbabas comandados por Gregório Fortunato. Fustigado por Lacerda e as evidências do crime da Rua Toneleros, opta pelo suicídio, com escrita premeditada, em 24 de agosto de 1954. O homem baixo, rotundo, arguto e bom orador que veio de São Borja, no Rio Grande, para ser o “pai da Pátria”, por mais de duas décadas, leva milhares à visitação do seu corpo inerme. Vargas foi ditador, mito, impulsionou o surgimento da indústria nacional, mas perdeu a legitimidade por conta dos que o cercavam. O vice-presidente Café Filho assume e tenta comandar governo de transição que desemboca em atritos, crises, substituição e afins. Surge, então, o audaz, médico e político Juscelino Kubitschek de Oliveira. Eleito em dura refrega, resolve mudar o foco do governo para a construção de uma nova capital, Brasília. Ela surge pelos lápis, réguas T, compassos, transferidores e esboços do arquiteto Lúcio Costa. E assim o fez, gastando no plano piloto e nos prédios projetados por Oscar Soares Niemeyer, o que o governo não possuía. Aumenta a dívida pública em relações de compadrio com empresas construtoras que já conhecia desde Minas. Sai com prestígio popular. Não existia a reeleição. Entrega Brasília a jato, passa a faixa a Jânio da Silva Quadros, alguém que mereceria análise e ajuda profunda dos seguidores de Freud e de Winnicott. Como tal não aconteceu, Jânio perde a maioria no Congresso Nacional e intenta uma manobra que acaba em mal explicada e patética renúncia. Naquele tempo, os candidatos a vice eram votados e não faziam dobradinha com os aspirantes a presidente. Outro mês de agosto, agora em 1961. O país fica, por dias, nas mãos de Auro Soares de Moura Andrade, até que se consuma a volta negociada de João Goulart, o vice, que passeava na China da revolução cultural de Mao Tsé-Tung. Políticos, juristas e militares engendram um Jango e Tancredo Neves, como primeiro-ministro. O parlamentarismo não resiste a um plebiscito. Jango passa a mandar, mas não leva jeito nas manhas e artimanhas palacianas. Em 1964, depois do comício de 13 de março na Central do Brasil – com a inversão da hierarquia militar, no corpo de praças da Marinha – começam as confabulações para a derrubada de Jango. Magalhães Pinto, Lacerda, políticos trânsfugas e militares, entre os quais o cearense Humberto de Alencar Castelo Branco, reúnem-se e tramam. De Minas e São Paulo, avançam os aparatos militares que tomariam o poder. Não houve tiros. Jango, de boa paz e não bom de gestão, não resiste e se manda para o Rio Grande do Sul. Em seguida, se autoexila em fazenda sua no Uruguai, onde, muitos anos depois, falece. No dia de sua morte havia viajado de avião, de barco e de carro. Janta, passa mal, a assistência médica demora e nasce a ideia de assassinato – por envenenamento – depois desmentida, com a exumação e múltiplos exames de peritos médicos. Começa o ciclo militar. Duraria mais de 20 anos. Permanece sob a lupa crítica de historiadores, de jornalistas, de cientistas políticos e da Comissão da Verdade. Tancredo, Ulysses, Montoro, FHC, Lula e outros se unem e lutam pelas Diretas Já. Estamos nos anos 80. No meio operário, com a ajuda de religiosos católicos, surge um partido de sindicalistas e de parte da intelligentsia paulista. O PT e Luiz Inácio Lula da Silva inauguram um novo tempo. Fernando Collor, um carioca-alagoano, com a ajuda de parte da mídia vai eleito. Deu no que deu. Itamar Franco, o vice, assume. E, querendo ou não, faz um bom governo. Café Filho, João Goulart e Itamar, foram vices. Como disse Tom Jobim: “O Brasil não é para principiantes”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/05/2016. - [0S PAIS E O SUFOCO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/0s-pais-e-o-sufoco-diario-do-nordeste/): Não estou falando do sufoco que todos os pais estão vivendo no maremoto em que a nau Brasil anda metida. Não vamos soçobrar. Acreditem. Não temam. O sufoco é uma “brincadeira” que crianças e adolescentes, não na presença dos pais, praticam de forma abusiva e perigosa. Ela possui vários nomes. Em português e em outras línguas: jogo de asfixia, jogo do desmaio, brincadeiras perigosas, chocking games, space monkey, jeu du foulard, entre outros. Participei de palestra na Psicologia da UFC sobre o tema. Não há estatística oficial sobre a quantidade de jovens praticantes que já vitimaram muitas famílias ao redor do mundo. Por outro lado, há milhares de “curtidas” em sites, blogs e até em livro publicado no Brasil. Para a psicóloga Fabiana Vasconcelos, do Instituto DimiCuida: “A prática é desconhecida como algo perigoso e há silêncio sobre o assunto. As famílias se resguardam por causa do julgamento. Essa crítica impede que a sociedade fale sobre isso”. A cilada é participar de desafios de asfixia ou outros para atingir o “Nirvana”. Encontram até morte e sequelas. Inalam sacos plásticos impregnados de desodorantes – com propano, metano e talco. É preciso que os pais, confiantes e/ou distantes, fiquem atentos para o uso da Internet pelos filhos, festinhas, rodinhas nos condomínios, comunidades e baladas. Pais “chatos” são os que acompanham, de perto, o que os filhos fazem no dia a dia, nos fins de semana e conhecem os pais dos seus amigos e colegas. Tudo está na Internet, mais para o mal, do que para o bem. Informe-se. O barato sai caro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/05/2016 - [CORTAR OU AUMENTAR? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cortar-ou-aumentar-diario-do-nordeste/): Os ditos especialistas em contas públicas ­ só entendem de problemas fiscais depois dos fatos ­ dizem estarmos no teto máximo de impostos, daí ser preciso, por algum tempo (qual?) criar uma taxação adicional para nos tirar das enrascadas que, aliadas à incompetência e à contrafação generalizada, nos colocaram no buraco negro do hoje. A "OI" pediu recuperação judicial, R$ 65 bilhões. Maiores credores: BB, Caixa, BNDES e Fundos de Pensões, todos públicos. Como uma empresa que paga todos os impostos e não conhece os caminhos do favoritismo pode competir com quem é acumpliciado com o poder? Divulgo as principais renúncias fiscais deste 2016. Cito em bilhões, cifra banalizada: Simples Nacional, para empresas - 77,4; Isenções e deduções do IR ­- 39,3; Zona Franca de Manaus e outras ­- 28,0; Desoneração da folha de pagamento -­ 25,9; Desoneração da cesta básica - ­25,2; Entidades sem fins lucrativos -­ 23,3; Benefícios do trabalhador -­ 11,0 São também beneficiadas: Poupanças e outras; inclusão digital; desenvolvimento regional; informática e automação; medicamentos; pesquisa e inovação; Olimpíada; infraestrutura; embarcações e aeronaves; setor automotivo; financiamento habitacional; transporte coletivo; cultura e audiovisual. Renúncias que custarão R$ 296 bilhões, neste ano. O saneamento básico só atende metade da população e há alto desemprego. Apesar disso, a Caixa patrocina clubes de futebol ­ que pagam salários exorbitantes a jogadores ­ e outros esportes e esportistas. A Petrobras patrocina marca da Fórmula Um. Cortar ou aumentar? Decida! João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/06/2016. - [NOITE DO ÁLBUM DE 1931 - EM 2016 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/noite-do-album-de-1931-em-2016-jornal-o-estado/): “A época mais obscura é hoje”. R. L. Stevenson, escritor inglês. Em noite festiva, no antigo Palace Hotel, na Rua Major Facundo, olhando para a Praça dos Mártires, onde foram imoladas em nome do Império, pessoas que contribuíram para a consolidação da formação do Estado do Ceará, oscilando entre ser parte de Pernambuco e do Maranhão foi relançado, em edição fac-símile, o “Álbum de Fortaleza”. Esse livro, que mistura “reclames” ou propaganda com dados estatísticos, louvações a negociantes e a autoridades locais, foi organizado, publicado e comercializado por Paulo Bezerra, em 1931. Apesar disso ou por causa disso é documento histórico ora reeditado. O ágape, com elevada frequência e vozerio, foi uma ação da Fundação Waldemar de Alcântara no afã de engrandecer a “Biblioteca Básica Cearense”, uma das guardiãs da nossa memória, na pessoa do bibliófilo e intelectual Lúcio Alcântara, um “apologista do passado”( Laudator temporis acti ), como dizia o poeta latino Horácio, em “Arte Poética”. A FWA obteve na biblioteca da Academia Cearense de Letras – ACL, o original do “Álbum de Fortaleza” e, a partir dessa descoberta, realizou bela e importante tarefa: o resgate da história da cidade de 111 mil habitantes, início do Estado Novo, período de exceção comandado por Vargas que se estendeu até a metade dos anos quarenta, coincidindo com o fim da Segunda Guerra Mundial. O prefácio da versão de 2016 foi escrito pelo professor, arquiteto e historiador José Liberal de Castro que nele afirma: “O empreendimento, que tanto entusiasmava Paulo Bezerra, apoiava-se na suposição equivocada de que seu plano era inédito, embora, na verdade, em dias anteriores, a Cidade já houvesse sido louvada em outras publicações semelhantes. A primeira deles, de 1908, conquanto praticamente dedicada à Capital, denominava-se “Álbum de Vistas do Ceará”. Acrescenta Liberal de Castro: “No caso, Ceará era sinônimo da cidade de Fortaleza, uma vez que naquele tempo ainda prevalecia a flutuação toponímica no uso indistinto dos estados e de suas capitais, prática hoje limitada apenas à Bahia”. Em crítica ao aspecto comercial do álbum original de Paulo Bezerra, Castro refere: “O álbum de 1908, primorosamente editado pela poderosa Casa Boris em Nancy, na França, não buscava exaltação aos patrocinadores, pois não os nomeava, não os mostrava em fotografias e nem sequer mostrava o nome da firma patrocinadora”. Voltemos à noite no Palace Hotel. A totalidade de livros postos à venda, por preço simbólico de vinte reais, foi comprada. Os que prestaram respeito e atenção ouviram a fala do dirigente maior da FWA, Lúcio Alcântara, sobre as pesquisas posteriores à cessão do livro para a descoberta em vão de familiares vivos de Pedro Bezerra – que se transferira para o Estado de São Paulo – e os agradecimentos ao Banco do Nordeste do Brasil, patrocinador da obra. A foto original da capa do “Álbum de Fortaleza”, salvo engano, já havia sido usada por Marciano Lopes, memorialista falecido, em publicações suas sobre a Fortaleza do passado, que ele alcunhava de Belle Époque. Os muitos anúncios comerciais, quase sempre ocupando as páginas esquerdas do álbum, mostram a natureza extrativista, o comércio de algodão, peles e couros, bem como, a importação e exportação, ativas para o resto do país e exterior. Há material para demonstrar a consolidação ou esgotamento de empresas da época, bem como, as poucas famílias que remanescem à frente de empresas. Por fim, destaco as informações estatísticas do período e os artigos. A partir de José Martins Rodrigues sobre a “Magistratura Cearense”; Tomaz Pompeu Sobrinho, quando analisa “A Pecuária no Ceará”; Humberto R. de Andrade, disserta acerca da “Agricultura no Ceará”. Vi, com alegria, os sueltos de Antonio Furtado, sobre o surgimento do pintor Vicente Leite, e o de Rachel de Queiroz sobre o escritor, o farmacêutico e o homem de bem que foi Rodolpho Theóphilo. Tal como essa adequada iniciativa, Fortaleza e o Ceará precisam ter suas histórias, estórias e personalidades mais revisitadas. Da minha parte, coloco-me disponível para essas tarefas, se convidado for. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/06/2016. - [O GRANDE BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-grande-brasil-diario-do-nordeste/): Você sabe quantos Estados o Brasil possui? Lembra-­se dos nomes deles: Acre, Amapá, Amazonas, Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraná, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins. E o Distrito Federal e o caos. O menor é Sergipe. O maior é Amazonas. Em São Paulo, mora 1/5 da população brasileira e Roraima tem a menor densidade demográfica. Há muitos rios Brasil afora. Lembra? Amazonas, Negro, Solimões, Madeira, Xingu, Tapajós, Parnaíba, Guaporé, São Francisco, Paraná, Paranapanema, Tocantins e Uruguai. O Jaguaribe é maior rio seco do mundo. Essas informações constam da nossa educação básica. Mas estará você atento para a magnitude do nosso país? Sabe que ele confronta com a Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina? Este país com tantas riquezas naturais vê a linha imaginária do Equador passar em Macapá e nos lembrar de que o Trópico de Capricórnio fica entre o Rio de Janeiro e São Paulo. É um mundo, banhado pelo Atlântico Sul. Que importam essas informações? Importam, sim. Não há como destruir a força indômita deste povo mesclado por negros, brancos, índios e a caudal de imigrantes que foram nos dando novas tonalidades com árabes, judeus, asiáticos e outras raças. Neste junho, quando nuvens densas da política nos rondam, basta, de verdade, olhar o horizonte e o firmamento para acreditar no futuro. Nada nos abalará. Acredite. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/06/2016. - [A SENILIDADE E AS FAMÍLIAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-senilidade-e-as-familias-jornal-o-estado/): “Vista pelos jovens, a vida é um futuro infinitamente longo; vista pelos velhos, um passado muito breve”. A. Schopenhauer, filósofo alemão, morto aos 72 anos, em 1860. A urbanização brasileira, a mudança de hábitos de higiene e de alimentação, o sofrível saneamento básico, o respeito aos avisos dos nossos corpos estão nos dando uma vida mais longa. O Brasil possui hoje 26 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Em contrapartida, o nosso precário sistema previdenciário (INSS) está repleto de aposentados que, por falta do que fazer, agrupam-se em rodas em praças, centros comerciais, bares, ou se quedam em suas casas em torno de uma televisão ou rádio. Como é baixo o nível de leitura do brasileiro, poucos idosos se apegam a livros. Há aqueles que enfrentam quebra-cabeças, palavras cruzadas e “quizz” para dar uma escovada na teia de aranha mental dos que amanhecem o dia sem ter o que fazer. Vez por outra, amigos vão detectando sinais do que, antigamente, se chamava de “caduquice”. Na verdade, as doenças senis são cruciais. Uma atinge, não só a pessoa idosa, mas toda a sua família, o Alzheimer. O nome é em homenagem ao psiquiatra alemão Alois Alzheimer, que identificou esse mal há 110 anos, em 1906. Ele morreu em 1915, aos 51 anos, de doença cardíaca. Apesar da sua identificação, não foi encontrada, ainda, a sua cura. Em ensaio para o Valor, a repórter Martha San Juan França apresenta história e dados sobre o que chama de “traição da memória” ou a “ausência da lembrança”. O dado mais assustador é que o “aumento da expectativa de vida deve triplicar o número de pessoas com Alzheimer nos próximos 30 anos”. Hoje, o Brasil possui, diagnosticados, um milhão e duzentas mil pessoas com demências, das quais 30% recebem tratamento informal e só 37% usam assistência médica. O grande problema para o paciente de Alzheimer, uma das demências, é a dispersão de sua família, posto que não são muitos os filhos e netos que se dispõem a cuidar de alguém que não responde, com lógica, a estímulos e afetos. Há muita literatura médica sobre o assunto, mas nada que mostre, em curto prazo, a solução razoável. Todas as famílias, inclusive a minha, se deparam com pessoas acometidas com o mal que vai se acumulando bem antes do diagnóstico. Assim, só depois de muito tempo as “esquisitices” vão sendo consideradas como o primeiro sinal. Daí para frente, há um crescendo que prejudica a concatenação da fala e até a ausência do sentimento de pertença. Ao final, advém o desconhecimento do outro, a não comunicação e o descuido com os cuidados pessoais. É claro que este artigo é de leigo, não tenho formação médica, muito menos de geriatria ou neurologia, mas ele almeja ser um alerta para todas as famílias que, pelo menos, procurem entender os seus idosos. Eles devem merecer atenções redobradas. Neste mundo de dificuldades e de incertezas há uma filosofia de cuidar de si próprio, esquecendo o outro. A pessoa com Alzheimer precisa de cuidadores, familiares ou contratados, que o trate com humanidade e carinho. É preciso ficar claro, com consultas a especialistas exames, que nem toda demência é Alzheimer. Por fim, amar é cuidar. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/06/2016. - [O TRAJETO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-trajeto-diario-do-nordeste/): O avião estava na aproximação final e eu olhava absorto pela janela ovalada. Cidade clara, sem favelas, rios fluíam em cursos lentos e arborização abundante. Enfim, o pouso. O “finger” logo aberto. Os passageiros saíam rápido, pois não havia tralhas a levar. Ninguém de bermuda ou chinelo. A comissária despedia-se de cada um com aperto de mão. E sorria, de verdade. No aeroporto, música suave dava júbilo e as malas já rodavam na esteira. Peguei a minha. O saguão era pleno de obras de arte nas paredes. Fui ao banheiro, limpo. Ninguém escovava os dentes, nem trocava camisa. Leve cheiro de lavanda. Saí da gare. Havia táxis em profusão, brancos. Entrei no primeiro. O motorista, de uniforme, abriu a porta, deu-me boa-tarde, pôs a mala no bagageiro e perguntou o endereço. Ligou o GPS e mostrou o caminho. Curto, rápido e barato. Do rádio, em tom baixo, despontavam notícias: o último crime passional fazia dois anos; o PIB do país em 3%; gente de todas as raças e gêneros criava cooperativas para gerar renda e emprego. O sinal fechou. Uma jovem bateu gentilmente no vidro. Deu-me prospecto com fatos da semana. Festival de escoteiros, apresentação de cantor gospel, passeio noturno de velocípedes, jogo de futebol entre dois clubes locais na primeira divisão do campeonato nacional, recital de cantores cegos e, por fim, a inauguração de parque cívico, com dinheiro arrecadado pela população. Alguns muros com hera, casas com jardins e crianças fardadas saíam, em algazarra, de bela escola pública. O carro freou. Ops, acordei. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/06/2016. - [FILMES MEXICANOS EM FORTALEZA - DE GRAÇA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/filmes-mexicanos-em-fortaleza-de-graca-jornal-o-estado/): Precedendo a edição 26ª do Cine Ceará, dirigido pelo cineasta Wolney Oliveira, acontece a Mostra de Cine Mexicano, em Fortaleza, na sede da Caixa Cultural, à Rua Pessoa Anta, 287, defronte ao Dragão do Mar. Você sabia? Começou na terça, dia 7 e só termina no dia 19. Pagar? Esqueça. É só chegar um pouco antes da hora e se inscrever. São duas sessões: 16 e 19 horas. A formação internacional de Wolney Oliveira passa por uma profunda identificação com a filmografia latina, a partir de seus estudos, entre outros, em Cuba e, mais ainda, ser casado com nativa da língua de Cervantes. Na edição passada do Cine Ceará, aconteceu a “Mostra do Novo Cinema Espanhol” com a curadoria de Pablo Arellano, o mesmo da atual mostra. São 22 filmes. “A Maldade” (La Maldad) foi o filme de abertura. Talvez você não saiba, mas o México não é apenas exportador de manufaturas e de mão de obra para os Estados Unidos. Grandes artistas de Hollywood hão nascido no México, dentre eles o festejado ator Anthony Quinn, de Zorba, o Grego. Os brasileiros e os cearenses, em particular, precisam conhecer a vasta cultura (tem quatro prêmios Nobel) mexicana, tão rica no passado, quanto criativa no presente. Para ficar só no cinema, lembro que, no passado, Anthony Quinn por necessidade, naturalizou-se americano, mas seus traços mostram o típico mexicano. Ele ganhou duas vezes o Oscar como ator, em “Viva Zapata” e “Sede de Viver”. Além disso, recebeu o Globo de Ouro, com “Zorba, o Grego”. Por sua vez, o diretor espanhol Luis Bunñuel, nascido na Espanha, resolveu se naturalizar mexicano. Auferiu dezenas de prêmios, inclusive o Bafta Cantinflas, ou Mario Moreno, com seu humor particular, obteve dois Globos de Ouro. Ele era adorado por suas caretas peculiares e o bigode engraçado com o qual fazia trejeitos. Agora, neste século 21, atores mexicanos como Gael Garcia Bernal, Salma Hayek e Demién Bichir fazem sucesso além das fronteiras do Rio Grande. Por outro lado, diretores como Alfonso Cuáron, Guilherme Del Toro e Alejandro Iñarritu são festejados. Seus filmes têm grandes bilheterias e prêmios. Cuáron ganhou a Estatueta em 2013 (“Gravidade”). Iñarritu foi agraciado com dois Oscars. Um, por “Birdman”, outro por “The Revenant”. Eugenio Caballero arrebatou um Oscar, em direção artística. No campo da fotografia, destacam-se Emmanuel Lubezki, que é ganhador de dois Oscars, e Guilherme Navarro, que já vencera, na mesma categoria, um Oscar. Desculpem-me. Entusiasmei-me, pois sou, com prazer, Cônsul Honorário do México desde o século passado e alegro-me em saber que cearenses poderão consultar as páginas diárias de cinemas nos jornais locais ou ver o que passa no site da Caixa Cultural de Fortaleza. É chegar um pouquinho antes. Os filmes merecem ser vistos até por quem não gosta de cinema, mas todos sairão encantados com os mistérios que envolvem as tramas. Bom proveito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/06/2016. - [ADAUTO E HUMBERTO BEZERRA, 90 ANOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/adauto-e-humberto-bezerra-90-anos-jornal-o-estado/): A vida é longa se é plena (Longa est vita, si plena est) – Sêneca, filósofo romano, 4 a.C -65 d.C. No tempo em que (José) Adauto e (Francisco) Humberto Bezerra nasceram, a medicina não discutia sobre gemealidade, visigóticos ou univitelinos, tampouco havia reprodução assistida. A natureza corria seu curso quando, em uma quinta-feira, 3 de junho de 1926, Juazeiro recebeu os saudáveis gêmeos, filhos de José Bezerra de Menezes e Maria Amélia Rodrigues Bezerra. Um pouco além, no Crato, surgia o “Caldeirão dos Jesuítas”. Juazeiro era cidade pequena – emancipada em 1911 pelo prestígio e luta de Cícero Romão Batista e de Floro Bartolomeu. – com apenas 15 anos e pouco mais que arruamentos de casas (“cada casa, uma oficina, cada oficina, um oratório”) com praça, feira, igreja e fé, muita fé. Padre Cícero misturava religião com política. Já havia sido, por duas vezes, vice-governador do Ceará, e prefeito por 15 anos da cidade que criara do nada Ele saíra do Crato, 1m 1872, para formar uma urbe cujo principal desiderato era a fé. Sua área física definitiva ficou em 249km². A proximidade com outros núcleos populacionais poderia asfixiá-la. Entretanto, a cidade foi crescendo, tal como Adauto e Humberto. A família de Lampião, Virgulino Ferreira da Silva, fugida das polícias e milícias de todo o Nordeste, fincara, com apoio do Pe. Cícero, casa em Juazeiro desde 1923 e ali permaneceria até 1926. Pretendia se unir ao “Batalhão Patriótico” comandado por Luiz Carlos Prestes, o que não aconteceu. Os Bezerra de Menezes foram o primeiro pilar empresarial da cidade, em contraponto com a face religiosa implantada por Cícero. Adauto e Humberto de lá saíra e concluíram os cursos na Academia Militar das Agulhas Negras, em 1949. Esse ano abre o horizonte dos dois irmãos que, juntos, trafegaram, como oficiais, pelas casernas, sem nunca esquecer o pastoreio da área empresarial, criada por seu pai, a partir do algodão e da sua tecelagem, tampouco deixar de lado a política, entranhada à família que, pouco a pouco, assenhoreava-se das lides locais após o falecimento de Cícero Romão Batista, em 1934. Agora, neste 2016, pode-se dizer que os gêmeos José e Francisco, Adauto e Humberto, os irmãos Bezerra, os coronéis, são dois cearenses distinguidos nos diversos caminhos que trilharam nas áreas militar, política e empresarial. Este artigo não é elegia, mas registro histórico feito por quem não é íntimo dos dois irmãos, nunca os acompanhou politicamente e sequer obteve préstimos em suas atividades como banqueiros. Faço-o por cidadania e pela certeza de que suas múltiplas atuações no Ceará resultam vitoriosas, e com longo curso. Agora, nonagenários, não param de empreender, por eles mesmos ou por seus sucessores, mas não conseguem viver sem se enfronhar na seara política, mesmo sob a figura de conselheiros de muitos nestes tempos de incertezas. Políticos deram, de forma objetiva, as suas contribuições para o crescimento da “Joazeiro” natal e do Ceará, como parlamentares e dirigentes do executivo estadual. Foram sempre o que são, não mudaram de rumo, mas, para surpresa de muitos, negociaram, há poucos anos, o seu banco com um grupo empresarial comunista da China. Isso mesmo, a China, de Mao Tsé Tung no poder, em 1949, depois decaído, e, agora, como a segunda potência econômica do planeta. São as artimanhas deste mundo complexo, em que comunistas possuem empresas e já sentaram praça no Brasil, onde se tentacularam em áreas singulares, como bancos privados. Negócio é negócio. Ideologia é fundamento. Hoje, sexta-feira, 3 de junho de 2016, com largueza e vitalidade, os irmãos Adauto e Humberto, baobás familiares, acolhem amigos e a sociedade cearense para, juntos, brindarem a sua entrada na gaudiosa senda de nonagenários produtivos e antenados. Parabéns. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/06/2016 - [JOGOS DE PODER - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/jogos-de-poder-jornal-o-estado/): “Se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”. Abraham Lincoln Em 2014, o Brasil mostrou-se ao mundo com estádios novos e alguns reformados. Vias de acessos remodeladas e algumas novas. Tudo deveria seguir os cadernos de encargos e as regras da – FIFA – Federação Internacional de Futebol Association. A palavra association é para dizer, no jargão inglês, tratar-se de esporte coletivo jogado com a bola no pé, diferente do futebol americano. Este possui outras regras, a bola por ser conduzida com a mão e há outras medidas de campo. Nos Estados Unidos o nosso futebol é chamado de soccer. A FIFA tem sede na Suíça, onde quase não se pratica futebol. Serviu, durante grande parte do século 20 e os primeiros 15 anos do 21, para enriquecer dirigentes, assessores e presidentes de confederações continentais e nacionais, espalhadas mundo afora. A FIFA orgulhava-se de afirmar possuir mais membros que a Organização das Nações Unidas-ONU. Mexe daqui, mexe dali, pouco a pouco, foram sendo aclaradas as múltiplas falcatruas e arranjos que essas entidades do futebol faziam seu “Road show”, que mudam de país a cada quatro anos e envolvem longas conversas com governantes e precisam mostrar exuberância, mesmo o caos estando por perto. Governantes usam campeonatos continentais e mundiais de futebol para propagandear os seus países perante o público externo e, em critérios internos, distribuir obras para empresas amigas. A África do Sul é só um exemplo. Em outras palavras, as Copas do Mundo servem para projetos de poder. Agora, neste mundo novo, não o de Aldous Huxley, com a descoberta de liames tão óbvios a alguns, mostrou-se a face crua da FIFA com bilhões de dólares desviados. Há casos absurdos, ao redor do mundo, de estádios suntuosos em cidades de pequeno porte que sequer possuem efetiva liga de futebol. Se mudarmos o nome da FIFA para o do COI – Comitê Olímpico Internacional, veremos quase o mesmo enredo, apenas com atores diferentes. O Brasil, novamente, entrou nessa ficção e impôs o Rio de Janeiro como a sede das Olimpíadas de 2016, agora em agosto. Segundo a última pesquisa Datafolha: 50% da população é contra a realização e 63% acreditam em mais danos que alegrias ao Brasil. A Casa da Moeda, em desvio de finalidade, foi a bafejada produtora das medalhas, com tecnologia, desenhos, metais, adornos, fitas e caixas pagos pelos contribuintes brasileiros. Na confusa política brasileira acontecerá o ineditismo de termos dois presidentes da República e dois governadores do Rio, um interino e outro, licenciado. Uma candidatura à presidência pode surgir do êxito dos eventos. Certamente, tal como no período da Copa de 2014, haverá um acordo de cavalheiros entre as facções delituosas, que avultam nas margens de quem chega ou vai para o Aeroporto do Galeão, para não comprometer a interinidade do governo estadual, a quem compete em primeira instância, cuidar da Segurança Pública. Em setembro, se tudo correr bem, os atletas do Brasil portarão algumas premiações em ouro, prata e bronze, mas estaremos, com certeza, no cômputo geral de medalhas, muito aquém do grosso dos países europeus e de alguns asiáticos. Quiçá, Cuba não nos ultrapasse. Com os bilhões de reais gastos na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas 2016, o Brasil poderia sair dos 48% de esgotos sanitários para mais próximo dos 100% que nos tornariam livres da Zica, da Chicungunha, da Dengue e das demais doenças endêmicas. Agosto não tem bom recall na recente história política brasileira. Alguns chefes de Estado poderão não vir ao Rio por recomendações de suas diplomacias. Afinal, a quem se apresentarão e trocarão as formalidades de praxe? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/07/2016. - [DOUTOR RODRIGO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/doutor-rodrigo-diario-do-nordeste/): Prédio velho da Faculdade de Direito da UFC. Agora, seria a sessão de defesa de doutorado do mestre Rodrigo Uchôa Paula, presidida pela professora Denise Lucena Cavalcante. Examinadores: professores Roberto Martins Rodrigues, Martônio Mont´Alverne, Hugo de Brito Machado Segundo e André Studart. Ouvi, com atenção e respeito, a explanação cônscia, rica, brilhante e contundente do examinando Rodrigo. Ele, jovem trintão, possui profundo conhecimento da ciência do direito, além do obrigatório Constitucional, auxiliado por memória privilegiada e pensamentos próprios. Foi revolvendo os pactos dos poderes institucionais surgidos pós­Revolução Francesa. Passeava por bibliografia multilíngue que não o inibia e manejava bem o seu trabalho com mais de 200 laudas. Ora era filósofo, ora jurista, permeando a ontologia e a epistemologia, sem esquecer ­se de apontar algo inusitado para merecer o grau de doutor. E o fez com o respaldo de pensadores de pátrias e formações distintas. A ideia nova, já consagrada em outros países, seria o imperativo de criação de um Tribunal Constitucional no Brasil, posto que, para Rodrigo, o STF "por não ser a instituição mais adequada" nestes tempos de "judicialização da política", impõe mudanças. Sabatinado pelos 5 examinadores, Rodrigo se houve com saber, provocando risos da banca pela incisiva defesa de sua tese. De lá saiu Doutor em Direito Público. Com mérito. Ao sair, recordei ali ter passado quase 7 anos. Parte, em inconcluso doutorado. Gizela Nunes, colega, Paulo Bonavides e Roberto Martins Rodrigues, professores, sabem da história. Não há registro. "Tempus fugit". João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/07/2016. - [ESCREVER É FÁCIL? Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/escrever-e-facil-diario-do-nordeste/): Dia desses li artigo escrito por um Ph.D. O artigo deveria ter o dobro de palavras deste. Além de Ph.D., o autor coordena curso de ensino superior, de alta credibilidade no Brasil. O tema, não importa. O fato é que, essa palavra ora escrita, repetia-­se por mais de 40 vezes no texto. Acredito haver sido a exaustão de outras tarefas ­ e até o descuido com a revisão ­ a causa de tantos "que" no texto. Apesar disso, o texto passou a mensagem ao leitor. Fiquei em dúvida, mas resolvi passar um e-mail relatando o fato. Não me respondeu. Pode não ter recebido. Pode imaginar ser "inveja" o meu relato. Aproveito para citar definição apropriada de inveja, a do escritor Zuenir Ventura. "Inveja é não querer que o outro tenha". Não seria o caso. Apenas o alertei. Qualquer leitor pode alertar-­me de erros, omissões e equívocos. Claro, os cometo. Não tenho a pretensão de escrever certo, mas o desejo de passar aos leitores a análise de fatos ou ideias, a razão de ser deste espaço semanal, neste prestigioso jornal Diário do Nordeste. O compositor e cantor Chico Buarque, em uma de suas composições, escreveu "num país". Ele mesmo falou ser opção estilística. Assim, neste tempo de "likes" e de internet aberta para qualquer um dizer isso e aquilo, não é fácil seguir a regra culta da tão rica e complexa língua portuguesa. Termino com uma 'pérola' do Paulo Coelho: "Ame como a chuva fina. Que cai em silêncio, quase sem fazer notar, mas é capaz de transbordar rios". E é? João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/07/2016. - [PORTUGUESES SILENCIAM A MARSELHESA (GRAFIA CORRETA) - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/portugueses-silenciam-a-marselhesa-grafia-correta-jornal-o-estado/): Sou João, igual a meu avô paterno, Soares. Esse nome vem de longe. Desde o século 12. Começou com outro João Soares, esse de Pávia, nome de rio e lugarejo ao norte de Portugal. Esse João Soares foi poeta/trovador, considerado, por muitos, como o precursor da literatura galego-portuguesa. Poderia, tal meus irmãos, ter sido Caminha, ou, como meus avós maternos, Saraiva e Monteiro. Em verdade, digo, o que importa não é o nome, nem a sua origem. O que dá sentido aos nomes é o alvitre das nossas vidas, hoje. Não o dos ancestrais. Esse parágrafo acima é para falar da descendência portuguesa, tão humilhada nos últimos tempos, pela migração como alívio para o pequeno país ibérico que, no século 16, tornou-se o grande descobridor, dono de novas terras e de novos caminhos para o mundo que saía da Idade Média. No começo do século 20, tais quais nordestinos, portugueses passaram a migrar em busca de novas oportunidades. A França foi um desses destinos. Depois, nos anos 1940 e 1960, novas correntes migratórias inundaram os países tidos como ricos na Europa Central. Entre eles, a França. Hoje, moram em França 600 mil portugueses genuínos, quase todos ocupando funções subalternas como porteiros, pedreiros e empregados de hotel. Esses velhos ou quase velhos, 600 mil têm famílias, e delas surgiram filhos de portugueses que, juntos com os ascendentes, devem somar mais de um milhão de pessoas. Entre elas, há importantes figuras políticas, empresários bem-sucedidos e cientistas renomados. Domingo passado, no Estádio da França, em Saint Denis, completamente lotado, entre os 75 mil espectadores havia um bom espaço povoado por portugueses, vindos de todas as partes da Europa. Decidia-se a Eurocopa, um bilionário campeonato de futebol com transmissão simultânea para dezenas de países. Portugal vinha de campanha nutrida de empates, vitória apenas em prorrogação, e era candidato a vice, pois a valorosa equipe gaulesa, com todo o apoio dos seus torcedores, inclusive a presença de François Hollande, Presidente da República. A França cantava de galo, o símbolo aposto em suas camisas azuis. Entoavam alto a Marselhesa, o seu hino de louvor à pátria. Era noite de domingo, 10 de julho de 2016. Despontavam, nas duas seleções, descendentes de emigrados de antigas colônias africanas. Pois foi um desses, Eder, o herói da partida, homônimo do nosso boxeador Éder Jofre, exato aos 11 minutos, na segunda etapa da prorrogação, quem pôs a França em “Knockout”. Ele entrou, saído do banco de reservas, para a glória, essa volúvel palavra e sensação que atrai vaidades. Poderiam ser outros, pois, repito, em ambas as seleções pululavam filhos de africanos. O fato é: Portugal venceu. O futebol prega peças, iguala os diferentes em átimos de talento, lampejos de força e de descortino. Assim, de fora da área, saiu o golo, na versão lusa, que daria o primeiro grande título internacional a Portugal. A França já fora bafejada, vezes sem conta, pela volúvel glória. A Família Real portuguesa, em 1808, com medo da França e de Napoleão fugiu para o Brasil. Agora, neste 2016, de forma pacata, mas varonil, Portugal demonstra, em Paris, de forma esportiva, a vez dos pequenos. Para o Senhor dos destinos, Cristiano Ronaldo foi liberado do jogo, ao se contundir. Bastavam os demais, não tão famosos, mas briosos. Como diz estrofe do Hino Português: “Levantai hoje de novo/ o esplendor de Portugal”. Nota: Este artigo foi publicado no dia de ontem, quinta, 14 de julho de 2016, edição em papel do “Público”, de Lisboa, um dos mais bem referidos e lidos jornais de Portugal. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/07/2016. - [TRISTE BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/triste-brasil-diario-do-nordeste/): O Brasil possui, hoje, quase 12 milhões de desempregados. Se erro houver, não me culpem. Escrevo o que leio e ouço. De cada dez desempregados, um entra em depressão. Entre os sem emprego, 1,2 milhão estão abisonhados, desiludidos e sujeitos aos efeitos dessa doença danosa. Este País é um paradoxo. A soma dos desvios já sabidos, apenas neste século, nos colocaria, se bem utilizados, em outro patamar. Aqui ao lado, Peru e Chile mostram como deve um país passar de exótico a lógico. O economista e filósofo mineiro Eduardo Gianetti derivou da análise economicista para, em reclusões filosóficas, procurar entender o País. O seu último livro, "Trópicos Utópicos", pode não ser novidade, mas releitura contextualizada. O belga Claude Lévi­Strauss, em 1934 foi professor pioneiro de sociologia da novel USP. Anos depois, em 1955, o seu livro "Tristes Tópicos" narra viagens ao interior do Brasil e sua vivência com índios. Vai além, ao estudar o Islamismo em cáusticas lições escritas. O mau humor seria por não haver chegado ao "Collège de France". Agora, mudam­-se tristes para utópicos, na análise de Gianetti: "Ao juízo da fria métrica ocidental, o Brasil, se não chega a ser um malogro, não passa de um país medíocre: nossa contribuição à história da ciência e da tecnologia modernas -­ assim como à filosofia e às humanidades -­ resume-se a uma dispensável nota de rodapé". Considero séria e pessimista a fleuma das conclusões dele. Mesmo assim, creio neste País, que se vê logrado por, entre outras razões, não separar o público do privado. Feito isso, decolaremos. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2016 - [JOHN GAY, WEILL, BRECHT E A ÓPERA DOS TRÊS VINTÉNS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/john-gay-weill-brecht-e-a-opera-dos-tres-vintens-jornal-o-estado/): “O ritmo tem algo mágico; chega a nos fazer acreditar que o sublime nos pertence”. J.W. Goethe(1749-1832), em Máximas e reflexões, XIII, 6. Esta semana, vendo apenas a parte derradeira de um filme, fui surpreendido pelo arranjo diferente de música já ouvida, por mim, tantas vezes. De tão ouvida, ouso, mesmo sendo desafinado, assobiá-la. Ela ficou na minha cabeça e decidi revolver um pouco mais de sua história, da sua letra, da sua harmonia, dos seus autores e das inúmeras quantidades de intérpretes que, através dela, fizeram sucesso. “The Beggar´s Opera” (A ópera dos Mendigos), escrita por John Gay, composta em 1728, com anseio de texto épico, revolucionário, conta a miséria e a situação crítica de desemprego, a vida de criminosos e de mendigos, de então. Para se livrar de questões, a Itália foi usada como o pretenso local da ópera. Damos um pulo ao começo do século 20. Exato no ano de 1928, quando o compositor Kurt Weill encontra-se com o ainda não famoso dramaturgo Bertold Brecht, ambos alemães. Eles transformam a obra de Gay, na “Die Dreigroschenoper” ou “Ópera dos três vinténs”. A letra de Brecht produz um anti-herói, Mackie Messer, vilão consagrado, bígamo, charmoso, metido com polícia e assassino. Brecht, tal qual Gay, a situa em outro país. Elege a Londres de então, com misérias, igualmente, como pano de fundo para contar as injustiças sociais decorrentes da implantada Revolução Industrial. A canção “Mackie Messer” virou “Mack, the Knife” ou Mack, o facão ou navalha, quando foi descoberta, nos anos 20 do século passado, pelos americanos. Tantas foram as traduções do original, quanto os intérpretes, a partir de Louis Armstrong, na versão de Marc Blitzstein. Depois, vieram Frank Sinatra, Bob Darin, outros e, recentemente, até o Michael Bublé ousou cantá-la do seu jeito e modo. O sucesso, como peça, nos Estados Unidos, em New York, começou fora da Broadway, mas virou enxame. Depois do acontecimento vieram outras adaptações para mais de 18 línguas. Aqui no Brasil, Chico Buarque, em 1978, monta a sua intertextualidade de Mackie Messer como “Ópera do Malandro”, que teve êxito como música, peça e filme. A história, lógico, é apoderada e abrasileirada na música “Malandro”, com o mesmo ritmo, melodia e harmonia da criação de Weill e Brecht. Chico age com liberdade poética. Contextualiza a sua história no Brasil pré-industrial, anos 40, para fugir do rigor da censura vigente. Os leitores deste texto despretensioso, feito no calor da recordação de música com quase 100 anos de composta, podem procurar – facilmente encontrarão – as muitas versões de “Mack, the Knife”, na internet. Cantoras de vozes potentes, Elza Soares e Alcione, também entoaram a versão brasileira de “Mack, the Knife”. Glória, pois, a Weill e a Brecht, que souberam divisar na ópera original de Gay os vieses sociais, políticos e revolucionários. No compasso lento emerge, de soslaio, uma história sempre nova, pois fala das fraquezas humanas na figura de um mendigo/marginal, o personagem central. Vale ouvir e conferir a letra, em qualquer versão. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/07/2016. - [PERDAS SENTIDAS - YOLANDA QUEIROZ, IVENS DIAS BRANCO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/perdas-sentidas-yolanda-queiroz-ivens-dias-branco-jornal-o-estado/): A morte, independente da crença, do agnosticismo ou do ateísmo das pessoas é ainda, para não fugir ao lugar comum, mistério. Pensadores, não os mais recentes, debruçaram-se sobre o fim da vida. Cito dois para mostrar o impacto quando alguém está próximo do fim ou quando se disserta sobre a morte. Sêneca, sempre citado, foi coevo de Cristo. Ele, em “Cartas a Lucílio”, afirma: “Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte”. Em contraponto, o escritor francês L-F. Céline, morto em 1961, destoa: “A maior parte das pessoas morre apenas no último momento”. Mas faz ressalvas, logo em seguida: “Outras começam a morrer e a se ocupar da morte vinte anos antes, e às vezes até mais. São os infelizes da terra”. Recentemente, no curto espaço de uma semana, perdemos duas pessoas que viveram até o último momento. Yolanda Vidal Queiroz e Francisco Ivens Sá Dias Branco foram combatentes ao longo de suas vidas. D. Yolanda, em 1982, perdeu o marido, o empresário Edson Queiroz, de forma abrupta. Abatida, mas não desistente, apegou-se à fé que possuía e, em pouco tempo, com a parceria da família e o seu primogênito Airton José Vidal Queiroz, a lhe dar força e o ombro, tomou jeito e gosto para a sua nova, longa, árdua e vitoriosa caminhada. D. Yolanda comandava o Grupo Edson Queiroz-GEQ que tem como joia da coroa a Universidade de Fortaleza. Afora a Unifor, a partir do escritório do seu pranteado marido, transformado em relicário, D. Yolanda dirigia um complexo empresarial que se dá ao luxo de ser fechado. Sem espaço para IPO ou abertura de capital. Ela sabia o que acontecia, em âmbito nacional, nas suas áreas tentaculares de comunicação, distribuição de gás, fábrica de eletrodomésticos e forte presença agropecuária. O GEQ representa hoje a doçura e a tenacidade de D. Yolanda aliada à meticulosa alma profissional e sensibilidade do filho Airton compor o mundo pelas versões multiformes do paisagismo e da arte espraiada na Unifor. A par disso, emergem a energia e as possibilidades da terceira gestão. Na missa de 7º. Dia de D. Yolanda, a neta Joana falou: “Minha avó sempre foi o centro de nossa família e ainda vamos ter que aprender a viver sem sua referência fisicamente conosco”. Ivens, desde cedo, foi companheiro de seu pai, o panificador português Manuel Dias Branco, vitorioso no interior do Ceará e de lá para Fortaleza. Já industrial de sucesso, Manuel, com saudade da terra mãe, transfere ao jovem Ivens, em 1953, o comando de uma emergente indústria. A partir daí, a desenvoltura foi a práxis da M. Dias Branco e da Idibra que, ano após ano, cresciam e mereciam o reconhecimento da sociedade do Ceará e do Brasil. A citação de Ivens entre os bilionários brasileiros na lista anual da revista “Forbes” não é uma contraprestação de favor, mas reconhecimento que se consolidara em pouco mais de 60 anos de sua gestão, sempre espartana. Para os que não sabem, Ivens era viajor e leitor qualificado, curioso, com olhar de “insider” empresarial ao identificar, implantar e equilibrar em sua balança empresarial atividades distintas, como empreendimentos imobiliários, fábrica de cimento e moinho de trigo, ao seu “core business” de líder nacional na área de massas e biscoitos. Sempre ligado à família, já na terceira geração, lutou como fazem os fortes surpreendidos por doenças graves. A discrição, o arrojo e a organização eram as suas características basilares, aliadas ao bem fazer aos seus colaboradores acometidos por males do bolso, do corpo ou da alma. Suas empresas, consolidadas, continuam fortes e antenadas sob o olhar capaz do predefinido sucessor, Ivens Jr., coadjuvado pela família. Ambos, Yolanda e Ivens, profissionalizaram as diversas empresas que compõem os seus distintos grupos. Tiveram o discernimento de, no tempo devido, auscultar familiares, diretores e consultores externos para dar formatação e continuidade aos complexos meandros de suas organizações que compõem a dura vida empresarial brasileira. Filhos e netos cresceram vendo exemplos, a forma mais próxima da verdade de educar e de dar sentido ao que se faz por destino, amor e coragem. Às famílias Queiroz e Dias Branco, o meu pesar. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/07/2016. - [REVISITA À PESSOA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/revisita-a-pessoa-diario-do-nordeste/): Os que fizeram a universidade nos anos 1960/1970 elegeram Fernando Pessoa (1888­1935)como o poeta a ser lido e estudado. Ele e os seus heterônimos. Preciso dizer que optei por Bernardo Soares: "sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças". A colega Maria Luiza Rodrigues e eu passávamos horas lendo a edição, em papel bíblia, do esquivo poeta lusitano. Pessoa, após a morte do pai, acompanhou a mãe que emigrou ­ e casou, novamente ­para a África do Sul, na cidade de Durban. Em África, Pessoa fez o curso secundário e aprendeu o inglês que usou como tradutor e publicitário, já em Lisboa. Em julho de 2015, os filhos do pesquisador inglês Hubert Jennings, morto em 1992, resolveram o que fazer com o espólio cultural do pai, especialista em Pessoa, com pesquisas "in loco" dos arquivos do vate, antes de terem ido parar na Biblioteca Nacional Portuguesa. O acervo de Jennings foi doado à Brown University, nos Estados Unidos. A Brown concentra estudos sobre literatura portuguesa e publica a Revista "Pessoa Plural". Entre os arquivos, foi encontrado o livro inédito de Pessoa "The Poet of Many Faces", em inglês. Soube por Maurício Meireles, FSP, C3, agora em 16 de janeiro. São destacados como "pessoanos" o argentino Patrício Ferrari, o brasileiro Carlos Pittela­Leite, o mexicano Octavio Paz e o italiano Antonio Tabucchi. Para mim, "A Tabacaria" e o "Livro do Desassossego" são o cume de Pessoa que, exangue, disse, em inglês: I know not what tomorrow will bring (Eu não sei o que amanhã trará). João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/01/2016. - [ADAM SMITH, O AUTOINTERESSE, A SIMPATIA, DAVOS E A DESIGUALDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/adam-smith-o-autointeresse-a-simpatia-davos-e-a-desigualdade-jornal-o-estado/): A Escócia, parte do Reino Unido, é país bonito, frio e com um inglês bem peculiar, falado pela gente culta, tomando uísque ou cerveja, e até pelos comuns mortais. No século 18, não existia energia elétrica, as estradas – ou caminhos – enlameavam quando das chuvas e petrificavam de gelo nos invernos. A parca calefação era preocupação individual, e sequer havia sido inventada a máquina de escrever. As folhas de papéis, as canetas, os tinteiros e os mata-borrões, afora os livros próprios e os de bibliotecas públicas, eram os únicos recursos de que se serviam os escritores de então. O escritor múltiplo Adam Smith, filósofo e cientista político, nasceu por lá nesse tempo e, mesmo assim, neste século 21, ainda é referência para ser negado ou elogiado. Não há como negar que ele foi estudioso e queria deixar obras que mostrassem a sua preocupação com a humanidade. Sua obra capital, publicada em 1776, “Uma Investigação Sobre a Natureza e a Causa da Riqueza das Nações” ou, simplesmente, “A Riqueza das Nações”, é considerada a referência basilar do regime capitalista. Essa obra, uma maçaroca de cinco partes, deveria ser conhecida melhor pelos economistas ortodoxos, heterodoxos, econometristas e outros que tais. “Conhecida” é distinto de “folheada”. No meu pensar, Smith possui obra que considero mais importante para os humanos, espécie da qual os econonistas fazem parte. “A Teoria dos Sentimentos Morais” foi escrito em 1859 e trata da moralidade humana que, segundo ele, depende da relação de simpatia entre um indivíduo e o restante da sociedade. Ele faz distinção entre simpatia e “autointeresse”, que tomo a liberdade de traduzir como ganância. Essa digressão histórica como Adam Smith poderia ser estendida a Karl Marx e a Friedrich Engels, mas é apenas caminho para se chegar nesse janeiro de 2016. Esta semana, na cidade de Davos, Suíça, reuniram-se a burocracia financeira, governos biliardários e supostas cabeças pensantes do mundo, no Fórum Econômico Mundial. Reúnem-se e se desentendem cada vez mais, pois falta a “simpatia” de que falava Smith. Sairão de lá e nenhum país relevante mudará uma vírgula da sua estratégia. Os outros, que vão lá fazer número, voltam fazendo declarações à imprensa que, cá para nós, acha interessante visitar essa pequena e rica cidade suíça em pleno inverno. Toda a mídia noticiou, na semana passada, que uma organização não governamental, com sede no Reino Unido, a Oxfam, afirmou que, neste ano de 2016: “62 pessoas possuem tanto (capital) quanto a metade mais pobre de população mundial”. A Oxfam acredita ainda que o patrimônio acumulado por 1% das pessoas mais ricas do mundo superará, em 2016, o dos 99% restantes. Entrei no site da Oxfam e descobri que ela tem ramificações em 94 países e possui como objetivo a luta pela extinção da pobreza e tornar consciente que cada pessoa deve lutar por seus direitos. Algo assim. Não sei como foram feitas as contas, se os dados são confiáveis, mas não há como não enxergar a existência de uma grande parcela mundial pobre, para não dizer miserável. Essas 62 pessoas, até o final deste ano, poderão ser donas de 50% de todos os recursos do mundo. Como já foi dito na reunião do ano passado, na mesma Davos, há uma explosão de desigualdade que entrava o duelo contra a pobreza mundial. “A escala da desigualdade é chocante”, afirmou a diretora executiva geral da Oxfam Winnie Byanyima. Descobriram a pólvora. As armas estão no Oriente Médio. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/01/2016 - [MONÓLOGO UTÓPICO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/monologo-utopico-diario-do-nordeste/): Não conseguira ainda descobrir onde e quando errara. Seguira o manual do avô e, depois da morte do candidato do Nordeste, das subidas e descidas da acreana, havia chegado ao segundo turno. Na última semana, véspera das eleições, os institutos de pesquisa mostravam quadro faccioso, pensava ele. Reuniu toda a paciência do mundo e foi para o último debate. Estudara e repisara como nunca o fizera quando estudante. Sabia as respostas na ponta da língua. Ouvia aplausos quando retrucava as falas entrecortadas da adversária. Ela pisou no acelerador e o colocou contra as cordas imaginárias do ringue. A senhora está sendo leviana, disse ele. Eu? Leviana? Sim, por faltar com a verdade. Mas a palavra leviana ficou no seu inconsciente. Ele que era polido, educado e costumava medir o que falava. Aprendera com o avô. Talvez tenha sido esse o erro, mas alguém dissera que, ao colocar as mãos nos bolsos das calças, enquanto a adversária falava, parecia desdenhar. A calça "slim", os sapatos polidos e o paletó azul com cortes laterais, o decompuseram na pecha de "playboy" que assacaram contra ele? Outro erro? Agora, de bermudas, olhos marejados de lágrimas, ouvindo, ao longe, o barulho do trânsito do Leblon, escutava o choro dos filhos de poucos meses e não encontrava a resposta que já não mais fazia sentido. Fora vencedor por poucas horas, no transcurso da apuração, até que a enxurrada de votos do agreste desaguou sobre ele. Não encontrava resposta para a segunda derrota em Minas Gerais, sua terra amada. Quem teriam sido os calabares? João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/11/2014 - [A HISTÓRIA DO FUTURO DAS CIDADES E A CONSCIÊNCIA URBANA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-historia-do-futuro-das-cidades-e-a-consciencia-urbana-jornal-o-estado/): “No interior da grande cidade de todos está a cidade pequena em que realmente vivemos”. José Saramago Como já mexi em diferentes áreas do conhecimento, por oportunidade, ousadia, descortino, curiosidade e necessidade, ouso dizer que passei anos coordenando e dirigindo equipes de planejamento urbano em cidades do Nordeste, especialmente, na região semiárida. Do Maranhão à Bahia vasculhamos urbes e, com arquitetos, economistas, engenheiros, geógrafos, historiadores, advogados, sociólogos e outros mais fomos aprendendo, planejando e ensinando a fazer. O que foi difícil. Orgulho-me, por exemplo, do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, de Mossoró, Rio Grande do Norte. Mossoró, então dirigida por Dix-Huit Rosado Maia, começou a implantação do que planejamos na década de 1970 e, hoje, é uma das mais promissoras cidades da Região. Tenho, em algum arquivo perdido, texto de jornal quando da entrega ao então prefeito de Sobral, Euclides Gomes, do Plano Estratégico daquela cidade da zona norte do Ceará. Agora, neste 2014, vemos o óbvio: as cidades estão sufocadas em suas estruturas urbanas pela ausência de planejamento de longo curso, pelo fomento à industrialização de veículos em face dos impostos e empregos que geram. Esses veículos sejam bicicletas, motos, carros, caminhões e ônibus precisam de rodovias para a sua livre circulação. Os aviões carecem de bons aeroportos ou meras pistas de pouso onde taxiam Brasil adentro. Em pleno século 21 o Brasil tem baixa navegação fluvial e marítima. A grande rede ferroviária nacional foi sucateada sob, entre outras alegativas, das diferenças de bitolas que recebem as rodas dos trens. Há promessas de melhoras. Para quando? Foi na década de 1960 que começou o cerco às carências de áreas urbanas para habitação e lazer. Adensam-se as favelas iniciadas, no século 19, pelos soldados vindos das guerras do Paraguai e de Canudos. A eles, em nome das “vitórias” foram prometidas moradias, nunca dadas pelo Governo. A propósito, o nome Favela (cnidoscolus phillanthus) tem a ver com o mundo ideal e utópico do messiânico cearense Antonio Conselheiro nos sertões da Bahia. Ela é planta espinhenta que servia de barricada contra as descomunais forças militares que, após sucessivos embates, dizimaram Canudos. Euclides da Cunha, um duplo, pois observador militar e escritor. O Autor de “Os sertões” expõe sua visão como engenheiro, antropólogo, escritor e homem frágil em crise pessoal permanente. Em meio ao século 20, o grande Brasil rural passou a ser urbano com a velocidade do sonho de JK, e da atração capilar exercida pelas cidades-polo de crescimento sobre migrantes do sertão brabo em busca, de início, da sobrevivência. Após a sobrevivência, eclode o natural desejo de inserção na cidadania que cobra casa com água, esgoto, energia elétrica e ruas pavimentadas, assistência médica, educação para a descendência, segurança pública e, por fim, o tal do consumo conspícuo que os atrai com lampejos, apelos, veículos vendidos com crédito a perder de vista, cartões de créditos a juros absurdos e o fascínio do embuste que é o crédito consignado. Estava formada a equação complexa para o caos que é hoje o Brasil urbano. Deixo, por ausência de conhecimento, de falar na economia e na produção rural que parecem ser pilar nas exportações brasileiras de “commodities”. Entretanto, quem exporta commodities é porque não alcançou ainda os patamares da industrialização competitiva no mundo sem confins e apátrida do mercado internacional. As lutas de ecologistas sérios para a preservação da natureza não pode coibir as transformações que a mobilidade urbana está a exigir, sob pena de asfixia coletiva que coloca os guiadores em estado de suspense com medos de assalto pela lentidão do trânsito e do exagerado número de semáforos. Por outra parte, a criação recente de ciclovias e de faixas exclusivas de coletivos não deve apenas acelerar a quantidade de multas de trânsito, pois, na verdade, há ainda pouco uso dessas estreitas faixas fora dos horários de pico e os outros veículos precisam fazer conversões. A educação de trânsito é mais benfazeja que a aplicação de sanções pecuniárias a guiadores que ainda se consideram “donos da rua”. O diálogo democrático permite a confrontação das ideias, mas, infelizmente, as cidades não param de crescer. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/11/2014 - [MANOEL DE BARROS E A ORFANDADE DA POESIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/manoel-de-barros-e-a-orfandade-da-poesia-jornal-o-estado/): “Um mérito inegável da poesia: ela diz mais e em menor número de palavras que a prosa”. Voltaire. Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu, em 19 de dezembro de 1916, no Mato Grosso. Que, depois, virou dois Estados. Nasceu em Cuiabá, morreu em Campo Grande. Dois em um. Formou-se em Direito, advogou até. Casou-se, teve filhos, cansou de advogar e virou fazendeiro/poeta. Sofreu. Perdeu filho em desastre aviatório, mas nunca usou a tristeza como mote. Há um ano padecia e se finou no dia 13 passado. Quem quiser procurar, ele está em alguns escritos meus. Ora como epígrafe, ora com suas frases despidas de retórica, mas poéticas. O que escrevo abaixo é mera pesquisa/colagem. Reúno o que falaram sobre Manoel de Barros. Falta-me envergadura para descrevê-lo. Uso os outros como meio. Eu sou a mensagem. Carlos Drummond de Andrade, em 1986, teve a coragem de dizer que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Não mentia. A morte de Manuel de Barros nos entristece e mostra uma dura realidade: há poucos bons poetas no Brasil de hoje. Há rimadores e metrificadores, mas lhes falta essência na poesia, sobra a não naturalidade. Ele, Manoel, quis apenas dizer o simples, não se propôs a voos condoreiros que não mais cabem neste mundo transformado por mudanças que o dealbar deste século nos impuseram. Voou fora de sua própria asa. Cada época da história deu à civilização um novo compasso. Ocorre que a invenção do chip, do computador, da internet, dos DJs, da quebra de fronteiras, dos livros digitais e do surgimento de novas linguagens, incomuns aos renitentes, mostram o atraso que nos persegue. A “vanguarda primitiva” de Manoel de Barros possui sintaxe própria, sem o rebuscamento inglório dos que não sabem ser simples. Alguns se lastimam, outros cantam amores e há apenas os que tartamudeiam. Ele elegeu a singeleza. Vejamos: 1. Gravata de urubu não tem cor; 2.O esplendor da manhã não se abre com faca; 3. Mais alto que eu só Deus e os passarinhos. A dúvida era saber se Deus também avoava. Ou se Ele está em toda parte como a mãe ensinava. 4. A poesia está guardada nas palavras – é tudo que sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado de elogios. Em um especial da televisão GNT vê-se profunda identidade entre Manoel de Barros e o seu simplório caseiro, ambos felizes. Manoel de Barros poetou, pela primeira vez, em 1937, em plena ditadura Vargas, pouco antes da eclosão da Segunda Grande Guerra Mundial. Talvez, quem sabe, optou por ser lírico ou onírico. Nada de engajamento, de questionamentos, de dores de amores, de metáforas buarqueanas, que viriam depois. Era direto ao ponto. No filme documentário feito Pedro Cézar, de 2008: “Só Dez por Cento é Mentira”, o autor parte de um chiste de Barros: “Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”. Para Armando Freitas Filho, citado por Sérgio Rizzo, na Folha de São Paulo, 14.11.2014, Manoel de Barros “começou como um poeta formal, clássico, de dicção nobre, até chegar a uma poesia singular”. Refinou-se. Como ele próprio dizia: “Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma”. Barros teve a sua fase revolucionária, diz Noemi Jaffe, doutora em literatura. Foi comunista e rompeu, sem tecer armas, com Luiz Carlos Prestes, quando o marido de Olga Benário, deportada para a Alemanha, por ordem de Vargas, aliou-se ao Getulismo, por ser útil. Como se sabe, Manoel de Barros era a favor da utilidade do inútil. Mia Couto, escritor moçambicano, enamorado pelo Brasil e que gosta muito de aparecer, por sua fotogenia, não perdeu a oportunidade: “Não era apenas um poeta, um recriador de um idioma que, depois dele, tornou-se mais nosso... Era um filósofo que pensava e repensava o mundo por via da poesia”. Óbvio. Agora, editados os cadernos literários por sua morte esperada e as menções de praxe, Manoel de Barros vai continuar a ser lido por poucos. Não era funileiro de palavras. Era poeta, só. Cumpriu o seu fado. Poeta não é confeiteiro de frases. É músico sem metrônomo que escuta compassos e dissonantes e os transforma em versos melodiosos. Se a poesia é uma religião sem esperança, como queria Jean Cocteau, Manoel de Barros ultrapassou esse estágio. Viveu de esperança. Sua filha Martha despediu-se do pai com uma frase dele: “Do lugar onde estou, já fui embora”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/11/2014 - [ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO DAS MÍDIAS, SEGUNDO NOAM CHOMSKY - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/estrategias-de-manipulacao-das-midias-segundo-noam-chomsky-jornal-o-estado/): Caros leitores, esta semana resolvi repassar a vocês o artigo “10 estratégias de manipulação” que circula nas mídias atribuído ao linguista, filósofo e ativista político norte-americano Noam Chomsky. Ele é de origem hebraica, tem 86 anos, professor do Massachussets Institute of Technology – MIT por mais de 40 anos. Considera-se um “socialista libertário”, desde quando se posicionou contra a Guerra do Vietnã. Escreve, dá palestras e é um dos formadores de opinião do pensamento americano. Seria no Brasil, quiçá, um liberal, um social-democrata ou um politicamente correto. Nestas quadras em que temos muitas mídias, umas falando bem, outras falando mal de todos, escândalos e pasmaceira, é bom que você fique alertado com o que vê, lê e ouve. Não é preguiça de escrever. É um desafio que lanço a cada um dos leitores. Repito, o texto abaixo e a tradução para português não são meus. O original está em parisis.files.wordpress.com. Há repetição de palavras no mesmo parágrafo, talvez como ênfase. Leia-o com atenção. Hoje, como se sabe, são muitas as mídias que nos alcançam onde quer que estivermos. A conclusão será de cada um de vocês. Apenas cedo o espaço para ele. Se for ele. Vai em itálico. 1 – A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais. 2 – CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos. 3 – A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez. 4 – A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento. 5 – DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê?” Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade. 6 – UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos... 7 – MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores. 8 – ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto... 9 – REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução! 10 - CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO Jornal O Estado EM 28/11/2014. - [O CERCO À CHEFE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-cerco-a-chefe-diario-do-nordeste/): Ao redor da minha cama há jornais, revistas e livros. O mesmo acontece no meu escritório de casa, no trabalho e no carro. Os papéis vão tomando os espaços de mesas e dos sofás. É bagunça. Hoje, resolvi fazer uma limpeza nesses papéis avulsos. Estou meio gripado e a seleção do que será jogado fora é dolorosa. Espirros e culpa. Não precisarei disso daqui a algum tempo? Assim, contra a minha vontade vou escolhendo muitos para descartar. Cada revista, caderno literário, recorte ou livro é olhado piedosamente e, num rasgo de desapego, vou enchendo um grande saco. Neste instante, vi que logo acima falei em papéis avulsos. Dou-me conta que uso o título de um livro de contos (1882) de Machado de Assis. Nesse livro, que recomendo, há a matreira crítica machadiana ao seu tempo e às instituições da época. Os contos são do final do século 19, mas há contemporaneidade nas análises, especialmente em "A Sereníssima República". A propósito, a nossa República de 2014 não anda nada calma. Há muitas questões irresolvidas entre os poderes e as mídias de hoje - que ainda incluem jornais, revistas e livros - mostrando as crateras de desentendimento, a contrafação e o jogo sujo da delação por interesses contrariados. Partidos malthusianos ocupam todos os espaços para os seus e surge o quase isolamento da Chefe do Estado, por falta de confiança em auxiliares que escolhera para cargos estratégicos do governo. Nós, cidadãos e eleitores, somos as aranhas de que fala Machado, sem tessituras concretas. Há espasmos, mas prevalecem a voz e o desejo dos arautos. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/11/2014 - [A ESTÉTICA REVOLUCIONÁRIA DO GRAFITISMO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-estetica-revolucionaria-do-grafitismo-jornal-o-estado/): Seriam, como admitem alguns, certas inscrições rupestres, embrião ou espécie de grafite? Pelo sim, pelo não, há uma corrente que associa o atual “grafitismo” a uma evolução de certas pinturas rupestres às garatujas e aos desenhos nos espaços da cidade de Nova Iorque do início dos anos 1970, quando a guerra do Vietnã trazia más notícias para familiares dos soldados americanos mortos. A maioria, descendente de latinos e negros. Detalhe: os caixões mortuários vinham lacrados, cobertos pela bandeira americana- posteriormente entregue às famílias-, saudados por tropas e salvas de fuzis no cemitério nacional de Arlington, que não fica em Washington D.C., mas no Estado da Virgínia. O crescimento incomum dessa grei de pintores-pichadores(?) chocou. Eles o fizeram em todos os tipos de espaços urbanos encontrados(metrôs, prédios abandonados, paredes, outdoors) público ou privado, para assustar ou afirmar, através dessa linguagem pintada, que precisavam ser vistos como iguais, aceitos em uma sociedade apartada que deveria se voltar para a igualdade de direitos e oportunidades para as minorias a que eles pertencem. Ao mesmo tempo, engajaram-se com o hip-hop, essa forma musical diversa do que os ouvidos tidos como cultos estavam acostumados a escutar. Era a nova “arte” em meio ao caos. Kitsch? Talvez. André Malraux, escritor e político francês (1901-1976), ao responder à questão “O que é arte?”, disse: “Aquilo por meio do qual as formas tornam-se estilo”. Neste sentido, o grafitismo, por já ter estilo definido, quer se aceite ou não, é arte. No Brasil não seria diferente, e se fez notar a partir do fim dos anos 1970, consolidando-se de lá para cá, a ponto de alguns críticos enxergarem um estado da arte ou de estética nos grandes murais que foram sendo grafitados por todo o País. Essa expressão visual tem códigos e linguagem próprios. Um “bite”, por exemplo, é imitar o estilo de outro grafiteiro. Uma “crew” é uma tribo ou conjunto de pessoas a se expressar por essas formas coloridas e sinuosas que procuram so-le-trar a indignação – ou a arte - em uma estética questionada, porém sedimentada. Abriguem ou não. A assinatura deles é um “tag”, um sinal ou marca. Não os comportados nomes dos pintores clássicos, tradicionais ou vanguardistas, firmados ao pé das telas. O grafiteiro iniciante é um “toy” (brinquedo). O espaço, o lugar onde se inscreve o grafite é um “spot”. Vejo no grafitismo a influência dos afrodescendentes dos distritos nova-iorquinos do Bronx e do Harlem. Depois, espargido e enriquecido por todo o planeta. Aqui, nesta Fortaleza, de tantas artes e incômodos nas camadas mais simples da população, foi sendo cultivada o “graffitti”, como arte ripária. Agora, a Galeria BenficArte nos seus 15 anos, abre o seu novo espaço para 14 grafiteiros: Ana Rachel Lopes (Kel), Bruno Ribeiro (Spoteink), Cassius do Vale (K-Sim), Eduardo Santos (Edu), Gabriel Rodrigues (Qroz.VDM), Israel Félix, Ítalo Soares, Leandro da Silva (Filtro de Papel), Lourenço Pinto (Rayki), Moacir Júnior (Jr. Animal), Narcélio Dantas (NarcélioGrud), Pedro Henrique Lemos (Pedrim Moicano), Pedro Lopes (NOIA) e Ruy Bezerra, que aceitaram participar de um desafio, sob a forma de concurso, com consequentes premiações.0 15º. partícipe é cada visitante. A “Exposição Grafitart” mostra e finca as tintas acrílicas/sprays em telas que não se enquadram na convenção da arte tradicional e, mesmo sendo rebeldes – com causa - se submeterão ao julgamento de uma comissão, constituída por artistas plásticos, colecionadores, galeristas, professores de arte, comunicadores. No vanguardismo que caracteriza a Galeria BenficArte (Carapinima, 2200 - 2º piso) nestes seus 15 anos de vida, essa exposição nos dá a certeza de que não há mais lugar para o preconceito. Aceite-se, então, a criatividade diferente das ideias e formas consagradas. O assentimento maior vai depender do olhar, da intuição, do saber e da imagem fixada na retina de cada visitante, o 15º. participante dessa mostra que ficará exposta, de forma gratuita, até o dia 16 de novembro de 2014. Cada pessoa poderá dar o seu veredito, o voto popular, que, somado ao da comissão julgadora, dirá quem serão os premiados vencedores. Esperemos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/10/2014. - [CONSTRUTIVA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/construtiva-diario-do-nordeste/): João Jorge Melo, arquiteto sem prancheta, ambientador part-time e artista permanente dos pincéis e da vida, montou esta exposição "Construtiva", em 100m que a Galeria BenficArte cedeu para ele neste outubro rosa, o mesmo das eleições presidenciais, da seca no Sudeste brasileiro e do 15º aniversário do Shopping Benfica, este misto de centro comercial e de artes que fincou as suas fundações no universitário bairro do Benfica, onde a "intelligentsia" de Fortaleza desponta em todas as gradações e ideologias. E é bom que seja assim, não burguês, distinto dos demais e qualificado por sua própria história com a arte e a cultura deste século 21 ainda pré-debutante. O Shopping Benfica crescerá de forma íntegra e coerente com o que cavou, adubou, plantou e já começa a boa colheita. Construtiva é prova disso. João Jorge faz as vezes de semeador excêntrico, sem medo de expor as suas inseguranças - comum a todos os artífices - na astúcia experimentalista que permitiu a Descartes Gadelha, com propriedade, dar o seu Imprimatur: "João Jorge paira seu olhar sensível sobre todo esse contexto caótico/silencioso e faz na arqueologia a sua arte criativa...". Prossegue ele: "Assim, portanto, encontramos em João Jorge uma práxis eclética multiconceitual refletindo uma sociedade em constante mutação, reformas e adaptações". Ao conjunto dessa heterogeneidade o expositor decidiu chamar de "Construtiva". Será adequado o nome? Os visitantes, responderão. Para os olhos de cada um, está aberta a oportunidade de entender as razões, os sentidos e a (des)harmonia nesse branco espaço de luz e graça. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/10/2014. - [COMO ESCOLHER OS SEUS CANDIDATOS NO 2° TURNO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/como-escolher-os-seus-candidatos-no-2-turno-jornal-o-estado/): “A pior democracia é preferível à melhor das ditaduras”. Rui Barbosa, escritor e político brasileiro, 1849-1923. Peço leitor, leitora, que faça um sacrifício: ouça e veja os programas de televisão e os debates ao vivo deste segundo turno das eleições de 2014.Sinta as promessas expostas. Compare essas promessas com a realidade em que você vive e tire as suas próprias conclusões. Não se deixe levar por nada além da sua própria consciência e da sua capacidade crítica. A partir daí forme um juízo de valor que lhe dê a sensação de que vai buscareleger os melhores candidatos. Não importa que sejam apenas um, ou dois votos. É o seu voto. Você não poderá reclamar se houver votado por brincadeira, descaso ou desforra. Na democracia só se pode apear alguém do cargo que ocupa - oudo que pretende atingir - se ficarmos atentos à sua história pessoal, à sua vida política, à sua propaganda eleitoral e, principalmente, aos debates. Há um conhecimento antigo, com mais de 5.000 anos, chamado fisiognomonia que indica quando a pessoa está mentindo pela incapacidade de dominar as expressões que o seu caráter difunde. Cada traço de um rosto e o som de uma fala diz muito sobre o comportamento do orador. É claro que há atores, mitômanos, mas, via de regra, fica claro quando a pessoa sai do seu natural e muda as suas feições por estar posando ao invés de dizer a verdade, pura e simples. Além disso, a título de mera ilustração, passo a enumerar algumas frases de pessoas famosas que poderão lhe sugerir alguma saída para a possível dúvida que ainda perdure. Custa nada ler e concluir o que elas, as tais pessoas famosas, disseram, a partir de suas próprias credibilidades:1. O engano:La Rochefoucauld (escritor francês, 1613-1680):“O uso frequente da astúcia é sinal de pouca inteligência, e quase sempre quem se serve dela para cobrir-se de um lado acaba se descobrindo do outro”. Abraham Lincoln (presidente norte-americano,1809 -1865):“Pode-se enganar toda a população algumas vezes, ou parte dela sempre, mas não se pode enganar toda a população sempre”.2.O (a) adversário (a): Edmund Burke (político inglês, 1729-1797)diz:“Quem luta contra nós reforça nossos nervos e aguça nossas habilidades. O nosso antagonista é quem mais nos ajuda”. Ugo Ojetti (escritor italiano -1871-1946): “Se queres ofender um adversário, elogia-o em voz alta pelas qualidades que ele não possui”.Retomo o fio da meada para sair do sério, citar algumas frases alegres, porque brasileiras,e, quem sabe, possam ajudar na sua decisão de voto. Lembra-se do Odorico Paraguaçu, personagem de novela do Dias Gomes: “Em terra de sapos, de cócoras com eles”.O famoso maestro e compositor Antônio Carlos Brasileiro Jobim deixava claro: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. O ex-guru do PSDB, Sérgio Motta, já falecido: “Com alguns deputados, só conversando na sauna, e pelado”. O também falecido cacique político Antônio Carlos Magalhães disse, certa vez: “Ninguém discute nada seriamente na presença de quatrocentas pessoas”. E, para finalizar, nada melhor que Lula: “Eu queria dizer para vocês que o que fizemos até agora foi mais fácil do que o que nós temos para fazer daqui pra frente”. Por fim, leitor, leitora, vote em alguém parecido com você. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/10/2014 - [OS PINHEIROS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-pinheiros-diario-do-nordeste/): A contação de histórias de sucesso parece fácil. Por trás de cada pessoa exitosa, profissional liberal, empresário, político, acadêmico, cientista etc. Há longo caminho percorrido com determinação, estilo, destemor e saber. O saber pode ser inato, mas o adquirido tende a ser a gradiente básica para o longo prazo. Ninguém faz sucesso se não há trajetória clara a ser contada sem medo. Assim, aos 60 anos, Honório Pinheiro emerge para o cenário da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas-CNDL, depois de percorrer uma longa trilha, desde Solonópole ao perímetro de Fortaleza. Daí pelo Ceará, ao lado do irmão Bosco e escutando o pai, Joaquim. Honório Pinheiro não deixou que a pátina dos balcões e o tintilar das registradoras o cobiçassem e o alijassem dos estudos. Acumulou informações básicas nos cursos de direito, psicologia e administração e as transformou em conhecimento objetivo, mas sensível, na rede de supermercados - e cinemas -que dirige com o irmão Bosco, os filhos e os sobrinhos. A integração familiar foi básica. Esse bastião o levou ao seio da CDL, depois à FCDL sem esquecer-se da implantação das Faculdades CDL e, agora, para a presidência da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas. Este pequeno relato não acrescenta um cêntimo aos valores essenciais que Honório consolidou, mas, quiçá, possa incentivar jovens a acalentar sonhos de independência e desejosos de construir caminho próprio, a partir da fé em si mesmo. Por tal razão, o faço com a alma leve dos que se regozijam com o lícito sucesso alheio. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/10/2014. - [DE UM TUDO - ALMANAQUE CEARENSE DO AUDIFAX RIOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-um-tudo-almanaque-cearense-do-audifax-rios-jornal-o-estado/): “Os lugares-comuns, as frases feitas, os bordões, os narizes-de-cera, as sentenças de almanaque, os rifões e provérbios, tudo aparece como novidade, a questão está só em saber manejar adequadamente as palavras que estejam antes e depois”. José Saramago (1922-2010), escritor português. Audifax e João Rios, pai e filho, formam a dupla que edita, por sua conta, risco e atitude, o almanaque “De um Tudo”, já no número 17,cujo título é escrito assim: De*Um*Tudo traz as cores fortes das camisas tropicaiscom as quais Audifax pisa as ruas da Praia de Iracema e as do centro, sem deixar de bater ponto na sede do Clubedo Bode, presuntivo, talvez realherdeiro psicodélico, anárquico, etílico, armorial, cult, chique e brega da centenáriaPadaria Espiritual, tão obsequiada por fortuna crítica mais apaixonada que conferida. Assim, o “De Um Tudo” é escoadouro para a torrente de escritores, poetas, contadores de estórias e assemelhados que frequenta, nas noites de sextas e aos sábados, do meado das manhãs ao começo das calorentas ou refrigeradas tardes -dependendo da casta- de um comprido e não tão largo imóvel. O local é, ao mesmo tempo, antiga livraria de linhagem familiar, emergente galeria de arte e escritório, climatizado, multiuso, onde se faz alguma coisa, come-se e bebe-se em boca livre, sabe-se de tudo o que acontece ou o que se inventa na vida mundana, política, cultural, artística e social do Ceará. Na área externa, a calorenta, cada um paga o que consome. É verdade que o citado Clube do Bode já foi e é visitado por autoridades federais, estaduais e municipais, ministros de tribunais superiores e de eucaristia, acadêmicos da Brasileira de Letras, adversários políticos que ali, eventualmente, se congraçam; jornalistas, escritores, diletantes, aposentados, aspirantes a isso e aquilo, pessoas sérias e, algumas, nem tanto. Esse templo pagão fica na primeira quadra da Rua Dom Joaquim, logradouro sentido norte-sul, em homenagem ao bispo cearense D. Joaquim José Vieira, morador ali perto, no começo da Prainha, a renovada Avenida Monsenhor Tabosa, onde debulhava o seu terço e preparava homílias entre as paredes arqueadas de tijolo de barro do velho -e ainda aberto- Seminário e da Residência Episcopal. Voltando ao Almanaque: o número 17 contém 24 páginas em que figuram: Tarcísio Matos, jornalista e produtor de programa de televisão; Assis Martins, cronista e ilustrador; homenagem a Xico Theófilo, que partiu antes de nós para o porvir; Paulo de Tarso Pardal, professor, escritor e Luthier; Eleuda de Carvalho, jornalista e professora de literatura; Raymundo Netto, escritor, design e editor; Airton Fontenele, pesquisador de futebol, torcedor do “Fortaleza”e escritor; Luizinho Ferreira, fotógrafo veterano; este escrevinhador; Edmar Carneiro, santanense e aposentado; Dimas Carvalho, poeta, prosador, protagonista e contador de histórias cabeludas. Há uma bela homenagem a Ariano Caetano, ou Suassuna, com testemunhos de Ricardo Guilherme, ator e diretor de teatro; Ferreira Gullar, poeta e escritor maranhense; Gilmar de Carvalho, professor e pesquisador. Se não estiver cansado, leia ainda sobre a admirável e ribeirinha cidade de Santana do Acaraú, em duas páginas; vá em frente com Narcélio Limaverde, João Lucas Arcanjo, Alexandre Henrique e leia Audifax sobre a Padaria Espiritual, já citada por mim lá no alto da página. O Almanaque fecha com um horóscopo heterodoxo. Vamos ficando por aqui, não sem antes dizer que o surgimento de um almanaque é fato auspicioso -pela leitura breve, jocosa, séria e agradável-para a cultura local, por sua capacidade de abrigar escritores não optantes por blogs e o mundo encantado/aloprado da Internet.E, de revelar-se, em tempos de seca, a resistência firme dos dois Rios, Audifax e João. Vida longa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/10/2014 - [FLUXO E CONTRAMÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fluxo-e-contramao-diario-do-nordeste/): Todos sabemos que Fortaleza está procurando mudar o seu sistema viário urbano, criando, entre outros, viadutos, passagens de nível e binários onde há tráfego excessivo de coletivos, autos e motocicletas. A cidade só começou a ter viadutos na administração Juraci Magalhães. Fortaleza não teve a ventura de formular bons planos de desenvolvimento urbano. Desde o de Silva Paulet, em 1818, com a planta em xadrez da Villa de Fortaleza, passando pelo de Saboya Ribeiro em 1947. Depois, vieram os planos diretores de 1962, 1972, 1992 e 2009. Nada de significativo alterou ou inovou. Deu-se aos semáforos a função de regular o tráfego. Não se levou em conta- tampouco se mudou - a forma de implantação da cidade e de seus loteamentos, quase todos ortogonais. Agora, neste 2014, já perto de um milhão de veículos, há tentativa de desfazer o nó górdio gerado. Já escrevi, em análise anterior, que, pelo menos, as margens justafluviais do Rio Maranguapinho e Ceará deveriam servir para construir vias paralelas de escoamento de coletivos e caminhões pesados. As hoje usadas não possuem caixas suficientes para dar vazão ao volume de veículos, em qualquer sentido de direção. Além dos desvios, ordenados, com sinalizações e fiscalizações, devem ser coibidas as diversas contramãos usadas como pontos de fuga da confusão nas horas do "rush". Um exemplo: a estreita rua Princesa Isabel, sentido sul-norte, quase todas as noites é invadida por alguns ônibus urbanos e metropolitanos na contramão, sentido norte-sul. Prevenir é cogente. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/10/2014 - [SÉRGIO E ALBERT(O) - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sergio-e-alberto-jornal-o-estado/): “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. Albert Einstein, cientista alemão Sérgio, um velho amigo meu, liga eufórico: você sabia que o Alberto é do time? - Que time?, pergunto eu. Sérgio ri, e diz eufórico: o Alberto era dos bons. Eu pergunto: que Alberto? - Ora, ora, me diz ele: o Albert(o) Einstein, o cientista, o da lei da relatividade, o alemão-judeu que se mandou para os Estados Unidos quando o nazismo começou. Sérgio, eu não estou entendendo o que o Albert Einstein tem a ver com o time que você fala. Que time é esse? Ele não se faz de rogado: - é o time dos homens danados, assim como eu, que namoram muito, casam sempre e têm amantes. Pois não é que descobriram agora que o Albert ou Alberto, como quer o Sérgio - ele teima em ser íntimo: além de casado duas vezes, teve dez amantes, tudo comprovado em cartas cujos teores foram divulgados há algum tempo por jornais e televisões de todo o mundo. Na realidade, eu tinha lido o assunto apenas por cima mas, depois que o Sérgio me telefonou, resolvi pesquisar e vi que, verdadeiramente, Einstein entre um e outro estudo não dispensava uma visita a amantes e, como intelectual que era, trocava cartas com elas. Está tudo nas 3.500 páginas dos arquivos doados por Einstein à Universidade Hebraica, em Jerusalém, Israel. A descoberta só ocorreu em 2006 porque havia uma cláusula testamentária de que as cartas dele só seriam abertas, vinte anos após a morte de sua enteada e confidente, Margot Einstein, ocorrida em 08 de julho de 1986. Esse fato, a descoberta, foi apenas a da décima amante, pois nove já estavam identificadas e catalogadas. Apareceu a Ethel, que foi se juntar a Margareth, Estella, Betty e duas Tonis, entre outras. Como se vê já faz oito anos que as cartas foram deslacradas e divulgadas. Para o Sérgio não importa que o fato tenha acontecido em 2006. A alegria dele é incontida, pois só agora soube das “estrepolias” do Albert(o). Assim, vi que o folgado do Sérgio tinha razão. O Einstein fazia parte do seu time e, certamente, achava que tudo no amor seria atinente, só não o tempo que era absoluto e sobrava para ele. Em época de poucos e precários telefones, as cartas, que não mentem jamais, teriam sido usadas para a marcação de encontros e de seus relatos prazerosos. Esses ditos eventos, além de causar profunda satisfação ao Sérgio, demonstraram, segundo ele, que os cientistas não só lidam com abstrações, física, química e fórmulas matemáticas, mas cuidaram de encontrar respostas para as suas próprias situações nas andropausas matrimoniais e as “outras”. Cientistas, para o Serjão, são pessoas falíveis que podem aditivar as paixões, lícitas, ocultas ou escancaradas. Um adicional que lhes dê o enlevo suficiente para manter uma relação firme e até descobertas que fazem bem à humanidade. Como disse o feliz Sérgio, em outro telefonema: -graças a outros cientistas, na área da farmacologia, estou em plena forma e sempre altivo. Falou bem de alguns medicamentos e disse que há genéricos em qualquer farmácia. E ainda alvitrou: será que o Albert(o)já não havia descoberto isso na sua época. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/10/2014. - [ABSURDOS EXPOSTOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/absurdos-expostos-diario-do-nordeste/): Tento, mas não consigo desligar-me dos absurdos do horário eleitoral. Há candidatos a deputado estadual/federal que não têm a menor ideia da atividade parlamentar. Prometem o que é competência exclusiva do Poder Executivo e utilizam, de forma despudorada, nomes ou alcunhas exóticas para que o eleitor, ao votar, lembre-se dele. Eleição não é teatro. Você, caro eleitor, sabe quais as funções de um deputado, seja estadual ou federal? Deputado é alguém - eleito pelo povo- incumbido de legislar, alterar ou revogar leis, propor emendas e fiscalizar os atos do poder executivo. Leia, veja a análise que, todos os anos, as mídias sérias fazem dos que atuam na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará e na Câmara Federal. Ser deputado não é ser despachante de luxo, tampouco porta-voz das prefeituras onde é votado. Na prática, os prefeitos - ou os opositores, derrotados - são cabos eleitorais dos candidatos à reeleição ou dos que aparecem por lá pela primeira vez e, sem história pessoal no lugar ou na região, saem com votação surpreendente. Como? Muitos falam das emendas parlamentares e dos seus destinos, alguns tortuosos. Outros se valem de (ONGs), organizações não governamentais. Algumas dessas ONGs, institutos e fundações, paradoxalmente, vivem da prodigalidade de verbas públicas. Não é de estranhar que, há poucos dias do pleito, muitos ainda não saibam em quem votar. Há descrença crescente que só poderá findar se cada eleitor tiver o cuidado de bem escolher cada candidato. Não jogue fora os seus votos nas eleições. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/09/2014 - [ARTUR EDUARDO BENEVIDES, POR ELE MESMO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/artur-eduardo-benevides-por-ele-mesmo-jornal-o-estado/): Artur Eduardo Benevides, poeta, professor e “Príncipe dos Poetas Cearenses”, morreu no último domingo, 21 de setembro de 2014. Era o presidente de Honra das academias Cearense e Fortalezense de Letras. Seu corpo foi velado, desde a noite do falecimento, no salão principal do Palácio da Luz. A missa de corpo presente foi celebrada na manhã de segunda-feira, de forma lírica, didática e sentida pelo acadêmico monsenhor Manfredo Ramos. O Presidente da ACL, José Augusto Bezerra, com postura reverencial, disse da imensurável perda sofrida pela literatura cearense e, especialmente, pela Academia Cearense de Letras, da qual Artur foi acadêmico (cadeira 40) e presidente por uma dúzia de anos. Mauro Benevides, acadêmico e sobrinho, fez o seu panegírico. Adequado, encadeado e circunspecto. Hoje, nesta sexta-feira, cedo este espaço hebdomadário ao próprio Artur Eduardo Benevides, não sem antes citar Homero, poeta grego (séc VIII-VV a.V), na Odisseia: “Para todos os homens sobre a terra, os cantores/são dignos de honra e respeito, pois a Musa/ensinou-lhes os cantos; ela ama os cantores”. Artur Eduardo cita Homero, em solilóquio, na orelha da antologia “Milênios de Poesia (E Prosa)”, organizada por Antônio Pompeu de Araújo, em 2003, onde anota: “A poesia vive e reina por colher e guardar em seus ritmos e formas o segredo da beleza. Pelo menos é o que procuram fazer os poetas, em todos os pontos do mundo, de Homero e Salomão aos atuais. Ao contrário do que tanto pensam, no Brasil, o gênero não decaiu, nos dias que correm. Os grandes nomes das gerações de 22 e 30 já se foram e não há muitos, com a mesma atitude, a apontar agora. Se perdeu um pouco em qualidade, a quantidade avulta, em todas as regiões do País. E há excelente poetas no pastoreio das palavras e metáforas, procurando manter a tradição cultural. Poesia é gênero difícil. É a arte em que poucos adquirem a glória e muitos ficam a lutar para obter melhores resultados, o que, aliás, sempre ocorreu. Ela exige, antes de mais nada, talento, que é uma cousa pessoal e intransferível, sem a qual nada se produz que mereça aplausos. Remando, o mais das vezes, contra a maré dos leitores, prosseguem os poetas, grandes e pequenos, em seu trabalho criador, lançando livros e mantendo acesa a pira sagrada que encanta o espírito.” Saio do ensaísta Artur Eduardo Benevides e remeto o leitor para a sua última obra poética, lançada em 2004, “Cantares de Outono ou os Navios Regressando às Ilhas”, com este definitivo poema: “De repente/tudo se faz urgente. Meu tempo (irresgatável) morre./A última esperança me socorre./E a poesia/É a única forma de sabedoria./ Onde, contudo, nos aguardarão/as uvas do Paraíso e da Canção?/Tendo em mim o azul das valsas dos coretos/ou os queixumes finais de lívidos sonetos./Sou o que sobrou. Fui./ O verso, em êxtase, flui/. E sei, quanto menos navegar,/ mais terei as súplicas do mar”. Resquiescat in Pace. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/09/2014 - [DONO DO VOTO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dono-do-voto-diario-do-nordeste/): Sabemos votar? Um indicador negativo é a pouca consideração das mídias com os políticos profissionais. Eles, segundo analistas sérios, vivem a desviar - com falsa propaganda - a nossa real escolha. Medite sobre o significado do voto. Nestas eleições de 2014 elegeremos deputado estadual; federal; senador; governador e seu vice; e presidente da República, com vice. Teremos, então, que escolher cinco vezes. São cinco chances. Que elas não sejam estragadas por brincadeira ou porque alguém nos, parece simpático e sabe pedir. Devemos nos permitir pensar, e decidir. Escolha os melhores. O Instituto Datafolha elencou uma série de variáveis a serem consideradas nos votos para governador e presidente, das quais destacamos dois aspectos. Primeiro - econômico: ideia de crescimento efetivo, relações difusas do candidato com empresas privadas, obras paralisadas ou atrasadas, carência de saneamento básico, reformulação das leis trabalhistas, programas/bolsas sociais e altos e múltiplos impostos. Segundo -comportamental: histórico de vida, crença, posição face às drogas e abortos, diminuição ou não da idade penal, punição da criminalidade, funções novas para sindicatos e afins, redução da pobreza, pressão da migração sobre as grandes cidades e, sem dúvida, aumento do saneamento básico, aceitação das minorias, sejam de raça ou de gênero. Portanto, não devemos nos sentir aliciados, mas induzidos por nossa resolução soberana. Não vote por obrigação, ódio ou paixão. Vote consciente. Raciocine. O voto é secreto. E só seu. O Brasil agradece. Voto é flecha. Acerte. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/09/2014 - [PROUST: A BUSCA DO TEMPO E A ERA DO INSTANTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/proust-a-busca-do-tempo-e-a-era-do-instante-jornal-o-estado/): “Quem não conhece a verdade não passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso!” – Bertold Brecht (1898-1956), escritor alemão. O escritor francês Marcel Proust (1871-1922) foi sempre mais comentado que lido. Consideravam-no, à sua época, diletante e presunçoso. Antes da chegada do século XXI, exato no ano 2000, citada pelo jornalista brasileiro Francisco Quinteiro Pires, surge a resenha “Marcel Proust: A Life”, escrita por William C. Carter, professor da Universidade Yale, EEUU. Nessa história consta que o jornal francês “Le Temps”, em novembro de 1913, entrevistou Proust sobre a sua obra ‘’No Caminho de Swan”. Em resposta, Proust teria dito: “Minha obra está dominada pela distinção entre a memória voluntária e a memória involuntária”. Segundo ele, a voluntária “é uma memória da inteligência e dos olhos”. Por outro lado, a involuntária pretende ser o objetivo da preocupação, pois foge à razão e possui “a marca da autenticidade”. Carter, o resenhador, acrescenta que Proust cresceu em mundo sem energia elétrica, telefone ou automóvel, mas “até 1910 ele testemunhou a invenção da energia elétrica, do telefone, do automóvel, do cinema, do avião e do metrô de Paris”. Um choque. A esse conjunto de invenções, Proust chamou de “era da velocidade”. Agora, 2014, estamos vivendo uma era em que as múltiplas faces da Internet, por suas ditas mídias sociais, falam a verdade e/ou propagam mentiras, ilações, opiniões desencontradas, dados, filmetes e imagens que são repetidos “ad nauseam”. É difícil para muitos fazer a distinção entre a realidade, o mito e as inserções com objetivo de fantasiar, louvar ou denegrir. Vencem, nesse páreo, os que forem mais enfáticos, tiverem mais seguidores ou propagadores do que seja verdade, mentira, criação ou mera especulação. O que escrevi acima se lastreia – em parte - em observações do jornalista Quinteiro Pires, hoje, residente nos EEUU, para o “Eu&Cultura”. Para ele: “Pensadores contemporâneos começaram a questionar, entre os efeitos de uma personalidade construída em sites como Facebook, Twitter e Instagram, estaria uma suposta ameaça à espontaneidade das relações humanas”. Dessa forma, as pessoas passariam a agir como “personas”, livres para criarem uma identidade que as projetam para os outros como dessemelhantes de suas próprias naturezas e viveriam em um mundo paralelo ao mundo real que rejeitam, pretendem esquecer, desprezam ou que as angustiam. Nestes tempos que nos aproximam das eleições de 05 de outubro, é bom ficar atento ao que o controverso Marcel Proust classificou como os dois tipos de memórias que usamos para formar um juízo de valor: a voluntária (a da Inteligência) e a involuntária, a que foge da razão. Não vivemos mais na “era da velocidade”, mas, ao meu pensar, na “era do instante”, aquela a se sobrepor, segundo a segundo, nas diversas mídias sociais e plataformas, aos fatos anteriores e a (des) focar o que pode ser passado como plausível e aceito pelos que não fazem da inteligência e da razão os seus guias. Refletir dá trabalho. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/09/2014 - [BIOTECNOLOGIA ISB2014 - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/biotecnologia-isb2014-diario-do-nordeste/): Em 2008 fui convidado pelo Professor José Osvaldo Carioca a acompanhá-lo à China, para um Congresso de Biotecnologia que coincidia com o fim das Olímpiadas. Relutei. Já havia ido à Ásia. A curiosidade venceu. Voamos 32 horas até Dalian, cidade de seis milhões no interior sino. Seria lá o Simpósio Internacional de Biotecnologia em belo centro de convenções. Ao meio do conclave, o professor Carioca, no seu jeito particular, disse: Vou levar este simpósio para o Brasil - e tornou clara a sua intenção para o “Board”. Agora, de hoje ao dia 19, Fortaleza recebe o 16º Simpósio Internacional de Biotecnologia, promovido pela IUPAC- International Union of Pure and Applied Technology. Esse evento teve o seu início em Kioto, Japão, 1972. Depois, a cada quatro anos em continentes distintos. A partir de 2008 passou a ser bienal pela importância da temática e interesses da Academia e da Indústria, que se beneficiam pela troca de conhecimentos. Ao simpósio em Dalian na China, já referido, compareceram dois laureados com o Prêmio Nobel. A escolha de Fortaleza se deu em face do reconhecimento aos saberes do Professor Osvaldo Carioca, único brasileiro a compor a Federação Europeia de Biotecnologia. O objetivo do encontro será promover a inovação e negócios com biodiversidade, proporcionando maior competitividade em relação à posição atual do Brasil, centrada na exportação de commodities. O fulcro será “Biotecnologia para o desenvolvimento da economia verde”. O Professor Carioca será o “Chairman” do 16th IBS, a completar seu périplo ao redor do mundo. João Soares Neto, escritor. CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/09/2014 - [11 DE SETEMBRO, 13 ANOS DEPOIS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/11-de-setembro-13-anos-depois-jornal-o-estado/): Ontem, 11 de setembro. Há 13 anos aconteceram os ataques aos EEUU. À época, escrevi o livro “Sobre a Gênese e o Caos”. Na parte do Caos, criei 11 contos breves. Agora, neste 2014, há novas ameaças de toda natureza no cadinho da área que abriga países como Iraque, Irã, Afeganistão, Síria e outros. Isto sem falar na questão Russa e Ucrânia. Tudo conspira contra a paz. A União Europeia e os EEUU se reúnem. Daí, resolvi mostrar, de forma aleatória, dois(retirar um dos 3) dos contos escritos. Vejam: A FESTA DO SACRIFÍCIO -Tárik nasceu em Jalalabad no Afeganistão, quase fronteira com o Paquistão. Criou-se dentro da fé islâmica e isolado do mundo. Seu pai morrera na guerra contra a União Soviética e a mãe resignara-se em ficar cozinhando e orando em casa. Aos 14 anos teve uma crise forte de vesícula e foi removido para Cabul, capital do seu país. Cicatrizado, viu-se em meio a multidões que andavam em grupos pelas ruas destroçadas. Tomara consciência de que eram vencedores da guerra contra os soviéticos, mas só via miséria. Era o mês do Ramadã, a época sagrada em que se comemorava a primeira revelação de Allah ao mensageiro de Deus, Muhammad. Naquele dia, seria a terceira vez que orava e pedira iluminação. O que fazer de sua vida vazia? Voltar para Jalalabad? Ficar em Cabul? Orou com esperança e teve a sensação de que uma fé mais forte tomava conta de seu corpo esguio de adolescente. Olhou a multidão que se formara defronte à mesquita e para lá se dirigiu. Um homem alto, bem mais alto que os demais, de feições graves, arma a tiracolo, falava manso para pessoas extasiadas. Dizia que Allah, o único Deus, pedia a todos os muçulmanos que se unissem para acabar com a fome e a injustiça de Satã. Terminada a oração o homem alto foi seguido por dezenas de pessoas que tomaram um caminhão. Sem saber como e nem porque correu a tempo de subir na carroceria cheia de pessoas armadas, mas tranqüilas. O caminhão deixou Cabul e dirigiu-se às montanhas. Em pouco tempo, chegaram a um acampamento que era encoberto por grandes pedras e árvores ressequidas. Todos desceram e foi aí que notaram sua presença. Era um estranho e um estranho muito jovem em meio àqueles homens obstinados. Foi detido e levado à presença do homem alto. Este ouviu a sua história, deu-lhe um Alcorão surrado de presente e perguntou se seria, a partir daquele dia, submisso a Deus. Tárik respondeu que sim, a sua vida teria um sentido. Tudo era novo para ele. O homem alto deu-lhe muitos livros para ler e cobrava. Fazia perguntas e testava. Tárik foi descobrindo, fascinado, a glória da informação e do conhecimento. Anos mais tarde, o homem alto lhe disse: é preciso que você leve a força de Allah para lugares profanos. Vá, misture-se a eles, mas nunca perca a sua fé. Irmãos o acolherão. Aprenda a língua dos ímpios e tente viver como um deles. De tempos em tempos, nós manteremos contato. Agora, Tárik estava ali naquele aeroporto, de barba raspada, calça, camiseta e uma prosaica mochila aonde levava o velho Alcorão e quatro agulhas de tricô enfiadas num novelo de linha. Aprendera a manuseá-las de uma forma diferente. Com um ar descuidado repousou a mochila na máquina de raio-x e a recebeu com indiferença no outro lado da esteira. Não olhava para os lados, mas não estava só. Tinham todos os mesmos pares de tênis, novos, pretos com cadarços vermelhos. Esta era a senha. O avião taxiava e ele sabia que, em breve, participaria da “Eid al adha”, a festa do sacrifício, e receberia o perdão divino. Era preciso que fizesse. O homem alto assim o determinara. O GRANDE DIA - Nascera negro, pobre e paralítico. É bem verdade que não era mais paralítico, mas ainda tinha sequelas de uma poliomielite. Sua mãe, por mera ignorância, não o imunizara com a vacina salvadora. Também, desculpava-se ele, sua mãe dedicou o resto da vida a protegê-lo, a prepará-lo para o mundo que ela não entendia e achava cruel. Fora abandonada pelo marido, um plantador de amendoim dos arredores de Atlanta, na Geórgia, que a trocara por uma loura oxigenada do Texas e se mandara para Sausalito. Perdera seu homem, mas não a vida. Seu trabalho, noite e dia, como atendente de um hospital público, deu-lhe sustento, uma pequena casa na região sul da cidade, onde os negros viviam e procriavam muito. George foi cedo para a escola. Teve a assistência de um pastor luterano que providenciou a prótese que o faria se locomover sem a tosca muleta que o acompanhara por anos. Aplicado, responsável e temente a Deus, dedicou-se a estudar com afinco, varando madrugadas e fazendo a si mesmo a promessa de retribuir, um dia, a dedicação da mãe. Formara-se em economia e, por conta das suas notas A, entrara direto no mestrado de Yale com uma salvadora bolsa de estudos. Continuou a colecionar As e não conteve o choro quando sua mãe, já alquebrada mas vistosa em seu vestido escarlate, entregara o seu prêmio de melhor da turma. Amava seu país, acreditava na ascensão social e já não doía tanto a lembrança dos avós escravos que não conhecera. Ainda não encontrara a mulher de sua vida. Tinha uma boa amiga, descendente de judeus poloneses com quem ouvia músicas de Cole Porter e comia tacos. Nada de sério e na sua ética luterana se culpava das poucas vezes em que, solitário, chegava ao prazer. Um dia, casaria, teria filhos, moraria bem, mas nunca no sul, pois conseguira polir o sotaque arrastado que herdara de sua mãe. Acreditava nas ideias da democracia, votara em George W. Bush e estava pronto para o milagre americano. Chegara a Nova Iorque há uma semana para uma entrevista de trabalho. Um caçador de talentos o convocara por seu currículo. Comprara uma roupa nova na Saks e se viu no espelho. Óculos de aros finos, cabelos cortados rente que disfarçavam a carapinha, camisa branca, gravata listrada e o novo terno azul com riscas de giz que lhe dava um ar distinto. Subiu receoso ao elevadíssimo andar daquele prédio tão famoso. Confiava em Deus, no seu talento e na América. Seu entrevistador era só um pouco mais velho que ele e o recebeu com atenção, mas sem calor. Notou que usava um reluzente brilhante solitário no dedo mínimo da mão esquerda. Um dia compraria um mais bonito ainda. Falaram sobre sua vida acadêmica e não disfarçou a alegria quando perguntado sobre George Soros e seu modo de ver o mundo. Saiu contratado. Começaria a trabalhar no dia 11 de setembro, data do aniversário de sua mãe, que sorte. Hoje era o grande dia. Vestiu a mesma roupa e deixou, bem cedo, o apartamento que alugara no Bronx. Misturou-se a tantas outras pessoas no metrô que liam jornais ou ouviam músicas em seus fones de ouvido. Era um deles, afinal. Chegara aonde se propusera. Telefonaria para a mãe mais tarde. Às 8.40 horas identificou-se na portaria com seu crachá eletrônico e alegrou-se de estar naquele elevador tão grande com gente bem vestida, olhares confiantes e pastas à mão. Descera no andar certo, sentiu a energia do sol radiante, divisou uma barcaça que singrava pachorrenta o Rio Hudson e, atônito, num lampejo, viu o avião. OS NÚMEROS - Ao ser libertado do campo de concentração de Dachau fez três juras a si mesmo. A primeira: nunca mais falaria uma só palavra de alemão. A segunda: sairia o mais rapidamente da Alemanha. A terceira: nunca esqueceria, ao ler os números marcados em seu braço, as atrocidades sofridas. Esquálido, esgueirou-se por entre os soldados aliados e conseguiu esconder-se em um caminhão carregado de mantimentos. Viu-se, após algum tempo, no porto de Hamburgo. Esperou a noite escura se fazer e, apurando a vista, divisou o grande navio americano ancorado. Cauteloso, mas decidido, aguardou o sentinela abraçar a loura junto ao poste. Subiu com o resto das forças possuídas e descansou sob o bote emborcado no tombadilho. Agora, era 2001. Conseguira a cidadania americana. Tinha filhos, netos e uma bisneta mestiça que puxara à graça de sua mulher, uma bonita negra do Harlem com quem aprendera os segredos da vida e a falar inglês. Não fizera fortuna, mas seu emprego de mecânico dera o sustento a todos e ainda tinha uma boa reserva no banco. Hoje, cansado, não deixava de olhar por trás de suas grossas lentes, os números tatuados em seu braço: 9112001. Sabia-os de cor, sonhara com eles tantas vezes e ainda lembrava o dia em que havia sido marcado, como se fora gado. De repente, um pressentimento estranho veio à sua mente. Aqueles números pareciam estar formando uma data próxima: 11 de setembro de 2001. O que isto significaria? Não poderia ser coisa boa, pois aquelas marcas nunca lhe deram alegria e o obrigaram sempre a usar camisas de mangas longas. No seu quarto de viúvo solitário, pensou à exaustão. Alguma coisa ruim iria acontecer no dia 11 de setembro de 2001, concluiu. Resolveu tudo só: marcou uma reunião de família para a manhã do dia 11 de setembro, todos deveriam comparecer, ainda sabia a força que tinha. Houve resmungos, pois seria uma terça-feira, dia normal de trabalho, mas concordaram com o capricho estranho do velho e querido chefe da família. O que seria? Chegaram todos. Até o neto prodígio que trabalhava arduamente naquela corretora judia no prédio mais famoso da cidade. Outro neto, bombeiro municipal, chegou fardado trazendo nos braços a bisneta querida. Eram 9.00 horas da manhã e a farta mesa estava disposta no jardim do quintal onde tantos churrascos aconteceram. Parecia a festa do Dia de Ação de Graças, mas não era. O velho chefe da família olhou para todos com os olhos cheios de lágrimas. Estava alegre por tê-los a seu lado, mas triste, por não saber explicar a razão daquele encontro na velha casa do Harlem. Ria e chorava. Ria e chorava, enquanto lembrava o que intuiu ser uma data fatídica em seu braço. João Soares Neto escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/09/2014 - [ABSTRAÇÕES DUPLAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/abstracoes-duplas-diario-do-nordeste/): Abstração é substantivo feminino, sabe-se. Na arte, a abstração é algo mais complexo, parte, quiçá, da interpretação filosófica de espaçar mentalmente coisas, fatos e representações. O abstracionismo como arte, entretanto, não carece de explicação laica como a que tartamudeei acima. Foi no começo do século 20 quando Kandinsky e Piet Mondrian romperam com os cânones então vigentes e começaram a fazer “garranchos”, traços, curvas, pontos e retas sem que aparecessem figuras, mas clarificassem a densidade das cores ou a inovação do indizível pelos já contaminados com a pintura clássica. O nariz de cera acima objetiva dizer que há na Unifor uma ampla exposição abstracionista em curso com entrada pela Washington Soares. Muito se falou dela. É bom que mais se diga. Use o seu tempo livre e tente abstrair-se do mundo real que o sufoca. Vá lá, não se paga nada e, se a modéstia permitir, peça ajuda a alguma pessoa treinada para caminhar com você em todo o percurso que medeia a junção de parte dos acervos da Fundação Edson Queiroz e da Coleção Roberto Marinho. Darei a mão à palmatória se você seguir a recomendação e sair de lá insatisfeito. Duvido. Quando nada, poderá dizer que há mais imaginação difusa do que via antes. Poderá duvidar do seu conceito de arte pictórica, mas, decerto, sairá leve e encorpado para responder as demandas do mundo real que deixou lá fora. A arte, ao meu pensar, consiste na fusão do seu olhar com o objeto admirado. Ela, sem o seu olhar, não existe. Por tal razão, encareço, vá lá e veja. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/09/2014 - [O QUE É A PÁTRIA BRASIL? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-e-a-patria-brasil-jornal-o-estado/): Depois de amanhã, 7 de Setembro, comemoraremos o Dia da Pátria. O que é a Pátria Brasil? Com certeza, a Pátria não é a realização de uma Copa do Mundo de Futebol que custou bilhões de reais e deu no que deu. Tampouco é a forma caricata e nomes estrambóticos como alguns candidatos a deputados federais e estaduais se apresentam nos atuais programas gratuitos de televisão. Sequer é a partidarização que alguns órgãos de comunicação adotam de forma velada para destruir as imagens de candidatos a governadores e à presidência da República. Tampouco. A Pátria passa longe disso. Sabe-se, por óbvio, que é a nação em que cada um nasceu. Além disso, é também o albergue dos que, sendo estrangeiros, resolveram optar por sua cidadania, ali residindo, constituindo família, produzindo saberes ou riquezas. O patriotismo é simples, bastar amar e respeitar. O amor e o respeito se manifestam no comportamento cidadão, nas atitudes profissionais, no acatamento às leis, na reverência aos símbolos nacionais (bandeira, brasão e hino), na preservação e no cuidado do uso de suas riquezas naturais no subsolo, na posse racional e útil do domínio territorial, do modo correto de aproveitar açudes, lagoas, rios, transposições, hidrelétricas e da apropriação devida do mar territorial. Além disso, a crença num país melhor, menos desigual e sem preconceitos. “Brasil, um sonho intenso, um raio vívido de amor a terra desce” é uma parte mínima do escrito por Joaquim Osório Duque Estrada na tessitura do texto do Hino Nacional, musicado, depois, por Francisco Manuel da Silva. Você já sonhou com um Brasil sem complexo de vira-lata? Você tem amor à terra que o abriga, alimenta e dá o seu sustento? Atente para esta outra parte do Hino: “Gigante pela própria natureza, és belo, és forte, impávido colosso e o teu futuro espelha zssa grandeza”. O que você está fazendo pelo futuro do País? Ou você já entrou no time dos que acreditam que ele será sempre - como dizia nos anos 1940, Stefan Zeig-o país do futuro? O futuro se faz com o presente de cada um de nós. Depende de nossas atitudes, da educação continuada, da não indiferença pelo que é sério e carece da nossa participação certeira. Eu poderia estar usando esse espaço para platitudes, mas isso não me conforta. Todos poderemos agregar valor ao país que recebemos dos nossos pais ou,se imigrantes, elegemos para morar. É bom atentar, neste mês pré-eleitoral, para o que já dizia no século passado o jornalista Sérgio Porto, através de seu personagem Stanislaw Ponte Preta: “a prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento”. Não deixemos que isso seja a constante. O Brasil tem jeito, sim. Cada voto é uma flecha. É bom que seja certeiro, sensato, correto, judicioso, para não reclamarmos depois. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/09/2014. - [FORTALEZA - 2040 - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fortaleza-2040-diario-do-nordeste/): As cidades, desde o século passado, perderam o bucolismo e passaram a ser apenas os lugares onde moramos, cada um a seu modo. Por mais que planejadores urbanos tenham procurado ordenar as ocupações, elas fugiram aos controles e, hoje, estão eivadas de problemas. Fortaleza, na metade do século passado, possuía 250 mil habitantes. Quase não havia saneamento básico, a pavimentação se restringia às vias principais: pedra tosca, paralelepípedo e, poucas com asfalto. Hoje, predomina o asfalto por onde trafegam quase um milhão de veículos, entre coletivos, caminhões, táxis, autos públicos e particulares, carroças de catadores e as motos a fazerem balés suicidas em meio a tudo isso. Neste 2014, surge o "Fortaleza 2040". Eudoro Santana, pres. Do Iplanfor, enumera: 1. "Como está Fortaleza"? - o diagnóstico da situação atual, tendências, ameaças e oportunidades que venham a surgir2. Qual a Fortaleza desejada? O futuro almejado (o sonho) 3. Quais os principais desafios para conquistarmos a Fortaleza desejada? 4. O que fazer e como fazer para chegar lá? 5. O que fazer e como garantir para que o plano "Fortaleza 2040" seja executado? Assim, todos nós, estamos sendo desafiados a contribuir com o nosso quinhão de civilidade e, dentro das possibilidades de cada um, lutar com ideias e atos concretos para que as desigualdades diminuam. Sem retórica, é preciso uma concertação de esforços para trocar o assistencialismo por viva participação dos que têm mais e devem ajudar na construção desse Plano que se imagina coletivo e acessível. Compartilhe o "Fortaleza-2040". João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/08/2014. - [ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS – NOVA AOS 120 ANOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/academia-cearense-de-letras-nova-aos-120-anos-jornal-o-estado/): Na lua nova de ontem, 28 de agosto de 2014, no Palácio da Luz, a Academia Cearense de Letras realizou solenidade pela passagem dos seus 120 de existência. É fácil saber que as academias tiveram origem na Grécia antiga, sob a égide de Platão, quatro séculos antes de Cristo. Vinte e três séculos depois, seguindo os moldes da Academia Francesa, um grupo de literatos cearenses, em 15 de agosto de 1894, fundou a Academia Cearense, então a única no Brasil. Este fato, por si só, é um acontecimento, pois tirou da então capital metrópole, Rio de Janeiro, a primazia da tessitura e da formatação de uma entidade pioneira voltada, unicamente, ao culto das letras, em todas as suas formas. Orgulhem-se, pois, todos os cearenses por termos fundado a primeira academia de letras do Brasil, apenas cinco anos depois de proclamada a República. A Academia Cearense de Letras é composta de 40 membros, patroneados por nomes ilustres da nossa cultura, eleitos em processos abertos, a partir de edital publicado com as regras de saber exigidas para o ingresso. O eleito deverá ter mais de 21 votos no primeiro escrutínio. Não alcançado esse número, haverá uma nova eleição entre os dois mais votados. Em seguida, cumprido o prazo legal, é marcada a solenidade de posse. O atual quadro acadêmico é composto dos seguintes membros: Ângela Gutiérrez, Artur Eduardo Benevides, Beatriz Alcântara, Carlos Augusto Viana, Carlos D’Alge, César Asfor Rocha, César Barros Leal, Cid Sabóia de Carvalho, Dimas Macedo, Ednilo Soárez, Eduardo Diatahy B. de Menezes, Ernando Uchôa Lima, F. S. Nascimento, Francisco Sadoc de Araújo, Genuíno Sales, Giselda Medeiros, Horácio Dídimo, João Soares Neto, José Augusto Bezerra, José Batista de Lima, José Murilo de C. Martins, José Telles da Silva, Juarez Leitão, Linhares Filho, Luciano Maia, Lúcio Alcântara, Manfredo Tomás Ramos, Lourdinha Leite Barbosa, Marly Vasconcelos, Mauro Benevides, Napoleão Maia, Noemi Elisa Aderaldo, Paulo Bonavides, Pedro Henrique Saraiva Leão, Pedro Paulo Montenegro, Regine Limaverde, Sânzio de Azevedo, Teoberto Landim, Ubiratan Aguiar e Virgílio Maia. Ouvimos de alguns acadêmicos suas impressões sobre o transcurso dos 120 anos da ACL, cujo, Presidente de honra é o poeta Artur Eduardo Benevides. O bibliófilo José Augusto Bezerra, atual presidente, asseverou: “a Academia Cearense de Letras é a maior grife intelectual do Ceará para todo o Brasil”. Por sua vez, Pedro Henrique Saraiva Leão afirma ser a ACL “prova evidente do pioneirismo cearense no campo literário. Foi uma honra tê-la presidido”. Para Giselda Medeiros “a comemoração dos 120 anos da ACL é o evento maior de 2014 dentro da cultura cearense”. Para Eduardo Diatahy “é um espanto estar existindo no meio da parafernália de uma cultura de espetáculo; aludo a uma instituição que visa a produção literária e preservar o seu acervo”. Já Horácio Dídimo refere que “a ACL foi o coroamento da minha formação literária, e deu a oportunidade de ver nos colegas acadêmicos a evolução da cultura cearense”. Cid Carvalho, enfático, diz: “Além de ser a mais antiga Academia é, igualmente, a de mais longo brilho na história literária brasileira”. Ubiratan Aguiar pondera: “A vanguarda do Ceará não se fez mostrar somente pela libertação dos escravos. Mas, e principalmente, na cultura, com a criação de uma Academia local”. Por fim, resta-me lembrar da memória de todos os acadêmicos que nos precederam nesse sonho de tornar perpétuo o conhecimento e o desenvolvimento da literatura, em todas as formas e todos os gêneros. Estamos atentos ao progresso dos costumes e das letras, mas guardamos nas nossas almas a curiosidade e o viço da descoberta que aflora em cada página em branco, escrita ou virtual, com a qual nos deparamos a cada dia. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/08/2014. - [O INSONDÁVEL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-insondavel-diario-do-nordeste/): O que a morte, esta ceifadora, nos mostra a cada vez que nos deparamos com os seus desígnios? Que somos apenas partículas de um cosmo imenso no qual não temos poder ou ingerência significativa. Não colhemos o que plantamos. Plantamos o possível para nós, mas a colheita depende de inúmeros outros fatores imponderáveis. Cada vida é uma proposta de esperança. Baruch Spinoza, filósofo holandês, já no século 17 nos dizia: "Não há esperança sem medo, nem medo sem esperança". Plauto, comediógrafo latino, séculos antes de Cristo nascer, repetia: "O que não se espera acontece com mais frequência do que o que se espera". É o insondável a que me refiro no título. A pessoa humana, entretanto, por mais preparo e empenho que tenha de acertar o viver, vai para o dia seguinte às cegas. E esse dia seguinte é o hoje, o agora, aquilo que está acontecendo ou será o vir-a-ser do amanhã? Cada dia tem a sua luz, o seu vento e o tal do insondável sempre à espreita. Eles incidem de modo e forma distinta sobre os viventes. A fé nos ensina regras básicas de comportamento, mas estamos dispostos a cumpri-las? Assim, vai-se indo no barco do existir com dois remos, a esperança e a incerteza, até que a morte, alcunhada de tantos nomes, nos alcance do jeito que quer e na hora dela. Nada de fatalismo, acredite, mas mesmo remando com aprumo, sabendo o azimute, usando o GPS possível, tomando precauções e seguindo um plano predeterminado, o casco do barco da vida pode bater em uma pedra invisível. E, parodiando o poeta, há sempre pedras no caminho. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/08/2014. - [AGOSTO A GOSTO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/agosto-a-gosto-jornal-o-estado/): “O azar não existe. Deus não joga dados”. Albert Einstein Será que há meses aziagos? Agosto, derivado de Augusto, o de Roma. Ao ser promovido a cônsul por suas vitórias nas guerras românicas, resolveu ter também um mês seu, de 31 dias, igual a julho, em homenagem a Júlio César. Saindo dessa história, a qual não testemunhei, juro, pergunto se agosto será o culpado por tudo o que acontece de mau conosco! No Brasil há o suicídio de Vargas, a renúncia de Jânio, o acidente fatal com Juscelino Kubitschek, a morte de Miguel Arraes e, agora, a de seu neto,Eduardo Campos. Primeiro vamos lembrar que Antonio Houaiss, dicionarista e, quando vivo, presidente honorário do Partido Socialista Brasileiro-PSB, exato o de Eduardo Campos, falaria algo assim sobre o acidente: acontecimento fortuito, geralmente lamentável. Depois, refiro que o atual presidente do PSB, o cearense Roberto Amaral, era amigo dileto de Houaiss. Se for inesperado, alguma coisa de errada aconteceu, mas nada a ver com o azar que se apropria, como desculpa, do acidente. Agora, caso a caso: Vargas estava pressionado por Carlos Lacerda e se sentia isolado pelos militares em que confiava. O Palácio do Catete era e é próximo do povo e ele ouvia os comentários, murmúrios e aceitava a defesa a contragosto de seu chefe de segurança, Gregório Fortunato. Gregório era acusado de tramar o ataque da Rua Toneleros, Rio, em que matou o major Vaz,da Aeronáutica, e Lacerda saiu ferido no pé. Lacerda fez disso um troféu no Congresso Nacional, então na Cinelândia, para dinamitar o já cansado Vargas. Lembre-se que Vargas vinha desde 1930, quando não acatou a vitória, nas urnas, de Júlio Prestes, sob a acusação de fraude e, decidido, dá um golpe de Estado e, com ajuda de militares, destrona o presidente Washington Luiz, em 14 de outubro de 1930, estabelece o fim da República Velha. Em seguida, gere o País a seu modo até 1945. Voltou, eleito, em 1951, mas trazia o peso de sua história pessoal, sofria forte oposição da União Democrática Nacional-UDN, liderada por Lacerda, e os militares não mais o protegiam. Acuado, talvez depressivo, suicidou-se na manhã de 24 de agosto de1954. Jânio Quadros havia sido eleito presidente em campanha exótica, usando uma vassoura como símbolo para varrer a sujeira da política.Não obteve maioria do Congresso, havia condecorado Ernesto “Che” Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, e isto piorou a sua imagem, face a cara feia dos militares e os ouvidos não moucos dos Estados Unidos. Além disso, creem alguns historiadores que Quadros estava bebendo mais que o normal. Tentou, com a carta de renúncia de 25 de agosto de 1961, testar a sua popularidade e se deu mal. João Goulart, o vice-presidente, que visitava a China de Mao Tsé Tung, teve que aceitar o parlamentarismo e Tancredo Neves como primeiro-ministro, para assumir a presidência da República. O resto se sabe. Juscelino Kubitschek não era tão fagueiro como queria demonstrar ser. Tinha amuo e amor ínvio. Não deglutira bem a sua cassação e fora constrangido a fazer, em 1966, a “aliança” com Carlos Lacerda, João Goulart e Luiz Carlos Prestes. Juntos, lançam o Manifesto da “Frente Ampla” que, logo em seguida, foi impedida pelos militares de se articular. Só Adolph Bloch, na imprensa brasileira, dava guarida a JK. Estava quase isolado. Vinha, no seu carro, de São Paulo para o Rio. Há controvérsias sobre o acidente, mas chovia e a carreta de cargas na outra pista não teve culpa se o Opala de JK atravessou o canteiro central e, na contramão, foi colhido de frente. Ele e o seu motorista Geraldo Ribeiro morreram no acidente. Aventou-se, à época que o Opala teria sido atingido, na traseira, por um ônibus da Viação Cometa, então de propriedade de João Havelange, mas nada restou provado. Era 22 de agosto de 1976. O cearense Miguel Arraes era fumante inveterado e morreu como deputado federal, aos 88 anos, em 13 de agosto de 2005, após 59 dias de UTI, depois de governar, por três vezes, o Estado de Pernambuco. Vida longa, exílio de verdade, morte sentida, mas previsível para esse político pragmático e, quiçá, socialista utópico, talvez da Escola de Saint Simon e Fourier. Agora, acontece a morte de Eduardo Campos, no mesmo dia 13, em acidente de avião, nove anos depois. Coincidência?!. Nada está ainda esclarecido, pois o inquérito apenas foi aberto pela Aeronáutica, acolitada pela Polícia Federal que não descarta nenhuma hipótese. A Cessna Aircraft está enviando peritos, pois foi o primeiro acidente com mortes em aviões do modelo 560 XL-Citation. O que terá acontecido? Cansaço erro da tripulação? Mau tempo? Defeito no avião por ausência de manutenção? Múltipla utilização (19 voos em 12 dias), cruzando o Brasil em todas as direções, com vários pousos e decolagem no mesmo dia? Pilotos privados são iguais a todos nós, têm insônia, sofrem o estresse da profissão e ainda a responsabilidade de conduzir um atarefado candidato a presidência da República. O tempo responderá. Agora,você ainda vai continuar a culpar o mês de agosto, também porque um avião da Malasya Airlines, com 294 pessoas, foi derrubado por um míssil terra-ar fabricado na Rússia, em plena Crimeia, ex-Ucrânia, em meio a uma guerra não de todo aclarada? Calma, não acredite em maldições, bruxas e azar, mas procure ver cada acontecimento em sua conjuntura específica. Creio na absolvição do mês de agosto, o mês em que vim ao mundo, exato no dia de hoje. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/08/2014 - [JUCA FONTENELLE, VIÇOSALIANAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/juca-fontenelle-vicosalianas-jornal-o-estado/): “A felicidade do escritor é o pensamento que consegue transformar-se completamente em sentimento, é o sentimento que consegue transformar-se completamente em pensamento”. Thomas Mann, escrito alemão, 1875-1955. Tenho uma pilha de livros, mais ou menos ordenada, para leitura e posteriores comentários. Entre esses figurava a pendência, não da leitura já feita, mas de um simples escólio, sobre a atividade literária de Juca Fontenelle, cidadão, chefe de família e professor na cidade de Viçosa, terra de Clóvis Beviláqua, na benfazeja Serra Grande. Sobre “Viçosalianas” muito já foi dito, mas destaco o que o advogado José Feliciano de Carvalho, admirador e primo do criador, escreveu na Apresentação do livro: “ ...considerando o profundo apreço que sempre tive à moral e ao intelecto do encomiado autor, que foi inesquecível professor e, por isso, responsável pela minha formação cultural, nos primeiros tempos de minha vida. Neste comenos, atentei para a acuidade do autor, tanto histórica como estilística, nas crônicas e nos discursos que compunham a obra, ressaltando a pureza da linguagem e o domínio do idioma”. Feliciano de Carvalho, por sua personalidade e bagagem cultural, tem estofo para fazer juízo de valor sobre a obra de Juca Fontenelle. Mas, nas orelhas da publicação editada pela Expressão Gráfica, 2010, há manifestações outras que endossam as palavras do apresentador. Na crônica “Quatro de Março”, Juca Fontenelle mostra, de sobejo, conhecimento da sua cidade, da história do Ceará e narra com maestria o acontecido, para os tempos de hoje, no longínquo 1935: “Foi algo tão inusitado na história de Viçosa, que passou a ser denominado simplesmente de ‘quatro de março”. E, quando se referia a isso, havia duas hipóteses, realizando-se fatalmente uma das duas, senão ambas: Uns fechavam o cenho, num ato de mal disfarçado desagrado, enquanto outros apenas dissimulavam um sorriso sarcástico. Antes que a poeira do tempo encubra tudo, vamos registrar neste livreto, um resumo dos acontecimentos desse dia. Na pacatez de Viçosa de então, corria tranquilo o Ano da Graça de 1935. Nem tão tranquilo assim, se considerarmos que era um ano eleitoral. Era então o que se costuma chamar de paz dos pântanos, isto é, pacífica é apenas a superfície, porque abaixo dela qualquer coisa, há um oceano de agitação”. Bastaria o trecho acima para se notar a narrativa escorreita da escrita de Juca Fontenelle, mas faço questão de quase completar o fato: “Salvo engano, governava o Estado do Ceará, o Interventor Federal Felipe Moreira Lima, Oficial do Exército nomeado pelo ditador Getúlio Vargas em sucessão ao dr. Fernandes Távora, que renunciara, ante a avalanche de paixões demonstrada por correligionários que na Oposição não haviam manifestado tamanha voracidade por cargos e posições (algo como o que ocorre hoje, não é coincidência alguma...)”. Poderia ir mais longe para destrinchar a história, que fica inconclusa, mas já deu para o leitor perceber o atilado descortino do escritor e o seu conhecimento da realidade factual de um tempo pouco lembrado pelos historiadores locais. Outro ponto que me alegrou foi a tentativa de dar ao leitor comum a oportunidade de conhecer a etimologia de algumas palavras não tão usuais na linguagem coloquial do povo. Além disso, deliciei-me com o “Dialeto Viçosaliano” em que destrincha o palavreado coloquial da terra com deformações de forma, própria dos poucos iniciados no vernáculo como alguns que Juca Fontenelle encontrou em sua longa e profícua vida. Escrever é uma arte e isso fica demonstrado nos escritos que compõem essa obra póstuma. Tomo de Pedro Nava a frase: “A memória dos que envelhecem é o elemento básico na construção da tradição familiar”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/08/2014. - [GUERRAS: 100 ANOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/guerras-100-anos-diario-do-nordeste/): Alinhavos: foi em 1º de agosto de 1914 a eclosão a 1ª Grande Guerra. Luta dos impérios alemão, francês, inglês, russo, austro-húngaro com a participação da Itália. A luta foi corpo a corpo, milhões de cadáveres insepultos e o fim da "Liga das Nações". Mal refeitos, eclode a 2ª Guerra, em 1939. Aliados Inglaterra, EEUU, URSS e mais parceiros levaram seis anos, milhões de mortos, para dizimar a argúcia de Hitler só confirmada no lançamento das bombas atômicas em Nagasaki e Hiroshima. Churchill, em 27.02.1944, escreve para Josef Stalin: "Eu considero a 2ª Guerra como a guerra dos 30 anos contra os alemães". E se Hitler tivesse ganhado? Vale pensar? Emerge a ONU-Organização das Nações Unidas. Vitoriosos formulam nova geopolítica na Europa. Eclode a Guerra Fria até 1991, com o fim da URSS e da disputa espacial. Nesse intervalo, houve as guerras da Coreia, do Vietnã, a invasão do Afeganistão pela Rússia, Irã e Iraque, para citar as maiores. Falta dizer das Américas com a quase invasão de Cuba pelos EEUU (1962), barrada pelos soviéticos. Proliferaram guerrilhas e eclode a ascensão militar no Brasil, na Argentina e no Chile, até meados de 1980. Agora, agosto de 2014, pulula a eterna disputa entre palestinos e judeus; há indefinição ocidental sobre a invasão da Ucrânia e os dois jatos civis da Malásia. Damo-nos conta de que a Terra é tela exposta, podendo ser atingida por mísseis, frutos da tecnologia da informação. Enquanto isso, o Brasil prepara as Olimpíadas de 2016 e faz eleições. Quem vencerá: a mídia ou o voto? João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/08/2014 - [O DESENCANTO DOS JOVENS E O MUNDO DE HOJE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-desencanto-dos-jovens-e-o-mundo-de-hoje-jornal-o-estado/): “Raramente a verdade é pura, e nunca é simples”. Oscar Wilde, escritor inglês, 1854-1900 A edição publicada neste ano de 2014 da pesquisa “Empresa dos Sonhos dos Jovens” realizada pela Cia. de Talentos, em parceria com a NextView People, abrangeu 52 mil jovens brasileiros, com idade entre 17 e 26 anos, todos com formação em andamento. A eles foi perguntado, entre outras coisas, quais os líderes que mais admiravam no Brasil e no mundo. O que chamou a atenção nessa enquete foi a reação negativa: 54% dos jovens responderam que não admiravam nenhuma figura pública ou empresarial. Aqui e lá fora. A maioria, portanto, não tinha – ou não enxergava - em quem se espelhar. Não viam referências positivas nas figuras que estão aí a liderar o país, os grandes negócios e o mundo que se contorce para que não corram conflitos mundiais, pois há a propagação malfazeja no Oriente Médio, com a perene disputa entre judeus e palestinos, alimentada por vendedores de armamentos de última geração. Ao mesmo tempo, a Rússia assume, hoje, posição voluntariosa e firme pelo esforço na anexação de países – ou regiões - que deixaram de fazer parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a antiga URSS, desfeita no começo dos anos 1990. E o faz lastreada por suas reservas de petróleo e gás necessárias à Europa, à China e à Coreia do Norte. Ainda, até agora, não se falou em ideologia. O sentido da luta é hegemonia, poder, estratégia e visibilidade internacional. Além disso, há a não resposta sobre o desaparecimento de um avião comercial e, logo em seguida, o ataque por míssil terra-ar de outro avião, ambos da Malasya Airlines. Afinal, para que servem os satélites que nos vigiam a todos? Há mistério e desencanto que, certamente, influíram nas não respostas dos jovens. O que isso quer dizer? Várias coisas. A primeira é o desencanto com as figuras centrais da política nacional, da gestão de negócios públicos aos privados. A segunda, é que faltam exemplos de boas práticas e condutas. 28.060 disseram não admiram nenhum líder. A palavra líder pressupõe alguém com características de credibilidade, entre elas, honestidade, consequência no dizer e fazer, exemplo e caráter. No âmbito mundial, o mesmo pode ser referido dos líderes que hoje têm um aparato de segurança que os torna prisioneiros de seus próprios subordinados e os faz distantes dos que os elegeram, no caso das democracias. No caso das não democracias o que importa, no momento, é o desempenho econômico, o poderio e a propaganda daí decorrente. Posso, sou. Não vou enumerar os nomes dos líderes que foram escolhidos pelos 46% (25.920) que optaram por opinar. E não o faço em respeito aos que, maioria (54%), reflete o desencanto da nossa juventude com uma sociedade de valores destorcidos e mutantes. A vida precisa ter um significado, uma função social e não o amontoado de escândalos, crimes por questões banais, a proliferação do uso das drogas, a banalização do sucesso mensurado pelas roupas, acessórios, veículos, casas espetaculares e viagens propagadas em alguns veículos da mídia que se especializaram em ser apenas caixas de ressonâncias de uma sociedade perdida pela ausência de valores essenciais. É claro que cada um pode fazer o que lhe convier com o que tem, mas nada impede, entretanto, inferir que a ostentação de alguns seja apenas um tapume no vazio de suas existências ou, por outro, a euforia da conquista a que se propuseram ao longo de suas vidas. Não há como julgar o íntimo de ninguém, mas fica claro que se é preciso validação – pela exposição exagerada ao olhar do outro - daquilo que se vive, algo não está dentro dos conformes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/08/2014. - [ARIANO E NATÉRCIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ariano-e-natercia-diario-do-nordeste/): Depois que o jornalista Alexandrino Rocha, secretário de imprensa do primeiro governo de Miguel Arraes, sentiu o ar da liberdade, após cinco prisões pelo governo militar, resolveu voltar ao batente e o fez na sucursal da revista “Manchete”, da Bloch Editores, em Recife. Trabalhava com Fernando Luiz da Câmara Cascudo, Editor. Juntos, Alexandrino e Fernando, resolveram criar a “Carta Econômica do Nordeste”, boletim com periodicidade semanal do acontecido no desenvolvimento da região. Escolheram-me para ser o correspondente local desse boletim, pois, à época, eu mantinha coluna sobre “Administração&Negócios”, no Correio do Ceará. Esta introdução serve para narrar que a revista acabou anos depois e Fernando foi morar em Moçambique e lá escreveu, em 1979, o livro “Moçambique – Terra dos Traídos”. Lembro que Fernando era filho de Luiz da Câmara Cascudo, historiador, etnógrafo, folclorista, antropólogo, ensaísta e a maior figura da cultura regional, uma das fontes de inspiração de Ariano Suassuna. Para, em seguida, dar cursoà carreira gloriosa sobre a qual todos já falaram. Umanoite, Natércia Campos, pediu-me que fôssemos ao Theatro José de Alencar ouvir palestra do Ariano. O cumprimentamos, sentamos na primeira fila. Ele com a camisa vermelha, calça e casaco pretos. Aula. Esqueci-me, todavia, de contar a ela o ora relatado a vocês logo acima. Natércia, em 2001,organizou o livro “Alpendres de Acauã”, do seu amigo Osvaldo Lamartine, seguidor de Cascudo, com aval de Virgílio Maia e Côca Torquato, discípulos de Ariano. João Soares Neto escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/08/2014 - [A INVEJA, MAIS UMA VERSÃO E ALGUNS PALPITES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-inveja-mais-uma-versao-e-alguns-palpites-jornal-o-estado/): A psicanalista Anna Veronica Mautner, em artigo publicado semana passada na Folha, sob o nome “Inveja, um pecado capital” diz: ‘Hoje a inveja funciona quase como um motor da ação.’ “Por que não tenho? Não tenho por que não quero o suficiente, com a força necessária”. E fala mais: “Quem inveja é porque quer o que não tem. Por que uns e outros, não? O mundo é assim.” Você, caro(a) leitor(a) como se sente? A inveja passa longe de você? Vivemos em um mundo em que os valores das pessoas podem deixar crer que são os bens que elas possuem que as fazem invejadas. Se forem esses os seus únicos valores, pobres delas, mesmo que muito tenham e alardeiem para deixar bem claro quem são no mundo da aparência ou do interesse. O pintor Salvador Dali, no auge da fama, por ele próprio estimulada, com sua vida tão surreal quanto suas pinturas, ousou dizer: “O termômetro do sucesso é apenas a inveja dos descontentes”. Ele parecia ter ouvido o que falava o escritor Oscar Wilde, tão sofrido com sua vida pessoal exposta e julgada: “O número dos que nos invejam confirma as nossas capacidades”. Mautner insiste: “E por que será que falamos tão pouco da inveja quando ela ocupa tanto espaço na nossa vida? Uma resposta plausível é que a gente prefere não pensar na nossa relação com os pecados que cometemos frequentemente”. Estranho que uma psicanalista fale de pecado como sentimento de culpa por algo que desejamos e não temos. Eu substituiria a palavra pecado por erro ou falha de caráter. O pecado pressupõe a crença em uma divindade maior que absolve ou culpa. Enfim, julga. O erro faz parte da humanidade e é, algumas vezes, desenho do aprendizado. Erro porque sou humano, e essa foi a forma que encontrei para aprender e não para invejar o outro. Moderna, Anna fala que “a tecnologia parece atender a vontade infinita que temos de ser invejados. Estou em uma festa, em um restaurante e espalho isso para o meu mundo virtual. Basta ser meu amigo no Facebook para eu alcançá-lo”. Será que estaremos felizes apenas por mostrar as nossas companhias, os lugares que frequentamos, a estética das mesas de que participamos? Creio que admitir que alguém tenha inveja de outro a partir de registro fotográfico ou de uma gravação amadora é presunção egoísta e de efeito relâmpago. Apaga-se o flash, desliga-se a câmera e o ambiente charmoso fica a espera do olho do outro, daquele que não está a participar do festim que tornou alguém exposto de forma infantil e nada sutil. Ariano Suassuna, no jeito peculiar dele, fala sobre a morte – como o fim da inveja - no “Auto da Compadecida” e mostra que invejosos e invejados morrem. Leiam-no: “Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo que é vivo, morre”. A própria Bíblia dá muita atenção ao tema inveja. Dois exemplos. Gálatas 5:26: “Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros”. Por sua vez, em Tiago 3:15 está dito: “Mas se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica”. Nessa história ou estória de inveja é preciso saber a quantas anda a autoestima das pessoas. Essa que oscila como os mares e as fases da lua e não nos assegura que o olho do outro fique de acordo com o que a nossa vaidade quer que ele enxergue, perceba, veja e, enfim, inveje. Mas, se alguém precisa da inveja do outro para se afirmar como um ser maior, estará, a cada passo, diminuindo a sua estatura como refém do olhar de outrem, muitas vezes perdido em suas próprias angústias e incapaz de, sequer, notar o outro. Alguém que não seja ele. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/08/2014 - [O MÍSSIL E O MHI 17 - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-missil-e-o-mhi-17-diario-do-nordeste/): A derrubada do voo MHI17, da Malasya Airlines, por míssil terra-ar, semana passada, levou-me a pensar quando e como a União das Repúblicas Socialistas e Soviéticas - URSS, pujante na guerra fria com os EEUU, deixou de ser a grande dona de imenso território da Eurásia. No segundo semestre de 1991, Michail Gorbatchev e Boris Yeltsin empreenderam luta violenta pelo poder. Tudo está no livro "Boris Yeltsin - Biografia Política", escrito por Vladimir Solovyon e Elena Klepikova, escritores russos residentes nos Estados Unidos. A versão em português é da Rocco, 1993. Encontrei o livro em meio à bagunça das minhas estantes. A capa tem a foto de Yeltsin com a mão direita sobre a esquerda (seria um sinal?) e o seu olhar triste emoldura a cabeleira branca. Em 3 de maio de 1991, o Pravda, jornal soviético, colocava Yeltsin como o principal opositor de Gorbatchev. Os acontecimentos de 19 a 21 de agosto de 1991 foram até o fim do ano, decretavam o fim da URSS e o surgimento da Rússia. Perestroika e Glasnot. Reli o livro e não vi nome de Vladimir Putin, atual dirigente da Rússia e confrontador da Ucrânia, nação tornada independente. Com a nova Rússia abrolhou uma economia de mercado com rápidas fortunas. Hoje, com o risco de sanções dos EEUU e Europa, bilionários russos estão temerosos com a posição de Putin na Ucrânia. A Rússia vive o dilema da alta popularidade (87%) de Putin com a anexação da Crimeia. Volto ao voo MH17 e me pergunto o que justifica o disparo desse míssil. O que fizeram as 298 pessoas para serem alvos de tanta estupidez? No que isso vai dar? João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/07/2014 - [CEARÁ E FORTALEZA UNIDOS? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ceara-e-fortaleza-unidos-jornal-o-estado/): Agora, retomamos o caminho do sonho e o começamos por nosso Estado com a perspectiva de subida nos rankings de série na tão controvertida Confederação Brasileira de Futebol. Tivemos a coragem de, pela terceira vez, trazer, logo após a hecatombe, o “Ceará” e o “Fortaleza” para uma exposição pacífica. O símbolo da exposição é uma pomba com uma asa tricolor e outra preta e branca. Cada um dos dois querendo mostrar-se mais. Melhor para todos. O hoje dito centenário Ceará Sporting Clube e o Fortaleza Esporte Clube, os maiores e mais antigos rivais - desde o tempo da bola de pito - no campo do Prado, no Presidente Vargas e no Castelão, estão agora juntos até domingo, dia 27. Das 10 às 22 horas. A entrada é gratuita. Pedimos às duas diretorias que mostrassem as suas origens, suas glórias, suas camisas, suas taças, suas fotos e as cronologias de suas histórias que, quer queiram ou não, correm paralelas e têm efeito sinergético. O Vovô só cresce em rendas se Leão estiver bem das pernas. E vice-versa. O Ceará trouxe o atleta Magno Alves com bola autografada. O Fortaleza lançou o livro “Fortaleza, História, Tradição e Glória”, editado pelo Armazém da Cultura, de Airton de Farias e Vagner de Farias. Houve chutes a gol. É festa. Quem quiser vir olhar, chegue alegre, prazenteiro, curioso e vá comparando os dois clubes. Não precisa alardear o que a sua mente armazenou, mas cumprimente a pessoa que está ao lado, mesmo que as cores da sua camisa sejam distintas da dela. O que estamos fazendo, pós-Copa do Mundo, é comemorar o Dia do Torcedor Brasileiro, acontecido no 19 passado. Mostramos ao mundo, ao vivo nos estádios e por todas as mídias, como é saber torcer, cantar, rir e chorar, com amor próprio. Agora, estamos rejuntando os cacos e fazendo juras com os deuses do futebol. Eles estão, por ora, no continente europeu, mas vão voltar, tenho certeza. É hora de trazer cada torcedor para a nossa realidade. O planeta não acabou, os dias continuam com 24 horas e a alegria permanece na face de quem é acostumado a driblar as dificuldades da vida e a fazer gol a cada mês. Ceará e Fortaleza precisam subir de série. Torçamos para que aconteça neste ano. Vibre por seu clube, mas respeite o adversário. Assine o livro de presenças e, se quiser, deixe as suas impressões. Obrigado pela presença. Você é importante para nós. O futebol não é guerra. É um acontecimento esportivo, sem necessidade de tanta pompa e circunstância em que um perde, outro ganha para zoar os da diferente turma nos bares e botecos, nos locais de trabalho, nas famílias e até nos templos. Lembrem-se que o papa Francisco, com ligação direta com Deus, o máximo que conseguiu foi um segundo lugar para a Argentina. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/07/2014 - [MENINOS E O "EL NIÑO" - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/meninos-e-o-el-nino-diario-do-nordeste/): Quem, brasileiro, não há remoído sobre o que nos aconteceu nos últimos dias? Quem não foi abordado sobre palpites, legados e, pouco a pouco, viu a euforia coletiva, quase histeria, e o "imprevisto" desapontamento, arquivar o bom humor e fazer-se crítico de tudo e de todos? Desafio a qualquer brasileiro, salvo os cronistas esportivos, para citar todos os clubes onde atuam no exterior os atletas da seleção. De heróis a meninos chorões atarantados, não veem mais a bola como objeto lúdico, mas como afirmação de elevados salários, premiações e privilégios. Extra pauta: houve até o caso patético de seleção africana querendo receber, em "dinheiro", o acertado. Um jato chega e a sanha se extingue. O endeusamento de Neymar Jr., ilustrando a existência do Neymar, o pai, seu empresário, passa do censo comum. O seu namoro com jovem artista de televisão vira conto de fadas com fofocas. Por outro lado, não li qual seria o valor da premiação de cada atleta. Além disso, como mercadoria (ou commodities, na linguagem econômica), eles vivem numa bolsa de valores, oscilando em múltiplos contratos por desempenhos. A ida de Neymar para o jogo, no banco, contra a Holanda não seria apenas para solidarizar-se com os companheiros, mas, quiçá, sugerir que não participava do colapso. A seleção não conseguiu sequer jogar no "novo" Maracanã, onde a honra perdida em 1950 seria lavada e todos sairiam alegres para este fim de ano, com o "El Niño" a ameaçar com estiagem em 2015 no Nordeste, cem anos depois da seca que colocou a jovem Rachel de Queiroz na literatura brasileira. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/07/2014. - [PROTAGONISMO, HOJE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/protagonismo-hoje-jornal-o-estado/): O Brasil assumiu, desde o início deste século, uma posição de protagonista. Palavra de origem latina (proto: primeiro, principal; agonista: lutador, competidor) que, em linhas gerais, significa ser o dono do seu próprio destino, não se deixar levar a reboque de outrem. Na cinematografia é o ator principal. Na vida real, há muitos protagonistas, sejam pessoas, empresas, governantes, países, grupo de países e blocos econômicos. O que se viu no governo Lula foi uma ação intensiva de divulgação do Brasil, e o jeito sem cerimônia do então presidente da República de viajar, intensamente, ao redor do mundo, para dizer que estávamos preparados para a luta ingente de ser considerado um novo protagonista no concerto das nações. Segunda-feira, passada, lua cheia, em cenário armado, no interior do Parque do Cocó, um país inovou ao se mostrar protagonista, não apenas com a presença, em Fortaleza, de Xi Jimping, nome ocidentalizado do líder atual da República da China, que veio para o 6º Encontro do Brics, entidade ainda não institucionalizada que, como sabem, reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, países de culturas díspares e que veem a necessidade de formar um bloco multilateral para, em sinergia, propiciar aumento das suas relações de negócios e firmarem posição como protagonistas da história do século 21. De início sedimentam acordo para a criação de um banco de desenvolvimento. Não é sobre o Brics que desejo falar,mas da forma singular como a China vem se mostrando ao ocidente, além da expansão da sua indústria e da consequente exportação, mas através da divulgação de sua cultura ancestral e contemporânea, na arte e na música. A China trouxe uma orquestra da província de Zhe Jiang, na sua costa Leste, composta de 78 integrantes com um “Concerto de Sinfonia”, e escolheu repertório diversificado para o grande público que ali compareceu de forma descontraída, sentando-se no gramado, ouvindo de forma respeitosa o que, grande parte, talvez nem entendesse. Ao fim e ao cabo de mais de uma hora de concerto, seguindo um programa preestabelecido que incluía músicas chinesas, romenas e alemãs, com destaque para a composição do 4º andamento da Quarta Sinfonia do russo Tchaikovsky, a orquestra foi ovacionada de pé. O maestro Iu Hai, sempre sorridente, retomou a batuta e foi em frente, com músicas extra pauta, inclusive brasileiras, para alegria de crianças que, soltas, rolavam no declive verde sob os olhos complacentes de seus pais. Essa celebração faz parte do 40º aniversário das relações diplomáticas entre China e Brasil, e se repetiu, na noite de ontem, em Brasília. Como se vê, de forma diferente, os chineses adaptaram a política de boa vizinhança praticada pelos EEUU no curso da 2ª Guerra Mundial e no pós-guerra, com uma diferença: a distância imensa que nos separa desse novo protagonista que se espalha pelo mundo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/07/2014. - [BRICS, AMANHÃ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brics-amanha-diario-do-nordeste/): Amanhã, em Fortaleza, acontece encontro dos países do acrônimo BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Será, quiçá, um novo 14 de julho na história. Em 1789, com a queda da Bastilha, houve o fim da monarquia francesa e a ascensão do Iluminismo. Agora, os cinco países, partem da vontade de encontrar respostas para problemas, interesses (criação de um banco) e oportunidades comuns. Têm estágios díspares de crescimento. A Índia, 1,2 bilhão de gentes. É forte em tecnologia da informação, as cidades se modernizam e há um polo cinematográfico, o "Bollywood". Porém, subsistem atividades escravocratas: 1,3 milhão são catadoras de excrementos humanos. Limpam buracos no chão e o que 178 mil trens espalham pelo País. A China que conheço tem inúmeras avenidas paulistas, mega indústrias, e milhares de favelas planas, similares às nossas. É a segunda economia mundial e precisa alimentar 1,3 bilhão. Parte do povo, pela idade ou carências estruturais, destoa da febre de crescimento que hoje resplandece. E não para. A Rússia de Putin deseja uma nova URSS com etnias e línguas distintas. Foi fulgente nas viagens espaciais e dura na Guerra Fria. Hoje, obstinada, desafia o ocidente, fornece gás e petróleo para a China e a Coreia do Norte. Dá mostras de voluntarismo sem ideologia clara. A África do Sul, órfã de Mandela, livre de colonizadores, ensaia progresso, mas não se consolidou politicamente e tampouco diminuiu a pobreza, fruto do Apartheid. Cresce industrialmente. O Brasil é o anfitrião. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/07/2014. - [O TEMPO - DE 1958 A 2014, NA MINHA VERSÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-tempo-de-1958-a-2014-na-minha-versao-jornal-o-estado/): Comecei a me entender como gente no final dos anos 50. Em 1958, nos “gélidos campos da Suécia”, pleno verão europeu, a seleção de futebol do país Brasil ganhou a Copa. Fui até à Praça do Ferreira, então centro da cidade. Alegria geral. Nos dias seguintes, estudo e trabalho normais. Elvis Presley passou batido na minha vida. Claro que entrei os anos 60 sabendo da juventude transviada e sequer, cogitei comprar um disco de Roberto Carlos, Erasmo e Chico Buarque, este último, excelente letrista e péssimo cantor. Vi filmes de Marlon Brando, James Dean, e teatro com Cacilda Becker e Bibi Ferreira. Boris Pasternak, russo, ganha o Nobel de Literatura e Parsifal Barroso é eleito governador do Ceará. Há seca no Nordeste. Estamos em 62, a seleção, novamente, representa o Brasil e volta bicampeã no inverno chileno, não detectado pelos locutores esportivos, ao pé dos Andes. Todos vibram e Maluf, ainda hoje na política, dá um carro a cada herói, com dinheiro público. A televisão brasileira é ainda comandada pelos Diários Associados. Inebrio-me com Fernando Pessoa, admiro a “nouvelle vague” e o casamento aberto dos existencialistas Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Começo a escrever no Correio do Ceará a coluna “Informes Acadêmicos”. Após plebiscito, surge o parlamentarismo. Tancredo Neves, como primeiro ministro, para suavizar João Goulart, o presidente que os militares não aceitavam. A política universitária elege-me deputado do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua, da Faculdade de Direito da UFC, ao aderir ao sistema vigente. O Centro Popular de Cultura, da União Nacional dos Estudantes - UNE, viaja pelo Brasil e eu participo do Congresso Nacional dos Estudantes, em Petrópolis, Hotel Quitandinha. Recepciono, acidentalmente, Augusto Frederico Schmidt, que chegou em um Aero-Willys preto, para dar palestra. O Congresso vira bagunça com pó de mico em todos os cantos e até tiros acontecem. John Steinbeck, americano, recebe o Nobel de Literatura. Virgílio Távora é eleito governador. “A União pelo Ceará” conseguiu unir adversários políticos. Pulo para 1970, regime militar. O cônsul japonês Nobio Otkindo é sequestrado e trocado por cinco presos políticos. Tempos de chumbo. No final de junho, toda a então Confederação Brasileira de Desportos, o sonolento técnico Vicente Feola e os atletas chegam a Brasília, vindos do México, comandados por Pelé, Garrincha, filho de alagoanos, e os demais. Juntos com o general Ernesto Garrastazu Médici, erguem a Taça de Campeão. O Brasil ia para o 3º título de futebol e os que não estivessem satisfeitos optavam em deixar o país. Já formado, com firma recém-montada, sofro com a perda, em acidente de carro, do que viria a ser - e não foi - o meu único filho homem. Caixão de anjo sob o braço vou deixá-lo no São João Batista, enquanto o país entrava no que viria a ser o milagre brasileiro. Houve outro sequestro de diplomata e Raul Seixas, acolitado por Paulo Coelho- que ainda não havia descoberto a sua verve literária-, Gilberto Gil, Caetano e Gal Costa embalavam, com metáforas, o sonho dos amantes da “cannabis sativa”. O escritor Alexander Soljenítsin, dissidente russo, ganha o prêmio Nobel de Literatura e diz algo como: “tudo o que acontece é porque os homens não acreditam em Deus”. Aí chega 1994. Já tenho quatro filhas, os negócios ganham corpo e continuo a ser um teimoso “outsider”. Misturo trabalho com a escrita semanal em jornal, enquanto o mineiro Itamar Franco, em face do impedimento de Fernando Collor, governa o Brasil e prepara o Plano Real, com a ajuda de Ciro Gomes. Após 24 anos, surge a quarta estrela na camisa da seleção de futebol, com o excelente desempenho de Romário, hoje deputado federal, e em disputa para a senatória do Rio de Janeiro. No Ceará, Tasso Jereissati é eleito governador. O ainda hoje desconhecido, pelo menos para mim, o escritor japonês Kenzaburo Oe, ganha o prêmio Nobel de Literatura. Chego a 2002. Coreia do Sul e Japão se unem, no continente asiático, para patrocinar a Copa do Mundo que foi vencida pelo Brasil com destaque para Ronaldo, que já havia sido Ronaldinho, passou a Fenômeno e hoje mora bem em Londres como Ronaldo Nazário. Era a quinta estrela, a taça e a tropa chegam a Brasília e ali foi levantada por Cafu, o capitão do time, ao lado de Fernando Henrique Cardoso, o presidente da República. Em seguida, veio a eleição e o líder sindicalista e candidato do Partido dos Trabalhadores Luiz Inácio Lula da Silva é eleito presidente. Já tenho três netas e me reinvento como mercador, para potencializar, desde 1999, um centro comercial no então esvaziado bairro do Benfica. Já escrevi três livros, pertenço à Academia Fortalezense de Letras e continuo na faina da escrita semanal para o Diário do Nordeste. Lúcio Alcântara é eleito governador do Ceará e o escritor Imre Kertz, húngaro, recebe a láurea do Nobel de Literatura. Ia escrever sobre 2014, mas este relato se torna longo, uma cefaleia me incomoda e o jornal cobra a matéria. Ponto Final. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/07/2014. - [HOJE, HOY, SEXTA-FEIRA, VIERNES, VÊNUS E A FAVELA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/hoje-hoy-sexta-feira-viernes-venus-e-a-favela-jornal-o-estado/): Hoje, sexta-feira, 04 de julho, é feriado nos EEUU. A América para hoje. Os americanos, além de bandeiras hasteadas pela Independência deles, estarão de olho no jogo entre o Brasil e a Colômbia. Especialmente, os 40 milhões de latinos que vivem da Flórida à Califórnia. Lembre-se que foi o genovês Cristóvão Colombo o descobridor de parte das terras hoje chamadas de Estados Unidos da América do Norte. Colombo originou Colômbia. Entretanto, Gisele Bündchen, brasileira longilínea, mora por lá, é casada com um jogador de futebol americano, não o nosso “soccer”, mas torce pelo Brasil com suas roupas estilosas. Shaquira, cantora colombiana que se mandou para fazer a América, também é ídolo por lá, mas encantou-se por um jogador espanhol que anda de mau humor. “Mala suerte”. O fato é: hoje é sexta-feira que, segundo Nelson Rodrigues, “é o dia em que a virtude prevarica”. Então, esperemos o entardecer, hora em que Vênus, a deusa do amor e da beleza dirá por quem torcerá. A nossa sexta-feira é “viernes”, em espanhol, homenageando Vênus, mas é também dia de Afrodite, na mitologia grega, deusa do afeto e da formosura. E como os brasileiros e as brasileiras, como dizia Sarney, se acham bonitos e formosos, vamos ver se Afrodite nos vê com bons olhos. Recordo que Luís de Camões, no “Os Lusíadas” mostra Vênus como a grande apoiadora dos heróis portugueses. Vasco da Gama à frente. E Vênus tinha a ajuda de Marte, o deus da Guerra. Ora, nós somos descendentes, entre outros, de portugueses. Não há como Vênus e Marte não estarem do nosso lado. Nas famosas mídias sociais, que chamo de antissociais, há uma musiquinha feita agora pelos conterrâneos de Gabriel García Márquez, que morreu em uma quinta, em que cantam ser hoje “o dia da morte de Neymar”, referindo-se a vitória deles no nosso Castelão. Voltando aos Lusíadas, há o canto dedicado ao “Velho do Restelo”. Nele, são chamados de vaidosos aqueles que, por cobiça ou ânsia de glória, se lançam em aventuras ultramarinas. Não seria o caso simbolista da “da morte de Neymar”? Nós não queremos que ninguém morra. Que todos saiam felizes, inclusive Neymar e James Rodriguez, sem falar em Felipão, com sua cara de dono de churrascaria do interior dos pampas. Até a psicóloga Regina Brandão, com sobrancelhas arqueadas por algum aditivo químico, foi chamada para falar com os meninos-chorões que ganham milhões e deveriam ser mais corajosos. Ela, Regina, disse (FSP, 02.07. D11): “A psicologia do esporte tem a sua metodologia científica, não é autoajuda, com palestrinhas antes dos jogos. Há toda uma contextualização dos atletas, do grupo, do momento, que é levada em conta”. Será que os jogadores sabem o que é “contextualização” e vão seguir a sua “metodologia científica”, em meio às caneladas do jogo? Talvez um cantor de pagode ou samba de raiz desse mais energia. Agora, em Fortaleza, do grande hotel em que estão hospedados, os jogadores poderão olhar pelas janelas envidraçadas e ver uma favela pequena, com meninos vadios, em um dos poucos morrinhos da cidade. O “Morro do Ouro” está engalanado com as cores verde-amarela e é provável que levem os atletas a pensar e a lembrar dos seus sonhos de crianças humildes. Recado para todos, do Júlio César ao Hulk, passando por Neymar: não se deixem embalar pelo luxo do centro de treinamento de Teresópolis, a empáfia ensinada por agenciadores, o orgulho e a segregação imposta pela segurança em aviões especiais e ônibus de vidros escurecidos, com seguranças em zig-zig. Vocês são povo. Pisem o chão da realidade. O povo luta, enfrenta obstáculos e, quase sempre, vence. Vocês sabem disso. Mostrem quem são. Com certificado de origem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/07/2014 - [O IDOSO NO BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-idoso-no-brasil-diario-do-nordeste/): No Brasil, a pessoa com mais de 60 anos é idosa. Hoje, 12,6% da população é idosa, segundo recente Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio (PNAD). São 25 milhões de pessoas. Sinal que estamos vivendo mais. Entretanto, o idoso brasileiro vem aturando desatenções e violências: 37,1% sofrem por negligência do Estado e/ou da família; 27,6% reclamam de violência psicológica; 21,3% padecem de abuso financeiro; e 13,6% passam por violência física. Messias era aposentado. Seu enteado o obrigou, depois de surras, a assinar procuração para que ele recebesse a sua minguada pensão do INSS. Eu interferi. Sofreu até morrer. A polícia não gosta de briga de família. Se pobre, então... O Estatuto do Idoso sugere a proteção do Estado, mas a família é a maior geradora de abusos psicológicos e físicos. Os especialistas sabem que o Disque 100 - para denúncias - é usado, mas muitos têm medo de dar o nome com medo de represálias de parentes. Por outro lado, os tais créditos consignados, criados para beneficiar idosos a juros baixos, foram abertos apenas para alguns bancos que se empanturraram de dinheiro. Depois, mudou. Mas quase nenhum banco respeita o limite de juros a 2,1% ao mês. Há a "obrigação" de taxas e seguros desnecessários, pois são vinculados às fontes pagadoras, sem risco. Assim, os idosos iletrados viram presas fáceis, e muitos são induzidos por familiares a fazer mais empréstimos, em bancos diferentes. Os bancos não conferem o endividamento anterior. E haja confusão. Leram, Aécio, Dilma e Eduardo? João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/06/2014 - [FIM DE JUNHO, FOUCAULT, 13 DE JULHO E ELEIÇÕES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fim-de-junho-foucault-13-de-julho-e-eleicoes-jornal-o-estado/): Neste junho já quase entregue a julho, que dirá, no dia 13, quem será o país campeão no mundo do futebol, ecoa em mim a análise de Vladimir Safatle, professor de filosofia da Universidade de São Paulo, esquerdista assumido, no artigo “A era da suspeita” (Folha, 24.06.2014). Ele escreveu, entre outros, o livro “A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu nome”, em 2012. Todos nós, os que escrevem, os que leem, os que não abrem um livro, os que governam, os governados e os candidatos, estamos sob suspeita eterna. Para Safatle, Michel Foucault – filósofo francês morto há 30 anos- “conseguiu produzir dois feitos notáveis: complexificar nossa compreensão a respeito dos mecanismos de funcionamento do poder, e injetar uma desconfiança profunda a respeito do pretenso realismo de conceitos e práticas científicas, em especial no campo das ciências humanas e das práticas clínicas”. Mais à frente, Safatle escreve: “Foi Foucault quem mostrou, de maneira mais sistemática, que nada entendemos do poder enquanto o pensarmos a partir da temática da dominação das vontades, ou seja, o exercício do poder como sobreposição de uma vontade a outra”. Além do futebol e de Foucault, há um jogo mais complexo sendo tentado nos campos experimentados da política nua e crua que vai decidir, em outubro, quem dirigirá o Brasil nos próximos quatro anos. Estarão Dilma, Aécio e Eduardo fazendo coligações em função do bem do Estado ou pela mera necessidade de manter/atingir o poder? Essa, embora não dita, parece ser a tal suspeita, da era em que vivemos. Safatle, talvez de forma reducionista, conclui, a partir de Foucault, que “dessa forma, nasce uma experiência filosófica na qual epistemologia, ética e teoria social caminham de forma compacta”. Sei não, mas penso que os sensores dos faros políticos de Lula; os do pragmatismo de sobrevivência do PMDB; os dos “sonháticos” de Marina Silva associada, forçosamente, ao experimentalismo de Eduardo Campos; os da ressuscitação tancredista- o Presidente que foi, sem ser - café-com-leite de Aécio Neves, não são uma experiência filosófica, mas a prática política consagrada, quiçá uma “teoria social”, que refinou, talvez até de forma inconsciente, o pensamento de Maquiavel, passou longe de Foucault e está associado a todas as formas concebíveis de marketing político, sem a basilar preocupação com a filosofia, a epistemologia e a ética. Concordo com a suspeita, mas não sei qual a saída filosófica ou até psicanalítica, seja ela lacaniana, luliana, renaniana, sarneyana, pezaniana, alckiminiana, dilmiana, aeciana, eduardiana ou até malufiana. A “práxis” política brasileira faz o ministro Gilberto Carvalho dialogar com membros dos “black blocs” sem que a mídia soubesse, e só depois, ser o fato revelado pelo próprio Carvalho ao dizer que tudo deu em nada. O que virá a ser a partir de 14 de julho, a troca da torcida - ufanista ou desapontada – pela militância genuína, engajada, condicionada ou remunerada? Estamos no limiar de uma verdade esportiva que sairá dos campos com dimensões fixas, jogadores afinados, técnicos atentos, cenários ricos, programação dogmática, lucros auferidos, segurança máxima e públicos de etnias, posturas, desejos e danças diferentes. No dia 14 de julho, uma segunda-feira que tentará ser não uma queda da Bastilha à brasileira, mas o ponto dentro da curva, o caminho do Oiapoque ao Chuí, do bolsa-família aos jardins paulistas, levando-nos a somar tudo o já ganho e festejado nos últimos vinte anos, ao que nos falta, desde sempre. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/06/2014 - [LEGADO E EDUCAÇÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/legado-e-educacao-diario-do-nordeste/): A mídia brasileira tem cobrado o legado ao se referir a projetos de infraestrutura nas cidades. A palavra não parece apropriada, pois originária do latim (legatus) com o significado de alguém, o Legado, nomeado pela classe senatorial (legatária) para um posto oficial. Em sentido geral, seria o equivalente a general ou chefe de uma urbe. Como quer a mídia, poder-se-ia dizer que o Império Romano deixou vários legados, especialmente o cultural, imaterial que seja. Essa palavra da moda é, na realidade, a disposição feita por alguém em testamento. Fulano lega, por escrito, para benefício de Sicrano. Ela é usada para os que atuam na área do direito das sucessões. Todavia, o maior legado – no sentido da mídia – que qualquer governante pode deixar é chegar perto de zero em analfabetismo. Só 15% dos estudantes são de escolas particulares, 85% frequentam escolas públicas. Há 3,6 milhões de jovens entre 4 e 17 anos que não estudam. A qualidade de parte da escola pública é baixa e muitos a cursam apenas por conta da alimentação recebida. Segundo o Inep, 1,5 milhões de jovens abandonaram os estudos em 2011. Após a Copa, virão as eleições com os prévios planos dos candidatos a governadores e à Presidência da República. O Brasil precisa cuidar de múltiplas e complexas questões, mas sem aprendizado eficaz não se pode exercer a cidadania plena e diminuir a desigualdade. O maior legado será apagar a triste mancha da carência e da qualidade da educação. Não há país desenvolvido com iletrados. Educar alguém é torná-lo apto a discernir. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2014 - [HOJE, SEXTA-FEIRA, às 17 HORAS, NÃO DEIXE DE CONHECER O TATU- BOLA (o verdadeiro) - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/hoje-sexta-feira-as-17-horas-nao-deixe-de-conhecer-o-tatu-bola-o-verdadeiro-jornal-o-estado/): “Faça da vida um jogo de futebol: chute as tristezas, drible as dificuldades e marque gols de alegria”. Augusto Branco, pensador brasileiro. Engajei-me no processo de criação do Dicionário Português-Alemão sobre Futebol por várias razões. Posso elencar algumas delas. A ideia partiu de Ingrid Schwamborn, historiadora, casada com o professor Friedhem Helm Schwamborn, que nos anos 70 como leitor do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) e depois, como diretor da mesma entidade no Rio de Janeiro e em Bonn, sempre apoiou a parceria da Universidade Federal do Ceará com as universidades de Bonn e Colônia. Ele dirigiu ainda a Casa de Cultura Alemã em Fortaleza. Por esse motivo, após viajar por vários países do mundo, o casal escolheu o Brasil e o Ceará como a sua segunda terra. Repartem sentimentos e vidas entre Bonn e Aquiraz. Ingrid, como ex-professora de línguas românicas, é estudiosa e se engaja, com todo o seu saber, a sua curiosidade e a sua energia teutônica em projetos culturais de grande densidade. Apenas um exemplo: Nesta semana, quarta-feira, 18, ela lançou, nos jardins da Reitoria da UFC-Universidade Federal do Ceará um livro fac-similar da primeira edição de “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, com 11 ensaios de colaboradores, fotografias, capas do mesmo livro em outras línguas que demonstram o início do seu interesse pela obra e a amizade gerada com a grande e simples fortalezense, quixadaense e carioca que tornou-se a primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras. Através da mídia, rede Globo, e da Fifa, em setembro de 2012, soube da postura ambientalista de Rodrigo de Castro que, mesmo com esse nome, nasceu em Zurique, Suíça. Ele, com dupla nacionalidade, reside hoje em Fortaleza e, em Crateús-CE, é diretor executivo da Associação da Caatinga. Eu conto como aconteceu: Castro foi à sede da FIFA( Fedération Internationale de Football Association) e apresentou a sua ideia de transformar o Tatu-Bola em símbolo da atual Copa do Mundo. A FIFA, entre três opções, apropriou-se do Tatu como símbolo e a ele deu o nome de “Fuleco”. Rodrigo Castro divulgou o episódio e a curiosa Ingrid resolveu, de forma intelectual e sutil, encontrá-lo e engajar-se no resgate da verdade e no processo natural de preservação da natureza, especificamente do Tatu-Bola (Talypentes Tricinvtus), através de um pequeno, mas bem elaborado dicionário em parceria com outros estudiosos. Assim, convidou Hans- Jürgen Fiege, especialista em análise de torcidas organizadas e conhecedor das entranhas do futebol mundial para participar deste projeto ora apresentado a brasileiros e tudescos. Hans é alemão, mas mora em Fortaleza. Ele estimula intercâmbios sadios entre jovens que compõem as torcidas constituídas. Este escriba, dito João Soares Neto, é o único brasileiro nato a participar desse quarteto. O fiz na condição de escritor, convocado por Ingrid. Ela conhece o trabalho que venho executando, na prática, há quase 15 anos, com ações de cultura, arte e empenho pelo desenvolvimento sustentável, estimulando, apoiando e até patrocinando apresentações de entidades, cursos sobre a preservação da natureza, com distribuição – e plantação - periódica de árvores, instigando o ensino do plantio a crianças, abrindo espaços para debates e em outras atividades que ajudem a melhorar o ambiente e a mantê-lo rico em biodiversidade. Dito isto, volto ao Dicionário. Ele mostra as expressões mais usadas, nas duas línguas, no mundo do futebol. É curioso, didático e até engraçado. Assim, tenho a honra de, em nome dos autores e organizadores do livro bilíngue (Português-Alemão), “Futebol com Tatu-Bola” e um Dicionário” ou “Fussbal mit Tatu-Bola und einem Wörterbuch”, convidar você para o seu lançamento na tarde de hoje, sexta-feira às 17 horas, deste 20 de junho de 2014, na Galeria BenficArte, na Avenida Carapinima, 2200, seguida de coquetel. Haverá, igualmente, a abertura da Exposição de ações da Associação da Caatinga. Será um prazer receber você O nosso próximo passo, logo a seguir ao lançamento, será apresentar o Dicionário, ainda hoje, em noite festiva, a milhares de alemães que chegam a Fortaleza para o jogo Alemanha X Gana, amanhã, dia 21, às 16 horas, no Castelão. Depois de tudo serenado, tencionamos levar o nosso trabalho coletivo à WWF (World Wide Fund for Nature), uma das grandes redes ambientalistas que já se espalha por 130 países. A ideia é dar conhecimento ao italiano Paulo Marco Lambertini, diretor-geral da WWF-Ong, do nosso engajamento pela preservação ambiental que, inclui a vida animal, a luta pelo corte da emissão de CO2 e a preservar áreas oceânicas definidas. O que procuramos fazer não é utopia, sequer vaidade. É ato consciente que precisa repercutir. Palavra a palavra. Pessoa a pessoa. Gota a gota. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/06/2014. - [O BÁSICO DE FORTALEZA PARA ESTRANGEIROS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-basico-de-fortaleza-para-estrangeiros-jornal-o-estado/): Seja bem-vindo a esta cidade. Ela nasceu junto à “Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção”, defronte ao prédio do novo Mercado Central. Nesse mercado você encontra produtos regionais, feitos à mão, comidas típicas locais, roupas leves de algodão, entre muitos outros artigos, inclusive ervas miraculosas que prometem vigor e longa vida. Saindo do mercado, no sentido sul, a cerca de 200 metros encontrará a Catedral, templo católico. Seja agnóstico ou crente, dê uma parada, refrigere-se e olhe os bonitos vitrais. Pare alguns minutos pensando na graça de estar em terra estranha, mas acolhedora. Ao sair, você terá três alternativas: 1. Visitar o centro da cidade, logo a seguir. Se tiver GPS ou smartphone facilitará um pouco, coloque “Praça do Ferreira” e, em poucos minutos, se deparará com um quadrilátero simpático, arborizado, cercado de lojas comerciais, um grande cinema(São Luiz) em reforma, vendedores ambulantes, engraxates e aposentados discutindo política, futebol e vida alheia. A 100 metros dali - na Rua do Rosário, 01, fica localizada a Academia Cearense de Letras, fundada em 1894, a mais antiga entidade cultural do Brasil. Ela funciona no Palácio da Luz, feito de tijolos, tal como a Igreja do Rosário - erguida por escravos- a seu lado. Defronte há um logradouro conhecido como Praça dos Leões, por conta de esculturas em bronze dos reis dos animais. Em um dos bancos da praça existe uma escultura da escritora Rachel de Queiroz, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. A opção 2: Se você gosta de arte e cultura vá da Catedral direto ao “Centro Dragão do Mar”, distante cerca de 500 metros, no sentido leste. O Dragão é um equipamento público com 15 anos de fundado, em homenagem ao jangadeiro “Chico da Matilde”, depois “Dragão do Mar”. Ele se negou a transportar, em sua tosca embarcação, escravos dos navios negreiros - que ficavam ao largo - para a Praia de Iracema, então Praia do Peixe. Por tal fato, o Ceará, capital Fortaleza, foi o primeiro Estado a abolir a escravatura no Brasil. O Dragão é local acolhedor, possui exposição permanente sobre a vida do sertanejo, galeria, teatro, escolas de artes, cafés, cinemas e observatório lunar. Há alguns restaurantes no entorno. Em geral, só funcionam à noite, quando há festas para todos os públicos e gostos, nos arredores. A opção 3 é o Theatro José de Alencar, com estrutura em ferro fundido vindo pronta da Escócia, no começo do século 20. O homenageado, escritor José de Alencar, nasceu no Ceará e foi o introdutor do indianismo na literatura brasileira, da qual é um dos expoentes. O teatro é belo, merece visita, e fica na praça que tem o seu nome e a sua estátua. Como se fora um mercado persa ou turco, na praça a céu aberto centenas de ambulantes vendem artesanatos, travesseiros, móveis, comidas e o que mais se puder imaginar, além de singelas cópias de marcas famosas a preços populares. Comprar ou não é com você. Este artigo não é um itinerário: para isso existem Roteiros da Cidade, operadoras e guias especializados. É apenas um leve ensaio sobre o que, ao meu olhar, possa interessar a estrangeiros no Centro e na orla de Fortaleza, nesses tempos de Copa do Mundo de Futebol. Não sei onde você ficará hospedado, mas, certamente, irão falar da Avenida Beira Mar. Ela é a via principal da orla marítima desse mínimo pedaço do Atlântico Sul. As águas do mar são cálidas e esverdeadas. A orla é dividida em partes. Uma começa a Oeste, na Barra do Rio Ceará, outro presumível local de fundação de Fortaleza, e segue sentido Leste, passando pelo Pirambu, adensado bairro popular, até chegar ao Hotel Marina Park, local onde algumas seleções de países ficarão hospedadas durante os jogos em Fortaleza. Outra parte começa na Praia de Iracema, perto do Dragão do Mar, relembro. A Praia de Iracema vai do Poço da Draga até o fim da Avenida Historiador Raimundo Girão. Por lá funciona, às segundas-feiras, o “Pirata”, um bar-restaurante popular que atrai turistas com suas festas de forró, um dos ritmos do Nordeste. Vá em frente, sentido Leste, e estará chegando ao local do Fan Fest da Copa. Visite-o. Em seguida, verá milhares de pessoas andando, uma profusão de bares e barracas do lado da praia e, do outro, bonitos edifícios construídos, a maioria, a partir das décadas de 70/80 do século 20, com destaque para os projetos dos arquitetos José e Francisco Hissa, e Luiz Fiúza. Todas as noites são montadas barracas para uma grande feira de artesanato e que tais, bem perto do Náutico, clube social pintado de verde. Passado o Porto do Mucuripe, começa a renovada Praia do Futuro que gerou barracas-parques imensas, para todos os gostos e bolsos. Há, nessas barracas, cadeiras com guarda-sol, garçons ligeiros para servir peixes, crustáceos, bebidas de todos os tipos e uma profusão de ambulantes vendendo tudo o que você procura ou não. Tinha intenção de traduzir este texto para o espanhol, inglês e alemão, mas alguém, seja gerente de hotel ou pousada, recepcionista, taxista, guia ou amigo, pode, se achar que vale a pena, recortá-lo e traduzir para você. Divirta-se, proteja-se do sol. Há muito mais a ver em Fortaleza do que narrei. Não sou guia turístico, apenas quis facilitar e dizer da minha alegria em dar-lhe boas vindas: Bem-vindo, Bienvenido, Welcome e Willkommen. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/06/2014 - [MILHÕES DE JOVENS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/milhoes-de-jovens-diario-do-nordeste/): Há 10 a 12 milhões de pessoas entre 20 e 45 anos disputando, por ano, vagas de concursos públicos – municipal, estadual e federal - no Brasil.Existe até uma Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos (Anpac). Segundo a Anpac, são gastos 50 bilhõespor ano entre inscrições, cursos, livros, apostilas, preparação e viagens ida e volta - pelo Brasil afora para chegarnos locais dos concursos. Existemempresas afazer preparações presenciais epela internet. Os candidatos usam as mídias para interagir e responder as questões dos cursinhos ou cursões, dependendo da expectativa e do nível de suas aspirações.O site "Aprova Concurso",por seu diretor Bruno Branco, declarou aEdiane Tiago ("Valor", F4,30. 05. 2014), que "quem opta pelo curso online tem disciplina e quer apoio diferenciado". Criou-se no Brasil a cultura de que o emprego público é uma opção razoável para quem aspira estabilidade e segurança. Os empregos privados, por conta da concorrência, são difíceis e voláteis. O saber e a habilidade de fazer precisam de aprimoramento constante e cobram desempenho que, acreditam muitosdos que se preparam para concursos, não será exigido naárea pública. Hoje, quase toda família tem alguém participando desses certames decididos não só pelo conhecimento, mas pelacapacidade de aceitar a pressão psicológica imposta por seu grupo familiar, pordisputas com colegas epor esperançosos parceiros. Por fim,em quais órgãos públicos serão alocados esses milhões de esperançosos? Há outrosmilhões de terceirizados nesses lugares. E aí? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/06/2014 - [PENSAR NÃO TEM FRONTEIRAS NO ‘’PAPO BENFICA” - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pensar-nao-tem-fronteiras-no-papo-benfica-jornal-o-estado/): Há um programa no Brasil, similar a tantos outros existentes nas Américas e na Europa, para ficar apenas no Ocidente. Ele pretende discutir temas considerados teóricos para, entre outros, pessoas técnicas, empresários consagrados ou em ascensão, profissionais liberais, via de regra, não pertencentes aos meios acadêmicos. O nome do programa é “Fronteiras do Pensamento”. Ele já tem oito anos de duração, tem uma grande empresa como patrocinadora, convida expoentes do conhecimento do mundo em várias áreas, mas cobra pela inscrição e participação um valor alto para os padrões brasileiros. As palestras aconteciam, de princípio, em São Paulo, depois Porto Alegre e chegou a Salvador. Sou fã da estrutura metodológica, da diversidade de pensamentos/linguagem e da estratégia que permite, além da exposição, “estudo de caso” e debate decorrente do exposto pelo palestrante. Nota-se parece haver quase uma convicção sobre o vazio dos discursos políticos. Segundo um dos convidados deste 2014, o professor de filosofia política Michel Sandel, da Universidade de Harvard, o vazio se dicotomiza de duas formas: 1. A política tecnocrata não motiva a maioria das pessoas; e, 2. O grito passional que parece ultrapassado sem qualquer escuta de quem tem formação. Além disso, a corrupção existe, o papel do capital é questionado socialmente por todos, e o mercado perdeu referências e ainda não se ajustou aos tempos da ausência de liquidez e dos baixos produtos internos brutos-PIB nesta segunda década do Século 21. Em contrapartida, de forma modesta, sem grandes pretensões, estruturamos, no ano passado, um projeto gratuito, o “Papo Benfica”, em parceira com o “Clube do Saber” e o “Rapadura Cultural”, com periodicidade mensal - um sábado por mês, às 10 horas, na sala 03 dos Cinemas Benfica -, a reunir músicos, professores e palestrantes com densidade de conhecimento, didática na exposição e ideias para discussão, sem dogmatismo ou qualquer forma de proselitismo. A entrada é franca, sem qualquer exigência de posição social ou escolaridade. Qualquer pessoa presente pode intervir nas apresentações, com os diferenciais de música ao vivo, de trechos de filmes e sempre com mais de um expositor. Já foram discutidos - com êxito, bom público e nomes relevantes de músicos e palestrantes - os seguintes temas: A Seca, implicações socioeconômicas. Movimentos Sociais no Nordeste. Revoluções na América Latina. O Dia Internacional da Mulher, enfoque histórico-social e filosófico destacando lutas, conquistas e relevância na sociedade. Enem 2014/15-O que é e como se faz. Dicas de grandes Mestres. A musicalidade de Chico Buarque, um dos mais citados nas provas dos vestibulares. Amanhã, sábado, você está convidado a participar, sem pagar nada, do “Papo Benfica” que, repito, começa às 10 horas, na sala 3 dos Cinemas Benfica (2º. Piso, Av. Carapinima, 2200) tendo como tema “Música e futebol no país do Tatu-Bola”. Análise e participação do Brasil nas copas do Mundo e na quase chegante Copa de 2014. Sob a mediação do prof. Freire Neto e as participações especiais do historiador Airton de Farias, do jornalista Edilson Alves e do compositor musical Tião Simpatia. Vai ser bom e alegre. Vá. Há uma poltrona esperando por você. O ambiente é refrigerado e acolhedor. Experimente. João Soares Neto, escritor CRÔICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/06/2014. - [RODA DO MUNDO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/roda-do-mundo-diario-do-nordeste/): O papa Francisco encosta a cabeça no muro a separar Belém de Jerusalém e deixa envelope nas cavidades do Muro das Lamentações, lá onde mulheres e homens são separadas. Ele visitou a Igreja da Natividade, celebrou missa no Santo Sepulcro, lugar que acho meio lúgubre, onde cristãos acreditam haver sido o túmulo de Jesus. Como? O lugar pertencia a seu amigo abastado José de Arimateia, que apenas o cedeu por magnanimidade. Se ressuscitou como adorar o lugar esvaziado pelo milagre? O importante é que Francisco conseguiu marcar uma reunião, no Vaticano, 6 de junho próximo, entre palestinos e judeus. Terá a presença de Shimon Peres, presidente de Israel e de Mahmoud Abbas, do "Estado Palestino", na dita por Francisco. Detalhe Netanyahu é o primeiro ministro e o cargo de Peres é protocolar. Vale? Lá por perto, no Egito, última segunda feira, 26, previa-se a eleição presidencial de Abdel Fattan Al-Sisi. Resumo, o governo voltaria a ser militar, pois Abdel foi um dos dirigentes do grupo que derrubou Mahammed Mursi, em julho do ano passado. Será o fim da guerra civil? Obama, domingo passado, 25, baixou no Afeganistão e falou para os 33 mil americanos ali aquartelados que "o fim responsável" da guerra de quase 13 anos está próximo. Para alegrar os militares, levou Brad Paisley, cantor sertanejo. Em 2015 a tropa vai partir e ficará um contingente para assegurar que os ganhos obtidos serão protegidos. Hamid Karzai, presidente afegão, recusou-se a dialogar com Obama. Putin sonha com a nova Grande Rússia. E aí? João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/06/2014 - [CRAJUBAR-2014 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/crajubar-2014-jornal-o-estado/): Estive, em decorrência de compromissos socais, pela segunda vez, neste 2014, no Cariri. A aproximação do avião mostra verdes vales cercados pela Chapada do Araripe (foto) que se ergue como uma natural barreira protetora tal como as cidadelas antigas. Como se sabe o Cariri separa geograficamente o Ceará de parte de Pernambuco, da Paraíba e do Piaui. O aeroporto regional Orlando Bezerra, em Juazeiro, possui pista adequada de pouso para aviões comerciais e a estação de passageiros cumpre o seu objetivo essencial. A chapada difere, em muito, da caatinga e da orla litorânea cearense. Há história política e até conflitos armados vividos no seu povoamento e na institucionalização daquela grande área distante quase cem léguas de Fortaleza. Hoje, ela cresce com implantação recente da Universidade Regional do Cariri e outras entidades com cursos superiores pulsando o saber e ajudando a formatar o crescimento às margens das rodovias estaduais e federais com a implantação de indústrias, comércios de varejo, atacado e novas obras públicas estaduais nas áreas de infraestrutura viária, saúde, educação e segurança. As administrações municipais devem estar atentas à formação e a sedimentação de favelas e lutar pelo incremento de novas indústrias e a dinamização do programa “Minha Casa, Minha Vida”. Na verdade, há, formalmente, uma região metropolitana do Cariri definida em 2009, além do Crato, Juazeiro e Barbalha, integram-na os municípios de Caririaçu, Farias Brito, Jardim, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri. Na prática, a resolução ainda precisa ter mais aprofundamento e escopo mais claro a redundar em mais benefícios e melhoramentos que os já atingidos. Arquitetos definem por conurbação o fenômeno da urbanização de cidades vizinhas a formar um só aglomerado. Seria exagero dizer que Crato, Juazeiro e Barbalha são xifópagas, mas há uma junção espontânea que tende a adensar os seus vazios. Mais temerário ainda seria afirmar que os demais municípios formam um corpo uno. Há singularidades e, neste pequeno relato, detenho-me a comentar, sem preocupações maiores, apenas algumas observações aligeiradas – sujeita a erros e omissões - sobre os municípios pilares: Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Crato mostra-se senhorial e altaneira em sua zona central e apresenta grandes residências nos caminhos dos geossítios. Embevecida, quiçá, com o papel de cedente da área física da vizinha Juazeiro do Norte, fundada pelo cratense Cícero Romão Batista, padre, político e demiurgo. O Crato pode ser mais do que é, isso fica claro ao visitante inquisidor e atento. É preciso algo que sacuda a cidadania em defesa do futuro próximo. Juazeiro do Norte apresenta crescimento visível e já despontam - para o bem e para cobranças futuras de infraestrutura urbana - em seus céus altos edifícios multifamiliares à semelhança da arquitetura ora em voga na capital. Eles se misturam ao casario de singelos traços adornados por mosaicos e azulejos, sem esquecer das grades que imaginam oferecer segurança a seus ocupantes. A figura ícone do Padre Cícero é usada a exaustão como elemento de atração de romeiros de todo o Nordeste. Montou-se uma estrutura física que realça a crença popular e oportuniza o uso como fonte de receita o ano inteiro. Barbalha, ao meu olhar, permanece intocada na plasticidade orgânica de tijolo, telha e tinta. Fiquei feliz ao ligar para Edilmar Norões e perguntar: “aonde estou”? Claro que não poderia adivinhar. Disse-lhe estar defronte à praça da igreja de Santo Antônio, que ele frequentava quando criança. No sábado morno, populares dançavam embalados por um forró pé de serra. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/05/2014 - [A INVASÃO DA PRIVACIDADE PÓS WEB - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-invasao-da-privacidade-pos-web-jornal-o-estado/): “Em uma sociedade com base no conhecimento, por definição é necessário que você seja estudante a vida toda”. Tom Peters, americano, engenheiro e escritor. Há quanto tempo você não escreve uma carta? Esta pergunta não terá resposta positiva de muita gente. Escrever carta em papel pautado, colocá-la em envelope, endereçá-la e postar nos Correios foi, por muitos anos, a forma preferida de comunicação entre pessoas, empresas comerciais e até entre vários níveis de governo. Hoje, o mundo(world) está sendo conectado pela web. A palavra inglesa web significa rede ou teia. O conjunto de três w ou WWW (World Wide Web) corresponde, na internet, à rede ou a sua teia através do mundo. Assim, a maioria das pessoas, especialmente as nascidas depois do ano 81 do século passado, a tal geração Y, está sempre interligada e sabe algo de tecnologia da informação (TI). Os batizados bem antes, tal como eu, vão errando e procurando espaço nesse mundo meio assustador. Exemplo: toda questão formulada ao Google fica acumulada para formar o seu perfil de usuário. Para sempre. Teia lembra aranha que pode ter veneno. Logo nos vem à mente a forma, quiçá geométrica, como esse aracnídeo urde os seus campos de atração e ataca. Sabe-se, grosso modo, existir quatro tipos de teias: a de capturas (a prender insetos), a de cópula (à espera do macho fecundador), a de refúgio (para descansar) e a de muda (para se alterar). A palavra teia parece perfeita para essa face exuberante da informática e das comunicações atuais. Todos somos captados. Alguns entram em redes de afeto, ciência, conhecimento, negócios ou de lubricidade. Outros vagueiam para descansar de sua vida real, e há falseadores de identidade, procurando ser o que não são ou a liberar veneno e maquinação errática mundo afora.O crítico literário John Freeman estabeleceu algumas cautelas para usar a teia mundial. Em 2009 ele escreveu o livro The Tyranny of E-mails (A tirania dos E-mails) e aconselha o uso ponderado do computador, do celular etc. Recomenda, nada antes do café da manhã. Ao acordar, a mente está livre e não é razoável importuná-la com o volume de informações da “teia”. A invasão começa ao ligar o computador ou o celular. Freeman esteve ano passado no Brasil para falar na 16ª. Bienal Internacional do Livro do Rio e, ao mesmo tempo, lançar dois livros, já traduzidos em português: Como Ler um Escritor e Granta 11 – Os melhores Jovens Escritores Britânicos. Segundo o jornalista Francisco Quinteiro Pires, Freeman mora agora em Nova Iorque, escreve um livro de poesias e leciona na Columbia University. Está “over”. Essa digressão ao falar de John Freeman mostra como fomos pegos por teias a mudar a direção do pensamento, da fala e da escrita. Somos, vez por outra, desviados por e-mails importunos. Ainda hoje, por exemplo, convoquei a secretária e um jovem melhor em informática do que eu – o que não é nenhuma vantagem – para me dar um mínimo de trégua em face das dezenas de spams (e-mails invasores dos nossos endereços) recebidos a cada dia. A captura de e-mails traz várias formas de acesso aos usuários comuns. Uma delas, talvez a mais simples, decorre dos nossos próprios e-mails escritos, enviados ou repassados. Por exemplo: se pretendo viajar, passo um e-mail para um agente de viagens. A partir desse e-mail começo a receber tudo sobre viagens. Cuidado, portanto, com os assuntos e os conteúdos dos seus e-mails: eles ficarão zanzando e você receberá o não pedido, por conta da conexão automática apreendida pelas milhares de empresas captadoras e vendedoras de mídias eletrônicas. As palavras sobre os “hackers”, especialistas em invasão de sistemas de segurança. Eles formam uma grande comunidade internacional, de tamanho ainda não bem mensurado. O Brasil parece ser um dos centros mundiais de maior número de hackers. Eles, quase sempre jovens, ocupam o tempo em desenvolver fórmulas e algoritmos que já desnudaram, entre outros, os códigos de segurança da NASA, a agência espacial dos Estados Unidos, e até da Presidência da República do Brasil. Alguns, depois de descobertos, são até contratados para ajudar a manter sistemas de segurança de bancos, multinacionais, governos e assemelhados. Assim, estamos condenados a viver na certeza da espionagem. Como esse mundo da web não tem mais volta, e tampouco fronteira, vamos expondo – querendo ou não – os nossos desejos, medos, sonhos, mazelas, metas e vidas privadas. Que jeito? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/05/2014. - [CARROS E "RECALLS" - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/carros-e-recalls-diario-do-nordeste/): No mundo, cada país a seu modo, há leis reguladoras das relações entre fabricantes e compradores de veículos. A propaganda das fábricas, distribuidoras e revendedoras alardeia as qualidades, os diferenciais e os prêmios conquistados. As garantias aumentaram de um para dois, três e cinco anos. Há uma marca que promete seis anos, se o Brasil vencer a Copa. Por outro lado, as associações de defesas de consumidores, fortes em alguns países, têm provado que os carros, independente da sua qualificação como popular, médio, luxo ou superluxo apresentam, sim, defeitos, e resolveram denunciar os fatos. Há perdas de vidas por defeitos de fábrica. Questões avultam. Na realidade, faz muito tempo que não mais existe o fabricante integral, como fazia a Ford, no começo do século 20, quando Henry Ford criou a linha de montagem. Trocaram o nome para montadoras, pois recebem componentes (peças e acessórios) de empresas satélites, que podem ou não estar no país onde o carro é produzido. O fato é que quase nenhuma marca ou modelo de veículo tem saído ilesos nos múltiplos e frequentes recalls. Os recalls são, por lei, individualizados e chamados os compradores originais do veículo. Além da notificação, as montadoras são obrigadas a publicar nas mídias: modelos, números dos chassis e o ano de fabricação da marca, pois o veículo pode ter novo dono. O serviço é gratuito. Independente da marca/modelo do seu carrão ou carrinho, não custa ficar atento e ler os "recalls" nos sites das montadoras. Zele por seus direitos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/05/2014. - [TORCER "FORTALEZA" - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/torcer-fortaleza-diario-do-nordeste/): Torcer é mais que gostar. É amar, admirar, alegrar-se, sair do sério, sofrer e reclamar. É ser ingênuo. Faz quatro anos que os torcedores do "Fortaleza" dão mostras do amor desmedido a esse clube que não há correspondido aos milhares de pessoas que o acompanham de forma silenciosa ou ruidosa em todas as disputas. O fato é: quando estamos bem pertinho da chegada, há tropeços de última hora e até o tempo das prorrogações tem agido contra os nossos desígnios. Quatro anos seguidos sem ganhar campeonato e na terceira divisão do futebol brasileiro? Tenham dó. Em futebol, como na vida, não há desculpas ou explicações; há resultados ou fracassos. Não tenho nada contra as últimas administrações. Elas vivem o futebol real, esse das manhas e artimanhas; da mescla falaciosa de jogadores trintões com atletas locais. Sou a favor da formação com a maioria de jovens daqui, ainda não maculados pela troca sazonal de camisas dos "rodados". Não tenho soluções, mas há limite para a paciência dos torcedores. Não adianta estar na ponta em campeonato, perder na penúltima partida e dar a vantagem do empate ao adversário. Parar na terceira divisão? Ganhar do Águia é glória? Repensem o "Fortaleza". Futebol não é um circo mambembe. Creiam na origem inglesa: foco, direção e a "associação" de pé para pé até o gol adversário. Nós, os torcedores, sabemos que é duro, mas está passando da hora de ajustar o que falta. Há jogadores cearenses até na Europa, sem passagem pelos clubes locais. Seremos cegos? Quanto aos "rodados", são aves de arribação, sem ninho em Fortaleza. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/05/2014 - [FERIADO E VARGAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/feriado-e-vargas-diario-do-nordeste/): Cansei de feriados. Na forma como eles estão brotando no Brasil, causam enfado e quebram o ritmo de trabalho. De repente, quinta parece segunda, e no dia seguinte é sexta véspera de fim de semana. A preguiça, onipresente segundo Mário de Andrade, em "Macunaíma", vai justificando o letargo. E, por conta disso, um ar de pasmaceira invade o nosso olhar ao contemplar faixas de algodãozinho com palavras de ordem pintadas. As expressões são as mesmas. "Estamos em greve". Um pano matizado forma sombra adicional às árvores a abrigar grevistas que reivindicam melhores salários e condições de trabalho. Tudo o que todos querem. Imagine se todos resolverem fazer greve ao mesmo tempo? E as greves geram discussões e reacendem voluntarismos que parece nada ter mais a ver com sistema de idéias do século passado. Feriado. Fui ver o filme "Getúlio". Estranhei como pessoas conhecedoras da linguagem gauchesca também detectaram a ausência do pronome "tu", usual nas falas de Vargas, interpretado por Tony Ramos. O "tu", como o empregavam Brizola e Érico Veríssimo e ainda o faz o Pedro Simon, para ficar em alguns. Tony/Getúlio sequer sorve chimarrão e a pluralidade de personagens, políticos, familiares e militares complicam o desenvolvimento do filme. Parte da trama urdida contra Carlos Lacerda, um "ato de fidelidade" maquinado por Gregório Fortunado, o faz tudo dos Vargas. O filme é arrastado, apesar do cuidado histórico nas cenas no Palácio do Catete, da explicação preliminar do protagonista e das fotos/dos créditos, ao final. Feriado dá nisso. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/05/2014 - [OS ARTISTAS PLÁSTICOS E 0S 8 DE MAIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-artistas-plasticos-e-0s-8-de-maio-jornal-o-estado/): “Artista, tua grandeza está na vibração total com que te entrega às tuas obras e na decepção e quase desespero com que medes a distância infinita entre o teu sonho desmesurado e a realidade que consideras inexpressiva”. D. Helder Câmara (1909-1999), em “Mil razões para Viver”. Maio, exceto para os brasileiros que moram no Nordeste, é tempo de Primavera, a estação das flores e dos frutos. Nos séculos passados, era a temporada de aprendizes, de diletantes e de artistas pintarem “naturezas mortas”. Entretanto, não foi por tal razão que o 8 de Maio passou a ser o Dia do Artista Plástico. A história é outra: um brasileiro, paulista de Itu, José Ferraz de Almeida Júnior, nascido em 8 de maio de 1850, despontou, desde cedo, como grande pintor, com formação na Academia Imperial de Artes Plásticas, no Rio, capital do Império. Ferraz de Almeida ganhou viagens de estudo à Europa e voltou consagrado. Esta é a razão. Neste Maio de 2014, a Galeria BenficArte, a única galeria particular do Ceará -aberta todos os dias - com visitações gratuitas, reacende a chama da arte com a 4a edição anual dos “ Os Oito de Maio”, evento que congrega escultores e pintores já formados, e outros em formação. Neste ano, mais uma vez, mostramos artistas formados pelo curso de Desenho e Pintura da Divisão de Pós-graduação da Universidade de Fortaleza. A Unifor, como se sabe, foi convertida em centro de artes pelo descortino do chanceler Airton Queiroz. Oito alunos ali formados estão na difícil vida de artistas plásticos. São eles: Aurélia Alencar, Dias Brasil, Eliete Barreto, Grazy Loureiro, Maíra Ortins, Mona Cellani, Sônia Cavalcante e Vera Grandez. Igualmente, estamos lançando oito jovens estudantes de arte da mesma Unifor: Anderson Ixtlan, Boemia, Caroline de Reverie, Felipe Selva, Larissa Pinheiro, Robson (Aerorobin), Rodrigo e Rosa Leite. Por fim, neste ano de 2014, os “Os Oito de Maio” homenageiam a pintora Nice Firmeza, falecida em 2013. Nice, ensinava pintura no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, - somos um dos seus mantenedores -, por via do projeto musical “Eduque Bem- Artes” Nice terá pinturas do nosso acervo e de Gilmar de Carvalho, fotografias dos fotógrafos Gentil Barreira, Francisco de Souza e Marcelo Brasileiro. Esperamos que o olhar do público se fixe nas obras - sejam pintura ou escultura - ora expostas e delas capte a capacidade de abstrair-se do real para entrar no sensível e belo mundo das artes plásticas. *João Soares Neto não é crítico de arte. CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/05/2014. - [OS BRICS E O CEARÁ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-brics-e-o-ceara-diario-do-nordeste/): Representantes do governo brasileiro e embaixadores dos outros BRICS- Rússia, Índia, China e África do Sul- estiveram reunidos na Universidade de Fortaleza, terça passada, para reunião preliminar ao Encontro dos presidentes dos citados países que acontecerá em Fortaleza nos dias 15 e 16 de julho próximo. Esse evento justifica, por si só, o planejamento e a implantação do Centro de Eventos do Ceará, palco definido para receber os dignitários e membros das comitivas que incluem de diplomatas a empresários internacionais. Quando presidente da Sociedade Consular do Ceará, em audiência com o governador Cid Gomes, solicitei a indicação do Assessor para Assuntos Internacionais. Ele optou pelo advogado Hélio Leitão, que tem procurado dar sentido ao seu trabalho. Ano passado, compartilhei sugestões em reunião com representantes do Ministério das Relações Exteriores- Itamaraty para o evento dos BRICS. Pude constatar a complexidade das tarefas que, entre outras, envolve esquema de segurança especial. Aprovaram o Centro de Eventos, mas fizeram ponderações de outras naturezas. Esse batismo do Centro de Eventos deverá servir como referência para que outros encontros internacionais aconteçam e coloquem o Ceará na rede mundial de feiras e eventos para discussões de negócios, de indústrias, de artes e cultura e até de entretenimentos, nessa ordem. É tempo de aliar à cabeça festiva do cearense a desejáveis concertos multilaterais que mostrem antes a nossa inteligência e a carência de parcerias claras e condignas para a superação de nossas limitações estruturais. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/05/2014 - [1º DE MAIO - O TRABALHO COMO FONTE E SENTIDO DE VIDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/1o-de-maio-o-trabalho-como-fonte-e-sentido-de-vida-jornal-o-estado/): “Todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém escuta é preciso recontar.” André Gide, escritor francês, Nobel de Literatura, sec. 20. Comecei a trabalhar aos 14 anos. Meu pai havia assumido a vereança em Fortaleza e, entusiasmado, delegou a mim a oportunidade de gerir os negócios dele. Fi-lo(obrigado, Jânio Quadros) por anos. Comprei carros à prestação e os coloquei para render. Com as rendas, pagava o que devia. Ainda estudante, colega de Marcelo Duque, comprei lotes à prestação do “Sítio Carrapicho”, outros do Joãozinho Gentil e do Zezito Tavares. Terras me atraiam. Herança portuguesa? Na primeira viagem ao Rio, resolvi levar sandálias para vender. Procurei um fabricante na Rua Saldanha Marinho e disse que seria tudo em consignação, termo que expliquei com paciência, e pagaria na volta. O que cumpri. Entrei no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva – CPOR, na arma de Infantaria, com curso aos finais de semana e nas férias, com duração de dois anos. Depois, servi em São Luiz do Maranhão, como oficial, por três meses. Enquanto isso, fazia duas faculdades, uma pela manhã, outra à noite. Um dia, meu pai me diz: “vou ser candidato a deputado” . Respondi: não voto no senhor e ainda farei campanha contra . Política não tem nada a ver com o senhor. Ele acordou e foi cuidar do que era seu. Nunca pedi dinheiro emprestado a bancos e tampouco solicitei aval, nem a meu pai. Antes mesmo de concluir o curso de Administração, resolvi abrir uma empresa da área. Tudo era novo nesse ramo. Aluguei um sobrado na Rua Sólon Pinheiro, 316, e passei a planejar e a dar aulas no que seria hoje um curso breve de gerenciamento. O ex-secretário de estado, e hoje empresário Raimundo Viana, foi um ilustre aluno. Comandei, junto com Ary Bezerra Leite, grande pesquisa sobre transportes em que precisei contar com todo o efetivo da então Escola Industrial do Ceará. Convenci o então diretor, Roberto Barreto, que seria proveitoso para os alunos ter essa prática. E assim o fiz. Mudei para o Ed. Jalcy, da Guilherme Rocha, no sexto andar. Aí Fernando Távora Filho me convida para ser gerente da Companhia Cearense de Sondagens e Perfurações, Cocesp. Entrei firme, exigente e apertei tudo o que poderia fazer em uma empresa pública. Devolvi presentes. Transformamos a Cocesp na Companhia Cearense de Saneamento – Cocesa, embrião da atual Cagece. Construímos a mesma sede que ainda está lá perto do velho Aeroporto Pinto Martins Danilo de Abreu Pereira Marques, colega de turma que frequentava o Naútico, apresenta-me ao engenheiro Elano Paula, irmão do Chico Anísio, e dono da Incosa, Indústria e Comércio S.A., empresa de engenharia na Rua Meton de Alencar com Senador Pompeu, que planejava ingressar na área de habitação. Por minha auto confessada curiosidade de leitura, era sabedor – até hoje não sei a razão dessa bisbilhotice - do conteúdo de todos os livros verdes que continham a legislação básica do Banco Nacional da Habitação- BNH. Elano me desafiava a resolver o credenciamento da Incosa como Iniciadora, nomenclatura dada às empresas que podiam operar com o Sistema Financeiro da Habitação. Fui ao Rio, resolvi tudo e despedi-me da Cocesa. Sequer recebi o FGTS. O advogado Alberto Rola sabe disso. Em seguida, Elano Paula conhece o jovem, comunicativo e brilhante engenheiro civil Walder Ary, já professor da Escola de Engenharia da UFC, e, juntos, constituem a Master Engenharia que, tempos depois, passaria a ser Master-Incosa. E eu no meio desse turbilhão de ideias que surgiam e deram origem à Domus-Associação de Poupança e Empréstimo, da qual fui fundador e até presidente do Conselho de Orientação; a Modulus – APE, em São Luiz, e tantas outras empresas correlatas e afins surgiam ou se agregavam. Foi assim com os então capitães do exército João Batista Fujita e Crisanto Ferreira de Almeida, que já trabalhavam com engenharia no Batalhão de Cratéus e desistiram da caserna. Associaram-se ao engenheiro civil Cleuton Monteiro e a Construtora Estrela apareceu no cenário do “boom” de casas populares. Até o Deusmar Queiroz engajou-se para dirigir a Pax- Corretora de Valores, então de Bernardo Bichucher, e, logo em seguida, comprou a dita cuja e foi o maior adquirente de ações do que se chamava arts. 34/18, de empresas financiadas pela Sudene. As farmácias “Pague Menos” vieram depois. Era 1969, e por conta de tanto o que fazer, resolvemos, o Nisabro Fujita, o Danilo Marques e eu, fundar a Planos Técnicos do Brasil Ltda que aproveitaria nossa expertise em gestão, planos e projetos. A Planos prestaria serviços a todos e a quem quisesse, como pioneira, na área de planejamento habitacional. Nesse mesmo tempo eu era diretor administrativo da Indústria Plástica do Ceará – IPLAC, empresa que estava hibernada e a ressuscitamos, com a ajuda do Inácio Farias e do Walter Monte. Casei em maio. Dava aulas noturnas na Escola de Administração do Ceará. E, por conta de atuação em congresso -Curitiba - da área virei diretor da Associação Brasileira de Entidades de Crédito e Poupança – Abecip, no Rio.Era energia a todo vapor e viagens em profusão. Em 1973, fiz uma reflexão e chamei os dois sócios para conversar. Queria me desligar do grupo. Razões pessoais. Comuniquei ao Elano. Ele respondeu: “eu já esperava isso”. O Danilo ficou com o Elano e o Walder. Permanecemos eu e o Nisabro Fujita. Compramos a Cenpla – Construção, Engenharia e Planejamento Ltda e o Nisabro foi construir, mas sem pedir dinheiro ao BNH, fazíamos o possível com o pouco que tínhamos. Dois anos depois, em uma segunda-feira, chamei o Nisabro para dialogar e disse-lhe que desejava me colocar à prova como pessoa, sendo dono do meu próprio destino, sem sócios. Encerramos a sociedade sem problemas. O Nisabro ficou com a Cenpla e eu com a Planos. Todo este relato, que nada tem de importante, ocorre-me neste feriado do Dia do Trabalho para dizer como a faina acelerada foi decisiva para mim. Acredite, esse batente, por inédito, puxava muito pela minha criatividade, obrigava-me a ler, dialogar com pessoas diversas, viajar pelo mundo afora com a família a ver o novo e o diferente. Prova disso foi, entre outras, a minha ideia de planejar o Cemitério Parque da Paz, depois vendido a grupo de São Paulo. Para não cansar mais o amigo leitor, afirmo e dou fé que nunca perdi o viés de alargar o meu conhecimento, através de cursos, seminários, feiras, congressos, concursos técnicos e intelectuais que ganhei em disputas renhidas. Em paralelo, ao meu juízo, nunca deixei de ser pai dedicado. Nunca parei de escrever em jornais, de ter a audácia de escrever livros e de participar de forma efetiva de atividades culturais, de responsabilidade social e de arte. Hoje, vivo no 14º. ano de um século que veio implodir os processos e formas de quase tudo que se fazia. Tive que me atrever a engatinhar no vasto mundo da Tecnologia da Informação-TI. Continuo a mourejar com a mesma energia, atitude, impetuosidade e independência. Erro aqui, acerto acolá, sem esquecer que tive sérios prejuízos ao ajudar e até fazer parcerias com pessoas e empresas – não citadas aqui - com falso caráter e comportamento aético. Lições da vida. Esses exemplos vieram comprovar que eu deveria sempre trabalhar com a minha equipe técnica, capaz, confiável e dedicada, mas nunca me associar a terceiros. Bastavam os meus defeitos. Um colega de faculdade e amigo verdadeiro, quase irmão, Ananias Josino Lobo, meticuloso, ponderado e capaz, sempre esteve ao meu lado como contraponto e censor. Até que se finou, enquanto eu andava pelo México. Hoje, tenho pessoas de nível e responsabilidade a meu lado. E estou sempre atrás de talentos. Quem quiser, pode indicar. Como me torno longo e ainda teria muito a contar, dou os parabéns aos que começam cedo a estudar e a pensar no trabalho, seja ele qual for, sem ter medo de enfrentar o novo, metendo a cara nos livros e, agora, bem mais fácil, no louva-a-deus mundo da Internet, céu e inferno de todos os viventes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/05/2014. - [JOVEM NÃO PARE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/jovem-nao-pare-diario-do-nordeste/): 31% dos alunos matriculados em cursos de ensino superior privado participam hoje do Programa Universidade para Todos (Prouni) e do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), programas do governo federal. Somados, representam 1,6 milhão de estudantes do total de 5,34 milhões em salas de aula de universidades e faculdades particulares. Esses dados fazem parte do último Censo da Educação Superior do Ministério da Educação. Os alunos, ou seus fiadores, pagarão juros de 3,4% ao ano, inferiores à inflação anual, na Caixa e no Banco do Brasil, após carência de 18 meses, e prazo equivalente ao tempo do curso multiplicado por três e mais um ano. Dessa forma, não há como os reais estudantes, aqueles que pretendem entrar no seletivo mercado profissional a exigir ensino superior, não usarem esses meios que lhes dão a oportunidade de escolher uma boa universidade para cursar. Entretanto, há muita gente que se perde pelo caminho ao optar pelo mais fácil. A vida, essa que vivemos, mostra que o fácil perde a significação e é expurgado sem hora e data marcada. Encarar o que é mais sério dá forças para alcançarmos melhores resultados pessoais. Exemplo: imagine se alguém ficar perdido, com medo de enfrentar vestibulares, não saberá o que significa a liberdade de ser dono do seu próprio destino. Hoje, há no Brasil 38 milhões de pessoas que emperraram no fim do ensino médio. É preciso que repensem sobre essa decisão. Ela não leva a lugar nenhum. Se conhecer alguém desse universo, incentive-o a retomar os estudos. Estudar é a base do viver do mundo em mutação. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/04/2014. - [PRECONCEITO, RIVALIDADE E REALIDADE CULTURAL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/preconceito-rivalidade-e-realidade-cultural-jornal-o-estado/): “É prova de alta cultura dizer as coisas mais profundas, do modo mais simples”. Ralph W. Emerson, ensaísta americano, sec. 19 Duas escritoras cearenses sofreram, recentemente, árduas apreciações em resenhas feitas por críticos da Folha de São Paulo. Uma é renomada, premiada, tem densidade e sabe escolher os temas de seus livros, que fogem do trivial, do enredo que se convencionou usar para produzir um “best seller”. Ela não faz concessão, pesquisa caminhos não fáceis de recontar histórias e esmiuçar a produção/vida de escritores para um público mais exclusivo. É o seu jeito. A outra, mais jovem, já ganhou o prêmio “Jabuti”, por obra que pretende dar alternativas às crianças que acham densas as estórias infantis de Monteiro Lobato. Agora, ela “regionalizou” uma história e teve a coragem de falar, de forma solta e até honrada, de iniciação feita em Cuba com Gabriel García Marquez. Pois bem, sofreu críticas sobre o seu enredo e tessitura. Ela deve perseverar. As duas não mereciam esse preconceito. Mesmo apresentadas por editoras seletivas – e de porte – sofreram por não participar do círculo concêntrico dos que pretendem ter a primazia de ditar “quem é quem” na escrita neste Brasil de tão parcos leitores. As grandes livrarias brasileiras, depois da injeção de capital pelo lançamento de ações na Bolsa de Valores, vendem mais autoajuda, CDs e revistas que livros de verdade. Sabem os escritores de fato que a literatura é defesa às contundências do lugar comum, do óbvio que deleita os que não têm vocabulário restrito ou pouca imaginação para mergulhar no escafandro do conhecimento. Por outro lado, esses mesmos críticos do sudeste tecem loas ao refinamento de Cristovão Tezza em “O Professor”. É claro que é um bom livro, mas é fórmula muito em uso na Europa e Estados Unidos. Heliseu, o personagem, revive no dia em que será homenageado por sua carreira de professor e filólogo, a sua existência. Ele repassa a sua história pessoal, as desditas familiares, a morte da mulher, um caso de amor com colega francesa, a distância e brigas com o filho, dúvidas na escolha da gravata e, por fim, a consciência de que a matéria que consumiu a sua vida está em extinção, enquanto emerge a força da linguística. Veste um paletó preto, sem gravata, e sai solitário para o último tributo. A trama urdida tem similar. É questão de gosto, nada contra Tezza. Ele escreveu como quis e o fez bem, mas porque será que nós, desta banda do Brasil, somos tão discriminados? O governo de Pernambuco – não só o atual –, pelo menos, criou a revista “Continente”, que é editada pela Imprensa Oficial com primor e dá espaço aos nomes mais significativos das letras maurícias. Rachel de Queiroz foi a última cearense na Academia Brasileira de Letras. Com um detalhe: ela morava no Rio, desde sempre. Talvez seja por tal razão que estejamos ilhados em nossas “igrejinhas” e turmas, sem que se formulem ideias para dar realce aos que merecem. Não há, faz tempo, sintonia fina entre a Secretaria da Cultura e as nossas principais instituições literárias. A opção – e brigas – por editais e a vinda de nomes pouco celebrados parece ser a constante. E, por favor, não remontem o modelo ultrapassado de bienais do livro, amontoado de encalhes de editoras, palestrantes manjados de um “Road show” já carcomido pelo tempo e as visitas guiadas de estudantes de escolas públicas, estranhos no ninho pela deficiência endógena do tema literatura nas grades curriculares. É hora de desafios. Tirar crianças da frente de joguinhos coloridos e sonoros de um computador ou celular é desafio para todos os que querem ver o Brasil sair do atoleiro da ignorância que nos fere a alma. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/04/2014. - [TORRES NA ABL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/torres-na-abl-diario-do-nordeste/): Estive no Rio, na Casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras-ABL. Era a posse do renomado escritor brasileiro, nascido na Bahia, Antônio Torres, na noite da última quarta-feira. Cerimônia de gala. Para alguns, pode parecer anacronismo o trajo, o fardão e o ritual solene da iniciação de novo componente daquele sodalício que reúne 40 dos mais expressivos cultores da cultura, da literatura e da inteligência brasileira. Ali se amanhã a linguagem culta, carente no Brasil. Antônio Torres chegou lá com o embornal pleno de obras, a lucidez do jornalista que se exercitou na publicidade e, em especial, pela escritura judiciosa de cronista diário e ficcionista em apogeu. O jeito simples de viver, quase franciscano, acolitado pela maturidade existencial, é a certeza de que honrará e resplenderá na ABL Ele ocupará a cadeira de Machado de Assis com renome e glória por seu cabedal literário, que se iniciou com "Um cão uivando para a lua", passou por "Essa Terra", "O Cachorro e o Lobo" e não terminará tão cedo. Torres obteve o reconhecimento do governo da França ao lhe conceder o título de "Chevalier des Arts et de Letres"; "Hors concours". Aqui, da União Brasileira de Escritores; e os prêmios nacionais "Jabuti", da Câmara Brasileira do Livro; e o "Machado de Assis", da própria Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra, já em 2000. Antônio Torres já visitou o "Clube do Bode", é amigo de escritores cearenses e, para mim, foi uma honra representar a Academia Cearense de Letras naquela solenidade fulgente. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/04/2014 - [UM RIO DE RECORDAÇÕES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/um-rio-de-recordacoes-jornal-o-estado/): “O tempo não existe. Só existe o passar do tempo”. Millôr Fernandes nasceu e morreu no Rio. Estou no Rio de Janeiro, esta cidade que descobri na juventude e a ela me afeiçoei. Cheguei ao “Santos Dumont” e não havia ninguém esperando. O telegrama atrasara e a tia não estava lá. Táxi, mala na mão, fui ter ao Hotel Mem de Sá, Lapa, por indicação do motorista. Defronte, o Instituto Médico Legal, com o som das sirenes das camionetas chegando e saindo, me causava medo. Era noite e tudo me parecia estranho. Olhei, tomei as referências da localização do hotel e me aventurei pelas vizinhanças. Não sabia que estava em área perigosa, e o novo, tal como ainda hoje, me fascinava. Vi os arcos da Lapa, moças da noite, circulei e recolhi-me. Porta calçada por um móvel. Depois, dei com a tia e fui me empanturrando das belezas, das cores e dos cheiros do Rio, essa cidade de tantas faces e de faceiras mulheres, em toda a sua grandeza, desde os confins das zonas norte e oeste, para onde me levavam a curiosidade, os ônibus e os trens, a partir da Central do Brasil, na Av. Presidente Vargas. Copacabana era mais brejeira; a Av. Atlântica não havia sido alargada e o bondinho do Pão de Açúcar ganhou mais um passageiro. Meus olhos eram binóculos perscrutadores da mata, do mar e da enseada de Botafogo. Desci e de pé, na Praia Vermelha, sai deambulando pela avenida sombreada que mostrava, de um lado, os prédios de diversos cursos da antiga Universidade do Brasil e, do outro, a opulência do Iate Clube do Rio de Janeiro. Era a primeira vez. Foram tantas, depois. Cheguei, já profissional, até a cogitar morar por lá nos anos 1970; tive sala, trabalhava, mas o umbigo e a família me chamavam de volta. Fazia do trajeto Fortaleza – Rio uma constante ponte aérea. Eu me embrenhava pelas avenidas Rio Branco e Pres.Wilson, ruas 1o. de Março e México e outras mais, no centro, para provar que sabia estudar e fazer r planos e projetos. Vaidade boba. Assim foi. Assim não é mais. Hoje, décadas depois, ainda resta sentimento de pertença, essa liga invisível e indizível, que me faz andar por sua orla, ver os castelos feitos de areia e a estátua de Carlos Drummond de Andrade (“Não há vivos, há os que morreram e os que esperam a vez”). Certa vez, encontrei um grupo de contracultura “Ratos di Versos” e aí me quedei a ouvir poesias, divagações filosóficas e o pulsar da ingenuidade dos que ainda acreditam que a cultura pode transformar o mundo. No posto Seis, onde sempre me quedo, vejo aposentados jogando damas e gamão, enquanto alguns raros pescadores fundeiam seus barcos aos pés da Fortaleza militar que separa Copacabana de Ipanema. E me repito ao falar que tantas vezes vi Oscar Niemeyer - que não usava o Soares do seu pai, embora assim registrado - descer do carro Dodge que o trazia, na esquina da Júlio de Castilhos com a Atlântica, para dar algumas passadas, com seu blazer marinho, sapatos com saltos mais altos que o normal - sem atentar que era grande não em estatura, mas por sua obra universal - e chegar ao seu escritório na cobertura de um velho prédio com varandas em semi-círculo, a metros dali. Faço-me passadista, e isso não fica bem para quem imagina ter muito ainda o que fazer e, não sei por que, vem a lembrança da morte do José Wilker, na madrugada do sábado passado, esse artista completo que a cidade de Juazeiro do Padre Cícero presenteou ao Brasil. A mim, não vidente de novelas, Wilker causava-me bem quando, em canais não tão comerciais, fazia críticas de filmes com aquela voz performática que dele se apoderou. Pois é, sexta passada, fazia planos para o aniversário da filha no dia seguinte. Dormiu e a nefanda o levou. Ela desfaz planos, sorrateira e enigmática. Agora, estou aqui neste Rio de todos os meses, entrando em botecos, misturando-me ao povo, essa gente que faz essa cidade de tantas caras e almas sofridas ainda conseguir ser alegre e acolhedora, mesmo que a violência não conceda a liberdade para sermos mais abertos, simples e comunicativos. A violência e a nefanda estão soltas, não só nesta terra em que o governador atende pelo nome estranho de “Pezão”, mas em todas as partes deste Brasil ainda varonil, mas nem tanto. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/04/2014 - [JOVENS DO BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/jovens-do-brasil-diario-do-nordeste/): Há, no Brasil, 29 milhões de jovens, entre 15 e 24 anos. Os dados são do IBGE, de 2012. Desse total só 40% havia concluído o ensino fundamental; 27% o curso básico, e 10% faziam o superior. A primeira questão a ser levantada é sobre a qualidade do ensino, em todos os níveis, e a pressa do Ministério da Educação em mostrar números que façam o Brasil aparecer melhor no "ranking" de países com perspectivas para os jovens no mercado de trabalho. Entrevisto jovens a procura de oportunidades de ocupação. É, quase sempre, uma lástima o conteúdo de pequeno texto, de punho próprio, falando das razões pelas quais mereceria tal chance. Não há o menor cuidado em conteúdo e forma. Essa constatação dá pena, pois diz da baixa qualificação recebida nas escolas e faculdades que frequentaram. Desses 24 milhões de jovens, mais de 15 milhões moram no norte e no nordeste. A matriz de tudo está na pobreza endógena não erradicada. Causa espanto em face da crescente necessidade de recursos humanos qualificados. Acresça-se a evasão escolar, pois: "além disso, 630 mil jovens não chegaram a completar um ano de estudo, ou seja, nem mesmo a primeira série", conforme o professor Laércio Menezes Filho, titular da cátedra IFB e coordenador do Insper, no "Valor". Neste 2014 teremos eleições e o resultado já nos parece turvo. Por quê?Dia desses, recebi vídeo com perguntas simples, primárias até, a pessoas adultas e eleitoras. As respostas dão pena pela inconsequência, ingenuidade e a falta de qualquer juízo de valor. Como ter fé? João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/04/2014. - [O TATU-BOLA E O DICIONÁRIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-tatu-bola-e-o-dicionario-jornal-o-estado/): “A alegria torna o homem sociável, a dor individualiza-o.” Friedrich Hebbel, poeta e dramaturgo alemão(1813-1863). Diários, 1847.. Uma cadeira cedida e eis-me amigo de Ingrid Schwamborn, professora PhD, alemã e apaixonada pelo Brasil. Faz mais de um lustro. Nesse tempo de e-mails trocados e raras conversas não virtuais, já confundimos ideias, discutimos, divergimos e, afinal, parece consolidar-se esse liame intelectual que se alimenta de dissonâncias e uma negociada harmonia. Neste 2014 ela investe, juntamente com Rodrigo Castro e Hans-Jürgen Fiege na criação um dicionário alemão-brasileiro sobre palavras usadas no cotidiano do futebol.Insere o Tatu-bola como representação simbólica da fauna nacional pela sua similitude com o esférico que já teve o nome de pelota. O curioso animal, cujo nome tem origem tupi-guarani, foi, em 2012, proposto por Rodrigo Castro, da Associação Caatinga, do Ceará, à Fifa, em Zürich, como mascote para a Copa de 2014. O intuito era chamar atenção a essa espécie em perigo de extinção e protegê-la no seu habitat, a caatinga. Foi aceito. A bola, hoje feita por multinacionais de equipamentos para o esporte, recebe tantos requintes que, em tempo não muito distante, dirá, através de chips, ao árbitro - que já foi juiz, referree, schiedsrichter e que tais – de suas queixas e dos maus-tratos sofridos quando as garras, das hoje sofisticadas e coloridas chuteiras, a maltratarem. Fui menino acompanhando meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, duas vezes presidente do Fortaleza Esporte Clube – desde a sede da Rua Júlio César - assim nomeado em homenagem a Fortaleza, uma das doze cidades-sede de jogos da Copa do Mundo. Com meu pai fui a treinos, concentrações e jogos.Tive tristezas, desapontamentos e alegrias. Registro, ainda hoje, o prazer de ter visto o Estádio do Maracanã, com o seu maior público(183.000) de todos os tempos, quando o Brasil venceu o Paraguai por 1X0, nas eliminatórias da Copa de 1970. Hoje, sou conselheiro do mesmo Fortaleza, clube que me faz voltar a ser menino e mexe, acreditem, com as minhas sístoles e diástoles. Nesse dicionário bilíngue, une-se o português do Brasil - que difere do falado e escrito em Portugal - ao alemão. Cada povo vê e usa de maneira diferente o seu vernáculo. O futebol, palavra e jogo, tem raiz britânica, mas Ingrid, com a lupa de historiadora que é, repercutiu a paixão familiar dos velhos tempos. Era a época em que os passes magistrais de jogadores - players, spieler - do meio campo (half, mittelstümer), para as cabeçadas certeiras de um forward,stümer, hoje atacante, contra goalkeepers, torhüter, que tornaram-se goleiros e arqueiros. Sabe-se que futebol é uma guerra festiva. O gol é o objetivo, mas, para isso, é preciso fazer várias “blitzen” e desmontar a defesa “inimiga”. Estamos às vésperas da Copa do Mundo de Futebol de 2014. A Fifa, senhora guardiã dos direitos do “football association” ao redor do mundo, impõe regras. Os 90 minutos de cada jogo disputado pelas 32 seleções foram precedidos de projetos, análises, vistorias, acidentes de trabalho, lutas para comprar ingressos, diversos protocolos e, claro, mídia intensa. O Brasil espera alegria, festa e congraçamento. Que não ocorra o contrário. Volto ao Dicionário. Desejo que seus futuros usuários façam bom uso das palavras e as empreguem de forma fraterna. Mais cedo do que imaginamos a Copa acabará e, nós, voltaremos às vidas cotidianas. Teremos, entretanto, pronto para consultas, um singular glossário bilíngue que fez de um animal silvestre o seu símbolo. O tatu-bola, quando quer, vira bola. Mas, de repente, se abespinha e deixa de sê-lo. Então, livre, desliza sobre a ravina e procura o seu canto preferido. Com o dicionário vai emergir o alemão para expressões futebolísticas brasileiras, em ordem alfabética e didática. E, os brasileiros vão entender os xingamentos deles. Até o ministro dos Esportes, Aldo Rabelo, defensor ferrenho da nossa nacionalidade – insistia que a palavra futebol, de origem inglesa, fosse mudada para “ludopédio” - vai escrever sobre o Dicionário Fussball mit Tatu-Bola, ou o “Futebol com Tatu-Bola” que deverá estar pronto antes de junho. Todos terão acesso, de forma descontraída, às múltiplas faces do mundo do futebol e do conhecimento, esse que nos concede a verdadeira liberdade de criar o que queremos. Aguardem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/04/2014. - [CAFÉ AOS DOMINGOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cafe-aos-domingos-diario-do-nordeste/): A distância a cumprir era curta. Ligar o carro, auscultar a rua, dobrar à esquerda e, pouco mais além, tomar a direita. Seguia e parava o carro do lado oblíquo, a procura de sombra. Tocava a campainha, mas as grades, com pontas em flechas, deixavam ver tudo. O "Tico", pequeno cão meu que foi ficando por lá, latia de rabo eriçado e, súbito, voltava para ela. A grande mangueira, verdejante, nos recebia e despejava sombra no jardim. Mas havia banco, cadeiras de ferro, profusão de plantas, de palmeiras a samambaias. Vencida essa entrada, chegava-se na sala onde, na cadeira de balanço, ela lia o DN e recebia a todos, com prazer. Levantava a vista, recebia o afago e o pedido de bênção. Trocávamos prosas e notícias. À mesa havia suco de laranja, mamão cortado, pão, tapioca, ovos, queijo, leite e café sem açúcar, única exigência minha. Ela sentava na cabeceira e dava conta de tudo, sem esquecer-se do "Tico", a seus pés. Todos, filhos, netos e bisnetos, iam chegando e traziam conversas. Ela as aceitava ou não, sem pestanejar. Era o comando. Ano passado, fui a uma feira de numismática e trouxe cédulas de 500 cruzeiros. Dei uma a ela. Olhou: está pensando que sou boba. E riu. Este começo de ano a saúde dela rateava. Sabíamos que estava indo. Ela entoava jaculatórias e respondia ao Pai Nosso e a "bênção" que eu oferecia, como se padre fosse. Agora, não há mais café aos domingos. Não voltei lá, ainda. Passei ao largo e mirei de esguelha. As folhas da mangueira farfalhavam. Jardim sem margarida. Neblinava. O resto era silêncio e sentimento. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2014 - [MENINAS E VACINAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/meninas-e-vacinas-diario-do-nordeste/): Sabemos que a área de saúde atua por campanhas para prevenir despesas públicas com o tratamento de futuras doenças. Desde alguns anos, achou-se necessário distribuir preservativos para jovens o ano inteiro. Sei que o mundo é livre para quem não sabe ainda o alcance dos seus voos. Os limites são fundamentos passados pela família, pela escola, pela fé ou pela turma da rua, da esquina, do futebol, da roda de samba, do trabalho. E a vida vai. Depois do carnaval neste março de confusão entre a Rússia e a Ucrânia, dos atritos entre alas do PMDB e o Palácio do Planalto, emergiu, na última segunda-feira, a boa campanha de saúde pública para vacinar meninas entre 11 a 13 anos contra o HPV (Papiloma Vírus Humano). O HPV pode causar câncer de colo de útero e outras doenças genitais. É preciso que as famílias entendam que as jovens devem ser vacinadas contra o HPV antes do início das suas vidas sexuais. Isso não significa dizer que a vacina libera a jovem para a vida sexual. Não, nada disso. Serão três doses: uma agora; outra, daqui a seis meses, em agosto; e a última, daqui a cinco anos. Este registro foge ao escopo do que escrevo, mas o faço por saber que, baseado em dados estatísticos, 5.000 mulheres morrerão no Brasil, neste 2014, de câncer de colo de útero e outras 15.000 serão infectadas pelo HPV. Ao receber as doses da vacina, a jovem cria anticorpos, mas isso não a liberará das prevenções indispensáveis ao longo da vida adulta. Que pais e filhas se unam e conversem abertamente, antes que as mídias sociais o façam com os equívocos de sempre. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2014. - [CIDADES, O COMPORTAMENTO DA POPULAÇÃO E SISTEMAS DE CONTROLE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cidades-o-comportamento-da-populacao-e-sistemas-de-controle-jornal-o-estado/): “As cidades, como os sonhos, são feitas de desejos e medos”. Ítalo Calvino, esc. italiano, sec. XX. Quase todas as pessoas têm orgulho das cidades onde moram. É importante que isso aconteça, mas é essencial que esse orgulho se transforme em gestos de civilidade. Há sempre reclamações sobre as vias, praças, os parques e as áreas de lazer, mas pouco se fala do mau uso desses equipamentos públicos por parte da população. Qualquer evento coletivo deixa um rastro de sujeira que nos torna céticos em relação aos que dele participaram. Não falo da sujeira gerada pelos ambulantes, tampouco a ação “seletiva” dos catadores, mas as dos que saem de suas casas portando comidas e bebidas ou, os dos que, embora não as levando, as compram e descartam no meio ambiente, sem ter sequer a preocupação de procurar uma lixeira próxima ou levar os resíduos em uma simples sacola. No trânsito, a situação se agrava pelo estresse, aos carros em locais proibidos, aos cones e os serviços de “valetes”, ao uso excessivo de buzinas e ao ultrapassar desafiante dos motociclistas. As cidades estão sempre em obras, e isso é importante considerar. Elas tentam se ajustar ao crescimento da população. As cidades médias e grandes chegaram a um patamar problemático. O documento da ONU: “World Urbanization Prospect: The 2001 Revision” relata que a população mundial aumentou, no século 20, 1,65 bilhões de pessoas. Em 2011 a população mundial atingiu sete bilhões de pessoas e não vai parar de crescer. O Brasil possui, hoje, 39 cidades com mais de 500 mil habitantes, 23 cidades estão entre 500 mil e 1 milhão de habitantes, há 14 outras que estão entre 1 e 5 milhões, 1 na faixa entre 5 a 10 milhões e São Paulo ultrapassa dos 10 milhões de habitantes. Isso é problema. O depoimento do diretor de Soluções de Governo, Saúde e Educação da Oracle, Fernando Faria, feito a Paulo Brito, do jornal Valor, é ponderado: “Atualmente, não adianta, por exemplo, a gente construir um hospital se não embarcar nele as tecnologias necessárias”. O seu alerta vale também para rodovias e portos. Diz Faria: “sem inteligência se compararam a um duto que não tenha sistema de controle”. É preciso deixar claro que a Oracle é uma multinacional que vende sistemas inteligentes, mas isso não invalida a observação. Do lado do Governo, o depoimento de Alexandre Cabral, diretor do Departamento de Setores Intensivos em Capital e Tecnologia do Ministério do Desenvolvimento, concedido também a Paulo Brito- Valor, assevera que as cidades “são construções sócio-técnicas, como definiu o geógrafo Milton Santos, onde o conceito de inteligência deve ir além do trivial: devemos ter a ‘smart prefeitura’, o ‘smart-hospital’ – ou seja, conseguir mais eficiência da cidade em benefício do cidadão, usando para isso tecnologia. Esse benefício aparecerá no trânsito, nos serviços, no gerenciamento dos riscos. E fazer isso com o uso massivo de tecnologia torna esse desafio mais interessante”. Esta digressão parece coincidir com o proposto pelo prefeito Roberto Cláudio ao apresentar o PAITT - Plano de Ações Imediatas em Transporte e Trânsito para Fortaleza. Recrutou especialistas com boas formações acadêmicas, a consultoria da empresa McKinsey e espera resultados até o fim deste 2014. No site da McKinsey, filial do Brasil, está escrito: “Somos uma consultoria que assessora as principais empresas, governos e organizações sem fins lucrativos, em questões de estratégia, organização, operações e tecnologia”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/03/2014 - [SISTEMA "S" E O HOJE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sistema-s-e-o-hoje-diario-do-nordeste/): A estrutura sindical é resultado dos períodos ditatorial e democrático de Vargas, ampliada na Constituição de 1988. Hoje, outros tempos, permanece onerosa no país perdido entre o passadismo erradio e um futuro incerto. Não se fala apenas em sindicatos. Escrevem mal sobre parte de federações e confederações de trabalhadores e patrões. Os "S" seriam focos de: dominação, desperdício, compadrio com o poder, premiações anuais interesseiras, pesquisas direcionadas e abrigos de "ex-tudo". Há exceções, é claro. Existem denúncias públicas. Exemplo: o uso explícito da máquina de poderosa federação sudestina para alavancar candidatura a governador de Estado. O país "S" gera lobistas/atravessadores, assessores, vereadores, deputados e senadores; é luta pelo poder, sem coerência institucional ou ideológica. Os bilhões de reais anuais das contribuições sindicais de empregados e patrões são, apenas em parte, investidos em treinamentos e formação de força de trabalho. Cita-se que há, quase sempre, pagamento adicional para a obtenção de vagas nos cursos nos "S". Cofres cheios. Há estrutura mastodôntica, empregos "vitalícios", prédios suntuosos, viagens gratuitas pelo Brasil e exterior. Eleições com cargos disputados, (des) acordos entre facções. Se o que lê parecer grave, veja só um exemplo: os jornais Valor e Folha de SP, 27.02.2014, publicam nota paga pelo SENAC-RJ contra o presidente da Confederação do Comércio, há quase 40 anos no poder. Autofagia exposta. É hora de as mídias, o TCU, o MPF e o Congresso Nacional reverem essas capitanias. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/03/2014. - [O OSCAR-14, A ESCRAVIDÃO DE TODOS. A LIBERTAÇÃO NA REBELDIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-oscar-14-a-escravidao-de-todos-a-libertacao-na-rebeldia-jornal-o-estado/): “O cinema não tem fronteiras, nem limites. É um fluxo constante de sonhos”. Orson Welles, ator e diretor americano (1915-1985). Escrevo sobre o Oscar-14 com a (des)responsabilidade de cinemeiro. Cinemeiro é aquele que vai ao cinema com olhar mais atento, ouvido aguçado, mas não possui a cultura focada do crítico de cinema. É descompromissado, mas é olhar sutil, diferente, e se enleva em ver filme em tela grande, sem papo com acompanhante, e fazendo “psiu” quando há barulho na sala. Pois bem, vi alguns dos indicados e após ficar intrigado com a súbita e breve aparição do Brad Pitt (nas cenas da construção de um pavilhão agregado à Casa Grande) nos “12”, procurei entender. Ele é o produtor de “12 Anos de Escravidão”, baseado em livro autobiográfico de Solomon Northup, publicado em 1853. Chiwetel Ejiofor, britânico, filho de pais nigerianos, poderia ter ganhado o Oscar de melhor ator, mas seria demais para a vetusta Academia. O meu preferido era Bruce Dern, ator de Nebraska. Esse filme é lindo em conteúdo e eloquente na ausência do recurso moderno das cores. Preto e branco, legítimo. Fez-se a abertura e um inglês, negro, Steve McQueen (nome homônimo de um velho ator americano de filmes de farwest), diretor de “12”, ganhou o Oscar de melhor diretor. Além disso, a atriz coadjuvante, Lupita Nyong’o, de nacionalidade queniana, mas naturalizada mexicana, ganhou o prêmio de sua categoria. Por outro lado, a relação de amor-ódio da Califórnia e dos EEUU com o México decidiu premiar “Gravidade” – com sete indicações - como o melhor filme e o Oscar foi para o diretor mexicano Alfonso Cuarón. Outro mexicano, Emmanuel Lubezki, ganhou o Oscar de fotografia. O Brasil, entretanto, teve um prêmio de consolação. A mulher de Matthew McConaughey, prêmio de Melhor Ator, por “Clube de Compras Dallas”, é a modelo brasileira Camila Alves. Fato instigante: um repórter, pós-premiação, perguntou à Camila como era Matthew em casa. Ela, súbito, respondeu: “Quem é esse cara (referindo-se à interpretação dele) romântico, podemos trazê-lo para casa só um pouquinho?”. Eles têm três filhos e são casados, de verdade. Sabe-se que os EEUU, especialmente, a quase metade republicana, ainda não absorveu o mundo sem fronteira de cor e religião. Os Wasp (White, branco, anglo-saxon(ão) e protestant(e)) já deixam de ser a maioria da “terra dos bravos” e resistem em aceitar Obama. Além de negro, foi sido eleito, por ser culto, desenvolto, articulado, e reeleito. Michelle, sua mulher, com seu ar blasé, na Casa Branca, não foi submissa, como deveriam ser as escravas retratadas no “12”. Ressalve-se que Lupita, ganhadora de melhor atriz coadjuvante, não aceitava ser a “negra preferida” para saciar os desejos de seu amo branco. Foi essa revolta encenada que a fez ganhadora. Com méritos. Acrescentando-se que no seu discurso de agradecimento ela mostrou cultura e desembaraço, forjado na mistura de sua origem africana, a opção pela cidadania mexicana e a formação acadêmica nos EEUU. Hoje, fala-se muito em igualdade, cotas raciais –contra e a favor - e os frutos dos movimentos libertários eclodem em todo o mundo. Não apenas no orbe ocidental – que pensamos ser o centro do planeta. Em todos os demais continentes há insatisfeitos, seja por questões de fé, raça, ideologia, gênero e cultura. O mundo dos “sabidos” precisa absorver o que o século 21 vem, atabalhoadamente, mostrando: há outras faces e fases emergindo e não se pode mais pedir que “eles”, os outros, fiquem no seu lugar. “Eles” fazem parte do nós e hão que surgir pequenos e grandes estrondos para, depois, reinar a paz entre os homens. Enquanto isso, se briga por fronteiras, migração/imigração, cobiça, tênues e já vagas noções de ideologias que vieram do iluminismo, do século 19 e percorreram grande parte do último. Voltando à “sétima arte”: é bom que neste 2014 os membros do “establishment” tenham acenado para povos, histórias e países diferentes. Esse ponta-pé começou, mambembe, em 1914, quando Charles Chaplin com suas metáforas no cinema mundo, apareceu em “Making a Living”, traduzido no Brasil como “Carlitos Repórter”. Sobre Chaplin falarei depois. Resumindo e concluindo, sair de casa e ir a um cinema de tela grande, é forma lúcida de conviver com as diferenças, com a loucura dos enredos, aprender alguma coisa que sirva para entender que nenhum de nós é tão importante que não possa ser confundido como escravo, independente da cor de nossa pele. Só há uma fórmula para isso não acontecer: conhecimento, preparo e rebeldia consciente. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/03/2014. - [D. MARGARIDA: CIDADÃ, MULHER, MÃE E MESTRA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/d-margarida-cidada-mulher-mae-e-mestra-jornal-o-estado/): Imagine Fortaleza no começo dos anos quarenta. 180.000 habitantes, pacata e brejeira apesar da guerra que se iniciara no mundo e só terminaria em 1945. Havia festa na cidade. No adro de uma igreja, novena e singela quermesse aproximaram, pelas artes sutis do encontro, dois jovens bem apessoados. Olharam-se de forma extremada. Esqueceram os demais. Ali começava, sem que soubessem, uma história que eclodiria em muitas outras vidas. Ele, recém-fugido – a pé- do Seminário de Canindé, dos Capuchinhos Alemães de São Francisco, seu onomástico. Ela trabalhava no laboratório do Dionísio Torres, seu padrinho de batismo, onde se fazia perfumes. De certo, ela cheirava bem. Enlaçaram-se com a coragem e a garra dos que, nada tendo, dispõem-se a selar pactos de amor e luta. Pois foi assim. Ele, Francisco Bezerra de Oliveira, ainda sem profissão definida, disse ao pai que iria casar e pediu sua bênção. O pai, João Soares de Oliveira, atônito, teve que aceitar a decisão do quase menino que iria desposar a jovem Margarida. Casaram-se e, para amansar o desencanto do pai, prometeram que dariam ao primeiro filho, se homem, o seu nome. E aí nasce João Soares Neto, o primeiro filho desse casal destemido. Hoje, neste 25 de fevereiro de 2014, morreu Margarida Caminha de Oliveira, a jovem que tornou-se mulher, mãe, avó e bisavó. Meu pai faleceu, de infarto, em 21 de novembro de 1991. Daí para cá, ela reinava soberana nos jardins e na casa da família, curtindo – pelo resto da vida – o casamento que durou 51 anos. E dessa união nasceram João, José, Francisco, Maria Célia, Maria Simone, Liduína, Luiza Helena, Ricardo e Pedro Henrique. Todos estudaram em escolas privadas, alcançaram formação universitária, viraram independentes, têm famílias constituídas com filhos, e filhos dos filhos, netos e bisnetos de d. Margarida. Ela nunca deixou de impor limites a todos, puxar as orelhas de cada um, nos tempos e ocasiões devidas. Não era “melosa”, tinha um jeito sincero de abrir sua alma e não queria depender de ninguém. Apenas da d. Zilmar, servidora e amiga, com quem conviveu por décadas. Agora, ela é saudade, a lembrança entranhada de ensinamentos e sabedoria. Certa vez, em aniversário dela, já viúva, pediram que desse a primeira fatia de bolo a quem mais amasse. Virou as costas, faca em punho e, minutos depois, eis que aparece com várias partes do bolo em um grande prato, servindo a todos. Postura retilínea, sobranceira e digna no seu modo cristão e simples de viver. Leitora atenta de jornais, rejubilava-se por não precisar, financeiramente, de nenhum filho para viver. Havia amealhado para o futuro, este que sempre chega. Nesta hora, meio confuso, ainda sentindo o calor de suas mãos no corpo inerte ao meu lado, rendo homenagens à sua dignidade, inteireza, liderança aquietada, caridade, religiosidade provada e sentida. As lições que recebemos deram asas para que nos tornássemos cidadãos do mundo, sem medo de atravessar fronteiras rumo ao desconhecido. Seu sangue corre em veias por outros países. Mais não digo, pois o que escrevo talvez só interesse a mim e à nossa família, mas sintetizo na frase de F. von Schelegel, escritor alemão, o meu olhar sobre d. Margarida, em seus 94 anos de vida: “Apenas em torno de uma mulher que ama pode formar-se uma família”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/02/2014. - [OS ALBUQUERQUES E TANTOS OUTROS, PELO BISTURI HISTÓRICO DE CANDIDO PINHEIRO – Soares Neto - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-albuquerques-e-tantos-outros-pelo-bisturi-historico-de-candido-pinheiro-soares-neto-jornal-o-estado/): “Este mundo da história certamente foi feito pelos homens; ele traz dentro de si o mistério da mente humana, e é feito à sua imagem e semelhança. Se alguém refletir a respeito de tal fato, certamente provará espanto, considerando que todos os filósofos esforçaram-se para obter a ciência deste mundo natural...” Gianbattista Vico, filósofo italiano, do tempo de Borges da Fonseca. No dia 28 de julho de 2013 recebi um presente valioso. Um exemplar, em capa dura, com 656 páginas, impresso em papel pólen, usando a tipia American Garamond 12/15, tamanho 23cm x 31cm, com esmerado acabamento gráfico. Tratava-se do primeiro volume - de um total proposto de dez-da genealogia, biografia e história da família “Albuquerque. A herança de Jerônimo, o Torto”. Jerônimo, patriarca de 36 filhos documentados. Essa familiação foi o start up, o ponto fora da curva que caiu no microscópio histórico de alguém com muito que fazer, Cândido Pinheiro Koren de Lima. Ele é médico oncologista e empresário, que foi do zero ao Zenith. A façanha de Cândido Pinheiro causou-me impacto e deixou provado que o conhecimento é de quem, com fundamentos, dele se apropria, através de estudo percuciente, a partir de informações encadeadas que germinam. Não é o conhecimento dos que apenas se imaginam letrados. É preciso pô-lo à prova e isso ele o fez com a mistura de povos diferentes: muçulmanos, índios, judeus e os portugueses, tido como brancos. Trouxe tudo à tona, de forma judiciosa, destacando esquemas. A oncologia cirúrgica, especialidade primeira de Cândido Pinheiro, pode ter sido a matriz de seu método investigativo. Ele foi e é um investigante. Seja ao elaborar protocolos cirúrgicos; ao identificar mercado de trabalho médico para, repito, sair do zero ao Zenith. Na maturidade existencial descobriu-se genealogista, com paciência, lucidez e método; insumos básicos para mirar o seu monóculo na nau “Nobiliarquia Pernambucana”, obra capitaneada por Borges da Fonseca no século 18, e ser um remador fundista para extrair em anais, pesquisas, viagens, visitas e estudos a raiz ontológica de seu livro. Este espaço não me dá suporte para adiantar mais sobre o livro ora enfocado. Deixo claro, de plano, que não sou crítico literário. Mas estas balizas alinhavadas pediam para ser escritas com mais proficiência. Fi-lo como pude, tal um Jânio Quadros atarantado diante da profundidade que Cândido Pinheiro alcançou com uma sonda de diamante imagética. Quem quiser conhecer a obra procure uma boa livraria e faça bom proveito. Como bem o disse Miguel de Unamuno, escritor espanhol do século passado: “ler muito é um dos caminhos para a originalidade; uma pessoa é tão mais original e peculiar quanto mais conhecer o que disseram os outros”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/02/2014. - [GARAPA DO CEARÁ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/garapa-do-ceara-diario-do-nordeste/): A morte do documentarista Eduardo Coutinho é tragédia que poderia ter sido por ele filmada. O assassino é o próprio filho que, tresloucado, esfaqueou pai e mãe. Os documentaristas, quase sempre, procuram o surreal e a filma com fingido ou natural distanciamento. Li as palavras de Fernando Meirelles, Cacá Diegues e Nelson Pereira dos Santos sobre o grande documentarista que se foi de forma brutal. O fato de ter acontecido no Rio, bairro da Lagoa, no próprio apartamento, mostra que o infortúnio não é privilégio do Ceará. Senti a ausência da fala de José Padilha, o diretor festejado do novo "Robocop". Padilha começou documentarista, fez " Ônibus 174" e outros. Explico-me: com ajuda federal, através da Caixa, Petrobras, Ancine e do próprio Governo do Ceará, Padilha escreveu o roteiro, junto com Felipe Lacerda, e dirigiu, em 2009, o documentário "Garapa" com foco em três histórias de famílias miseráveis da capital e do interior cearense. O "sociologismo" usado, a descrição da "verdade", a filmografia em preto e branco e a fala- ensaiada - de pessoas inocentes para dizer de suas fomes, não engrandecem Padilha.O ufanismo com a sua internacionalização não o redime de usar recursos públicos para filmar a miséria e querer alertar que o "Bolsa Família" não resolve a fome. É importante, neste 2014, ficar claro o uso continuado dos humildes para a fama de alguns jornais, cineastas, fotógrafos e políticos. Iludem e dissimulam. São cruéis ao mostrar desgraças alheias. São piores que as ralas garapas. Reles beneficiários das "revelações". João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/02/2014 - [ÁFRICA DELA, ÁFRICA DELE, ÁFRICA NOSSA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/africa-dela-africa-dele-africa-nossa-jornal-o-estado/): "Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar". Nelson Mandela A partir de hoje e até o dia 23 deste fevereiro, a Galeria BenficArte (Av. Carapinima, 2200- 2o. piso) apresenta a Exposição: "África Dela, África Dele, África Nossa", homenagem a Nelson Mandela e a todos os africanos, especialmente aos que, hoje, trabalham e estudam em Fortaleza e em Redenção, cidade que abriga a Unilab - Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro- Brasileira que tem por missão integrar os povos africanos com a cultura brasileira. O continente africano, sabe-se, é hoje composto de 54 países, sendo 48 continentais e 6 insulares. A colonização é uma longa história que não cabe aqui. Mas é preciso dizer que quase todos os países europeus usaram aquela parte do mundo como predadores. Somente no século passado, mormente após a 2a. Grande Guerra, começaram as lutas para a libertação do jugo a que estavam agrilhoados. Hoje, há um novo avanço colonialista por parte da Índia e da China. George Soros, investidor internacional, comenta que "Índia e China estão em vias de repetir os erros que as potências coloniais cometeram. Há ironia no fato de os velhos colonizadores purgarem seus erros passados, tentando corrigi-los, e os novos colonizadores repetirem aqueles erros”. Nessa exposição estarão revelados15 desenhos em crayon feitos por Tily Murtala, filho da Guiné-Bissau, estudante de arquitetura na Fanor, já com outras mostras realizadas. O foco de Murtala é a vida de Mandela, em todas as suas distintas fases e faces. O Mandela jovem, o revolucionário, o prisioneiro, o pacifista, o aglutinador, o presidente da África do Sul e o homem respeitado por todo o continente africano e o mundo. Existirá interatividade com os visitantes. Cada um poderá manifestar-se em painel próprio sobre o preconceito racial e, assistir amanhã, sábado, às 9:00 horas, o filme "Quem Foi Mandela", seguido de debate com o palestrante João Paulo Pinto Có. Após o filme haverá degustação de comidas típicas africanas. Durante todo o tempo da exposição haverá venda de artesanato e vestuário de diferentes países da África. Você é bem-vindo; a África está aqui. Aproveite. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/02/2014 - [O IPTU DE CADA ANO E DE CADA UM DE NÓS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-iptu-de-cada-ano-e-de-cada-um-de-nos-jornal-o-estado/): O Prefeito é pessoa capaz, digna e bem intencionada. Participou, como a maioria dos políticos brasileiros, de uma coligação para ser eleito e conseguiu. Depois disso, para ter maioria na Câmara Municipal, houve que assumir compromissos. Dessa forma, o seu secretariado não é o ideal, mas o possível na lógica da prática política em curso, desde sempre. Pedidos são os seus calos diários. Por outro lado, algumas famílias e empresas, sentindo que o aumento do IPTU foi alto demais para as suas fontes de renda, pediram-me para escrever algo sobre o assunto. Sabedor de viagem do Prefeito, nestes dias, ao exterior, peço que, se tempo tiver, procure saber como as cidades americanas e as da Europa cobram e prestam conta do equivalente ao nosso IPTU. Fluente em inglês, o Prefeito poderá ver que a maioria das cidades detalha, no boleto do imposto municipal de propriedade, quais os serviços que o seu pagamento contempla na região de quem paga. Entre outros: escola pública, proteção contra incêndio, pavimentação, paisagismo, iluminação, limpeza e transporte escolar. Na verdade, tudo fica muito claro e cada cidadão tem o direito de saber em que o seu dinheiro está sendo empregado na região onde mora. Nessa viagem ao exterior, entre tantas outras que já fez, quer como estudante de pós-graduação, lazer ou em cumprimento de missão pública, poderá formar um juízo de valor equilibrado. Posso estar errado, mas essa será a primeira vez em que verá cidades estrangeiras com a racionalidade de cientista, olhos e sentimentos de gestor de uma cidade complexa e desafiante como a que administra. Não gosto de repassar queixas, mas há entidades pedindo publicamente detalhes do cálculo do IPTU. Amigos, acadêmicos, professores e profissionais liberais, dizem “do inchaço no orçamento com prestadores de serviços e veículos terceirizados, centenas de funções gratificadas e dos encastelados perpétuos em cargos comissionados”. Imagino que o primeiro ano de mandato deve ter sido duro e de aprendizado fundamental. Espera-se que este 2014 contenha um escopo de gestão definido, decisivo e incisivo para os que se sentem apenas como pagadores de impostos. Um amigo, engenheiro e apartidário, fala, em e-mail: “numa cidade que não poupa, pois há excesso de retrabalho por serviços e obras mal feitas, máquina administrativa emperrada que não vê o contribuinte como cliente nem como o pagador do que cada servidor recebe no final de cada mês”. Se o Prefeito tomar conhecimento do que escrevo, em nome dos que me solicitaram, saiba que o tenho em alta conta e não há nenhuma animosidade, mas perplexidade deles ante “o caos em que grande parte da cidade se tornou nos últimos anos por conivência dos que ‘autorizam’ camelôs em pontos fixos; do centro desfigurado; das multas silenciosas em máquinas afixadas em postes como caça-níqueis, sem educação de trânsito; das parcerias, concessões e permissões não clarificadas”. Aproveite para ver, sondar, inquirir, Senhor Prefeito, nesse tempo de viagem. Ao voltar, percorra a cidade como se fosse turista, não o quase sempre predador da orla marítima, mas os “nerds” e os destemidos “Rondons” e Villas-Boas que desbravam os bairros distantes e se estarrecem diante da miséria aflorada em cada viela das centenas de favelas. Gostaria de ter dito tudo isso pessoalmente, mas o tempo é curto e muitos são os seus compromissos. Quem sabe, no próximo ano, tenhamos explicitações claras e visíveis sobre o que foi feito com o IPTU de todos nós. A cidade não é a mera soma das suas partes. Ela é mais que isso. Ela possui sinergia e é, como disse o escritor Ítalo Calvino, feita de desejos e medos. Os desejos estão submergindo no medo e nas desesperanças de muitos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/02/2014 - [O PAPA E AS POMBAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-papa-e-as-pombas-diario-do-nordeste/): Na manhã do domingo passado, na janela do Vaticano em que costuma aparecer, o Papa Francisco surge de branco, tendo ao lado duas crianças. Um menino de azul e a menina de vermelho. Cada uma das crianças levava, nas conchas das mãos, uma pomba branca. O simbolismo desse gesto pode ter várias interpretações: a libertação, a pureza do branco, o amor de São Francisco pelos animais e os sonhos das crianças sem os pesadelos de outrora com a pedofilia grassada e agora coibida pela Igreja. E outras mais. Livre é o sonhar. O fato é que as crianças cumpriram a sua parte: abriram as mãos e deixaram as pombas voar. Lembro de Raimundo Correia, poeta: "Vai-se a primeira pomba despertada... Vai-se outra mais...". Logo após alçarem o voo da liberdade, as duas pombas foram caçadas por um corvo e uma gaivota que os levaram pelos bicos. As fotos, como tudo neste mundo do instantâneo, foram parar em jornais e mídias. E ninguém soube do fim dos dois columbiformes. Ao final do papado de papa Bento XVI, houve igual cerimônia e as duas pombas também foram caçadas e atingidas. Assim, nem a austeridade do alemão e a simpatia (atual capa da revista "Rolling Stones") do argentino deram certo. E "os olhos do Senhor estão em todo lugar". Prov.15:3. Todos nós, com as nossas ânsias de libertação, somos pequenos para os sinistros corvos e as fingidas gaivotas que nos espreitam nos ares da vida. Fiquemos alertas. Somos bicados pelo governo, pelas angústias da vida, pelas demandas da família, pela violência do dia a dia e nem sentimos os ares. É o "habitat" dos corvos óbvios e das gaivotas dissimuladas. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/02/2014 - [A CIDADE, A TECNOLOGIA, O DESRESPEITO OU TUDO JUNTO E MISTURADO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-cidade-a-tecnologia-o-desrespeito-ou-tudo-junto-e-misturado-jornal-o-estado/): “Nunca espero que um soldado pense” – George Bernard Shaw,escritor irlandês (1856-1950). Dizia o geógrafo Milton Santos - e quem o complementa é o diretor do Departamento de Setores Intensivos em Capital e Tecnologia do Ministério do Desenvolvimento - queas cidades “são construções sóciotécnicas, onde o conceito de inteligência deve ir além do trivial: desejamos ter a smart-prefeitura, o smart-hospital, ou seja, conseguir mais eficiência da cidade em benefício do cidadão, usando para isso tecnologia. Esse benefício aparecerá no trânsito, nos serviços, no gerenciamento dos riscos. E fazer isso com o uso massivo de tecnologia torna o desafio mais interessante”. Li este texto no Valor, mas poderia ser em qualquer outro veículo de comunicação. Existe a boa tecnologia, a tecnologia usada para o bem. E existe a tecnologia usada apenas para punir, multar ou, de forma automática, gerar um boleto, com multa por conta de um atraso de um dia, em face de uma fila imensa que faz idosos passar vexames. Existem ainda os casos diários de caixas eletrônicos de bancos dinamitados em capitais e cidades do interior, a ocasionar transtornos e prejuízos aos que iriam fazer depósitos/retirada para pagar contas de IPTU, carnês do INSS, água, luz e crediário, e terão que fazê-lo depois da data, com multa. Reclamam eles também - e com razão - das multas aplicadas em semáforos onde os motoristas têm medo de ficar à espera do sinal verde, cercados de estranhos não havendo tráfego que impeça o deslocamento. Esta semana, por exemplo, um desses jovens impetuosos do trânsito cortou o meu carro pela direita, o que a lei proíbe. Além disso, trancou a via, desceu como um desesperado, ignaro que era, e dirigiu-se a mim. Fechei o vidro e ele deu pancadas. Abri uma fresta e disse que ele nem sabia que cortar pela direita era irregular. Um imbecil. Poderia ter havido mais um crime ou, pelo menos, uma luta corporal. E isso acontece a todo instante. Um Cônsul honorário, em plena Aldeota, levou um tiro de raspão na boca, teve o seu carro levado (depois encontrado) e passou horas seguidas, na madrugada, para fazer um simples boletim de ocorrência e a identificar os meliantes. Dia desses, fui abastecer o carro. Ao meu lado, no posto, estava um veículo médio com um grande equipamento de som que tomava todo o bagageiro. Esse som refletia luzes intermitentes e era testado pelo cioso proprietário a se acreditar um DJ (disk jockey) volante. Ele faz parte da grei dos atormentados, dos que não conseguem distinguir barulho de harmonia melódica. Dos que ouvem essas “músicas” em altíssimos decibéis com letras de verso de pé quebrado e sentidos chulos. Talvez eles tenham como referência, quem sabe, o astro (como era mesmo o nome dele?) da série Velozes e Furiosos, recentemente, falecido em uma colisão em alta velocidade. Ou, quem sabe, são admiradores de ídolos como Justin Bieber, preso ao participar de um “pega”, em Miami, em carro da locadora de Felipe Massa. Bieber dirigia no dobro da velocidade permitida e teria usado álcool e outras drogas. Voltando ao início da conversa, as cidades não precisam apenas de tecnologia, mas de administrações atentas ao conjunto das suas partes. Este texto coloca “junto e misturado” assuntos distintos que fazem a crônica (policial e social) das cidades, ou vão parar nas colunetas que inventam celebridades ocas, a confundir e infundir modos e modas em jovens ainda incapazes de ajuizar as distinções entre o bem e o mal. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/01/2014 - [A CASA E A RUA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-casa-e-a-rua-diario-do-nordeste/): Nós, os animais que falam e pensam, vivemos em casas e nas ruas. Óbvio. O não óbvio é a forma como experimentamos hoje a noção de casa e rua. A casa era ambiente prazeroso, lugar de enlevo e reunião da família. Passou a ser casamata, fortificação a nos guardar do perigo. Elas precisam de fechaduras duplas ou triplas, grades, alarme, cercas elétricas interfone/vídeo. Não pensem ser isso privilégio da classe média para cima. Não o é. Em qualquer cidade brasileira, pequena, média ou grande, há um sentimento de medo geral e nos trancamos. Pobres, medianos e ricos. Liga-se a TV. Jorra a anunciação dos roubos, assassinatos, estupros e assaltos praticados no dia anterior e até no mesmo dia. Essa busca de audiênciacruenta domina os horários do começo das noites na maioria das emissoras de televisão. As de rádio têm a obrigação de chegar rápido no local do crime ou da perversão. Há uma lógica nefanda na concepção da grade de programação aflitiva das emissoras de rádio e TV. É uma síndrome deletéria a unir parte de policiais à um préstito da imprensa na divulgação do infortúnio ou de fatos escabrosos. Se estiver errado, por favor, aceito contestações. Escrevam para o jornal: relatem meus equívocos e falsas interpretações. Ao colocarmos o pé na rua, somos apoderados de um receio a nos tornar inquietos e até descorteses com o outro. Desconfiamos do diferente. Se ele não fizer parte do estereótipo intuído como nosso padrão de referência social, é ameaça. Ainda estamos na rua. O que dizer dos ônibus, dos prédios, dos carros e do trânsito? João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/01/2014. - [DE PASSAPORTES, COMPRAS, CULTURA E ART - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-passaportes-compras-cultura-e-art-jornal-o-estado/): “Andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens ponderados”. Miguel de Cervantes, escritor espanhol. O passaporte verde nos identificava nos aeroportos além mar. Os guardas aduaneiros, independente da língua que falavam, sempre nos olhavam com ar maroto, como se fossemos alguém singular, exótico e vindo de um país “do outro lado do mundo”, o Brasil. Após as perguntas de praxe (quanto tempo vai ficar, negócios ou turismo, hotel etc.) carimbavam o passaporte e, se simpáticos, davam um sorriso. Outros, nem isso. Há algum tempo mudaram os nossos passaportes para a cor azul, com o nome MERCOSUL – qual seria a função desse pomposo nome? Imitar a União Europeia? Imagine. Continuaram a manter a validade em cinco anos quando há vistos com dez anos em curso. Assim, ao viajarmos, precisamos, algumas vezes, levar dois passaportes. Nesses passaportes há duas fotos distintas de uma mesma pessoa, sem retoques, clicadas no órgão emissor, a Polícia Federal. O tempo, esse nada amistoso amigo das faces, nos mostra como éramos, em tempo preterido e, como somos, em época mais recente. Há diferenças, sutis ou não, e os guardas alfandegários nos pedem para tirar os óculos, mirar uma micro-câmera e, por seus trejeitos, parecem conjeturar, se as duas fotos são da mesma pessoa. Enfim, nos dão crédito e entramos, felizes, no dito primeiro mundo. Não importa o lugar que vamos, nós levamos o nosso jeito de ser, um pouco maquiado por verniz leve e de fácil corrosão. Agora, neste janeiro, é tempo de férias e as colunas sociais ficam cheias de notícias dos que vão e dos que chegam. Os que chegam celebram as vindas com fotos com sobretudos e cachecóis e sempre com alguma imagem ao fundo a identificar o país visitado. E como muitos vão a Miami e a Nova Iorque, voltam abarrotados de compras. Os brasileiros compraram bilhões de dólares em 2013. Verdade. Cada brasileiro tem direito a 32 quilos de bagagem, afora as mochilas, as sacolas, as bolsas das mulheres, os excessos pagos e as sofridas compras de última hora nos “free-shops” entregues às portas do avião, causando transtorno no embarque dos outros não compradores. A propósito, muita gente fala mal de Miami sem conhecê-la, na verdade. Faz uma barafunda em “malls” e “outlets” ou o circuito dos restaurantes, bares e hotéis onde os brasileiros se mostram uns aos outros. Miami é hoje uma cidade com vida cultural intensa, shows de artistas renomados e a arte é contemplada com museus de qualidade bem superior a muitos do Brasil. Quem quiser saber de cultura e arte tem várias opções. Não sou agente de viagem e nem escrevo livros ou artigos citando pontos turísticos. Os museus e centros de arte de Nova Iorque não precisam ser nominados, pois constam dos roteiros turísticos e servem para fotos de suas fachadas externas. Eles, na sua maioria, cobram ingressos. Em Miami, com a devida vênia e sem rabugice, há lugares de arte e cultura. Experimentem na próxima viagem: Moca – Museu de Arte Contemporânea; o Wolfsonian, na Florida International University; o consagrado Bass Museu; e o novo PAMM -Pérez Art Museu Miami. Todos merecem uma visita que custa cerca de vinte reais. Em tempo, o Art Basel é gratuito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/01/2014. - [O ITA E O CEARÁ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-ita-e-o-ceara-diario-do-nordeste/): Não estou falando do velho “Ita”, navio de cabotagem a cruzar o Brasil nos tempos dos nossos avôs. Levava, além de cargas, passageiros refinados, migrantes do/ou para o norte ou para o sul, assim considerado, a partir do Rio. Alegro-me em falar de outro ITA, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, padrão de referência de ensino superior no Brasil, desde o último quarto do século passado. O ITA foi fundado em 1950, em São José dos Campos, SP, por um cearense ilustre, o Marechal-do Ar Casemiro Montenegro Filho, tendo como referência o MIT (Massachussets Institute of Technology). Já no século passado, moradores desta taba, resolveram demonstrar ao Brasil que não somos meros cabeças-chatas ou “baianos”, como os do sudeste se referem, pejorativamente, aos nascidos da Bahia para cá. E os jovens daqui fizeram de tal forma e ordem geométrica que são hoje os campeões de todos os três últimos vestibulares. O que isso prova? Que somos inteligentes e capazes, se bem instruídos. Mas há ainda muito a fazer no ensino e aprendizagem de nossas escolas públicas e privadas. Essa vaidade dos cearenses deve ser compartida por todos, não apenas pelos 71 aprovados, seus pais e as escolas que os instruíram. Ela, ao mesmo tempo, deve servir de reflexão para as famílias e os filhos vestibulandos de que o sucesso só acontece, legalmente, aos que se resignam a estudar, a ler o mundo e a obedecer a uma rotina profícua. Caro Rafael, neto da Natércia e filho do Rodrigo, seja o portador dos meus parabéns aos outros 70. Vivam todos o futuro real, com sonhos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/01/2014 - [MÉDICOS, FARMACÊUTICAS E VIAGENS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/medicos-farmaceuticas-e-viagens-jornal-o-estado/): Faz alguns anos que ouço sobre amigos médicos que viajam pagos por empresas farmacêuticas. O processo de catequização tem ainda outras muitas formas não republicanas. Deixemo-las para lá. A nata dos convidados é composta dos grandes prescritores de remédios, dos pesquisadores de renome e dos que se consideram referências na sociedade. Há, entre eles, os que acreditam estar fazendo – ou colaborando - pesquisas cientificas para determinadas curas e o mitigamento das dores de seus pacientes. O médico é um profissional com quociente de inteligência acima da média e não deve cometer o auto-engano de se acreditar útil a um grande laboratório em pesquisa de drogas para um fim específico. As multinacionais a controlar os medicamentos do mundo são insensíveis às dores humanas e têm o seu próprio corpo científico. O doente é a sua presa. Como deixá-lo sem dor, sem a dependência ou a crença de que um remédio o ajudará? Neste século 21, entre tantas questões, descobriu-se o evidente: faltam médicos no Brasil. Na realidade, não faltam médicos no Brasil litorâneo, no Brasil asfaltado, no Brasil com aeroportos internacionais. Faltam médicos para o Brasil cru dos subúrbios e do interior, o Brasil sem esgoto, o Brasil com endemias, o país real com parcos postos de saúde e muitas ambulâncias. No Brasil de hoje em que alguns prefeitos são ilusionistas, pois ocluem os olhos dos cidadãos incautos para a realidade da miséria continuada e a falta de assistência médica. Faltam médicos, especialmente nos grotões. Em alguns deles, médicos se transformam em políticos e tudo prossegue na mesma. Mas falava de viagens pagas a médicos em congressos, estudos, mesas redondas, seminários e afins no mundo afora. Ano passado, em Nevada, LV, havia um desses eventos no hotel em que estava hospedado. Ao passar e olhar curioso para um amontoado de pessoas vi recepcionistas entregando pastas e mimos, em um coquetel. Agora, vejo na imprensa brasileira e na internacional analistas revoltados com os que mistificam esses vieses das farmacêuticas. Apenas comento o que leio, não sei de nomes, mas seria bom que as faculdades de medicina, os professores doutores, médicos renomados, associações de classe e a ANVISA examinassem o assunto e fossem mais explícitos sobre o que acontece nesse mundo tão rico. Em 18 de dezembro passado, o British Medical Journal mostrou, através do médico Sidney Wolfe, fundador e conselheiro sênior do Grupo de Pesquisa em Saúde Pública Cidadã, que há “uma patológica falta de integridade corporativa em muitas farmacêuticas”. Há crimes e violações às legislações. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/01/2014 - [VÃ FILOSOFIA E O DOCE PAÍS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/va-filosofia-e-o-doce-pais-jornal-o-estado/): “Brincar é condição fundamental para ser sério”. Arquimedes, filósofo, matemático e inventor grego, sec.3 A.C. Vez em quando me descubro ignorante. Sem ciência, conhecimento parvo e mal distribuído nos meus escritos. Não precisa ninguém falar mal de mim. Eu mesmo cuido disso. Ao estudar filosofia pura, na matéria Introdução à Ciência do Direito, dei-me bem, mas tudo chegava de roldão em uma mente jovem ocupada por outros interesses. Agora, décadas passadas, deparo-me com um ensaio didático e profundo de César Benjamim sobre Edmund Husserl. Explico. César Benjamin é um cientista político, editor e jornalista, nascido uma década depois da minha. Filiou-se e desligou-se do PT e do PSOL. Isso mostra o seu engajamento e a capacidade de não aceitar no não mais acreditado, na visão dele. Nesse ensaio “A essência das coisas” ele analisa a posição filosófica de Edmund Husserl, amadurecida no princípio do século 20. Ele pretendeu uma forma nova de ver a filosofia: a fenomenologia “buscou um conhecimento cuja validade não dependesse da psicologia, dos fatos empíricos, da espécie humana e nem mesmo da existência do mundo”. Vejam onde estou me metendo. Segundo Benjamin: “Husserl viu que para ‘alcançar as coisas’ precisamos partir de uma intuição na qual elas se revelem diretamente à consciência, sem distorções. Tal intuição precisa cumprir duas condições: a) ser independente de um ‘eu’ particular; b) não se ater a fatos contingentes, mas buscar verdades universais, revelando suas conexões necessárias”. Ora, amigo leitor, se tiver alguma dúvida, releia este parágrafo. Não parece simples entender, mesmo com o didatismo de Benjamin. Falo agora um pouco de Husserl, matemático e filósofo alemão de origem judaica, falecido em 1938, um pouco antes do início da Segunda Guerra mundial deflagrada por Adolf Hitler. Imagine, só de passagem, se vencida pelo nazismo, teria mudado a face da segunda metade do último século. Foi preciso meio mundo se aliar para derrotá-lo, depois de seis anos de desvarios e estragos por toda a Europa, África e Japão. Como o mundo seria hoje se tivesse acontecido o contrário? Aprendi pouco, em filosofia. Aliás, quase não sei nada. Mas ficou sedimentada a ideia de não existir verdade absoluta. Na Teoria do Conhecimento, que me foi ensinada pelo sábio professor Eribaldo Costa, tudo era relativo. Era a Ontognosiologia. Para Husserl, a fenomenologia pregava a verdade absoluta. Rendo-me a Benjamin quando, analisando o livro “A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia”, em tradução de Diogo Falcão Férrer, cita o próprio autor, Husserl: “A exclusividade com que na segunda metade do século 19, a visão de mundo do homem moderno se deixou determinar pelas ciências positivas e com que se deixou deslumbrar pela ‘prosperidade’ que decorria daí significou o afastamento dos problemas decisivos para a humanidade. Meras ciências de fato criam meros homens de fato”. Esses “homens de fato” são os doutrinadores de hoje em suas pregações, convicções e ações políticas, sem sequer uma verdade relativa. São também os messiânicos criadores de versões novas do cristianismo pentecostal, do fundamentalismo islâmico e empresários megalomaníacos do mundo disputando o estrelato e o “ranking” em revistas, blogs e sites. Eles os expõem como chefes de conglomerados em onde tudo é possível. Até algum pode ser honesto. A leitura deste texto não é uma linha azul, mas é uma reflexão, simples ou simplória, feita no começo no “ano épico” de 2014 para o Brasil. Nele poderemos – ou não – ganhar uma Copa do Mundo de Futebol e decidir quem escolheremos para presidir este país localizado do lado norte do mundo ocidental e mais longe ainda do oriental. Este país a viver, sem astrolábio, bússola ou google em busca do seu norte magnético ou do seu significado e significante. Um país a não competir no mundo das letras e das ciências. Contenta-se em exportar mercadorias e uns poucos bens manufaturados e se vê, até hoje, órfão de uma digna premiação internacional tal como, por exemplo, o Nobel. Olhamos para a vizinhança da América do Sul e vemos premiados. Por que será assim? Será por não sermos verdadeiros e nos fingimos alegres em meio a uma espécie de guerrilha urbana a nos acossar todos os dias com a face mais cruel da juventude sem rumo? Entretanto, fiquemos alegres, Fernanda Montenegro, a Fernandona, 84, ganhou um “Emmy” por sua interpretação no telefilme “Doce de mãe”. Doce país. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/01/2014 - [VELHO-NO-NOVO-ANO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/velho-no-novo-ano-diario-do-nordeste/): Luciano Pamplona, professor universitário e engenheiro estrutural, se diz confesso leitor deste nano espaço. E ele cobra: “escreve mais fácil, do jeito que minha mãe gosta de ler”. As nossas mães têm a mesma idade, 94 anos. A longevidade dos que nasceram no século 20 ainda é fato extraordinário. Daqui a algum tempo o mundo passará por um novo “boom”, o da compra de fraldas geriátricas. Esta é a primeira coluna do ano e falo de velhice. Pois é. Segundo a EFE, agência de notícias, o Japão venderá, neste 2014, mais fraldas geriátricas que as infantis. O crescimento, nos últimos cinco anos, foi de 38%. No Império do sol nascente, que visitei em belo outono, a vida média é de 83 anos. O que se deduz dessa informação? A senectude vem acompanhada de sequelas que inibem a qualidade de vida dos que rompem essa média. Aqui no Brasil a média de vida (73) é 10 anos abaixo. As famílias precisam ficar atentas para os seus idosos que, se vivos permanecerem, carecerão de cuidados e assistência médica não paliativa. Tenho cinco sobrinhos na área médica e a eles já recomendei, o que reforço agora: foquem na geriatria, esse sub-ramo da clínica geral. Imaginem os idosos que precisam do SUS com as suas intermináveis filas para meras marcações de consultas. Aos idosos escasseia o tempo nas vidas que lhes restam. Com dificuldades de locomoção em transportes públicos, eles quase sempre dependem da boa vontade de parentes. Ora direis, mas o que é a velhice? Ela começa quando você quer enganar a si próprio, dizendo: Nunca me senti tão jovem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/01/2014 - [VAMOS BRINCAR SÉRIO? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/vamos-brincar-serio-jornal-o-estado/): Sejam bem-vindos à primeira sexta-feira do ano. Aproveite essa sobra de feriadão e brinque um pouco com você mesmo. Não sou muito didático, mas vou tentar comunicar-me com você com algumas perguntas meio marotas. Relaxe e preste atenção: 1. Se você dividir 30 por ½ e adicionar 10, qual será o resultado; 2. Quantos pares de meia tem uma dúzia?; 3. Um fazendeiro possuía 17 ovelhas. Todas morreram, menos 9. Com quantas ele ficou?;4. Existe 7 de setembro nos Estados Unidos?; 5.Alguns meses têm 31 dias, quantos têm 28?; 6. A religião católica permite que você se case com a irmã de sua viúva?;7. Se uma cesta tem 3 maçãs e você tira 2, com quantas fica?;8. Um médico receitou 3 pílulas. Elas devem ser tomadas a cada meia hora. Quanto tempo dura o tratamento?; 9. Quantos animais de cada sexo, Moisés levou para a Arca?; 10. Você participa de uma corrida e ultrapassou o segundo. Em que lugar você fica? Procure responder cada pergunta com atenção. Pense. Pensar, antes de dar qualquer resposta, sempre é bom. Não se apresse. Responda uma de cada vez. Se precisar, pegue um papel e um lápis. Agora, você vai fazer um trato comigo. Vou dar a resposta certa a cada pergunta, mas não leia, a partir desta frase. Volte a ler apenas quando tiver respondido. Caso olhe, estará desacreditando de sua inteligência e comprometerá a sua consciência e/ou ética pessoal. As respostas certas virão a seguir aos números. 1= 70; 2= uma dúzia nunca varia; 3. Fica com 9, as que não morreram. 4. Lá como aqui tem todos os dias do ano; 5 = são 12, pois todos os meses têm 28 dias ou mais; 6 = Se é viúva, você já morreu. Morto não casa; 7 = ficou com as duas que tirou; 8 = 1 hora, só começa a contar após a primeira pílula; 9 = nenhum. A Arca era de Noé, não de Moisés; 10 = No segundo, você não ultrapassou o primeiro. Parabéns se acertou todas ou a maioria. Se você pescou alguma resposta, lembre-se: a vida não tem repeteco, tudo é naquele instante e ninguém lhe passará pesca quando estiver em dificuldade. Faça o que sabe e será mais afortunado. A propósito, feliz Ano Novo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/01/2014 - [REVENDO O ANO E FAZENDO FÉ EM 2016 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/revendo-o-ano-e-fazendo-fe-em-2016-jornal-o-estado/): Estamos no Natal, antevéspera da festa pagã do fim de ano. Agradeço a todos os leitores desta coluna. Mais ainda aos que a leram na íntegra, o ano inteiro. Ela foi pensada para ser além de artigo de opinião. A coluna não é pautada por interesses. Procuro escrever da única forma aprendida: clara e sem floreios linguísticos. Direto ao ponto, pois o parnasianismo, mesmo quando efervescente, não combinava com jornal, esse efêmero veículo de fatos, fotos e textos a morrer e a renascer a cada 24 horas. Vivemos tempos duros neste 2015. Quem mora em cidade grande – e não viaja ao interior – não faz ideia de como o Estado lutou para não acontecerem êxodos como os do século passado. A jovem população do sertão substituiu a alimária por motos compradas pelo crediário. A moto é diferencial, símbolo a se somar ao celular e oferecer a seus usuários o sentimento de liberdade e, ao mesmo tempo, a opção de estar conectado. Não se sabe ainda qual a influência do celular na melhora da capacidade cognitiva dos com poucas letras. As motos fazem vítimas a cada dia. Falta disciplina a seus guiadores. O Brasil atravessa mais uma crise. Explicitada pela acurácia de um jovem nascido no interior do Paraná, celeiro de imigrantes e de brasileiros de todos os matizes. Sérgio Moro foi, sem dúvida, a figura mais acreditada neste país em que alguns políticos das duas casas do Congresso Nacional fazem o contraponto. Louve-se a conjunção do Ministério Público, da Justiça e da Polícia Federal, nas investigações e consequentes prisões de pessoas por malversação do dinheiro público, em operações divulgadas pelos órgãos de comunicação com acesso aos fatos, suas análises e as consequentes delações a mostrar ramificações de estarrecer. Alguns dizem ser preciso medida emergencial para dar ordem ao País e caminhar de forma diversa do feito até hoje. Na verdade, precisamos de uma concertação ainda não aclarada, mas necessária ao desenvolvimento econômico, com sério enfoque na inclusão social e na validação do regime democrático, em forma menos capenga do hoje praticado. O “Impeachment” não é panaceia, mas – se couber – dispositivo existente na Constituição. Há normas de como fazê-lo. Precisamos de novas lideranças. Não as que evocam guias do passado, como mero exercício de retórica. A perda da confiança geral é prova da necessidade de eliminar ou reinventar instituições tuteladoras e ricas, muitas delas do ciclo Vargas, generoso e paternalista ao criá-las por decreto-lei ou leis baseados no nacional socialismo italiano de Benito Mussolini. As grandes mídias nacionais não podem dar guinadas ao sabor de interesses. Precisam acordar. Não há consenso político espontâneo, mas em decorrência de coalizões necessárias, aclaradas e consequentes. Agradeço, de verdade, aos leitores deste espaço. Escrevi 52 colunas, com a média de 500 palavras, cada. Tentei levantar questões gerais e agora me dou conta de que, no total, foram 26.000 palavras. Palavras e opiniões publicadas não podem ser mudadas, passam a ser patrimônio do seu tempo. Desejo a todos um Feliz Natal e, acreditem, faço fé em 2016. Resolvi chamá-lo de “O Ano do Bem”. Devemos fazer a nossa parte para isso acontecer. Felicidades e obrigado. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/12/2015. - [CEARENSES SÃO INTELIGENTES E PODEM BRILHAR - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cearenses-sao-inteligentes-e-podem-brilhar-jornal-o-estado/): Quando um país está atrasado por falta de atividade intelectual, é impossível que ele se eleve. Clóvis Beviláqua. Sempre que acontecem vestibulares no Instituto Militar de Engenharia-IME, no Instituto Tecnológico de Aeronáutica-ITA e até na USP há um grande número de cearenses aprovados. O mesmo ocorre nos vestibulares de cursos de medicina, hoje avidamente procurados. Não há dúvida de que a maioria desses jovens faz parte de turmas ditas “especiais” de alguns colégios particulares, mas, vez por outra, aparece alguém de escola pública nas listas que fazem a alegria de famílias pobres. Há pais que, mesmo sem estar no patamar de cima da pirâmide social, pois são pobres ou da classe média, investem na educação dos filhos, priorizando-as em lugar do consumo ou de viagens sem conteúdo cultural. A cada um desses vitoriosos jovens ainda no pórtico da vida real dou os meus parabéns. Fiquem certos, eles e as suas famílias, que o conhecimento é o diferencial competitivo neste tempo de crise. O saber é dessemelhante da esperteza. Dizia Sócrates, no quinto século antes de Cristo, que “existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”. A esperteza é uma habilidade maliciosa; malícia, manha e astúcia, segundo o dicionário do Aurélio. Parece que estamos vivendo os estertores dos espertos, aqueles que se apropriam do que lhes convêm, sem medir consequências e tampouco ligar para os direitos alheios. A era do conhecimento vem seguindo o desenvolvimento tecnológico e a armadura social decorrente. Ela vai mostrar, acreditem, a diferença entre os que fazem o bem e os que fazem bem as suas espertezas. Esses jovens, alguns imberbes, são bálsamo para um Estado pobre, ainda com indicadores de desenvolvimento social aquém do desejado. Investir em educação qualificada, em remunerar melhor os professores, tornar clara a intenção de aperfeiçoar o ensino fundamental, que deveria ser uma das prioridades de todos os níveis de governo. A entrada para a vida que se abre aos que estudam – e aprendem – com afinco é o investimento em educação e a disseminação da arte e da cultura. O humor cearense, tão bem representado por Chico Anysio, mostra à exaustão a diferença entre o conhecimento e a esperteza. Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho era um estudioso da alma humana e os seus mais de 200 tipos de personagens refletem a sua capacidade de dissecar –com humor – toda sorte de artes e vícios. O deputado Tiririca, reeleito em São Paulo com mais de um milhão de votos, indagado por um repórter que o queria encurralar, respondeu por que não havia se candidatado no Ceará: “o cearense não é abestado”. Algo assim. Dou parabéns aos dirigentes desses colégios particulares que nos colocam em panteão diferenciado no cenário dos vestíbulos às escolas mais cobiçadas pela ‘intelligentsia’ dos que se preparam para a vida que chega. Aos poucos, das escolas públicas, que se abeiram ou tentam chegar ao mundo sério e duro do conhecimento, o meu incentivo. Ofereço, através deste artigo, passagens de ida de avião para os reconhecidamente pobres, aqueles cuja família renda familiar só atinja até dois salários mínimos, e tenham conseguido passar, agora neste final de 2015, no ITA, IME ou na USP (medicina). Este é um compromisso que assumo com os colégios públicos, com os aprovados e com os seus pais. Como disse Patativa do Assaré: “Sou brasileiro, filho do Nordeste. Sou cabra da Peste, sou do Ceará”. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/12/2015. - [A AIDS NÃO MORREU - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-aids-nao-morreu-diario-do-nordeste/): Festas e férias. É bom lembrar que, segundo os médicos Caio Rosenthal e Mário Scheffer, 30 pessoas morrem de AIDS e 100 novos casos são registrados no Brasil, a cada dia. O país já foi considerado exemplo para o mundo na prevenção e tratamento do HIV, mas houve relaxamento de todos, pacientes, médicos e dos governos. A transferência do tratamento dos infectados para as unidades básicas de saúde foi errada, afiançam os dois citados médicos. Este artigo revalida e anseia alertar os que continuam a fazer sexo de forma indiscriminada sem preservativos. A “camisinha” não é careta. É defesa para os promíscuos e para quem se aventura fora da parceria fixa. Segundo Rosenthal e Scheffer, o problema é grave: “No ritmo da incompetência, ministro e secretários da Saúde deveriam ser processados a cada novo caso de criança que nasce com HIV, um flagelo perfeitamente eliminável”. Hoje há distribuição gratuita de preservativos e propagandas pagas pelos governos mostram o perigo e os cuidados. Fica o alerta a todos os que possam ajudar nessa cruzada. Em 1º de dezembro passado, aconteceu o Dia de Combate à AIDS, sem a cobertura espontânea da imprensa, ocupada com controvérsias entre os poderes federais e o protagonismo das operações “Lava-Jato” e “Zelotes”. Hipócrates, médico grego, nascido 460 A.C, já dizia: “Para males extremos, extremos remédios, levados ao máximo rigor, são os mais válidos”. A cura pode estar próxima, há vacinas em teste. Todos ainda precisam tomar cuidados. E, se infectados, correr para o médico e tomar os retrovirais. Cuidar-se é viver. João Soares Neto, escritor. CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/12/2015 - [ANGELA MERCKEL - PERSONALIDADE DO ANO 2015 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/angela-merckel-personalidade-do-ano-2015-jornal-o-estado/): “Aprender a dominar é fácil, mas governar é difícil”. Goethe, em Máximas e Reflexões. Possuo amigos e parentes que vivem na Alemanha. Conheço a terra de Goethe desde quando era dividida. Vi os dois lados. Em 09 de novembro de 1989, dia da queda do muro de Berlim, estava lá, em férias, na casa da minha irmã Luísa Helena. Ela, socióloga, mora lá há quase 30 trinta anos. Seu marido Mini é médico e as filhas Júlia e Isabella, minha afilhada, seguiram a carreira do pai. Recebi da Luísa, sexta-feira, 04, parte de texto publicado pela revista New Yorker, complementado por comentários dela: “Em 1991, o fotógrafo Herlinde Koelbl começou uma série chamada ‘Traços do Poder’ onde retratava políticos alemães e observava como mudavam ao longo de uma década. Koelbl conta que homens como o ex-chanceler Gerhard Schöder ou o ex-ministro das relações exteriores Joschka Fischer pareciam cada vez mais tomados pela vaidade, enquanto Angela Merkel, com seus modos desajeitados, não passava nenhuma ideia de vaidade, mas de um poder crescente que vinha de dentro. A vaidade é subjetiva enquanto a ausência desta é objetiva, daí que Merkel é tão eficiente, enquanto outros políticos parecem se perder nas liturgias e rapapés do poder. Essa normalidade é vista em outros países – ainda que exista a vaidade, que é de cada pessoa-como no caso de deputados suecos que moram em uma espécie de república tal qual a de estudantes e lavam e passam a própria roupa. Certa vez, vi uma reportagem de um jornal britânico analisando uma foto do primeiro-ministro David Cameron lavando a louça da cozinha. A reportagem não se espantava com isso, já que Tony Blair fazia o mesmo e Margareth Thatcher cozinhava para o marido. Angela Merkel mora no mesmo apartamento de sempre, e a única mudança que houve em relação ao seu tempo, fora do poder, é a presença de um guarda na porta do prédio. Ela e o marido compram entradas para assistir ópera com o próprio cartão de crédito e entram no teatro junto com todos, sem nenhum esquema especial. Daí partimos para o Brasil, onde governantes possuem jatinhos, helicópteros, ajudantes de ordem e comitivas com batedores de moto que param o trânsito para que eles passem. Pessoas que vivem em palácios, como se fossem alguma corte real. Empregadas, arrumadeiras, garçons, equipes de cozinheiros, serviço de quarto, motoristas, inúmeros seguranças, esquemas especiais para sair ou entrar de algum lugar. Essa é a diferença: a normalidade do poder, a noção que um servidor público é apenas um servidor público, seja um escriturário ou o presidente/primeiro ministro da Nação. Eles continuam sendo homens e mulheres, maridos e esposas, pagadores de impostos, trabalhadores e cidadãos. Cidadania é isso.” Não por coincidência, Angela Merkel acaba de sair na capa da revista “Time” como a governante mais importante do mundo ocidental. Ela foi eleita, ontem, 11 de dezembro de 2015, a “Chancellor of a Free World”. A relevância da escolha faz sentido. Merkel viveu e estudou na antiga Alemanha Oriental. Desde 2005 é a Chanceler alemã e lidera, com naturalidade, energia, discrição e competência. Merkel, além do trabalho que faz como governante do seu país, cuida ainda de questões atuais mais complexas, tais como o “default” da Grécia, os problemas (in) comuns da União Europeia, a proteção aos refugiados islâmicos e, ao mesmo tempo, o combate ao terrorismo. Governar é apenas isso. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/12/2015. - [DIREITO 50 ANOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/direito-50-anos-diario-do-nordeste/): Plenilúnio. Quinta-feira, 16.12.1965. O calor do 350º. Dia do calendário gregoriano não incomodava os que usavam becas. Assentados, com padrinhos e madrinhas, nos bancos de cimento da Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará, conversavam em regozijo. Abria­se a colação de grau dos formados pela Faculdade de Direito. Martins Filho, reitor, e Luiz Cruz de Vasconcelos, diretor da Salamanca local, geriam a cerimônia. Em ordem alfabética, um a um, subia os degraus do anfiteatro, para o recebimento do barrete. Tenho a foto, ao lado do meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, e dos citados reitor e diretor. Nesta semana, após 50 anos daquele fato, os 76 remanescentes do total de 130, reuniram­se para orar pelos que já partiram e, ao mesmo tempo, dar graças por suas duras vidas profissionais. Essa turma gerou magistrados federais e estaduais, em primeiro e segundo grau; procuradores, promotores e defensores públicos; advogados de nomeada, professores e servidores de carreira, políticos com mandatos, intelectuais e até empresários. O elo que nos manteve unidos hoje, não foi o de interesses, porém, o desvelo do colega Stênio Carvalho Lima, a quem reverencio, a nos reunir, em convescotes, por dezenas de anos. Hoje, pode parecer singela esta festa. Forçoso é dizer que estudamos no período da assunção e da renúncia de Jânio, da luta pela posse de Jango, do curto parlamentarismo com Tancredo Neves, do referendo pela volta ao presidencialismo, do abalo de 1964 e concluímos o curso sob a égide de Castelo. Urbi et Orbi. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/12/2015. - ["RENDA DE BILROS" E VALDELICE CARNEIRO GIRÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/renda-de-bilros-e-valdelice-carneiro-girao-jornal-o-estado/): "A história universal é a de uma só pessoa”. Jorge Luís Borges Quando conheci Valdelice Carneiro Girão ela já era professora formada em geografia e história. Morava com mãe e irmãos na Rua D. Sebastião Leme. Eu era adolescente e sempre gostei de conversar com pessoas cultas e mais velhas. Valdelice foi uma das escolhidas. Em decorrência desses encontros, surgiu a ideia de se criar um grupo para congregar jovens e adultos. Surgiu, então, o GIRAFA- Grupo de Instrução e Recreação Atlética de Fátima. Pelo nome, notam-se as palavras instrução (informação e conhecimento), recreação (brincadeiras em épocas de Carnaval, Semana Santa, São João, Natal e férias), atlética (equipes de voleibol). Todos moravam perto, no Bairro de Fátima. Lembro que até editei alguns números do jornal “GIRAFA”, em mimeógrafo, equipamento hoje em desuso em face da tecnologia voraz. Fui escolhido para ser o primeiro presidente do Girafa e levei a missão a sério. Até júri simulado aconteceu. Era uma Semana Santa. Resolvemos fazer julgar Judas Escaríotes. Fui escalado para defendê-lo. Vali-me da Bíblia e invoquei estar escrito que um dos discípulos traria a Jesus. Ora, se Judas era apenas instrumento da vontade divina, como poderia ele se esquivar de tal predestinação (Marcos 14:18)? Depois de muitos debates, com a presença do futuro Juiz de Direito, José Carneiro Girão, Judas foi absolvido. Mesmo assim, foi malhado e queimado, como de praxe. Esta introdução foi o aplique que encontrei para a tessitura pela minha agulha imagética em homenagem à acatada amiga e Mestra Valdelice. Ela era antropóloga e historiadora que dedicou grande parte de sua vida ao Instituto do Ceará, não só como sócia efetiva, mas como secretária geral. Valdelice lançou em 2013 o seu último livro, “Renda de Bilros”, bem cuidado, capa dura, parte da Coleção do Museu Arthur Ramos, editado pelo Instituto do Ceará. Na Introdução, ela diz: “As rendas de bilro do Museu Arthur Ramos, da Universidade Federal do Ceará, estão divididas em duas partes: Coleção de Luísa Ramos e Coleção Rendas do Ceará” …“Nossa experiência se limita, pois ao Ceará”. Na verdade, ela cobriu tudo o que o Brasil produziu. Depreende-se do lido e do transcrito, o zelo da professora Valdelice se faz notar nas 267 páginas do livro, enriquecido por fotos monocromáticas e coloridas de Delfina Rocha e do acervo do Museu Arthur Ramos. A pesquisa dela abrange não apenas o Ceará, mas Alagoas, Bahia, Maranhão, Paraíba, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Rio Grande do Sul. No Ceará, os maiores centros de produção e comércio de rendas ainda resistem em Aquiraz, Fortaleza, Caucaia, Aracati, Beberibe, Guanacés, Quixadá, Limoeiro do Norte, Maranguape, Morada Nova, Mundaú, Pacajus, Redenção, Russas e Várzea Alegre. Em Fortaleza, podem ser encontradas no Mercado Central, no antigo presídio/ Emcetur e no Centro de Artesanato Luiza Távora. Como se sabe, as rendas de bilros surgiram na Europa, na Idade Média. Para o Brasil foram trazidas e ensinadas por mulheres de portugueses aqui aportados no século XVIII. Esse delicado artesanato é festa para os olhos e realça as roupas e adornos femininos. As tramas são copiadas ou inventadas no fantástico mundo criativo de mulheres assentadas em bancos, debruçadas sobre almofadas recheadas de alfinetes, linhas e bilros. Por fim, relembro com saudade aquele tempo no ainda emergente Bairro de Fátima. Reverencio, por justiça, o nome honrado e culto de Valdelice Carneiro Girão. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/12/2015. - [BRASILULA- 13 anos depois - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasilula-13-anos-depois-jornal-o-estado/): No dia da eleição presidencial de 2002, escrevi e publiquei o artigo abaixo. Permito-me pedir a opinião dos leitores sobre o seu conteúdo para o e-mail jsn@planos.com.br. São passados 13 anos. “Segundo as pesquisas, Lula será eleito hoje. Far-se-á a vontade da maioria. Lula, com a persistência de um Miterrand, chega à Presidência. Chega no esplendor da sua maturidade cronológica e no limiar de uma nova ordem mundial em que a recessão e a ameaça de ‘default` são variáveis em jogo. Vem com a força e a esperança de milhões de eleitores e de uma militância de fazer inveja. A sua eleição representará uma guinada para um país que teima em ser primeiro mundo, mas mantém o pé na miséria. Ou melhor, têm os dois pés na lama das favelas, os membros atados com compromissos meio espúrios e a cabeça, só Deus sabe. E há os que não acreditam em Deus. Talvez seja a hora de se parar de pensar tanto em riqueza e ter-se coragem de assumir a pobreza ou abolir, pelo menos, a miséria. Bastaria mais responsabilidade social e menos demagogia, não só dos políticos, mas das elites que não praticam o que discursam e de uma classe média deslumbrada pelo consumo e o mundo das aparências. Lula emerge de uma história que remonta à redemocratização, à insubordinação sindical e se acultura na ligação umbilical com a inteligência universitária que deu ao PT a essência de sua estrutura ideológica, hoje aromatizada. Muitos anos se passaram e foi preciso que o povo brasileiro acumulasse revoltas, salários pífios, sofrimentos, sentimento de insegurança e desamparo para que Lula emergisse da sua base histórica e fiel, para os braços generosos de eleitores ainda não politizados e de uma burguesia meio sem rumo, pouca visão de mundo e sempre com o apetite de adesão à vitória, qualquer que seja o vencedor. Há na trajetória de Lula um pouco da história da pobreza do nordestino imigrante, da força da mulher abandonada – sua mãe – que protege e cria os filhos na periferia das grandes cidades, de um sindicalismo capaz, de um partido operário consistente e da crença de que o bem pode vencer o mal. Apesar disso, Lula não é messiânico, é pessoa centrada, treinada e ajustada a uma realidade mercadológica que exigia uma postura diversa da sua essência fundamental. Lula mostrou-se, para ganhar, como a maioria queria. A essa maioria só se pode parabenizar, pois não se discute vitória, se aceita. Assim é a democracia que, entre outras coisas, possui a capacidade de ver que o outro pode estar certo, apesar de você imaginar estar ele errado. Passada a euforia da vitória, haverá a assunção do Lula verdadeiro e da sua equipe multifacetada que não precisarão mais fazer caras e bocas e sim tentar apresentar respostas urgentes que o Brasil e o mundo esperam de um ainda desconhecido “mix” entre socialismo, neoliberalismo e política de resultados. A governabilidade é uma arte de engenharia política e nela o discurso é desprezado. Por outro lado, a estrutura de poder presidencialista brasileiro, especialmente após a lei de responsabilidade fiscal, neutraliza o voluntarismo e fará emergir, se bom senso houver uma coalizão de forças – espera-se que a custo razoável – que respaldará as ações tão cobradas pelos que ainda acreditam em milagres. Lula não é milagreiro, é apenas um homem do povo que se fez líder capaz e persistente, adotou modos sofisticados, e vence em meio a uma tormenta, precisando mais que nunca da prudência dos que o cercam, da sabedoria dos que o assessoram, de saber transferir o cetro da oposição aos que eram governo, da confiança dos mercados internacionais, da paciência dos que o elegeram e da atenção dos meios de comunicação. Resumindo e citando o cientista político José Murilo de Carvalho: “As dificuldades de Lula serão proporcionais à esperança que criou”. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/11/2015. - [A INDECIFRÁVEL CHINA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-indecifravel-china-jornal-o-estado/): Estive, por duas vezes, na Ásia. Visitei alguns países, entre os quais a China. Entre uma viagem e outra mediou tempo. Por oportuno, lembro que o professor William Gary Vause, fluente em mandarim e vice Dean da Stetson University, casado com a minha irmã Célia, foi então convocado pelo governo dos EEUU para fazer parte do que se convencionou chamar de “diplomacia pingue-pongue”. Célia e Vause passaram dois longos períodos na China como precursores do processo de intercâmbio entre estudantes e professores dos dois países. Estudantes chineses foram cursar mestrado na América. Alguns optaram por não voltar. Muitos voltaram e, certamente, ajudaram a formar essa geração diferente de hoje. Digo diferente, a partir dos postulados da Revolução Cultural de Mao-Tse-Tung que, hoje, parece fazer parte da história ainda não decifrada pelo pouco tempo de distanciamento crítico. Mao está eternizado em grande painel com imensa foto na Praça da Paz Celestial. O resto mudou. O pragmatismo da China parece ser embasado, em parte, pelos conhecimentos adquiridos por diligentes empreendedores e jovens acadêmicos que se espalharam mundo afora em busca de aprender o diferente, o não sabido. Some-se a isso a carga das heranças, dos costumes e das tradições milenares. Desse entrechoque de cultura com o que viram e aprenderam, eclodiram informações, sistemas comerciais, processos industriais e tecnológicos avançados, ao mesmo tempo em que o país retomava o poder suave sobre Hong Kong. Assim, a China possui hoje três dos maiores centros financeiros do mundo: Pequim, Shangai e Hong Kong. Agora, houve o primeiro encontro entre os governantes chineses e os de Taiwan, a dissidência de 1949 que formou outro Estado, menor, mas sempre crescente. Ademais, o governo chinês, aboliu de vez a “política do filho único”, relaxada há tempo. Cada família poderá ter dois filhos e obter direito à educação básica, assistência médica e benefícios, um arremedo de bem-estar social. Sabe-se que muitos chineses amealharam fortunas nos últimos 50 anos. Alguns integram as famosas listas anuais que indicam, para a vaidade de alguns e tristeza de outros, a relação dos bilionários do mundo. Um só exemplo: esta semana, o chinês Liu Yiquian, que já foi taxista e ficou rico investindo em bolsas de valores, comprou o quadro “Nu Chouché”, de Modigliani, por 647 milhões de reais e se dá ao luxo de fundar museus. O que não se sabia é que jovens famílias chinesas de bom nível financeiro resolveram que seus novos filhos nasçam em países onde fizeram cursos, mantêm negócios ou que os atraem pela diversidade cultural. Assim é, por exemplo, que os Estados Unidos viraram porto de entrada de milhares de chinesas grávidas – lembre-se que elas são magras e podem disfarçar bem. Na condição de turistas se quedam até o nascimento de seus filhos, em bons hospitais, e os registram como cidadãos americanos. As leis ianques permitem que essas crianças, aos 21 anos, possam optar pela cidadania americana e obter o “green card” para familiares. Esse mesmo fenômeno ocorre em outros países. Por estas linhas arrevesadas é que ouso dizer que não só os ensinamentos de Confúcio, Lao-Tse e Mao, agora misturados com o pragmatismo das últimas gestões governamentais, somados ao aprendido em Harvard, Yale, Oxford, Cambridge e em outras universidades e centros de treinamentos em negócios, tornam, pelo menos, para mim, ainda difícil entender a indecifrável e portentosa China. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/11/2015. - [CEARÁ, FORTALEZA, FUTEBOL E LÓGICA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ceara-fortaleza-futebol-e-logica-jornal-o-estado/): “Gestão é substituir músculos por pensamentos, folclore e superstição por conhecimento, e força por cooperação”. Peter Drucker Amanhã, sábado, o Fortaleza Esporte Clube joga a sua sorte ou competência na terceira categoria do futebol brasileiro. Não importa o resultado, mas as razões de estar a seis anos, nesse sufoco. Não há lógica em insistir em jogadores rodados, sem viés de sentimento local em detrimento dos jovens das categorias de base. O Castelão estará cheio de torcedores tricolores torcendo por um time onde a maioria dos jogadores é de fora. Ganhando ou perdendo, é preciso mudar essa lógica perversa de só acreditar nos outros. Precisamos, primeiro, acreditar em nós mesmos, em meninos dos subúrbios, em egressos do sub-20. Chega de importações falaciosas. Os dirigentes do futebol cearense, com todo o respeito, pouco se preocupam com o futuro, vivem, cobrados pelas torcidas, apenas o resultado do hoje, sem lógica e falta de perspectiva de médio prazo. O Ceará Sporting, queira Deus, consiga sair do rebaixamento. Não pode reclamar de dinheiro, tampouco da sua torcida. Comete – um degrau acima- quase os mesmos erros do seu rival. É preciso coragem para admitir claudicações e corrigi-las. O Brasil da euforia lutou e conseguiu – sabe Deus como – trazer uma Copa do Mundo de futebol para cá. Estádios novos foram construídos. Outros, desmanchados e refeitos seguindo um caderno de encargos da Fifa, espécie de multinacional dominada por interesses de toda ordem, posta fora da lei por uma investigação heterodoxa dos Estados Unidos. O que lucramos com a Copa? Perdemos na bola. De forma feia e desconcertante. As obras de infraestrutura, Brasil afora, não foram concluídas e o que se viu foi a submissão do país às vontades do francês Jérôme Valcke, secretário geral, e a aceitação de Joseph Blatter, presidente da Fifa, como um quase estadista. Hoje, Valcke e Blatter estão com os dias contados no futebol. Até Michel Platini, o ex-grande jogador gaulês que se profissionalizou como “cartola”, está no rol de indiciados. Sendo o futebol um esporte lógico, pois quem vence, quase sempre, é o melhor (se não houver interferência do árbitro, é claro), é preciso virar a página e fazer diferente. Aqui, no Brasil afora e no mundo, renovando toda a cadeia futebolística. O jornalista Juca Kfouri, sempre cáustico, conta horrores sobre “o mundo imundo do futebol” em artigo publicado na página B4, da Folha de São Paulo, de segunda-feira, 12, deste outubro. De campeão do mundo o Brasil foi se transformando, faz tempo, em mero exportador de jovens jogadores. São milhares espalhados pela Europa, Ásia e até nos Estados Unidos. Essa exportação, em massa, passa agora por fiscalização geral em países como a Espanha e chegou ao Brasil. Voltando ao nosso “pebol cearense”, como diziam os cronistas esportivos do passado, é preciso uma reflexão coletiva, racional e objetiva para mudar o que está posto, pois se certo fosse, o Fortaleza Esporte Clube e o Ceará Sporting não estariam, apesar das receitas, torcidas vibrantes e parceiras, nas incômodas posições em que se encontram. Quem não usa a lógica para ver o passado e o presente, não pode estabelecer diretrizes para o futuro. O futebol, além de paixão, precisa de razão eficaz. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/10/2015. - [NOTÍCIAS BOAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/noticias-boas-diario-do-nordeste/): Amigo reclama das rádios, dos jornais, das televisões, dos blogs e dos sites a denegrir a imagem do Brasil. Ele diz: “estamos sujando a água bebida”. De repente, reflete: “água não é bom exemplo, há a crise hídrica”. E, arremata: “dê notícias boas”. Este rico e pequeno espaço é de opinião. Procurei dicionário simples - para o ensino fundamental- o SM. Opinar é “expressar ou expor uma opinião, um julgamento ou um parecer”. Assim, por ofício, devo expressar opinião no meu escrito. Meras 260 palavras, de modo lógico, sequencial e com fecho. A imprensa traz a obrigação de analisar fatos e comportamentos públicos e privados. A consequência dessa análise, muitas vezes, é incerta, pela essência e pela pesquisa a fazer, sob pena de perda de credibilidade. O volume de informações desencontradas na internet é óbice às verdadeiras e consequentes. São passionais, por ideologia ou conveniência. Outras, levianas pelo descompromisso e a galhofa em seus conteúdos. Busco notícias “boas” e encontro: 1. O avião Boeing 737, o “Sucatão”, da presidência da República – usado até 2013- foi vendido, via internet, por 13.500 reais, preço de carro 1.0, usado; 2. dos pimentões vendidos em SP, 90% contêm agrotóxicos irregulares; 3. descobriram: Marte tem água salgada. É ciência, promoção e tentativa de encontrar vida em outros planetas. Para quê? Já não bastam a pobreza, as guerras, as secas, os refugiados e o sal dos mares sem soluções para a dessalinização? A boa notícia seria cuidar dos 7,3 bilhões dos terráqueos, dos quais 700 milhões vivem esfomeados. A cada dia 15.000 morrem de fome. Vergonha. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/10/2015 - [OS "CONCURSEIROS", A CRISE E AS OPORTUNIDADES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-concurseiros-a-crise-e-as-oportunidades-jornal-o-estado/): “Todo aquele que para esperando que as coisas melhorem, verificará bem cedo que aquele a não parar e colaborar com o tempo, estará tão longe e jamais será alcançado”. Autor ignorado. Recebo e-mail de jovem a se preparar para concursos havia dois anos. Se diz aflito, pois aplicou a reserva da família com o pagamento de mensalidades de cursinho caro frequentado, com atenção e afinco. Formara um grupo de colegas e varava noites estudando, revendo provas de concursos anteriores, vendo os “bizus” surgidos. E agora? O desalento demonstra o reflexo do momento. Momentos passam. Essa crise tão divulgada, tão discutida e não encaminhada para pronta solução, pode causar transtornos a milhares de jovens, Brasil afora, aprestavam-se para a realização de concursos em todos os níveis de governo. Os concursos voltarão, fique certo. Há funcionários públicos a atingir a idade compulsória ou o tempo de aposentadoria. As vagas precisam ser preenchidas e os terceirizados não têm a capacitação exigida para muitos cargos. É questão de tempo e paciência. Entretanto, não se deixe desesperar nos primeiros embates da vida. O Brasil é campeão de crises. Todas, mais dia, menos dia, acabam. As estruturas de gestão vão precisar, agora de pessoas como você. Se estudou e aprendeu para ficar apto a realizar tarefas no serviço público, quando houver novos concursos, será aprovado. Por outro lado, há muitas outras oportunidades além da “vida segura” na estabilidade do emprego público. As empresas privadas sobreviventes -afora aquelas com acesso a crédito fácil de bancos oficiais e contratadas para serviços e obras a órgãos públicos- podem ser um caminho. As empresas privadas não vão poder pagar, inicialmente, os valores do pródigo governo, mas você deve ser ativo, capaz de executar as tarefas a si delegadas e se enquadrar na filosofia própria de cada uma delas. O caminho poderá não ser tão árduo. Dependerá não da sua subserviência ou jeitinho, mas do seu desempenho. Você já ouviu contar histórias de pessoas a montar o próprio negócio? Essa é outra alternativa, mesmo com dinheiro seja curto. Procure saber de suas habilidades, dos seus conhecimentos e, principalmente, leia jornais, revistas, livros, frequente palestras e mude o seu olhar. Descubra oportunidades. Encarar a vida privada não é fácil. Não há férias, os lucros são baixos, a aposentadoria é risível, há impostos a pagar e você precisa tomar decisões rápidas em funções das ondas do mercado, tal como as marés. Haverá muitos impostos a pagar, mesmo se optar pela empresa simples. Já ouviu falar em empreendedorismo? Leia sobre isso. Pesquise o não existente na região onde mora ou nas cidades próximas. Para ser empreendedor é preciso entender as práticas da atividade. Se for familiarizado com a informática, melhor ainda. Há muita ideia nova surgindo. Crie ou venda produtos simples, de baixo preço. Uma recomendação: não imite, tente fazer o novo, descubra algo e veja se a ideia bate com o seu sonho. Sem sonhar e idealizar a vida perde o sentido. Converse com a sua família, troque ideias com amigos, procure alguém mais velho da área escolhida, faça cursos breves, vá a palestras e se debruce sobre a internet. Tenha foco, disciplina e aja. Estabeleça um pequeno projeto e vá analisando ponto por ponto. Visite parques tecnológicos de universidades, desvende as inovações e não esmoreça. As oportunidades existem. Elas dependem de gente com capacidade, habilidade e tenacidade. Há assessorias e materiais de leitura em universidades e afins. Fuja de gente temerosa. Arme-se de vontade e vá em frente. A vida é jogo de um só tempo. E corre rápida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/10/2015 - [MANHÃ FELIZ PARA QUEM NÃO SABE O AMANHÃ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/manha-feliz-para-quem-nao-sabe-o-amanha-jornal-o-estado/): “Se a miséria dos nossos pobres não é causada pelas leis naturais. Mas por nossas instituições, grande é a nossa culpa”. Charles Darwin Nos dias 7 e 8 próximos estaremos realizando o “Manhã Feliz”. Esse projeto ajuda a crianças que se situam na linha de pobreza e em situações de risco, auxiliadas por escolas, asilos, hospitais e instituições. O fazemos por sentimento de pertença, filhos que somos da mesma terra, por termos a convicção de que esta cidade ainda vive uma apartação social e precisa de iniciativas particulares sérias para dar um pouco de conforto, bem-estar e alegria a pessoas que nunca foram a um cinema, também não brincaram em um parque de diversões, sequer sabem do “Dia da Criança” e não foram aquinhoadas com presentes por seus pais ou responsáveis, quando os têm. Imaginar e manter um projeto dessa envergadura requer estratégia especial, desde a escolha das instituições – devidamente identificadas, checadas e credenciadas – até a quantificação exata de crianças a serem distribuídas em quatro salas de cinemas, com direito a pipoca e refrigerante, bem como mantê-las em filas para, em seguida, conhecerem e usarem, livremente, brinquedos mecânicos, eletrônicos e, em especial, o nosso acolhimento. Neste ano de 2015 estimamos em cerca de 2.000 o número de crianças a serem contempladas. Por essa razão, o evento se dará em dois dias. É preciso deixar bem claro que o fazemos por nossa conta e risco, sem nenhuma ajuda pública e sem a utilização de incentivos ou renúncias fiscais. Fazemo-lo por querer, não para bradar aos céus e receber palmas. Sou filho de família de classe média, que teve a ventura de estudar em escolas particulares, mas nos foi ensinado que nunca devemos desperdiçar quaisquer oportunidades de ajudar o próximo. Na nossa casa as roupas iam passando dos mais velhos para os mais novos e esse aprendizado me fez consciente de que devo sempre olhar o mundo além da porta da nossa morada. O “Manhã Feliz”, com palhaços, brincantes e todas as diversões já enumeradas, culmina com a entrega de presentes ou mimos a cada uma das crianças. Vocês não podem imaginar a alegria de cada uma ao receber uma boneca, uma bola de futebol ou um carro. Mas, o que nos move é o carinho de todos os nossos colaboradores envolvidos nesse projeto que requer meses de preparação e logística adequada para evitar atropelos. Conquanto seja uma festa nossa, resolvemos, neste ano, convidar as senhoras Onélia Santana e Camila Bezerra, esposas, respectivamente, do governador Camilo Santana e do prefeito Roberto Cláudio, a presenciar e paraninfar essas manhãs felizes. Os atos são públicos. Não só isso, pedimos-lhes para indicar crianças de abrigos públicos. Não pretendemos benesses, tampouco reconhecimento, mas estamos procurando disseminar essa sinergia e animar outras empresas privadas a abrir sendas, como a que palmilhamos desde 2001. Para as crianças é brincadeira. Para nós é coisa séria. Por fim, gostaria de convidar o leitor a comparecer ao “Manhã Feliz”. Festa singela com a algazarra e a musicalidade natural dos pequenos. Relembro: será nos dias 07(quarta-feira) e 08(quinta-feira) próximas, a partir das 08h00 até o meio-dia. Ia esquecendo: o endereço é o do Shopping Benfica, Avenida Carapinima, 2200. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/10/2015 - [NÓS E O CAOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nos-e-o-caos-diario-do-nordeste/): A herança portuguesa nos fez prolixos. Os de outros sangues, aqui aportados no fim do século 19 e nas primeiras décadas do 20, incorporaram, em parte, a nossa falação. Quase todos gostam de falar muito, especialmente os que não sabem articular e os que não nada têm a dizer. Hoje, neste começo da dita primavera em país quase todo equatorial, estamos sendo bombardeados nas mídias, nas ruas e em nossas casas com a “grande crise brasileira”. Ela nada mais é que a crença de que alguém ou alguns poderiam ou podem resolver os nossos problemas. Na verdade, ninguém se importa com eles, havemos de curá-los com nossas próprias forças. Ninguém de Brasília nos ajudará. A cada dois anos somos chamados a votar. Tudo o que está posto é o produto das nossas escolhas. Se erramos, não podemos transferir a culpa para administrantes havidos como parlapatões, despreparados, embusteiros ou atrapalhados. Nós, os eleitores, os escolhemos e criamos o mito sobre salvadores da pátria. Não os há. A pátria é a soma das nossas invidualidades, dos nossos egoísmos, das nossas omissões, da sempre busca por algo cobiçado e que não nos pertence. É o ter mais a qualquer preço, mesmo sem carecer. Agora, a crise está instalada. Nada há a ser consertado, exceto nós mesmos. Não esperemos uma concertação política, pois a “práxis” nos mostra o contrário. Não há jato suficiente para lavar todas as sujidades expostas e as ainda não afloradas, Brasil afora. Hoje, nos cabe não potencializar o caos auto imposto. Chega de conluios e tramas. Basta de cassandras. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/09/2015 - [A PERPLEXIDADE E AS ESCOLHAS QUE FIZEMOS E FAZEMOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-perplexidade-e-as-escolhas-que-fizemos-e-fazemos-jornal-o-estado/): “Faço parte do mundo e no entanto ele me torna perplexo”. Charles Chaplin. Viver é um ato de resistência. A cada instante somos forçados a tomar decisões. Há uma colisão, a rua fica interditada. Como pedestres, ciclistas, motociclistas, passageiros ou motoristas devemos chegar aos nossos destinos. Assim, por razões alheias ao previsto, decidimos: a) ficar parados; b) encontrar uma rua secundária para continuar o nosso caminho. Se ficarmos parados, nada muda. Só ouviremos as buzinas, a espera interminável pela perícia e pelos guinchos. Viver é conviver com o imprevisto. Ao concluir o ensino médio, somos orientados por pais e professores a fazer escolhas. Eles nos sugerem o que acreditam ser o melhor para o nosso futuro. Mas, e a vida é cheia de mas, nós devemos – e precisamos - com a inexperiência de adolescente, refletir se o indicado é aquilo que realmente queremos. E, cá para nós, é muito difícil fazer escolhas fundamentais em qualquer tempo de nossas breves, médias ou longas vidas. Não temos binóculos para ver o futuro, tampouco sabemos aonde a decisão nos vai levar. Entretanto, se tivermos lido bastante, poderemos seguir, talvez com menos riscos, o caminho novo que se nos abre, a partir das informações e das simulações mentais feitas instintivamente. Depois da escolha, admitindo que fomos persistentes, estudiosos ou nem tanto, nos deparamos com o primeiro fim de linha. Agora, deixei de ser estudante, tenho uma profissão que escolhi e preciso fazer dela o meu meio de vida. E aí você fica só. A solidão é a companhia dos que procuram tomar decisões para continuar e não ficar engarrafados pelas colisões que o destino nos impõe a cada dia. Assim, emergimos como profissional ou colaborador de empresa ou órgão governamental. Meio sem bússola vamos procurando o que fazer, como fazer, quando fazer e por que fazer. Não há no mundo real um GPS a indicar aonde chegar. Tudo é tentativa e erro. Nada que a tecnologia da segunda metade do século passado ou o seu emergente aprimoramento nestes primeiros 15 anos dessa nova centúria que é o 21, possa nos dar certeza. A vida não oferta certezas. Ela sugere opções múltiplas. Temos, com o nosso cabedal de conhecimentos, um samburá para depositar nossas quase vitórias, as muitas desditas e os poucos acertos. O tempo não é aliado de ninguém. Ele simplesmente vai indo. Segundo a segundo, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia. Entre cada novo dia há uma noite em que, bem ou mal, paramos para refletir e dormir. Das reflexões e dos sonos emergem os sonhos. Os sonhos até hoje não foram bem explicados por neurologistas, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas. Nem eles entendem os deles. Tanto é verdade que, de tempos em tempos, “a interpretação dos sonhos”, escrita por Sigmund Freud, sábio, mas conflitado, vai sendo alterada por tantas quantas são as correntes do pensamento científico ou humanístico. Neste momento brasileiro, em que cada dia surge nova e alarmante revelação, não há como não entrar em engarrafamentos mentais, pois fomos nós os que colocamos os falazes que estão aí. Ou somos os que não fomos suficientes coesos para impedir as suas escolhas. Agora, não importa. O passado sempre chega com os seus fantasmas, as suas cobranças e as muitas mídias querem decisões e soluções que custam a chegar. Quando chegam. Enquanto isso, porque não podemos parar nos descobrimos com as manhãs que nos impõem agir com um mínimo de certezas e um balaio de dúvidas. Infelizmente, não possuímos a ventura de, como fez o poeta Fernando Pessoa, criar heterônimos diferentes para dividir e traduzir os nossos múltiplos humores, conflitos e sentimentos. Somos um só e já basta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/09/2015. - [JORNAL "O ESTADO", TAL COMO É. - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/jornal-o-estado-tal-como-e-jornal-o-estado/): “A curiosidade do jornalista tem de ser a mesma do historiador, e a paciência do historiador, a mesma do jornalista”. Alberto Dines, jornalista brasileiro. Ao comprar na banca ou receber em casa o jornal O Estado você tem, por certo, a opção de ler todas as suas páginas, acompanhadas de fotos e chamadas que saem na primeira página, sempre com indicações de arte, política, esportes, mundo e Ceará, para as páginas específicas. Poderá ler na página 2, o editorial que enfatiza o pensamento do jornal sobre fatos ou atos relevantes, artigos de opinião, assinados por colaboradores que, a cada dia, mudam, e a fala do leitor. No expediente figuram os nomes da presidente Wanda Palhano; do superintendente Ricardo Augusto Palhano Xavier; da diretora Institucional, Solange Palhano; da diretora financeira, Soraya de Palhano; da diretora de Marketing, Rebeca Férrer Xavier Guimarães de Andrade; e do editor-geral,Carlos Alberto Alencar. Além disso, há colunas diárias no primeiro caderno que tratam de “Política” com Macário Batista, com sua vida de globe-trotter, “insider” e versatilidade satírica; e o “Diário Político” de Fernando Maia, maduro, informado e centrado. O caderno Economia, com as notícias de Rubens Frota, sempre cauteloso, oferece estatísticas e é conciso. No plano nacional há dois nomes de peso: Carlos Chagas, com “Direto de Brasília” e, na página seguinte, Cláudio Humberto, fala sobre “Poder”. Nesse caderno poderá ainda ver editais de cartórios, anunciando futuros matrimônios. Há gente com vontade de casar. Em página dedicada a Esportes há, além do noticiário sobre o tema, a coluna “De Primeira”, do experiente Lauriberto Braga com ênfase ao futebol local, sem esquecer de tecer comentários nacionais. Sob a forma de tabloide, “Arte e Agenda” abre, na capa, com fotos de espetáculos em cartaz, livros em lançamento, exibe o resumo de novelas, os quadrinhos assinados por Gomes e o horóscopo do dia, para os que acreditam em astrologia. Mas, nem tudo são flores, e aparecem os cartórios mostrando os quase devedores com os títulos para protesto, como determina a lei. Na contra capa, Flávio Torres, do seu jeito peculiar e leve de escrever, constrói “dropes” em que relata fatos da Sociedade, especialmente das pessoas fotografadas por Iratuã Freitas. Os que escrevem no “O Estado” têm opiniões e informações. E, para ter opiniões, precisam ler, confirmar informações e procurar escrever dentro de linguagem entendida por todos os leitores. Todo escrito é antecedido por um título. Esse título pressupõe ser um resumo do conteúdo a ser lido e deve aguçar o interesse a cada parágrafo. O “Estado” possui plataformas na Internet, tais como site e estúdio de televisão para entrevistas. Como jornal impresso, além do que já foi dito, edita vários suplementos e cadernos sobre meio ambiente, negócios, políticas classistas e, às sextas-feiras, dá a oportunidade ao leitor de mergulhar no “Linha Azul”, uma espécie de resumo social, cultural e artístico da semana. O jornal “O Estado” foi fundado em 1936, por José Martins Rodrigues, aliado ao antigo Partido Social Democrático, passou por outras tendências e mãos, até acontecer o controle do jornalista Venelouis Xavier Pereira, em 1963. Com a morte de Venelouis, em 1996, o jornal ficou sob a égide da família Palhano com o comando continente de Ricardo Palhano e de equipe enxuta de profissionais. Esse esboço histórico é apenas para antecipar a comemoração dos 79 anos de “O Estado”, na próxima quinta-feira, 24 deste setembro de 2015. Por essa razão, embora os fatos narrados sejam por muitos conhecidos, é que resolvi contar para os seus leitores como e por quem é feito a cada dia útil da semana. Hoje, por exemplo, este jornal completa 22.601 edições, de forma independente, compacta e criteriosa, com notícias claras, objetivas e corretas, conectado a outras plataformas e mídias sociais. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/09/2015. - [ADMINISTRADORES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/administradores-diario-do-nordeste/): Há 50 anos surgia a profissão de Administrador. O objetivo era suprir lacunas na gestão pública, formar quadros para a iniciativa privada e mudar a burocracia nacional, com toda a herança das ordenações portuguesas que permite o encastelamento de pessoas como detentoras de ricos feudos arquivadores do que deveria ser parte da administração pública, como em países civilizados. O Brasil está loteado com milhares de cargos de confiança em todos os níveis. Nas mais de 5.500 prefeituras, nos 27 estados e no governo federal. Além disso, o fenômeno da terceirização é realidade cruel para os cofres públicos. Quem entra não quer sair. Quem está fora deseja participar. E os Administradores? Apesar do esforço de profissionais de níveis ainda não se conseguiu o espaço que, por exemplo, têm na França. Lá, a “École Nationale d´Administration” é fornecedora de cérebros pensantes e atuantes em todas as esferas de governo. Nesta semana em que se comemora os 50 anos da profissão de Administrador fica a questão: se os administradores públicos fossem profissionais de carreira, concursados, o Brasil ter-se-ia deixado engolfar nesta infindável senda de tantos despautérios? Tenho dúvidas, mas há esperança de que os Administradores possam, por seus talentos e formações, ocupar cargos para os quais foram treinados e qualificados, nas empresas privadas e em órgãos públicos. As entidades de classe devem pugnar para que os governantes e as empresas, por concurso ou por mérito, absorvam milhares de administradores na procura de destino melhor para o Brasil. Agora, de grau rebaixado. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/09/2015. - [HISTÓRIA DA ADMINISTRAÇÃO NO CEARÁ, 50 ANOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/historia-da-administracao-no-ceara-50-anos-jornal-o-estado/): “Não se pode planejar o futuro pelo passado”. Edmund Burke, filósofo. Anteontem, a Assembleia Legislativa do Ceará lembrou os 50 anos da profissão de Administrador e o fez homenageando dirigentes e ex-dirigentes do Conselho Regional de Administração-CRA, da Academia Cearense de Administração-ACAD e da Associação dos Administradores do Estado do Ceará- AADECE. Há, como registro histórico, um grupo de então jovens, pioneiros, que acreditou na incipiente Escola de Administração do Ceará-EAC, o núcleo basilar dessa longa história. A EAC usava como referências a Escola Brasileira de Administração Pública – EBAP, da Fundação Getúlio Vargas, do RJ, e a Escola de Administração de Empresas de SP – EAESP. Havia, claro, a entronização dos princípios de Frederick Taylor e de Henry Ford, dos Estados Unidos, e de Henri Fayol, da França. A partir deles abriam-se leques de informação que, conforme os estofos de cada estudante iam se consolidando e transformando em conhecimento. Muitos fizeram dois vestibulares –o MEC não reconheceu o primeiro – e aguentaram o pão que o diabo amassou. Passaram por três sedes: a da Faculdade de Ciências Econômicas da UFC, no Benfica, de onde foram enxotados como intrusos. A seguir, foi alugada casa na esquina da Avenida Duque de Caxias com a Rua Jaime Benévolo. Imóvel simples, telhas vãs, piso de cimento, mas conseguia abrigar as primeiras turmas e os concursos para novos professores, quase todos do quadro de técnicos em desenvolvimento econômico-TDE, do Banco do Nordeste, então celeiro de talentos. Por fim, a sede da Rua 25 de Março, hoje desativada, com a ida para o Campus do Itaperi, da Universidade Estadual do Ceará-UECE. Segunda-feira, 14, às 19h, na Câmara Municipal de Fortaleza serão homenageados profissionais eleitos, por votação, pela Comissão do Jubileu. Na categoria Efetividade e Dedicação à Profissão: Mauro Benevides, Zamenhof de Oliveira, Manoel Messias de Sousa, Aleuda Fernandes e Nilce Freire. Por Profícua Atuação Profissional: Antônio Cambraia, Beto Studart, José Caminha de Oliveira, Sérgio Aguiar e Tasso Jereissati. Como Personalidades Públicas: Érica Cristino e Iracema Vale. Por Desempenho Acadêmico: Assis Moura Araripe, Sérgio Bezerra, Sarto Castelo, Paulo Tadeu, Vlademir Spinelli, e a UECE, pelo pioneirismo, o Reitor Jackson Coelho. Por Eficaz Ação Organizacional e Empresarial: Honório Pinheiro e João Soares Neto. Os funcionários do CRA serão homenageados nas pessoas de George da Silva e Marta Albuquerque. Haverá duas homenagens post-mortem: José Guilherme Pimenta e Rui de Castro e Silva. Por suas carreiras públicas e privadas, por minha convicção e direito, lembro de: Beni Veras, Paulo Lustosa, Barros Pinho, Josino Lobo, Ivo Martins de Oliveira, Gerard Boris, Sieglinde Acioly, Vitor Hugo Sampaio, Lázaro Farias e Heloisa Barros Leal, entre outros. Não seria justo deixar de citar os nomes dos primeiros diretores Mozart Soriano, Raimundo Girão e Aloisio Cavalcante. Honra e glória aos professores Parsifal Barroso, Paulo Bonavides, Ivan Barroso de Oliveira, João Clímaco, Filgueira Limas e Plácido Castelo, fundadores, entre outros, do Instituto de Administração do Ceará, em 1957, posteriormente, incorporado pelo Governo do Estado do Ceará. Por fim, anoto: parte da turma pioneira realizou viagem de estudos à Europa, com a coragem e a cara, participando de encontros na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, Portugal; na fábrica da Olivetti, em Ivrea, Itália; e na École Nationale d´Administration, em Paris, França. Esta história honra a quem dela tenha participado, no todo ou em parte. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/09/2015. - [PASSEIO PÚBLICO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/passeio-publico-diario-do-nordeste/): Domingo passado, levei irmã – e marido - que vive na Alemanha há décadas, para visitar o Passeio Público. Vêm, todos os anos a Fortaleza. Mostrei as masmorras antigas e falei sobre os mártires. Referi sobre a insurreição “República do Equador”, em 1824. Ali, um campo aberto, foram assassinados, entre outros, o Padre Mororó, o Pessoa Anta e o Cel. Carapinima. A ideia, entretanto, era mostrar o lado “belle époque” de Fortaleza, iniciado com a edificação da praça, em 1864. Expliquei haver níveis sociais e de piso no uso do antigo Passeio Público. A parte de baixo, “a rampa”, foi objeto do poeta Antônio Sales. No jornal “O Pão”, anno 1, n.01, pág. 3, de 10 de julho de 1892, Sales alude: “A Rampa era a Rocha Tarpeia ao pé da Avenida que é o Capitólio da honestidade. Em cima, a avenida alagada de luz e sonoridade de música, deixava-se calcar pelos pésinhos ágeis das virgens cearenses, que iam e vinham numa garrulice de aves novas; embaixo o vício sórdido florescendo na lama ilusória da treva...”. O meu remoto parente Adolfo Caminha, no mesmo “Pão”, número 02, semana seguinte, reclamava: “Para matar o tédio que nos mina e consome a existência, somos obrigados a ir, às quintas-feiras e aos domingos ali no Passeio Público exibir a melhor de nossas fatiotas e o mais hipócrita e imbecil de nossos sorrisos”. À sombra de frondosas árvores, entre rasgos de ventos e frestas de sol, ouvimos jazz por músicos sessentões. Não há mais a “rampa”, nem a “cinza”. Somos passantes a olhar a misericórdia da Santa Casa e o mar atlântico tão verde quanto à esperança brasileira nesta Semana da Pátria. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/09/2015. - [OLIVER SACKS, O LOBO DO BEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/oliver-sacks-o-lobo-do-bem-jornal-o-estado/): “Deve-se viver a vida olhando para a frente, mas só se pode entendê-la olhando para trás”. Kierkegaard Oliver Wolf Sacks me permitiu intimidade ao ler o seu livro biográfico “Sempre em Movimento- Uma Vida” (On the Move: A Life, 2015). Nele, Sacks roteiriza a sua vida, desde a infância. Nasceu na Inglaterra em 1933 e viveu a sua infância entre o colégio interno rigoroso no interior, sofrendo murros de colegas, fugindo dos ataques aéreos alemães sobre Londres, em plena Segunda Guerra. Filho de pais judeus, médicos e irmão de médicos, seguiu o destino da família. Mas resolveu abrir-se com o pai e disse não se interessar por meninas, mas nunca tivera experiência sexual. Ao pai, pediu segredo. Pai tem mulher e com ela conversa tudo. A mãe do jovem Oliver o blasfemou e quase o renegou. Mesmo assim, Sacks cumpriu todas as tarefas a ele cometidas como bom estudante. Primeiro, de química. Depois, enredou-se na medicina, abraçada com ciência e amor devotado aos pacientes. Seus colegas sempre o acharam “diferente”. Enquanto isso pilotava motos, levava quedas e experimentava drogas. Possuía o sentimento de liberdade. Queria viver “em movimento” com novas experiências. Passou um período em um “kibutz”, em Israel, e tempo livre na ilha de Man, situada no meio do mar da Irlanda. Formado em Oxford, foi levado pelo irmão David e pela cunhada Lili, para conhecer uma mulher em Paris. Escolheram uma profissional. Talvez fosse timidez. Apenas conversou e tomou chá com a prostituta legal. Ao sair, o irmão perguntou como tinha sido. “Ótimo”, disse ele, e seguiu a vida como quis e com quem quis. Resolveu, por fim, sair da Inglaterra, ainda vitoriana e preconceituosa. A primeira escala foi o Canadá, país descoberto de ponta a ponta. Tentou ingressar na Força Aérea Canadense, mas seu talento falava mais alto. Gostava de escrever diário e desse tempo surge “Canadá: Pausa, 1960”. Aconselhado por um professor foi parar em universidades dos Estados Unidos (“Se for bom, você sobe. Se for impostor, logo descobrem”). Fez sucesso nos Estados Unidos, onde foi professor e visitante em várias universidades, especializando-se em conhecer o mecanismo do funcionamento normal e anormal do cérebro humano. Primeiro, esteve na Califórnia. A partir de 1965, há exatos 50 anos, passou a viver em Nova Iorque, com clínica no Hospital Beth Abraham e a ensinar na Faculdade de Medicina Albert Einstein sem perder o acento britânico ao falar. Deu aulas, mundo afora. Ao mesmo tempo, praticava halterofilismo. Onde passou deixou o rastro de brilhante médico que tornou-se cientista e, ao mesmo tempo, escritor consagrado pela clareza no dizer. Tornou-se um grande neurocientista e escreveu livros significantes, tais como “Um antropólogo em Marte”, “Enxaqueca”, “Tempo de Despertar“, “Com uma Perna Só”, “O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu”, e, por fim, “Sempre em Movimento”. Em artigo para o jornal “The New York Times”, em abril deste ano, tornou pública sua doença terminal: “Acima de tudo, fui um ser com sentidos, um animal pensante, neste maravilhoso planeta, e isso, em si, foi um enorme privilégio e uma aventura”. Sacks sofria de “prosopagnosia”. Traduzido da linguagem neurológica, seria algo como o problema de reconhecer rostos com perfeição. “Para mim é fundamental a relação que se estabelece entre doença e identidade, e a forma como a pessoa reconstrói seu mundo e sua vida a partir dessa doença”. Assim, Sacks escrevia não só como médico, mas como paciente dessa doença. Acometido de câncer, logo perdeu um olho. Lutou por 11 anos, sempre altaneiro, mas a doença o abateu domingo passado, penúltimo dia de agosto, aos 82 anos. O lobo (wolf) vai continuar uivando através de seus livros. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/09/2015 - [O CENTRO DO MUNDO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-centro-do-mundo-diario-do-nordeste/): Pode parecer cabotino, mas é tempo de dizer bobas palavras. Quando fiz a primeira comunhão, com calças curtas e paletó de casimira azul, camisa branca, laço no braço um flash registrou o fato, fiquei feliz. Aquele enlevo. Depois, quando conclui o curso de humanidades: todos de terno branco, a foto coletiva. Subi os degraus do Theatro José de Alencar para colar grau em administração, acompanhado do meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira. Clarão. Ano seguinte, na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará, recebi o grau em direito, lado a lado com meu pai, acolhido por Antônio Martins Filho, Reitor e Luiz Cruz de Vasconcelos, Diretor da Faculdade de Direito. Todos eles estão rindo, na foto. Eu, nem tanto. Parecia intuir que o mundo não tem centro e eu teria de fazer o meu caminho. Fotos foram registrando eventos. A abertura do primeiro escritório. A formação da primeira empresa, o casamento, o nascimento das filhas, os seus crescimentos, as viagens, os lançamento de livros, as academias, os encontros familiares e o que veio depois. Semana passada, cumpri anos, como dizem os hispânicos. A cada dia descubro estar longe do centro do mundo. Nunca descobri onde fica. Ocupo apenas o meu espaço, fazendo o que posso, procurando aprender o que ainda não sei. E é muito. Neste momento brasileiro, quando desencontros de opiniões, de ideias e de valores são a constante, desejo a volta daquele enlevo do menino da primeira comunhão e o discernir do jovem recém-formado. Vivo cada dia com a obstinação de montanhista, mas sinto o quanto é duro pisar firme em meio íngreme. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/08/2015. - [PODE-SE MEDIR A LIBERDADE HUMANA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pode-se-medir-a-liberdade-humana-jornal-o-estado/): “Sem leituras sérias abdicamos do patrimônio cultural da humanidade, arduamente construído ao longo de milênios.” Jaime Pinsky, historiador Até o dia em que escrevo, neste final de agosto de 2015, não vi significativa menção em periódicos/jornais brasileiros ao trabalho científico “Índice de Liberdade Humana - ILH” (Human Freedom Index),108 páginas, produzido por Ian Vásquez (Diretor do Centro para a Liberdade Global e Prosperidade) do Cato Institute, EEUU, e Tanja Porcnik, do Visio Institut, da Eslovênia. Há participação de organizações da Alemanha - Fundação Friedrich Naumann Stiftung - e do Canadá, através do Fraser Institute. Na introdução ao trabalho (www.cato.org e object.cato.org), que contou com número expressivo de colaboradores, de diversos países, é explicada a razão de ser do estudo: “Porque nós precisamos de liberdade e porque é necessário medi-la”. Conclui-se, por óbvio, que os valores liberais são fundamentais para os autores, mas isso não invalida a repercussão posterior de suas conclusões. O documento reflete, tendo como base o ano de 2012, 76 indicadores sociais, econômicos e de liberdade de expressão, de movimentos e de associação. Na prática, o resultado é um composto da observação em 152 países dos principais itens considerados, levando em conta: o cumprimento da lei, o Estado de Direito, a segurança e a liberdade religiosa. Afere, ainda, os índices macroeconômicos da renda per capita, da regulação de crédito, estabilidade da regulação do trabalho e dos negócios. Na substância, tenta-se medir a média global da liberdade civil e da democracia de cada país enfocado. O trabalho verifica ainda índices de criminalidade, comportamentos frente às relações homoafetivas, número de jornalistas assassinados, respeito ao direito de propriedade, entre outros. Para o estudo, liberdade é “o conceito social que reconhece a dignidade dos indivíduos e a ausência de instrumentos coercitivos”. O Índice de Liberdade Humana (ILH) é mensurado com a atribuição de notas de zero a dez para os 76 indicadores pesquisados. O que me chamou a atenção foi que, entre os 10 primeiros países colocados, abriu-se exceção para incluir Hong Kong que é uma peculiar Região Administrativa Autônoma Especial da China. Os 10 primeiros têm renda per capita média anual acima de 30.000 dólares (R$ 105.000,00). São eles: Hong Kong, Suíça, Finlândia, Dinamarca, Nova Zelândia, Canadá, Austrália, Irlanda (para mim, uma surpresa), Reino Unido e Suécia. Os dois países tidos e havidos como os mais ricos do planeta, Estados Unidos e China, ficaram, respectivamente, em 20º e 132º lugar. A rica Alemanha ficou em 12º. Esta é a diferença dessa pesquisa de cunho qualitativo, notadamente. Os doze países em pior situação possuem renda per capita anual média abaixo de 2.615 dólares (R$ 9.153,00) estão, em sua maioria, na África Subsaariana, Oriente Médio, sul da Ásia e um da América do Sul. Pela ordem decrescente: República do Congo, Arábia Saudita, Chade, Venezuela, Etiópia, Argélia, República Centro Africana, Iémen, Zimbabwé, Myanmar, República Democrática do Congo e Irã (último classificado). Na América Latina a melhor posição é a do Chile, em 18º. O Brasil ficou em 82o. lugar com média de 6,82, abaixo da média geral de 6,96 dos 152 países analisados. Tenho certeza de que poderemos subir dezenas de posições, pois há, mesmo com os desencontros e incertezas atuais, a fé de que após este mergulho em águas turvas, sairemos mais fortes e conscientes em busca de direitos, liberdade e cidadania. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/08/2015. - [AGOSTO E A MORDIDA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/agosto-e-a-mordida-diario-do-nordeste/): Não contem os dias que faltam para o mês de agosto terminar. Até agora, pelo que sei, nada de extraordinário aconteceu. Vida ordinária, comum, com os mesmos atropelos dos demais meses. A diferença são as luas de agosto mais intensas, tais como os leoninos. Os ventos ficam acelerados e fazem ruídos. Apenas ruídos. Nenhum furacão, nada de tempestade. E por falar em ruídos, as empresas de telefonia, dizem muitos, cobram além do tudo, como querem e bloqueiam linhas. Você não pode dizer um oi. Tudo deveria ser explicado, tintim por tintim. Números, segundos e minutos usados em ligações. Milhões de usuários padecem. Não entendem o modo de controle do tempo de suas falas, do uso da internet, do roaming e de outros serviços. Nada é ao vivo, tudo passa por centrais de atendimentos com músicas, respostas automáticas a consumir o tempo, o dinheiro e a paciência. Telefonistas desses centros Brasil afora, interior adentro, respondem perguntas de forma estandardizada, decoradas, impessoais e abusam do gerúndio. Estamos providenciando. Quando? Não sabem. Quero uma solução? O tempo passando e a paciência se esgota. Ouvi contar que um senhor, aposentado, com tanta raiva pela espera sem fim e a gravação repetida, mordeu o seu celular. Engasgou-se. A mulher, aflita, veio em socorro e quase desmaia. Abriu a boca do marido e retirou os pedaços do celular com vidro quebrado. Sangue. Ele ainda mordeu o dedo indicador da consorte. Brigaram. Levado pelo genro, foi parar no dentista. Dois dentes quebrados, corte na língua e o orçamento, claro. Reclamar a quem? Do mês de agosto? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/08/2015. - [O COMPUTADOR, AS NOTÍCIAS, OS FATOS E OS BOATOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-computador-as-noticias-os-fatos-e-os-boatos-jornal-o-estado/): Gostaria de não usar computador, mas sou obrigado, por dever de ofício e por escrever todas as semanas em dois jornais. Gostaria de, como usuário, não receber spams, essa chatice que todos os dias somos obrigados a tentar exterminar. Mera ilusão. Se você bloqueia um remetente, o mesmo spam surge de outras fontes. São os captadores profissionais a se transformar em vendedores de e-mails, fustigando o que escrevemos, o que consultamos no Google para pesquisas de trabalho e para mero deleite. Tudo fica definitivo nas nuvens, não as das bonanças, pois turvadas por desesperança coletiva a se apoderar do país que mudou de humor de forma rápida. Ao mesmo tempo, a crise que não chegaria por aqui faz morada na mente e no bolso de todos. Independente de quem somos, fazemos ou temos. Ver noticiários de televisão –não estou falando dos programas policiais de muitos canais com profundos apelos mórbidos e linguagem nada sutil – tornou-se um misto de sadomasoquismo e de aversão espontânea. A procura do fato -ou boato- a dar índices de audiência não tem limites e tampouco segue a cartilha dos bons propósitos. Os jornais impressos, estes combatentes contra a falácia do mundo virtual, ficam jungidos às circunstâncias e dependem de anunciantes, de projetos especiais, de assinantes e cumprem, da forma possível, um papel relevante para informar e comunicar. Sofrem ainda a concorrência de blogs e sites de notícias, feitos por qualquer um, escrevendo o que lhe der na cabeça, com ou sem pudor, movidos a interesses confessáveis ou não. “La nave vá”. Não vou repetir o que o escritor Umberto Eco tem dito, mas ele está coberto de razão e a sua indignação faz sentido. Em um mesmo noticiário, seja da Europa ou das Américas, da Ásia ou do Oriente Médio, há uma mistura de assuntos que vão do incômodo da família real inglesa com os netos de Diana, da morte de jovens negros por policiais americanos e passa pelos avanços do Estado Islâmico na Síria e adjacências. A partir da Grécia, há crise se espraiando pela Europa fustigada por imigrantes evadidos de suas próprias pátrias. Eclode uma insanidade geral a não se importar com os muitos mortos afogados ou nos porões dos atuais navios negreiros. Sequer há saída transitável para os refugiados sobreviventes em campos vigiados. As filhas do presidente Obama são objeto de fotos de “paparazzi” em quaisquer movimentos que façam, sejam mera saída da “Casa Branca” ou em viagem nas férias neste verão do hemisfério norte. Que culpa tem Nelson Mandela em sua paz eterna ou no mero fim do seu corpo se um neto seu está envolvido em estripulias com uma jovem de 15 anos? Giselle Bündchen é supostamente vista usando uma burca em clínica de cirurgia plástica em Paris e, ao mesmo tempo, é obrigada a dizer se o seu casamento com o atleta Tom Brady está bem ou vai mal. Vão falar que tudo é o preço da fama, da linhagem real, do destaque político, profissional ou social. Alguém sai do espaço cinza anódino e entra na ciranda do disse-me-disse. E olha que não estou falando das costumeiras discussões sobre o direito de cada pessoa escolher o que lhe convém para o bem e para o mal. O Papa Francisco vai em setembro aos Estados Unidos e só abordam pedofilia e a venda de imóveis pela Igreja Católica em 40 dioceses ianques. Bispos afirmam que os seus rebanhos diminuíram e templos se quedam vazios. Vender é alternativa lícita, mas alguns advertem dos problemas não tão recentes com o Banco do Vaticano. Estamos em águas turvas. Os algoritmos a expandir as mentes dos jovens cientistas bilionários do Vale do Silício, na Califórnia, são os mesmos usados por contrabandistas, por vendedores de armamentos, por financiadores de carteis de drogas e por “hackers”. Capazes de tudo. Mesmo assim, não é o dilúvio, tampouco o “Armagedon”. Há gaivotas anunciando novas terras, crianças nascendo e as noites trevosas podem antecipar manhãs radiantes. Como dizia Adolph Gottlieb, pintor abstrato estadunidense do século passado: “meus símbolos favoritos são aqueles que não entendi”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/08/2015 - [BIOGRAFIAS BRASILEIRAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/biografias-brasileiras-diario-do-nordeste/): Participei do 1º. Festival Internacional de Biógrafos, em tenda refrigerada sobre o calçadão da Praia de Iracema, tal como na Feira Literária de Paraty, a Flip. O ágape foi oportuno e repercutiu na grande mídia. Há uma ebulição provocada por questões judiciais, especialmente a de Roberto Carlos, contra Paulo César de Araújo, um dos palestrantes. Cito apenas o bate-papo entre Ruy Castro e Mário Magalhães. Escutei-os com atenção e,no debate, houve perguntas de conteúdo e as de quem queriam aparecer. Ruy Cáustico, ops, Castro, é virulento em conteúdo, mas é moderado nas palavras. Mauro Magalhães, autor de “Marighella, foi um âncora culto. O desenvolto Ruy soltou a língua e espinafrou a “censura” de biografados vivos e a “ganância financeira” de familiares de mortos. Todos sabem que a biografia é um escrito histórico, cronológico ou não, feito na terceira pessoa(ele-a) por alguém, de uma personalidade viva ou morta. A autobiografia é feita na primeira pessoa (eu) narrando ou esclarecendo fatos da própria vida do autor. A biografia autorizada é a que parte do próprio biografado ou de sua família com escritor convidado, após sua morte Bios e grafia, gregos de origem, significam vida escrita. Neste novembro de 2013 a Academia Brasileira de Letras, por unanimidade, através da palavra de Ana Maria Machado, expressou no STF a repulsa ao cerceio à liberdade de expressão pedindo a derrubada dos arts. 20 e 21 do Código Civil que dão vez à censura. Os famosos passam metade da vida querendo aparecer e, de repente, querem o anonimato. Imagina. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/12/2013. - [FUTEBOL E CORAÇÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/futebol-e-coracao-jornal-o-estado/): O futebol não é uma caixa de surpresas. Nada tenho de Nelson Rodrigues, óbvio. A paixão pelo futebol, um dos muitos temas de seus escritos, é uma constante desse intelectual polimorfo. Nelson, pernambucano feito carioca, soube dizer tudo, de forma clarificada. Falou de traves, chuteiras, jogadores, técnico, gramado, cartolas e torcedores. Hoje, ao meu olhar, dois nomes despontam no Brasil na boa escrita/crônica esportiva - sem falar nos da terra de Alencar, por pudor e amizade. Refiro-me a Tostão e Xico Sá. Tostão, o grande atleta mineiro da seleção brasileira, ao tempo em que os craques ainda não eram “commodities” (mercadorias) de exportação. Médico, após ser jogador, tornou-se articulista profundo da arte e das mazelas do futebol. Xico Sá, jornalista cearense que torce pelos times pernambucanos e quase nada fala dos nossos sofríveis do futebol local. Desculpo, ele foi jovem para a mauriceia. São bons, cada um do seu jeito. O fato é que, mesmo maduro, ainda corre em mim o sangue do menino que viu o Fortaleza sair dos desvãos da área marginal à esquerda da Santa Casa de Misericórdia, onde residia o técnico “Gavião, para a sede adquirida na Rua Júlio César, no Benfica, perto do Estádio Presidente Vargas, por meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, então presidente do “tricolor”. O Fortaleza completou 95 anos de fundado e parece cativo na Terceira Divisão do futebol brasileiro. Vacila quando parece que vai subir. Desclassificou-se, neste 2013, por desamor dos atletas e de técnicos mambembes. Onde já se viu time de raça, na frente do placar, levar um gol nos minutos da prorrogação? Lembro Moésio, Mozart, Sapenha e tantos outros e sei o que eles fariam: discutiriam o tempo – ganhando-o - com o árbitro, cairiam em campo, iriam para frente, chutariam para as arquibancadas, mas não sairiam sem a vitória. Hoje, os clubes locais importam comissões técnicas de segunda que indicam jogadores de suas preferências e esquecem os que vieram da base, das peneiras dos subúrbios, e amam as cores que vestem. Ederson, nascido em Pentecoste, foi da base do Ceará, saiu, e hoje, aos 24 anos, é o artilheiro do campeonato do Brasileiro A, pelo Atlético do Paraná. O Fortaleza, o Ceará e o Icasa parecem estar na contramão do que se deve fazer quando os recursos são escassos para administrar a formação de bons times. Os beneméritos se foram. Os dirigentes atuais precisam conhecer a história do nosso futebol para chegar ao hoje. Devem descobrir e até inventar talentos, mexer com a autoestima dos peladeiros que querem ser um Neymar. Conversem e contratem, sem menosprezo, técnicos da terra (eles fazem milagres, sem falas vencidas, com equipes singelas por aí afora. O Sampaio Correia que o diga), não misturem jovens promissores com jogadores “rodados”, sem vinculação afetiva com o clube e respeito à torcida. Que altivez podem ter jogadores com “empresários” a mudar de camisa todos os anos? Os 55 mil torcedores do Fortaleza que formaram, até hoje, o maior público do novo Castelão, superior até aos dos jogos da seleção brasileira na Copa das Confederações, mereciam um time com mais brio. Quando o jogo findou, o meu coração pulsava descompassado. A pressão arterial chegou aos 18. Era, de novo, menino. E foi ele quem me salvou do infarto. Em tempo: deixei este escrito no aguardo. Esperei que o Ceará e o Icasa chegassem à série A, mas, tais como o Fortaleza, perderam na hora em que não podiam. Escrevo antes da última rodada da “Segundona”. Prefiro estar errado e que um dos dois consiga o milagre de subir. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/11/2013. - [KENNEDY – A HISTÓRIA RECONTADA, 50 ANOS APÓS DALLAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/kennedy-a-historia-recontada-50-anos-apos-dallas-jornal-o-estado/): “A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou o presente irãcom certeza perder o futuro.” JFK Hoje, 22 de novembro, é data forte na história recente da humanidade. Há 50 anos, John Fitzgerald Kennedy- JFK, presidente dos Estados Unidos, morria assassinado na cidade de Dallas, Texas, vítima de um isolado atirador ou de complô, até hoje não bem esclarecido. O menino “Jack”, seu apelido de família, era o segundo filho de Joseph Kennedy, empresário descendente de irlandeses, poderoso e, segundo muitos, sem escrúpulos. Joseph ganhou dinheiro de forma não republicana, como muitos ainda o fazem hoje no Brasil e no mundo. Achega-se a políticos, apoia-os generosamente, e, posteriormente, cobra, com denodo e ágio, o que doou. Joseph Kennedy chegou a ser em uma das contrapartidas aos seus favores, embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra. Quis que o filho JFK chegasse a Presidente. Assim aconteceu, mas as tragédias que se seguiram consumiram quase toda a sua família. Joseph criou os filhos para o sucesso, mas a vida é caprichosa. O seu primeiro filho, também Joseph, morreu prematuramente na Segunda Guerra e coube, a John, educado com rigor e aprumo, com distinção na Harvard University, a honra de ser o primeiro escolhido, embora fosse tímido, mas brilhante. “Jack” também esteve na Segunda Guerra e dela saiu como herói da marinha por ter salvado colegas em um naufrágio. Assim, tempos depois, ingressa na política, elege-se deputado federal, senador e, em 1960, concorre com Richard Nixon à presidência. Sai vitorioso, ao lado da bela e elegante esposa, Jacqueline Bouvier, Jackie, descendente de franceses, que dava “finesse” ao casal. Segundo alguns historiadores, a vitória apertada foi discutível do ponto de vista ético. Eleito, proclamou, na posse, um discurso histórico, feito a muitas mãos. Acercou-se de secretários (ministros, no Brasil) de alto nível e começou a governar. É bom lembrar, de passagem, que o mundo vivia a Guerra Fria, os EEUU brigavam com a URSS pela hegemonia espacial e a entrada dos soldados americanos no Vietnã foi respaldada por JFK. Além disso, Fidel Castro, que derrubara Fulgêncio Batista, o velho ditador de Cuba e amigo da América, assume ser comunista e recebe total apoio russo, inclusive com a entrega de mísseis apontados para os Estados Unidos. Asilados cubanos nos EEUU, especialmente Flórida e de outros estados, em abril de 1961, tentam, com discreto apoio de JFK, uma invasão (Baía dos Porcos) atabalhoada para aniquilar Fidel e são derrotados. JFK fica silente. A tensão aumenta, mas o governo americano fica quieto, apesar de impor embargo econômico total – e ainda vigente – sobre Cuba, a pequena ilha, calo eterno do gigante americano. Quase houve uma guerra nuclear. Por outro lado, JFK e Jacqueline deixaram que se criasse o mito do casal perfeito, ressurgindo a lenda do castelo do Rei Arthur (século VI), conhecido pela peça “Camelot”, baseado no livro de Geoffre de Monmouth. JFK admitia que seu governo fosse uma espécie de Távola Redonda, com muitos Cavaleiros. Assim, a Casa Branca, tornou-se requintada e receptiva, fazendo convites a chefes de Estado, intelectuais, celebridades, escritores, poetas, personalidades e artistas. Acreditem, até a grupo de jovens líderes/estudantes universitários brasileiros - que estava cumprindo estudo na mesma universidade que ele cursara - e do qual eu fazia parte, foi convidado e bem recebido. Conversamos com ele, nos jardins internos, local onde recebia os chefes de Estado. Isto é, entretanto, mero e irrelevante detalhe. O fato é que a reconhecida e proclamada virilidade de JFK foi despertada por muitas beldades, destacando-se Marilyn Monroe que teve a audácia de cantar, de forma adocicada, os parabéns no aniversário do Presidente, em festa palaciana, na presença da primeira dama, a cuidar de dois filhos pequeninos. Marilyn morreria logo depois, sem “causa mortis” esclarecida. Assim, chegamos a novembro 1963. A administração de JFK, louvada pela maioria, sofria oposição dos republicanos e de parte da imprensa. Já em campanha para a reeleição, o casal sorridente e belo, chega ao Estado do Texas. O Texas, fora tomado, narra a História, em batalha no século XIX, do território do México e, regularizado, posteriormente, por um ridículo acordo financeiro entre os dois países. Na bela e trágica manhã/tarde de 22 de novembro de 1963, ensolarado e ameno outono, em carro aberto, desfilava em Dallas, o casal “Camelot”, elegante e radiante, acompanhado pelo governador Connaly e Nelly, sua mulher, era aplaudido pela multidão, cercado por carros e motocicletas com policiais e dois agentes dentro do veículo. JFK foi morto, na Praça Dealy, com tiros certeiros de fuzil, provavelmente por Lee Oswald. Hoje, 50 anos depois, centenas de teses, estudos e biografias – autorizadas e não autorizadas, filmes de ação e documentários, levantam dúvidas sobre o fato, sequer esclarecido pela Comissão Warren, sobrenome do então presidente da Suprema Corte americana, equivalente ao Supremo Tribunal Federal. O relatório foi apenas conveniente e nada profundo. A maioria dos americanos acredita, ainda hoje, em conspiração. Máfia? Cuba? URSS? Texanos? Adversários/ L. Johnson? Faço-me longo, mas não poderia deixar de me repetir, pois já escrevi – e escreverei - sobre JFK. Ele, aos nos receber, risonho e jovial, disse: “Quantos de vocês serão candidatos a presidente do Brasil?”. E a conversa foi, bem além disso, apesar do protocolo. Finalizo: Charlei Bartlett, jornalista americano, ganhador do Prêmio Pulizter, a maior honraria da imprensa, escreveu, ainda em fins de 1963: “Nós tivemos um herói como amigo. A coragem dele era incomum. Tinha ele um senso de humor incrível, uma inteligência penetrante marcada pela curiosidade e, em geral, uma incomparável galhardia. Ele era o que possuíamos de melhor... e, vamos com o passar dos anos recontar a história, com um pouco de assombro”. Foi o que tentei. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/11/2013 - [RICOS DO BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ricos-do-brasil-diario-do-nordeste/): A Infomoney,via Google, divulgou, esta semana, pesquisa do banco UBS e da Wealth X na qual as 50 pessoas mais ricas do Brasil possuem, juntas, 259 bilhões de dólares ou 600 bilhões de reais. Em 2012, possuíam 300 bilhões. Um deles, diz a mídia, na volúpia de ficar mais rico, largos empréstimos do BNDES e outros agentes públicos, está com problemas. Essas pessoas têm, em média, 64 anos, e 90% são homens. 46% delas não possuem nível universitário e os mais ricos comandam bancos e investimentos. Ficaram ricos por esforço: 38%. Os que cresceram, a partir de heranças, perfazem 32%. Os restantes, 30%, apenas herdaram e vivem de suas rendas. Ludwig Börne, escritor alemão, dizia, no século XIX: “a riqueza endurece mais rápido o coração do que a água fervendo endurece um ovo”. Sim e não, digo eu. Há gente rica neste Brasil que usa o tempo e o dinheiro para fazer o bem, com empenho pessoal, misturando-se aos necessitados e agindo de forma discreta. Exemplo? “Estevam Duarte de Assis, 57, que vendeu a rede Bretas(supermercados) por R$ 1,3 bi, doa a maior parte de seus ganhos”. A reportagem é do jornal “Valor”, pag.B5, de 11.11.2013. Segundo o repórter Marcos de Moura e Souza, Assis, casado e sem filhos, mora em Belo Horizonte “num quartinho equipado apenas com um banheiro”. E dirige um Pálio. Ele não parou de ganhar dinheiro, mas “dedica parte de seu tempo à recuperação de rapazes e moças que se afundaram no mundo das drogas, sobretudo o crack”, através de unidades da Fazenda Esperança, liderada pelo frade teutônico Hans Stapel. É bom saber disso. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/11/2013. - [DONA BEATRIZ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dona-beatriz-jornal-o-estado/): “Nenhuma mulher nasce mulher, torna-se”. Simone de Beauvoir (1908-1986), escritora francesa, em “Segundo Sexo”. Estava ausente nos noventa anos de dona Beatriz Rosita Gentil Philomeno Gomes (foto), no 30 de outubro passado. Fui colega de seu filho Pedro Philomeno Gomes Neto, na Faculdade de Direito da UFC. A propósito, Antenor Barros Leal Filho, nosso coevo, dizia para o Pedrinho, em seu humor: “Com uma mãe dessa até eu”. Brincadeiras à parte, este texto é uma forma de dizer um pouco de dona Beatriz, não só a mulher de Francisco Philomeno Gomes, tampouco a mãe extremada de oito filhos que deram certo, sequer a religiosa de fé inquebrantável e nem a elegante que Lúcio Brasileiro louva, desde sempre. A dona Beatriz a que me refiro é a senhora não só das prendas e valores já referidos, mas a grande companheira de viagens com amigas como Consuelo Dias Branco, Iracema Oliveira e Alzira Ximenes, entre outras. Por um desses acasos, estava eu em alguns países em que esse grupo fluía, décadas passadas. Milton Dias, o cronista, amigo querido, agora romancista póstumo por conta dos quereres de Paulo Elpídio de Menezes Neto e Pedro Paulo Montenegro, também fazia parte da turma e alegrava a todos, com suas tiradas espirituosas, fumando em demasia, brindando com vinhos e varando noites até que, um dia, a água da limpeza matutina aspergisse sobre nós. E nos vimos em Madri, em festa genetlíaca aos 22 de agosto e, depois, Londres, em hotel de nível. Ao chegar no grande lobby, dona Beatriz sentou-se ao piano de cauda e fez os circunstantes tomarem tento de sua presença. E exercitou com a mesma desenvoltura com que trocava de idiomas nos diferentes países europeus. Até Roberto Campos, então embaixador brasileiro na Inglaterra, a convocou para um Chá das Cinco. Nos anos 70 passei a trabalhar em Jacarecanga, próximo à sua casa, e, sempre que podia, parava na Fábrica Philomeno, para trocar ideias com o Sr. Chico Philomeno ou comprar algumas redes especiais. Sempre gostei de conversar com pessoas mais velhas e sábias. O sr. Chico era agradável no trato e atinado em sua simplicidade. Tal como ele sempre usei roupas leves no trabalho, mas não o branco que portava, quase sempre, nas calças e “slacks”. Voltando à dona Beatriz: peço desculpas públicas pela não presença. Andava por outros caminhos. Antes de terminar, deixo patente a admiração pela digna matriarca que soube encanecer sem perder o porte, a fé, o amor da família e o respeito notório. Parabéns. Saúde. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/11/2013 - [OS HOMENS AZUIS E O ROSA DAS MULHERES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-homens-azuis-e-o-rosa-das-mulheres-jornal-o-estado/): “A vida é trapaceira/e mata os dias com prazer;/ a morte galopa/ e a sua estrada ressoa.” Biagio Marin, poeta italiano, século XX. Neste mês de novembro os homens do Brasil estão sendo chamados a fazer exames urológicos. Deveriam fazer todos os tipos de exames. Diz-se que o mês precisa se tornar azul, como rosa foi o outubro dedicado, não sei qual a razão, apenas ao câncer de mama feminino. As mulheres, tal como alguns poucos homens, podem ter câncer de mama. Assim, o rosa deveria cobrir todos os tipos de cânceres ou cancro, - como querem os portugueses - que atingem as mulheres, não apenas as mamas, mas todo o seu corpo, especialmente os fatais, como o do colo de útero. Agora, vamos falar dos homens azuis, esses que, por falta de informação, negligência, pobreza extrema ou nível de conhecimento, deixam que seus corpos sejam tomados pelos cancros, não só os de próstata, mas os de pulmão, de reto, intestino e garganta. Entre outros. Não bastam os prédios iluminados de rosa ou azul. O que a saúde pública, em todos os níveis, deveria fazer passa por mais que isso. Não há uma ligação endógena entre o Sistema Unificado de Saúde, o SUS, e a maioria dos seus pacientes que acorrem aos postos de saúde e hospitais. Que vinculação possui um (a) paciente pobre com médico assoberbado com horários difusos, plantões complementadores de parcos salários e o estresse que lhe aflige, compassivo que é? Os médicos, brasileiros e os que estão chegando, não suprem a demanda dos que, por exemplo, constituem os milhões a viver das bolsas oferecidas pelo governo. Essas pessoas deveriam ser obrigadas, para receber as tais bolsas, a fazer exames periódicos e assim evitar os custos futuros de cirurgias que poderiam ser evitadas. Enganam-se, entretanto, os que imaginam que só o “outro” pode ser acometido por doenças graves. Os antigos “males insidiosos”. As doenças são compartilhadas entre pobres e ricos, jovens e maduros, independente de pigmentação externa seja branca, parda ou negra. Os planos de saúde necessitariam, igualmente, obrigar cada beneficiário a se submeter a exames que levassem à prevenção dos 18 tipos de cânceres identificados pelo Instituto Nacional do Câncer. A cada novo ano 500 mil pessoas são acometidas e, se não tratadas devidamente, poderão chegar a óbito. Assim, rosas e azuis, previnam-se, conversem com parentes e amigos, saiam do medo do insondável para examinar o que poderá ser cuidado, se identificado em tempo hábil. O Brasil deve mudar os discursos ufanistas que se repetem a cada dois anos com promessas para todos os problemas. Deve, pelo menos, repensar as razões dos gastos descomunais com a saúde, por gestões inadequadas, falta de atenção primária, prevenção e descaso. A morte deve ser consequência da vida e não fruto do desamparo aos pobres, dentro de velhas ambulâncias vindas do interior para as capitais. Eles sequer sabem dizer o que sentem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/11/2013. - [DEUS E NÓS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/deus-e-nos-diario-do-nordeste/): O Instituto DataFolha realizou, agora, neste 2013, pesquisa com 2.517 pessoas de 154 cidades brasileiras. Alguns resultados podem ser considerados surpreendentes: 69% não concordam com a posse de armas para a defesa pessoal; 68% acham que a sociedade deve aceitar a homossexualidade como fato; 74% disseram que os adolescentes criminosos devem ser punidos como se adultos fossem. Quanto ao uso de drogas, 83% são a favor da sua total proibição. 50% dos entrevistados aquiesce com a adoção da pena de morte. 46% são contra e 4% não sabem. A pergunta subjetiva sobre a crença em Deus obteve o maior percentual (85%). Essas pessoas acreditam que ter fé em um ser superior faz com que ajam de forma melhor no seu comportamento. Qual o sentido? No livro “Purgatório”,145, Dante Alighieri acreditava, no séc. 14, que Deus “seria o amor, que move o sol e as estrelas”. Era o etéreo. Depois, Baudelaire, já no sec. 19, afirmava que “Deus é o único que, para reinar, nem precisa existir”. Hoje, neste tempo de crenças difusas, manifestações, outros se dizendo ateus, é milagre que Deus ainda seja regulador da conduta humana para a maioria dos viventes a se entrechocar em seus lares, nos trabalhos e nas ruas. Se analisarmos qualquer cidade, sem a lupa do preconceito, será lúcido concluir que o bem praticado pela maioria supera o mal muito alardeado por alguns poucos. O bem, tal o prosaico, não dá manchetes, não incrementa audiência e sequer é considerado para a maior parte das pessoas sequiosas por novos escândalos e desastres. Paradoxal? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/11/2013 - [CORPOS CANSADOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/corpos-cansados-jornal-o-estado-2/): Amigo liga e reclama do cansaço. Fala da fadiga em dirigir para chegar ao trabalho. Reclama dos pedintes, dos flanelinhas, dos manifestantes, dos desvios, das motos e do ar condicionado quebrado, o que lhe dá duas opções: baixar o vidro e ficar inseguro ou subir o vidro e torrar a paciência com o calor. Liga o rádio e só ouve desgraça. Desliga. Sugiro que mande consertar o ar condicionado do carro. Ele fala alto: como, se não tenho tempo. Coloca um cd e lembra que já o ouviu tantas vezes que sabe até a sequência das músicas. Uma delas é de Roberto Carlos. Está cheio das notícias com os pré-candidatos às eleições de 2014 e com a polêmica sobre a publicação de biografias não autorizadas do dito Roberto Carlos e das posições do Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Resume para mim o seu pensamento: as pessoas passam mais da metade da vida querendo ser famosos ou conhecidos e, em seguida, rejeitam o assedio, a crítica sobre detalhes de sua vida privada que preferem esquecer ou não tornar público. Uma ligação está na espera e peço desculpas para desligar. Zanga-se comigo. Respondo com o meu resto de resignação: retornarei. Atendo o novo chamado. A vida vai nos mostrando situações comuns às das outras criaturas. Há fatos e situações, mesmo administrados, que permeiam a nossa cota de resiliência. Todos passamos por situações semelhantes. Vivemos acossados por obrigações e somos instados a cumprir até três expedientes diários. Cobram-nos quando, exaustos, deixamos de ir a algum compromisso social ou de classe. Que jeito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/11/2013 - [O PENSADOR SEMA(I)NAL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-pensador-semainal-diario-do-nordeste/): O que é filosofia? Não cabe discutir neste espaço. Platão, Cícero, Aristóteles e Sócrates são pensadores antes da Era Cristã. Depois, vieram outros. Diferentes correntes e seguidores. Há formas de se chegar à filosofia além da academia. Livros à venda. São gratuitos, em bibliotecas públicas. E, para todos os gostos, na Internet, em versões questionáveis. Outro caminho será ler teses de mestrados e doutorados, com bibliografias e citações. Existe, saibam vocês, alternativa. Neste Diário do Nordeste, um pensador, de forma amável nos brinda, todos os sábados, na capa do Caderno 3, com a sua filosofia, em meia página no “The Mino Times”. A partir do nome burlesco, Hermínio Castelo Branco, o Mino, dá lições que não devem ficar despercebidas pelos leitores que apenas “passam os olhos” pelo jornal. Mino formou-se em Direito, escolheu ser ele mesmo, sem anel no dedo. E o que isso diz? Que ele pinta e escreve com habilidade. Escrever simples é difícil. Escrever tal o “Mino – O pensativo”, não é tarefa para qualquer um. As palavras dele, emolduradas com seus desenhos, auxiliam o leitor a refletir. Ele, já disse, é pintor e dos bons. Vou rematar com um texto ‘miniano’ que nos faz pensar: “O que cabe a nós é apenas a clara incerteza do desconhecimento, que se vai traduzindo nas tênues respostas de tudo o que nos é permitido. Minha filosofia se quer saber, é vivenciar a sabedoria da insegurança, ou seja, procurar viver com segurança, segundo a possível coragem, tudo aquilo que é incerto, duvidoso, impreciso e por ainda conhecer”. Que tal? João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/10/2013. - [REVISITAÇÃO EM “ÍCONES DO BENFICA”](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/revisitacao-em-icones-do-benfica/): “A pintura é uma poesia que não se vê e se sente, e a poesia é uma pintura que se sente e não se vê”. Leonardo Da Vinci, artista e cientista, 1452-1519. A Galeria BenficArte, com a experiência de cem mostras e exposições já realizadas, abriu nesta quarta-feira, 23, o concurso “Ícones do Benfica”, idealizado para iniciar comemorações pelos 14 anos do Shopping Benfica. Vá e veja, está bonita. Vale lembrar que a inauguração do Shopping Benfica, em 30 de outubro de 1999, foi plasticamente inovadora. A ampla estrutura metálica, concebida com gosto e aprumo, fugia do lugar comum dos tetos de centros comerciais. Era e é arte. Além disso, grandes painéis de 80 artistas plásticos emolduravam o sonho de se fazer um centro de compras com responsabilidade social, arte e cultura. E assim feito. A música era tocada pela Camerata da Universidade Federal do Ceará e o Reitor Emérito Antônio Martins Filho cortou a fita simbólica. Houve dois prêmios, equivalentes, em dinheiro, a viagens aos Estados Unidos e à Europa. Agora, sonho adolescente em curso, neste fim de outubro e até o dia 15 de novembro a Exposição “Ícones do Benfica” estará aberta, de forma gratuita, à visitação pública no 2º. Piso. Das 10 às 22 horas, nos dias de semana. Aos domingos: das 15 às 20 horas. “Benfica Sobre Tela”, ou “Ícones do Benfica”, conta com 24 pintores inscritos no concurso. O objetivo foi mostrar a todos a arte plástica atual praticada em Fortaleza e realçar os símbolos dessa região que é, sem dúvida, o maior perímetro cultural de Fortaleza. Nela estão enfocados prédios da UFC, detalhe de jogo de futebol entre Fortaleza X Ceará, a feira semanal da Gentilândia, as vilas, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios e figuras ilustres como o compositor Alberto Nepomuceno e o Reitor Antônio Martins Filho. E tem mais. Os artistas inscritos são: Amanda S. de Lima, Antônio Rocha, Audifax Rios, Bárbara M. Lemos, Cantídio Brasil, César Albano, Cezarina do Vale, Dornelles, Ed Rocha, Emília Porto, Expedito Lima, Gilson Pontes, Jarbas Carlos Miranda, Jô Fernandes, Jozefo Lejc, Jota, Levi, Marcelo Justino, Marildo Montenegro, Nonato Araújo, Paulo Fernandes, Ramon Rocha, Ricardo Fernandes e Wellington Alves. As criações de cada um foram livres e obedeceram apenas a um padrão de telas 1,00x0,70m ou 0,70x1,00m, por eles recebidas gratuitamente e, posteriormente, emolduradas pela própria Galeria BenficArte. Essa coleção de arte contemporânea de talentosos e/ou promissores pintores locais fará parte do acervo da Galeria BenficArte. Os três melhores trabalhos serão referendados duplamente, pelo público visitante e por julgadores. Cada visitante, devidamente identificado por seu CPF, terá direito a votar em três obras. A par disso, haverá um corpo de jurados, com notoriedade. A coleção permanecerá aberta, repito, até o dia 15 de novembro próximo. Após, se dará o julgamento. Aos vencedores, os prêmios. Aos demais, o certificado de participação e os agradecimentos. Encerrado o certame, a exposição “Ícones do Benfica” poderá iniciar itinerância gratuita em instituições públicas e privadas, com o objetivo de oferecer a chance de visualização de tintas, pinceis e pensamentos dos artistas, em quadros que captaram, em variadas técnicas e figurações, o encanto, os recantos, as cores, as dores e a essência dessa bela e culta região da cidade de Fortaleza. *João Soares Neto não é crítico de arte. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/10/2013. - [LIVROS E CULTURA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/livros-e-cultura-diario-do-nordeste/): O Brasil compromete-se a gastar mais de um bilhão de reais na compra de livros didáticos para as escolas públicas, ano 2014. O total é dividido entre poucas editoras, mas nem por tal razão a educação vai bem. Alunos do ensino fundamental são quase analfabetos funcionais. Nenhuma universidade brasileira está no ranking das 200 melhores do mundo. A USP, a nossa maior, saiu do 158º posto para a faixa que começa no 226º lugar. O Ministério da Cultura gastou 18 milhões de reais para coordenar e montar área de 700m2 na Feira do Livro de Frankfurt, neste outubro, e levar 65 escritores. Paulo Coelho esnobou e não foi. Trabalha só, pela imagem dele mundo afora. O Brasil era o país convidado. Houve confusão nas falas. O escritor Luiz Ruffato falou das origens do nosso país: “Nascemos sob a égide do genocídio”. Outros convidados, os de sempre, ficaram estupefatos com a dissonância. Houve comentários pelo fato de a cultura(Minc) ter mudado, desde 2010, três vezes de titular. Só o “Stand”, de gesso acartonado, chegou perto de R$ 5 milhões. O fato é que a venda de direitos autorais (Folha, A10, 14,10.13), de todos os brasileiros no exterior, em 2012, foi inferior a R$3 milhões. Com dinheiro gasto a esmo não se conseguirá nunca um Nobel de Literatura. Portugal gastou muitos euros, mas conseguiu premiar José Saramago. Pergunto: será que o modelo de feiras e bienais de Livro do/no Brasil está superado? Seria ele provocado apenas por editoras e organizadores para públicos apáticos? Vale repensar. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/10/2013 - [MENINOS E CRIANÇAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/meninos-e-criancas-jornal-o-estado/): “Quando menino, eu tinha de me calar, à mesa: só as pessoas grandes falavam. Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crianças falarem”. Mário Quintana Agora que o Dia da Criança passou, posso dizer o que penso. No século passado, éramos meninos e meninas. Agora, são crianças. Coisa de gênero? Ou a palavra menino(a) ficou velha? Sou o mais velho de nove irmãos. Escadinha. Primeiro, vieram três meninos. Depois, quatro meninas. Fim de rama, mais dois meninos. Mesa grande na sala de jantar, camas “patente” nos quartos. Dinheiro contado. Uma antiga empregada fixa. Tias solteiras ajudavam a Margarida, a mãe, hoje, aos 94, ainda dando carão em todos. Aos cinco anos, o meu pai, uma tia, eu e outro irmão, tivemos paratifo. As águas, eram de poço instantâneo e só havia, quando havia, fossa-sumidouro. A penicilina nos salvou. Fortaleza quase não tinha rede de abastecimento de água e esgoto. Brincávamos com bilas, arraias, bola, velocípede, baladeiras, carrinhos com rolamentos usados, varas de pescar, triângulo, bonecas de pano e raras de plástico. Aulas de reforço com a tia Julinha. Um caquético piano Pleyel na sala e nenhum virou Jacques Klein. Ao acordar: banho, abacatada ou bananada, café-com-leite, pão com manteiga. Levávamos merenda para os colégios e nada de mesada. Ao mais velho cumpria dar exemplo. Íamos às missas, ao futebol no PV, aos circos, às feiras, rinhas de canário e a cinemas no centro; uma casa de pescador, comprada na não ainda avenida beira mar, servia para as férias. Ou subíamos à Serra de Maranguape para as mordidas dos borrachudos. E aí veio a TV com o seu desmundo. Escapamos. Nenhum se destrambelhou. Defeitos, temos vários. Somos pais-avós, mundo afora. Agora, Dia da Criança já passado, alvitrei: que tal cada um dos leitores, a seu tempo e modo, observar como e porque florescem falsos – ou reais- enigmas e vontades em parte das crianças de hoje em eternas comparações com as outras, independente das suas classes sociais? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/10/2013 - [PARSIFAL BARROSO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/parsifal-barroso-diario-do-nordeste/): Doença na família impediu-me de ir, quarta, dia 09, à Assembleia Legislativa do Ceará para a homenagem ao centenário do Dr. José Parsifal Barroso. Todos os que conhecem a política cearense sabem da sua fulgurante trajetória ascensional de Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador, Governador do Ceará e Ministro da República. O que talvez alguns não saibam é que, além da carreira política, Parsifal Barroso era estudioso nato e inquieto. Nessa condição chegou ao magistério superior na Faculdade de Filosofia e na Escola de Administração do Ceará. Foi ali que tive a oportunidade de ser aluno dele. O fato é que o professor Parsifal era, ao mesmo tempo, um cultor das artes e das letras, herança genética, profundo conhecedor de Filosofia e da História da Política, não a comezinha, mas a das correntes de pensamento, a partir das civilizações greco-romana. Um detalhe relevante é que ele era, ao mesmo tempo, o Governador do Estado, com extenuantes tarefas. A sala de aula não tinha ar-condicionado e o teto de telha vã irradiava o calor de Fortaleza. Chegava, manhã cedo, no carro oficial G-1, um Ford negro e, óculos pretos de grau,terno e gravata, ministrava a aula tal fizesse exposição ou palestra; eloquente, com maestria e elegância. Após a aula, retornava ao Palácio da Luz. Algumas vezes acontecia do único carro do governador – eram outros tempos -ter tarefas a cumprir e, nessas oportunidades, tive o prazer e a alegria de deixá-lo, na minha “fobica” Anglia, em Palácio. A partir daí, ficamos amigos. Parsifal Barroso, honra e glória do Ceará. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/10/2013. - [CONVERSE NA RUA, CASA É SACRÁRIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/converse-na-rua-casa-e-sacrario-jornal-o-estado/): ``Os tempos são três: presente do passado, presente do presente e presente do futuro. Esses três tempos estão na minha alma e não os vejo em outro lugar. O presente do passado é a memória; o presente do presente, a percepção imediata; o presente do futuro, a espera”. Santo Agostinho Os tempos são outros. Sou do século passado. Isso é bom ou mal? Depende. Posso falar dos erros cometidos sem medo. Crédulo, confiei em gente pela aparência. Confiei no fio do bigode e descobri que havia sido raspado. Confiei em pessoas de palavras fáceis, papos firmes e amigos recentes de infância. Não deu certo. Considerei que casais de mãos dadas em público possam demonstrar que o varão é boa gente. Quase nunca o é. Aparências são quase sempre enganosas. Irmãos diferem. Gente que, por qual razão, faz festas em suas casas está, no mínimo, correndo risco. Casa é lugar sagrado, não é “show room”. Só deve entrar quem for achegado. Isso deve começar com os amigos dos filhos. É bom saber quem são eles. Nada de moralismo, apenas precaução, neste mundo em que quase todos são estrelas no Face book. Não viva de aparências. Seja você, tal como se sente confortável, não finja para agradar. Pode até dar festas, se o dinheiro comportar. Entretanto, só convide os que iriam – ou irão – visitá-lo se estivesse com problema ou doente. Não misture amizade com interesses. Quase nunca acaba bem. Informe-se o mais que puder, antes de tomar uma decisão de compadrio. Os que pedem ajuda, passada a dificuldade, esquecem o fato ou desaparecem. Um amigo disse-me algo assim: abriguei duas pessoas mais velhas a precisar de pouso. Expus-me, de graça. Uma das duas agradeceu-me, de leve. A outra fazia de conta que não me via. Pois é. Assim, não se encante fácil, aprenda a ver sinais e diferenças. Seja cuidadoso e não se exponha de graça. Fique na sua. Não queira ser o centro de atenções, fique no cerne da sua razão. Imagine que a razão é uma espécie de parafuso que falta à emoção. Os intuitivos ou os apressados, mais que os racionais, levam bordoadas. Durma com a intuição, acorde com a razão. Lembrete: amanhã será o Dia da Criança. Faça-se criança por um dia. Entranhe-se, converse com os pequenos de forma simples e agradável. Você já foi um deles. Brinque com eles, não há perigo. Pense, faça e sorria. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/10/2013 - [PLANEJAR FORTALEZA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/planejar-fortaleza-diario-do-nordeste/): Ao se falar em Plano Diretor, a ideia é: cabe a urbanistas. Sim e não. Os urbanistas são capitais, mas não há como pensar o futuro sem pessoas acalmadas pela experiência. Falo de geógrafos, engenheiros, advogados, políticos, sociólogos etc. As cidades não são dos prefeitos. Elas pertencem ao povo. Os que as habitam. Elas não podem ser alvitre de ideologias ou interesses. Devem se regular por variáveis complexas que configuram o uso e a ocupação do solo, posturas legais e, claro, ousar para o futuro. Fortaleza foi planejada sem audácia, de forma ortogonal e o último plano diretor era apenas matriz adaptada de outras cidades. Há erros basilares. Agora, fala-se em um “Plano Mestre”, sem a clarificação de propósitos. O que se fizer deve ser pensado, não através de paixões, mas da ciência de que é preciso sair do quadrado e dar aos contribuintes a dignidade que merecem, seja pelo IPTU, ISS ou do ICMS, pois parte vai para o município. Limpar uma cidade não significa retirar placas de empresas estabelecidas. Limpar uma cidade é escoimá-la de vícios estruturais e de empresas sedimentadas que se agregam, quase sempre, às novas administrações. Os vereadores são eleitos para legislar. Cada um conhece parte da cidade e, no conjunto, sabe o serpentário que ela é. Ao Executivo cumpre ficar acima de picuinhas e ter clareza de ideias. Ousar. A av. Rio Branco, no Rio, a Av. Paulista, SP, e os Campos Elíseos, em Paris, são exemplos que, na época, desagradaram aos moradores, mas serviram de pulmões para “planos mestres” voltados para o futuro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/10/2013 - [DEZ NOTAS SOBRE CULTURA, BISBILHOTICE, PAPA FRANCISCO E OUTROS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dez-notas-sobre-cultura-bisbilhotice-papa-francisco-e-outros-jornal-o-estado/): “Assim também é demais! -queixou-se o anãozinho Tanto Fez ao astronominho Tanto Faz”. Horácio Dídimo, O Afinador de Palavras Hoje é quinta. A coluna sai amanhã, sexta. Semana foi corrida. Jornal tem que ser fechado e sei estar atrasado. Vou, então, atacar no varejo. 1. A TV Cultura, de São Paulo, acaba com o programa “É tudo verdade”, do jornalista e documentarista Amir Labaki. Alega falta de verbas. De fato, há muita verba para noticiar mentira. A veracidade nunca incomodou tanto quanto neste 21, o século da bisbilhotice eletrônica . 2. O Papa Francisco, acolitado por Ratzinger, o papa que renunciou para denunciar o caos da gestão do Estado do Vaticano, resolve dizer o que já se sabia, mas a Igreja negava. A cúpula do Vaticano é constituída de vaidosos, acobertadores de delitos dos clérigos e desviadores do dinheiro recebidos de todas as paróquias e dioceses do mundo, coletados nos “ofertórios” e dos dizimistas. E enviam religiosa e obedientemente, para Roma. Esta semana, o jornal italiano La Repubblica, cita Franscisco sobre a cúria romana: “ é a lepra do papado”. “É introspectiva e Vaticanocêntrica”. No que vai dar isso? 3. As cidades brasileiras estão com os bancos em greve. Cartões de créditos, dos bancos, são usados e pagam juros aos ditos. A maioria da população está revoltada contra os transportes públicos, a insegurança das ruas, a precariedade de postos de saúde, de hospitais e o alto preço dos ingressos dos estádios “padrões-Fifa”, frequentado por torcedores de bermudas e torcidas organizadas que matam e morrem. 4.O BNDES, o banco nacional do desenvolvimento econômico e social, está comprometido com quase todos os projetos do Grupo X. Este é o x do problema. Esse mesmo grupo conseguiu eleger, sabe Deus como, o seu líder como o “homem mais rico do mundo”. Agora, há choro e ranger de dentes. Os que pegavam carona nos aviões e helicópteros das empresas X, fingem-se de mortos; 5. A moda agora é escrever em “modernês”. Vejam o que Rafael Souto, auto intitulado de sócio-fundador e CEO da Produtive Carreira e Conexões com o Mundo (modesto, o rapaz), diz: “Na minha trajetória em aconselhamento observo que 70% das pessoas pensam em sua trajetória(repetindo, grifo meu) profissional em múltiplos empregos. Elas estão pouco abertas para entender a “carreira em nuvem”(sic) e a trabalhidade”. Que tal? Vocês entenderam? 6. Marina Silva, que teve 20 milhões de votos na última eleição presidencial, não consegue viabilizar 600 mil assinaturas para fundar o seu ex-futuro-ex Rede-Sustentabilidade. Enquanto isso, outros dois partidos são liberados. Eles têm a força. 7. Acidentes de trânsito com mortos e feridos aumentam todos os dias em cruzamentos tido como fatais. Cidades continuam impedidas de fazer viadutos. E por falar em trânsito, as vendas de veículos aumentaram, neste ano, em torno de 80%. Já superaram as do ano passado e apenas estamos comemorando o Dia de São Francisco, no começo de outubro. 8. A propósito, onze carretas trouxeram de Codó, no Maranhão, 2.500 romeiros para a festa de “São Francisco do Canindé”. Engraçado, como foi que essas 11 carretas passaram por polícias rodoviárias federais e estaduais e federais em três estados? Ao que se sabe, pessoas não devem – e não podem – ser transportadas em carrocerias. É a tal “vida de gado”. 9. A mentira está em alta no mundo da política mundial. Nunca se mentiu tanto para negar ou reafirmar procedimentos e ameaças. A última Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, foi um festival de discursos em que a essência da verdade esteve longe. Nada foi resolvido. 10. Que São Francisco, o protetor dos pobres, o santo do dia, nos ajude a viver neste mundo em que a vaidade e a leviandade parecem ser o “abre-alas” e a “comissão de frente”. Nós, o povo, somos meros passistas figurantes. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/10/2013. - [MEXICO 203 - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mexico-203-diario-do-nordeste/): Estive em território mexicano esta semana. Na bela Embaixada do México, em festa comandada pela embaixadora Beatriz Paredes. Ela foi destacada política, tendo sido deputada federal e senadora. Determinada, chegou a presidir tanto a Câmara dos Deputados, quanto o Congresso Nacional. Foi, igualmente, governadora do Estado de Tlaxcala, embaixadora em Cuba e representou o seu país na ONU e na FAO. Tem livros publicados. A embaixada, iluminada, projeto dos arqs. mexicanos Teodoro González, Francisco Serrano e Abraham Zablinduwsdy foi construída, em planos, com três edifícios. Um para o atendimento e o Espaço Cultural Alfonso Reyes; no centro, a residência oficial; e o terceiro, num pátio colonial, as residências dos funcionários. Contemporânea, concluída em 1976, concreto aparente e piso em argila vermelha - tal o solo de Brasília-, grande pórtico e cabeça Olmeca, às margens do lago Paranoá. Na festa dos 203 anos da Independência, houve hinos, músicas, repicar de sino, queima de fogos e o “Grito de Dolores”: “Viva México”. Era o cimo na presença de representantes das nações acreditadas. O discurso de Beatriz Paredes empolgou, conteúdo e forma, ao proclamar a sua identificação com a cultura e o povo brasileiros. Explicitou metas e o anseio de aproximação com as esferas de governo, universidades, instituições culturais para que as relações sejam crescentes e duradouras entre os dois mais importantes povos das Américas. No alto, o plenilúnio dourava. João Soares Neto, Cônsul Honorário do México no Ceará CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/09/2013 - [MARIA LÚCIA ROCHA DUMMAR - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/maria-lucia-rocha-dummar-jornal-o-estado/): A Lagoa de Messejana, onde, conta a lenda, Iracema, a virgem indígena, amor dorido e mulher de Martins Soares Moreno, o guerreiro branco, era o lugar de descanso das suas míticas viagens desde a Serra Grande. Seu criador, José de Alencar, nascera no Sítio Alagadiço Novo, casa de seu pai José Martiniano de Alencar, não muito longe da lagoa ovalada. Pois foi nessa licença poética que é a lagoa, que D. Maria Lúcia Rocha Dummar criou o seu refúgio, em casa simples, mas senhorial, cercada de árvores que lhe davam sombra e frutos. No fim da década de cinquenta e começo dos sessenta a lagoa, circundando casarões e sítios era, não nas noites de plenilúnio, um breu. As famílias circundantes usavam geradores próprios de energia para alumiá-las. A amizade de meu, pai, Francisco Bezerra de Oliveira, então Secretário de Serviços Urbanos, com a família Dummar era antiga e consolidada. Por justiça, fez-se luz em toda a região e, especialmente, na Granja Castelo, mansão de muitas varandas de grandes mesas de madeiras maciças com toalhas de renda da terra. A frente leste justafluvial, protegida por árvores centenárias, flores silvestres e aves canoras, resplandeceu em cores amareladas com o então fulgor das lâmpadas flúor e incandescentes. Dona Lúcia, a única agradecida, recebeu meu pai e Margarida, minha mãe, e aí foram a Canindé em pagamento de promessas católicas. Desde então, sinto-me amigo dessa mulher que esta semana se foi ao Éden, ao Céu de sua extrema fé, depois de cumprir vida profícua de mãe exemplar, mulher afeita a rezas com oratório, memorial e gruta próprias, amizades firmes, anfitriã com largueza, hospitalidade e benquerença. Seus filhos, Demócrito e João, as filhas Lúcia Maria, Lúcia Helena, Carmen Lúcia e Albaniza, herdaram de D. Lúcia uma canoridade singular. Quando, em missa na noite de quarta, 18 de setembro deste 2013, no velório de D. Lúcia, coube a João Dummar Filho, no seu ofício de filho, cantor e poeta, cantar, à capela, em oração e poetar, para uma nave em silêncio, relembrando fatos e alegrando-se pela longevidade e benemerência de sua mãe, D. Maria Lúcia, filha e mãe de Demócritos, ambos jornalistas e Rocha, mas aos filhos acrescentou-se o Dummar, por João, o pai de todos, precursor da radiofonia cearense e cidadão que deixou história por suas vitórias e morte prematura. O poeta latino Horácio dizia algo como: “E assim, raramente, se encontra alguém que diga ter vivido/ como pessoa feliz e, tendo completado o tempo que lhe foi concedido, deixa a vida satisfeito, como um conviva saciado”. D. Lúcia teve dores – e muitas – mas soube, depois de bem educar os seus filhos, acolher netos e bisnetos, receber amigos, viver e completar os noventa e seis anos que lhe foram dados pelo Criador, de forma humanitária, cordata, comunicativa, participando, como conselheira, das empresas da família, sempre acolhedora e vivaz. Queria ter todos os descendentes sob o luar que argentava a sua lagoa, os amigos reunidos em suas tardes de oração e a mesa sempre farta, desde as manhãs de cada dia. Agora, os que ficaram, terão uma intercessora verdadeira. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/09/2013. - [ACI-50/88 ANOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aci-50-88-anos-diario-do-nordeste/): Fiquei contente ao ser distinguido, terça, 10.09.2013, o “Chevron” de 50 anos como sócio efetivo da ACI-Associação Cearense de Imprensa. Aconteceu na solenidade de posse da grande Adísia Sá, como nova presidente. Nilton Almeida completara o mandato da memorável Ivonete Maia. Adísia tem fôlego para dar eficácia aos 88 anos da entidade. Augúrios. Lembro: em 1963 eu escrevia a coluna diária “Informes Acadêmicos”, no Correio do Ceará. Vejam tópicos daquele setembro Dia 05: 1. “Glória Feita de Sangue” é o próximo lançamento do Cinema de Arte, sábado, 10h, no Diogo. Vale a pena ver o pulso de Stanley Kubrick; 2. “Glória a Jesus, Aleluia”, peça do prata de casa Domingos Gusmão, sobre o problema da posse da terra, no Theatro José de Alencar. Dia 9: 1. Ainda existem vagas no Curso de Arte e Literatura a ser promovido pela Academia Cearense de Letras; 2. “Oito e Meio” e “Mondo Kane” são os maiores sucessos em matéria de cinemas nos Estados Unidos. Ambos são italianos; 3. Raquel de Queiroz poderá ficar permanentemente no Ceará. Da sua fazenda enviará o material da “Última página” de “O Cruzeiro”. 4. Nova tentativa de criação da Universidade do Estado do Ceará será feita por estudantes das escolas isoladas. No Dia 14: Médicos cearenses veem a necessidade de criação de um Sindicato. A ideai está desenvolvida pelos conceituados drs. Luiz Vale, Paulo Machado e Abner Brasil. Como se vê, cultura sempre foi o “leit motif” dessa minha história na imprensa. Cervantes dizia: “a escrita é a língua da alma”. João Soares Neto, jornalista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/09/2013 - [A LATA E A MANIFESTAÇÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-lata-e-a-manifestacao-jornal-o-estado-2/): O Apolinário é um velho conhecido meu. Encontrou-me esta semana. Horário do almoço, sol a pino. Estava suado e transtornado. Puxou-me para um bar no canto da rua e falou de sua preocupação: –Há um barulho esquisito, muito estranho, no meu celular. Perguntou-me o que achava. –Deve ser problema de sinal, depende do local onde você esteja; todos os telefones estão assim, e tentei mudar de assunto. O Apolinário pegou no meu braço e falou: Creio que estou sendo escutado; coisa séria. O chiado é estranho. Todo mundo diz que a Dilma foi gravada. Imagine eu que não tenho ninguém para me defender e orientar. E o seu nervosismo aumentava. E soltou um “ajude-me”. Eu estava apressado, mas o Apolinário não me dava trégua. Ele pedia ajuda e os seus olhos estavam marejando. Respirei fundo, olhei para o seu corpo avantajado, suado, cinturão no último furo, barba por fazer e mãos úmidas. Falei: você está com medo de quê? Fez algo errado? Há alguma coisa que não me tenha me dito? Ele pediu uma cerveja, pois o garçom nos olhava como a dizer: sentam e não vão pedir nada? Tomou um gole, limpou a boca e arrematou: – Sabe aquela passeata, a que teve quebra-quebra e em que umas pessoas foram presas? Sei não, Apolinário, já são tantas manifestações e caminhadas. Ele me diz em voz baixa: – Aquela em que a polícia baixou o pau sem dó, nem piedade e na qual uma pessoa foi atingida na cabeça por uma lata de leite em pó? E emendou-Fui eu que joguei a lata. Estava no meu escritório, aporrinhei-me e mandei a lata lá do segundo andar. A desgraçada caiu na cabeça de um policial grandão que acabara de tirar o boné para limpar a testa. Tenho acompanhado o caso. De longe, é claro, mas não sei o estado dele. Não deu nada no jornal e agora esse chiado no meu telefone. Estou sem dormir, e nem falei para a minha mulher,sabe como é, ela anda com raiva de mim faz tempo. Você não podia dar um jeito para descobrir? Fiz-lhe mais uma pergunta: – A lata estava cheia, lacrada? Ele abriu um sorriso meio maroto e gritou: não!, estou salvo, o leite voou e a lata seca não deve ter feito nenhum estrago. Sem paciência, perguntei: posso ir embora? Ele disse, distraído: pode ir, boa tarde, e concluiu: –Garçom, traga mais uma gelada. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/09/2013. - [CONFERÊNCIAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/conferencias-diario-do-nordeste/): A Academia Cearense de Letras promove agora um ciclo de conferências aberto ao público. Começou, dia 3, com Fernanda Quinderé falando sobre "Vinícius, Cheio de Graças". Fernanda conviveu com Vinícius no Rio. Não há pré-requisito para participar do ciclo "Literatura e outras Artes". Basta querer e passar na Rua do Rosário, 01, entrar e fazer a sua inscrição. Se desejar informações ligue 3253-4275 ou acletras@accvia.com.br. A intenção é ir dando a doutos e estudantes de escolas públicas e particulares a ideia de que é possível aprender, rever ou aprimorar conhecimentos de literatura e arte. As palestras serão as terças, às 17 horas, na ACL, lado da Igreja do Rosário. A da próxima terça, 10, "Teatro e Magia: uma abertura para o estudo das máscaras brincantes no nordeste" traz o teatrólogo Oswald Barroso. Achegue-se, mesmo não inscrito. Você sairá mais informado. No dia 17, o escritor com expertise em publicidade, Gilmar de Carvalho, dirá da "A arte de seduzir: literatura e publicidade". No dia 24, Ednilo Soarez, presidente do Instituto do Ceará, falará sobre "A herança grega nas artes plásticas". No 8, já de outubro, Fernanda Coutinho dissertará sobre "Henri Matisse e as suas narrativas em cor". No dia 15,"O bestiário e o relicário de Ariano Suassuna" ficará com Maria Inês Cardoso. "Clã: revista de literatura e outras artes", no 22, contará com o saber de Vera Lúcia Albuquerque. O ciclo se encerra, em 29.10, com a sua ´anima e cuore´, Angela Gutiérrez, com "O Poeta Antonio Bandeira". Vale a pena. Aproveite. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/09/2013 - [O SETE DE SETEMBRO MUDOU? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-sete-de-setembro-mudou-jornal-o-estado/): Amanhã será o dia da Independência do Brasil. Cairá em um sábado, para tristeza de alguns. Pouca farra, menos acidentes. Os hospitais respiram. Há uma expectativa de manifestações e o governo procura reforçar o contingente de policiais em cidades e, especialmente em Brasília. Ministros são convocados a comparecer. Dilma Rousseff chega de Stalingrado, que voltou a ser São Petersburgo, cansada com o fuso horário de sete horas de diferença, apoquentada com a economia que não decola. Quiçá tenha conversado, em pleno voo, com Guido Mantega. Ele, italiano naturalizado brasileiro, tenta ser tão longevo na Fazenda quanto o Delfim Netto. Este, brasileiro, também descendente de itálicos. O país ferve em face de um calendário eleitoral que não dá trégua. Há eleições de dois em dois anos e o custo financeiro/social disso tudo não é considerado, apenas computado. Há partidos em profusão. Outros procuram registros até outubro, o prazo limite. O país parece cansado da política e dos políticos. Voto aberto ou fechado para cassar ou livrar? O povo ignora. Você sabe o que é Independência? Recorro ao dicionário do Aurélio: “Estado ou condição de quem ou do que é independente, de quem ou do que tem liberdade ou autonomia”. Será que o Brasil tem, neste 2013, liberdade e autonomia? Pense e responda. Vivemos, neste século 21, uma situação peculiar no mundo com a formação de blocos econômicos para resguardo de interesses. Sob o chapéu ou não da ONU- Organização das Nações Unidas, que tem bela sede em Nova Iorque, pertinho do rio Hudson, cria-se o G-8, que congrega os oito países ditos os mais poderosos do mundo; o G-20, grupo similar com os tais oito e mais doze que procuram crescer para poder conviver e dialogar em um mundo desconfiado, retalhado de interesses, com a crescente discriminação internacional aos muçulmanos que são peculiares, pois diferentes em essência e modos. O Nafta, que reúne os Estados Unidos, o México e o Canadá. Os Brics, Brasil, Rússia, Índia, China e a África do Sul, os que seriam a bola da vez para o clube dos ricos e muito mais. Não tenho conclusões, apenas observo e vejo que nós, os latinos, os que ficamos aqui no hemisfério sul, também procuramos criar organismos como o Mercosul, a Aladi, a Unasul, a Alca e outros que não cabe citar. Neste lado do mundo, segundo os jornalistas, cientistas políticos e sociólogos de plantão, há um socialismo tardio, mais voluntarioso que ideológico, mais apegado ao poder que às bênçãos ou ideários bolivarianos. Vivemos tempos desconfiados, pessoas e países são escutados, criam-se mecanismos de saber o que o outro fala. Não me refiro a comadres de vilas, mas de chefes de nações complexas e maduras que primam pela utopia da segurança nacional e da soberania. Divago, não por falta de astrolábio, prumo ou GPS, mas por ver neste planeta imenso o fato de uma só pessoa, Edward Snowden, causar tanto alvoroço ao revelar, em conta-gotas, fatos que captara neste mundo ainda insondável da espionagem eletrônica de Estado, hackers e empresas transnacionais. Os filmes de 007, com James Bond, farão apenas parte da filmografia e, em breve, serão peças das cinematecas. O mundo real está turvo. A Síria, com Bashar Al-Assad, é o espinho da vez ao ocidente. Aqui nos preocupamos com o “Mais médicos”, explosões de caixas eletrônicos, posições excêntricas do parlamento nacional, futebol e estádios, vaidades manifestas nas linguagens jurídicas em mantos e o mundo financeiro que só vale para os iniciados, os “insiders”, os que manipulam tudo, em ambos os hemisférios. E para não dizer que esqueci: as manifestações. Volto ao Sete de setembro e não deixo de lembrar que o nosso D. Pedro I, o homem do “Independência ou Morte”, às margens do riacho Ypiranga, em São Paulo, empós volveu fagueiro a Portugal, sua pátria mãe e lá, embora fortuitamente, chegou a ser coroado rei, como D. Pedro IV, e a sua estátua reina na Praça do Rossio, na capital lisboeta. Como decifrar o tão óbvio? Foi-se o tempo em que marchava na Avenida Duque de Caxias, como estudante e, depois, aluno do CPOR-Centro de Preparações de Oficiais da Reserva do Exército, quando o suor do corpo no sol a pino nos fazia crer em brasilidade. Como amávamos o Brasil! João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/09/2013 - [O SONHO E A REALIDADE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-sonho-e-a-realidade-diario-do-nordeste/): Julho de 63. 77 jovens universitários brasileiros aprovados, por concurso, entre milhares, chegam a Nova Iorque. Passam uma semana na Columbia University e vão para a Harvard, Mass. Participaríamos ali do curso sobre “Vida e Instituições nos EUA”. O coordenador, Henry Kissinger. Entretanto, não é do curso que interessa falar, e sim de como encontramos o país naqueles tempos. Era o governo Kennedy, com quem estivemos, em visita oficial, na Casa Branca. Viviam-se dias estremecidos. E os que, no grupo, estudavam direito, souberam-no da boca de Bob Kennedy, Ministro da Justiça, em diálogo franco e não breve. De todas as partes negros marchavam a Washington, DC. Vimos alguns deles com famílias em restaurantes de estrada. Entravam, em bloco, no sanitário, com uma só ficha. Pobres. Sofridos. Estavam jogando as suas esperanças no fim da discriminação racial. O que aconteceu a seguir todos sabem, Martin Luther King, em 28 de agosto, faz o notável discurso: “Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e corresponderá em realidade o verdadeiro significado do seu credo...” Era a porta fendida para novos tempos. Mas, logo em 22 de novembro, JFK seria assassinado. A Lei dos Direitos Civis viria com Lyndon Johnson, em 1964. Tal como Lincoln, em 1865, Bob Kennedy e Luther King ainda seriam eliminados por suas lutas, ambos em 1968. Nesta quarta-feira, 28.08.2013, um presidente negro, Barack Obama, falou no Lincoln Memorial, local onde Luther se consagrou diante de 250 mil pessoas. O sonho virou realidade. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/09/2013 - [GANHAR POR ESCREVER - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ganhar-por-escrever-jornal-o-estado/): “Escrever é uma forma de falar sem ser interrompido”. Jules Renard, escritor francês, 1864-1910. Intelectual de nível, como Maria Beatriz Rosário Alcântara; educador e gestor como José Freire Neto; jornalistas como Paulo Tadeu Sampaio e Ricardo Moura; e produtores culturais como Silas Falcão e Joanice Sampaio formavam a mais recente Comissão Julgadora de concursos culturais que promovo. Há 14 anos venho insistindo em realizar concursos culturais. Fazemos chamadas pelas mídias sociais, utilizamos cartazes e publicidade paga. O que pedimos é, no meu entendimento, pouco. Basta que a pessoa escreva sobre um tema ou construa frases com determinado número de palavras. Não paga nada e pode ganhar bons prêmios. Agora, neste agosto findante, realizamos mais um concurso com prêmios valiosos, como computadores, celulares, utensílios domésticos de bom preço, vales de até 800 reais para compras. E o faço por ver, todos os dias, passando por um ambiente fechado, devidamente sinalizado, milhares de pessoas que não cuidam de olhar para os marcos expostos, os letreiros, as artes nas paredes, livros nas estantes e jornais nas mesas. Que razões são essas que levam a maioria das pessoas a não prender sua atenção e seu olhar a fatos interessantes, mensagens, promoções, diversões, exposições, cantores, instalações, poetas, brincantes e animadores culturais? Daí, para torná-las mais atentas, procuro pensar e fazer esses concursos culturais, pela internet e em meio físico, de modo a estimular o uso da visão, como sentido, e o ato de escrever, como prática. Damos um prazo de uma semana para que se inscrevam, pagamos orientadoras para ajudá-las com informações, mas há um retorno que quase nunca chega a um milhar. Já vi pessoas perguntando por um determinado lugar exato defronte a ele. Algumas outras parecem alheias ao seu redor ou, quiçá, receosas em olhar, em descobrir o não comum, a se auto desafiarem a explorar algo original, não o já constante de sua agenda ou prescritas por sua formação profissional, ideologia, crença ou costume. Posso estar errado. Gostaria que as ideias contrárias às ora expressadas tomassem forma e fossem enviadas ao e-mail josileneslima@yahoo.com.br ou remetidas para a rua do Rosário,01, centro, Fortaleza, Ceará. Saber se estamos na rota certa parece ser não só preocupação deste escriba como de muitos, os que não querem enxergar o visível, o diante dos seus próprios olhos. Se o fazem por enfado ou receio, seria bom ter ciência. As mensagens talvez não sejam captadas ou entendidas. É a velha história do meio e da mensagem, a que se referia Marshall McLuhan no terceiro quarto do século passado. É sempre bom lembrar o que dizia o autor Mário Quintana: “Não faças da tua vida um rascunho. Poderás não ter tempo de passá-la a limpo”. Assim, abra os olhos e explore os demais sentidos. A vida cruza não só pela visão, mas pela fragrância das coisas, o tocar em algo reprimido, ouvir o silêncio e a música do barulho, enfim estar desperto, disposto e audaz. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/08/2013. - [O DESERTO E A LUZ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-deserto-e-a-luz-diario-do-nordeste/): A zona não aromatizada, burgo noturno de sem tetos no deserto centro da cidade, ficou iluminada na noite de terça, 20 de agosto. No que restou do velho Palácio da Luz, palco de tantas lutas políticas, a sua donatária, a Academia Cearense de Letras, comemorava 119 anos. Não foram anos pacíficos; houve dissensões, reagrupamentos, consolidação, até chegarmos ao hoje, não tão fácil para quem só tem a oferecer cultura, nada mais que isso. Dizia Goethe que "não se possui o que não se compreende". Fazer letras ou cultura em solo em que poucos dão atenção ao que só pode ser entendido, se bem lido, não é tarefa simples. Ali, homens e mulheres, de misteres definidos, expõem-se em prosas, versos e ensaios para aquietar suas almas, dar vazão ao conhecimento e mostrar as nossas grandezas e iniquidades. Plenilúnio, Sânzio de Azevedo, quarenta anos de Casa, foi o orador oficial e soube, de forma didática e brilhante, desfolhar as razões das homenagens a integrantes da ACL. Uma placa de prata ao ex-presidente e atual presidente de honra, o poeta Artur Eduardo Benevides, bem como o prestígio de receber, juntamente com o professor Pedro Paulo Montenegro, a medalha Thomaz Pompeu. Relembrou os centenários, neste ano, dos escritores F. Alves Andrade, Fran Martins e João Clímaco Bezerra; os dois últimos, meus ex-professores, para honra minha. Com lhaneza, o presidente Augusto Bezerra deu vez e voz à professora da Universidade de São Paulo (USP) Elza Miné para apresentar "Porta de Academia", de Moreira Campos. E a porta cerrou. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/08/2013 - [PONDERAÇÕES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ponderacoes-jornal-o-estado/): “Fiz um pouco de bem; é a minha melhor obra”. Voltaire,esc. Francês, séc XVIII) O filósofo e professor Luiz Felipe Pondé escreveu, na Folha, esta semana, o artigo “Em um mundo melhor”. Ele parece ser, igualmente, apoquentado por parte da direita e pela esquerda do século 21. Entretanto, tem clara capacidade argumentativa. Pondé afirma: “É possível um mundo melhor? Sim e não. Sim, é possível um mundo melhor a começar por remédios, casas, escolas, democracia...Não, não é possível um mundo melhor porque algumas coisas não mudam, como o caráter humano, suas mentiras e vaidades, sua violência, mesmo que travestida de civilidade, nossas inseguranças, nossa miséria física e mental, nossa hipocrisia. Nossas ambivalências sem curas”. A argumentação dele cabe para qualquer pessoa com capacidade e razão para se questionar. Além de protestar contra o mundo que nos detona nos assaltos, no trânsito louco - ou na expressão em voga; a mobilidade urbana -, nas incompreensões sociais e familiares, nos trabalhos que temos, nas relações de amizade que atam e desatam, nos títulos, merecidos ou não, que vaidosamente ostentamos, nas nossas dívidas ou nas contas bancárias. Em determinado trecho de sua análise, Pondé pergunta: “Qual o sentido de ser bom na vida? Há garantias de que o bem compensa? Não, não há, nenhuma”. De qualquer forma, quer se acredite que o homem é bom por natureza e a sociedade o corrompe, como creio que John Locke dizia. A propósito, Locke acreditava que "as novas opiniões são sempre suspeitas e geralmente opostas, por nenhum outro motivo além do fato de ainda não serem comuns. Por outro lado, seria o homem mau? como Hobbes o admitia. A questão é bem mais complexa do que o paralelo ou dicotomia entre o bem e o mal. Ainda creio valer a pena procurar viver para os outros e pelos outros, sem alardes. Não se deve esperar reconhecimento. Este fica para os que têm redes de relacionamentos, as tais “networkings” e sabem fingir o que não são. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/08/2013 - [O NOBEL E O BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-nobel-e-o-brasil-diario-do-nordeste/): O Brasil esteve quase na reta de chegada ao desenvolvimento. Aí, empacou. Estamos com crescimento gradual menor que quase todos os países do hemisfério sul, o nosso lado no planeta. A par disso, estamos jogando bilhões em áreas não produtoras de capacitação e formação de cientistas. Nem vou dizer quais são. Todos sabem. Por outro lado, a nossa vaidade está ferida, desde o século passado. Todos sabem que, anualmente, são escolhidos cientistas, literatos e articuladores da paz pelo complexo júri do Prêmio Nobel, instituído em 1901 por Alfred Nobel, com muito dinheiro e dor na consciência. México, Argentina, Chile e outros países não tão afamados já tiveram ganhadores. Esqueçamos os da Paz, atribuídos subjetivamente. Fiquemos com as ciências e a literatura Não ganhamos nenhum. Semana passada, o escritor e biólogo britânico Richard Dawkins insultou os muçulmanos ao dizer que só o Trinity College, de Cambridge, tinha 32 prêmios Nobel - ou nobéis- contra 10 dos muçulmanos. Pura soberba. Deixa para lá. Afinal, quem será o primeiro brasileiro a ganhar um Nobel de química, literatura, física, medicina ou economia? Não tenho a menor ideia. Gostaria que isso acontecesse logo. Temos o tal complexo de "vira-lata" entranhado. A língua lusitana não é culpada, pois Portugal, com 10% da população do Brasil, ganhou alguns. Não foi só o Saramago. Confiram. Há outros. A propósito, tenho um palpite para o próximo Nobel da Paz. É argentino, mora na Itália, gosta de futebol e nos consola ao dizer que "Deus é brasileiro". Será? João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/08/2013 - [O FIO DA LEITURA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-fio-da-leitura-jornal-o-estado/): “Ler muito é um dos caminhos para a originalidade; uma pessoa é tão mais original e peculiar quanto mais conhecer o que disseram os outros”. Miguel de Unamuno, esc. espanhol, séc 20. Você está lendo este artigo? Que bom. A relação entre quem escreve e a pessoa leitora é fria. O artigo ou crônica precisa ir mostrando, linha a linha, algo que a emocione ou a atraia. Pode ser concordância ou até zanga por achar que estou tomando o seu tempo. Lembre-se, todavia, que entrego um prato feito a você, sem saber qual a sua preferência. Daí apresentar um problema, uma situação ou um caso. Você sabia, por exemplo, que a China está, tal como antigamente, proibindo a criação de cães com mais de 35 cm de altura? A polícia acolhe denúncias e recolhe os animais, com medo de que casos da raiva, a doença, se espalhem como em tempos passados. Em 2012, morreram em Pequim 13 pessoas vítimas de mordidas de cães raivosos. A quem assiste razão, ao governo que diz cuidar da saúde ou aos donos apegados a seus cães? Leio que os torcedores de clubes de futebol local estão querendo fazer manifestações pelas incômodas posições em divisões inferiores do Campeonato Brasileiro. Isso pode ser uma bobagem para você, mas se acontecer, muita gente vai participar e talvez advenham distúrbios. Viu como não é fácil ir puxando a linha imaginária a prender o leitor ao texto? Agora é fim de tarde e daqui a pouco vou atravessar a cidade. Reflito sobre o melhor roteiro. Meu GPS mental indica uma direção, mas desconfio dos engarrafamentos decorrentes da saída simultânea de milhares de pessoas ao mesmo tempo. Por qual razão a batalha diária de todos começa e termina no mesmo horário? Penso que a tal mobilidade urbana melhoraria se existissem horários distintos para cada serviço em várias regiões da cidade ou para atividades compatíveis com a noite, sem entulharmos as vias com tantos veículos de transportes públicos e particulares. Ao chegar à minha casa, já cansado, estaciono, subo, abro a porta, acendo a luz, dou alguns passos até ao banheiro e deixo a água regenerar o meu corpo. Penso na humanidade e fecho o chuveiro. Pego a toalha e o corpo reage ao contato. Se você chegou até aqui, obrigado. Viu a colcha de assuntos criados para entretê-lo. Escrever é fácil? Responda, por favor. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/08/2013. - [MARTE DE IDA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/marte-de-ida-diario-do-nordeste/): Você imagina ser perturbado, cheio de problemas e procura analista? Fique tranquilo. Você é mais do que normal. Você iria para o deserto do Saara só com uma passagem de ida? Se disser não, você é bom da cabeça. Você já ouviu falar no planeta Marte? A viagem para lá será experimental na próxima década, sem garantia de retorno, péssimo serviço de bordo e lá, aviso, não tem sequer pousada. A primeira viagem acontecerá em 2023. O tempo de voo será de sete meses. Não me enganei, serão 5.040 horas dentro de uma nave espacial. Um cientista holandês, Bas Lansdorp, fundou a empresa Mars-One, algo como “Marte sem volta”, e fez contato com a Universidade George Washington, EEUU, para a seleção de voluntários. Segundo Lansdorp: “estabelecer uma colônia permanente em Marte implica em ir sem voltar”. Pois bem, essa notícia é da France Press. 78.000 pessoas já se inscreveram como voluntários. A primeira reunião foi sábado, 03 de agosto, em Washington, D.C., com os 40 primeiros selecionados. A temperatura presumível de Marte é de 63º centígrados, com carência de oxigênio, e os 40 escolhidos estão supercontentes. Eles são americanos e canadenses. Países com adequado padrão de bem-estar social. Então, caros amigos, por que somos inconformados com a falta de mobilidade urbana, preconceituosos com os diferentes, desconfiados dos governos, reclamamos de homicídios e dos filhos nas ruas? Quer mudança, vá para Marte! Lá não há manifestações e tampouco partidos políticos. Topa ir? Feliz Dia dos Pais. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/08/2013. - [BEZOS, O WASHINGTON POST E O FUTURO DOS JORNAIS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bezos-o-washington-post-e-o-futuro-dos-jornais-jornal-o-estado/): Nasceu em 1964 um destruidor de livrarias, Jeff Bezos. Formado em uma das melhores universidades americanas, a Princeton, ele criou a ledora eletrônicos de livros “Kindle” e a livraria/editora virtual “Amazon”. Cunhou a dicotomia, nunca antes imaginada, entre “livros físicos” e “livros virtuais”. Enriqueceu vendendo livros pela Internet. Em decorrência disso, várias livrarias de pequeno, médio e até de grande porte, fecharam. É casado com a escritora MacKenzie Bezos, com quem troca ideias sobre livros que leem. Bezos, aos 49 anos, comprou nesta semana um dos maiores e mais antigos jornais dos Estados Unidos, o centenário Washington Post, por meros 250 milhões de dólares. Lembro que esse jornal foi o causador, em 1972, da posterior renúncia de Richard Nixon no famoso caso “Watergate”, de espionagem telefônica pelo Partido Republicano contra os Democratas, com conhecimento do presidente. Esse jornal chegou a ser cotado em mais de quatro vezes o valor de compra atual. Um consultor financeiro, Allen Weiner, afirmou que a sua compra “foi um ativo subvalorizado”. Jornal de verdade, físico e impresso, possui engrenagem cara e complicada e depende, entre outros, de sede, energia, dinamismo pulsante, linha editorial, parque gráfico, equipe de redatores e correspondentes, anúncios, credibilidade, distribuição eficaz etc. O colunista James Fallows, amigo da família Graham, ex-proprietária do Washington Post, disse – segundo Raul Lores –que jornalismo sério “é quase inviável como negócio, por ser muito caro”. Discordo. O mundo está de ponta cabeça. Talvez agora seja o tempo dos jornais sérios, aqueles que não traem os leitores e não temem o poder. Por outro lado, a “Amazon” faturou mais de 60 bilhões em 2012 e gasta dinheiro com lobistas, profissão regulamentada lá nos Estados Unidos. Há, todavia, um dado importante a favor de Jeff Bezos: ele não doou nenhum dólar na última eleição presidencial americana. Tudo isso pesará na análise que se venha a fazer no futuro das empresas “Post” que ainda incluem na compra uma estação de televisão e uma revista. É esperar para ver. Com certeza virão novidades que poderão até mudar o conceito que hoje se faz de jornal. A imprensa, na visão “gutenberguiana”, dependia de uma “prensa”. Hoje quase tudo é feito de forma eletrônica. Jornalistas e colunistas podem ou não ir às redações, pois enviam suas matérias pela internet, tal como ora o faço. Hoje há muitas mídias e a prensa se transformou em pressa, na instantaneidade da informação. Take care, Mr. Bezos. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/08/2013. - [DICAS DE LEITURA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dicas-de-leitura-diario-do-nordeste/): Amigo pede para indicar jornais e revistas “com viés de cultura e não contaminados pela mídia comprometida”. Se entendi bem, vão dois, um suplemento de jornal e uma revista. O jornal: às sextas-feiras, o “Valor-Econômico” apresenta o caderno “Eu&Fim de Semana”. É contraponto à sua identidade ideológica sócio-econômica e cuida de dar destaques na reportagem de capa, com bons ensaios sobre pessoas e fatos. Em seguida, Amir Labaki fala de cinema em “É tudo Verdade”. O “Eu-FS” contém indicações razoáveis de livros e DVDs. E a entrevista “Na mesa com valor” é, ao meu olhar, o seu ponto alto. Sempre com políticos, artistas, autores e celebridades. Ela acontece em restaurantes, para almoço ou jantar, e desnuda com perguntas, fotos e caricaturas o(a) entrevistado(a), de forma sutil. Ao final, refere o comido/bebido e o quanto foi pago. A revista: assino, há anos, “Continente”, editada mensalmente pela Cia. Editora de Pernambuco. Ela é uma apreciação requintada do mundo cultural, literário e das artes, de Recife para baixo. Possui qualidade gráfica e, apesar de patrocinada pelo governo, não contém viés astuto. Apresenta um naipe de articulistas de bom nível. Não há, que eu saiba, uma revista do Nordeste com edição e distribuição regulares de tal quilate. Está no 13º. ano e não dá sinais de exaustão no conteúdo. Pena não abrigar, sistematicamente, autores de outros estados nordestinos, carentes de espaço para as suas ideias e produções. Fico por aqui. São apenas pontos de vista meus, sem pretensão de certeza. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/08/2013 - [TRÊS FOTOGRÁFOS NORUEGUESES E UM PEDIDO DE DESCULPAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tres-fotografos-noruegueses-e-um-pedido-de-desculpas-jornal-o-estado/): Acabamos de realizar uma excelente exposição fotográfica na Galeria BenficArte. Por um desses imprevistos aborrecidos, não pude estar presente ao coquetel na noite da sua abertura, 04 de julho passado. Peço desculpas públicas ao parente e colega, Marcos Soares de Castro, Cônsul da Noruega, e ao seu Cônsul Geral no Brasil, Jens Olsen. Eles, taças de vinho a mão, esperaram para brindar comigo. Unnskylde, desculpem. Na manhã do dia seguinte, entretanto, passei muito tempo a admirar cada um dos quadros dos “Três Fotógrafos Noruegueses” que fogem ao lugar comum da fotografia. A mostra, gratuita, encerrada no dia 28, foi visitada por centenas de pessoas que assinaram o livro de presenças. Como costumo fazer, deveria escrever algo específico sobre a qualidade e o jeito peculiar de Pern Berntsen, VerenaWinkelmann e Rune Johansen mostrarem aquele país. Como “mea culpa” vou me privar de. O texto a seguir não é meu. É de autoria do crítico de arte e jornalista Lars Elton: “A fotografia sempre é uma versão editada da realidade, e esse é um fator importante a levar em consideração diante destas imagens. Todas foram feitas na Noruega, um país conhecido por seus belos fiordes, pelo sol da meia-noite, pela aurora boreal, por ursos polares e renas. Ao mudarmos o foco ou viajarmos para outros lugares que não sejam os destinos turísticos tradicionais, talvez possamos encontrar o que vemos nas fotografias do trio Berntsen, Johansen e Winkelmann. Pois aqui há paisagens sem qualidades espetaculares, pessoas que talvez sejam um pouco esquisitas, paisagens urbanas sem elementos dramáticos e interiores criados ao longo do tempo, sem qualquer preocupação com os modelos estéticos das revistas de decoração. Mas essas fotos têm algo em comum com a propaganda turística: na medida em que há pessoas nas imagens, elas mostram que os indivíduos que moram na Noruega têm bastante espaço, seus vizinhos moram longe, e a natureza é algo que, em grande parte, se pode apreciar sozinho, sem ser perturbado por outras pessoas. Essa experiência está tão profundamente arraigada na nossa alma que dificilmente podemos pensar em nós mesmos como noruegueses sem a natureza como referência. No projeto “Placed”, de VerenaWinkelmann,realizado entre 2004 e 2008, em diversas pequenas e grandes cidades do sudeste da Noruega, as fachadas das casas compõem parte considerável do material fotográfico. De acordo com ela, as cidades norueguesas são compostas por construções independentes e solitárias num mundo sem fim – assim como as pessoas.A série inclui diversos retratos, mas as imagens não procuram caracterizar as pessoas retratadas. A fotógrafa não quer invadir a esfera privada, ela capta os rostos “na encruzilhada entre a sensibilidade e a autoconsciência”. As fotografias de RuneJohansen também mostram casas isoladas. Como na Noruega,há espaço sobrando, é natural construir sua casa um pouco afastada da do vizinho. Ele retrata pessoas que moram em sítios isolados, mostrando os ambientes que essas pessoas construíram, as casas que ergueram e a paisagem que elas moldaram. Johansen nos proporciona um olhar privilegiado sobre o vizinho. As fotografias das paisagens de Eggedalde Per Berntsen não contêm nenhum elemento dramático. São os detalhes e as amplas vistas que caracterizam a narrativa do fotógrafo. Mas é desses retratos cotidianos de uma paisagem insignificante que surge uma nova experiência. As imagens geram o reconhecimento das qualidades do ordinário, do potencial estético que reside naquilo que normalmente deixamos passar despercebido. Um conhecido teórico da arquitetura, o norueguês Christian Norberg-Schulz (1926-2000), escreveu sobre o conceito genius loci, que pode ser traduzido simplesmente como ‘a alma do lugar’. Uma interpretação dessa ideia é que a paisagem onde o indivíduo cresce forma seu caráter. Nesse contexto, os três artistas apontam para uma compreensão da Noruega e dos noruegueses” . “Mea Culpa” em norueguês é Min Feil. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/08/2013 - [A MULTINACIONAL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-multinacional-diario-do-nordeste/): Ele, solteiro, 78 anos, um só pulmão, fim da carreira. De repente, é escolhido chefe supremo da multinacional fundada há dois milênios. Ela, já casou e batizou em todo o mundo, fez cruzadas, mandava em reis, príncipes e vassalos. Tem dogmas e uma estrutura pesada. O prestígio diminuiu nos últimos tempos. Vive da fé, da esperança e da caridade. Seu “core business” é a transcendência. Anuncia, sem provas, um espaço celeste, após a morte. Ele agora reage a burocracia complexa acusada de corrupção, pedofilia, pompa e apegada ao manejo continuado do sistema. A sede é uma cidade-estado rica, vigiada por guarda anacrônica, vizinha a uma capital dissoluta, em política e prostituição. Esse chefe está agora no Brasil e, para a sua vinda, foram gastos 350 milhões de reais: 1. Um grande cenário, com palco central - talvez o maior do mundo em aparato tecnológico “hi-tech”, som e imagem. 2. Hospedarias, igrejas, palácios e casas foram adaptados; 3. Fizeram terraplenagens, pavimentações, iluminações e aparatos em seu trajeto; 4. Milhares de seguranças estão tontos para coibir problemas; 5. Jovens do mundo apenas querem vê-lo, tocá-lo e ouvi-lo. Ele já se expôs, pois acredita na bondade humana e espera contribuir para a juventude ser direcionada ao bem comum. Fui vê-lo em março. Manhã de domingo, ramos para todos, 200 mil pessoas. Não houve transtorno. Tal como aqui, transgrediu, desceu ao chão e afagou velhos, doentes e crianças. Telões o reproduziam. Neste domingo, fala de desapego, fé e perspectiva e já vai indo. Deixa marcas e exemplos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/07/2013. - [MAIS MEIOS, MENOS MÉDICOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mais-meios-menos-medicos-jornal-o-estado/): Recebi de uma jovem médica, filha de amigos, um desabafo. Transcrevo-o por ver em seu conteúdo o olhar e sentimento dos jovens formados em medicina. De repente, foram considerados “culpados” pelo caos da Saúde Pública. Ela usa uma expressão: “mais meios e não mais médicos”. Leiam: “Só quem vivencia a realidade do sistema é quem sabe. O povo precisa é de atenção básica, de "mais meios” e não "mais médicos”. Também tive minha experiência na atenção básica. Há dois anos trabalhava numa cidade satélite de Fortaleza, a 31 km da minha casa. Sempre recebi o salário em dia e tinha transporte do centro da cidade até o posto. Não tinha 13o., nem carteira assinada, mas tirava uma semana de folga no fim do ano e um mês de férias não remuneradas. A falta de medicações básicas não era um problema constante e havia suporte do cardiologista e obstetra por meio de contratransferência. Foi lá que recebi meu primeiro presente de paciente (um saco de mangas), conheci muita gente humilde e decente, fiz meu primeiro atestado de óbito e a primeira denúncia de violência sexual infantil que foi investigada. Aprendi muito com aquela população, desde o manejo de doenças crônicas até a convivência com pessoas em diversos tipos de sofrimento. Entretanto, a demanda era enorme: havia duas vezes mais famílias que o preconizado pelo Ministério da Saúde para abrangência de uma unidade do PSF. O resultado era muita gente desassistida e fila a partir das 3 da manhã para conseguir "ficha" para um serviço que deveria ser de demanda livre. Foi lá também que sofri a primeira (e única até hoje) agressão física de um paciente. Havia um projeto há mais de cinco anos de divisão da área e construção de mais um posto, mas sem resposta da prefeitura. As agressões verbais recebidas eram diárias, a sensação de impotência frequente, e as reclamações na Secretaria de Saúde em vão. Após seis meses, solicitei transferência para uma unidade com número de famílias adequado. Lá tinha tempo de fazer registros em prontuário, orientar o uso correto de medicações e conhecer um pouco da história de vida daquelas pessoas. Fiz pré natal e acompanhei os bebês após o parto, compensei todos os hipertensos e diabéticos que foi possível, realizava visitas domiciliares aos acamados com regularidade. Mas o meu trabalho tinha um limite... Muitos pacientes retornavam com as mesmas queixas porque não conseguiam consultas com especialistas, acompanhamento com outros profissionais (fisioterapeuta, psicólogo...) ou realização de exames como TSH e urino cultura. Outros não melhoravam por falta de suporte social ou impossibilidade de mudança nos hábitos de vida devido à pobreza. Chegou um ponto em que eu senti que já tinha feito o possível por aquela população, e a sensação de impotência foi batendo de novo... Comecei a pensar se valeria a pena continuar lutando em um sistema que me dava suporte, mas ainda insuficiente. Escolhi outro rumo para a minha vida e hoje vivencio problemas semelhantes em um hospital terciário do SUS, em Salvador. Não exerci Medicina no interior, mas quando falam da vinda de médicos estrangeiros eu me pergunto se eles vão ter 10% da estrutura que eu tinha próximo de Fortaleza. Como irão fazer pré-natal sem exames de rotina? Como farão o acompanhamento de portadores de doenças crônicas sem remédios? Como tratarão as diarréias sem saneamento básico? Como falarão sobre tratamento não farmacológico sem a ajuda de uma equipe multidisciplinar? Lívia.” Agora, falo eu: O depoimento da médica Lívia não difere muito dos já circulantes na Internet. A diferença é que conheço os seus pais, Vinícius e Zarely. Sei dos seus esforços para formar dois filhos em medicina. Do zelo, da compra do primeiro carrinho 1.000 e da saudade que dá por Lívia morar sozinha, trabalhando em Salvador. Assim é a vida dos jovens médicos. Eles pedem mais meios para o seu trabalho. Não reclamam da vocação, pedem ajuda para ter instrumental e os equipamentos básicos para diagnósticos. Enquanto isso, as grandes cidades são invadidas por ambulâncias vindas do interior, aos solavancos, nas estradas esburacadas. As ambulâncias do SUS duram apenas três anos. Faltam manutenção e cuidados. Há milhares sucateadas. Os que as dirigem e os paramédicos são terceirizados, quase sempre. Por serem terceirizados não têm compromisso com o que usam e fazem. E essas empresas que terceirizam são, quase sempre, de políticos ou de seus amigos. Entretanto, não culpemos apenas os governos, os políticos e os profissionais. A imprensa não deve ser silente e o voto não pode ser descompromissado. Esse cadinho origina a maior doença endógena do Brasil: a corrupção. Ela é cozinhada por ditos grandes empresários inescrupulosos mancomunados com todos os que estão no poder, sejam eles quem for. Só há corruptos porque sofrem assédios de corruptores acenando-lhe com o que seduz o ser humano, não apenas o dinheiro. Esses corruptores precisam ser identificados e punidos, pois alguns se aninham em entidades endinheiradas, outros têm amigos poderosos, uns tantos possuem mandatos e todos são sempre “educados, articulados e dadivosos”. Não precisam poupar, obtém financiamentos, pedem concordatas, renegociam dívidas, fazem consórcios, obtém concessões, articulam e promiscuem gente incauta. As cornucópias públicas jorram dinheiro para as suas empresas, pois nunca recebem precatórios. São especializadas em tudo, obras e serviços cujas placas e valores raramente contêm os seus reais nomes, os preços das contratações e dos aditivos. Trabalham em bloco e são as mesmas, as de sempre. Brasil afora. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/07/2013. - [ESCRITORES E MANIAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/escritores-e-manias-diario-do-nordeste/): Esta semana resolvi diminuir a quantidade de recortes de jornais que amontoam pastas em casa. Sempre que tento “me organizar”, dá uma pena imensa. Agora, por exemplo, estou em dúvida se devo jogar fora um trabalho de Adriano Schwartz, teórico literário, escrito em 21.12. 2004, para a FSP, no extinto "Sinapse". Ele resolveu fazer um teste com os leitores para verificar se sabiam de algumas manias ou curiosidades de escritores. Vou citar algumas, com alguns adendos meus: 1. Sobre Clarice Lispector: ela participou de um congresso de bruxaria na Colômbia, em 1975, quando falou sobre “Literatura e Magia”. 2. Cristovão Tezza, da nova geração de autores, escreve os seus romances à mão. Deu a José Mindlin, bibliófilo e leitor, os originais de seu romance “A Suavidade do Vento”. 3. Cecília Meireles esperou em vão, em dezembro de 1934, no café “A Brasileira”, em Lisboa, por Fernando Pessoa. Hoje, há uma estátua dele por lá. Depois, Pessoa mandou um livro seu, com desculpas: “Cecília Meireles, alta poeta...”. 4. Jorge Luís Borges, poeta e contista argentino, gostava de citar o seu nome e o do amigo Bioy Casares em meio a seus contos. Ele contava, rindo, que Casares era apenas uma invenção dele. 5. José Saramago, a quem conheci em Lisboa, sempre dava um jeito de incluir cães em seus romances. “Jangada de Pedra” é exemplo. 6. Paul Auster, escritor americano contemporâneo, coloca e discute cadernos de anotações em meio a seus romances. Em Noite do Oráculo ele cita: “quando segurei o caderno nas mãos pela primeira vez, senti algo próximo do prazer físico...”. Afinal, descarto ou não?. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/07/2013 - [CLAUDIO BENEVIDES PAMPLONA, O ASTRÔNOMO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/claudio-benevides-pamplona-o-astronomo-jornal-o-estado/): As famílias Benevides e Pamplona integram a coletividade cearense há séculos. Têm muitos ramos. Entrelaçados com outros da terra, já ofereceram contribuições definitivas para as suas inserções no livro da história local. Políticos, profissionais liberais, cantores, administradores públicos, professores universitários, intelectuais e artistas plásticos. Não é preciso nominá-los, basta pesquisar pouco para encontrá-los nas ações que deram forma ao Estado do Ceará, tal como hoje o é. Filho de Carlos Pamplona e Miriam Benevides, Cláudio Benevides Pamplona nasceu em Fortaleza, cidade brejeira da década de quarenta, cheia de fícus-benjamim, centrada na Praça do Ferreira, em meio a “blackouts” nos areais brancos onde as famílias de então faziam florescer aglomerados ou bairros, em quadriláteros, iluminação bruxuleante, sem saneamento básico, consumindo água da “Pirocaia”, transportada em carroças puxadas por jumentos. Fortaleza era ocupada, desde o Pici (“Post of Command”) até os areais da Praia da Iracema, por forças americanas do norte que faziam dela uma base militar de jovens pilotos - com o suprimento de uma intendência cheia das cobiçadas sodas Coca-Cola e dos cigarros “Camel” e ”Lucky Strike”. Vieram para “flertar”com as moçoilas locais, atravessar o oceano Atlântico e alcançar o teatro de operações da Segunda Guerra na Europa, um dos seus fulcros. Cláudio começou a estudar já na época da redemocratização brasileira, após a Guerra e a queda da ditadura de Vargas, e, descobriu-se talentoso em desenho (lado Pamplona) e canto orfeônico (lado Benevides). Mas formou-se em direito, já nos anos ditos de chumbo, quando o país estava imerso no regime militar. Bacharel em Direito, barítono, como muitos dos seus primos Benevides, cabeça apenas polvilhada de ciências sociais, deu uma guinada em seu destino e optou por dissentir do que se esperava dele. Não seria advogado. Viu-se encantado com o mundo silencioso dos astros. Fez-se, apesar disso, professor da Universidade Estadual do Ceará, pois se casara e tinha obrigações a cumprir com o filho Carlos Neto que colocara no mundo. Mas seu lado perquiridor, inquieto e sagaz o fazia olhar mais para o firmamento que para o chão onde pisava. Não pesquisava divindades ou respostas para as aflições humanas, existenciais ou climáticas de nossa região. Olhava, com a ajuda de lentes telescópicas, bem mais alto e procurava, como se fora quase um Carl Sagan, aquilo que foge ao olho comum. Foi, pouco a pouco, embrenhando-se nas nuvens sem fim da Astronomia, ciência natural que tenta desvendar, constatar ou renegar corpos celestes. Munido de telescópios, livros, desenhos e de uma busca desenfreada para o conhecimento da Astrofísica, coligindo nebulosas, aglomerados de estrelas, planetas e galáxias fez-se cientista. Criou o seu próprio observatório a que deu o nome de Herschel-Einstein. Ajudou a fundar a Sociedade Cearense de Astronomia e até a NASA (National Air Space Administration) dele coletou informações sobre o universo azul que nos envolve a todos. Nesse seu mundo, fez a imersão com o escafandro da curiosidade e a luneta do sereno-intrigado, a procurar respostas certeiras para dar sentido à sua vida peculiar e inaudita. Não queria ser diletante, mas observador integrado a uma comunidade científico-especuladora internacional que pode até parecer, aos olhos dos leigos, uma grei de esquisitos, pois não liga para as picuinhas dos homens comuns, os que brigam por pão, pedaços de terra, reconhecimento ou riqueza sem ter a mínima noção da grandeza do universo em expansão e movimento. Somos todos tão mínimos, micros, nanos e o Cláudio sabia disso e ele, mesmo sem o querer, se fez grande pela contribuição ao seu mundo que deu até se finar, no primeiro dia deste julho, aos 70 anos. Releio Sir Issac Newton, cientista inglês, do século 18, citado por Brewster, in “Memoirs of Newton”, para entender e descrever o que se passa na cabeça de um cientista: “Não sei como pareço aos olhos do mundo, mas eu mesmo me vejo como um pobre menino que brincava na praia e se divertia em encontrar uma pedrinha mais lisa vez por outra, ou uma concha mais bonita que de costume, enquanto o grande oceano da verdade se estendia totalmente inexplorado diante de mim”. Cláudio, a seu tempo, buscava o grande oceano, que é o firmamento, e as pedrinhas, que são os seus corpos celestes. Suas cinzas evolaram e se misturaram ao cosmos. Sua ascensão ao insondável foi cercada por manchas solares, meteoros, cometas e estrelas. Esses corpos celestes foram os seus querubins. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/07/2013. - [FLIP E FLUPP - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/flip-e-flupp-diario-do-nordeste/): O Brasil está rediscutindo tudo. Não me refiro apenas às manifestações em curso, mas à cultura que hoje se faz no País. Gilberto Gil, em plena Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip-2013, falou sobre a conquista da Copa das Confederações: "O lugar para onde os jogadores correram para abraçar a torcida não tinha matiz racial brasileira, era esbranquiçada". Elementar, meu caro Gil. Pense nos preços dos ingressos. Ora, dizer isso em Paraty, cidade histórica fluminense, entre o Rio e São Paulo, em encontro rico, na primeira semana deste julho, sob o clima ameno do inverno, financiado por banco e em evidente empobrecimento... Parte dos convidados não compareceu e faltou até tema para discussão. Improvisaram com a indignação dos jovens. Será que Gil foi para lá de graça? Não sei. Já fui à Flip e talvez não vote. Nada de especial, tendas, os "bichos grilos" de sempre, cariocas e paulistas "descolados" e artistas de moletons, todos rindo nas fotos, conversa fiada, editoras faturando e até um pouco de cultura, em suas várias formas. Vai daí que a Flip provocou, no ano passado, a criação de uma sucursal nas favelas (lembram da Daslu e da Daspu?) do Rio. Pois bem, neste 2013, a Festa Literária das UPP- a FLUPP das favelas pacificadas pela polícia aconteceu nesta semana, na Penha, zona norte, quando autores estrangeiros vindos da Flip debateram, de graça, com o povo e até com intelectuais de vários matizes. Não soube de Gil por lá. Teria a oportunidade de trocar a verba pelo verbo, em área violenta e pobre, ainda em batalha e sem polícia pacificadora. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/07/2013 - [AMIGO FALANTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/amigo-falante-jornal-o-estado/): "Meu maior pecado como escritor é jamais enganar, jamais querer agradar. Essa é minha forma de prestar serviço a quem me lê semanalmente". L.Felipe Pondé Sempre gostei de conversar com gente mais velha. É costume. Fui sempre amigo dos amigos do meu pai. Ouvia-os e, vez por outra, dava um palpite, uma opinião. Um deles, o saudoso Dorian Sampaio, colocou-me no mundo das discussões de assuntos sérios e dos nem tanto. Agora, recebo e-mails de amigo sobre o que está acontecendo no Brasil. O contorno dele: engenheiro, professor universitário, festejado, lido e viajado. Hoje, aposentado e apoquentado. Ele escreve com desenvoltura e tem até perfil no Facebook. Acompanhou todas as manobras do MPL- Movimento Passe Livre e até postou algumas micromensagens. Agora, me vem com uma tese que diz acalentar a algum tempo e pede que eu a torne pública. Refutei: escreva para os jornais. Ele respondeu: cortam tudo nas cartas dos leitores e não dão espaço para desconhecidos. E insiste em dizer o que pensa. Vamos lá. Vou tentar sintetizar: ele não faz fé em economistas, mesmo os que, como ele, têm pós-graduação. E, incisivo, pergunta: “qual foi o economista do mundo que previu a crise de 2008? Todos ficaram procurando desculpas e foram pegos de calças curtas. Depois, começaram a explicar o que não previram”. Detona Delfim Netto, André Lara Rezende, Paul Singer, Aloisio Mercadante, todos os ex-presidentes do Banco Central – que viraram empresários financeiros – e nem livra, sequer, os prêmios nobéis de economia. Todos, segundo ele, queriam ser engenheiros, não passaram no vestibular e acabaram economistas. Peço para se acalmar. Ele escreve: estou revoltado com tudo. Arenga com o uso dos aviões da FAB e diz um nome feio. Mudo de assunto. Dou um tempo. Novo dia: leio e-mail: “E os cientistas sociais?” Até o Fernando Henrique entrou na conversa. Afirma que “FHC anda namorando uma moça de menos de 40 e está se lixando para nós. Os cientistas políticos foram todos ludibriados com o engodo que se armou no Brasil já faz anos”. Pergunto se conhece ou lê Renato Janine Ribeiro, professor de ética e filosofia. Diz que sim, mas não fiquei bem certo. Mas, segundo ele, “todos os analistas políticos e sociais erraram feio ao não prever que o Brasil era uma bolha”. E manda brasa: “como o BNDES, banco do governo, pode ser sócio e emprestar dez bilhões ao Eike Batista? Como esse banco aposta muito no Friboi? Cada um que cuide de sua empresa, o governo teria que formar gente como eu, prepará-las para a vida. É hora de acabar com o embuste que é o SUS e o sistema hospitalar público”. Dei um trégua, mas joguei uma isca no e-mail de retorno, dias depois: como é que você entrou no Facebook, pois os tais manifestantes são jovens e têm idade de serem seus netos? . Agora, ele vem com a tese de que Lula, ao voltar da África, dirá que tudo isso é culpa da elite burguesa que não tem o que fazer e está requentando o mensalão, desestabilizando a Dilma e pegando corda do “Estadão” e da Folha de SP. Paro por aqui. Vocês concluam. Mandei uma cópia para ele. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/07/2013. - [BILHETES TROCADOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bilhetes-trocados-diario-do-nordeste/): Hoje é uma troca de bilhetes. O meu foi a lápis no nascimento da “Ferrugem”, filha sardenta. Hoje, mãe de três lindas filhas. Ela emoldura o final. 02.07.1973 – Esta carta é a sua apresentação ao mundo que a recebeu neste julho das férias, do sol, dos ventos do Ceará de 1973. Carta patética de um pai para uma filha recém nascida. Sua mãe deu-lhe a luz e eu, o mundo que é todo seu. Seu para poder explorá-lo, amá-lo e gozá-lo. Seu sem reservas, sem peias, sem medo. Não lhe prometo tradições. Sou como sou. Homem com defeitos. Homem que nasceu para viver com liberdade. Que nasceu para lutar e conseguir. Para se alegrar com suas vitórias e esconder os desencantos. Não lhe prometo riquezas; prometo muito trabalho. Não lhe prometo riquezas. Prometo muito trabalho. Não lhe prometo glórias; prometo muita luta. Não lhe prometo felicidades; prometo amor, por toda a vida. Quem me dera pudesse lhe dar tudo. Tudo não será possível. Vou ter que lhe negar. Vou ter que ser pai. Pai como sinônimo de amigo. Liberal, atualizado, risonho. Sisudo, se for preciso. Prometo ir vendo o mundo mudar. Na mudança, ir guiando-a. Guiando de leve, sem força, com ternura. Já fiz as minhas promessas. Lutarei para cumpri-las. Não lhe peço nada em troca. Você já é muito para mim. 02.07.2013 – Pai, obrigada pelo mundo! Tenho explorado, amado e gozado o melhor que posso. O mundo mudou muito, mas acredito que o princípio para viver e ser feliz continua o mesmo: amar e ser amado. Hoje me sinto amada e sinto um amor enorme por você. Ferrugem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/07/2013 - [SOCIEDADE CONSULAR – PRESTAÇÀO DE CONTAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sociedade-consular-prestacao-de-contas-jornal-o-estado/): Administrar a Sociedade Consular do Ceará- SCC, no biênio 2011/2013, foi uma honra, uma oportunidade, uma responsabilidade e restou provado que muito deveria ser percorrido e feito. Assim, com a ajuda dos colegas, levei a bom termo a missão que me foi confiada. Terça-feira, 02 de julho de 2013, aconteceu a posse da nova diretoria, encabeçada por Ednilton Soárez, cônsul da Finlândia, executivo exponencial, administrador público que saneou as finanças do Ceará e empresário de sucesso nos ramos educacional e de entretenimento. A essa comemoração compareceram autoridades e uma parcela da significativa coletividade de Fortaleza. Nesse período de dois anos, saneamos a situação financeira do quadro social e hoje estamos com 300% a mais em caixa. Todas as despesas foram assumidas, pessoalmente, pela presidência. Destacamos como os pontos mais relevantes da gestão: 1. A SCC teve a honra de ser homenageada pela Câmara Municipal de Fortaleza, por ocasião do Dia do Cônsul, em agosto de 2012. Nessa mesma ocasião, reparando omissão e fazendo justiça, outorgamos a “Medalha Bertrand Boris” ao ex-presidente e sempre companheiro, Luciano Montenegro. 2. Visitamos, em comitiva, o Complexo Portuário do Pecém.Ficamos informados de sua implantação e já cientes de sua expansão. 3. A convite do Secretário Ferrúcio Feitosa, que gentilmente nos recebeu, tivemos, como visitantes, a antevisão do ora já inaugurado Estádio (Arena) Castelão. 4. Igualmente, fomos recepcionados no quase concluído, à época, Centro de Eventos do Ceará. Esse equipamento, já em operação efetiva, deu um diferencial de qualificação ao setor de congressos, shows e exposições em Fortaleza. 5. O então comandante da 10ª. Região Militar, general de divisão Gomes de Mattos, nos ofereceu almoço festivo nas dependências do monumento histórico que é antiga Fortaleza da Nossa Senhora da Assunção. 6. Contatamos com a Dra. Mônica Barroso, dirigente da Coordenadoria de Políticas Públicas para a Mulher, para a concretização da ideia de um Censo para um maior amparo às mulheres estrangeiras presidiárias em nosso Estado. Elas, em sua maioria, são abandonadas por seus ex-companheiros, para quem serviam de “mulas” ou portadoras de drogas. O vice cônsul da Itália, Roberto Misici, foi interlocutor para assuntos de direitos humanos. 7. Fizemos, em agosto de 2011, em parceria com o Consulado da República Tcheca e a Galeria Benficarte, exposição, com coquetel, de reproduções fotográficas denominada: “Joze Plecnik – O Arquiteto de Praga”. 8. Realizamos duas festas de congraçamento de Natal, inclusive com a edição de músicas natalinas dos países cujos sócios honorários pertencem à SCC. 9. As nossas reuniões mensais aconteceram, com boa frequência, em datas previamente avisadas por e-mail e/ou telefone. Nelas discutimos as pautas necessárias ao nosso convívio. 10. Acrescente-se que A SCC passou a constar, oficialmente, nas seguintes publicações anuais ou bienais: “Anuário do Ceará”; - “Sociedade Cearense”; e “Personalidades Cearenses”. 11. Fomos recebidos, em audiência especial, pelo Governador do Estado, Cid Gomes, ocasião em que apresentamos sugestões para que os setores de comunicações e de turismo tivessem a acuidade de exercer uma programação visual multilíngue - o que foi cumprido - para os pontos turísticos do Ceará, aproveitando as copas das Confederações, já acontecida, e a do Mundo, a realizar-se em 2014. 12. Sugerimos ao governo do Estado, apresentando um estudo preliminar arquitetônico, para implantar uma espécie de panteão no passeio externo da face da Av. Barão de Studart do Palácio da Abolição com mastros e bandeiras dos países participantes da copa do Mundo. Essas nações sentir-se-ão gratificadas com a gentileza. 13. Igualmente, reinvidicamos ao governador Cid Gomes o preenchimento da vaga de Assessor de Assuntos Internacionais. Fomos atendidos. Ele designou o advogado Dr. Hélio Leitão Neto, mestre em direito, ex-presidente da OAB-Ce e professor universitário. 14. Decorrente da atuação da Assessoria de Assuntos Internacionais recebemos da Secretaria de Segurança a comunicação de que toda e qualquer ocorrência policial com naturais dos países que representamos nos serão imediatamente comunicadas. 15. Do ponto de vista de gestão, atualizamos os Estatutos Sociais, passamos a emitir boletos de cobrança bancária, comunicação via e-mail, criamos um site e distribuímos "bottons" a todos os associados. Este histórico é um simples registro. Nada mais que isso. Ele enseja o conhecimento público das ações da Sociedade Consular e dos países e cônsules honorários que a integram: Alemanha (Dieter Gerding, Áustria (Reinhilde Lima, Belize (Airton Teixeira), Colômbia (Maurício Durán), Dinamarca e Noruega (Marcos de Castro); França (Fernanda Jensen), Finlândia (Ednilton Soárez), Hungria (Janos Fuzesi e Zsofia Eross), México (João Soares), Noruega, Portugal (Francisco Brandão), República Tcheca, Romênia (Luciano Maia) e Uruguai (JMaria Zanocchi). Agradeço, por fim, a cobertura jornalística desinteressada e espontânea de todos os veículos de comunicação cearenses em difundir os nossos principais eventos consulares, inclusive visitas de embaixadores e em missões culturais e comerciais. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/07/2013. - [SISTEMAS E ESQUEMAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sistemas-e-esquemas-diario-do-nordeste/): A presidente Dilma afirma apoiar a democracia das ruas. Pede um pacto social. O povo exige ações e transparências. As empresas têm CNPJ e as pessoas, CPF. Eles nos desnudam para bancos, governos, empresas, imprensa etc. Há muito a ser revelado nas artes e manhas da administração pública. Muitos indagam por que um sindicato nos representa, sejamos nós pedreiro, engenheiro, administrador ou gráfico? Os sindicatos, patronais ou de empregados, são dirigidos por grupos que deles se apoderam e não os largam. Arrecadam, sem pena. Vejamos o Sistema “S”, criado pela ditadura Vargas, há 70 anos. Cada Estado tem ricas federações com o grosso dinheiro das contribuições sociais de lutadores e patrões. Elas encastelam afilhados, realizam viagens para o nada, dão festas, prêmios e até prestam serviços sociais com cursos que, quase nunca, são gratuitos. Olhemos o caso da Federação das Indústrias de SP, a FIESP, cujo grande prédio está iluminado de verde-amarelo, neste junho. Pois bem, o seu presidente usa o prestígio e os recursos da entidade para autopromoção a uma possível candidatura à Prefeitura de SP. Do lado dos trabalhadores, é o mesmo e ainda elegem deputados que apenas lutam pela manutenção de privilégios. E proliferam. Não esqueça, por fim, que os governos sempre contratam as mesmas empresas para todos os serviços e obras. Elas recebem financiamentos do BNDES e até são associadas de órgãos estatais. O modelo se reproduz em alguns estados e municípios. É hora de abrir essa caixa preta. O povo quer e deve saber. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/06/2013. - [AFINAL, O QUE ESTAMOS VENDO E VIVENDO? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/afinal-o-que-estamos-vendo-e-vivendo-jornal-o-estado/): Os cientistas sociais, a imprensa, o governo com os seus órgãos de segurança/informação e a política brasileira foram abalados em seus alicerces. Como não prever o que aconteceu e vai continuar a existir nesta nova onda de protestos que, mesmo sem querer, parece ter sido atiçado em mínima parte, por uma inventiva propaganda de uma marca de veículos? Essa propaganda objetivava a simples venda de veículos e clamava a todos: vão para a rua. Comprar carros e ir para a via limpa, bonita, asfaltada, sinalizada, segura e desfrutar da liberdade de pagar um carro, com juros, por longos anos. Essa é a quimera. A realidade, outra. Um cartaz de manifestante fez o contraponto a essa falsa ilusão consumista de todas as classes sociais. Seu texto: “País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde o rico anda de transporte público”. E, um detalhe, nele não se falou sequer nas motocicletas, vendidas em longo prazo. Tão longo que boa parte dos seus guiadores é acidentada, antes mesmo de concluir os pagamentos, nos trânsitos caóticos de nossas cidades. A empáfia das elites, da política brasileira e das propagandas que desejam vender tudo a qualquer preço, contavam – espalhavam - que o Brasil vivia o melhor dos mundos. Nada nos atingiria. As crises do mundo, não nos diziam respeito. Todos os brasileiros teriam acesso a tudo. De tanto comparar a propaganda massificada com a realidade, o povo cansou. Depois da casa, móveis financiados – para minorar a crise da indústria moveleira. Tudo bem. Mas como e com que pagar as prestações da casa, dos móveis, da moto/carro, a alimentação e a conta da luz. A inadimplência aumentou. Não há essa elevação tão explícita da pobreza a uma nova classe média. Há uma falsa ideia do seja a nova classe média. Há um mimetismo a partir de roupas, sapatos e adereços falsificados vendidos por camelôs em vias públicas de todo o país. Tudo espelhado em novelas mirabolantes com escancarado “merchandising” de tudo o que possa, subliminarmente, influir no desejo humano. Seguindo os cânones mundiais, a caracterização político-econômica do perfil da nova classe média brasileira é um factóide, uma quimera, uma manobra. E quem foi para as ruas, de início, não foi essa ainda dita classe emergente, mas a velha classe média – a imprensada entre o desejo e a capacidade - que se sentiu lograda em todas as suas pretensões. As famílias de classe média têm, entre outros poucos objetivos, formar e encaminhar os seus filhos na vida. Hoje, há cerca de sete milhões de universitários no Brasil. Alguns estudam em poucas universidades públicas e privadas de bom e razoável nível de excelência. A maioria se compraz a cursar sofríveis e medíocres faculdades para ser dono de qualquer graduação. Puro auto-engano. Todos os anos a sociedade lança profissionais que não são absorvidos por suas baixas qualificações. Há tantas profissões e oportunidades e poucos conseguem um emprego privado razoável. O Brasil produtivo precisa de gente qualificada e não há. Por outro lado, faz certo tempo que se criou uma nova esperança nas famílias: a de ter seus filhos aprovados em concursos públicos. O emprego público gera uma suposta garantia de segurança para o futuro. São poucos os que passam. Os demais mandam currículos para empresas de recrutamento ou, através de amigos/parentes/políticos, tentam ocupação ou atividades terceirizadas por órgãos públicos para os quais não têm, em bom número, disposição de trabalho e as aptidões básicas necessárias. Essa massa de jovens, sem esperança, quando não delinque, inferniza seus pais com demandas provocadas por uma sociedade de consumo em que a falsa aparência no vestir disfarça a ausência de conteúdo e equilíbrio para enfrentar a realidade. Não estou dizendo que os milhões que foram às ruas são pessoas assim, mas certamente são os que se sentiram enganados por promessas de um país já quase rico e em que todos teriam oportunidades iguais. Não é a verdade. Só os preparados alcançam algum “sucesso”, essa falsa palavra que não traduz a verdade da vida. Esse caldo, esse ressentimento coletivo, oriundo da maciça divulgação pela imprensa de desvios, desmandos, impunidades e dos exagerados gastos e cuidados com os preparativos de eventos esportivos, forjaram o estopim deste junho em que estádios novos, por conta dos altos preços cobrados, estavam repletos de gente das classes alta e média, convidados de empresas, governos e instituições, turistas, jornalistas, artistas e pouca gente do povo. Pobres, nem pensar. Sequer como vendedores ambulantes. E o futebol se diz esporte popular. Nos entornos dos estádios havia mais gente que dentro das “arenas”. Eles intuíram que muita coisa estava errada, pelo aparato policial ostensivo. Ainda não existia sabedoria sedimentada para expressar, com clareza, esses muitos desacertos reclamados. Aconteceu o caos, gente séria, baderneiros e os infiltrados de sempre. Agora, há uma infinidade de explicações da mídia, de articulistas e de cientistas políticos após as passeatas inovadoras, permeadas por vandalismos de marginais que capitalizam as aglomerações para os seus delitos. As explicações, inclusive esta minha, são apenas sentimentos, esboços ou exteriorizações sociológicas que não resolvem essa questão ou o impasse em que o Brasil se meteu, depois de tanta orgia com o dinheiro público. Agora, depois da fala da presidente Dilma e dos ajuizamentos contundentes do presidente do STF, Joaquim Barbosa, é hora de repensar, estudar e esperar que o nosso país pare de propagar o que não é possível fazer ou ser. Que cuide, pelo menos, de fazer o mínimo que a sociedade cobra. Nada de grandeza. Chega de fanfarra. Os políticos, de todos os matizes estão cautelosos, conjeturando e digerindo a crise. E você? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/06/2013. - [MANIFESTAÇÕES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/manifestacoes-diario-do-nordeste/): A juventude anda às turras contra atos e fatos políticos e quem pega o pesado é a segurança pública. São manifestações marcadas pelas redes sociais, mas ainda não arrazoadas com profundidade. Cria-se o clima, uma onda, e lá se vão multidões distintas a protestar nas ruas. A democracia comporta e pede isso. A soberania popular, por outro lado, não dá carta branca ilimitada. Ela reclama analisar o que sentem e ouvem, mesmo com paixões, mas, antes, deve-se usar a razão. A imprensa - ou parte dela - destaca os fatos e realimenta as reações. Estabelece-se o confronto. É hora de reavaliar o Brasil. Os jovens trocam as redes sociais pelas ruas. E isso é saudável. Por outro lado, em contraponto positivo, há uma luta da Política Nacional sobre Drogas. Nela se destaca o trabalho da Divisão de Proteção ao Estudante - Dipre, da Polícia Civil. É luta para esclarecer, difundir a prevenção, a repressão, a recuperação e o combate aos traficantes. Esse trabalho cauteloso acontece em escolas, estabelecimentos públicos e privados que abrem os seus salões para ações de vigilância e duelo contra drogas. Voltando ao princípio: Democracia é diversidade de pensar e agir. Muitos dos manifestantes poderão doar parte das suas energias e revoltas na colaboração a movimentos de proteção aos jovens iniciados nas drogas, especialmente o "crack". Isso também é cidadania. A droga é tão endêmica quanto os desmandos evidentes. Valorizar a vida é não fechar os olhos a essa tragédia a minar famílias e o Brasil. Denuncie, aja. João Soares Neto escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/06/2013. - [VALE CULTURA E CEUs das ARTES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/vale-cultura-e-ceus-das-artes-jornal-o-estado/): O governo Dilma, através do MinC, resolveu instituir o Vale Cultura-VC para atender, principalmente, aos que se descrevem como promotores culturais, alguns dos quais fazem peças de teatro anódinas, filmes de discutível qualidade, escrevem livros- encalhados-de prosa e poesia e lançam CDs e Dvds de cantores/compositores emergentes ou veteranos. Os VC serão destinados a trabalhadores que ganham até 5 salários mínimos. As micro e pequenas empresas não terão nenhum incentivo fiscal com a distribuição do VC a seus colaboradores. Enquanto isso, as grandes empresas poderão descontar 1% do IR devido para o mesmo VC. Com 50 reais por mês, os que ganham até cinco salários mínimos vão ter a opção de escolher, para si próprios e os seus, entre filmes, standups, comédias, dramas, livros, visitas a centros culturais, a museus e comprar CD e DVDs. De repente, quem sabe, ficarão cultos e com massa crítica para entender o Brasil, suas artes e manhas. No Nordeste, cerca de 90% dos trabalhadores estão enquadrados nessa faixa de até cinco salários. Esperamos que todos fiquem mais ilustrados. O VC foi apresentado por medida provisória-MP no dia 13 deste maio de 2013 e, certamente, será objeto de altos estudos nas duas casas congressuais que nada pedirão em troca. É bom lembrar que o ministro da Educação, Aluizio Mercadante, disse, recentemente, em Recife, a estarrecidos ouvintes: “O que museu tem a ver com educação?”. Seria bom que a sua colega Marta Suplicy explicasse para ele qual a finalidade de um museu e a sua relação com a educação e a cultura. Cumpre lembrar que 91% das cidades brasileiras não têm cinemas, 72% das comunas não possuem sequer uma livraria e apenas 23% contam com museus. No Nordeste, a situação ainda é pior, claro. Acredita-se que 42 milhões de brasileiros poderão ser beneficiados com a nova medida. Pensando em fraudes, o cadastramento será apenas de cinemas, livrarias, centros culturais, teatros, museus e lojas de discos. Ao mesmo tempo, o Ministério da Cultura está abrindo “CEUs das Artes” para divulgar a cultura do Brasil na Europa. Não custa lembrar que, segundo dizem, só a cidade de Londres possui mais museus que o Brasil. Buenos Aires teria mais livrarias que o nosso país. A idéia da ministra Marta Suplicy presume ser inovadora. Ela adotou na sua administração amável, o “soft power” ou poder suave, na tradução literal. Essa expressão, na verdade, foi esculpida por Joseph Nye, cientista político americano. A Alemanha sabe-se, usa há tempos o “Goethe-Institut” e a China espalha os “Confúcios”. Muitos países atuam com outros instrumentos de difusão cultural. Agora, vamos nós. Segundo Fernanda Mena, da FSP, o soft power “denota a capacidade de um país influenciar e persuadir por meio do seu poder de inspiração e atração”. Esperamos que esse poder suave possa realmente trazer cultura para o povo brasileiro com o VC e, ao mesmo tempo, encantar os europeus com os CEUs das Artes. Nós, os que tentamos trabalhar com cultura e arte, sabemos que há um longo caminho a ser seguido. As instituições de cultura e arte, como as academias, precisam de ajuda e rápido para os seus trabalhos sérios e permanentes. Os produtores culturais têm ONGs, amigos políticos e fazem disso um meio de vida. George Santayana, filósofo e ensaísta espanhol do século passado, advertia: “A cultura está sempre entre o dilema de ser profunda e servir a poucos ou popular e tornar-se superficial”. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/06/2013. - [FRAN MARTINS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fran-martins-diario-do-nordeste/): Tive a honra de ser aluno de Direito Comercial do professor Fran Martins, na Faculdade de Direito da UFC. Tive a alegria de abrir e manter escritório no mesmo andar do seu, no edifício Jalcy, na Guilherme Rocha. A par disso, havia nele um duplo. Não bastava ser um grande mestre, autor de vários livros jurídicos, entre eles, o “Curso de Direito Comercial” que está hoje, 2013, na 36ª. edição. Ele tinha na construção da sua personalidade literária um outro eu, um ficcionista que, segundo C.A. Viana: “segue a trilha da concisão; os períodos curtos desencadeiam o predomínio de blocos narrativos cujas construções tendem a períodos compostos por coordenação ...”. Foi desse modo que o jurista conciliou a sua ficção neo-realista em “Ponta de Rua”, “Poços dos Paus”, “Mundo Perdido”, “Estrela do Pastor”, “O Cruzeiro tem Cinco Pontas”, “A Rua e o Mundo” e “Dois de Ouro” com a criação de uma visão técnica e didática do Direito Comercial; analisasse a Falência, dissertasse sobre as Sociedades por Quotas, desvendasse o Cartão de Crédito e empreendesse novos caminhos sobre o Direito Societário. Se isso não basta, foi o único Diretor-Editor da revista Clã, desde o inicial, 1948, até o 29, 1988. Acresça-se ter dirigido o jornal O Estado. Quinta, 13.05.2013, foi a data do centenário de nascimento desse homem plural, quase sisudo, mas cordial que, em 1996, nos deixou. As suas obras não mergulharam no limbo. Pelo contrário, formam um clã vivo de sucesso. João Soares Neto, escrito CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/06/2013 - [ACADEMIA E PARLAMENTARES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/academia-e-parlamentares-jornal-o-estado/): Na manhã de sexta-feira passada, dia 07 de junho de 2013, no Palácio da Luz, a Academia Cearense de Letras, sob a presidência de José Augusto Bezerra e a coordenação de Ubiratan Aguiar, conseguiu feito inédito. Ali estiveram presentes: o Senador Inácio Arruda; o coordenador da bancada federal, Antonio Balhmann; e os deputados Gorete Pereira, Ariosto Holanda, Artur Bruno, Chico Lopes, João Ananias, Raimundo Gomes de Matos e Vicente Arruda. O Dep. Danilo Forte mandou representante. As motivações do encontro foram: 1º- o estado crítico em que se encontra a estrutura física do tricentenário prédio, já objeto de projeto, elaborado em 2009; 2º- a necessidade da Academia dispor de recursos tecnológicos para se tornar um ente cultural ajustado às demandas atuais da sociedade; 3º- a implantação de sistema de segurança para a proteção do acervo, demobiliário adequado, climatização esonorização da sede; 4º- implementação de projeto sistêmico para a criação–contando coma participação do Dep. Ariosto Holanda e do ocupante da Cadeira 35 - de um Centro Vocacional Cultural-CVC que, após implantado, poderá ser irradiado para todo o Ceará. Os parlamentares, acompanhados dos já citados acadêmicos, de Ângela Gutierrez, de Ednilo Soárez e da diretora administrativa Regina Fiúza, visitaram todas as dependências dos dois pavimentos da Casa constatando o estado de penúria do auditório, da biblioteca, da pinacoteca e de todosos demais cômodos, com problemas de natureza estrutural. O Palácio da Luz é um bem público, tombado como patrimônio histórico do Ceará, mas está, é preciso repetir, em situação crítica de segurança. Nele, além da Academia Cearense de Letras, reúnem-se, sistematicamente, mais de 15 entidades culturais, entre elas a Academia Fortalezense de Letras. Aventou-se a necessidade de criação, no centro da cidade, de um eixo cultural que contemple o perímetro da área que abriga equipamentos culturais, afora o Palácio da Luz, como o Instituto do Ceará, o Theatro José de Alencar, a Igreja do Rosário, a Igreja do Patrocínio, a casa de Juvenal Galeno, o Parque da Criança, o antigo Rotissérie, o Museu do Ceará, entre outros. Depois, encaminharam-se ao banco onde repousa a escultura em bronze de Rachel de Queiroz, na vizinha Praça General Tibúrcio, também conhecida como Praça dos Leões em razão das esculturas desses animais que encimam os seus pórticos, antes tidos como monumentais. A visita à Praça General Tibúrcio fez-se necessária em face da insegurança constatada. Em todos os seus quadrantes estão quiosques, ambulantes, vendedores de livros, famílias de pedintes e pessoas sem teto que se apropriaram daquele espaço público. Emborafosse manhã, o olor de excrementosse fazia sentir a cada passo. Os parlamentares ficaram, nas palavras deles próprios, estarrecidos com o "status quo" e se prontificaram a transmitir o que viram a seus demais pares. Este relato, cru e fidedigno, parece uma constatação arquitetônica pontual. Embora não importe, é bom lembrar o escritor F.Scott Fitzgerald: “a literatura é arquitetura. Ela não é decoração de interiores”. A casa da literatura cearense reclama por cuidados de vera arquitetura, não é o caso de decoração de interiores Estivemos, pois, a mostrar as faces sujas e fissuradas de um velho prédio construído com mão de obra nativa e indígena, ainda do final do século 18, pelo Capitão-Mor Antonio de Castro Viana. Em 29 de setembro de1802 o prédio foi arrematado para ser a sede da Câmara. Entretanto, não havia verba para o pagamento. Assim foi criado o “Subsídio das Aguardentes”, que determinava o pagamento de 4$000 por cada pipa de aguardente importada que desembarcasse em portos da província. A quitação do pagamento, feito dessa forma, só foi concluída em 03 de novembro de 1807. Em 1808, o então Governador Luiz Barba Alardo de Menezes, sob o argumento de que sua casa havia sido furtada, mudou-se para o local. Embora houvesse resistência da Câmara, passou a ser a sede do governo até 1970. A nova sede do Governo, o Palácio da Abolição, foi inaugurada em 04 de julho de 1970. Mesmo aligeirado, este relato mostra a necessidade de recuperar, para preservar o que a História do Ceará nos legou. Não podemos deixar que essas conquistas sejam relegadas a um plano subalterno. Os jovens do novo milênio precisam de referências histórico-culturais para construir as fundações dos seus conhecimentos. Sem essas referências a juventude será tão oca como parte das conversas narcísicas trocadas a cada dia no Facebook e outras mídias. O Palácio da Luz é do Ceará, todos os acadêmicos são transitórios e bem letíficos. Só a Academia Cearense de Letras, sua cessionária, é permanente. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/06/2013. - [ANTÔNIO ERMÍRIO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/antonio-ermirio-diario-do-nordeste/): Só vi Antônio Ermírio de Moraes - AEM uma vez. Paletó amarfanhado, gravata de lado e os cabelos brancos, em desalinho. Ele comandou, sem remuneração, por 35 anos, o Hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, ao qual dedicava tempo e talento. Além disso, cogeriu por 60 anos, o grupo Votorantim, fundado por seu pai, o ex-senador pernambucano José Ermírio de Moraes. AEM formou-se em engenharia metalúrgica, aos 21 anos, nos EEUU, e passou um ano trabalhando de graça para o pai, vendo se tinha jeito. Deu certo. Em 1986, incensado por políticos que o viam capaz e rico, foi candidato a governador de SP. Como não era iniciado nas artes e manhas da política, foi derrotado, na reta final, por Orestes Quércia. A ideia de sua candidatura passava pela posterior possibilidade de ser presidente do Brasil. Não se saberá jamais o que haveria acontecido se ele tivesse ganhado a eleição. Agora, no dia 04 deste junho, ele completou 85 anos. Há algum tempo passou a sofrer do mal de Alzheimer, após ter perdido dois filhos para o câncer. O Alzheimer, doença neurológica incurável, mostra seu viés indistinto, pois AEM era pessoa ativa intelectualmente, sendo, desde 1999, membro da Academia Paulista de Letras. Escreveu três peças de teatro com críticas sérias à sociedade e à política. Embora sendo controlador de banco, fez constantes censuras ao modelo draconiano do mercado. Sua vida está sendo contada no livro “Antônio Ermírio de Moraes”, de José Pastore, editado pela Planeta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/06/2013. - [FUTEBOL NO JUNHO BRASILEIRO E O PAPA, NO RIO, EM JULHO - OE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/futebol-no-junho-brasileiro-e-o-papa-no-rio-em-julho-oe/): O Brasil, desde o governo passado, resolveu patrocinar três eventos esportivos internacionais, dois de futebol - as copas das Confederações, neste ano de 2013, a do Mundo, em 2014 - e, as Olimpíadas, em 2016, no Rio. Assim, por um bom período, o país vem se preparando para esses acontecimentos. Mandaram destruir todos os grandes estádios das maiores cidades brasileiras, como se dinheiro sobrasse, tudo estivesse errado, e exigiram outros novos(arenas) no padrão Fifa, com cadernos de encargos definindo tudo. Até a largura das cadeiras, posicionamento dos reservas e aboliram os alambrados protetores que separavam o público do campo de jogo. Deus queira que não ocorram invasões. Trocaram os alambrados por muitos seguranças. Pediram obras de mobilidade urbana para os acessos a essas novas “arenas”. Enfim, o Brasil está cumprindo, do jeito que pode e sabe, essas exigências múltiplas. A palavra confederação parece pouco ajustada para a Copa de futebol que, na próxima semana, se inicia no Brasil. Confederação significa, segundo o Aurélio, “uma reunião de diferentes Estados que, embora conservando a respectiva autonomia, formam um só, reconhecendo um governo comum.” Levada essa ideia, lato senso, para o esporte comandado pela Fifa - Federação Internacional de Futebol Associado pode ser admissível. Forma-se um elo entre as confederações continentais a ela submetidas, porém uno na gestão “fifiana”. Ela estabelece as regras para os países que aceitam realizá-la. No duro, não seria um plano comum, mas delineado pela Fifa, com sede em Zurique, Suiça. Ela planeja, coordena, controla, veicula,comercializa e aufere resultados com a modalidade futebol em todo o mundo, com copas diferentes, ano após ano, em todos os continentes. Alguns estudiosos entendem que dois, três ou quatro jogos em uma cidade, televisionados para todo o mundo, inclusive para as próprios locais onde serão realizados, mudarão a economia e trarão milhares de turistas sequiosos para gastar o seu dinheiro em hotéis, refeições, compras,diversões e locomoção. Dizem que a totalidade do arrecadado com os ingressos, com a exploração dos direitos de imagem e outros, irá para a Fifa, que distribuirá quotas entre os participantes. Olhando um pouco para a ficção temo uma eventual resposta negativa ao que se espera acontecer. No quesito aluguéis de casas e apartamentos já houve uma desengano geral. Muitos pensavam que conseguiriam milhares de reais, esquecendo que os hotéis estão disponíveis por poucas centenas de reais pela curta estada e, ainda mais, que os prováveis 10% de estrangeiros virão respaldados por pacotes de viagens dos seus países de origem, inclusive receptivos. Há um bom filme uruguaio- francês- brasileiro, de 2007, “O Banheiro do Papa”, produzido, entre outros, por Fernando Meireles e dirigido a quatro mãos por Cesar Charlone e Enrique Fernandez que parece se ajustar a alguns momentos vividos por brasileiros sôfregos em lucrar com os eventos. A película, baseada em fato real, mostra o alvoroço da pequena e carente cidade uruguaia de Melo, perto da fronteira com o Brasil, com a futura chegada do Papa João Paulo II, em 1988. No filme são usadas imagens de arquivo, como a verdadeira chegada de João Paulo II e a exploração política do fato. A maioria da população pobre de Melo acredita que será uma oportunidade para ganhar dinheiro. Fazem planos e passam a produzir linguiças, algodão doce, bebidas, comidas e tem até um personagem que resolve construir, com toda a poupança da família, um banheiro para os necessitados. Mais não conto. A propósito, o Papa Francisco I, chega em julho ao Rio para diálogo com os jovens. É outro evento, este de resgate religioso. Cuidado com o “fator Melo”. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/06/2013. - [BOATARIA BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/boataria-brasil-diario-do-nordeste/): Há alguns dias o Brasil foi sacudido por “boato”, atingindo diretamente 14 milhões de pessoas simples assistidas pelo Programa Bolsa Família. Esse fato tido como criminoso quase causou um caos social nas agências da Caixa Econômica e nas lotéricas, a ela submetidas. Boato, segundo o dicionário Aurélio, é “notícia anônima que corre publicamente sem confirmação”. A Polícia Federal tentou descobrir a origem desse boato que poderia ter causado danos graves à sociedade. Na realidade, houve apenas uma liberação operacional, antecipada, da Caixa. Esta semana o boato em formação é que o abatimento concedido pelo Governo nas contas de energia pode acabar. A Medida Provisória – que o instituiu - perderá a validade amanhã, 03 de junho. Se o Congresso não tiver aprovado a MP, tudo voltará a ser como antes. Há pessoas a espalhar boatos e aleivosias por achar engraçado ou para atingir alguém ou algo que os incomoda. O boato é ato covarde, pois parte da criação mentirosa ao atentar contra a honra de alguém ou provocar uma reação coletiva por fato equivocado e, muitas vezes, criminoso. Muitos frequentadores de bares, alguns órgãos da mídia e parcela significativa de políticos propagam as intenções que desejam. São balões de ensaio a sondar ou confundir. As redes da Internet são outro foco constante de balelas, falsificação de textos e montagens grosseiras. Vai daí que a liberdade de dizer deve parar na responsabilidade legal pelo ato deliberado de causar dano a outrem. Todo computador possui identificação, e os telefonemas... João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/06/2013. - [PARADA GAY - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/parada-gay-jornal-o-estado/): No próximo domingo, em São Paulo, milhares e milhares de pessoas irão às ruas para participar da Parada Gay. Diz a imprensa que esse evento é o maior do planeta, o que poderia, de princípio, fazer crer que naquela cidade há a maior concentração de homossexuais do mundo ocidental. O que não é provado, tampouco desmentido. Sabe-se que nos orbes oriental e muçulmano ainda não existem a liberação explícita ou a aceitação da homossexualidade, tampouco as mulheres têm direitos civis iguais aos dos homens.No ocidente, entretanto, com políticos, profissionais liberais, celebridades e intelectuais declarada-ou mascaradamente - homossexuais, houve uma espécie de “libertação” dos seus desejos. A Parada é, então, o palco para extravasar. Nada mais que isso. Foi um zoólogo americano, Alfred Kinsey, com ajuda de colegas, quem resolveu estudar, em 1948, o comportamento dos homens em relação ao sexo. Em 1952 fez o mesmo ao entrevistar 6 mil mulheres. Dessas duas grandes pesquisas saíram documentos e algumas conclusões em livros, criticados e elogiados. Eles formam, em conjunto,o “Kinsey Report”. Nesse documento, Kinsey e seus colegas resolveram estabelecer uma escala sobre a orientação sexual dos homens. É preciso dizer que, como zoólogo, Kinsey havia, antes, pesquisado as vespas ou maribondos. Encantado com os resultados, publicou essa escala que, de princípio, vai de 0 a 6, mas abre um “x” para os assexuados. Assim, o zero, ou 0, seria o hétero puro; o 1 seria o hétero, ocasionalmente gay; o 2 seria o hétero, mais do que ocasionalmente gay;o 3 seria a pessoa que é dupla, bissexual;o 4 seria o homo ou gay mais que circunstancialmente hétero; o 5 é dado ao homo que, às vezes, faz o papel de hétero; e o 6 seria o exclusivamente homossexual. Como se vê, há uma gradação numeral, zoológica – ou animal - a nos levar a crer que a pessoa nasce ou adquire essas orientações até a sua puberdade. Daí para frente já está assinalada para a vida. Por conseguinte, ser homossexual não parece ser uma escolha, tampouco motivo de orgulho, censura ou objeto de cura, mas um desígnio genético e/ou de comportamento. Francisco Daudt(www.franciscodaudt.com.br), médico que optou por ser psicanalista, afirmou, nesta terça, no caderno Cotidiano da Folha de SP, C2: “Ora, tenha a santa paciência. Se há uma boa razão para a homossexualidade não ser uma escolha, uma opção, e sim um destino, é o fato de que a presença de atração gay na mente é perturbadora para a maioria dos homens”. Essa afirmação de Daudt é seguida de outra, complementar: “a) Nenhum tipo zero (o hétero genuíno) será perseguidor de gay, pois, para esses, a homossexualidade nem é assunto. Os homofóbicos estão trazendo para fora uma luta de dentro de suas cabeças: ‘Gay são os outros’. b) Apenas os 6 tipos (de Kinsey) saem do armário sem maiores problemas, pois não conseguem outro tipo de vida”. Ele assevera ainda: “Ninguém, em sã consciência, entraria no supermercado das orientações sexuais e, animadíssimo, poria em seu carrinho de compras o destino de ser gay, com a gôndola de ser hétero ao lado”. Em resumo, viver é procurar aceitar o outro tal como ele o é, sem detratá-lo, criticá-lo ou endeusá-lo. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/05/2013. - [GARY VAUSE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/gary-vause-diario-do-nordeste/): Quando ninguém acreditava que a China seria a potência hoje reconhecida, William Gary Vause, então Vice-Dean da Stetson University, nos EEUU, resolveu estabelecer um intercâmbio de estudantes com o fechado governo chinês. Era o começo da década de 80 e ele parecia saber o que fazia. Havia estudado mandarim, a língua da cultura sino, quando servira, sem dar um tiro, ao Exército dos Estados Unidos, em tempos da Guerra da Coreia. Finda a guerra, estudou em Yale, doutorou-se em direito, fez concurso para entrar na Stetson e focar em comércio internacional. Vencendo barreiras, resolveu passar seis meses na China de Mao. E não foi só, levou sua mulher, Celia, minha irmã. Depois repetiram a dose, passando mais alguns meses em Pequim e Guangdong , para incrementar o intercâmbio de estudantes que floresceu e deu frutos. O intercâmbio foi passo forte para o reatamento das relações comerciais e culturais entre os EEUU e a China. E, depois, com o mundo. Gary Vause morreu de câncer aos 60, em 09 de maio de 2003. Era Reitor da Stetson e concluíra um novo campus em Tampa. Estive no funeral dele. Este artigo é uma homenagem, nos 10 anos de morte desse homem que viu uma ideia prosperar e abrir caminhos para as relações chinesas com o mundo.Poucos sabem disso, ele era sereno. Ex-alunos seus hoje são advogados chineses proeminentes. Seu livro “Internacional Trade and Investment” - Comércio Internacional e Investimento, em inglês e mandarim, publicado em 1982 pela Guangdong Publishing, é prova inconteste de seu descortino. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/05/2013. - [O FIM DOS CINEMAS DE RUA É IRREVERSÍVEL? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-fim-dos-cinemas-de-rua-e-irreversivel-jornal-o-estado/): João Soares Neto* No século atual não se pode falar em irreversibilidade. Pode-se falar em mudança, mutação, melhoria do nível de educação/cultura e responsabilidade social das pessoas. As mudanças e mutações são exponenciais, mais rápidas do que a formação de um jovem ou a sedimentação da cultura em uma pessoa adulta. O amanhã gradativamente mais tecnológico é uma certeza, para o bem ou para o mal. O processo de internação dos cinemas em espaços dos centros comerciais decorreu da sempre crescente violência nos centros e nas ruas das cidades. Já tem cerca de 20 anos esse “start up”, para falar do início, usando palavra da moda. De lá para cá, as cidades ficaram mais violentas por acúmulo de fatores: crescimento natural, migração, deficiência de vias e de transportes públicos, propagação de zonas consagradas como pontos de venda e uso - sem medo - de drogas, camelôs, em demasia, ocupando áreas de passeio, e o fenômeno dos sem-teto, quase sempre pessoas que desistiram de suas famílias e vidas. Ou vice-versa. A ida para centros comerciais não foi planejada, mas consequência do já dito. Tentamos, por desafio ou estoicismo, a operação e a manutenção de dois cinemas no centro por cinco meses. Fizemos ajustes, mexemos na decoração, contamos com segurança contratada, divulgamos e exibimos filmes de arte. Vimos, além da sensação, certa ou imaginada, da insegurança do local, que os cinéfilos, os que entendem e analisam o cinema como arte, e os “cinemeiros”, os que gostam apenas gostam de cinema, não eram em número suficiente para garantir uma frequência sequer básica. Optamos por baixar os preços dos ingressos, misturar filmes de arte, em uma sala, e, em outra, com “blockbusters”, os de grandes produtoras e que, via de regra alcançam bom público jovem e adulto. Infelizmente, não deu certo. Ainda hoje, muita gente reclama que há poucos filmes de arte em exibição, mas a culpa é, além da não formação de público, da baixa bilheteira, dos custos elevados com o pagamento às distribuidoras, do problema do Ecad, vigilante escritório de arrecadação, das obrigações sociais e dos impostos pagos. Cinemas, como elemento auxiliar da educação e cultura, deveriam ser isentos de ISS e outros impostos, para poder formar público. A existência indiscriminada da meia-entrada ainda é permissiva, pois a maioria das pessoas consegue uma identidade escolar, sem estudar regularmente. As distribuidoras impõem a permanência dos filmes mesmo quando eles não têm públicos. Os exibidores não têm como sair desse dilema. Afora, os meses de férias, os cinemas quase não se pagam. Grandes redes exibidoras acabaram ou minguaram. O público exige salas melhores, mais bonitas, com carpetes grossos, equipamentos de ponta, mas ainda precisa aprender a ter cuidado ao usá-las. Aprender a não sujar, não cortar poltronas ou colar goma de mascar, não colocar os pés/sapatos por cima da fila da frente, e não derramar líquidos de refrigerantes ou comidas no chão. Todos os cinemas têm lixeiras que deveriam ser bem usadas pelos espectadores, mas são poucos os que assim agem. Quer saber da educação do espectador veja uma sala de cinema logo depois da projeção. Os intervalos são maiores por conta da sujeira deixada. Voltando ao assunto inicial, se algum dia o Brasil aumentar significativamente o Índice de Desenvolvimento Humano, gerando massa crítica, melhorar o nível médio efetivo de renda da população e motivar uma segurança pública guardiã e eficaz, os cinemas voltarão, naturalmente, aos centros e às ruas dos bairros das cidades. João Soares Neto foi sócio do Clube de Cinema e é cinemeiro, desde adolescente. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/05/2013. - [COME O QUÊ? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/come-o-que-diario-do-nordeste/): Comida é energia. Todos tentam se cuidar, fala-se em vários tipos de alimentação. A orgânica está na moda. Homens cozinham para amigos e os “chefs” de cozinha têm status equivalente ao das celebridades. Alex Atala é, segundo uma lista, o maior cozinheiro do Brasil. Montou rede de restaurantes, através de franquias, e “está podendo”. No mundo, o maior “chef” é René Redzepi, dinamarquês, dono do restaurante “Noma”. Acontece que esse Noma teve um problema com mexilhões infectados. Então, quem nos garante que os donos, cozinheiros e ajudantes dos milhares de grandes, médios e pequenos restaurantes cuidam de saber a origem e a qualidade dos alimentos que compram e cozinham? Sabe-se que as grandes redes de supermercados, restaurantes e as de fast-food têm centrais de distribuição para regiões, estados ou cidades. Tudo é transportado, já em porções plastificadas, em veículos refrigerados. E quando o veículo quebra? Quem poderá afirmar se estão na temperatura certa e se suas propriedades não se alteram com as mudanças dos freezers para os balcões, as prateleiras, as cozinhas e daí para as panelas? Quem trabalha nas cidades recebe vales refeições e, quase sempre, procuram os locais com preços mais baratos. A comida a quilo é uma “instituição”. Todos os dias milhões fazem um ato de fé ao comer. Ano passado, as melhores cozinhas do Rio foram flagradas com comidas vencidas, acondicionamento irregular e falta de higiene. Hoje, devemos ter o direito de conhecer as cozinhas dos locais onde comemos. Faça isso. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/05/2013 - [MORTE E MEMÓRIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/morte-e-memoria-jornal-o-estado/): Se eu fosse um fabricante de livros, faria um registro comentado das diversas mortes. Quem ensinasse os homens a morrer, ensiná-los-ia a viver. Montaigne Não sei se você lembra quem foi Franz Paulo Trannin da Mata Heilborn. Depois, eu conto. O fato é que até hoje a sua biblioteca de 5.000 livros de primeira linha continua nas mesmas estantes. Morreu de um enfarto, brigava contra uma estatal que acreditava ter métodos e ações dos tempos dos dinossauros. A viúva, passado o luto, fala em negociações não concretizadas. Erudito, polêmico, preconceituoso, mas inteligente. Escrevi dois artigos metendo o pau nele, mas me espantava a sua coerência excêntrica em seus escritos e falas. Mudando e mantendo o mesmo objetivo, estive agora na morada de outro intelectual morto. Jubilado, após glorioso percurso mundial diplomático, veio ter à sua terra e, após algum tempo, finou. As paredes falsas, agregadas às existentes eram mais que necessárias para formar estantes repletas de livros, condecorações, diplomas e medalhas de vários países. Tudo está lá, pois como dizia o meu pai, nada se leva deste mundo. No tempo em que lá passei, mais do que o necessário para um visitante, a cabeça relembrava um encontro que, ainda jovem, tive com esse intelectual no Rio. Faz décadas. Não tenho a intenção de revelar o seu nome, mas direi que deixou um caminho iluminado em sua vida e em cada estante, nos detalhes do mobiliário, dos quadros, das gravuras e dos adornos muitos sobre mesas. O fato ficou remoendo para, no mesmo dia, ao abrir o “Ilustríssima”, caderno literário da Folha, deparar-me com o artigo “Na cova da Fera”, de Lucas Ferraz, sobre Paulo Francis, a pessoa referida na primeira frase, para dar gancho a este escrito. Coincidência? “No lo creo”. Duas pessoas distintas e plurais, em tempos, atividades e lugares diferentes, deixam, ao partir, além dos livros escritos, os lidos, os grifados, e os velhuscos. Apelo a Agostinho, o santo e intelectual: “Ama e faze o que queres”. Enquanto é tempo, digo eu. A morte é um esconderijo, refrigério ou fuga? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/05/2013 - [MAES. COM - JOÃO SOARES NETO, PAI E AVÔ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/maes-com-joao-soares-neto-pai-e-avo-diario-do-nordeste/): Pesquisa feita em 12 países pela empresa de publicidade WMcCann, revela que, no Brasil, 83% dos filhos dão presentes admitindo que os seus sejam melhores do que os dos irmãos. Hoje, na família há mais competição e isso fica claro, a partir das próprias mães. Desde o fim do século passado, com o surgimento do culto exagerado ao corpo, dos partos não naturais e da fixação em esbeltez via regimes alimentares, academias, corridas, sucções ou bisturis, as mães são outras. Dessa forma, o exemplo vem da mãe e os filhos crescem vendo um mundo competitivo em que todos ficam confusos e têm, na individualidade, a marca registrada. Caim e Abel estão lá na Bíblia para quem quiser ler. É história sabida. Mas, o que se vê hoje, nas famílias de todas as classes, é competição. Há algum tempo, os irmãos usavam roupas dos mais velhos e não tinham super-heróis como ídolos. Hoje, as festinhas de aniversários, mesmo as mais simples, são demonstrações afetadas e até abobalhadas. Não se comparam aos tempos da fraternidade endógena, pré-internet. Mães vaidosas há que colocam as suas famílias no Facebook e no Instagram, sem saber do perigo de tocaia. Crianças dentes de leite têm celular. A Internet não é boa ou má, mas pessoas com mentes deturpadas farejam os incautos. Recentemente, vi o filme “Acreditar” (Trust) no qual um pedófilo, fingindo-se de adolescente, consegue desgraçar toda uma família. Vale ver. Neste Dia das Mães é bom que as famílias, os filhos e pais, façam uma reflexão sobre seus valores em curso. Isso pode ser o melhor presente. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/05/2013. - [OS OITO DE MAIO– 2013 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-oito-de-maio-2013-jornal-o-estado/): Foi com respeito e reverência que a Galeria BenficArte reuniu, ontem, os reconhecidos Ascal, Claúdio Cesar, Emília Porto, Hélio Rola, João Jorge, Raimundo Netto, Sergei de Castro e Vando Figueiredo, na 3ª Edição da Exposição coletiva “Os Oito de Maio”, em homenagem ao Dia do Artista Plástico, nessa data comemorado. Nesse mesmo dia, em 1945, o mundo respirou em paz. A 2ª. Guerra acabara. Milhões de mortos, especialmente judeus, alemães e russos. Os destroços foram removidos, cidades reconstruídas, mas a mente humana e os interessem ainda engatilham conflitos. Para dar cor ao gris dessa nuvem diabólica os artistas se insurgem. Somos filhos do sol, desta terra ainda - não de todo - aprontada para as sutilezas das artes plásticas. Somos, igualmente, teimosos em perseverar, não como Mecenas, mas como indutores do conhecimento em configurações e entretons. Isso nos dá alento para reunir artistas que não vêem o mundo com olhar vadio, mas o interpretam, deformando, reformando, mas nunca se conformando com o “status quo”. Seria a arte uma doença? Se a resposta for sim, ela é antiga, endêmica e incurável. Não há como dissociar a arte, especialmente as artes plásticas, da evolução da humanidade, da contaminação global, da contação de suas histórias pérfidas ou magnificentes. Os artistas que estão reunidos não são diletantes. Seja a construção abstrata de Emília Porto, a revolta ecológica de Helio Rola, os metais retorcidos e soldados em formosura por Ascal, a natureza ideal de Cláudio César, a inquietude de Vando Figueirdo, os traços gordos de Raimundo Neto, o jeito meio sem jeito de João Jorge Melo e a reclusão auto imposta pela poesiarte de Sergei de Castro. São profissionais, artistas tímidos/vaidosos de suas artes verdadeiras, mas modestos nesta cidade em que paredes recém construídas e pintadas se enfeitam com gravuras impostas por mercadores de pseudo bom gosto e quadros com falsificações grosseiras de artistas expirados. Os Oito que aqui estão representam faces do pensamento artístico local do final do breve século que foi o 20 e se embebedam de tintas para entender este novo século em que o imediato tecnológico se traduz na negação do detalhe que é o olhar perdido/ encontrado sobre as artes plásticas. Há também oito promessas/perspectivas jovens: Charles Vale, Diego Sann, Felício da Silva, Galber Rocha, Geovane Queiroz, Júlio César, Ricardo Vieira e Samuel Bendix que despontam no Curso de Licenciatura em Artes Visuais do IFCE.A escola industrial transformada em universidade operacional. Eles são a convicção que a arte nunca morre, apenas muda de mãos. Eles são o futuro, logo, logo. Olhe, mire, pisque, use colírio, fotografe, filme, pois o exposto merece que a sua retina o fixe e o seu sentimento o absorva. Repare os consagrados, lado a lado, sem discriminação, com os universitários das artes visuais. Somos assim. A arte permite isso e a adesão de todos, consente. Tudo pode ser visto, gratuitamente, até o dia 31 de maio na Galeria BenficArte. Vale ver, pois como queria André Malraux: “O que é arte? Somos levados a responder ser aquilo por meio do qual as formas tornam-se estilo”. João Soares Neto não é crítico de arte CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/05/2013 - [TEMPOS MÍNIMOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tempos-minimos-diario-do-nordeste/): Semana passada fiquei alegre. A madura escritora Edla Von Steen me deu um presente. Doze anos depois de publicados os meus “Microcontos”, ela resolve aderir à ideia e o faz, como usei na segunda edição, bilíngue. Escolhi o espanhol, ela fez dois livros em um. Traduziu para o inglês e o francês, separados. Edla tem dezenas de livros publicados e é nome nacional. Ela sabe. A Flip/2013 trará Lydia Davis, contista americana, concisa. Tempos mínimos. As palavras não podem transbordar, devem caber nos espaços. Li, agora, que o jornal “Estadão” está diminuindo de tamanho. Já havia cortado o seu caderno literário. Haverá menos espaço para jornalistas e colaboradores. Os jornais do mundo sofrem a concorrência de suas próprias edições digitais e das outras mídias como a TV, os blogs de notícias e as tais redes sociais. Os jornais prezam seus espaços, vivem de anúncios, mas, no meu perceber, perdem ao publicar artigos de gente e fatos de outras paragens, sem identidade com o leitor que não os decifram. O leitor trabalha, estuda e se locomove em tempo duro de viver. Resta pouco para a leitura segmentada e cada um quer cor local, intrigas, esportes e notícias. Escritores/jornalistas nacionais, mediados à custa, quiçá, de “jabaculês”, são reproduzidos. Não bastam as televisões e suas redes? Somos obrigados a ler baboseiras dos ditos famosos. Cada jornal deveria, ao meu pensar, cuidar do seu leitor/assinante, da sua região e dos problemas locais ou regionais. Não pode ser do mundo. Aí tudo fica sem análise, sem crítica. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/05/2013. - [A VIDA EM CÓDIGO: SAULO RAMOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-vida-em-codigo-saulo-ramos-jornal-o-estado/): Faz anos. Ganhei o livro “Código da Vida”, de Saulo Ramos. Li-o, mais por curiosidade que por outra razão. O livro é derramado, aberto, sem censura. Aos 78 anos, em 2007, curado de um câncer, e sabedor de uma doença coronária grave, Saulo Ramos resolve contar sua vida, do seu jeito, seguindo seus cânones. Escreve como advogado, mas sem esquecer a sua vertente literária – tipo contador de histórias- como integrante de duas academias de letras: a de Ribeirão Preto e a Santista. O livro já teve mais de 20 reimpressões e deve aumentar os lucros da editora Planeta, agora que Saulo Ramos morreu, em 29 de abril último, vítima do coração já esfalfado, em face de sua dura, brilhante e, quiçá, romanesca vida. Nasceu em 1929, em Brodowski, cidade pequena, vizinha a Ribeirão Preto. Lá, já havia nascido outro brasileiro ilustre, Cândido Portinari. Portinariestá lá na página zero do seu livro com um retrato em crayon de Saulo, aos 24 anos. Ele manuscreve e proclama: “Para Saulo, que honrará nossa Brodowski, lembrança afetuosa do Portinari, 1953”. Não deu outra, Saulo foi um dos maiores paulistas dos últimos tempos. Nasceu pobre, chegou a ser caminhoneiro, mas descobriu na advocacia o seu destino. Discípulo de Vicente Ráo, um grande advogado, resolveu fazer carreira solo. Foi quase tudo na advocacia e na política brasileira. Só não foi mais porque não o quis. Começou trabalhando com Mário Covas, depois foi ajudar Jânio Quadros a ser presidente por sete meses e chegou a ser ministro da Justiça de José Sarney, de quem era grande amigo. Tancredo morreu como todos sabem, antes da posse na presidência. Havia um impasse. Saulo comandou a equipe que solucionou o problema constitucional. O resto já é história. O livro não é um exercício de modéstia. Não poderia sê-lo. Saulo, aos 78, tinha a língua solta dos que acreditam estar próximo o encontro com o desenlace. É, talvez, uma autobiografia romanceada. Parte de um caso singular da defesa, por Saulo, de um pai, acusado de pedofilia pela própria mulher, a partir de gravação feita com os filhos. E esse eixo básico não é seguido. Há muitas vertentes e ocasiões em que o autor, vaidoso, nomeia várias celebridades. São tantas, entre elas, Che Guevara. Conta um jantar com ele, em 1962, em Punta Del Este, Uruguai. Em seguida, vem a concessão por Jânio Quadros da “Ordem do Cruzeiro do Sul” ao então ministro cubano. Por fim, afirma que Fidel Castro estaria por traz da trama que matou Guevara na Bolívia. Paro por aqui, não vou tirar o prazer dos futuros leitores do livro. É um passeio pela história brasileira contemporânea. No livro, Saulo não poupa Lula. Diz cobras e lagartos do então presidente da República e se derrama em amores e elogiosa José Sarney. Não só Lula é criticado, até alguns integrantes do STF são descritos sem muita piedade pela azedia de Saulo. A história, que é o fim condutor da narrativa, não concluída no texto, merece um epílogo em que ele deslinda tudo. Não gostei da batida citação – o livro tem 140 - atribuída a Charles Chaplin usada para fechar o livro. Ela, no meu pensar, é piegas e esgotada. Merecia outra, talvez dele próprio. Quem sabe, esta: “Espero que tais fatos esclareçam algumas interrogações daqueles que os viram acontecer e sejam úteis para as novas gerações, que ainda dependem dos historiadores, nem sempre muito fiéis, segundo tenho visto em isoladas manifestações de jornais. Mas advirto: os fatos são aqui narrados numa espantosa desordem cronológica, porém fielmente. Detesto a manipulação do passado e o mascaramento das versões”. Saulo Ramos. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/05/2013. - [ÁRIA DE PAPÉIS NÃO RASGADOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aria-de-papeis-nao-rasgados-jornal-o-estado/): Sou um homem cercado de papéis por todos os lados. Minha casa é, em parte, uma biblioteca desordenada. A outra, é uma quase pinacoteca, multifacetada. Houve um tempo, creio que em 1995, em que resolvi jogar fora livros, jornais, cartas pessoais e bilhetes antigos. Eram valiosos para mim, pelos ensinamentos, verdades e até pelas mentiras/tolices contidas. Fui exprobrado por cartas não pedidas, por meras letras de músicas encadeadas formando um texto amistoso, afetivo.E me imputaram culpa, como se destinatário fosse, imaginem, por carta de amiga madura a revelar suas conversas telefônicas com alguém, mais idoso ainda, já alquebrado, desenganado e, logo depois, finado. Os dois, pelas idades, estavam além do Bojador e não se consumaria o “tal amor”, se perto vivessem e nus estivessem. Mesmo assim, fez-se o dilúvio. E não me chamo Noé. Esse foi o libelo, não que eu fosse um extraterrestre, um não culpado, mas as provas eram falsas e mal lidas. Nada resistiria a uma análise séria. Rasguei o que me restou. Assimilei a sentença por outro episódio e fui exilar-me em morada simples, despojada de tudo. De novo, pouco a pouco os papéis foram brotando. Hoje, quase vinte anos passados, já em outro pouso, sou cercado por livros, jornais esmaecidos, revistas, cartas e bilhetes com e sem nomes . Nem falo da internet: a essa dou o tratamento devido, a tecla mais usada é a de deletar, mesmo tendo perdido, com pesar, mais de 100 escritos a narrar uma história bonita, e encadeada com a vida. Ontem, resolvi fazer mais uma limpeza, mas há uma dor, acreditem, em cada papel rasgado, em cada bilhete ou carta que se esfuma, ou nos livros doados, por tê-los lido ou por não ter conseguido ir até aos seus finais. Agora, neste instante, estou com duas folhas, de pessoa que, entre aspas, me enviou, há algum tempo, pois data não tem, texto atribuído a Nietzsche: “Ecce Homo”. O texto: “Um homem bem nascido adoça os nossos sentidos; ele é composto de uma fibra ao mesmo tempo dura, tenra e perfumada. Apraz-lhe somente aquilo que lhe é útil: o seu prazer e o seu desejo cessam quando ele ultrapassa os limites do útil. Advinha ele todos os meios para reparar os males, afastando-se dos acidentes adversos; aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte. De tudo o que ele vê, ouve, vive, colhe instintivamente a sua suma, é um princípio de seleção. Muitas coisas deixa cair. Está sempre em sua companhia, ou ocupando-se com os livros, ou com os homens, ou com as paisagens como discerne, como aceita, e le também honra. Reage a toda espécie de fascinação, lentamente, com aquela lentidão que lhe ensinaram uma longa prudência e uma soberba volúpia...”. Paro por aqui, mas fico a pensar se o texto, citado apenas em parte, é mesmo de Nietzsche. Nunca tive a curiosidade de conferir. São quase 11 da noite e daqui observo os sofás do quarto abarrotados de livros, recortes revistas e jornais, de décadas passadas. Foram ficando e se quedaram lá, formando manchas cinzas no tecido dos móveis. Cá, onde escrevo, um anexo ao quarto, uma espécie de escritório, com mesa de mármore envelhecido repousa o caos, em forma de papéis. Ameaço ordenar o espaço, mas não tenho coragem, fica para outra vez. Sobra apenas o espaço para este limitado notebook, já velhusco. Agora é tempo de tentar dormir e, sem pauta ou musicalidade, admito, data vênia, ter composto um canto silencioso, mas com ritmo e compasso contemplativos, uma a ária de não rasgar papéis. Da internet “Um homem bem nascido adoça os nosso sentidos: ele é composto de uma fibra ao mesmo tempo dura, tenra e perfumada. Apraz-lhe somente aquilo que lhe é útil: o seu prazer e o seu desejo cessam quando lhe ultrapassa os limites do útil. Advinha ele todos os meios para reparar os males, afastando-se dos acidentes adversos; aquilo que não o aniquila torna-o bem mais forte. De tudo o que ele vê, ouve, vive, colhe instintivamente a sua suma; é um princípio de seleção: muitas coisas deixa cair. Está sempre em sua companhia, ou ocupando-se com os livros, ou com os homens, ou com as paisagens: como discerne, como aceita, como confia, ele também honra. Reage a toda espécie de fascinação, lentamente, com aquela lentidão que lhe ensinaram uma longa prudência e uma soberba volúpia; examina o enlevo que ascende a ele - está bem longe de ir-lhe ao encontro. Não acredita nem na “desventura” nem na “culpa”: prevê logo qualquer coisa, consigo mesmo e com os outros, sabendo sobretudo olvidar; é suficientemente forte para que tudo lhe redunde em benefício próprio. Pois bem; eu sou o oposto de um decadente, porque descrevi a mim mesmo.” Friedrich Nietzsche João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/04/2013. - [PROPAGANDA E CIDADANIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/propaganda-e-cidadania-diario-do-nordeste/): No dia do último aniversário de Fortaleza vi anúncios de pessoas, empresas e entidades que pouco fazem em favor da cidadania, mas propagam seu amor pela cidade da qual tiram suas benesses. Que amor é esse? Não é amor fazer a sua tarefa, tampouco dar empregos ou participar de associações de classe cujos dirigentes se comprazem com declarações às colunas de jornais e rádios, nas saídas e chegadas do aeroporto, a propagar encontros com autoridades federais. Na verdade, apenas fazem parte de grupos de pressão, sempre a reivindicar. As fotos vão para as colunas e tudo fica na mesma. Não sai nada de concreto. Que amor é esse, quando muitos sonegam, outros maquiam seus balanços, quase sempre dando os pulos certos e alguns são sempre recentes amigos de infância de quaisquer governantes? Por que não apresentam seus balanços sociais, as escolas que abrem ou apoiam, os órgãos de benemerência ajudados? Está na hora de se aprender a fazer distinção entre propaganda e cidadania. Toda pessoa, empresa/entidade tem o direito de fazer propaganda, mas só os tolos não enxergam as que apenas, vaidosas, dizem de seus valores e nada têm a mostrar de concreto como atos cidadãos Cidadania é outra coisa, não passa pelo viés do interesse, nem pela necessidade patológica de parecer magnânimo. Cidadania é fazer o simples em favor do bem comum. Cidadania não é pedir presente de lençol e dar festa nababesca. Gastar o dinheiro da festa inútil, em benefício de necessitados, poderia começar a ser ato cidadão. As farsas precisam ser desmontadas para que se conheça quem faz propaganda e quem opta pela cidadania. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/04/2013 - [CONSIDERAÇÕES, A PARTIR DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/consideracoes-a-partir-da-academia-brasileira-de-letras-jornal-o-estado/): Não há um manual, um rito ou qualquer ensaio a orientar alguém desejoso de entrar em um grêmio literário, seja ele a Academia Brasileira de Letras- ABL, as suas congêneres estaduais e as muitas outras, de naturezas diversas, existentes às centenas por este país afora. Cada entidade possui vida própria com estatuto e regimento interno. Neles, há tempos definidos. O nojo, pela morte do acadêmico que deixou a vaga; o período da inscrição, em que todos devem apresentar memoriais com os seus currículos de vida, as suas produções significativas e as razões de suas pretensões; o contato formal com os eleitores, quando alguns se precipitam e não cumprem o tempo do nojo, a incomodar os colegas do morto; o exame dos méritos dos candidatos, por uma comissão de acadêmicos e, enfim, a eleição. As regras não são universais, são particulares e adaptadas da velha Academia Francesa, fundada pelo Cardeal Richelieu, em 1635. Após a Revolução Francesa - e o costume permanece –o governante da França é o Patrono da Casa que tem como dístico: “Ad l’imortalitaté”, ou à imortalidade. Semana passada, a ABL elegeu Rosiska Darcy de Oliveira, com 23 dos 38 possíveis votos. Ela traz 69 anos, oito livros, sendo os mais comentados: “A Dama e o Unicórnio”, “Elogio da Diferença”, “Chão de Terra” e “A Natureza do Escorpião”. Possui formação em direito na PUC-RJ e, posteriormente, de professora de letras, na mesma universidade, no curso de doutorado. Foi jornalista de batente no Jornal do Brasil e TV-Globo. É articulista do jornal O Globo e, além disso, vivenciou o feminismo em sua fase áurea, escrevendo ensaios sobre as razões e a oportunidade desse movimento, originado nos anos sessenta. Ela ganhou dos poetas Antonio Cícero, seis votos, e Marcos Accioly, cinco votos. Sobre a sua candidatura, é preciso dizer ter sido respaldada pela atual presidente da ABL, Ana Maria Machado, e Cleonice Berardinelli, reclamantes da existência de apenas quatro acadêmicas em universo de quarenta. Nélida Piñon, ex-presidente, referiu: “mesmo com a entrada dela, a Academia fica devendo à mulher maior presença, não resgatou ainda a escassez. Há grandes mulheres que certamente ingressarão”. Para o acadêmico Antônio Carlos Secchin ela mereceu ganhar em razão de sua biografia. Diz ele: “A biografia dela nesse campo do feminismo é mais visível e bem mais ostensiva do que como escritora, mas isso não é um demérito... o seu trabalho multifacetado, dentro dessa linha do feminismo, mas é importante ressaltar e respeitar o nível estético da escrita da Rosiska”. E conclui: a eleição “é um tabuleiro muito complexo, e certamente o resultado da campanha mais bem feita se traduz em números”. Estas minhas considerações são frutos de leitura de sites, blogs e jornais, especialmente a FSP. Não sei se o que escrevi faz sentido para a maioria dos leitores. Espero, pelo menos, que saibam como acontecem as eleições acadêmicas a exigir dos candidatos postura veraz e prova de sua vida literária. Não basta escrever livros, mais importantes são a qualidade e a linguagem culta adotadas, sua repercussão nos meios literários e a maturidade existencial do candidato. As academias não devem se prestar à formação de currículos, mas coroar a vida de quem já os possuem. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/04/2013. - [CADERNOS CULTURAIS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cadernos-culturais-diario-do-nordeste/): De repente, recebo e-mail pedindo agregar meu nome a abaixo-assinado para o não fechamento do caderno cultural “Sabático”, suplemento do “Estadão”. Depois, vi que o abaixo assinado fora encerrado. Não explicaram a razão. O fato me fez lembrar o falecido Daniel Piza que o “O Estadão” ‘roubou’ da extinta Gazeta Mercantil. A Gazeta produzia, ao meu olhar, o melhor suplemento literário do país, o “Fim de Semana”. Hoje, neste tempo em que o Enem modifica critérios consagrados do vestibular e paga menos de três reais a um professor para corrigir a redação de aluno, nada mais espanta. Os editores dos grandes cadernos não têm compromisso com a formação de público. São enfatuados e sabem da segmentação de temas a não depender da cultura/literatura para aumentar assinantes ou vender jornais em bancas. Escolhem articulistas iluminados ou amigos com textos não atraentes a jovens e às pessoas ditas comuns. Um exemplo? O caderno “Ilustríssima” da “Folha de SP”, a partir do próprio nome, é pira das vaidades. Há pedantismo. D.igo isso por ser assinante da Folha há anos. A efemeridade do jornal e o relativo escasso número de leitores, mesmo em SP, hão produzido estragos no jornalismo cultural. Não confirmo o fechamento do “Sabático.” Afirmo, entretanto, ser preciso manter uma orientação nova e crítica nos cadernos de cultura e fazer indicações corretas de livros aos leitores.. Não basta publicar a relação dos mais vendidos pelas grandes livrarias. Elas são hoje uma espécie de loja mix e comerciam mais autoajuda e bestsellers. Literatura?. Muito pouco. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/04/2013 - [MÃO "ERRADA" - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mao-errada-jornal-o-estado/): Acabei, faz pouco tempo, de guardar o pesado e amarfanhado casaco que usei no frio da Velha Albion, a terra do contra. Lá, para se andar e atravessar a rua, deve-se olhar ao contrário do que se faz por aqui. E eu, certamente, não tenho esse reflexo. Sinto-me desconfortável e atarantado. Eu devia entender que metade dos carros do mundo está com a direção do lado “errado”, isto é, do lado direito. O problema é que achamos certos os nossos costumes. Não há certo ou errado nessa questão de direção e tampouco nos costumes de cada terra. No começo da história do automóvel a direção ficava ao meio do painel para o motorista ter uma visão ampla à sua frente. Depois, a direção veio para o lado esquerdo, a fim de bem ultrapassar os veículos que estão à frente e trafegam pelo lado direito da via. Um fato interessante, os retrovisores laterais são invenção bem posterior ao tempo de Henry Ford e seus discípulos. A turma da Velha Albion, entretanto, costuma ser diferente em quase tudo - os bares fecham parte da tarde, p.ex - tendo adotado o lado direito como o “certo” para a direção do veículo. A ultrapassagem é pela esquerda. Da mesma forma fizeram com a moeda deles. Se algum visitante – e são 30 milhões a cada ano - quiser vá a uma casa de câmbio e troque o real, o dólar ou o euro por “pound”. Alugar um carro passou a ser uma temeridade para mim, canhoto empedernido, já a enfrentar dificuldades com a habilidade manual, incluindo chaves, portas e maçanetas, imagine com a contramão de direção. Chego e a Baronesa Margaret Thatcher se vai. Creio que ela não pode sequer ver o filme sobre a sua vida. Se o viu, não entendeu nada, pois havia sido atingida pela doença do alemão. Como diz um velho provérbio, creio que árabe, “Deus não completa nada para ninguém”. Não viu Meryl Streep, igualzinha a ela, na caracterização e no gestual. Representou-a tão bem que ganhou um Oscar de melhor atriz. O filme, de 2011, será reprisado, certamente, pelo menos nos canais fechados. Ele mostra Streep falando e agindo como Thatcher e desvendando, de soslaio, a tênue figura do seu marido, também já no mundo do além. O enredo não diz, por exemplo, que Margaret ganhou um concurso de poesia aos 10 anos e ao ouvir do professor: parabéns, você teve sorte. Respondeu: Sorte não, eu mereci. Despontava ali, a sua franqueza. A história da película centra na sua ascensão política e social, filha do merceeiro Alfred Roberts, da cidade de Grantham, arredores de Londres. Ela foi estudante de Oxford por mérito pessoal, com bolsa de estudo. Ao casar, assumiu o Thatcher do marido, o empresário Denis, e abandonou o Roberts, do pai Alfred. Chegou, em três eleições consecutivas, a ser premiê da ilha por longos 11 anos, de 1979 a 1990. A única mulher com esse feito. A Dama de Ferro, The Iron Lady, nome esculpido por um jornalista soviético, era durona, “conservadora”, mas tomou decisões avançadas para a árdua época em que conviveu com quebradeira e greves brabas, tendo conseguido segurar a inflação, ganhar a guerra das Malvinas/Falklands, na verdade, uma aventura suicida da ditadura argentina. Ela viveu, como premiê, os últimos anos da Guerra Fria, quando bilhões foram gastos por vários países com ataques e defesas imaginários e retóricos, e viu o fim da União Soviética(1989). Apenas historio, não julgo. Enquanto isso, Elizabeth, a longeva, mãe do viúvo desengonçado a gostar de saiote “kilt” escocês e casado com a velha amante, continua dirigindo, quando deixam, o seu Landrover, pela “mão errada”, nas estradas vicinais dos castelos friorentos e plenos de fantasmas. Uma amiga alemã, pedindo reserva, citou a frase do poeta Friedrich Von Hardenberg, dito Novalis, também germânico: “Jeder Engländer ist eine Insel”. Abri o dicionário e aprendi: “Todo inglês é uma ilha”. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/04/2013. - [SONHO E REALIDADE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sonho-e-realidade-diario-do-nordeste/): Dia desses, percorri, com vagar, as alamedas arborizadas da Universidade de Fortaleza e pude constatar o óbvio: tudo ali é feito com paixão, eficácia e simplicidade, sem descuidar da função primeira a que se destina cada edificação. Nada é ostentatório. Nesse percurso solitário, lembrei-me da petulância de um jovem. Integrava ele um pequeno grupo voluntário de pessoas a pensar o modelo arquitetônico, a localização e a concepção educacional da futura universidade. Faziam parte desse grupo, comandado por Edson Queiroz, além do jovem, pessoas como Evandro Ayres de Moura, José Walter Cavalcante, Raimundo Padilha e o Reitor da Universidade de Mogi-Guaçu, Prof. Bezerra de Melo. Houve uma série de reuniões no Edifício Butano, na Rua Major Facundo, sempre com a dupla visão: a forma do campus e o seu papel audacioso na expansão da educação superior do Ceará. Um dia, Edson apresentou a maquete da futura universidade. Era um projeto vertical, na Av. Francisco Sá, proximidades da Esmaltec, idealizado por Arialdo Pinho. Depois da reunião, o jovem conversou a sós com Edson Queiroz. Disse-lhe da limitação do local e do seu entorno. Falou sobre a tendência de crescimento da cidade. O sonho dele, Edson, deveria ser maior que aquele projeto. Ele, de bate - pronto: vamos ver. Saíram, em carro dirigido pelo jovem, em direção a uma zona nova, ponte precária, povoada apenas pelo conjunto habitacional do Ipase. Rodaram até a Av. Perimetral. Eram caminhos estreitos de pedra tosca. Voltaram. Pararam. Edson desceu e se entusiasmou. Viajou para Accra, capital de Gana, viu uma universidade horizontalizada e mudou de ideia. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/04/2013 - [RUA DA MADONNA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/rua-da-madonna-jornal-o-estado/): Frio forte, desejo de jantar, tomar vinho tinto, e as pedras centenárias da Via della Madonna dei Monti não refletiam a luz dos postes. Do lado direito, 94, confundi um estúdio com um bistrô. Entrei. Era, na verdade, um “happening” com acepipes do pintor Emiliano. Cercado de amigos e sem clientes. Quadros grandes, alegres, cores fortes resguardadas por vidros e uma técnica exposta sem reserva. Pinta em pexiglass, aquele tipo de plástico transparente que cobre comidas, não o laminado. Depois, fixa o pexiglass no vidro. Fica bonito e quem quiser olhar pode ver no info@emilianoesposto.com. Nada é mais segredo neste mundo de ruas tortas que desvelam ao seu final, além da Igreja da Madonna com mendigo à porta, o ajuntamento de jovens e adultos no largo onde se vê música, restaurantes e a presença discreta dos carabineiros, cada qual na sua na noite invernosa. As pessoas parecem alegres e obedecem à precedência na frente do toldo do restaurante que avança na praça. Ali assento. Na volta, porta quase cerrada da igreja, ainda dou uma olhada furtiva e vejo santos nos altares central e laterais. Cem passadas depois, o que me deixou os parcos cabelos arrepiados foi o Ice Club, todo branco, na noite fria e carregada. Era, de fato, um bar geladão. Um iceberg. Paredes, tetos , bancos e copos de gelo. Quarenta toneladas de gelo, imagine. Na portaria há grossos capotes para a entrada no frigorífico humano, a menos cinco graus Celsius, com música e bebidas, vodca, especialmente. Coisa de esquimó. Logo chego ao princípio da rua, a desnudar o Coliseu iluminado, logo à frente. Do lado direito, ao fundo, o Arco de Constantino (século IV) e o Monumento - pela unificação da Itália - a Vittorio Emanuelle II, do século passado, também conhecido por “bolo de noiva”, por ser todo branco, construído em mármore. Isso é o que vislumbro, olhando para a esquerda e a direita, da entrada da Via della Madonna, do teto de um velho/antigo hotel onde fico. Não tenho jeito para guia turístico. No Coliseu, todos sabem, após a morte de Jesus, cristãos passaram a ser sacrificados. Francisco vai mergulhando na história romana e resolve conhecê-lo de perto. Sabe do local do holocausto. Viu-o, agora, com vagar, e ficou chocado. As multidões, italianos e turistas, o protegem e o aplaudem. A Itália, vide Roma, recebeu de Dante Alighieri, em sua obra “Purgatório, escrita há setecentos anos, o seguinte comentário: “Ah, Itália, escrava, abrigo de dor,/ nau sem timoneiro em grande tempestade,/ não senhora de províncias, mas de bordel!”. Hoje, na contínua e profunda crise de governança, a Itália alegra-se com os curiosos turistas católicos a aplaudir Francisco, um Papa solitário e atônito, depois da conversa com Ratzinger e das notórias divisões internas da burocracia do Vaticano. Ela, a tudo governa. Saber a língua da terra não o torna nativo. Ter sido eleito - com sua idade - em meio a tantos arranjos, o faz achegar-se ao povo. Socorre-se dos peregrinos, mais a cercá-lo por curiosidade, que ouvi-lo nas prédicas nas manifestações públicas. Teme os Césares de sotainas vermelhas. A Madonna do Monte fica de olho. João Soares Neto CRONISTA CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/04/2013. - [SÁBADO E RAMOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sabado-e-ramos-diario-do-nordeste/): Foi em 1965 a primeira visita. Jovem, consegui entrar nos meandros do Concílio Vaticano II. Sai triste. Agora, sábado, 23, voltei. Entrei na Basílica, passando pelo grande átrio repleto de cadeiras de plástico preto desbotado, áreas divididas e protegidas por grades para conter multidões. O altar externo sendo montado. Um helicóptero sai do Vaticano para o Castelo Gandolfo. Bergoglio e Ratzinger conversaram a sós. Usavam branco. São prisioneiros da burocracia dos cardeais sedimentados em postos chaves. Sabem disso. Francisco I,não por acaso, tem um só pulmão, 76, depende do labirinto. Reví, com vagar, o esplendor das artes nas paredes e tetos, os mármores, os altares laterais e ao subsolo onde fica o mausoléu dos papas. Não vi modéstia alguma. Essa a razão da tristeza de 1965. Ela voltara. Confessionários multilíngues, vazios. Ao sair por porta lateral, à esquerda, vi o ridículo da guarda suíça, fardas multicores e calções em balão. Passo pelo Castelo de Santo Ângelo, cruzo a ponte e chego à apinhada Via Del Corso. Berlusconi fizera comício na Praça do Povo. Paro e entro num “pub” irlandês. Medito. Amanhece, saio rápido para a cerimônia do Domingo de Ramos. Trânsito caótico. Entro na cidadela repleta, 250 mil. Poucas bandeiras brasileiras. Francisco I, na sua homilia, fala de “não nos roubarem a esperança” e, depois, na festa da Juventude “na Rio”. Grito só: Rio. Depois, sobe no carro aberto. Acena, abençoa, e beija crianças, deficientes e idosos. Volta ao claustro. Minha esperança: a Igreja deve sair de Roma para resistir. Que tal a África? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/03/2013 - [APONTAMENTOS DE VOLTA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/apontamentos-de-volta-jornal-o-estado/): 1. A MENINA, O POMBO E A VIDRAÇA - Uma menina loura com pitó, tipo Pedrita, espanta um pombo a catar sobra de comidas. Ele entrou por alguma porta, pois não há janelas nesse barulhento aeroporto. Estou defronte a uma vidraça a exibir, em primeiro plano, as pistas em uso de pouso e decolagem com seus movimentos e ruídos. Em segundo plano, uma sequência de árvores ao pé de uma rodovia por onde veículos queimam combustíveis e transportam cargas, angústias, sonhos, esperanças, doentes e outros tantos desprovidos de desejos ou conformados com o desengano. Eu cá, eles lá, enquanto um branco avião corta o ar e logo se esfuma. Ia em direção à esquerda, mas não estou bem certo, pois não sei como fico em relação aos pontos cardeais. Pessoas ao meu redor leem livros, usam os telefones e nano transmissores para dar notícias a quem sequer pediu ou deseja recebê-las. Chove. 2. PAÍS DO CONTRA - Estive no país do contra. Lá a moeda é a deles, as dos outros só servem nos cambistas a explorar incautos com “fee” inexistente. No chão, o escrito pede para se olhar ao contrário do costume.Os veículos vêm sempre do jeito não esperado. A língua dos nativos-ou dos treinados para parecer como tais – é soprada,aspirada,afetada e parece aformosear quem fala. Há muita gente na rua, de todas as raças, e o encanto da grande loja de esquina decorada externamente com luzes de um Natal faltante, atrai o passante. Uma vitrina é decorada apenas com frascos de perfume seguros por fios. Os frascos começam finos, aureolados, e terminam bojudos, daí a inflexão para cima ou para baixo, depende do olhar de quem os vê. É a alternativa encontrada para os vazios de espírito? Ou mero fetiche? Todos deveriam descer ao subsolo quase vazio e olhar a canhestra homenagem com as fotos, circundadas por flores de plástico, da ex-princesa com o rapaz arábico, filho do ex-dono. Foram quase--namorados, quase-amantes, quase-casados e se finaram em túnel do outro lado do canal da Mancha. Em alta ligeireza. As fotos banais são quase encobertas por uma exposição de peças egípcias, mais antigas do que as três pirâmides matizadas pela areia e o vento do deserto. E a escada sobe. Saio da loja e entro na Abadia Maior para o serviço das cinco da tarde, quarta, 20 de março e revejo o latim nas partituras e nos cânticos entoados com decência e aprumo ao som de órgão não profano. O novo arcebispo da Cantuária assumira naquele dia. Há duas falas, ele e ela, e nenhuma delas mostra empáfia, apenas recitam salmos e os contextualizam ao dia frio e nebuloso de lá fora. Keep calm and carry on. 3. A VOLTA – Voltei apressado. Demorei metade do planejado. A vida estava a chamar-me por benquerença. Voejei. Fui direto ao hospital. O pingar repetido de um soro aditivado com anti-coagulante realçava a respiração contida, a energia e a força da genetriz e amiga, a recuperar-se, oxigenada, de uma embolia. “Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo”, dizia Octavio Paz. Será? João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/03/2013. - [HISTÓRIA, CULTURA E PODER - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/historia-cultura-e-poder-diario-do-nordeste/): O Instituto do Ceará e a Academia Cearense de Letras, entidades centúrias da história e da cultura cearenses estão programando contatos oficiais com as esferas de governo. Os seus integrantes acreditam ser importante a aproximação efetiva com o Banco do Brasil, a Caixa, o BNB,a UFC, o Governo do Estado, a Assembleia Legislativa, a Prefeitura de Fortaleza, a Câmara de Vereadores, Senadores e deputados federais e o Poder Judiciário alencarinos. O Instituto do Ceará, com sede à Rua Barão do Rio Branco, na Praça do Carmo, e a Academia Cearense de Letras, na Rua do Rosário, ao lado da Praça General Tibúrcio, possuem sedes, aparentemente majestosas, mas com instalações mais que centenárias a precisar de reparos urgentes e cuidados, sempre respeitando o patrimônio histórico a quem recorrerão para rever projetos culturais, de manter a forma original, correta e objetiva para que possam recuperar o ofendido pelo tempo. A par disso, existem acervos históricos e culturais a enfeixar a vida cearense, desde o Império, a implantação da República e todo o século XX. Esse conjunto de fatos enseja as justas pretensões do Instituto do Ceará e da Academia Cearense de Letras em manter diálogos, receber a atenção e os recursos das esferas de poder do Estado. As ajudas são indispensáveis à sua continuação eficaz em tempos novos, ainda não consagrando a história e a cultura como relevantes ao desenvolvimento orgânico do povo. A ansiar não lampejos, e sim ações reais e permanentes com alvíssaras para a historiografia, a educação e as letras da terra de Alencar. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/03/2013 - [DOU UMA VOLTA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dou-uma-volta-jornal-o-estado/): O meu corpo dá avisos. Ele vai me dizendo quando estou abusando dele. Agora, por exemplo, ele teve uma conversa comigo e pediu para tirá-lo do trânsito da cidade. Varo-a quase todos os dias e o faço em horários desencontrados, dirigindo o meu carro, ouvindo notícia ou música, mas ando cansado de tantos semáforos, de motocicletas cortando pelos dois lados e das calçadas cheias de cone. Cada pessoa estabelece a propriedade de sua calçada e a adorna com cones, latas cheias de concreto ou correntes com a placa: não estacione, sujeito a reboque. Ora, toda calçada ou passeio é público e se não há medalhão oficial de estacionamento proibido, aquele redondo com um “E” cruzado por uma barra transversal vermelha, afixado em postes, você pode parar. Além dos proprietários das calçadas e dos passeios há os donos das ruas, os flanelinhas. Esses são em profusão e agem de forma acintosa com um pedaço de pano sujo em uma mão e uma garrafa de água na outra. Alguns, para ser justo, não usam proteção na cabeça e têm o sol como infernizador de seus juízos parcos e abusam na intromissão ao bater nos vidros, fazer gestos e até dizer palavrões. Estou cansado de não poder abrir a janela para sentir a brisa da noite. É inseguro. Estou cansado dos “spams” recebidos em meus computadores, o de casa e do trabalho. Reclamo do provedor e da empresa de manutenção mensal dos ditos. Não consigo me ver livre de empresas telefônicas, de receitas para emagrecer, de como ser viril, de maravilhas de toda a ordem, lugares paradisíacos a preços de nada, de promoções disso e daquilo, sem falar nas orações e nos que falam bem ou mal de governantes. Vou dar uma volta por aí. Vou e volto logo. Sou um trabalhador inveterado e preciso escrever para dar sentido a uma vida com tanta baboseira e pessoas cheias de melindres, mostrando camisas, relógios, carros, casas e falando de si mesmas. Tal como estou fazendo agora. Outras, decisivas à cultura nacional, cientes de sua capacidade intelectual e literária, ainda não mostrada em livros não escritos, pois aguardam o tempo da obra prima surgir. Políticos loteando o governo, asfixiando a presidente Dilma com 39 ministérios. De muitos ministros, sequer sabe o nome. Eles se empavonam em viagens a seus estados a deitar falações em aeroportos, em jornais, em blogs, em rádios suas em nomes de amigos e em programas amestrados em televisões camaradas. Peço desculpas a você por estar escrevendo assim tão bobamente. Acontece. Estou indo atrás do tempo de nada, seguindo Drummond: “tempo disso, tempo daquilo, falta o tempo de nada”. Será possível encontrá-lo? Ninguém me diz o endereço, sequer o caminho, nem o sabichão “Google”. Assim mesmo, vou dar uma volta sem muito aprontamento e desprevenido. Volto logo, talvez esteja viciado no dia-a-dia deste mundo sem dono. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/03/2013. - [O Sistema ´S´ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-sistema-s-diario-do-nordeste/): Poucos brasileiros se dão conta de que sustentamos um pesado grupo de instituições a dominar o Sistema "S", criado nos anos 40, quando Vargas era o ditador do Brasil. Esse sistema se mantém firme e forte, elegendo representantes classistas para as diversas esferas do legislativo brasileiro, promovendo escândalos (houve agora um na do Comércio), logo encobertos, trafegam em Brasília para pouco fazer, com status, passagens e diárias pagas com o dinheiro das empresas que, muito pouco, se beneficiam dessa formação, quase sempre paga, e das áreas de lazer, pouco usadas. Esse condomínio quase não fica visível para o grande público. O art.149, da Constituição, manteve esse status quo. Segundo o tributarista Roque Mazza, ele "deve perseguir a finalidade do interesse público". O professor Hugo de Brito Machado refere que é uma intervenção no domínio econômico, há o interesse das categorias profissionais/econômicas e a seguridade social. Com a criação dos Cefets, antigas escolas industriais, hoje profissionalizantes de ensino técnico e superior, parece desnecessário esse Sistema S. Essas confederações e afins (agricultura e pecuária, comércio, cooperativismo, indústria, transporte, Sebrae, fundo aeroviário, diretoria de portos e costas e Incra) recebem contribuições das empresas, descontadas regularmente, sem que a mão-de-obra nacional tenha evoluído quase nada nestes mais de 70 anos dessa grande dádiva. Os seus dirigentes são eleitos por sindicatos controlados por grupos não muito representativos das empresas que, diga-se, são quase omissas e os mais antenados dominam bilhões. Até quando? João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/03/2013 - [ONTEM, DIA DA POESIA - HOMENAGEM A FRANCISCO CARVALHO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ontem-dia-da-poesia-homenagem-a-francisco-carvalho-jornal-o-estado/): Socorro-me com José Anderson Sandes, um jornalista tornado professor, e com José Lemos Monteiro, escritor e professor da Universidade de Fortaleza, para falar um pouco de linguagem ética, em homenagem ao 14 de março, Dia da Poesia, ontem acontecido.Poesias relembrando ainda Castro Alves, o grande condoreiro, e parabenizando a Regine Limaverde, uma poeta moderna, também nascida nessa data. Sandes era o entrevistador, ao seu tempo de editor no Diário do Nordeste, em 02 de março de 2009, quando dialogou com Lemos sobre a linguagem poética. Lemos recorre ao formalismo russo, quando afirma: “os formalistas estiveram preocupados em descobrir aquilo que realmente caracteriza um texto como expressão poética. E, assim propuseram o princípio de que não é o autor, mas o modo peculiar de cada obra que deve ser objeto de cada análise. Em função disso, passaram a valorizar e pesquisar os elementos que se encontram imanentes no texto poético em si mesmo, como o estrato sonoro, o ritmo, a métrica, a rima etc”. Tudo isso é para dizer a você ter sido escolhido o poeta grande, Francisco Carvalho, recentemente falecido, como o centro das atenções em exposição aberta pela Galeria BenficArte e a Academia Cearense de Letras. Foram escolhidos 14 poemas de Carvalho e mostrou-se a sua fortuna crítica. A Exposição está em curso e é gratuita. Se você, caro leitor, chegou até a este ponto, certamente tem a sensibilidade de saber da importância da poesia na nossa vida. Dizia a Madame de Stael, escritora francesa do século 18: “A poesia é a linguagem natural de todos os cultos”.É verdade. Entretanto, há pessoas a formular poesias, bastante diferente de ser poeta. Se ela não brotar como as águas surgidas por trás de uma pedra em pleno deserto, será um arranjo poético, se tanto, nunca uma poesia. Louvo-me, outra vez, de Lemos para ir a Carlos Drummond de Andrade em seu poema “Ao Deus Kom Unik Assão”, na verdade, “Ao Deus Comunicação”. Pois bem, em parte desse poema, CDA, com todo o seu direito poético, escreve: “Eis-me prostrado a vossos peses/ que sendo tantos todo plural é pouco”. A ironia dele ao usar “peses”, como plural de pé, é parte de sua estilística. Estariam os poetas a fugir do encontro com o sentimento e com a sua individualidade? Ortega y Gasset, filósofo espanhol falecido no primeiro quinto da segunda metade do século passado, asseverava: “Não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria”. Francisco Carvalho era um criador de verdades. Veja estes versos: “Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração/ e o quanto sobra do naufrágio/das nossas utopias”. Ou quando fala, parecendo a fechar a última página do tempo maduro: “As minhas mãos/ já foram robustas/já plantaram/sementes de milho/nas terras dos filisteus/hoje só semeiam/ as lavouras do adeus”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/03/2013 - [FUTEBOL E GESTÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/futebol-e-gestao-diario-do-nordeste/): O Brasil está cheio de estádios novos. Caros de manter. O Brasil está apinhado de dirigentes ultrapassados, dos clubes da terceira divisão ao presidente da Confederação Brasileira de Futebol. Caros de manter. As “arenas” precisam de novos gladiadores, menos mercenários, de novos espectadores, não os do tipo romanos a pedir sangue ou a causar mortes. Precisam de novos árbitros, não os de encomenda, a decidir partidas em lances dúbios. Precisam de oxigenação, não de pelegos, como os das entidades sindicais e os de algumas patronais. Precisam de novos anseios, metas e resoluções. Não as engendradas pelo compadrio, uma das maiores doenças endógenas da pátria mamada. Desculpe, amada. Faz tempo, o Brasil roda em círculos com as mesmas pessoas a usar clubes e entidades para ascensão social e financeira, posar na mídia amistosa, criar afinidades, aqui e alhures, comandar viagens e até causar desvios graúdos, com repercussões internacionais e acordos ajuizados a encobrir ‘comissões’ polpudas em transações não públicas. Hoje, aposentados, políticos e policiais, ocupam postos de direção dos maiores clubes e de entidades. Nada contra, mas por quê? Quem quiser confirmar o dito, entre nos sites dos clubes e veja a formação de seus dirigentes. As “arenas” novas foram impostas pela Federação Internacional de Futebol, uma espécie de ONU sem obrigações e muitos direitos. Seus dirigentes posam de estadistas e trafegam fácil entre governos. A cada quatro anos há um leilão para a escolha do local da próxima Copa do Mundo. Cobram tudo e dão nada. A propósito, você lembra quando e onde o Brasil ganhou a última Copa? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/03/2013 - [ANTIGAS E NOVAS MULHERES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/antigas-e-novas-mulheres-jornal-o-estado/): “Te ofereço um ramo de fogo/do pomar da lascívia/um ramalhete de todas/as pulsações da vida”. Francisco Carvalho (1927-2013) Neste Dia da Mulher, neste orbe comum ao sexo feminino, não tão femíneo como o conhecemos no século passado, saúdo, parabenizo e louvo as novas mulheres. Elas tomam as rédeas de países, estados e cidades, de parlamentos, de forças armadas e polícias, de instituições financeiras pátrias e internacionais, formam opiniões na imprensa, protestam em público, ensinam e comandam escolas e universidades, efetuam pesquisas, aquinhoam a magistratura, constroem edifícios, chefiam empresas, e ocupam, cada vez mais, assentos de ônibus, trens, táxis e aviões, atarefadas com os seus celulares, i-Pads e notebooks, equipagens simplificadas e agendas lotadas. No entanto, por respeito, tenho a ousadia quixotesca de ressaltar, mesmo de leve e por princípio, as antigas mulheres/mães, hoje apenas uma das múltiplas faces da fêmea pós-moderna: aquela a acordar cedo para malhar ou andar, maquiar-se, fazer o seu próprio café e dirigir-se ao trabalho, após definir o dia dos filhos. Sou filho da mãe em tempo integral, com nove filhos, decidida, prestimosa e cuidadosa do estudo, conduta e vida de cada um. Hoje, aos 93 anos, sabe – e se orgulha disso – ter criado filhos responsáveis, autônomos e alforriados para ousar e fazer os seus próprios caminhos. Um terço dos seus filhos criou asas. E foram exato as mulheres, as voadoras. Uma, socióloga, vive, com o marido médico, na Alemanha, onde as duas filhas estudam medicina; outra divide o tempo entre os EEUU e o Brasil; e a terceira moureja no Piauí, onde foi funcionária federal de nível superior, professora universitária e, agora, já aposentada, comanda com o marido e filhos um crescente negócio a envolver quase todos, exceto a filha médica ora entranhada na Amazônia. A mulher de hoje não é santa, tampouco satã. Sabe dos seus direitos e não vê no homem o mero amparo, o pagante das contas, mas alguém com quem dividir os sonhos raros e as muitas agonias da vida. Está na hora dos legisladores dos parlamentos do mundo deixarem de fazer distinções de gênero, sem privilégios, cotas e com obrigações recíprocas. Falo do mundo ocidental, pois pouco sei dos meandros dos seguidores de Buda, Maomé, Alá, Lao Tse, Confúcio e outros. Embora inclua idas por lá, mais de uma vez, não captei a essência de suas filosofias, preceitos e crenças. Voltando aos jovens pares, creio ser tempo de abertura de uma nova ordem familiar, a do compartilhamento, com alvedrio. A do entendimento, sem submissão. A do enfrentamento conjunto de dificuldades para a solução possível. A dissolução, quando o enlace acaba. Fim das aparências e conveniências. Mulher não é só paixão, tampouco formas voluptuosas, mas pessoa, além disso. É sensatez com bússola ou GPS inatos a desbravar os intrincados mistérios do mundo real, velha casamata vencida e quimera de homens carcomidos de um tempo roto, já transposto e sem retorno. Simone de Beauvoir, uma libertária francesa, do século XX, falava: “Nenhuma mulher nasce mulher, torna-se.” A frase é de efeito. Ela queria dizer apenas ser dado a ela a obrigação de lutar, trabalhar, igualar-se, ter senso crítico, a não repousar acomodada à espera do divórcio, da viuvez e dos cobres. Parabéns às novas mulheres, não necessariamente, mulheres novas. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/03/2013. - [AFETAÇÃO E EDUCAÇÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/afetacao-e-educacao-diario-do-nordeste/): Tem-se notado, neste país e mundo afora, uma geração de jovens adultos completamente desinteressada pela realidade da vida, da política e do futuro. Essa geração, não por seus méritos, teve a sorte de nascer de pais trabalhadores, estudiosos, criativos e ativos na produção do bem-estar de suas famílias. Assim, eles, após programas de viagens pagas de intercâmbio ao exterior, passam em vestibulares e surgem em carros reluzentes, a disputar, no vácuo de valores essenciais, relógios, roupas de marcas, férias, hotéis, moradas, restaurantes e baladas. As contas pagas, quase sempre, com cartões de crédito das famílias. Há uma peculiaridade entre a maioria desse contingente: confundem afetação com educação. A afetação é a representação da ‘persona’ criada a partir da versão entendida por boas maneiras, um mero verniz. Tratam bem o empregado desde admitido pertencer a outra casta. Até podem gerir, porém não mourejam como os pais o fizeram. Frequentam o trabalho com enfado, pois têm mais a fazer. Não se pode generalizar, é claro. Esse fato causa problemas em processos de sucessão de empresas familiares. Pequenas ou grandes. Nos tempos de hoje os casamentos não são eternos. Acabam na justiça ou acordos ou se mantêm por interesses. Surgem conflitos. E a canoa vai. Ou se esvai. A educação é basilar, natural, livre, refere sentimentos de alegria, de tédio, de revolta e de respeito. A afetação é pretensa, para uso exterior. Não são raros os casos de rupturas e decadências familiares logo na sucessão, pela inapetência dos descendentes. Cumprem luto breve e dividem o butim. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/03/2013 - [FACULDADE DE DIREITO – 110 ANOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/faculdade-de-direito-110-anos-jornal-o-estado/): A história da Faculdade de Direito do Ceará, fundada em 21 de fevereiro de 1903, tem quase o dobro de vida da Universidade Federal do Ceará. Sua primeira sede foi no prédio do atual Museu do Ceará, na rua São Paulo, e o seu primeiro ano letivo foi aberto exato em um 1º. de março, como hoje, pelo seu primeiro diretor, Nogueira Acioly. Hoje, sexta, 1o. de março de 2013, às 19h00, o reitor da UFC, Jesualdo Farias, e o professor Cândido Albuquerque, ex-aluno, advogado referência, ex-presidente da OAB-CE e diretor atual, abrem as comemorações dos 110 anos da nossa velha, mas sempre revigorada, escola de direito. Berço maior das ciências sociais e jurídicas do Ceará. Igualmente, foi a semeadora da cultura e da política cearense no último século tendo produzido o maior número de governadores do Estado. Ao me inscrever para o vestibular de 1961 tive a impressão de ser a escadaria do prédio velho bem mais alta. Na minha imaginação, eram muitos degraus a subir. A importância do passo a dar deu-me essa percepção. As provas eram escritas e orais. Lembro da banca de Português. Perguntaram-me sobre um “que” em determinado texto. Cioso, respondi ser um pronome relativo. Os três examinadores olharam para mim e um deles disse: “Tem certeza?” Com nervos à flor da pele, redargui. “Tenho, sim”. Riram e o professor Miramar da Ponte olhou para mim e disse: “Você está certo”. Aliviei. Havia Latim no vestibular e tínhamos de estudar as “Catilinárias”, de Cícero. O professor Agerson Tabosa foi cavalheiro, como constatei depois, e pediu para recitar o seu início. E o fiz: “Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra. Quamdium etiam furor iste tuus nos eludet”. Era só o gravado na memória e ele, felizmente, não pediu mais. Após o exame de inglês, vi-me aprovado. Foi a glória. No primeiro ano tive a honra de ser aluno do professor Heribaldo Costa, em Introdução à Ciência do Direito, um dos mais brilhantes entre os primorosos Paulo Bonavides, Olavo Oliveira, Fran Martins, Roberto Martins Rodrigues, Aderbal Freire, Clodoaldo Pinto, Amorim Sobreira, Luiz Cruz de Vasconcelos e outros. Participei do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua. Em face do regime parlamentarista brasileiro adotado em 1962 o CACB resolveu eleger deputados. Éramos muitos candidatos e fui eleito no 2o. Lugar. O primeiro foi para Tarcísio Leitão, já a cursar o quinto ano. Colamos grau, de forma solene, na Concha Acústica da Reitoria da Universidade Federal do Ceará, então sob o reitorado de Antônio Martins Filho, na noite de 16 de dezembro de 1965. Nossa turma manteve, durante mais de 40 anos, uma reunião anual, sempre em torno do dia 16 de dezembro, no Náutico Atlético Cearense, organizada pelo brilhante advogado Stênio Rocha Carvalho Lima – a nos enviar correspondências e fazer contatos por telefone - a quem, na última reunião acontecida, conferimos um diploma de Mérito. O colega Ernani Porto e eu o saudamos Éramos mais de cem na turma. Muitos deles galgaram postos públicos, na magistratura, no ensino superior, no ministério público, na política, e a grande maioria ralou os seus cintos nas secretarias de varas em nossos tribunais. Seria injustiça citar alguns e a memória deslembrar de outros. Volto às comemorações. Sugiro, extra-pauta, a criação de um Instituto da Faculdade de Direito do Ceará, através do qual, os ex-alunos ou egressos, poderiam fazer contribuições e doações. Creio no dinamismo do professor Cândido Albuquerque para dar, neste ano de 2013, a visibilidade merecida à nossa vetusta Academia Livre de Direito do Ceará, seu nome original, dotando-a das condições materiais e de quadro de professores à altura da honra e glória de sua história como fomentadora de conhecimento. O ato de entender a vida, segundo Aristóteles. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/03/2013 - [DROGAS E VIDAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/drogas-e-vidas-diario-do-nordeste/): A liberdade invocada pelos americanos, constitucionalmente, para portar armas (não esqueça: a guerra é a constante na terra de Lincoln) parece ser a mesma dos adictos sobre as suas vontades. A decisão do governo paulista de internar os milhares de viciados em "crack", até contra as suas resistências, tem sido questionada. Sem entrar no mérito legal da discussão, lembro: não só os viciados em "crack", cocaína e outros causam problemas às suas vidas, às suas famílias e à sociedade. Não há um fim de semana sem alcoólatras a provocar mortes no trânsito ou crimes contra pessoas. No dia 23 de janeiro, a jornalista Iara Biderman, na Folha, entrevistou os psicanalistas Antonio Alves Xavier e Emir Tomazelli, autores do livro "Idealcolismo". Segundo eles, o alcoólatra é como um fanático religioso "porque ele transforma a bebida em uma substância divina. Ao beber o ´deus álcool´, comunga com essa substância... acredita que vira deus, não tem que enfrentar as limitações e frustrações do ser humano. Vira todo-poderoso e se entrega a esse ídolo que o faz sentir-se onipotente". Concordemos ou não com essa abordagem, os autores retratam o dependente: "deixa de ser humano, de se responsabilizar pelo que faz com sua vida - a culpa é do álcool, não dele. E acaba perdendo a sua parte ética, porque fica perdido em sua individualidade, sem considerar o outro". Como, mais das vezes, retoma a vida normal nas segundas-feiras, não traz sentimento de culpa e debita ao álcool os estragos feitos em família, amigos, ao dirigir ou ao se envolver em discussões causando danos morais a terceiros. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/02/2013. - [THOMAZ POMPEU E A ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/thomaz-pompeu-e-a-academia-cearense-de-letras-jornal-o-estado/): Desde 2000, a UNESCO - entidade da ONU a cuidar da Educação, Ciências Naturais, Humanas e Sociais, Cultura, Comunicação e Informação - consagra o dia 21 de fevereiro como o Dia Internacional da Língua Materna. Na noite de ontem, exato 21 de fevereiro deste 2013, na imensidão da abóbada celeste ainda não de todo desvendada, pairava no planeta Terra, no hemisfério sul, no Brasil, no Ceará, em Fortaleza, com a lua em quarto crescente, quase um plenilúnio, a Academia Cearense de Letras, reunida para falar sobre Thomaz Pompeu. Cultuou-se a língua e a linguagem. Aconteceu no Palácio da Luz, centro histórico de Fortaleza, na Rua do Rosário, defronte à Igreja dos Homens negros, asilo de segregados pela escravatura envergonhadora. Igreja essa ressaltada e descrita em tintas nas pinturas e nas músicas em ritmo afro de Descartes Gadelha. A palavra de Thomaz Pompeu foi lembrada a seus seguidores para exercer “a serenidade de investigadores da verdade”. A propósito, a acadêmica Ângela Gutiérrez já havia louvado em 2009, em discurso ali proferido quando da comemoração dos 105 anos da ACL, as suas múltiplas faces de jornalista, professor, pesquisador de história, geógrafo, educador, administrador público, pensador, homem de letras e empreendedor. Sobre essa face singular ela refere: “Por que relembrar o empreendedor, o pioneiro, que fundou a primeira fábrica de fiação e tecidos do Norte-Nordeste, atentando para o aproveitamento de nossa vocação algodoeira, que foi sócio majoritário e gerente da primeira Companhia de bondes do Outeiro, que foi fundador e presidente do Banco do Ceará, do Centro Industrial e da Associação Comercial, colaborando para o progresso da terra, na crença de que progresso e ciência deveriam andar de mãos dadas”. Outros empreendedores já integraram a referida ACL. Os principais: Antonio Martins Filho, o reitor fundador/empreendedor da Universidade Federal do Ceará; o jornalista Eduardo Campos, escritor, condômino dos Diários Associados e industrial; e o seu hoje presidente, o empresário imobiliário e bibliófilo José Augusto Bezerra. A propósito, o maior bibliófilo – amante e colecionador de livros – brasileiro foi também um empreendedor, José Mindlin, criador da Metal Leve. Os empreendedores citados confiavam e seus seguidores acreditam, além do arrojo em suas ações, no estudo, na informação, no conhecimento e na cultura, indispensáveis ao Brasil atual, a exigir qualificação para qualquer tarefa ou encargo. A educação e a cultura são chaves insubstituíveis para o futuro. Thomaz Pompeu já sabia disso. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/02/2013 - [RATZINGER E ROMA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ratzinger-e-roma-diario-do-nordeste/): Era uma vez um menino batizado, crismado, primeira comunhão, missas e, no bolso esquerdo, um terço de madeira. Comungava às primeiras sextas-feiras do mês. Entrou na universidade, convidou um doutor em Teologia para pregar a Páscoa. Empós, encontrou-se com o padre. Viu-o de roupas civis: o que houve? Pedi licença e questiono a minha fé. Deus existe? Cheguei a Roma no fim do Concílio Vaticano II. Com a ajuda de parente bispo, penetrei no conclave. Sentei-me e escutei. Eles adequavam a Igreja às mudanças. Aboliram o latim e a batina. Os padres, frente aos fiéis, celebrariam a missa no vernáculo de país e mais. Voltei outras vezes a Roma e sempre me espantou a pompa das cerimônias, a riqueza dos museus e a ridícula guarda suíça. João XXIII morre e surge Ratzinger. Estava a zapear a TV e parei numa estação americana. Ratzinger debatia sobre filosofia e fé. Impressionou-me sua cultura e não me surpreendi com a escolha. Fora lastreada na sua longa história Vaticana, na "Intelligentzia", chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, a julgar questões intricadas, desde a Inquisição. Ratzinger eleito mostrou-se cauteloso, em meio às intrigas. O Vaticano é uma Monarquia absoluta. Os fiéis não esqueceram João XXIII e em dos primeiros atos dele foi abrir a canonização, logo acontecida. Pedofilia, escândalos financeiros, divisões e intrigas entre a hierarquia. Elas debilitaram sua saúde e culminaram, após a prisão de seu mordomo, com o calculado gesto de renúncia. Sugestão: Vamos unir a Igreja de Roma à Anglicana e abolir o celibato? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/02/2013. - [LINCOLN – O filme e a Virtude JORNAL O ESTADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lincoln-o-filme-e-a-virtude-jornal-o-estado/): A história ou estória sempre é contada pelos vencedores. Os derrotados estão mortos, desaparecidos ou não têm espaço para contá-la. Vi o festejado filme “Lincoln” dirigido por Steven Spielberg, a partir de poucos capítulos do livro “Team of Rivals – The Political Genius of Abraham Lincoln, algo como Jogo de Rivais – A Genial política de Abraham Lincoln”. Spielberg está rico se dá ao luxo de bem escolher e dirigir. Ele desejava se acostar a D.W. Grifith(Abraham Lincoln) e a John Ford com (A Mocidade de Lincoln), grandes diretores e recriadores, cada um a seu jeito, de vários aspectos da vida do menino pobre até a sua chegada à presidência, mas assassinado no começo do segundo mandato. O Lincoln de Spielberg não conta a história de sua vida de 56 anos (1809-65). É apenas um breve recorte da sua atuação como estadista. Este “Lincoln” mostra, repito, um viés pouco notado na sua biografia. Abraham, como o profeta onomástico, guerreia para unir os americanos. A história é um intricado jogo de interesses entre os partidos Republicano ( o de Lincoln) e os Democratas, visando a aprovação da 13a. emenda à Constituição americana. Lincoln queria – e conseguiu - a abolição da escravatura e precisava jogar pesado para obter votos adversários na Câmara de Representantes. Assim, na verdade, houve distribuição de dinheiro e de cargos para os resistentes aos argumentos de Lincoln. Ao final, cederam. Tudo isso é mostrado, mas encoberto pela virtude/moral/ética calvinista: A pátria acima de tudo. Esse filme receberá prêmios e poderia ser visto por todos. Especialmente, jornalistas, políticos, advogados, cientistas políticos, magistrados, inclusive os membros do Supremo Tribunal Federal e, certamente, pelos apenados do 1º. mensalão. Houve uma manobra abjeta, mas ela tinha um objetivo nobre. A pergunta filosófica é: Os fins justificam os meios?. J.B. Butler, filósofo inglês do século 18 deve ter sido lido por Lincoln. Ele assevera: “A virtude, enquanto tal, considera consideráveis vantagens aos virtuosos”. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/02/2013. - [PARTIDOS E CARGOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/partidos-e-cargos-diario-do-nordeste/): O Estado brasileiro quer regular tudo e acaba não cuidando de muita coisa. Os políticos são essencialmente práticos e não acreditam em teorias. Dane-se a reforma política tão falada e nunca implementada. Querem saber, objetivamente, onde estão verbas, obras, empregos, viagens e visibilidade para eles. Os dos executivos até tentam estabelecer planos, padrões, referências e limites a essa busca sem fim de benefícios e pressões de algumas empresas, sempre ao lado dos governos, quaisquer que sejam. Imaginem, agora, o quanto estão sendo pressionados os novos prefeitos. Eles precisam de maioria nas câmaras municipais e isso só acontecerá se os vereadores ficarem ledos. Têm pleitos sempre maiores que a capacidade das urbes de absorvê-los. Uma legislação política esdrúxula permitiu a criação 30 partidos e seus dirigentes sabem o que pedir. Pedem cargos no primeiro escalão, comissionados sem exigir formação e experiência, exceto alguns, e a profusão de vagas “terceirizadas”, sem seleção, mão-de-obra locada a empresas amistosas. Todos devem ter ficha limpa, lembrem-se. Ninguém sabe, ao certo, quantos são os terceirizados nas 5.570 prefeituras brasileiras, sejam pequenas ou a da cidade de São Paulo. Os políticos têm tudo mapeado e inibem as tentativas sérias da imprensa e dos gestores para formar equipes eficazes. A sociedade, a que paga tudo, deve ter informações em nome da transparência com relatórios, infográficos e números. Cada Prefeito deve dizer como foi recebida a cidade e o que pretende, a partir da realidade, executar. Esclareça até março. Aguardamos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/02/2013 - [BANCOS, CLIENTES E GANÂNCIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bancos-clientes-e-ganancia-jornal-o-estado/): Estória velha: Um índio entra em um banco e pede mil reais emprestados. O gerente pergunta: o que você me dá em garantia? Minha canoa e o remo. Fecham o negócio. Quando o índio ia saindo com o dinheiro, o gerente fala: você deveria deixar o dinheiro aqui, é mais seguro. O índio, na sua sabedoria tabajara, indaga: e o que você me dá em troca? A nossa confiança, boa, boa, boa. O poeta americano Robert Frost bem define um banco: “é um lugar onde emprestam um guarda-chuva quando há bom tempo e, pedem-no de volta quando começa a chover.” Os bancos, inclusive os brasileiros, deixaram, faz tempo, de ter a função básica de prestar bons serviços a seus clientes. Alguns quebraram, houve fusões com agigantamento de poucos, surgiram os transnacionais. Há já relativo tempo figuram nas páginas policiais. Por trás dos mensalões havia banco com doações e empréstimos de mentirinha. Nas eleições sempre há doações de bancos. Quais as razões? Hoje, os bancos são apenas estruturas montadas organicamente sob as bênçãos do dinheiro do governo e do povo, para manipular o cliente com formas inimagináveis. Primeiro, todos clientes são suspeitos. Ninguém entra em banco sem passar por triagem. Como a segurança pública não funciona, todos são filmados, nivelados a marginais e alguns chegam a sofrer constrangimentos. Ao adentrar o paraíso, surgem filas, desinformações e o quase descaso no atendimento provocado pela automação e pelos baixos salários que pagam a bancários e estagiários que se restringem a fazer o mínimo necessário. Entretanto, como os bancos são dos que mais gastam com publicidade encantatória, há pouca crítica na mídia. Quando há. O Banco Central diz que controla as elevadas e automáticas taxas de serviços que cobram por quaisquer misteres solicitados ou não. Acresça-se o alvitre de gerentes, peritos em vender seguros, planos de previdência privada, consignados, cartões de crédito e débitos, capitalização, planos de saúde, fundos com taxas elevadas e outros mais. Suas corretoras de valores ganham em qualquer transação, quer o cliente lucre ou perca. Quase todos os bancários recebem metas de produtividade e, se não as cumprirem, rua. Quem quiser ler sobre reclamações e ação contra bancos acesse os jornais, sites e blogs dos sindicatos da categoria ou converse com ex-bancários. Vale a pena ainda consultar os décors, os prótons, o Ministério Público e a Justiça. São milhares de demandas e ações em curso. Asdrúbal, velho aposentado ranheta, diz sempre nas reuniões de família: Vocês conhecem algum banqueiro que tenha morrido de coração? E conclui, pimpão. Eles nunca usam o coração. Para concluir, Erich Fromm, escritor americano do século passado que falava sobre amor e vida, dizia que “a ganância é uma cova sem fundo que esvazia a pessoa em esforço infinito, sem nunca alcançar a satisfação.” João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/02/2013 - [BALADA DE FOGO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/balada-de-fogo-diario-do-nordeste/): Até bem pouco tempo não havia baladas. Havia perigo, mas a cidade nos entranhava. Não nos estranhava. Havia festa e bebidas, mas ninguém nos obrigava a beber. Maconha era a pior droga. Os que a fumavam eram “rabos de burro”, só cresciam para baixo. Hoje, as baladas aturdidas principiam nas horas em que os pais estão a dormir. Pode parece estranho, mas vivemos em outro orbe. Este cobra a muleta do aditivo, seja álcool, cheiro, injeção, fumo ou cachimbo. Ele pede a exposição colorida da tatuagem no corpo ou piercings na face. Quem não entra na roda é careta. Sofre o “bullying” pelo qual quase todos passamos, mas não sofríamos porque sequer havia sido avaliado. Agora, há danos em tudo, há sequelas em filhos que os pais cometem por amor, falta de saber e não existir cursos para pais. Somos todos aprendizes da vida em comum a produzir amor, união, ódio, indiferença ou descaso. Os jovens querem e devem ser livres para crescer e aprender. São resolutos e alguns entram em baladas de fogo sem limites para nada. Esta introdução é apenas para dizer que estou, como todos, abalado com as 234 mortes. Até agora. A propósito, li uma bela crônica, escrita por quem viveu em Santa Maria, RS. O jornalista Marcello Canellas, seu autor, a conclui assim: “Como posso adormecer, se mal despertei para o mundo? Como posso abdicar, se não brinquei o suficiente, não amei o bastante, deixei incompleto o edifício da minha história? Eu não choro só por mim, e nem meu pranto cai sozinho. Minha cidade é hoje o Brasil em luto, Minha juventude perdida é o meu país, perplexo e tonto, impotente a velar meu corpo. Santa Maria, rogai por nós”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/02/2013. - [BENFOLIA, DESCARTES GADELHA E GURGEL DO AMARAL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/benfolia-descartes-gadelha-e-gurgel-do-amaral-jornal-o-estado/): O 5º. Benfolia – Festival Carnavalesco demonstra para a cultura e a música cearenses o esforço, o arrojo e a capacidade do Shopping Benfica, sem ajuda pública, para o resgate do imo do carnaval de Fortaleza. Não é saudosismo, pieguice ou vanglória. É a afirmação da identidade que se perdeu nos últimos tempos com a proliferação de ritmos alheios às nossas origens e costumes. Em cada edição convidamos pessoas íntegras (professores universitários de música, carnavalescos, jornalistas, músicos, produtores culturais, radialistas, professora de História, integrantes de blocos etc.) capazes e com bagagem músico/literária para avaliar por critérios claros e abertos os que se destacam e chegam a finalistas como compositores e intérpretes. São 25 jurados para não haver dúvida sobre a escolha dos três vencedores e dois destaques, o melhor compositor e o melhor interprete do Festival. Haverá premiações em dinheiro e entrega de troféus. Agregamos, neste 2013, a participação de blocos de pré-carnaval que hoje são destaque nesta cidade de Iracema que tem no Benfica um dos seus pólos culturais. Chamamos para o nosso convívio as baterias dos blocos “Vassouras do Babau”, “Cachorra Magra” e “Coração Benfica” Homenageamos, neste ano, duas figuras especiais que representam a alma e o coração dos que usam seus talentos múltiplos como carnavalescos. São eles: -Descartes Gadelha, o pintor da cearensidade com figuras que são o que muitos negam, o músico que realça a afro-descendência nos compassos sincopados do maracatu, o combatente contra a sua vida ameaçada por moléstias que o limitam. Mesmo assim, é grande em sua inteireza e cidadania. Ele é um baobá da pintura, da marcação sincopada do triângulo, do bumbo e dos pandeiros da maior escola de samba, a Ispaia Brasa, que tanto brilhou em carnavais passados. -Gurgel do Amaral usa a maquiagem não como disfarce, mas com a sua capacidade de produzir no ser humano a autoestima carente de adornos. Ele faz da estética efêmera a sua profissão permanente de fé. Envolvem-se em mantos profanos, as fantasias, que engalanaram os salões de bailes pelo Brasil afora. Neste 2003, Gurgel do Amaral, completa 50 anos como esteticista e 30 anos de desfilante Brasil afora. Ontem, quinta-feira, foi a finalíssima da categoria Música, com 15 concorrentes. Hoje, sexta, às 19 horas será o desfile do concurso na categoria Fantasia Luxo, com 08 participantes. Tudo gratuito para quem quiser ver e participar. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/02/2013. - [TEATRO E WALMOR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/teatro-e-walmor-diario-do-nordeste/): Nas primeiras viagens ao Rio, eu precisava ver teatro. Essa percepção foi passada a universitários que tiveram a oportunidade de conhecer Pascoal de Carlos Magno, ator, teatrólogo, diplomata e agitador cultural, quando da vinda da “Caravana da Cultura” a Fortaleza. Pascoal queria descobrir novos talentos e ajudar na formação de público que o ouvia no velho teatro do Benfica, que hoje leva o seu nome. Trouxera, entre outros, Cacilda Becker, a grande atriz. Aqui, além de se apresentar, ela debateu conosco, jovens abertos para o que não sabiam. Cacilda era, então, mulher de Walmor Chagas. Pascoal e Cacilda nos afirmaram ser preciso ver teatro para entender a vida. Foi o que tentei ao assistir My Fair Lady e Hair. Depois, vi Paulo Autran, Procópio e Bibi, Sérgio Brito, Chico Anysio, Fernanda Montenegro, Eva Tudor, Tonia Carrerro e outros. Na Broadway, vi musicais ricos, bem montados, mas alguns são pernósticos. Ao final de 2012, Fernanda Montenegro, que viveu 60 anos com o ator Fernando Torres, falou da dor de ver a sua geração morrer e declarou: “O mais difícil é saber que você está na fase conclusiva da vida. É melhor encarar”. Relembro agora, faz anos. Estava a conversar com Arialdo Pinho, o pai, ao fim de uma peça, no Centro de Convenções. O papo demorou. Ia abrindo o carro quando Walmor – ele era o ator da peça – me aborda: pode me dar uma carona? Daí, fomos jantar e ele me falou, entre doses de bebida, da grande perda de Cacilda e, já então, da solidão do ator, fora dos refletores. Agora, leio que ele, ao fechar a cena extrema, provou que o isolamento e a velhice não distinguem pessoas. João Soares Neto, escritor. CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/01/2013 - [A MODELAGEM CARIOCA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-modelagem-carioca-jornal-o-estado/): Vista por João Soares Neto, que não entende bem do assunto, mas procurou aprender. Se conseguiu, é outra história. O Professor José Osvaldo Carioca me propõe uma tarefa difícil, discorrer, analisar ou ensaiar o seu escrito- futuro livro - “O Cérebro, a sua Mente e a Consciência”. O que eu sei disso? Li todas as páginas, cocei a cabeça e me deparei comoutra afirmação que me meteu medo: “Modelagem inusitada sobre a fisiologia do cérebro e da sua mente. Uma base científica para a consciência”. Ora, se é inusitada para quem mexe com ciências exatas, imagina para quem pouco sabe das humanas. Ele cita autores, pensadores, escritores, filósofos, cientistas, uns grandes, outros menores, que o caro leitor irá descobrir, página a página. Nacionais e estrangeiros. Contemporâneos, modernos e dos passados recente ou remoto. Leva-nos pelo olhar, frase a frase, para o passado, o presente e nos aponta dúvidas- ou seriam certezas? - sobre o futuro a descobrir. Cariocaemerge na sua química, escrita com “uma plataforma energética evidenciando as trocas de energia entre seres vivos e meio ambiente”. Ele controverte, palmilha e faz crença no palpável e no imponderável. Fé, ciência e futuro são, ao meu olhar leigo, o tripé formado para pincelar, em quadro imaginário, o seu juízo de valor. E o faz sem medo de ser avançado. Aqui, valho-me, graças a Deus, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) a me salvar em sua poética: “...as coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão.” O que mais teria eu a acrescentar? Digo que gostei do que li. Fui ate às conclusões, à bibliografia e entendo o sossego/inconformismo de um homem maduro que parece tentar sair do quadrado que a ciência lhe impôs e insurgir-se com teorias novas a partir do muito lido. Todos os teóricos estão em patamar ainda não pisado. Um filósofo, muito citado e pouco lido, o espanhol Ortega y Gasset (1883-195), dizia que “a ciência consiste em substituir o saber que parecia seguro por uma teoria, ou seja, algo problemático. “É isso, creio, o que fundamenta a pesquisa, por anos, do Professor Carioca, o cientista profético. Por outro lado, a fé que o anima na árdua tarefa de tecer semelhanças entre autores desencontrados faz-nos lembrar de Dostoievski (1821-1881), expoente do romance russo, ainda no tempo dos Czares. Ele acreditava que “a fé e as demonstrações matemáticas são duas coisas inconciliáveis”. Ora, isso ele escreveu em seu soturno quarto nos “Diários”, mas o escritor russo, mesmo de leve, quebra o gelo entre a abstração da fé e a rigidez da matemática. Ajuízo eu: O que é inconciliável acontece por emergir de um rompimento. Albert Einstein (1879-1955), um dos aludidos nos escritos que não precisa de apresentação, afirma em contraponto e a favor do Professor Carioca, em “Out of My Late Years”, que “a ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”. Bingo. Por último, tentando não perder o fio da meada, há o futuro, o amanhã, o que ainda está por vir, o vir a ser. Se é vir a ser é esperança ainda não orquestrada pela antemanhã. Estamos todos na noite que antecede o futuro, pois vivemos com um pé na memória do passado e o outro – não plantado no chão - no espaço do sonho, do que será o futuro. Isso, talvez, seja o nosso leitmotif. Dizia Giacomo Leopardi (1798-1837), poeta italiano, em um suposto diálogo entre passageiro e vendedor de almanaque em uma viagem de trem: “Aquela vida que é bela não é a vida que se conhece, mas a que não se conhece; não a vida passada, mas a futura. Com o novo ano, o destino começará a tratar bem a vós, a mim e a todos os outros, e vida feliz se iniciará. Não é verdade?” Ao que o vendedor responde: “Esperamos”. Tudo parece coincidir, portanto, com o que, acredito, espera o Professor Carioca quando diz ao concluir o seu trabalho de análise: “por processos realizados na quietude da mente e na proximidade dos estados de equilíbrio, aqui denominados de quase-estático, ou meditativos”. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/01/2013. - [JANO, 2013 - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/jano-2013-diario-do-nordeste/): Quase meia-noite. Resolvo ir à rua cumprimentar o janeiro a nascer. Sinto a brisa quente e relembro que na mitologia romana havia uma divindade, Jano, com duas caras. Uma mirava o passado, outra via o futuro. Vi o povo. Caras únicas? Tal como se vestiram para a não gala da noite. Iam e vinham. Cervejas, bebidas quentes, refrigerantes, churrasquinhos, sanduíches e pipocas. Tudo nas biroscas com mesas e cadeiras recicladas de outros usos. Policiais atentos. Vias perpendiculares apinhadas davam acesso ao grande palco. O resto: calçadão e areia. Essa mesma que nos tragará, um a um, se o final não for o crematório. Igualava tênis, chinelos, pés descalços, sandálias e sapatos femininos de todos os anseios. Os que as acresciam e os que as colocavam ao rés do chão. O branco, a cor mais vista, lembrou-me, sei lá, do disco de Newton, o sol alvo. Afinal, o locutor. Voz cadenciada. Foi retroativando os segundos vistos em telões desfocados. Luz. Sons. Começou o artifício. Artifício pode ser arapuca, astúcia, cilada e mais. No entanto, os fogos ali, para o povo, eram pirotecnia, engenho e arte com formas mis em cores vivas, encadeadas nas elevações e quedas. Miríades do imaginário dos que usam a pólvora e aditivos para pontuar o céu de estros sutis por minutos. As últimas fagulhas quedaram-se com Netuno. Artistas no palco. As pessoas saíram do transe embevecida. Aprestaram-se a tomar os caminhos vários de suas casas, perto ou longe da folgança. Surgia o janeiro, o das duas faces. A parca a levar pessoas ativas e queridas para o ignoto. Mas há choros novos em maternidades. Te Deum laudamus. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/01/2013. - [JOVENS, ESTUDOS, CONCURSOS E VIDAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/jovens-estudos-concursos-e-vidas-jornal-o-estado/): O mundo deu um giro em seu eixo e eis que jovens, sem oportunidade de colocação – ou seria de qualificação? - em empresas privadas, viraram “concurseiros”. São milhões em um país que se ressente de bons profissionais em todas as áreas. Mal acabam de terminar o secundário e alguns estão sequiosos para voos menos longos. Outros, de posse do bacharelado nas várias profissões, aventuram-se em caminhadas mais duras e varam o Brasil de ponta a ponta a busca da segurança que o emprego público parece, ainda, oferecer. Vão à procura de tudo, e nada será tão fácil como dizem. A propósito, foi aberto o edital para fiscal do ICMS em SP, com 885 vagas, 12 mil mensais. Exige superior completo em qualquer área. É preciso garra, coragem e estudo. Esse fato não acontece só no Brasil. Na Itália, em crise, novembro passado, houve um concurso para 11.500 vagas de professor de escolas públicas. Foram inscritas 321.000 pessoas. A fonte é do NYT. A esses concurseiros desejo boa sorte, mas os desafio a pensar um pouco em suas próprias vidas. Será que os seus estudos, desde o fundamental, foram levados a sério? Ou, só agora, após distribuir currículos com amigos, parentes, empresas, jogá-los nas mídias sociais e agências de recursos humanos é que descobriu a deficiência da própria linguagem, abismado com o que exigem e a concorrência? Não é mais diferencial ter conhecimentos básicos de informática, é obrigação. É preciso ter foco e saber o que se deseja da vida ou na vida. Matricule-se nos bons cursos que complementam a sua formação não tão burilada e apreste-se a estudar muito para que o tempo não corra mais que os seus sonhos. Não estou sendo rigoroso, apenas falo com você (ler jornal deve ser um hábito e um ato individual). Se alguém lhe passou este escrito é porque aspira o seu bem. Há tanta oportunidade para os que estão abertos a desafios, mas é preciso a contrapartida dos seus fundamentos, os seus alicerces escolares. E da formação ou educação recebida em casa. Edmundo De Amicis, escritor italiano, dizia, a propósito que “a educação de um povo pode ser julgada, antes de mais nada, pelo comportamento que ele mostra na rua. Onde encontrares falta de educação nas ruas, encontrarás o mesmo nas casas”. Reveja-se e acredite que se algum amigo seu conseguiu ser aprovado no concurso que você cobiça, é hora de trocar ideias com ele. Saber quantas horas ele estudava por dia, como era o histórico escolar dele ou se foi fruto da sorte. A sorte é o acaso. Não seja aquele que desiste fácil, concentre-se e dê um tempo nas baladas, nas cervejotas, nos “rachas” de futebol, no casamento ou acasalamento e encontre companhias que tenham sonhos audaciosos, iguais ou maiores que os seus. Garcia Lorca, apesar de poeta, dissente de mim quando dizia: “A vida não é sonho. Acorda! Acorda! Acorda!” Rebato o Lorca com Guimarães Rosa, através do Riobaldo, seu personagem em “Grande Sertão, Veredas”: “Um sentir é o do sentente, mas o outro é o do sentidor”. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/01/2013. - [MÉXICO, ALÉM DO FUTEBOL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mexico-alem-do-futebol-diario-do-nordeste/): O Brasil (Rio, Fortaleza e Salvador) receberá a seleção do México em junho para a Copa das Confederações. Você sabe algo mais sobre o México além de estereótipos? O México foi descoberto pelo espanhol Hernan Cortés, em 1519. Ele desembarcou na pequena ilha de Cozumel sendo recebido pelo chefe dos astecas, Montezuma, como a reencarnação do deus Quetzalcoatl, que havia, segundo a lenda, ido para o Oriente. A matança propiciada, a seguir, provou que Cortés não era o deus esperado, mas o invasor para dominar. A Independência ocorreu em 1810. O México não fica na América Central, mas na América do Norte. É belo, diversificado e exuberante. É referência em crescimento econômico, cultura, educação e esportes. Tem indicadores positivos. Vejam: 93% da população mexicana - de 115 milhões - é alfabetizada, 95% dos domicílios têm água potável e 85% têm rede de esgotos. A expectativa de vida é de 77 anos, o governo gasta 5% com educação e o turismo propicia a entrada de 21 milhões de pessoas/ano. É detentor de três prêmios Nobel. O Alfonso García, o da Paz, em 1982; Octavio Paz, em 1990, o de literatura; e, em 1995, Mario Molina, o de Química. No futebol, faz tempo que os canarinhos não os vencem. A Universidade Nacional - UNAM, fundada em 1551, tem quase 300 mil alunos. O novo presidente, Enrique Peña Nieto, advogado, 46 anos, assumiu em dezembro passado, pleno de ações. É do PRI-Partido Revolucionário Institucional, que retoma o poder após os governos de Vicente Fox e Felipe Calderón. No México não há reeleição, mas mandato de seis anos. Você sabia? A mídia internacional, com poucas exceções, só destacou, nos últimos anos, a luta de Felipe Calderón contra os cartéis do narcotráfico, sem dar ênfase que eles têm origem na América do Sul e se destinam aos Estados Unidos. O México, por questões geográficas e da sua larga fronteira com a nação de Thomas Jefferson, é o caminho natural, especialmente através de passagens a vau pelas águas do Rio Grande. O presidente Peña Nieto está reorganizando o Ministério da Segurança Pública para coibir os narcotraficantes e mostrar ao mundo quem são os verdadeiros mandatários dos cartéis que lucram bilhões por ano. Eles ficam, quem sabe, talvez na outra margem do Rio Grande. João Soares Neto, Cônsul Honorário do México. CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/01/2013 - [FAMÍLIAS E NEGÓCIOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/familias-e-negocios-jornal-o-estado/): Desde há algum tempo tenho participado, aqui e alhures, como ouvinte, moderador, debatedor e palestrante de aulas, discussões, seminários e cursos sob o pomposo nome de “educação corporativa”. Na realidade, a denominação vem do inglês e deveria ser outra, pois nem todos os negócios são corporações. Corporação é algo mais complexo. Estrutura definida por estatuto, filiais, normas e leis societárias. Negócio é algo mais simples, desde vender frutas ou roupas, até o que uma pessoa, família ou grupo possa criar, produzir, sistematizar e gerir antes de se transformar, com o tempo, valores, lisura e solidez, em corporação. Tenho ouvido recorrentes queixas de pais e de filhos. Os pais se lastimam. Saíram do nada para montar um negócio e, quase sempre, não têm a colaboração dos filhos adultos como desejado. Alguns filhos se imaginam sabidos e críticos com o jeito simples dos pais gerirem o que lhes deu sustento, instrução e, quiçá, luz social. Por outro lado, filhos há a olhar os pais como retrógrados, cerceadores de seus ímpetos, ideias e a não acompanhar o desenvolvimento. Uns e outros podem estar certos e errados. Devem buscar entendimento. Mas há um laivo a me agredir em nota no jornal “Valor”: dois irmãos fundaram um negócio. Ele cresceu. Um dia, um deles morre. Os filhos do morto e os seus primos, filhos do irmão sobrevivente, tomaram o controle da já corporação. Deu-se o caos. Esses fatos, pouco conhecidos, causam traumas familiares e as empresas, enfraquecidas. Confúcio, sábio chinês, dizia: O respeito para com os pais e irmãos é a base da superioridade.” João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/01/2013. - [ALMOÇO EM FAMÍLIA, FAUSTO ALBUQUERQUE E LEMBRANÇAS DE ESTUDANTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/almoco-em-familia-fausto-albuquerque-e-lembrancas-de-estudante-jornal-o-estado/): Último dia do ano. Almoço em família. Falávamos um de cada vez, sobre os nossos defeitos, algumas virtudes e a inquestionável independência que é a característica de todos. Cada um vive por sua conta e risco, trabalhando duro, mas agora estávamos rindo e brincando. Descontração total. O celular toca. Uma voz anasalada se identifica como Fausto. Não ouço bem. Há barulho ao redor. Afasto-me da mesa, ouço melhor: Fausto Albuquerque. Ele mesmo relembra que foi meu professor de Português no Farias Brito e acabara de ler o meu livro “Microcontos”, que adorou e elogiou pela original forma como foi tecido, com pouquíssimas palavras em cada conto, que é micro, mas não deixa de ter a forma e o conteúdo de um longo ou breve conto. Fiquei alegre. Que presente! Fausto Albuquerque mora hoje em Belo Horizonte, sendo membro do Instituto Geográfico de Minas, do Instituto dos Advogados de Minas, do Instituto Internacional de Esperanto, da Associação de Escritores Mineiros, da Associação dos Advogados de Minas, correspondente da Academia da Língua Portuguesa, do Ceará, integrante da Comissão da Nova Nomenclatura Gramatical Brasileira, Comendador do Instituto Geográfico de Minas, Consultor Jurídico de revistas Trabalhistas de Minas, fala e escreve em cinco línguas. Publicou oito livros e aposentou-se como professor de Alemão da Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN. Essas informações sobre ele foram colhidas por mim na web, após o telefonema que me deixou ledo e vaidoso. Não é todo o dia que se recebe elogio de um filólogo do quilate de Fausto Albuquerque. A conversa foi amena, mas ele viajaria no dia seguinte. Uma pena. Como em transe, mergulhei no passado da sala de aula do Farias Brito original, na avenida Duque de Caxias. Quadro Verde, um pequeno patamar elevado com a mesa do professor, cadeiras de braço do lado direito, enquanto sou canhoto, ouvindo o professor Fausto Albuquerque, no método peripatético. Ele era contra neologismos e dizia que não se devia usar o galicismo perdão (pardon), mas o seco desculpe. Era capaz e aparentemente severo, mas fazia-se bem entendido por todos. Relembro da maioria dos colegas dessa turma, que não era grande: Aytan Miranda Sipahy, hoje médico e professor da Universidade de São Paulo; Júlio Jorge Albuquerque Lóssio, odontólogo, professor universitário em SP, e depois aqui na UFC; Raul Fontenele, empresário gráfico, amigo até o seu falecimento; Feitosa Carvalho, coronel do Exército, que morreu jovem; Tomás Edson, professor e coronel da Polícia Militar; Raimundo Braga, auditor fiscal; Francisco Feitosa, empresário; Manoel Leôncio Carvalho Macieira, clínico geral destacado; Luiz I. Mendes Parente, procurador de Justiça; Zilberto Farias, engenheiro agrônomo e professor; Afrânio Cabral, advogado; Pedro Eugênio Simões, empresário e, quando jovem, excelente goleiro; e Jurandir Mitoso, radialista de verve que até hoje figura no “cast” das rádios e TV Cidade. Todos eles passaram pelo crivo sério do prof. Fausto Albuquerque, que já nos recebera bem instruídos por outro rigoroso mestre de português, Sildácio Matos. Um dia, sem mais, nem menos, em plena sala de aula, avisa que ia nos deixar por ter sido aprovado para professor do Colégio Militar de Belo Horizonte e lá, como se vê, construiu, ao longo de décadas, a sua história acadêmica e literária. Depois, segue para a AMAN. Aposenta-se e volta para BH. Este relato é um tributo aos meus colegas de então e a ele. Não decorre da sua apreciação positiva acerca de um dos meus livros, mas por dever de justiça a um cearense que nos soube transmitir conhecimentos fundamentais dessa não tão fácil língua camoniana/machadiana. Ele conseguiu se destacar em meio à tradicional desconfiança dos mineiros, especialmente dos ciosos e fechados intelectuais de lá. Que bom ouvi-lo. Vida longa. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/01/2013. - [FAÇA DIFERENTE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/faca-diferente-diario-do-nordeste/): A vida de qualquer pessoa pode ser mudada por algo inesperado, mas, com atitudes, há formas de superação. Na revista "Costumes", outubro último, há uma história exemplar. Um homem jovem vivia com sobrepeso e resolveu fazer "triátlon", esporte que envolve natação, ciclismo e uma espécie de maratona. Perdeu os quilos que desejava e teve a alegria de participar de várias provas, no Brasil e em outros países. Há nove meses, ao treinar, foi atropelado e ficou sem os movimentos das pernas. Passada a fase crítica, Emerson Damasceno, 43, advogado e obstinado, resolveu, mesmo em cadeira de rodas, continuar a fazer exercícios com planos para o futuro. Sobre o acidente, ele diz: "O meu aprendizado com o triátlon, de não desistir ante um grande desafio, me fez ver que isso é apenas mais uma pequena pedra em meu caminho". Ajudado pela mulher e os três filhos faz planos para o futuro e já usa piscina para nadar 3.000 metros em um pouco mais de uma hora. Ele ata uma boia entre as pernas e dá as suas energéticas braçadas. Pretende adquirir bicicleta e cadeira de rodas especiais e voltar ao possível que as suas limitações impõem. É aficionado da prova "Ironman" e sabe que ainda poderá participar de provas para pessoas com necessidades especiais. Falei com o Emerson e ele é, de fato, alto astral. Neste último artigo do ano, espero que a força de vontade dele seja exemplo de superação para os nossos velhos e novos problemas, os reais e os imaginados. Inove o seu modo de pensar e agir. Mexa-se. Faça diferente em 2015. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/12/2014. - [FIM DE ANO, TÓPICOS DIVERSOS E O 2015 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fim-de-ano-topicos-diversos-e-o-2015-jornal-o-estado/): “Não pedi coisas demais para não confundir Deus que à meia-noite do Ano Novo está tão ocupado”. Clarice Lispector Não há quem fuja do lugar comum. É época de pensar e até de fazer conjeturas. De parar e ficar refletindo no que fez e, principalmente, deixou de fazer. Por mais que estejamos alegres, tristes ou absorvidos com problemas, chega um instante em que paramos, pensamos e nos perguntamos: e aí o que ficou de positivo nisso tudo? Você imagina que vai tentar fazer a coisa certa, errar menos que nos anos anteriores, será tolerante, mandará as fofocas para aquele lugar, cuidará da saúde, estimulará o corpo, mas fica sempre algo no ar. A memória revive tudo com facilidade e isso, às vezes, incomoda. Neste período, o nosso viver diário dá o tom da música interior. E essa música, com certeza, tem compasso lento, como se fora uma daquelas valsas de Strauss que a maioria conhece, mas não recorda o nome. A evocação das músicas não se constitui saudosismo; é como se precisássemos de refrigério para as lutas diárias que se assemelham a um “rap”. Você, eu, os que não confessam e os que não sabem, estamos todos tontos diante de um mundo que mudou sem nos pedir licença e foi ficando conturbado com guerras por religião em pleno século 21 e o duro e ainda longo fim das guerrilhas da Asfarc, na Colômbia, o jeito meio atravessado de Vladimir Putin pensar na grande mãe Rússia ao olhar para o ocidente e a crise econômica mundial em onda que pode ser igual ou pior que a de 2008. Por outro lado, alegra-nos saber que os Estados Unidos e Cuba reataram relações diplomáticas após 53 anos de apartação. Esse tempo fez do estado da Flórida a maior concentração de cubanos fora do Estado-Ilha que fica a apenas 150 km de Key West, na extremidade americana, quase caribenha. Foi um argentino, o Papa Francisco, quem costurou o acordo que já não fazia mais sentido desde que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, apoiadora de Cuba, deixou de existir faz tempo. Falta-nos, quem sabe, balizamento, descortino e sabedoria. Respondemos pessoas e países, muitas vezes, pelo que não fizemos. Dizem os filósofos que o medo e a esperança andam juntos. O difícil é a luta que travamos a todo o momento contra pessoas e instituições insidiosas. Assim, a vida é uma gangorra. Gente importante como o ex-primeiro ministro da Inglaterra, Tony Blair, revelou em livro de memória que tomava uísque puro, gim tônica e vinho para aguentar o rojão do trabalho. O ex-presidente Lula lança, neste fim do ano, um vídeo sobre a sua versão do que acontece agora no Brasil. Nada de novo sobre o já sabido, visto e vivido. O filme “A Entrevista”, com relato sobre um possível atentado ao dirigente maior da Coreia do Norte, kim ...., causou um ataque de “hackers” à Sony Pictures. A exibição do filme foi cancelada sob um rastro de medo das maiores empresas exibidoras cinematográficas americanas. Barack Obama diz que vai dar um troco proporcional ao fato. O que isso significa? Aqui na nossa pátria amada tem nos afetado o despudor da corrupção que atingiu a maior empresa de petróleo da América Latina e, segundo sugere a operação Lava-Jato parece haver ramificações não só com ela, mas em muitas outras obras públicas federais, estaduais e até municipais. Em fevereiro não haverá só carnaval, mas outra onda de nomes envolvidos. No Brasil somos otimistas por natureza e destino. A presidente reeleita, Dilma Rousseff, afirmou, depois das eleições, “eu acho que tem hora que exageram um pouco comigo... mas eu sou uma pessoa que convive perfeitamente com a crítica”. Assim, estamos findando um ano e entrando em 2015 desejando a ela um bom governo, acreditando que todo brasileiro, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, ao brindar em festas, lugares públicos ou em suas casas esteja prontos para o trabalho que recomeça na próxima semana. Feliz Brasil Novo. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/12/2014. - [NATAL À VISTA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/natal-a-vista-diario-do-nordeste/): Você, leitor, leitora, que assina ou compra este DN e, aos domingos, abre esta página 2 e desce os olhos até a este canto esquerdo, eu desejaria que, na noite da próxima quarta, tome um belo banho, se vista confortavelmente e junte-se aos que quer bem. Não importa o seu credo religioso ou a se é ateu ou agnóstico. Custa nada ficar um pouco mais leve e lembrar que está com a capacidade de ler estas frases, enquanto muitos são deficientes visuais. Lembre também que milhões não sabem ler. Há ainda um bilhão de pessoas no mundo que não podem se ensaboar e abrir o chuveiro. Sabe por quê? Eles não têm um simples banheiro, são humildes e profundamente pobres. Não quero deprimi-lo, tampouco responsabilizá-lo pelas desgraças do mundo. Quero apenas que não se lamente demasiado porque perdeu alguém querido ou um amor foi para o espaço. Há pessoas que não têm um só parente vivo e continuam a acreditar no amanhã, na esperança que nos move neste labirinto que é o existir. Veja o título. Ele é um conselho que você não me pediu. Não compre nada a prazo. Só compre o que precisar e o que puder pagar. Se não tiver dinheiro para presentear a quem ama, faça um bilhete do próprio punho e diga dos seus sentimentos. Se verdadeiros. Presente nem sempre significa benquerença. Um bilhete pessoal é ato de amor ou amizade. Agora, se você está bem de vida, lembre-se de quem o ajudou na sua trilha. Agradeça a ajuda, o apoio, o ombro amigo, não poupe presente, nem palavras, mas não seja dramático ou piegas. O reconhecimento é um dos mais nobres sentimentos humanos e vale muito. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/12/2014 - [A VÉSPERA DO NATAL E A VIDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-vespera-do-natal-e-a-vida-jornal-o-estado/): Quando chega a segunda quinzena de dezembro, começamos a matutar sobre o que fizemos no ano que está a terminar e o que nos espera no que chega em uma quinta-feira e, de cara, nos dá quatro dias de feriados. Em fevereiro deste ano perdi a minha mãe, viga mestra da família, ombro e conselheira de uma récua de filhos e parentes. Agora, exato no dia 8 de dezembro ganhei uma nova neta. Tristeza e alegria. Ao olhá-la no berçário gerei um filme em flashback em que eu era o escritor, o autor do roteiro, o diretor e o protagonista. E conclui nesse filme imaginário, sem cortes e sem mudanças de diálogos verdadeiros, que muita gente fez parte do “script” não linear que é a ´vida minha e a dos outros (crédito para Beatriz Alcântara) com quem fui contracenando no grande teatro greco-romano que é o viver. O que conclui está escrito abaixo. É como se fosse uma sinopse. Estou no caminho sem volta que é o viver. Ou você avança, passo a passo, mesmo que isso lhe custe a perda e a ausência de pessoas essenciais, ou se deixa invadir pela lassidão, a ansiedade, a amargura e a nostalgia. Isso o tornará, eventualmente, triste. Confesso, já me senti combalido por poucas vezes, duas foram duras. Mas não é esse o objeto desta minha conversa com você, quem quer que seja. Alegro-me, hoje, com pequenas e bobas coisas. Não preciso mais fazer vestibular, entrar em concurso público e provar roupa em alfaiate presumido. Quero andar de sapatos sem meias, sair de qualquer reunião antes da meia-noite, não conversar com quem me desagrada e deixar de tentar convencer o outro das minhas certezas. Que certezas? Quero a companhia de poucos e usar o meu tempo no trabalho que me dá prazer de criar e ser útil. Sou um artífice que construiu um gibão imaginário para proteger as minhas fraquezas contra os sabidos que se acreditam eternos e poderosos. Simpatia não é, infelizmente, meu forte, mas quando bate a empatia eu me solto como um menino em parque de diversões. A vida é. Não se idealiza, não é nada romântica, tampouco fácil, pois “fácil é o comum”, dizia eu na minha bobice, aos 16 anos. Agora, neste platô, com escarpas ao redor, não deixei de amar, mas o ceticismo me acompanha. Fui, apesar de me acharem arguto, presa fácil para pessoas embusteiras. Os embusteiros são como pacotes bem produzidos. Os laços que os adornam são cegos e só com o tempo, quando desfeitos, aparecem a podridão, o malfeito e o mau caráter escondidos na aparência. A aparência que muitos pensam ser tudo e não é nada. Todos pagam um preço, o dos embusteiros é a ignomínia. Faz tempos estudei Sociologia, mas hoje não sei mais nada. Sei apenas que este foi um ano difícil para o país lúdico do futebol e para o país real que enfrenta uma tormenta que não se sabe quando e nem quando vai parar. Alegro-me, por outro lado, em saber que os Estados Unidos e Cuba vão reatar relações, depois de cinco décadas. Dizem que este século vai mudar o mundo, como todos os outros acreditam que o fizeram. Descobri que há um velho sociólogo e escritor judeu, Zygmunt Bauman, que fala da “modernidade líquida”. Conheci-o por Marcos Flamínio Peres, doutor em teoria literária e literatura, que o entrevistou em 2012. Assim, a modernidade líquida, assevera Bauman, nos faz perder o sentido de solidez e estabilidade que sempre buscamos. Bauman escreve livros, tais como “O amor líquido”,” A vida líquida” e o “Medo Líquido”. Segundo Peres, em consequência dessas sociedades ‘leves’ e ‘líquidas’ “o ser humano tornou-se mais autônomo, o que é um ganho, mas passou a conviver com a incerteza”. Pois é, não há autonomia sem perda. A incerteza é e será constante no viver, seja no sentido coletivo ou no individual, de que falei lá no primeiro parágrafo. Feliz Natal! João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/12/2014. - [BEATRIZ CHEGOU - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/beatriz-chegou-diario-do-nordeste/): Às 5h22 de segunda, 8 de dezembro de 2014, passei uma mensagem perguntando a que horas deveria chegar ao hospital. Sem resposta. Apressei-me. O horário do parto seria às 7h daquela manhã de nuvens brancas. Eu abeirara-me do hospital, quando o celular alerta: Beatriz chegou. A escolha do nome foi feita em comum pela Bruna e o Gerber, os pais. Pulei as enciclopédias Barsa e Britânica e fui direto ao "Tio Google" ver o que significava. Ele esparge respostas de todos os modos e feições. Há que pinçar. Foi o que fiz. Beatriz viria do latim, de beatus etc. Ao final das contas expressaria: para fazer alguém feliz. Ou, em outra mirada, chegaria pelo poeta épico e medieval Dante Alighieri, com a sua Divina Comédia e as três partes do seu percurso (inferno, purgatório e céu). Beatriz é a sua guia no paraíso. O obstetra antecipara e a Bia despontou da mãe às 6h35, quando a lua cheia esvanecera. Subi os dois lances de escada que, dobrando à direita, mostravam o berçário. Ela estava envolta no líquido amniótico e, no meu pensar de avô, piscava os olhos de espanto nos seus primeiros minutos fora da placenta. Depois, já limpa, vestida no mandrião que a primípara mãe escolhera, emergiu em graça. Bonita e rosada, chega ao quarto para a alegria de todos, a começar pelas tias guardiãs Lelé, Cris e Mel. Hoje senhoras, e, ainda, minhas filhas meninas. Bruna, saindo da raquidiana, abre os seus grandes olhos, acolhe, beija e abraça a pequenina Beatriz, sem choro, rindo, como a dizer: você é minha cria, eu a gestei e agora a tenho ao lado. Deus as abençoe. João Soares Neto Empresário CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/12/2014. - [OS TRANSPORTES PÚBLICOS, AS RUAS E AS SOLUÇÕES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-transportes-publicos-as-ruas-e-as-solucoes-jornal-o-estado/): “Se eu tivesse medo de obstáculo não seria motoboy”. Ouvido em uma esquina. É fácil criticar, mas é muito difícil apresentar soluções concretas para o sistema de trânsito e o transporte público em cidades adensadas com mais de dois milhões de habitantes com problemas de malhas viárias antigas, estreitas e de traçado ortogonal. É de enaltecer a ação que a atual gestão da Prefeitura de Fortaleza procura fazer com a implantação gradativa de novos viadutos e de ônibus de dupla articulação em alguns corredores de tráfego com larguras que assim o permitam. Por outro lado, estive agora em Bogotá e pude constatar o sufoco da população para usar os ônibus articulados do projeto “Transmilênio”. Há mais propaganda que efetividade no “Transmilênio”, uma cópia remoçada do que o arquiteto, urbanista e político Jaime Lerner implantou em Curitiba nos anos 1970. Em todas as estações ou pontos de embarque da grande cidade colombiana, com mais de sete milhões de habitantes, há longas e intermináveis filas. As pessoas, nessas estações e alas, passam mais tempo do que o desejado e recebem, querendo ou não, a ingestão de monóxido de carbono dos demais veículos que ocupam as outras faixas das vias. Embora o “Transmilênio” tenha prometido adotar sistema que reduziria a emissão de carbono, seguindo a metodologia AM0031, da Organização das Nações Unidas, não me parece ter logrado êxito. Há uma diferença entre a pretensão de um mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL) e a crua poluição das descargas de milhões dos veículos. O Brasil não adotou como deveria ter feito no tempo devido, por falta de recursos, de planejamento de longo prazo ou até de descaso público, as soluções universais do uso do subsolo para a implantação de linhas de trens chamados de metrôs ou “subways”. Esse modal de transporte, em países mais prudentes ou avançados, tem mais de 100 anos de implantação e são, nas grandes cidades, os recursos utilizados pela maioria das pessoas. São Paulo e Rio são exemplos desse atraso e tentam - a alto custo- superá-lo. Há cerca de 20 anos surgiu a ideia do metrô de Fortaleza, o Metrofor, mas houve descompassos entre administrações municipais e o Governo do Estado. Em paralelo, a espera de liberação de verbas federais e financiamentos internacionais. Além do projeto inicial ter sido mudado, por imposição da administração Juraci Magalhães: os trens mergulham na afluência das avenidas José Bastos e Carapinima. Aconteceram sucessivas paralisações, longas, médias e curtas, por carências de verbas, talvez por gestão, por fiscalizações do Tribunal de Contas da União, por novas licitações parciais e aditivos de seus trechos. O conjunto desses fatos provocou atrasos, prejuízos a terceiros com vias cercadas por tapumes. Tudo ocorreu a destempo na execução e no ainda limitado funcionamento da primeira – e única – linha de transporte de massa que liga Pacatuba à Fortaleza. Não adianta reclamar do passado. O registro é apenas um histórico aligeirado. O atual governo do Estado tem procurado, desde algum tempo, recuperar o tempo perdido e deu passos fortes para a integração das linhas que vem de Pacatuba e de Caucaia - precária e usando óleo diesel - com a zona leste da cidade. Adquiriu máquinas “tuneladoras”, chamadas vulgarmente de “tatuzões”, pela capacidade de fácil romper o subsolo de Fortaleza, conhecidamente arenoso. De resto, promoveu novas licitações e tudo faz crer que, ainda nesta década, teremos uma malha radial integrada que possa mitigar o caótico trânsito urbano de Fortaleza. Em paralelo a isso, está sendo implantado, no trecho Parangaba-Mucuripe, um sistema de VLT – Veículos Leves sobre Trilhos, que, no momento, causa dissabores pelos desvios, pelas paralisações e desapropriações, mas redundará, quando retomado e concluído, em benefícios e desafogos na locomoção de parte dos usuários de transportes coletivos. Ao novo Governo, que se instala em janeiro próximo, cabe a não fácil tarefa de continuidade desses projetos em curso e, ao mesmo tempo, em conjunto com a Prefeitura de Fortaleza, estudar a substituição do uso de combustíveis fósseis dos veículos de transporte coletivo por nova matriz energética. Os acidentes e as brigas no trânsito, inclusive com assassinatos e repetidos assaltos, são resultado, em parte, do elevado grau de estresse dos guiadores, pedestres atravessando fora das faixas, sem esquecer os balés das motocicletas que nos fazem lembrar dos circos de antigamente com os seus “globos da morte” em que duas motos, em alta velocidade, se cruzavam. Agora, surgiram as ciclovias, ainda com poucos usuários. É esperar para ver. Atentos a tudo isso os fotos sensores multam, sem piedade, os que, por conta de buzinas dos veículos que vem atrás, param em faixas de pedestres, procuram aproveitar o finzinho do sinal verde ou se quedam imóveis em cruzamentos engarrafados. Dizia Bertold Brecht, escritor alemão: “perante um obstáculo, a linha mais curta entre dois pontos pode ser a curva”. Mas, no trânsito, as conversões, em geral, são proibidas. E aí? João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/12/2014. - ['FORTALEZA' E 'CEARÁ' - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fortaleza-e-ceara-diario-do-nordeste/): Os clubes “Fortaleza” e “Ceará” sabem possuir torcidas apaixonadas. O “Fortaleza”, na terceirona, obteve o maior público do Brasil: 63.000 torcedores. Saíram desapontados pela ausência de fibra e desamor à camisa. Faltou um só gol. A decepção se repete faz cinco anos. Na eleição de segunda, havia multidão no Pici. Por outro lado, o “Ceará” despediu-se do acesso à elite por fobia ao fato de terminar o primeiro turno como líder. Tremeu nas bases. Faltou brio. Os dirigentes precisam mudar o pensar e o agir. Nessa fase do pré-campeonato, chegam jogadores rodados, salários altos e usuários da Justiça Trabalhista. Elogiam a terra, o “professor” traz comissão técnica, enturmam-se, surgem contusões, cartões amarelos e vermelhos. Ao final, despedidas dos “bondes”. Vergonhas repetidas. Evandro Leitão e Jorge Mota deveriam trocar ideias. Os dois têm torcidas leais. Logo esquecem os tropeços e vão aos jogos à espera da redenção. Há alguns anos reúno os troféus e as torcidas do Ceará e Fortaleza em exposições conjuntas. Parecia impossível. Não é. Uma torcida respeita a outra. Fotos e livros provam isso. 2015 poderá ser auspicioso para os dois. A receita é simples: humildade, orçamento, repensar erros, usar técnicos e mais jogadores locais, das categorias de base, dos subúrbios e do interior. Garanto: pior que seja nunca será igual ao desempenho atual. Mudem. A hora é esta. Por que técnicos cearenses não emplacam por aqui, mas dão certo fora do Estado? Eles não falam chiando, cobram pouco e são simples. Administrar é cortar o supérfluo e fazer o básico: vencer. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/12/2014 - [AS ELITES, AS SECAS DO CEARÁ E O “GENOCÍDIO” - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-elites-as-secas-do-ceara-e-o-genocidio-jornal-o-estado/): “Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém nos ensina o beco para a liberdade se fazer. Sou um ignorante. Mas, me diga o senhor, a vida não é cousa terrível?” Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. O caderno “Ilustríssima” da Folha de São Paulo, de 30 de novembro passado, traz em página dupla (fls.4 e 5) dura reportagem assinada por Anna Virgínia Balloussier, com fotos de Isadora Brant. O resumo narra: “Com as secas do início do Século 20, famintos dirigiam-se à capital do Ceará, assombrando as elites que idealizavam uma Fortaleza “belle époque”, moderna – e limpa. O governo criou campos cercados para confinar milhares de retirantes; hoje, alguns tentam evitar que a memória desses lugares se apague”. A verdade histórica registra que Fortaleza não vivia às maravilhas já no fim do século 19. Havia doença e fome na capital. Começou na seca de 1877. Até a mulher do presidente da Província, Caetano Estelita Cavalcanti Pessoa, morreu de peste. O comerciante e político Joaquim de Cunha Freire, Barão de Ibiapina, doou 10 contos de réis para a compra de mantimentos e um terreno onde seria construído um asilo de mendicidade. José de Alencar, no Senado, dizia que a situação não era tão dramática. Era grave. A suposta ação higienista, no início do século 20, referida por Balloussier, seria, talvez, mais cuidado contra a transmissão de doenças e prevenção contra saques dos “mendigos retirantes” do que asco. Fortaleza, em 1877, possuía 30 mil habitantes e foi invadida por quase 100 mil fugitivos da seca. 400 pessoas morriam por dia. A longa reportagem fala até da heroína Conceição, personagem de Rachel de Queiroz no seu romance de estreia, “O Quinze”. Conceição atravessa correndo um campo e ouve a súplica: “Dona, uma esmolinha”. Ela corria “fugindo da promiscuidade e do mau cheiro do acampamento”, segundo Rachel. Balloussier explana: “Eram homens, mulheres, velhos e crianças, de cabeça raspada contra piolhos, alguns vestidos em sacos de farinha, com buracos para enfiar o pescoço. Os mais robustos serviam de mão de obra em fazendas e obras públicas. Milhares morreram de fome, sede ou doenças”. A repórter esteve no Ceará e obteve as informações acima da historiadora e professora Kenia Souza Rios, da UFC, que, em 2006, escreveu, sob o selo do Museu do Ceará, “Campos de Concentração no Ceará: Isolamento e poder da seca de 1932”. Já em 2002, Kenia escrevera o artigo “A Cidade Cercada da Seca de 1932”, enfeixado no volume “Seca”, das Edições Demócrito Rocha. Sabe-se que os primeiros campos do século 20 foram instalados em Fortaleza, por ocasião da seca de 1915. Essa medida, tida como “higienista” ou profilática, foi autorizada pelo Governador Benjamin Liberato Barroso que tinha como vice o Padre Cícero Romão Batista. Tudo era facilitado pelo oligarca de então, o senador José Gomes Pinheiro Machado e com a graça federal do IFOCS. Os fatos, verdadeiros, nos entristecem. Todos os nossos ascendentes de Fortaleza teriam ficado amedrontados com a seca braba e a nova invasão de retirantes. O acontecido atinge ainda a memória do Padre Cícero que era o vice-governador. Ainda em 1915, não no romance, mas na obra “A Seca”, de de Rodolpho Theófilo, citada por Balloussier, há o registro do campo do Alagadiço, mantido até a seca de 1958 com o nome de Hospedaria Getúlio Vargas. Theófilo descreve: “Um quadrilátero de 500 metros onde estavam encurralados cerca de 7.000 retirantes”. Tive o cuidado de conversar com a professora Kenia. Ela acrescentou, ao já dito e escrito, o seguinte: “ É importante enfocar que esses espaços apareciam como lugares de assistência adequada para os flagelados da seca. Desse modo, não encontravam grande resistência por parte da elite local que se via menos ameaçada e com a sensação de dever cumprido. Uma das únicas vozes dissonantes era a do sanitarista Rodolpho Teófilo que diariamente criticava as condições dos retirantes que ali estavam”. Embora pareça extemporâneo citar, o “O Nordeste”, jornal católico, em 17 de fevereiro de 1923, citava tal data como o ‘Dia da Extinção da Mendicância’, como uma forma de limpar o visual e a moral da Fortaleza de então. Seria, quiçá, apenas o medo de contaminação dos nativos da cidade que bebia água de lagoas e poços rasos e não possuía saneamento. Em 1932 foram criados outros campos em Ipu, Quixeramobim, Senador Pompeu, Cariús e Crato. Há, desde 2009, uma ação promovida pela Ong –SOS Direitos Humanos, capitaneada pelo advogado Otoniel Ajala Dourado contra a União e o Estado do Ceará pelos fatos e mortes acontecidos. Há registro de, pelo menos, 60 mil mortos nesses campos. A narrativa que alinhavo, com a ajuda de terceiros, é conhecida e discutida por historiadores, mas deve ser bem explicitada para as gerações de hoje. Não se pode deixar passar em nuvens turvas o narrado e difundido. Não basta o registro nacional feito pela Folha com as denúncias de Theófilo, reavivadas pela professora Kenia. A história dos campos nos entristece, bem como o acontecido no “Caldeirão” da Santa Cruz, no Crato, quando as Forças Armadas, a mando de Vargas, dizimou, em 1937, a comunidade criada pelo beato José Lourenço. A História não deve ser apenas a versão dos importantes. Capistrano de Abreu, o maior historiador brasileiro, dizia: “Não curamos do tempo, o tempo tudo escritura e surpreende-nos com suas contas monstruosas”. E arremata: “A História do Brasil dá a ideia de uma casa edificada na areia”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/12/2014. - [MANHÃ HIPOTÉTICA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/manha-hipotetica-diario-do-nordeste/): Na segunda-feira acordou estremunhada, cansada e sem graça. Como? Havia ganhado a eleição mais difícil depois da democratização. A roupa branca usada para o pronunciamento à nação amarfanhada sobre o sofá do quarto do palácio desenhado pelo arquiteto famoso. Abriu as cortinas e o sol do final de outubro mostrava a face dourada e forte sobre o planalto. Piscou os olhos. Sentou-se à cabeceira da cama, calçou os chinelos, e foi em direção ao banheiro. A água fria a cobria e, em meio ao banho, sentiu o líquido quente de lágrimas. Por que estaria chorando se era vitoriosa? Lembrou-se de sua época na prisão, da filha, do neto e da mãe a poucos passos dali. Esfregou os olhos, fechou a torneira e enrolou-se na macia toalha de banho. O espelho mostrava a mulher madura, vencedora de câncer, reeleita, descasada e só. Não havia com quem trocar confidências. Os telefones, disponíveis e sensíveis à escuta, estavam desligados e os frascos dos remédios que tomara ao dormir espalhavam-se pelo lado vazio da cama. As marcas do seu corpo formavam um vinco onde dormira. Não tivera sonhos. O sono pesado a abatera depois do dia mais duro de sua vida. Repensou. Não fora o mais pesado, sim o mais tenso. Informações alarmantes. O denunciante, ao contrário do exposto, não morrera. Estava atrás do candidato na contagem não divulgada antes das 8 da noite. Depois, houve inversão da posição. Seu coração mostrava arritmia. Discretamente, tomara um comprimido. Folgaria esta manhã. Estava exausta. Não queria falar com ninguém. Nem com ele. Precisava ficar só. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/11/2014. - [LIMPAR OU SUJAR O MUNDO? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/limpar-ou-sujar-o-mundo-jornal-o-estado/): “A Terra é insultada e oferece flores e frutos como resposta”. Rabindranatah Tagore (polimota bengali), prêmio Nobel de Literatura, 1913. Comemoramos há pouco a Semana Internacional do Meio Ambiente e da Ecologia. Preservar o meio ambiente é uma preocupação recente da humanidade. Quando o cientista Charles Darwin concluiu que somos frutos da evolução das espécies e não, segundo ele, de algo sobrenatural, os homens tomaram conhecimento de que tinham de cuidar, por sua conta e risco, de sua casa, o planeta Terra. Até o papa Francisco acaba de se render à teoria evolucionista. Para ele, Deus rege tudo. Na vida real, tomar conhecimento do problema é diferente de tomar consciência, pois esta precisa de sedimentação, discussão, transformação em uma ideia política e disseminação. A essa ideia política se deu o nome de Ecologia, palavra roubada do grego “oikos”- casa ou habitat - e de “logos” que significa estudo, reflexão. Assim, a Ecologia pode ser entendida como o estudo das relações dos organismos uns com os outros e com todos os fatores naturais e sociais que compreendem o seu ambiente. Definido esse juízo, a humanidade começou a viver, no século passado, especialmente em seu último quarto, uma luta renhida para difundir, de forma clara e lúcida, o que eram e para que serviam os seres vivos, a luz, a água, o ar, o solo etc. A presunção de que éramos ou somos os únicos seres vivos inteligentes não deixa de ser um óbice. O universo é bem maior do que imaginamos. A falta de humildade de encarar o problema, como se todos os recursos naturais fossem inesgotáveis, é produto de conveniências, de um lado, e de intransigências, de outro. A humanidade ainda não aprendeu a conviver em equilíbrio. Guerras e lutas por religião, raça ou poder estão vivas neste século. A Eco-92 e as suas subsequentes neste século 21, em países diferentes, e sob os auspícios da ONU, que pretendiam ser a luz e a salvação dos recursos naturais do mundo nada resolveram. Hoje, podemos mapear, via Google, todos os continentes com focos de conflito entre etnias, interesses econômicos e religiões. Isso provoca destruição de seres vivos, sejam homens, animais ou vegetais, bem como comprometimento da natureza por seu uso inadequado. As necessidades humanas, mesmo que em áreas pacíficas, cobram da natureza alimentos, casas e mobiliários, que são feitos a partir da agricultura e da indústria. E, se há necessidades desses bens, a ganância humana não estabelece limites e ignora o conceito de desenvolvimento sustentável: reposição de áreas devastadas de florestas, recuperação de cursos de água contaminados e do ar poluído pelo monóxido de carbono que exala dos escapamentos de bilhões de veículos automotores e das indústrias. Esta conversa pode não parecer tão agradável para quem está acostumado a jogar ponta de cigarro, papel amassado e latas vazias em todos os lugares, e para os que acreditam que a natureza é a sua lixeira básica. Pessoas já depositam em qualquer tudo o mais que lhes sobra. É preciso que cada pessoa, desde cedo, aprenda a fazer a sua parte, vivendo em harmonia com o meio-ambiente sem molestar todas as criaturas, sejam pessoas, animais ou as do reino vegetal. Cuidar de sua casa, mas pensar na Terra, a casa maior, a Gaia. Parece óbvio, mas não é. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/11/2014 - [CALMARIA E BRASA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/calmaria-e-brasa-diario-do-nordeste/): Estamos empanturrados de comida ou cheios de graça do Natal. Agora, nesta calmaria até o meio dia do 31, cuidamos de nossas vidinhas, agradecendo mimos recebidos, levantando as contas a pagar no novo ano, fazendo planos, a deletar ou aceitar as mídias sociais a nos assolar por todos os lados. Somos colecionadores de instantes. Eles nos agradam ou maltratam. Ninguém é tão forte para já não ter esmorecido por conta de fatos ou pessoas. O ímpeto nos transforma em brasa; é a inquietação salvadora, a loucura a nos impelir ao desconhecido e a nos moverem cada jornada. Não há ano novo se as trilhas forem as mesmas. Devemos ter dúvidas, mas sejam elas dizimadas pela coragem de retirar a nossa âncora da masmorra existencial da inação. Mexa-se, dispense guias e vá abrindo as suas picadas, mesmo se cansar. Os mortos não cansam. Cansar é estar vivo. Recupere-se, a água está ao seu alcance. Basta procurá-la como se fazia em criança brincando de esconde-esconde. Não se meta a besta. O homem lá de cima e os cosmos não gostam disso. Deixe de se achar. Não pose. Os cliques da vida e do insondável gravarão seus desvios. Seja você; não pense em adornos. Nenhum vai modificá-lo. Todos ficamos nus. Há, a cada dia, um volume de inquietude a ser removido para não deixar sequelas. Não chore em silêncio, há ombros disponíveis. Ache-os. Divida, não subtraia. A calmaria é um hiato. A brasa é a constância. Queime-se. Enumere seus objetivos, mas dê um jeito de ajudar o destino ou a sorte. Não há jardins sem se estrumar o chão com as nossas próprias mãos. Para as rosas, dizia Machado, o jardineiro é eterno. Vida sem luta é pena. Feliz 2013. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2012 - [PEDAÇOS DE NATAL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pedacos-de-natal-diario-do-nordeste/): Agora que o fim do mundo se foi sem nos levar, poderemos comemorar o Natal. E perguntei a um homem do povo: se você tivesse dinheiro para comprar uma cesta de natal a quem daria?. Respondeu: Ao da minha raça, o Dr. Joaquim. Ontem, um sapateiro/engraxate, que conhece todos os cantos onde ando, pediu uma grana e falou que ia viajar para o interior. Agradece: Deus o abençoe. Semana que vem ele volta. A mesma conversa de sempre. Neste começo de noite, recolho-me para cumprir estas linhas e antevejo o fim do ano, mas ninguém me explicou porque o peru é quem tem que paga o pato na ceia natalina. A propósito, há poucos dias, dialogava com um político em fim de mandato Ele dizia uma frase que ficou martelando: “política é para rico besta e pobre sabido”. A sabedoria é diferente da sapiência, mas até bem pouco não se notava a diferença. Parece que neste Natal os sabidos estarão preocupados. Há no mundo uma mudança de ares e de cores. Sai, pouco a pouco, o branco anglo-saxão e emerge o amarelo da terra de Lao Tse. Países oscilam. Cá por nossas bandas os netos de escravos estão comandando o ainda maior país do mundo e duas cortes superiores brasileiras. É tempo de mandar a prepotência para o brejo, a falácia recolher-se em contos de fada ou botecos e os que se imaginam permanentes em qualquer coisa que leiam os obituários. Gilberto Freyre, amado e odiado, dizia ser o Brasil o país das impossibilidades possíveis. Mas é Natal. É um breve tempo de reflexão, de encontros e fraternidade. Seria bom que fôssemos verdadeiros, sem farsas ou disfarces, como os do Papai Noel. Feliz Natal. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/12/2012 - [ANO NOVO, NÓS, FILAS E COTAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ano-novo-nos-filas-e-cotas-jornal-o-estado/): O ano vai ficar novo e nós seremos os mesmos? Desataremos os nós? O Brasil deu uma pequena repaginada – ainda sem versão final - em seus costumes no ano de 2012. Neste tempo de fim de ano cada pessoa tem direito a planos pessoais para o futuro. O futuro é depois do hoje. Eu gostaria, portanto, caro leitor, fosse acrescentado mais um item em seus projetos de vida. Adote um princípio consagrado na maior parte do planeta: ficar em fila. Nada de ser careta ou moralista. Não ficar em fila mostra pouca educação, incapacidade de obedecer a regras não simpáticas e achar-se com mais direito que os outros. Ficar em fila é questão de educação. E por falar nisso, há ainda muita coisa por fazer no Brasil. Por exemplo, a péssima educação -ou instrução- nos coloca em 84º. lugar na fila do mundo, no campo do conhecimento. No censo atual (2010) do IBGE há registro de apenas 7,9% dos brasileiros com curso superior completo. No Nordeste, esse percentual cai para 2,3%. Se verificarmos o número de analfabetos maiores de 15 anos, chegamos a 13% ou 26 milhões de gente quase surda e cega para ouvir, ler e entender algo complexo. A informação, a educação, a leitura e o conhecimento aclaram as ideias e nos transformam em pessoas críticas ajuizando fatos com menor propensão de erro. Estudamos quase nada, lemos pouco e não nos preparamos para as guinadas e os embates do mundo. Ele está girando em ciclos cada vez menores por conta do avanço tecnológico e da Web. Repito, 26 Milhões de compatrícios não sabem ler, escrever ou sequer garatujar o nome na carteira de trabalho. A educação, direito fundamental da pessoa, ainda não contempla, em nosso país, um arco significativo. É privilégio. Entretanto, surgiu há algum tempo a ideia das cotas (por critérios sociais e raciais; e para alunos de escola pública) já em processo de consolidação e alguns milhares estão conseguindo, nesse caso, “furar a fila” do atraso para entrar na universidade pública e gratuita. Paradoxalmente, esse fato não é burlar a fila, tanto o uso das aspas, mas um reparo do Brasil na sua história permeada de injustiças e de desamparo. Por questões de raça, status e cultura, muitos não foram assimilados por uma sociedade preconceituosa a se julgar superior por força de sua pele, do local de nascimento ou dos cobres em seu bolso. As cotas vão eliminando desigualdades. Ainda agor o nordestino migrante em São Paulo, levado em velhos ônibus clandestinos para ser porteiro ou zelador em prédios ou mão-de-obra barata em projetos ditos sociais, é tratado por “baiano”, como adjetivação pejorativa e preconceituosa. Ele vai direto para uma favela onde já tem parente ou amigo. Isso não é destino, é tragédia, tudo por conta da ausência de oportunidade de sua família incrustada em um grotão qualquer e da inexistência de educação básica na infância. Voltando às filas: furá-las, no contexto, é não aceitar o outro à sua frente. É não respeitar a ordem natural das coisas. É procurar regalia em qualquer situação. É valer-se disso e daquilo para burlar os costumes e as leis. A esperteza, a malandragem, a promiscuidade entre o público e o privado é uma furação de fila enraizada a ser extirpada. Inclua o respeito ao outro e a si mesmo em seus desejos para 2013. O brasileiro precisa de epifanias. Feliz Ano Novo. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/12/2012. - [CULTURA E ARTE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cultura-e-arte-diario-do-nordeste/): Há anos, a profa. Universitária, Walda Weyne, realizou pesquisa em hemerotecas. Ela objetivava revelar ações culturais e artísticas dos anos 60 em Fortaleza. Valeu-se da coluna do Correio do Ceará, “Informes Acadêmicos”, escrita por mim. Comecei no jornal em novembro de 1962. Nessas colunas abordava a emergência da Universidade do Ceará, depois UFC, política universitária, cultura e arte. Dei uma lida nas centenas de páginas. Passo alguns com o cuidado de colocar datas, para referências. Começo com notas de 17.11.62: 1. “O Presidente da UEE, Barros Pinho, deverá executar um programa administrativo assessorado por capacitados alunos das escolas...”.2. “Surgem rumores que é pensamento do novo Governo criar uma Universidade Estadual...”. No dia 27 do mesmo mês, o Reitor Martins Filho rebate críticas do jornal Correio da Manhã: “Disse o Magnífico que se faz cultura popular na UC através do Museu de Arte, do Coral e do Curso de Arte Dramática”. Em 24.01.63 registro a discussão sobre a criação de uma revista cultural: “Cabe, portanto, ao diretor (da Imprensa Universitária)Paulo Elpídio e ao Reitor Martins Filho, que é também presidente da Academia Cearense de Letras, apoiarem tal iniciativa, que é séria e decidida”. No dia 06.05.63, falo do acidente de Lambretta do Prof. de Artes , o suíço Jean Pierre Chabloz: “tem recebido visitas dos mais destacados vultos das letras, artes e cultura de nossa terra”. Em 23.08.63: “Parsifal Barroso, Mozart S. Aderaldo e João Clímaco ministrarão aulas no curso de arte e literatura coordenado por Artur E. Benevides e que tem o patrocínio da Academia Cearense de Letras”. Eu fiz esse curso. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2012 - [MEDALHA DO SESQUICENTENÁRIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/medalha-do-sesquicentenario-jornal-o-estado/): Quis o provedor Luiz Marques acolher, ontem à tarde, o meu nome para, de princípio, falar em nome das ilustres pessoas aqui agraciadas. Ora, a tarefa poderia caber, pela precedência, ao Deputado Federal, Padre e Provedor José Linhares Pontes, perene da Santa Casa da Misericórdia de Sobral. E, certamente, a todos os outros. Ser agraciado com uma Medalha Impoluta por instituição que comemora o seu sesquicentenário, com a respeitabilidade e o aprumo de conduta da Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza é motivo de honra aos quinze laureados. As santas casas de Misericórdia no Brasil, sabemos todos, são entidades de benemerência nascidas antes da proclamação da República. A Igreja Católica de Roma, de forma pioneira, criou, no século XIII, as universidades de Bologna, Paris e Oxford, para disseminar a cultura e a informação que se transmudam em reflexão e amadurecem como conhecimento a iluminar o mundo. Essa Igreja teve, séculos depois, a sabedoria e a compaixão de modelar, organizar e gerir, de princípio junto com o Estado, hospitais de caridade para atendimento aos pobres que eram, e ainda o são, a maioria da população brasileira. Resistir por 150 anos às bruscas mudanças de regimes políticos e às derivações episódicas - ou não- das múltiplas ordens econômicas e do intricado sistema financeiro, pressupõe o trabalho silêncio e profícuo dos que fazem o bem e, claro o descortino de suas gestões. Um dos fatos que nos surpreende, com alegria, neste século XXI do quase esgotamento da colossal Europa, da emergência da China, da Índia e do Brasil, dos tempos e caminhos cibernéticos que suprimem palavras e empobrecem a linguagem culta é a manutenção de terminologias da pré-modernidade para a designação de suas mesas administrativas, seus mordomos e suas provedorias. A tradição permanece na forma, mas há na pessoa do professor e engenheiro Luiz Marques a capacidade de gestão qualificada para dotá-la, junto com seus pares, de conteúdo científico e administrativo que supera as dificuldades entre as despesas, sempre crescentes, e as receitas defasadas impostas pelo SUS e demais órgãos que gerenciam a saúde pública brasileira. Sabemos que cada um dos agraciados estabeleceu uma ponte, um “stent” ou uma sutura sem queloide com esta majestosa Casa, feita de pedra e cal, monumento arquitetônico alicerçado na fé de seus fundadores, mas, principalmente, no relacionamento atual dos dirigentes com os clientes, a sociedade, o seu corpo clínico, a sua área de enfermagem e o seu setor administrativo As homenagens prestadas há poucos dias a médicos de nomeada que por ela passaram em processos de formação acadêmica e a demonstração publicada de afeto pelo Dr. Candido Pinheiro são atestados magníloquos dessa convivência prazerosa. Ana Maria Fontenele, Antonio Edmilson Lima Júnior, Antonio Palácio de Queiroz, Horácio Marques, in Memoriam, Jaime Tomás de Aquino, Jorge Alberto Studart, José Kalil Otoch, José Linhares Pontes, José Raimundo Arruda Bastos, Luciano Pamplona Júnior, Raimundo Gomes de Matos, Roberto Proença de Macedo e Walter Belchior Fernandes não carecem de apresentação. Cada um de per si representa uma mostra qualificada e multifacetada da coletividade de Fortaleza. Nada haveria a acrescentar aos seus brilhos peculiares. De minha parte, digo que sou, com orgulho, sobrinho-neto do Padre João Saraiva Leão, erudito e pastor verdadeiro, que foi Capelão com desvelo desta Casa abençoada pelo Criador, em boa parte do século passado. Faz-se mister destacar fato acontecido há décadas. Ao ser solicitado pela Prefeitura de Fortaleza para sugerir estudo sobre a então futura regulamentação dos cemitérios particulares da cidade, tive a acuidade e a lembrança de tornar obrigatória que parte significativa das receitas brutas desses campos-santos se destinassem, especificamente, a esta Irmandade e ao Instituto José Frota, o IJF. Estas, talvez, sejam as razões da nossa presença nesta solenidade que consolida a convicção de que fazer o bem sem grandes alardes é um dos caminhos que justificam a breve passagem do homem pela vida. Por fim, em nome dos agraciados, o nosso reconhecimento ao Provedor Luiz Marques e a todos os integrantes deste íntegro sodalício. O Estado-Ce, em 15.12.2012) João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/12/2012. - [ALERTA AO GOVERNADOR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/alerta-ao-governador-diario-do-nordeste/): Senhor Governador: Fortaleza, segundo o Ipece, possui 130 mil analfabetos. Na verdade, se aditarmos os funcionais, os querabiscam o nome e não sabem juntar letras em frases, o número sobe para 500 mil. Além disso, metade de seus 2,5 milhões é pobre. Pobreza não é fato. É falta de estudo e chance. É bom que a cidade se renove para as Copas, mas melhor seria se não houvesse mendigos, catadores de riquixás das sobras alheias, meninos cheirando “crack” e famílias faveladas. A educação deve ser prioridade tal como o Centro de Eventos, o Castelão, o Aquário, a refinaria, a integração do metrô, comunicação, estradas e viadutos, casas populares, água e esgotos, delegacias, hospitais, presídios e a futura ponte estaiada. Em toda a cidade há pobreza e delinquência. Até na rua da residência do governo desfilam jovens “dependentes” e ociosos. O óbvio: a cultura decorre da educação. Analfabetos têm dificuldades em concentração para pensar, ver peças de teatro e filmes. Convoque gente capaz para os conselhos de Educação e Cultura, não aceite imposições de lobbies. Conselhos devem aprofundar argumentos e não interesses. O Dragão do Mar, o Centro de Eventos e tantos outros equipamentos estaduais podem servir de núcleos de ensino fundamental. Repito: educação é base. Cultura é consequência. O Ceará não pode ter cara de rico enquanto não resolver a miséria, o saneamento básico e o analfabetismo. Exemplos: 1. as mortes e sequelas diárias decorrentes da profusão de mototaxis são atestados da procura de sobrevivência por ausência de qualificação. 2. Camelôs são empreendedores potenciais a busca de espaço para a lida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/12/2012. - [ENERGIA CARA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/energia-cara-jornal-o-estado/): Todos, exceto os poucos que têm energia subsidiada, sabem que o Brasil pratica um dos mais altos preços do mundo. As distribuidoras falam dos graves e grossos impostos que nós, os consumidores, pagamos -além da conta -para encobrir os lucros exorbitantes que têm. O Governo precisa de impostos para manter a mastodôntica máquina de funcionários e terceirizados que infla a sabor dos interesses políticos. Enquanto isso, empresas há que paralisam por não ter condições de trabalho com o preço alto cobrado. Tinha um amigo que finou por não aguentar as pressões de uma conta astronômica todos os meses. Preferia pagar os empregados. Cortaram-lhe a energia e a vida feneceu. Agora, surge, enfim, uma Medida Provisória (579) que pretende baixar, em 2013, 20% da conta de energia. Entretanto, alguns dos deputados e senadores que elegemos estão boicotando a sua votação. Sabe-se, a partir de fatos, que os conselhos criados para as agências reguladoras, a de energia, inclusive, servem para pouca ou nenhuma coisa. Igualmente, os conselhos das empresas concessionárias de energia são compostos por representantes de entidades que compactuam com os elevados preços das tarifas, dos serviços que lhes são exclusivos e, via de regra, terceirizados por uma ninharia a pequenas firmas. É hora de se ter um olhar sério para a coisa pública. Não é republicano, tampouco justo, o modo como o sistema brasileiro de energia elétrica funciona. Não há cabimento para que no horário de (pico) maior demanda (das 17h30min as 20h30h) empresas paguem até 300% a mais pelo custo da mesma energia, enquanto em muitas repartições públicas, Brasil afora, as luzes ficam acesas apenas para deleite ou para fingir que há alguém trabalhando no horário noturno. O Brasil tem hidrelétricas e pagamos todos os meses, impostos para construções de novas termelétricas e hidrelétricas. Demos a metade da Itaipu ao Paraguai, por meras razões políticas. Por que tudo é transferido para o consumidor? Qual a parte do Governo? Apenas aumentar impostos? O próprio Maquiavel, ídolo de políticos ilusionistas, dizia no século no século XVI: “Uma república sem cidadãos de boa reputação não pode existir nem ser bem governada; por outro lado, a reputação dos cidadãos é motivo da tirania das repúblicas.” João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/12/2012. - [O CENTRO E A CULTURA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-centro-e-a-cultura-diario-do-nordeste/): Esta semana fui ao centro. Era o menino da Major Facundo que conhecia as famílias Pinheiro, do prof. Edmilson; Rocha, do Sr. Campoamor; Vidal, do Sr. Luiz; Siqueira, do Sr. Geminiano; Barreira, do prof. Dolor; Maia, do livreiro Luís Maia; Carvalho, do prof. Valdevino e outras. O significativo eram as pitangas, o Farias Brito, o Ginásio Municipal, a Igreja do Carmo e o Posto Citroën. A pouco passos ficava a Praça do Ferreira, com seus fícus-benjamim, a velha coluna, aleias e bancos. Acolhia ônibus, carros de corrida, jornaleiros, engraxates, o Excelsior Hotel, o São Luiz, a Leão do Sul, o Mundico, a Flama e o Abrigo Central, idealizado por Edson Queiroz. Na esquina, a Rotisserie e, em seguida, a Igreja do Rosário “dos Pretos”, assim descrita e pintada por Descartes. Ao lado, o Palácio da Luz, com duas alas, a do governo e a residência oficial. Passa o tempo, já universitário, aluno de Parsifal Barroso, Governador do Ceará, lá fui deixá-lo por vezes, em meu Anglia. Só havia um carro oficial, um Ford preto, G-1, que cumpria outras tarefas. O amigo Rui Filgueiras e os colegas Alfredo Couto e Gerard Boris, eram guapos oficiais de gabinete. Décadas giraram. Voltei, pela Fortalezense, ao casarão, agora centro da cultura, e o vi sujo e grafitado. Pedi ao então Presidente da Casa, prof. Murilo Martins, permissão para pintar o seu exterior. O fiz com a ajuda do José Macedo e do Corpo de Bombeiros. Depois, reunimo-nos com arquitetos, engenheiros e historiadores. Foi elaborado um projeto para restauro e afins que tramita no Ministério da Cultura. Preservar é preciso. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/12/2012 - [CRÔNICA DE NATÉRCIA CAMPOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cronica-de-natercia-campos-jornal-o-estado/): Em pequenas folhas de papel, com gravuras do francês Claude Monet(1840-1926), recebi, em janeiro de 2002, esta carta de Natércia Campos, a amiga escritora que perdi para o inescrutável, depois de anos de luta. Natércia viajava a Brasília para a posse da filha Clarissa em função pública, decorrente de concurso. Escrevi, antes da sua viagem, algumas palavras em postal do reconhecido pintor americano Edward Hopper (1882-1967), que retrata, basicamente, situações que falam de solidão. Como dez anos passaram, creio poder dar a palavra à Natércia Campos, com partes do texto integral, por escrito, que guardo: “João, estou no saguão de espera. O vôo sai às 15.40hs. São 15.10hs. O que me faz feliz é ter recebido seu cartão ‘de surpresa’, ler e ser por você instigada!. As perguntas me levam a pensar, a imaginar e esta expectativa é a pitada exata de sal...se não houvesse esta reprodução de Edward Hopper eu estaria aqui a espera, lendo a “Veja”(acabei de adquirir) e no “ao” vou ler o Mainard... e lógico pensarei na próxima alegria da Clarissa quando avistar a Mâiñha (assim ela me chama). Agora já afivelei o cinto. São 15.50hs. Atrasou. Você e o seu cartão me levam para outros caminhos e devaneios. Bem prática, olho a mulher e penso que ela aproveita o sol estival. Assim também é o sol que atravessa minha janelinha deste avião. As janelas da sala dela são altas e os vidros refletem um céu azul sem nuvens. Ela é uma mulher ordeira. Na mesa só vaso com flores quebra com a luz o frio da cena. Ao longe vislumbro uma cidade. Ela já deve estar em um subúrbio, pois é grande a distância. Ela está impecável, o cabelo bem cortado revela seu pescoço longo e branco. Os reposteiros estão levantados quase na mesma altura. Eu não gostaria de aqui viver. Nela descubro coisas que diferem de mim: não gosto de estar sozinha e de costas para todo um ambiente (quarto ou sala)...tenho a sensação de estar indefesa. O avião começa a se mexer... vai de ré. São 16,05! Gostaria de tê-lo ao meu lado. Engraçado, a cadeira está vazia. Um cheiro d’eu.” E continua, após a decolagem: “Você é também Campos daí tanta afinidade...Eu também sou Soares... é recíproco. A Carol ficou feliz com o seu cartão. Tudo “lá fora” é branco e a sensação é de voar em avião pequeno. O sol tem luz de prata. O comandante pede que ‘os passageiros fiquem sentados e com os cintos’. Continuamos no mundo branco. Não me admiraria se visse, de repente, um anjo! Veja como foi uma maravilha seu cartão. Fez esta viagem trepidante tornar-se amena. Palavras e pensamentos são companheiros”. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/11/2012. - [AS SARAIVAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-saraivas-diario-do-nordeste/): O Padre João Saraiva Leão, ex-Capelão da Santa Casa de Misericórdia, foi, no dealbar do século passado, figura de proa no clero. Culto, virtuoso e destemido. Além disso, o valor de ser líder dos Saraiva Leão. Falo disso, pois sou seu sobrinho-bisneto, neto que sou de Luiza Saraiva, sua sobrinha. Ela foi aluna do Colégio da Imaculada Conceição, de quem recebeu como distinção/ prêmio o livro “Le Parc do Mystére”, da Societé St-Augustin, Desclée, De Brouwer & Cie, na França e Bélgica. Em bico de pena: “Premio do C.da. I.C. 3ª. Classe, 1ª. Divisão, em 27 de dezembro de 1912”. Luiza, essa menina estudiosa, veio a casar com o farmacêutico João Caminha Monteiro que, muito jovem, morreria de câncer. Era pai de Margarida, minha mãe. Quando minha avó, desolada e viúva, aos 40 anos, com uma récua de filhos a criar, foi o seu tio, o Pe. João Saraiva Leão, quem a ajudou a comprar a casa de morada. Dito isto, falo de duas outras Saraivas, as irmãs Ediméa e Maria Alice, primas de Margarida. Elas, ao amadurar, resolveram contar suas histórias pessoais e o fazem com graça e desenvoltura. Ediméa narra a sua saga no livro “Costurando Minha Vida”, quando poetisa: “Costurando minha vida/também costurei bonecas/ Eram lindas e bem vestidas/Pareciam que tinham vida... Não falta nada mais/Na costura tudo fiz/Bordados, bainha e festão”. Maria Alice lançou “Vida Plena”, aos 90. “Uma lição de vida”, diz a filha Mafata. Com depoimentos, filhos e netos ressaltam o amor por sua mãe e avó, viúva de José Oriá Serpa, um homem de bem. Este breve resgate familiar é, para mim, sentimento de justiça e alegria. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/11/2012 - [HSTÓRIA DA ACI, PERPETUADA POR IVONETE MAIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/hstoria-da-aci-perpetuada-por-ivonete-maia-jornal-o-estado/): Nas andanças que fiz pela última Bienal do Livro, paro no Stand da Associação Cearense de Imprensa- ACI e recebo, de presente, de seu atual presidente, Nilton Almeida, a derradeira obra da jornalista e professora Ivonete Maia, uma lutadora , capaz e obstinada pelas causas que abraçava. Fosse lutar pela classe, ajudar uma igreja de sua terra natal ou resgatar, como presidente, a história da ACI, o que o fez pela pesquisa séria, composição harmônica e consequente da escritora Angela Barros Leal. O documento/livro “ Associação Cearense de Imprensa - 85 anos na Pauta do Ceará” parte do jornalista e professor Perboyre e Silva, de quem fui aluno na Faculdade de Direito e amigo da sua família, especialmente da filha Ruth, que, após a inesperada morte do pai, dedicou-se integralmente ao desmanche das injustiças de que teria sido vítima o construtor da Casa do Jornalista do Ceará. Ítalo Gurgel, prefaciador da obra, escreve: “Na Fortaleza de meados do Século XX, Perboyre e Silva torna-se o principal protagonista. Reeleito Presidente em sucessivos mandatos,atravessaria vários capítulos construindo os alicerces da Associação, dando-lhes forma, redimensionando sua presença física e sua importância. Angela ocupa-se de cada período administrativo, detendo-se naqueles mais ricos em realizações e que deixaram marcas mais duradouras na entidade”. E isso só foi possível porque Geraldo Nobre, Adísia Sá Stênio Azevedo deram, cada um a seu tempo e forma, os elementos básicos para os fundamentos desta obra que vale porque permeia as lutas, as conquistas e até os problemas que a ACI enfrentou em sua história pautada no bom caminho da verdade. Deliciei-me ao ler o livro e me vi subindo no velho elevador de porta pantográfica para associar-me à ACI há mais de 40 anos, da qual tive a honra de ser membro do seu Conselho Superior, em um dos seus períodos recentes. Os jornalistas do Ceará têm, nesse livro, um documento sério, mas o nunca esquecido Dorian Sampaio patrocina um episódio engraçado, quando reage à escolha da “supérflua” Rainha da Imprensa e, em seguida, encanta-se com uma escolhida. Ele mesmo reconhece: “A presença de Regina Lúcia Meyer seria o suficiente para abalar a quem ali chegara, como eu cheguei”. Regina que, ao casar, tornou-se Marshall, é até hoje colunista do Diário do Nordeste e tornou-se amiga do Dorian. Poderia contar outros acontecimentos, ações e lutas, mas tiraria a graça dos leitores e me quedo, enlevado, à menção do Clube do Cinema de Fortaleza, do inesquecível Darcy Costa, que no prédio da ACI, tentava nos passar, pacientemente, conhecimentos de cinefilia. Todos os jornalistas cearenses, os estudantes de comunicação e os cultores da Historiografia devem conhecer esse legado definitivo de Ivonete Maia. (publicado no jornal O Estado, 23 de novembro de 2012) João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/11/2012. - [MANCHETE NO CHÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/manchete-no-chao-diario-do-nordeste/): Os que nasceram dos anos 90 para frente, se não virarem historiadores ou jornalistas, não saberão que houve um grupo de comunicação chamado Manchete. Aconteceu assim: uma família de judeus ucranianos, em 1922, imigra ao Brasil com parcos capitais. Entre eles, um jovem de 14 anos, Adolpho Bloch. Esse menino era filho de gráficos que conseguiram comprar uma pequena impressora para fazer cadernetas do “jogo do bicho”. Nos anos 40, destemido e capaz, passa a trabalhar com Roberto Marinho, na Rio Gráfica, e ali cresce profissionalmente. Em 1952, funda a revista Manchete que, em pouco tempo, passa a ser a mais lida do Brasil. Seu ex-colaborador Carlos Heitor Cony, sarcástico como sempre, diz que Adolpho não tinha vocabulário maior que 500 palavras. Mesmo assim, reuniu a nata dos escritores de então e deu-lhes emprego e espaço. A partir de Clarice, Drummond, Sérgio Porto, Otto Maria Carpeaux, o próprio Cony e outros. Arnaldo Niskier, jornalista, professor, escritor, acadêmico e uma espécie de sobrinho de “Seu Adolpho”lançou, agora, o livro “Memórias de um Sobrevivente”, focado na sua figura, que tinha JK como o seu maior amigo. Niskier fala da vida e da obra do velho judeu, com suas revistas, emissoras de rádio e a TV Manchete, criada em 1983. Casado, sem filhos, morre em 1995. Em 2000 foi decretada a falência das empresas Manchete. A sede, invadida por sem tetos. Hoje, em notícia de pé de página na Folha, leio que foi implodida. Ali,o Governo fará apartamentos do “Minha Casa, Minha Vida”. Thomas Mann, escritor alemão, dizia: “A glória em vida é algo problemático: é aconselhável não se deixar deslumbrar por ela”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2012 - [A PROPÓSITO DE PSICANÁLISE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-proposito-de-psicanalise-jornal-o-estado/): Há um ciclo de saber em São Paulo e em Porto Alegre denominado “Fronteiras do Pensamento”. Nele são discutidos faces distintas do conhecimento humano para um público de nível. O curso, na verdade um ciclo de palestras, custa 820 reais por pessoa. Um dos convidados, neste ano, foi o filósofo francês Michel Onfray, que escreveu, entre outros, o livro “Le Crépuscule d’une Idole, l’Afalabulation Freudienne” (O crepúsculo de um ídolo, a fabulação freudiana) que deu elementos para o título para o seu livro “Sem Freud...”. É preciso deixar claro que a opinião de Onfray faz parte de uma onda antiga – que ora se renova - de negação da herança cultural/científica do grande médico judeu Sigmund Freud. Muita gente vai a um psicanalista por razões diversas e, durante múltiplas sessões de 50 minutos, fala de sua vida e do que a incomoda no presente ou passado. O psicanalista ouve e faz intervenções pontuais. Para Onfray: “a psicanálise é uma lenda, Freud acredita que a partir de suas introspecções pessoais descobriu a verdade universal do inconsciente”. Há que ser feita, a guisa de esclarecimento, referência de que a psicanálise não é uma profissão reconhecida pelos Conselhos de medicina e de psicologia. Qualquer profissional de nível superior pode dizer-se psicanalista, a partir de cursos breves ou longos, que fez em uma das muitas correntes que constituem o mundo pós freudiano do estudo da mente. Assim, é preciso cuidado ao escolher alguém a quem se vai falar sobre a vida e a dos que com ela interagem. Onfray, que tem fama de desmistificador e polêmico, acredita que essa quase-ciência “funciona como uma religião e está na hora de desconstruí-la, como todas as outras religiões”. Colocando a psicanálise como uma religião, ele, pelo menos, alerta que devemos escolher com cuidado os padres-confessores, pastores, gurus rabinos e psicanalistas. Eles ouvem, em confiança, os problemas existenciais ou de fé dos seguidores de suas crenças e impõem limites às suas condutas. Sempre é bom saber de suas – deles - histórias pessoais, dos seus passados e ouvir opiniões dos que já os conhecem bem, antes de revelar suas dores, humores, amores ou temores. Estas observações espelham apenas, de forma simplificada, o que li na “Ilustrada” da Folha, de 12 de outubro passado, e ora procuro transmitir aos leitores. Elas não refletem, necessariamente, a minha opinião. A defesa do austríaco famoso Sigmund Freud não precisa ser feita por mim. Ele próprio, no livro “O mal-estar da civilização”, afirma: “contra os ataques é possível se defender: contra o elogio não se pode fazer nada”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/11/2012 - [ANJOS GUERREANDO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/anjos-guerreando-diario-do-nordeste/): Fui convidado pelas irmãs Ana e Eliana Matos para o lançamento de romance póstumo de seu irmão, Alcides Matos, de cuja família sou amigo. Na verdade, o Dedé, como o o chamavam, era dos que vieram ao mundo com o espírito curioso, o olhar crítico, o silêncio sarcástico e a verve dos que (des)aprenderam a ser gente comum. Aprestou-se no Colégio Cearense e daí para o Colégio Naval, em Angra dos Reis. Descobriu que o mar não era a sua praia, pois coturnos dão calos e tampouco batia continência. E aí se fez redator de televisão, formou-se em direito e, em mais um concurso vencido, entrou para a Justiça Federal. Mas, justiça seja feita, Dedé gostava mesmo era de ler, estudar música no Conservatório Alberto Nepomuceno, assuntar bares e viajar. Esses atributos o faziam distinto dos que não veem os cultos como normais. Assim, o seu livro “Que anjos são esses que andam guerreando”, ficciona a realidade que, no dizer da professora Eliana Matos: são “histórias que se abrem e se encerram em cada capítulo, que se encadeiam entre si, num elo simbólico como poucos encontrados no gênero romance, até porque, além do respeito que o autor mantém pelos vínculos afetivos entre os seus personagens, ele tem total domínio de seu estilo... é a questão existencial do autor posta em romance em que várias vozes se fazem ouvir, cada uma com sua trajetória e desfechos traçados a filigrana. Afinal, como diz Jorge L. Borges: ‘son formas de felicidade, no objeto de juicio’”.Na Livraria Cultura, reencontro parte dos Matos, do branco sobrado da Assunção. Alegrou-me a ponto de imaginar que Alcides estava olhando enlevado para todos. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/11/2012. - [DIÁRIOS E DN - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/diarios-e-dn-diario-do-nordeste/): Revisito papéis. Aos 15 anos fazia política como diretor da União Cearense dos Estudantes Secundários. Vejam anotações esmaecidas em caneta tinteiro:“Dos dias 17 a 22 de março aconteceu o 4º. Congresso Estadual dos Estudantes... Estou agora em sua vice-presidência. Os temas principais foram:Reforma do Ensino Secundário, Biblioteca do Estudante, Teatro do Estudante etc.”. Páginas 71 e 72 do Diário que guardo. A partir daí, viagens, congressos, palestras, cursos e seminários, aqui e alhures. Psicologia, com o Prof. Vilhena de Moraes, do Rio. Tenho anotações: “Existe uma íntima relação entre a palavra e o controle muscular”, pag.270. Participei, ainda, como ouvinte, de congresso de Filosofia na Faculdade de Direito. Depois, aluno e “deputado” pelo CA Clóvis Beviláqua, ouvi aula magna de Celso Furtado, advogado com formação socioeconômica. Relendo seus “Ensaios sobre Cultura e o Ministério da Cultura”, observo: “Queria inicialmente ser romancista, ficcionista. A minha grande leitura, até hoje, é literária. A descoberta que faço do homem é através da literatura, nunca pela ciência”. Entrei em jornal substituindo Pedro Henrique Saraiva Leão na coluna “Informes Acadêmicos”, Correio do Ceará. Lá passei anos, com salário e escrita diária. Tive o privilégio de ter Henry Kissinger como coordenador de curso, por concurso, nos USA. Depois, aprendi a fazer projetos e planejamento urbano. Elaborei, dirigindo equipes, planos diretores para dezenas de cidades do Nordeste. Ao cabo, empreendi. Há décadas, estou, aos domingos, neste DN, a lançar idéias ou cronicar. Na escrita, oitavo livro. “Brevis ipsa vita est”. Públio Siro, poeta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/11/2012 - [SANDY E JORGE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sandy-e-jorge-jornal-o-estado/): Garanto a vocês que não vou falar de dupla sertaneja. Preste atenção. O Brasil saiu ileso de mais uma eleição municipal, apesar de ataques e contra ataques. Porém, 20% não votaram em ninguém. É um sinal. Os eleitos prometem. Há crimes, mas a natureza nos garante sol, nenhum furacão nos atormenta, o progresso nos convida à parceria, o Neymar está de cabelo novo e “Salve Jorge” entorpece os que não leem. Enquanto isso, nos Estados Unidos, país maior do que o imaginário sobre compras em Nova Iorque e Miami e diversão nas Disneys, sofre horrores com o ciclone “Sandy” que dizima o encontrado pela frente. A temporada de furacões vai de março a novembro, todos os anos, na América que se prepara para uma dura eleição presidencial na próxima terça. Desde 2009, os EUA, têm uma nova cara, a da pobreza realçada pela crise econômica do ano anterior e a chegada de um presidente negro à Casa Branca, o velho e assombrado prédio da Avenida Pensilvânia, 2600, Todo o tempo cercado de manifestantes. Democracia tem disso. Conheci os EUA ainda envolto em problemas raciais sérios, emendado com os assassínios dos Kennedy, John e Robert. Depois, Richard Milhous Nixon foi obrigado a renunciar, por conta de espionagem no partido adversário, o Democrata. Se espionagem desse impeachment no Brasil poucos homens públicos – e até interesses privados – ficariam ilesos. Hoje, as escutas telefônicas, filmagens e a invasão da Internet são comuns na vida política nacional que usa guardiões. Não é sem razão que o Brasil está na linha de frente dos “hackers” em todo o mundo. Terça, como disse, Barack Obama e Mitt Romney estarão sendo votados para Presidente da América. Lá, vota quem quiser. Não há a obrigação de se votar. De um lado, um advogado, filho de africano culto, altamente qualificado por sua formação acadêmica harvardiana e política - hoje presidente -enfrentará um Wasp (branco, anglo-saxão e protestante), também ex-aluno da Harvard University, rico de nascença que ficou ainda mais endinheirado, ex-governador do próspero estado de Massachusetts e evangélico – ex-bispo - da singular seita Mórmon. Na quarta, ao acordarmos, o mundo será o mesmo? Nenhum dia é igual a outro. Mas, a Europa continuará em crise, o Chile persistirá atônito com a abstenção de quase 40% dos eleitores na eleição municipal de domingo passado. O camareiro do Papa permanecerá prisioneiro domiciliar no Estado do Vaticano. Velhuscos europeus descerão em aeroportos nacionais sedentos de aventura. Judeus e árabes trocarão ameaças. Jornais brasileiros falarão de Dilma, Lula, Dirceu, STF, Eduardo Campos, Haddad e do exílio de Serra. A noite, milhões de brasileiros, de todos os partidos, estarão de olhos postos em “Salve Jorge”. É a Glória, Perez. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/11/2012. - [SENHOR PREFEITO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/senhor-prefeito-diario-do-nordeste/): Hoje, dois candidatos estão em luta por seu voto. Um perderá. Que Fortaleza vença, ao escolher o melhor. O melhor será o que tiver futuro honesto, diligente e eficaz para os 5,5 bilhões do orçamento de 2013, com suas fontes e usos. Divulgue-os através de plataformas, bancos de dados e o dissemine pela Net e prodigalize o uso de Wi-Fi para que o cidadão saiba o que está acontecendo, no dia a dia. Interaja com os governos Estadual e Federal. Assim, por meio deste, encarecemos que, passada a refrega, envie, por escrito, o seu Plano de Gestão para a imprensa da cidade, aos vereadores eleitos, ao TCM e o registre em Cartório de Notas com propostas reais/efetivas sobre educação, saúde, áreas críticas, casas populares, desenvolvimento ambiental e urbano, lazer, tudo o prometido na sua propaganda. A cidade atual rejeitou ser afável e brejeira e tem tantas faces quanto as identidades comprometidas por sua ocupação anômala. Quase a metade dela vive pobremente. Queremos saber apenas como vamos viver os próximos quatro anos com trânsito caótico, camelôs em vias e calçadas estreitas, bocas de fumo, invasões, esgotos a céu aberto, iluminação deficiente e a quase ausência de entidades sérias na capacitação de trabalhadores sem ofício. Faltam espaços de lazer e convivência saudável para os 2,5 milhões de pessoas a espera pela bonança a que têm direito. Senhor Prefeito, reflitamos, Fortaleza precisa de Plano objetivo, com infográficos, séries estatísticas, glossário, plataformas, tecnologias inteligentes e texto claro. Ela está rebelde e não é mais desposada do sol. Espreme-se, suada e maltrapilha, do Cocó ao Rio Ceará, do Zé Walter à Beira Mar, em espasmos de dor, pelo achaco de seus espaços, vias e mananciais. Isto é utopia? Precisamos sonhar com o amanhã! Planeje, lidere, assuma. João Soares Neto, fortalezense CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/10/2012. - [AMIGOS HÁ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/amigos-ha-jornal-o-estado/): “Fazer amizade fica difícil à medida que os anos passam, mas é possível abrir o círculo recriando, em qualquer idade, aquela antiga disposição para investir em gente nova”. O texto acima é de Amanda Lourenço, colaboradora do caderno “Equilíbrio”, da Folha de SP. A palavra nova não se refere à idade, mas ao desconhecido, ao inédito, ao buscado. Amanda usa ainda duas impressões destacadas. A do psicanalista Francisco Daudt refere que “é muito raro que amigos de infância mantenham afinidades na vida adulta, mas intimidades antigas também podem ser muito confortáveis”. Outro ponto de vista é o do antropólogo Mauro Koury, paraibano, apesar do sobrenome árabe. Koury diz que há uma ação ambígua entre o plano de conquista profissional, que exige foco em si mesmo, e a necessidade de compartilhamento social. Tudo isso me vem ao constatar a atitude de dois amigos do jornalista Lustosa da Costa. Juarez Leitão e Edmo Linhares estão instando amigos a escrever sobre o amigo LC, recentemente transformado em cinzas no Rio Acaraú. Eles não poderão mais agradar a quem se foi, mas criaram uma alçada para mitigar o vazio que surge quando alguém desaparece de nossa vida. E não é preciso morrer para desaparecer, bastam o afastamento e o comodismo, os dois elos para que uma amizade vá para o espaço. Quase ninguém tem a coragem de dizer: eu sinto saudades de você. Tenho prazer em encontrá-lo. Todos têm saudades de uma ou mais pessoas, e nos deixamos levar pelo afastamento físico, sejam alguns quilômetros ou milhares. O comodismo, decorrente do trabalho ou da preguiça, nos desfoca dos encontros que poderiam acontecer em um restaurante, em uma caminhada, em um telefonema e até por e-mail, que nos aproxima – às vezes de mentira – de estranhos. A procura dos sites de relacionamentos virtuais é uma demonstração da carência humana em apagar os desencontros havidos e aceitar o desafio do novo. Entretanto, nada há melhor do que a conversa. Aquela em que ficamos frente a frente e sabemos, pela fisionomia, pela respiração, pelo gestual e até pelos odores, se somos ou não aceitos, queridos ou, em contrapartida, se aquela pessoa nada tem a ver conosco. Theodor Adorno, filósofo alemão do século vencido, acredita que existe um critério quase infalível para determinar se alguém é realmente seu amigo: o modo como refere opiniões agressivas ou descorteses a seu respeito. Filosofia à parte, acredito em amizade. Amigos há. Eles se encontram na adversidade, na queixa não referida, nos botecos, nos aeroportos, nos esbarros, ao descobrir nossos achaques e entender os nossos silêncios. E falas. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/10/2012. - [BIENAIS DO LIVRO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bienais-do-livro-diario-do-nordeste/): Em novembro teremos mais uma Bienal do Livro no Ceará, agora no Centro de Eventos. A propósito, há queixas recorrentes de visitantes, autores e editoras sobre as Bienais, agora em São Paulo. Raul Wassermann, ex-presidente da Câmara Brasileira do Livro e editor da Summus, diz: "O tempo passou. Veio a informática, passamos dos estandes dos anos 1970, armados a tábuas e pregos, às tentativas de nos tornarmos a Frankfurt dos trópicos". São Paulo não se tornou a Frankfurt das Américas e, quiçá, uma Buenos Aires. Wassermann diz que nos esquecemos de criar leitores. Uma Bienal não deve ser feita apenas para cumprir calendário, mas trazer algo novo em ideias e não apenas repetir os mesmos cansados expositores e os grandes saldões de livros encalhados, misturados com a autoajuda que se esvai na cabeça de quem tem Paulo Coelho como referência literária. Esquecer os leitores é uma característica do Brasil atual. Sabem a razão? Todos temem escrever acima do que pensa o "brasileiro médio". E quem será esse médio? Os leitores de jornais diminuem e crescem noveleiros e amantes de lutas. A morte da apresentadora Hebe Camargo mereceu mais destaque que o centenário de Jorge Amado e Nelson Rodrigues. Claro que Hebe Camargo foi ídolo da televisão, mas não dos que a desejam informativa, lúcida e imparcial. Bienal de Cultura não é apenas um destino de passeio para estudantes que não se aquietam em um salão para ouvir, por exemplo, sobre Monteiro Lobato, um grande escritor, não só infantil, mas para adultos como "A Barca de Gleyre". João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/10/2012 - [OS CORREIOS, O HOJE E AS CARTAS DE(QUASE) AMOR ENTRE PESSOA E OFÉLIA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-correios-o-hoje-e-as-cartas-dequase-amor-entre-pessoa-e-ofelia/): Hoje, pelos Correios, recebem-se cobranças bancárias, convites, propagandas, oferecimento de cartões de crédito, lançamentos imobiliários, cumprimentos de políticos no Natal e em datas aniversárias, agradecimentos de famílias dos mortos amigos e que tais. Exauriu-se o tempo em que cartas nos traziam boas ou más notícias, esperadas sofregamente. O Carteiro é hoje um mero despachante abarrotado de envelopes em pastas a tiracolo cujos conteúdos nos dizem quase nada. Hoje a comunicação é instantânea - pelo computador e telefone e, quase sempre, em palavras abreviadas, como se a pressa impedisse o outro de ser mais explícito ou cordial. Vivemos um tempo minimalista e volátil. Nada é permanente. Tudo é programado para cair em desuso ou ficar careta e antiquado. Os “nerds”, nome dado aos que se ligam em tudo na comunicação informatizada e que pouco se situam no nosso mundo, dito real, viram adictos em mudanças e criam comunidades com comércio e linguagens próprias. A propaganda nos impinge todos os anos, lançamentos de novas versões de celulares, tabletes e computadores Nenhum de nós, os meros usuários dessas máquinas que usamos para o trabalho e a comunicação com amigos, tem o domínio absoluto dos constantes “upgrades” ou melhorias para os nossos notebooks e celulares, programados que são para a breve obsolescência. Imagino, por exemplo, como seria a vida do poeta português Fernando Pessoa (1888 -1935), se vivo fosse agora. Pessoa usava vários heterônimos (criaturas inventadas por ele com profissão e características particulares, com estilos e modos dessemelhantes). Cito os principais: Álvaro de Campos (“Todas as cartas de amor são ridículas), Ricardo Reis(“Da verdade não quero mais que a vida”), Alberto Caeiro(“Não sei o que é conhecer-me”) e Bernardo Soares (“Mas não há sossego – e ai de mim! Nem sequer há desejo de o ter”). Se Pessoa tivesse um computador à sua mercê quantos mais heterônimos teria criado e o que eles não haveriam escrito? Esta semana, conversando com o Embaixador português no Brasil, Francisco Ribeiro Telles, falei sobre a Coletânea das cartas trocadas entre Fernando e Ofélia Queiroz, que no Brasil sairá no próximo ano. Ele, como diplomata, falou sobre o tema, mas estava mesmo preocupado com as medidas fiscais que o seu país está a tomar de modo forçado. Este é o mundo que o Dólar, o Euro e o Yan criaram. Voltando às cartas trocadas entre Fernando Pessoa e a quase-namorada Ofélia Queiroz, creio que elas dizem pouco, pois nada mais são que um quase com fim. Leio e adoto texto enviado por Isabel Coutinho para a Folha de SP. Pessoa sempre foi esquivo. Ele se auto define: “É preciso que todos, que lidam comigo, se convençam de que sou assim...” Assim como? Perguntaria alguém. Não sei. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/10/2012. - [DINHEIRO DE PLÁSTICO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dinheiro-de-plastico-diario-do-nordeste/): Milhões de brasileiros devem aos bancos e às empresas de cartões de crédito. Na hora da abertura, tudo é facilitado e oferecido por pessoas bem treinadas, como se os cartões de crédito/débito/consignação fossem um amigão ou prova de que você é importante. O tal do status social. Fazem o seu cadastro, aprovam o seu limite de crédito/débito, estabelecem um dia para pagamento e deixam você livre para gastar. Na hora de comprar, os vendedores perguntam: à vista ou no cartão? E dizem, em seguida: você pode pagar em tantas vezes, sem juros. Conversa fiada. O preço à vista, quase sempre, é o mesmo preço do pagamento em 10 vezes, pois as grandes lojas ganham não só nos artigos que vendem como nas operações financeiras. É sem juro, mas cobram. E ai se você atrasar a data de pagamento... A multa não é a de lei, mas a que eles determinam. O que você deve a uma empresa de cartão ou banco passa a ser um recebível para ele. Você tem ideia de quanto foi a média dos juros dos cartões de crédito no ano passado? Cerca de 324% ao ano. Esses juros são extorsão e a classe lutadora, infelizmente, é enganada e não há quem a defenda. Só recentemente a presidente Dilma foi alertada do problema. Fizeram de conta que baixaram os juros. Baixaram um pouco. Pessoas pobres são induzidas até a fazer casamentos com festa e pagar no cartão de crédito. Depois, não têm como pagar. É preciso que o Banco Central se apiede e analise os problemas de milhões de pessoas inscritas no SPC, Serasa e em cartórios de protestos. Para limpar os nomes, mais despesas. Todos ganham e os pobres continuam sem defensores. João Soares Neto escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/10/2012. - [TODOS SOMOS CRIANÇAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/todos-somos-criancas-jornal-o-estado/): “Para Bruno, a mais criança das minhas”. Hoje é o dia de todos nós. Os que fomos crianças e os que ainda estão crianças. Criança é um rito de passagem, é a travessia de uma ponte. De um lado estão os pais: não atravesse. Do outro, o mundo nos chama, nos desafia. Abaixo, águas revoltas de uma corredeira, animais ferozes e pedras gigantescas. Se satisfizermos aos pais, não descobriremos o que tem do outro lado da ponte, onde estão intimidações e chances. As intimidações, desde sempre, os atuais bullying (físicos e psicológicos), muitas vezes, são maiores que as chances. Enfrente-os. Estudar não é fácil, mas é necessário. Gazear aulas é divertido, mas, se vira costume, é inferno. Acordar cedo é chato, mas a vida nos pede isso. Vestir farda, corresponder a professores chatos e voltar a pé para casa ou de ônibus não é mole, mas é um dos custos que o futuro nos cobra. Fazer vestibular é uma dureza (só havia faculdade pública), mas o gosto da conquista vai nos mostrando que esse pode ser o caminho. Hoje, as crianças, exceto as filhas de humildes, são cheias de vontade, de razão, e parecem que entendem o mundo porque apenas sabem mexer em jogos no tablet ou no celular do pai. Cobram, comparam-se aos colegas e poucos sofrem com a realidade da existência que o pai não lhes passa, para não fazê-las sofrer. Assim, o pai atura os pedidos dos filhos e da mulher e tenta – sabe Deus como – comprar em prestações ou ceder à maldição do cartão de crédito. Hoje, Dia da Criança, tente rever o seu pretérito passado e saiba que os seus pais – ou só o pai, ou só a mãe – fizeram o que puderam para torná-lo gente. O problema é que não há escola para formação de pais, não há receita para a felicidade da família. Tudo é um intrincado, um dilema, um labirinto e os caminhos das saídas vão sendo feitos no escuro, tateando, escorregando, trombando. De repente, não somos mais crianças e tampouco adultos, ficamos no limbo da quase descoberta, essa coisa indefinível que nos afaga com os seus encantos e nos lapida com os percalços. Platão, que não teve esposa e filhos, já dizia: “Os filhos dos homens, dentre todos os animais jovens, são os mais difíceis de serem tratados”. Escrevo para adultos, certamente, mas tente agradecer aos mais velhos, os que o ajudaram a caminhar sozinho, a enfrentar as pugnas, as barreiras, e talvez você se respeite e bata no peito a dizer: cresci, mas como era bom ser criança. E como dei trabalho. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/10/2012. - [AMÉRICA, ELEIÇOES, VOTOS HISPANICOS E REALIDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/america-eleicoes-votos-hispanicos-e-realidade-jornal-o-estado/): Leitores, não estou me repetindo. Concluo o raciocínio da semana passada. Nesta terça, passei parte da noite vendo estações de televisão e jornais, mundo afora. Decidia-se a eleição americana de 2012 e quem chegasse a 270 votos no Colégio Eleitoral seria o novo presidente. O Colégio Eleitoral americano é o somatório dos votos ponderados para o vencedor de cada estado. Os votos de quem perde em um estado são zerados no Colégio Eleitoral. Assim, quanto maiores forem os estados que o candidato ganhar, mais votos terá na decisão final. O fato é que deu Barack Hussein Obama, o negro ex-professor de Harvard, casado com mulher da mesma tez, de elevada formação acadêmica, ganhou do bilionário Mitt Romney. O povo de lá, como o de cá, quer direitos assegurados para a saúde, proteção social aos mais pobres e sentir-se parte de um projeto de inclusão que já se faz tarde. Cheguei, ainda estudante, a Nova Iorque e o ônibus que nos levava à Columbia University mostrava o Harlem, área em que os negros viviam segregados. Passaram-se décadas para que um negro, mesmo qualificado, ousasse disputar a presidência da América. Esse negro tinha inclusive, o nefando sobrenome Hussein, entre o Barack e o Obama. Principalmente, após o 11 de Setembro de 2001, sem falar que Obama soa com Osama. Audácia, competência, sorte, destino, muita luta, ou seja lá o for, levaram-no a sentar na cadeira que foi de Abraham Lincoln, o primeiro presidente a lutar contra a segregação. Esta semana, repetiu a dose e venceu. A palavra negro, que usei várias vezes neste texto, mostra um laivo de preconceito. Como a dizer, você é diferente de mim. O mesmo acontece por lá com “hispânicos”, todos os que nasceram abaixo do Rio Grande, este divisor que mostra a enorme fronteira com o México. Explico: essas terras são fruto de guerra de conquista americana em que tomaram à bala as áreas que hoje configuram os estados da California, Nevada, Texas e Utah. E parte do Arizona, Colorado e Wyoming. Ao cabo, em 1848, foi assinado o Tratado Guadalupe Hidalgo, através do qual os EUA “compraram”, por quinze milhões de dólares, uma área equivalente à metade do antigo território do México. Tudo foi fruto do governo de Thomas Jefferson que acreditava ser a América possuidora de um “Destino Manifesto”, através do qual poderia expandir-se e ficar de cara larga para o Oceano Pacífico. Hoje, a América deve repensar as consequências dos seus desejos, ainda manifestos, de ser sempre a maior. O que ela precisa é ser mais justa com todos, primeiro com os seus cidadãos, independente da cor da pele e da situação financeira. Obama soube usar o mote “Yes, we can” (Sim, nós podemos) para dar esperança aos pobres. Agora, nesta segunda vez, usou “Forward América”, algo como Adiante América. Ir adiante, sim, mas, primeiro, acertar as contas com o passado. Um lembrete a Obama e a todos: a China, não por acaso, mudou o comando do governo nesta semana. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/11/2012. - [LUSTOSA DA COSTA - RETALHOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lustosa-da-costa-retalhos-jornal-o-estado/): Nos finais dos anos sessenta, o Lúcio Brasileiro, o Lustosa da Costa, o Frota Neto, o Fernando Távora, o Dário Macedo e alguns poucos mais formavam uma turma que se dividia, no começo das noites, entre os restaurantes do Ideal Clube e do Náutico. Tive a honra de participar desse grupo que, etilicamente ou não, discutia política e os costumes da provinciana Fortaleza. A esse tempo, Lúcio (Sociedade), Lustosa (Política) e eu (Administração&Negócios) escrevíamos, diariamente - e por anos - no Correio do Ceará, dos Diários Associados. Não contei às vezes em que fui deixá-lo na casa do Sr. Costa, seu pai, na Piedade. Depois, já nos princípios dos setenta, Lustosa, Anastácio de Sousa e Eduardo Augusto Campos fundaram uma agência de publicidade. A primeira reunião foi na minha casa. A meta era ter como cliente maior o grupo Credimus, do qual eu fazia parte. Destarte, assim foi feito. Em seguida, Dorian Sampaio, abruptamente novel cassado, achega-se a mim com a ideia de reeditarmos o Anuário do Ceará que havia parado de sair com a morte de Waldery Uchoa. Do jeito doriano de ser, ele me disse: quero que você entre. Pedi para ele fazer um projeto. Ele retrucou: você me paga o trabalho? Claro, respondi. Dias depois, o Dorian volta com o projeto. Li, estudei, paguei o combinado e falei: Dorian, arranje um sócio da área. Assim, surgiu a sociedade Dorian-Lustosa para o “revival” do Anuário do Ceará. Em um dos sábados, na cobertura do Lúcio Brasileiro, no Iracema Plaza Hotel, Lúcio, Lustosa e eu fizemos um “pacto para o futuro”, que já se faz quase passado. Prometemos que nos ajudaríamos mutuamente em caso de necessidade. Isso não foi preciso. Cada um fez o seu caminho, com luz própria. No dia em que Lustosa resolveu mudar-se para o Rio de Janeiro, perpetramos um bota-fora no San Pedro Hotel. Quem encabeçou a homenagem foi Danilo Marques. Ficamos lá até a hora do seu embarque dorido para o apartamento de fundos, na Av. Nossa Senhora de Copacabana,” Ali Lustosa fez pouso, com o apoio do Orlandino Rocha, irmão do Ayrton, antes de se definir por Brasília. Pouco tempo depois, Danilo e eu fomos visitá-lo no Rio e tive a quase impossível incumbência de ensiná-lo a dançar, pois ele estava no mercado afetivo carioca. Jornalista diário, escritor compulsivo, integrante da Academia Brasiliense de Letras, com quase 30 livros publicados, orgulhava-se dos “atestados” que lhe deram os leitores/críticos Jorge Amado, José Saramago e Mia Couto, para ficar nos mais notáveis. Por outro lado, mantinha lá, como aqui, grupos de amigos que o festejavam sempre. Lá, Wilson Ibiapina e Fernando César Mesquita expressam, em nome dos demais amigos cearenses-brasilienses, esse círculo afetivo que se fazia permanente nas suas idas diárias ao Congresso Nacional, sempre de paletó e gravata, e à sucursal do “Diário do Nordeste”. Era cioso de sua amizade com o senador José Sarney e d. Marly, comensais recíprocos em suas residências. Vinha ao Ceará todos os meses. Aqui, entranhou-se no anárquico-literário Clube do Bode onde, com sua voz anasalada, sob o olhar cúmplice do Sérgio Braga, provocava Juarez Leitão, o irmão confidente eleito na maturidade, para soltar o Juca Bacurim nas manhãs calorentas de sábado, que, anos após, foram sendo amainadas em uma mesa redonda no climatizado bar do Ideal.ky. Daqui partia de ônibus para Sobral para ouvir as conversas no Beco do Cotovelo, esmiuçar jornais, conversar com colegas de seminários e, há alguns anos parar, perplexo, junto com o fido escudeiro Juarez, e admirar a Biblioteca Lustosa da Costa, seu amor em forma de paredes e livros. Em janeiro de 2007, convidei-o para integrar o meu livro “Gente que Conta”, em que entrevisto dezesseis personalidades cearenses. Ele respondeu a todas as perguntas que fiz em vinte páginas, com o coração aberto, claro e sincero. Há alguns dias, Juarez, Teles, Sérgio, Edmo e outros demonstraram afetividade genuína para os mais de trezentos amigos que estiveram no Ideal no lançamento da reedição de “Sobral do Meu Tempo”, 30 anos após 1982. Era, ao meu olhar, apenas um pretexto para que gravássemos mensagens ao vivo, não tão brilhantes como os discursos do Juarez e da Isabel Lustosa, sua irmã, mas tão enternecedoras como o texto da filha Sara, lido por sua tia Lúcia Lustosa Benevides, na presença de d. Dolores e seus irmãos. Gente madura em preito de reconhecimento e benquerença. Estes retalhos não são para demonstrar intimidade, mas apenas dizer da longevidade de uma amizade que Brasília surrupiou. Casado com Verônica, formou ali uma família que sempre fulgurava em suas crônicas, pelo saber, a poliglotice dos filhos e as suas vidas independentes, brilhantes que são. Isso eleva e enleva o esforço que ele fez para viver um ano e meio sabático em Paris com toda a família, certamente atiçado por seu amigo e colega de Faculdade de Direito, Paulo Elpídio. Faço-me longo. Uso Leon Tolstoi para fechar esses meus alinhavos com uma mensagem ao próprio Lustosa, à d. Dolores, seus irmãos, Verônica e filhos: “Para se viver com honra é preciso consumir-se, perturbar-se, lutar, errar, recomeçar do início e jogar tudo fora, e novamente recomeçar... A calma é uma covardia da alma”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/10/2012 - [AMIGOS VEROS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/amigos-veros-diario-do-nordeste/): Li na revista "Época" desta semana uma reportagem sobre as amizades. Embora seja longa e feita por três autores, ela me pareceu superficial. Cita muita gente contemporânea, principalmente dos EEUU, escafandra Aristóteles, passa pelos franceses Montaigne e La Boétie e chega ao Brasil. Se entendi bem, há duas conclusões. 1. Ninguém tem mais que cinco amigos, incluindo os familiares. 2. Apesar disso, 54 milhões de brasileiros estão escarafunchando o Face Book para encontrar com quem preencher os seus vazios. Na verdade, ninguém nos preenche. Nós, eu, você e todos, somos seres incompletos na ilusão de um paraíso que não acontece aqui. Quiçá depois. A liberdade de estar só, lendo o que queremos, não tem preço. A felicidade do anonimato é algo prazeroso, daí é preciso, vez por outra, arrumar bornais e dar a cara pelo mundo. Não sei se tenho cinco ou mais amigos, pois antes é preciso deixar claro o que entendemos por amizade. Para mim, se há interesse não há amizade. O interesse deve ser apenas o de estar junto, trocar sentimentos, sem que aquilo seja trombeteado. Mas tenho certeza que não preciso fazer caras e bocas para falar com todos. Amizade é desígnio. Se não sou espontâneo é melhor me afastar do que não me dar a liberdade de ser eu. Quando o tempo resgata lembranças, talvez nos pregue peças. Aconteceu como lembramos? Hoje, como antes, há solidão, esse sentimento que nos diz humanos e imperfeitos. Mas isso não dá alvará a ninguém para usar o Face Book, Orkut ou o que valha para escrever bobagens ou traçar um perfil seu. Estou fora dessa. Afinal, você sabe quem você é? João Soares Neto escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/09/2012 - [FAZER UM JORNAL POR 76 ANOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fazer-um-jornal-por-76-anos-jornal-o-estado/): Na adolescência dirigi um clube de amigos. Esse clube tinha um jornal: “O Girafa”, que significava Grupo de Instrução e Recreação Atlética de Fátima. Saiu poucas vezes. Eu era o faz tudo: redator, noticiarista e distribuidor. Fiz o que pude. A historiadora Valdelice Girão, do Instituto Histórico, foi uma das inspiradoras e talvez se lembre desse fato. Depois, já na UFC, fui presidente da Cooperativa Cultural dos Estudantes Universitários, sucedendo ao brilhante Manuel Aguiar de Arruda. Funcionava na Rua Senador Pompeu, perto da Faculdade de Direito, no antigo prédio do Diretório Central dos Estudantes. Lutei muito para conseguir livros, criar interesses dos colegas, editar um jornal, mas a colaboração era mínima. O Manuel Arruda é testemunha viva. Tudo isso me vem à mente ao saber que o jornal O Estado completou 76 anos. Imaginemos como era Fortaleza em 1946, quando o Brasil acabara de sair da ditadura, o presidente era o Marechal Eurico Gaspar Dutra e tentava deixar de ser um país agrícola para começar a era da industrialização. Ainda sem favelas, que começaram a surgir nos anos 50, a capital cearense sombreada por fícus-benjamim tinha em torno de 200 mil habitantes, os americanos – que vieram com a 2a Guerra – haviam ido embora para tristeza de algumas “coca-colas”. A pavimentação, quando existia, era em pedra tosca e paralelepípedo, pouco esgoto e água encanada, os bondes elétricos trafegavam de forma precária em face da energia bruxuleante fornecida pela Light, tendo sido desativados no ano seguinte. Mas Fortaleza não era pacata, politicamente falando. Em 1946, a ebulição democrática mostrava isso. Foram três prefeitos nesse ano: Oscar Barbosa, Romeu Martins e Clóvis Matos. Intrigas. A Ceará Rádio Clube imperava na radiofonia, mas no campo jornalístico havia muitos jornais. Correio do Ceará, Unitário, O POVO, O Democrata e O Nordeste dividiam o reduzido número de leitores citadinos. Pois foi nesse cadinho que surgiu o jornal O Estado, independente, tal como ainda hoje o é, fundado por José Martins Rodrigues - dirigente do Partido Social Democrático- PSD, opositor direto da União Democrática Nacional-UDN - advogado, professor universitário e um dos políticos mais respeitados da história política brasileira do século passado, ocupando relevantes cargos públicos, inclusive o Ministério da Justiça. A história do jornal O Estado já foi contada por jornalistas, escritores e memorialistas. O que apenas tento dizer é que O Estado foi um dos dois jornais que superaram, desde então, todas as intempéries políticas, crises econômicas e sociais, que vivemos nestes três quartos de século. No começo desse escrito, frisei como é difícil fazer funcionar um mero jornal de jovens e dirigir uma cooperativa cultural. Imagine um jornal de verdade. Aglutinar, por 76 anos, jornalistas, colaboradores, redatores, clientes, oficinas, distribuição e estar nas bancas todas as manhãs do dia seguinte. O Estado teve várias fases, mas sua consolidação final se deve a uma luta renhida do advogado caririense Venelouis Xavier Pereira, que se arvorou em empresário jornalístico em um meio absolutamente hostil. Sofreu e resistiu. Hoje, seus filhos, capitaneados por Ricardo Palhano, com a presença materna de D. Wanda, o dirigem com equilíbrio, integridade, consequência e livre, como sonhava Venelouis. Parabéns a todos. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/09/2012. - [PREFEITO E VEREADOR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/prefeito-e-vereador-diario-do-nordeste/): Dia desses fui surpreendido por perguntas assim: O prefeito manda na cidade? Ele precisa morar nela? Para que servem os vereadores? O Prefeito é alguém que, filiado a um partido político e, às vezes, integrando uma coligação, apresenta aos eleitores um projeto de gestão para os quatro anos do seu mandato. Esse projeto tem que obedecer à Lei Orgânica do Município, ao Plano Diretor e ao orçamento que recebe do seu antecessor. Apenas no segundo ano é que, ciente da realidade ou inconsistência do orçamento recebido, aperfeiçoa-o, segundo as prioridades definidas. O prefeito é um executivo da cidade. A cidade é como uma empresa que tem problemas de toda a ordem e que precisa de alguém com legitimidade, conhecimento, capacidade, habilidade, sensibilidade, honestidade e saúde física e mental para priorizar ações. Ele deve escolher secretários ou auxiliares que entendam de ensino, sistema de saúde, limpeza, iluminação, pavimentação, bem-estar, trânsito, transportes urbanos e muita coisa mais. Assim, é preciso que você descubra a pessoa que, por sua história de vida, tenha essas qualificações. A eleição é oportunidade para mostrar sua cidadania. O título de eleitor é uma prova de que alguém vive na cidade em que vota ou é votado. Viver uma cidade é entranhar-se nela e não apenas passar ou estar nela. Vereadores não precisam ser humoristas, jogadores de futebol, dançarinos, sindicalistas, cantores, militares e sábios. Precisam sim, entender que serão legisladores e delegados do povo, aqueles que fazem as leis, não as de denominação de rua, mas as que influem na normatização da cidade. Tampouco são despachantes de interesses. Devem, no mínimo, acompanhar a aplicação do orçamento e exigir respostas do Prefeito. Estas apoucadas informações alinhavadas têm o objetivo de pedir a você que não vote por brincadeira. Vote pensando nos problemas e no futuro da cidade. Vote em quem acredita ser capaz de resolvê-los. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/09/2012. - [BAHIA DE TODOS OS JORGES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bahia-de-todos-os-jorges-jornal-o-estado/): Cheguei ao Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, antigo 02 de julho, muitos séculos depois que D. Thomé de Souza, tido como fidalgo português, aportou por lá em 1549. Tomei um carro e logo fui envolvido por um túnel de bambus quase um ramalhete verde que dá boas vindas aos que se aproximam da Primeira Capital. Estive na Bahia de Jorge Amado. Vi uma grande exposição de pinturas em que ele é a figura principal em “slacks” com folhas vermelhas. Ele só. Ele com Zélia e ele com o povo. Jorge, agora centenário e, agora talvez em papos transcendentais no além com Caribé, é nome de quase tudo na Bahia. Estava reeditado em livrarias, em capas mole e dura. Um amigo me diz que Jorge é tal qual o Antônio Carlos Magalhães, o deus e o diabo na seara dos votos, que ainda disputa mandato através do neto nominado. Comparação estranha. Calo-me. Depois, andei – varando uma multidão que ouvia um pastor evangélico televisivo, pela Praça Castro Alves, mar ao fundo, pertinho da Prefeitura, do elevador Lacerda, da monumental Secretaria da Cultura e do Pelourinho apinhado de vendedores e uma ambulância de portas abertas e luzes piscando. Não havia acidente, tampouco crimes. A cidade nos abrasileiriza em sabores, cores e no jeito dolente de falar: “Diga, meu lindo”. Entrei na casa de Yemanjá com a fachada plena de recortes de azulejos multicores. Fui a um cinema de exibidora mexicana que é um luxo só, a partir de poltronas que se mexem ao sabor da trama e do vento que surge na quarta dimensão. Exaurido, desci ao nível do mar, em noite agradável em receptivo restaurante cujo maitre deixara o sushi e voltara ao acarajé e outros acepipes com pimentas de cheiros e paladares díspares. Enrubesci a minha taça e ela se fez vazia enquanto a luz mostrava, ao longe, a ilha de Itaparica, a que se vai de ferryboat, que deu vexame no outro dia. A taça seguinte me fazia pleno de sentidos ao ouvir a música ao longe. Não a de lounge. Como disse Jorge: “Assim é a Bahia. Ligada ao passado, fitando o futuro”. Uma coisa me alegrou por lá. Não há motoboys ou mototáxis. Se os há, são piratas sem olho de vidro e sem cara de mau. O tráfego é lento enquanto ouço sirenes e vejo um cortejo de motos seguir o ônibus tricolor do Bahia. Todos param e lá vai o Bahia para um jogo de futebol em que não ganhou, tampouco perdeu do Atlético Mineiro. Esgueiro-me pela imensa orla marítima até o meu pouso que fica em uma encosta, frente à arrebentação do mar aberto. Cai uma chuva fina e adormeço ao som da TV Justiça. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/09/2012. - [PENSAMENTOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pensamentos-diario-do-nordeste/): Tempos há em que nos quedamos, a querer saber razões. Passamos em revista a família nuclear, os pais, os irmãos, os amigos, os colegas e os companheiros de trabalho. E a quais conclusões chegamos? Por que essa luta absurda que travamos se sempre aflora a quase incomunicabilidade entre os que se querem e lutam pelos mesmos princípios? Sei não. Logo, a Catrina ou o Ceifador atinge a amigos. Em menos de um mês perdi dois amigos. O primeiro, Ananias Josino Lobo. Fora colega de faculdade, então sonhos comuns e assim permanecemos em contato, em seguidos e distintos trabalhos que fazíamos com responsabilidade e esperança. Conversávamos ao vivo e nos comunicávamos pelo computador, este bene/malefício que juntafasta pessoas. Era quase o meu oposto: tranquilo, organizado, metódico, lado a lado com Creuza, sua escudeira por 49 anos, com quem viajava mundo afora de forma silente. Mesmo assim, nos entrelaçamos como fraternos e nos acolhemos juntos por meio século. Ainda dói. O segundo, Airton Monte, era um introvertido disfarçado que se aproveitou do parentesco para casar com a prima Sônia. Juntos trouxeram ao mundo os guapos Bárbara e Pablo. Conhecia meio mundo, ria cofiando os bigodes, mas seu olhar desconfiado e míope só parava em alguns escolhidos. Curioso, inteligente, lido e capaz, fez-se médico e preparou-se, com paciência de frade, para ouvir os desafortunados mentais, os que confundem ou sugerem embaraçar o imaginado e o real. Trabalhava em hospitais/sanatórios públicos enquanto pitava o cigarro, revirava os olhos e pensava na cerveja nos bares do entorno do seu morar. Agora, neste instante, estou triste por eles na incerteza da fé, pelos questionamentos sem resposta e pela boba incomunicabilidade que se disfarça nas relações sociais Não concordo com T. S. Elliot, a vida é mais que nascimento, cópula e morte. Vida é estrada a fazer. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/09/2012 - [APONTAMENTOS COM AIRTON MONTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/apontamentos-com-airton-monte-jornal-o-estado/): “Nunca abrirei mão dos meus sonhos, mesmo que eles se transformem em pesadelos”, dizia ele. 1.Airton Monte viveu sempre na era de Aquário. Menino de colégio marista. Adolesceu no frigir dos anos 60, jogou peladas, pintou e bordou, sem esquecer-se de ler e estudar. Depois, já médico, andava com Rogaciano Leite Filho, entre outros, curtia os bares do Benfica, o Estoril, já na decadência, e amava a vida. Parecia o Leminski, a dizer: “Haja hoje para o tanto ontem”. 2. Tímido como um monge trapista limpava as grossas lentes ao ver os balanços das cadeiras. Não as de sentar. 3.Deu-se um tempo nas traquinagens e casou-se com a prima, Sônia, sabedora de seus poréns, amante e companheira que lhe deu os filhos Bárbara e Pablo, hoje adultos e abalados pela perda do irmão maior que os adorava na sua esquisitice. Agora, eles são o Airton para a Sônia. Lutem pelo futuro para discernir o resultado do presente. 4.Sabia-se leitor e daí, sem deslize, passou a escrever. Como disse a poeta Cora Coralina: “Estamos todos matriculados na escola da vida, onde o mestre é o tempo”. O primeiro tempo, poemas. Vieram contos. A crônica já estava em seu alforje de letras fortalezenses, amante da cidade que se circunscrevia ao badalo, a casa e ao trabalho em hospitais de doentes mentais e, depois, como psiquiatra cooperado da Unimed. 5.Desajeitado com o computador – presente do Carlos Augusto Viana- sofria com a “coisa”. Ele me ligava e eu já enviava a colaboradora Josilene Lima a sua casa para mexer no “bicho” que emperrava e, entre copos de cerveja, aplacar a sua saudade da senil máquina de escrever. Como dizia Borges: “O tempo é a substância de que sou feito”. Ele tinha pressa.6. Pedi-lhe, certa vez, para cuidar de um jovem com transtorno de pânico e o fez hígido em pouco tempo. Poucas pílulas, boas risadas e papos entre um cigarro e outro. Era “assim, assim” com o citado Carlos Augusto que o transmudava do seu “solar suburbano” para os altos de um prédio mirando o mar entre rochas da Volta da Jurema. 6. Quando seu pai, também Airton, estava na UTI, perguntei-lhe: já foi lá? Não tive coragem, disse-me. Apronte-se, vou apanhá-lo. E lá fomos nós ao hospital. Ele, olhos marejados, de comprida bata branca, parecia uma criança ao velar o pai inconsciente. Na volta, mãos enfiadas nos bolsos da bata fez do silêncio a dor do seu semblante. 7. Há alguns anos queixou-se do corpo e o Dr. José Teles ataviou-se de irmão mais velho, cuidou de tudo e estava lá na cirurgia que se esperava salvadora. 8. Foi amado por José Teles, colega medical e seu anjo da guarda na vida e na morte. Cuidou dele no último lustro e até o traficou do calor do ciumento Clube do Bode para o refrigério do restaurante do Ideal Clube Passou a beber cerveja sem álcool. O achaque retornou. Por fim, prostou-se e, resignado, voltou à sua casa de fachada verde , como a ouvir Fernando Pessoa: “Ouço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gosta que cai se ouve cair”. 9. Estive lá há alguns dias. A filha Bárbara me recebeu. Pilha de jornais não lidos. Depois, entrei em seu quarto. Televisão ligada, ele sentado na cama. Sem camisa, comia pipoca vagarosamente, floco a floco. Pediu água e, depois, um refrigerante. Conversamos, rimos até. Voltava a ser menino, parecia querer ver o pai que se fora. 10.Terça, 21 de setembro de 2012, 17h30, seu ataúde foi fechado. Batemos palmas. Era a última cena. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/09/2012. - [MÉDICO E CIDADÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/medico-e-cidadao-diario-do-nordeste/): Edmilson Barros de Oliveira nasceu em Redenção, ante-sala do Maciço de Baturité, em uma quarta-feira, 10 de setembro de 1912. Parte em 1924, olhos argutos para 12 anos de idade, em trem Maria Fumaça da Rede Viação Cearense e, depois de treze léguas, chega a Fortaleza. Desce na Praça da Estação. Toma um bonde em direção ao centro da cidade. Vinha para estudar e ser gente no Colégio Cearense, dirigido à época pelo Irmão Paul Marcellin, ali na Duque de Caxias, que era estreita e de pedra tosca. Bebeu conhecimento e água mineral no bebedouro do “Cearense” e lembrou-se de seus pais, João Cassiano de Oliveira e Nídia Barros de Oliveira. Vou honrá-los, prometeu. Fortaleza, nesse tempo, possuía uma pequena malha de bondes elétricos, poucas ruas pavimentadas, 90 mil habitantes e seu perímetro central terminava na Duque de Caxias, onde os maristas do Padre Champagnat, fincaram-se em um terreno de 7.600m2. Pois foi no “Cearense” que Edmilson se preparou até o ano de 1928 para os duros embates que viriam a seguir. Em princípio de 1929, toma um navio na Praia de Iracema e se dirige a Salvador, onde ingressa, com mérito, na Faculdade de Medicina da Bahia. Volta médico e inicia sua prática em Baturité. Daí à posteridade, a vida do Dr. Edmilson foi prova de que a lhaneza e a educação - transmitida aos filhos, todos formados- são diferencial. Com D. Alda formava casal com vida associativa e isso os tornou figuras destacadas da sociedade. Dele fui paciente. Dos filhos, sou amigo. Amanhã, 10, filhos, netos, bisnetos, familiares e amigos estarão orando, louvando Edmilson e Alda, dando provas de que a saudade não desaparece com o tempo. Se amor há. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2012. - [ZÓCALO, POR SUPOSTO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/zocalo-por-suposto-jornal-o-estado/): Enquanto tenho pernas andantes, bato-as por aí. Estava no Zócalo depois de 14 horas enfurnado em aeroplano. Desses que levam pessoas e coisas de algum lugar para outro. Andei até a esteira rolante que nos devolve a mala. Saí da aduana, uma placa mostrava o meu nome. Era gente que a segurava. Estávamos na terra de Octavio Paz, embora ele tenha nascido alhures. Ela oferecia passeios de todas as naturezas. O corpo pedia limpeza e as paisagens sucessivas na janela da Van me diziam do prazer de estar revendo as cores, os odores e a vida intensa da megalópole. Banho tomado fui ter à cumeeira da minha estalagem onde uma banda tocava músicas latinas. Chego ao balcão e revivo o esplendor dessa praça cívica, democrática, anárquica, povoada por policiais, camelôs, táxis e bici-táxis, ônibus vermelhos Double-deck para city-tours, índios com rituais e banhos de ervas, nativos e turistas do centro histórico que miram, estonteados, a beleza das construções centenárias ressaltadas por claridades de luminotécnica. Elas abrigam a fé, o mando, o sincretismo e a curiosidade de tantos que ali passaram, passam e passarão. É quase frio, o corpo pede que desabe em uma cama, mas os olhos teimam em girar nos 360 graus que a circundam e ficam a lembrar tempos outros em que, livro a mão, ofertava-o aqui em uma tenda branca localizada no meio da praça para os que poderiam comprá-lo em feira literária. Amanheceu. Uma pequena neblina dá a sua cara e tento varar o trânsito da Cidade do México. Vou mostrar a Igreja da Virgem de Guadalupe. Dia de semana, igreja quase cheia, inclusive de peregrinos, tais quais os de Compostela. Há comércio ao seu redor, no estacionamento subterrâneo, na velha igreja e no sino que toca diferente. A velha e a nova igreja nada têm em comum, apenas a fé dos que ali permanecem orando, acendendo velas, ofertando óbolos e ouvindo missas. De lá, parto em direção ao novo, o Museu Soumaya, homenagem do engenheiro Carlos Slim à sua mulher Soumaya, falecida em 1999. Ao meu olhar, a forma arquitetônica lembra uma usina nuclear. Mera ilusão. Parece um pouco com um cogumelo ou uma cobra enroscada. Não há escadas em seu interior. Rampas suaves com pisos e paredes brancas nos levam a todos os andares, talvez sete. Há 60.000 obras, entre permanentes e as temporariamente expostas. o Não sou guia, apenas referencio. Veja o site. Ficará deslumbrado. Cada exposição embevece pela curadoria profissional que destaca em forma e conteúdo o que é mostrado. Só a visita ao Soumaya paga as 14 horas de voo. Passo mais dias nos arrabaldes e no Centro Histórico, onde vejo um casamento lindo, ao fim da tarde que nada parece com os exageros dos nossos. Outro dia alvorece. Vago por horas no parque Chapultapec e, além de tudo no seu interior rico, vejo nas suas grades externas verdes belas gravuras – em branco e preto – canadenses, com cercaduras pretas. Desço pelo Passeio de La Reforma e, em cada quadra, nos jardins centrais, há árvores, flores e esculturas. Coisas que não temos no Brasil.O Presidente Felipe Calderón faz discurso sobre o estado da nação. Fala que a economia está crescente e enfrentou o crime organizado. Enrique Peña Nieto assume a presidência em 1º. de dezembro. Buena dicha. Daqui parto para a bela península de Yucatán, no extremo sudeste. Mais duas horas no ar, sem os tempos de aeroportos e retornos mis. Hasta La vista. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/09/2012. - [AULA DA UNIFOR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aula-da-unifor-diario-do-nordeste/): As alamedas e as praças plenas de árvores da exuberante Universidade de Fortaleza-Unifor ficaram apinhadas de gente e carros na manhã da última segunda-feira. Mil pessoas estavam para ver e ouvir, em um grande salão central com teto diáfano e temperatura amena, enquanto outros tantos se espalhavam, em seis espaços, a partir do “Celina Queiroz”, munidos de telões e áudios-fone para tradução simultânea, se os desejassem. Por trás do palco, surge a figura longilínea e empertigada de um homem grisalho e em boa forma para os seus 66 anos. Usava calça e paletó azuis escuros, camisa branca, gravata com listras azuis claras e brancas transversais. No pulso esquerdo um relógio de plástico preto e no segundo dedo a sua aliança de casamento. Ele, por vontade de seu povo, morou por oito anos na Avenida Pensilvânia e pôde sentir, após sua mudança daquela casa gradeada e assombrada, que o mundo é muito mais que o poder e a glória de ter sido aclamado e reconhecido, ao final, por altos índices de pesquisas. Usava óculos na ponta do nariz aquilino para acessar os papéis que lhe serviam de guia. Não era um “speaker”, no sentido inglês da palavra. Era um idealista, quase um utopista, não o descrito por Thomas Morus, mas alguém que se sentiu tocado pelos males da humanidade. Tornou-se um cavaleiro de uma nova mensagem: a sustentabilidade, palavra ainda confundida por marketing social, sem que coajam nas instituições que imaginam abraçá-la o comprometimento e a ação de seus dirigentes efetivos. A Unifor quis mostrar a sua cidadania corporativa e ouvir ideias novas e sutis de Bill Clinton para atuar em um mundo em transformação que, afinal, precisa crescer sem dizimar a natureza, diminuir as desigualdades, usar energia limpa, ter responsabilidade na cooperação entre pessoas e povos e fazer isso de forma clara e definitiva. Sem alardes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/09/2012. - [FORA DO AR - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fora-do-ar-jornal-o-estado/): Estou desligando a minha televisão. Cansei da patriotada boba nas Olimpíadas de Londres. Fizemos pouco para o muito que foi gasto pelo Governo, pela Caixa, Banco do Brasil e quejandos. Vou passar uns dias por aí sem ler notícias da Terra Brasilis. Mouco estarei para a retórica estulta dos que falam aos microfones e câmeras das estações de televisão instaladas no Olimpo do Plano Piloto. Levo livros, inclusive um para reler. “De fato e de Ficção”, do recentemente (31.07.2012) falecido Gore Vidal, segundo ele próprio, o mais importante membro da família Gore. Ele mexe, nesse livro, com figuras carimbadas da literatura americana e com políticos, democratas e republicanos. Era um erudito completo. Escrevia romances, sabia tudo de política e ganhava dinheiro fazendo roteiros de cinema, sua paixão maior. Em seu livro biográfico “Ponto a Ponto da Navegação”, diz: “Como agora me aproximo, graciosamente espero, da porta da saída, me ocorre que a única coisa de que gostei mesmo de fazer foi ir ao cinema”. Fico com saudade do Carlos Heitor Cony na Folha de SP, que recebo todas as tardes. No dia 10, sexta passada, ele escreveu a crônica “O imenso Jorge”. Leve, solta e, ao mesmo tempo, erudita e profunda sobre os 100 anos de Jorge Amado, comemorado naquela data. Leia um pouco: “Jorge Amado conseguiu o absurdo de ser cético e de ser crente. Só na Bahia podia nascer um sujeito assim. Por isso mesmo ele tinha um gosto de azeite e de sono espreguiçado, de cafuné e de mulata tombada nos fundos da cozinha. Espiou o mundo com o olho treinado nas fechaduras da vida: compreendeu tudo. Leitores que ele teve em todo o mundo não sabem o que perderam: a pessoa humana que só deu a conhecer uma parte de si mesma. Uma parte que constitui um dos maiores todos da literatura moderna”. Não vou sentir falta do horário eleitoral. Todos estarão maquiados na face e nas palavras ensaiadas que deixam transparecer o despreparo de alguns. Tampouco vou ler sobre pesquisas qualitativas e quantitativas contratadas por entidades do sistema S que usam o dinheiro dos empregados e empregadores no compadrio com quaisquer governos. Saio do trânsito maluco nos cruzamentos, com assalariados portando bandeiras de políticos em quem não votam, embaraçando a nossa visão. Tchau para carros, coletivos, caminhões e motocicletas que fazem, todos os dias, a reapresentação do Globo da Morte dos circos da minha infância. Apago os flanelinhas de todas as quadras, loteadores dos espaços urbanos e senhores dos nossos trocados. Vou sem muita roupa. Dispo-me da fantasia de pensar estar sendo observado por olhos maledicentes que nos querem ao contrário do que somos ou o contrário do que eles pensam ser, sem mais o que fazer. Volto logo, espero. E encontrarei tudo como dantes. Que jeito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/08/2012 - [(BLYTHE) CLINTON - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/blythe-clinton-diario-do-nordeste/): Amanhã, às nove da manhã, a Unifor, gerida pelo chanceler Airton Queiroz, mostrará a seus componentes - mestres e alunos - e à sociedade cearense, a aguardada palestra do ex-presidente americano Bill Clinton. Alguns não devem saber que a escalada do então advogado e político Clinton aos umbrais da Casa Branca é produto de cultura sedimentada de excelente nível em direito na Universidade de Yale, onde conheceu Hillary, sua mulher e atual secretária de Estado americano. Após dois mandatos e excelente avaliação popular, Clinton não conseguiu eleger seu sucessor em 2000, o candidato democrata, o seu vice-presidente Al Gore. Bill, ainda não Clinton, perdeu o pai William Blythe Jr. - em acidente de carro - aos três anos. Depois, sua mãe Virginia, muito pobre, veio a se casar com Roger Clinton, fanfarrão e alcoólatra, que exigiu que o enteado usasse o sobrenome Clinton. Assim se fez. O lar tumultuado na cidade de Hope (Esperança), no Arkansas, viu o menino se tornar governador do Estado e, em seguida, duas vezes presidente dos EUA. Ao terminar o seu governo, Bill criou a "Clinton Global Iniciative" e se tornou, via Unesco, órgão da ONU, embaixador de Boa Vontade e se espargiu pelo mundo com pensamento que não poderia deixar de lutar pela sustentabilidade e o fim de doenças, como a Aids. Esse homem que completou 66 anos no último dia 19, leonino que é, vai falar do seu jeito cativante, especialmente, para jovens que nasceram no fim do século passado e ainda estão procurando entender a realidade do mundo atual que cobra de todos, sem dó e compaixão, competência e comprometimento. João Soares Neto escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/08/2012. - [IVENS, UM TRABALHADOR SINGULAR - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ivens-um-trabalhador-singular-jornal-o-estado/): Três homens simples, nascidos no interior do Ceará, nas décadas de 10(José Macedo), 20(Edson Queiroz) e 30(Ivens Dias Branco) do século passado, são, ao meu olhar, os responsáveis por grande parte do recente e atual desenvolvimento econômico cearense. Foram tão vanguardistas, como empreendedores, que essa palavra sequer existia. Já falei a respeito dos dois primeiros, José Macedo e Edson Queiroz. Agora, chega o tempo de falar de Francisco Ivens de Sá Dias Branco, que, na sua lúcida maturidade, é reconhecido como exemplo e referência, sem barreiras nacionais. Conheci Ivens Dias Branco de forma indireta. Eu era meninote, morava na casa dos meus pais na Rua Mons. Otávio de Castro, no Bairro de Fátima, e ia às mesmas missas que o Sr. João Antônio Saraiva Leão, nosso amigo e quase vizinho, frequentava. O Sr. João Leão, assim conhecido, era católico, chefe, com d. Maria Amélia de família religiosa, missal a mão, composta de Consuelo, Tetezinha, Ruth, Veleda e Lúcia. Maria Consuelo, tempos depois, viria a casar-se com Ivens. Na nossa casa havia telefone – coisa rara na época - e, algumas vezes, Ivens e Consuelo conversavam através do número 5127. O tempo decorre, e em 1976, após viagem pela Europa, Ivens nos convida à sua casa na Av. Antonio Sales. Foi nessa época que o conheci de perto. Sério, mas leve nas conversas sociais, mostrou-se pleno de leitura e informação sobre o mundo e os negócios. Tinha entusiasmo em contar sobre suas atividades e planos de futuro, não como vanglória, mas com a energia de quem estava no limiar da sua meta de jovem quarentão. A BR-116 foi o caminho que já trilhara e a Fábrica Fortaleza ali se completou sendo ajustada, passo a passo, ao que hoje é. Arborizada, estruturada arquitetonicamente, e, com dimensões de layout industrial imponente, transformou-se em ícone consagrado de um conglomerado de sucesso. A M. Dias Branco S.A. granjeava respeito e reconhecimento por sua pujança e solidez. Dali se espraiou com, paradoxalmente, cautela audaciosa, para todo o Brasil e se fez líder verticalizada de sua área de negócios em trigo, massas e óleos vegetais. Permitindo-se ainda incursionar por círculos imobiliários com aprumo e eficácia. Recentemente, Ivens foi homenageado pela Sociedade Beneficente Dois de Fevereiro na presença de alta autoridade governamental portuguesa. E lá fui não para lisonjeá-lo, que disso não sou. Fui por apreciar seus méritos e compartilhar, como conterrâneo, da alegria de toda a sua família ao vê-lo receber a honraria que a pátria de seu mentor e pai, Manuel Dias Branco, lhe outorgava. Este pequeno e despretensioso apontamento é apenas um ato de consideração a alguém que dedicou sua vida ao trabalho, sem perder a singularidade, sempre acreditando que há algo novo a ser criado de forma bem feita. E assim o fez. E faz. João Soares Neto é empresário e escritor. Autor de 7 livros. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/08/2012. - [LER QUADRINHOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ler-quadrinhos-diario-do-nordeste/): Tudo bem. Vão dizer que estou entregando a minha já consumida idade. Nada disso. O que declaro aos meus escassos leitores que chegam os olhos ao pé desta página 2 do Diário é que comecei a ler quadrinhos muito cedo. Lia "Gibi" e percorri a iniciação com quadrinhos do Flash Gordon, Tarzan, Superman, Homem Submarino e as ilustrações para os livros do Monteiro Lobato, tão grande quanto questionado. Ouvi dizer que a HQ no Brasil começou em 1905 com a revista "Tico-Tico", depois veio o J. Carlos e cá estamos em 2012 vendo, rindo e escrevendo sobre essa arte sequencial, que se vale de pouco texto e imagens, formando "tiras". Ainda hoje, avô de netos infantes, me dou ao luxo de ler, diariamente, os quadrinhos/tiras de Angeli, Laerte, Caco Galhardo, Adão e André Dahmer, todos na Folha de SP. Neste Diário, vejo o Mino com o seu Capitão Rapadura, Xuxu, Cabeção e D. Charmô. Quem gosta de quadrinhos é, quase sempre, minimalista, alguém que se expressa com poucas palavras e tem humor diferenciado que, muitas vezes, não é percebido pelo ouvido desatento. Neste agosto, até o dia 26, está havendo no Shopping Benfica, 1º. Piso, o Fórum de Quadrinhos do Ceará. É gratuito, das 10 às 22 horas, Lá você poderá encontrar alegria ao ver cartoons, tiras, mangás e até participar de oficinas de super heróis, pintura infantil, desenho ligeiro e muito mais. Artistas como Luís CS, Maxwell Duarte, Kaléo Mendes e Ladely Mendonça terão paciência para explicar, em oficinas, como funcionam a mente e a mão do quadrinista, ajudarão você a fazer, pelo menos, uma tira para que possa mostrar aos amigos, filhos e netos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/08/2012 - [LER QUADRINHOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ler-quadrinhos-jornal-o-estado/): Tudo bem. Vão dizer que estou entregando a minha já consumida idade. Nada disso. O que declaro aos meus escassos leitores que chegam os olhos ao pé desta página 2 do DN é que comecei a ler quadrinhos muito cedo. Lia “Gibi” e percorri a iniciação com quadrinhos do Flash Gordon, Tarzan, Superman, Homem Submarino e as ilustrações para os livros do Monteiro Lobato, tão grande quanto questionado. Ouvi dizer que a HQ no Brasil começou em 1905 com a revista “Tico-Tico”, depois veio o J.Carlos e cá estamos em 2012 vendo, rindo e escrevendo sobre essa arte sequencial, que se vale de pouco texto e imagens, formando “tiras”. Ainda hoje, avô de netos infantes, me dou ao luxo de ler, diariamente, os quadrinhos/tiras de Angeli, Laerte, Caco Galhardo, Adão e André Dahmer, todos na Folha de SP. Nordeste-DN, vejo o Mino com o seu Capitão Rapadura, Xuxu, Cabeção e D. Charmô. Quem gosta de quadrinhos é, quase sempre, minimalista, alguém que se expressa com poucas palavras e tem humor diferenciado que, muitas vezes, não é percebido pelo ouvido desatento. Neste agosto, até o dia 26, está havendo no Shopping Benfica, 1º. Piso, o Fórum de Quadrinhos do Ceará. É gratuito, das 10 às 22 horas, Lá você poderá encontrar alegria ao ver cartoons, tiras, mangás e até participar de oficinas de super heróis, pintura infantil, desenho ligeiro e muito mais. Artistas como Luís CS, Maxwell Duarte, Kaléo Mendes e Ladely Mendonça terão paciência para explicar, em oficinas, como funcionam a mente e a mão do quadrinista, Ajudarão você a fazer, pelo menos, um tira para que possa mostrar aos amigos, à paquera, aos filhos e aos netos. Procure no site www.shoppingbenfica.com.br e tire suas próprias conclusões. Vá ver. O quadrinho é uma iniciação cultural de bom nível e o desligará, por instantes, das verdades e promessas que este tempo pré-eleitoral nos mostra de todas as formas e cores. Menos em quadrinhos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/08/2012 - [PAIS DE AGOSTO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pais-de-agosto-diario-do-nordeste/): Filhos são sempre benevolentes com as mães. Quase sempre são duros com os pais. Agora, neste agosto, filhos estarão acompanhando seus pais pela televisão e saberão se falarão verdades ou mentiras. Eles, em casa, conhecem os pais de chinelos e bermudas. Ouvem seus resmungos nos telefonemas e sabem, pela convivência, que não há clima para conversa. É um entra e sai constante de figuras que se trancam na sala para diálogos duros com os seus pais e até insultos mútuos eles trocam. Os pais não os recebem, os de paletó, de chinelos e bermudas. Fazem a barba, vestem roupas engomadas e tentam não parecer preocupados. Os filhos sabem que seus pais estão ansiosos, dormem pouco, fumam muito. Alguns bebem, e não desgrudam os olhos nos canais de televisão, revistas e jornais que, muitas vezes, pisoteiam. Falam mal de jornalistas e não aceitam os pedidos de rezas que as suas mães, avós de seus filhos, dizem estar fazendo. Começou no dia 02, há quase uma semana, e não se sabe ao certo quando e como vai terminar. Tudo ainda é uma incógnita. Juízes, assessores, advogados, réus, procuradores, testemunhas e jornalistas bisbilhoteiros deambulam pelos corredores da Corte que se acredita suprema e, todos, tentam dar a impressão de que estão tranquilos. Ninguém está. São reféns da história que ainda se escreve e ficará para sempre. Os filhos têm boa memória e sabem, mais que todos, quem são os seus pais. Aguardam. Aguardam. João Soares Neto escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2012 - [CASAMENTO DE ALUGUEL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/casamento-de-aluguel-jornal-o-estado/): Uma amiga americana, professora doutora, casou-se, segundo sua versão, com um músico brasileiro dezenas de anos mais jovem, simplesmente para abrir a ele as portas do paraíso americano. O tempo passa e a reencontro. Como vai o casamento? “Ele entrou nas forças armadas americanas e agora é cabo músico da banda dos fuzileiros navais no Iraque”, disse-me ela ano passado. Essa história, ou estória, foi comum nas últimas décadas do século passado, e até recentemente. O fim do Milagre Brasileiro dos anos 70 enxotou muita gente para “fazer a América”. O município mineiro de Governador Valadares, por exemplo, era o campeão e mandava milhares de seus guapos filhos para ganhar a vida em dólar. Uns entravam com a ajuda de “coiotes”(os que comandam a entrada ilegal), pagando centenas/milhares de dólares pela travessia no Rio Grande. Outros, tinhosos, casavam-se. Tais como o músico. Tudo por um punhado de dólares. A rede Globo exportava novelas. Jornais, quase sempre tablóides, em língua portuguesa, proliferavam na Flórida, Nova Iorque, New Jersey, Califórnia, Massachussets, Connecticut e em vários outros quadrantes dos EUA. Eles continham anúncios de empregos, venda de veículos facilitada para estrangeiros, propaganda de profissionais brasileiros, sobretudo advogados “especializados” em regularização de “indocumentados”, Green Cards e casamentos. Esses jornais, na sua maioria, desapareceram. Depois da débâcle econômica de 2008, a história e a balança do mundo mudaram. Muitos brasileiros estão de volta falando um inglês sofrível, sobraçando álbuns de fotografia, tatuagens, celulares e algum dinheiro para recomeçar a vida por aqui. Foi assim também há algumas décadas com o Japão, que preferia descendentes de seus naturais e os utilizava como mão-de-obra semi-escrava. O Banco do Brasil prosperou exponencialmente por lá com as remessas mensais dos nossos trabalhadores para suas mães, suas mulheres e seus filhos. Os decasséguis não contavam para as suas famílias brasileiras as vidas ultrajantes que viviam. O encanto acabou e a volta chegava a ser financiada pelos parentes daqui. Por outro lado, europeus, especialmente portugueses, espanhóis e italianos, aqui vieram, apaixonaram-se rapidamente e resolveram “casar” com brasileiras e ganhar o visto de trabalho ou de residentes. É claro que há uniões verdadeiras, por sentimento, mas o casamento fabricado era e é, muitas vezes, uma mera “união estável” a troco de compensação financeira preestabelecida. Há casos até de homossexuais que arranjam cônjuges para regularizar sua permanência na terra brasilis. E não deixam a sua vida airada. Esse fluxo, começou em 2003, quando a economia europeia já apresentava uma crescente taxa de desemprego. Sabe-se que a Polícia Federal, por amostragem, visita os novos casais e até pode processar os nubentes por falsidade ideológica e expulsar os estrangeiros que se aventuram nessas tramóias. De qualquer forma, o Brasil já pode orgulhar-se de ser novamente, tal como nos fins do século 19 e começo do 20, uma terra prometida. É a glória. Nós temos a força. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/08/2012 - [MEU VOTO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/meu-voto-diario-do-nordeste/): Estou procurando candidato a prefeito para votar. Meu voto é caro. Só votarei em quem me prometa, por escrito. Tenho pedidos a fazer. São simples. Vou listá-los, um a um: 1. Desejo que plante, nos primeiros meses de 2013, um milhão de árvores em toda a cidade, à época das chuvas, em grande mutirão consciente; 2. Transforme a Beira Mar em via de 40m de largura. O Rio fez isso no começo dos 60 e não se arrepende. A areia seria retirada do mar para aumentar o calado do porto e receber transatlânticos. Turismo é riqueza. A Avenida Fortaleza sairia do Caça e Pesca e terminaria na Barra do Ceará. 3. Converta a região da Sabiaguaba, já preservada em lei, em grande parque que se somaria aos do Cocó e o Adahil Barreto. A cidade verticalizada exige áreas verdes, cuidadas e fácil acesso para desfrutá-las. 4. Crie um Instituto de Planejamento Urbano com a participação efetiva no seu conselho diretor das universidades Federal, Estadual e Unifor; 5. Leia, rediscuta, acate/ modifique o Plano Diretor Participativo ou implante plano real e consequente para o futuro de Fortaleza até 2030. 6. Priorize a educação fundamental com reforma, ampliação e criação de escolas em cada km2 da cidade. Como Fortaleza tem 350 km2, complete 350 escolas, em dois turnos. 7. Erija 100 novas creches nas áreas periféricas. 8. Construa avenida panorâmica margeando o Rio Cocó, protegendo mananciais e escoando o tráfego no sentido praia-sertão-praia. 9. Desaproprie a área contígua ao Frotão-IJF entre a Barão do Rio Branco, Senador Pompeu e Meton de Alencar e crie ali nova unidade apenas para traumas, com estacionamento no subsolo. 10. Crie plano de demissão voluntária, acabe com serviços terceirizados e faça concursos para funcionários com cargos e carreiras. Quem se habilita? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/08/2012. - [21 ANOS DA SOCIEDADE CONSULAR DO CEARÁ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/21-anos-da-sociedade-consular-do-ceara-jornal-o-estado/): Ontem à noite a Câmara Municipal de Fortaleza, por requerimento do seu presidente, Vereador Acrísio Sena, realizou Sessão Solene Comemorativa dos 21 anos de fundação da Sociedade Consular do Ceará, entidade que congrega os vices e cônsules honorários. Eles são os acreditados por Carta Patentes dos países que os designam e que no Brasil recebem o “Exequator” ou Beneplácito do Ministério das Relações Exteriores. A Sociedade Consular do Ceará foi criada em Fortaleza, em 07 de agosto de 1991, tendo como fundadores os cônsules João Ribeiro de Matos Montenegro, Luciano Montenegro, Gerhard Wichmann, Francisco Angelo de Francesco, Gerard Boris, Francis-Bloc Boris, Alexandre Costa Vidal e Humberto Fontenele. Seu primeiro presidente foi o Cônsul Honorário da Holanda, engenheiro Luciano César Cabral Montenegro, cidadão ilibado, chefe de família reconhecido que soube, cercados por filhos e netos, com equilíbrio, superar a perda de sua mulher, Maria Cecília Fiúza Montenegro. O Cônsul Luciano Montenegro recebeu, na segunda parte da Sessão Solene, em decorrência de decisão unânime da Assembleia Geral Extraordinária realizada no dia 17 de abril de 2012, como reconhecimento aos serviços prestados à esta sociedade que dignamente presidiu, por mais de uma gestão, a Medalha do Mérito Consular Bertrand Boris, assim designada em homenagem a esse imigrante francês e cearense por adoção, dirigente da Casa Boris, respeitável e centenário estabelecimento de importação e exportação. Bertrand Boris casou-se com uma Caminha do Aracati, a Sra. Arisa Caminha Boris, e por muitos anos, foi Cônsul Honorário da França, no Ceará. Constituiu família cearense, entre eles, o seu filho, já desaparecido, Gerard Achilles Boris que o substituiu no mesmo consulado. A figura do Cônsul remonta à Grécia Antiga e perpassa o Império Romano, sempre exercida por alguém de notório saber e destaque social reconhecido com o objetivo de proteger, no exterior, os interesses das pessoas naturais do Estado que representa. A atividade consular é regida pela Convenção de Viena, que entrou em vigor em 1967, e expressa que os cônsules não atuam na representação política, mas na trajetória de defesa dos interesses privados dos cidadãos e das empresas e entidades dos países que representam. A Sociedade Consular do Ceará é composta dos seguintes Cônsules e Vice- Cônsules: Dieter Gerding, da Alemanha; Elfriede Reinhilde Lima, da Áustria; José Airton Cavalcanti Teixeira, de Belize; Carlos Maurício Duran Dominguez, da Colômbia; Fernanda Jensen, França; Annette Therese Yvonne de Castro, Holanda; Janos Fuzesi Junior e Szofia Eross Sales; Ednilton Gomes de Sóarez, Finlândia; Roberto Misici, Itália; João Soares Neto, México; Marcos Aurélio Soares de Castro, Noruega e Dinamarca; Francisco Neto da Silveira Brandão, Portugal; Luciano Nunes Maia, Romênia; Raimundo José Marques Viana, República Tcheca; e, José Maria Zanocchi, Uruguai. A Sociedade Consular do Ceará agrega, extra pauta, representantes de comunidades estrangeiras no Ceará, especialmente as da Argentina, por Carlos La Rocca; e a dos Estados Unidos da América por Patricia Carolyn Cavin. Passados 21 anos, uma centelha na contagem do tempo absoluto, são estes os atuais integrantes da Sociedade Consular do Ceará, que tentam manter vivo o ideal dos que se reuniram pela primeira vez na Rua Guilherme Rocha, em agosto de 1991. Em nome dos colegas referidos agradeci ao Presidente Acrísio Sena a homenagem da Câmara Municipal de Fortaleza, casa que representa o povo e deve defender, tal como fazem os cônsules , os interesses dos cidadãos que nela habitam. Nos sentimos distinguidos e honrados. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/08/2012. - [CASAMENTO E PENSÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/casamento-e-pensao-diario-do-nordeste/): O episódio esposado por Rosane Malta, ex-Collor, mostra um lado negro da mulher dita atual. Algumas mulheres ainda fomentam a ideia de que os homens são machões, dominadores, provedores e que tais. Abandonou: pague o ônus. É importante lembrar que até séculos recentes não havia o casamento “por amor”. Na maioria das uniões prevalecia a vontade das famílias, que sugeriam, indicavam e até obrigavam a escolha. Discutia-se qual o(a) parceiro(a) mais recomendado(a) em função da raça, do status social ou político, da conveniência, das relações de amizades/negócios dos pais ou dos interesses. Só há pouco, quando a mulher desvendou a sua sexualidade, foi que apareceram o amor e a insubordinação. Vou casar porque quero e não me importo o que (pai/mãe) achem. Entretanto, ainda há parcela remanescente de mulheres que acreditam ser o casamento um fim em si mesmo. Espécie de profissão, fonte de divisas, ascensão e seguro. Assim o fez a citada Rosane que sequer teve filhos com o “réu” Fernando. Apesar disso, acha-se no direito de viver das “culpas” de seu ex-marido. Não contente, “revelará” em livro de “ghost writer”, “faces” do caráter e comportamento de quem deve sustentá-la “de um, tudo”. Por outro lado, mulheres que estudaram, trabalharam e se profissionalizaram sabem que a única certeza na vida é a mudança. Cuidam elas de dar outra significação às suas relações afetivas, sejam casamentos, uniões ou circunstanciais. Se todos são os sujeitos do próprio destino, como esperar que alguém arque com a vida futura de quem nada mais tem em comum? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/07/2012 - [BRASIL OLÍMPICO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasil-olimpico-diario-do-nordeste/): A “Veja”, especial sobre a Olimpíada de Londres, transforma Neymar em Guarda da Rainha, copiando a capa da “Realidade”, de 1966, com Pelé. Naquela Copa, o Brasil foi pífio. O iatista Robert Scheidt metamorfoseou-se em Churchill. Fabiana Murer encarna a Mary Quant, estilista que “criou” a minissaia. E por aí vai. Esse fato mostra o endeusamento de atletas que, ao final desses jogos, trarão, se muito, 20 medalhas. Foram gastos milhões por um Comitê gerido há anos pelas mesmas pessoas. Desde 1920, o Brasil ganhou apenas 91 medalhas. Dessas, apenas 20 foram de ouro. Os gigantes EUA, mesmo período, ganharam 929 ouros. A razão? A maioria dos atletas sai de universidades. Os nossos, não. Muitos se deslumbram com o novo status e caem na gandaia. Não só no futebol. A vantagem de ser celebridade efêmera é que se é conhecido por quem não o conhece de fato. A pequena Cuba tem 194 medalhas, 97 ouros. O nosso melhor desempenho (15 medalhas) foi na Olimpíada da Antuérpia, 1920. Todos eram amadores. Agora, há fartos patrocínios de empresas públicas e privadas e os atletas se consideram heróis só pelo fato de estarem na alegre comitiva de 2.000 pessoas, com menos de 300 atletas. Alugou-se o caro Crystal Palace, centro para treinamento de algumas modalidades. É claro que torço pelo nosso sucesso. Entretanto, é preciso ver o que se fez antes, hoje e o que mostraremos em 2016, quando sediaremos a Olimpíada. O Brasil deve deixar de ser fanfarrão e melhor educar/preparar os seus atletas que não podem ser heróis antecipados. João Soares Neto, escrito CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/07/2012 - [EUFORIA E DEPRESSÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/euforia-e-depressao-jornal-o-estado/): O Brasil passou quase incólume pela crise mundial de 2008/9. Acreditava-se, diziam muitos, que a crise europeia - que se arrasta há anos - não nos atingiria: temos “fundamentos”. Conversa fiada. Recebemos um soco na economia brasileira que imagina como solução vender carros encalhados, desde 2011, em um país de rodovias ruins porque densamente utilizadas por caminhões pesados. Temos, ainda, neste século 21, escassas ferrovias regionais e nenhuma nacional para cargas. As cidades já não comportam mais os veículos que têm. Isto sem atentar para as endiabradas motocicletas que infernizam o trânsito e provocam elevadas despesas nos lotados hospitais públicos. O Brasil acreditava mesmo que a emergente classe média ia bem. De repente, uma profusão de milhões de cartões de crédito foram entregues a pessoas que não aprenderam ainda a cuidar de suas economias. No Brasil, as empresas de cartões de crédito estão nas ruas, aceitam todo tipo de cliente e cobram, por cada mês de atraso, os mesmos juros anuais definidos pelo Banco Central. Em 2011, os juros médios do dinheiro de plástico foram de 323,41% ao ano. Resultado, milhões de pessoas penduradas com dívidas. Isso provoca, além da depressão pessoal, desajustes familiares e restrições em seus empregos. Não rendem no trabalho, atormentadas que estão com o que devem. Os desempregados, em boa parte, não conseguem ocupação por novas qualificações solicitadas e suas inclusões nas listas de devedores dos serviços de proteção ao crédito-Spc e do Serasa – empresas privadas que bisbilhotam e fornecem “fichas sujas” para os que se afoitaram além de suas possibilidades. É vero. A farra consumista brasileira vai ter que encontrar, do outro lado da ponte da vida, com a realidade cruel que atinge a maioria. As publicidades enganosas precisam dos olhares do Conar, entidade não governamental que, por definição, deveria cuidar da autorregulação da propaganda e da liberdade de expressão. Não se pode gastar esperando bonança futura. É básico que todos devam ter um orçamento. Se você gastar mais do que ganha, algo acontecerá. Não há como fugir das contas que o acossam através de protestos de títulos, questões judiciais para devolução de veículos e propriedades e as intermináveis discussões sobre os abusivos juros dos já referidos cartões de crédito. Parcimônia é palavra pouco conhecida do brasileiro. Qualquer comemoração familiar, do batizado ao casamento, é, quase sempre, prova de insanidade pelo deslumbramento desnecessário. Ninguém deve acreditar que pode melhorar de vida mudando hábitos de consumo que devem ser coerentes com os contracheques que recebe. Não pegue corda de pessoas amigas e vendedores que o incitam a comprar o que não precisa e, mais que isso, sem a certeza de poder pagar. Deus não dá um jeito em tudo. Temos que fazer a nossa parte. A euforia sempre é passageira. A depressão demora. O equilíbrio pessoal poderá se transformar na parcimônia/comedimento que todos deveriam ter. O uso da razão determinará seus limites. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/07/2012. - [CONVERSA DE FUTURO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/conversa-de-futuro/): Dia desses, ao entrar em um banco, a gerente falou que havia sido nossa estagiária. Que bom. Depois desse fato, pensei e reuni o grupo de estudantes universitários que ora colaboram conosco. Eram de diversos cursos. Rapazes e moças na faixa dos 18/20 anos. Alguns estrangeiros, provindos de diferentes países. Disse da singularidade do nosso encontro e as razões porque o fazia. Houve brincadeiras, prêmios, incentivei-os a cantar e dançar. Conversamos até sobre nossas histórias pessoais. Ao final, um lanche rápido. Há doze anos grupos como esse se revezam e nos ajudam como estagiários e auditores, mediante convênios com universidades e faculdades, recebendo cada um o valor de um salário mínimo por mês, além de benefícios e treinamento básico. Alguns passam a trabalhar conosco. A eles falei que poderiam ter sonhos, mas precisavam saber o que queriam da vida, se empregados, professores, profissionais ou negócio próprio. Disse da minha experiência quando universitário: trabalho, jornal e correspondente de revista. Nas férias, ao viajar, levava artigos – em consignação - para vender e cobrir despesas. Falei da necessidade de se ter metas, desafios e embasá-los na formação acadêmica, mas complementando-os com a curiosidade, a leitura e a reflexão/comportamento que, reunidos, formam a nossa (in)competência pessoal para enfrentar os desafios que a vida cobra. Fizemos fotos e lembrei que poderia ter gerado esse tipo de encontro desde a primeira turma, em 2000. Saí leve e feliz. João Soares Neto, escritor. CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/07/2012. - [FORTALEZA, 2013 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fortaleza-2013-jornal-o-estado/): A prefeita Luizianne Lins apresenta em livro de capa dura, 230 páginas, aspecto gráfico de nível e fotos profissionais, a sua versão da administração que vem de 2005 e termina em dezembro deste 2012. Na verdade, ela antecipa as suas realizações em “Juntos Construindo a Fortaleza Bela 2005-2011”. Esse documento oficial, coordenado editorialmente por Nágela Raposo Alves e organizado por Alfredo Pessoa de Oliveira e José Meneleu Neto - responsáveis por seu conteúdo - deve servir de base de informação para todos os candidatos a prefeito de Fortaleza. Caberá a cada um, depois de examiná-lo, fazer a sua análise e julgamento. Lê-lo será um dos caminhos para que possam refutar, criticar, xingar, aclamar, checar ou aceitar o que é demonstrado em linguagem simples, lastreada por dados com fontes dos indicadores socioeconômicos. Fortaleza não é cidade laboratório. Ela é real, zangada, sofrida e querida. Cadinho de todos os sentimentos, anseios, orgulhos, gentilezas, deseducação, cidadania, desrespeito, amor e desdém que permeiam os seus 2,5 milhões de habitantes. Os nomes da moda são mobilidade urbana, sustentabilidade, integração, solidariedade, compartilhamento e outros mais. Os candidatos devem, penso eu, esquecer os adjetivos de palanque e dizer para o que vieram. Eleição não é disputa de egos, fotogenia e tampouco de eloquência patética. Eleição é precedida de um tempo em que cada candidato deve ponderar o que vai dizer, revelar quem é, seus planos, quem o apoia e porque o faz. Deve clarificar o que sabe sobre a cidade e apontar soluções viáveis em função dos recursos que disporá em transferências e orçamentos que se desejam abertos a todos os que queiram – e todos deveriam querer – conhecê-los. Diz Ítalo Calvino, escritor italiano do século passado, que “as cidades, como os sonhos, são feitas de desejos e medos”. Esperamos que os candidatos mostrem os seus desejos de bem administrar esta cidade antes aberta, brejeira e fagueira. Hoje, a maioria dos citadinos tem grades em suas moradas; empresas de vigilância e segurança prosperam; motocicletas transformaram seus usuários nos maiores e mais graves pacientes dos hospitais; ruas seguem acanhadas, em traçados ortogonais e levam ao desespero os usuários de transportes coletivos e os milhares de guiadores neuróticos, mas orgulhosos de seus carros comprados em financiamentos que escondem armadilhas. Os pedestres que se cuidem. A Fortaleza de 2013 precisa debelar as apartações sociais que ainda estão em todos os lugares e tornam-se claras e multiformes nas páginas de jornais, nas emissoras de rádio e televisão. Fortaleza comporta sonhos, mas precisa de escopos de projetos e planos consequentes dos candidatos a gestores. Eles serão julgados pelas verdades das urnas e as do tempo inexorável que nos desnuda a todos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/07/2012. - [MUITAS CLARICES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/muitas-clarices-diario-do-nordeste/): Recebo um pacote em casa. Carlos Heitor Cony, no livro “Quase Memória”, trafega com embrulho protegido por barbante em quase todas as páginas e enredo. E sem abri-lo. Abri. Era gesto de delicadeza de Fernanda Coutinho e Vera Moraes, organizadoras da antologia “Clarices”. Elas oferecem homenagens claricianas, integrantes da legião de apaixonados pela Haia da Ucrânia, dita Clarice, no Brasil. Fernanda escreve sobre “Clarice e a Infância Jamais Perdida”. Vera relê a musa em “O Verde Úmido Subindo em Mim: A mulher e a Magia do Jardim em Clarice Lispector”. Juntas, produziram a “Entrevista com Nádia Battella Gotlib” e “Algumas Questões sobre Clarice Lispector dirigidas à Nadiá Setti”. Em parceria com Maria Elenice Costa Lima, Vera disserta “Inquietudes de Ser Mulher em Laços de Família”. Outros claricianos contribuem com mais 20 ensaios sobre a menina que passou a infância no Recife e vai para o Rio, aos 14. De lá, espraia-se como mulher pelo mundo real e, fulgurante, no da literatura. Jornalista, Clarice tornou-se a grande, misteriosa e a amada, viva e post mortem, escritora. Casada, teve filhos com o diplomata carioca Maury, da família cearense Gurgel do Amaral. Antes de separar-se, moraram anos na Europa e Estados Unidos, tempo em que trocava cartas com escritores e amigos brasileiros. Morreu de câncer, aos 57. O crítico literário José Castello, certa vez, perguntou-lhe: Por que você escreve? Ela respondeu: por que você bebe água? Ele retrucou: para viver. Então, Clarice falou: escrevo para me manter viva. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/07/2012 - [ELEIÇÕES MEXICANAS E O BRASIL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/eleicoes-mexicanas-e-o-brasil-jornal-o-estado/): João Soares Neto* Parte da imprensa brasileira gosta de propagar que 50.000 mexicanos foram mortos de 2006 até hoje por conta do enérgico combate ao narcotráfico pelo sério e desenvolvimentista governo do Presidente Felipe Calderón. Acho até gozado ler as estatísticas brasileiras sobre assassinatos. Só em 2010 foram mortas 50.000 pessoas no Brasil. Imagine em seis anos. Assim, é desnecessário falar em violência mexicana, se comparada à brasileira. Falam também que há muitos pobres, entre os mexicanos. A pobreza existe em todo o mundo e precisa ser debelada. O que não dizem é que no Índice Gini (quanto mais perto de zero, melhor), que mede as desigualdades de renda, o Brasil está em pior situação, 0,530; o do México é 0, 474, bem mais baixo. Logo, menos pobres. A escolaridade no México é maior do que a brasileira e as universidades mexicanas figuram em melhor situação, se comparadas com as do Brasil, no ranking internacional, inclusive em número de doutores e em pesquisas. Domingo passado, 79 milhões de eleitores estavam aptos a votar nas eleições para a presidência da república asteca, o segundo país mais rico – ou menos pobre - da América Latina, embora se localize na América do Norte. Como o voto não é obrigatório, houve abstenção de 30%. O novo presidente, Enrique Peña Nieto, é um bem apessoado advogado de 45 anos e ex-governador. Viúvo em 2007, com quatro filhos, um deles fora do matrimônio, casou, em 2010, com a atriz Angélica Rivera que substituirá, em beleza, a ex-primeira dama francesa, Carla Bruni. Peña Nieto usou a sua aparência telegênica com excelente capacidade de comunicação pelo écran. Mesmo sendo candidato pelo estigmatizado Partido Revolucionário Institucional, o PRI, que comandou o país de 1929 a 2000, Peña Nieto tinha larga vantagem nas pesquisas para López Obrador, do Partido da Revolução Democrática - PRD, que perdeu para Calderón por poucos votos na eleição presidencial de 2006. E, mais ainda, sobre Josefina Vásquez Mota, apoiada pelo Partido da Ação Nacional (PAN). O México tem hoje quase 114 milhões de habitantes para um Produto Interno Bruto – PIB de US$ 1,15 trilhão de dólares, com nível de desemprego, em 2011, de 5,3%, menor que os 6,0% brasileiros. Diga-se também que o Índice de Desenvolvimento Humano- IDH (0, 750) mexicano é o 56º. na posição mundial, enquanto o nosso é o 73º. (0,699). O desenvolvimento industrial nos últimos seis anos foi tão positivo que a migração do México para os EUA ficou negativa (mais mexicanos voltaram que saíram para “fazer a América”). A expectativa do crescimento do México em 2012 será de 3,5%, enquanto o do Brasil girará em torno de 2%. É preciso que haja mais informação construtiva sobre o México, país que tem no Brasil um grande parceiro comercial. Já não falamos nem em futebol, pois, no último encontro, deu México 2 e Brasil 0. A Presidente Dilma e os demais países do hemisfério sul têm no México um sério parceiro, interlocutor legítimo e seguro porto de entrada para negócios. Em 2013, os novos presidentes do México e dos EUA terão, de partida, uma pauta comum sobre o desenvolvimento do Pacto de comércio (Nafta), ao combate ao narcotráfico e um tratamento proativo nas questões migratórias, especialmente as delicadas situações de milhões de crianças e jovens nascidos nos Estados Unidos, filhos de pais latinos, inclusive brasileiros, muitos dos quais “indocumentados”. João Soares Neto é Cônsul Honorário do México no Ceará. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/07/2012. - [VOCÊ EMPREENDEDOR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/voce-empreendedor-diario-do-nordeste/): Com a discrição costumeira, o DN lançou, nesta terça, o primeiro módulo, de um total de 18, do caderno “Você Empreendedor”. A ideia é parceria com conteúdo técnico do Centro de Ciências Administrativas da Unifor. Dias desses, vi Ciro Gomes dizer na TV que um dos nossos problemas é a carência de capital humano. Gente que pense, estude, trabalhe, crie e faça. Nesta segunda década do 21, onde quase tudo tem obsolescência programada, inclusive o conhecimento, é preciso coragem para ser um novo empreendedor. Há que se distinguir administrador, aquele que gere, do empreendedor, aquele que cria, inova e comanda. Há algumas semanas, neste mesmo espaço, falei da perda de controle de empresas nacionais para multinacionais. Uma delas, era o Pão de Açúcar. Para quem não sabe, a empresa surgiu em 1948 como uma doceria. O dono, português, poucas letras e muitos filhos. Depois, a doceria cresceu e com a ajuda dos filhos virou o Pão de Açúcar. Nos anos 80 teve crises, inclusive familiar, e vendeu parte de suas ações para a francesa Casino. O desfecho veio agora. Os Diniz não mais comandam; são meros acionistas ricos. Assim é a vida. Quem se propõe a ser empreendedor sério, sem conluios ou padrinhos, deve saber dos riscos a que se expõe em um país sedento por impostos e com torcida para que você não dê certo. Creio haver espaço para jovens talentosos com boa formação acadêmica e humildade para, trabalhando muito, estudando o novo, semear ideias e empregos. Se possível, evite parcerias e entidades, siga o seu foco. Empreender é superar-se, dia a dia. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/07/2012 - [O CENTENÁRIO DO “CEARENSE” LUIZ GONZAGA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-centenario-do-cearense-luiz-gonzaga-jornal-o-estado/): Luiz “Lua” Gonzaga é quase cearense. Nasceu em 1912, no Exu, Cariri pernambucano, próximo da divisa com o sul do Ceará. Dada a contiguidade, o filho de Januário tocava nas feiras do Crato e de Juazeiro. Ao tempo de “sentar praça” ou servir ao Exército, em 1930, preferiu vir para o 23º. Batalhão de Caçadores, em Fortaleza. Em 1939 Gonzaga mandou-se com mala, cuia, embornal e sanfona para o Rio de Janeiro. Sabia que ia enfrentar preconceito. Lá, por acaso, uniu-se a Humberto Teixeira, advogado cearense ali radicado que dirigia um escritório de direitos autorais e anteviu o sucesso do futuro “Rei do Baião”. Ele e Teixeira fizeram várias parcerias. E aí é que entro na história do Luiz Gonzaga. Humberto Teixeira, na linguagem política local da época, era “paraquedista”. Vivia no Rio e queria eleger-se deputado federal pelo Ceará, nascido que era em Iguatu. Trouxe, então, Gonzaga para animar os seus comícios. Nascia ali o embrião dos “showmícios”. Menino, calça curta, saí de casa escondido para ver Luiz Gonzaga em show em frente da Igreja da Piedade. Tinha pouca gente, no princípio. Quando o Gonzagão começou a tocar, o adro foi ficando repleto de gente e o Humberto acenava para o povo. Cheguei perto do “Rei” e vi sua vestimenta adornada como os dos cangaceiros de Lampião. Passa o tempo. Já adulto, via Gonzaga pela televisão que, preconceituosa, não dava a ele os créditos que merecia pelos versos simples, mas poéticos de suas músicas. No ano de 1984, Gonzaga foi homenageado com o Troféu Sereia de Ouro, pelo Sistema Verdes Mares, quando tive a alegria de revê-lo em Fortaleza e reverenciá-lo. Morto em 1989, hoje, produtores musicais, veem que “Gonzaga foi o primeiro a atingir, com a mesma música, o povo e a elite”, no dizer de Thiago Marques Luiz. Thiago reuniu agora, entre outros, nomes como Dominguinhos, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Amelinha, Zeca Baleiro e Zezé Mota para produzir e gravar três CDs com 50 músicas do Gonzagão. Em julho, o nosso Fagner estará em São Paulo, em show no Sesc Vila Mariana, também para louvá-lo. O cantor e compositor Felipe Cordeiro considera que “ele afirmou, de uma vez por todas, a música nordestina no país, sem ser caricato. Ele foi um acontecimento do tamanho de um Tom Jobim”. Para quem não sabe o surgimento da agitação vanguardista “Tropicália”, nos anos 60/70, com Caetano, Gilberto Gil, Raul Seixas e muitos outros, tem um pezinho nas estacas musicais binárias plantadas pelo menino/homem de Exu que respeitava o pai Januário. Pena que o filho Gonzaguinha tinha outro pensar. Isso é outra história. Agora, neste junho de 2012, quando se comemora, antecipadamente, o centenário do seu nascimento que, de fato, será no próximo dia 13 de dezembro - paradoxalmente, Dia de Santa Luzia, a protetora da visão - resolvi homenageá-lo. E o fiz no 4º. Festival BenJunino, no BenficArte, evento musical que empreendo para homenagear e incentivar compositores, cantores, promissores sanfoneiros de xotes e baiões, com prêmios e a mesma alegria que tive, quando criança, o vi em praça pública na boca da noite. O menino que fui, afinal, está quite com o Gonzagão. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/06/2012. - [CAPIM ALTO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/capim-alto-diario-do-nordeste-2/): Quando você for às compras lembre-se como o dinheiro chegou às suas mãos. Se foi dado por alguém, que reabastece sempre, não tenha dó. Mande brasa. Se for suado, contado e fruto do seu trabalho, vá com calma. Procure fazer uma lista do que realmente precisa. O impulso é, muitas vezes, maior que a razão. Lembre: grife não produz, terceiriza e cola etiquetas. Agora, quando for comprar comida, frutas e verduras, veja se não está dentro de uma multinacional atrás de nome brasileiro. Acontece assim: um português/árabe/judeu/nordestino chega à cidade grande e monta uma mercearia. Moureja de sol a sol. O negócio prospera, o empreendedor aumenta a área e, tempo depois, vira mercadinho, supermercado e loja de departamentos. O mourejador cansado, enfarta. Morre no hospital luxuoso. Filhos choram. Uns menos que outros. Passa o luto. Herdeiros fundam uma sociedade anônima e resolvem abrir o capital. Há anúncios, reportagem em TVs e os netos chegam à festa em carrões e cabelos vaselinados. O barco vai singrando e as famílias aumentam. Há filhos, noras, genros, netos, mulheres e maridos dos netos, uns com ciúmes dos outros. Brigam e ficam distantes. Uma assembleia geral extraordinária é convocada para ouvir proposta de grupo estrangeiro. A cobiça aumenta e, após discussões, ouve-se a firma de consultoria contratada por hora. Ela diz: é hora de vender. Os estranjas assumem o controle e vocês recebem ações e parte em dinheiro. Exultam. O português/árabe/judeu/nordestino revira no túmulo que está com capim alto e luminárias enferrujadas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/06/2012 - [DEZ ANOS DA ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS-AFL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dez-anos-da-academia-fortalezense-de-letras-afl-jornal-o-estado/): Cidadãos nascidas em diferentes décadas do Século XX demonstraram no dia 14 de junho de 2002 que acreditavam no associativismo, na necessidade de trocarem informações que geram o conhecimento e que as instituições, tais como os seres humanos, têm períodos peculiares de formação, iniciação, de acolher os conselhos das entidades consolidadas e tentar, por fim, consolidar-se. A Academia Fortalezense de Letras nasceu do sonho do jovem José Luís Lira, que via na cidade grande a oportunidade para o seu aprimoramento social e cultural. Estava ele acompanhado de Matusahila Santiago, mulher destemida, senhora de si, a frente do seu tempo, precursora das lutas femininas pelo reconhecimento, não de gênero, mas pela cultura na Casa de Juvenal Galeno. Eles chegaram a Academia Cearense de Letras-ACL com uma ideia em ebulição e receberam o apoio do poeta Artur Eduardo Benevides, então presidente e hoje presidente emérito das academias ACL e AFL. Igualmente, foram acolhidos por Murilo Martins, honra e glória da medicina cearense, professor, historiador respeitado pela sociedade local que o admira. Artur e Murilo, nos passos iniciais da novel academia, estiveram acolitados por Regina Pamplona Fiúza, diretora executiva sutil e zelosa guardiã da história que se encerra nestes últimos lustros da ACL. Os 40 integrantes iniciais da Fortalezense pareciam saber o que dissera em 1897, na Revista Brazileira o poeta cearense Antônio Sales: “Condeno as academias em tese, por estar convencido de que jamais conseguem os fins para que são criadas, quer se trate de ciências, quer de letras”. Mas, saibam também que no ano seguinte, 1898, a mesma Revista Brazileira, tinha, institucionalmente, mudado essa concepção: “Nós, brasileiros, somos a incógnita de um amor de muitas raças. Se há uma coisa que nos fará manter unidos, será a paixão literária”. Tiveram eles a sabedoria de mesclar o corpo social da AFL. Aliaram o conhecimento de pessoas, já acadêmicas, à expertise de outras portadoras de credenciais que os habilitavam ao munus por suas produções jornalísticas, musicais, culturais e literárias nesta cidade de José de Alencar. Talvez eles soubessem o que disse o filósofo e poeta espanhol George Santayana: “A cultura está sempre entre o dilema de ser profunda e servir a poucos ou popular e tornar-se superficial”. Agora, passados dez anos, um nada na contagem universal do tempo, a Academia Fortalezense de Letras apresta-se a fazer a contraprova de seu reconhecimento na vida literária e cultural de Fortaleza. E o comprova com uma larga produção literária de seus acadêmicos, num total de mais 120 livros/títulos das mais diversas naturezas, produzidos pós 2002. O momento é de referir também que esta Fortalezense já disponibilizou para os quadros da ACL os fortalezenses José Teles, Ednilo Soárez e José Augusto Bezerra, que hoje preside o vetusto e glorioso Instituto do Ceará. A par disso, outros quatro dos seus integrantes presidem, respectivamente, a Academia Cearense de Retórica (Maurício Benevides), a Academia da Língua Portuguesa(Vicente Alencar), Academia de Letras Municipais de Fortaleza(Lima Freitas) e a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (Seridião Montenegro). A par das glórias, os da Fortalezense acreditam que só são dignos de estarem vivos aqueles que cultuam os seus mortos transmudados em lembranças permanentes. Por tal razão, reverenciamos o Mons. André Camurça, orador sacro e intelectual; Natércia Campos, escritora premiada; Orlando Leite, maestro consagrado; Cláudio Pereira, anima e cuore da cidade; Marcelo Linhares, bancário, político e historiador embasado; e José Maria Barros Pinho, poeta, político e paladino. Somos o que criamos, mas se não o fossemos não teríamos a identidade transmitida pelo cometimento e o arrojo inoculados pelo primeiro presidente Cid Sabóia de Carvalho, brilhante Senador da República, comentarista esportivo e propagador da cultura nas emissoras de rádio e televisão. Bibliófilo e discógrafo inveterado, encanta-se com a plumagem e o canto dos pássaros e suas leituras transcendentais, nas quais busca desvendar os mistérios da vida. Singulares, elegemos uma presidente mulher, a advogada Cybele Pontes que já experienciara a gestão da Sociedade Amigas do Livro. Viajante contumaz, organizada, articulada e destemida, pôs-se a dar nova feição e distinção às reuniões com o seu jeito especial de ser com acepipes e congraçando os acadêmicos. Depois, veio o terceiro presidente, Ednilo Gómez Soares, na madureza de vida, administrador e educador de escol, pesquisador e historiador que lança nesta sexta, dia 26, ao por do sol no Iate Clube, o seu quinto livro, este “Desvendando a Ilíada”. Agora, a quinta gestora é a Desembargadora, professora e pesquisadora de história Gizela Nunes da Costa que, superando problemas de saúde, dá o que pode para o êxito na comemoração deste decênio. Por fim, somos dos que acreditam como dizia o filósofo alemão Arthur Shopenhauer que “A glória deve ser conquistada; a honra, basta que não seja perdida”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/06/2012. - [GREVE E VIOLÊNCIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/greve-e-violencia-diario-do-nordeste/): A palavra greve, tal como hoje é usada, tem origem na “Place de Grève”, em Paris, local próximo ao porto do Rio Sena onde, no século XIX, trabalhadores e desempregados faziam manifestações de toda a ordem por melhores condições de trabalho e salários justos. Aqui, a jovem democracia brasileira consagrou o direito de greve. A Constituição de 1988, no seu art.9, diz: “É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele exercer”. No ano seguinte, a regulamentação da greve (lei 7783/89) no art.6º., parágrafo 3º., estabelece seus limites: “As manifestações e atos de persuasão utilizados pelos grevistas não poderão impedir o acesso ao trabalho nem causar ameaças ou dano à propriedade privada”. O que se viu, nesta semana, em Fortaleza, no atentado à sede deste Diário do Nordeste, foi o total desrespeito às normas estabelecidas para o indiscutível direito grevista. Quando se ultrapassa a sensatez e, como horda, viola-se a propriedade privada, há uma ruptura do direito e do diálogo, que deve ser o fio condutor para a solução de todos os problemas individuais e coletivos. A ação dos sindicatos é cabida, mas é preciso preservar o que assegura e determina a lei. A propriedade privada que é atingida é a mesma que assegura empregos e, ao que consta, a maioria era de trabalhadores da construção civil e não haviam sido esgotados os canais de comunicação que viabilizam o entendimento entre as partes. Greve é direito. Depredação é violência. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/06/2012 - [A CPI E OS JOGOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-cpi-e-os-jogos-diario-do-nordeste/): No Brasil todos acreditam na sorte. Vai dar certo. Deus ajuda. Por essa razão traquinam, apostam ou jogam em tudo. Jogam no “bicho”, diversas loterias, cavalos, galos e futebol. Em praças públicas, bancos, botecos e bancas. Em 1946, na redemocratização, o presidente Eurico Gaspar Dutra baixou decreto fechando os cassinos e proibiu os jogos de azar. Na verdade, atendia, a pedido de sua mulher, Carmela, a D. Santinha. Ela pedira ao marido: 1. acabar com os cassinos e jogos; 2. fechar o Partido Comunista Brasileiro e; 3) construir capela, nos jardins do Palácio da Guanabara, então residência oficial. Dutra, honesto, marido ardoroso e católico, atendeu aos pedidos. Hoje, 2012, o Partido Comunista Brasileiro é aliado do governo, sua dissidência criou o Partido Comunista do Brasil (PC do B), também aliado, e a capela está intacta no Rio. Neste país laico, segundo a Constituição de 1988, mantiveram-se os feriados religiosos. De fora, apenas, os cassinos e os jogos de azar. Na realidade, só os cassinos, pois a Caixa patrocina jogos diários/semanais nas análises combinatórias possíveis. Dizia Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore, jogo “é um vício irresistível. Contra ele a repressão policial apenas multiplica a clandestinidade”. O sociólogo Gilberto Freyre comentava que era “uma das poucas atividades sem discriminação de classes”. Agora, por que não se aproveita a atual CPI mista e se dá, além da pauta, uma geral nos jogos da Caixa, nas concessões públicas das loterias e se deslinda o “invisível” jogo do bicho? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/05/2012 - [A REALIDADE E OS PROBLEMAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-realidade-e-os-problemas-jornal-o-estado/): O Brasil tem cerca de 70 milhões de veículos circulando por estradas e vias de discutível qualidade. Neste ano teremos eleições municipais em 5.500 cidades. Eleições para prefeitos/vices e vereadores. Todos, quando eleitos, são bem pagos. Não saiu ainda, de nenhum partido, qualquer menção a programas ou projetos aos problemas básicos das cidades. Só se fala em coligação ou aliança com A ou B, tempo de rádio, televisão, recursos, quem será o cabeça de chapa etc. Quem quiser ver o Brasil real viaje pelo interior de qualquer Estado. É claro que há exceções, entre as 5.500 cidades, a grande maioria é de causar indignação. As cidades acolhem quase 85% da população total e geram 90% de todos os bens e serviços, as riquezas. Em contrapartida, há deficiências claras nos sistemas de transportes urbanos (metrôs, trens, ônibus, micro-ônibus, táxis, mototáxis) pavimentação inadequada ou insuficiente, pouquíssimas obras com soluções estruturais e sequer, as simples, para circulação segura de bicicletas. Há mortes, diárias, no trânsito pela imprudência de uns e outros. O que funciona bem são os fotos sensores e pardais, os das multas. O governo reestimula agora a venda de carros encalhados para diminuir a crise, mas não constrói as estradas necessárias e inexistem parquímetros no Brasil e escassos são os edifícios-garagem. Os aeroportos estão com as capacidades de suas gares esgotadas e são ultrapassados física e tecnologicamente. Um exemplo: semana passada, uma grande chuva em Vitória, Espírito Santo, fez ruir parte do teto do aeroporto, exato onde funcionavam os check-ins, assim tudo passou a ser feito manualmente. Os poucos grandes portos são feudos indecifráveis. Construtoras pujantes são o delta, o alfa e o ômega das questões, especialistas em tudo, independente de partido, seguem incólumes. O Brasil, na contramão do mundo, ainda não usa trens para ligações entre os estados. Na Europa e nos Estados Unidos, isso foi feito no século 19. O saneamento básico nas cidades é grande gargalo, pois os recursos sempre estão atrasados para pequenas e médias empresas sérias que participam de acirradas licitações e são levadas a desistir de obras, pois não recebem o que produzem, por conta de convênios que emperram e pela descontinuidade de administrações sem entender o processo que deveria ter um plano mestre, independente de interpretações casuísticas. Sem saneamento, a dengue mostra o descaso e custará caro, muitos morrerão. A leptospirose grassará em meios a valas de lixo e esgoto a céu aberto onde animais e crianças convivem. Isso é desenvolvimento? São Paulo, a maior capital, tem um milhão de pessoas que não usam sequer rede de esgotos. Na área de telecomunições, serviços de terceira, preços de primeira. O baixo índice de resolutibilidade em banda larga carece de investimentos de 20 bilhões para que o acesso de cada 100 habitantes não patine nos percentuais atuais e atinja a 30%. Sem comunicação, um país não funciona. Precisa para fins escolares, acadêmicos, controles públicos, pesquisas, científicos, empresas e instituições. A comunicação de dados é gêmea do progresso. Só agora, haverá leilão para a rede 4-G, a quarta geração tecnológica. As concessionárias de energia elétrica desconfiam dos consumidores ao colocarem medidores expostos enfeando as fachadas de empresas, prédios e residências; prestam serviços de baixa qualidade - sempre por terceirizados mal pagos - e não atualizam redes causam blecautes que queimam aparelhos domésticos e industriais. São, paradoxalmente, coniventes com os ocupantes de invasões de áreas públicas e privadas urbanas e rurais, pois permitem ligações sem pedir prova da propriedade ou da locação. Não será hora de reavaliar as concessões? Logo mais, os marqueteiros de sempre, darão um jeito. Venderão ilusões, tais Mefistófeles comercializarão as próprias almas, se as têm. Aguardem. Os circos vão chegar. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/05/2012. - [FUTEBOL E VERGONHA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/futebol-e-vergonha-diario-do-nordeste/): O futebol brasileiro já não é o melhor do mundo. Campeão em 1958. O último, 2002. Afora isso, a gestão dos clubes é primária. “Bicheiros”, que comandam os carnavais do Rio e de SP, demonstram melhor organização. O futebol teve CPI, há acusações aqui e alhures contra ex-dirigentes da CBF. O atual parece ter saído da aposentadoria para comandar, atarantado, o caos. As federações são feudos de donatários. Os clubes, deficitários e anárquicos. Violência nas torcidas. As televisões determinam a hora dos jogos. Foi-se o tempo em que jogadores tinham identidade com clubes. Pelé, no Brasil, só jogou Santos. Jogadores viraram mercadoria para “empresários”. Mudam de clubes, saem, voltam e só o dinheiro lhes interessa. Árbitros decidem partidas com expulsões, penais e fica nisso. Ronaldo Nazário criou firma na área e faz parte do comando da Copa de 2014. Tal como aconteceu na África do Sul, a Copa causa escândalos e estragos na economia. Estádios que funcionavam foram demolidos em nome de modernidade fajuta que inclui camarotes e frivolidades. O Brasil tinha mais com que gastar esses bilhões. Posar de rico, como? Estradas e vias ruins. A dengue grassa. Educação fraca. Há carência de esgotos nas capitais e as favelas, surgidas e consolidadas pela discriminação, mostram a passividade de governantes, no passado e agora. Hospitais superlotados e sucateados. Mortos nos corredores. Indústrias e construtoras de obras públicas viram sócias do Governo, via BNDES. A cúpula “Rio+20” comprova agora a voracidade dos hoteleiros. Com será em 2014? João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/05/2012. - [CONTO, DESCONTO E RECONTO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/conto-desconto-e-reconto-jornal-o-estado/): Estou no caminho sem volta que é o viver. Ou você avança, passo a passo, mesmo que isso custe a ausência de pessoas essenciais, ou vai se deixar invadir pela lassidão, a ansiedade, a amargura e a nostalgia. Mas não é esse o objeto desta minha conversa com você. Alegro-me hoje com pequenas coisas. Não preciso mais fazer vestibular, entrar em concurso de qualquer natureza e provar que sou isso ou aquilo. Quero andar de sapatos sem meias, conversar com estranhos, sair de qualquer reunião antes da meia-noite, não conviver com quem me desagrada e deixar de tentar convencer o outro das minhas certezas. Que certezas? Quero a companhia de poucos e usar o meu tempo no trabalho, que me dá o prazer de criar. Viver do que acredito: benquerença desinteressada, consciência social, viajar, ver filmes, ler e escrever da forma sempre difusa como sempre o fiz. Idealizei. Quis muito que minha gente vivesse os meus sonhos e seguisse a estafante trilha. Decidiram por outras opções. É provável que não tenha sabido engajá-las com ternura, nessa dura e crua lida. Assim, deverei continuar só, do meu jeito, meio sem jeito. Não cobro mais. Já não cometo a tolice de querer demonstrar o que fui, sou e o que não sei. Sou péssimo ator, não sei contar piadas, bebo pouco e não tenho frases de efeito. Todas já foram ditas. Encanto não é, infelizmente, meu forte, mas quando bate a empatia eu me solto como menino em parque de diversões. A vida é. Não se arquiteta, não é nada romântica, tampouco fácil, pois “fácil é o comum”, dizia eu na minha bobice, aos 16 anos, quando já lia tanto quanto agora. Agora, neste platô com escarpas ao meu redor, não deixei de amar e acreditar, mas um pouco de ceticismo me acicata. Fui, apesar de me acharem arguto, presa fácil para pessoas embusteiras. Os embusteiros são como pacotes bem produzidos, mas os laços que os adornam são cegos e só com o tempo ficam desfeitos e aparecem a podridão, o malfeito e o mau caráter que evolam do nada bem escondido na aparência. A aparência que muitos pensam ser tudo e nada é. Todos pagam um preço, o dos embusteiros é a ignomínia. Desde sempre, tento ser pontual nos meus compromissos e encontros. “Fazer o outro esperar é uma prerrogativa de poder, poder que eu não tenho”, já dizia Roland Barthes. Considero a adulação, a bajulação ou o puxassaquismo uma forma de vileza abjeta. Os bajuladores são como vampiros, sempre atrás de sangue novo. Não acredito em quem tem muitos amigos. O homem se encontra em si mesmo. E, quiçá, com poucos. Sabem vocês o nome da profissão dos que cuidam das aparências dos cadáveres? Vi, há tempos, o filme japonês “A Partida”, de 1998, em que o protagonista, antes violoncelista de orquestra desfeita, vai trabalhar, sem contar – por vergonha - à sua companheira, no embelezamento de cadáveres que serão, em seguida, cremados. Ao final, ele que era distante do pai que morre, paradoxalmente o prepara para o forno que o transformará em cinzas. Ironia ou destino? Faz tempos estudei Sociologia, mas hoje, ano 12 de um século que vai mudar o mundo, como todos os outros pretendiam, descubro que há um velho sociólogo judeu, Zygmunt Bauman, que fala da “modernidade líquida” e isso por intermédio de Marcos Flamínio Peres, que o entrevista. Assim, a modernidade líquida, assevera Bauman, faz-nos perder o sentido de solidez e estabilidade que sempre buscamos. Ele escreve livros, tais como “O amor Líquido”, “A Vida Líquida” e o “Medo Líquido”. Segundo Peres, em consequência dessas sociedades ‘leves’ e ‘líquidas’, “o ser humano tornou-se mais autônomo, o que é um ganho, mas passou a conviver com a incerteza”. Pois é, não há autonomia sem perda. A incerteza é e será constante no viver, seja no sentido coletivo ou no individual, de que falei lá no primeiro parágrafo. Carlos Fuentes, escritor mexicano, falecido nesta semana, sabia disso quando intuía que “a realidade não é suficiente”. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/05/2012. - [MÃE É PROFISSÃO? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mae-e-profissao-diario-do-nordeste/): Oriana Falllaci, escritora italiana, dizia que “ser mãe não é uma profissão; não é nem mesmo um dever: é um direito entre tantos outros”. Hoje, as mães do século XXI, isto é, as mulheres com filhos de até 12 anos de idade, são bem diferentes das que os tiveram antes da Segunda Guerra e das que conceberam durante a Guerra Fria. As que nasceram após 1978, a tal geração Y, hoje comandam, com garra e capacidade, as suas próprias vidas. Essas novas mulheres estudam, correm em parques e trabalham iguais a homens, com quem disputam espaços profissionais. Não invocam a maternidade como obrigação do casamento ou união. Decidem, sozinhas ou com o (a) companheiro (a), quando será o momento azado para conceber. Se não o conseguem no sentido bíblico, vão à luta em busca de formas outras de reprodução. Sabem bem o que é fertilização “in vitro” e até compram sêmen em clínica de homem que nunca vai conhecer sequer a descendência. Novos tempos e costumes. Há relação sexual programada, inseminação, fertilização, doação – ou venda - de óvulos e sêmen. Estas constatações não pretendem chocar ou desmerecer as mães que tivemos. Louvemo-las. Mas aclarar a todos da nova realidade que impõe menos preconceito e mais respeito pelo direito alheio de fazer o seu próprio destino. E acabar com a encenação, vitimação e golpe de mulheres livres que, sabedoras de seu momento fértil, deram e dão o golpe da gravidez - desejada - em homens incautos, cúmplices fortuitos da trama urdida, despidos quase sempre de laços afetivos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/05/2012 - [COMPROMISSO COM A MÃE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/compromisso-com-a-mae-jornal-o-estado/): Depois de amanhã você tem um compromisso com a sua mãe. Importa não que ela tenha morrido há tempos. Vá ao cemitério, remexa no álbum de família e ore, se fé tiver. Importa não que ela não suporte com quem você vive. Importa não que ela já não entenda – ou ouça - a metade do que você diz. Importa não que ela more longe. “Longe é um lugar que não existe”, diz Richard Bach em uma linda novela. Dê um jeito de chegar. Hoje, com os recursos da tecnologia, você pode gravar uma mensagem e enviar para que repassem para ela. Se não sabe, peça a alguém para fazer isso com você. Mas, por favor, diga apenas o que falaria se estivessem juntos. Não siga as fichas bregas dessas mensagens ou cartões para as mães que oportunistas colocam em carros de som, lojas e livrarias para vender. Escreva, diga ou grave apenas o que sente, mesmo que ache bobo. Sua mãe sabe quem é você. Filho não tem idade, deixe-se levar por seus sentimentos, mas nada de pieguices, lágrimas falsas, aquelas flores compradas no semáforo ou os hediondos jarros que ficam na entrada dos supermercados. Faça algo de coração ou quede-se quieto. Mãe entende até o que não se diz e faz. Fui o primeiro filho de uma mulher destemida, inteligente e companheira do meu pai por 50 anos. Morto em 1991. Ela tem agora 92 anos e dá conta da sua casa, empregadas, vida, presença ou ausência de filhos, netos e bisnetos. É independente e distribui o seu dinheiro segundo os seus critérios de justiça. Todos os domingos tomamos café juntos. Levo sempre uma lembrança para ela, mínima que seja. Ela, meio sorrindo, meio séria, diz: “o João pensa que sou criança com esses presentinhos que traz”. Ela é assim. Clara e direta. Mora em casa cercada de árvores e flores. Lê jornal todos os dias, assinante que é. Vê e ouve as missas das emissoras católicas de TV e movimenta as mãos fazendo “fuxico” com pedaços de panos coloridos, linha, agulha para criar tapetes e adereços para os que a visitam. Certa vez, uma amiga da família, quis colocar a Margarida numa sinuca. Era dia do seu aniversário. Ela ia cortar o bolo. A amiga disse: vamos ver para quem ela dará o primeiro pedaço. A bonita Marga olhou de soslaio, ajustou os óculos, pegou um prato grande e começou a cortar pequenos pedaços e nos deu a todos, ao mesmo tempo. Assim, depois de manhã, espante a preguiça e vá ao encontro de sua mãe. Não importa se viva ou morta. Ligue-se a ela. O admirável será o encontro e ele só acontece se você for simples e verdadeiro. Desnude-se dos aparatos como a criança que ela embalou e acalentou no seu colo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/05/2012 - [CINEMAS DO DRAGÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cinemas-do-dragao-diario-do-nordeste/): Não foi por falta de avisos e conselhos. Familiares e amigos disseram: não se meta, não vão entender o seu apoio. Por outro lado, via que as salas clamavam por uma mexida. Os cinemas do Centro Dragão do Mar viveram, nestes 13 anos, em função de patrocínio- que acabou - de instituição financeira. Reuni equipe, obtive informações, analisaram e a conclusão, unânime: os cinemas dão prejuízo. Desista. Não, respondi. Estou entrando na luta, e conto com você. Assumo, mesmo sabendo que poucos acreditem que alguém possa, sem interesse, bancar uma causa. Dou exemplos: há 12 anos criamos a galeria BenficArte, que pouco fica a dever às demais. A diferença: tudo sai do nosso bolso, desde a montagem das exposições, os folders e até o coquetel. Mantemos há quase quatro anos, mais de 30 adolescentes estudando – e já no fim do curso - no Conservatório de Música Alberto Nepomuceno. Inventamos uma Fábrica do Bem para multiplicar artesãos. Sem incentivo fiscal algum. Quem duvidar pergunte a uma instituição séria local que cuide de crianças, adolescentes, idosos e doentes. Repito, sou teimoso e cinemeiro. Chaplin dizia: “Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação”. Aprendi um pouco nos incontáveis filmes que vi. Já pagamos os equipamentos de som e imagem. Estou vibrando. Gosto de desafios. Vou gerir os cinemas com entusiasmo. Espero contar com o seu apoio. As antessalas estão charmosas. As salas, limpas. Vá lá. Ajude-nos a saber que tipos de filmes você quer ver. Responda, por favor: cinedragãodomarsugestoes@gmail.com. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/05/2012. - [BARROS PINHO, PALADINO, POETA E POLÍTICO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/barros-pinho-paladino-poeta-e-politico-jornal-o-estado/): Ontem, no jornal O Povo, falei sobre José Maria Barros Pinho. Hoje, amplio um pouco o que contei sobre o jovem magro, altura mediana, branco de tez, mãos inquietas e claros olhos profundos que conheci em 1961. Ele saía da esquina da Rua Pedro Pereira com a rua Padre Mororó à procura do seu destino. Encontramo-nos. Éramos aprendizes de profissão incipiente em uma escola que fora fruto de um acordo entre políticos que lotearam cátedras. Tínhamos um sonho e o perseguimos como ciganos, começando na Faculdade de Ciências Econômicas na Av. da Universidade. Como invasores ou sem teto, fomos expulsos para não contaminar os que pertenciam à novel Universidade Federal do Ceará. De lá, mudamos para uma casa de telha vã e goteiras mis na Av. Duque de Caxias, esquina com a Rua Jaime Benévolo. Paradoxalmente, essa casa pertencia a uma irmã do então Reitor da UFC, Martins Filho. Pois foi ali que ele e mais duas dezenas de pessoas foram, dia a dia, amalgamando essa profissão de Administrador que, sequer, tinha sido reconhecida. Unidos nessa luta interna contra o preconceito dos que nos viam de forma atravessada, Barro Pinho os desafiou, em 1962, e conseguiu, imaginem, ser eleito presidente da União Estadual dos Estudantes- UEE, entidade cativa e inexpugnável dos integrantes da UFC. A essa época, era um feito histórico. Fora a porteira derrubada pelo jovem teresinense, com raízes em Crateús, aclimatando-se na brejeira Fortaleza de então. Entrara por mérito, eloquência e destemor e daí a senda que palmilhava foi, pouco a pouco, virando estrada de refregas contínuas. O que lhe fizeram em 64 foi o condão, uma espécie de elixir que fortificou suas convicções libertárias Estava sendo forjado o paladino. Passada a tormenta, apascenta seu coração nos braços da meiga Isabel Aracimy, colega de escola, apascentadora de seus arroubos e companheira de vida. Fez-se, por mérito e luta, vereador, deputado, prefeito da já sua Fortaleza, secretário da cultura do estado e condutor das curtas rédeas da franciscana Fundação Cultural de Fortaleza. Pai de cinco filhos que cresciam como gente, sob os olhares de uma comparte ciosa de seus deveres e sempre relevadora dos arrebatamentos do inquieto marido. Agora, aplainamos as nossas lembranças, inquietações e desassossegos com escritos. Gervásio de Paula, Airton Monte e Juarez Leitão, já disseram tudo – e muito bem - sobre Barros Pinho, esse colecionador de punhais, ourives de poemas e político por sentimento e destino. Pensei até em transcrever partes de seus escritos, mas seria apropriação indébita do mérito alheio. Quedei-me ao universo limitado que vivemos em tempos idos e revividos em inconsequentes colóquios na sala plural do Sérgio Braga, onde surgiu o Clube do Bode, uma anárquica criação coletiva sob as bênçãos do Barros Pinho e a pena satírica do Audifax Rios. Agora, nesta sexta-feira, com ou sem fé, às oito da noite, na Paróquia de São Vicente de Paulo, cada um se achegue por lá com a sua consciência. Se possível, para tentar (des) montar o quebra-cabeça que nos faz náufragos sempre que a dita cuja nos prega peças. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/05/2012 - [EPIFANIA DO BARROS PINHO - Jornal O Povo](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/epifania-do-barros-pinho-jornal-o-povo/): Não invoco amizade com Barros Pinho. Ele não está aqui para confirmá-la. Fomos colegas de 61 a 64. A Escola de Administração do Ceará nos usava como alunos e cobaias. Éramos aprendizes em sedes mutantes, goteiras a marcar o cimento do piso. Fundamos o Centro Acadêmico Juscelino Kubitschek para nos dar compasso e Barros Pinho emerge na presidência. Fomos à luta. Ninguém nos reconhecia como universitários. Que escola era aquela? Veio o agosto de 61. O presidente Jânio Quadros renuncia. Há impasse com a presença na China do vice Jango. Aqui, jovens conseguem de Moisés Pimentel, então dono da Rádio Dragão do Mar, um transmissor volante. É decretada greve universitária. Barros Pinho fazia parte do “Comando da Legalidade”. Jango assume o governo. Floresce o ano de 1962 e o também Zé Maria luta pela presidência da UEE, reduto exclusivo de universitários da UFC, a única de então. E vence. Em julho, fomos ao conturbado congresso da UNE em Petrópolis, Rio. A comitiva cearense recebe uma Kombi do Governo Federal, por iniciativa do Senador Paulo Sarasate. Sou designado para dirigi-la por lá até que fosse enviada para Fortaleza. Paralelo a isso, BP intuía que “a ponte e o rio/me ligam à vida/vida que se liga/na solidão”. Conhece Isabel Aracimy que o tirou da solidão e virou seu mote de vida permanente fugindo do “amor nas veredas disputado no chão com as serpentes”. Abril de 64, uma tormenta o leva para as “terras barrentas do Parnaíba” e é trazido para a avenida 13 de Maio, mas não para a igreja. Tudo era o “trágico do apocalipse no último cata-vento”. Ultrapassa o portão verde e sai com “a indignação do poeta a rasgar no punhal”. Com eloquência, destemor e desenvoltura é eleito vereador de Fortaleza e, no pleito seguinte, elege-se Deputado Estadual. Mas o poeta encobria um educador que precisava construir uma escola. Com unhas e dentes constrói e dirige um colégio a homenagear o abolicionista e escritor Oliveira Paiva, autor de “Dona Guidinha do Poço”. E disse: “Fui além de mim para acender uma luz”. Luzes nunca o ofuscaram. Em 1985 assume a Prefeitura de Fortaleza e sai tal como entrou: limpo e festejado. T.S. Eliot acreditava que “a poesia não é um modo de liberar a emoção, mas uma fuga da emoção”. Eu direi que a poesia era o seu remanso ou o catalisador de suas infinitas angústias, humano pensante, profundo e engajado que foi. Depois, o gestor e homem de letras reflexivo pastoreou, por anos, com aprumo e retidão, a cultura do Estado e a de Fortaleza sempre fazendo milagres com os tostões contados. Poetou e contou versos que se transmutaram em prosa. E ei-lo maduro, pai e avô, temente a um Deus que imaginara (des)acreditar na reflexão e no mourejo da lida e escrita. Cãs, com 70 poemas para orvalhar o outono, canetas no bolso da camisa, em plena madureza sentia e vivia a sua epifania no planisfério do castelo azul. O circo encantado o chama, como antevira, em Núpcias das Águas: “o céu se preparando pra noite com o lençol da camarinha”. E no outro lado, além do planisfério, é recepcionado pelo poeta e amigo Gerardo Mello Mourão: “amadureceram-me as narinas sábias tal a rosa-dos-ventos dia e noite do navegante.” João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O POVO EM 03/05/2012. - [FOTOGRAFANDO FORTALEZA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fotografando-fortaleza-diario-do-nordeste/): Faz doze anos que promovemos concurso fotográfico, sempre em abril. para homenagear o aniversário de Fortaleza. Neste ano há 84 fotos inscritas. As fotografias, sabe você, saíram do processo único de captar, formar e fixar uma emulsão à imagem de uma pessoa ou um objeto sobre papel especial. Hoje, há simplificação e, ao mesmo tempo, tecnologia sofisticada com filtros, lentes e que tais. Cada fotógrafo é livre para escolher o equipamento, o processo e o objeto do seu olhar. O que tem me chamado a atenção no concurso são os locais dos “clicks” escolhidos. No imaginário deles, a cidade parte da Praça do Ferreira que é vista e irradiada de várias formas: a mistura do povo com os ambulantes, o Theatro José de Alencar, a Catedral, o Passeio Público, o Parque da Criança, a Secretaria da Fazenda e o Centro Dragão do Mar. Destacam ainda aspectos do Benfica com ênfase nos centros de Cultura, do Maracatu - na Av. Domingos Olímpio - e o panorama da cidade, a partir do alto de um edifício. Há uma facetada atenção às praias. Barra com a Vila do Mar; Iracema, com a ponte dos Ingleses, a estátua da guerreira e o espigão; Meireles, com um resto de navio encalhado e Mucuripe, com o concreto da Guardiã, velas, vento e o anoitecer; A do Futuro, com as suas barracas. A natureza é aquinhoada pelo Parque do Cocó. A comissão julgadora terá profissionais do nível de A.Capibaribe Neto, Eduardo Queiroz, Mauri Melo e Alcides Freire. Eles terão trabalho para escolher os vencedores. E isso é bom. Ia esquecendo: A exposição estará disponível para ser levada a escolas públicas. De graça. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/04/2012. - [CHOVIA EM BRASÍLIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/chovia-em-brasilia-jornal-o-estado/): “Na verdade quem projetou Brasília foi o Lúcio Costa. Eu fiz uns prédios e avisei que... não ia dar certo.” Oscar Niemeyer Soares Estive em Brasília. Em trânsito. Era noitinha. Chovia. Nada a fazer, o avião demoraria horas. Apanhei um coletivo e a chuva aumentou. As repartições estavam fechadas com luzes acesas. Os limpadores do para-brisa trabalhavam para me mostrar, entre grossos pingos d’água, o Eixão com os prédios bonitos e os monumentos projetados por Niemeyer Soares, o Oscar. Ele não usa este último sobrenome. Talvez seja implicância comigo. Em troca, repito o que dizem alguns usuários dos prédios que projetou no meio do cerrado: são bonitos, mas mal divididos internamente. A cidade de Lúcio Costa completa 52 anos neste abril e já comporta, dentro e fora do plano piloto, muitos problemas urbanos e aqueles outros criados ou urdidos pelos que acreditam que nela moram. Meros passantes nas casas nobres da cidade. O que são alguns ou muitos anos no tempo infinito? São eles, os passantes, quase todos, usuários de aviões que os levam e trazem, plenos de empáfia e vazios de brasilidade. Até pagariam para estar lá. Integram clubes. Nesses clubes jogam fichas com todas as cartas de terça à quinta. Refestelam-se alhures nos fins de semana ou em seus torrões com os que os incensam em troca de favores. O veículo faz a curva e entra no Setor Hoteleiro. Quantas bandeiras. Quantas tramas foram maquinadas em seus apartamentos impessoais. Começou no Hotel Nacional. Tempo de Juscelino. Lembro que Carlos Heitor Cony acredita ter sido JK vítima de “acidente forçado”. Como?. O carro Opala em que ia de São Paulo para o Rio, dirigido por pessoa de sua confiança, atravessou o canteiro central da Rodovia Pres. Dutra e foi colhido por um caminhão Scania em sua mão de direção, em Rezende, RJ, no dia 22 de agosto de 1976. Falou-se que um ônibus da Viação Cometa teria batido na traseira do carro e o desgovernara. Cony diz que JK, Jango e Lacerda, os não amigos e integrantes circunstanciais da “Frente Ampla”, morreram por encomenda num espaço de nove meses. Coincidência e especulação jornalística? João Goulart, cardíaco e abstêmio compulsório, estanciava no exílio do Uruguai. Na companhia da sua mulher Maria Thereza e amigos viajou muito em um só dia. Usou avião pequeno, barco e, depois, dirigiu um carro até Corrientes, Argentina, onde tinha outra fazenda. Chegou exausto, jantou churrasco, foi dormir e não mais acordou na madrugada de 06 de dezembro de 1976. Carlos Lacerda, estressado por natureza, tomava remédios, gripou e acreditava-se cardiopata. Desidratou e foi levado de ambulância à renomada Clínica São Vicente, no Rio. De lá saiu o esquife em 21 de maio de 1977. Volto ao aeroporto. Desço, entro em uma livraria, compro livros. Passo pelo controle, embarco e coloco o cinto. O avião taxia, limpo os óculos e começo a ler “O Corretor”, de John Grishman. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/04/2012 - [A LIVRARIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-livraria-diario-do-nordeste/): Para mim, livraria é lugar bendito. Jorge Luís Borges na sua sabedoria argentino/europeia dizia que “sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”. Na Internet há um blog: “Quero morar em uma livraria”. Dia desses, andando por aí afora, revi uma que considerava das melhores do mundo. Agora, pouco a pouco, deixa de ter a aura que o livro lhe confere. Vende livros, cds, dvds, equipamentos eletrônicos, jogos, revistas e jornais. Pais com filhos procuram iniciá-los na leitura/literatura, o mundo da introspecção. Adolescentes liberados, com piercings e tatuagens, usam laptops e os I da vida - pad, phone e pod. Sentam-se em qualquer lugar e sugerem “entrar em alfa” ou algo assemelhado. Fecham os olhos ou os arregalam mirando o infinito. Nada de livro à mão. Aposentados ou assemelhados, esgrimindo com a solidão, leem livros de forma continuada, dia sim, outro também. A custo zero. Usam marcadores após a leitura do dia e os repõem nas estantes classificadas. Parecem ser estacas fincadas, página a página, adiando o encontro certeiro. Há silêncio e ruídos na “cafeteria” que supre a fome no espaço gourmet com aromas de café e bolos. A área de informática aumenta e o uso gratuito de Wi-fi permite a conexão com as redes sociais. Plasmam ou imaginam o vir-a-ser do incógnito futuro que aporta em todas as manhãs orvalhadas. Comprei livros e não saí pela porta principal. Ela exalava o cheiro da impressão aligeirada das novelas de ocasião, acolitadas pelo mar de livros de autoajuda. Vade retro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/04/2012 - [CINEMAS, ONTEM E HOJE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cinemas-ontem-e-hoje-jornal-o-estado/): Comecei a ir a cinemas ainda de calças curtas. Morava na Rua Major Facundo e ia a pé para o centro que distava apenas três quadras. Havia filmes e seriados. Explico: tais como as novelas de televisão de hoje os seriados apresentavam muitos capítulos e sempre, cada um deles, concluía com cenas e momentos de perigo para o mocinho acossado pelo bandido. A ansiedade era o elo para o espectador não perder o próximo capítulo e o fio da meada. Uma das mais importantes era “Flash Gordon”, estrelado por Steve Holland. Nós recebíamos filmes e seriados com anos de atraso. Hoje, os lançamentos são mundiais e simultâneos. Quase sempre. Agora, neste 2012, o cinema está mudando não só do tradicional filme de 35 mm para o digital com sons e efeitos compatíveis com o avanço da informática. A televisão aberta e as operadoras de canais fechados têm roubado grande parte da clientela dos cinemas. A solução encontrada foi a de transformar a sala de cinema como uma extensão da casa do espectador. Vi, neste mês de abril, salas de cinemas em que os aficionados sentam em poltronas largas – tipo as chamadas do papai, reclináveis, com uma mesinha retrátil e consulta um cardápio com acepipes e bebidas. Garçonetes servem. Como se já não bastassem a pipoca, os docinhos e refrigerantes. O cinema, em face da crise, resolveu concorrer com a sala de estar das casas que possuem televisões de todos os tamanhos e a comodidade da geladeira e da cozinha. Essa inversão é para reconquistar os adultos e as crianças que se empolgam também com as guloseimas. Afora isso, a chegada definitiva do filme digitalizado, tal como se faz há anos nos estúdios das redes de televisão, marca o fim do charme e encanto dos grandes rolos de fita que ainda são colados por operadores diligentes em prosaicas máquinas manuais. Era e ainda é assim aqui e em Los Angeles ou qualquer canto do mundo. O fim do cinema analógico está programado para até 2015. O que escrevo não é novidade para os cinéfilos J.G. Miranda Leão, Pedro Martins Freire, Frederico Fontenele Farias e José Augusto Lopes, entre outros, que, certamente, estão atônitos. Essa mudança acontece ao mesmo tempo em que os filmes gerados em três dimensões – 3-D,aprimoram enredos consequentes e não confiam apenas nos efeitos especiais. Chaplin, em outra dimensão, pegará a bengala de Carlitos – seu personagem – com raiva e virará as costas em seus passos sincopados. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/04/2012. - [O CANGAÇO E SUA INFLUÊNCIA NA ESTÉTICA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-cangaco-e-sua-influencia-na-estetica-jornal-o-estado/): Na Exposição da Galeria BenficArte “Nosso Chico Anysio” em abril passado, descobrimos vários talentos. Um deles, Jô (Joaquim) Fernandes, paranaense que deixou as araucárias, os pinheiros-do-paraná, símbolo das árvores daquele estado, para se embrenhar, desde 1974, no imaginário da caatinga local. E o fez com o destemor do publicitário, do vendedor de sonhos, do marchand que cria e comercializa adornos e do artista plástico que se propôs a entender as vidas e as artes/manhas do cangaço, como se fosse um oriundo culto. Jô Fernandes preparou para a Galeria Benficarte esta bonita exposição. Ele busca, em acrílico sobre telas, como se fosse um antropólogo/pintor ou um sociólogo da arte do cangaço, mostrar esse lado pouco coligado e cultuado do Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião. E o faz misturando consciente/inconsciente, e descobre que os adereços usados pelos cangaceiros constituem parte do conteúdo da arte armorial identificada, codificada e pontificada, desde 1970, pelo escritor paraibano/pernambucano Ariano Suassuna. O drama, a carnificina, a pilhagem, a revolta, ou como que se queira chamar o tempo do bando de Virgulino Ferreira, de sua companheira Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita) e de seus asseclas, foram, paradoxalmente, os despertares de uma arte singela na criação, estilização e produção do múltiplo de saqueador / vingador / estilista / bordador / costureiro/ dançador. Desde os chapéus de couro adornados com espelhos, flores e desenhos octogonais em gibões, calças, camisas / blusas, perneiras, embornais, sacolas/bolsas, cantis, alpercatas e até nas bainhas de armas de fogo e brancas. Tudo é estilismo puro, mesmo que essa palavra quiçá tenha passado pela mente desses facínoras/criadores de arte. É essa face lúdica e estética de Lampião, de Maria Bonita e dos demais cangaceiros que Jô Fernandes, um “nordestinado”, como ele auto se intitula, tenta expressar no projeto “O Cangaço e sua Influência na Estética”, que a Galeria BenficArte expõe a partir deste domingo, 03 de junho, aos olhos e ao pathos dos seus visitantes. Ela é uma visão social transformada em arte. João Soares Neto não é crítico de arte João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/06/2012. - [PLANTE UMA ÁRVORE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/plante-uma-arvore-diario-do-nordeste/): Camões louva as árvores: “Se não te celebrar como mereces,/cantando/te, sequer farei contigo/doce, nos casos tristes, a memória”. Na minha juventude a maioria das árvores que existia na cidade era composta de fícus-benjamim. Houve uma praga(“lacerdinha”). Árvores morreram. Outras, sacrificadas. Hoje, há carência de árvores. O calor que nos acompanha todo o ano, chovendo ou não, demonstra que se pode, ao plantá-las e cuidá-las, diminuir a incidência dos raios solares em praças, parques, empresas, instituições, jardins e vias. Instituições têm, na última década, consagrado especial atenção a esse mister. Com os recursos da informática é fácil ver as áreas da cidade ainda carentes de vegetação. Desde 2002, agindo isoladamente, ou em parceria com a CDL, CRolim, Semam, Semace e o Horto Municipal, temos distribuído milhares de árvores, acompanhadas de orientações de plantio, poda e rega. Pois, sendo a terra sujeita a escassez de chuvas é preciso regá-las, sempre. Florbela Espanca, fala da seca: “Árvores! Não Chores! Olha e vede:/ Também ando a gritar, morta de sede/Pedindo a Deus a minha gota de água”. E devemos plantá-las por uma questão simples. Sombras são benfazejas nesta terra em que termômetros giram em torno de 30º graus e cânceres de pele proliferam. Agora, o Grupo Edson Queiroz destaca, todos os dias, neste DN: “Plante uma árvore. Semeie esta ideia”. Devemos plantar, hoje e sempre, pois quase não temos companhias para o velho baobá do Passeio Público. Plante uma. Esta semana é a festa das árvores. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/04/2012 - [RÉQUIEM PARA CHICO ANYSIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/requiem-para-chico-anysio-jornal-o-estado/): Às 14h45m da sexta passada, 23 de março de 2012, Chico Anysio morreu. Pela última vez. Desde dezembro ele brincava de morre-vive ou esconde-esconde com Hades, Ceifador, Angeu, Hel, Ankon, Nefitis, Yamaraz, Valdemort, Azrael, Catrina, alguns dos nomes da morte. Matavam os seus personagens, não o Chico. Enfim, A luz o abraçou e levou. Liguei, em seguida, para Elano Paula, seu irmão mais velho e querido. “João, ele teve hoje quatro paradas cardíacas e se foi na última”. Elano era contra a missão impossível de manter o irmão, confidente, parceiro em artes, cultura e amigo, vivendo por meio de aparelhos com risíveis melhoras e declarações piegas nas mídias sociais por gente que o cercava. Elano fala do irmão: “O Chico é o meu amigo especial, somos admiradores um do outro. Começamos juntos, eu mudei de vida e ele seguiu subindo a escada do sucesso”. Os irmãos de Chico têm, tal como ele, inteligência privilegiada, mas não são expansivos ou “show off”. Dos seus irmãos, já morreram Lília e Lupe. Lília era casada com médico paraibano. Certa vez conversamos, por horas, do seu “desterro” em João Pessoa, da sogra chata, de cultura, da família e do Rio, onde cresceu. Em seguida, ela se foi. Chico tinha um show no mesmo dia, o fez. Depois, chorou. Lupe, a irmã mais velha, igualmente casada com médico, este carioca, trabalhou no rádio, televisão e cinema, a contragosto do marido. Daí sua vida artística ter sido entrecortada, limitada e a pessoal, aflita. Zelito Viana, nas palavras do próprio Chico: “é um cara muito bom, profissionalmente, Foi o produtor dos sonhos de Glauber Rocha e dirigiu filmes admiráveis como “Os Condenados” e “VillaLobos”. O problema é que ninguém muda o temperamento de ninguém. Assim, como eu sou 220 volts, o Zelito é 12 volts, nem dá choque”. Em janeiro de 2004 tive uma longa conversa com o Chico, a quem conheci desde os fins dos anos sessenta. À época, num fim de tarde, revendo juntos pontos de Fortaleza, falei para ele: vamos dar uma passada na casa da D. Margarida, minha mãe? Claro, João. Entramos, sentamos à mesa da sala de jantar e ele disse: D. Margarida, podemos tomar um café com bolo? Foi um momento especial e descontraído. Voltemos para 2004: Ele se queixou da emissora em que trabalhava, das suas limitações pulmonares por conta do cigarro e me apresentou à sua sexta mulher, Malga, que havia sido mordida no ombro por um mosquito e foi procurar remédio. Ficamos sós. Resolvi, então, propor a ele uma entrevista que hoje está no meu livro “Gente que Conta”. Aproveito para citar alguns trechos do que ele me disse. 1. Sobre ele mesmo: “No fim sou um covarde, que se esconde atrás de várias caras por temor de me expor ou um mau-caráter que, em vez de se dar ao trabalho, prefere por vários infelizes para trabalhar no seu lugar. 2. Sobre genialidade: É uma palavra muito usada e, por esta razão, mal usada, nos dias de hoje. Acho que a palavra gênio só se aplica a um homem como (Alberto) Sabin, que inventou uma gota que tirou dos pais do mundo inteiro um grande medo, a milagrosa vacina que evita uma doença tristíssima para as crianças”. 3. Sobre a sua terra: “O Ceará é importante demais para mim, porque representa a minha infância, o momento melhor de minha vida, quando eu, filho de rico, tinha um rio em Maranguape que parecia correr somente para mim, uma casa onde havia o quarto onde nasci...No quintal da nossa casa no Benfica, eu brincava de cabeçulinha, gol-a-gol, rodava pião e nunca o meu pai ou a minha mãe encostaram a mão em mim, num gesto de castigo”.4. Sobre a sua arte de pintar: “Quem dera, João, que eu pudesse ter, no que pinto, qualquer mínima coisa de Renoir. Ele é um dos meus ídolos, como Velásquez, Van Gogh, Sérgio Telles e Matisse...O sentido final das minhas tintas é que elas sejam o emprego da minha velhice”.5. Sobre a sua personalidade, perguntado por mim se era um simples que se tornou sofisticado: “Para com isso, João. Quem é sofisticado? Eu sou a coisa mais simples do Brasil. Mais simples do que eu...só...Só...O quê? Arroz com feijão – que é o que eu como todos os dias”. Nesta sexta, 30, sete dias após a sua morte, este relato foi a forma que encontrei de homenagear um cearense, cidadão do Rio e do mundo, maior humorista do Brasil, ator, escritor, artista plástico e gente, sobretudo. Réquiem, Chico. “Acta est fabula” (O espetáculo terminou), atribuído a Augusto, romano que fez o papel de imperador. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/03/2012 - [TERREMOTOS DA SEMANA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/terremotos-da-semana-diario-do-nordeste/): O México, país que poucos brasileiros conhecem como deveriam, provou, uma vez mais, que está preparado para terremotos. Não bastavam as lutas permanentes contra o narcotráfico nesses quase seis anos do presidente Felipe Cálderon. Agora, nesta terça, 20 de março, aconteceu um sismo de 7,8 graus de magnitude. O epicentro foi no estado de Guerreiro próximo à Oaxaca, onde estava Malia, filha do presidente Obama, Ela nada sofreu. É bom lembrar que, em 1985, um terremoto de 8 graus, na área da capital asteca, matou 10.000 pessoas. De lá para cá, o México não parou de ter abalos sísmicos, mas se preparou de forma irrepreensível. A engenharia estrutural do país sabe o que deve fazer e o faz. Há treinamentos constantes da população, da administração de edifícios e os órgãos públicos estão aptos a agir em face de abalos que acontecem no limite entre as placas tectônicas. Aqui no Brasil vivemos outros terremotos. Mistura-se o governo federal com futebol e cerveja, enquanto os reconhecidos condutores das duas casas congressuais medem força com Ideli Salvati. Perplexos, absorvem as mudanças dos líderes do governo que não conseguiam aprovar as leis da Copa e do Código Florestal. Na quarta, senadores adiam a votação do projeto da colega/ministra Gleisi Hoffmann, escudeira dilmista, que deseja extinguir o 14º e o 15º salários para deputados e senadores. Quinta, Jorge Gerdau, conselheiro de Dilma, levou 27 líderes empresariais para uma conversa séria com a Presidente. Mais produção, menos tributos. “Fina Estampa” terminou sem punir vilões. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/03/2012. - [INTERVENÇÕES PARA O FUTURO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/intervencoes-para-o-futuro-jornal-o-estado/): Convivo com arquitetos há décadas. No começo da minha vida profissional verifiquei, como hoje se diz, existir um “nicho” de mercado na área de planejamento urbano em todo o Nordeste brasileiro. Reuni alguns bons nomes como Marrocos Aragão, Juremir Braga, Jorge Neves, Maria Clara Nogueira Paes Caminha e, posteriormente, André Steindorfer. Juntos com profissionais de outras áreas passamos a trabalhar o caos. É claro que as nossas intervenções não tiveram a ousadia de um Napoleão III que modificou no século XIX- com a ajuda de Georges Haussmann, prefeito de Paris por 17 anos - a feição urbana da Cidade Luz. O arquiteto deve ter uma antevisão do futuro e buscar formas que se ajustem ou se contraponham ao espaço urbano onde intervém. Não estou cogitando do arquiteto como mero criador de habitações uni ou plurifamiliares, mas com a função e a formação de urbanista quando a singeleza de meros traços define o que se pretende no processo de intervenção no tecido da cidade, deixando exposto para o julgamento de terceiros a sua genialidade ou uma mera cooptação com os desejos e o perfil ideológico dos governantes, a quem presta serviços. Alguém, com mais bagagem urbanística do que eu, refere que Fortaleza não tem - salvo exceções - nada a preservar. Diz que as intervenções sofridas não podem ser criticadas por quem não é do métier. Discordo. O urbanismo não é dogma, privilégio ou casamata de arquitetos, por mais bem intencionados que sejam. O urbanismo comporta, por sua complexidade, uma visão multidisciplinar que começa com geógrafos, ecologistas, geólogos, passa por engenheiros, remonta aos historiadores, procura economistas para cálculos de viabilidade, administradores para ajustá-lo à realidade e advogados para ajustar/criar as legislações de áreas a serem preservadas, desapropriadas e renovadas. Fortaleza, até os anos 60, não havia descoberto o mar. A visão recente da orla marítima; seu uso indiscriminado com a proliferação de edifícios de alto porte; a mixórdia de grandes barracas de toda natureza tal qual uma babel; os projetos da baía de lracema e o reordenamento da Av. Beira Mar(trecho Ideal – Iate), a implantação dos Veículos Leves sobre Trilhos – VLT de Parangaba ao Mucuripe, e a construção do Aquário exigem um pensar global, sem estrelismo, participação popular e uma coordenação lúcida – e não autoimposta - que possa emergir no decorrer das discussões. Tudo isso tem a ver não somente com as mínimas ou grandes intervenções que Fortaleza precisa e deve sofrer para a Copa de Futebol de 2014, mas para encorajar a Prefeitura e o Estado a abrirem discussões mais profundas sobre o que fazem e o que ainda pretendem fazer. As intrigas, por exemplo, criadas com as ligações domiciliares e a expansão das redes de água e esgoto e o recapeamento asfáltico são provas de incoerência ou falta de espírito público. O importante é que cada grande intervenção urbana seja para a Copa ou para a cidade que não vai parar após 2014, tenha o aval da sociedade e de técnicos isentos que, por enxergarem, muitas vezes, a ação de forma diferente, discordam, complementam, ajustam, e, por certo, enriquecem as concepções que são, quase sempre, cópias do que já se fez ou se faz em outras grandes cidades do Brasil ou do exterior. Tomemos o exemplo de Paris. Lá as ZAC (Zone D’Aménagement Concerté) passam por todo um processo de análise histórica, social, financeira e gerencial, até que os urbanistas e a sociedade definam as mudanças estruturais de uma zona de recuperação. A ousadia, ponto basilar ou característica nas intervenções urbanas de profundidade, deve ter como contraponto a coerência dos que podem e devem ajudar como agentes públicos, profissionais ou cidadãos a definir o futuro da cidade onde moram, tomando-as belas. E por falar em beleza, é bom lembrar São Tomás de Aquino:“As coisas belas são as que agradam quando vistas. Portanto, a beleza consiste na devida proporção; pois os sentidos deliciam com o que pertence à sua própria espécie, porque até o sentido é uma espécie de razão - exatamente como o é toda faculdade cognitiva”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/03/2012 - [GANHAR O NOBEL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ganhar-o-nobel-diario-do-nordeste/): Recentemente, ouvi do Embaixador húngaro no Brasil, Csaba Szjjártó, que o seu pequeno país ganhou dez prêmios Nobel. Portugal, com apenas dez milhões de habitantes, tem um. Vários países latinos (Argentina,4;México,3;Chile,2;Peru, Colômbia e Costa Rica,1 cada) possuem galardoados. O Brasil, este gigante ascendente, ainda não conseguiu. Minto, em 1960, o inglês Peter Brian Medawar, nascido circunstancialmente no Rio, co-ganhou o de Medicina. Conta? Falou-se, há décadas, que o D. Hélder Câmara seria indicado para o da Paz. Jorge Amado sonhou e morreu. O que se sabe da Fundação Nobel que confere os prêmios é gostar de ser lisonjeada. Cito o caso de Saramago. Em 1997, o governo português contratou a empresa sueca Jerry Bergström AB, para programar visitas de Saramago à Universidade de Estocolmo, participar de seminários, autografar livros, fazer discursos e comparecer a talk-show na TV Cultura de lá. Nesse mesmo ano, a Feira do Livro de Frankfurt-Alemanha, homenageou Portugal e Saramago, lá incensado, teve seu nome veiculado pela mídia amiga da Europa. JS gostava de frases de efeito. Reparem: “O ser humano não merece a vida”. Como ele se dizia ateu, essa afirmação é, no mínimo, contraditória. Quem dá a vida? O fato é que no ano seguinte, 1998, Portugal “foi surpreendido” com o Nobel de Literatura para o José. A essa época, ele já morava em Lanzarote, ilhas das Canárias, Espanha, e sugeriu que os dois países se unissem formando uma só nação ibérica. Ingrato. O Brasil precisa de um Nobel em qualquer área. Quem você indicaria? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/03/2012. - [NOTÍCIAS DE LÁ E DE CÁ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/noticias-de-la-e-de-ca-jornal-o-estado/): Devo notícias a ela. Vem todos os anos ao Brasil para férias. Confessa que já se sente estranha na terra desse trânsito louco, cheia de lixo, camelôs e trombadinhas. Agora, catou e enviou os poucos comentários que leu nos jornais alemães, não os mais notórios, e os rápidos flashes da TV sobre a visita de Rousseff à Merkel. Poucas linhas, nada substancial, mero protocolo, retórica diplomática e que tais. A culpa seria dos bancos internacionais; da crise que mexe com a Grécia e suas ilhas maravilhosas esvaziadas por falta de passageiros e navios problemáticos; passa pela Irlanda friorenta e não respeita a história italiana congelando cidades da costa, após a saída grotesca de Berlusconi, o autoproclamado garanhão. Decisões são adiadas, greves, demissões e reduções de salários constrangem os governos da Espanha e Portugal. Sarkozy, acossado, só pensa na reeleição e transformou a premiê alemã em sua terapeuta pessoal. Lá na Rússia, Puttin foi eleito, apesar dos comentários de observadores, fala sem medo das suas ogivas nucleares. A ONU vê, atônita e sem reações, um anônimo, insone e desatinado militar americano invadir casas e matar, em madrugada sombria, nove crianças, três mulheres e quatro homens que apenas dormiam na sua pátria ocupada, o Afeganistão. Obama não precisava dessa, bastam os republicanos. São essas as notícias do mundo que trocamos em nossos periódicos e-mails. Mas, ela pede notícias de cá. O que dizer? Chico Buarque faz show em meios às enchentes de São Paulo cantando as músicas de sempre. Rita Lee arma barraco em apresentação em Alagoas. O grande Chico Anysio agoniza em clínica particular do Rio que neutraliza a dor, dopa e prolonga o inevitável. Lula luta bravamente contra um câncer de garganta que o faz, por enquanto, calar. Romero Jucá, um senador de Roraima, que já foi líder de vários presidentes, independente de ideologias, é demitido por Dilma em face da rebeldia do seu PMDB, o partido que baliza qualquer governo e sabe as fichas que tem. Ao mesmo tempo, demitiu, sem prévio aviso o dep. Cândido Vaccarezza, do PT, da liderança na Câmara Federal. Pede para que diga algumas palavras sobre a Copa de Futebol. Dinamitaram vários estádios e os reconstroem com dinheiro público. A CBF – a entidade que controla o futebol - está em crise. Saiu o presidente Teixeira, 23 anos no poder. Entra Marin, 79 anos, pensando no futuro. Adriano, o imperador da bola, deixa o Corinthians após dois gols, excesso de peso e dinheiro muito no bolso. Enquanto isso, as cidades convivem com as vias de acessos aos futuros estádios asfixiadas por bicicletas, carros e motos vendidos em prestações mensais e mortais. Os hospitais públicos estão superlotados por motoqueiros com traumas, quando não vão a óbito. Só na cidade de SP há mais de 500 mil bicicletas. Imagine o número de motos. Antigamente, quando por aqui passavam circos ditos internacionais, havia o Globo da Morte. Dois motoqueiros se cruzavam velozmente em um círculo vazado de aço e nós ficávamos enregelados lá nas arquibancadas. Hoje, as ruas são os atuais globos da morte, os motoqueiros vêm pela esquerda, direita, cruzam, não respeitam sinais e os acidentes ficam repetitivos. Sei que já ouviu falar do Ficha Limpa, o projeto de origem popular que se transformou em lei e pune políticos corruptos. Vai valer nestas eleições municipais de outubro – aqui tem eleições de dois em dois anos - e muitos deles estão encrencados. Deveria ter ficha limpa para todos os brasileiros. Por que não? A ferrovia Transnordestina e a transposição do Rio São Francisco estão quase paralisadas. No mais, sugiro para as jovens alemãs estudantes de medicina que se especializem em cirurgia ou dermatologia e venham para o Brasil. Ganharão muito dinheiro, pois as mulheres daqui estão obsedadas com as aparências e fazem plásticas, preenchimentos, botoxes e acreditam que podem parar o tempo que lhes dá, em contrapartida, as estrias, as celulites e as gordurinhas naturais que não aceitam. Elas não sabem, isso nada incomoda os homens de verdade, que também as possuem. Fique bem. Até a próxima. Auf Wiedersehen. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/03/2012 - [SABERES DA CIDADE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/saberes-da-cidade-diario-do-nordeste/): A amiga Badida Campos, irmã de Techinha e filha do homem do fusca verde e do apartamento/biblioteca/relicário, escreve-me, como o faz desde sempre, dizendo da alegria em ter sido acolhida no poema “Saberes” do poeta pernambucano Alexandre Furtado. Nele, Furtado retrata, em versos livres, a história maurícia desde Duarte Coelho. Badida é pintora consagrada e tem a graça de, em muitos de seus quadros, incluir palavras que são saberes. Saber uma cidade não é apenas morar nela, tampouco contar estórias ou balelas por ouvir dizer. Saber é entranhar-se, misturar-se a todos, não apenas participar de confrarias que escolhe como grei para discorrer sobre pessoas ou fatos, sem conhecê-los na essência. Saber uma cidade é procurar, antes de propagar necedade, obter informações corretas sobre o que vai escrever. A propagação do que não se sabe e é calúnia não se transforma em verdade. Essa talvez seja a razão de muitos que aqui chegam para o vestibular acadêmico ou o da vida e se arvoram em relatar o que não vivenciaram, palmilharam, sabiam ou sentiram. Saber uma cidade é ver, entender seus ritmos e mudanças, percorrê-la sem preconceitos e ajuizar as razões de cada fato. O historiador produz saberes, pois pesquisa, investiga e dialoga. O propagador do nada apenas quer dizer-se incluído, mas quiçá seja mero aprendiz do que não viveu sem consultar a história ou a veridicidade. Alberto Moravia--escritor italiano morto em 1990, parecido fisicamente com o Ariano Suassuna, paraibano de saberes pernambucanos--, tinha o cuidado de só escrever o que sabia ou pesquisava a fundo. É bom conselho. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/03/2012 - [ALINHAVOS SOBRE O DIA DA MULHER - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/alinhavos-sobre-o-dia-da-mulher-jornal-o-estado/): Será que ainda precisamos comemorar o Dia da Mulher? O mundo tem mudado como um míssil. Quem era fraco passou a ser forte. Seria o caso da mulher? Quem era oprimido se liberta. Seria o caso da mulher? Quem sofria preconceito passou a ser referência. Seria o caso da mulher? Quem sustenta a família é o chefe dela. Seria o caso da mulher? Quem chefia empresas dá ordens. Seria o caso da mulher? Quem ia para a guerra era forte. Seria o caso da mulher? Creio que essas perguntas não cabem mais. Ou cabem? Decida. Quais seriam as mulheres que merecem ser lembradas? Claro que você deve rememorar e reverenciar mulheres, no singular ou plural. Mas no imaginário dos homens há mulheres que poderiam ou careciam ser lembradas. Aqui e alhures. Quem você recordaria na sua cidade, no seu estado, no Brasil e no mundo? Podem ser ocupadas ou desocupadas. Domésticas, profissionais liberais, servidoras públicas, cientistas, executivas, políticas, religiosas, militares, ativistas sociais, o que for. O tempo de hoje não permite proibição. Veja quem se destaca no que faz, seja qual a atividade escolhida. Não esqueça de parar um pouco e pensar. Imagine-se convidando essa pessoa – e ela aceitando - para um encontro a dois. Onde e quando seria tal encontro? Um almoço ou jantar? Capricharia na roupa ou sairia com a que está no trabalho? Levaria flores ou outro mimo? Que bebida você pediria? Um destilado, vinho, cerveja, refri ou uma simples água? Respeitaria a preferência dela? Qual a entrada para acompanhar a bebida? Dividiriam um prato? Ou cada um escolheria o seu? Dize-me o que comes; eu te direi quem és, falava Brilliant-Savarin, escritor francês. Falariam sobre música? Qual gênero? Cantor (a) preferido (a)? Cidades que gostam? Falariam de seus passados ou questionariam o presente? Será que ela ou você sabe o que é resiliência? Essa palavra tem origem na engenharia e mostra a capacidade e o tempo que um material leva para se recompor, como algo que é comprimido e, em seguida, solto. Agora, a psicologia adotou a palavra para dizer se nos recuperamos rapidamente, voltando ao estado normal, ou ficamos remoendo o passado. O resiliente sabe que foi chamuscado, mas aquilo logo passa. Tudo volta ao normal. E o que é o normal? Voltemos ao encontro. Faltando luz, você ficará aflito? Ou tomará a mão de sua companhia e dirá: não se preocupe, estou aqui. Lembro do que aprendi comigo mesmo: ninguém completa ninguém. Você não se basta, mas não tem vazio ou falta pedaço. Isso é bobagem de livro de auto-ajuda. Os desejos, quase sempre, não são semelhantes. Dialogue com a sua companhia sobre limites ou a falta deles. Encontro não é farsa. É aconchego. Caso seja romântico tente assobiar ou solfejar uma música do seu agrado. Qual seria a reação dela? Franziu a testa ou sorriu aprovando? Não faça gênero, seja o que é, se deseja voltar a encontrar com ela. No tal dia, se acontecer, ela descobrirá que tudo era fingimento ou confirmará a sua personalidade. Não crie grandes esperanças, Carpe diem. O passado já era. O presente se cria e o futuro a Deus pertence. Salvo para os ateus. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/03/2012 - [LIMPAR TUDO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/limpar-tudo-diario-do-nordeste/): É hora de limpar tudo. Não só a classe política deve ter ficha limpa. Todos precisam ter ficha/vida limpa. Quais as razões de pessoas, ou seus grupos, se perpetuarem no poder em entidades de classe que usam dinheiro das empresas e trabalhadores? Como admitir que eleições sindicais e classistas sejam, quase sempre, um simulacro? Você tem ideia do gasto com essa conjuração que remonta ao século XX? Pesquisem pela internet e verifiquem quem comanda o quê. Há dirigentes reeleitos de certas entidades empresariais que nem empresas possuem. O mesmo acontece em alguns sindicatos de trabalhadores. A gastança é grande. Brasileiro não deve ter medo ou ser subserviente, seja pessoa, empresa, entidade ou repartição pública. A cidadania dá direitos iguais a todos. Se você endeusa alguém, ele(a) passa a acreditar que realmente é importante e o olha de cima para baixo. O Estado não faz favor quando cumpre bem a sua tarefa. Não seja Maria vai com as outras. Cobre resultados pelos muitos impostos pagos. Você tem direitos. Veja o art. 5º. da Constituição. Nada é de graça no Brasil. Informe-se, leia, critique, opine. Exija sempre nota fiscal ao comprar. É seu direito. Como ficar indiferente se todos os dias os meios de comunicação mostram escândalos envolvendo poderes, ongs, fundos de pensão, empresas, bancos, fundações, licitações e concessões? Toda autoridade recebe delegação da sociedade. Se não cumprir, rua. Os agentes públicos devem satisfação e transparência à sociedade. A hora do bem bom passou. Ficha limpa para todos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/03/2012. - [FORTALEZA VIVA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fortaleza-viva-jornal-o-estado/): Deparo-me, por acaso, com um livro rico de capa dura e uma bela paginação intercalando textos, fotos antigas e contemporâneas. Sua capa mostra a Praça do Ferreira, não a antiga, mas a revisitada ou relida pelos arquitetos Delberg Ponce de Leon e Fausto Nilo. Creio que não entendi bem a explicação da foto da capa: “Praça do Ferreira – no fim dos anos 1960, a Coluna da Hora foi demolida, e em projeto de 1991 retornou à praça...”. A bela foto de Gentil Barreira já é da praça reformada em 1991. A estrutura da antiga Coluna não era em aço. A que aparece na capa é a releitura estética de Delberg e Fausto. Não há década de 1960. Há a década dos anos sessenta. Tirando esses pequenos detalhes, afora outros, há que se louvar a pesquisa de muitos e a organização de Patrícia Veloso, para a Terra da Luz Editorial. “Viva Fortaleza” teve o forte e decisivo apoio da Oi Futuro, Newland, Guanabara, Sobral & Palácio e o patrocínio da Oi, Coelce e Banco do Nordeste. Consta como realização do Ministério da Cultura, sem menção à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, tampouco da similar da Prefeitura de Fortaleza. O exemplar que li me foi dado, a pedido, pelo engenheiro civil Luciano Cavalcante Filho, um dos responsáveis por incorporar edifícios sitiados no antigo bairro do Outeiro, hoje Aldeota, bem como na orla marítima. Fortaleza, em agosto de 1950, me via de calças (curtas) e paletó de casimira azul marinho com camisa branca, em trajo da Primeira Comunhão, na Rua Floriano Peixoto, entrando no Foto Moderno. Esse estúdio ficava do lado do sol, como se diz por aqui, no trecho entre as ruas Pedro Pereira e a antiga Trincheiras, depois Liberato Barroso. O calor do pós chuvas não era sentido por mim, garboso infante que, de vela enfeitada e laço de fita no braço direito, deixava-me fotografar. Dali, com a minha mãe, fomos andando a pé para comer pastéis com caldo de cana na Leão do Sul, mercearia sortida, que ficava no lado sul da Praça do Ferreira, defronte ao Posto Mazine, no começo do antigo Beco dos Pocinhos, depois Rua Pedro Borges. Quase três da tarde. Saciados, ouvimos o repicar das triplas badaladas do antigo relógio da Praça do Ferreira. A praça de então era sombreada com fícus benjamins e dividida em alamedas paralelas que albergavam carros particulares e os de praça, precursores dos futuros táxis. No seu lado norte, entre a Rua Guilherme Rocha e a Travessa Pará, fulgia o novo Abrigo Central, construído, mediante licitação, na administração do Prefeito Acrísio Moreira da Rocha, pelo jovem empreendedor Edson Queiroz. Atravessamos a praça em diagonal e entramos na loja Flama, afamado magazine, vizinha ao edifício São Luiz que se erguia morosamente. Pulemos para o ano 1959. Meu pai havia comprado uma casa de pescadores (lado do mar) para passarmos as férias na praia. Era na altura da atual Nunes Valente. Mero calcamento tosco. Logo após veio o começo da construção, a casa foi ao chão, a via ficou pronta em 1963 e em 1964 recebeu o nome de John Kennedy, em homenagem ao presidente americano assassinado em 23 de novembro do ano anterior. Protestos de muitos a fizeram passar a ser a Av. Beira Mar. Isso já é outra história. A publicação começa com uma profunda análise de Paulo Linhares sobre “A Fortaleza de Alencar” e agrega textos de qualidade de Ângela Gutiérrez, A. Carlos Coelho, Cláudia Albuquerque, Clélia Lustosa, Demitri Túlio, Fausto Nilo, Francisco Neto Brandão, Gylmar Chaves, Isabel Gurgel. Kadma Marques, Lira Neto, Natércia Pontes, Oswald Barroso, Peregrina Campelo, Régis Lopes e Romeu Duarte. As fotografias são de Alex Costa, Alex Uchoa, Bia Sabóia, Drawlio Joca, Fábio Lima, Gentil Barreira, JoOão Luís, João Palmério, Leo Kaswiner, Lia de Paula, Maurício Albano. Nelson Bezerra, Silas de Paula e Thiago Gaspar. Além de textos e fotografias atuais, esculturas de Sérvulo Esmeraldo e Zenon Barreto, contém ainda acervos fotográficos e objetos de pessoas amantes da cidade. Esta sofrível e corrida Ficha Técnica tem apenas o objetivo de despertar a curiosidade dos que aqui viveram entre 1950-2010 ou a ela foram chegando, vindos do interior e de outros estados. Escolhi apenas a Praça do Ferreira como chamariz, pulmão e alma de Fortaleza. E um mero registro da construção da Av. Beira-Mar. O resto da cidade poderá ser descoberto, por cada leitor, na tessitura dos textos, nas breves legendas de Ângela B. Leal e Roberta Felix que adornam a profusão de admiráveis fotos, a tradução para o inglês e os agradecimentos que encerram as suas 240 páginas. Parabéns a todos os que participaram desse trabalho singular feito em 2011 e, desde já, histórico. Viva Fortaleza. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/03/2012 - [DELMIRO E EDSON - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/delmiro-e-edson-diario-do-nordeste/): Em 1966, o gaúcho Viana Moog, que havia morado nos Estados Unidos, escreve o livro/ensaio “Bandeirantes e Pioneiros”, comparando a colonização e o desenvolvimento americano geométrico, pela ética calvinista, ao crescimento aritmético brasileiro, decorrente da herança católica e portuguesa. Agora, Jacques Marcovitch, ex-reitor da USP, agrega à historiografia brasileira, em três livros, seminários e exposição itinerante, retalhos significantes da vida empresarial começando com o menino pobre que virou o Barão de Mauá. Marcovitch parte do século XIX e perpassa o XX e, ao cabo, escolhe 24 empreendedores/pioneiros. Nesse panteão estão dois cearenses: Delmiro Gouveia e Edson Queiroz. Delmiro nasceu no Ipu. Foi menino para o Recife e lá construiu o primeiro centro comercial no Derby. Ameaçado, vai para os confins das Alagoas extremando com a Bahia, onde explodia gloriosa a cachoeira de Paulo Afonso. Engenhoso e brilhante, Delmiro teve o pioneirismo de criar a primeira hidrelétrica do Brasil para movimentar a sua indústria de linhas. Morreu assassinado aos 54 anos. Edson Queiroz veio criança de Cascavel, ajudou o pai comerciante e, tal como Delmiro, criou o primeiro centro comercial de Fortaleza, o Abrigo Central. Em seguida, explorou a venda de gás butano em quase todo o país, fundou indústrias, montou um sistema de comunicação e coroou sua vida implantando uma universidade, referência no Nordeste. Edson empregava milhares de pessoas quando faleceu aos 57 anos. Recomendo a todos em busca de um destino essa educativa exposição no Espaço Cultural da Unifor. Vale a pena. É grátis. Vá. João Soares Neto, da Academia Fortalezense de Letras CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/02/2012. - [A LEITURA, O LIVRO E A INTERNET - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-leitura-o-livro-e-a-internet-jornal-o-estado/): O caderno “Ilustríssima” da Folha, de 05 de fevereiro de 2012, contém o ensaio/crítica “O Erro de Machado”, do renomado Paulo Roberto Pires, crítico literário, professor da UFRJ, debatedor e autor de antologias, acerca das previsões do jovem - e futuro grande escritor - Machado de Assis sobre o fim do livro. Acreditava Machado, em seu “O jornal e o Livro”, de 1859, escrito quando tinha apenas 19 anos, que o livro iria acabar. Empolgado estava com a sua profissão de revisor - conseguida com a ajuda de Manuel Antônio de Almeida - no jornal Correio Mercantil. Nesse mesmo jornal, desde 1854, o advogado, escritor e político consagrado José de Alencar tinha a coluna “Ao Correr da Pena”, enquanto Manuel Antônio de Almeida, médico e jornalista, era o responsável pelo suplemento “A Pacotilha”, onde escreveu, sob a forma de folhetim e, anonimamente, o livro “Memórias de um Sargento de Milícias”. Em uma parte do seu polêmico primeiro livro, Machado diz: “O jornal apareceu, trazendo em si o gérmen de uma revolução. Essa revolução não é só literária, é também social, é econômica, porque é um movimento da humanidade abalando todas as suas eminências, a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo econômico e do mundo social”. Machado imaginava que o livro iria perder a razão de existir: “O jornal, abalando o globo, fazendo uma revolução na ordem social, tem ainda a vantagem de dar uma posição ao homem de letras: Trabalha! Vive pela ideia e cumpre as leis da criação”. Diz Paulo Roberto Pires: “Eivado de precipitação, o jovem Machado agarrava-se a certezas - moeda rara em sua obra futura. Naquele momento, porém, cumpria o que em alguma medida se espera de um intelectual em formação: curiosidade, desejo de intervenção e o direito, inalienável, ao equívoco.” Agora, neste emergente século XXI, se prega, novamente, o fim do livro. Eu, por exemplo, ganhei de presente um I-Pad, esse instrumento portátil e gracioso inventado pela Microsoft na última contribuição de Steve Jobs à cibernética ou informática. Matada a empolgação e a curiosidade, o meu i-Pad ou tablet(tábua) se queda restrito, pois não vejo com prazer uma das suas funções, a de nos fazer ler livros não impressos. Quanta pretensão, essa que vem desde o fim do século passado. Para quem gosta de ler, os que têm na cabeceira de sua cama uma luz de vigia com foco, uma rede ou uma velha cadeira, nada se compara ao prazer de comprar o livro, ler, virar a página e marcar trechos, com os quais concorda, discorda ou desconfia. O leitor verdadeiro pode até usar o I-Pad e que tais como instrumentos particulares de consulta dos novos dicionário/enciclopédia/conversação do mundo atual, o “Google” e o “Facebook” e outros, mas não há porque decretar o fim do livro como erroneamente pensou Machado de Assis, tal como se imaginava e dizia do fim do jornal quando da criação do rádio e do rádio quando da profusão da televisão. Depois, surgem o computador e, recentemente, essas múltiplas mídias que a geração Y, aquela nascida após 1979, teve à sua disposição desde sempre. Os jornais sofreram, mas reinventaram-se, fragmentaram-se em cadernos temáticos para os seus vários públicos, postaram suas edições na Internet e criaram links com todas as mídias. Os livros impressos, de capa dura ou meras brochuras, feitos por grandes editoras ou editados por seus próprios autores, convivem bem com todos esses equipamentos, “gadgets”, invenções e congêneres. É bom não esquecer a pergunta – ainda atual - feita por Shakespeare, no século XVI, através do personagem Polônio, em Hamlet, “O que estais lendo, meu senhor”? Você é o que lê, não se engane. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/02/2012. - [BENFOLIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/benfolia-diario-do-nordeste/): Há quatro anos fazemos um projeto: saber o que existe de música carnavalesca na cidade. Decidiu-se, não se sabe quem, nem a razão, que Fortaleza não se presta a carnaval. Assim, contra a corrente, instituímos o Benfolia em que compositores e cantores se submetem a uma seleção prévia, dividida em três etapas. Os 12 melhores vão para a final. Tivemos o cuidado de formar um jurado polivalente: musicistas, carnavalescos, jornalistas, homens públicos, arquiteto, médico, intelectuais, rainha do carnaval, produtores etc. Nesta edição a festa tinha 25 jurados, o que diz da lisura da decisão. As 12 músicas selecionadas são novamente cantadas, há torcidas organizadas e a imprensa é convidada, só não percebeu talvez a sua importância que, além de premiar os três primeiros lugares em dinheiro, gravamos CD com as músicas selecionadas e o distribuímos gratuitamente com participantes, emissoras, comunicadores e formadores de opinião. A cada ano, homenageamos pessoas que, no passado ou presente, trabalham pelo carnaval. Não o Axé Music, mas sambas, choros, modinhas e que tais. Os homenageados de 2012 foram: 1. o radialista Augusto Borges, por sua história profissional dedicada ao rádio e à televisão e na defesa da música local; 2. o compositor, carnavalesco e apresentador Dílson Pinheiro, divulgador de todas as manifestações mominas, inclusive o sincopado Maracatu; e 3. o figurinista Isidoro Santos, estilista e desfilante de fantasias grandiosas no Ceará e no Brasil. Íamos esquecendo: tivemos um “revival” de concurso de fantasias. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/02/2012 - [FILÓSOFOS E CONCURSEIROS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/filosofos-e-concurseiros-jornal-o-estado/): Com a capa em tons verdes e azuis o Prof. Oscar D’Alva e Souza Filho apresentou, como editor e coordenador, no ano passado, a versão terceira dos “Cadernos de Filosofia do Direito”, pelos alunos da disciplina Filosofia do Direito, da Universidade de Fortaleza. O caderno, como fica claro na denominação, reúne ensaios de jovens prestes a concluir o curso de direito. São 28 jovens universitários em rigorosa ordem alfabética aventurando-se a analisar Sócrates, Santo Tomás de Aquino, os valores como fundamentos, a utopia platônica, Fédon, a capacitação dos magistrados, Epicuro, Hans Kelsen, Immanuel Kant, Jürgen Habermas, independência e imparcialidade do juiz, René Descartes, John Locke, a última condição humana, Aristóteles, a sofística, Maquiavel, Grécia e Hipócrates, Clóvis Beviláqua, os sofistas, Grécia antiga e a aplicação da pena, empiristas e racionalistas em Kant, Código de Ética da Magistratura e os princípios da independência, ética e moral e, o pensamento maquiavélico. São 446 páginas de estudo aplicado, com a densidade compatível ao saber de cada futuro bacharel. O professor Paulo Bonavides, meu mestre em três oportunidades, Escola de Administração, Faculdade de Direito e em curso de doutoramento que o MEC dissolveu, é o filósofo homenageado. Abre com “O Direito Natural e o Estado”, partindo das nascentes históricas do moderno direito natural até, no último capítulo, mostrar a reação conservadora que perfilha, no direito, a escola histórica. Como se vê, a obra que tem a apresentação do Coordenador do Curso de Direito da Unifor, Sidney Guerra Reginaldo, também filósofo, é um documento acadêmico de comprometimento de jovens com a filosofia do direito. O que me alegra nessa leitura é a certeza de que há algo além dos milhões de jovens brasileiros que se dedicam, depois de formados nas diversas profissões, à dura e objetiva competição para alcançarem a garantia de empregos públicos em que terão bons salários e a certeza da estabilidade na carreira. Os milhões de jovens “concurseiros” são um fenômeno próprio deste Brasil atual. Submetem-se a cursos diretos, outros à distância, formam grupos de estudo, usam a internet, lêem l revistas, jornais, manuseiam livros, apostilas e dicas necessárias para evitar as pegadinhas das perguntas que constam dos exames. Vivem pelo Brasil afora, enfrentando estradas, rodoviárias, aeroportos, dormindo em pousadas e enfrentando, às vezes, a indiferença nas respostas dos já funcionários públicos às suas dúvidas e sonhos. Este é o Brasil das não-baladas, das não-drogas, dos não presumidos e da não dissipação do tempo, o único bem irrecuperável para o homem. Filósofos, concurseiros, cada um a seu modo, e as suas pacientes famílias e amados acreditam, ainda, que este Brasil precisa deles para o seu porvir. À Luta. (Em memória de Ivonete Maia, jornalista, professora, filósofa e vencedora no curso da vida) João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/02/2012. - [REVER LIMITES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/rever-limites-diario-do-nordeste/): O Brasil vive uma euforia. Classes mudam de patamar. Famílias progridem. É tempo de rever ou estabelecer limites na família. A ausência de definição de limites provoca danos em todas as fases da vida de seus integrantes. A criança tem que conviver com um mínimo de regras definidas com carinho, mas firmeza. Ouve-se muito: tudo o que não tive vou dar a meus filhos. Não é bem assim, filhos devem ter o necessário e o possível, mas em termos. O importante, antes das “coisas” e facilidades que se dá, é que o casal tenha um objetivo comum na sua formação e inserção no mundo. As crianças testam os pais com choro, comportamento e outros. Definir regras de horários para estudo, lazer, higiene e convivência é básico. Os pais têm que deixar claro o que podem dar, o que não devem e o que é negociável. Um bom “não” significa para a criança limite de seu espaço pessoal, sua forma de demonstrar emoções, enfrentar o medo e saber usar a sua liberdade física, mental e verbal. Isso dará a ela a certeza de que a vida existe com limites. Em casa e na rua. Entretanto, não havendo consenso entre os pais, a criança começa a fazer jogos. Surge a mãe boazinha e o pai durão. Ou vice-versa. A criança sabe quando os pais hesitam e discutem. Aí forçam a barra. Agir em acordo, manter o combinado, o que foi dito, é a solução. É preciso firmeza desde cedo. Dói, talvez, Depois, será difícil, pois a facilidade em obter concessões com choro ou finca pé da criança balizará a relação. Presentes em excesso, facilidades e o não cumprimento do devido na educação e modos poderão dar o tom do futuro. Educar é definir limites e o que se espera de conduta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/02/2012 - [COMO VAI A CULTURA NO BRASIL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/como-vai-a-cultura-no-brasil-jornal-o-estado/): Você lê quantos livros por ano? Você vai a teatro, shows e cinemas? Qual foi a última vez que entrou em uma biblioteca, fez um cadastro e pediu um livro para ler? Você participa de algum grupo que discuta a realidade, filosofia, história, antropologia, música, religião, meio-ambiente, saúde, cultura etc.? Você se sente feliz ao receber um livro de presente?Você tem luz de cabeceira e a usa para ler? Ou utiliza uma cadeira confortável para ler o que lhe apetece? Você tem alguma familiaridade com o assunto cultura brasileira ou acha que isso é perda de tempo? Que tal ler um pouco sobre a cultura? É instigante, veja. Conto com alguns minutos seus. Vamos lá. Estamos em princípios de 2012 e leio uma bela análise (Cultura sem expressão) de Flávia Tavares, para o suplemento “Eu&Fim de Semana”, do jornal Valor. Nele, em que me lastreio, Flávia faz uma análise concreta, correta e isenta da política cultural brasileira e destaca que a Ministra da Cultura Ana de Hollanda sempre é notada por sua timidez e forma de ser. Ana é filha de Sérgio, um dos ícones do início do Partido dos Trabalhadores que tinha na cultura, nas fábricas e na universidade o seu tripé de sustentação. Ana é irmã do cantor, compositor e escritor Chico Buarque e sempre esteve ao lado do partido nascido em São Paulo. Entretanto, Ana é mais que isso. Ela é atriz, cantora e compositora, mas não tem a malemolência e a baianidade de Gilberto Gil e Juca Ferreira, os dois ministros que a antecederam no Minc. Já exerceu função pública, na direção do Centro de Música da Funarte, mas nada com o relevo e as cobranças devidas e indevidas ao MinC que, com pouca verba e contas a pagar, mexe com escritores, cineastas, artistas,mídia digital, compositores, músicos e o que mais se considerar cultura, no sentido amplo. A fogueira das vaidades começou cedo. Fato natural nesse mundo que vive dos meios de comunicação social, intrigas, de projetos com recursos da Lei Rouanet, de empresas estatais, grandes grupos e assemelhados. Emir Sader, sociólogo, havia sido lembrado e convidado para dirigir a Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, mas abriu a boca e falou o que não devia de sua futura superior hierárquica. Resultado: foi desconvidado. Começava, a partir daí, uma guerra explícita contra Ana de Hollanda, inclusive com alusões à sua proximidade com integrantes do ECAD-Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos. Ana, no seu jeito simples de atuar, vai em frente e já tem um ano completo de ministério. O que se tem de concreto hoje na área é um Plano Nacional de Cultura com prioridades até o já próximo ano 2020. Afora isso, Ana esteve com Dilma apenas duas vezes e não gosta de ser entrevistada. Há rumores de sua saída. Há ciúmes e inveja. Dizem que a senadora Marta Suplicy poderia ser a sua sucessora, se Ana não for mantida por Dilma. Como dizia Boccaccio: “Apenas a miséria é sem inveja”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/02/2012 - [O RICO E A CHINA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-rico-e-a-china-diario-do-nordeste/): Um amigo telefona: o que achou da reportagem sobre o brasileiro, o oitavo homem mais rico do mundo? Nessa reportagem é citada uma frase atribuída a Deng Xiaoping, poderoso secretário geral do Partido Comunista Chinês, nascido no dia 22 de agosto de 1904, que saiu da China aos 15 anos com uma bolsa de estudos para viver na França, onde até foi metalúrgico e auxiliar de cozinha e instruiu-se, em seguida, em Moscou. A frase seria “Enriquecer é glorioso”. Ao que tudo indica, a frase correta é: “Socialismo não é pobreza. Ser rico é glorioso”. Deng morreu em 1997. Deixou plantada a semente do que definiu como “Socialismo de Mercado” e falava claro que a China seria diferente quando todos os estudantes chineses espalhados pelo mundo voltassem com os seus conhecimentos. Quando Richard Nixon era governante dos Estados Unidos (1969-1974) e foi o primeiro presidente americano a visitar a China - à época em que Mao Tse Tung insistia com a Revolução Cultural - surgiu o embrião da política do “ping-pong”. Além de outros objetivos de reaproximação, consistia em um amplo intercâmbio de jovens estudantes e professores americanos e chineses. Assim, o que acelerou a macro engrenagem da nova China, pós Mao, foi a apropriação do conhecimento científico e tecnológico que despontava nos anos 60 e nunca mais parou. É claro que a China absorveu, com sabedoria, tudo o que desvendou de bom no Ocidente. Por sua vez, empresas ocidentais acordaram para o potencial do mercado sino e lá se instalaram. Quanto à resposta sobre a pergunta inicial, eu poderia redarguir com outra: “O que é ser rico?”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/01/2012 - [ARTIGO OU CRÔNICA? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/artigo-ou-cronica-jornal-o-estado/): Muito se discute sobre a diferença entre artigo e crônica. Poderia falar, sem pretensões, que o artigo é mais sisudo, não comporta digressões e tem o objetivo de expressar a opinião do seu autor, seja jornalista ou não. Ou ter uma destinação científica ou acadêmica quando escrito por cientistas ou acadêmicos e veiculado em periódicos de universidades ou academias. A crônica é algo mais sutil. Mesmo quando escrita em jornal. É bom lembrar que Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Moreira Campos e Rachel de Queiroz, para ficar nos que não estão mais conosco, escreveram em jornais e sabiam da efemeridade e do difícil que é escrever para um público que deseja, de princípio, apenas saber notícias do dia. A crônica, como se vê, é lida de quebra, não é o principal produto das páginas impressas de um jornal. Como esta que estou escrevendo que está em um suplemento social, repleto de boas fotos, do jornal O Estado. Li agora, neste janeiro de 2012, o jornal – ou seria um encarte? - “Pernambuco”, suplemento da revista “Continente” que mostra uma bela entrevista feita por Schneider Carpeggianni com o romancista e cronista mineiro Ivan Ângelo. A entrevista é sobre crônica, mas se indaga, de principio, qual a razão dele, autor premiado e festejado ter deixado, de lado, os romances. Ivan, penso eu, acredita que os romances de hoje, especialmente os best sellers, são feitos sem o grau de exigência necessário. De minha parte, concordo. Dou um exemplo: ganhei de presente um desses romances que passou meses como um dos mais vendidos no Brasil. Tentei ler o dito cujo. Não consegui. Voltei a encarar e acabei desistindo. Pode ser preconceito meu ou sei lá o que, mas “A Cabana” não fez jus às recomendações dadas pelo livreiro que o vendeu a quem me presenteou, com boas intenções. Voltemos, então, à crônica. Ivan diz como produz uma crônica: “Eu trabalho a crônica com bastante abertura. Não é o assunto ou a quantidade de realidade que ponho nela que a torna uma crônica.” E continua: “Crônica não é um formato, como o soneto, um dos formatos do poema. Algumas das minhas crônicas, ou algumas crônicas, de um modo geral, são dissertações, outras são poema em prosa, outras são pequenos contos, ficções, outras são evocações, memórias, reflexões, recortes do cotidiano”. E explica como seleciona crônicas escritas em jornal que, depois, resolve enfeixar em livro. Diz ele: “meu editor e eu procuramos montar a seleção de crônicas que compõem o livro ‘Certos Homens’ usando o critério da proximidade de assunto que um texto poderia ter com outro.” Ao final, Ivan Angelo recomenda duas crônicas. Anúncio de João Alves, de Carlos Drummond de Andrade, e Partilha, de Rubem Braga. Valem a pena. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/01/2012 - [CHUVAS E PROBLEMAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/chuvas-e-problemas-diario-do-nordeste/): O ufanismo de alguns por estar o Brasil em situação econômica razoavelmente confortável em meio ao vendaval do endividamento de países europeus não contagia a outros. O país está assim em função das matérias primas que exporta nesta terra que, mesmo castigada, produz o que no mercado se convenciona chama de “commodities”. É claro que há um crescimento industrial, mas ainda não é o nosso carro chefe nas divisas. Por outro lado, o Censo de 2010 escancara a situação das favelas. Há mais de 11,4 milhões de pessoas morando em pequenas e grandes favelas. O Estado do Pará, a riqueza amazônica brotando ao lado, tem elevado grau de favelas que, dia a dia, aumenta. São mais de 1,2 milhões de favelados. A cidade de Belém adiciona ao problema o fato de parte dessa população morar em palafitas, apesar de uma das comunidades ser chamada de Terra Firme. Há favelas no Rio maiores que cidades. A Rocinha, por exemplo, tem quase 70 mil pessoas e não existe, em curto prazo, perspectiva de vislumbrar soluções que diminuam esse adensamento populacional. As casas térreas passam a agregar pavimentos, em função do casamento de filhos e afins. Além da ausência de uma urbanização mínima não há, para todos, água encanada, esgoto e coleta de lixo adequados e os parcos serviços públicos disponíveis são de duvidosa qualidade. Começa agora a época das chuvas e as encostas dos morros, os que sofreram abalos e provocaram mortes ano passado, ainda estão virgens de ações públicas eficazes. O Brasil sofrido precisa de atenção imediata dos governos. Abrigos, colchões e cestas básicas não são soluções. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/01/2012. - [ANTES DOS JOGADORES, O “CRACK”. - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/antes-dos-jogadores-o-crack-jornal-o-estado/): O Brasil está se preparando de forma esfuziante para receber a Copa do Mundo de Futebol de 2014. Constrói ou recupera estádios, amplia aeroportos e interfere nos problemas de planejamento urbano das cidades de modo a tornar o trânsito mais fácil neste país que mais parece a Coreia e a China dos anos 90, milhões são as motocicletas que hoje fazem uma espécie de bailado ou roleta russa em todas as estradas rurais, urbanas e rodovias estaduais e federais. O antigo vaqueiro usa moto que compra facilitada. Pintores, comerciários, bancários, mecânicos e demais profissionais usam, com direito e oportunidade, motos. Os jovens, de modo geral, querem a moto como guia de sua liberdade e meio de transporte. Isto sem falar nos milhares de consórcios de veículos que vendem aos borbotões. Não vou mexer neste vespeiro que é de todos sabido. Este será o Brasil de 2014. Cuidemos do hoje. O que faz medo neste Brasil de 2012, dois anos antes dos jogadores entrarem em campo, é a epidemia de “crack”, a droga que chegou para ficar e infesta o país. Em pequenas, médias e grandes cidades brasileiras o “crack” está nas esquinas e acomete os que, sem esperanças, dissipam suas energias em pedras que os levam a uma degradação inigualável. Não há mais como fazer vista grossa a esse drama que o Brasil vive sem que os governos federal, estaduais e municipais somem forças decisivas e multiprofissionais para debelar as “cracolândias” que se espalham em lugares ermos, construções abandonadas e assolam jovens, principalmente. A operação deflagrada pelo Governo de São Paulo apenas espalhou o amontoado de pessoas que definira um espaço para o uso, como se fossem invisíveis na sociedade. Hoje, hordas sem rumo, vagueiam pela capital paulista. Essas procissões de viciados clamam por olhares humanos da coletividade que os vê como párias. O Brasil não pode distinguir os seus nacionais, todos merecem – e carecem – a atenção que a Constituição diz assegurar. Há um mapa sombreado do Brasil elaborado pelo Observatório do Crack que mostra o nível de consumo em todo o país e revela o perigo que a sociedade brasileira está passando. Não são fatos isolados, é uma feia e clara epidemia que entristece e pede solução efetiva. Não fique indiferente. Veja o site www.enfrenteocrack.org.br. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/01/2012 - [PAPÉIS AVULSOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/papeis-avulsos-diario-do-nordeste/): Ao redor de minha cama há jornais, revistas e livros. O mesmo acontece no meu escritório de casa, do trabalho e no carro. Os papéis vão tomando todos os espaços de mesas e das cadeiras. Uma bagunça. Hoje, resolvi fazer limpeza nesses papéis avulsos. Estou gripado e a seleção do que será jogado fora é dolorosa. Espirros alérgicos e culpa. Será que não precisarei disso ou daquilo em algum tempo? Assim, contra a minha vontade vou escolhendo muitos para descartar. Cada revista, caderno literário, recorte ou livro é olhado piedosamente e, num rasgo de desapego, vou enchendo um grande saco. Neste instante, percebo que falei em papéis avulsos. Dou-me conta que uso o título de um livro de contos de Machado de Assis. Nesse livro, que recomendo, há a crítica aguda machadiana ao seu tempo e às instituições da época. Os contos são do final do século 19, mas há contemporaneidade nas análises, no “ A Sereníssima República”. A propósito, a nossa República não anda nada calma. Há excesso de questões irresolvidas entre os poderes e as mídias– que ainda incluem o papel dos jornais, revistas e livros – nos mostram as crateras de desentendimento, a contrafação e o jogo sujo da delação por interesses contrariados. Partidos e sindicatos, malthusianos como polvos, ocupam espaços para os seus e surge o quase isolamento da Chefe do Estado por falta de confiança em auxiliares que escolhera como confidentes. Nós, cidadãos e eleitores, somos as aranhas de que fala Machado, sem tessituras concretas. Há espasmos, mas prevalecem a voz e o desejo dos arautos em burocracia, dificuldades com soluções negociadas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/01/2012 - [GONZAGA MOTA:AO VENTO QUE FICA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/gonzaga-motaao-vento-que-fica-jornal-o-estado/): Luiz Gonzaga Fonseca Mota era economista, técnico em desenvolvimento econômico da então quase universidade - que foi o Banco do Nordeste - e Professor da UFC, quando convidado para ser Secretário de Planejamento do Estado. Depois, como do conhecimento dos que lidam com a história contemporânea, em eleição direta, tornou-se Governador do o Ceará. Em sequência, por três mandatos, foi Deputado Federal. Não é sobre o político Gonzaga Mota que vamos arrazoar. Esse mister precisa de distanciamento crítico e tempo, o que ainda não aconteceu. O que tenho às mãos é um novo livro de Gonzaga Mota, “Ao Vento: Poemas”. Finalizado em branco e preto, com arguto prefácio do intelectual e jornalista Cid Sabóia de Carvalho e capa de Hermínio Castelo Branco, o Mino. Relembro que Gonzaga, Mino e eu, fomos contemporâneos, amigos das antigas, nascidos nos tempos em que Vargas mandava no Brasil enquanto uma guerra mundial - onde milhões de pessoas foram mortas pela insânia coletiva – findava e dividia a Terra em sistema de ideias. O que era mal para uns, era Bem para outros. E vice-versa. Hoje, 2012, Vargas é memória longínqua, o mundo está sem eixo, o economista-técnico, o professor-planejador, o aluno bem olhado na pós-graduação por Mario Henrique Simonsen, o jovem político de sucesso festejado pelos áulicos que sempre circundam os poderes, quaisquer que sejam eles, se vê, maduro e longe da astúcia devastadora. Tem escaras subjetivas – e inertes - causadas pelos que o incensavam com afagos e tapinhas às costas, ditas amigas. Preenchido de fé, cercado de estreita e verdadeira benquerença familiar, desde a mulher amada, filhos e netos, veste as sandálias dos simples escribas de província e deixa o coração transbordar de sentimentos, seja em prosa e, agora, em versos. Em “Ao Vento” o leitor cuidadoso viajará na face madura/criança do homem que se vê poeta estreante e não tem receio de falar do que o move e o mundo. Na auto-apresentação, ele escreve: “Acredito ser o filósofo e o poeta figuras bastante parecidas, pois ambos procuram entender as inquietações da vida”. E enumera quais são elas: a religião e a ciência; o ser e o não ser; a gratidão e a ingratidão; a esperança e a desesperança; o certo e o errado; o amor e o ódio; o bem e o mal; a alegria e a tristeza; o eterno e o efêmero; o começo e o fim. E “Ao Vento” se desfolhará, página por página, aos seus leitores e, especialmente, aqueles entes queridos do autor, os que, afinal, valem a pena e permanecem nos transbordos das estações da vida. Hoje, o menino de classe média, bem educado por família ciosa de que só a educação, os princípios e o conhecimento constroem, remexe na sua cornucópia de lembranças e, em metáforas, separa o essencial do oba-oba que pulula, como doidivanas, no circuito do poder. E reflete: “Levar a vida tão a sério/às vezes, tenho dúvidas/Talvez sejam instantes de melancolia/ motivados por desilusões do dia-a-dia”. Na contracapa do seu livro, Gonzaga cita Fernando Pessoa (Sopra o Vento): “... Dos ramos que ali caíram/Sei que só há mágoas e dores/Destinadas a não ser/Mais que um desfolhar de flores”. Ao Vento, não. À Vida. E longa. João Soares Neto, escritor (Publicado no Jornal O Estado, 13 de janeiro de 2012, www.joaosoaresneto.com.br e www.amigosdolivro.com.br) CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/01/2012. - [MEXENDO NO CUPINZEIRO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mexendo-no-cupinzeiro-diario-do-nordeste/): O cupinzeiro é o modelo dado pelo naturalista Richard Conniff ao descrever o que acredita ser uma forma arquitetônica perfeita. Para ele - não “mental”, mas quiçá gozador - o cupinzeiro possui arcos delineados, escadas espiraladas, túneis, acomodações indicando a posição social de cada cupim e até creches. Não estou brincando, ele fala em sistema de ventilação com entradas e saídas de ar e até no controle da umidade que se mantém em 90%. Não riam. Estamos no dealbar de 2012 e creio que há anos andam mexendo adoidado no cupinzeiro. Deixo claro que meu conhecimento de Física é pífio. Nos anos 90 até andei fazendo curso sobre a Teoria do Caos e da Complexidade. Anotei, li, perguntei, ouvi e continuei a não entender o sistema caótico que se pressupõe auto-regulável. Por minha formação básica em ciências sociais desconfiava, desde sempre, das pessoas crédulas a acharem ser o mundo criado para dar certo e que tudo é muito simples. Nós seríamos os complicadores. Sei que nos EEUU e no lado norte do mundo ocidental há cientistas laureados assoalhando que o mundo, a natureza ou seja lá como chamemos, é repleto de sistemas complexos que encontram sempre uma forma de organização. A auto-organização complexa que seria a matriz para as grandes empresas e governos parece não estar mais dando para o gasto neste cupinzeiro de instabilidades e incertezas. Olhe para o seu mundinho e veja se há o “estalo” espontâneo em que inundações param de ocorrer por excelentes obras públicas de contenção, políticos têm coerência, banqueiros padecem e todos trabalham porque estão felizes. Sei não. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/01/2012 - [RIO, PACIFICAÇÃO E PAISAGEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/rio-pacificacao-e-paisagem-jornal-o-estado/): “O passado é uma dívida; o futuro é uma especulação; mas quem cobra é o presente”. Daniel Piza Passei os últimos dias do ano passado no Rio de Janeiro. Não fui para o Reveillon. Não me importavam os artifícios dos fogos, cantores regiamente pagos, milhares de pessoas amontoadas e políticos fazendo média em Copacabana. Tampouco a árvore de Natal de 100 metros que parece apequenada na suja, mas ainda bela Lagoa Rodrigo de Freitas. Fui rever a minha segunda cidade, a que conheço desde meninote, antes do criativo trabalho de Burle Marx no paisagismo do Aterro do Flamengo e do alargamento da Avenida Atlântica. Fui dar um giro, de táxi, por favelas ditas pacificadas. Ruelas estreitas, camelôs por todos os lados, carros sobre os passeios, escadarias íngremes mesmo e gente. Muita gente. Cidadãos braquicéfalos mostram a nordestinidade de grande parte de seus pacatos ocupantes. Não creio que o Rio esteja em paz, pois faz muito pouco tempo a ação e há favelas ou comunidades, como dizem agora, que não têm as UPP -unidades de polícia pacificadora. Uma cidade pacificada não possui os índices que o Rio ainda apresenta de criminalidade e tampouco carece de milhares de seguranças particulares em todos os locais de indústria, serviços, comércio e prédios residenciais. É um trabalho em progresso, sim. Tem chão. Fui ver o Rio da feira-livre da Rua Domingos Ferreira, onde morava o Elano de Paula que hoje vê melhor uma parte da cidade de sua cobertura ali por perto. Por falar em Elano, seu irmão querido, Chico Anysio, está grave e nada do que publicam na imprensa reflete a densidade do caso que compromete a vida do mais destacado e completo ator brasileiro. Chico não é só comediante, como muitos pensam. Escreve, dirige, pinta, faz cinema, tem livros publicados e possui a sensibilidade do beija-flor e a argúcia de lépido coelho. Fui ver o Rio para saber que o escritório do Oscar Niemayer estava fechado nesta época de friagem e chuva acima do normal. Estive em restaurantes do povo, de gourmet e madames. Visitei antiquários e armarinhos. Depois, tomei a Avenida Brasil, passei por Campo Grande para me deliciar, a seguir, com o atlântico, oceano, e a atlântica mata. Fui indo, indo, deixando a restinga da Marambaia para traz até chegar às cercanias do Rio Frade que se transmuda em mar bem depois da usina atômica ativa e dos estaleiros renascidos. Fui atestar que há muito a ser feito nas ainda estreitas estradas federais e estaduais com acidentes provocados por imperícia, negligência e grossa imprudência. Vi pouca polícia rodoviária, a não ser quando vítimas havia. No retorno, comendo rosquinha, fui me molhar na chuva dos dias um e dois deste janeiro que bendizia a minha gripe ainda não debelada. Fui e voltei pelo Antônio Carlos Brasileiro Jobim, o campo de pouso, que merecia acústica melhor nas suas gares ultrapassadas em sustentabilidade, arquitetura, luminotécnica e tecnologia. Como dizia o próprio Tom, o Brasil é..., mas gosto dele. Eu também. Para variar, houve tamanho atraso do A-320 que se comprazia em aglomerar retardatários de conexões internacionais, por escassez de outras aeronaves. Cheguei tarde da noite, cidade vazia, não havia gente nas ruas, só as máquinas de multar davam plantão. Desci em casa, gratificando o motorista esclarecido que falava português de gente que leu no tempo certo. Esqueci no banco dianteiro do seu carro branco um guarda-chuva antigo, mas talvez ele não lembre que tenha sido eu quem o abandonou, pois a tempestade não chegara. (Reverencio o jornalista, escritor e intelectual Daniel Piza, morto aos 41 anos, vítima de AVC. Perde o Brasil.) João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/01/2012. - [DEUS E JESUS? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/deus-e-jesus-diario-do-nordeste/): Ficção: Estamos em 4013, há sistemas de regulação full-nano-ultra nos bólidos, co-propriedades, e nas bibliotecas virtuais. Curioso, Ching, o anti-estro, resolve pesquisar o acontecido há dois mil anos. Insere perguntas, realimenta dispositivos que, de há muito, dizimaram o Google. Não há registros sobre 2013. Inexiste o Brasil. Encontra uma mínima referência a uma belicosa República Bolivariana, nas ex-Américas do sul e central. Ching desliga. Hoje, dezembro de 2013: Intrigo-me com um novo livro: ”Não houve Jesus. Deus não Existe”, de Raphael Lataster. Ora, Jesus não nasceu em lugarejo da Palestina? Se fora hoje, precisaria do Bolsa-Família. Os Romanos geriam o mundo.Nada foi escrito sobre Jesus. Tudo surgiu após a sua morte, se viveu, como creem os três bilhões de cristãos espalhados pela Terra. O cristianismo, há dois milênios, prega santidade, mas perpetrou atrocidades, cruzadas, cismas; teve papas dissolutos, pastores empoderados e crimes financeiros. Apesar disso tudo, Jesus vive no coração dos que a Ele recorrem. Hélio Schwartsman, filósofo/articulista da Folha, pondera: “Segundo o autor (Lataster), um mínimo de rigor historiográfico exigiria, se não concluir que nunca houve Jesus, pelo menos deixar de afirmar que sua existência histórica foi confirmada”. Ora, a fé cristã ensina: para ver a face de Deus é preciso morrer. Assim, a racionalidade perde forças. 2013 sequer é lembrado na ficção 4013. Enquanto isso, os evangelhos, pós Jesus, narram o que a oralidade preservou. Deus, Jesus, e a fé são forças, apesar de tudo. E então? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/12/2013 - [DE MASCATE A VISCONDE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-mascate-a-visconde-jornal-o-estado-2/): “O prestígio sem mérito obtém considerações sem estima”. N. De Chamfort, escritor francês, séc 18. Em um dia como hoje, 28 de dezembro de 1813, há exatos duzentos anos, nascia Irineu Evangelista de Souza. Gaúcho do interior, de família pobre. Seu pai, João Evangelista de Souza, pequeno fazendeiro, foi assassinado. Em 1818 foi levado por um tio para o Rio. Partiu na vida, com três anos formais de estudo, como balconista e, já aos 15 anos, deu uma guinada. Conheceu Richard Carruthers, escocês, ávido com a abertura do porto do Rio para o Reino Unido. Com Carruthers, de quem tornou-se amigo e, depois, sócio, Irineu aprendeu a ser guarda-livros e maçom, a falar inglês, e, a saber, que o mundo era maior que a única viagem que até então fizera. A vida de Irineu deveria ser objeto de estudo nas boas escolas de administração deste XXI que se contentam em homenagear pessoas vivas, alguns dignos, e certos blefes nacionais. Essas escolas persistem em manter como referências modelos de gestão estrangeiros e incensa empresários europeus e/ou americanos. Pelo menos, a Associação Comercial do Rio de Janeiro, hoje presidida pelo cearense Antenor Barros Leal Filho, instituiu o prêmio Barão de Mauá, o pioneiro da industrialização brasileira. Esse galardão é conferido a pessoas e instituições que encerrem serviços prestados à formação e à difusão da educação. Mauá teve fundição, estaleiro, navios, iluminação a gás, construiu estradas de ferro, foi deputado pelo Rio Grande do Sul, fundou banco e expandiu os seus negócios para o exterior. Em 1840, já estabilizado no Rio, mandou vir dos arroios gaúchos, sua mãe, Maria de Jesus; a irmã, Guilhermina, com a filha adolescente, Maria Joaquina. No ano seguinte, Irineu, de regresso de uma das muitas viagens de negócios à Inglaterra, traz uma aliança para Maria Joaquina, a sobrinha, que vira sua esposa. Tiveram 12 filhos. Em 1854, aos 41, inaugura 15km da ferrovia que ligaria o Rio a Petrópolis, ocasião em que recebeu do próprio Imperador, Pedro II, com quem tinha desavenças, o título de barão de Mauá. Vinte anos depois recebe o título de Visconde, um nível acima do baronato, honra concedida pela monarquia por ele combatida com tanto fervor quanto o fim da escravatura. Segundo Kenneth Maxwell, historiador britânico contemporâneo: “ele se opunha ao comércio negreiro e à escravatura...No auge de sua carreira, em 1860, controlava 17 empresas no Brasil,Uruguai, Argentina, Reino Unido, França e Unidos”. Nem tudo foi glória na vida de Irineu. Chegou a falir, mas conseguiu a plena reabilitação, antes de falecer em 1889, antes da proclamação da República. Conheci, há tempos, Jorge Caldeira, professor e biógrafo, que tinha escrito, no ano de 1995, o livro “Mauá, o Empresário do Império”, pela Cia. das Letras. Fiz-lhe diversas perguntas sobre o livro e o Irineu. Jorge ficou intrigado com a minha curiosidade. Ela permanece. Irineus são poucos, ainda hoje. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/12/2013. - [PLATITUDES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/platitudes-diario-do-nordeste/): Natal e fim de ano são tempos de platitudes. Se você não sabe o que é platitude, fique tranquilo. Já vai entender. Quando você recebe e-mails dizendo o óbvio, repetindo o de sempre, estamos diante de uma platitude. Quando alguém manda um cartão de natal sem assinar ou, ainda, quando a assinatura já é impressa, é quase certeza que vem platitude no texto, com redundâncias e afagos que não fazem muito sentido para quem os recebe. Algumas vezes, o remetente sequer tem afinidade conosco. Agora, neste dezembrão sem fim, ouvi uma prédica que me deixou feliz. Em confraternização acadêmica, o Mons. Manfredo Tomás Ramos, agostiniano profundo, falou com a simplicidade de seu mentor. Santo Agostinho nasceu no século IV e, até hoje, 17 séculos depois, é contemporâneo e serve como antídoto às platitudes que recebemos pelo Correio, sempre atrasado; ou pelas tais mídias sociais que não pedem licença e invadem a nossa profanada quietude. Ela se esvaiu quando passamos o primeiro e-mail. Agostinho, em A Trindade, X,10,14, nos faz pensar. Preste atenção: “Quem pode duvidar de viver, de lembrar, de compreender, de querer, de pensar, de saber, de julgar? Mesmo se duvida, vive; se duvida, lembra de onde nasce sua dúvida; se duvida, quer chegar à certeza; se duvida, pensa; se duvida, sabe que não sabe; se duvida, julga não dever concordar irrefletidamente. Portanto, quem duvida de outras coisas, não deve duvidar destas, pois se não existissem, não poderia mais duvidar de nada”. Pensando melhor, que venham, então, as platitudes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/12/2013 - [A ÁRVORE E OS JARDINEIROS DO BEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-arvore-e-os-jardineiros-do-bem-jornal-o-estado-2/): “Quanto mais o indivíduo aprende, tanto mais útil se torna para si e a sociedade”. José Ingenieros (médico e filósofo argentino, séc. XX) As árvores são símbolos de produtividade, de beleza e refrigério. Resolvemos, em 2002, criar um projeto social: Árvore do Bem. Ele surgiu sem alarde, sem mídia, mas com a tenacidade dos que acreditam poder fazer algo de forma coletiva, simples, clara e com a participação espontânea de pessoas/famílias que sabiam da credibilidade e dos objetivos a serem alcançados. Este registro que hoje faço é apenas uma homenagem aos jardineiros/doadores, gente de coração e atitude. Louvo os nossos colaboradores que se envolvem e dão tempo, energia e carinho em trabalho que leva meses em planejamento, escolha de instituições, implantação e o coroamento da festa que se fazia em um só dia. Hoje, são três. Nesta semana, desde quarta e até hoje, sexta, estamos alegrando 1762 crianças desassistidas. Algumas têm câncer, outras são portadoras de alguma deficiência física ou síndromes que as tornam especiais, mas há centenas que são vivazes e estão por lá pela ausência de pais e familiares que se perderam nas drogas, o “crack”, em destaque. Os jardineiros/doadores são pessoas que não querem aparecer, que não homenageiam autoridades e nem circulam em salões cheios do vazio de muitos. Não há bebidas. Neste ano de 2013, o trabalho foi intenso. A ideia já foi copiada e se vê festa em que o (a) organizador (a) gasta muito, divulga nas mídias, entre fotos, drinques e acepipes, pede lençóis, brinquedos ou força compras outras. Nós não pedimos nada. Quem pede são as próprias crianças, com suas letrinhas infantis ou ajudadas pelas “tias”. Cada uma das 1762 crianças é identificada em cartão com sua foto, seu nome, sua idade, pretensão de presente e a chancela da instituição (são 20, ao todo) da qual faz parte. Cada pessoa faz a escolha livremente e, até o 15 de dezembro, retorna, alegre, com o presente solicitado. A nossa equipe de trabalho fica feliz com o excesso de quefazeres; as salas e os corredores plenos de pacotes coloridos e a azáfama contínua. Em seguida, os brinquedos são separados, catalogados por instituições e rigorosamente entregues às crianças, em meio a folguedos, sob o olhar atento de alguns doadores, pois todos são convidados a participar da entrega pública que dura, neste ano, três manhãs, tão grande é a tarefa. Se você, leitor(a), quiser vir e ver, hoje, pela manhã, é o último dia de entrega, na Av. Carapinima, 2200, 1º. Piso. Quem desejar plantar outras árvores por aí afora pode seguir a nossa metodologia, acima exposta, e fazer o mesmo no próximo ano. Só não podemos ceder os nossos sentimentos e os dos nossos fiéis jardineiros doadores, a quem agradecemos, desde sempre. Estes são intransferíveis. Como dizia d. Paulo Evaristo Arns, o valor do homem como pessoa é maior que todo o dinheiro do mundo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/12/2013 - [FUTEBOL DO BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/futebol-do-brasil-diario-do-nordeste/): Deve haver alguma resposta para a distância que separa empreendedores dos clubes brasileiros. O que se sabe é que os clubes vivem de patrocínios de grandes marcas, dos governos federal (Caixa, Banco do Brasil, Petrobrás e outros), estaduais e até de endividados municípios. Além das altas cotas pagas pela televisão que, em contrapartida, determina os horários dos jogos ao sabor de sua programação. A maioria dos clubes tem pendências fiscais e trabalhistas, o que míngua o pagamento de suas infladas folhas de pagamento. A entidade que comanda o futebol esteve no foco de comissões parlamentares de inquéritos que se esvaíram pela magia de intervenções e interesses Agora, neste final de 2013, última rodada do Brasileiro, série A, houve cenas de mútuas agressões por torcidas organizadas. Elas repercutiram na mídia mundial com queixas à segurança dos estádios e relembraram os movimentos populares que marcaram a Copa das Confederações. A nação e o povo brasileiro precisam analisar as razões do afastamento da sociedade das diretorias dos times que nos representam. As várias séries são arquitetadas para ocupar o ano e deveriam servir para a descoberta de novos neymares. Júlio César, o goleiro veterano e preferido, está em clube inglês da segunda divisão. Éderson, 24, o cearense artilheiro da Série A, sequer está cogitado. Sabe-se que a Copa do Mundo é uma espécie de “Fórmula Um”. A diferença é ser a cada quatro anos. Exige tudo do país-sede e nada dá em troca, exceto obras, cumprimento de reeditados cadernos de encargos e arrogância. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/12/2013 - [O ESTADO, 77 ANOS DE COMBATE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-estado-77-anos-de-combate-jornal-o-estado/): Imprensa é liberdade. O resto é armazém de secos e molhados”. Parafraseando Millôr Fernandes. Quando o advogado José Martins Rodrigues e, o seu irmão, o banqueiro Júlio Rodrigues fundaram o jornal O Estado, em Fortaleza, Ceará, no dia 24 de setembro do ano de 1936, o Brasil caminhava a passos dúbios que desembocariam, no ano seguinte, no Estado Novo, com a emergência de Getúlio Vargas como o detentor absoluto do poder que se fez discricionário e voraz. Só em 1946 voltaria a ser uma democracia, com a eleição de Eurico Gaspar Dutra. Nesses 10 anos iniciais, O Estado foi um aliado do governo, mercê da assunção de Francisco Menezes Pimentel, aliado de Martins Rodrigues, como Interventor. Restabelecida a Democracia, O Estado retomou suas frentes de luta e incorporou o ideal libertário que surgiria, efetivamente com Wenelouis Xavier Pereira. Como este relato segue uma linha histórica, o faço com a leitura da Cronologia de Fortaleza, volume II, escrito em 2001 por Miguel Ângelo de Azevedo=Nirez. Ajudou-me também uma rica conversa com o brilhante Professor Roberto Martins Rodrigues, filho do fundador José Martins Rodrigues. Este viria a se tornar um dos maiores políticos brasileiros, chegando a ser Ministro da Justiça. Assim, vieram depois novos donos. Alfeu Faria de Aboim e Walter de Sá Cavalcante,em 1942; Antônio Gentil, o controla, em 1945; depois Cláudio e Fran Martins, comandam os anos 50; e Sérgio Philomeno até 1964. Em 1965, repito, impõe-se a figura destemida do advogado Wenelouis Xavier Pereira, que se tornou o timoneiro da fase clarificada e independente, sem partidarismo político ou a defesa dos grupos empresariais que o mantiveram até então, com diversas linhas editoriais. A dolorosa e difícil independência perdura até hoje com o seu herdeiro e seguidor Ricardo Palhano, acolitado por seus irmãos e abençoado por sua mãe, a Procuradora Wanda Palhano. Estamos em 2013, mas não podemos esquecer os muitos jornalistas e colaboradores que ilustraram as páginas de O Estado nestes 77 anos. A todos, mesmo os não nomeados, homenageio. Começo com os do fim da década de pessoa de Joaquim Alves, editor da coluna “Educação e Ensino”; os dos anos 40 com Silvia Porto, que escrevia sobre Literatura e Artes. A vanguardista edição dominical bicolor com ênfase “No Jornal dos Nossos Filhos”, destacando o pioneirismo da fundação da Cidade da Criança pela professora Zilda Martins Rodrigues. Os dos anos 50, com Afrânio Coutinho em “Correntes e Cruzadas”; Dinah Silveira de Queiroz com “Filosofia Prática” e Roberto Martins Rodrigues, que passa a escrever, quiçá, a primeira coluna política do Ceará. Aí chegamos aos anos sessenta, e para dizer que não falarei em armas e dragões, identifico as críticas e observações do cinéfilo Francisco (Chico) Sampaio, ilustre professor e fundador do colégio Geo, com métodos que começaram a mudar o perfil das demais escolas privadas do Ceará. Luciano Diógenes, após o fechamento dos Diários Associados no Ceará, passou a escrever no O Estado, tal como a novel jornalista, oriunda do curso de Comunicação da UFC, Regina Meyer Marshall, que fincou as bases de sua atuação destacada como colunista, fruto espontâneo de sua vivência social, mas com acuidade e capacidade crítica. Cléa Petrelli vem dar um charme diferente às coisas mundanas, às viagens e à política. Nos anos 80, Wanda Palhano inova com a criação de “A Semana”, folhetim diferenciado. De 90 para cá quase todos são parceiros da contemporaneidade. Agora, neste dezembro de 2013, depois da homenagem recebida pela Assembleia Legislativa do Ceará ao jornal independente que é O Estado, cumpre realçar os que aqui mourejam de segunda à sexta nas pessoas dos jornalistas Macário de Brito, o mais atilado e “globe-trotter” dos jornalistas da terra; Fernando Maia, um dos mais antigos e bem informados colunistas políticos; Flávio Torres, com a sua alegria contida e candura natural; Antonio Viana, veterano radialista/jornalista com enfoque na política do interior; Rubem Frota, publicitário e jornalista, com informações sócio- econômicas; Natalício Barroso, intelectual e um dos mais cultos na análise da arte e da cultura; Solange Palhano com o seu jeito coloquial, pessoal e direto de falar de dores, amores, viagens e família. Isto sem contar os colaboradores nacionais como Sebastião Nery, Cláudio Humberto e Carlos Chagas. Não há como lembrar todos, mas a mostra é significativa, sem deslembrar que jornal é como um filme. A diferença é que nunca acaba. Mas, tal como em todos os filmes, nos jornais há o Expediente, os créditos para os que o produzem, dirigem e atuam. Em letras pequenas, ele mostra o equilíbrio da presidência ou produção, de Wanda Palhano; da superintendência ou direção geral cuidadosa de Ricardo Palhano, com a ajuda irmanada de Soraya(financeira), Solange(institucional) e Rebeca(marketing). Tudo isso sendo tocado na redação por Carlos Alberto Alencar (editoria geral), Daniel Nogueira (editor) Marcelo Cabral (economia), Nonato Almeida e Felipe Muniz(reportagem), Thatiany Nascimento(cotidiano) e J.Júnior(diagramação). O Estado é tudo o que foi dito, mas o é por conta especial dos seus leitores e anunciantes que acompanham a sua trajetória e sabem que nestes 77 anos muitos jornais cearenses deixaram de existir. Ele está firme e tem ciência de que a independência custa caro, mas vale a pena. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/12/2013 - [O BRASIL REAL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-brasil-real-diario-do-nordeste/): O Brasil real é diferente do que a ilusão da propaganda nos mostra. O IBGE expõe a situação de 2012: perto de 10 milhões de jovens, entre 15 e 29 anos, não estudam e nem trabalham. São chamados de “nem-nem”. No Nordeste, chegam a 24% do todo. O que fazem esses jovens? Basta ler jornais, ouvir rádio, ver TV, olhar as ruas e as respostas aclararão. Deles, 32,4% não concluíram sequer o curso fundamental. O que esperar do futuro de pessoas sem formação para competir no seletivo mercado de trabalho? Hoje, qualquer concurso público, exige o curso médio completo e haja concorrência. Exemplo? 50 mil inscritos para Guarda Municipal, em uma capital. Esses jovens, mesmo sem trabalhar, procriam. As mulheres com filhos compõem 58% desse universo. A solução deles? Procuram programas sociais, como bolsa-família e outros. Não seria mais lógico investir na educação formal e profissional, na motivação de professores que fazem greves todos os anos por conta de salários baixos? 21,5% das famílias mais pobres nordestinas estão nesses programas. São 49,1 milhões de brasileiros dependendo do bolsa-família. Muitos não poderão sair do caos social que vai do Amazonas até o Rio Grande. Basta ver o crescente da população carcerária, apesar da impunidade. O contingente que declara ganhar até ¼ do salário mínimo corresponde a 36,3% da população de 200 milhões. Não são apenas números, mas o atestado de descompromisso da nação a se arvorar de quase rica. A fazer eleições nos anos pares a custos altos e resultados pífios. Além de Copas e Olimpíadas, circos armados. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/12/2013 - [AIDS: opiniões, cuidados e responsabilidade de todos - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aids-opinioes-cuidados-e-responsabilidade-de-todos-jornal-o-estado/): “Às vezes fico pensando que a Aids parece mesmo coisa da CIA misturada com o Vaticano. Sei que é um pouco de loucura pensar nisso, mas faz sentido, faz. Faz muito sentido”. Cazuza, cantor brasileiro. Cazuza morreu de Aids, aos 32 anos, em 07 de julho de 1990. Segundo os médicos Caio Rosenthal, infectologista, e Mário Scheffer, medicina preventiva, em artigo em 01.12.2013, na Folha, 30 pessoas morrem de Aids e 100 novos casos são registrados no Brasil, a cada dia. Repito, a cada dia. Há algum tempo o Brasil foi considerado exemplo para o mundo na prevenção e tratamento do HIV, mas houve um relaxamento de todos, pacientes, médicos e dos governos. A ideia de transferência do tratamento dos infectados para as unidades básicas de saúde foi um erro, afirmam os dois citados médicos. Este artigo não pretende causar pânico, mas não acho certo saber e não alertar os que continuam a fazer sexo de forma indiscriminada sem o uso regular de preservativos. A “camisinha” não pode ser considerada careta. Ela é defesa para os que se aventuram na promiscuidade e os que, mesmo não promíscuos, têm parceiros fora das suas relações. Para Rosenthal e Scheffer o problema é grave: “No ritmo da incompetência, ministro e secretários da Saúde deveriam ser processados a cada novo caso de criança que nasce com HIV, um flagelo perfeitamente eliminável. Erráticos, os dados oficiais apostaram que a Aids avançaria em direção aos heterossexuais, às pessoas de baixa renda e ao interior do país. Concentrada nas áreas urbanas, a verdade é que a epidemia ressurge com força total entre os homossexuais e outras populações negligenciadas”. Exageros à parte, há uma postura nacional, embora contestada por alguns, de combate à doença e de apoio integral ao paciente. Deu certo, mas precisa continuar, sem descuidos e ambiguidades. Desse modo, fica o alerta a todos os que, além dos governos, possam ajudar nessa cruzada que, em 1º de dezembro, teve seu Dia Nacional de Combate à Aids, sem a cobertura devida da imprensa, ocupada em relatar o acidente no estádio do Corinthians, em São Paulo, e ouvir as desculpas do presidente da Confederação Brasileira de Futebol, um “desaposentado” e controvertido ancião que sequer respeitou os mortos ao asseverar que nada impedirá que a abertura da Copa seja naquele estádio, ainda em construção. Hipócrates, o médico grego, nascido 460 anos antes de Cristo, tornado patrono da classe esculápia, já dizia: “Para males extremos, extremos remédios, levados ao máximo rigor, são os mais válidos”. O médico Alexandre Padilha, Ministro da Saúde, bem que poderia meditar sobre críticas às medidas preventivas, ainda censuradas por igrejas e seitas. Não há prodígio para a Aids. Só os antivirais adequados, iniciados logo depois do diagnóstico, são as respostas adequadas para que os pacientes possam conviver com a doença. A cura está próxima, já há vacina em teste. Enquanto isso, todos precisam de cuidados. E, se infectados, correr para a busca de socorro médico e dos retrovirais disponíveis no Brasil. Cuidar-se é viver. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/12/2013 - [PÁSCOA OU FERIADÃO “SANTO”? - Jornal o Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pascoa-ou-feriadao-santo-jornal-o-estado/): Os judeus acabaram de comemorar a sua páscoa (Pessach), a festa em que celebram a libertação do jugo do Egito, de onde fugiram para o chão hoje chamado de Israel. Segundo a História, eles, os judeus, foram os algozes de um seu patrício, Jesus, filho de José, um dissidente político ou da fé que professavam. Agora, nesta semana, somos nós os cristãos ocidentais, que temos a Semana Santa que ficou reduzida, para muitos, a um grande feriadão que começa na quinta e vai até domingo. Para os que realmente creem e professam a fé cristã, especialmente os da Igreja Católica, a de Roma, esta semana seria mais que isso. Ela se prenderia a um ritual litúrgico em que é contada, vivificada e celebrada a paixão de Jesus Cristo, isto é, o seu julgamento sumário pelos judeus, os passos que o levaram até o monte do Gólgota, onde foi crucificado ao lado de outros dois réus. A cruz ou a viga transversa em que foi pregado ou amarrado fazia parte do processo macabro pelo qual os condenados deveriam passar, antes da morte, por atos de vergonha e tortura, expiando, por flagelação, as faltas cometidas e não perdoadas pelo Sinédrio. O Sinédrio era um conselho ou assembleia formada por julgadores ou juízes com a capacidade de decidir, em conjunto, os problemas gerais das cidades. No caso de Jesus, reza a tradição, ter sido submetido, em Jerusalém, a julgamento por professar uma fé diferente da estabelecida pelas leis judaicas. Assim, Jesus seria, repito, um revolucionário, visionário ou dissidente e, por tal razão, condenado. Admitindo-se tal fato, após a humilhação, flagelo e crucificação, vinha a morte. Jesus morre, então. É preciso lembrar ter sido Jesus um bom amigo de José de Arimatéia, importante figura da cidade e em casa de quem ficou hospedado algumas vezes. Na tarde da sexta-feira, José de Arimateia foi até Pôncio Pilatos, a autoridade romana da cidade, exercer o direito, comum à época, de tomar para si a responsabilidade do sepultamento de Jesus. Pilatos assinou a autorização, José de Arimateia apresentou-a ao Centurião, retirou o corpo, ungiu-o com ataduras saturadas de mirra e babosa, cobriu-o com um lençol de linho e o colocou sobre uma pedra, no interior do novo sepulcro da família. Hoje, o dito Santo Sepulcro, é um local de visitação diária permanente, ambiente denso, mas tocante. Estive lá e constatei. Depois de amanhã, domingo de páscoa, segundo narra a Igreja em seus evangelhos, Jesus acorda para a vida eterna. É a ressurreição. O historiador evangélico John A. Broadus, sobre o fato, diz: “Se não sabemos que Jesus ressuscitou da morte, não sabemos nada da História.” Assim, independente de suas (des)crenças, procurem saber mais, a fim de que possam, se for o caso, encontrar respostas para a sua fé e vida. Consta que São Paulo, o apóstolo, teria dito algo como: a fé é a substância de coisas esperadas, e o argumento de coisas que não se veem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/04/2010 - [TERREMOTOS E O FUTURO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/terremotos-e-o-futuro-diario-do-nordeste/): “É necessário reunir tudo aquilo que a imaginação consegue conceber de mais terrível para representar, ainda que precariamente, o horror em que as pessoas se veem quando a terra se move sob seus pés, quando tudo ao redor vem abaixo, quando a água agitada em seu leito completa a desgraça com inundações e quando o temor da morte, o desespero pela perda total de todos os bens e, por fim, as visões de outras misérias arrasam mesmo o ânimo mais resistente. Uma tal narrativa seria comovente e, por ter um impacto direto sobre o coração, talvez possa torná-lo melhor. Só que eu deixo essa história para mãos mais capazes.” A descrição parece de um jornalista atual sobre os terremotos do Haiti e do Chile, mas foi feita por um filósofo, Emanuel Kant, em 1755, sobre o grande terremoto de Lisboa. O texto faz parte de ensaio do prof. Marcus Mazzari para o “Mais”. O que se pode ver é que o alemão Kant, o autor das críticas da razão pura e da razão prática, fala em “impacto direto sobre o coração”. Dessa forma, deduz-se que alguns filósofos são, além de pensadores, plenos de sentimentos. Das cinzas e escombros do terremoto de Lisboa emergiu a figura do Marquês de Pombal, o reconstrutor e gestor do novo traçado urbano da cidade e parte da instrumentação legal portuguesa. Agora, quase 300 depois, o Haiti e o Chile vivem problemas similares. O Haiti, por seu histórico de pobreza e dominação estrangeira, tem uma diáspora e muitos dos seus filhos andam pelo mundo. Os que lá ficaram não têm, pensa a ONU, capacidade plena de autogestão e, por conta disso, ela fez pouso permanente para minorar o caos e a segurança. O Chile, saído a 20 anos de uma ditadura, conseguiu ser um cartão de visita da América do Sul, mas deixou as mãos capazes e limpas de Michele Bachelet, para os planos e ações práticas de Sebastian Piñeda, espécie de mistura de Eike Batista e Jorge Lemann, os brasileiros da lista dos endinheirados do mundo. O que se espera da ONU e de Piñeda é que se inspirem na figura do Marquês de Pombal, que também era Sebastião, e façam da reconstrução o mote para a motivação de todos os atingidos pelos sismos, que não avisam quando chegam. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/03/2010. - [CALDO DE CANA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/caldo-de-cana-diario-do-nordeste/): Li em jornal recente que caldo de cana pode causar a doença de Chagas. Na verdade, talvez não seja o caldo de cana, mas seu manejo primário, desde o plantio, possa transmitir a doença. Agora, há pouco, estava a esperar a abertura do semáforo, em trânsito bloqueado por carreta, enquanto um prosaico vendedor de caldo de cana tentava, na esquina movimentada, esmagar os já não suculentos bagos que produzem a sacarose tão apreciada. Olho para os detalhes do carro ambulante e vejo que, sobre uma precária estrutura de ferro, foi montada uma moageira acionada por pequeno motor a gasolina. Esse motor traciona uma correia a fazer girar os dentes serrilhados que produzem, por pressão, o esmagamento. Entre o chassis do carro, equilibrado sobre duas rodas e um suporte de ferro que forma um tripé e a “plataforma de vendas”, há um depósito onde repousam as canas cortadas. Alguém, certamente, falou em higiene para o vendedor. E, por conta disso, ele usava um par de luvas plásticas que serviam também para acionar o motor, que rateava, e fazia a correia deslizar. A mão direita foi ao encontro da correia, enquanto a esquerda segurava o copo descartável aguardando o sumo. Esse instantâneo relata a luta de pessoas que, em maioria, lutam de todas as formas para superar as exigências dos empregos formais a cobrar escolaridade e experiência. Ali, naquele carro ambulante, estava uma trindade: o homem de força que empurrara o carro da casa ao local escolhido para ponto de vendas, o mecânico a acionar, parar ou consertar o velho e adaptado motor e, enfim, o comerciante a vender e a receber, com as mesmas luvas, em moeda corrente, o produto de seu suor, o sumo da cana plantada por outro trabalhador igual a ele em terras do interior. Esta cena, só vista e repetida em países com grande nível de desigualdade, inclusive por conta do analfabetismo, mostra que, se houvesse um pouco mais de oportunidade e apoio público na formação escolar e treinamento, essa pessoa poderia ter se tornado bem maior. Sobram-lhe energia, independência, criatividade, capacidade de trabalho e boa índole, dicções básicas para o viver como gente. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/03/2010. - [AGENDE A BIENAL DO LIVRO EM ABRIL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/agende-a-bienal-do-livro-em-abril-jornal-o-estado/): Ouvi, com atenção, as apresentações de Karine David e Auto Filho sobre a próxima Bienal do Livro do Ceará, em abril, homenageando Rachel de Queiroz. Será a nona. Uma bienal não é um evento para seres iluminados, é para todos os da América Latina. Os que amam os livros, para os que não têm medo de livros e, especialmente, os que não sabem responder a esta simples pergunta: O que você está lendo? Plínio, o Velho, escritor latino do tempo de Cristo, já dizia: “Nenhum livro é tão ruim que não possa ser útil para alguma coisa”. Sim, os livros servem para muitas coisas: estudo, entretenimento, cultura, ajuda etc. Para quem tem vida interior profunda, o livro é um bálsamo. Aplaca a solidão, fortalece o espírito, forma, informa, analisa, questiona e aponta saída. É claro que nós todos, desde cedo, tivemos que ler por obrigação, para sairmos da escuridão do analfabetismo. Depois, para perceber a linguagem, fazer contas, saber história, localizar-nos no mundo e crescer como estudantes. Mais tarde, decidimos o que fazer de nossa vida, o caminho a seguir. E aí os livros vão mostrando a nossa tendência, a vocação, o desígnio para o qual viemos ao Mundo. É claro que os leitores sabem de tudo isso, mas não há tempo, mesmo que percorridos todos os caminhos, para deixar o livro de lado. Os jornais são livros com um dia de duração, expressam múltiplos aspectos da sociedade. As revistas trazem resenhas ou análises do que aconteceu na semana que passou. O livro, só ele, pode ser totalmente atemporal, desligar-se do calendário e caminhar pelas praias leves da poesia, as nuances sutis das crônicas, os relatos dos artigos, a ficção engenhosa dos contos e a urdidura mais complexa dos romances. Deixei de fora os livros didáticos, os de autoajuda, e-books e que tais. Mas, nesta próxima Bienal do Livro existirão livros para todos os sentimentos, gostos, idades e bolsos. E por falar em bolso, os estudantes devem procurar suas escolas e colégios para receber um vale-brinde inicial de cinco reais. Pegue os cinco reais e junte um pouco mais e vá ao Centro de Convenções, a partir do dia 09 de abril e verá o que estará sendo mostrado pela Secretaria da Cultura do Ceará, Sindilivros, editores independentes e academias de letras. Não se intimide se encontrar escritores por lá. Os escritores só existem se tiverem leitores. Escritor sem leitor é como cadeado sem chave. Você é a peça mais importante dessa festa. Converse, peça autógrafos, critique, dê sua opinião e se integre no mundo da leitura. Ele não é sagrado, não tem dono, cada um tem o interruptor. Fiat Lux. Cada livro é um facho de luz, saiba disso. Procure acompanhar a programação que leva quase dois anos sendo montada para você ter o melhor para ver, além dos livros, as entrevistas, shows, debates, lançamentos e brincadeiras. Leve seus filhos. Lembre-se que apenas 7,47% da população brasileira compra livros para deleite e gasta somente 0,05% de sua renda familiar com eles. Vá namorar por lá. Puxe o seu pai e o arraste até lá. Se quiser saber mais, use a internet e veja logo o site www.secult.ce.gov.br. O livro é saber continuado procurando a essência sensorial de leitores. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/03/2010 - [O SONHO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-sonho-diario-do-nordeste/): Em 21 de março de 1965, há exatos 45 anos, Martin Luther King Jr abriu o longo e duro caminho para a liberdade racial na América, então preconceituosa e indiferente. E o que fez Luther King nesse dia? Marchou com mais de 3.000 pessoas de Selma a Montgomery, no estado do Alabama. Bradava com a autoridade de detentor do Prêmio Nobel da Paz, de 1964. Era o mentor maior da luta pelos direitos civis e defendia a não violência de Mahatma Gandhi, de quem fora amigo. Seu breve discurso “I have a dream”(Eu tenho um sonho), proferido em Washingto n, em 28 de agosto de 1963, foi o marco da consolidação da Lei dos Direitos Civis, assinada por Lyndon Johnson, a ferro e fogo, e o estopim da efetivação, em 65, da Lei dos Direitos Eleitorais. Assim, os negros estabeleciam pegadas fortes na busca da igualdade de direitos. Ano passado, em meio ao inverno, estive em Atlanta, sua terra natal, e pude percorrer alguns de seus caminhos. Fui ao Memorial onde estão as lembranças materiais e imateriais de sua trajetória política, da luta desmedida pelo direito de fazer-se respeitar pela maioria branca. Vi seu túmulo, em granito preto, e senti que as balas que o assassinaram em1968, em Memphis, talvez tenham ajudado a eleição de um negro à presidência dos Estados Unidos, em 2008. Ele dizia, no seu discurso, que: “Eu tenho um sonho de que um dia, esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado dos seus princípios”. Relembro, com clareza, o início da marcha dos negros em agosto de 1963. Eu, jovem quase imberbe, estava por lá e vi o alvoroço de um país em dilema: abrir-se ou se autodestruir. Nesse tempo, três grandes líderes foram assassinados em série: John Kennedy, em 21 de novembro de1963; Luther King, em 04 abril; e Bob Kennedy, em 05 de junho, ambos em 1968. Paradoxalmente, esses crimes foram sendo introjetados, pouco a pouco, no seio da grande imprensa que parecia tender, inicialmente, pelo “apartheid”. A perda da Guerra do Vietnã talvez tenha contribuído, a seguir, para a formação de um caldeirão de americanos não brancos a agir politicamente por mudanças que só devem ser, a meu ver, registradas pela História com a eleição de Barack Obama. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/03/2010. - [SÃO JOSÉ, A IGREJA E AS CHUVAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sao-jose-a-igreja-e-as-chuvas-jornal-o-estado/): A Igreja Católica tem certos paradoxos, dogmas ou dilemas difíceis de serem entendidos por mim. A fé seria a resposta. Há uma pequena frase atribuída a Santo Agostinho, mas que é de origem desconhecida: “Creio por ser absurdo” (Credo quia absurdum). São Paulo, na epístola aos Hebreus, XI, 1, dizia: “A fé é a substância das coisas esperadas, e o argumento de coisas que não se veem”. Einstein, judeu e cientista, falava que a “A ciência sem a religião é manca, a religião sem ciência é cega.” Assim, qual a razão de Maria, mãe de Jesus, ser tão celebrada, reverenciada e amada e de José, seu marido – com quem não coabitara, mas assumiu a paternidade de Jesus - ser tão pouco festejado? Hoje, 19 de março, é o dia escolhido para homenageá-lo. Ele, São José, é o padroeiro do Ceará, terra tão desértica quanto à região da Palestina/Israel onde, segundo a História, habitaram Maria, Jesus e José. O Ceará ainda é uma terra de Josés, os que acreditam na redenção que virá das águas das chuvas ou dos rios, do plantio de subsistência e da precária escola frequentada por seus filhos, para não serem tão pobres quanto eles. Voltando ao fio da meada: Dessa forma, a Igreja assumiu uma face mariana, a divulgação pelo Novo Evangelho de que uma mulher pura teve um filho concebido sem pecado pelo Espírito Santo. José, na sua visão de velho carpinteiro, não entendeu a razão de Maria estar grávida, pois relação não houvera. Veio o sonho e lhe foi dito que aquilo era uma graça e obra do Espírito Santo. Por outro lado, na trindade cristã, há o Pai, mas o pai é Deus, o Senhor Absoluto, criador dos céus e da terra; há o Filho, Jesus, o enteado de José, e o Espírito Santo, o verbo. Como se vê, as figuras de Maria e José estão fora da santíssima trindade. Resumindo, a Igreja é mariana, romana e tem em São Pedro, o seu fundador. Pedro, o que negou a Cristo por três vezes, foi o disseminador da ideia que saiu de Nazaré e Belém e se transmudou para Roma, a sede da Santa Sé. Não quero confundir ninguém com estas digressões ligeiras, mas o que peço a São José, o esquecido, é que se lembre estarmos na passagem do equinócio, fenômeno em que o sol cruza o plano da linha do equador, quando os dias e as noites têm tempos iguais e caem as chuvas que tantos precisamos. É tempo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/03/2010 - [DESASSOSSEGO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/desassossego-diario-do-nordeste/): Lamento. Não queria estar escrevendo sobre violência e morte. Bastam os jornais e os programas policiais de muitos ouvintes e telespectadores. Queria dizer aos que andam pelas cidades brasileiras que estão seguros. Queria dizer que jovens se recuperam, se reclusos por delitos. Queria dizer que os órgãos públicos dão combate eficaz à delinquência e assistentes sociais e psicólogos se sentem vitoriosos com a mudança de comportamento de imberbes membros de gangues. Queria que todos entendessem que favelas não são lugares de delinquentes. A delinquência está em todos os níveis e lugares. Queria acalentar pais, pobres ou ricos, que perdem filhos como assaltados ou assaltantes. Queria, mas não sei como. Dizia o filosofo alemão Shopenhauer que a vida não existe para ser aproveitada, mas para ser suportada. Assim, nós suportamos ler nos jornais todos os dias os assaltos, mortes e violências por gangues alimentadas pelo “crack”, maconha e outras drogas. Precisam ficar espertos para agir. E, por trás dessas gangues, existem fornecedores e cobradores das drogas. O assalto é um meio de pagamento e a arma alugada é o lugar comum entre os que ainda não possuem as suas próprias. Queria não ficar assustado com os pedintes em todas as esquinas que disputam com os “flanelinhas” e os distribuidores de panfletos o direito de importunar os que estão aprisionados em suas bicicletas, motos e carros. Queria que o trabalhador, cansado, voltasse para a casa em ônibus e pudesse cochilar antes da descida. Não, não se pode cochilar. O medo é fruto da insegurança e o desassossego lateja sob a pele dos que não sabem quem é o inimigo. Queria que tudo fosse fácil de ser resolvido. Que se entendesse que hoje um jovem de 16 anos é diferente do menino do século passado. Há informações demais. Para o bem e para o mal. O que se entende é o que se vive. Os pais, sempre eles, ficam cientes de seus despreparos em estabelecer limites, apontar valores e medo de virar “caretas”. Todos os pais, analfabetos, letrados, endinheirados, medianos, pobres ou miseráveis, estão sempre com medo da noite, por seus encantos, desvios ou perigos. As ruas têm nome de desassossego e rastro de sangue. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/2010 - [CINCO MULHERES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cinco-mulheres-jornal-o-estado/): Deixem que misture a luz da razão e invoque sonhos. Neste sonho, agora acordado, vejo o transcurso (em ordem alfabética) das vidas de cinco mulheres. Mulheres de Bem. Primeira: Ana Studart, mulher que se uniu a um jovem destemido e soube, por prova provada, que a vida é uma roda gigante. Acompanhou-o em todos os passos com amor, serenidade e companheirismo. É mãe de quatro filhos, senhores de seus destinos, que têm nela a âncora de seus passos. Foi a profissional de administração que cumpriu, com responsabilidade, tarefas no serviço público. Recentemente, veio ter nas águas difíceis da benemerência, procurando distinguir doação de ação social. Soube que isto implica em integração com o próximo. O que vale é o ato de doar-se, de engajar-se, de interagir com pessoas que merecem suas benesses. Segunda: Imaginem uma jovem normalista da Rua da Assunção, filha de Pio Rodrigues, sendo cobiçada por galante paraibano que aqui se instalara com talento e capacidade inovadora para passo a passo, se tornar referência no comércio e na direção de entidade classista. Pois foi assim. Clóvis e Edyr Rolim descobriram-se e uniram-se para o sempre. Mas, em 1984, o insondável transformou em viúva a mulher e mãe de quatro jovens cavaleiros sedimentados na luta e se fez chefe de família e de empresas em áreas diversas que dignificam os sobrenomes Rodrigues e Rolim. A partir daí, com discernimento, Edyr e os filhos formaram um núcleo familiar coeso, exuberante e sempre cavalgando para o futuro. Futuro que já é hoje. Terceira: Gisela Nunes da Costa aqui estudou para subir e descer com pergaminho à mão os degraus do velho prédio da Faculdade de Direito. Dois anos depois, por concurso, seria das mais jovens magistradas dos anos sessenta. Optou por casar com a Justiça e se fez acompanhar, por onde andou, da família e animais que cria e ama. Armou–se de saber e sabedoria para enfrentar os sertões com a simplicidade de nativa. Voltou à capital por mérito. E ela não queria apenas saber de jurisprudência e doutrina. Foi professora universitária e eclodiu a desembargadora simples, no falar, viver e vestir, amante de fuscas e jeeps. A que sabe ouvir e contar histórias com a fé dos que superam enfermidades, vencem a soberba e galgam, mesmo sem cobiça, os lugares devidos. Quarta: Maria virou Nice para casar com Nilo que se tornou Estrigas. E da firmeza da relação despontaram dois artistas, cada um do seu jeito, fontes distintas de um saber comum. E entre linhas, agulhas, pincéis e tintas, emerge o seu simbolismo naif com cores fortes, denunciadoras do apego à vida, família e jovens, ao chamego com a natureza do Mondubim, onde, junto com Estrigas, montou o Mini-Museu Firmeza. Despretensiosa, mas com trabalho e destemor, está no mundo da fantasia, desde os anos 50. Quinta: Sílvia Magalhães saiu do colégio da Imaculada para ser médica, mas focou as lentes do seu microscópio em plasmas e células em suspensão, dando ênfase à Hematologia. Tornou-se mestre e doutora por acreditar na necessidade do saber continuado. Vê, no dia a dia, a doença insólita como a noite e veloz como um raio e sabe ser preciso a clareza do microscópio e o olho vigilante para diagnosticá-la e debelá-la no tempo certo. Participa de pesquisas nacionais e internacionais, que a ressaltam em eventos médicos. Seu jeito cioso e centrado no outro a tornou vulnerável. Parafraseando o ensaísta inglês Charles Lamb: A doença amplia as dimensões internas da pessoa. E assim o fez, com força interior, superou males e se reafirma sadia e plena como cientista, leitora voraz e praticante do esporte diário como fontes de energia. Parabéns a todas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/03/2010. - [CIDADES INOVADORAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cidades-inovadoras-diario-do-nordeste/): Como bato pernas por aí afora e tive experiência na condução de planos de desenvolvimento urbano de cidades, quando existia o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo- Serfhau, cismo com a quase paralisia do Estado e das cidades brasileiras em face do já consagrado e usado em todo o mundo. Exemplos? Quase não temos trens metropolitanos. Um país perto de 200 milhões de habitantes tem rede de metrôs similar a da cidade de Nova Iorque. Está certo? E ferrovia nacional existe? Um país com costa imensa e várias bacias fluviais não pode ter no transporte rodoviário, usando estradas de baixa qualidade, a sua base logística. Portos são entrepostos de riqueza, por qual razão não os temos em maior escala? Os aeroportos brasileiros estão, pelo menos, dez anos atrasados em relação às operações do hemisfério norte. Como vamos querer turistas de qualidade se não temos capacidade de bem recebê-los? Cidades são atrações, desde que as tenham e mostrem. A maior circulação da riqueza existe por conta das cidades. Nas grandes cidades vivem mais da metade da totalidade da gente. E elas estão envelhecidas por falta de ousadia. Já não se fala da favelização endógena, mas da incapacidade de se dar soluções lógicas a problemas estruturais de inundações, saneamento básico, paisagismo, transporte, novas vias públicas e habitações para todos. Na próxima semana, em Curitiba, vai acontecer a Conferência Internacional sobre Cidades Inovadoras. Um dos conferencistas, o urbanista Jonas Rabinovitch, fala sobre o que poderá ser discutido: “Hoje em dia, não acredito que inovações urbanas sejam necessariamente tecnologias milagrosas ou fórmulas mágicas que automaticamente resolverão todos os desafios. Inovações são processos – não eventos pontuais - , mas precisamos apresentá-las pontualmente para que sejam entendidas.” Seria bom que gestores das grandes e médias cidades brasileiras acorressem a Curitiba para ouvir os palestrantes, de nível internacional, capazes de oxigenar ideias e dar informações que precisamos conhecer para agir. Afinal, temos um orgulho e um problema nacional, a Copa de Futebol de 2014. E o que fizemos até agora? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/03/2010 - [JOSÉ MINDLIN - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/jose-mindlin-jornal-o-estado/): As pessoas que admiro são, quase sempre, mais velhas. Desde jovem, tive o prazer de conviver com os de mais idade. Elas nos enriquecem com suas sabedorias e até as rabugices. A minha referência de velhice sempre teve um marco: velho é que tem 20 anos a mais que eu. Agora, por circunstâncias, diminui para 10. José Mindlin, desde há muito, foi uma dessas pessoas. O admirava como empreendedor da Metal Leve, indústria de sucesso. E passei a admirá-lo mais a partir do dia em que decidiu vender a sua empresa e dedicar-se, integralmente, a seu amor eterno: os livros. Mindlin morreu no último sábado, 28 de fevereiro aos 95 anos. Um detalhe chamou a minha atenção: a TV a cabo, Globo News, reprisou, sábado e domingo, por 04 vezes, uma entrevista que ele concedera em sua biblioteca em 2006. Falava, entre outras coisas, da doação de parte de sua biblioteca, a denominada Brasiliana, composta de 17 mil títulos e 40 mil volumes para a Universidade de São Paulo, onde se formou em direito e conheceu Guita, sua mulher. Na segunda, a Folha de São Paulo, na sua manchete, fala no bibliófilo, mas o texto que acompanha sua foto, o identifica como empresário. Ora, não há impeditivo de um empresário ser bibliófilo. Não há também nada que o impeça de ser intelectual. E esse conjunto de características foram os vetores da vida de José Mindlin, esse vitorioso paulista, filho de imigrantes judeus ucranianos. Participo da Associação Brasileira de Bibliófilos, uma das poucas entidades que luta para, na sua vertente, manter vivo o amor e cuidado com os livros, especialmente em suas primeiras edições, desde que raros. Assim, o livro precisa “envelhecer” para tornar-se raro e ser objeto de desejo dos que são, de fato, bibliófilos. O leitor lê os livros, o bibliófilo é um seu enamorado, cuidador ou até adicto. O próprio Mindlin confessou em seu livro de memórias “Uma vida entre Livros” que tinha a doença. Revela: “Mas uma doença que me fazia sentir bem, ao contrário das outras e, que, além do mais era incurável”. Aqui no Ceará, por algumas vezes, recebemos a visita de José Mindlin, graças ao esforço de José Augusto Bezerra, presidente da ABBI, que acumula duas das características de José Mindlin: é empresário e bibliófilo. Em uma dessas ocasiões, na Casa José de Alencar, provoquei Mindlin para falar de seus autores preferidos. Ele, sábio e judeu, se fez reticente, mas acabou revelando alguns nomes. Roubo de Antônio Candido a descrição que, para mim, melhor definiu José Mindlin: “Indiscriminado e seletivo, glutão e refinado, ele é (era) o tipo ideal de leitor, porque sabe que nenhuma leitura é perda de tempo se der prazer”. Nossa ABBI, que o tinha como lume e porto, adotou o seu nome para a comenda que confere a poucos. Mindlin, a leitura como princípio e fim. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/03/2010. - [DE REPENTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-repente-jornal-o-estado/): De repente, saio do trem moderno, executivo – garçons, acepipes e jornais - sóbrio em seus detalhes pertinentes e jogo meu corpo amigo em outro comboio elétrico, velhusco, poltronas simples e gastas. Ar de dever cumprido. É cedo da noite. A vidraça do tempo leva-me em um quase sacolejar para a imersão consciente em outras eras quando a vontade de vir e conhecer me guiara desde o Cais de Sodré até Narvik, lá na calota do norte, com muitas paradas de permeio. Agora, décadas depois, escolho o imprevisto e me visto de jovem sem destino. Cato identidades, fé e fulgores em lugares repassados e novos. Não miro o destino, saboreio o percurso e os nomes das estações mostram que tudo se move. Aqui, uma casinhola com tijolos carcomidos pela infiltração onde a hera descuidada divide a paisagem com a gorda senhora à janela. No pasto, cordeiros se unem para banir o frio e não balir. Ali, a moderna indústria está cinzenta pelo tempo frio e os salpicos das chuvadas não param de cair. Há luz feérica. Trabalham na noite. Operários usam equipamentos de segurança e se aquecem em grossas vestimentas enquanto constroem o futuro, quem sabe, em aço ou tecnologia. Após, um grande pátio abriga milhares de carros novos, encalhados. O compasso muda e cruzamos uma ponte. Do lado esquerdo diviso pela grande janela a berma do rio com a sequência de grandes árvores, troncos pintados de branco, decepadas em suas copas. De lá, vem um dos sobrenomes do meu avô materno e as luzes desaparecem tão logo a curva desponta para afirmar a mudança de rota. Singularidades de pessoas estão no vagão. Quanto mais vejo, menos me entranho. À frente, uma mulher silente de cabelos multicores dedilha um pequeno computador e parece entretida com as palavras não captadas pelo soslaio. Do lado direito, frente a frente, dois casais maduros mantêm conversas trocadas e estranham o que se fala do mais jovem dos três faraós -ou reis- das célebres pirâmides, em Gizé. Eruditos? Não há crianças a bordo. Um bêbado estouvado sobe no instante em que as portas se abrem, em automático, na nova estação. Pede dinheiro e seu hálito é forte. Esgueira-se, fugindo do controle. Descerá na próxima. É costume. Abro os olhos. O sonho acaba na leve câimbra do dedão do pé canhoto. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/02/2010. - [CAMINHO DE VOLTA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/caminho-de-volta-diario-do-nordeste/): Acabou a folga. Estou voltando. Gosto de ir, mas voltar me dá mais prazer. Aqui é o meu lugar. Vejo o jeito do povo, a falta de paisagismo, taludes sem grama, pedintes no sinal e o som alto do carro ao lado com a tampa do bagageiro aberta. É um “plus” bobo. Bom seria se o guiador estivesse dentro ouvindo o som estridente. A avenida larga é margeada por invasões. Casas viram oficinas, bares, salões de beleza, “lan houses” e fazem despontar microempresários em busca da vida. O carro dá solavanco em cratera e vejo a função do cinto de segurança. Olho à direita e sinto um esforço público para desvendar a face oculta do rio - cheio de aguapés -com a derrubada de biroscas e a construção de pequenos e alegres parques de esportes e lazer. Espero que cuidem deles. É preciso fazer entender ao povo que aquilo é dele. Ele é o usuário, guardião ou depredador. Uma curva à esquerda e miro um dos parcos viadutos. Precisaríamos de muito mais. Nas passagens de trens, cruzamentos densos de veículos e plenos de assaltantes ligeiros sabendo o tempo de cada sinal vermelho. Assaltam de arma em punho, verdadeira ou falsa, e se embrenham em caminhos tortuosos. Um micro-ônibus cruza pela esquerda e o trocador se pendura na porta aberta para refrescar o calor e gritar o destino do coletivo. É noite e a brisa morna prenuncia chuva. Uma freada, xingamentos e tudo sai da inércia momentânea. Um motel de gosto duvidoso anuncia promoções e nenhum carro se apresta para aceitar a oferta. A cidade define os seus contornos sutis e as luzes ficam mais claras. Há um hospital com ambulância à porta, dois paramédicos com uniformes azuis retiram a maca com um jovem deitado a segurar o plástico a lhe oferecer o soro revificador. Penetraram na emergência. Ao lado, um carro preto com luzes piscando, fitas e latas amarradas ao para-choque traseiro, anunciam casamento e a fé no encontro que se pressupõe duradouro. Dobro à esquerda e sinto o cheiro da maresia e as partículas de areia afagando meu rosto ávido por um cerrar de olhos. Abro a porta, o rabo do amigo fiel entra em movimento acelerado e ele late de alegria. Cheguei, estou em casa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/02/2010. - [DE VOLTA À REALIDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-volta-a-realidade-jornal-o-estado/): O carnaval se foi. Ficam o calor, a chuva ou a falta dela. O inverno no hemisfério norte ainda está forte e os mercados de valores oscilam ao sabor dos que o controlam com um simples toque de computador ou telefone. Fevereiro se apresta para terminar com 28, tirando os dias de carnaval, quatro sábados e igual número de domingos, fica quase nada. Virão os meses com 31 e 30 dias e com eles a comunicação que nos é imposta nos elevadores, outdoors, busdoors, celulares e, certamente, em toda a mídia hoje dita tradicional: jornal, rádio e telefone. Já não se fala mais em Zelaya, Bush é integrante da história americana, Clinton dá palestras e acompanha sua mulher, o Haiti dizimado saiu das manchetes e Obama já não é mais novidade. Nós, os que estamos trabalhando e que não entramos em nenhuma escola de samba ou bloco, vivemos agora diante da proximidade de março. Com ele, a chegada de mais recalls (chamadas) de veículos com defeitos ao redor do mundo. Pode ser que seja respeito ao consumidor, mas pode ser também o olhar incômodo do concorrente que aponta a falha e usa clientes como denunciantes. A gripe A ou suína ameaça voltar. Ela fez a alegria de laboratórios ao redor do mundo no ano que passou. Foram bilhões em vacinas. Afinal, os laboratórios não foram feitos para ajudar a humanidade. Eles precisam dar lucros e, para isso, que venham as doenças e os governos de todo o mundo sejam solícitos na compra de grandes estoques que envelhecem em depósitos por falta de logística na distribuição. O que vale é a manchete da compra. A foto da vacinação. O resto que se dane. O Brasil está bem na foto mundial, apesar da favelização de milhões nos cinturões das grandes e médias cidades. Ainda bem que todos são segurados do Sistema Único de Saúde com hospitais plenos de vagas, médicos com excelentes salários, auxiliares descansados, remédios franqueados e a certeza da cura de quaisquer doentes despejados às suas entradas por ambulâncias de municípios que não sabem nada de assistência primária. Ora, os municípios estão a cuidar de coisa mais séria: a eleição que decidirá os governos estaduais, a presidência da república, os senadores e os deputados federais e estaduais. Acham pouco? É muito trabalho para prefeitos que se cansam em viagens às capitais ganhando parcas diárias e lutando pelo bem comum. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/02/2010. - [NOVOS APRENDIZADOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/novos-aprendizados-diario-do-nordeste/): Muito antes do século XX ir embora já existiam por este país centenas de cursos, faculdades e universidades particulares. Já faz parte do passado dizer, como referência, que fulano estudou na tal universidade, certamente pública. Já há algum tempo, a educação tomou rumo diferente do pretendido pela geração de Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Paulo Freire. Hoje, as escolas, vamos dizer assim, estão lutando para entender as mudanças acontecidas no mundo, a intromissão bem-vinda da Internet, o exigente mercado de trabalho, o crescente desenvolvimento científico e tecnológico e da nova comunicação. O antigo professor, dos métodos discursivo/peripatético, pode ser considerado avis-rara. O que se pede no ensino de hoje é foco, colaboração, discussão em grupo, muita leitura, aprender a desenvolver raciocínios abstratos e, em contrapartida, a análise dos fatos. Seriam, quem sabe, as tais experiências essenciais que faltavam aos formados nos anos “enta” do século passado. Os que então saiam da universidade não estavam prontos, precisavam de estágios, mestrados, treinamento e isso mexia com suas autoestimas. O cobrado na vida real de hoje é a competência. Competência para passar em concurso público, conseguir emprego privado ou montar o próprio meio de viver. E essa competência só é atingida se cada pessoa souber ser a senhora do seu destino. Humildade para aprender e apreender o ensinado pelos professores, a fala do povo, o visto na televisão, os livros lidos e o facilmente pesquisado na Internet. Ideias surgem, consolidam-se em projetos e, às vezes, transformam-se em oportunidades de trabalho, mas só para os cooperadores do tempo e das circunstâncias, não desperdiçando habilidades cultivadas na família, salas de aula, bibliotecas, grupos de estudo, relações sociais e na fácil, mas intricada, teia de informações como, por exemplo, o Google. Na verdade, cada pessoa deseja dar sentido à sua vida e ser bom profissional. Isso implica em ter motivação, saúde emocional, senso ético, boas companhias, explanar ou refutar argumentos, enfim ter conteúdo naquilo que teoriza ou pratica. Paixão e garra, ajudam muito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/02/2010 - [MARACATU AZ DE OURO – CULTURA COM ARTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/maracatu-az-de-ouro-cultura-com-arte-jornal-o-estado/): O BenficArte, espaço cultural localizado na esquina das avenidas Carapinima e 13 de maio, apoia há anos manifestações pré-carnavalescas, especialmente as dos maracatus cearenses. Durante este período pré-carnavalesco homenageia com uma exposição, os 74 anos do Maracatu Az(com z) de Ouro. Entende o BenficArte ser preciso que os mais jovens conheçam a razão, a essência e o porquê de pessoas de todas as idades e raças que, por decisão própria e volúpia, metamorfoseiam-se em nigérrimos, colocando roupas singulares com adereços característicos da África e encarnam, em épocas carnavalescas, nativos daquele continente. Eles chegam dançando sincopadamente, como se contassem e cantassem a história e a tristeza da suas capturas na África que começaram na Idade Média, séculos antes dos navios negreiros que os trouxeram como força de trabalho para o Brasil e outros países do continente americano, após suas descobertas. Vão, em seguida, fazendo evoluções como lamentos em “cordões” múltiplos, antecedidos por um porta-estandarte iluminado por lampiões levados por guias e um excêntrico baliza. E o mais singular é que para coroar a festa surge gloriosa uma “rainha” que embute em seus gracejos a força de um homem. E ainda, como uma forma peculiar de miscigenação, há as figuras dos índios, os nativos das terras para onde foram trazidos. Creia, isso é cultura popular cearense e resgata bem o que muitos plantaram e apoiam há décadas. Dentre eles, Descartes Gadelha, Calé Alencar, Paulo Tadeu, Pingo de Fortaleza e, especialmente, o não esquecido Raimundo Alves Feitosa, o fundador do Az de Ouro que o criou, em 1936, no tempo em que Fortaleza era pacata e o corso carnavalesco acontecia nas ruas 24 de Maio e Senador Pompeu e na Av. Duque de Caxias. Eles, os integrantes do Az de Ouro, vem do Jardim América, bairro limítrofe com o Benfica, mostrando agora, no Benficarte, vis a vis com os visitantes da rica e mimosa exposição, sob as bênçãos de todos os deuses negros, a sua história permeada das cores amarela, vermelha e preta que formam a sua identidade e tecem a sua memória em fotos, fantasias e estandartes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/02/2010. - [ENCONTRO ACIDENTAL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/encontro-acidental-diario-do-nordeste/): Andava eu pela orla em horário que não o de costume. Manhã alta, sol derretendo. De repente, vejo alguém que me parece íntimo. Fazia flexões de pernas amparado em um poste. Tal como o faço. Apresto o olhar, reflito e concluo que já o vi em solenidades, televisão e jornal, mas nunca havíamos falado. Em dúvida, perguntei-lhe o nome. Confirmou, com simplicidade. Era quem pensava. Estávamos de calção e camiseta. Somos da mesma década e, por conseguinte, imaginamos saber algo do Brasil desde muito tempo. Cada um com seu olhar. Carregava uma garrafa de água na mão direita e nada na cabeça suada que sofria com o sol. Recomendei que usasse um boné. Responde que o perdera no último voo. Enveredamos pelas sendas que mais gosta: política e Brasil. Fomos de fio a pavio. Do que fizera, do que deixara de fazer e como se sentia hoje na vida que não planejara. Impuseram-na e tiraram-lhe a legitimidade necessária para estar, quem sabe, no lugar dela nesta pugna de 2010. Apesar disso, estará junto para o que der e vier. Sua voz ainda traz o jeito mineiro do interior, não o erudito dos personagens modernistas de João Guimarães Rosa, em “Primeiras Estórias”, mas, quem sabe, o da simplicidade da linguagem de Fernando Sabino. Falou da mãe, que tem a idade da minha, e hoje, em face de sua nova faina, ganhou a primeira casa própria em toda a sua vida de mulher do interior. Ele, “globetrotter” por vida e circunstâncias, resolveu, agora, sair da cidade grande para morar nos arredores, mas sem deixar de cuidar dos escritórios que lá montou em profissão até então inativa e hoje em perfeita ordem. Disse que estivera em Portugal, não era dado a vinhos e comilanças e isso o deixara com um laivo de ardência que não o disponibilizava para o guaraná artesanal. Caminhávamos em direção ao sol. Cumprimentei amigos que não o identificaram. Aumentamos os nossos passos enquanto a terra dos irmãos Castro entra no papo e ele, que lá morara, acredita que, nesta década, a pequena ilha manterá o brilho eclipsado pelos embargos já nos estertores. Ao final, sob uma copa de árvore, pede licença e consulta o seu BlackBerry. Deixa seu e-mail. Apertamos as mãos. Atravessa a pista. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/02/2010. - [ELANO PAULA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/elano-paula-jornal-o-estado/): Todos desejam chegar lá, mas poucos admitem quando atingem. O relativismo do tempo dá ímpeto para aceitar um quase, mas com resistência. Uns fingem. Outros procuram ocultar os sinais com ajustes estéticos e a maioria teima em dizer: não sou. Primeiro, vieram os antibióticos, o saneamento básico melhorou, a engenharia ajudou a ciência médica a fazer sua parte e a consciência social resultou em cuidados que prolongam a existência. Hoje, não é raro se chegar à idade limite para a infância do outono, com energia e integridade física. Esse fato é comemorado por uns, mas causa perplexidade a outros. É confinante, para a maioria, o tempo da jubilação e, com ela, a inapetência para o ócio e o medo pelo que virá depois. É o tempo de fazer contas, todos tem esse direito. Findo – para alguns - o tempo de trabalho é preciso manter vida ativa com autocuidados. Decidir as tarefas básicas para a independência pessoal, ter a mente ligada em novos interesses como caminhar ou exercitar-se, reunir-se em grupos e cultivar ou recriar laços familiares e/ou afetivos duradouros. Dizia o escritor J. Renard que “a velhice chega quando se começa a dizer: nunca me senti tão jovem”. Assim, é preciso ir aceitando as limitações com reflexão, dosando energia com prudência, mas certo de que o amanhã é sempre um vir-a-ser e o hoje é o que conta. A mente, com o povoamento de recordações, precisa ser reinstigada para o hoje com ações, boa companhia, leitura de jornal, revista, livro e o maldito ou bendito computador. Estar ligado ao que acontece no mundo dá o sentimento de pertença e isso é quase tão bom quanto uma meta. A atenção real nos relacionamentos neutraliza a ansiedade e ajuda na alegria de viver, pois ela, a vida, não é sonho, dizia o poeta Garcia Lorca. E por saber que a vida não é sonho é que Elano Paula ou Elano Viana de Oliveira Paula perdeu o umbigo em Maranguape e a inocência no Rio de Janeiro. Seria dual ou múltiplo, sempre. Fez-se adulto, ainda jovem. Misturou engenharia civil com serviço militar. E se fez capitão. A guerra já era e ele entrou noutra. A da vida. E por ser hábil em várias coisas, se fez radialista, produtor, compositor, engenheiro, construtor, escritor, pintor e cético/crente. Como os homens não vivem sós e não podem dublar sentimentos viu-se apaixonado por uma voz e uma cabeça e o corpo veio junto. Acasalou-se por pouco menos que meio século. E, enquanto viviam, Elano mexeu com quase tudo, ao mesmo tempo. É testemunha da ação da mortalidade, a contragosto. Daí viu-se só. Mas não seria o ocaso. Veio o acaso – se existe – bem de perto, mas era de longe, do Estado onde o seu pai se exilara para viver como queria. E aí o ardor hibernado, aflorou. E foi jorro de benquerenças, desafiando diferenças e enfrentando até olhares dúbios. Que olhares? Ninguém vive a vida do outro. O outro é que sabe - quando sabe - de si. E então neste primeiro ano da segunda década do século XXI, no mês segundo, do dia 1 ao 5, estamos comemorando o baobá em que se transformou Elano de Paula. E esse baobá frondoso é madeira de lei, com viço, energia, inteligência, argúcia, capacidade crítica e vida plena. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/02/2010 - [QUE BICHO É ESTE? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/que-bicho-e-este-jornal-o-estado/): Ontem levei uma surra de um pequeno objeto. Olhei para ele, empolgado. Design perfeito, palavras no vídeo, luz, cor e som. Toquei-o e pensei que seríamos íntimos. Que nada. Ele me deu um baile. Estranhamo-nos, de cara. Quanto mais tocava, mais ele me irritava. Apertava aqui, ali e acolá e tudo saía ao contrário do que estava imaginando ou esperando. Teve um instante em que quase o agredia. Pensei: tenha calma, João. E recomecei a mexer em suas funções. Ele era a própria pós-modernidade. Continha televisão, rádio FM, câmera fotográfica de alta resolução, som estéreo, proteção contra roubo, tela colorida, pen drive, entendia muitas línguas, recebia e passava e-mails, tocadores Mp3/Mp4 e capacidade de memória expandida. E eu havia colocado o “chip” do meu antigo e simples celular nele. Eu só queria um telefone. Um que não estivesse arranhado, velhusco, descascado, como o meu. E agora, não conseguia que o novo me obedecesse. Aflito, procurei retirar o tal chip. E o pior, confesso a vocês, é que não sabia mais fazê-lo. Até pedi ajuda. Dois cegos na mesma porta. Estava desconectado do mundo e pensei se estava dependente ou aliviado do celular. Algumas pessoas optam por não pedir ou dar o seu número a ninguém. Assim, são pouco importunadas. Mas, vez por outra, alguém descobre o número e invade o espaço da privacidade sofrida. Não perguntam onde você está, se pode ou se gostaria de falar. Vão entrando no que lhes interessa. Voltando ao bicho, estava aliviado, desconectado, livre de chamadas. Custei a dormir. Sonhei com Graham Bell. Imaginava ser ele o inventor do telefone. Perguntei-lhe se aquela geringonça – o bicho estava no sonho - era telefone. Descrevi-o como pude. Bell olhou, coçou a cabeça escocesa, e pediu-me para procurar Antonio Meucci. Acordei. Não consegui reatar o sonho. Fui ao computador e descobri que Meucci, italiano, fora o inventor e vendera a patente do telefone a Bell. Será que a coisa que tinha às mãos era um mero telefone? Não queria fotografar, passar e-mails, usar pen drive, ouvir rádio ou tv. Meucci já morreu. Só queria o meu velho celular. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/01/2010. - [CUAUHTÉMOC - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cuauhtemoc-diario-do-nordeste/): Ver a terra do mar é sempre luminoso. Somos e não somos. Pertencemos ou não? Esta semana estive em um veleiro. E o que faz um grande veleiro em mares brasileiros neste ano de 2010? Ele singra as águas do continente americano para dizer da alegria dos que há 200 anos se libertaram do jugo espanhol e criaram, nesta banda da Terra, uma identidade própria, peculiar, multicultural e racial. Octávio Paz advertia que o contador de história tem visões como poeta, daí olho o veleiro Cuauhtémoc e lembro da poeta mexicana Margarita Paz Paredes quando diz em seu poema Busca: “Veio depois às minhas famintas praias e era um peixe rutilante em minhas redes de assombro. Mas sobre a areia desmanchou-se-lhe a estranha pele de azougue”. O México, como o Brasil, é um país derramado em verso e prosa. O México é também um país fustigado pelas guerras, mas teima em viver em paz. A palavra Cuauhtémoc refere-se a um personagem, filho do Imperador Ahuizoth e da Princesa Tlatelolca Thalaicápatl. Ele é referência da mexicanidade, por sua luta em defesa da pátria azteca contra os invasores espanhóis, comandados por Hernán Cortés e seus seguidores, em princípios do século XVI. Em linguagem livre, essa palavra significaria a águia (cuautli) que baixa (témoc) sobre os oponentes. Assim, o belo veleiro Cuauhtémoc é a águia-proa do México a tocar em missão pacífica os mares e portos do mundo para falar da latinidade que nos é comum. Veio em cruzeiro de instrução da Armada do México, com 246 tripulantes, sob o timão firme do Comandante José Francisco González Galindo, e já aportou, nesta viagem, em Balboa (Panamá) e Barranquilla (Colômbia), Fortaleza e Rio de Janeiro, no Brasil, de onde seguirá para cidades argentinas, uruguaias, chilenas, venezuelanas e dominicanas, até chegar a Vera Cruz, no México, em 23 de julho próximo. Que suas brancas velas amantes do vento se enfunem com os ares brasileiros e leve a nossa maresia e algas como um toque de amizade em seu casco. Como dizia o meu parente pelo lado materno, Pero Vaz de Caminha: “E Deus que aqui nos trouxe, alguma razão tinha para isso”. João Soares Neto, Cônsul do México no Ceará CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/01/2010 - [O OTIMISMO DO ROBERTO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-otimismo-do-roberto-jornal-o-estado/): Roberto Gaspar é o próprio Otimismo Itinerante. Vive alegre e circula muito. Gosta de ver e ser visto. Ao vivo e em fotos. Transpondo essa energia para o papel, Roberto é livre, descontraído, amável e sabe embaralhar episódios de sua vida, desde a bacia de picolés comprada com o primeiro dinheiro ganho até vivências em Canoa Quebrada onde se mistura com todos e narra a vida surreal de seu cunhado Rodolpho -“um “príncipe” -; a chegada e a rápida saída de brancosos paulistas; a mulher vendendo óleo de coco, o Raimundo Carpinteiro; a rezadeira e os pais de santo. Ele é ainda, segundo narra, marido apaixonado. Vejam: “Fecho a porta devagar e deixo os anjos a velarem o sono justo da mais linda e mais extraordinária mulher que conheço”. Estar arrebatado de amor em plena maturidade é uma graça e ele extravasa essa alegria em várias partes de suas estórias. Myriam é citada muitas vezes, sempre com amor e carinho explícitos. É paizão e não deixa de citar os filhos, Renata, Adriana, Andréia e Beto, suas outras paixões e acompanhantes de existência/viagens. Multifacetado, não fala só de família e Canoa Quebrada, onde descansa, à beira-mar, o seu corpo nos fins de semana prolongados, admirando o mar e as falésias. Conta conversa com engraxate sobre proeza sexual, viagens ao Quixadá, ao Piauí e se aventura pela Europa, começando pela mãe Lisboa, reza em Fátima, católico declarado que é, segue ao Porto e se deslumbra com Santiago de Compostela. Vai em frente e chega a Paris, pleonasticamente “com alegria e entusiasmo” e não foge da narração de lugares visitados e pelos quais se enamora. Ele é assim, derramado, uma avis-rara neste mundo de pessimismo, futricas e olho grande. O seu livro é um itinerário de estórias vividas, sem preocupação literária. Em todo o percurso zigzagueado do livro há sempre a marca do Roberto. O jeito de gente boa a não baixar a crista e saber se postar em todas as mesas e rodas, seja no chão escaldante de praia quase nativa, ou em rodas sociais das quais participa com regozijo e constância. No afã de escrever, diletante que é, está no terceiro livro, ontem lançado pelo selo da Academia Fortalezense de Letras. Com sua disposição, certamente, não será o último. Escrever é um ato de coragem e isso Roberto tem. Abra o livro, veja a primeira estória, a do título do livro, e prepare-se, com certeza, para chegar à França, sua última parada. Por enquanto, repito. João Soares Neto, presidente da Academia Fortalezense de Letras CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/01/2010 - [A PAZ DO SENHOR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-paz-do-senhor-diario-do-nordeste/): As igrejas sempre abrem as suas portas para todos. Agora, nestes tempos, costumam, quase sempre, fechá-las com fortes trancas. Vivemos num templo de violência, o horror nas páginas dos jornais, das rádios e nos noticiários sangrentos da televisão. As igrejas, quando abertas, por seus padres ou pastores, sempre nos desejam a paz do Senhor. E ao sairmos para a rua, nua e crua, desponta o nosso medo camuflado, arrebatando a fé procurada. Vemos-nos encurralados. O “flanelinha” pode ser ameaça. O motorista ao lado grita porque não lhes damos passagem na hora da sua buzina estridente. Vendedores de tudo nos abordam ou batem no vidro. Passamos do humor natural para o receio, levados pelos crimes acontecidos, sabidos e comentados dia e noite, de todas as formas. Não vivemos mais em cidades livres, triunfantes em suas alegrias notívagas, etílicas ou futebolísticas, mas entre ameaças nos esgueiramos. Cada habitante parece um refugiado à procura da saída. Casas e edifícios viraram “bunkers” com cercas protetoras, grades em portas e janelas, interfones roufenhos, cães a latir, vigias armados no alto de torres e alarmes prontos para o inesperado. Estamos, cada um de nós, protagonizando - sem saber – cenas de um filme tipo “Os fracos não têm vez”, romance escrito com gosto de sangue por Cormac McCarthy, que virou celulóide nas mãos de Ethan e Joel Cohen. Tão violento que ganhou um “Oscar”. Mas, aqui não é a Hollywood da ficção. É o mundo real em que crianças são mortas em matagais, gangues enfrentam policiais, sequestram-se menores em colégios, empresas de segurança prosperam, assaltam-se bancos semanalmente, fuma-se crack de cócoras à vista de todos, prostitutas e travestis enfrentam as noites das ruas municiados de armas contra maus clientes e adolescentes “alugados” cometem crimes. Em todas as horas, carros são roubados/furtados, assaltos se repetem como o quebrar das ondas. Somos todos personagens da história da cidade em que vivemos do jeito que podemos e não nos alegram essas lembranças reais e duras do dia a dia que parecem um manto a nos cobrir não como proteção, mas como a tenda de um circo de horrores. Até quando? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/01/2010. - [LULA E A MENSAGEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lula-e-a-mensagem-jornal-o-estado/): Vi o filme Lula – O filho do Brasil. Primeiro, pensei que era história verídica. Depois, admiti ser estória romanceada. Em seguida, perguntei-me se não seria o uso da neurolinguística (elaboração cerebral da mensagem) transformando-se em programação sensorial do espectador. Cocei a cabeça e vislumbrei a saga de uma “sub-raça”, como o queria Euclides da Cunha ao se dividir entre algoz e alcoviteiro dos nordestinos do interior do Brasil, em “Os Sertões”. Vi algo de Gilberto Freyre com seu “Casa Grande e Senzala” (O Nordeste - de onde saiu Lula - seria a senzala do Brasil do século XX?) e do “brasileiro cordial” de Sérgio Buarque de Holanda (o líder sindical seria um catalisador ou incendiário?). A mente voou e não sei por qual razão pensei sobre a origem do Mito grego, como caráter explicativo e simbólico da realidade. Relembrei ainda o canadense Marshall McLuhan com o seu livro, em parceria com Quentin Fiore “O Meio é a Mensagem”, de 1967. É óbvio que o filme é meio e as mensagens são extraídas não só dos diálogos, efeitos sonoros e cenários, mas do que cada espectador é, ou sente, a partir de suas estórias de vida que possam provocar mudanças de padrão na sociedade. Dizem que o filme é político. E qual filme não é? Dizem que o filme reescreve a vida de Lula e, certamente, de sua mãe D. Lindu, cujo anagrama (rearranjo das letras de uma palavra) daria algo como Dilnu. Ora, se ele se baseia no livro de Denise Paranaguá, é estória recontada, com direito à fuga do rigor da narrativa biográfica tradicional. O fato é que não achei perda de tempo vê-lo e tampouco concordo com os que execram a família Barreto por ter descoberto o mapa da mina com patrocinadores fortes e gentis. Afinal, os Barretos sempre souberam tirar água de pedra. Não foi sem razão que o sobralense Luiz Carlos Barreto chegou ao Rio sem saber nada, aprendeu fotografia, virou cineasta, produtor amado e odiado por seus colegas. Inveja? Barretão tem dois filhos (Bruno e Fábio) que mexem bem com cinema. Fábio, o diretor de Lula, acidentou-se, dramaticamente, antes da estreia nacional, no dia um deste ano de 2010. Falam em azar. Besteira. Dirigir à noite, no Rio, a 120 km, sem cinto, é imprudência, só isso. Seria bom que cada candidato a cargo majoritário contasse sua vida em filme. Se não têm patrocinadores, o façam em cordel, ensaio ou montem um vídeo. Desculpem, errei. Lula não é candidato. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/01/2010 - [CONCURSOS E VIDA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/concursos-e-vida-diario-do-nordeste/): É grande o número de jovens que, ao concluir os estudos, seja de nível médio ou superior, se lança na luta para passar em concursos públicos. Não é raro se ouvir: “estou estudando para concursos”. Não importa qual seja. Certamente, a carreira de funcionário público é um dos caminhos para milhões de jovens – e de não jovens - que não conseguem ou perderam a ocupação em empresas privadas ou, simplesmente, optaram por ser “concurseiros”. Acontece que os concursos oferecem milhares de vagas e, todos os anos, milhões de jovens adultos procuram trabalho. Um exemplo: um concurso recente oferece 159 vagas e mais de 6.000 as disputam. Os que não forem aprovados terão sentimento de frustração e, quase sempre, serão cobrados por suas famílias. Enquanto isso, o tempo passa e mais gente entra ano a ano na disputa por um número menor de vagas. Essas pessoas precisam ter foco. Ter foco é saber o que se deseja na vida. A competição é uma espécie de seleção natural fazendo a sua parte. Por capacidade ou sorte cada um faz sua estrada. Assim, anos da fase mais produtiva são gastos em aulas que consistem em aprender a entender ou decorar matérias e assimilar dicas ou “bizus”. É provável estar cometendo equívocos nesta análise rápida. Acontece que a vida não é um bálsamo. Ela é uma constante e infinda luta entre desejos, capacidade e a realidade que nos cobra atitudes. Há alternativas outras, além dos empregos públicos e privados. Veja as suas habilidades, sua formação escolar, o seu “jeito” para fazer determinadas tarefas. Vá à luta. Revi, recentemente, o filme “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, de Almodóvar. Nele aparece um motorista de táxi que, além da corrida, vende aos passageiros: jornais, revistas, cigarros e coisas mais. Assim, tinha uma renda adicional. Imagine que alguém tenha 500 reais. Pode, por exemplo, iniciar um micro negócio de frutas. Comprar na Ceasa e vender na sua rua, no prédio, no bairro. Venda porta a porta. Lucro diário. Há oportunidades simples à espera de pessoas com garra. Nada é humilhante. A dignidade é saber-se capaz de fazer algo lícito, produtivo e que lhe dê sustento e prazer. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/01/2010. - [TEMPO DE FELICIDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tempo-de-felicidade-jornal-o-estado/): O Natal e o Ano Novo ensejam trocas de mensagens, telefonemas e contatos pessoais. Em todos, fica claro o desejo – na maioria, sincero – de felicidades para os familiares, amigos, colegas e afins. Da forma como é posta, parece-nos que ficamos com uma carga benfazeja de desejos de felicidades ou, trocando as letras, com uma compulsão de ser feliz. Essa conclusão é uma dúvida que se impõe. Como um chuveiro em que cada gota é um rastro de felicidade a nos molhar. Será que estamos preparados para esse banho de felicidade? Cada um de nós tem, dentro de si, alguém ignorado, guardado a sete chaves, que nos faz duvidar, criticar ou contrariar a opinião que, quase sempre, externamos. Diz o psicanalista Contardo Calligaris que: “no fundo a palavra felicidade é inadequada para representar o que de fato é o ideal das pessoas.” E conclui: “estou absolutamente convencido de que ninguém quer ser contente e satisfeito. Acho que isso não é um ideal para ninguém, não é um ideal cultural possível”. Não concordo com ele, mas admito que o ser humano é por demais complexo para ser rotulado de feliz ou infeliz. Temos momentos felizes, mas há outros, a maioria, em que questionamos essa ideia burguesa do tudo certo, tudo justo, todos felizes. O que nos move é a capacidade de ter anseios, de viver de forma aberta, clara, mesmo que isso nos faça passar do céu ao inferno em pouco tempo. Não há dúvidas de que algumas pessoas aparentam ser mais felizes que outras. Tampouco há dúvidas de que alguns fingem melhor que outros. Todos, enfim, vivem. E o ano que se inicia nos dá a oportunidade de tentar melhorar relacionamentos, descobrir qualidades no outro, ouvir mais que falar e estar sempre pronto a auxiliar sem que o outro nos peça. Isso, quem sabe, possa ser um ideal de felicidade, o de saber-se útil e capaz de assimilar os percalços, maximizar momentos de bem-estar e minimizar os tropeços do dia a dia. A vida é um concurso diário, inscreva-se nele e tenha êxito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/01/2010 - [O FUTURO CHEGOU? Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-futuro-chegou-diario-do-nordeste/): Estamos em 2010 e é ano de eleição. O Brasil chegou ao futuro? Explico: Stefan Zeig era um escritor judeu austríaco. Em 1936, veio ter ao Brasil. Viajou pelo país e se maravilhou com o que viu. Veio, foi e voltou em 1940. Resolveu pedir visto de permanência e acenou em troca com um livro que escrevia: “Brasil- Um país do futuro”. Diz Alberto Dines, no prefácio da edição de 2006 do referido livro, que: ”Zweig efetivamente fez um negócio com o governo brasileiro: em troca do livro, receberia junto com a mulher um visto de residência permanente”. Assim, publicado em 1941, era mais um livro ufanista que surgia. Para o historiador José Murilo de Carvalho: “o título do livro de Zweig transformou-se em ironia”. Zweig comparava o Brasil “cordial” com os horrores do nazismo, do qual fugia. Em certo ponto, ele diz: “Tudo que é brutal repugna os brasileiros”. Assim, esse livro – pouco lido - servia mais como citação de que nós seríamos o – e não um - país do futuro. O jornalista Marcelo Coelho opina: “Seja como for, se muito do que lemos...parece pouco verdadeiro, não é que Zweig esteja mentindo. A realidade é que está mais errada do que seu livro.” Estes comentários estão no Caderno Mais, da Folha, de 18.10.2009. Agora, digo eu, estamos no futuro. E o Brasil é um país ainda de futuro, mas em pouco tempo, será um país destacado. Não só pela desenvoltura do presidente Lula; o será também por nossas riquezas em reservas minerais e florestais, solo vicejante, política fiscal rígida, grau tecnológico de empresas descobrindo mercados no mundo, o peso das “commodities”, o incremento do consumo interno e dos pequenos e médios negócios. O será ainda pela sua inserção na política e mídia internacional, não mais como exótico, mas parceiro confiável. Este país somos nós. Esta Nação são todos, desde os que vivem do Bolsa Família aos que viraram o ano com iguarias. Este país pujante só precisa despoluir-se socialmente. Diminuir as desigualdades, cuidar da infraestrutura, respeitar a natureza, cuidar da saúde, educar crianças e jovens e ficará pronto. 2010 é decisivo para isso. Vote com a razão. Seu voto é o futuro. Você fará o futuro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/01/2010. - [PEDAÇOS DESENCONTRADOS DESTE 2011 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pedacos-desencontrados-deste-2011-jornal-o-estado/): O ano de 2011 estará terminando na próxima semana. Os anos ou os tempos acontecem, simplesmente, não só para o planeta Terra, esse que dividimos com sete bilhões de pessoas, mas em todo o universo ainda em processo de descoberta pelos cientistas com minguadas verbas. Até a Nasa está pifando. E este ano não foi um ano bom para a ciência, pois faltou dinheiro para os governos de quase todos os continentes. Todo ano tem tragédias, mortes, terremotos, posses e derrubadas de governo. É o ávido fadário. Dilma entra na história como a primeira mulher a assumir a presidência do Brasil. O Estado do Rio perde quase 1.000 pessoas em enchentes nas serras fluminenses, repetindo o que acontecera no ano de 2010. Promessas, verbas, mortos e poucas prisões. Hosni Muburak cai do Governo do Egito e começa a “Primavera Árabe” derrubando outros ditadores do médio-oriente. O Japão sofre um “tsunami” arrastando 10.000 pessoas para o além e vê parte de sua costa totalmente destruída. O ano não terminou e quase tudo já está reconstruído. Descobriu-se, afinal, que Osama Bin Laden não estava escondido na confluência do Brasil, Paraguai e Argentina onde reina em cascatas a Cachoeira do Iguaçu. Osama morreu no Paquistão, dentro de sua casa que pretendia ser um “bunker”. Não era. Morreu desvalido e seu corpo desapareceu em meio a mar proceloso, não o de Castro Alves. Aguardemos livros sobre o “local que eu descobri”. Em uma Europa com economia gripada o Príncipe William casa com a jovem Kate para o deleite do jornalismo oco e das revistas para desocupados. A cantora Amy Winehouse, uma casa de vinhos ambulante, morre aos 27 por excesso nos costumeiros excessos. Barak Obama e Michele vem ao Brasil e nada dizem de concreto. Vão a palácios em Brasília, ficam na orla do Rio e visitam o Pão de Açúcar à noite e que tais. O mesmo do mesmo. Hugo Chavéz briga com um câncer em Cuba. Silvio Berlusconi, o coroa que paga para dizerem que é o rei das moçoilas, estrebucha e perde o poder na Itália. Fica com a mídia, a dinheirama, o futebol e grava um disco com canções de amor. Steve Jobs, o design maior da informática, de jeans e camiseta preta, perde a luta contra o câncer e faz logoff aos 57. Todas as tribos se reúnem em Wall Street, inclusive a Maria Luiza Fontenele, e assestam seus estilingues contra as vidraças blindadas de banqueiros desalmados. O nosso Supremo Tribunal Federal aprova a união estável entre pessoas do mesmo sexo sem saber que estará aumentando o número de questões nas varas de família nos próximos anos. Aguardem. Lula é acometido de câncer na garganta, revela o mal de forma pública e termina o ano com 75% no Ibope da regressão do tumor. Dilma, a presidenta esquentada, revela-se durona e manda sete ministros trapalhões para o vazio que é o eixão do Plano Piloto. O escândalo do “Mensalão” ainda dormita e talvez não acorde. O povo da Rússia parece zangado com o Puttin. A Coréia do Norte perde o seu ditador, Kim Jong-il, que é mostrado em transparente esquife de vidro para o herdeiro do trono, o Kim Júnior. Os soldados americanos deixam o Iraque por falta de grana. Para falar de flores e espinhos, o filme “O Discurso do Rei” ganha o “Oscar”, o Santos endeusa Neymar e se perde na “Ola” de quatro do Barcelona. Somos melhores em quê? Talvez do “crack”. Roberto Carlos choraminga na Globo, Sílvio Santos está renovado e o Brasil parece acreditar que a crise do mundo vai passar ao largo do equador. Aeronautas prometem atrapalhar o fim-de-ano e o Papai Noel, infelizmente, anda mais em moda que o menino da Galiléia. Uma pena. Não gaste o seu 13º. com o que não precisa e não pose para o ano novo. Vá com temperança, medite ou ore e boa sorte. Felicidades. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/12/2011. - [A PERSONALIDADE DO ANO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-personalidade-do-ano-diario-do-nordeste/): O que significa personalidade? O que sei é pouco. Seria um conceito psicológico a mostrar padrões de comportamento de alguém? Quem sabe, a capacidade de tomar decisões configuradas em atitudes, tendências, valores e sentimentos? Dito isto, é bom lembrar que no percorrer dos dias finais do ano, entidades, jornais, revistas, colegiados, mídias sociais e assemelhados, escolhem, segundo seus critérios, personalidades destaques em seus fazeres. A revista “Time”, dos Estados Unidos, tenta fugir da individualização. Em 2006, escolheu “Você” para a personalidade do ano. Você é qualquer internauta comum ou ilustrado. Você é pessoa indefinida no meio de todos. Agora, neste 2011, a “Time” designa “O Manifestante” (The Protester) como a personalidade mundial. Seria a ausência de líderes verdadeiros? Sua capa em cores traz uma mulher árabe usando touca com a boca coberta por um trapo de pano. A legenda diz “Da Primavera Árabe a Atenas, do Ocupem Wall Street a Moscou”. O(a) manifestante, seja quem for, também é você, onde quer que more, insatisfeito com o que vê, sente e o agride. Esse manifestante não é só o egípcio Ahmed Haara que perdeu os olhos acantonado na Praça Tahrir, no Cairo, dando início à derrubada de Bumarak e de outros ditadores árabes. Tampouco o tunisiano Mohammed Bonazizi que ateou fogo ao próprio corpo e não viu o ditador Bem Ali ser destituído. Seria Rey Lewis, capitão aposentado da Polícia, que achou gloriosa a sua prisão no “Ocupem Wall Street”, onde, ao lado, estão banqueiros manipuladores ou o mexicano Javier Sicília que perdeu um filho para os traficantes de drogas? Não. A personalidade do ano é o somatório de todos os que se revoltam contra os desgovernos, a corrupção, o tráfico de droga, as guerras fabricadas, a cobiça pelo petróleo, a discriminação de gêneros, credos, raças e os que não conseguem empregos na orbe dos nababos a derrubar mercados e a fomentar crises em cadeia. A Ásia detona, a Rússia geme, a Europa esperneia, os EEUU emudecem e o mundo, aturdido, vê na pessoa comum, talvez sem ideologia, crença ou partido, sinais vivos de que pensa, conclui e protesta: basta de desmantelo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/12/2011. - [KARL MARX, O HOMEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/karl-marx-o-homem-jornal-o-estado/): Já disse neste espaço ter procurado conhecer a casa onde nasceu Karl Marx, em 1818, em Trier, Alemanha, rincão da minha colega Elfriede Reinhilde. Não tive informação correta e acabei me contentando com a foto. Era domingo, havia festa na cidade molhada pela chuva e atulhada de carros. Marx era de família judia convertida, obrigatoriamente, ao cristianismo quando ele tinha seis anos. Saiu cedo de Trier e foi para Bonn e Berlim, onde estudou direito. Aos 19, em 1837, mandou ao seu pai, Heinrich, um punhado de poemas seus e partes da novela humorística “Escorpião e Félix”. Seu pai morreria seis meses depois e Marx não foi ao enterro. Tinha mais o que fazer, segundo relato de Bernardo Carvalho, autor de longo e belo ensaio, embasado por vários críticos, para o caderno “Ilustríssima”, de 23 de janeiro de 2011, que contém a tradução integral de o “Escorpião e Félix”. Nesse tempo, 1837, já havia conhecido sua futura mulher, Jenny von Westphalen, filha um de barão prussiano, com quem casou e teve cinco filhos. Carvalho faz crer que o imberbe candidato a ficcionista não teria obtido sucesso, se persistisse no ofício. Então, depois de viver, estudar, mudar o rumo para a filosofia e professar na França e Bélgica, o já filósofo consagrado lança o Manifesto Comunista, em 1848, em parceria com Friedrich Engels. E, perseguido, passa a viver em Londres, onde morreria 34 anos depois. Esta introdução é para dizer que um amigo enviou-me vídeo seu em que espinafra o inspirador do comunismo. Explico: Ele foi até ao cemitério de Highgate, em Londres, ver o túmulo de granito de Marx, erigido apenas em 1954, pelo Partido Comunista Inglês, encimado por seu busto e a célebre frase: “Comunistas de todo o mundo, uni-vos”. No vídeo, ele externa sua revolta com o filósofo alemão. Na verdade, Marx morreu de tristeza, consternação, solidão, carente e apátrida, em 1883, após a morte da mulher Jenny, em 1881. No meu olhar o homem Marx era amargurado com o seu fracasso financeiro. Vivia aborrecido por não dar uma boa condição de vida à Jenny, cuja família tinha posses e largara tudo por ele. Jenny sofreu sucessivas crises de depressão e ele tratava as duas filhas - três filhos morreram na infância - sobreviventes de forma rígida, obrigando-as a estudar canto e piano e lhes exigia que só casassem com pessoas de posses. Essa contradição pequeno burguesa se agravou mais ainda com o constrangimento geral ao ter um filho espúrio com a doméstica de sua própria casa, Helen Demuth. Para sanar ou minimizar o problema, Engels assumiu a paternidade e deu o até o nome próprio Friedrich ao filho não perfilhado pelo companheiro. Ademais, por necessidade, Marx escreveu, após o Manifesto, para jornais de língua inglesa, inclusive o New Yorky Daily Tribune, durante bastante tempo. Marx mesmo revelava que “o homem faz a sua própria história, mas não o faz como quer...”. Por fim, o insuspeito filósofo marxista brasileiro Leandro Konder pondera: “Antes de poder contestar a sociedade capitalista Marx pertencia a ela, estava espiritualmente mais enraizado no solo de sua cultura do que admitia”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/12/2011. - [BRASIL, 2010 - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasil-2010-diario-do-nordeste/): A estatística é uma ciência/arte enganosa. Piada antiga: se você estiver com os pés em uma fornalha e a cabeça em um freezer a média será boa. Números são usados ao prazer das circunstâncias, desde sempre. Ninguém, entretanto, é louco para desconhecer o nosso crescimento. As estatísticas do Censo 2010 do IBGE são confiáveis. O grande problema do Brasil, além da educação precária, da desigualdade absurda e da saúde ruim é a crença de que já “chegamos lá”. Infelizmente, ainda não. A Itália, em crise declarada, tem renda média de 30 mil dólares por pessoa/ano e uma bem menor desigualdade. O brasileiro tem a renda/média de US$10 mil ano e exulta. O integrante da classe C mora em áreas com saneamento precário, segurança sofrível e espreme-se nos coletivos em viagens demoradas, pilota motos em zig-zag ou usa carros básicos sem condição de segurança. As motos e os autos, ao acabar a garantia, produzem defeitos já pela depreciação programada, péssimas condições das estradas e passam a ser o deleite das oficinas pequenas com preços mais baixos, embora algumas não apresentem qualidade. A par disso, muitos dos componentes vendidos pelas lojas de autopeças são genéricos ou refugos das montadoras. E isso é um detalhe. Os dados pontuais mostram como estamos distantes do que se propaga. Você sabe que 25% da população brasileira ou 47 milhões de pessoas vivem com apenas 188 reais por mês? O fato, por si só, desmente o mito da riqueza. Em euforia, pessoas de todas as classes abusam do cartão de crédito e financiamentos com parcelamento a perder de vista. 60% da população está endividada e isso gera problemas e mais renda para bancos, lojas, cartórios, Serasa e SPC. Deus dá um jeito, acreditam muitos. A palavra parcimônia deveria ser mais bem explicada e divulgada neste Brasil de consumo desenfreado. Você não pode e nem deve ser julgado pelo carro, casa, roupa e até pela bebida que ingere, mas pelo compromisso efetivo com a sua vida e o futuro. Dívida é problema sério. A incapacidade do autocontrole destrói vidas promissoras. O seu amanhã agradecerá. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/12/2011 - [FUNK, BEBIDA, LINCHAMENTO E IMPUNIDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/funk-bebida-linchamento-e-impunidade-jornal-o-estado/): Aos que perderam familiares para a violência. O que leva um grupo de pessoas em plena cidade de São Paulo numa noite de domingo a linchar um motorista de ônibus que, em desmaiando, ocasionou batida em três carros, três motos e feriu um jovem? O fato aconteceu no Jardim Planalto, zona leste de São Paulo, nesta semana. Ali perto, acontecia uma festa Funk com cerca de 300 pessoas, carros e motos na via pública. Prá, prá, prá. Ao ouvirem o barulho, certamente alto para ser escutado em meio à música, 40 deles saíram à rua e foram sem saber ou indagar as razões do acidente, entrando no ônibus e atacando o motorista, Edmilson dos Reis Alves, casado, 60 anos, pai de quatro filhos e considerado por seus colegas de trabalho, um profissional exemplar. Além de socos e pontapés foi atingido na cabeça, sem pena e repetidas vezes, por alguém que manuseava o extintor do próprio ônibus. A primeira ideia é culpar o funk, ritmo decorrente da mistura do jazz, soul music e do swing e que tem pouco mais de 20 anos no Brasil. Em 2009, a lei estadual de No. 5543, do Rio de Janeiro, diz, no seu artigo primeiro, o seguinte: “Fica definido que o funk é um movimento cultural e musical de caráter popular”. O estranho dessa mesma lei é que o parágrafo único do citado artigo primeiro dispõe que: “Não se enquadram na regra prevista neste artigo conteúdos que façam apologia ao crime”. Uma pergunta: Qual a razão da ressalva? Já havia apologia ao crime, então? Para que legislar então sobre essa cultura popular? Muitas vezes, os funkeiros saem da teoria para a prática. Você poderá até dizer: mas a lei é do Rio? Não importa. O que fica claro é a negligência, a falta do que fazer e o descompromisso de quem legisla absurdo como esse. E como ficam os que praticaram esse crime coletivo? Nenhum dos agressores foi preso. E o IML de SP ainda vai concluir se a morte decorreu do mal súbito ou da múltipla agressão. No dia seguinte, motoristas colegas do morto fizeram uma paralisação que logo foi reprimida.A segunda ideia seria criminalizar a bebida consumida nesses bailes que poderia exacerbar a natureza dos dançantes. Ora, faltavam 30 minutos para a meia-noite. Logo seria segunda feira. Por que a lei não proíbe a venda noturna de bebidas alcoólicas em festas nas noites domingueiras? Outra lei? Por que não pensar em uma terceira ideia? A falta de escolaridade, civilidade e, quem sabe, trabalho dessas 300 pessoas em um embalo noturno dominical. O fato é que mais uma pessoa morreu por conta da clara violência urbana brasileira, tão braba quanto às lutas libertárias que acontecem neste momento nos países árabes. Hoje, o medo e a violência andam pela mesma via das cidades, enquanto as lâmpadas se quedam acesas e os postes, eretos, floresce a escuridão na mente de alguns jovens brasileiros, especialmente esses que talvez nada tivessem a fazer na manhã seguinte, segunda, dia de trabalho ou de estudo. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/12/2011. - [NOVOS LÍDERES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/novos-lideres-diario-do-nordeste/): O Fórum de Líderes encerra amanhã, em São Paulo, com a festa da eleição dos novos líderes brasileiros, a sua programação do ano que, entre outros eventos, ousou trazer o Dalai Lama e mostrar que há razão para se entender as mudanças que o tempo exige nas características de um novo líder empresarial. O dirigente espiritual do Tibet é exemplo de conduta, perseverança e faz do seu viver o espelho para os que merecem o galardão de guia. Líder não é aquele que, por esforço próprio, herança ou casamento, assume o controle de uma empresa, seja pequena, média ou grande. Líder é aquela pessoa que transforma os outros a partir de seu exemplo, da luta centrada no bem estar coletivo e no propósito explícito de seus princípios. Para os novos líderes, direi que não é líder aquele que utiliza suas relações para obter proveito, assumir posições em entidades de classe e, em seguida, ver pavimentado o caminho para obtenção de informações privilegiadas, empréstimos subsidiados e favores de toda a natureza. O Brasil tem avançado neste século, mas perduram erros e omissões de todos que nos colocam no incômodo 84º. lugar no Índice de Desenvolvimento Humano-IDH. Não vale, simplesmente, estar chegando a ser a 6ª. economia mundial. O que nos tornaria singulares seria uma melhor distribuição de renda, o bom uso do dinheiro público para bem construir moradias populares e ampliar o saneamento básico que só atende a 60% dos brasileiros. O que nos daria alento seria uma reforma tributária que se retarda em nome da ausência de austeridade na gestão do dinheiro público. O que nos consagraria seria o fim do analfabetismo e um ensino público de qualidade. Orgulho teríamos se a saúde do povo brasileiro não estivesse comprometida com o ainda elevado índice de mortalidade. Liderança não deve ser sinônimo de esperteza, gentilezas, tampouco de “network” ou de relacionamentos espúrios. O que desejamos para todos é a face limpa e consequente de uma nova liderança nacional que não transige com o malfeito e sabe dos seus direitos cidadãos. João Soares Neto, Líder do Fórum, desde 2001 CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/11/2011 - [OCUPE, DESOCUPE, CULPE OU DESCULPE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ocupe-desocupe-culpe-ou-desculpe-jornal-o-estado/): Ocupar é verbo transitivo direto da 1ª. conjugação e seu uso, em outras línguas, não é de agora. A ocupação é antiga. Os romanos estavam na Judéia quando Cristo foi preso. Acreditavam ser ele ativista político e não líder religioso. Em rápidas e frágeis pinceladas: espanhóis e portugueses descobriram as Américas e delas fizeram o que quiseram, por séculos. França, Holanda e Inglaterra pintaram e bordaram na África. A Inglaterra ocupou a Índia. Árabes permaneceram na península ibérica por séculos. Napoleão, o conquistador francês, só foi vencido pelo inverno russo, em 1812, parecendo dizer: desocupe nossa terra. Alemães atravancaram quase a Europa inteira nos fins dos 30 e metade dos anos 40 do Vinte. Aqui no Brasil, a coisa é, quiçá, mais simples: colocando o “zoom” no Brasil dos fins do século 20 e neste começo do 21, temos a figura do MST, Movimento dos Sem Terra, ocupando fazendas, versão pós-moderna do que desejava Chico Julião, no começo dos 60, com as “Ligas Camponesas”. Neste novembro, estudantes da USP ocuparam parte daquela universidade sob o pretexto de o campus ser território livre e poder-se, ali, fumar o que quiser. Falavam, sem saber, das favelas cariocas. Ali, a ocupação, começou em 1897, por ex-soldados desvalidos voltando da Guerra dos Canudos, após matar o nosso Antônio Conselheiro. Povoaram o Morro da Providência. Deu no que se sabe. Hoje em dia, a onda grassa entre camelôs que já não se conformam em atuar como ambulantes. Sitiam praças, ruas e átrios de igrejas. Do outro lado da Terra, a queda da ditadura egípcia de Hosni Mubarak, no brotar da Primavera Árabe, começou com a ocupação da praça Tahir pelos jovens. Agora, meses depois, caiu o governo militar tampão egípcio com protestos na mesma praça. A esfinge de Gisé observa tudo. Nos Estados Unidos, jovens de credos, raças e rendas desiguais, ocupam, há meses, a mini-praça Zucotti, próxima da Wall Street. Como sabem, a rua Wall fica na parte mais baixa do distrito de Manhatann, em NY. Imigrantes judeus holandeses ocupavam a área em 1615 e ergueram,em 1652, um muro (wall) para proteger a vila e os seus negócios. A área é nanica, mas reúne hoje - em ruas estreitas e sinuosas -altos edifícios de bancos e entidades financeiras que, até bem pouco, eram fortes. Além da Grande Depressão de 1929, houve em 1987, no dia 19 de outubro, a Segunda-feira Negra, com a desvalorização alucinante das ações da Bolsa de Nova Iorque. Depois, em 11 de setembro de 2001, aconteceu o atentado às Torres Gêmeas que representavam o poderio da área. O problema econômico mundial causado pelos bancos e governos em 2008 ora se agrava. A Europa sofre. O movimento “Ocupe Wall Street” já está em dezenas de cidades americanas e tende a crescer, mesmo com a repressão policial. Nesta penúltima semana de novembro de 2011, uma péssima notícia. A Super Comissão formada por 12 integrantes do Congresso americano, dos partidos Democrata e Republicano, não chegou a um acordo para o pacote fiscal que pudesse tirar o país da confusão econômica. Assim, os Estados Unidos, ficam mais vulneráveis. Nessas ocupações e notícias atuais, de naturezas tão distintas quantos seus objetivos, não há quase mais nada de ideologia em jogo, parece mais um espasmo neste mundo desigual e desgovernado que caiu no fosso criado pelo “circo da ambição” de que falava o escritor John Taylor, em livro homônimo, em 1993. João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO Jornal O Estado EM 25/11/2011. - [BODES E ATAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bodes-e-atas-diario-do-nordeste/): Estive no Clube do Bode para saudar a 500ª. ata de sua vida livre, pública, publicizada, mutante, etílica,esfuziante, crescente, minguante, intelectual, verborrágica, crítica e de passos registrados pelo vigilante escrivão-mor Audifax Rios, o nosso Pero Vaz. Os cadernos de capa dura são fornecidos pelo pai de chiqueiro-mor, Sergio Braga, o bom livreiro com a infeliz carreira secundária de político e guardião de seus amigos. De princípio, éramos poucos. Destaco, sem preocupação memorialista, as figuras de Barros Pinho, Carlos Augusto, Juarez, Teles, Augusto, Iranildo, Ubiratan, Pardal, Mônica, Giordane, Cláudio, Lustosa, Lúcio, Passeata, Falcão, Ruy, Erle, Airton, Narcélio, Pedro, Saraiva, Siquerinha e outros que, infelizmente, esqueço. Alguns já ocupam a terra do sempre. Outros, idealizaram-se. Éramos circunscritos à sala pequena, disputada, bem servida e democrática do Sérgio. Ela fica no final do grande corredor que é a Livro Técnico. Atulhada de livros, fotos e lambanças de todos nós. Lá, ele reina, atrás da escrivaninha e do computador aberto, na sua forma pacífica de pessoa grande e acolhedora. Lá se fala de tudo e de todos, discute-se em linha doida. Novos/velhos candidatos a intelectuais com imprevisíveis produções distribuem convites para lançamentos. Anexo, pequeno banheiro, visitado por algumas próstatas cansadas ou a nascente do rio lastreado por lúpulo, malte, cevada e fermento. Se alguém sair antes do fim para outras (des)aventuras nas noites de sextas e vesperais de sábados, fica certo que seu nome será discutido, esmiuçado e que tais. Depois, a calçada. Ata após ata, muitos se achegaram, até grafando nomes, orelhando conversas acreditando incorporarar a filosofia bodeana. Ledo equívoco. Meros passantes em busca da fama que não temos numa já quase decenária entidade sem lei ou ordem, consumidora de pães e mais material que espiritual. Agora, os veros bodes reafirmam a missão de exigir que Sergio comande e o Audifax perpetue em atas com palavras, desenhos e relevos o novo desígnio: não ter meta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/11/2011 - [MANCHETE NO CHÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/manchete-no-chao-diario-do-nordeste-2/): Os que nasceram dos anos 90 para frente, se não virarem historiadores ou jornalistas, não saberão que houve um grupo de comunicação chamado Manchete. Aconteceu assim: uma família de judeus ucranianos, em 1922, imigra ao Brasil com parcos capitais. Entre eles, um jovem de 14 anos, Adolpho Bloch Esse menino era filho de gráficos que conseguiram comprar uma pequena impressora para fazer cadernetas do “jogo do bicho”. Nos anos 40, destemido e capaz, passa a trabalhar com Roberto Marinho, na Rio Gráfica, e ali cresce profissionalmente. Em 1952, funda a revista Manchete que, em pouco tempo, passa a ser a mais lida do Brasil. Seu ex-colaborador Carlos Heitor Cony, sarcástico como sempre, diz que Adolpho não tinha vocabulário maior que 500 palavras. Mesmo assim, reuniu a nata dos escritores de então e deu-lhes emprego e espaço. A partir de Clarice, Drummond, Sérgio Porto, Otto Maria Carpeaux, o próprio Cony e outros. Arnaldo Niskier, jornalista, professor, escritor, acadêmico e uma espécie de sobrinho de “Seu Adolpho”lançou, agora, o livro “Memórias de um Sobrevivente”, focado na sua figura, que tinha JK como o seu maior amigo. Niskier fala da vida e da obra do velho judeu, com suas revistas, emissoras de rádio e a TV Manchete, criada em 1983. Casado, sem filhos, morre em 1995. Em 2000 foi decretada a falência das empresas Manchete. A sede, invadida por sem tetos. Hoje, em notícia de pé de página na Folha, leio que foi implodida. Ali,o Governo fará apartamentos do “Minha Casa, Minha Vida”. Thomas Mann, escritor alemão, dizia: “A glória em vida é algo problemático: é aconselhável não se deixar deslumbrar por ela”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2011 - [EMENTÁRIO DA CORRUPÇÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ementario-da-corrupcao-jornal-o-estado/): Terça-feira, 15, nove horas, Proclamação da República, o telefone toca: “João, gostaria que você escrevesse sobre a corrupção no Brasil. Houve manifestações públicas nos dias 7 de setembro, 12 de outubro e outra, hoje à tarde. Pouco se divulga na grande imprensa, exceto a Folha de SP que lançou até um caderno sobre Corrupção, em setembro passado, ajude”. Prometo. Pesquisei. Cumpro agora. Em Roma, no princípio da era cristã, o poeta Juvenal dizia “Em Roma, tudo se compra”. Shakespeare, no século 16, na peça Hamlet, escrevia: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. Como se vê, a história é antiga. A corrupção é o ato ou o jeito sutil de seduzir e corromper. A partir da adulação do corruptor, da pretensa amizade e, afinal, da tentadora proposta que aguça o desejo de ganho fácil de alguém, surge o corruptível que se torna, em seguida, corrupto. Dito isto, contarei que o Brasil não é o único país corrupto do mundo, embora apresente indicadores graves. Howard Hugues, excêntrico empresário norte americano, fornecedor de equipamentos na Segunda Guerra, foi um exímio corruptor de governos e sofreu vários processos federais. Há tudo sobre ele em biografias e no filme “O Aviador”. Existem dezenas de casos no mundo contemporâneo, no ocidente e oriente, e em países desenvolvidos, mas centremos o foco no Brasil. No Brasil, ela foi endógena, desde a colonização portuguesa. Entretanto, penso que uma forma didática de tratar do assunto é situá-la a partir da Constituição de 1988, quando o Brasil voltou a ser, de fato, uma República. Há corrupção, mas existe combate duro. Isso também precisa ser dito. O Ministério Público, a Receita e a Polícia Federal são os entes mais destacados nesse embate complicado. Enumero dez casos emblemáticos, todos de domínio público. Lembram? O primeiro foi a denúncia fraterna, em 1992, de Pedro que culminou com o desmanche do governo de seu irmão, Fernando Collor, acolitado por PC Farias que, anos depois, seria assassinado. O segundo ocorreu em 1993 com “Os Anões do Orçamento”, denunciado por José Carlos Alves dos Santos, diretor da própria Comissão, que mostrou os desvios das emendas parlamentares da Câmara dos Deputados e culminou com a renúncia do Dep. João Alves e a prisão da Dep. Raquel Cândido. O terceiro foi o que envolveu Paulo Maluf e, em consequência, Celso Pita na segunda metade dos anos 90 com obras superfaturadas. Pitta morreu e Maluf resiste com o mandato de Dep. Federal. O quarto foi o escândalo da construção do prédio do TRT de São Paulo, em 1998 encabeçado por Luiz Estevão. O quinto viria do norte do país, a fraude da SUDAM, em 2001, encabeçado pelo Senador Jáder Barbalho que perdeu a Presidência do Senado e renunciou ao mandato, para não ser cassado. A Operação Anaconda, em 2006, a sexta, decorreu de ação da Polícia Federal, resultando na prisão de servidores públicos federais graduados. O sétimo – e mais famoso – é o Mensalão, assim denominado por ajudar, a cada 30 dias, políticos comprometidos. Descoberto em 2003 por Roberto Jefferson envolveu parlamentares e bancos. O oitavo, em 2006, foi a “Máfia dos Sanguessugas”, afetando mais de 100 deputados/senadores com o superfaturamento de ambulâncias para prefeituras. O nono, A Operação Navalha, em 2009, já nas obras do Plano de Aceleração do Crescimento-PAC, aponta Zuleido Veras, dono da construtora Guatama, Silas Rondeau, ex-ministro e outros. O décimo é o Mensalão do DEM, no ano passado, que apresentou vídeos de José Roberto Arruda, ex-governador de Brasília, recebendo dinheiro. Como se nota, o Ministério Público, a Receita, a Polícia Federal e o Judiciário têm feito as partes que lhes cabem, cortando nas próprias carnes e abrindo ações penais em todas as instâncias, até mesmo no Supremo Tribunal Federal. (Dedicado ao falecido jornalista Temístocles de Castro e Silva, de quem se podia discordar, mas não negar o seu espírito de guardião de causas públicas) João Soares Neto cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/11/2011. - [A CONTA DE LUZ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-conta-de-luz-diario-do-nordeste/): Deveria ter escrito custo da energia, mas luz chama mais a sua atenção. Praticamente todos os brasileiros(99%) são usuários de energia elétrica, uma das mais caras do mundo, saiba você. Ela é cara, não apenas pelas privatizações, mas pela sanha dos impostos e os lucros das distribuidoras, inclusive nos serviços adicionais. Existe uma agência reguladora do assunto, a Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel. Agora, a Aneel trata de definir regras para o que chamou de 3º. Ciclo de revisão tarifária. Há, no Brasil, 63 distribuidoras de energia, todas muito bem, obrigado. Quando houve a privatização/concessão estabeleceu-se que existiria revisão. Até agora, nada de positivo foi feito em favor dos consumidores de energia: todo o povo brasileiro e todas as empresas. O que pouca gente atenta é a quantidade de impostos que se paga na conta de energia. 45% do total vai direto para o Governo, em tributos e encargos. Deixando claro: se a sua conta é de 100 reais, 45 vão para os cofres públicos. Neste ano, até outubro, o governo havia arrecadado 54 bilhões de reais só da luz. Ano passado, 2010, as despesas dos brasileiros com energia chegaram a 118 bilhões de reais. Sei que número não é bem agradável para o dia de domingo, mas todos devem saber o que pagam e porque pagam. Ninguém defende o consumidor brasileiro. Há uma Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres –Abrace, mas pouco se sabe de êxito em seus propósitos públicos. O que se vê é a exorbitância cobrada pela energia. Nos horários de pico, quando mais se precisa dela, é um saque. Não há uma frente de deputados e senadores para atenuar a tributação e os encargos da conta de energia. Além da energia de sua casa, você ainda paga a iluminação pública que deveria ser coberta pelo IPTU. No Brasil, sabe-se, imposto não baixa. Abrange tudo o que você faz. Lembre-se disso ao acender o cigarro, pegar o transporte coletivo, ligar o carro, fizer refeições, tomar uma bebida ou abrir a televisão. O brasileiro deveria se preocupar mais com o que paga de impostos, encargos e taxas. Antes que seja tarde, apague a luz. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/11/2011 - [E-MAIL E TELEFONE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/e-mail-e-telefone-jornal-o-estado/): Antes mesmo de Steve Jobs despontar no mundo cibernético eu procurava - em tempo de brasilidade excessiva – mexer nos nacionais computadores. Cobra, por exemplo. Que jeito. Ia, passo a passo. Digo melhor, dedo a dedo. Não havia e-mail, existia lista telefônica por nome e endereço e a ajuda do 102 não era essa praga digitalizada. Agora, 48% dos brasileiros têm computadores, outros milhões usam e-mail e há 210 milhões de telefones celulares pré-pagos, pagos e institucionais. Como se presume que Deus vê e ouve tudo, imaginem a zorra que esses milhões de conversadores fazem ao telefone. A toda hora, nossos endereços eletrônicos recebem convites de amigos e até de estranhos para participar de redes sociais. Ora, ora. Parece ser natural todos perguntarem os números dos nossos telefones e os e-mails. Não é. Atendentes, frentistas, amigos, colegas, corretores e vendedores abusam do direito de pedir o que pode nos incomodar 24 horas por dia. E se você quiser que o número do seu telefone não seja divulgado pela voz metálica do 102 há que pagar uma taxa mensal pela privacidade à gestora de sua conta que, unilateralmente, mensura os minutos das ligações que recebemos e fazemos. Quem nos diz que o minuto dela tem 60 segundos? Quem nos diz se tudo não é contado, inclusive os trins, trins e as vozes que pedem para deixar recado? Essas agências reguladoras governamentais, até agora, nada fizeram pelos consumidores, pois seus integrantes não são técnicos, mas políticos ou afins a serviço de partidos no poder que recebem boas remunerações e generosas doações dessas operadoras. Quanto aos e-mails o problema é grave. Há serviços gratuitos e pagos. Os gratuitos – para você - são usados – por eles - para vendas de listagens empresariais por profissão, idade, sexo, renda, endereço etc. Os pagos seriam reservados. Os provedores prometem respeitar o seu usuário.. Quem garante? Todos recebem e-mails tidos como “Spams” ( mensagens comerciais não solicitadas, pornografia, propaganda política, sites de relacionamento etc) que precisam ser apagados ou rejeitados por antivírus. Os antivírus podem ser pagos ou gratuitos. E aí recomeça a história da invasão de sua caixa postal. É ato de fé ter um computador ativo neste mundo de “hackers” contumazes, espiões libertinos ou os interessados na nossa vida pessoal/profissional. Milhares são os computadores que sofrem ainda invasões de detetives particulares ( as propagandas estão nos anúncios de jornais) e escutas – autorizadas ou não - pelos três poderes, até editando o que as pessoas falam para atingir os objetivos desejados. Como somos pós-modernos pagamos o preço. Hoje, temos uma vaga noção de tudo e conhecimento de quase nada, parafraseando Charles Dickens. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/11/2011. - [PORTA DA IGREJA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/porta-da-igreja-diario-do-nordeste/): Manhã e dia de trabalho. Sol forte. Acompanhava o trânsito lento da Rua Moreira da Rocha quando tudo empacou. Estava ao lado da Igreja da Santa Luzia olhando para a esquerda. Vi o simpático Padre Apolônio ao lado de outra pessoa, também de “clergyman”, verificando o exterior do templo. Aprumei a visão e conclui que o outro era o Arcebispo de Fortaleza, Dom José Antônio Tosi. Tráfico, parado. O que fazer? Estacionei o carro e fui ter com os dois. Interrompi o que falavam dando bom dia e perguntei a D.José Antônio, com quem nunca falara, porque ele aparecia tão pouco. Foi o bastante. Ele, mais ou menos, retrucou assim: estou com erisipela de tanto andar pelas comunidades de Fortaleza. Procurei dizer que não me referia às comunidades, mas Fortaleza, como um todo. O antístite não me deu tréguas: Estou cansado dessa história. Padre Apolônio, nervoso e conciliador, sugeriu que eu fosse à sacristia comprar o seu livro, de nome significativo e texto acessível: “O que ainda tenho a dizer e o que disseram de mim”. Voltei, livro a mão, pedi desculpa pela intromissão, cumprimentei-os e me despedi. Liguei o carro e pensei: Agi errado. Não deveria ter entrado na conversa dos dois. Lembrei, meio sem querer, de D. Aloísio Lorscheider disponível para qualquer pessoa, cristã ou não. De sua integração com as lutas sociais, sem prejuízo para a condução do rebanho. Rememorei o dia em que troquei ideias com o seu sucessor, o filósofo D. Cláudio Hummes - em um salão de hotel - sobre o celibato dos sacerdotes, enquanto a Bíblia fala em apóstolos casados (1 Coríntios 9:5 e 1Timóteo 3:12 ). Foi uma conversa amena e ele, de forma serena, falou apenas que era obediência. O bispo, na hierarquia da Igreja Romana, segundo o Dicionário de Liturgia, do Padre Sabino Loyola, exerce, em grau eminente, três funções: a de profeta, sacerdote e pastor. O pastor é aquele que tem paciência com os balidos de suas ovelhas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/11/2011 - [NOTÍCIAS PÚBLICAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/noticias-publicas-jornal-o-estado/): Minha mãe, com 92 completados domingo passado, diz para não se brincar com as coisas do mundo e cuidar das palavras. Lembrei disso ao ouvir Orlando Silva falar que era “indestrutível”. Dias depois, era ex-ministro. Semana passada, o Ex-presidente Lula brigava pelo nome do Ministro Haddad, da Educação, para a vaga de candidato a prefeito pelo PT de São Paulo. Enquanto isso, Marta Suplicy chorava implorando por uma prévia. Nesta semana, Haddad está, mais uma vez, atrapalhado pelo Enem. Onde já se viu fazer pré-teste igual a texto de exame? E, ainda por cima, culpar um colégio. Colégios e cursinhos vivem de “bizus”, desde sempre. O Colégio Christus tem 60 anos e é acreditado. A culpa é da preguiça de reformular, pelo menos, o enunciado e a natureza das questões. O resto é desculpa. Aldo Rebelo mês passado foi derrotado pelo Gov. de Pernambuco, Eduardo Campos. Agora, é ministro do Esporte. Ana Arraes, mãe de Eduardo e nova ministra do Tribunal de Contas da União, adversária de Aldo na disputa pelo TCU, promete bem fiscalizar as contas da Copa agora gerida pelo alagoano Rebelo que é deputado por São Paulo. Aldo chama futebol de ludopédio, como purista da língua portuguesa que é. O Dep. Tiririca, filho do Ceará e o mais votado por São Paulo, recebe, segundo ele, 500 pessoas por dia, em seu gabinete na Câmara dos Deputados. Fiz umas contas. Se ele passar cinco horas trabalhando, o que é uma gracinha, terá que atender cem pessoas por hora ou menos de um minuto por pessoa. Como serão essas conversas? Imagino: Secretária abre a porta. Oi, sou fulano, quero isso. Prazer, sou o Dep. Tiririca. Tenho não. Volta depois. Tchau. Fecha a Porta. Entra outro. Estudantes de Filosofia e História da USP lutam com a Polícia Militar de SP pelo direito de fumar o que quiserem no Campus. O Brasil está no 84º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano: temos 73,5 anos de expectativa de vida, estudamos entre 13,8 e 7,2 anos e ganhamos, em média, 10 mil dólares por ano. Apesar disso, somos a 6ª. economia do mundo. Juazeiro do Norte é a terceira maior cidade produtora de sapatos do Brasil, mas a maioria da população usa chinelo ou sandália. A revista Veja apresenta, abertamente, a amante por dezoito anos de Juscelino Kubitschek, morto em 1976, Maria Lúcia Cardoso, que permaneceu casada todo esse tempo. Qual o objetivo desse “furo”? Jô Soares escreve livro em que o personagem esgana mulheres gordas. Freud talvez explique. O Brasil perde para a pequena Cuba na contagem geral de medalhas e fica no terceiro lugar do Pan-Americano de Guadalajara, México. O cineasta espanhol Pedro Almodóvar lança, com seu humor rascante, um filme bizarro. “A Pele que Habito”, segundo ele, reflete as mudanças do século. Ora, o século tem apenas 11 anos e o mundo habita, neste novembro, sete bilhões de pessoas. Os motociclistas são os brasileiros que mais dão despesas ao SUS. Falando da crise: Frau Merkel pode ter salvo o Euro. Dilma está em Cannes na França, mas é outono. Nada de cinema. Cinema é na primavera. Agora é reunião do G-20 para discutir a quebradeira do mundo. Não seria melhor em Asmara, na Eritreia? Os europeus precisam de dinheiro, mas não perdem o estilo: tapis rouge. João Soares Neto Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/11/2011. - [DEFINIÇÕES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/definicoes-diario-do-nordeste/): Ela é cearense, mãe, avó e pintora renomada de alma e saber grandes. No seu dia a dia, em recanto bonito de sua casa misturado com árvores acolhedoras, livros a mancheia, lidos e mexidos, quadros dos outros e seus com frases contidas/insertas e bem certas, instalações e adornos pendurados, ela dá aulas a pessoas escolhidas que querem aprender a pintar ou usam o tempo e os pincéis como terapia para os desalentos da vida. Desde que a irmã se encantou, para tristeza verdadeira de nós, os poucos, em um começo de junho do último ano findado em quatro do século morto, passamos a conversar de forma aleatória, mas sempre. Amigos. Poucas vezes ao vivo, pois mora na cidade das pontes e dos dois rios. A de João Cabral de Melo Neto, o poeta do menos, adotada por Ariano, o menestrel suassunense armorial. Poucas vezes pelo fio, mesmo sem fio, pois há tarefas a cumprir nos duplos horários descompassados. Trocamos e-mails. Ela me incita a entrar no Facebook, mas não aceito. Esse mundo virtual nada virtuoso. Somos expostos e fazem de nós o que querem. Editam, mexem no texto e contexto plantando coisas não ditas e sem raízes/razão. Agora, em resposta a uma provocação minha, manda-me algumas definições de aluna sua. Pelas definições, você verá que as aulas não constam meramente de pincéis, cavaletes e tintas. A arte, como ela faz, transcende a cromatologia, as duas dimensões e apoderando-se da filosofia não fica aprisionada nas dimensões da tela. Surrealista? Mais que isso. Assim, surgem iluminuras nas conversas misturadas com café, avental sujo e a volatilidade da fumaça expandida após o trago profundo. Veja, com atenção, o que uma sua aluna acredita ser quietude: “tento fazer daquilo que não tem som, o ruído de mim mesma”. Sobre a enigmática e portuguesa palavra saudade, ela pinta: “a viagem que o meu coração faz não tem final”. Quem sabe, triste, define a passagem da esperança: “só quero um dia me lembrar do lugar por onde nunca passei”. Contemporânea - paradoxalmente romântica - incorrigível arremata: “sofrer por amar não tem século”. E como os outros, filósofos ou artistas, conclui: “Ilusão, tu me abortas”. Ainda há salvação no mundo, pensar é o caminho. Badida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/10/2011 - [CRISTINA, ARGENTINA OU “ARGENTINA HOY” - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cristina-argentina-ou-argentina-hoy-jornal-o-estado/): Em 26 de outubro de 2007 escrevi, neste jornal O Estado, o artigo “Argentina, Cristina”. Faltavam dois dias para a eleição presidencial. Havia voltado de lá, conversara e ouvira que a mulher de Néstor Kirchner seria eleita. Em certa parte do meu texto, dizia: “Assim, a partir de segunda, o país vizinho que oscila entre a alegria com que encara o futebol e a amargura com que se deixa dominar pelo dramático compasso do tango e pelas tragédias pessoais, amanhece com a mesma face e isso já pode ser dito, pois Néstor e Cristina formam uma dobradinha e governam juntos, sem nenhum preconceito. A grande maioria dos argentinos encara a eleição com indiferença”. Como previsto, Cristina foi eleita e começou a dirigir, em comunhão de atos, com o seu marido, Néstor. Acontece que a tragédia, não a grega, mas a portenha, faz parte da essência argentina. Em 27 de outubro passado, Néstor morre de infarto inesperado. Velórios pungentes em Rio Gallegos, província de Santa Cruz, sua primitiva base eleitoral, e em Buenos Aires, onde se federalizaram. Cristina adorna-se de preto, aumenta os cílios, potencializa a biografia de seu marido, esquece seus erros e dá toques escuros ao vermelho de sua longa cabeleira. Sua imagem cresce ao sabor da economia. Dispara dardos contra o grupo detentor do jornal “El Clarín”, fecha-se na Casa Rosada com poucos amigos e assessores e disputa as prévias, uma inovação no processo eleitoral de lá. Sai fácil na frente com mais intenções de votos que todos os outros candidatos. Agora, completa um ano de seu luto. Seu filho Máximo, 34 anos, cria o movimento social esquerdista “La Cámpora”, para perpetuar o kirchernerismo - ou seria o “Cristinazo”? -, tudo com o tempero do velho peronismo. Domingo passado, 23 de outubro, Cristina foi reeleita. Vai recomeçar com um país mais fortalecido, tal como o Brasil, vendedor de commodities, como a soja e o trigo. Midiática, apenas sorri com a postura de viúva antiga, na maturidade dos seus 58 anos. Seu vice-presidente é Amado Boudou, 48 anos, economista, empresário, ex-ministro da economia, jovial e amante de rock. Fala-se, desde já, em reforma constitucional para um terceiro mandato, mas há a sombra da crise econômica a rondar o mundo e a formar seguidos estoques de veículos lá fabricados, 80% dos quais são vendidos a um pais, com o qual tem trânsito e diferenças antigas, dirigido por outra mulher, Dilma. Lá, como aqui, a nova história começou em 2003. Todos estes assuntos foram discutidos esta semana sob o tema “Argentina Hoy”, por Carlos La Rocca, assessorado por Carlos La Rocca Jr., na abertura de seminário em que a Sociedade Consular do Ceará realiza. A ideia é aprofundar estudos sobre cada país que possua representação consular no Ceará. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/10/2011 - [O TELEFONE TOCA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-telefone-toca-diario-do-nordeste/): O telefone toca. Não atendo. Toca, novamente. Alô. Reclamações de uma mãe. Ouço tudo. É um desabafo forte, sofrido e abusado. A filha dela mudou o compasso. Não entra em contato com parentes. O que lhe causava pejo parece ter, aparentemente, modificado. Encastela-se no seu mutismo e não ouve ninguém. Acredita-se capaz de tocar a sua vida, sem palpites e destemor. A vida não é idílio. Vidas têm borrões inapagáveis e não dá direito a pausas, replays ou o uso de corretivos. Vida é trânsito, direto. Vida é construção em caderno de folhas a serem escrevinhadas - riscadas, sublinhadas, emendadas - apenas a cada dia. Quando a página vira, virou. Os dias precisam ser conjugados com temperança ou destemor, amor e trabalho. É claro que o instinto vale, mas há que se lançar para viver, mesmo que se trombe, caia, o humor mude, vacile ou desacerte o passo. A pitada de alegria que dá o condimento do viver tem que ser aditada à água grande que é a realidade fática. Dizia Sêneca, mais de 2.000 anos passados, que vida sem meta é vagabundagem. Veja o original latino: “Vita sine propósito vaga est”. Não posso fazer ou querer dizer o propósito alheio, cada qual tem que pisar o seu inferno ou paraíso. Ouvir harpas celestiais ou o ranger de dentes. Falei que a vida é construção. Como se pode construir se o terreno é alheio. Cada um que capine a sua terra, revolva, tire os escolhos, regue, adube e faça crescer o que bem plantar. Não importa se é um mero lote, alqueire, hectare ou sesmaria. Você é o seu arado, acione-se, caleje as mãos, de sol a sol. Como colher frutos se não escolher boas sementes, semeaduras corretas, regar e cuidar? Cada um escolhe o que colocar em seu terreiro, na sua cama, mesa ou sua sala. Estarei filosofando ou dizendo impropriedades? Não importa. O que tento é analisar o fato que me foi passado, com tristeza. As perdas e ganhos são pessoais, não os transferimos por palavras escritas, tampouco por falas não escutadas. Alguns não vêem o que lhes é mostrado, explicado e ponderado. Paciência, cada um que cuide de seus calos, torcicolos, bolsos e mentes. Será chegada o tempo de se saber o não revelado. E aí poderá vir o momento de ser relevado. Ou não. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/10/2011 - [CURUMINS PINTANDO, ARISTON E JOBS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/curumins-pintando-ariston-e-jobs-jornal-o-estado/): Há um Salão de Arte Infantil do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno em curso, é o de número 27. A parceria com a Galeria Benficarte, do Benfica, neste outubro, reproduz o desejo de que as crianças que frequentam os benfazejos salões do conservatório, dirigido e cuidado pela maestrina Miriam Carlos, cresçam em meio a todas as artes. Sem manhas. A música é a principal, a pintura é a acessória. Ambas, juntas, compõem, em parte, a pauta do viver. A partitura necessária ao crescimento, sabendo que o sol é um astro, mas é, igualmente, uma nota musical. Estas nuances, vitais para sair do quadrado da vida dão a cada infante a oportunidade de criar, pintar e retratar o que, provavelmente, não saberiam traduzir em palavras. Abrahão Victor, Alice Barroso, Alice Sayão, Gabriela Bezerra, Helen Raíssa, João Gabriel, Lemaire Ellen, Lídia Helena, Lívia Barroso, Lucas Santiago, Luiza Sayão, Maria Clara, Marina Carlos e Rodrigo Barros são os expositores deste ano de 2011, o ano em que uma mulher assumiu a presidência da República, o ano em que eles despontam para fugir da razão e mostrar que a emoção e o sonho são, também, sinais positivos de vida. Cito dois exemplos para vocês. Neste mesmo ano e mês de outubro de 2011 morreu João Ariston Pessoa, curumim de Cascavel, a mesma terra adusta de outro curumim de ouro, Edson Queiroz, no interior cearense. Ariston tornou-se visionário e subia aos céus, adentrando nimbos e stratus, de todos os matizes, para ter terra no chão que tentaram lhe tirar, sem êxito. Foi-se, deixando uma diferente e insuspeita TAF, Tarefa Ariston Feita. Descanse em paz. Um exemplo para curumins. Outro a morrer, Steve Jobs, filho de pai iraniano e mãe americana que o entregaram para adoção. Sorte que um casal pobre – os pais adotivos - o tratou com carinho e ele fez-se gente, design revolucionário e mexeu com o modo de comunicação entre as pessoas em todo o mundo. Ele pode ter sido vaidoso, egoísta e megalomaníaco, mas fez a diferença neste início de século de terrorismo, guerras, corrupção e crises econômicas. Outro exemplo para curumins. A vocês, curumins do Conservatório que mexem com solfejos, instrumentos musicais, escalas, diapasão, pincéis e tintas, as nossas boas vindas ao clube dos artistas. As pessoas têm, mesmo que não queiram, personas. O artista é a pessoa transmudada em persona. Sejam todos bem-vindos, a arte os abençoa nesta exposição em que a liberdade de expressar sentimentos se faz presente. Que cresçam e usem as suas artes para o bem da humanidade ainda precisada de alimentar sonhos, além da comida na panela, saúde e trabalho. Ser pequeno, em idade, não significa ser limitado em criatividade. Quem quiser ver os artistas, aproveite. Quem sabe se do meio deles não surgem alguns Aldemir, Bandeira, Sérvulo, Chico da Silva, Estrigas, Audifax, Nearco, Zenon, Descartes Gadelha, Sinhá, Nice, Sergei de Castro, J. Mendes, Jane Lane, Fernando França, Emília Porto, Ascal e Luciana Falcão, entre outros. Parabéns a todos e, especialmente, a seus pais que os encaminharam, em meio ao bulício da areia movediça do mundo atual, para o sagrado e inesgotável caminho e pastoreio das artes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/10/2011 - [SEREIA, QUADRAGÉSIMA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sereia-quadragesima-diario-do-nordeste/): Em 1971, o industrial Edson Queiroz dava os primeiros passos institucionais para a fundação da Universidade de Fortaleza, Unifor, que se tornaria concreta em 1973. Ao mesmo tempo, criava, no seu Sistema Verdes Mares de Comunicação - fundado no ano anterior- uma premiação anual para os cearenses destacados em suas áreas de atuação profissional e/ou a pessoas, aqui não nascidas, mas vinculadas ao desenvolvimento do Estado. A esse prêmio deu o nome de “Sereia de Ouro”, inspirado nos nossos verdes mares bravios. As sereias, na mitologia, eram metade mulher, metade peixe, e atraiam, através dos seus cantos maviosos, os navegantes fazendo com que os seus navios colidissem com as rochas. Em 1917, Franz Kafka, no seu conto “O Silêncio das Sereias”, dizia: “As sereias, porém, possuem uma arma ainda maior do que seu canto: o silêncio”. O que Edson Queiroz talvez desejasse expressar, ao escolher a sereia como símbolo desse galardão anual, seria que a opção dependia não dos “navegantes” interessados em obtê-lo, mas da instituição que o criava, segundo critérios por ela estabelecidos. A primeira solenidade aconteceu em 1971, na sede do Sistema na Av. Desembargador Moreira, no seu átrio, sob a torre da Televisão Verdes Mares. De lá para cá, são decorridos 40 anos de solenidades anuais ininterruptas, mesmo que algumas tenham acontecido em situações adversas. Agora, nesta quadragésima festa, ocorrida no Theatro José de Alencar, na última semana, com a presença de gradas autoridades, entre outros, dois ex-presidentes da República, o Sistema Verdes Mares entregou, na saída, aos convidados, um cuidadoso livro em que pereniza a cerimônia, através de fotos e dos discursos de agradecimento proferidos pelos representantes dos homenageados dos últimos 36 anos, posto que nos quatro primeiros anos as falas foram de improviso. Na apresentação do livro, D. Yolanda Vidal Queiroz refere que: “Temos certeza de que esta publicação será um marco na bibliografia da oratória no Ceará, cuja leitura dará prazer e conhecimento àqueles que cultivam a sublime arte da eloquência”. Mais que isso, esse livro-documento é um passeio histórico sobre o Ceará e sua gente, nos últimos quarenta anos. A História se faz da lembrança e registro do passado. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/10/2011 - [PEGADINHAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pegadinhas-jornal-o-estado/): Hoje se fala muito em pegadinhas. Está na moda, no rádio, televisão, internet e no telefone. Existe maior pegadinha que a própria vida? Um dia, você se dá conta de que tem um pai e uma mãe, embora não tenha sido consultado sobre isso. É a primeira pegadinha da vida. Como você viveria sem as pegadinhas da infância, do estudo, da convivência familiar, da maturidade obrigatória, do trabalho para viver, das surpresas matrimoniais, das doenças, das expectativas com os filhos e da idade maior? Vai dizer para mim que tudo foi – ou está sendo - como você planejou? Que tudo deu certo na sua vida? Deixa de papo. A vida é um cipoal. E o tal parceiro que você descobriu ser marginal? E o sócio larápio? Vou parar por aqui e apresentar algumas pegadinhas conhecidas para você se acalmar, pensar e decifrar. Não se apresse em responder, pense primeiro. Toda vez que me apressei, entrei pelo cano. Vamos às pegadinhas. São cinco. 1. Se você dividir 30 por ½ e somar com o número 10, quanto dará? 2. Um pastor tinha 17 ovelhas. Todas morreram menos 9. Com quantas ele fica? 3. Quantos pares de meia tem em uma dúzia? 4. Existe 7 de setembro nos Estados Unidos?5. Alguns meses tem 31 dias, quantos meses têm 28 dias no ano? Pense um pouco. Pode parar para resolver. Pegue um papel, faça contas ou raciocine. Enquanto isso voltemos às nossas vidas. Vá lá aos seus guardados e procure uma foto sua, das antigas. Segure a foto com a mão esquerda, acenda a luz e fique defronte a um espelho. Você se reconhece no espelho ou na foto? Fala sério, não me engane. Você é os dois, em tempos diferentes. Esta é uma pegadinha dupla. O tempo, esse ser que ninguém aprisiona, mexe com você a cada segundo que passa, mas só o notamos após anos. Pensamos que nunca teremos rugas, tampouco o cabelo ficará para sempre viçoso e poderemos manter a forma de um Adônis ou a plástica de uma Afrodite? Tenha cuidado na vida, criatura. Tudo é comandado pelo tempo, você vai na onda, mesmo sem querer. Mais uma pegadinha, quem está atrás do último? Claro que não há ninguém. O último é o último. Já descobriu as respostas das perguntas que fiz lá acima? Quer tenha respondido ou não, confira comigo: 1: 70 (trinta dividido por ½ é sessenta. Some dez e dá 70) ; 2: 9 ovelhas;03: 12, óbvio;4: claro, 7 de setembro existe em toda parte.5: todos os meses tem 28 dias, alguns tem mais. Viu que tudo é pegadinha. Se acertou as cinco, ótimo, você é uma pessoa ligada. Se não acertou nada é porque você não se concentrou nas perguntas. O fato, amigo, amiga é que o inesperado sempre faz uma surpresa, como diz a música. Resumo da conversa: não se leve a sério, faça como essa conversa que tivemos. Ela não é nada séria. É uma pegadinha, quem sabe. Concorda comigo?. Cuidado com pegadinhas ou com os trombadinhas. Bom fim de semana. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/10/2011. - [ANAC E DESASTRES AÉREOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/anac-e-desastres-aereos-diario-do-nordeste/): Reconhecemos ser o avião meio de transporte seguro. Igualmente, admitimos que, para serem seguros, os aviões devem apresentar boa manutenção, pilotos capazes e com razoável estabilidade emocional. O acidente do voo da Vasp – que se chocou, em 1982, com a serra da Aratanha – no procedimento de aterragem para Fortaleza, pode ter sido provocado por desconfortos emocionais do comandante que, em grave crise existencial, cometeu falha primária matando 137 pessoas. Recentemente, levantou-se dúvida sobre a competência do copiloto do voo Rio-Paris da Air France para lutar contra a emergência eclodida e causado, em 2009, a precipitação da aeronave no oceano Atlântico vitimando 228 pessoas. Como se sabe, o comandante estava em repouso e, quando foi acordado, não houve tempo de reverter a situação. Há alguns anos, em longo voo para a Ásia, conversei com o comandante – que acabara de “repousar” – e, em seguida, voltaria para a etapa final. Ele me disse que esse repouso é relativo, pois, para dormir por poucas horas, seria preciso desligar de tudo. Um comandante, além das preocupações profissionais, tem família e, consequentemente, problemas com mulher, filhos, financeiros, saúde etc. Essa conversa franca me faz agora escrever sobre o assunto. Recentemente, um avião russo Tupolev-134, caiu no procedimento de descolagem(take-off) do solo com a morte de uma famosa equipe de hóquei sobre patins. Agora, o Comitê Russo de Aviação informa que a queda ocorreu por erro da tripulação e, o mais grave, o piloto “estaria embriagado”. A partir desses fatos indago por que não haver mais rigor pela Anac no controle, em terra, do estado físico dos tripulantes? Simples bafômetros e uma picada para verificação de uso de drogas estupefacientes em rápidos exames de sangue poderiam evitar, antes dos voos, quem sabe, grandes ou pequenos acidentes. Pilotos, como todas as pessoas, têm problemas e podem usar a ingestão de álcool e/ou drogas como linimento a seus males reais ou imaginários. Não seria desrespeito ao piloto, mas a confirmação da sua completa sanidade para a importante tarefa de transportar centenas de pessoas. Não falo em exames periódicos. Sugiro exames diários, antes dos voos. Milhões de passageiros diários agradecerão. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/09/2011 - [A GÊNESE E O CAOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-genese-e-o-caos-diario-do-nordeste/): Faz 10 anos hoje. Natércia Campos liga: abra a TV, veja o que está acontecendo nos Estados Unidos. Liguei e me vi engolfado nos ataques. O resto, todos sabem. Ou imaginam saber. O choque me levou a reler parte do que havia publicado antes de 11.09.2001. Chamei isso de Gênese. Logo depois, escolhi o gênero conto para descrever os efeitos que pessoas e fatos me passaram. Escrevi onze e os intitulei de Caos. São histórias breves, concebidas, a partir de leituras e do meu olhar: A Bolsa e o Channel; A Festa do Sacrifício; A Separação; Atrás da Porta; Maria e Paul; O Espírito; O grande Dia; O vôo; Os Escombros; Os números; e Uma Questão de Física. Juntei as duas partes no livro “Sobre a Gênese e o Caos”. O jornalista Carlos Augusto Viana resolveu fazer, na edição de hoje do Caderno Cultura deste DN, um passeio por esses contos. Dê uma olhada. Conheci Nova Iorque bem antes da construção das torres gêmeas, na baixa Manhattam, perto de Wall Sreet. Pronta, a visitei e nela tenho fotos. Depois dos acontecimentos, voltei ao Marco Zero. Área arrasada, tapumes, centenas de trabalhadores e gruas em novo projeto. Visitei, com vagar, museus e memoriais surgidos nas vizinhanças. Vi uma pequena igreja bem próxima daqueles ataques. Havia sido poupada. Milagre? O fato é que os Estados Unidos, a partir de G.W. Bush, a pretexto de acabar com o terrorismo e desvendar as supostas armas atômicas do Iraque, já gastaram, até hoje, três trilhões de dólares, incluindo tropas no Afeganistão e bases de apoio na Europa. Obama e seus “marines” conseguiram matar Bin Laden e esconderam – ou destruíram - o corpo para evitar peregrinações muçulmanas ao local de seu sepultamento. Neste domingo, quatro dias depois das manifestações civis, convocadas pela Internet, contra a corrupção em todo o Brasil, é bom que os políticos e o povo lembrem das lições que a História nos dá, a partir de 2001, agravando-se em 2008 e sem data para findar. A América, emitindo dólar, e o mundo em crise. Nada a ver? Tudo a ver. Mudam o enredo, o palco, mas os atores se assemelham. A guerra agora é econômico/financeira. A corrupção é o epicentro. Terrorismo diferenciado. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/09/2011. - [BOAS NOTÍCIAS DO MÉXICO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/boas-noticias-do-mexico-diario-do-nordeste/): O Zócalo esteve fechado. O Zócalo é o coração da cidade do México. Monumental logradouro, como não existe no Brasil. É circular e cercado de tradição, relíquias arqueológicas, a catedral e edifícios públicos. Ali acontecem as grandes manifestações e cerimônias nacionais. Por isso, esteve fechado até quinta. Na sexta, 16, reabriu esplendoroso para a comemoração do 201º. aniversário da Independência Mexicana ou do “Grito de Dolores”, proclamado em 16 de setembro de 1810. Dou boas notícias do México, país maltratado pela mídia brasileira. O México não é um caminho circunstancial do narcotráfico. No Brasil não se sabe que a primeira universidade mexicana, a Real Pontifícia Universidade, foi fundada em 1551. Tampouco se diz que no país está a maior e mais qualificada universidade da América Latina atual, a UNAM, Universidade Nacional Autônoma do México. Pouco se comenta que o escritor mexicano Octavio Paz ganhou o Premio Nobel de Literatura, em 1990, e que Mario Molina foi o vencedor do Nobel de Química, em 1995. O Brasil luta, em meio a problemas, para sediar a sua segunda Copa do Mundo de Futebol, em 2014. O México já teve duas copas, em 1980 e 1996. Sem comoção nacional. Muitos pensam que o país asteca está na América Central, mas ele faz parte da América do Norte, constituída pelos Estados Unidos, Canadá e México. Esses três países formaram a ALCA, aliança que catapultou as relações de comércio e deu ao México o portão de entrada e a liderança em desenvolvimento econômico entre todos os países latinos das Américas. O país é presidencialista, com mandato de seis anos, sem reeleição e sem segundo turno. Felipe Calderón é o seu atual e 65º presidente e fez do mandato uma luta renhida contra o narcotráfico. Ele sai em 2012. A próxima eleição presidencial será a 1º. de julho do próximo ano e três nomes despontam para sucedê-lo: López Obrador, Marcelo Ebrard e Peña Nieto. Saiba ainda que o diretor do filme “Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban” foi o mexicano Alfonso Cuáron. Para terminar, cito Octavio Paz: “Não sei se a modernidade é uma bênção, uma maldição ou as duas coisas. Sei que é um destino...”. João Soares Neto, Cônsul Honorário do México CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/09/2011 - [VERDADE INVENTADA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/verdade-inventada-jornal-o-estado/): Com uma semana de antecedência ela comemora a sua data. Tem pressa para viver no presente. O passado está emoldurado. E o faz cercada da família, das filhas meninas, de um batalhão de colegas e amigos que a acompanham desde o “Canarinho”, o “Santa Cecília”, o “Batista”, “Boca Ciega” e a Uece. Como defini-la? alegre, irreverente, avant-garde, comunicativa, derramada, afetiva, curiosa, corajosa, calorosa, inteligente, braba, meiga, chorona e beijoqueira. Nasceu em uma sexta-feira, o dia em que todos se preparam para a festa que é o fim de semana. Ela foi a festa. Primogênita em série que a sucedeu com o mesmo calor, amor e carinho. No seu convite, cita, de forma resoluta, Clarice Lispector: “Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada”. Parece que acertou em cheio. Sua vida é verdade inventada por ela mesma, sem palpite de pai ou mãe. Fui, além da mãe e da equipe médica, o primeiro a vê-la e beijá-la. Que nome dar a ela? Havia comprado um livro com centenas de nomes, mas nada ficara decidido. A mãe, pressurosa, sugeriu o nome de uma czarina russa. Assim ficou. Como pai-coruja já estava escrevendo deslumbrado no seu livro do bebê. Depois, abreviei o nome, de forma mais conexa. Primeiro dia de aula. Lá fomos, a mãe e eu, levá-la ao maternal. Haja choro. Nós acabamos chorando, também. Depois, veio a adaptação e a formação de laços de afeto com os coleginhas. Acontece que a vida não produz só flor. Dizia o doce Vinícius que “filho é uma raiz de dente exposta”. Passamos sete dias em Belo Horizonte. Legal. Findo o maternal, era hora de procurar colégio novo, maior e adequado para o seu perfil. Vai para o Santa Cecília onde esteve por anos. Fazia parte do processo. E a menina recebeu, com alegria, a chegada das irmãs, uma, duas e três. A última, por mãos da natureza, nasceu no mesmo dia que ela, por conta de uma casa de bonecas. Começam as aulas de balé, aprender a nadar e o inglês.Festivais, carnavais e que tais. A casa de praia nas férias em que ficávamos brincando e recebendo amigos. Quebra um braço e lá se vai o fim de semana para o ar. Chega a puberdade, florescem dúvidas, abrolha a angústia. Nós, atentos e confusos, sem saber como lidar com as mudanças advindas para todos. Surge a ideia do intercâmbio nos USA. Viajo como destacamento precursor, para ver escola, conversar com a direção e acertar, com os tios, a estada. Levei e voltei com duas, carro atulhado, pois a segunda a acompanhava. Fez amizades com colegas e uma delas deve estar agora na festa de que falei no primeiro parágrafo. Choro em rodoviária. Termina o colégio e entra direto na Universidade Estadual do Ceará. Lá do outro lado da cidade, todos os dias. Mesmo com resmungos, ups e downs, termina o curso sem problema. Resolve estudar teatro e participa de curso completo na Unifor. É bom lembrar ter sido sempre a coreógrafa de sua turma. Reunia irmãs e filhos de amigos comuns, montava peças, desfiles e jogos, tudo sob os nossos olhares. Viajou mundo afora. E a moça quis casar. E assim o fez, como quis, concebendo duas belas filhotas. Agora, no limiar da segunda metade do existir, decide, cria, arregimenta família e amigos para um “happening” vespertino com o seu feeling e modo de ser. Parabéns, Deus a abençoe, agora e sempre. Cheiro. Estou por perto. Take care. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/09/2011 - [A ESTÉTICA DOS FEIXES DE LUZ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-estetica-dos-feixes-de-luz-jornal-o-estado/): Os jornais trabalham com pautas. Pautas são instruções da Editoria para, por exemplo, se cobrir um acidente, evento ou intempérie. Os jornais, quase sempre, mandam uma dupla: repórter/jornalista e fotógrafo/repórter. Eles vão à luta sabendo que o fato jornalístico é tal como o jornal, efêmero. Têm que ir e voltar correndo. Além disso, se a notícia interessa a todos os jornais, ganha não o que chega primeiro. Ganha o que fizer a melhor cobertura. A melhor é a manchete, chamada ou Notícia de Primeira Página. Além das grandes letras, são as fotos que induzem o leitor à matéria retratada. A palavra retratada, clicada, foi o alvo. Ela é instantânea, flagrante que o repórter fotográfico conseguiu captar em meio a policiais, curiosos, corpos ou acidentes naturais. A exposição da Galeria Benficarte em homenagem ao Dia do Repórter Fotográfico de 02 até o dia 15 próximo, no horário das 16 às 22 horas, é evento artístico/cultural e um ato de reconhecimento ao valor desses profissionais destemidos, preparados, sutis em suas acuidades capazes de ver/captar o indizível. Não têm eles o tempo e os recursos disponíveis de um Sebastião Salgado para criar arte em meio a desastres naturais e tragédias. Têm, entretanto, os fundamentos deixados por Cartier-Bresson para a foto-jornalismo na estética momentânea, apressada até, mesmo que ela agrida – como denúncia – os sentidos de quem a vê nos jornais. Reuniu-se o que há de mais expressivo em fotógrafos dos jornais O Povo, O Estado e Diário do Nordeste, citados na ordem de seus tempos de existência. Os artistas são em ordem alfabética. Do O Povo: Alcides Freire, Deivyson Teixeira, Edimar Soares, Fco. Fontenele, Gabriel Gonçalves, Iana Soares, Igor de Melo, Marcus Campos, Mauri Melo, Rafael Cavalcante e Sara Maia; do O Estado: Anderson Santiago, Iratuã Freitas, Nayana Melo e Tiago Stille e; do Diário do Nordeste: Alex Costa, Cid Barbosa, Eduardo Queiroz, José Leomar, Kid Júnior, Kiko Silva, LC Moreira, Marília Camelo, Miguel Portela, Natinho Rodrigues, Rafa Eleutero, Rodrigo Carvalho, Tuno Vieira, Viviane Pinheiro e Waleska Santiago. Alguns, são veteranos. Outros, maduros. Há, ainda, jovens de ambos os sexos, que escolheram essa instigante profissão. A todos, um pensamento de Ezra Pound, poeta americano: “Toda arte começa na insatisfação física (ou na tortura) da solidão e da parcialidade”. As fotos - em preto e branco e em cores – dizem por que estão expostas. São distintas, belas e expressivas. Algumas, contundem. Outras, enlevam. Cada uma configura um flagrante, uma representação ou infunde no leitor pasmo, êxtase, incômodo, dissabor, revolta ou adesão. Cada autor vai tecendo a sua arte pela experiência, intuição, conjuntura, liberdade ou visão. Com as repetições das formas obtidas, embora dessemelhantes, tem-se o estilo, a identidade do autor. Parabéns a todos. Creiam que esta exposição orgulha os que trabalham com a arte e a cultura na Galeria BenficArte. Eles não apenas expõem, vivenciam o que mostram. Vale a pena dar uma passada, são 150 fotos do melhor nível. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2011. - [JOBS PADECE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/jobs-padece-diario-do-nordeste/): Você já ter lido em jornais e revistas sobre Steve Paul Jobs. Certamente já ouviu falar dos i-Pod, i-Phone e i-Pad, para ficar apenas nos favoritos da Apple, a empresa que Jobs criou. Ele nasceu em 1955, filho de sírio e americana que o deram para adoção. Um eletricista americano, Paul Jobs, e sua mulher Clara, descendente de armênios (Hagopian), adotaram e amaram a criança como filho. Jobs, menino curioso, teve a felicidade de contar com vizinho engenheiro, Larry Lang, que o iniciou no mundo sem limite da criação. Entrou num curso de engenharia em Oregon, mas logo desistiu. Queria criar e assim o fez. Com o dinheiro ganho no primeiro trabalho resolve passar um tempo na Índia e, de lá, volta budista e vegetariano. Conhece Steve Wozniak e acreditam poder trabalhar juntos. Venderam a calculadora eletrônica HP de Wozniak e a surrada van Volks de Jobs. Apuraram 1.300 dólares. Dessa quantia e do talento de ambos surge a Apple, nada mais que a junção do engenho de Wozniak e o genial design de Jobs. Em 1976, em produção independente, teve uma filha, Lisa. A palavra Jobs é o plural de job (trabalho). Assim, Jobs desejava trabalhos, muitos. Em 1980, a Apple abre o seu capital e, em 1985, ele é destituído da presidência (CEO) pelo Conselho, por questões internas. Magoado, mas criativo, funda, - em parceria - os estúdios de cinema Pixar, que já produziu filmes como "Toy Story", "Procurando Nemo", "Carro" e outros. A Pixar vira ouro. Forma a NeXT, de tecnologia. Em 1991 casa com Laurene Powell, com quem tem três filhos. Em 1996, a Apple compra a NeXT e ele volta a comandar a sua cria. A Apple toma tento e passa a produzir os famosos i, derivados de internet. O primeiro foi o i-Pod - de música- em 2001. Já bilionário, Jobs, em 2004, é acometido de raro tipo de câncer pancreático. É operado. Em 2007, cria o i-Phone. De lá para cá, o espartano Jobs - tênis, calça jeans e camisa rolê preta- transplanta o fígado, perde peso, e neste final de agosto sai da presidência da Apple, após o sucesso do i-Pad 2. Consciente e alquebrado. Um provérbio árabe diz: "Deus não completa nada para ninguém". O lado árabe de Jobs vai lutar. O americano, desconfia. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/09/2011. - [PEQUENA VOLTA AO MUNDO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pequena-volta-ao-mundo-jornal-o-estado/): Este ano de 2011, dez anos depois do 11 de setembro que fez profundos estragos na defesa e autoestima norte americana, tem sido devastador para os políticos e países, de modo geral. Não falo apenas do que se chamou, desde logo, de primavera árabe. O ano possui 4 estações, lembro. Pondero acerca do que nos chega pela televisão aberta e de assinantes, jornais, revistas, sites e blogs. O que vou narrar é conhecido. Foi exposto à exaustão. Aproveito a didática do sociólogo Ricardo Antunes para ir passando de país a país e/ou de continente a continente. De princípio, a dita Primavera surge na Tunísia, em meio a sindicalistas e revolta popular. Derruba a ditadura de Ben Ali. Brotam flores. A civilização egípcia, com seus ricos museus, as pirâmides Quéops, Quefren e Miquerinos, sob a vista da estátua de Gisé, vê as águas do Nilo banhadas por sanha indomável que fez praça em Tahir e conseguiu a queda de Osni Mubarak. Hoje, réu e doente. Depois, como vendaval, o tempo foi fechando para os governantes da Jordânia, Argélia e Síria. No fim de agosto, cai na Líbia, Gadafi com toda a riqueza explícita de seus vários palácios, jato Air-Bus personalizado com camarinha de luxo, enquanto a pobreza do país é gritante. Ao mesmo tempo, mulheres árabes são presas em vários países por defenderem o prosaico direito de dirigir automóvel e por “traição” a seus maridos que têm tantas mulheres quantas puderem sustentar. Saíamos do mundo árabe e nos instalemos nos Estados Unidos, a Inglaterra de ontem. Obama sofreu todas as humilhações que o conservador Partido Republicano, por sua ala mais aguerrida e cronologicamente jovem - o atrasado “Tea Party” - conseguiu aplicar no Congresso. Agora, os EEUU estão engessados em sua monumental dívida. Aparece até um terremoto com epicentro na Virgínia, arredores de Washington. Wall Street provoca a queda das bolsas de todo o mundo. 2008 voltou ou continua? Militares americanos vão saindo do Iraque e o país sofre com o “Irene”, o furacão em sua costa nordeste, com prejuízo de bilhões de dólares. Descendo um pouquinho, entramos em Cuba e temos notícia de que Fidel Castro está prestes a sucumbir ao tempo que o consome, fisicamente. “Patria o Muerte”. Não mais ouviremos, por enquanto, os longos discursos de Hugo Chávez, o homem das bravatas na Venezuela petrolífera. Ele luta, de forma pública, contra câncer em sua região pélvica. Lula viaja a países latinos como “speaker” e defende interesses de grandes empresas brasileiras de construção civil que se implantaram em toda a América do Sul para fazer estradas, portos, siderúrgicas, oleodutos e que tais. No Chile, o rico presidente Piñeda, vê a sua aprovação popular cair na casa dos 26%. Greves, patrocinadas por estudantes e centrais sindicais paralisam o país, em pleno inverno. Cristina Kirchner carrega na maquiagem e se prepara para novo mandato na Argentina, o país que foi referência. No Brasil, jornais fazem o papel de oposição e conseguem, após denúncias, a demissão de quatro ministros. Enquanto isso, a deputada Jaqueline Roriz – filmada recebendo propina - é inocentada pela Câmara dos Deputados. Colegas. Descobre-se o óbvio: político adora viajar de “jatinhos”, preferencialmente sem pagar. Dilma Rousseff ainda é parábola e, todas as noites, conversa – em voz baixa - com a mãe e a tia, pessoas em que pode confiar. Voejemos pelo oceano Atlântico e empaquemos no continente africano: quase dizimado por guerras civis, fome endógena, doenças endêmicas e a Aids com seus perigos. Abandonemos os países africanos, por enquanto. Deixemo-los cuidando de guerras tribais, despotismo, corrupção, dívidas – inclusive às da Copa do Mundo - e a incursão europeia, americana e chinesa em suas riquezas naturais. Vizinha à África, separada apenas pelo Estreito de Gibraltar, a Europa é fustigada. O sonho do Euro, como moeda comum, custa caro a países como Portugal, Espanha, Itália e outros menores. A conta está para ser paga, o desemprego cresce. Há xenofobia na Velha Albion, a que esnobou o Euro. Viu-se fumegante em Londres, Tottenham, Manchester e Liverpool. Surge a ideia da criação dos “Estados Unidos da Europa”. Ainda não falei da Índia, com greve de fome do pacifista Anna Hazare, presumível novo Ghandi, “que morrerá contra a corrupção”. Cansei, paremos por aqui. Estamos em setembro, faltam quatro meses para o 2012. Que chegue logo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/09/2011. - [O TEMPO SÓ TEM IDA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-tempo-so-tem-ida-diario-do-nordeste/): Dizia La Fontaine, o das fábulas, "Correr não adianta. É preciso partir a tempo". E o que é o tempo e a tempo? Pergunto a Santo Agostinho e ele - quase - responde: "Que é, pois, o tempo? (...) Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar (...) já não sei". O mais maroto e um dos mais belos poetas brasileiros contemporâneos, Manoel de Barros, versa: "O tempo só anda de ida". Pois é. O futuro chegou como fazia crer Albert Einstein: "Nunca penso no futuro, ele chega rápido demais". Colecionei 25.550 dias. Abrolhei um ano depois de Trotski ser assassinado no México e um antes de Vargas se converter em amigo de Franklin Roosevelt na 2ª. Guerra Mundial. Alfabetizei-me na volta da democracia. Estudei em meio a crises, inflações, secas, enchentes, greves, renúncia, golpes e conclui a universidade pública quando a Revolução de 64 se implantava. Como durmo seis horas por dia, gastei 6.380 dias a repousar. Assim, não tenho os tais 25.550 dias, mas (25.550-6380) meros 19.170. Em cada ano passei 30 dias alimentando-me (2 horas por dia) ou um total de 50.400 horas sentado em mesas de café, almoço ou jantar. Ponderando que trabalho e estudo sempre andaram juntos para mim, para fins deste raciocínio, digamos que comecei a estudar/trabalhar aos 10 anos. Apreciando também a média de um trabalhador brasileiro (44 horas por semana) e como o ano tem 52 semanas, chego, a 5.720 dias de efetivos afazeres. Como o meu ócio implica em duas horas por dia, acrescidos do tempo disponível nos sábados, domingos e feriados, direi que, a cada semana, tive 26 horas fora da lida que multiplicadas por anos dá um razoável tempo: 3.944 dias. Conclusão simples: preguiçoso! Então, cara, você é muito mais jovem do que imagina e não é este trabalhador/estudioso que pensa ser. Descansou pra valer, comeu assaz e dormiu um bocado. Vá lá, encara o tempo que falta e manda ver. Estique as pernas, trabalhe e pare de fazer contas confusas. Afinal, o que conta não é o que se conta, mas o que não se conta. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/08/2011. - [A FOME, HOJE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-fome-hoje-diario-do-nordeste/): Ao ler este escrito você já terá feito hoje, pelo menos, uma refeição. Poderá ter ingerido mais calorias que o recomendado. Em todo o mundo cerca de um bilhão de pessoas não terão o que comer. E eu com isso? Poderá perguntar. A história da fome no mundo é antiga, basta citar que, no século XVII, um terço da população russa morreu desnutrida. O continente africano é hoje o epicentro desse desastre humano. Ocorre na África pela exploração dos países europeus durante o período colonial e a não educação dos nativos para que crescessem intelectualmente e lutassem pela independência. Mesmo assim, o colonialismo acabou. Os poucos letrados que assumiram os poderes foram cooptados pela corrupção que hoje atinge construções, recursos naturais, como petróleo, metais nobres e pedras preciosas. Enquanto isso, o mundo fala apenas da oscilação dos mercados financeiros, popularidade do Obama, ataques fanáticos à Noruega e nenhum destaque à fome que se agrava. A fome é feia e não fica bem nos jornais e televisões. No país onde nasceu o pai de Obama, o Quênia, há 2,4 milhões de pessoas em estado de fome, o equivalente à totalidade da população de Fortaleza. Na Etiópia, temos uma Noruega de fome: 4,6 milhões. Neste agosto de 2011, ocorre a maior seca dos últimos 50 anos em África. Ela faz eclodir saques, a criação de milícias, guerras civis, governos corruptos e o lamento silencioso dos famintos, exauridos pela debilidade física. Estou falando apenas de um grave problema da África: a fome. Poderia falar de outro, o combate à Aids. Fica para depois. Se tiver curiosidade, tempo e coragem, procure ler sobre a fome no mundo. Tomará susto. José Graziano, o brasileiro eleito para dirigir a FAO - Organização para Alimentos e Agricultura da ONU, se prepara para assumir, em 2012, e não terá apoio dos países ricos. Eles possuem outras prioridades. Em outubro, a Terra conterá sete bilhões de pessoas, necessitando de comida, água, roupa, abrigo, educação e trabalho. Enquanto você leu o que escrevi - segundo profetizava o biólogo Paul Erlich, em "A Bomba Populacional", em 1986 - quatro pessoas terão morrido de fome. Pense nisso. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/08/2011. - [NEYMAR, PROPAGANDA, BALADA E FUTURO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/neymar-propaganda-balada-e-futuro-jornal-o-estado/): Há um jovem paulista do interior com dois sobrenomes bem brasileiros: Silva e Santos. Seu nome é Neymar, homenagem ao pai, ex-jogador, sem fama. Neymar ainda vai fazer vinte no princípio de 2012, mas ganha por mês mais que cinquenta ministros, juízes ou auditores da Receita Federal. Sua figura magra é encimada por cabelos cortados a Moicanos, tribo indígena norte-americana nômade que talvez ele nem saiba ter existido. O fato é que ao abrir a revista brasileira de maior circulação, edição desta semana, vi três páginas de propaganda usando a sua imagem. Fazia publicidade de cuecas, meias e de um serviço móvel de telefone. A agência espalha que dia 22 próximo, segunda, Neymar aparecerá de cuecas nas propagandas. A dos telefones, usa também a imagem do Neymar-pai e coloca o Neymar-filho como “futuro-pai”. Na realidade, Neymar deverá ser pai, mas não porque desejasse sê-lo. Sê-lo-á por exuberância de sua testosterona e o explícito compartilhamento/oferecimento de uma maria-chuteira com quem não tinha laços afetivos. Daí a explorar a sua imagem no Dia dos Pais vai um oportunismo cretino. Saio da revista, abro um jornal paulistano e vejo notícias da festa de outro jovem atleta de futebol, Lucas, que comemora 19 anos. Tudo patrocinado pela agência do Ronaldo, o fenômeno, e uma empresa de artigos esportivos. Na portaria, há lista dos convidados. Há a lista do aniversariante, lógico, mas há também a “lista do Neymar”. Esta lista é composta de novos-amigos e de “bonitonas”, loucas para aparecer, a custo de tudo. Neymar chega de touca preta, camiseta preta, camisa social aberta com listras rosa e branca, brinco fulgurante na orelha direita, crucifixo exposto de igual quilate e óculos escuros às mãos. Falam/brincam/sorriem que Neymar distribuirá 300 camisinhas, pois sabe o que já aconteceu com ele. A balada começa, tudo de graça. O DJ (o animador) aumenta a rotação sua pick-up(som) e todos entram na geleia geral da noite. Lá fora, moças de vestidos colados ao corpo, saídas da malhação e sapatos altíssimos lutam pela oportunidade de entrar. A Hostess (a que cuida das listas) resmunga, mas sempre aparece um “amigo dos amigos dos amigos”. E os seguranças-guarda-roupas, de preto, abrem a porta do paraíso, que se chama, por coincidência, Royal, de real, rei, majestade. É madrugada de domingo para segunda, o treino será logo à tarde, mas quem se lembra dessa chatice. E o futuro, que não dorme e não usa touca, fica do lado de fora da porta, à espreita, lembrando o que dizia Victor Hugo, escritor francês: “O futuro, fantasma de mãos vazias,/que tudo promete e nada possui”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/08/2011. - [PAI EM FORMAÇÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pai-em-formacao-diario-do-nordeste/): Repito-me, ano a ano. Sou pai dos anos setenta. Jovem, não entendia da vida de casado ou de puericultura. Fui tateando por leitura, intuição e senso comum. Acompanhei pré-natais, partos, visitas a pediatras, escolas, primeiro dia de aula, festinhas de aniversários, primeiras comunhões, natais, carnavais e que tais. Como o diálogo adulto/ criança não é simples, criei dois personagens para auxiliar: Paulinho e Rosinha. Irmãos, exemplares, moravam por perto, um pouquinho mais velhos e nunca os encontrávamos. Rosinha era estudiosa, obediente, não brigava com o irmão. Paulinho era alegre, compreensivo e dividia o que tinha com a irmã. Foram crescendo. Frequentei reuniões de pais e mestres, festivais de dança, vestia camisas borradas de tintas por elas e usava de inventividade nos aniversários. Em um deles aluguei ônibus e saímos, com outras crianças, passeando pela cidade, ouvindo música, vendo animais, parques, fazendo a festa ao ar livre. Cresceram. Veio a fase difícil da puberdade e no meio de cinco mulheres, eu, meio sem jeito. Era comunidade feminina ciumenta e possessiva. Acontece que além de pai, era marido. Já adultas, ocorreu a separação, difícil, e o divórcio. Sofreram. Sofri. Superamos. Hoje, elas têm filhos e sabem o que criança cobra e apronta. Uma me disse: “pai, as minhas filhas têm o mesmo ciúme de mim que eu tinha de você. Estou pagando”. Outra: “A oldest lê igual a você”. Outra mais: “O caçula tem seu temperamento”. Rosinha, o personagem, parece rediviva. Na medida da ignorância paterna, minha versão é mais amena. Tentei passar o que intuía, imaginava que sabia e o que admitia ser correto. Nossa casa, grandes árvores frutíferas, era um mini-parque ecológico/esportivo a acolher amigos para brincar, estudar e celebrar. Acordava-as, não faltava às refeições, chegava cedo do trabalho, íamos, por anos, à praia da Tabuba, viajávamos nas férias e ajudava nos deveres escolares. Acompanhei escolas, vestibulares, fins de cursos, procurei tê-las por perto no trabalho. Vieram namoros, fases difíceis, noivados, casamentos, partos e, agora, aniversários de netos. Hoje, dia dos pais, posso dizer a elas: contem comigo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/08/2011. - [A EXPOSIÇÃO SOBRE JOZE PLECNIK, A REPÚBLICA TCHECA E O CONCURSO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-exposicao-sobre-joze-plecnik-a-republica-tcheca-e-o-concurso-jornal-o-estado/): A Tchecoslováquia, como país, surgiu em 1918, com o fim do Império Austro-Húngaro. Tão logo nasceu o país, Jo%u017Ee Ple%u010Dnik foi chamado para ser o arquiteto-chefe do Castelo de Praga, em 1920. Ali trabalhou até 1934, mesmo que passasse, desde 1921, a viver em Liubliana, sua cidade natal, onde veio ao mundo em 1872. Liubliana era e é da parte Eslovênia. Seu pai era um carpinteiro durão que queria que seus três filhos tivessem “profissões práticas”. Por conta disso, Ple%u010Dnik formou-se em marcenaria - aos 16 anos - na Escola Profissional de Graz, em 1888. Com a morte do pai, Plecnik vai para Viena aos 20 anos onde estuda arquitetura com Otto Wagner, um dos luminares da arte na época. Wagner acreditava e professava que os motivos decorativos históricos não deveriam permanecer e propunha a criação de ornamentos mais leves e orgânicos. Findo o curso, Ple%u010Dnik, em 1911, viaja à Praga para lecionar no Colégio de Artes e Ofícios. Em 1920, repito, é convidado para ser o arquiteto-chefe das obras do Castelo de Praga. Seu trabalho dura 14 anos. Em 1948, a Tchecoslováquia passou a integrar, forçadamente, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS, através do Golpe de Praga. Finda a 2ª Guerra, a Tchecoslováquia continua com as duas etnias, os Tchecos e os Eslovacos. Finalmente, em 1993, com o desmantelamento da URSS, se reparte em duas, surgindo, através do acordo chamado “Divórcio de Veludo”, por ser amistoso, as República Tcheca e a Eslovênia. Jo%u017Ee Ple%u010Dnik, morto em 1957, volta a ser cultuado após os anos 80 e suas refinadas obras de arquitetura, escultura e marcenaria estão agora expostas, graças à Embaixada da República Tcheca, o Consulado Honorário local e a Sociedade Consular do Ceará em múltiplas e belas fotografias, na Galeria BenficArte (Av. Carapininima, 2.200, Mezanino) As fotos poderão ser apreciadas, com calma e atenção, gratuitamente, por toda a próxima semana. A Exposição do “Arquiteto de Praga” dever ser visitada, quase como parte da grade curricular por estudantes de arquitetura, bem como arquitetos, artistas plásticos, especialmente escultores, amantes da arte e pelo público em geral, como expressão eloquente do arquiteto, artesão e escultor Jo%u017Ee Ple%u010Dnik, na terra de Franz Kafka. A cidade de Praga fica no centro da Europa, rasgada pelo rio Vltava que obrigou a construção de belas pontes. Lá no alto de uma colina, no lugar chamado Hradcany, está o Castelo de Praga que, longe de lembrar os nobres seus ocupantes, nos remete à obra de um de seus arquitetos, mostrando que a arte transcende a política e a nobreza. Nela, os gênios nunca morrem. A propósito, no próximo mês de setembro, o Consulado da República Tcheca no Ceará, na pessoa do Cônsul Honorário Raimundo Viana, lançará com o apoio da Sociedade Consular do Ceará e da equipe cultural do Shopping Benfica, concurso exclusivo para estudantes, regularmente matriculados, em universidades públicas e privadas, que deverão escrever sobre o tema: “A República Tcheca e Praga são uma bênção”. O(a) vencedor(a) terá direito a viagem aérea de ida-e-volta à Praga, com permanência paga por dez dias. Que tal? João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/08/2011. - [O QUE É UM CÔNSUL? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-e-um-consul-jornal-o-estado/): O dia de hoje é consagrado ao Cônsul. O que é um Cônsul? Na Antiguidade Romana era o Magistrado Supremo. No ano de 509, antes de Cristo, Roma substituiu o rei por um magistrado, o pretor, cuja atividade tinha a duração de um ano. Nos meados do Séc. V a.C. essa atividade foi desdobrada em duas, sendo designados cônsules. Para exercer essa função exigia-se idade mínima de 33, depois 37 e, em seguida, 43 anos. O consulado era o ponto culminante da carreira política, sendo eleito pelos comícios centuriais. Durante um ano exerciam os poderes de Chefe de Estado. Emprestavam seus nomes ao ano em que exerciam suas funções. O fim dos poderes dos cônsules deu-se no crepúsculo do Séc. II a.C. Depois, já na era cristã, o imperador os designava e já no Séc. IV certas funções permitiam a inscrição na casta consular hereditária. Depois disso, a figura do Cônsul teve proeminência na Primeira República Francesa, em 1799, perdurando até o surgimento do Primeiro Império, em 1804, na chamada Revolta dos 18 de brumário, tendo sido escolhidos três cônsules, Napoleão, Sieyès e Ducos. De fato, o primeiro Cônsul Bonaparte exercia totalmente o poder. Na diplomacia atual, em todos os países, diz-se do funcionário que representa, em uma nação estrangeira, o seu país e tem como missão proteger os cidadãos desse país constituinte, ser fomentador de relações, notadamente comerciais e práticas de boa vizinhança. No caso do Brasil, os cônsules são funcionários de carreira, formados, a partir de 1945, no Instituto Rio Branco - assim intitulado em homenagem ao historiador e cônsul José Maria da Silva Paranhos, com atuação diplomática eficaz no final do século 19 e começo do 20, o Barão do Rio Branco - órgão do Ministério das Relações Exteriores. O lugar onde exerce a sua função é chamado de consulado ou repartição consular, que tem imunidade diplomática. No caso específico dos cônsules honorários eles devem ser cidadãos maiores de um país, reconhecidamente capazes, com penetração social, nele residente, e representar os interesses de outra nação. O processo de formação de um cônsul de carreira segue, em cada país, um rito próprio. Aqui no Brasil para exercer a diplomacia é necessário ser brasileiro, nato ou naturalizado, ter curso superior completo e submeter-se a um concurso público anual. O processo de escolha dos cônsules honorários começa com a indicação de um ou mais nomes pelo Embaixador ao governo do país por ele representado. Esses nomes são submetidos ao seu Ministério de Relações Exteriores e um deles é escolhido. Posteriormente, seu nome é enviado ao Brasil onde terá jurisdição que o submete aos órgãos de informação e ao próprio Itamaraty. Aprovado o nome, a ele é fornecida Carta Patente, por ordem da presidência da República do país que lhe concedeu o título, e a carteira do Corpo Consular Honorário Estrangeiro do MRE, com matrícula e número de série. Parabéns a todos os cônsules. Próxima segunda, dia 8, a Embaixada e o Consulado da República Theca juntam-se à Sociedade Consular do Ceará e abrem, às 19 horas, na Galeria BenficArte, exposição de fotos sobre a trajetória do arquiteto e artista Plástico Joze Plecnic. Vá lá. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/08/2011. - [CRÔNICA DO DESVARIO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cronica-do-desvario-diario-do-nordeste/): Não sei por onde começar. Escolho Amy Winehouse. A primeira vez que a vi, pela televisão, foi em Beijing. O telão do bar do hotel reproduzia show seu. Os caracteres e a locução eram em Mandarim. Só descobri o nome ao final. Entre estarrecido e curioso fiquei pasmo com a figura gótica, franzina e voz marcante. O sobrenome judeu Casa de Vinho (Winehouse) não se mostrou suficiente. Era adicta de tudo e ninguém parecia cuidar dela. Tinha cara de jovem desvalida e o que a distinguia dos consumidores contumazes de cocaína e crack eram o talento e a irreverência consequente. Morreu aos 27, por absoluta desconexão com o mundo que a aplaudia. O mito surgido pela insensatez humana. Pulo para Oslo e a Ilha de Utoeya, no país que tem, ao meu olhar, o sol da meia-noite mais bonito do planeta, Dinamarca, sempre admirada por seu recato social coletivo. Agora, um desatinado - porém inteligente - "cavaleiro templário moderno", Anders Behring Breivik, talvez leitor de romances do americano Dan Brown, como o "Código Da Vinci", ativa carro-bomba em Oslo e daí, friamente, se desloca, falsamente fardado, para matar dezenas de jovens reunidos em Utoeya. Volto à China, país que vende tecnologia para todo o mundo e vejo que dois trens se chocam e matam 43 pessoas. Como? Os Estados Unidos, por sua vez, sofrem a angústia que só terminará depois de amanhã, 02 de agosto. Se os partidos Democrata e Republicano não chegarem a um acordo, mínimo que seja, o país poderá dar o maior calote mundial. Se isso acontecer, tudo o mais virá em ondas gigantescas como um Tsunami macroeconômico para todos, Brasil, inclusive. Aqui, a presidente Dilma está quase terminando a gravidez de nove meses, desde o seu primeiro dia no Alvorada. Neste período, já não aceita mais os conselhos do médico Palloci, devolve o enxoval e os presentes do "republicano" Ministério dos Transportes, enquanto rumina como chegará à délivrance marcada para fins de setembro. Ao cabo, um registro pessoal de pesar: o falecimento nos EEUU da arquiteta Maria Clara Nogueira Paes Caminha, profissional de brio, filha exemplar e mãe de filhos capazes e cidadãos do mundo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/07/2011. - [ROBERTO MARTINS RODRIGUES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/roberto-martins-rodrigues-jornal-o-estado/): Os que foram alunos, nos cursos de bacharelado e pós-graduação, da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, a partir da década de 60, certamente concordarão comigo: o prof. Carlos Roberto Martins Rodrigues foi, sem dúvida, o mais comunicativo entre todos os mestres daquela escola centenária. A par disso, ele é um dos expoentes do Direito Administrativo em nosso país, mercê de sua formação acadêmica distinguida. Roberto, quando criança, sofreu uma grave desidratação, que já matara seus dois irmãos mais velhos, Maria Taís e Carlos Eduardo. Foi salvo pela alimentação da avó materna e a promessa de d. Zilda, sua mãe, de nunca mais usar joias, incluída aí a aliança de casamento. O menino, são e salvo, estava pronto para, ao chegar à adolescência, estudar piano e pedalar a sua bicicleta alemã Singer com buzina personalizada. Por outro lado, o aluno foi um dos integrantes da turma pioneira do Instituto Lourenço Filho e teve a ousadia de fundar, com outros jovens, o jornal “Fortaleza Repórter”, a Liga Exemplar Joaquim Albano - em desagravo ao mestre que o ensinara a falar francês precocemente – a Associação Mirim de Imprensa, o Circo Mascote e a “Beautiful Virgínia Band”, em homenagem à primeira namorada. Seu pai, o advogado, professor de Direito Civil e dep. federal José Martins Rodrigues, resolveu levá-lo para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde atuava, com brilhantismo, na Câmara dos Deputados. O jovem Roberto encantou-se com a cidade. Ia aos ensaios da Mangueira, admirava a música de Ary Barroso e as jogadas de Heleno de Freitas, o Pelé da época. Andava pela ainda brejeira Copacabana e aprendia a dançar na Avenida Danças e Brasil Danças, ao pé do Palácio Monroe, na Av. Rio Branco. Ao mesmo tempo, ingressava, de forma brilhante, na Faculdade Nacional de Direito, tendo sido aluno de Evaristo de Moraes Filho, Hermes Lima, Haroldo Valadão, Afonso Arinos e Mattos Peixoto, dentre outros. Depois de formado, tornou-se amigo e seguidor de Hely Lopes Meireles, a quem se deve a sistematização do Direito Administrativo, como ciência, no Brasil. Volta ao Ceará, e funda o Clube dos Advogados, nos moldes ingleses. Um clube de classe. Em seguida, é eleito o mais jovem presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção do Ceará, tendo exercido três mandatos. A par disso, ingressa nos quadros de professores da Faculdade de Direito da UFC, da qual é Mestre e Doutor, e na Procuradoria Geral da República, ocupando a sua direção por longo tempo. Hoje, o dr. Roberto, advogado de nomeada e professor consagrado, coordena o Curso de Direito de uma faculdade privada, sem esquecer de amar, como sempre o fez, conversar com aprumo e ouvir suas músicas preferidas, entre elas o jazz americano. Este perfil, a destempo feito, é um pálido reparo à sua involuntária não inclusão no meu livro “Gente que Conta”. Acontece que o andamento e o desencontro tramaram contra nós. Seu nome foi um dos primeiros a ser lembrado, a Internet não cuidou disso. Roberto concorda com Cervantes ao entender que o amor, se é amor, é sempre verdadeiro. Para ele a vida é um traço de união do nascimento com a morte. Uma ponte que se consegue atravessar com trabalho, otimismo, bom humor, amor, afetividade, realizações úteis, prazer, fé no bem e na felicidade. Esta é uma pálida aquarela da vida cintilante desse cearense que honra o Ceará, dignifica a advocacia e enobrece o nosso magistério superior. Roberto é Gente que Conta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/07/2011 - [A ENTREVISTA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-entrevista-diario-do-nordeste/): Recentemente fui visitado no trabalho por uma estudante universitária. Usava óculos de grau com aros vermelhos (lembram da Rita Lee?), tinha cabelos encaracolados, cores indefinidas. Calçava rasteira (é assim que se diz das sandálias rasas), saia larga de chita marrom bem abaixo do joelho, camiseta branca de algodão customizada (são as que se tiram as mangas, mudam o decote e cortam a bainha deixando aparecer fiapos) com pingos de tintas multicores. Usava pulseiras de linhas entrelaçadas em crochê, nos dois pulsos. Ao pescoço, um grosso cordão preto finando em bolsinha com três canetas. Sabia o meu nome, o que fazia (havia lido livros e textos meus) e gostaria que respondesse a algumas perguntas. Para quê, perguntei. Falou ser para a monografia de fim de curso. Aqui não importa dizer qual, direi que era da área de ciências sociais. Não teria mais que 22 anos. Assim, era metade século 20, metade 21. Chamou-me de João, mordeu a ponta de sua caneta, sentou na borda da cadeira e disse, de cara: você mente? Indaguei por que deveria responder. Ela retrucou: se você disser que não mente, a conversa está encerrada. Foi então que perguntei: qual a razão disso tudo? Ela voltou a mordiscar a caneta. Falou que não havia verdade (grande novidade...), todas as pessoas tinham segredos. Esse era o objeto de sua monografia com título algo assim (pelo menos, foi o que entendi): “De como as pessoas se apegam às mentiras, quando é mais fácil falar a verdade”. Entrei na dela: pergunte o que quiser. Como você trabalha tanto e tem tempo para escrever? Será que é você mesmo quem escreve? O meu notebook estava aberto. Acessei o Word e fiz o resumo do seu trajar e de como a via. Dei ordem à impressora e recebi o papel ainda úmido. Entreguei a ela. Era quase o que ora apresento, a diferença é que nesse pequeno texto, falava da minha alegria ao vê-la esgrimindo, destemidamente, com pessoa de outra geração. E concluía: nunca tenha medo. Posso ficar com este papel? Claro, respondi. Ela, então, fez as perguntas. Respondi o que pensava. Anotava tudo em páginas de agenda cheia de adesivos e, ao final, disse: você parece careta, mas não é. Menos Mal. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/07/2011. - [PEDIDO DE AMIGO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pedido-de-amigo-jornal-o-estado/): Um amigo, hoje aposentado, sem espaço para dizer o que sente e sofre, pede-me o favor de publicar o que escreveu. Por sabê-lo sério, reproduzo-o, sem censura, tal como o recebi: “O Banco Central do Brasil-BC deveria trocar as palavras “do Brasil” por “dos Banqueiros”. Eles mandam e desmandam, tudo muito civilizado, sem alardes. Quase todo ex-presidente do BC funda, depois da quarentena, um banco ou cria uma grande consultoria do outro lado do balcão. Ou seria do mesmo lado? Vou só dar um exemplo: o crédito consignado é uma empulhação. Trata-se de empréstimos feitos por bancos “amigos” a servidores públicos e/ou beneficiários do Instituto Nacional de Seguridade Social. Os bancos têm todas as garantias pois o empréstimo será, sempre, descontado da aposentadoria ou dos proventos de quem pediu o dinheiro. Quando falo em bancos “amigos” é porque, até bem pouco tempo, era – não sei se ainda é – necessária a autorização especial do BC. O que se viu, nesse Brasil afora, foi a proliferação de mini-agências, correspondentes, agentes, panfleteiros, homens-sanduíches apregoando a facilidade da obtenção desse malsinado “empréstimo consignado”. Sabe-se que hoje há 145 bilhões de saldo de crédito consignado. A consignação é a antiga anticrese ou, sendo mais claro, é o desconto obrigatório feito, mensalmente, na folha de pagamento dos devedores. O risco dos bancos, nessa operação, é igual a zero. Tudo é garantido na referida folha de pagamento. O juro que cobram é exorbitante e, na maioria das vezes, o aposentado é iludido com esclarecimentos dúbios. Nesses últimos anos, muitos tamboretes ou bancos prestes a dar golpe no mercado, se salvaram por conta dessa dádiva do governo. Espero que algum parlamentar venha a se insurgir contra essa imoralidade. Há milhares de famílias que foram enganadas e hoje não têm como sobreviver com o líquido (descontado o empréstimo) que recebem. Além disso, os incautos ainda eram – e são – seduzidos para receber cartões de créditos. Aí foi que o desastre aumentou. Em dezembro, o Banco Central resolveu impor restrições aos créditos acima de três anos. Agora, os cartões de crédito consignados dos servidores também têm limites acima de três anos. Você sabe quanto custa o juro de um cartão de crédito desses? É melhor não saber. O governo estabeleceu os juros do Consignado em 28% ao ano, mas quanto os bancos embutem de taxas de abertura de crédito, boletos, retenções e que tais? Pior do que isso só a selecinha do (her)Mano que conseguiu a façanha de quebrar o recorde mundial ao perder quatro penais consecutivos. Mas, tudo estará resolvido até junho de 2014, a preços baixos, prazos cumpridos ou compridos, o hino nacional tronituando. Logo depois, aguardem, virá a eleição para a presidência, a festa do réveillon, a posse e, como ninguém é de ferro, o carnaval”. Pedido atendido. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/07/2011. - [NETA LEITORA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/neta-leitora-diario-do-nordeste/): Minha neta mais velha apagou 14 velas. Véspera do aniversário, perguntei: O que você quer de presente? “Vô, eu quero livros.” Disse-me autor e títulos. Fiquei muito alegre, pois é leitora consciente, há tempos. Faz anos ganhou concurso entre crianças que se aventuravam a criar estórias e ter seu trabalho publicado em jornal. Fiquei feliz em vê-la recebendo a medalha. Essa sardenta neta querida é bonita, não porque netos sejam sempre guapos, mas porque o seu porte e educação a fazem diferenciada. Seu jeito de falar é pausado, seus olhos acompanham as palavras e sabe onde colocar as mãos. Colocar as mãos num corpo em mutação não é tarefa fácil para adolescente. Ela sabe, sim, usá-las com graça e leveza. Lembro quando iniciava a aprender vôlei. Fui lá ver. Era pequena para a rede alta, mas demonstrou jeito e hoje faz parte da seleção do seu colégio, na faixa etária. Os avós, quando não têm uma avó por perto – o que é o meu caso – ficam meio fora do contexto e não participam, como gostariam, de todos os momentos do crescimento dos netos. Mesmo assim, já a flagrei isolada de todos, livro à mão, cenho de quem está realmente interessada no que lê. Lembro do dia do seu nascimento. Tive que adiar viagem importante, já marcada. Valeu a pena. À época, neste mesmo jornal, escrevi: “Os poucos, porém queridos, leitores que acompanham este escrevinhador dominical vão me perdoar. Saio do geral para o particular. Deixo de lado preocupações com o mundo e me rendo, com alegria e emoção, ao sentimento paternal e descubro malgrado todas as falhas cometidas ao longo da vida, o prazer de ver uma filha sendo mãe. Pois é, até eu, bastião da pseudo fortaleza masculina, rendi-me ao doce encanto de ser avô”. E por aí ia o meu extravasamento. Hoje, 14 anos depois, ao sabê-la cumpridora dos deveres, esportista, como os seus pais o são, e ter o “insight” de devorar, em silêncio, páginas de livros, lembro da menina “ferrugem” que assim o fazia. Essa outra menina, querida Lu, é sua mãe que ainda hoje tem, à cabeceira, livros para degustar, entre o trabalho e os afazeres de formar filhas conhecedoras da realidade, sem perder o enlevo da benquerença familiar. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/07/2011. - [LUIZ CRUZ DE VASCONCELOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/luiz-cruz-de-vasconcelos-jornal-o-estado/): A longevidade, 92 anos do professor Luiz Cruz de Vasconcelos foi fruto de sua dura, intensa e profícua vida. Até bem pouco era salutar cumprimentá-lo ao andar nas manhãs ensolaradas da Avenida Beira-Mar. Fui seu aluno na cadeira de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da UFC. Cioso do seu mister, suas aulas não eram improvisações. Penalista consagrado com larga experiência em júris, o Prof. Luiz Cruz nos dava a sensação de que era possível entender não só a jurisprudência, a doutrina, mas até a prática - por ele exercida em todo o Estado, especialmente Fortaleza. Nascido em Granja, no norte do Estado, rincão que defendia com ardor cívico, notabilizou-se por ser, além de advogado e professor, um teórico da política filiado que foi ao não então pragmático Movimento Democrático Brasileiro. Na minha sala de memórias há uma foto especial. Foi batida no dia da minha colação de grau em Direito. Dela constam o então Reitor da UFC Antônio Martins Filho, sorrindo e cumprimentado a meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, que também sorria e o prof. Luiz Cruz, que, à época, ocupava a direção da Faculdade de Direito, olhando fixo para mim e trocando um abraço. Pouco tempo depois de formado, fui ter ao prof. Luiz Cruz. Contextualizo: eu coordenava um pioneiro projeto habitacional que inaugurava no mercado a construção financiada de edifícios ou, como se dizia, unidades multifamiliares. Não tínhamos o dinheiro para comprar o terreno escolhido, na Av. Luciano Carneiro. Descobri que era da família dele. Fui à sua casa, faceando a Igreja de Fátima, e ele me recebeu com alegria. Expliquei todo o processo do projeto para ele, dando-lhe, acima de tudo, a minha jovem palavra de que tudo seria pago em breve tempo. Ele levantou, olhou para mim e disse: eu confio em você, pode fazer. Prometido, cumprido. Construímos e entregamos, em prazo recorde, o Conjunto Luciano Carneiro. Depois, por muitas vezes, nos encontramos. Tive a honra de ser conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção do Ceará, da qual ele era o Presidente Honorário Vitalício, após ter sido seu Presidente. Esse homem, mesmo depois de ter atingido a compulsória, não parou a sua lida e continuou a participar de foros jurídicos e literários. A sociedade, a advocacia, a retórica e o magistério jurídico perderam Luiz Cruz de Vasconcelos, um homem de caráter, pois, no dizer de Schopenhauer: “as causas não determinam o caráter da pessoa, mas a manifestação desse caráter, ou seja, as ações”. João Soares Neto, Escrito CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/07/2011. - [OURO E OTTO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ouro-e-otto-diario-do-nordeste/): Se você ainda não foi ver as exposições em curso no Espaço Cultural da Unifor, está perdendo tempo. São distintas, mas interligadas pela latinidade, embora distantes séculos. Elas são abertas a todos, de terça a domingo. Vá e leve sua família. Até o estacionamento é gratuito. Vá com tempo e limpe bem os olhos. Há estudantes-guias bem treinados que poderão ajudá-lo nessa caminhada por salões climatizados, com iluminação adequada que dá uma sensação de bem-estar. Comece pela “Tesouros e Simbolismos da Colômbia Pré-Hispânica”. Na realidade, ela é o produto da conjunção dos diferentes povos indígenas que habitavam a região que veio a denominar-se “Colômbia”, em homenagem a Cristóvão Colombo, o descobridor das Américas, exceto o Brasil. Fala a História que alguns desses povos, os Muisca, Quimbaya, Sinú,Tayrona e Calima, além da agricultura de subsistência, dedicavam-se à ourivesaria fina e eram, também, oleiros. Vá ver máscaras, brincos, piercings, figuras geométricas etc. O ouro era misturado à liga cobre e dava origem ao que eles chamavam de “tumbaga”. Não perca. A outra exposição, “Do Brasil à Catalunha” é obra do longilíneo e assemelhado D. Quixote, o paraibano Otto Cavalcanti, que de Itabaiana foi ter ao Rio, flertou com o estilo de Modigliani, andou pelo Brasil, inclusive Fortaleza, e pousou sua maturidade artística em Barcelona, o fulcro da ciosa Catalunha. Otto é pessoa agradável de conversar, exibe vitalidade aos 80 anos e sabe, por formação, o que é pintura e desenho, misturando pincéis e nanquim. Suas cores são fortes, extra e vagantes, sintetizando o imaginário do menino do interior, o jovem atrevido na cidade maravilhosa ao maduro e irrequieto vegetariano que anda pelas “Ramblas” e sabe usar o vermelho, quiçá compensando as carnes não ingeridas. Dele, sou orgulhoso possuidor, desde 1983, do bico de pena, “Vilassara de Mar”, superposto por águas azuis, verdes, rosa, tons de amarelo e ocre, em que um “homem-músculo”, sob um frondoso guarda-sol às vistas de um ajudante, contempla, ao longe, jogadores de golfe. Voltando ao fio da conversa inicial, não adie sua visita. Veja o Ouro e o Otto. Aproveite o domingo. A arte une pessoas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/07/2011 - [O BRASIL PATINA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-brasil-patina-jornal-o-estado/): Quando imaginava poder aprender microeconomia, o que não aconteceu, uma expressão ficou gravada na memória: o ponto do nivelamento ou o “break-even-point”. Entendo ser essa a fase em que a macroeconomia, paradoxalmente, coloca o Brasil. Queiramos ou não, o país é, em sentido amplo, uma grande empresa, da qual todos fazem parte. Temos que ir para frente. Mas há entraves que nos tornam desencantados. Se você quiser ir de trem ou de navio do nordeste para São Paulo, o que fazer? Não há ferrovias nacionais, tampouco boa navegação de cabotagem. Só há dois meios: estrada ou céu. As estradas brasileiras são feudos de partido político que não se importa com buracos, mas parece fazer rombos em licitações duvidosas. Caminhões e ônibus são parados por assaltantes. No céu, além de, em terra, aeroportos sem tecnologia logística de ponta, cada transportadora transformou seus aviões em amontoado de cadeiras com muito menos conforto que ônibus rodoviário, não fossem os buracos destas. Não conheço nenhum país desenvolvido que não possua boas estradas, ferrovias nacionais e portos com grande movimento de navios de passageiros e cargas. Sejam portos fluviais ou marítimos. Não conheço nenhum país desenvolvido que não respeite o trânsito e a acessibilidade. Dia desses, em um lugar de bom nível, vi um cadeirante a reclamar do acesso e de que a porta do banheiro não permitia a sua entrada. O trânsito brasileiro é uma fábrica de cadáveres. Ninguém respeita a velocidade, porque não há nenhuma pessoa a instruir. Usam-se máquinas de fotos sensores e pardais, apenas para multar. Não há mais guardas orientando pedestres e guiadores. Há, sim, agentes de blocos em punho para flagrar delitos, mas não se estimula a construção de edifícios garagens e ciclovias, tampouco se força o uso de faixas de pedestres com gradis protetores. As motos, de diferentes cavalos, transformam o trânsito em “farwest”. Há nuvens de capacetes coloridos e afoitos em meio a carros soltando CO2 parecendo, do alto, uma tela surreal. Claro que a indústria está crescendo, mas não podemos conceber que um turista caia de bonde, agonize na rua, seja assaltado e não socorrido. Deve existir segurança pública. Há anos, estava com amigos visitando a Europa. Folgazões. De repente, sentimos falta de uma delas. Voltamos à praça. Um taxista informou que ela havia desmaiado e um colega seu a levara a hospital público. Havia tido uma hipoglicemia. Fomos ao hospital: limpo, sem macas nos corredores e ela tendo pronto atendimento. Custo zero, serviço público. Aqui se morre nos corredores de hospitais por falta de atendimento. É por tudo isso que torço por Dilma. Para que desmonte a estrutura política eivada de erros e comprometida com o atraso. Só assim, sairemos do ponto de nivelamento - em que patinamos - para o almejado estado de bem-estar social onde não existem tantos miseráveis, o esgoto seja uma obrigação e não uma conquista. A lama desapareça das favelas que precisam ser urbanizadas e acolhidas numa sociedade discriminatória e excludente que deve mudar. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/07/2011. - [A FOME NO MUNDO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-fome-no-mundo-diario-do-nordeste/): A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, diz no seu art. 25, entre outras coisas, que todos têm direito à alimentação. Hoje, 63 anos depois, ainda existem mais de novecentos milhões de pessoas passando fome no mundo. Esse dado constrangedor - mais de quatro vezes a população brasileira - está espalhado, principalmente, na África subsaariana e em outros países do dito 3º. Mundo ou emergentes. Esse fato não é agradável para o leitor bem alimentado, mas é real, contundente e precisa ser resolvido por todos nós. A Organização das Nações Unidas (ONU) controla o órgão chamado FAO (Food and Agriculture Organization), sediado em Roma, que cuida do problema. A FAO está sendo dirigida tem 18 anos por um dirigente africano, o senegalês Jacques Diouff. Nem por isso a fome diminuiu. Agora, no domingo passado, o brasileiro José Graziano da Silva foi eleito para diretor-geral dessa FAO, em segundo turno, com 92 votos, contra 88 dados ao espanhol Miguel Ángel Moratinos. Graziano é agrônomo, fez parte do governo Lula, e já era assistente da FAO. Sua posse será em 1º. de janeiro de 2012, com mandato até julho de 2015. A Graziano é atribuída a criação do programa Fome Zero que, na prática, não deu muito certo. Agora, Dilma criou o “Brasil sem miséria”. A eleição apertada de Graziano mostra que os países estão divididos quanto às soluções para a fome mundial. Os 92 votos dados a ele vieram de países “não alinhados”, isto é, os que não fazem parte do mundo desenvolvido. O jornal espanhol “El país”, com raiva, diz que com Graziano haverá um “continuísmo ao invés da renovação radical”. A vice-secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Kathleen Merigan, afirmou que “seu governo vai lutar por um congelamento do orçamento da FAO, no período de 2012-2013”. Como se vê, a Europa e os USA não estão felizes com a eleição de Graziano. Isso é um bom sinal. Ele poderá provar que sua administração não será continuísta e, politicamente, lutará por mais recursos junto a esses países que não queriam a sua eleição. Boa sorte. Além disso, que tal pensar em um percentual de 2% em cada conta de restaurante de todo o mundo para acabar com a fome? Sem desvio, é claro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/07/2011. - [AIRTON MONTE, RAYMUNDO NETTO, PAULO ELPÍDIO E LUSTOSA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/airton-monte-raymundo-netto-paulo-elpidio-e-lustosa-jornal-o-estado/): Airton Monte confessa ter amado mais o pai que a mãe. E explica: “Claro é para mim, mesmo carregando uma eterna e edipiana culpa, sou daqueles raros filhos que confessam, com certo pejo, haver amado muito mais o autor dos meus dias que a minha santa e doce genitora. Talvez pelo fato das abalizadas opiniões familiares, desde a minha avó até minha irmã mais nova, ser dotado pela herança genética de uma personalidade demasiado semelhante à do maior filósofo já produzido pelo lírico território do Benfica”. Preocupe não, Airton, amor não se discute, se tem. Não foi de forma desinteressada que ele, seu pai, colocou em você o próprio nome. Ele sabia. Foi-se, mas o nome e a sua encarnação permanecem em você em seus queixumes, quase diários. Quando nos encontrarmos, amigo Airton, falaremos disso, sobre o Viana, o editor, o nosso comum Fortaleza e os estragos que o velho Freud fez na humanidade, tirando-a da ignorância do pecado original. Raymundo Netto, escritor que deve acreditar em grafologia, pois assim se justificam o “y” e os dois “t”, abre o coração alegre para falar de família. E diz: “Casados há quatro anos, aguardávamos melhor momento para ter filhos – hoje, elas têm onze, e vejo, pelos critérios da época, tal momento ainda não chegou-, mas um dia, ao ser tangido pela sensação involuntária de que casamento sem filhos é dividir morada, decidi planejar a ‘gravidez familiar’. O estranho nisso? Não comentei tal plano com a futura gestante, certo de ela ser a maior interessada – até hoje não acredita em patavina da história que escrevo”. Pois eu acredito, amigo Raymundo Netto, e vou provar isso no nosso primeiro encontro. Paulo Elpídio de Menezes Neto, cientista político, disse, anteontem em seu artigo/ensaio mensal que: “Mergulhamos, ao longo dos últimos meses, os primeiros de um novo governo gerado nas entranhas do poder e celebrado pelas multidões, uma sequência de dúvidas e hesitações que bem demonstram quão árduas são as responsabilidades de governar. Os percalços da decisão multiplicam-se para quem governa, maiores, na justa medida do tamanho e da força da coorte dos aliados e das adesões que um governo majoritário atrai, por reconhecido merecimento ou singular conveniência”. Como se vê, a análise de Paulo Elpídio não é rasa, brilha pelo rastilho que vai deixando na sabedoria que forma os seus períodos. A você, Paulo Elpídio, o meu pedido público de desculpas por não ter comparecido – estava em BH - ao lançamento de seus dois novos livros, em que fala com propriedade e sem medo, sobre as universidades brasileiras, particularizando a UFC. Sem esquecer que você, gentilmente, mandou deixá-los em minha cada. Obrigado. Por último, por ser o amigo mais antigo, o querido Lustosa da Costa - sobralense-fortalezense-brasiliense –denuncia: “Soube, vou me inteirar direitinho, que a Assembleia Distrital autorizou a seus integrantes continuarem com seus negócios com o governo do Distrito Federal. O deputado ganha o mandato e o direito de fazer bons negócios com a administração da Capital. E vai em frente no enriquecimento ilícito”. Lustosa, reluz como em “Política, quase sempre”. Como vocês acabaram de ler, este escrito foi realizado a cinco mãos, Airton Monte, Raymundo Netto, Paulo Elpídio de Menezes Neto, Lustosa da Costa e eu, que só tive o trabalho de citá-los. Palmas para eles. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/07/2011. - [DANIEL E AS TINTURAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/daniel-e-as-tinturas-jornal-o-estado/): Não espere que fale hoje do profeta Daniel na Cova dos Leões, da sua guerra cósmica do Bem contra o Mal, nem de sua obediência a Deus. Tampouco contarei a vida do escritor inglês Daniel Defoe que, no início do século 18, escreveu o romance “Robinson Crusoé” em que narra a história de um náufrago lutando pela sobrevivência. Refiro-me a Daniel de Jesus. Nem profeta, tampouco inglês. Foi preciso ler reportagem de Raquel Salgado, na revista Negócios, em abril passado, para poder contar esta prosa a vocês. Daniel nasceu pobre, instrução secundária, conseguiu emprego de office-boy e só chegara a vendedor. Morava na Califórnia, subúrbio de Nova Iguaçu, interior do Rio. Um dia, aos 22 anos, resolveu correr atrás de um sonho meio louco, viver por sua própria conta. Passou a fazer produtos de limpeza e a vendê-los, porta a porta. Cinco anos depois, começa a lidar com cosméticos ou, preferencialmente, tintura para cabelos. Cria, a seguir, uma marca: Niely, apodo de família de sua filha Danielle. Ele tem dois outros filhos, João Daniel e Daniel Pedro. Mas, Daniel, o de Jesus, começou só. Tem hoje 2.200 empregados e, imaginem, quanto a empresa dele fatura por ano? Quinhentos milhões de reais. Não depende do governo e sua empresa cuida de fazer tinturas, xampus, condicionadores e tudo o mais que a vaidade feminina pedir. Qual é o segredo? Ele diz: “Delego poderes, mas todo mundo tem sua liberdade vigiada. Estou sempre junto, vendo o que cada um faz”. Danielle, a Niely, 25, é a sua gerente de marketing e fala: “desde que comecei a trabalhar aqui, há seis anos, as pessoas têm receio de contrariá-lo. Elas me falam o que pensam, e depois eu converso com ele”. Daniel, ao final:” Quem tem mais experiência aqui sou eu. Vai ser como estou falando”. Ditadura -ou centralização- à parte, Daniel é exemplo, entre muitos, de brasileiros que conseguem vencer por sua conta e risco, sem medo, sem padrinhos e tampouco participar de política. Dizia Sêneca, filósofo latino, que “ninguém é obrigado a correr pela via do sucesso”, mas sempre é bom lembrar de Virgílio, outro latino. Ele fazia crer que o sucesso só acontece porque alguém tem a coragem de poder porque pensa que pode. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/06/2011. - [AS FOTOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-fotos-diario-do-nordeste/): Tenho, entre outras, mania de recortar jornais e revistas. Não importa esteja trabalhando, preguiçando, comendo, viajando, a espera de cinema, teatro, o que for. Corto com tesoura, cartão de crédito, régua, caneta e até com as mãos. Sou canhoto e eles – eu, pelo menos - não são bons de linha reta. Guardo o recorte no bolso mais próximo, criado mudo, pasta ou nas mesas onde trabalho. Um dia qualquer, sem querer, descubro dado recorte. Agora, por exemplo, estou às mãos com um recorte, sem legendas ou data, de Angela Merkel, a premiê alemã. Não é uma foto comum. Ela está de muletas por ter levado um tombo qualquer. Foi este ano. Não sei a data. A foto é da agência Reuters. Merkel, tal como Dilma, andou engessando a perna e não parou de trabalhar. No último dia de maio, 31, Merkel resolveu ir à Índia no seu Air-Bus 340.Quando o avião sobrevoava o espaço aéreo iraniano, recebeu ultimato para voltar à Turquia. Falaram, então, ser o avião da premiê alemã. Os iranianos não cederam. Depois de duas horas de diálogo, sobrevoando a Turquia, o Irã autorizou a passagem do Air-Bus. Em seguida, divulgaram notícias, por todos os meios de comunicação, de que os alemães viajavam para vender armas à Índia. Esta breve nota é para mostrar como é o dia-a-dia de uma mulher que resolve, por seu cargo e autoridade, gerir um posto, até pouco tempo, dito masculino. A presidente Dilma, nestes quase seis meses de governo, além da perna enfaixada, teve sobressaltos fortes que, em determinado momento, romperam sua defesa imunológica e causaram-lhe uma pneumonia. Agora, cercada por duas novas escudeiras, Dilma tenta governar em meio aos reclamos do PMDB e dos muitos resmungos do PT paulista. O maior problema do governo atual não é a oposição, mas a situação, que tudo almeja e pouco está ligando para o sexo e a saúde da presidente. Volto à foto. Olho o que está exato no seu verso. Outra foto, difícil de entender sem legendas. Uma jovem bonita, farta cabeleira, riso perfeito, afaga um senhor de bigodes e cabelos brancos, em cujas narinas estão dois condutores de oxigênio. Os olhos dele, castanhos, perplexos, parecem olhar o (in) finito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/06/2011. - [A FORMAÇÃO DE PÚBLICO E A ARTE DE LUCIANA FALCÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-formacao-de-publico-e-a-arte-de-luciana-falcao-jornal-o-estado/): Há quase 12 anos a Galeria BenficArte tem, entre outras, uma missão a cumprir: a formação e consolidação de público amante das artes plásticas. Já apresentamos mais de 300 artistas plásticos, consagrados ou não, vivos ou no além, de todos os matizes, idades e escolas, em exposições individuais ou coletivas. Ao mesmo tempo, periodicamente, realizamos oficinas gratuitas para crianças e pré-adolescentes, em que os participantes, além de não pagar nada, tampouco levam tintas, telas, papéis e pincéis. Tudo é fornecido de graça. O objetivo básico é despertar a sensibilidade, a criatividade dos infantes para a arte e o compartilhamento de ideias figurativas ou abstratas com pessoas que acabaram de conhecer. A partir de ontem, por exemplo, estamos realizando uma exposição de vanguarda, bem cuidada, mostrando, quiçá, uma visão atual do que se convencionou chamar, no meado do século passado, de Expressionismo Abstrato. A autora, Luciana Falcão, não é uma pintora convencional. Poderia sê-lo, se o desejasse. Tem formação acadêmica completa em artes, mas transgride o convencional e cria o que deseja de forma ainda pouco usual para estas paragens. Vale-se do computador como se fora uma tela em branco sobre um cavalete imaginário e usa do mouse como pincel eletrônico para tecer tramas, aparentemente difusas, que causam impressão desconcertante ao olho acostumado ao consagrado, ao já visto. Neste ano onze do século vinte e um, Luciana Falcão emerge de uma hibernação auto imposta e se mostra, plasticamente, de cara e corpo novos, fulgurante em cores que mapeiam todo um arco-celeste com gramaturas imperceptíveis É com prazer que a Galeria Benficarte, neste mês de junho, cede seu espaço físico para a imaginação e a arte de Luciana Falcão. Ela mesmo considera sua obra como: desconcentrada, descombinada, desconstruída. O olhar de cada um fará a descoberta própria e singular para essa exposição cheia de Ds, que podem ser também de dúvida, desejo, dádiva e destino. O acesso é livre. Todos poderão ver, gratuitamente, a arte de Luciana Falcão, no Mezanino que abriga a Galeria BenficArte, na Av. Carapinima, 2200, Benfica, no horário das 10 da manhã às 22 horas. Vale a pena. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/06/2011. - [JÚLIA SARAIVA CAMINHA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/julia-saraiva-caminha-jornal-o-estado/): Houve um tempo, no fim do século 19 e até o século passado, em que famílias viviam entrelaçadas por vínculos de profundo afeto. Falo, especificamente, das famílias que se uniram pelo casamento de João Caminha Monteiro e Luiza Saraiva Leão, meus avós maternos. O Farmacêutico João Caminha Monteiro havia sido educado por sua tia, Eulina (Yayá) Bezerra Monteiro, solteira até à veneranda morte, olhos claros, pele muito branca, quase transparente, religiosa de missa diária, cabelos arrematados em coque e simplicidade profunda. João, meu avô materno, morreu de câncer no estômago, aos 42 anos, depois de longa enfermidade, deixando muitos filhos e uma desolada viúva, apoiada por seu tio, o Padre João Saraiva Leão. Yayá, que a tudo acompanhara, pediu à Luiza, minha avó, para ajudar. E a achega consistiu em levar para a sua casa a sobrinha-neta Júlia Saraiva Caminha, estudante do Colégio das Dorotéias. Assim, Júlia passou a ser a filha que Yayá nunca teve. A jovem Júlia, já formada, submeteu-se a um rigoroso concurso público para o então cobiçado cargo de Inspetor Federal de Ensino, do Ministério da Educação. Eram muitos os candidatos. Poucos passaram. Entres eles, Júlia e seus futuros colegas Edílson Brasil Soárez e Hugo Porto. O tempo passava e Júlia, ao mesmo tempo em que trabalhava, ainda ministrava aulas particulares para parentes e amigos. Sua amiga e colega das Dorotéias, Marister Machado Jucá, pediu que a ajudasse na educação de seus filhos. Assim o fez. Eu, o sobrinho mais velho, aos 10 anos, ainda de calças curtas, quis fazer o Exame de Admissão ao Ginásio do Farias Brito, pulando o então 5º. Ano. Tive muitas aulas com a Tia Julinha e passei sem problemas. Anos depois, Margarida, minha mãe, engravidava pela nona vez. Gravidez normal, até que levou um choque na geladeira de casa. Dias depois, nascia Luiza Helena. Yayá ainda era viva. Ela e a Tia Julinha, que moravam no nosso quarteirão da Visconde do Rio Branco, foram ver a sobrinha e se encantaram com ela. Pediram, de princípio, que ela ficasse lá durante o dia, para desafogar a casa, plena de crianças. E aí Luiza foi ficando por lá. Júlia, também solteira, culta, declamadora de longos poemas, católica fervorosa e simples, caiu de amores por Luiza. Repetia-se a tradição. Ela cresceu, formou-se em Sociologia e casou com o médico Winifried Hechelmann. Tia Julinha não entendia porque Luiza, sua sobrinha-filha, iria morar na Alemanha. Coisas do destino. Luiza teve duas belas filhas lá na terra de Goethe, ambas nas presenças de Margarida e Júlia. A primeira foi batizada com o nome Júlia, em homenagem à tia-avó. A segunda, recebeu o nome de Isabella, por ter nascido no dia sete de setembro. Ontem, 25 de maio de 2011, Júlia Saraiva Caminha,90 anos, serena, partiu para o insondável. As almas, imagino, podem voar e ela, certamente, deve ter dado um sobrevoo pela Germânia para olhar as suas duas sobrinhas-netas estudando medicina e sua sobrinha-filha Luiza, parceira fiel da clínica de seu marido, Wini. Esta é uma história familiar, de vida e amor. Simples, como devem ser as das pessoas de bem que fazem de suas histórias uma eterna doação. Ela, certa vez, me mandou, entre bilhetes trocados, o seu salmo preferido: Sl 9.10: “Porque aqueles que buscam o Senhor têm o seu coração voltado para o irmão sofredor”. Tia Julinha, descanse em paz. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/05/2011. - [O CEARÁ E OS ESTRANGEIROS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-ceara-e-os-estrangeiros-diario-do-nordeste/): A Sociedade Consular do Ceará reúne cônsules honorários e vice-cônsules representantes de países das Américas e Europa. Quase sempre, a diretoria e seus integrantes, recebem visitas de embaixadores, cônsules gerais, intelectuais, empresários e naturais dos países representados. Recentemente, por exemplo, o Ceará recebeu, por duas vezes seguidas, diplomatas, inclusive embaixador, do país que represento, o México. O mesmo se dá com os outros países. Todos eles, sem exceção, louvam as nossas belezas naturais e o tratamento recebido das autoridades estaduais, mas intrigam-se com alguns aspectos que encontram. Destaco, apenas alguns. Há estranheza com a abordagem quase agressiva, em todos os semáforos, de flanelinhas, crianças andrajosas, mendigos, vendedores e panfletários. Mesmo com vidros cerrados, há as patéticas mãos estendidas, toques e a exposição de cartazes: “estou com fome”. Entendem que esse é um problema de ordem pública, nada a ver com pobreza ou quiçá, execrável eugenia. Outro fato muito comentado é a péssima qualidade das estradas por onde trafegam. Sejam urbanas e as que demandam ao interior para onde procuramos levá-los a mostrar pontos turísticos ou oportunidades de negócio. Abordo este assunto, face à cruzada que o Governo do Estado e entidades representativas do Ceará têm, com justiça, solicitado a recuperação das nossas estradas federais, as chamadas Brs. Não se trata de favor político, mas de clamor público e obrigação ministerial. O Ceará tem, entre outras vocações, a do turismo. E nem todos os turistas, nos visitam por via aérea. Há os que preferem visitar-nos em seus veículos ou usando ônibus de turismo ou de autoviárias. Para finalizar: esta semana recebi o diplomata Viktor Dolista. Ele me disse que, ano passado, aconteceram 22 assassinatos na sua Republica Theca (11 milhões de habitantes), todos desvendados e criminosos presos. E que todas as estradas de lá são boas, como é da obrigação estatal. Será sonho pensar nisso para o Ceará e o Brasil? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/05/2011. - [O GUERREIRO DE AMONTADA: DEUSMAR QUEIRÓS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-guerreiro-de-amontada-deusmar-queiros-jornal-o-estado/): São Bento de Amontada era distrito de Itapipoca, Ceará, em 1947, quando ali nascia, em 27 de maio, um menino, batizado de Francisco, certamente em homenagem a São Francisco, o “pobrezinho de Assis”. Amontada, à época da colonização, era habitada pelos índios Tremembés, guerreiros que, pouco a pouco, foram sendo aculturados pelos jesuítas. Virou, depois de criações e extinções, município, de forma definitiva, somente em 1985. Hoje, neste maio de 2011, a cidade ainda possui um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano. Imaginem, então, como era em 1954, data em que a família Queirós, resolveu deixá-la para morar em Fortaleza. Pararam na zona oeste da cidade, na entrada dos que demandam do Norte cearense, no bairro de Antônio Bezerra que, à época era mais conhecido como Barro Vermelho, por conta da pigmentação de seu chão ainda quase sem pavimentação. A família montou um pequeno negócio. Ali foi crescendo Deusmar que, a par dos estudos, ajudava seu pai na sua lida. Conheci Deusmar Queirós no início dos anos setenta. Raimundo Padilha, seu professor na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Ceará, o trouxe, como discípulo diferenciado, para a “Galeria Credimus”, espécie de supermercado financeiro que trabalhava com a Caderneta de Poupança, Letras Imobiliárias, Ações e outros. Paralelo a isso, Bernardo Bichucher, sócio colateral da Crédimus, tinha uma Corretora de Valores Imobiliários, praticamente inativa. Deusmar a gerenciou e dinamizou. Passou a ser, rapidamente, um dos maiores negociadores no Brasil das ações de empresas beneficiadas pelos artigos 34/18, base de apoio da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, Sudene às empresas regionais. Em seguida, Deusmar assumiu o controle da Corretora Pax. Era o jovem guerreiro demonstrando que a sua luta pessoal começara, mas era uma cruzada de paz. Em toda a sua vida, teve o apoio incondicional de Auricélia, sua mulher. Em 1981, já detentor de bens e, principalmente, ações, até hoje um de seus maiores ativos, resolve, compartilhar a ideia de seu cunhado Ubiranilson Alves e, com ele, funda as Farmácias Pague Menos. Agora, 30 anos passados, a Pague Menos está operando em todos os estados brasileiros e é o maior grupo de farmácias nacional. Tem mais de 400 lojas, inovou, desde o princípio, no “mix” de bens e serviços prestados. Dá empregos a centenas de farmacêuticos e a milhares de colaboradores. Paralelo a isso, Deusmar tem ainda um “pool” de outras empresas dinâmicas e eficazes. Exato no dia de hoje, sexta-feira, 20 de maio de 2011, recepciona, com a sua família, amigos, colaboradores e fornecedores de todo o Brasil em festa merecida, por conta de seu espírito empreendedor, capacidade de liderança, simplicidade e destemor. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/05/2011. - [BRASSAÏ E BRASILIANA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brassai-e-brasiliana-diario-do-nordeste/): O Espaço Cultural Unifor apresentou, de março a abril passados, duas gratas e distintas exposições. No Anexo, “Paris la Nuit”, de Julius Halasz, artisticamente Brassaï; no 2º. piso, a “Coleção Brasiliana Itaú”. Paris à Noite reúne coletânea de fotos, em preto e branco, da vida noturna da cidade, nos primeiros trinta anos do século passado. São quase detalhes, usando foco gris, envolvendo gente do povo, ambientes e situações do dia-a-dia não tão charmoso da urbe que atraia, à época, artistas e escritores de muitos países. Brassaï é húngaro. Há um casal a se repetir em duas das 98 fotografias. Ficam em duplo, por conta de velho espelho a captar suas imagens, deixando à mostra copos, cigarros, esmaltes das unhas da mulher etc. Em uma, o homem está com boina, na outra resplandece sua cabeleira negra. Enquanto isso, uma prosaica carroça - como as dos catadores de lixo no atual Brasil - realça quinquilharias amontoadas. O lado sensível do artista apreende efeitos singulares ao apertar o obturador. Vi e revi partes da cidade que conheço desde 1965. É claro que a Paris de hoje, afora os monumentos públicos, pouco tem a haver com a arte do húngaro Brassaï, eternizadas em exposições, agitando a sensibilidade dos milhares de pessoas que, nestes três meses, passaram pelo acolhedor, mas neutro - como deve ser – ambiente que as recebeu. Rica, multifária e perpassando o Brasil desde a chegada de Cabral, a Brasiliana Itaú reúne objetos, pinturas diversas, entre outras, de Von Martius, Debret e Rugendas. Mescla cartas náuticas, livros raros, floresta, fauna, nativos, cidades, governantes, escritores como Alencar e Rachel e até o inventor Santos Dumont, com o seu 14-Bis. Todos disputam espaço. Essa coleção múltipla parece ser o tardio, válido e verdadeiro encontro do banqueiro Olavo Setúbal com a arte, na juventude de sua maturidade. E o fez com pressa e destemor. Histórica e complexa. Por essas razões talvez não possa ser absorvida na totalidade pelo olhar jovem que, aflito, admirava “tanta coisa bonita”. As visitas gratuitas - guiadas, de estudantes do interior às mostras periódicas da Unifor- são uma lição à cultura e às artes do Estado. Parabéns. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/05/2011 - [O FIM DO CAOS? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-fim-do-caos-jornal-o-estado/): Em 2002, publiquei o livro “Sobre a Gênese e o Caos”. Nele, na parte primeira, a gênese, procuro, analiticamente, tentar explicar, se é que é possível, o que levou o Al-Qaeda, de Osama Bin Laden, a afrontar os Estados Unidos, no dia 11 de setembro de 2001, ocasionando quase 3.000 mortos. Na parte segunda, do caos, criei onze contos diversos, mas todos com foco na tragédia americana. Contos, vocês sabem, são estórias curtas, criadas, geralmente com poucos personagens, com começo, meio e um fim diferente do que se espera. Em um deles, inventei o personagem Tárik, nascido em Jalabad, Afeganistão, cujo pai fora assassinado à época da ocupação soviética. Aos 14 anos, por conta de forte crise de vesícula, vai para Cabul, a capital do país. Depois de curado, fica à toa e vê multidões percorrendo ruas destroçadas. Era o mês do Ramadã, a época sagrada islâmica da revelação de Allah ao mensageiro de Deus, Muhammad. Tárik sobe em um caminhão repleto de gente. Eram jovens recrutados pelo Al-Qaeda e ele foi de roldão. É detido por ser quase criança. É perdoado, fica no grupo, envolve-se em longo treinamento de guerrilha incluindo falar inglês de forma fluente, sotaque americano e missão terrorista. O final não vou contar. Existe a realidade fática, a ocupação, há anos, do Iraque e a morte, nesta semana, de Osama Bin Laden, no Paquistão. Rico fundamentalista islâmico, com vários ex-amigos americanos influentes, metamorfoseado em chefe de um grupo muçulmano a confrontar o ocidente, especialmente os Estados Unidos. Antes e depois do 11 de setembro de 2001, outros atentados aconteceram, ao redor do mundo, quase todos atribuídos ao Al-Qaeda. Agora, neste começo de maio, Barak Obama, fala, com orgulho, da façanha de seus soldados “Seals”, matadores de Bin Laden. Perplexos, perguntamos, a partir dessa morte, é se ele, nesses anos todos, formou sucessores para continuar essa senda vertiginosa de terror? Virará mito? Por outro lado, indagamos a razão dessas culturas, a ocidental e a islâmica, não procurarem um viés de paz ou respeito às diferenças em um mundo combalido por catástrofes da natureza e problemas econômicos contínuos. Somos diferentes, temos costumes, valores e crenças dessemelhantes, mas é preciso se encontrar um condão de esperança a dar cabo ao sectarismo islâmico e à crescente intolerância ocidental. Ditaduras árabes estão sendo, pouco a pouco, despedaçadas pelo próprio povo a lutar e a morrer pelo livre-arbítrio, mesmo sem avaliar o futuro a vir. A liberdade, essa que temos, na maior das vezes não a sabemos usar em nossa própria defesa e na do próximo, mesmo não sendo ele o imaginado. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/05/2011. - [SEU DIA, MEU DIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/seu-dia-meu-dia-diario-do-nordeste/): Hoje é o Dia do Trabalhador. É o meu dia. Aos 14 anos comecei a ajudar meu pai. Daí, não parei mais. Fiz uma faculdade pela manhã e outra, à noite. As tardes eram de trabalho. Escrevia, remunerado, para o Correio do Ceará e era correspondente da Carta Econômica do Nordeste, de Recife. Formado, emendei em um curso de doutoramento na UFC que me tomou dois anos sem resultado. O MEC desativou o curso. Tentei ser advogado. Deram-me um trote: receber uma dívida difícil no Cariri. Fui lá e voltei com o dinheiro. O cliente não acreditava. Depois, conclui que andar pelo Fórum não era para mim. Abri, com coragem e disposição, uma empresa de administração. A empresa era eu. Quando precisava de suporte valia-me do colega de turma Ananias Josino Lobo, meu mais antigo e querido amigo. Fernando Távora era presidente da Companhia Cearense de Sondagens e Perfurações-Cocesp, depois Companhia Cearense de Saneamento- Cocesa e me pediu ajuda. Fui ser gerente administrativo. Fechei as torneiras. Com cara de menino, falava grosso. Logo depois, Danilo Marques me apresenta a Elano Paula que tinha pendência de um ano no BNH, no Rio. Em quinze dias, resolvi tudo. Voltei de rumo mudado. Havia um sonho de grupo econômico, mas, depois de três anos, pedi para sair. O jogo era denso e eu queria ser livre, fazer o que me importava. Elano não se surpreendeu e disse: já adivinhava, boa sorte. Não foi bem assim, passei ainda alguns anos como sócio do engenheiro Nisabro Fujita. Uma segunda-feira, sem razão especial, disse para ele: quero trabalhar só. Repartimos o que tínhamos, sem nenhum problema. Agora, era eu e o desafio. Fiz-me de forte, estudei, pesquisei, inovei, viajei muito e descobri-me trabalhador. Hoje, dezenas de anos depois, reconheço-me como lutador nato, embora tenha assinado mais de 25.000 carteiras de trabalho. O faço com alegria. Acerto e erro. Estudo, compartilho, distribuo, diariamente, recortes de revistas e jornais, escrevo e-mails com ideias sobre o que acho certo ou errado. Por isso, hoje é o meu dia, o seu dia e de todos aqueles que trabalham, de verdade. Acredite e lute pelos seus sonhos. Não desanime nunca. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/05/2011. - [NOVA FESTA, 30 ANOS DEPOIS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nova-festa-30-anos-depois-jornal-o-estado/): Hoje será o dia da festa da insanidade coletiva. Estações de Televisão de todo o mundo disputarão lugares estratégicos em um trajeto de pouco mais de dois quilômetros. Dignitários, nobres, bobos da corte, com fraques- muitos deles, alugados - e cartolas; ladies, catadoras de convites e celebridades ocasionais em vestidos curtos ou longos, joias ou semi-joias, estarão à procura de câmeras para os seus sorrisos e, portarão, em seus bolsos, máquinas fotográficas para, furtivamente, registrar o acontecimento. Depois, mostrarão orgulhosos, às suas famílias e amigos. Vocês sabem que cada convidado recebeu um Manual de Procedimento para dizer horários, lugares a ocupar quais as vestimentas adequadas, as condutas certas e como devem ser os cumprimentos e até meneios de cabeça para os integrantes das muitas famílias reais presentes? Vocês ainda acreditam em contos de fada? Preferem Cinderela? Carruagens mostrarão o anacronismo da tradição que teima em ficar à tona. Uma família, dizem, com graves problemas comportamentais finge se unir e se apega às verbas anuais de um tesouro combalido. E.Burke, político inglês do século 19, já dizia: “Quanto maior é o poder, mais perigoso é o abuso”. O que faz uma família real neste século 21 assolado por grave e contínua crise econômica em toda a Europa? Cerca de 1.900 convidados estarão presentes à abadia, 650 irão à recepção e apenas 300 comparecerão ao jantar, dito íntimo. Como se vê, haverá, entre os convidados, seleção de castas. O mundo, depois do fim da guerra fria, do ataque de 11 de setembro de 2001, do vertiginoso crescimento da China e dos combates fabricados no mundo muçulmano não pode se dar ao luxo de uma ostentação inócua, inconsequente e dispendiosa de uma boda que pode – ou não – dar certo. No dealbar desta segunda década, a Europa está em processo anunciado de fadiga econômica. Tenta manter-se altiva e engendra soluções emergenciais para países que posaram de ricos e passam por cortes em orçamentos, pedem empréstimos de organismos internacionais e acreditam que o bloqueio à entrada de imigrantes de países que, em boa parcela, foram colonizados pela velha Albion, pode ser uma das soluções. Domingo, televisões, jornais, tabloides e revistas sérias de todo o mundo, trarão edições especiais da pantomima. É o começo da primavera por lá, mas, se chover, será um sinal lacrimoso do desperdício e da falta do que fazer. Repete-se o que aconteceu há 30 anos e, todos sabem no que deu. Traições e morte. Parafraseando La Rochefoucald:os nobres são como certos quadros: para admirá-los não se deve olhá-los muito de perto. God save the insanes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/04/2011 - [BRASIL NA CHINA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasil-na-china-diario-do-nordeste/): O Brasil estava se preocupando demais com o possível acesso ao Conselho de Segurança da ONU (a China negou apoio) e as crises do mundo muçulmano, especialmente, o Irã. O governo esquecia a China, nosso segundo parceiro comercial, graças a negócios privados. Não que as crises do mundo muçulmano não devam preocupar. A China é país absolutamente diferente de tudo o que já vi. Estive na Ásia duas vezes. Recentemente, andei pela nova China. Procurei ver o que nos mostram e o que sempre estavam atrás de muros. Lembram os muros de entrada/saídas onde toureiros se protegem dos touros enfurecidos? Pois micro-casas/favelas ficam atrás desses muros. Alguns deles têm paisagismo moderno, mas da “passagem do toureiro” para a parte interna há brutal diferença. Existe pobreza. A diferença é que o jovem chinês tem mais ambição que qualquer rapaz do ocidente. Ele sabe que só há duas saídas para o sucesso: conhecimento e trabalho. Assim, estuda para valer. Moureja, sem descanso. Por outro lado, há os chineses já no patamar dos ricos, embora morem, ainda, em casas e apartamentos pequenos para os padrões ocidentais. Mudaram hábitos, vestem roupas ocidentais e até degustam vinho. Em 2010, a China foi a maior consumidora do mundo de vinho Bordeaux. Os ricos de lá não ficam a dever nada aos do mundo ocidental. Casamentos são em hotéis. Há carrões, limusines e restaurantes luxuosos em hotéis, ruas e shopping centers. Você pode comprar artigos Louis Vuitton originais ou optar por imitações em mercados populares. Dizia, no princípio, que devemos nos preocupar com a China. Ela tem tentáculos na África. Nada de ideologia ou guerra. Exércitos de empresas chinesas investem em todas as áreas industriais e vão, pouco a pouco, sendo donos da economia dos países africanos. E não só na África. A viagem da Presidente Dilma é promessa cautelosa. Ela e seus assessores devem ter lido a “Arte da Guerra”, de Lao-Tzu e os “Anelectos”, de Confúcio. Esses livros dão ideia de como a filosofia “Tao” serve até hoje ao pragmatismo e a demora chinesa para decidir. Terry Gou, da Foxconn, dos US$ 12 bi de investimento no Brasil, não é chinês. É de Taiwan. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/04/2011 - [INSTITUTO DO LIVRO E LEITURA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/instituto-do-livro-e-leitura-jornal-o-estado/): Há um grupo de pessoas que luta, de verdade, para a difusão do livro e da leitura nesta terra de poucos leitores. Esse grupo criou, há algum tempo, o Fórum do Livro e da Leitura do Estado do Ceará. Reuniões foram realizadas, ideias trocadas, esboços de projetos feitos, assembleias, e, depois de mais ou menos dois anos, vicejará um Instituto. O Instituto do Livro e da Leitura do Estado do Ceará reunirá as principais entidades culturais e os integrantes dos sindicatos da indústria gráfica e do comércio do livro e pedem as bênçãos de José de Alencar, Farias Brito, Raquel de Queiroz, Martins Filho, Gerardo Melo Mourão, Alcides Pinto, Augusto Pontes e de tantos outros escritores que nos precederam na ida ao Parnaso. Falo especificamente de Pedro Henrique Saraiva Leão, José Augusto Bezerra, Gizela Nunes da Costa, Auto Filho, Mileide Flores, José Augusto Bezerra, Karine David, Luiza Amorim, Francílio Dourado, Sérgio Braga, João Soares Neto, Raymundo Netto, Assis Almeida e outros. O Instituto chega para somar força com a Secretaria da Cultura do Ceará, Secretária de Cultura de Fortaleza e as entidades representativas da literatura, do livro, da indústria editorial e entidades culturais, notadamente: Academia Cearense de Letras, Academia Fortalezense de Letras, Instituto do Ceará, Associação dos Bibliotecários do Ceará, Anuário Literário do Ceará, Associação Brasileira de Bibliófilos, Anuário da Literatura do Estado do Ceará, Câmara Cearense do Livro, Benficarte, Sindicato do Comercio Varejista do Livro do Estado do Ceará e Sindicato da Indústria Editorial do Estado do Ceará. Agora, neste abril de 2011, essas entidades acertaram com a Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, por seu presidente, Dep. Roberto Cláudio, realizar, no dia 03 de maio próximo, uma terça-feira, às 15:30h, uma audiência pública na Comissão de Cultura e Esportes daquela Casa, dirigida pelo dep. Ferreira Aragão. Como o próprio nome o diz, será uma audiência em que todas as pessoas e entidades interessadas no livro e na leitura poderão comparecer. Estão, desde já, convidados os dirigentes, professores e alunos das principais universidades: Federal do Ceará, Estadual do Ceará, Unifor e Uva. As faculdades privadas também estão convocadas, assim como todos os colégios públicos e privados, as entidades e grupos literários, órgãos da imprensa, editores das revistas e, logicamente, todos os escritores, independente de fazerem parte ou não de academias. E você, caro leitor, já fica convidado e poderá levar os seus amigos. Repito, tudo será público. Todos serão bem-vindos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/04/2011 - [O BRASIL E O CAOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-brasil-e-o-caos-diario-do-nordeste/): Bem que gostaria de escrever algo leve, crônicas charmosas, mas há caos no Brasil. Cidades grandes não permitem estabelecer horários certos de reuniões entre pessoas com trabalho em bairros diferentes. Vale a moda: “tipo assim, 4 da tarde”. Há intervenções urbanas necessárias e outras dispensáveis, realizadas durante o dia. Engarrafamentos. Existe velha mania de se dizer que a solução urbana passa pela cabeça de arquitetos. Nem tanto. É preciso que os profissionais tenham qualificação real em urbanismo, mas isso é outra conversa. É imperativo um conjunto de profissionais diferentes para pensar uma cidade. Jaime Lerner, urbanista, fez – com equipe multidisciplinar - de Curitiba uma cidade planejada, modelo brasileiro. As demais cidades vivem em função de demandas emergenciais, enchentes e o desencontro da implantação ou ampliação de metrô, saneamento básico com a malha viária existente ou a ampliar. De um tempo para cá, o Brasil vive a paranoia da Copa do Mundo/2014. Estádios inteiros são implodidos (a palavra está certa), quando poderiam ser ajustados às novas exigências tecnológicas, com custos bem inferiores. Além disso, há sentimento de urgência. Tudo tem de estar pronto. Logo. Criam-se comissões disso e daquilo e, para variar, poucos se entendem. Países existem para os seus habitantes e turistas, mas não para circunstanciais eventos que, quase nunca, duram um mês e deixam um pós-vazio. A África do Sul está com estádios sem uso, dívidas a pagar e racionamento de energia. A Vila Olímpica do Rio está com aptos. abandonados e o estádio, cedido. Agora, será diferente. Somos a pátria do futebol e as prioridades se invertem. Aeroportos brasileiros são, quase todos, ultrapassados em segurança, acessibilidade e atendimento. Na Europa e Estados Unidos, os despachos (check-in) são feitos na ponte de embarque dos aviões e se pode chegar e entrar rapidamente. No Brasil tudo é corre-corre, sobe e desce escada, o avião muda de posição nos “fingers”, há atrasos, a maior parte dos atendentes dos aeroportos e das companhias não tem treinamento. É terceirizada. E complica o simples. Algumas empresas aéreas são mancas. Uma, até no nome. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/04/2011. - [FAMÍLIAS CONTEMPORÂNEAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/familias-contemporaneas-jornal-o-estado/): Tome cuidado ao falar. Especialmente, se você estiver com gente jovem. As relações entre eles, amizades, namoros, e mesmo os casamentos, são fluidas. Assim, atenção ao perguntar por fulana ou sicrano. Pode já ter deixado o rol de amigos, a relação estável ou até o casamento. Não mexa em caixa de maribondos. Hoje, crianças passam a conviver com outras, até então desconhecidas, que, na verdade, são filho(a)s do namorado(a) ou companheiro(a) da mamãe e/ou do papai que já não vivem mais juntos. Até se falam, mas cada um na sua. Nesse tempo de relacionamento complicado, duas pessoas (pai e mãe), os que não estão - pelo menos naquele determinado momento - com novos relacionamentos, sempre ficam de fora. E, são eles, geralmente, os que apimentam ou fustigam as relações com os filhos, intrigando-os contra os pais/mães e seus novos relacionamentos. Os filhos, muitas vezes, passam a não entender nada e ficam confusos. Os pais se amavam tanto. E agora? Começam, em face das novas relações de seus pais, a ficar parte do tempo na casa de avós que, se aposentados, têm tempo disponível. Têm tempo, mas ainda não absorveram a volatilidade dessas relações amorosas contemporâneas. O problema, nesses casos, é o ajuste dos sentimentos, das ideias e da linguagem para entender a mistura dos filho(a)s do(a)s filho(a)s com os filho(a)s do(a) novo(a) cara permanente ou passageira que desponta nas festinhas de aniversários e até nos cafés e almoços dominicais. Quem é? Começou quando? Meu Deus, isso é o fim do mundo, são os costumeiros comentários dos parentes, especialmente do(a)s tio(a)s que nada têm a ver com a história pessoal do(a)sobrinho(a). Os avós, irmãos do(a)s tio(a)s, ficam compassivos, mudos, olham para o infinito, pouco entendem a peça que o tempo lhes pregou e da qual passam a ser atores. As ramificações surgidas nessas novas relações ficam embaralhadas. De repente, o(a) filho(a) deixa três crianças na casa de seus pais. Duas, são neto (a)s e a outra? É filho (a) do moço que estava na direção do carro e, sequer, desceu para cumprimentar. E o que fazer para juntá-los? Como ter a naturalidade com uma criança estranha que, sem mais, nem menos, chega, com o(a)s neto(a)s querido(a)s para um fim de semana prolongado e a primeira coisa que fazem é pegar e mexer no novo celular do avô para jogar. Enquanto isso, os amantes, ficantes ou casantes se mandam para algum lugar sem barulho das crianças que geraram e prometeram criar com amor, assistência e presenças. Crianças, todos sabem, são manipuladores e os avós, nas ausências dos pais, pagam o pato, mesmo que estejam a tomar remédios para o diabetes, hipertensão, gota e as colunas vertebrais não aguentem abraços fortes dos netos que vêm em desabalada e inocente correria. E há ainda as reclamações do(a)s filho(a)s quando voltam dos seus passeios: essas crianças não tomaram banho e as mochilas ainda não estão arrumadas? Os avós, silentes, sem terem sequer recebido um beijo do(a) filho(a) que chega esbaforido(a)e apressado(a),ajudam a fazer as mochilas, se despedem dos netos e do novo(a) “sobrinho(a)” que, todo(a) feliz, diz: Tchau, tio. Gostei, vou voltar. Até breve! João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/04/2011 - [MUSEU SOUMAYA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/museu-soumaya-diario-do-nordeste/): Carlos Slim Helú é, segundo a revista Forbes, o homem mais rico do mundo. Mexicano, 71 anos, descendente de libanês, engenheiro, viúvo, seis filhos, comanda grupo de empresas de ramos dessemelhantes. Hoje, o seu maior destaque é na área de comunicação liderado pela América Móvil que, no Brasil, é dona da Claro, Embratel e sócio da Globopar. Slim tem empresas em muitos países na América Latina e Estados Unidos. O nome desse grupo é Carso, fusão de Car de Carlos e So de Soumaya, sua mulher, falecida em 1999. Sua herança fenícia o fazia vender doces para parentes e amigos, aos 15 anos. Ao casar, aos 21, recebeu do pai um grande terreno para construir sua casa. Pensou, resolveu fazer nele um prédio de apartamentos, morando em um deles. Os outros, vendeu e/ou alugou. Começa aí a saga de investidor imobiliário que empreendeu, entre outras coisas, centenas de edifícios. Não parou nisso, comprou uma falida fábrica de cigarros e a recuperou. O mesmo o fez com uma cadeia de restaurantes. Quando da privatização da Telecomunicações Mexicana- TelMex, a arrematou, e a transformou, posteriormente, na América Móvil. O conheci, em agosto de 2002, em recepção e almoço no Palácio do Itamaraty, na assinatura do acordo de redução de tarifas entre o México e o Brasil, pelos então presidentes Vicente Fox e Fernando Henrique. A então embaixadora do México, Cecília Soto, conversava comigo e, à época, a embaixadora americana, Donna Hrinak, quando se aproxima Carlos Slim, a quem não conhecia. Ela o apresentou. Sentamos em uma mesa, mas Slim, ao mesmo tempo em que falava conosco, pedia desculpas, e usava, em voz baixa, mais de um celular. Intrigado, perguntei a ele, por que não desligava os celulares. Ele, polido, disse: esse é o meio com que me comunico com as minhas empresas. Depois, soube que Slim não usa computadores, embora seja um dos maiores vendedores deles do México. Econômico, sua despesa pessoal mensal é de apenas R$ 40 mil reais. Agora, com recursos de sua fundação, inaugurou na cidade do México o Museu Soumaya, grandiosa, arrojada e bela edificação contemporânea, com 66.000 obras de arte, de todo o mundo. O Museu não cobra ingressos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/03/2011. - [PENSAMENTOS COLETIVOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pensamentos-coletivos-jornal-o-estado/): Depois do que aconteceu no Japão neste março de 2011, país bem preparado, por sua posição geográfica, para se defender de abalos sísmicos, mas não tão aparelhado para o consequente “Tsunami”, ocorreu uma inquietação verdadeira na maioria dos habitantes lúcidos do planeta Terra. É preciso que todos saibam do tamanho ínfimo da Terra em meio ao universo. Quem tiver tempo, procure ver a dimensão da Terra comparada a grandes planetas. Nada mais que um mero ponto azul. E é nesse pequeno ponto azul que vivem os sonhos, as esperanças, as ambições, as desditas e mazelas de quase sete bilhões de pessoas. O nosso Brasil, “bonito por natureza”, no verso de Jorge Bem Jor, citado por Barack Obama, vive o sonho da emergente grandeza. Demonstrando atitude mandou 500 milhões de dólares para o Japão. O prejuízo japonês, ainda não calculado, é de muitos bilhões de dólares, isto sem falar no mais importante, as milhares de vidas perdidas que ainda estão sendo contadas e retiradas dos escombros. Voltando às nossas inquietações pessoais ou pensamentos coletivos, é lúcido fazermos algumas perguntas: por quais razões lutamos como desesperados por toda uma vida e, quase sempre, não usufruímos o que, quase no final, conseguimos? Que mistérios são esses que nos impelem à vaidade sem limites em todos os campos do conhecimento? Por qual razão é tão forte o “”lobby” internacional para a construção de usinas nucleares como fonte da energia elétrica que desperdiçamos por descaso ou por entender que isso não nos diz respeito? Será que os ambientalistas ao impedir a construção de barragens para a construção de hidrelétricas, produtoras de energia limpa e barata sabem o que estão fazendo? Sabem vocês qual a potencial intensidade da radioatividade de um reator da usina sinistrada de Fukushima? Cem vezes a bomba atômica que os Estados Unidos lançaram do avião “Enola Gay”, em 06 de agosto de 1945, sobre Hiroshima, quando morreram 140.000 japoneses. A radiação matou gente até cinco anos depois. Vamos orar para o pior não ocorrer agora. O tal progresso que nos permite saber quase tudo a todo instante não descobriu, com todo o aparato científico disponível, solução para prevenir as destruições dos furacões, terremotos e “tsunamis” que, mesmo antecipados, não podem ser debelados. O que ainda se consegue fazer é evacuar populações para abrigos ou para muito longe do perigo. Agora mesmo, abri um sítio eletrônico, www.painelglobal.com.br que nos permite ver, em tempo real, o que está acontecendo na Terra em termos de terremotos, furacões e inundações. Nesse mesmo sítio, pateticamente, você é obrigado a ver anúncios de todos os tipos de quinquilharias para venda. A utilidade faz parceria com a vaidade. É assim, infelizmente, que a Terra gira. Por sinal, o acontecido no Japão mudou o eixo do nosso planeta azul. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/03/2011. - [MULHER, POESIA PURA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mulher-poesia-pura-jornal-o-estado/): Segunda, 14, data consagrada a Castro Alves e à Poesia, tive a ventura de juntar poetas. Alguns, em carne viva. Outros, em versos eternizados. De todos, recolhi poemas. Os daqui, eles mesmos os indicaram. Os do além, eu os escolhi. Poemas são mergulhos dos quais emergem respingos de sombras, amores, sonhos e dores. O tema: mulher. Vocês verão aqui, em rigorosa ordem alfabética, pequenos trechos de poema de cada poeta. Recorte e guarde, se desejar. Vou numerá-los, para que você, leitor, possa saber, com clareza, de quem são os poemas, sem aspas: 1. Antonio Girão Barroso: Maria, na doce paz deste poema sem lágrimas/minha mão quer te ofertar rosas e não versos; 2. Artur Eduardo Benevides: Porque ao fim da tarde já cheguei,/sentindo que meus dias vão findar,/jovem- só por te amar – ainda serei;3.Carlyle Martins: E vendo-nos, ao luar de estranhos brilhos,/de mãos dadas, aos beijos, nossos filhos/dirão que enlouquecemos de paixão;4. Carlos Augusto Viana: O teu corpo é um barro alucinado, /fruto de finas águas; e os tecidos/que o cobrem têm o âmbar cultivado/por dedos de farândolas tingidos;5. Carlos Drummond de Andrade: Para amar uma mulher, mais que/tentar conquistá-la/ há de ser conquistado...todo tomado e, um pouco de sorte, também ser/amado; 6. Castro Alves: Eu fui a brisa, tu me foste a rosa,/fui mariposa,/-tu me foste a luz;7.Cecília Meireles: Está vendo os salões que se acabaram/embala-te em valsas que não dançou/ levemente sorri para um homem/O homem que não existiu;8. Cid Carvalho: Pois sigo na lágrima tua e quando encostas /o ouvido no meu peito, ouves o tropel nervoso/do meu cavalo louco nos caminhos do fim;9. Dimas Macedo: quero-te o ventre/partilhado de lírios./E os círios acesos/de teus lábios;10.Florbela Espanca: Amo-te tanto! E nunca de beijei.../E neste beijo, Amor, que eu te não dei/guardo os versos mais lindos que te fiz;11. Francisco Carvalho: Assim nasceu o pecado, segundo/a escritura bíblica. Alguns sábios/acreditam/nessa ingênua metafísica;12. Gerardo Melo Mourão:... eterna solidão da eterna noite/ e teu último poeta fere na pedra a boca//súbito lembrada do teu nome;13. Giselda Medeiros: E sei mais: que por amor/tornas gostoso o amargo do jiló/e que fazes nascer um sol indefinido/na escuridão dos eclipses da vida 14. Horácio Dídimo: O pão nosso de cada dia nos dai hoje/pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não há ternura/pelo fruto de suas entranhas; 15. João Dummar Filho: És a virgem exigente/e eu o pecador/és a verdade esplendorosa e eu, da existência a dor; 16. Batista de Lima: E Deus/ criou a mulher/para dar luz/ao homem;17. Barros Pinho: Nos olhos da amada/o verbo edifica/os acentos da solidão; 18. José Telles: Não preciso, sequer, / tocar tuas entranhas, /dá-me apenas a paisagem do teu corpo para ser aplaudida;19. Juarez Leitão: Os pés de Donamaria contam histórias/de muitas lutas e poucas maravilhas!/Os calos são medalhas de suas glórias / conseguidas nos lombos dessas trilhas; 20. Leda Maria: Vez ou outra, acordamos mas/ lentamente, repetindo textos santos,/canções de marinheiros/e versos de partida; 21.Linhares Filho: Meu destino é a quietude que se esconde sobre tuas/algas e sob a tua salsugem;22.Luciano Maia: Ó musa ignota, ser misterioso/caprichosa, lindíssima mulher/ e me fazer ousar: e ainda ouso/ o poema encontrar, onde ela quer; 23.Millôr Fernandes: Deus, a graça é imerecida,/mas dai ainda/ uns aninhos de vida; 24.Octavio Paz: Teu corpo se constela de signos verdes/renovos num corpo de árvore/ não te imposta tanta miúda e cicatriz luminosa:/olha o céu e a sua verde tatuagem de estrelas; 25.Olavo Bilac: Amo-te! Sou feliz! Porque, do Éden perdido,/ levo tudo, levando o teu corpo querido/pode em redor de ti, tudo se aniquilar/tudo renascerá cantando ao teu olhar; 26.Paul Verlaine: E os cuidados que vós podeis ter são apenas/andorinhas voando à tarde pelo céu/-Querida- num belo dia de setembro; 27.Pedro H.S. Leão: eterno é o que um só segundo/ é o que passou tão de repente/ sem dar tempo amanhecer; 28.Regine Limaverde: Sofro pelas mulheres que não tiveram/ os seios tocados/ os lábios procurados;/que se cansaram, em vão, ou jamais dormiram/ no leito de um Deus;29.Roberto Pontes: Felizes são aqueles que amantes/dão-se de todo aos ritos do seu jogo/ e amparam suas mágoas e desejos/ na reciprocidade sacra dos seus ventres;30.Soares Feitosa: Mantive a prisioneira sob algemas/que ninguém é louco de manter/tesoiro tão rico ao léu;31.Vinícius de Moraes: E de te amar assim, muito a miúde/é que um dia em teu corpo de repente/ hei de morrer de amar mais que pude;32. Virgílio Maia: Trago-te a mim, te entrego os corações/que flechados e azuis tragos nos braços. /Quero agora guiar-me por teus passos/ E no teu corpo haurir loucas lições; 33. Walt Whitman: Não se envergonhem, mulheres/é de vocês o privilégio de conterem/os outros e darem saída aos outros; 34. William Shakespeare: Assim é o meu amor e a ri reporto/ por todas as culpas eu suporto. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/03/2011. - [DIA DA POESIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dia-da-poesia-diario-do-nordeste/): Poetas mourejam palavras, metafísicos da escrita que são. Acolhem e transmudam em versos a sensibilidade, os sinais, os símbolos, os sentidos, os sentimentos e os sonhos. Madame de Stael, em De l’Allemagne fala que “a poesia é a linguagem oficial dos cultos”. Concordo com ela. Há que haver muita estrada para atingir a Meca do saber. É preciso vida vivida antes de alinhar vocábulos, procurar metáforas, quiçá um mero verso. Dizia T.S. Eliot que “a poesia não é um modo de liberar a emoção, mas uma fuga da emoção; não é uma expressão da própria personalidade, mas uma fuga da personalidade”. Estar poeta não é ser poeta. O poeta fica, os outros, passam. Castro Alves está, altaneiro, em uma gávea perpétua. Olavo Bilac vive uma alvorada de amor eterno. Carlos Drummond de Andrade faz versos livres no paraíso dos poetas e João Cabral de Melo Neto é o diplomata do uni verso. Vinícius de Moraes povoa birosca celeste cantarolando. Cecília Meireles, talvez atrás da coisa que passa, virou asteroide. A poesia não explica, ela é a dúvida. A poesia não ensina, ajuda a pensar. Alcides Pinto conversa com São Francisco, não mais no Estreito, mas na imensidão do Cosmo. Antônio Tomás, o padre, polvilha sonetos em nimbos celestiais. Gerardo de Melo Mourão fala sobre a invenção do mar para a escuta de Luís de Camões. O poeta, digo eu, não o é porque se assume. Sê-lo-á se for vero e isso tempo leva. Amanhã, segunda, 14 de março, é o Dia da Poesia. A galeria Benficarte acolhe poetas brasileiros, vivos e no além, para mostrar o que disseram sobre o ser mais misterioso do planeta: a Mulher. Não há quem a defina sem que falte algo essencial. A mulher habita a sensatez, mas palmilha o descompasso. Seu coração pode estar fechado, mas suas artérias permitem a circulação do bicho-homem, esse ser dependente/independente que, com ela, povoa o mundo. Virgílio, poeta latino, dizia que a mulher é “inconstante e sempre mutável”. Quem poderia chegar mais próximo de sua essência? O poeta. Por tal razão foram reunidos, de forma plural, para homenagear a mulher, no dia consagrado ao poeta Castro Alves. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/03/2011. - [CRÔNICA DO CARNAVAL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cronica-do-carnaval-jornal-o-estado/): Acabou-se a esbórnia. Escrevo nesta quarta, cinza por chuvas que caem em meio a uma cidade que se repovoa depois de quatro dias de sandices. Para que serve mesmo o carnaval? Pergunta um amigo filósofo. Sei não. Apenas sei que é atrelado à quaresma, essa trégua cristã de quarenta dias que, quase sempre, termina em outros feriados não tão santos. A propósito, a CNBB, da Igreja Romana, lançou agora a Campanha da Fraternidade deste ano: Discutir a vida no nosso planeta. A vida eterna fica para depois. Do Rio, Danuza Leão resmunga contra a falta de sentido dos espetáculos do Sambódromo e faz crer que ele apenas é reduto de bicheiros, traficantes, figurantes, celebridades (ela que o foi no século passado, fala de cátedra) e de turistas incautos e insones com as nádegas anestesiadas, enquanto Roberto Carlos e Gisele Bundchen são mostrados com exclusividade por uma rede de televisão. Acabou a festa. Limpe-se o que foi sujo. A presidente Dilma voltou da “Barreira do Inferno”, seu local escolhido para descansar no Rio Grande do Norte. Deveria lançar foguetes contra certos políticos. Enquanto isso, cervejeiros foram presos no Rio de Janeiro por fazer xixi nas ruas. Alegam, alguns dos detidos, que as cabinas plásticas são como celas de presídio, pequenas e sujas. Devem saber do que falam. O ex e futuro candidato a candidato a presidente, Aécio Neves, aparece em feijoada boca livre com a camisa estampando a palavra devassa e é alvo de beijos encomendados ou espontâneos. Romário, o deputado federal, agora de passaporte diplomático, faz o que gosta: aproveita o carnaval para jogar futebol com amigos em país que integrava a URSS. “Bruna, a surfistinha” é vista por todos, até pelo Contardo Calligaris, psicanalista e cronista, que diz ter gostado do filme. Leonilson, artista cearense, nascido no Benfica, morto em 1993, aos 36 anos, ocupa página inteira da Folha. Na sua terra quase não se fala dele. Há uma escultura sua na Beira Mar da Praia de Iracema. Maria Luiza Fontenele e Rosa da Fonseca aproveitam o público da Domingos Olímpio e divulgam sua utopia em folhetos. Por falar em utopia, a feminista Rose Maria Muraro (lembram dela?), aos 80 anos, prepara o seu 36º. Livro: “Um mundo ao alcance de todos”. Quando será isso? Um carro, dirigido por mulher, se recolhe ao leito do canal da Aguanambi de pneus para cima. Ninguém morreu, ainda bem. Nos condomínios lotados da orla leste caminhões limpa-fossas recolhem dejetos, deixam olores no ar e respingos nas estradas. Jovens morrem no país inteiro. Só na Bahia, de todos os santos e axés, foram 4.120 atendimentos em postos de saúde. O péssimo livro “A Cabana”, de William P. Young, continua entre os mais vendidos, certamente para pessoas que deveriam aprimorar a leitura. Raymundo Netto prossegue com sua boa e “serial” crônica “Coisas engraçadas de não se rir”. O Dia da Mulher, terça, 08, foi lembrado por poucos. Estavam quase todos invocando Baco. Evoé. Parabéns a todas as mulheres, construtoras de um mundo sem limites neste século 21. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/03/2011. - [EDSON E FRIAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/edson-e-frias-diario-do-nordeste/): Esta semana, lendo a edição comemorativa dos 90 anos da Folha de São Paulo, estabeleci conexão entre Edson Queiroz e Octávio Frias. Ambos eram comerciantes, como Frias gostava de ser chamado, ou empresários, ou empreendedores, como hoje se diz. A diferença entre Edson e Frias é que este comprara em 1962, em sociedade com Carlos Caldeira Filho, a Folha, que já havia passado por duas outras mãos, desde a sua fundação, em 1921. Edson - empresário de sucesso na distribuição de gás liquefeito de petróleo, indústria de eletrodomésticos e pela implantação da Universidade de Fortaleza, decidiu fazer um jornal, a partir do nada. E o montou de forma acelerada, mas planejada, com bons profissionais e consolidou o seu grupo de comunicação, possuidor de televisão e rádio. Ambos, Edson e Frias, eram diretos em seus objetivos. O jornalista Clovis Rossi conta, nessa edição comemorativa, conversa tida com Frias. Rossi era correspondente em Buenos Aires e estava cansado de ficar lá, queria viajar. Ele escreve: “Frias, cortou logo o papo com uma frase que não consegui esquecer... O que você prefere, viajar mais ou ter a independência que tem para escrever o que quiser?”. Edson era também direto, obstinado e ajudava, sempre de forma discreta, como o fez com o seu diretor Astrolábio Queiroz, até o fim. O mesmo, com o radialista Paulino Rocha. Lembro do dia 04 de dezembro de 1981, quando saiu o número zero (teste) do Diário do Nordeste. Amigos de Edson Queiroz, entre eles, eu e o Antônio dos Santos, então presidente da Assembleia Legislativa, que, interinamente, ocupava o Governo do Ceará, confraternizavam, visitavam as oficinas e saiam de lá com exemplares do DN ofertados por Edson, em mangas de camisa e radiante. O primeiro número saiu logo no dia 19. Trazia o editorial “Compromisso de Luta”, falando dos objetivos do jornal com novidades como a segmentação em cadernos e excelente feição gráfica. Hoje, quase 30 anos passados, relembrei esses fatos ao ler a bela edição comemorativa da Folha que, inclusive, relata de forma clara e sem sofismas seus sucessos, erros e percalços. Como dizia Machado de Assis: “O jornal é a verdadeira forma de república do pensamento”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2011. - [CUIDADO COM A CHINA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cuidado-com-a-china-jornal-o-estado/): Creio que estamos nos preocupando demais com as crises do mundo árabe/muçulmano e esquecendo a China. Não que as crises e ditaduras do mundo árabe/muçulmano não devam nos preocupar. A China é um país absolutamente diferente de tudo o que já vi. Estive na Ásia duas vezes. Recentemente, andei pela nova China. Capital e interior. Não como turista, mas procurando ver o que não nos mostram e o que estava atrás de muros. Lembram os muros onde os toureiros se protegem dos touros enfurecidos? Pois muitas micro-casas (6 m2 ou um pouco mais) ficam atrás de muros parecidos. Alguns muros são bonitos, tem até paisagismo moderno, mas na “passagem do toureiro” para a parte interna há uma brutal diferença. Há ainda muita pobreza na China, a diferença é que o jovem chinês tem mais ambição e foco que qualquer rapaz do mundo ocidental. Eles sabem que só há uma saída para cair fora dos guetos em que vivem, o conhecimento. Assim, estudam, mas para valer. Trabalham, igualmente, sem descanso. As “roupas comuns dependuradas” mostram como se assemelham às favelas brasileiras. Por outro lado, fora dos muros e de edifícios antigos e decadentes, há a China rica, esfuziante, com os mesmos luminosos bregas de Las Vegas. Há os chineses que atingiram o patamar do bem-estar, embora morem em casas e apartamentos pequenos para os padrões ocidentais. Mudaram os hábitos, vestem roupas copiadas dos ocidentais e até se acostumaram a beber vinho. Um exemplo: no ano passado, 2010, a China foi o maior consumidor do mundo de vinho francês tipo bordeaux. Consumiram 20 milhões de garrafas. Isso não é nada se compararmos com a população de 1,6 bilhão de pessoas, mas é um indício. Os deslumbrados de lá não ficam a dever nada aos do mundo ocidental. Os casamentos são em hotéis. Há carrões, limusines e restaurantes luxuosos, não só nos hotéis internacionais, mas nas ruas e em centros comerciais. Você pode comprar bolsas Louis Vuitton originais em lojas do grupo francês LVMH ou, simplesmente, optar pelas imitações em mercados populares. Iguais os da Rua 25 de Março, em São Paulo. Dizia, no começo, que devemos nos preocupar com a China. Hoje, a China industrializada e poderosa – 2ª. economia do mundo - tem tentáculos em toda a África. Nada de ideologia ou guerra. A China tem exércitos de empresas trabalhando em todas as áreas industriais que vão, pouco a pouco, sendo quase donos de parte considerável dos países africanos e em outros continentes. Aqui no Brasil, já se sabe, a China é a nossa maior parceira comercial e vai em frente, acreditem. Hoje, penso eu, que a tal geração Y, a nascida depois dos anos 80 do século passado, deveria estar estudando Mandarim, a língua de lá. A geração Z - que ora assim denomino - nascida já neste século, cruzará, sem erro, com grupos de chineses, seus negócios, universidades e a nova cultura sínica que tem a sabedoria de agregar toda a tecnologia contemporânea, mas sem esquecer os velhos sábios, lendo a “Arte da Guerra”, de Lao-Tzu e os “Analectos”, de Confúcio. Esses livros, tais como a Bíblia, têm várias versões através dos séculos, mas dão uma ideia de como a filosofia “Tao” serve, inclusive, para os chineses endinheirados de hoje que se sentem os “tais” e acalentam os sonhos dos pobres que estudam, lutam e pensam atingir outros patamares de vida. Aprender sem pensar é tempo perdido, dizia Confúcio. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/02/2011. - [O QUE É MBA? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-e-mba-diario-do-nordeste/): Recebo telefonema de pessoa amiga referindo-se a tópico que abordei último domingo neste DN: a baixa qualidade do ensino brasileiro. Pede que fale “do engodo que são, em grande maioria, os chamados MBAs, espalhados pelo Brasil”. Na verdade, MBA é, originariamente, Master in Business Administration, curso de dois anos de mestrado, criado nos Estados Unidos e disseminado pelo mundo. Profissionais de nível superior, independente de suas formações, se dispõem a fazer esse mestrado para concorrer no competitivo mercado de trabalho de gestão que cobram de engenheiros, médicos, economistas e outros, capacitação e uniformização de linguagem técnica para suportar a dureza da vida profissional. A Harvard Business School era a irradiadora desses cursos. Entretanto, a crise da economia americana em 2008 produziu quebras de empresas e demissões, com alerta para a mudança dos seus currículos. Segundo lista do jornal inglês “Financial Times”, a Harvard caiu para o 3º. lugar no ranking. Patriotada à parte, o jornal escolheu a London Business School(junto com a Wharton/Penn) como a primeira da lista dos 20 melhores cursos de MBA do mundo. Entristece-nos o fato de nenhuma universidade brasileira haver sido incluída. São dez americanas. França, China, Índia e Espanha têm duas. Inglaterra e Suíça ficaram com uma, cada. Nesta semana, Sabine Righetti, jornalista da Folha, escreveu a reportagem “Para Inglês Não Ver”, lamentando que o nosso ensino superior só agora esteja se internacionalizando. Diz ser a língua inglesa básica para a interação de alunos e professores. Sei, por exemplo, que a Unifor está propiciando intercâmbios com universidades estrangeiras. O que ela faz é abrir a mente de professores e dos jovens para o mundo de agora, ao mesmo tempo em que estabelecem redes sociais para seus futuros profissionais. Voltando aos MBAs brasileiros, muitos são prosaicas pós-graduações – sem reprovações - realizadas em alinhavados fins de semana com estudantes de olho no relógio. Assim, são formas rápidas e fáceis de ganhar dinheiro de pessoas que ainda acreditam em diplomas, sem cuidar da sua formação continuada e ajustada à mutante realidade. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2011. - [SOCIEDADE CONSULAR - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sociedade-consular-jornal-o-estado/): A Sociedade Consular do Ceará reúne, atualmente, os cônsules honorários dos seguintes países: Alemanha, Dieter Gerding; Áustria, Elfriede Reinhilde Lima; Belize, Airton Teixeira; Chile, Cleber Cunha; Colômbia, Maurício Duran Dominguez; Congo, Antônio Farrajota; Finlândia, Ednilton Soárez; França, Fernanda Jensen; Holanda, Annette de Castro; Hungria, Zsofia Erros Sales; Itália, Roberto Misici; México, João Soares Neto; Noruega e Suécia, Marcos de Castro; Portugal, Francisco Neto Brandão; Thecoslováquia, Raimundo Viana; Romênia, Luciano Maia; e Uruguai, José Maria Zanocchi. Há boas perspectivas de novos associados para, reunidos e em consenso, torna-la mais forte e coesa. O cônsul honorário é pessoa escolhida entre candidatos, após profunda e criteriosa análise de seu currículo e história pessoal pelo governo do país representado para atuar em determinadas áreas geográficas, podendo abranger vários estados ou apenas um. Após a análise do país indicador, o governo brasileiro, através do Ministério das Relações Exteriores, em exame conjunto com o Ministério da Justiça, concede – ou não – permissão para atuar e lhe é expedida uma Carta Patente. Cada Cônsul Honorário passa a ser portador de Carteira de Identidade do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, com matrícula própria, explicitando sua função. O Cônsul Honorário é responsável pelo registro cadastral de todos os nacionais do país representado, aos quais deve dar apoio e orientação, ao ser solicitado. Por outro lado, ele é o elo entre a sua Embaixada e as empresas do país representado com os governos estaduais e municipais, entidades de classe, federações e associações da indústria, comércio e serviço do(s) estado(s) onde tem jurisdição. A atividade de Cônsul Honorário não lhe dá nenhum tipo de remuneração, mas o obriga a, em casos concretos, a manter uma sede, receber autoridades, participar de solenidades, fazer viagens, ir a hospitais, delegacias de polícia e até a necrotérios para reconhecimento e autorizar trasladação de corpos. Cada Cônsul Honorário é ligado a um Cônsul pré-determinado da Embaixada de seu país, com quem troca informações sobre concessão de vistos, missões comerciais, mostras de arte, comunicação social etc. Voltando à Sociedade Consular do Ceará, ela estava sendo presidida pelo Cônsul Honorário da Suécia e Noruega, Marcos de Castro, mas, nesta semana, houve a eleição de uma nova diretoria cuja posse será às 19h00min horas do próximo dia 21 de fevereiro, uma segunda-feira, no Centro Cultural Oboé, na Rua Maria Tomásia, Aldeota. Os novos integrantes da diretoria da SCC estão cônscios de suas responsabilidades e esperam ter relacionamento mais próximo com as autoridades governamentais, de modo a ensejar afinidades e concretização de negócios beneficiando nossas exportações e importações de bens e serviços, bem como a divulgação adequada da educação, cultura e das artes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/02/2011. - [CONSTATAÇÃO ÓBVIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/constatacao-obvia-diario-do-nordeste/): Cidade é, literalmente, lugar onde vive o cidadão, muito embora muitos que nela habitam não possam ser considerados como tal. Cidadania pressupõe pleno gozo de direitos civis e políticos. Aqueles, portanto, que se obrigam a morar em condições subumanas, em encostas de morros, vias públicas ou zonas de risco, sem emprego de onde tirar o sustento e a dignidade, dependendo de favores ou mendicância, certamente não podem ser considerados cidadãos. Catadores de lixo e puxadores de carroças não estão, certamente, exercitando os seus direitos civis. O que se vê, todos os dias, em cada esquina deste Brasil urbano, além dos flanelinhas assumidos, são crianças com malabares, ambulantes, mendigos e as carroças pachorrentas cheias de materiais descartados pelos “privilegiados”. Basta de empulhação, de negar o óbvio e mistificar o futuro de pessoas que não sabem o que é esperança. Elas sobrevivem de forma instintiva e vegetativa, tirando do nada o seu sustento e, se se marginalizam, é porque não possuem habilitação para quase nada. Por ser tão baixa a qualidade do ensino no nível médio, as empresas, em sua maioria, empregam em seus escritórios e para funções simples, pessoas com formação superior. É claro que nas indústrias os operários não precisam da educação formal, mas carecem de treinamento profissional para lidar com máquinas e instrumentos mecatrônicos cada vez mais sofisticados, exigindo qualificação continuada. O avanço tecnológico é veloz e resulta em obsolescência e redução de mão-de-obra, de insumos e de custos fixos. A ordem é produzir mais com menos. Por outro lado, o Estado cobra tributo de tudo. O preço final de um bem ou serviço sempre dobra por conta da energia elétrica, carga tributária, obrigações sociais e afins. Muitos dos que nos representam nos parlamentos gastam o pouco tempo que dedicam às suas funções públicas em busca de verbas para prefeitos que os elegem, a barganhar votos por cargos em comissão e empregos terceirizados e dar entrevistas ocas. Por esta razão é que, entre tantos, cacique mora e domina Estado de mais baixo índice de desenvolvimento humano, é votado noutro, tão miserável quanto, e aceita mais do mesmo encargo com resignação. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/02/2011. - [OS DETALHES IMPORTAM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-detalhes-importam-jornal-o-estado/): Quem usa dinheiro de plástico ou cartão de crédito/débito geralmente não sabe o que assina quando contrata com a empresa distribuidora. Na maioria das vezes, um “gerente de banco amigo” pede e você, como bom cliente, concorda. Vejo pessoas com dezenas de cartões desses em suas carteiras gordas. Não sabem o que estão pagando. Serão cobrados e renovados automaticamente. Nesta semana, li um artigo zangado de Lucy Kellaway, colunista do Financial Times, reproduzido aqui pelo Valor. Ela trocou de trem com um bilhete de preço superior ao cobrado naquele. Ao ser abordada pela bilheteira, mostrou o bilhete. A bilheteira disse: não vale. A senhora tem que pagar 91 Euros. Lucy respondeu: o meu é mais caro. Bilheteira: o seu só vale para aquele trem. Lucy: Por qual razão devo pagar? Bilheteira: A senhora deveria saber os termos e condições que estão disponíveis na Internet para usuários desta linha de trem. Enfim, Lucy acabou pagando, com raiva. Um dia desses entrei em uma grande loja e fiz uma compra simples. A vendedora me abordou com delicadeza: o senhor não quer receber o cartão tal? Respondi que não. Ela: é rápido e não custa nada. Para me ver livre da persistência, concordei. Depois de assinar um contrato e responder a um questionário insano que, idiotamente aceitei, ela disse obrigado e que eu receberia o cartão em casa. De fato, recebi não um, mas dois. No mês seguinte: vieram as cobranças de mensalidades dos cartões sem uso. Eu não havia lido os “Termos e Condições” que tinha assinado. As letras eram pequenas e o contrato/formulário era grande. O fato é que já procurei cancelar os ditos cujos cartões e até agora não consegui. O mesmo acontece com as compras pela Internet, com os bilhetes aéreos que compramos, não olhamos os “detalhes” e nos ferramos quando queremos mudar o dia ou horário. Todos os outros bilhetes são mais caros que os nossos, temos que pagar multa e ainda o custo financeiro ou avenças são prolixos e/ou chatos. Um exemplo típico: “Os clientes que usam este site devem estar cientes de que as páginas com endereço na internet tal são administrados por...” e tome blá, blá, blá sabido. A prova maior de que a maioria das pessoas não lê tais documentos foi a brincadeira feita pela empresa “Gamestation”. Ela mandou circular a seus clientes em que se comprometiam a vender suas almas. Dizia assim: “Se quisermos exercer essa opção, você concorda em abrir mão de sua alma imortal, e quaisquer direitos que você possa ter sobre ela...”. Quase todos concordaram. Sei que estou escrevendo sobre um assunto não muito leve, mas o meu objetivo é que você, a partir de hoje, não assine nada sem ler de fio a pavio, mesmo que isso tome tempo e sua vista fique cansada. O que vem depois que assinamos é que são elas. Experimente contatar para um Teleatendimento (call center) para ouvir a ladainha e a protelação de pessoas terceirizadas com nada a ver com a empresa responsável. Tudo na vida parece estar no detalhe que deixamos de ver. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/02/2011. - [O PREÇO DA ARTE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-preco-da-arte-diario-do-nordeste/): Newton Freitas, colecionador apaixonado por artes, editou em 2004 o seu Dicionário de Artes com verbetes em que ele registra, com ética, as autorias. Há pouco liguei para ele para falar de uma mostra de arte aberta nesta quarta-feira, em São Paulo, no Paço das Artes, que leva o esquisito nome de “R$ 748.600,00”, querendo traduzir o valor captado para financiar a exposição. Essa mostra, segundo Silas Martí, jornalista da Folha, “parece uma alegoria do que se propõe a discutir, a relação entre os artistas e o dinheiro”. Fique claro que estou falando de arte plástica e sigo André Malraux, escritor francês, morto em 1976, para quem a arte é “aquilo por meio do qual as formas tornam-se estilo”. Todos sabem que São Paulo reproduz o que aconteceu um pouco antes na Europa e Estados Unidos. Assim, essa “alegoria” tem sido objeto de exposições, ensaios e livros em todo o mundo. A Editora Zahar publicou o livro “Arte&Dinheiro”, de Katy Siegel e Paul Mattuck, que trata do assunto. A subjetividade da arte e sua idiossincrasia tornam alguns pintores célebres. Outros, não. Alguns conhecem a fama e a fortuna em vida. Muitas vezes é preciso morrer para ser bem vendido. Em dezembro passado, o quadro “Sol sobre Paisagem”, do pintor cearense Antônio Bandeira, falecido em 1967, foi vendido, em São Paulo, por 3,5 milhões de reais. As obras de arte dependem não apenas do verdadeiro talento e estilo dos seus criadores, mas do local e tempo onde são expostas, de agentes e vendedores ou “marchands”. Há muito marketing e vaidade em jogo nas ricas exposições e leilões regados com bebidas e comidas finas. Nem tudo vendido é bom e até há falsificações tidas como “genuínas” obras de arte que vão ocupar paredes de quem não quer perceber a distinção, às vezes sutil, entre o real e o copiado. Mas isso não cabe nesta história. O que vale dizer é que a arte continua viva, discutida, apreciada e até sendo objeto da recente criação, em Paris, da primeira bolsa de valores de artes do mundo. Assim, o mercado transforma a arte em mercadoria ou “commodity”, fazendo desaparecer o sentido idílico e a pura visão estética para a qual foi concebida. Uma pena. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2011. - [LEÔNIDAS, ENGENHEIRO E ESPÍRITA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/leonidas-engenheiro-e-espirita-jornal-o-estado/): Conheci o engenheiro civil Leônidas Alves de Souza quando, ainda muito jovem, fui cuidar da administração de uma empresa de economia mista, a Companhia Cearense de Sondagens e Perfurações, depois Companhia Cearense de Saneamento. Nesse tempo, Leônidas fazia a instalação de poços profundos por todo este Ceará tentando diminuir a carência de água do nosso sertão. Era um trabalho duro e ele o desempenhava com muita energia e responsabilidade profissional. Entretanto, vez por outra, Leônidas metia os pés pelas mãos e sumia por alguns dias. Homem forte, alto e capaz, deixava-se levar pelo temperamento que o transtornava, em alguns momentos. Sempre conversávamos e, ao final, tudo ficava resolvido. Logo, logo, saí dessa empresa de economia mista para ser dono do meu próprio destino, fundando, com a coragem e a cara, uma empresa. Passados alguns anos, procurei Leônidas e o convidei para trabalhar comigo. Ele já era quarentão, estava no segundo casamento, mas ainda tinha o mesmo temperamento forte e a fama de valentão, por ser destemido e não levar desaforos para casa. Tempos depois, Leônidas veio falar comigo sobre sua vida familiar. Recomendei cautela e que deixasse a cabeça esfriar. Ao mesmo tempo, sua velha amizade com Cid Sabóia de Carvalho, confesso seguidor da doutrina espírita, ia mexendo com sua cabeça. Parou de beber, reacendeu a sua fé e passou a usar roupas brancas como a mostrar que a paz estava se estabelecendo em seu coração, tornando-o manso e feliz. E nessa trilha foi se transformando em seguidor de Alan Kardec. Durante sete anos, visitava, nas manhãs de domingo, o Leprosário Antonio Diogo. Não contente apenas com sua transformação existencial, foi morar na área metropolitana de Fortaleza e montou com seus recursos e de amigos, no município do Eusébio, o Gepol- Grupo Espírita Portal da Luz, misto de grupo espírita, escola e abrigo para pessoas de todas as idades, especialmente idosos. Desligou-se enfim, após muitos anos de trabalho, da sua boa relação profissional comigo e se tornou, de verdade, um missionário da fé e protetor de centenas de pessoas que o procuram desde então. Virou o Irmão Leo. Sua fé avassaladora não se quedava. Hoje, dedica sua energia na área de cura, minorando ou extirpando males reais ou somatizados. Vai, inclusive, começar em Recife um novo trabalho, para o qual diz ter recebido chamamento. Há algum tempo, escreveu seu primeiro livro, “O Caminho da Felicidade”, lastreado na fé que professa e apaziguou seu espírito. Esse livro foi reeditado e vendido com êxito em todo o Brasil. Leônidas escreve com simplicidade, mas com embasamento teórico, abrindo sua alma e mostrando com clarividência a doutrina que professa sem alardes. Agora, nesta quarta-feira, lançou o livro “Sete Gotas de Espiritualismo Cristão”, com dupla apresentação, de autor e obra, pelos jornalistas Heraldo Pereira e Nonato Albuquerque, sem esquecer do trabalho silente e eficaz de Moacir Maia. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/01/2011. - [FELICIDADE E VIDA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/felicidade-e-vida-diario-do-nordeste/): Esta semana encontrei uma amarfanhada revista Época de maio do ano passado. E por acaso, pus-me a folheá-la. E não é que encontrei um artigo sobre felicidade? Este substantivo feminino com origem no Latim, língua que dizem estar morta, mas preenche vazios dos que escrevem e ainda dá nome a astros e plantas medicinais, entre outros. Desde a antiga Roma, o poeta Públio Siro dizia: “Não é feliz quem não se considera como tal”. Lá perto, na Grécia antiga, Ésquilo, um trágico, arrematava: “Apenas quem terminou sua vida sem sofrimento pode considerar-se feliz”. Horácio, também poeta latino, acreditava que “não existe felicidade completa”. John Stuart Mill, filósofo e economista inglês do século 19, sugeria: “Perguntai a vós mesmos se sois felizes e deixareis de sê-lo”. No século passado, Ezra Pound, poeta americano, criticava: “Felicidade: circulação apropriada de lubrificantes endócrinos”. Voltando ao artigo: ele afirma que a Dinamarca é considerada o país mais feliz do mundo. Em 2006, pesquisadores da Universidade Leicester, da Grã-Bretanha, acreditaram ter descoberto a fórmula de um “mapa mundial de felicidade” que trazia como pressupostos: saúde e educação pública de qualidade e o grau de satisfação da população com o futuro de seu país. A Dinamarca saiu vencedora por desenvolvida, alegre e onde a maioria das pessoas é irônica, como o era o seu falecido filósofo Soren Kierkegard. A razão da felicidade dinamarquesa é justificada pela absoluta liberdade de expressão, cidades seguras, a ironia ou a capacidade de dizer o contrário do que se pensa. E o Brasil, perguntam vocês? Não ficou entre os 20 primeiros classificados, mesmo com futebol, BBB, propaganda de cerveja e roda de samba. A propósito, outro dia a seguinte afirmação de Cristóvam Buarque gerou polêmica: "O Brasil ficou entre 8 melhores do mundo no futebol e entristeceu. Mas é 85º em educação e por isso não há tristeza". Queremos parecer o que não somos, não nos contentamos com o que somos ou temos. Ou com o que importa. Somos perdedores ou vencedores, dependendo dos embates e batalhas, esquecendo, como queria André Malraux que a vida não vale nada, mas que nada vale uma vida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2011. - [PAPÉIS AVULSOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/papeis-avulsos-diario-do-nordeste-2/): Ao redor de minha cama há jornais, revistas e livros. O mesmo acontece no meu escritório de casa, do trabalho e no carro. Os papéis vão tomando todos os espaços de mesas e das cadeiras. Uma bagunça. Hoje, resolvi fazer limpeza nesses papéis avulsos. Estou gripado e a seleção do que será jogado fora é dolorosa. Espirros alérgicos e culpa. Será que não precisarei disso ou daquilo em algum tempo? Assim, contra a minha vontade vou escolhendo muitos para descartar. Cada revista, caderno literário, recorte ou livro é olhado piedosamente e, num rasgo de desapego, vou enchendo um grande saco. Neste instante, percebo que falei em papéis avulsos. Dou-me conta que uso o título de um livro de contos de Machado de Assis. Nesse livro, que recomendo, há a crítica aguda machadiana ao seu tempo e às instituições da época. Os contos são do final do século 19, mas há contemporaneidade nas análises, no “ A Sereníssima República”. A propósito, a nossa República não anda nada calma. Há excesso de questões irresolvidas entre os poderes e as mídias– que ainda incluem o papel dos jornais, revistas e livros – nos mostram as crateras de desentendimento, a contrafação e o jogo sujo da delação por interesses contrariados. Partidos e sindicatos, malthusianos como polvos, ocupam espaços para os seus e surge o quase isolamento da Chefe do Estado por falta de confiança em auxiliares que escolhera como confidentes. Nós, cidadãos e eleitores, somos as aranhas de que fala Machado, sem tessituras concretas. Há espasmos, mas prevalecem a voz e o desejo dos arautos em burocracia, dificuldades com soluções negociadas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/01/2011 - [O DIA EM QUE MATARAM O PRESIDENTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-dia-em-que-mataram-o-presidente-jornal-o-estado/): Quis o destino que conhecesse Elano Paula e Chico Anysio no final da década de 60. Era eu pretensioso a ponto de conversar com eles, pensando falar de igual para igual. Imagine! Mal saído da universidade, conheci os dois irmãos e amigos, já consagrados. Elano, engenheiro civil e empresário, tinha um pé no concreto, outro no rádio e na televisão. Veio ter à Fortaleza para fazer o novo em termos habitacionais e gestão empresarial, no tempo em que o computador era um grande móvel e precisava de climatização constante para funcionar sem problemas. É o letrista da música “Canção de Amor”, que imortalizou Elizete Cardoso, tem vários livros publicados, sabe pintar e é um conversador nato. Chico Anysio ou Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho. ator, era e é como aquele polvo alemão, o Paul, que adivinhava o resultado dos jogos da última Copa do Mundo: sabe de tudo, antes. Atua, escreve livros, dirige, pinta, gosta de casamentos, filhos e de cavalos, tem mais de mil faces, bastando rodopiar no palco de cara limpa - ou não - para ser quem ele quiser. Tornou-se, por obra e graça de seu talento e profissionalismo, o maior humorista do Brasil. Eles, cearenses, do Rio e do mundo, têm um amor declarado à cidade de Maranguape, onde nasceram. Há poucos anos, me convidaram para participar com os dois de um projeto novo: um blog com o nome Maranguape. Fiquei orgulhoso pela formação do trio e pela lembrança, pois a vida, o espaço e o tempo nos separavam. Agora, mais uma vez, sou surpreendido. Convidam-me para escrever a orelha do livro “O Dia Em Que Mataram o Presidente”, que fizeram juntos. Eles, Elano e Chico, acostumaram-se, desde há muito, a trabalhar na área da literatura a quatro mãos. Esse novo livro é um romance brasileiro na feitura, personagens e enredo. Começa com um sequestro no Rio, perto do Arsenal de Marinha; explode um Boeing em Buenos Aires; um Senador da República, com a sua jovem e bela amante, sobe a serra de Petrópolis para encontro em fazenda da família; e, entre outros cenários, aparece o Planalto Central onde novas tramas são urdidas para matar o Presidente da República em Fortaleza. O leitor deve saber que livro é um objeto precioso, de validade indeterminada, silencioso, sempre à disposição, sem nada reclamar. Esse livro vai torná-lo, se já não o é por natureza, curioso. Tão intensa é a sua exposição não linear que cada página poderá transformar o texto escrito em imagens mentais televisivas de um verdadeiro folhetim policial. As cenas irão sendo criadas pelo próprio leitor, acredite. Ele terá a oportunidade de saber como funcionam as cabeças de pessoas geniais como o Elano e o Chico. Duas palavras finais, orelha de livro serve também para marcar a página em que se para de ler. Nesse caso, penso que o leitor só parará na última que, por sinal, tem algo a ver com a primeira. É só aguardar o lançamento. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/01/2011. - [CHUVA E SOL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/chuva-e-sol-diario-do-nordeste/): Chovia em Brasília quando a presidente eleita Dilma Vana Rousseff entrou, na sexta-feira passada. Foi na altura da Catedral desenhada por Niemeyer, no velho Rolls Royce, com capota levantada, para a posse no Congresso Nacional. Ao sair, o sol espreitava e ela pode, junto com a filha, desfilar de pé e acenar para a multidão. Nada do que digo neste escrito é novo, todos viram, leram ou ouviram. As televisões aclararam ao Brasil, no dia da posse e da transmissão de cargo, as diferenças básicas de personalidade entre o presidente que sai e a nova presidente. O que todos já sabíamos. Lula foi e é espontâneo, derramado, desenvolto ao falar, pouco se preocupando com o conteúdo, mas sempre focado na emoção e na reação do público que o ouve. Foi assim ao sair do Palácio da Alvorada, em carro fechado. Abaixou o vidro e foi acenando com a mão direita. Na hora da decolagem do avião que o levaria para São Paulo, lá estava ele na cabine do piloto, de vidro aberto, quase com a cabeça de fora. Na outra janela, D. Marisa Letícia também acenava. Dilma é diferente. Já deu para ver. É metade mineira, metade búlgara. Sua mãe, também Dilma, tem Silva no sobrenome. Seu pai, o imigrante bem-sucedido, Pétar Roussef, registrou a filha apenas com o Roussef. Aliás, na parte brasileira ela não é só mineira. De lá saiu adolescente, indo para São Paulo, Rio Grande do Sul e Brasília. Seu discurso escrito, como manda o protocolo, tinha 48 páginas. Não lembro de ter ouvido qualquer menção a seu falecido pai. É claro que discurso protocolar presidencial é feito em equipe, mas traduz, em sua essência, a característica de quem dá as diretrizes. Ela, a presidente, corta, acrescenta e até finaliza. Uma das palavras mais citadas no seu discurso foi mulher. Deu ênfase ao compromisso de erradicar a miséria de 18 milhões de pessoas, até 2014. Hoje, 43% das moradias brasileiras ainda são insalubres, não têm água e esgoto, causando doenças e mortes. Esse é um grande desafio, sem falar na carência de educação pública de razoável qualidade e das reformas tributária e política. A par disso, já estão circulando e-mails pedindo o fim da reeleição. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2011. - [O QUE HÁ DE NOVO APÓS O ANO NOVO? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-ha-de-novo-apos-o-ano-novo-jornal-o-estado/): Há o que você tiver feito de diferente. Promessas foram feitas, está firme ou não vai cumpri-las? Ler este caderno Linha Azul é algo admirável. A palavra linha dá sinal de ser uma reta (a linha do trem), mas se a prolongarmos, imaginariamente, ela fará curvas sobre o planeta Terra até se encontrar com a ponta inicial. Lembra da Linha do Equador? Linha indica também a expressão “andar na linha”, isto é, fazer as coisas certas. Mas o segredo não é só fazer as coisas certas. O segredo, de verdade, é fazê-las no tempo certo. Acontece que só se sabe qual o tempo certo depois que ele passa. E depois que passa não tem mais graça. A linha, além disso, é parte da trama de um tecido, assim como as pessoas formam o tecido social, este que está contido neste caderno leve e que abre o fim de cada semana mostrando algo do que já aconteceu ou louvando, em sua primeira página, fatos ou pessoas. O caderno além de linha tem o nome azul. O azul pode ser a mistura do ciano com o magenta. É uma cor primária, calma, aquietada e que dá enlevo às pessoas. Configura a noite clara, lua plena, decorada com estrelas e constelações. Mas, todas as cores têm nuances, o azul tem um sem-fim. Nos enxovais de criança o azul representa o sexo masculino. Mera convenção. Em inglês, entretanto, a palavra azul (blue) pode, igualmente, significar tristeza, melancolia ou o nosso banzo herdado dos africanos. Os mesmos que, nos Estados Unidos, inventaram o “blues”, gênero musical melancólico, cantado ou tocado com expressividade, a partir de sua origem natural em cânticos nos templos religiosos, antes e após a libertação dos escravos. Assim, estar blue pode significar estar triste. Mas o jornal não pensou nessa hipótese, quer celebrar o fim de semana de forma alegre, prazenteira, com registro fotográfico, crônicas leves, artigos, colunas e muito mais sobre as pessoas, a matéria prima essencial deste caderno. O jornal cotidiano sabe de seu existir efêmero: um dia, horas, minutos, dependendo da paciência e interesse de cada leitor. Por tal razão, o caderno Linha Azul se faz agradável para a leitura de um público multifário espelhando a sociedade que retrata. E jornal – ou o caderno – só faz sentido quando passa de mão em mão, comentado, elogiado, criticado, recortado e até pisoteado. O ex-presidente Lula, em seus amuos, dizia não ler jornal para não ter azia. Mera metáfora para dizer que tinha adversários na imprensa. No primeiro dia, após Brasília, em seu apartamento no bairro Santa Terezinha, em São Bernardo do Campo, SP, lá estava ele com óculos, camisa regata e jornais. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/01/2011. - [BALDAR AS AULAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/baldar-as-aulas-diario-do-nordeste/): Não sou dos que fazem muita fé no acordo ortográfico entre países de língua portuguesa. Não acredito que trema, hífen, acento etc. sejam a solução para as nossas diferenças no falar e escrever. Somos 190 milhões de brasileiros. Os do sul do país falam com sotaques e vocabulários diferentes dos do Nordeste e do Norte. Os do centro-oeste têm peculiaridades que os do Leste não compreendem. Imaginem os outros países lusofônicos com diferenças nítidas na comunicação. O Português em África é distinto do falado em Portugal. Essas regras são uma tentativa para dar identidade ortográfica ao Brasil, Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique e Timor Leste. Eles somam 30 milhões de pessoas. Fique claro que não sou linguista (se escreve com trema ou sem trema?), mas leitor compulsivo. Agora mesmo, estive lendo o livro alemão “Neblina sobre Mannheim” traduzido, em Portugal, por Fátima Freire Andrade. Cito exemplos de textos e palavras com significados distintos para portugueses e brasileiros. Vejam: sobre um percurso de carro que “foi feito em pára-arranca, e eu teria gostado de ter três pés para embraiar, travar e acelerar”. O que foi dito? Que um carro aumentava e diminuía a velocidade (pára-arranca), usando-se a embreagem (embraiagem), travando(freando) e acelerando. “Agarrei na mão do miúdo”, segurei a mão do menino. “Berma” expressa acostamento. “Era patusco de se ver” é engraçado de se ver.” Empregados e empregadas de mesa” são garçons. “Uma balda às aulas” é gazetear, faltar às aulas. Estudantes portam “badamecos”, que são pastas ou bolsas. O “urinol” não é o de antigo uso, mas o mictório público. “Descapotável” é o carro conversível. “Comboio” é trem e “autocarro” é ônibus que tem bicha(fila). Maria “está a me fazer olhinhos”, está a piscar os olhos para mim. “Isco” é isca de peixe. Português não usa paletó, usa “fato”, que pode estar na “montra” (vitrina). Enfim, ortografia não disciplina linguagem. Vou parar por aqui, certo de que vocês estão confusos, mas não estão sós. Também estou. Pois, pois. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/04/2009 - [CORÍN TELLADO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/corin-tellado-jornal-o-estado/): Maria Del Socorro Tellado López era uma mulher comum do interior da Espanha. Casou-se, teve dois filhos e, mesmo acreditando no amor, divorciou-se após 03 anos, aos 36. Virou escritora e nunca parou de escrever sobre os temas que considerava importante: amor e infidelidade. Escrevia sob o nome de Corín (derivado de Socorrín, diminutivo de Socorro) Tellado e sempre teve contra si o preconceito da maioria dos intelectuais da Espanha. Volto ao passado e lembro que meu pai era seu leitor inveterado. Eu apenas li páginas avulsas. Achava, na minha pseudo-sapiência juvenil, que era uma escritora menor, pois os seus livros, quase sempre, acabavam bem. O amor vencia, após os dramas. Ainda lembro das brochuras lá em casa em que suas pequenas estórias eram escritas. Tinham, quase sempre, figuras de mulher ou de casais na capa e as letras dos títulos eram rebuscadas, como se manuscritas. Agora, nesta semana, no dia 12, aos 82 anos, Corin Tellado morreu de acidente vascular cerebral. E o mundo ficou pasmo em descobrir que ela, com sua literatura cor-de-rosa, vendeu 400 milhões de livros. Repito: 400 milhões de livros e só é desbancada na Espanha pelo genial Miguel de Cervantes, autor do Dom Quixote. Entrou para o Guiness Book por tal feito e por ter escrito 4.000 novelas de cordel, romances e fotonovelas. Ganhou da Unesco o reconhecimento pelo conjunto de sua obra. Corin nunca deixou a cidade interiorana de Gijón, onde passou a residir nos anos 50 e de onde enviava os seus escritos para as editoras. Rica, famosa e simples, enveredou também pelo rádio, televisão, cinema com suas novelas, e até pela Internet, com a obra “Milagro en el Camiño”. Agora, passado tudo isso, procuro a razão de meu pai ter lido, entre outros autores, Corin Tellado e admito que era, quem sabe, uma forma simples de devaneio para aliviar a cabeça das agruras do mundo real. A partir desse fato, imagino que os romancistas – especialmente os que não conseguem vender suas obras ou serem lidos - precisam compreender que escrevem para si, mas se quiserem alcançar um público razoável precisam interagir com os leitores que, muitas vezes, têm um vocabulário limitado e não penetram no âmago de questões profundas e intrincadas e se contentam com o visível, mas não necessariamente risível. É bom lembrar o que dizia o grande romancista francês, Émile Zola, em seu livro “O Romance Experimental”: “O romancista compõe-se de um observador e de um experimentador. Nele, o observador fornece os fatos no modo como os observou, determina o ponto de partida, estabelece o terreno sólido sobre o qual caminharão as personagens e se desenvolverão os fenômenos. Depois aparece o experimentador e institui a experiência, quero dizer, faz mover as personagens numa história particular, para mostrar que nela a sucessão de fatos será tal como exige o determinismo dos fenômenos analisados”. Corin Tellado sabia disso. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/04/2009. - [SALVE FORTALEZA, 283 - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/salve-fortaleza-283-diario-do-nordeste/): Nasci em Fortaleza em meio à Segunda Guerra sob o esplendor do sol, mas as noites, conta a minha mãe, eram escuras. Havia blecaute e medo. Fiz a Primeira Comunhão, estudante do Farias Brito, no ano em que o Brasil perdeu a Copa do Mundo, no Maracanã. Participei de desfiles no Dia da Pátria. Palanques em frente à Igreja do Carmo. Reuníamo-nos na Av. Dom Manuel, dobrando à direita na Av. Duque de Caxias. Íamos com fardas engomadas e pensávamos que as garotas, no cordão de isolamento, estavam olhando só para nós. Depois da dispersão, na Rua General Sampaio, voltava esbaforido para casa, na Rua Major Facundo. Frequentei a Biblioteca Pública, na Rua Sólon Pinheiro, por anos seguidos. Lia tudo o que encontrava e foi lá onde encadernei os meus diários, em oficina no seu subsolo. Ao lado da biblioteca, assisti, por anos, a aulas de inglês no IBEU e, no mesmo quarteirão, ouvia ensaios de música clássica no conservatório que ali funcionava. Já taludo, mudamo-nos para uma casa nova, estilo “funcional”, com coberta aparente de concreto armado, no Bairro de Fátima, tão novo quanto a Igreja de que lhe deu o nome. Ouvia Missa aos domingos no Colégio N. Sra. das Graças, na Mons. Otávio de Castro, a mesma rua onde também moravam o prof. Lauro de Oliveira Lima, dra. Maria de Lourdes Martins Rodrigues, sr. José Machado, cunhado do Alcides Pinto, e o sr. João Colares, pai da cantora Amelinha. Chegou o tempo de servir ao Exército. Fui parar na Av. Bezerra de Menezes, no CPOR, que tinha como vizinhos o prof. Waldemar de Alcântara, do lado direito, e, do esquerdo, o tio Pio Saraiva Leão, pai do Pedro. Entrei em duas faculdades. Administração (manhã), que se iniciava na esquina da Rua Jaime Benévolo com Duque de Caxias, frente ao Colégio Cearense, onde também estudei e, Direito (noite), na Praça Clóvis Beviláqua. Às tardes, ia escrever para o Correio do Ceará, na Rua Senador Pompeu. Mais iria contar, mas o espaço final é para dizer que hoje é dia de saudar os 283 anos desta cidade de Fortaleza, crescida sem planejamento, prostituída nas esquinas, emaranhada em trânsito caótico em bairros nobres e pobres, paupérrimas áreas de risco, eivada de insegurança, bares e medo, mas amada. Salve. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/04/2009. - [PAIXÃO, RESSURREIÇÃO E MORTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/paixao-ressurreicao-e-morte-jornal-o-estado/): Neste corre-corre de todos nós, a Semana Santa ficou reduzida, para muitos, a um grande feriadão que começa na quinta e vai até o domingo. Para os que creem e professam a fé cristã, especialmente os da Igreja Católica, a de Roma, esta semana é mais que isso. Ela se prende a um ritual litúrgico em que é contada, vivificada e celebrada a paixão de Jesus Cristo, isto é, o seu julgamento sumário pelos judeus, os passos que o levaram até o monte do Gólgota, onde foi crucificado ao lado de outros dois condenados. A cruz ou a viga transversa em que foi pregado ou amarrado fazia parte do processo macabro pelo qual os condenados deveriam passar, antes da morte, por atos de vergonha e tortura, expiando, por flagelação, as faltas cometidas e não perdoadas pelo Sinédrio. O Sinédrio era um conselho ou assembleia formada por julgadores ou juízes a decidir, em conjunto, os problemas das cidades. No caso de Jesus, reza a tradição ter sido submetido, em Jerusalém, a julgamento por professar uma fé diferente da estabelecida pelas leis judaicas. Assim, Jesus seria um revolucionário, visionário ou dissidente e, por tal razão, condenado. Admitindo-se tal fato, após a humilhação, flagelo e crucificação, vinha a morte. Jesus morre, então. É preciso lembrar ter sido Jesus amigo de José de Arimatéia, importante figura da cidade e em casa de quem ficou hospedado algumas vezes. Na tarde da sexta-feira, José de Arimatéia foi até Pôncio Pilatos, a autoridade romana da cidade, exercer o direito, comum à época, de tomar para si a responsabilidade do sepultamento de Jesus. Pilatos assinou a autorização, José de Arimatéia apresentou-a ao Centurião, retirou o corpo, ungiu-o com ataduras saturadas de mirra e babosa, cobriu-o com lençol de linho e o colocou sobre uma pedra, no interior do novo sepulcro de sua família. Hoje, o dito Santo Sepulcro é um local de visitação permanente, ambiente denso, mas tocante. Estive lá. No domingo, segundo narra a Igreja, Jesus acorda para a vida eterna. É a ressurreição. O historiador evangélico John A. Broadus, sobre o fato, diz: “Se não sabemos que Jesus ressuscitou da morte, não sabemos nada da História.” Assim, independente de suas (des)crenças, procurem ler mais, a fim de que possam, se for o caso, buscar na História respostas para a sua fé e vida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/04/2009. - [MACHADO JÁ DIZIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/machado-ja-dizia-diario-do-nordeste/): Estou passando dois anos como presidente de uma academia de letras. A festa de posse foi bonita. Discursos feitos, inclusive promessas. Depois, vem a realidade nua e crua do dia-a-dia. A academia tem despesas a pagar, sessões a cumprir, revistas e livros a publicar, realizar concursos literários oferecendo prêmios, mas falta dinheiro, a vil moeda que não frequenta as arcas da maioria das academias. A primeira ideia é procurar Mecenas. Alguém que tem dinheiro e pode dar um pouco do que lhe sobra. Hoje, o dinheiro escasseia. Os tempos, parcos. E os verdadeiros Mecenas, raros. Outra ideia é procurar as leis de incentivo cultural, quer no Município, Estado ou União. Aí entram um cipoal de certidões, documentos, reuniões, estudos, projetos, contador a fazer balanço e demonstrações financeiras. O que era letra vira número. Os projetos demoram a ser feitos, analisados burocraticamente, os agentes públicos que os liberam têm cargos de confiança e, vez por outra, são mudados. Aí tudo recomeça. Por outro lado, como acadêmicos são vitalícios e imortais, alguns não se sentem motivados a comparecer às sessões. Cada reunião é precedida de correspondência, e-mails e telefonemas. Mesmo assim, o comparecimento é baixo. É há imprevistos como afazeres, doenças, viagens, e há a falta de segurança pública à noite no centro da cidade. O que é verdade. Soube que Machado de Assis, fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, agradecia quando a presença atingia a dois dígitos. Como se sabe, dois dígitos se contam a partir do numeral 10. É preciso esclarecer que as academias seguem o modelo da Academia Francesa e tem 40 membros. Ora, se dez comparecem, só 25% da sua força vital está presente. Mesmo assim, é um feito. Este relato é para mostrar aos leitores, à sociedade e às autoridades públicas que as academias precisam ser vistas não como uma reunião de pessoas excêntricas que adoram ler livros, falar, escrever em prosa e versos e, na sua maioria, tem cãs. As academias, apesar de todos esses problemas, são fontes geradoras de saber continuado e sem elas o mundo ficaria mais pobre, pois amar a leitura e a cultura é fugir de uma cegueira existencial. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/04/2009. - [VISÕES EM DOSE DUPLA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/visoes-em-dose-dupla-jornal-o-estado/): Deixo claro, de saída, que não sou crítico de arte. Sou apenas um escrevinhador e admirador de olho vário que procura ao longo da vida ter sempre contato com o mundo das artes. especialmente a pintura. Por tal razão é que me atrevo a escrever algo sobre o trabalho de Nicolas Nascimento, cearense, e Píer Giorgio Serralunga, italiano. São pintores calejados, conhecidos de galeristas e marchands, participaram de individuais e coletivas, careciam de um público heterogêneo como o de um shopping, onde há muita energia no ar e se misturam crianças, jovens e adultos. Universitários dividem o espaço com professores, donas de casa com trabalhadores, profissionais liberais com empresários, aposentados com militares, religiosos com ateus etc. É um micro e infinito mundo. Voltando aos dois, Nícolas e Serralunga, deve ser dito que tem formação em escolas e países diversos, artistas deste mundo de hoje em que a pintura não é propriamente um artefato bem acabado, nem se enquadra em uma só característica ou escola, como se fora algo clássico ou industrial, feito em série. Ao contrário, deixa recados nas próprias transgressões e deformações das suas figuras, cores e matizes. As pinturas expostas refletem cada uma, um dos muitos estados de ânimo dos dois pintores, fazendo surgir o que, muitas vezes, nem eles próprios sabiam ou suspeitavam. Ao observar os múltiplos quadros dessa dupla exposição, o visitante terá sentimentos e sutis respostas céticas, enternecedoras, eróticas ou instigantes. Os olhares de cada um dos dois pintores, transformados em quadros por suas telas, tintas, pincéis ou espátulas nunca serão iguais ao que vê o visitante de uma exposição. Nós, os visitantes, vemos, mas impregnamos o que pensamos enxergar com a nossa história pessoal, seja ela com ou sem preconceitos, conhecimento profundo ou raso, curta ou longa admiração pela arte. Então, mais uma vez, a obra recebe outros significados e saberes, embora passageiros, pois o efeito se esvai (ou não?) com a mudança do olhar. Nada, portanto, é o mesmo depois que se vê com vontade de procurar respostas. Elas, na verdade, estão dentro de nós. Os quadros são apenas mensagens que nos enriquecem por seus efeitos estéticos. Elas estão em visitação pública, gratuita, até o dia 15 deste mês, na Galeria Benficarte, no 2º. Piso do Shopping Benfica. Vá e leve a família. Penso que vale a pena. Não custa nada. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/04/2009. - [PESSOA E MULTIDÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pessoa-e-multidao-diario-do-nordeste/): Estive a ler artigo de Maria Rita Kehl, psicanalista, com o nome de “A era das multidões”. Nesse trabalho, ela cita a obra do francês Gustave Le Bon (1842-1931), especialmente o livro “Psicologia das Multidões”, analisando o comportamento de massas formadas por pessoas heterogêneas que, em determinado tempo ou circunstância, passam a ter uma conduta uníssona. Seria, por exemplo, o caso dos seguidores de líderes, sejam democratas, ditadores, chefes de Estado, religiosos etc., a criar ou praticar determinadas teorias que, lato senso, nos levam até a cogitar não ficarem longe, nem muito diferente do procedimento das torcidas organizadas dos grandes times de futebol brasileiro e do mundo. Na África, na recente visita do Papa Bento XVI, três pessoas foram pisoteadas e mortas pela multidão. Vi, também pela TV, a luta entre a torcida do Santos e a Polícia Militar, ao final do jogo em que o Corinthians ganhou por 1X0. Naquele instante, a massa santista, revoltada com a derrota, descarregou sua frustração em qualquer coisa ou pessoa que encontrou pela frente. A Polícia, acuada, passou a reagir por espasmos, sem comando racional. O que se seguiu foram cenas de selvageria, de parte a parte. É lúcido admitir que cada uma dessas pessoas não fosse, necessariamente, delinquente. Mas, quando, estimulados, açodados e liderados em grupo, praticam atos inconscientes e/ou de violência sem nenhuma restrição moral. Coloquei, a propósito, a data da morte de Le Bon (1931), para dizer que o comportamento das multidões só tem piorado, desde então. Freud, também citado, escreveu, em 1920, o livro “Psicologia das Massas e a Análise do Eu”, em que fala, não de forma romântica, sobre a “alma coletiva”, inspirado no que pensava Le Bon. Seria, talvez, lícito admitir que, em todos os tempos, surgem líderes que, por prestígio, carisma ou hipnose, conseguem levar multidões para situações-limites, sem que a maioria se aperceba disso. Foi aí que lembrei, por exemplo, de grandes líderes recentes de multidões. Uns para o bem. Outros, nem tanto. Seriam os casos de Hitler, Mussolini, Ghandi, Mandela, Fidel, João XXIII, Luther King, Bin-Laden, Chavéz, Lula e Obama. Concorda? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/03/2009. - [FORMANDO GESTORES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/formando-gestores-jornal-o-estado/): Faço parte, não por mérito, da direção Escola de Formação de Governantes do Ceará. Essa Escola, fruto de uma visão de longo prazo, procura, como o próprio nome o diz, treinar pessoas e qualificá-las para a prestação de serviços na área pública como gestores. Elas não precisam ter, necessariamente, curso superior concluído, mas é importante que estejam vinculadas a uma entidade pública, nas esferas do Executivo, Legislativo e Judiciário, ou a atividades do Terceiro Setor, como ONGs, Institutos etc. Neste ano de 2009, estamos começando o XIII Curso que envolve aulas e práticas. A intenção é que pessoas, em início de carreira, ou as que queiram se reciclar, possam, com frequência de apenas dois dias por semana, no horário noturno, ter um ganho de qualidade em suas vidas profissionais. A abrangência do currículo permite que cada integrante possa ter um espectro crítico básico sobre democracia, direito, cultura, política, governabilidade, ética, desenvolvimento humano, teoria da complexidade e educação para a cidadania. Como entidade sem fins lucrativos que luta por um ideal maior de seriedade na gestão pública, a Escola de Formação de Governantes vive de parcos recursos que consegue, com excessivos esforços, de órgãos e empresas. Não há ainda um reconhecimento público a esse trabalho sério que tem como presidente, o notório advogado e professor Roberto Martins Rodrigues e, como executivo principal, o professor Antonio Alberto Teixeira, um abnegado que sente a dificuldade efetiva de cuidar dessa ideia. O imaterial, essência da formação, é o cerne desse curso que não discrimina partidos políticos, sexo ou idade, basta que seja feita uma inscrição que passa por um processo de seleção não ideológico. A turma deste ano tem cerca de 60, já está em andamento, a maioria com graduação universitária e alguns com especialização e mestrado. Os que desejarem conhecer o trabalho da EFG e com ela colaborar podem visitar o site www.efg.org.br. Todos serão bem-vindos, desde que tenham como pressuposto não aceitar que “político é tudo igual”. É possível, sim, fazer diferença. Lutamos por isso, lute também. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/03/2009. - [CHEGAR LÁ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/chegar-la-diario-do-nordeste/): Todos desejam chegar lá, mas poucos admitem quando atingem. O relativismo do tempo dá ímpeto para aceitar um quase, mas com resistência. Uns, fingem. Outros procuram ocultar os sinais com ajustes estéticos e a maioria teima em dizer: não sou. Primeiro, vieram os antibióticos, o saneamento básico melhorou, a engenharia ajudou a ciência médica a fazer sua parte e a consciência social resultou em cuidados que prolongam a existência. Hoje, não é raro se chegar à idade limite para a infância do outono, com energia e integridade física. Esse fato é comemorado por uns, mas causa perplexidade a outros. É confinante, para a maioria, o tempo da jubilação e, com ela, a inapetência para o ócio e o medo pelo que virá depois. É o tempo de fazer contas, todos tem esse direito, mas só 67% obtém os benefícios da previdência social. E desses, 54% ganham só um salário mínimo. A média de renda dos que se retiram é de 778 reais. Esses dados e, muitos outros, foram fruto de pesquisa Datafolha, em novembro de 2008. 61% já sofreram cirurgias e 82% tomam remédios, sendo, pela ordem, as maiores queixas: dores musculares, pressão alta, reumatismo, colesterol alto, problemas cardiovasculares, osteoporose, diabetes, doenças respiratórias e sinusite. Findo o tempo de trabalho é preciso manter vida ativa com autocuidados. Decidir as tarefas básicas para a independência pessoal, ter a mente ligada em novos interesses como caminhar ou exercitar-se, reunir-se em grupos e recriar laços familiares e/ou afetivos duradouros. Dizia o escritor J. Renard que “a velhice chega quando se começa a dizer: nunca me senti tão jovem”. Assim, é preciso ir aceitando as limitações com reflexão, dosando energia com prudência, mas certo de que o amanhã é sempre um vir-a-ser e o hoje é o que conta. A mente, com o povoamento de recordações, precisa ser re-instigada para o hoje com a leitura de jornal, revista e livro. Estar ligado ao que acontece no mundo dá o sentimento de pertença e isso é quase tão bom quanto uma meta. A atenção real nos relacionamentos neutraliza a ansiedade e ajuda na alegria de viver, pois ela, a vida, não é sonho, dizia o poeta Garcia Lorca. João Soares Neto, da Academia Fortalezense de Letras CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/03/2009. - [BRASILULA E OBAMAMERICA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasilula-e-obamamerica-jornal-o-estado/): Não houve grande repercussão na mídia americana dessa última ida de Lula aos USA. Na Casa Branca: conversas, risos, apertos de mãos, fotos e promessas adiadas, pelo menos, para 02 de abril, em Londres, na reunião do G-20 (dos 20 países ricos e mais remediados). Primeiro, é preciso dizer que a reunião com Obama foi sábado passado, 14, das 11 às 12 horas. Sem convite para almoço. Estava marcada para 17, terça, mas esse era o dia de São Patrício (o que denunciou a crueldade dos britânicos), celebrado pelos irlandeses-americanos e Obama priorizou o festejo. Antecipou-se, então, o contato com o ‘Brazil’. Parte da reunião, cerca de 40 minutos, foi de apresentações e discussões entre os grupos de cada país. Depois, Lula e Obama conversaram, a sós, por 20 minutos, com tradutores. O do Lula foi o Embaixador Celso Amorim, deu para ver. Presidentes não estão a sós com a presença de tradutores. Mas é assim que se faz na diplomacia. Todas as conversas do presidente dos Estados Unidos são, de regra, gravadas. Detalhe: nenhum novo interlocutor americano do poderoso Conselho de Segurança Nacional (NSC) ou Embaixador foi ainda designado para a América Latina. Todos do governo Bush permanecem. Não há, portanto, equipe de Obama para estudar e acompanhar os nossos problemas. A prioridade é a crise econômica ianque e do mundo e, a realidade mostra que a América Latina fica para depois. Só em abril, com o Encontro das Américas em Trinidad e Tobago, terra do Nobel de Literatura V.S. Naispaul, é que Obama dirá quem, em seu nome, indicará para discutir com os países do Hemisfério Sul. Alguns cientistas políticos e economistas dizem que o Brasil, com s ou z, não pode ser tratado mais como país excêntrico. Participa do G-20, luta, há anos, por um lugar no Conselho de Segurança da ONU e o faz concorrendo com Alemanha, Japão, Índia e África do Sul, entre outros. Temos matriz energética limpa, bancos vivos, contas externas saneadas, biodiversidade, sem dependência comercial a nenhum mercado e integramos o Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), corruptela de brick, tijolo. Sabemos que essa palavra bric/brick foi criada no pressuposto de que os tijolos são importantes para a reconstrução dos novos pilares do mundo. Precisamos, dizem, deixar de aceitar convite aos sábados pela manhã e não ficarmos, pelo menos, para o almoço. Mas, como se fala por lá: não há almoço grátis. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/03/2009. - [ABORTO E EVOLUÇÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aborto-e-evolucao-diario-do-nordeste/): Convivem, na minha maturidade, o menino que teve formação religiosa católica, o adolescente/universitário duvidando de tudo, enveredando pela leitura da filosofia, lutando por ideais; o homem jovem teoricamente racional que imaginava saber alguma coisa e fazer muito e; agora, nesta fase, senhor do direito de não ser enquadrado em nada e poder tentar ser livre. Discordo da excomunhão da família e dos médicos que livraram uma criança de 09 anos de uma gravidez indesejada. Nenhum direito, nem o canônico, deve desconhecer a realidade, tampouco acreditar que os seres humanos possam ser punidos por suas coerências existenciais quando não desrespeitam as normas legais do seu país e previnem consequências funestas. O que esperar de uma mãe de 10 anos, com duas filhas-irmãs, de uma avó, traída, de 23 anos, e de um padrasto que, mais dia, menos dia, estará livre para voltar a usar e abusar de quem não sabe e nem pode se defender? Essa excomunhão não combina com a fé, a inteligência e a razão de muitos teólogos e religiosos que compõem o corpo social da Igreja Romana. A excomunhão aconteceu exata no mês de fevereiro, quando se comemorava o bicentenário de nascimento de Charles Darwin, o cientista inglês que, segundo os historiadores Adrian Desmond e James Moore, passou 20 anos entre o temor religioso e o moral, Anglicano que era, para revelar a sua teoria da evolução das espécies. “É como confessar um crime”, dizia. Mas o fez. O “crime” era demonstrar à comunidade científica - conservadora e vitoriana - que a espécie humana não surgiu como narrado na Bíblia, mas por meio de um processo de seleção natural, explicação contida em detalhes no seu livro “A Origem das Espécies” que completa, em novembro, 150 anos. Darwin também foi execrado por sua Igreja, mas os tormentos pessoais passados e sua decisão conferiram à humanidade uma versão nova, coerente e revolucionária para a sua época. Voltando ao nosso tempo, é preciso que a Igreja Católica revise seus dogmas e preceitos legais para que não fique “pregando no deserto”. Todos os seres humanos que creem têm direito à salvação: “porque não há um justo, nem um sequer” (Romanos, 3:10). João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/03/2009. - [O QUE É POESIA? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-e-poesia-jornal-o-estado/): Escrevo para lembrar que amanhã, 14 de março, é o Dia Nacional da Poesia, criado em homenagem ao poeta Antônio Frederico de Castro Alves, nascido nesse dia, em 1847, e morto aos 24 anos. Era o poeta da abolição ou dos escravos, por sua indignação contra o comércio de pessoas negras que, no Século XIX, enriqueceu muitas famílias aqui no Brasil. Não sei bem o que é poesia. Como dizia o escritor russo, P.G. Antokolski, “a poesia não responde, questiona”. Acredito, portanto, que possa fazer um esforço para tentar (in) defini-la. Tem gente que pensa poesia como receita de bolo. Bastaria juntar capacidade de escrever em uma linguagem diferenciada, saber expressar emoção, ritmo e rimar com cadência, métrica, e ter-se-ia um poeta. Poesia, entretanto, é mais que isso. A tessitura de um poema passa por fios estéticos, usando-se ou não recursos formais de estilo. Poesia passa pela transfiguração da essência das palavras, mas não é só isso. Madame de Stael, escritora francesa do século XVIII, dizia que poesia “é a linguagem natural de todos os cultos”. Essa é uma definição elitista e simplista. Talvez a do poeta americano, do século passado, T.S. Eliot, seja mais abrangente “A poesia não é um modo de liberar a emoção, mas uma fuga da emoção; não é uma expressão da própria personalidade, mas uma fuga da personalidade”. Assim é que não seriam, necessariamente, poetas, mesmo que em versos metrificados e com metáforas, os que tratam de suas próprias vidas, da morte, do devaneio, do isolamento, os tidos como poetas existenciais. Tampouco seriam poetas, de pronto, os apenas românticos, os que falam de suas emoções; e os que se preocupam com o mundo, tidos como poetas sociais, a evocar questões igualitárias e políticas. Não sei, sério. Deixo, com vocês, dois textos, sem o nome do autor: “Aceitar o barco do sonho, pisar o chão da ilusão, sem esquecer a aurora, sem domar a gula, transgredindo, esperançando, devorando, roendo, voando, solo ou não”. Poesia? Segundo texto: “Entre alças, calças pés nus e a água corre, irrigando o chão, marcando o passo, em descompasso, pétreo, vítreo e a réstia vista assombra a luz, seca a água e os passos usurpam.” Seria poesia? Decida você, sem esquecer que as regras, quase sempre, destroem a arte. E poesia é arte. E, como cita Ferreira Gullar, a arte existe porque só a vida não basta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/03/2009. - [É DIA DA MULHER? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/e-dia-da-mulher-diario-do-nordeste/): Há algumas mulheres que consideram estranho e discriminatório este Dia da Mulher, hoje comemorado. Falam que, em tempos de hoje, todos os dias são dos seres, humanos e animais. Há, entretanto, outras que acham pouco um só dia para reverenciar as mulheres. O fato é que hoje é o seu dia e, no meu olhar, não devem ser homenageadas apenas pelo gênero, mas por seus feitos na família, sua inclusão na cultura, no trabalho, na ciência, na história, na política e na certeza que é a incerteza que preside o viver. No Gênese, livro do Antigo Testamento, I, 27, está escrito: “E Deus criou o homem à sua imagem; fê-lo à imagem de Deus; e criou-os macho e fêmea”. Ainda no Antigo Testamento, II, 18, está dito: “Não é bom que o homem esteja só; façamo-lhe uma ajudante semelhante a ele”. Hoje, a linguagem seria outra. Não seria dito “criou o homem”, mas a espécie humana. Também não seria dito: “uma ajudante”, mas uma companheira. Eu diria mais, homens e mulheres devem ser compartes, isto é, devem compartilhar tudo, direitos e responsabilidades. Sem essa de provedor e tampouco de coitadinha. Neste mundo em que se luta pelo fim da submissão - de todas as formas - é importante que ambos participem igualmente dos esforços para a construção da vida em comum. No Talmude, Kiddushim, 49, livro religioso hebraico, está dito: “Dez medidas de palavras desceram a este mundo; as mulheres pegaram nove, e os homens, uma”. É tempo, pois, de falarmos em quantidades iguais de palavras e conteúdo, responsabilidades e direitos, com perspectivas semelhantes, sem ademanes e fricotes. Nietzche, na sua forma niilista de ser, escrevia em Zaratustra que “para a mulher, o homem é um meio: o objetivo é sempre o filho”. Não deve se pensar mais desse modo, filhos têm pais, mãe e pai, e é um desserviço ao filho afastá-lo do pai, sob o manto de protegê-lo e amá-lo desmesuradamente. Para louvar a mulher neste dia é preciso estar consciente de que vivemos outros tempos, em que mulheres e homens devem estar independentes para serem altivos, mas harmônicos, para que possam coexistir com recato, compaixão e amor. Como dizia Simone de Beauvoir: Nenhuma mulher nasce mulher: torna-se”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/03/2009. - [COSTA MATOS E O SEU RIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/costa-matos-e-o-seu-rio-jornal-o-estado/): Não registro intimidade em minha relação com o poeta José Costa Matos, mas não me escuso de dizer que havia uma sutileza bilateral de tratamento, sem que isso fosse supérfluo, mas partida de uma identidade que foi surgindo pouco a pouco. Nascido em Ipueiras, terra que também concebeu Gerardo Melo Mourão, veio ter com os costados em Sobral e, em seguida, Fortaleza. Costa Matos foi ocupando espaços pela vida, tratando de ser gente, e conseguiu o feito profissional de integrar o Ministério da Fazenda e ser professor da Universidade Federal do Ceará. Para mim, como presidente da Academia Fortalezense de Letras, da qual ele era, com justiça, Sócio Honorário, o que resplandece para a posteridade é a sua vida literária, conquistando uma dezena de prêmios em concursos culturais em vários estados brasileiros. Para o poeta Francisco Carvalho: “Costa Matos é nome bastante conhecido nos meios literários de nossa terra, onde desfruta do maior prestígio entre as figuras do primeiro plano da intelectualidade cearense. No campo da poesia, tem-se distinguido pela publicação de algumas obras que lhe valeram o reconhecimento da crítica. É o caso, por exemplo, do livro de poemas ‘O Povoamento da Solidão’, colocado em primeiro lugar no Grande Prêmio Minas de Cultura, fato que teve excelente repercussão em todo o país”. Outro poeta, também seu colega da Academia Cearense de Letras, Carlos Augusto Viana, expressou para mim, o seguinte: “Costa Matos era um poeta lírico que desenvolvia, predominantemente, duas temáticas: a metafísica e a ontológica. Ele era um dos raros remanescentes no Ceará da corrente neo-simbólica’’. Foi assim que Pedro Henrique Saraiva Leão, presidente da ACL, falou: “O professor Costa Matos era um dos homens cultos do Ceará. Cultivava a simplicidade que falta a muitos. Era lido, cristão, probo e de fácil comunicação”. Em 02 de setembro de 2007, Costa Matos, escreveu sobre a Utilidade da Poesia no jornal Diário do Nordeste. Ele diz: “Pergunta-se muito que fazem os poetas no mundo. Expressão da vida, a poesia é também indefinível. Integra a literatura e esta é uma das artes... Mas formam religiões aqueles que têm o poeta como ser divorciado da realidade. Não se lembram de que realidade, também, está entre as nossas incompetências de conceituação. Cada pessoa tem as suas peculiaridades de percepção do real”. A minha percepção do real é que o cidadão Costa Matos, pai de família, professor e acadêmico, soube equilibrar-se na balança do viver e construiu um rio subterrâneo de admiradores e amigos que agora pranteiam sua partida e sabem, como ele poetava, que “a vida não dá presentes. A plenitude humana é trabalho de mineração, com galerias cavadas no infinito”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/03/2009. - [SAM, MARLBORO E... - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sam-marlboro-e-diario-do-nordeste/): Estou voltando da terra que foi do Tio Sam, depois virou de Marlboro e, agora, é do Obama. Fui neste fevereiro de inverno de frio e inferno de crise. Andei por cidades diferentes. Conversei com gente, os do povo, alguns que se acham importantes, estrangeiros de passagem e os que ficaram como imigrantes para obter o Green Card ou a Cidadania. Depois da euforia da posse, veio a ressaca da realidade, essa que passa pelos bolsos, invade casas, mexe com o dia-a-dia das empresas que reduzem pessoal e faz ficar no ar a dualidade cruel entre a esperança e o medo. Estava lá quando o pacotão do Obama foi aprovado, mas não escassearam críticas por conta da “falta de objetividade”. A Bolsa de Nova Iorque reagiu com queda alta. Obama, sem se importar com a “marola”, fez sua primeira viagem ao exterior. Foi ao vizinho Canadá, uma espécie de Estados Unidos passado a limpo, onde frustrou crianças de uma escola que se prepararam para recebê-lo. Tempo e segurança. Deu entrevistas, desconversou sobre protecionismo e voltou com o termômetro político ligado. Eu, sem que ele soubesse, fiz minhas pesquisas, inclusive com motoristas de táxi formados em engenharia e administração, mas que estavam na direção de banheiras comedoras de gasolina. Foram unânimes em dizer que a América está em recessão e que não sabem do futuro, mas torcem pelo Presidente. Fiz voos internos e pude ver executivos com notebooks abertos, quase todos de cenho franzido. Ninguém ria e as roupas eram pesadas, quiçá pelo inverno. As lojas, sejam as de mall, como eles chamam os shoppings por aqui, e as de rua estão, quase todas, em liquidação com até 50% de desconto. Algumas fazem isso como truque, mas a maioria está, de verdade, querendo vender a preços reduzidos para não fechar, Parece haver um esboço de mudança social, sente-se isso nos contatos, na mídia e surge, se não estou enganado, mais compaixão e respeito pelas pessoas, pois a cor diferente da pele ou da raça já não mais implica em submissão ou orgulho. A grande casa branca da Av. Pensilvânia, 1600, em Washington, está com caras novas, inclusive uma sogra, mas as ideias precisam ainda ficar mais claras. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/03/2009. - [CINEMA E CULTURA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cinema-e-cultura-jornal-o-estado/): A Academia Fortalezense de Letras está tentando levantar a discussão sobre a relação do cinema com o cultura. Não há nada de novo sobre o tema, mas apostaremos em uma abordagem diferente e atualizada. Não será preciso enumerar a quantidade de clássicos da literatura nacional e internacional que foram adaptados para o cinema. Uns, com êxitos de bilheteria. Outros, nem tanto. Não importa. O que vale é a revisita às obras e aos autores que serão apresentados. Escolhemos ouvir, para iniciar a discussão na noite de ontem, a opinião do professor universitário e crítico de cinema Luiz Geraldo Bezerra de Miranda Leão, uma das autoridades no assunto no Brasil, com livros publicados. Ele tem cultura linguística e longo conhecimento de cinéfilo para abrir essa série que, acreditamos, constará da apresentação - aberta ao público - de filmes, precedidos ou seguidos de debates. E esses debates não ocorrerão de forma aleatória, mas no intento de trazer novos públicos às academias, difundir a cultura e oferecer uma visão crítica do autor e sua obra e da teoria e estética dos filmes. Ao mesmo tempo, servirá para mostrar que aceitamos que a cultura é também o conhecimento sedimentado, mas vivemos no hoje e podemos nos valer dos recursos áudios-visuais para democratizar o saber que temos ou podemos adquirir. Vale, por oportuno, destacar que a Academia Brasileira de Letras, na gestão do Acadêmico Marcos Vinícios Vilaça, realizou uma série de seminários e conferências sobre as relações da cultura com a culinária, a moda, a cultura popular, a música popular, a ciência, a arquitetura, o urbanismo e a arte. Estamos, sem imitações, em boa companhia e abertos a associações com a Secretaria de Cultura, academias, cine-clubes e entidades nas discussões e prática. Inclusive, quem sabe, levantando alternativas locais ou regionais para o que se convencionou chamar de “favela movie”. Um exemplo disso está aí nas telas, o filme anglo-indiano “Quem Quer Ser Um milionário?”, dirigido por Danny Boyle que conseguiu vencer o Oscar de 2009, na categoria de melhor filme. Ao contrário do brasileiro “Cidade de Deus”, em que notoriamente se inspirou, procurou uma solução, talvez mágica, mas com encadeamento luminoso, sem deixar de ser um filme-denúncia da pobreza na Índia, porém com leveza e até alegria em meio a dramas pessoais e estruturais. A atual visão brasileira de cinematografia e estética sobre as mazelas das favelas, feita quase sempre por diretores ricos, passeia pela quase-denúncia e fica só nisso, sem trazer esperança que alimente os que vivem o drama narrado e quiçá um pouco de prazer, por que não, aos que se deslocam- pagando ingresso - às salas de cinema. Acrescente-se que, na saída, estarão lá os “guardadores” de carros e os trombadinhas. Mas isso é outro filme. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/02/2009. - [GLÓRIA EFÊMERA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/gloria-efemera-diario-do-nordeste/): Foi Andy Warhol, americano filho de eslovacos, nascido em 1928, e que se destacou na Pop Art ou arte popular usando a linguagem da publicidade e métodos de serigrafia para fazer suas obras, que incluiam retratos de famosos e reproduções distorcidas da embalagem da sopa Campbell e da garrafa de Coca-Cola, quem disse a frase: “no futuro, qualquer um, será célebre por 15 minutos”. Esse mesmo Warhol foi famoso por pouco tempo, criticado em vida, até atentado sofreu, e morreu um dia após ser operado de uma mera vesícula biliar, exato na data de hoje, 22 de fevereiro, em 1987. Para comprovar que a glória dele era efêmera, basta ouvir o que disse, em 2007, Robert Hughes, crítico de arte da revista Time: “Warhol foi uma das pessoas mais chatas que já conheci, pois era do tipo que não tinha nada a dizer...Mas, no geral, não tenho dúvidas de que é a reputação mais ridiculamente superestimada do Século XX”. Essa lembrança, neste domingo de carnaval em que os que não estão na folia abrem este jornal e leem o que escrevemos, é apenas para dizer da óbvia convicção universal de que nada é mais passageiro que a glória, qualquer que seja ela. Dizia Honoré de Balzac, escritor francês, que “a glória é um veneno que se deve tomar em pequenas doses”. Certa vez, fui a uma feira de quinquilharias, dessas que ocupam grandes áreas de um estacionamento. Em determinada barraca encontrei dois diplomas: um de mestrado e outro de mérito de guerra. Tive a curiosidade de perguntar ao dono quem os tinha vendido para ele. Ele respondeu: “as famílias vendem tudo, não querem saber de glórias passadas”. Comprei um deles e o presenteei a um amigo, como atestado de que somos nada e ao nada voltaremos pela ausência de lembranças futuras de vitórias pessoais, salvo exceções. Quantos adolescentes, por exemplo, sabem quem foi e o que fez Juscelino? Quantos universitários, que não cursam história, sabem onde nasceu e quem foi Capistrano de Abreu? Quem lembra do que fez Thomas Edison? Assim, nestes dias de não fazer nada, lembre-se disso e não esqueça de fazer o que lhe cabe, sem esperar por glória. A não ser que Glória seja alguém que lhe diga respeito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/02/2009. - [ROBINHO E OUTROS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/robinho-e-outros-jornal-o-estado/): A revista Veja, edição de 04 de fevereiro de 2009, trouxe uma longa reportagem sobre o comportamento de atletas que, nascidos pobres, alcançam sucesso e fortuna no começo da sua vintena de anos. A partir daí, suas cabeças entram em parafuso e começam a aprontar. Não são só os que alcançam sucesso e fortuna que se metem em enrascadas. Todos os dias, em emissoras de rádios e de televisão do Brasil, são inúmeros os programas policiais que contam casos de estupros, brigas em festas, mortes de cônjuges, assaltos, sequestros, assassinatos, roubos etc. O que há, no caso dos atletas, é a sua superexposição à mídia e a voracidade de certa imprensa e de pessoas ávidas por fama, dinheiro e sensacionalismo. Os mostrados em programas policiais são os delinquentes ou são pessoas do povo, todos tratados sem muito escrúpulo para um público cativo, sequioso por desgraças, escândalos e lágrimas. Vale lembrar ainda que há muitos cantores, atletas e artistas brasileiros que têm filhos pelo Brasil e mundo afora. Após os shows e jogos, caíam na gandaia e transavam com as fãs. Não havia ainda a preocupação com preservativos, pois a Aids não existia. Tampouco se falava de exame de DNA. Posteriormente, foram aparecendo filhos não desejados, frutos de relações ocasionais e, em alguns casos, de mútuas inexperiências ou irresponsabilidades dos envolvidos. As mulheres, sempre tratadas como vítimas, apareciam chorosas em programas de televisão e rádio, mostrando os filhos nascidos e o descaso do “pai desnaturado”. Não faltavam – e não faltam - advogados para defendê-las e, passado o tempo, surge o DNA, para configurar ou não a paternidade. Não há como defender pessoas que, no seu juízo perfeito ou mesmo em baladas, se envolvem com mulheres que não conhecem bem e por quem não têm nada, além da circunstancial atração física. Entretanto, não se pode demonizar essas pessoas que apenas se imaginavam desejadas e não conjeturavam a armadilha da gravidez. Voltando ao começo, é preciso que a mídia, seja brasileira ou estrangeira, acabe com o sensacionalismo barato que envolve celebridades ou não. Quem sabe se o tempo utilizado nesses programas ou reportagens poderia ser mais bem aproveitado com outros temas? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/02/2009. - [A GALINHA E O TRIGO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-galinha-e-o-trigo-diario-do-nordeste/): Reconto, com adaptação minha, estória atribuída a George Orwell que corre há décadas. Ela mostra a diferença entre os que não plantam e os que cuidam de plantar. Consta que existia uma galinha vermelha. Ela achou alguns grãos de trigo e perguntou a seus colegas de fazenda: vocês me ajudam a plantar? A vaca disse: não. O pato: nem eu. Eu também não, falou o porco. Eu, muito menos, completou o ganso. Então, eu mesma planto, falou. E o trigo foi plantado, cresceu e amadureceu em grãos dourados, Da mesma forma, na colheita, perguntou: quem me ajuda a colher o trigo? O pato disse um não, seco. Não faz parte das minhas funções, disse o porco. Não, estou só contando o tempo de serviço para me aposentar, disse a vaca. Vou nada, posso perder o seguro-desemprego, respondeu o ganso. Então eu mesma vou colher o trigo, disse a galinha. Um dia, ela convocou a todos, mais uma vez, para ajudar a preparar e assar o pão. As respostas continuaram a ser negativas: um queria hora extra; outro gozava, agora, do seguro-doença; uma disse que não sabia fazer. Enfim, nada. Ela assou sozinha, cinco pães. Cheiravam, estavam bonitos e todos se achegaram seguindo o aroma de pão novo e querendo comê-los. A galinha falou que não, pois estava cansada de trabalhar só e faminta. Foi aí que houve uma reunião dos quatro. A vaca falou em egoísmo e sovinice. O pato chamou-a de capitalista safada. O ganso exigia os seus direitos e o porco só grunhiu. Resolveram ir até o governo da fazenda, mas antes pintaram faixas com palavras de ordem, tipo justiça social e pão para todos. O funcionário do governo, um jaboti, os recebeu, ouviu cada relato, mandou que preenchessem formulários em cinco vias, pediu que reconhecessem as firmas, cobrou uma taxa e os despachou para o chefe. Este, do alto de sua crista, pois era um galo, disse: que se faça justiça, todos tem direito aos pães. E mandou uma intimação à galinha, dizendo que ela deveria, sob pena de prisão, repartir os pães e que aquilo era apenas redistribuição de renda, meta da fazenda. Ela aceitou calada e nunca mais fez nada. Consta ter ela entrado em um movimento social e recebe uma bolsa qualquer. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/02/2009. - [AMOR EM ALEMÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/amor-em-alemao-jornal-o-estado/): Há mais de duas décadas, em meio ao espanto de sua família, uma jovem socióloga resolvia abandonar seu emprego certo e ir para a Alemanha. Iria fazer uma complementação de estudos, um mestrado, coisas assim. Quis a vida que ela conhecesse um também jovem médico alemão que aqui concluía uma das fases de seu curso. Conheceram-se, encantaram-se, mas cada um tinha uma vida a cumprir em continentes diferentes. E foi aí que ela consolidou seus planos e teve a coragem de dizer: eu vou. E foi. Em lá chegando, tudo era estranho, diferente e o pouco do alemão que sabia não dava para quase nada. Resolveu, antes de qualquer curso profissional, melhorar sua conversação e escrita na língua de Goethe que já dissera o óbvio, em ‘As Afinidades Eletivas’: “Toda atração é recíproca”. Enquanto isso, o amor urdia e a atração crescia. Ela foi pedida em casamento com a presença da família do candidato. Comunicou o fato, com alegria, aos pais que lhes responderam que isso não valia para eles: pedido de casamento e casamento, só aqui, debaixo dos seus olhos e na lei brasileira. E, além dos pais, havia uma tia que dela cuidara por toda a vida e se sentia abandonada e triste. Enfim, vieram, casaram no civil e religioso, solteiros que eram, cortaram o bolo, foram abençoados, bateram fotos, ganharam presentes e, mais que de repente, voltaram para a realidade fria da Alemanha. E aí já não eram mais ela e ele, era um casal, com compromissos com a vida, mudando de cidades e à procura de casa. Suaram, trabalharam, cada um na sua faina, e conseguiram comprar a de seus sonhos, cercada de árvores e flores, em uma rua pequena, aquietada e charmosa de uma cidade que ainda tem bonde e os vizinhos se conhecem. E tiveram que ir duas vezes à maternidade e de lá saíram com duas filhas bonitas, misturas de sangues e raças, nascidas na germanidade sob o credo de Bismarck: “Nós alemães tememos a Deus, mas a nada mais no mundo”. E essas filhas foram crescendo sadias, estudiosas e felizes. Hoje, são duas jovens em processo de definição profissional. Multilíngues, cidadãs do mundo, cantoras amadoras e, ciosas também de sua brasilidade, adeptas e intérpretes da bossa nova. E, para confirmar essa brasilidade, já vieram mais de 20 vezes ao Brasil e aqui se reabastecem de alegria para viver o duro e competitivo mundo real que o século XXI apresenta a todos os jovens da Europa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/02/2009. - [COISAS SIMPLES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/coisas-simples-diario-do-nordeste/): Agora que o Obama está em paz com a Hillary e a Dilma fez a sua bioplastia, vamos falar de coisas simples. E uma das coisas que incomoda a muitos é a falta de zelo e cortesia de alguns com a cidade. Semana passada, esperando o semáforo abrir, vi o motorista do carro ao lado jogar o conteúdo de um saco plástico pela janela. Ele usava o saco plástico para coletar o que não lhe servia, e a rua, como lixeira. Baixei o vidro e disse: isso não se faz! Ele, com cara de menino pegado no flagra, disse: “foi bobeira”. Não, não foi bobeira. Foi falta de educação, civilidade e respeito pela cidade. Não importa que ela esteja suja ou limpa, isso não nos dá o direito de ser mais um sugismundo. Situações como essa vivemos em outras ocasiões. Certa vez, um grupo de jovens em um “buggy” jogou um saco de lixo na rua. Parei, apanhei, emparelhei e disse que o saco pertencia a eles e não à cidade e devolvi. Eles, em algazarra, jogaram o saco sobre o capuz do meu carro. Recolhi e ri para eles. Não sei se a lição serviu, mas pararam de rir e fugiram. Creio que histórias como essas todos têm para contar. Quem não vê, todos os dias, pessoas levando seus cães para passeio e deixando ali seus dejetos nas combalidas calçadas. Já não basta desviar dos buracos e ambulantes, é preciso também não sujar o sapato com imundície alheia. Há ainda, além dos flanelinhas, os atletas de maratona e ciclistas de toda a ordem que resolveram, em nome de suas formas físicas, andar em bandos pelas vias públicas, ocupando espaços que não são só seus. E têm até atletas precursores que, apitos ou sinalizadores à mão, resolvem parar o trânsito nas esquinas para dar prioridade a seus colegas. Nada contra os esportes e os esportistas, mas há que haver um mínimo de atenção com o trânsito para não ocorrer acidentes. Nas cidades de hoje, onde os agentes de trânsito pouco orientam e multam sem clemência, parece cômodo ser omisso e não sofrer afronta de quem não faz a sua parte. O escritor italiano E. Amicis dizia: “a educação de um povo pode ser julgada, antes de tudo, pelo comportamento que ele mostra nas ruas. Onde encontrares a falta de educação nas ruas, encontrarás o mesmo nas casas”. Alguém duvida? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/02/2009 - [PEDRO, POETA, PRESIDENTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pedro-poeta-presidente-jornal-o-estado/): O advogado e conselheiro-fundador do Tribunal de Contas dos Municípios do Ceará, Manuel Pio Saraiva Leão, era irmão de minha avó Luiza. O novo presidente da Academia Cearense de Letras, ontem empossado, é o seu filho único, Pedro Henrique Saraiva Leão. Foi ele quem, em 1962, ao viajar para o exterior, me convidou a assumir a coluna “Informes Acadêmicos”, da qual era redator, no jornal Correio do Ceará, Diários Associados, onde permaneci até 1968. Esse preâmbulo é feito apenas para dizer da minha alegria ao vê-lo na presidência da mais antiga academia de letras do Brasil, fundada em 1894, no mesmo lugar onde pontificaram Antonio Martins Filho, Eduardo Campos, Cláudio Martins, Artur Eduardo Benevides e Murilo Martins, para ficar nos mais recentes que, reunidos, somam quase meio século de presidência. Ele substitui a Murilo Martins, médico, professor e intelectual, figura singular da cultura cearense que agrega amizades, não falta a compromissos e cumpre horários. Pedro Henrique também é médico, cirurgião, professor universitário em duplo grau, poeta, editor e articulista. Curioso, arguto e inteligente, sabe eleger leituras e o faz com o mesmo esmero com que usa o bisturi, identificando o que deve ser extirpado e o que deve ser preservado. Como poeta, Pedro Henrique estabelece, como disse o poeta espanhol Dámaso Alonso, um nexo entre dois mistérios: o do poeta e o do leitor. Abraçou com arte e ofício o concretismo, sendo um experimentalista da palavra, focando seus versos na mensagem, dando realce aos elementos constitutivos da expressão e ao seu sentido conotativo. Como concretista, utilizando o visual gráfico, o processo de criação, a montagem e a semiótica, nada fica a dever aos paulistas Haroldo e Augusto de Campos, autodenominados criadores do concretismo no Brasil. Esse movimento, na verdade, surgiu na segunda metade do século passado, a partir da vinda de Max Bill, arquiteto, pintor, intelectual e design gráfico suíço que, em 1956, montou a primeira exposição nacional de Arte Concreta. Autor de mais uma de uma dezena de livros, Pedro Henrique é ainda membro da Academia Cearense de Medicina e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, Seção do Ceará. Edita há anos, com zelo gráfico e o cuidado de revisor, a revista Literapia, de excelente feição gráfica, que reúne poetas, cronistas e ensaístas do nosso Estado. A comunidade acadêmica o recebe com júbilo, acredita na capilaridade cultural e social do novo presidente da ACL e sabe que os planos em andamentos, como o restauro da sede e a sua adequação ao mundo tecnológico, serão implementados, ao mesmo tempo em que ele dará vazão ao seu espírito de editor contumaz. Walter Whitman, um dos bardos lidos por Pedro Henrique, disse certa vez: “Para que haja grandes poetas é preciso grande público”. Parodiando o poeta americano eu direi: para que haja uma grande administração da ACL é preciso que haja um grande público. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/01/2009 - [BUSHOBAMA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bushobama-diario-do-nordeste/): A palavra bush significa arbusto. George W. Bush acaba de ser substituído por Barack Hussein Obama, deixando o poder com a pior popularidade de um governante nos últimos 50 anos. O que terá ocorrido de tão grave para a maioria da América pensar assim? Terá sido ele um arbusto a encobrir soldados americanos batalhando e morrendo em guerras sem sentido? Bush é republicano e representa uma espécie de fundamentalismo político, acreditando serem os EUA o centro protetor do mundo, com a capacidade de intervir onde achar por bem para assegurar a liberdade. Essa ação, ao procurar vingar o país dos ataques de setembro de 2001, o ano de sua posse, incorreu no erro de usar mentiras para justificar o ataque ao Iraque. Essa guerra, entre outras, foi deixada de herança. Por outro lado, o fim da prosperidade com a bolha das ações de tecnologia, os maus tratos em presos em Guantanamo e no Iraque e a inadimplência das hipotecas de imóveis deu origem à atual crise mundial, quebrando bancos, criando medo e demissões de milhares na indústria. Essa é a herança de Bush para Obama. Houve a perda de confiança no sistema financeiro e foi preciso a emissão de bilhões de dólares para tentar apagar o fogo da recessão. Não apagou, está em fogo-fátuo e aguarda os primeiros passos do governo Obama com demissões singulares - antes das nomeações - por conta de escândalos pessoais e fiscais. O representante da esperança das minorias raciais e sociais é agora de todos. Os EUA esperam o milagre da recuperação da autoestima nacional. Grande parte da humanidade, ainda aceitando a liderança americana, deseja soluções para as repetidas crises do Oriente Médio, o fim do embargo a Cuba, a aceitação dos muçulmanos, sua religião e ortodoxia sem taxá-los, sem provas, de terroristas ou ligá-los ao grupo Al Qaeda, de Bin Laden. Será lúcido admitir novas lideranças como Gordon Brown, da Inglaterra e Nicolas Sarkosy, da França e dos quase ricos Brasil, Rússia, Índia e China a pleitear menos protecionismo e maior participação nas decisões. Essa tarefa é para um novo super-herói, como acostumamos ver no cinema, desde o Super-homem até o Homem Aranha. Câmeras, ação. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/01/2009. - [AS FALAS DE OBAMA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-falas-de-obama-jornal-o-estado/): Algumas pessoas estão impressionadas com os discursos de Barack Obama, o novo presidente americano que tomou posse nesta semana. Dizem que eles expressam o novo, mas, agora tem tempero moderado ou até conservador. Dizem ainda que as frases são precisas, certeiras e que ele fala o que povo precisa ouvir. Por trás de todos os últimos discursos do senador, do candidato a presidente e o da posse, no dia 20, nesta terça, está alguém vinte anos mais jovem que Obama. Ele se chama Jon Favreau e não deve ser confundido com o ator e cineasta americano de mesmo nome que dirigiu o filme Iron Man. Favreau, o escritor, tem 27 anos e cara de estudante, embora tenha concluído Ciências Políticas na Holy Cross, em Worcester, Massachussets, uma escola sem grande notoriedade. Favreau, com um currículo mínimo, conheceu Obama em 2005, pois havia sido um dos elaboradores de discursos de John Kerry, o último candidato democrata derrotado por George W. Bush. A partir de então, Favreau - já seu assessor no Senado - e Obama, criaram uma estratégia de trabalho comum. Sempre discutem o tema do próximo discurso, Obama diz as suas linhas de pensamento sobre o assunto e Favreau faz a montagem que, ao contrário de outros políticos, é rediscutida e até revista por Obama, um vaidoso harvadiano. Dessa forma, Favreau, um ghost writer solteiro e livre, pode seguir, como um fantasma todos os discursos, passos e entrevistas públicas de Obama. Há, entretanto, admiração e respeito de Favreau ao pensamento político e social, história pessoal, sonhos e esperanças de Obama que, após eleito, modulou a sua retórica e teve que assumir uma postura mais moderada para obter votos dos republicanos e mostrar aos americanos que a crise é mais profunda que imaginava. Esse tom moderado já está sendo chamado de conservador, por alguns democratas e pelas várias facções da contraconcultura e da esquerda americana que, em peso, votaram em Obama. Um exemplo disso é que dos 59 senadores democratas, somente 52 votaram no que Obama lhes pediu por telefone ou em contatos pessoais. Na véspera da posse, por exemplo, Obama foi a um jantar de gala oferecido por seu adversário de eleição, John McCain que, inclusive retribuiu no dia seguinte, sendo visível no palanque oficial. Desta forma, a realidade entrou cedo no discurso, pensamentos e ações de Obama e isto tem feito Jon Favreau ser um pesquisador da História americana e dos discursos dos ex-presidentes de ambos os partidos. Quem não fala, Deus não ouve, diz o povo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/01/2009 - [Fórum de Literatura - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/forum-de-literatura-jornal-o-estado/): Há alguns anos, Murilo Martins e eu, fomos a Recife para um congresso de academias de letras do nordeste. Acorreu gente de diversos estados. Achei estranho que na noite da abertura à mesa diretiva só tivesse pernambucanos. Comentei com o Murilo. No dia seguinte, observei a mesma coisa. Só pernambucanos na direção das mesas e grupos de estudos e todos os demais nordestinos na plateia. Levantei-me e reclamei. Foi um escarcéu. Conto este fato para dizer que, nesta semana, por iniciativa da Secretaria de Cultura do Ceará, houve uma reunião, previamente agendada, para se criar um Fórum de Literatura Cearense. A conversa foi aberta, franca e todos tiveram vez. Não se agiu à moda pernambucana. Auto Filho parece ter auscultado o seu espírito gramsciano e agiu como um democrata. A pauta foi discutida por todos, desde as secretarias de cultura do Ceará, de Fortaleza e de Maracanaú, academias Cearense e Fortalezense, grupos que publicam jornais culturais, autores, intelectuais, curiosos e até por membros do Clube do Bode, essa desinstituição - desinstituição mesmo – que comete cultura, vez por outra. Pois bem, louvo o modo como todos se conduziram, sem pensar em hierarquia, discutindo, ponderando no todo e admitindo haver necessidade de repensar coletivamente a literatura cearense que, no dizer do Carlos Emílio Correia Lima, vanguardista e polêmico escritor, precisa se tocar e mostrar uma nova cara. Não dá mais para brincar de cultura e literatura, ou restringi-la apenas aos acadêmicos, tampouco se empanturrar com salgadinhos e bebidas em lançamentos contínuos de livros que são publicados e que não têm, na sua maioria, qualidade literária alguma. É bom lembrar o célebre diálogo shakespeareano entre Polônio e Hamlet em que aquele pergunta a este: “O que estais lendo, meu Senhor?” Ao que Hamlet responde: “palavras, palavras, palavras”. Um aglomerado de palavras não é, necessariamente, um livro. É bom que a fogueira das vaidades diminua suas chamas e a modéstia possa habitar as mentes dos que estão, a partir da tarefa delegada, incumbidos de institucionalizar o Fórum, como elemento condutor de um novo tempo para a literatura cearense. Seja este ano de 2009, regido pelo sol, o astro a iluminar a nossa equatorial terra comum e que, igualmente, possa aquecer a imaginação de todos os intelectuais e agentes da cultura, encarregados da faina. Mãos à obra. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/01/2009 - [FAIXA DE GAZA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/faixa-de-gaza-diario-do-nordeste/): Imaginem que a cidade de Fortaleza é vizinha de Sergipe. Fortaleza tem a mesma área da Faixa de Gaza. Sergipe, o mesmo tamanho de Israel. A Faixa de Gaza é uma estreita extensão de terra, onde foram alocados parte dos palestinos que ocupavam, até 1948, a área onde hoje fica Israel. Ela tem jurisdição especial, sem ser Estado, possui, junto com a Cisjordânia, parlamento, Presidente e dois partidos políticos: Hamas e Fatah. O Hamas parece uma mistura do antigo PT e do atual PSOL, com tendência sunita e tem o apoio do Irã. O Fatah seria um cruzamento do DEM com o PSDB. Perdeu as eleições, em 2006, e saiu de cena. Em Gaza, a cidade da faixa, moram 1,5 milhões de pessoas, com renda média mensal de 210 reais e um poderio militar comparável a de qualquer pequeno país da África. De cada 100 palestinos adultos de Gaza, 45 estão desempregados, face ao bloqueio econômico de Israel, com o apoio americano e da Europa. Esses desempregados, famintos e revoltados, são a base do terrorismo. O Hamas, inconformado, lança foguetes sobre Israel e treina homens-bomba para ataques aleatórios a prédios públicos e privados. Em Israel habitam 7,1milhões com renda mensal de 5.100 reais. Exército permanente e equipamentos militares de Primeiro Mundo. Há, portanto, desequilíbrio na luta que, certamente, não terminará no próximo cessar fogo, se acontecer. Esse desequilíbrio e o bloqueio, não desautorizam Israel de defender seus cidadãos dos ataques de foguetes e dos homens-bomba. Eu já estive lá e vi. Agora, entretanto, acontece ataque terrestre massivo com apoio aéreo sem distinguir civis e crianças palestinas. Essa é a realidade. Por trás dela está a permanente luta pelo poder, religiões e ideologia. Ocorreu também o combate ao terrorismo do Al Qeda. especialmente após os ataques de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos e o início da Guerra contra o Iraque, país onde existiam, além de um governo truculento e terroristas, milhões de civis e grandes e cobiçadas reservas de petróleo com refinarias. No inverno de Nova Iorque, nos calafetados salões da sede da Organização das Nações Unidas, há demora do Conselho de Segurança em decidir. Até quando? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/01/2009 - [CONSTRUÇÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/construcao-jornal-o-estado/): Meus queridos, foi linda a cerimônia. Ela teve a marca de vocês. A hora, o local, as músicas, as lágrimas, os risos, as crianças, as famílias e poucos amigos. Ela foi tal como vocês queriam e a fizeram. Ainda bem. É preciso saber querer, mesmo sendo diferente do usual. Cada um tem sua passagem e o voo do sonho não tem limites. Os seus anseios nunca serão iguais. Somos semelhantes, mas distintos. Estive, nestes últimos tempos, pensando em vocês dois. Muito mesmo, mas sou esse ser estrangeiro no meu bem querer, sentir e dizer. Queria ter tido com vocês uma conversa sem peias. E, no meu pensar, teria sido à hora do pôr-do-sol, sob a tocha avermelhada assomando lá da Barra. Eu teria dito da minha alegria em vê-los de mãos dadas na construção do seu futuro. De ver, em vocês, o sorriso fácil dos amantes e repassaria, talvez, algumas experiências. Enfim, o século virou e nos mostrou cada um em seu ninho e, agora, de forma ousada, vocês vão construir o seu. Não apenas com estrutura, adornos, mas, especialmente, com sentimentos, fazeres e deveres. A vida, queridos, nos experimenta a cada dia. Quase sempre, não temos sabedoria para colher as lições surgidas das formas as mais singulares. Erramos, por humanidade. Se vocês me pedissem para dizer quais argamassas são necessárias para a construção de uma vida em comum, falaria primeiro em compartilhamento, em troca de energia, cumplicidade, adesão e identidade de linguagem. Depois, aí sim, falaria de amor. Há, acreditem, pessoas com amor comum, mas sem saber compartilhar a vida, com todas as suas sutis nuances, medos, falhas, faltas, alegrias, circunstâncias, disputas, ciúmes e palpite de terceiros. Depois, falaria no trabalho árduo, consciente e contínuo a dignificar o ser humano e o torná-los, por sua conta e risco, senhores de seus próprios destinos. Diria também: sejam pacientes e cuidadosos um com o outro, especialmente nos detalhes. Não se tranquem em silêncio quando os dissabores ocorrerem. Abram as veias dos seus corações e não tenham medo de sangrar. Há sempre suturas fortes onde existe amor. O não entendido, o não visto ou o não explicado podem ir se transformando em ressentimentos e isso só desabrocha sem a crença no diálogo. Enfim, peço desculpa pelo alinhavado, mas isso é coisa minha, especialista em erros e alguns acertos. Não acreditem na perfeição do ser humano. Juntos, tenham fé no amor, no trabalho, no estudo continuado, no riso a dois, na esperança, na tolerância, na prudência, na compaixão e na confiança. Sejam felizes. Contem comigo, sempre. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/01/2009. - [PASSO A PASSO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/passo-a-passo-diario-do-nordeste/): Estou entre o ano acabado e o chegado. Ainda guardo em mim cheiros de ontem, rastreio olfatos esmaecidos e descubro o sem fim do tempo e a finitude das pessoas. Meu pé esquerdo ficou no passado e o direito teima em ser presente. Mexo em ordenadas e abscissas e não encontro o Equador. É preciso estar na linha para encontrá-lo. Mas minha pele sente o seu calor visceral. Não sei bem se venho do passado ou se meus passos fugiram de lá. Meus caminhos são triviais, há sempre as mesmas pedras, mas, por elas, já passaram outros pés e a areia pisada deixa as minhas solas e cai, grão a grão, entre as fendas. Minha alegria tem dioptrias certas e o meu riso é criança. Nas barricadas da vida luto, muitas vezes, como um infante sem fuzil ou quartel, mas vou quebrando lanças e seguindo, passo a passo. Sonhei com o futuro e ele se fez presente, como presente. E o agora já é passado e o futuro passa. Albergo pensamentos e fazeres trazidos até aqui pelas carroçáveis da vida, ultrapassando porteiras e ribeiras, evocando a lua sem vergonha e dormindo sem sombras. Raras são as chuvas de lágrimas, mas consigo tirar do úbere da terra a semente para o plantio do novo dia. Mesmo tendo havido tormentas, elas se quedaram com as enxurradas do ontem. Miro a essência da vida e sinto as tramelas das portas se abrirem e assomo o seu umbral. E isto importa se há sempre mais portas a abrir? Estou na calçada de um novo tempo, não embarquei em suas veredas e desconheço suas entranhas. Não tenho passaporte para todos os dias, cada um precisa de um visto diferente, depende da lua, depende do sol e de nós, navegantes em terra firme. E se há flores na calçada onde estou foram por mim plantadas, regadas com meu suor e podadas com minhas mãos. E, certamente, há espinhos, também meus. Os passos de cada dia têm registros no cerne da alma e formam a vida com a tonalidade merecida. Os olhos das estrelas podem não ver os meus passos, mas as estrelas têm olhos e registros siderais. Beijo a boca da noite a se aproximar, deixo-me por ela amar e cingir meu corpo com esperança. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2009 - [AO TRABALHO OU CADA UM COMO DEUS QUER - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ao-trabalho-ou-cada-um-como-deus-quer-jornal-o-estado/): Acabaram-se o 2008 e as festas. Estamos na ressaca da preguiça. Aproveite, como faz o Sérgio Braga, para limpar gavetas, rasgar o que não serve mais, e planejar o que deve ser feito nestes muitos dias que faltam para acabar o 2009. Dê uma de Airton Monte e tome a última cerveja da geladeira. Faça como o Carlos Augusto Viana, que cofia os bigodes, enquanto repassa a literatura brasileira. Curta a vida como o César Montenegro. Seja leal como o Marco Aurélio. Enérgico e suave como o Ubiratan Aguiar que traça metas para o TCU apertar mais, o que pode infernizar relapsos e afins da administração pública. Procure furos como o fazem Moacir Maia, Bezerrinha e Roberto Moreira, que falam com políticos com a mesma desenvoltura do Édison Silva. Poetize como o Barros Pinho. Seja romântico como o Iranildo. Calado e bom ouvinte como o Lúcio. Obediente como o Ademar Gondim. Persiga objetivos como o Vinícius Castelo. Chegue e saia discreto como o Saraiva. Curta as amigas como o Siqueirinha. Não adoeça, mas se não tiver plano de saúde, converse com o Narcélio. Se for fazer um show ou filme não esqueça do Ricardo Guilherme, Pardal, Fausto Nilo, Falcão, Rodger, com texto sutil do Augusto Pontes, produção do Giordane e direção de Francis Vale. Em casos médicos complicados fale com o Mariano e o Dionísio. Ame filhos e netos como Luiz César Façanha. Olhe as águas do mar com os olhos do Pitombeira, que confere tabelas e imagina mais navios partindo e atracando off-shore no Pecém. Escreva muito como José Lira, Almir de Castro, BC Neto e Airton Farias. Dirija um jornal onde escreva Dorian Filho com o aprumo e a parcimônia do Ricardo Palhano. Polemize, como o Ruy Câmara. Seja paciente como Josino Lobo. Faça um cerimonial descontraído como o Zé Teles, enquanto Humberto Cavalcante, ao lado, dá uma risada. Dê uma passada sistemática na Biblioteca Lustosa da Costa, em Sobral, como faz o Francisco José. Distribua livros, como planeja fazer Auto Filho. Discurse. Veja o que acontece quando o Juarez Leitão fala. Procure, no exemplo de Cláudio Pereira, a força necessária à vida. Tenha a presteza e a pontualidade do Ednilo Soárez, acolitando jovens para o futuro. Compre livros, como o faz Zé Augusto Bezerra com raras primeiras edições. Adquira obras de arte na surdina como o Newton Freitas. Registre tudo em atas - servem agendas ou diários - como quer o Eduardo Fontes. Cate e descubra contos, histórias e crônicas e as publique como o interessante Assis Almeida. Encurte a sua semana, tal qual o Machadinho.Poderá até usar gravata listrada como faz Pedro HS Leão, mas de mangas curtas para realizar planos na Academia.Cuide-se, com determinação, como está fazendo Eduardo Fiúza. Modernize o seu socialismo, tal o Inácio de Almeida. Seja “cool” como o Tarso Melo, leve como o Igor Martins, pai como o César Renato e voe seguro como o comandante Márcio Andrade. Viaje como o Beto Studart, um “easy-rider” pelo mundo afora. Seja discreto, perspicaz e verdadeiro como as palavras e as tintas do Audifax Rios. More na serra, como faz Antônio Torres, para escrever mais e brilhar sempre. Seja acadêmico com o saber do Marcos Vilaça. Aposente-se, se for o caso, com a ajuda do Elmar Arruda. Ou faça o que sabe fazer. Ore, mas não espere por milagres. E, acima de tudo, faça o bem, sempre. Olhe as estrelas, mas acorde cedo, ande, e sinta a energia do sol. Viva com plenitude e aceite as circunstâncias. Lá para o final dos dias que restarem para este ano virar dez, conversaremos sobre o que andará fazendo Obama, a tal da crise mundial e aí virão papos sobre as eleições para Presidente da República, governadores, senadores e deputados, e a Copa do Mundo de Futebol. Brasil, sil,sil. sil. Bem-vindo 2009. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/01/2009 - [NOELULA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/noelula-diario-do-nordeste/): O Natal chegou e Luiz Inácio da Silva, que agregou o Lula a seu nome, está saindo da presidência do Brasil, após oito anos em que foi ele próprio a maior agência de propaganda do que realizou ou deixou em construção. Se alguém, na virada do milênio, perguntasse aos "brazilianists", os que, sendo estrangeiros, se dizem especialistas em Brasil, se um torneiro mecânico e sindicalista seria presidente e fenômeno de popularidade, certamente zombariam e, com frases complexas, provariam o contrário. Se qualquer brasileiro, considerado machista, fosse indagado no início dos anos 2000 se votaria em uma mulher descasada e em fase de recuperação de doença séria, responderia: claro que não. O fato é que estamos a menos de uma semana da mudança de governo. Sai Lula, verdadeiro Noel para a grande maioria dos brasileiros que elegeu, por sua conta, Dilma Rousseff. Para ele, pernambucano/paulista, estava reservado papel complexo: substituir o carioca/ paulistano Fernando Henrique Cardoso, político veterano, professor universitário, poliglota e articulado. Pois bem, no sol de 01 de janeiro de 2002, surge no Rolls-Royce, na Esplanada dos Ministérios, o filho da D. Lindu, retirante abandonada pelo marido que se mandou de pau-de-arara para a periferia de São Paulo. E o seu filho acenava com a cara do Nordeste ainda marginalizado. Trazia na sua história pessoal a lembrança da forme. E disse: todo brasileiro tem direito a comer três vezes ao dia. Falava o óbvio, mas dizia o que vivera e prometeu. Acelerou os programas assistenciais que forjaram a sua popularidade. Falando a linguagem do povo, colocando-se até como opositor a seu próprio governo, reclamava da falta de comida, luz, água e casa. É claro que o Lula de hoje é um "globotrotter". Soube entranhar-se sem medo, ir a lugares fechados para os não doutos e conseguiu mostrar que o Brasil não era só exotismo e futebol. Queria ser protagonista da nova história do século 21 auxiliado por intérpretes lutando para traduzir suas frases acompanhadas de gestual comunicativo com sisudos e emproados chefes de Estado. Por tudo isso, Lula é o Papai Noel do Brasil, até na barba. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/12/2010. - [NATAL REVISITADO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/natal-revisitado-jornal-o-estado/): Já acreditei em Papai Noel. Já fiz cartinha pedindo presentes e acordava cedinho para ver se tinha ganhado. Aos quatro anos, no Jardim da Infância, arrisquei e declamei à véspera do Natal: “Hoje é Noite de Natal, ninguém se deita em colchão, pois nasceu o menino Deus entre palhinhas no chão”. Já assisti ao Pastoril, com todo o peso das tradições e a brejeirice de nossa juventude. Já me embeveci com presépios e lapinhas. Pobres e ricos, ridículos ou adequados aos costumes, estáticos, mecânicos ou movidos à energia. Lapinhas com tudo o que você possa imaginar. Umas até com aviões e barcos sobre espelhos d’água feitos de restos de vidro. Lapinhas com as luzes acendendo e um trenzinho apitando ao redor do presépio para a glória do presepista (ou seria presepeiro?) e delírio dos meninos que olhavam deslumbrados. Já fui a muitas missas do Galo, celebradas à meia-noite do dia 24 para 25 de dezembro. A ceia era servida mais cedo e lá se ia toda a família com missais e terços rezar contrita a pedir graças aos céus. Nessa época, os perus não eram vendidos prontinhos como os de hoje. Desde novembro começava a engorda dos perus trazidos do interior que serviriam de adorno para o centro da mesa e saciariam os apetites vorazes de adultos e crianças. Os perus eram recheados com farofa, ameixas, azeitonas e assados na padaria próxima ou nos poucos fornos que existiam nas casas. O tempo foi passando e a lapinha e o presépio cedendo espaço para as árvores de Natal. Umas pequeninas, mirradas até, feitas de galhos secos cobertos com algodão e papel crepom. Outras já compradas com estrutura de ferro e com umas luzinhas mixurucas. De uns anos para cá surgiram as árvores de Natal importadas, de todos os tamanhos e para todos os gostos com lâmpadas multicores e músicas, adornadas nas suas bases com caixas e pacotes, vazios ou cheios, à guisa de presentes para serem trocados após a ceia. As missas de Natal ou do Galo foram saindo de moda e, talvez por causa dos assaltos, passaram a ser mais cedo com uma quantidade mínima de fiéis. Os padres celebram com o olho no relógio, preocupados. Hoje as coisas mudam com a vertigem da informática e das comunicações por satélites que acionam os canais de televisão e estes nos bombardeiam com visões mis de natais com neve, natais com enchentes e terremotos, natais com guerras e armistícios, natais com ceias pantagruélicas, natais com fome. Não pensem que estou sendo saudosista. É que o Natal nos remete ao passado com todas as suas lembranças e nos dá alento para procurar um pouco da fé que já tivemos. O Natal faz as pessoas ficarem mais mansas como, aliás, deveriam ser o ano inteiro. O Natal produz o milagre das comunicações telefônicas entre pessoas queridas que se quedam distantes e se aproximam com o calor de seus espíritos e se despojam das couraças que as revestem na luta insana do dia-a-dia. O Natal pode até nos fazer um pouco piegas, meio bobos e de olhos marejados de lágrimas, quando não podemos dizer, de coração aberto, Feliz Natal a todos os que amamos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/12/2010 - [BOM DOMINGO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bom-domingo-diario-do-nordeste/): Se você está lendo o que escrevo, obrigado. Hoje é 19, domingo, dia de não fazer nada ou até de ler o que vai sendo escrito. A primeira letra foi um s. S de sabedoria, s de sofrimento, s de sono, s de silêncio, s de satisfação e de se... Enfim qualquer letra pode dar origem a uma infinidade de palavras. Assim como as letras, nós podemos criar muita coisa. É claro que a criação depende do que somos, nossos sonhos, sentimentos e de toda a nossa história de vida. Você pode até pensar que o Bill Gates é o mais inteligente dos homens. Será que ele acha? O fato de ter alimentado um sonho e esse sonho ter dado certo não o faz menos falível, menos humano e sujeito a todas as intempéries que uma vida encerra. Os seres humanos não são simples e, por tal razão, não devemos presumir que fulano é mais que beltrano e que cicrano não é o que pensa. Cada dia é uma surpresa, tudo deve ser construído a partir do instante que acordamos. Abrimos os olhos e nos deparamos com um novo dia. Pode ser de sol ou nublado. Quem precisa de sol para lhe dar energia deve agradecer, mas os que necessitam de chuva para o que plantaram se alegram com o tempo nublado e isso é que faz o mundo intrigante. Estamos em dezembro, o mês que encerra o ano. Neste dezembro, relembre os dezembros passados e projete outros dezembros. Não se fixe apenas em ser um mês festivo, mas um tempo em que as pessoas, queiram ou não, rediscutem suas esperanças ou quimeras. É certo que neste domingo muitos não estarão de bem com a vida, mas ela nos foi dada de graça. É bem verdade que a cada dia, com jeito ou não, estamos pagando o nosso pedágio ou dízimo. O viver é uma conta corrente. De um lado está o que fazemos, do outro o que deixamos ou nos negamos a fazer. Não importa se você é jovem, adulto ou já esteja para lá da idade de continuar trabalhando. Em qualquer fase do existir há sempre uma contraprestação. Cabe a nós procurar saber o que deve ser feito. Ninguém sabe o amanhã. A vida tem tateios, acertos, erros, decisões, na medida dos humores e valores de cada um. Vá fazendo o que pode, não se cobre demais. O dia está aí, ele é seu, o seu olhar é o seu ponto de vista. Bom domingo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/12/2010 - [TOLERÂNCIA E CONVIVÊNCIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tolerancia-e-convivencia-jornal-o-estado/): Tão logo aprendemos a falar é-nos ensinado pelos pais o quão importante é saber conviver. Respeitar os mais velhos, evitar brigas com as “pestinhas” dos irmãos que temos; aguentar desaforos na escola, ouvir que nós não correspondemos ao esforço, ao sacrifício e à dedicação de anos e anos, faz parte do aprendizado de convivência da infância e juventude. Conviver bem significa ser tolerante. É importante não esquecer que para ser tolerante é preciso determinar o que é intolerável. Conviver é estabelecer limites e saber que a partir daquele ponto nós estamos perdendo a liberdade de ser gente, de caminhar com os próprios pés e assumir os defeitos em toda plenitude. Ser livre é aceitar-se. Aceitar os outros, tudo bem, mas até aquele ponto em que você ainda tem coragem de se olhar no espelho. A convivência mansa e pacífica é o ideal a ser perseguido por pessoas, famílias, instituições e nações. Enquanto isso, as diferenças inerentes aos seres humanos colocam farofa no ventilador e produzem estilhaços em estruturas aparentemente blindadas. Os pais, os amigos, os esposos, os filhos e a sociedade são todos agentes cobradores de comportamentos tão puros quanto irreais. Cobram o que não oferecem em contrapartida, por não saberem ou não terem como. Fiquemos nos pais. Há pais que se imaginam senhores dos destinos de seus filhos e não sabem que a rebeldia, o ranço e até o enfrentamento inconsequente são meras ações libertárias. Os pais imaginam ser, na maioria dos casos, supridores das necessidades de seus filhos. O grande problema é que as pessoas não vivem para as suas necessidades e sim para os seus desejos. Os desejos fazem as pessoas ser livres da ditadura do afeto que nos chantageia com a oferta do necessário. Parece que foi Shakespeare quem disse que “o homem é um ser complexo” e é essa complexidade que move o mundo. São os diferentes, os que saem do quadrado, da mesmice e fogem ao combinado pela mediocridade dos usos e costumes de sua época que constituíram e constituem a vanguarda do mundo. Ser pessoa é admitir o desejo de ter uma individualidade, um misto de solidão que nos distingue até dos irmãos e uma solidariedade que esbarra na liberdade do próximo. Todo sofrimento não deixa de ser uma ação pedagógica, uma forma de aprendizado e de purgação. O sofrimento que nos impomos em não aceitar a tutela da ditadura do afeto é um ato que nos engrandece e nos toma livres. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/12/2010. - [CONY E MATEUS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cony-e-mateus-diario-do-nordeste/): Carlos Heitor Cony é especial. Tinha um grande amor canino. Acompanhei o drama da morte de seu cão em suas crônicas. Ele sofreu e deixou sua dor ser derramada e conhecida. E Cony tem mais de 80 anos. Pelas manhãs, ele dispara a sua sensatez em comentários em emissora de rádio e fala com a história pessoal a seu favor. Mistura e acolhe assuntos que lhe são apresentados de bate - pronto e o faz com a sensatez que falta a muitos. Mas, o que eu gostaria de falar, além da pessoa, do jornalista, escritor e acadêmico Cony seria sobre suas preferências literárias, a pedido de um amigo. Ele diz que “livros há que gostaria de reler e – infelizmente – já não há tempo nem modo para esse tipo de prazer, substituído por outros razoavelmente inconfessáveis”. Ao deixar a palavra inconfessáveis no ar, Cony respira vida e deixa que o leitor interprete como bem entender. Ele faz mistério com o prazer e isso cria o clima para que se continue a leitura. Para ele “se alguém me perguntasse pelos livros prediletos, a resposta, seria outra. O que o amigo pede é quais os livros que ele gostaria de reler. E ele responde: “Incluiria, como mandam os figurinos literários, os ensaios fecundos, os grandes romances formais, o Gibbons em não sei quantos volumes, o Moliére, o Racine, o Dante, Montaigne, Flaubert, enfim, os autores sempre citados por todos. Mas incluiria também o Arquibaldo Benjamim Xavier, autor de um alentado opus intitulado “As asas de Ícaro dos Impostos”. Eu nunca ouvi falar de Arquibaldo. Você já ouviu? Penso que tem gozação com a palavra impostos ao final do título. Depois de muitas filigranas, Cony, como ateu convicto, apesar de ter estudado em seminário, fala na preferência, um largo trecho do Evangelho Segundo Mateus. Não cita, entretanto. Que parte seria essa? Abri São Mateus e saí procurando, o que penso ter encontrado diz: “Vós sois o sal da terra. Se o sal perde seu sabor, como tornará a ser sal? Não serve mais para nada; é jogado fora e é calcado aos pés pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada no monte”. Se essa for a parte - quem sabe - Cony estaria falando das favelas que cercam o lugar onde mora? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/12/2010. - [FÉRIAS E VIAGEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ferias-e-viagem-jornal-o-estado/): Agora que as férias estão chegando, todos se aprestam para viajar. Dizia o grande Montaigne, escritor francês do século 18, que “as viagens dão uma grande abertura à mente: saímos do círculo de preconceitos do próprio lugar (ou país) e não nos sentimos dispostos a assumir aqueles dos estrangeiros”. Viajar é sair do usual, do previsível. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer e do conhecimento. O ser humano é um feixe de nervos que, de vez em quando, precisa de um tempo de relaxamento, de descontração, para torná-lo apto a novas obrigações. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo cidades ou países, poderão emitir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais. A viagem, seja qual for o destino, é sempre uma nova porta que se abre ao nosso conhecimento. É tempo para nossas prioridades ou, simplesmente, para observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm, por incrível que pareça, medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua além do vernáculo, a insegurança em aeroportos para fazer conexões ou a trabalheira com malas, câmbio de moedas e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo. A primeira recomendação para quem faz turismo é a descontração. Nada de levar muita roupa, de pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Leia, antes, sobre os lugares que vai conhecer em revistas, livros e na Internet. Anote o que lhe for interessar. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe se falar errado, não compreender o cardápio ou em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar (onde foi que você comprou isso? barato?). Deixa pra lá. Nada de ficar curtindo o apartamento ou se esparramar no hall do hotel. Ande, marque pontos de referência para ir e voltar ou use um GPS, se você for bem moderno. Os metrôs têm mapas em todas as estações e há sempre uma alma caridosa, principalmente pessoa em idade de aposentadoria, disposta a ajudar. Descubra o que está acontecendo na cidade e peça ao guia, se tiver um, ou ao pessoal do hotel para lhe indicar shows, shoppings, restaurantes, eventos gratuitos, museus etc. As cidades, nos pontos turístico, e as empresas de viagens têm folhetos gratuitos com as atrações. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia ou faça o seu próprio roteiro. Defina o que lhe é proveitoso. Tente descobrir por seus próprios pés, um lugar que lhe interesse, seja um barzinho, um museu ou loja com uma liquidação. Você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, curta que seja. Você será mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer juízos de valor. E curta, pois a vida é breve. Estes são apenas alinhavos, referências básicas, que ajustados a cada situação, poderão, quem sabe, até servir para orientar os que acreditam que os limites do mundo passam muito além das suas portas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/12/2010. - [TELES, BEZERRA E EDNILO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/teles-bezerra-e-ednilo-diario-do-nordeste/): Há identidades análogas nos três novos eleitos para a Academia Cearense de Letras, a decana das academias brasileiras. Capazes, maduros e ativos no que fazem. José Teles é reconhecido médico, José Augusto Bezerra é administrador de empresa e Ednilo Soárez dirige de faculdade de nível. São oriundos da Academia Fortalezense de Letras. O primeiro a tomar posse foi Teles, livros publicados, entre eles “O Solo das Chuvas”, “O Lacre do Silêncio” e “Sermões da Padraria”. É poeta apaixonado refinando seus versos. Dante Alighieri dizia, em “Purgatório”, o que é poeta: “Sou um que escreve apenas/quando me fala o amor e tenta relatar fielmente/o que ele dita dentro de mim”. Assim é Teles, da Sociedade Brasileira dos Médicos Escritores, dirige o capítulo cearense da Alane, dirigente operoso da área de cultura do Ideal Clube que, sob sua tutela, promove certames para jovens, intelectuais consagrados e edita regularmente “Poemas de Mesa”, prenhe de lírica. O segundo é José Augusto Bezerra, ora empossado, bibliófilo Mindliano, detentor de rica biblioteca e a quem Maria Luiza, irmã de Rachel de Queiroz, escolheu para guardião de seu acervo, neste ano do centenário da autora de “O Quinze”. Agrega o galardão de Grão-Mestre da Maçonaria. Coube a ele a difícil tarefa de substituir a Eduardo Campos, cultura poliforma, orador nato e então presidente do Instituto do Ceará. Bezerra, tal qual o biografado em seu livro “O Espírito do Sucesso”, Alexandre, o Grande, destacou a personalidade de seu antecessor e soube, com prudência e zelo, imprimir característica pessoal na condução da entidade. O terceiro é Ednilo Suárez, administrador e mentor de jovens por hereditariedade. A ele coube a incumbência de ser o diretor acadêmico de faculdade de nível. Como intelectual tem-se mostrado merecedor de críticas lisonjeiras de quem costuma ser rigoroso em suas apreciações sobre o seu romance “A Brisa do Mar” e o ensaio “Miscigenação nos Trópicos” (tristeza ou alegria?) que tem como referência o escritor português Ramalho Ortigão. Sua posse, tão aguardada, ficará como presente de ano novo. Parabéns à Cearense e, especialmente, a Teles, Bezerra e Ednilo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/12/2010. - [SÃO PAULO E O JABUTI - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sao-paulo-e-o-jabuti-jornal-o-estado/): Estive agora em São Paulo. Dizia Edson Queiroz que a cidade era tão legal que o povo falava a língua portuguesa, entre outras. É claro que não é o português brasileiro, mas qual seria o português brasileiro? O quase castiço do Maranhão? O dos “esses” dos cariocas? O jeitão duro e o emprego do tu pelos gaúchos? Ou a ginga dengosa baiana? Importa não, todos se desentendem na mesma íngua. Enquanto andava por várias partes da cidade, inclusive na região que os paulistas chamam de Berrini, uma nova Avenida Paulista, pude ver, ali perto, sob pontes e viadutos, lugares de morar dos sem teto. Muitos lugares, centenas de sem teto. Não estou falando de favela, mas de tocas humanas. Ao mesmo tempo, a cidade zoa veloz por sobre os tetos dos sem teto. Carrões e carrinhos, ônibus articulados, tipo três em um, motocicletas, táxis e assemelhados formam uma grande lagarta modorrenta multicolorida iluminada no entardecer. A terra recebe a chuva forte para minimizar a baixíssima umidade do ar, essa secura deixando a todos nervosos e suarentos E as emissoras de TV, a exaustão, falavam da “ocupação” do complexo do Alemão, no Rio. Todos paravam, vidrados. Foi preciso juntar as polícias e as forças armadas para a operação ficar ao gosto do sensacionalismo de certos canais de televisão. Esquecem os paulistanos que já aconteceu isso em Sampa. Não precisam ficar espantados. Basta lembrar o passado recente. Ônibus queimados, delegacias metralhadas etc. Foi neste século. Juro que não queria escrever sobre isso, a intenção era dizer que a região dos jardins é maravilhosa, especialmente o Jardim Europa. Por lá, revendedoras de veículos, envidraçadas e iluminadas, açulam a cobiça dos que podem e frequentam, entre outros, o Clube Harmonia, nas proximidades. Mas, no duro mesmo, o que gostaria de falar seria sobre a confusão criada pelos editores paulistas Luiz Schwarcz (Cia. Das Letras) e Sérgio Machado (Record) acerca da escolha concedida pelo Prêmio Jabuti a Chico Buarque, o escritor. É briga de cachorro grande e tem a ver com a não eleição do jornalista da Rede Globo, Edney Silvestre, que lançou um romance e já seria o premiado, não fosse Chico quem é. Depois, talvez conte. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/12/2010. - [O BRASIL DESEJADO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-brasil-desejado-diario-do-nordeste/): Agora que as eleições passaram. Enquanto todos se preparam para o Natal, seria um bom tempo para se pensar no Brasil. No final de outubro, a revista Época, edição 01.11, contratou pesquisa, elaborada pela Marcondes Consultoria, sobre o país que o brasileiro quer ter. Essa pesquisa fala dos desejos dos brasileiros. Em 160 cidades de todo o país foram feitas 2.544 entrevistas com pessoas em idade de votar. Havia uma lista de 70 palavras envolvendo valores básicos, tais como responsabilidade, respeito, corrupção, iniciativa, justiça, ética etc. Cada entrevistado (a) deveria responder quais os itens mais identificados com ele próprio, quais os que mais importariam para o país e ainda como a pessoa gostaria de ver o Brasil no futuro. Não houve surpresa quando responderam os fatores que definem o Brasil atual. Saíram, pela ordem: corrupção, pobreza, crime/violência, desemprego, analfabetismo, poluição ambiental, agressividade, incerteza sobre o futuro, desperdício de recursos e discriminação racial. Paralelo a isso, os fatores que poderão identificar o país no futuro. Eles, pela ordem, são: justiça, redução da pobreza, moradia confortável, cuidados com os idosos, oportunidades de emprego, cuidados com a saúde, respeito, qualidade de vida, justiça social, honestidade, cidadania, democracia, inovação, liberdade pessoal, criatividade, liderança e liberdade de expressão. Como se vê, na hora de pensar com seriedade, o brasileiro, seja de que parte for, sabe ordenar seus pensamentos. Você poderá dizer que ele recebeu uma lista com 70 palavras, mas é preciso lembrar que ele tinha a liberdade de escolha. Em um dos quadros-resumo há a indicação de como o brasileiro se vê. Ele dá valor à amizade, família, honestidade, respeito, alegria, humildade, saúde, justiça, esperança, paciência, responsabilidade e, por último, coragem. Este artigo/pesquisa é uma forma de fazê-lo pensar um pouco em você e na forma como se vê no pedaço de chão que ocupa no Brasil. As pesquisas não são necessariamente verdades, mas indicam tendência do rumo que cada um deve tomar para a solução dos seus problemas pessoais e, igualmente, ajudar o Brasil. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/11/2010 - [A POESIA DE BARROS PINHO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-poesia-de-barros-pinho-jornal-o-estado/): Dizia Madame de Staël, escritora francesa dos anos oitocentos, que a poesia é a linguagem natural de todos os cultos. Bem mais cedo, Ovídio, vivido no então Império Romando, asseverava que a poesia nasce simples de uma mente serena. O livro “Poemas para orvalhar o outono”, de José Maria Barros Pinho, parece merecer as duas observações acima. Barros Pinho, administrador, professor, político e, acima de tudo, poeta, é uma dessas pessoas diferenciadas em seu jeito incisivo, retraído – quando necessário -, ardente, cálido, prestativo e sabe que veio ao mundo com missões múltiplas. Vejam-no: “o comércio/faz a festa da vitrine/nos olhos dos meninos/o operário/desfila na fila do governo/sob a plácida complacência/na espera eterna/da bondade burocrática/nas ruas/a vida/ é uma máquina”. A capacidade de síntese é a característica deste registro poético que também não deixa de ser uma crônica, um relato social. Rimbaud, um dos maiores poetas de todos os tempos, afirmava: “Digo que o poeta precisa ser vidente, far-se vidente. O poeta se faz vidente mediante uma longa, imensa e pensada desordem de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, esgota em si todos os venenos, para conservar apenas as quinta-essências. Inefável fartura em que tem necessidade de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que se torna o grande doente dentre todos, o grande criminoso, o grande maldito – e o supremo sábio”. Tudo o que Rimbaud disse está inscrito na seleção dos setenta poemas de Barros Pinho escolhidos para este livro que o revela por inteiro. As memórias, essas que voltam sem ser chamadas, estão no poema O velho longe do Rio: “meu avô morreu/na chapada da distância/procurando a lua de olhos/vivos no rio o rio mais/longe de sua vontade/as mãos sem carne/ os pés sem perfume/a rastejar fantasmas/na superfície das pedras/o engenho abrigo do tempo/moendo moendo seus ossos/ossos no destino do vento/vento vento outro vento/não o vento de sua terra/hoje passa montado no cavalo/ arco-íris pelos céus e as esporas/ a rasgar as nuvens da chuva”. Belo, contundente. J. Ortega y Gasset, filósofo espanhol quase contemporâneo, pois morto em 1955, admitia que não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria. Assim, tem sido a poesia de Barros Pinho. Gera, metaforicamente, as suas verdades, mostrando ou camuflando as suas dores, fazendo de seus versos sístoles e diástoles. Consegue sintetizar tudo, assim: “o rio encheu/os olhos/do menino/cheio de espanto/a menina/encheu-lhe a vida/de paralelas”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/11/2010 - [ELIMINAÇÃO DA POBREZA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/eliminacao-da-pobreza-diario-do-nordeste/): Semana passada recebi convite de uma revista para fazer uma pergunta ao governador eleito, Cid Gomes. Não sei se a minha pergunta será considerada, mas a que me veio à cabeça na hora foi a seguinte: o senhor acredita na eliminação ou erradicação da pobreza até o ano 2020? No Brasil, pobre é alguém que tem renda per capita até 140 reais. Indigentes são os que têm renda de até 70 reais. Na verdade, o número ideal seria o do salário mínimo. Mínimo quer dizer pequeníssimo ou ínfimo. O Nordeste ainda possui 13,5 milhões de indigentes e 17,6 milhões de pobres. Estes dados são do Censo de 2.000, mas atualizados pela Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios. Em estudo recente da Fundação Getúlio Vargas/CPS/FSP determinou-se um custo médio per capita para eliminar a pobreza, por mês, de R$ 9,33. No Ceará, o custo foi R$ 16,16. Verificou-se quanto cada área influi no aumento do rendimento individual e familiar. A resposta veio do trabalho: 71%. Os programas sociais/bolsa família respondem por 5,3% e a previdência social com 24%. O trabalho é a alavanca que deve dignificar a vida da pessoa. O que fica claro é que é preciso aumentar o número de oportunidades de trabalho, seja para o autônomo, o vinculado a cooperativas e a empresas. Há queixas recorrentes sobre os custos sociais de cada empregado e a morbidade crescente de micro, pequenas e médias empresas que, por não terem condições de pagar as obrigações sociais e os impostos diretos e indiretos, encerram suas atividades. É cena comum, nas médias e grandes cidades brasileiras, o movimento noturno de artesãos, vendedores, ambulantes, distribuidores e afins que se acercam dos pontos que, já na madrugada, são visitados por compradores que abastecem seus pontos comerciais com essas mercadorias feitas de forma artesanal ou, quando muito, com algum viés industrial. Essas aglomerações urbanas se fincam, criam raízes e aumentam a economia informal que não tem, por mais que deseje, condições de se estruturar até como microempresários. A transferência de renda dos programas sociais é um caminho, mas não a saída para a verdadeira inclusão social. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/11/2010 - [CHICO DA SILVA –ARTE E VIDA – 100 ANOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/chico-da-silva-arte-e-vida-100-anos-jornal-o-estado/): Quem deseja conhecer um pouco mais da obra, da vida e da história do pintor Chico da Silva não deve perder a grande exposição já aberta ao público na Galeria Benficarte, no Shopping Benfica, todos os dias, das 10 às 22 horas. Não paga nada. É só entrar, olhar com vontade de entender o turbilhão que era o pincel/imaginário de Chico da Silva. Ela ficará aberta até o dia 30 de novembro e é comemorativa dos 100 anos de vida desse grande pintor primitivista ou naïf, como querem os franceses, que deixou seguidores e imitadores. Lembro que corria o ano de 1966. Um dia, recebo telefonema de Fernando Heráclio Silva, colecionador de artes, que me pergunta de bate - pronto se eu conhecia as pinturas do Chico da Silva. Claro, respondi. Chico da Silva, naquele mesmo ano, havia ganhado, com suas pinturas primitivas e alucinadas, Menção Honrosa na Bienal de Veneza, Itália. Fernando, objetivo, disse: procure-o e compre todos os quadros que encontrar. Dia seguinte, peguei o carro e fui procurar/encontrar a velha casa do Chico da Silva no coração do Pirambu. O Pirambu, nesse tempo, havia recebido uma demão de boa vontade do padre Hélio Campos que, por sua estatura moral e eclesiástica, bradara alto sobre a miséria da área favelada e a carência de documentação legal das ocupações. O fato é que me vi dentro da casa do Chico, uma mistura de moradia, ateliê e bodega, pois sempre havia família, ajudantes/aprendizes, comida e aguardente por perto. Fiz a compra solicitada, paguei o devido, recebi parte das telas. As outras, o Chico iria me entregar depois. A partir dessa entrega, o Chico, vez por outra, aparecia com uma porção de quadros. O táxi ficava esperando e ele, já meio alto, vendia, agradecia, prometia voltar. E voltava. Esta introdução diz da alegria de ver esta exposição dos supostos 100 anos de vida de Chico da Silva e dos reais 25 anos de sua morte. O acervo apresentado é quase todo do colecionador Lincoln Machado. Para ele, “o que importa é saber quem foi o artista que se dizia índio do Acre (para onde foram e voltaram tantos cearenses, observação minha) e que levou o nome do Ceará para... Moscou, Paris, Veneza e tantos outros”. Roberto Galvão, pintor e mestre, fala da inserção na revista Cahier D’ Art, de Paris, de reportagem com oito páginas quando Chico ganhou a Menção Honrosa... Entretanto, diz Galvão: “É necessário que se faça um resgate de sua obra. Torna-se urgente um registro completo de suas pinturas e as de seus seguidores”. A Secretaria da Cultura do Ceará está associada a essa homenagem e “sente-se no dever e o cumpre ao apoiar esta iniciativa que considera relevante.” A Câmara Municipal de Fortaleza se associou às homenagens. A mostra tem a curadoria do artista plástico João Jorge Melo e apreciações técnicas de Roberto Galvão, conhecedor da vida e da obra de Chico da Silva, figura tão surrealista quanto suas linhas e curvas multicores, urdidoras da tessitura predecessora de figuras como as das aves aladas do filme Pandora. O convite está feito. Veja os comentários, confira o delírio e a arte e desse homem simples e grande que, 25 anos após sua morte, estão sendo discutidos, mostrados e apreciados. Não perca. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/11/2010 - [SOLIDÃO NA INTERNET - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/solidao-na-internet-diario-do-nordeste/): Recebo de amigos convites para entrar em redes sociais de comunicação pela Internet. A alguns, respondo que não me agradam as redes sociais. A outros, deixo o silêncio e a inação como respostas. Nasci analógico, escrevendo carta com a mão esquerda, lambendo a parte gomada do envelope para postá-lo nos Correios. Bem que gostaria de ter de volta algumas cartas que escrevi. Elas falariam de mim, de como me situava em relação a este futuro que chegou de forma avassaladora com os aparelhos celulares cada vez menores e mais sofisticados e os computadores com tantos recursos que um mero usuário como eu perca a parte maior e, talvez, a melhor. Recentemente, um sociólogo francês, Dominique Wolton, diretor do Centro de Pesquisa Científica de Paris, afirmou aqui no Brasil que “a comunicação será a grande questão do século XXI”. Concordo, em parte, um século é muito tempo e só gastamos, até agora, um décimo do 21. O que virá nos próximos 90 anos? Creio que ninguém, mesmo da comunidade científica, tem noção do que as novas gerações, as nascidas neste século, viverão com alegria ou pena. Segundo ele, as comunicações tipo Facebook são provas de solidão interativa. O José não preenche a solidão da Maria que, mesmo se comunicando com ele e outras pessoas, continua só com sua esperança e (des)ilusão. Para ele, há um conceito de sociedade individualista de massa. Ora, digo eu, se é sociedade, não pode ser individualista. Isto quer dizer que os componentes de uma sociedade possam ser individualistas, mas a sociedade, não. Ele acredita que a procura da liberdade individual é um modelo que remete à herança do século 18 e a igualdade que todos parecem ter na Internet seria um arquétipo singular de socialismo. Claro que o objetivo das redes sociais é fazer com que as pessoas leiam os anúncios sutilmente visíveis e se descubram face a face, em carne e osso. Deixam de ser as “personas” que se mostravam em suas faces escritas ou visuais e passam a enfrentar o eterno problema e solução dos seres humanos, a capacidade de comunicação real, sem mistificação e idealização, na hora do encontro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/11/2010. - [A CONTA DA ENERGIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-conta-da-energia-jornal-o-estado/): Thomas Edson, final do século 19, inventou a lâmpada incandescente e iluminou uma rua para espanto dos moradores de Menlo Park, em New Jersey, USA. A partir daí começa a utilização efetiva da energia elétrica. Não é segredo para ninguém que a conta da energia elétrica no Brasil é uma das mais caras do mundo. O detalhe que escapa a muitos é que a maior parte da energia brasileira é de geração hidráulica, de custo baixo. É só lembrar, por exemplo, das hidrelétricas de Itaipu, movida pelo rio Paraná, no sul do país, e a de Paulo Afonso, na Bahia, pelo “velho Chico” ou o rio São Francisco, tão festejado por políticos e trovadores, mas maltratado desde Minas até o Atlântico. Se você morasse na Inglaterra, Portugal, Alemanha, Espanha, México, França, Estados Unidos e mais países pagaria menos pela energia consumida. Imagine a sua conta mensal final como sendo de cem reais. Coloquei final, de propósito, pois do valor da compra da energia, ao custeio da operação e a manutenção das empresas públicas e privadas que operam no setor, 45,08% são referentes à carga tributária e encargos da conta de sua casa, empresa, indústria, hospital etc. Os tributos federais (Cofins, Imposto de Renda, Pis/Pasep), estaduais (ICMS), municipais (ISS) e encargos trabalhistas (INSS e FGTS), além de algo como R$ 9,00 para a universalização, estímulo a fontes alternativas e subsídio a algumas termelétricas. O que todos pedem – e a Justiça está abarrotada de ações nesse campo – é que o ICMS seja reexaminado e não incida da forma como hoje é feita. Este artigo, que foge ao habitual, história apenas o que foi levantado por técnicos do estatal BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, na sua revista no. 29, reeditada pelo Instituto Acende Brasil e Folha de São Paulo. Além da conta tem que ser paga ainda a Taxa de Iluminação Pública. Nós, os brasileiros, precisamos saber que todas as contas chegam às nossas mãos acrescidas de muitos tributos e que as tais agências reguladoras devem justificar suas criações, não como fonte de empregos, mas como fiscais do que a maioria dos brasileiros não sabe, tampouco tem acesso. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/11/2010. - [MARGARIDA, 91](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/margarida-91/): “Agora, pois, filhos, ouvi-me/bem aventurados os que guardam os meus caminhos/Ouvi as minhas instruções, e sede sábios, /e não queirais rejeitá-las”. Provérbio, 8:32 Dona Margarida completa noventa e um anos amanhã. Tentei, de todas as formas, mandar confeccionar um bolo com 91 metros de comprimento. Não consegui. Não dava para ser transportado e não havia ambiente, tampouco balcão disponível que comportasse essa guloseima gigante. De qualquer modo, juntei ingredientes vindos das barrancas do meu coração, untei-os com o liame a nos unir e com uma colher de pau gigantesca fiz nascer esse bolo enorme, cheiroso, confeitado, saboroso como o amor e caseiro. Esse bolo virtual/real terá apenas duas velas. Uma, simbolizará a nona década de sua vida e, outra, o numeral um, a dizer que ela está iniciando a trilha para o seu centenário. Ele será compartilhado por irmãos, filhos, netos, bisnetos e por pessoas amigas que, certamente, ficarão alegres em louvar a vida dessa mulher de fibra, chefe de família exemplar, irmã querida, mãe vigilante, avó crítica e dona de sensatez profunda. Haverá bênção e todos, contritos, mesmo sendo pecadores, agradecerão a descendência que lhes coube na árvore dessa bonita mulher baobá, filha do farmacêutico João Caminha Monteiro e de D. Luiza Saraiva Caminha, educada no Colégio da Imaculada Conceição. Seu pai, João, morreu cedo, deixando uma grande, honrada e sacrificada família em face das despesas de sua longa enfermidade. Sua mãe, Luiza, ainda restou grávida do 12º. filho, mas conduziu com dignidade o desígnio que lhe coube. O fato é que dessa tribo eu sai curumim e aprendi que a nossa oca tem fraternidade, olho no olho, decisão de chegar junto no momento preciso. À Dona Margarida, viúva há quase duas décadas, dorida e ciosa de sua casa, cabelo de algodão doce, resposta lúcida e pronta a qualquer questão, mesa posta como se fora uma tasca de estrada, o amor e carinho de seus nove filhos, adultos, independentes e capazes, aqui e alhures. O respeito de netos sem conta, médica, advogados, administradores, arquiteto, psicóloga e que tais e, de bisnetos que, se não levam mais seu sobrenome, têm, sem que o saibam, o indulto da genética a repatriá-los e a cobri-los, não com mimos, mas com o exemplo traduzido em sentido de vida, da aurora ao arrebol, a inocular a todos dignidade e temperança. Saiba, Dona Margarida, que agradecemos por sua lida e louvamos sua vida. Como filhos adultos, estamos e estaremos, agora e sempre, a seu lado, na sua casa com jardim e quintal sombreados por árvores frutíferas, na varanda de tantas conversas sem fim, nas cadeiras que não têm donos, pois somos iguais quando nelas sentamos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/10/2010. - [BRASIL SUJO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasil-sujo-diario-do-nordeste/): Daqui a uma semana você estará escolhendo a pessoa que governará o Brasil. Você tem sete dias para pensar, decidir, confirmar o seu voto no primeiro turno ou mudá-lo. Como hoje é domingo, pense um pouco no Brasil de hoje, esse gigante de quase 200 milhões de habitantes, tomado, sem grandes traumas, dos portugueses, nossos colonizadores. Em 1799, o Brasil tinha três milhões de habitantes e, pasmem somente 12 médicos, todos formados no exterior. Nessa época, as sujeiras das casas eram jogadas pelas janelas. Quem passava pelas ruas, sem pavimento, pisava nelas. Em consequência, as doenças proliferavam e a vida média de uma pessoa era de 30 anos. A médica Cristina Gurgel, professora da PUC- Campinas, SP, publicou o livro “Doenças e Curas: O Brasil nos primeiros séculos”. Ela diz que no século XVII de cada três crianças nascidas no Nordeste, uma só sobrevivia. É claro que a chegada, forçada por Napoleão Bonaparte, da família real portuguesa, em 1808, trouxe melhoras para o Rio, a capital da colônia, e Salvador, a primeira capital. Cada uma ganhou até uma faculdade de medicina e rudimentos de saneamento básico foram aparecendo. Voltando a 2010 vemos que há ainda situações similares em favelas, especialmente no norte e nordeste. Quase todas as casas têm aparelhos de TV, sons, refrigeradores, movidos à energia elétrica legal ou não. Faltam atenção para a urbanização, a provável ausência de água e esgotos públicos, pavimentação decente e um arruamento simples que dê um ordenamento aos caminhos, vielas e os transforme em ruas iluminadas, com um mínimo de segurança. A propósito, o filme “Tropa de Elite-2”, mostra agora outra face das favelas do Rio, a existência de milícias paramilitares que, a título de proteção, extorquem pequenos comerciantes. Não faço apologia do filme, tampouco o critico, apenas registro que ele é o maior fenômeno de bilheteria no Brasil, comprovado pela Nielsen, empresa que monitora a bilheteria dos cinemas no mundo. Do que vi e li, há uma percepção geral de que os espectadores saem meio pasmos do filme, como se tivessem levado um soco no estômago. E pisam nas ruas com medo de tudo e de todos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/10/2010. - [FORTALEZENSE, ONTEM E HOJE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fortalezense-ontem-e-hoje-jornal-o-estado/): Este escrito de despedidas não voa em metáforas, ele se prende à materialização dos desejos e atitudes de Matusahila Santiago e José Luís Lira ao fundarem a Academia Fortalezense de Letras. Fui comunicado por Natércia Campos haver sido eleito. Lembrei então do menino que registrava tudo em seu “diário”, do jovem universitário de direito e administração, a escrever, de forma remunerada, por seis anos, todos os dias, nos jornais Associados. Depois, emergiu o adulto com artigos e crônicas aos domingos, há décadas, no Diário do Nordeste. E, posteriormente, às sextas, neste O Estado. Cessado o receio natural, vieram livros. Por outro lado, nascia uma academia. Foi assim. Sempre acreditei no pensamento de Ralph Waldo Emerson: O talento sozinho não consegue fazer um escritor. Deve existir um homem por trás do livro. Assim, em 2008, como homem e escritor, recebi a tarefa de, por voto unânime, presidir a Fortalezense, e tentar escrever dois anos de sua história com autocrítica, acreditando que uma academia de letras é sempre um vir-a-ser, um projeto em construção, original, essencial ou simples. Como disse Clarice Lispector: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”.Uma entidade literária, no meu pensar, é produto da sinergia de seus componentes, do somatório de suas qualificações pessoais, de suas produções literárias em múltiplos gêneros, dos seus gestos singulares e personalizantes. Recebi o bastão de Ednilo Soárez, que o ganhara de Cybele de Pontes, e, esta, de Cid Carvalho. Grande responsabilidade, a minha. Seguindo as palavras do escritor mexicano Octavio Paz, prêmio Nobel de Literatura, em 1990: “O homem é um ser que pergunta”. A todos perguntei e, a cada um deles, pedi que o fizessem por escrito. Aos ex-presidentes, solicitei encadernassem o registro histórico de suas gestões e experiências. Li tudo, com respeito, o que haviam proposto, escrito e feito. A partir daí, saí da primeira pessoal do singular para a primeira do plural, procurando fazer, em dois anos, algo qualificado como:1. a participação da Fortalezense, em sessões públicas, em duas bienais do livro do Ceará, fato inédito e acreditado; 2. estimular e acompanhar colégios e jovens estudantes de nível médio para que fundassem e mantivessem academias de letras; 3. realizar os eventos “Viajando nos Livros”, com parceria de colégios públicos e privados e milhares de participantes; 4. idealizar e criar, com o apoio do então presidente da ACL, Murilo Martins, e ajuda de Regina Fiúza, grupo de trabalho multidisciplinar para elaborar projeto visando a obtenção de recursos das leis de incentivo para restauro do Palácio da Luz, patrimônio de nossa anfitriã, a Academia Cearense de Letras; 5. a repercussão da atuação ensejou homenagem e reconhecimento público. Por iniciativa do vereador Paulo Facó, a Fortalezense, em outubro de 2009, foi homenageada, em sessão solene, na Câmara Municipal de Fortaleza; 6. propiciar jantar anual de confraternização natalina; 7. realizar mudanças no Estatuto Social e no Regimento Interno para condicionar candidaturas por editais publicados na imprensa e um conselho fiscal para examinar receitas e aplicação dos nossos recursos, mínimos que sejam; 8. conseguir viver estes dois anos com os nossos próprios recursos, sem recorrer a quaisquer ajudas de pessoas, empresas, instituições ou órgãos públicos. Entregamos, ontem, um caixa saneado e maior do que recebemos; 9. conceber a criação de um Anuário da Cultura, projeto esse encampado pelo Secretário Auto Filho e ampliado pela SECULT- Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, ora em elaboração;10.criar o selo editorial Fortalezense de Letras para uso dos acadêmicos em suas publicações;11. publicar mais um número da Acta Literária; 12. criar um Histórico para cada acadêmico para a memória;13. distribuir broches/ bottons e carteiras de identidades sociais para acadêmicos; 14. lutar para que o “Pacto de Fortaleza, a cidade que queremos para 2020”, contemple a cultura entre os seus eixos. Publicamos artigo, fizemos exposição de motivos à Câmara Municipal e lá comparecemos para, de viva voz, dizer da razão do nosso pleito. Em 24 de setembro passado, o pres. Salmito Filho nos assegurou, pessoalmente, que a cultura será incluída. 15. Realizar eleições diretas, precedidas de editais publicados, escolher e dar posse a três novos acadêmicos. Agora é almejar harmonia, trabalho e dedicação a todos os que compõem a nova diretoria, encabeçada por Gizela Nunes da Costa, detentora de cultura e experiência, fazendo votos que sua liderança, vontade e sensibilidade confluam para um maior relacionamento entre os acadêmicos, instigando-os a escrever obras de nível, pois como dizia Ítalo Calvino, “Os leitores são os meus vampiros”. A todos colegas da Fortalezense, especialmente os da diretoria que sai, os meus agradecimentos. Aos demais, faço votos que cultivem e propaguem, em outras academias a que pertencem, a atitude de que a cultura contemporânea do Ceará deve ser sustentada, ampliada e consolidada pelo compartilhamento dos saberes, integração de competências e a fusão de ideias para o engrandecimento das letras e da literatura. Por fim, Presidente Gizela, lembre o Eclesiástico, 6:2: “Revestir-te-às dela como de uma estola de glória/ e a porás sobre ti como uma coroa de regozijo”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/10/2010. - [A CORUJA E A CULTURA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-coruja-e-a-cultura-diario-do-nordeste/): Consta na História da mitologia grega que Athena (Minerva, na mitologia romana), considerada a deusa da guerra e da sabedoria, possuía uma coruja como mascote. Sendo a coruja um animal noturno, os gregos, que apreciavam a noite como o tempo de meditação, da filosofia e o da revelação intelectual, a escolheram como seu símbolo. Dessa forma, a coruja passou a ser cultuada, por seus grandes olhos, como referência da busca pelo conhecimento. Da zoologia se depreende que a coruja não aceita bem ser criada em cativeiro, tem visão 180% superior à espécie humana, enxergando muito, apesar de daltônica. Como tem os olhos separados e pescoço flexível, possui a capacidade de girar a cabeça para mirar tudo ao seu redor. Daí a suposição de que teria inteligência, argúcia, sensibilidade e audição privilegiadas. Consta ainda da história que, em uma língua nórdica antiga, a coruja recebeu o nome de “uglia”, em face do som que emite. Algo como ugli ou uglia. Em inglês, a palavra “ugly” significa feio e ninguém, na realidade, vai afirmar ser a coruja um animal bonito. A partir dessa ilação, consolidou-se mais a ideia ou o estereótipo do sábio, pessoa silenciosa, tal como a coruja, mais preocupada com o mundo interior que com as aparências, segundo afirma o professor da Universidade de São Paulo, Antônio Medina Rodrigues, especialista em estudos helenistas. Estas explicações alinhavadas são uma introdução para dizer que a Associação dos Professores do Ensino Superior do Ceará – Apesc, acreditada entidade de classe presidida pelo prof. Ari Othon Sidou, tem a coruja como seu troféu maior e, escolhe, em assembleia geral, personalidades/entidades para homenagear, ao seu julgar, por terem contribuído de forma relevante para o desenvolvimento da educação e da cultura. Neste ano de 2010, em solenidade realizada última quinta-feira, véspera do dia do professor, os agraciados foram a Fundação Beto Studart; o Ministro do STJ, Francisco César Asfor Rocha; o Ministro do TCU, Ubiratan Diniz Aguiar, o prefeito de Maracanau, Roberto Pessoa; e este escriba que, lisonjeado, resolveu, em agradecimento, fazer este registro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/10/2010. - [RÉVIA, ROBERTO E SERIDIÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/revia-roberto-e-seridiao-jornal-o-estado/): A noite da última quarta-feira, 13 de outubro de 2010, foi memorável para a Academia Fortalezense de Letras. Celebramos, com efusão, a eleição de três novos colegas, pelo voto direto e secreto. Eles vão agregar à Fortalezense suas capacidades e os amores crescentes pela literatura. Antes, gostaria de falar um pouco de seus predecessores. Começo com Yolanda Montenegro, difusora do Ceará na Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro. Ciosa do seu nome e das restrições que a idade impõe, houve por bem renunciar, de forma digna, à metáfora da imortalidade. Cláudio Pereira, referência na dinamização da cultura popular em Fortaleza, hoje deslimitado do nosso convívio, asperge de forma infinita sua energia e criatividade por outras ondas do universo. Ele será sempre saudade. Roberto Pires de Oliveira, carioca que adotou o Ceará como sua terra, optou por ver o desembocar do rio, não o de Janeiro, mas o Coreaú que atravessa a região norte e banha Camocim, seu definitivo amor de duas águas. Coube aos novéis acadêmicos a honra de saudar seus patronos. O romancista, autor de Luzia-Homem, Domingos Olímpio foi saudado por Révia Herculano; o bibliófilo José Bonifácio Câmara foi apreciado por Roberto Ribeiro; e o historiador Mozart Soriano Aderaldo, meu ex-professor, foi louvado por Seridião Montenegro. Ao colega Antonio Colaço Martins foi conferida a missão protocolar de dar eruditas boas-vindas aos novos integrantes da Academia Fortalezense de Letras, os já citados Révia Herculano, Roberto Ribeiro e Seridião Montenegro. Gostaria de referir que Révia Herculano é graduada em letras, especialista em literatura brasileira e em educação pela UFC e no MEC- Brasília, autora de livros e detentora de prêmio em concurso literário. Seja bem-vinda Révia Herculano, fortalezense no esporte e na literatura. Roberto Ribeiro é administrador pela UECE, possuidor de voz maviosa que o tornou em forma e conteúdo mestre da retórica, bibliófilo, autor de um dicionário singular e com outros originais no prelo. Seja bem-vindo Roberto Ribeiro, com a sua presença portentosa e constante. Seridião Montenegro é ex-professor universitário no Ceará e em Brasília, procurador da Fazenda Nacional capaz e probo, autor de monografias técnicas e de livro de quase-memória. Seja bem-vindo Seridião Montenegro, de quem tive o prazer de ser colega de turma na Faculdade de Direito da UFC. Aos três, Révia, Roberto e Seridião os meus votos para que sejam acadêmicos criativos, propagadores da literatura, atuantes e presentes na vida da Academia Fortalezense de Letras. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/10/2010. - [MARINA, DILMA E SERRA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/marina-dilma-e-serra-jornal-o-estado/): Recebi, de presente, em agosto passado, o livro “Marina – a vida por uma causa”, escrito por Marília de Camargo César. Li o livro, que não é dos melhores, mas conta a história – meio romanceada - dessa filha de pais cearenses. Pedro, seu pai, nasceu em Messejana que, no livro, é dado como “no sertão do Ceará”. Sua mãe, Maria Augusta, nasceu em Paracuru, cidade praiana. Pobres, como milhares de outros cearenses, foram tentar a vida no Acre e se uniram sob as bênçãos do patrão de Pedro, um dono de seringal. Sendo filha de pai e mãe cearenses retirantes, Marina é, de fato, cearense. Esse detalhe, pouco divulgado, talvez demonstre sua fibra, razão de vida, mudanças e sonhos. Por outro lado, não recebi nenhum livro sobre Dilma e Serra. Procurei nas livrarias e não encontrei. Vi resumos na Internet. Ambos fizeram política estudantil, em décadas distintas. Serra, paulista, presidente da União Estadual dos Estudantes, em SP e, em seguida, presidente da União Nacional dos Estudantes, a famosa UNE, de então. Entrou na Ação Popular, movimento ligado à Igreja. Dilma, mineira, estudou no Colégio católico Sion em BH, fez vestibular para economia e, em seguida, em plena revolução de 64, entrou no movimento Política Operária- Polop, radical, depois Val-Palmares, ao mesmo tempo em que casava com um jornalista. Perseguida, entrou na clandestinidade, separou-se e teve um novo companheiro, com quem divide filha e neta. Serra, também perseguido, abandonou curso de engenharia e daí se mandou para o Chile, onde concluiu mestrado em economia. Lá, casou com uma bailarina, mãe de seus filhos e netos. Por lá, trabalhou até a queda do Presidente Salvador Allende. Aportou nos Estados Unidos e fez doutorado na Universidade de Cornell e, após isso, pesquisa na Universidade de Princeton. Nos anos 80, Dilma, após amargar cadeia, passa a trabalhar no serviço público no Rio Grande do Sul, onde se forma em economia. Eficiente em funções públicas, sempre seguindo a orientação, já menos radical, de Leonel Brizola, do PDT, partido a que pertenceu até 2001. Serra fez carreira em São Paulo como deputado, prefeito, senador, ministro e governador, pelo PSDB. Foi derrotado por Lula em 2002 e, agora, em 2010, é salvo pela filha de cearenses Marina Silva, está no 2º. Turno. Dilma, por sua vez, entrou no PT em 2001, vindo do RS e, já em 2003, passou a integrar os quadros do governo Lula. Com a queda de José Dirceu, por conta do Mensalão, assume a Casa Civil e desponta, na visão de Lula, como sua sucessora. Mulher forte, descasada, apaixonada pelo trabalho e obediente às ordens de Lula, pouco a pouco, sendo mostrada aos políticos do PT e aliados como a escolhida. E assim feito, surgiu a Dilma, a mãe do Brasil, na linguagem lulista. Quase ganha no 1º. turno. Serra, estudioso, meticuloso e sisudo, lutou contra Aécio Neves e conseguiu ser candidato. Atrapalhou-se na escolha do vice e fez campanha meio perdida sem muita empatia e aliados. São estes os nossos candidatos a presidente que, no dia 31 deste outubro, vão se encontrar outra vez. Sendo eu o marqueteiro deles, pediria, agora que têm tempos iguais de propaganda e em debates, menos sisudez, uma pitada de descontração e se deixassem perceber em suas essências como seres humanos. Se eu fosse “âncora” de programa de entrevistas pediria que eles me contassem algumas histórias leves e engraçadas, dissessem uma piada, cantassem uma música, algo assim. O Brasil precisa de gente séria, mas não de carrancudos, o tempo todo. Nem tanto Lula, nem tampouco Dilma ou Serra. O ideal seria misturar a descontração total do Lula com a caturrice dos dois e dividi-la em partes iguais. Um lembrete, Obama, antes de ser presidente, escreveu dois livros biográficos. Agora, em meio a guerras com muçulmanos e problemas com os republicanos, tem 2.000 músicas em seu I-Pod. Um dos seus cantores preferidos é John Coltrane. Quais são os preferidos de Dilma e Serra? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/10/2010 - [NÓS E O VOTO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nos-e-o-voto-diario-do-nordeste/): Não sei a que horas você lerá esta parte do jornal. Espero que seja antes de votar. Não sei sua idade, sexo, cor, religião, ideologia e profissão. Sei que pode ser eleitor (a). Hoje, neste 3 de outubro de 2010, você terá alguns minutos para votar. Vai eleger dois deputados, estadual (10 candidatos para 1 vaga) e federal (13 para 1). Dois senadores, governador e presidente da República. Não brinque com seu voto. Não faça dele uma piada de mau gosto, não se enfureça diante da realidade, nem desacredite na raça humana. Pense. Exercite sua vontade, aquela da qual está convencido. O voto, já se disse à exaustão, tem efeito. Saiba, hoje, o que acontecerá depois. Não se dê por vencido, faça o seu Ficha Limpa pessoal, veja quais candidatos já foram condenados. Os que mudaram de bairro, casa, costumes, montaram negócios do nada e apareceram em outros mundos, sem descobrir-se o milagre. O milagre é que não há milagre. A escolha é sempre entre a realidade e a ilusão. Você, na hora que entrar na seção eleitoral e se ver diante da urna eletrônica, mesmo que não queira, estará ligado ao futuro e não ao passado, seja de mágoas, desenganos e fantasias. Estabeleça um elo de conexão com sua terra, seu país. Você não tem obrigação de votar só por votar. Renda-se ao seu próprio julgamento e acredite, por instantes, que é senhor de parte do destino do país. Um aperto de mão, olhar distante ou fixo, jeito de dizer o improviso e raiva contida, podem definir uma pessoa. A vida real não tem ensaios, nada é como a televisão com maquiagem, cortes, iluminação, diretor de arte e a edição final. Olhe as imagens, mas não esqueça do que acontece ao seu redor. Há uma velha estória que vale a pena contar: uma família queria saber o futuro de um jovem ainda imberbe. Deram-lhe uma maçã, um livro de orações e um valor em dinheiro. Esperaram a sua reação. O jovem comeu a maçã, leu o livro e colocou o dinheiro no bolso. Viram, então, que ele havia escolhido sua profissão: seria político. Brincadeiras à parte, não responsabilize os outros pelo que você faz. O seu voto vai definir o modo como a vida vai girar. Não faça roleta russa. Vote certo. Vote no Brasil. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/10/2010. - [O TEMPO E O ESPELHO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-tempo-e-o-espelho-jornal-o-estado/): “Quanto mais envelheço, tanto mais desconfio da crença comum de que a idade traz sabedoria” H.L. Mencken Para todos, o dia tem 24 horas. Temos um relógio incrustado em algum lugar de nossa mente que sempre confirma o passar do tempo. Cada segundo é tempo diminuído da nossa conta-corrente de vida. Não há como pedir tempo, como se estivéssemos jogando uma partida de vôlei, futebol de salão ou basquete. O jogo não tem sequer intervalos. As noites insones, e as de sono inquieto ou profundo, também são lançadas no passivo da vida. Assim, a cada dia, vamos saindo do berço, dos cueiros, para o engatinhar, cair, levantar, andar e daí sair para a escola, a faculdade, o trabalho, a vida a dois, a solidão desejada ou auto-imposta pelas circunstâncias. Hoje, 1º de outubro, se você não sabe, é o dia consagrado ao idoso, em face do Estatuto nacional que regula e presume proteger as suas relações com a sociedade. Mas, afinal, o que é ser idoso? Será a diminuição das faculdades vitais ou a expulsão, por decurso de prazo, do mercado de trabalho? Será o limiar do desengano? O ponto do não retorno? A ausência de objetivos? A perda do viço ainda existente em árvores centenárias? A não obrigação de fazer? Ou o desamparo sentido ao olhar o tempo perdido? Não o poético andamento proustiano, mas a fala não dita, a atitude não tomada, a posição não assumida, o perdão não obtido, a incapacidade de se auto aceitar em frente ao espelho real, esse aliado eterno do tempo.Ele conhece a nossa face, sabe de nossas rugas, vê os olhos mudando de dioptrias, repara na curvatura das sobrancelhas, não esconde os vincos do pescoço e o cair dos cabelos que se tornam cinza e em brancos se findam. Mas, o que é um espelho? Socorro-me de Clarice Lispector: “É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade consiste em ele ser vazio... esse alguém percebe o mistério da coisa”. Por outro lado, estar idoso é ter a dimensão da finitude, de traduzir a vida não como tragédia, comédia ou farsa, mas como uma seqüência de atos que praticamos por nossa própria vontade, herança genética ou dos costumes, bons ou maus, adquiridos no compasso ou sincopado das relações humanas. Estar maduro, idoso, não é mérito, embora ninguém deseje morrer jovem. Estar idoso pode ser prêmio ou maldição. Depende, sempre, da terra que aramos, das sementes plantadas, da rega que fizemos e do cuidado com as ervas daninhas. Hoje, neste dia dedicado aos maiores de sessenta anos, é preciso que todos nós, idosos e os que os cercam, bem como os que, com ou sem razão, os abandonaram, coloquem a pesar os pratos das contas-correntes que forjam a balança da vida e tirem suas conclusões. Sem esquecer nunca que você é o que sente ou o que deixa ser plantado em sua mente que, quase sempre, mente. Dedicado a Francisco Lima Freitas, ativo e capaz, na pista oitentona. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/10/2010. - [LULA, O DIPLOMATA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lula-o-diplomata-diario-do-nordeste/): Os Estados Unidos têm sindicalismo forte há muitas e muitas décadas. Lembro que, ainda universitário, vi como a mais poderosa universidade do país, a Harvard, situada na rica Nova Inglaterra, respeita e até convida a maior e mais poderosa central sindical do país, a AFL-CIO, para seus cursos. Naquela ocasião, o “speaker” dessa central nos dizia algo como: a minha família era muito pobre, mas orgulhosa. Todas as visitas não passavam da sala bem cuidada. O que estão fazendo com vocês é semelhante, mostram a parte bilionária e bonita da América. E aí começou a falar do que considerava a parte oculta do país. Agora, de Washington para o Valor, o jornalista Alex Ribeiro, refere ser o presidente Lula fiel amigo da AFL-CIO e, especialmente, do advogado, com curso na Harvard, Stanley Gacek, de quem recebe, há 27 anos, conselhos de como lidar com os vários públicos com os quais interage no governo, sindicalismo e mundo empresarial dos USA. Gacek já foi diretor internacional da AFL-CIO e, agora, assumiu cargo no Departamento (ministério) do Trabalho do governo Obama. O que se depreende da reportagem é que Gacek foi e é um “conselheiro” informal de Lula e, ao mesmo tempo, avalista das políticas do governo brasileiro, mostrando-o distante do “Eixo do Mal”, formado por Venezuela e Cuba. A frase de Obama: “Lula é o cara”, pode ter sido soprada por Gacek, acreditado por ser harvardiano, tal como Obama. Agora, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, acaba de estar em Cuba para dizer da necessidade daquele país dar mais ênfase ao processo de distensão da política interna e externa, com a liberação de prisioneiros com voz dissonante da dos irmãos Castro e conseguir o fim do embargo. De Havana, o embaixador Celso Amorim foi direto para Nova Iorque onde se reuniu com a ex-prisioneira do Irã, a americana Sarah Shourd. Esta, em reunião pública, elogiou os esforços do governo brasileiro para auxiliar a sua libertação, ora acontecida. Disso tudo fica claro que Lula tem mantido sua imagem midiática internacional para a conquista de um relevante posto em organismo internacional. 2011 confirmará? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/09/2010. - [24 DE SETEMBRO: AMOR POR A+B - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/24-de-setembro-amor-por-ab-jornal-o-estado/): Um desmaio. A perda da direção. Carro desgovernado. Uma árvore, o choque. Hospital. O telefonema recebido ao longe. E eu vim voando do Rio, chorando em silêncio. Aqui, soube da perda no primeiro contato com o médico. Aguentei firme, calado. Dias depois, a délivrance. Fiz o caminho entre aquelas árvores frondosas com o filho morto aos braços levado. A dor nublava a manhã de sol que me fazia desvalido. O tempo, este curativo da vida, foi passando. E como um raio de luz, chegou saudável, querida, a primeira das filhas. Recebida com a alegria de pais novatos, mas já sofridos. E era o caminho do fulgor de um 24 de setembro, a data de hoje, a que consagrei para sempre, ao vestir, simbolicamente, o manto aconchegante da paternidade querida. Agora, ali no berçário da maternidade, repousava a bela menina, ralos cabelos aloirados, que passara por todos os exames preliminares de sanidade. E aí voltou a emoção. A dor atravessada se transmudava em alegria incontida. Precisava contá-la a meus pais, irmãos, parentes e amigos. E fui a uma gráfica. Escrevi o texto anunciando a alegria do seu nascimento. A afeição derramada em palavras na comunicação escrita com letras cursivas em cartão de linho vincado. E assim foi feito, querida filha. Dias depois, chegava à nossa casa, plena de cuidados, posta em berço em madeira de lei, detalhes artesanais torneando suas grades, como a dizer da alegria de bem recebê-la com o protetor cortinado de renda e bicos. E quis Deus, que essa menina, com nome belo e forte, anos após, comemorasse um aniversário. Por e com amor, havíamos, eu e sua mãe, construído uma casa de boneca. Fizemo-la em alvenaria, coberta com telhas coloniais, janelas, portas, piso e água corrente na micro-pia da cozinha. E, já pronta para a festa aniversária, sua mãe, grávida de oito meses, abaixou-se para olhar o interior daquela belezoca de brinquedo. E aí se deu o rompimento da bolsa placentária envolvendo uma outra irmã, prestes a nascer. E essa irmã e filha, de tão fraterna, possa ter dado um solavanco maior naquele mundo aquoso em que navegava para vir participar dessa festa neste planeta azul. E assim se fez. Você chegou de improviso, no mesmo 24 de setembro. E enriqueceu com a sua vinda, graça e brejeirice antecipada a brincadeira naquela casinha de bonecas feita para vocês, bonecas vivas. A vocês, neste seu dia deste novo século, com realidades, dores, amores e sonhos, renovo meu amor pronto, decidido, encabulado, talvez melhor escrito que falado, mas não menor que o maior que um pai possa dedicar a filhas queridas. Parabéns. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/09/2010. - [CINEMA ESPÍRITA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cinema-espirita-diario-do-nordeste/): Sou cinemeiro inveterado. Vejo filmes na telona todas as semanas. Vi, por exemplo, “Nosso Lar”, projeto continuado do jovem cearense Luís Eduardo Girão, filho do distante, mas lembrado amigo Clodomir. O primeiro filme dele foi “Bezerra de Menezes”, médico benemérito e espírita. Depois, emendou com “Chico Xavier”, famoso médium mineiro, e já tem quase prontos para 2011 “Área Q” e “As mães de Chico Xavier”. Luís Eduardo criou uma produtora de cinema e artes, a Estação Luz, com a qual, em outros projetos, procuro participar colateralmente. O fato é que ele mexeu em grande manancial de histórias que rondam o imaginário dos espíritas em geral e dos muitos crentes e até ateus desse sincrético Brasil. Não está em jogo neste alinhavado a qualidade técnica dos filmes, sequer a crença ou descrença nessa fé, que não se vê como religião. Não interessa aqui o que achei da interpretação, dos diálogos ou da fotografia de “Nosso Lar”. O manifesto nesta narração é a coragem do produtor Luiz Eduardo, o atrevimento da sua parceria em “Chico Xavier” com o cineasta Daniel Filho que, diga-se de passagem, ficou com a parte do leão na divisão dos resultados. Vão dizer que Luiz Eduardo não é cineasta. Mas é, pelo menos, destemido descobridor de uma segmentação estética que foge da violência urbana, do intimismo capenga, do humor escrachado ou da pobreza da caatinga. Seu êxito passa pela divulgação em revistas nacionais, jornais do Rio e paulistas em razão do público alcançado de um milhão de pessoas que saiu de suas casas e entrou em 453 salas de cinema espalhadas em todo o Brasil, em menos de um mês. A própria revista “Veja” procura, em vão, filosofar sobre crenças e, sem muita convicção mistura Shakespeare, o mágico canadense James Randi, os evangelistas, o Corão, o Budismo e até Madonna, entre outros. Tudo isso reunido apenas porque Luiz Eduardo teve a coragem de mudar pressupostos, investir os próprios recursos e ter fé no trabalho, sempre cercado de razoáveis profissionais, criando um paradoxo. Jean Cocteau, artista e cineasta francês, falecido em 63, dizia que “as críticas julgam as obras e não sabem que são julgados por elas”. O público escolhe. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/09/2010. - [MÉXICO, BICENTENÁRIO E REVOLUÇÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mexico-bicentenario-e-revolucao-jornal-o-estado/): O México, como o Brasil, é um país derramado em prosa e verso, vive da palavra, especialmente a de Octávio Paz: “a palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade”. O México é também um país fustigado por lutas e guerras, mas teima em viver em paz. Agora, está travando uma luta desmedida contra o narcotráfico. Sua posição na América do Norte onde faz larga fronteira com os Estados Unidos o abençoa e maldiz. A frase: “México: tão longe de Deus e tão perto do demônio” é atribuída ao ex-presidente Porfírio Díaz. Pois é. O demônio de hoje é a droga vinda da América do Sul que por lá trafega em direção aos Estados Unidos. Sua bandeira tricolor em verde, vermelho e branco com uma águia devorando uma serpente, simboliza Cuauhtémoc, um personagem, filho do Imperador Ahuizoth e da Princesa Tlatelolca Thalaicápatl. Ele é referência da mexicanidade, por sua luta em defesa da pátria asteca contra os invasores espanhóis, comandados por Hernán Cortés e seus seguidores, em princípios do século XVI. Em linguagem livre, essa palavra significaria a águia (cuautli) que baixa (témoc) sobre os oponentes”. Neste 16 de setembro o México comemora o início de duas lutas, o do Bicentenário da Independência Nacional (1810) e cem anos da Revolução Mexicana (1910). São momentos distintos no maior país de língua hispânica das Américas. A Independência mexicana levou quase onze anos para se tornar concreta, a partir do Grito de Dolores, em 1810, episódio comandado pelo padre Miguel Hidalgo, até 1821, com Agustín de Iturbide. A Revolução, surgida em novembro de 1910, cobrava o fim da oligarquia reinante e pretendia ser socialista. Sua grande figura foi Francisco Madero, sem esquecer de Emiliano Zapata e Pancho Villa. O grande feito da Revolução Mexicana foi a Constituição de 1917 que eliminou a reeleição presidencial e deu ao país uma diretriz para o futuro. Frida Kahlo, pintora - mulher do também pintor e muralista Diego Rivera - foi uma das figuras emblemáticas do processo pós-revolucionário por ter se engajado, na juventude, no Partido Comunista. Frida, segundo consta, foi amante do intelectual russo e marxista LeonTrótsky, que morreu assassinado no México, onde se exilara, em 21 de agosto de 1940, pelo espanhol Ramón Mercader, a mando do Chefe de Estado da URSS, Joseph Stalin, de quem era adversário. Nesta semana do Bicentenário, o Consulado Honorário do México no Ceará tem orgulho de mostrar em Exposição, que vai até o dia 24, na Galeria Benficarte, no Shopping Benfica, um pouco da História desse grande país, com 110 milhões de habitantes que, entre outras grandes conquistas e honrarias, possui dois prêmios nobéis. O primeiro, o da Paz, concedido ao diplomata Alfonso García Robles, em 1982. O segundo, o de Literatura, ao escritor Octávio Paz, em 1990. São duzentos anos de construção de uma identidade nacional. Bravo México. * João Soares Neto é Cônsul Honorário do México no Ceará CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/09/2010. - [LEITURA E LIVROS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/leitura-e-livros-diario-do-nordeste/): Recebo e-mail de autor desconhecido com pinturas e frases sobre leitura e livros. Resolvo aproveitar as interessantes. Começo com a quase brasileira Clarice Lispector: ”Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor. Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um livro que eu mesma escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim: eu o estaria lendo e, de súbito, uma frase lida com lágrimas nos olhos...” Mudo para Henry Miller, escritor erótico americano, autor da trilogia Nexus, Sexus e Plexus, que dizia: “Devemos ler para oferecer à nossa alma a oportunidade de luxúria”. Jorge Luís Borges, escritor argentino que, pouco a pouco, foi cegando e lia pela voz dos outros, mesmo assim afirmava: “O livro é uma das possibilidades de felicidade que dispomos”. A poeta mineira Adélia Prado, imitando o Cântico das Criaturas, de São Francisco, criou o “Louvai ao Senhor, livro meu irmão, com vossas letras e palavras, com vosso verso e sentido, com vossa capa e forma, com as mãos de todos que vos fizeram existir. Louvai o Senhor”. Vejam, citei Clarice, Miller, Borges e Adélia e ainda estou no meio do meu espaço. É que a escrita, quando é nossa, sai aos borbotões, mas a colagem a que me propus é mais difícil que criar o próprio texto. Entretanto, a tarefa tem que ser cumprida e me valho agora do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón, autor de “A sombra do vento”. Quando afirma: “Cada livro, cada volume que vês tem alma, a alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte”. O atormentado escritor checo Franz Kafka, autor de “O Processo” acreditava que “um livro deve ser o machado que partirá os mares congelados de nossa alma”. Tentei mostrar que usar texto alheio, mesmo falando sobre leitura e livros, foi tarefa que não me afagou. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/2010. - [RENATA, LUCIANA, ILAILSON, LUIZ CARLOS, HONÓRIO E ARARIPE, ADMINISTRADORES. - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/renata-luciana-ilailson-luiz-carlos-honorio-e-araripe-administradores-jornal-o-estado/): Quando a Escola de Administração do Ceará foi fundada nos anos sessenta havia uma vaga ideia do que viria a ser a carreira que, à época, era chamada de Técnico de Administração. Sem entrar em detalhes, a Escola de Administração foi instituída já com professores efetivados: misturaram professores, alguns de nomeada, com políticos, uns vitoriosos, outros nem tanto. Houve luta dura da primeira turma a sofrer discriminação quando se abrigou no prédio da então Faculdade de Economia, da UFC. Aconteceu até perda de ano letivo. O Ministério da Educação não reconheceu sequer o primeiro vestibular. Ano e vestibular repetidos, prédio alugado na Avenida Duque de Caxias, goteiras no teto, alguns professores faltosos e até alunos revoltados, denunciando. Depois, o tempo foi mudando e a Escola se firmou. Esta pequena digressão é para dizer que para colher frutos, muitos tiveram que revolver a terra, escoimar ervas daninhas, plantar ideias, regar e deixar o caminho pronto para os que vieram a seguir. Esses receberam uma Escola com sede própria, na Rua 25 de Março, Sempre será preciso lembrar uma placa de bronze que estava em um patamar entre o térreo e o primeiro andar da sede. Essa era a placa da Turma Pioneira, a que sofreu, lutou e amou o que era apenas uma ideia em formação. Hoje, décadas depois, isso pode não importar mais, dezenas são as escolas de administração existentes em universidades, faculdades e afins. Agora, frutos são colhidos. Última quarta-feira, para alegria nossa, seis colegas foram homenageados no ensejo da Semana do Administrador. A Assembleia Legislativa do Ceará, por proposição do Administrador e Deputado Estadual Sérgio Aguiar, escolheu seis nomes de destaque como administradores. São eles: Renata Queiroz Jereissati, Luciana Dummar, Honório Pinheiro, Luiz Carlos Barreira Nanan, Ilailson Silveira de Araújo e Francisco de Assis Moura Araripe. Renata Jereissati configura a conjunção do conhecimento e da discrição. Alia à sua condição de administradora à capacidade de germinar êxitos com prudência e talento em seus múltiplos afazeres, preservando sua individualidade e a do parceiro de vida; Luciana Dummar, administradora em formação continuada por iniciativa do pai, de quem se tornou sucessora imprevista na dor escancarada mas, paradoxalmente, sóbria, transformada em líder de família, comandante de empresas e consorte de companheiro de trabalho. Honório Pinheiro chegou pelas adjacências da cidade, descobrindo nichos, acreditando na formação profissional superior, na inovação e no trabalho com valor agregado. Acercou-se da CDL, se fez liderado e líder, abriu horizontes em Fortaleza e retomou maduro, o caminho do interior, em respeito às suas raízes. Luiz Carlos Barreira Nanan, filho do municipalista Américo Barreira, destacou-se como líder inconteste de uma profissão emergente à época sufocada e tornou-se presidente do Conselho Regional no seu ressurgimento democrático. Ilailson Silveira de Araújo, quase da turma pioneira, se fez mestre em sala de aula, gestor com ideias empresariais inovadoras em seus negócios e líder classista na condução dos destinos da categoria emergente, da qual foi presidente. Por último, Francisco de Assis de Moura Araripe, administrador que se consolidou, por mérito e vocação, em professor universitário e, por duas vezes, em tempos distintos, Reitor da Universidade Estadual do Ceará – Uece, onde dá especial ênfase à carreira que integra. A todos os seis, administradores provados, singulares em seus saberes, a nossa admiração e o reconhecimento público. À Assembleia Legislativa do Ceará, nas pessoas do seu presidente Domingos Filho e do Dep. Sérgio Aguiar, os parabéns pela justiça na escolha dos homenageados. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/09/2010 - [DOS PÉS À CABEÇA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dos-pes-a-cabeca-diario-do-nordeste/): Você poderá ver, de graça, nesta semana da Pátria, na Galeria Benficarte, a mostra “Dos pés à cabeça”. Nessa exposição, a face histórica do Brasil é mostrada. Ela começa no princípio do Século XIX. Nada da face vivida tristemente na Copa do Mundo da África do Sul, meses atrás, em que os pés dos atletas faziam – ou não - a glória da história do esporte de cada país e mexiam com as nossas cabeças. O que está posto é o nascimento da Nação brasileira, surgida, na verdade, com a forçada vinda da família real portuguesa, em 1808. Enxotados de Lisboa pela fúria expansionista do Imperador francês Napoleão Bonaparte, que visava o bloqueio continental, a Corte portuguesa veio, pressurosa, abrigar-se na ainda pacata cidade do Rio de Janeiro. O Rio os recebeu com atenção, mas não havia aonde alojar tanta gente. O que se fez? Os portugueses foram ocupando o que de melhor existia em imóveis na cidade, ainda sem esgotos e acanhada. A vinda da Corte foi o estopim involuntário de toda a fermentação política germinada na cabeça dos brasileiros que culminou com a eclosão da Independência, em São Paulo, em 07 de setembro de 1822. D. Pedro I, que acabara de ingressar na maçonaria, rebelou-se contra a pátria-mãe. É isso o que mostramos nessa breve montagem histórica, de forma simples e didática. Germinava, a partir do Grito do Ypiranga, o sentimento nacional ainda em construção, dia a dia, por todos os brasileiros. “Dos pés à cabeça” é um chamamento à razão. É tentativa de mostrar a todos a história que se edifica com o trabalho, a dignidade de viver, a capacidade de aceitar as adversidades naturais ou criadas por terceiros e dizer que a solução dos problemas brasileiros passa pelo uso da razão, a cabeça. Não as cabeças que só pensam no seu entorno, na sua grei. Pelo questionamento dos que nos é imposto de todas as formas e mídias, pelo comprometimento pessoal com o que acontece no Brasil de hoje. Somos todos, mesmo sem querer, dependentes das ações dos outros. Por esta razão, insistimos: esqueçam um pouco os pés. Não chutem. Usem a cabeça. É independência ou morte. João Soares Neto, da Academia Fortalezense de Letras CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/09/2010. - [A MINA E A SOLIDÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-mina-e-a-solidao-jornal-o-estado/): O jornalista Alonso Soto escreveu, reproduzindo notícias da Agencia Reuters, sobre as relações humanas entre mineiros soterrados no Chile e seus familiares. Foca bem no caso de Lilianet Ramirez, 51 anos. A notícia diz, mais ou menos, o seguinte: ”Copiapó- Abraçada a um bilhete amarfanhado, escrito a 700 metros de profundidade por seu marido, preso há semanas numa mina, Lilianet redige sua primeira carta de amor em várias décadas”. O bilhete que Mario Gómez, 63 anos, enviou no domingo à superfície, prometendo em breve rever a mulher, comoveu o país. Até então, não se sabia se os 33 mineiros presos na mina de San José, após desmoronamento, estavam vivos ou mortos. Agora, Lilianet terá pela frente uma longa espera de três a quatro meses, enquanto engenheiros e outros técnicos perfuram nova galeria até o refúgio em que os homens se encontram. Eles sobrevivem graças à água que escorre da perfuração, e do ar que entra por dutos de ventilação. Já instalaram tubos plásticos - chamados de "pombas" - pelos quais enviam glicose, gel de hidratação, nutrientes líquidos e remédios aos mineiros. Eles pretendem enviar cartas também. "Dá para imaginar? Após 30 anos de casamento vamos começar a nos mandar cartas de amor outra vez", disse Lilianet, rindo, apesar do cansaço, após mais de duas semanas instalada no acampamento batizado de "Esperança". "Quero lhe dizer que eu o amo demais. Quero lhe dizer que as coisas serão diferentes, que teremos uma nova vida", disse ela. "Vou esperar o quanto for necessário para ver meu marido outra vez." Na prática, acredito que a ameaça de perder Lillianet reabriu o nível anterior de conquista e as emoções relacionadas a este foram reavivadas. As equipes de resgate encontraram o bilhete de Gómez preso à broca usada para localizar os mineiros. "Vejo vocês em breve (...) e vamos ser felizes para sempre depois disso”, escreveu o marido. Mas, há também espaço para confusões. O agricultor Alberto Avalos, de 42 anos, tem um sobrinho soterrado: "Honestamente, quero perguntar a ele que diabos estava fazendo lá embaixo da mina. Quero amaldiçoá-lo por ter nos deixado tão preocupados", Thomas Mann, no seu livro “Morte em Veneza”, falando sobre a solidão, diz: “A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito”. Em resumo, digo eu: por que razão essas notícias mostram ser necessário que as pessoas se apartem, que ocorram cataclismos ou grandes traumas, para descobrirem a necessidade de ficar próximas? O que nos leva a, quase sempre, não enxergar a pessoa que está ali ao lado, seja amor, amigo ou parente? O que nos torna indiferentes ao já conquistado ou a quem sempre está disponível? Qual a cegueira ou descaso que parece dominar as relações duradouras? Nem todos precisam ficar presos em uma mina para que descubram seus sentimentos. Enfim, você acredita que essas cartas são frutos do amor ou apenas refletem a solidão e a apreensão de quem se imagina próximo da morte, no caso de Gómez, ou da possível iminente viuvez de Lilianet? Quando estiverem juntos, refeitos da dor, serão maduros para o reencontro afetivo que prometem? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/09/2010. - [MAKING OFF - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/making-off-diario-do-nordeste/): Semana passada, lancei meu sexto livro, Gente que Conta. Quero dividir com você a luta que se tem para escrever e, mais ainda, lançar um livro. Neste último, para fugir das crônicas e contos, enveredei por duro caminho, o da entrevista histórica e aí começou o fado. Demorei sete anos para concluir o livro com 16 nomes expressivos. No último mês, defini data para o lançamento: 19 de agosto, quinta-feira, noite tradicional para eventos culturais. A Oboé já estava comprometida. Ousei, então. Marquei o dia 20, sexta-feira à noite que não costuma ser usada para tal fim. Fiquei temeroso. Os convites não saíam. Só dez dias antes ficaram prontos. Não mais existe lista telefônica de endereços/pessoas. Amigos mudam de casas e de telefones. Zorra. Contratei empresa de entregas e os enviei, nominalmente, com palavras curtas e assinatura. Estresse aumentando, endereços errados ou antigos. Enquanto isso, o livro, o dito cujo, não ficava pronto. Mudei seis vezes o formato da capa, catalogação, e decidi não revisar o miolo, o texto. E o dia, chegando. Só na quarta, 18, recebi o livro pronto. Estava bonito, no olhar de pai coruja. Os nomes dos entrevistados em ordem alfabética, capa dura, cor telha. Agora faltava o evento: comprar vinhos. Escolhi duas uvas, Cabernet Sauvignon, a minha, e Merlot, a da maioria. Preparei painel grande com fotos dos entrevistados, com quem falava ou com suas famílias. Havia receios pelo contato público, deslocamento, idade, saúde etc. Conto só um caso: ligo para Elano Paula - chegaria na quinta - sobre a saúde do seu irmão Chico Anysio, retornado ao hospital. Ouvi tudo e o liberei: fique no Rio, o Chico precisa de você. O dia 20 chegou pleno de outras lutas, afazeres. Em casa, cinco da tarde. Escrevi a fala. Na hora de imprimir, o cartucho rateou. Ri: vou de improviso. Lembrei: os convidados precisam de segurança. Providenciei. Vesti-me, trânsito louco. Esbaforido, cheguei às sete. Logo, um amigo me pega pelo braço: “autografe aqui”. Fila, para quê? E assim foi. Por horas. Este é o “making off” do livro e do lançamento. Obrigado a cada um dos muitos amigos que lá estiveram. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/08/2010 - [VOCÊ AMA? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/voce-ama-jornal-o-estado/): Mensagens e apelos em livros, filmes, jornais, mídias alternativas, rádio e televisão estão sempre louvando o amor. E isso é bom. Cada um, à sua maneira, procura demonstrar, de forma material, para a pessoa amada ser ela lembrada e, mais que isso, simboliza o afeto em presentes, coisas materiais. Assim foi, desde sempre. A imaginação remete-me às portas dos presídios brasileiros onde, mulheres, muitas delas desprezadas, humilhadas e maltratadas, esquecem tudo isso e estão, nos dias de visita, levando um pouco do que têm para demonstrar, da forma que podem e sabem, o seu amor. Submetem-se a vexames de revistas ultrajantes, mas conseguem sempre levar o que a pessoa amada lhes pediu: comida, roupa, droga, uma pequena serra, dinheiro etc. Talvez esses atos não sejam submissões. Podem ser sentimentos fortes, aquela vontade de proteger, de estar junto, de ajudar, de dizer: apesar de teus defeitos eu te perdoo e te amo. Seria esse o amor verdadeiro? Ou mera submissão? Deixando os presídios de lado e voltando ao início do século passado, quando nada era permitido e já se fazia de tudo, deparo-me, na História, graças a ensaio de Luzilá Gonçalves Ferreira, com uma grande e já conhecida mulher. Seu nome, Lou Andreas-Salomé, escritora alemã a arrebatar corações da maioria dos homens que cruzaram seu caminho. Por ela se apaixonaram, entre outros, Nietzsche (com toda a sua descrença), Freud (com as suas inquietações) e Rilke (com a sua caudalosa poesia). Lou dizia: “A vida te dará poucos presentes, acredita: se queres uma vida, é preciso que a roubes”. Em outras palavras, pregava para as pessoas, os amantes, intrepidez e ousadia. Para vocês terem ideia das paixões que Lou despertava nos homens, basta citar um poema que Rainer Maria Rilke lhe dedicou:“Tu eras para mim a mais material das mulheres,/eras um amigo como são os homens,/ao olhar, eras uma mulher/e eras no mais das vezes ainda uma criança./Eras a coisa mais terna que encontrei,/eras a coisa mais dura com a qual lutei./Eras o cimo que me tinha abençoado /e te tornaste o abismo que me devorou”. Em contrapartida, Lou disse: “Se fui tua mulher durante anos, é porque foste para mim a primeira realidade em que o corpo e o homem são indiscerníveis, fato incontestável da própria vida”. Os exemplos paradoxais citados, em tempos diversos e pela natureza singular das pessoas envolvidas, mostram que o amor independe da classe social, razões lógicas, justificações teóricas e explicações práticas. O amor seria a capacidade de inebriar-se, de descobrir a existência do outro em tudo o que se faz, sente e deseja. O amor seria a abstração do mundo e o pensamento egoísta de que tudo gira no entorno da pessoa amada por causa de quem vivemos. Para os que ainda se sentem presos a alguém, apesar do fim da relação, é bom ouvir o que dizia Lou, já aos 76 anos, na obra “Nos Cadernos íntimos dos últimos anos”: “Após minha separação de um parceiro, sua ausência nada retirava ao amor que eu lhe tinha, mas lhe dava uma importância nova, pois ele escapava assim aos exageros deformadores que o amor superpunha à sua individualidade. Ele retomava sua individualidade própria e meu olhar sereno, sem colocar condições nem exigências”. Hoje, tempos outros, como você imagina o amor? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/08/2010. - [PROPAGANDA GRATUITA? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/propaganda-gratuita-diario-do-nordeste/): Públio Siro, poeta romano, certamente não seria hoje marqueteiro. Ele dizia: “Não prometas mais que possas oferecer”. Ora, o que se quer, independente de partido, coligação ou candidato (a) é gerar no espectador/eleitor um clima que o seduza. A sedução é feita de promessas, da maquiagem de dados, da falsa impressão de que falam livremente. Na frente dele (a)s fica um “teleprompter”, aparelho que dita e legenda suas falas, podendo sugerir inflexões de voz, postura e contração/descontração da face. Assim, são dirigidos como se atores em busca da perfeição na dicção, da simpatia que não tenham trazido do berço ou do entusiasmo que lhes possa faltar. Agências de propaganda transformam os candidatos majoritários em produtos e criam quimeras, rótulos, embalagens e certificados de qualidade. Napoleão Bonaparte falava: “Sei, quando necessário, deixar a pele de leão para usar a da raposa”. Assim era na Revolução Francesa, assim é hoje no Brasil, pós Revolução de 64, e será no futuro. Nereu Ramos, velho político catarinense que chegou à Presidência, dizia que “a política é a arte de engolir sapos”. Se vivo fosse, diria mais, pois o (a)s candidato (a)s a senadores, presidência da República e aos governos dos Estados têm que engolir recomendações de jovens publicitários, maquiadores, estilistas pessoais, fonoaudiólogos e outros. Não bastam os contatos obrigatórios em debates, entrevistas, ruas, praças, estádios, auditórios e palanques. É preciso ficar atento ao detalhe que deve ser incorporado ao gestual para passar empatia e conseguir do eleitor a adesão ao seu projeto que sofre a interferência de técnicos que ditam números e datas. Dessa forma, candidato (a)s são, a partir de agora e até o dia 30 de setembro, feixes de nervos ambulantes, a beira de estafas e, querendo ou não, rindo, abraçando, recordando vínculos e nomes, viajando, comendo mal, dormindo pouco, ouvindo pedidos e prometendo o que não podem cumprir. Nessa história da propaganda gratuita quem ganha mesmo são as emissoras de rádio e de televisão. O horário eleitoral custará em 2010, com isenções tributárias, 856 milhões de reais. Você sabia? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/08/2010. - [GENTE QUE CONTA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/gente-que-conta-jornal-o-estado/): Hoje, sexta-feira, dia 20, estarei lançando o livro “Gente que Conta”. Será na Oboé, sete da noite. Você é meu convidado. Não haverá discursos. Conversas informais, regadas a vinho. Devo dizer que gosto de ler, ver e ouvir entrevistas. Daí, resolvi ser entrevistador. Decidi, de princípio, que entrevistaria pessoas notórias, pela singularidade de suas vidas e êxito alcançados. Em Gente que Conta cada entrevistado é universo singular e especial. Todos são cearenses de vida ou de coração. São múltiplos nos fazeres, falares e saberes. Eles têm essência e ritmo. São capazes, ciosos da sua imagem, falam sobre suas vidas, a troco de nada. Alguns desvendaram faces sem maquiagem. Outros usaram sutilezas e personas. Cada ser é mistério e tem compasso próprio. As entrevistas trazem um pouco da história vivida do Ceará no último quarto do século passado e um pouco deste. A linguagem é a falada. Cada um cuidou da sua. Falam livres, abrem as comportas de suas lembranças. Nenhuma censura, mesmo em repetições, empolgadas ou não. Procurei a isenção possível, embora houvesse que pesquisar e me familiarizar com suas estórias pessoais. O livro foi feito com juízo crítico, mas pode conter falhas ou omissões. Procurei não fazer perguntas incoerentes, arbitrárias, dúbias, desarticuladas ou tendenciosas. Por outro lado, tive a intenção deliberada de ir desvendando o espírito, a lógica, a cultura e o comportamento de cada um. São quinze os homens entrevistados. E somente uma mulher consta do livro. O poeta espanhol Garcia Lorca falava: “A vida não é sonho. Acorda!”. Como demorei a montar o livro –sete anos - três entrevistados já faleceram: José Raymundo Costa, Marcelo Linhares e José Alcides Pinto. Lamento as ausências físicas deles. Esses fatos não mudaram as importâncias de suas entrevistas. José Raymundo Costa foi referência na área jornalística, tendo sido executivo de estreita confiança de seu jornal. Já avô, formou-se, por capricho, em Comunicação. Observador atento do comportamento de seus pares e da sociedade, virava criança ao torcer pelo seu clube, o “Fortaleza”. Marcelo Linhares, exemplo da ascensão do jovem bancário - com passagem pela administração pública - à vida política local e nacional, com quatro mandatos consecutivos de deputado federal, assessorou ministérios e aquietou-se como biógrafo e historiador. José Alcides Pinto, escritor, não se enquadra em padrões ou definições e teve, como autor, uma profícua atividade: poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta e cronista. Puro e maldito em sua criação, simples e ousado no seu saber difuso. Foi escritor-fantasma (ghost-writer) para muitos. Por amizade ou cobres. Aqui e alhures, em paralela produção à sua. Os que se seguem, em ordem alfabética. Ana Miranda, escritora premiada e consagrada nacionalmente. Após longa permanência em Brasília, Rio e São Paulo, voltou ao Ceará largado na infância para reatar laços e produzir mais. Artur Eduardo Benevides, representante da geração de 1945, do grupo Clã, referência na historiografia da poesia cearense. Chico Anysio, o maior humorista brasileiro de todos os tempos. Cineasta, compositor, escritor e pintor de múltiplas tintas. Elano Paula, o mais inteligente dos filhos do Cel. Oliveira Paula, pai do Chico Anysio. Ernando Uchoa Lima, advogado criminalista, ex-presidente nacional da OAB nacional, professor e político. José Júlio Cavalcante, ex-radialista, é o retrato da velha radiofonia cearense. Militava na esquerda, sem esquecer de ser representante comercial com bons relacionamentos. José Macedo, empresário de proa, líder de grupo de indústrias e chefe de família que o ajudou a consolidar sua posição no mercado nacional de trigo. Incursionou na política e de sua aura se destaca o grande ser humano. Juarez Leitão, poeta, professor, político e orador. Descobriu, na maturidade, a capacidade de escrever biografias de personagens familiares, a partir da contextualização, pesquisas e depoimentos de parentes e amigos. Lúcio Alcântara, médico, professor universitário e político com sólida formação cultural. Foi secretário de Estado, prefeito, governador, deputado federal e senador. Lúcio Brasileiro, colunista social mais longevo do Brasil. Natureza especial e memória ímpar. Fez-se autor e personagem de seus ‘gossips’. Edita lista bianuais da sociedade e livros, recontando estórias e se isola entre as praias de Cumbuco e Ibiza. Lustosa da Costa, auto exilado em Brasília. Visitante mensal da biblioteca sobralense que leva o seu nome. É arquivo vivo do jornalismo do Ceará, a partir dos anos sessenta. Ubiratan Aguiar, longo percurso de vida pública. No ponto A é o jovem vereador de Fortaleza. No ponto Z é o Ministro do Tribunal de Contas da União. Entre o A e o Z fulgurou a política e, agora, ancora-se em versos musicados. Em resumo, O livro tem 16 portas. Uma chave mestra: o leitor. Sou apenas o perguntador. Espero você hoje à noite, na Oboé na rua Maria Tomásia, 531. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/08/2010. - [CONVERSA AMIGA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/conversa-amiga-diario-do-nordeste/): Serão todos sempre os mesmos? Cremos que muito muda com o correr dos passos e descompassos. Somos sempre diferentes no contato com pessoas. Uns são alegres, comunicativos, mas, esses não se apercebem da essência do outro. Como diria um amigo, procuram “tangenciar problemas”. Outros, mais fechados, críticos, entretanto, detendo-se na procura de saber do outro. Os relacionamentos são, muitas vezes, minados. Minados por familiares, amigos e os falsos-amigos, essa grande comunidade semi-invisível existente em qualquer sociedade. É um processo de envenenamento considerado natural, pois comum nas relações ditas sociais. “Eu te protejo, a troco de nada”. A maioria das pessoas gostam de ter amigos, colegas e familiares disponíveis, solitários, livres, mas não se apercebe que a solidão do outro é um passo para desarranjos de todas as naturezas. Assim, vão sendo alvos de comentários, suspeitas, discussões e até de cerceamento do encontro a dois, dádiva ou característica positiva, graças, quiçá, ao mútuo bem-querer. Estar a dois passou a ser interpretado como isolar-se, casmurrice, ciúme e abandono dos outros. Não é bem assim, o encontro permanente é o segredo do relacionamento, os que se desnudam como pessoas, esquecendo as `personas’ assumidas ao longo das vidas. Enquanto alguns procuram em análises, livros, escritos e filmes as respostas que a vida não lhes deu para entender suas próprias idiossincrasias, outros permanecem no ilusório mundo dito fashion, oba-oba ou na busca estética. Essas considerações superficiais são meras convicções pontuais a merecer exame e crítica, especialmente quanto a parentes e amigos. Àqueles que acessam os outros pessoalmente, por telefonemas ou quaisquer outros meios. Racionalmente, deve-se admitir existir exagero no direito a essa intromissão. Não sabem eles como alguém estar, com outrem, além deles. Identificados e solidários. Querem mudar, conscientemente ou não, o d de solidários para o t de solitários. Permitir ou não, essa a façanha que cabe a cada um. São fortes, se solidários? Terão gente ao lado, se vulneráveis, fraternos e solitários? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/08/2010. - [JORGE TUFIC, OITENTANOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/jorge-tufic-oitentanos-jornal-o-estado/): Exato nesta sexta-feira, 13, a cidade de Sena Madureira, lá no longínquo Estado do Acre, símbolo da tenacidade de cearenses, sulamericanos e de fenícios que por lá aportaram, nascia há oitenta anos, um menino chamado de Jorge Tufic, aquele que seria o maior poeta da região norte, um rio pleno de sonetos, a jusante e à montante que se fez pororoca, turbilhão e deu com os pés molhados nas águas rionegrinas/manauaras para ali estudar, fincar raízes e, em seguida, receber louros como “O Poeta do Ano”, em 1976, com o veredicto do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Amazonas. E como “estas rosas que alteram nosso dia/e abrem na tarde a súplica dos dedos/ que se libertam, pássaros, no barro/ E tocam, com sua forma torturada, a flor do azul contida e descontida/neste adágio de pedra e de luar”. E o luar da Academia Amazonense de Letras fez-se clarão para festejar o ingresso de Jorge Tufic em seus quadros. Honrado e glorificado que já era como poeta, jornalista e representante da União Brasileira de Escritores na Amazônia, a região que lhe inoculou o jambo da sua tez e o coração de menino inquieto quando via que “um tear e uma aranha/ponteiam o meu destino/quando o tear se esgota,/a aranha pega o fio/e sobe”. E Tufic ascendeu e mereceu ter seus poemas festejados na antologia “A Nova Poesia Brasileira”, coordenada pelo piauiense Alberto da Costa e Silva, da Academia Brasileira de Letras. Enciumado, Walmir Ayala, veio de seus pagos gaúchos, em 1965, para apenas mudar o título da antologia e entronizar Jorge Tufic no panteão da “Novíssima Poesia Brasileira”. O poeta, hoje acreano-amazonense-cearense se declara “habitante da noite, volta e meia/danço e cavalgo estranhas partituras/onde a poesia? Látego e correia/a suíte é rosa, música e nervuras/ A lua imensa bebe, nas alturas/ todo o clarão que sobe dos teus dedos/ o mar se expande em conchas e lacunas/solos e flautas contam seus segredos”. Pelos desígnios insondáveis dos deuses das águas, Jorge Tufic apaixonou-se pela Praia de Iracema e aqui fundeou suas estrofes. Foi lá que o conheci há décadas. Nós, os da terra, desconfiados, pedimos que alguém sem jaça, com raça, talento e graça o avalizasse. E eis que o poeta Francisco Carvalho, do seu exílio familiar na Francisco Lorda, atestou, deu fé e tornou público que ele era “Mestre incontestável do soneto, essa teia mágica que ainda intriga os pretendentes de Penépole, Tufic passa incólume pelas ‘perpétuas grades’(Augusto dos Anjos) dessa autêntica jaula medieval, com certeza uma das mais polêmicas de todas as modalidades de poemas já concebidos pela fantasia”. Com esse aval crítico-poético de Carvalho as comportas das reservas dos letrados locais foram abertas, título de cidadania recebeu e, hoje, todos nós, menores que ele, o reverenciamos com a alegria dita por Madame de Staël em De l’Allemagne, “La poésie est le language naturel de tous les cultes”. Jorge Tufic, és culto, és poeta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/08/2010. - [CULTURA E ESCRITOR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cultura-e-escritor-diario-do-nordeste/): Estamos, eu e Auto Filho, secretário da Cultura do Ceará, a tomar café. A ideia é se montar um arcabouço, diagrama ou projeto do que possa vir a ser um Anuário da Cultura do Estado. Essa é a ideia ampliada do que venho tentando no âmbito da Academia Fortalezense de Letras e de Fortaleza. Tenho falado e escrito ser oportuno identificar os agentes da cultura, independente de serem membros ou não de universidades, instituições ou academias. Sendo Auto, por natureza, filósofo e polêmico, há muito a discutir antes de se tornar prática e objetiva, como é do meu jeito, essa conjunção de pensamentos. O primeiro acerto foi a escolha da Linguista Karine David, para gerir a ideia, ela que foi a curadora da última Bienal Internacional do Livro do Ceará. Faço fé no projeto. Depois, ele me pede, de bate - pronto para definir o que é um escritor. É provável que Michel Foucault, nos dê uma pista no seu texto “O que é um Autor?”. Segundo ele, “a noção de autor constitui o momento forte da individualização na história das ideias, dos conhecimentos, das literaturas, nas histórias da filosofia também e na das ciências”. Cada autor tenta mostrar seu deslumbramento ou sua veracidade no arranjo da obra, tornando-a singular, fazendo-a, com competência ou não, merecedora de maior ou menor grau de confiabilidade e importância. Diria que o escritor não é um excêntrico, tampouco deve possuir qualidades incomuns, apenas faz da escrita um ofício. Como esse ofício não é por muitos entendido, poucos são os escritores que vivem da composição. Escrever requer sentimento maior que lucidez e lógica. É materialização do desejo, do pensar, do devir e das angústias ou sonhos, expressadas em diferentes estilos e gêneros, pedindo maturação ou urgência. Ou, como fala F. Dürrenmatt: “Escrever é um processo. Ou infinitamente veloz, ou infinitamente lento”. Escrevinhador semanal, ainda não provado em texto de longo curso, quedo-me restrito ao tempo e ao espaço que me concedem, sabedor dos limites de toques, somo palavras e tento, de alguma forma, trazer o leitor até o ponto final. Esse ponto que nos liberta, aprova ou condena. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/08/2010 - [APRENDIZADO DE PAI - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aprendizado-de-pai-jornal-o-estado/): Tentei aprender a ser pai na estrada da vida. Não havia livro que ensinasse nada. O máximo era o “Livro do Bebê”, do Dr. Rinaldo de Lamare. Perdemos o primeiro filho, pouco antes de nascer, em um acidente. Estava no Rio, vim correndo e o levei ao cemitério. Depois, vieram as filhas, a quem amei desde sempre. A todas, levamos ao batismo, tomando parentes e amigos como padrinhos. Participei de todos os pré-natais, estive em todos os partos, até vi. Fui aos maternais para as primeiras aulas, ficando atrás de paredes para que não me flagrassem por lá. Permaneci uma semana com cortinas fechadas em Belo Horizonte cuidando de filha operada. Sofri sozinho, a invasão de minha casa por desvairado que levou, por horas, uma filha como se fosse moeda de troca. Horas infinitas. Tudo terminou bem. Descumpri sinais de trânsito, após uma filha cair de ponta-cabeça até chegar, cantando pneu e esbaforido, ao hospital. Bati palmas e fotos em festas aniversárias e em festivais de ballet de todas elas. Mandei gradear piscina enquanto contratava professor de natação. Briguei com pediatras para serem atendidas com presteza. Procurei saber de colégios, professores, métodos de ensino, cursos de idiomas e quem eram suas companhias. Desci serra, interrompendo fim de semana, por conta de braço quebrado de filha. E, foi assim, passo a passo, em compasso ou descompasso, em dupla ou à capela. Era apenas um menino-homem que abria, por outro lado, o duro, difuso e desigual combate da vida profissional independente, sem patrão e padrinho, pois fora essa a minha opção. Montei uma empresa apenas com o nome, sem capital e precisava cuidar dela. Isso, entretanto, nunca me impediu de tomar café, almoçar e jantar em casa. Todos os fins-de-semana eram da família e, para isso, procurei uma casa em praia ainda deserta povoada de amigos com seus filhos, colegas de classe de minhas filhas. Sem saber muito de como conduzir a linguagem e relacionamento entre adulto e criança, criei uma estória que durou anos. Ela tinha duas personagens, Rosinha e Paulinho, através dos quais procurava passar o que acreditava ser exemplo, ensinamento e alegria. Paulinho e Rosinha eram bons filhos e alunos. Tantas foram as vezes em que chegávamos a um local e o Paulinho e a Rosinha haviam acabado de sair. Brincamos em festas, carnavais infantis e em clube. O tempo ia passando. Levei-as à Disneyworld como processo de crescimento e não de deslumbramento. Tomávamos banhos à beira-mar deserta, enquanto o “Buggy” se quedava próximo para passeios relaxantes. E havia esportes em casa, mais de um. Depois, viajamos, aqui e alhures. E, uma a uma, foram se pondo moças, algumas atônitas com mudanças as tornando distintas do que eram. E houve crise, Deus sabe. Procurei entender, auscultar e fazer o possível. E descobri ser a adolescência feminina mais complexa que imaginava. Chorei trancado em banheiro por não entender e descobrir a razão. Por outro lado, fui fustigado anos a fio por concorrência articulada, sem dó e piedade, tentando me alijar do que fazia. Era luta solitária, incompreendida e indormida. Veio a idade de estudarem fora do país e me vi levando-as para casa de irmãos habitantes da América, não sem antes conhecer escola, falar com a direção e deixar tudo acertado. Choros e crises. Foi mais uma luta, telefonemas longos, mas terminaram – e bem - os cursos. Ao trazê-las de volta, camioneta cheia de malas e quinquilharias. E assim foram todas. Depois, vieram namoros, rompimentos, reatamentos, conclusões de cursos universitários, casamentos festivos, netos acolhidos com sentimentos e escritos. De repente, me dei conta, não fazia mais parte do time, havia recebido cartão vermelho, por faltas cometidas e a vida doía. Tornei-me mero provedor, “outsider” e descobri-me desaprendiz de pai. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/08/2010. - [NORDESTINOS PAULISTAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nordestinos-paulistas-diario-do-nordeste/): Algum político sabido conseguiu instituir a data de amanhã, 02 de agosto, como Dia do Nordestino, em São Paulo. Essa São Paulo, a dever tanto aos nordestinos, “baianos” como lá são chamados. Alguns nordestinos fizeram diferença em São Paulo. O fundador do Instituto Tecnológico da Aeronáutica- ITA, escola de excelência no Brasil, era cearense, o Brigadeiro Casimiro Montenegro Filho. Luiza Erundina, paraibana, prefeita paulistana no fim dos anos 80, saiu limpa, ao contrário de uma colega e outros ex-ocupantes. O maior nordestino de São Paulo é Luiz Inácio, homem que, em São Paulo, gosta de polenta e, quando viaja à sua terra, come panela e baião de dois. Ele, saído do interior pernambucano, fez-se paulista, menino que era, e tornou-se Lula, dirigiu sindicato e ingressou na política. Hoje, prestes a deixar a exitosa Presidência da República redescobriu o Nordeste, especialmente Pernambuco, a quem beneficiou de forma generosa. Tramita na Câmara de Vereadores de SP projeto de lei que só permite acesso a serviços e equipamentos públicos na paulicéia a quem já morar e lá tiver emprego há, pelo menos, dois anos. Essa ideia é barrar o contingente que, no início dos anos 2000, perfazia dois milhões de pessoas, a maioria da Bahia. Há na própria Câmara paulistana vereador conterrâneo do Lula, José Rolim, líder comunitário, nascido em Garanhuns, que propôs em 2008, a criação de um Centro Cultural Nordestino, ainda não aprovado. Existem queixas de nordestinos contra a ausência de espaço coletivo. Falam da discriminação sofrida, a partir de piadas de humoristas, inclusive nordestinos, e deliberada na hora do recrutamento por empresas. Essa diáspora iniciada no século XIX, face o problema das secas, se acentuou na segunda metade do século passado e, infelizmente, não parou. O Nordeste sabe-se, abriga o maior número de analfabetos do país, cerca de 20 milhões, incluindo os funcionais, aqueles a apenas garatujar o nome. Ano eleitoral, o povo nordestino receberá promessas, cofiará a cabeça e não poderá votar em Ciro Gomes, paulista nordestino, que confiou em nordestino paulista. E agora? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/08/2010. - [CONVITE URGENTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/convite-urgente-jornal-o-estado/): Em determinado dia do meado de 2002 recebo telefonema da Embaixadora do México no Brasil, Cecília Soto. Queria localizar o ex-ministro Ciro Gomes e pedia minha ajuda. Assim o fiz. Tratava-se de convite para encontro reservado, dia seguinte, em Brasília, com o então Chanceler ou Ministro das Relações Exteriores – como se diz aqui - do México, Jorge Castañeda, que tem “expertise” em História da América Latina, sendo professor universitário nos Estados Unidos, mestre em economia pela Universidade de Princeton e doutoramento em História Econômica, na França. Aquela época, a famosa cantora mexicana Gloria Trevi estava presa na Polícia Federal em Brasília e isso causava certo desconforto pelo assédio da imprensa à Embaixada para obter pronunciamento, o que não era o caso, pois se tratava de problema entre polícia e artista. No dia seguinte, já em Brasília, vi que preexistia amizade entre o Chanceler Jorge Castañeda e o ex-ministro Ciro Gomes. Sedimentada, quem sabe, conversas outras ao tempo em que Ciro Gomes estivera na Universidade de Harvard. O fato é que, ao meu juízo, pareceu se consolidar ali núcleo de pensamento político singular para dar melhor destino ao futuro da nossa parte na América Latina. Logo depois, 2003, Jorge Castañeda deixa as Relações Exteriores e, ano seguinte, se candidata, sem êxito, à presidência do México. Não por coincidência, Ciro também se candidatara a presidente do Brasil, em 1998 e 2002. Agora, neste fim de julho de 2010, Jorge Castañeda está no Brasil, a convite do “Fronteiras do Pensamento”, movimento internacional para estudar as mudanças do século XXI, através de seminários, estudos e conferências, da “Casa do Saber”, entidade brasileira promotora de debates e círculos de estudos e do jornal Folha de São Paulo, divulgando tudo. Castañeda, em longa entrevista, fez elogios à política interna de Lula, mas teceu críticas ao manejo da política externa do Governo Federal. Segundo o publicado na dita Folha, 26.07.2010, Castañeda disse: “Tudo o que Lula tentou fazer fora do âmbito interno só resultou em fracassos. Mas creio que mais importante é o fato de que Lula se absteve em mediar ou resolver conflitos perto do Brasil”. E disse mais: “Conflitos próximos abundam, e o Brasil não exerceu nenhuma liderança nesses casos”. O ora narrado é para mostrar que o Brasil, segundo Castañeda, poderia ter exercido outro papel na liderança regional se Ciro houvesse persistido e sido eleito. Lula, se ouvido ou consultado, poderia repetir a frase do Rei Juan Carlos disse para Hugo Chávez: “Por que não te calas?”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/07/2010. - [MARKETING E VIDA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/marketing-e-vida-diario-do-nordeste/): Somos consumidores de tudo: casa, comida, roupas, instrução, transporte, comunicação, cultura e lazer. Compramos por impulso ou após bem pensar? Hoje há uma técnica essencial a influir em nossas vidas, mesmo que não desejemos ou saibamos. Ela é o marketing, sub-ramo da administração científica. Ela passou a ser considerada e levada a sério. É claro que alguns ainda pensam o marketing como mera intuição. Não é assim. Na verdade, as universidades do mundo têm hoje o marketing como um grande chamariz. Existem, mundo afora, gurus, professores e especialistas na área. Deixemos os do Brasil de fora, para não personalizar. Fiquemos com Roger Blackwell, professor na Ohio State University, nos Estados Unidos. Ele, acreditem, é tão bem-sucedido como professor, escritor de livros e conferencista que, por sua conta, gastou sete milhões de dólares na construção de um hotel dentro da universidade só para hospedar executivos que vão ali fazer seus cursos. Blackwell é hipnotizador de multidões e sabe falar das chamadas “forças sociais” que nos levam a escolher um bem ou serviço, mesmo não tendo necessidade dele, tampouco consciência dessa atitude. O marketing passou a ser ferramenta fundamental na atividade política. Não só em tempos de eleições, mas para entender as tendências/carências demográficas, geográficas e econômicas, as tais forças sociais, somadas às nossas peculiaridades como indivíduos e grupos. Sabem os marqueteiros políticos que todos, independente de suas classes sociais, estabelecem atributos/valores às pessoas a partir das informações recebidas. É a tal da imagem pública, diferente da imagem publicada. No Brasil é ainda baixo o número de pessoas que lê jornais e revistas e assimila o conteúdo. Assim, vale o visto e repetido a exaustão, para nos tornar fiel, em sentido amplo, a um (a) candidato (a)s ou a governantes. Jovens tristes acenam bandeiras em esquinas. Começa em 17 de agosto a propaganda eleitoral na TV, rádios, jornais e Internet. Além dela, vão apertar nossa mão, de forma simbólica ou real. Vão mirar no nosso olho a dizer: veja, sou o(a) melhor, mais confiável, ficha-limpa. Voto é vida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/07/2010. - [POESIA E HERANÇA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/poesia-e-heranca-jornal-o-estado/): As belas poesias (quem me compra um jardim com flores?) infantis de Cecília Meireles parecem não ter sido lidas ou introjetadas na infância de suas filhas. Cecília tinha talento, publicou obra vária e respeitável. Morreu, mas os poetas viram versos no além. Cá, na terra do aquém ou de ninguém, ficou a família a se apoderar do tesouro, a obra literária de Cecília. Ganharam com ela, mas depois, insatisfeitos com o apurado, brigaram. A justiça foi chamada e a justiça não foi feita. Feia é a briga pública e publicizada por filhas e sobrinhos que, certamente, não versejam e não estão nada prosa para a memória da mãe-tia-poeta. Faz dez anos que se engalfinham em vários processos e matam a galinha dos ovos de ouro, pois discutem quem tem direito a que, enquanto a sua obra fica fora das editoras e livrarias. O fato é que literatura também dá brigas familiares e demandas judiciais. Há tantos casos de famílias de autores engolfada em querelas. Cito apenas os notórios: Monteiro Lobato, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Mudemos de arte. Nas artes plásticas existem os casos públicos e insolúveis dos herdeiros de Alfredo Volpi e Lygia Clark. Agora, igualmente, querem fazer dinheiro com a memória da cantora e artista Carmen Miranda, morta há 55 anos na Califórnia, e que nunca teve filhos. Familiares colaterais e detentores de direitos autorais aqui e aventureiros nos Estados Unidos se desunem para tirar vantagens em um filme que seria mero caça dinheiro. Começaria pela pobreza do título: “Maracas”. É sempre assim. Imaginem então o que não acontece com as heranças dos, não literatos, os plantadores em terra adusta, limpadores de ervas daninhas com suas mãos sofridas, adubadores e regadores com seus suores para verem as árvores de suas vidas crescendo, sem tempo até de provar dos frutos, pois cuidam das cercas contra os invasores, os que não plantam e querem roubar os frutos alheios. Deixemos os usurpadores de fora. Fiquemos apenas com as famílias e já será muito. Quantas empresas, desde mercearias de subúrbio até conglomerados, definham, acabam ou são vendidos pela ganância, incompetência e desamor de filhos e agregados. Deixam as árvores sem rega e procuram apenas saber quanto apuram com a venda dos frutos maduros. Não sabem que cada palmo de terra foi cuidado com desvelo. Não sabem quantos dissabores alguém há passado para, pouco a pouco, ir consolidando o que, logo após sua morte, será dissipado com desamor. Vender e o mote: isso dá trabalho. Martin Lutero, o insuspeito reformador alemão que fundou uma nova religião pelos desencantos com a Igreja de Roma, dizia que a família é fonte de prosperidade, mas também é de desgraça. Ávidos, quase sempre, herdeiros sequer querem saber o que os pais fizeram, suas dores e percalços, suas histórias, sejam obras imateriais, bens ou pecúnias. Não lhes custou nada essa longa fadiga, apenas são ciosos dos “seus direitos” e engordam advogados para dividir, sob luta, os despojos do que encontram e sequer respeitam, pois não há amor pela criação e feitos do(a) falecido(a). Só quem ama pode admirar, cuidar, respeitar e ter vínculos de afeto. Na linguagem dos matutos há uma frase cáustica: “Filho só puxa ao pai quando o pai é cego”. Entretanto, Cervantes, o quixotesco, amenizava: “Os filhos são pedaços das entranhas e, sejam bons ou maus, sempre se lhes há de querer como as almas que nos dão vida”. A História não registra filhos de Cervantes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/07/2010. - [DROGAS E VIAGENS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/drogas-e-viagens-diario-do-nordeste/): O Conselho Federal de Medicina parece não estar contente com a relação de alguns médicos e a indústria farmacêutica. Pausa. Alguns médicos, quase sempre, para cuidar ou se livrar do paciente, prescrevem exames e drogas. Não se fala só dos males crônicos, mas de dor de cabeça que muda para cefaleia, e lá vai a receita. Dor de garganta e tome anti-inflamatório ou antibiótico. Acabou a pausa. E, dizem, o fazem entre intervalos de viagem ao exterior para congressos, acompanhar pesquisas de desenvolvimento com novas drogas ou constatar o êxito de outras, já em uso por indústrias multinacionais, sempre generosas em convites para viagens a lugares charmosos, com passagem, hotel, inscrição, ajuda de custo, em eventos de cunho científico. Agora, o dito Conselho e a Associação Médica Brasileira estão querendo mudar o rumo dessa prosa e preservar o Código de Ética Médica. Só permitirão a relação médico/laboratório em congressos médicos. E se o(a) doutor(a) tiver trabalho a apresentar. Não os “posters”, aligeirados com estudantes ou residentes, mas os de verdadeira contribuição científica por sua inovação, casuística etc. Essa relação de alguns médicos, quase velada, não é do conhecimento da maioria da clientela e do público. Pensam os pacientes que os médicos sempre viajam para se atualizar. Será? As queixas e controvérsias nessa estória são grandes e as indústrias farmacêuticas estão medindo força com as entidades médicas e, quiçá, o Ministério da Saúde coloque o seu estetoscópio para ouvir os sons dissonantes dessa caixa de pandora. A grande imprensa, a viver de anunciantes, tem sido quase omissa nessa questão. Os anúncios devem valer mais que o esclarecimento público. Apenas a Folha de São Paulo começou no dia 30 de junho passado, a desvendar essa relação próxima e perigosa. Para engrossar o caldo dessa estória, entre sístoles e diástoles, as indústrias farmacêuticas investem agora nos chamados de “medicamentos maduros”, entre outros, os não mais protegidos por patentes. Assim, vão reforçar a propaganda de drogas para hipertensão, diabetes, disfunção erétil etc. Para concluir: você sabe qual o remédio mais vendido no país? O dorflex. Brasileiro adora se automedicar João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/07/2010. - [REGISTRO PESSOAL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/registro-pessoal-jornal-o-estado/): Para quem não sabe, sou canhoto. Nasci em época que ser canhoto era estranho. A escola obrigava a escrever com a destra. Teimei a continuar a escrever com a mão esquerda. No tempo das cadeiras individuais, no colégio e nas faculdades que fiz, sofria para, ao ficar de lado, escrever de minha forma arrevesada. Assim, o Brasil se livrou do péssimo candidato a pianista e a violonista. Estudei até, deu em nada. Mesmo com boa vontade, não passei do sofrível. Ser canhoto me ceifou – penso - de qualquer habilidade manual, inclusive nos esportes. Jogando vôlei, quebrei o pulso da mão esquerda e nunca passei de reserva em peladas de futebol. Era um destrambelhado, pé torto. Um Dunga, digamos. Resolvi pintar. Vaidoso, nunca tive uma aula. Vi museus, parei defronte de quadros famosos. Achava que poderia começar. Comprei telas, tintas e pincéis. Só consegui fazer um quadro. Emoldurei-o e escondi de todos, inclusive da minha vista. Está em qualquer canto, um dia o reencontrarei e, certamente, o mandarei para o devido lugar. Há algum tempo, dei-me à pachorra de fotografar. Comecei com fotos em preto e branco, muito cedo das manhãs, clicando pessoas dormindo na rua, bêbados, prostitutas, ambulantes com suas carroças, mendigos e os desvalidos em geral. Não consegui fotografar guerras como o Sebastião Salgado. Pretendia produzir fotos-denúncia, mas a quem mostrar? Até tentei, no caso específico da praia onde morava. Os governantes sabem de tudo e tudo fica na mesma. Recebi ameaças. Parei. Em 2008, meio sem querer, voltei ao extremo-oriente. Já havia estado lá uma vez. Fizera o circuito dos vários países importantes. Prometera não voltar, pois longe é um lugar que existe: a Ásia. Queimei a língua. Fui especificamente à China para não fazer nada. Só olhar. Não só a China, na grande Beijing ou Pequim, como a chamamos. Havia acontecido a Olimpíada e eu, como canhoto, cheguei logo depois da festa de encerramento. E vi tudo, mas isto aqui não é roteiro turístico. É revelação pessoal. Então, fui ao interior da China, à China profunda que, na verdade, não era tão profunda assim. Parei em Dalian, uma grande cidade com seis milhões de habitantes, entre paupérrimos, pois as suas misérias eram visíveis nas casas que, mesmo escondidas, desvendei. Vi também pobres, remediados e ricos de carros importados reluzentes com jeito bem ocidentais, quase americanos, não fossem os olhos. Mas, isso tem em todos os lugares. O queria ver não estava ali. Tive que sair da cidade e dar uma grande circular por seus arredores. Era uma região serrana, o dia se finava, o sol era de um vermelho esmaecido como o comunismo que hoje praticam por lá e eu via o Mar da China lá abaixo. Parei em uma espécie de promontório. Admirei a confissão da folhagem verdejante no outono asiático, vi pagodes ao longe e os meus olhos pediam um registro daquela beleza de intensa tranquilidade. Foi então que tive a coragem de usar uma máquina comum, dessas para analfabeto no idioma inventado por Louis Daguerre. Mirei e apertei no obturador. O resultado está na foto em anexo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/07/2010. - [ZERO FUTEBOL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/zero-futebol-diario-do-nordeste/): Grande parte do país entra em férias. É julho. Frio no sul. Enchente no Nordeste. Política por toda parte. Futricas em jornais, televisões e rádios. E ainda está longe o besteirol dos programas gratuitos. Gratuitos, uma ova. Quantos ganham os marqueteiros? Produtoras de televisão? Gráficas? Estilistas pessoais? Enfim, os ilusionistas de plantão. Os 192 milhões de brasileiros têm hoje 183 milhões de telefones. É o que se chama hoje de acesso móvel. Será que conversam sobre política? Procuram saber quem são os candidatos, suas fichas? Esperem um pouco, eles logo começarão a ligar para você. Eles ou seus prepostos. Simpáticos, querendo votos. Hoje, em qualquer lugar você pode ser alcançado. Hoje, da atendente à figura tida como importante, vai-se logo perguntando: qual o número do celular? Se você não der, passa a ser antipático, chato e adjetivos assemelhados. Se der, a atendente e a figura tida como importante, logo o passarão para frente e o seu número estará na lista de outros. Estou passando, mas não diga. Ora, quanta inocência e quanta maldade. O telefone celular, por sua portabilidade, invade o último reduto da privacidade. Aqui é fulano de tal, lembra de mim? Você procura mexer no seu hardware pessoal e sacar da memória o nome e a voz a perturbá-lo em pleno filme. Dá um branco. Não sei, estou no cinema. São só duas palavrinhas, posso falar? Que jeito! E as duas palavrinhas tiram a concentração do filme e você ainda não sabe com quem está falando. Desliga. E não se absorve mais no filme. Olha para o celular e o desliga. Olha, novamente, e o religa, pois alguém da família poderá ligar. Volta ao filme, mas perdeu o fio da meada. A desgraça toca novamente. Agora é uma moça, fala igual a uma dubladora de filme b, pergunta se não desejo conhecer o modelo novo do carro tal, vendido até o fim do mês pelo preço do ano passado e ainda emplacado. Desligo. O filme terminou, as legendas me dizem isso. Luzes acesas, saio do cinema com vontade de jogar o celular na primeira lata de lixo. A primeira que encontro está cheia até à tampa. É sujeira muita. Desisto da ideia, por enquanto. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/07/2010. - [TREM NOTURNO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/trem-noturno/): Anteontem, 30 de junho, foi dia de eleição presidencial na Alemanha. Vive hoje, situação difícil, como toda a Europa. Está unificada, mas não tem pensamento uno. Faz 21 anos que o pesadelo do muro e da divisão acabou. A Germânia tenta respirar com o pulso forte e a discrição da Chanceler Angela Merkel, luterana, madura e discreta. Ela veio da parte oriental, estudou física em Leipzig, então comunista. Por conta disso, lembrei de um passado distante. Era outono na Europa, então dividida. Viajava de trem, noite fechada e estava perdido. Trocara a palavra ocidental por oriental e me vi a caminho da Berlim proibida, na República Democrática Alemã, no trem errado. E o pior, o meu passe ferroviário não dava nenhum direito a isso. Descobri, quando um velho bilheteiro, parecendo sedento por cama em sua casa, pediu a cartela. Olhou, bocejou, coçou a cabeça e disse em um inglês arrevesado: isso não vale neste trem. E o trem não parava. A próxima estação, soube depois, seria a da Friedrichstrasse. Olhei para ele, fiz um gesto de desengano, e ele sorriu encabulado enquanto calculava o valor do bilhete no trecho descoberto. Paguei cinquenta dólares e o velho bilheteiro saiu do vagão. Agora, era esperar o porvindouro. E ele veio logo em seguida. O trem apitou, a estação ficava ao longe, mas a sua velocidade diminuía, até parar. Soldados armados, cães latindo, lanternas acesas e hastes metálicas com espelhos na ponta, como se fossem espelhos bucais gigantes vasculhavam a parte inferior do piso do comboio. Havia muitos militares e, ao lado deles, homens de casacos pesados parecendo ser da Stasi, a polícia secreta. Ou seria imaginação minha? Havia lido, sem muita atenção, “O Tambor”, livro de Günter Grass, mas não era hora de fazer nenhum tipo de sátira e tampouco lembrar de um anão a ver, de forma patética, a Alemanha ser dividida em duas, depois da queda e morte de Adolf Hitler. Foram minutos, mas a mim pareceram horas, até todos se retirarem e o trem, sem pressa, acolher-se na estação terminal. Desci e já estava numa fila da aduana feita para mostrar o passaporte, ser encarado nos olhos, fazer registros, bater uma foto de frente, dizer a duração da viagem e comprar, obrigatoriamente, marcos orientais. Quantos dias eu passaria em Berlim? Foi a pergunta que me fiz, se conseguisse, na verdade, entrar. Disse 03, como poderia ter dito qualquer número. Nunca vi essa minha foto, mas gostaria de vê-la para conferir a minha cara de espanto. Comprei as pequenas cédulas e me vi, maleta à mão, perto de um mercado. Lembrei-me de não ter jantado. Entrei. As prateleiras não estavam completas, vazias até, mostrando biscoitos, bebidas e enlatados, tudo escrito em alemão com o detalhe dos preços constarem da impressão gravada nos rótulos das mercadorias. Comi o encontrado e acheguei-me a um hotel próximo. Vou poupá-los da burocracia do check-in. Enfim, cai na cama e dormi de cansaço. Acordei sem saber onde estava. Tudo me era estranho. O sol morno mostrava, pela janela, talvez uma grande feira, nas proximidades. Tomei o café e vi ser uma exposição de casas populares, pequenas, com um simplificado e visível sistema de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Tudo às vistas, com um só cano com múltiplas funções. Vi tudo, cansei. Almocei, andei a esmo e dei-me conta do belo Portão de Brandeburg ali próximo, com os cavalos em tropel em posição trocada, diferente do visto em antigo cartão postal. Olhei rápido, como se em perigo. Voltei para a estação de trem. Demorou, mas o primeiro partiu e eu nele. Acabara o desassossego. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/07/2010 - [AS COPAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-copas-diario-do-nordeste/): Escrevo na quinta. Confesso, não vi nada de excepcional nesta Copa. Tudo igual. Parece jogo eletrônico. A única novidade é o país África do Sul, mesmo desclassificado no futebol, estar sendo desvendado. Gente alegre, cores, dores, problemas e anseios. Não sem quem é o jogador Felipe Melo, com nome de tenista. Procuro a razão do mau humor do Dunga, a ganhar milhões e recrutar uma legião estrangeira sem grande amor à pátria, dizem alguns. São garotos-propaganda de tudo e qualquer coisa. Lamento não entender a razão de jogadores brasileiros usarem brilhantes em suas orelhas. Só se for para afirmar: fiquei rico. Algumas cadeias de televisão estão cheias do dinheiro de anunciantes bilionários, ávidos pela imagem de cada atleta ou seleção. A maioria dos patrocinadores é multinacional e trabalha por pesquisa e números. Pátria é coisa do passado. O mundo deles é o dos interesses. Dos 23 atletas brasileiros, só três jogam no Brasil. O resto joga e desfila em festas e aeroportos da Europa e, quando chegam, são, via de regra, acompanhados de louras siliconadas em pagodes patrocinados por cervejarias. Confesso ter saudades de Tostão, com sua lucidez e talento. Confesso não ter saudade de Zico, com seu azar. Revelo estar impressionado por Pelé ser ainda um dos maiores faturamentos em publicidade. Não vejo ou ouço o Galvão Bueno. Não consigo entender a não convocação de Ronaldinho, o gaúcho, tantas glórias e gols. Juro não saber quanto é a gratificação pelo título. Repórteres dizem que centenas de pessoas viajaram por conta dos cofres da viúva e do futebol brasileiro. Esse mesmo futebol a dever horrores à previdência social, sonegar imposto de renda e dar cobertura e visibilidade a personalidades toscas. Admito não saber bem quem é Ramires e tampouco em que posição joga. Falem-me, por favor, de Thiago Silva. Esta conversa não é ranzinza, é fruto do desapontamento lúcido pela consciência da pura mercantilização do esporte. Depois, virá a Copa de 2014, “a nossa”. O que menos importará será o futebol. Bilhões ficarão nas mãos das mesmas empresas, especializadas em tudo, acopladas ao poder, quaisquer que sejam os eleitos, tais carrapatos em gado mal cuidado. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/06/2010. - [FORTALEZENSE – NOVOS TEMPOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fortalezense-novos-tempos-jornal-o-estado/): A Academia Fortalezense de Letras está de parabéns e alegre com a aprovação, sem nenhum voto contrário, do novo Estatuto e Regimento da AFL, na presença de 23 acadêmicos, maioria absoluta, à Assembleia Geral Extraordinária, de 16 de junho de 2010. A Fortalezense é uma academia do Século XXI. Não cabe mais se fixar no belo modelo "ancien garde" da Academia Francesa e da notável ABL, a Brasileira. Uma academia não apenas se funda. Ela se constrói no tempo pelas obras de seus integrantes, pelo respeito à sua imagem pública. Cresce com atitudes sociais e culturais definidas, mesmo havendo divergências, no foro adequado. Ela têm fundamentos, projeto de futuro, frequência habitual, sócios convergentes em torno dela e criação literária . A criação e funcionamento do www.academiafortalezensedeletras.blogspot. diz da nossa inserção no presente midiático, da vontade de ser plural e usar a Internet como veículo auxiliar da difusão da cultura e da informação institucional. Procuramos ser transparentes. A nossa atuação nas duas últimas Bienais do livro mostra que não viemos para coadjuvantes, mas atores no processo de transformação da cultura fortalezense. A Homenagem prestada pela unanimidade dos vereadores da Câmara Municipal de Fortaleza, em novembro de 2009, diz da nossa aceitação e do respeito gerado. Queremos bons acadêmicos nas vagas abertas. Entendemos por bom acadêmico qualquer pessoa, maior de idade, residente permanente de Fortaleza, com produção literária significativa, socialmente aceito(a), que acate as normas da instituição, deseje se candidatar na forma do Edital da vacância, orgulhe-se de a ela pertencer, defenda-a, não dissemine a cizânia, e procure fazê-la brilhar, a partir do aprimoramento do que faz como intelectual e cidadão. As duas edições, 2009 e 2010, das semanas Viajando nos Livros levaram milhares de jovens à contemplação, participação e entusiasmo pelos livros que foram distribuídos, pelas palestras proferidas, peças encenadas, debates realizados e a presença efetiva das academias de jovens que apoiamos com o aplauso do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Particular do Ceará e o apoio da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. E sem nenhuma despesa da AFL. A atual Administração já editou a Acta Literária. Publicamos boletins eletrônicos e em versão escrita a todos remetida. O Boletim é registro de fatos e feitos. Neste junho de 2010, convocamos uma Assembleia Geral Extraordinária com publicação prévia do edital no jornal O Estado, no dia 03 de junho de 2010. Também houve convocação por escrito, por correio, e-mail e telefone, para todos os acadêmicos. Os projetos do Estatuto e do Regimento estiveram na Secretaria e no blog, aguardando sugestões. Agora, estão, novamente no blog, com as alterações aprovadas. Como Presidente da Fortalezense e seu eventual guardião até setembro, tento fazer o possível e ajudá-la a crescer em harmonia e ciosa de seu nome. A partir desta semana, seremos a única academia de letras a integrar o Pacto por Fortaleza, iniciativa da Câmara Municipal de Fortaleza. Na próxima segunda-feira estaremos na Universidade Federal do Ceará, junto com a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, pensando a cultura da nossa terra. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/06/2010 - [CINEMA E SUBSTÂNCIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cinema-e-substancia-diario-do-nordeste/): Sabem José Augusto Lopes, Miranda Leão e Pedro Martins Freire, entre outros, do meu velho amor pelo cinema. Não o dos blockbusters/ grandes produções, mas o cinema-arte, aquele a nos intrigar pela não obviedade da trama, a identificação precisa dos cânones do diretor, a estética da composição plástica, a marcação dos protagonistas, a iluminação acertada, os cortes, a trilha musical, o trabalho do continuísta, a remontar cenas interrompidas pelos intervalos obrigatórios, causados pela mudança da luz ou estafa do elenco. Ontem, 19 de junho, foi o dia consagrado ao cinema brasileiro. E o que me alegrou, além da data, foi a lembrança e a honra de um convite recebido. Falo do convite da Editora Valer para ontem participar do lançamento do livro do escritor manaura Márcio Souza, “A substância das sombras – a arte do nosso tempo”, seguido de debate sobre cinema. Márcio Souza é escritor premiado, nascido nos bastidores de jornal, a fazer crítica de cinema, ainda adolescente. Márcio é autor, entre muitos, do clássico livro “Galvez, Imperador do Acre”, tendo sido professor convidado de literatura da University of Califórnia, Berkeley, Estados Unidos. O que isso tem a ver comigo? Muito. Adolescente, entrei, de metido, no Clube de Cinema, dirigido por Darcy Costa. E, como já o fazia, continuei a anotar, com mais precisão de detalhes, todos os filmes assistidos e até fazer apreciações sobre eles. Não duvidem. Tenho os cadernos. Estão lá as páginas amareladas relatando, com despreocupação juvenil, a minha crítica. Por outro lado, gente há ainda a não saber da minha experiência continuada e diária, como jornalista. Fui, sim, por anos, a convite de Eduardo Campos, nos Associados. O pagamento era feito, todos os meses, por Anastácio de Souza, tesoureiro. Um dia desses, com ajuda da historiadora Walda Weyne, consegui resgatar, digitalizado, parte desses escritos jornalísticos dos anos sessenta. São centenas de páginas. Voltando ao fio da meada, gostaria de ter ido a esse lançamento e, principalmente, comparecido ao debate. Parabéns, Márcio Souza. Obrigado, Editora Valer pelo convite. Cinemeiros, somos sempre. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/06/2010. - [PAIXAO CINQUENTONA- TJA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/paixao-cinquentona-tja-jornal-o-estado/): Tenho uma paixão cinquentona por ele. Era meninote e me punha a pé da Rua Major Facundo, desde a Praça do Carmo, para lá. Ia com a despreocupação dos enlevados pela oportunidade do encontro. Morava na cidade calma, com 270 mil pessoas, 15.000 “aparelhos telefônicos”, um grande hotel, o San Pedro, cinco emissoras de rádio, um novo e lindo cinema, o São Luiz. Admirava as vitrines da Aba Filme, na Rua Barão do Rio Branco, mostrando as fotos das meninas bonitas da cidade que tomavam lanches no Tonny’s. Era ainda o velho palco, o mesmo de 1910. Burle Marx não burilara a vegetação hoje ensombrando o lado incorporado da Rua General Sampaio, nem era dele o antigo prédio da escola, depois faculdade, olhando para a entrada da casa da Maria Luiza Rodrigues e o Edifício Lord. Sabia que ele me abriria, como espectador, de alguma forma, as frestas das artes, da interpretação, do canto, da música. Queria apurar sentidos, tinha pressa e curiosidade de saber. E foi lá que vi, entre outros, Paulo Autran, Tonia Carrerro, Procópio e Bibi Ferreira, Eva Todor e até o Zé Trindade, um fracasso, diga-se. Paquerava por lá, ouvindo moças da sociedade declamando poemas aprendidos sob a tutela da Sra. Violeta Modesto de Almeida, em festival promovido pelas “Damas de Jacarecanga”, em benefício dos pobres do Pirambu. Estava lá vendo o piano negro iluminando a magia de Jacques Klein, cearense do Aracati, já famoso concertista internacional, ao tocar sonatas de Beethoven. Em tempos de Semana Santa via o Gólgota, depois Paixão de Cristo. Foi nele que acompanhei o crescimento da Comédia Cearense, de muitos atores e o despertar do teatrólogo Eduardo Campos. . Anos depois, em festa de gala, subi os degraus que levam a seu palco, ao lado do meu pai, para receber orgulhoso o pergaminho da faculdade. Vi tantas peças, anos a fio. Como veem, não é amor recente, nascido depois que Bia Lessa comandou suas mudanças, os jardins surgiram e a frente cresceu, respondendo por todo o lado sul da Praça José de Alencar. É paixão antiga, dos que o conheceram sem climatização, vendo o porteiro “Muriçoca” e o Clóvis Matias, desde sempre. E não poderia deixar de louvar este 17 deste junho, sua data centenária, meu velho amigo, o Theatro José de Alencar. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/06/2010. - [BRUNO, HEPTANETO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bruno-heptaneto-diario-do-nordeste/): É março, cedo da noite, estaciono o carro sobre o asfalto, dou boa noite, passo o portão, entro no elevador e subo quarenta metros. Toco a campainha, ouço vozes, alegro-me, desde já, com a graça da criança no berço esplendido da simplicidade. “Seja feita a luz e a luz se fez”. Beijo-o com carinho e sou advertido. Devo me conter. Deixe para depois, pai. E assim fiz. Esperei meses, quase coincidindo a data com o aniversário da mãe, quinta comemorado, para anunciar: sou hepta. Sem essa de futebol e copa. Estou louvando a chegada do meu heptaneto. Nada de penta ou hexa, sou heptavô. Luana foi a primeira e Bruno é o sétimo neto. Filho da terceira filha que havia me dado o penta. Chegou a alegria na noite molhada pela brisa marinha alforjando pedras protetoras na curva da avenida. Veio sem muitos choros e dengues, pleno de promessas na pele macia como avelã, clara como a esperança de bons tempos, envolto nos panos da benquerença. Bruno foi apresentado pelos pais para a alegria e deleite de tios, primas e avós, olhando-o com a ternura só concebida pelo amor. Vejo, agora, meses depois, o registro do seu nascimento e lembro do dito pelo escritor russo Antonin Tchekhov: “nas certidões de nascimento escreve-se onde e quando um homem vem ao mundo, mas não se especifica o motivo e o objetivo”. Caro Tcherkhov, o motivo da vinda do Bruno foi o desejo de um casal em tê-lo como filho não com objetivo definido, preciso, matemático. O objetivo é sutil, tênue e arriscado como todo projeto de vida, mas forte como a perseverança e a fé. Vem com o selo do afeto. Não é produto para ter selo de qualidade do InMetro, é gente, fruto da clarividência de seus pais, quilates acima de egoísmos e apegos. Vem para ser irmão de Nicolas, risonho, brincalhão, galhofeiro, contando números, lendo letras e já contando muito para todos nós, os vindos antes a este mundo de tantos ais. O saúdo, Bruno, com a liberdade concedida pela maturidade, essa a não apagar caminhos limpos, pois se alegra deles. O saúdo com a força deste ano 10, do século da maioridade brasileira, o 21, e o faço em nome dos que constam de seu sobrenome, regado por letras, lutas e lampejos de fraternidade. Deus o abençoe. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/06/2010. - [É NAMORO? NÃO É NAMORO? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/e-namoro-nao-e-namoro-jornal-o-estado/): Namorados precisam de data? Ou tudo é decorrente da tal da mão invisível idealizada por Adam Smith? Será? Abro os olhos e vejo as íris resistentes a me mostrarem o espelho fronteiriço. Na constatação do tempo percorrido vem a pergunta sorrateira: qual a razão da data? Lembram-se do falado na frase inicial? Agora, é ir procurando o caminho dessa estrada enevoada onde a proa e a popa do barco da vida escondem navegantes à procura de respostas à indagação fundamental: o que represento para você se não tenho remos? Cada par de pernas escolhe as hipóteses do trajeto e, se encontram outras duas pelo caminho e formam quatro no mesmo diapasão, há o que comemorar. O namoro é quando a fulgor acende, nunca quando mitiga. É quando há emoções e se escreve, de novo, uma história de todos conhecida, mas própria, pessoal e intransferível. Há namoro se as mãos se deparam como astros absortos, envolvidas pelo calor dos suores trocados a cada suspiro. Namoros não têm prazo de validade. Têm marca de identidade, de sutilezas percebidas pelas celebrações dos corpos, nos registros da bênção aspergida pelo encontro. É namoro quando se sonha junto, quando se descobre o abismo e uma ponte salvadora emerge do nada. É namoro quando há pensamento insone, quando a lanterna da esperança permanece azeitada e o fulgor do encontro é maior que as adversidades do dia-a-dia. É namoro se alma e corpo estão no mesmo tempo do verbo, se sei que não sabes que sei, mas desejo que saibas. É namoro quando imaginas ser criança e o jardim da infância não mais existe. Não é namoro quando as mágoas amadurecem e se transformam em ódio. Não é namoro quando se contam os minutos do encontro e se reza para tudo ter fim. Não é namoro se há interesse e não achas a pessoa interessante. Não é namoro se precisas da inteligência para dirigir o tempo. Não é namoro quando mede frases. Namoro é perdição de tempo no encontro sem horas. É namoro quando não há parcimônia, tampouco cerimônia. É namoro quando não há autoridade, mas afeição e identidade. Há namoro quando não se comanda, mas se anda, passo a passo, sem deixar rastro de desencanto. É namoro quando o outro não é um meio, tampouco fim, é sempre um vir-a-ser. É namoro quando os sussurros abafam gritos e quando os dias têm mais cores embora as horas e os astros sejam os mesmos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/06/2010. - [HORA DA DECISÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/hora-da-decisao-diario-do-nordeste/): Todos os dias somos obrigados a decidir. Fazer ou não exercícios, qual roupa vestir, tomar café ou não, qual rota ou meio de transporte tomar para o trabalho, como melhorar no serviço, como crescer profissionalmente. As decisões podem ser aparentemente automáticas, mas são frutos de processos complexos. Uns, analíticos, racionais. Outros, instintivos ou emocionais. Quase todos têm uma ou mais histórias para contar da decisão certa não tomada ou da precipitação na decisão errada acontecida. Não há regra geral, tudo é casuístico. Ninguém é totalmente razão, tampouco só emoção. Há um cientista português, reconhecido por seu saber, o professor de Neurociência da Universidade Southern Califórnia, nos Estados Unidos, António Damásio. Ele escreveu dois livros sobre o tema: “O Erro de Descartes” e “Sentimento de Si”. A redação talvez corrija o prenome dele. Colocará Antônio, maneira brasileira de escrever o nome. Isso é decisão, pois baseada na lógica da língua. Voltando ao Damásio, ele diz: “se a pessoa tem que decidir sobre a sua vida, a sua saúde, as suas relações humanas, a sua educação, é evidente que não toma decisões instantâneas”. Por outro lado, afirma ele, se alguém lhe apontar uma arma a sua reação será imediata, não precisa de elaboração ou deliberação. Ela faz parte da memória evolutiva, do aprendido com avós, pais, amigos, ambiente social etc. É comum ver gente sem saber decidir qual sapato comprar, o filme a assistir, a escolha no cardápio do restaurante. Imaginem então o dilema do(a) jovem ao decidir aos 17/18 anos o curso ou faculdade a fazer. Falta experiência e sobra ansiedade. A capacidade de decidir pode ser treinada, afirma Damásio, mas há muitas variáveis em jogo, especialmente saber se a personalidade é dual, reflexiva ou imediatista. Pensar cobra partes da intuição e razão para dar respostas certas aos desafios, medos e oportunidades. Um jogador de futebol, por exemplo, não tem tempo para pensar se entra ou não naquela bola dividida ou se chuta assim ou assado. Ele chuta como pode. O resultado depende da capacidade, treinamento e personalidade. Pelé que o diga. E o Dunga? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/06/2010. - [A GAIA DE TODOS NÓS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-gaia-de-todos-nos-jornal-o-estado/): Como há dia para tudo, convencionou-se: amanhã, 05 de junho, é o dia do meio ambiente. Estendeu-se um pouco mais e surgiu a semana do meio ambiente. E as outras 51 semanas do ano? O problema é saber o real significado de meio ambiente. Você sabe? Será, por acaso, tudo o existente na Terra, menos os animais, entre eles, o bicho homem, o mais predador? Estarei errado ou certo? O universo, seja fruto de um big-bang (grande explosão) ou da criação por uma divindade superior recebeu, por todo o sempre, o reino animal para ocupar a sua esplendorosa natureza. Essa convivência tem causado estrago. Como não sou ambientalista, etnólogo, geólogo, paleontólogo, geógrafo, agrônomo etc. cuido de ir tentando fazer, do meu jeito, a parte que me cabe neste latifúndio. Economizo água, não deixo luz acesa em ambiente sem pessoa, planto árvores, não jogo nada fora pela janela do carro, faço campanhas educacionais de reciclagens de tudo, converso com jovens, escrevo e faço passar vídeo em cinemas, sistematicamente, sobre a relação ser humano e meio ambiente. Entendo, entretanto, que a ação não deve ser só de pessoas, mas de instituições, empresas e especialmente do Município, Estado e Nação. Está lá na Constituição Federal: “todos têm o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. A coletividade somos nós. Estaremos todos realmente comprometidos ou há um jogo de faz de conta por muitos? Não é careta reclamar de sugismundos, públicos e privados. Dos lançadores pelas janelas de veículos e transportes coletivos, de pontas de cigarros, garrafas plásticas, papéis e latinhas de bebidas. É preciso demonstrar o nosso desapreço por tais atitudes transformadas em hábitos desprezíveis. Nada de defensor da humanidade, apenas pedir urbanidade. Não é bobagem, É necessidade de sobrevivência para todos com os nossos veículos, produtores diários de monóxidos de carbono. Geramos, cada um, quase um quilo de resíduos sólidos mal acondicionados, sem preocupação de separação dos materiais recicláveis. Finalmente, lembre-se, todo dia é dia de plantar árvore, não sujar, educar crianças para, inclusive, repreenderem os pais por seus maus costumes. Não basta fazer a sua parte. É preciso dar, por exemplo, uma de Pio Rodrigues e Honório Pinheiro e sair plantando milhares de árvores pela cidade. É preciso um pouco de loucura nessa luta desigual para combater este sol tropical com a sombra de árvores, sejam frutíferas ou não. Uma rua arborizada não é só responsabilidade da prefeitura, mas de seus moradores, sejam pobres, remediados ou ricos. Todos estamos nesta nau insensata da quase destruição da natureza. Sem essa de achar isso idiotice. Idiotice é sujar a casa maior, a Gaia, a deusa helênica da Terra de todos nós. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/06/2010 - [DOR E FELICIDADE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dor-e-felicidade-diario-do-nordeste/): Como dizia Aldous Huxley, escritor inglês falecido no ano do assassinato de Kennedy, “posso compartilhar as dores das pessoas, mas não seus prazeres. Existe algo curiosamente aborrecedor na felicidade alheia”. O livro maior de Huxley, “O Admirável Mundo Novo”, de 1932, fez sucesso. Criou ele uma utópica sociedade estruturada para alcançar a felicidade. Nela não havia ética religiosa ou valores morais. As referências/senhores eram Henry Ford e Sigmund Freud, confundindo-se, quiçá, em uma só pessoa pela similar pronúncia dos seus sobrenomes. Ford representaria o progresso, o Estado Mundial, e sua linha de montagem (criticada em filme por Chaplin). Freud, no livro, significaria a relação entre a psicanálise e o condicionamento humano, afiançando que a atividade sexual era fonte de prazer e não mero objeto da procriação. Tudo era ficção e visão do totalitarismo dos anos 20/30 com Stalin e Hitler. Esta introdução arrisca mostrar que o citado pensamento de Huxley, entretanto, permanece. A inveja, ou o desejo de que o outro não tenha ou usufrua a suposta felicidade que aparenta, seja material ou não, está entranhado na raça humana. Veja na Bíblia, “... a inveja destrói como câncer”, prov. 14:30. Dores humanas são indisfarçáveis, visíveis. É fácil se compadecer ou mostrar solidariedade no infortúnio alheio. A felicidade, mesmo como farsa, incomoda o outro, o invejoso, que não percebe isso. E aí ele percorre caminhos imaginários tortuosos, pela negação de qualquer coisa que seja boa para o invejado, de quem não conhece sequer desejos e entranhas. A belga Marguerite Youcenar, que alguns pensam ser francesa, no livro “Memórias de Adriano”, dizia, através de personagem, que “toda felicidade é uma obra-prima: o menor erro a deturpa, a menor hesitação a altera, a menor deselegância a estraga, a menor tolice a embrutece”. Pergunto: somos todos criadores de obras-primas? Sêneca, filósofo latino nascido antes de Cristo e que viveu 32 anos mais que Ele, afirmava “não se deve acreditar que é possível ser feliz desejando a infelicidade alheia”. Sêneca e o Latim já se foram, mas ainda parece faltar consciência e compaixão para se enxergar o outro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/05/2010. - [CONSERVATÓRIO DE MÚSICA ALBERTO NEPOMUCENO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/conservatorio-de-musica-alberto-nepomuceno-jornal-o-estado/): Um conservatório é local destinado ao estudo das artes, especialmente a música. Aqui em Fortaleza, há 72 anos, um grupo de amantes das artes, encabeçado pelas pianistas Ester Salgado, Branca Rangel e Nadir Parente resolveu criar um conservatório. Nessa época, 1938, já existia em Fortaleza uma Sociedade de Cultura Artística, com nomes como os de Paurilo Barroso e Alberto Klein. Eles incentivaram a ideia da criação do conservatório. Escolheram para a denominação um nome de referência, Alberto Nepomuceno. Nascido em Fortaleza, em 1864, cedo a sua família se mudou para Recife e já em 1880, com a morte do pai, passou a ser o arrimo da família, dividindo-se entre a função lúcida e necessária de tipógrafo e a lúdica de professor de música. Foi amigo de Clóvis Beviláqua, Farias Brito e Tobias Barreto que estudavam na tradicional Faculdade de Direito do Recife. Nepomuceno parara de estudar, simplesmente para manter a família. De sua amizade com Tobias Barreto surgiu o interesse pelo estudo da filosofia, da língua alemã e tornou-se defensor declarado da abolição da escravatura e da causa republicana. Já em 1885, Nepomuceno se muda para o Rio de Janeiro para aprender mais. Lá, reativou os estudos de piano no Clube Beethoven, logo vindo a ser professor da casa. Machado de Assis, por acaso, era bibliotecário do clube. Nasce aí o interesse de Nepomuceno pela literatura brasileira. Até foi parceiro em composições musicais com letristas como o próprio Machado, Coelho Neto e Olavo Bilac. Sua inquietude e desejo de aprimoramento, o levaram à Europa em 1888, estudando com grandes mestres em Roma e Berlim. Na volta, em 1894, passa a ensinar no Instituto Nacional de Música. Sua obra é vasta e inclui música dramática, orquestral, câmera, instrumental, vocal e sacra. Assim, o Conservatório de Música Alberto Nepomuceno nasceu com a bênção de um nome consagrado, de origem simples, como até hoje o é. O duradouro e encantador sonho da maestrina Mirian Carlos, sua dirigente maior, completou anteontem, 26 de maio, 72 anos de dura e profícua vida. Sou testemunha há anos da batalha imensa dessa professora e de seus inúmeros companheiros musicistas para manter viva a chama que bruxuleia, como um diapasão. Hoje, sexta, às 19.30h, haverá o encerramento de uma semana de atividades musicais comemorativas dos 72 anos do CMAN que teve destaques como o Projeto Ensaio, recital de Pedro Bruin, concerto/homenagem a Alberto Nepomuceno com a regência de Vasquen Fermanian da Orquestra de Câmera Eleazar de Carvalho, e festival de piano em conjunto. O Ceará precisa, certamente, manter bem abertas as múltiplas salas de aula do Conservatório Alberto Nepomuceno instituição que transforma crianças, jovens e adultos em amantes ou profissionais da música em suas várias formas e manifestações, mas, especialmente, os torna sensíveis à cidadania que sempre desponta nas almas dos são tocados pela mágica dos sons encadeados. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/05/2010 - [PAPO SÉRIO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/papo-serio-diario-do-nordeste/): Domingo é dia de conversa leve. Acordar relaxado, ler o jornal com os pés para o alto e pensar no almoço tardio com a família ou amigos. Acontece que, por ser dia vadio para a maioria, a cabeça fica disponível para pensar e tirar conclusões. Vamos pensar juntos? Será que você vive em um mundo real ou fantasia demais? Um pouco de fantasia não faz mal, mas tirar os dois pés das pedras da vida pode causar problemas. Sei que você não está nem aí para a tal crise da Grécia. Nem grego falamos. Tampouco se dá conta de que há muitas empresas brasileiras, desde alguns anos, lançando-se na Bolsa de Valores -em queda livre - e trocando papel por dinheiro. Com isso, saem planejando, comprando e entram num eixo sem fim. Há, por exemplo, Brasil afora, centenas de empresas construindo e vendendo imóveis a entregar com prestações iniciais mínimas e prazos longos para pagamento. Há algumas sérias, é claro. Mas, há gente prometendo o que não pode. Na área de petróleo, há um grande xis na questão, vendem o que ainda nem prospectaram, com dinheiro do BNDES, e tampouco sabem se vão refinar e entregar. O mercado financeiro brasileiro diz-se sólido, mas há empresas vendendo recebíveis duvidosos. Os recebíveis são títulos que alguém promete pagar o que comprou, alugou ou arrendou. Foi assim com o mercado de hipotecas americano. Pessoas compraram casas acima de suas rendas. Veio a crise, os empregos diminuíram, hipotecas deixaram de ser pagas e bancos quebraram. O Brasil não é esse mar de rosa que gostaríamos que fosse. As cidades estão repletas de construções e de carros novos vendidos a perder de vista. E se o Zé perder o emprego? Como vai pagar a prestação do carro? Quando isso acontece, títulos perdem o valor e começa o transtorno na economia. E tem gente que compra logo casa, carro e móveis e não pensa como pagar se o emprego pifar. “Deus dá um jeito”, pensam uns, mas Deus anda preocupado também com o vulcão que espalhou cinzas pela Europa e deu um chega pra lá na Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda, que até bem pouco nadavam em oportunidades. Desculpe ter escrito isto neste domingo, mas sempre é bom desconfiar. Eu, quando confiei, me dei mal. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/05/2010. - [O CAOS URBANO DAS CIDADES BRASILEIRAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-caos-urbano-das-cidades-brasileiras-jornal-o-estado/): Nós, os que moramos nas grandes cidades brasileiras estamos nos neurotizando pelo tempo perdido a cada dia com engarrafamentos, deficiência e morosidade dos transportes coletivos, invasão crescente dos “flanelinhas”, camelôs e distribuidores de panfletos nos cruzamentos. Há a mera e lucrativa implantação de equipamentos eletrônicos para multar, e quase nenhuma solução para a mobilidade urbana. Vou procurar, neste aligeirado escrito, lançar algumas questões, todas em aberto. Tudo faz crer que prevalece o que foi chamado ainda nos anos setenta pelo Prof. Lúcio Kowarick como a “lógica da desordem”. Seria uma variação da Lei da Entropia que derruba o pressuposto de que a evolução da ciência e da tecnologia geram um mundo mais ordenado. Quem ganha com isso? As cidades brasileiras precisam, urgentemente, de arquitetos com nova visão urbanística e de políticos que saibam ver o caos do presente e pensar, com coerência e sonho, o futuro. Advogo que o urbanismo, especialidade da arquitetura, deve ser visto e complementado de forma mais abrangente por sociólogos, demógrafos, geógrafos, economistas, ecologistas, advogados, administradores, engenheiros etc. O urbanismo não é um mero conjunto de traçados, ações ou de palavras técnicas bonitas, ditas à exaustão, mas, quase sempre, com discutível conteúdo. Ele é algo profundamente complexo que precisa de criatividade, conteúdo, organicidade e objetividade. Dá pena ver o que as cidades brasileiras sofrem com a perda de suas identidades. Em 2008, o famoso arquiteto americano, de origem chinesa, Chien Chung Pei, ao participar no Brasil do seminário Arquictetour disse que as cidades brasileiras não só precisam criar ou melhorar suas infraestruturas para atrair o turismo, mas devem descobrir um ícone, seja cultural, social ou arquitetônico que as represente. As cidades carecem de identidades, não podem ser meras cópias de outras. Por outro lado, o arquiteto Sylvio Barros Sawaya, da USP, acredita que o mero tombamento “de um edifício por seu valor histórico e deixá-lo impróprio ao uso é resultado de crendice temerosa e idolatria deslocada”. O inquestionável caos das cidades causado pela democratização da aquisição financiada de carros e motos é fruto, inconteste, da inexistência de um planejamento urbano que priorizasse o transporte coletivo de massa. Em pesquisa, tomando como base o ano de 2005, do EnvironMentality –Imae, publicado no caderno Mobilidade Urbana, do jornal Valor, de 16.05.2010, verifica-se que o percentual de pessoas transportadas, no Brasil, por veículos em trilhos (trens/metrôs) corresponde apenas a 3% dos passageiros. 26% andam de ônibus, 27% usam carros, 2% viajam em motos e, pasmem, 42% anda a pé. É claro que de 2005 para cá aumentou o número de bicicletas, carros e motos em circulação. A interligação por modais (trens e ônibus) ainda é muito precária. Quase não existem garagens ou estacionamentos públicos e, em algumas cidades, os edifícios-garagem são até coibidos. É comum, por exemplo, que ônibus e camionetas – piratas ou não – de cidades metropolitanas invadam, sem pudor e sem sanções, o já conturbado e diminuto espaço das vias urbanas das capitais. Como no Brasil de hoje só se pensa, além da política, em dois eventos grandiosos, a Copa de Futebol de 2014 e as Olimpíadas de 2016, é urgente criar para as populações e turistas soluções viárias mais simples e menos onerosas, como a da cidade de Curitiba onde o urbanista Jaime Lerner inventou um rápido sistema de transportes públicos, com calhas próprias, desde os anos setenta. É bom lembrar o que dizia o escritor italiano Ítalo Calvino, “as cidades, como os sonhos, são feitos de desejos e medos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/05/2010 - [QUINTESSÊNCIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/quintessencia-diario-do-nordeste/): Retorno de um enterro: “vaidade das vaidades, e tudo é vaidade”, diz o Eclesiastes. Existem vaidosos para tudo. Imagine o mundo da absoluta vaidade ou futilidade. Não há limites para ele. Agora, o Brasil já pode se considerar integrado ao primeiro mundo. Foi aberta, em SP, a filial da ”Quintessencially”, empresa que tem como lema entregar “qualquer coisa que o dinheiro possa comprar”. Será que essa empresa pode entregar uma medula nova para um tetraplégico? Ou o remédio para a cura do Alzheimer? Como dizia Louis-Ferdinand Céline, escritor francês, morto em 1961, “não existe vaidade inteligente”. E o pior é que alguns paulistas já se afiliaram a essa doidice. Um dos ditos cujos estuda a possibilidade de gastar R$ 1,3 milhões para trazer a “Lady Gaga” (quem é ela mesmo?) para uma festa “privê”. Privativa é coisa de gentinha. Pois bem, a colunista social Mônica Bérgamo, da Folha de SP, em 09 deste maio, faz um “test drive”, com endinheirados, de um colar que custa R$1 milhão, ou como ela diz “o preço de três apartamentos de dois quartos em Perdizes ou 24 carros C3 da Citroën”. Lá pelas tantas, uma dondoca indagada se o compraria e usaria, disse: “Usaria com um longo. Cag... do de medo, com três seguranças”. Pela linguagem, se vê que perua rima com mundo da rua. Sabe-se que colunistas sociais dão “corda” para que algumas pessoas se soltem e paguem micos. Uns, apresentam-se em fotos com sobretudos em plena primavera europeia. Alguns acreditam que conhecem vinhos. Faça uma prova cega, a da garrafa sem rótulo. A maioria não diz sequer a uva, quanto mais a marca. Bobagem pura. Outros imaginam que conhecem, por exemplo, Nova Iorque, e nunca saíram dos limites do distrito de Manhattam onde ruas e avenidas são numeradas. Saíram sim, mas não sabem sequer que o Aeroporto JFK fica no Queens. Como dizia Machado, no seu romance “Quincas Borba”: “pensa que fez grande coisa quem a faz pela primeira vez”. Nós todos pensamos que somos isso e aquilo, mas, no duro, somos apenas o que todos os do mundo são, almas em trânsito por esta fugidia vida neste planeta que, com certeza, não guardará lembrança do que tivemos ou portamos. Quiçá, do que fizemos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/05/2010 - [CLÁUDIO PEREIRA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/claudio-pereira-jornal-o-estado/): A noite de Fortaleza procura em vão por Cláudio Pereira. Os amigos, desolados, sabem que aquele copo de rum com Coca-Cola não mais adornará as muitas mesas de bares de todos os nossos pontos cardeais. Uma curva má afamada e agourenta, entre João Pessoa e Recife, pensou que, em cortando os movimentos de seus membros inferiores, o aniquilaria. Médicos daqui e de fora, em cirurgias, quedaram-se impotentes diante do quadro real de hemiplegia. Coitados desses médicos que vaticinaram vida breve ao então enfermo. Cláudio riu deles por 37 anos. Riu quando assumiu a Fundação de Cultura de Fortaleza, por três administrações diferentes, e agitou esta cidade como nenhuma entidade ou pessoa o fizera. Não foram livros não lidos que transmitiam essa cultura, mas o fermento que ele impôs nos múltiplos salões de Abril que regiam a arte com a ajuda do então curador João Jorge Melo, que lamentava a perda do ex-chefe que “tinha o caráter da dignidade, na força da resistência, realizados no sonho de viver”. Não foram discursos barrocos que enchem o vazio de seus autores que Cláudio levou para a periferia. Levou folguedos, músicas e livros acessíveis, palavras curtas de duração e plenas de integração. As batidas dos maracatus ressurgiram em seus passos sincopados por conta de um homem que não podia dar um passo sequer. E o menino Cláudio Roberto de Abreu Pereira, aos 14 anos, passou no concurso do Curso de Aprendizagem Bancária, do Banco do Nordeste. Fez-se bancário e jornalista, sem se descuidar do diploma de Direito pela UFC. Depois, após a curva, veio a francesa Martine Kunz, essa professora-doutora de literatura apaixonada pelo Ceará que, de tão perspicaz, se casou com Cláudio, a sua síntese da terra amada e adotada. Esse casamento tinha a fragrância da benquerença permanente entre culturas díspares, mas complementares. Viraram o mundo por américas e Europa. O sobrinho-neto de Capistrano de Abreu foi também chamado para uma academia de letras. E aí navegou por pélagos novos da cultura, aqueles que sabem de suas limitações, mas têm a grandeza de aprender. Agora, estou voltando de seu velório e sepultamento. Não havia autoridades. O jazigo virou um vasto tapete de flores. Amigos de cãs gris das múltiplas faces e jornadas de Cláudio se sentiam patéticos. E, após o violino calar, Maria Luiza Fontenele falou com a alma dos que não se enlodaram na política e disse que “Cláudio marcou a história do Ceará e da administração popular da cidade por sua solidariedade, capacidade de romper barreiras e ter compromisso com o coletivo”. Após tudo, pedi à Mônica Barroso, sua velha amiga noturna, que o definisse. Ela, olhos lacrimejando, disse que “ele era a concretude da fraternidade, da igualdade e da alegria cercado por um exército de amigos”. Esses amigos estavam lá, mudos de vozes, desvalidos, cientes de que o insondável levara o Pereirão. A relva em que pisavam no entardecer deixava ver a terra revolvida e tinham, mesmo a contragosto, a certeza da finitude, do pó. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/05/2010. - [RAZÃO, PAIXÃO E BOLA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/razao-paixao-e-bola-diario-do-nordeste/): Onde andava a minha razão na tarde do domingo passado? Quantas pegadas de paixão medravam este coração acelerado? Como fugir do frêmito das torcidas, se tive a coragem de usar o controle remoto e, em minha oca, vi a TV a conspurcar o silêncio. Iria participar de emoções explícitas em faixas, xingamentos e as dúvidas que precedem o apito final. Foi assim que passei os noventa e tantos minutos, intercalados por comerciais a determinar a volta ao espetáculo, o segundo tempo. A memória teimava em “flashback”, como se fora um filme ao contrário. Rebobinava imagens do fim da infância e o despertar da puberdade. Estava no antigo PV, no Benfica, a sofrer em outras finais de campeonato. O Fortaleza vencia, quase sempre. O pixote aguentava nesse par de horas as idas e vindas da vândala bola, ora triste, ora temeroso e de coração acelerado. Para, em seguida, a alegria incontida transformar-se em grito com o traspasse da vândala pelo complexo caminho das traves e receber o beijo das redes. Essas que não têm time e torcem sempre contra os goleiros, caras solitários que, de repente, se assustam com o que pegam, espalmam ou falham. Chorava de alegria e via, ao lado, o também meninote e amigo Ruver Herculano enxugando as suas. Ruver é hoje medico e avô, mas creio ainda perder a razão pela paixão que nos torna patéticos na beira da noite quando o apito final brinda uma facção com a vitória e uma taça de lata passa a ser beijada por jogadores suarentos que, eventualmente, jogam pelo nosso time. E o pior, amigos, é que no último domingo o apito final não era o fim. Havia uma questão em jogo. Era preciso decidir nos penais, os antigos pênaltis, quem sairia de lá com o galardão da vitória e qual o time que, sorrateiro, desceria primeiro o caminho lúgubre do vestiário do desencanto. Minutos não passavam, no troca-troca de goleiros e cobradores. E deu Fortaleza, com a ajuda da trave e das mãos de um goleiro hábil que flertara com as redes às suas costas. A razão pedia calma, a paixão reclamava seu quinhão e o futebol perdeu a tela para a voz chata e as breguices do Faustão. Liguei: D. Margarida, vencemos. Ela, aos 91: eu vi tudo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/05/2010 - [URNAS ELETRÔNICAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/urnas-eletronicas-jornal-o-estado/): Já faz tempo que muitas empresas e pessoas da área de informática e da política levantam dúvidas sobre os sistemas usados na apuração dos votos pelas urnas eletrônicas brasileiras. Muitos fazem uma pergunta simples, ainda não respondida: se o sistema brasileiro é à prova de erros ou de fraudes, quais as razões que não o transformaram em modelo a ser adotado em outros países, especialmente os mais desenvolvidos, que poderiam simplificar o trabalho e ter os resultados mais rápidos, como acontecem no nosso país? Parece que não houve receptividade do mundo tecnológico europeu e americano para os sistemas que o Brasil adota. A Alemanha até que tentou, parcialmente, nas eleições federais de 2005, o processo de urnas eletrônicas. Entretanto, o Tribunal Constitucional Federal de lá considerou, em 2009, que “um evento público como uma eleição implica que qualquer cidadão possa dispor de meios para averiguar a contagem dos votos, bem como a regularidade do decorrer do pleito, sem possuir, para isso, quaisquer conhecimentos especiais.” Sabem todos que a Alemanha é um dos países mais avançados em direito e, talvez por tal razão, considerou o uso das urnas uma transgressão das leis que garantem o pleito como fato público. Assim decidiu o Juiz Andréas Vosskuhle ao anunciar a decisão da Corte Alemã em março de 2009(DW-World. De, 03.03.09). Voltando à pátria amada: um grupo, chamado de Comissão Multidisciplinar Independente, CMI, sob a égide da Ordem dos Advogados do Brasil e de partidos políticos, resolveu entregar um relatório que apontaria riscos de fraude nas próximas eleições. O que estranham é que não exista uma participação clara de partidos, empresas de tecnologia, nacionais ou estrangeiras, na auditagem ou exame da segurança dos sistemas utilizados. O relatório foi entregue, em abril passado, à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal. Mas, quem garante que a CCJ, em ano eleitoral, vá mexer nesse vespeiro? Essa mesma comissão, a CCJ, usa o tempo como aliada para boicotar o projeto “Ficha Limpa”, de origem popular. Sabe-se que o Ministério Público está atento, mas promotores e procuradores são ameaçados por projeto do Dep. Paulo Maluf para que “sejam mais responsáveis e menos sensacionalistas”. O engenheiro Amilcar Brunazo Filho, que deu linguagem técnica ao relatório da OAB e dos partidos, disse ao jornal Valor Econômico (12.04.10) que a atual auditoria externa de verificação da lisura “é totalmente dependente das pessoas que desenvolveram e controlam o sistema e também do próprio software das urnas eletrônicas”. O relatório entregue lança as dúvidas da OAB e dos partidos que não poderão saber se há ou não a instalação de “malwares”. Os “malwares” são programas viciados ou viciáveis, de modo a, por exemplo, mudar votos nulos ou brancos para partidos ou candidatos. E agora? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/05/2010 - [FICHA SUJA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ficha-suja-diario-do-nordeste/): Este ano, em 03 de outubro, você vai votar. A Copa do Mundo terá passado. Cessarão pesquisas, debates e comícios. Até lá haverá de tudo para encantar você. Descubra, por si, a oportunidade de escolher candidatos(as) a deputado estadual e a federal, eleger dois senadores(as), um(a) governador(a) e um(a) presidente(a) da República. O horário eleitoral costuma ser quase ficção por conta da capacidade ilusionista dos marqueteiros, das promessas e alianças claras e espúrias. Desde o ano passado um projeto de iniciativa popular, isto é, que brotou da esperança ainda viva do povo, corre na Câmara Federal. Deveria ter sido aprovado em abril, mas há protelação do colégio de líderes e da Comissão de Constituição e Justiça para que, nesta eleição, não seja ainda exigida a tal Ficha Limpa dos candidatos. Nesse caso, você é que deverá descobrir, por sua conta e risco, quem são os(as) candidatos(as) já condenados por crimes de diversas espécies. É sabido que alguns usam o mandato como forma de proteção para os seus desmandos, conluios e delitos. Hoje, só é impedida de se candidatar pessoa já condenada por sentença transitada em julgado, sem possibilidade de recursos. Caso o projeto Ficha Limpa já houvesse sido aprovado, ficariam inelegíveis os candidatos condenados por colegiado de magistrados, independente da instância. Seus advogados têm por ofício a defesa de seus representados e criam chicanas ou tumultos processuais. O mais gritante nessa história é que nenhum dos 513 deputados foi o autor da iniciativa. E o colégio de seus líderes não chega a um acordo para a votação. Coube ao povo promover a coleta de assinaturas que chega a um milhão e seiscentas mil pessoas. Movimentos populares, sem apoio de partidos ou entidades de classe, costumam ser ridicularizados e não contam com apoio da grande imprensa que, quase sempre, os rotula de sonhadores e deixa claro que, no mundo real, a história é outra. Assim, procure saber em quem vai votar. Não deixe para a última hora. Se você lida com a internet vá conhecendo quem pode merecer seus votos. Tente fazer uma pesquisa séria e não anule seu voto. Votar é um direito. Escolha bem. Faça a diferença. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/05/2010. - [ANO DE TODOS. ANO DA RACHEL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ano-de-todos-ano-da-rachel-jornal-o-estado/): A Academia Fortalezense de Letras tem participado, presencialmente, de todos os eventos até aqui realizados em comemoração ao centenário de nascimento da escritora cearense Rachel de Queiroz. Estivemos no “O Povo”, quando do lançamento de campanha alusiva à ex-cronista daquele jornal. Posteriormente, a Fortalezense reuniu, em sessão festiva, no dia 11 de abril, seus membros e convidados no Espaço “Não me Deixes” da 9ª. Bienal Internacional do Livro do Ceará, no Centro de Convenções. A AFL, pela segunda vez consecutiva, 2008-2010, logrou esse intento. Reuniu, em público, os seus acadêmicos em uma bienal para jograis, discussões e, certamente, homenagear Rachel. De 23 a este 30 de abril, a Fortalezense e a Secult estão realizando a 2ª. Exposição (a primeira foi ano passado) “Viajando nos Livros”, no Benficarte, no Shopping Benfica, em que Rachel é homenageada. Hoje é o último dia. Ainda nesta semana, no dia 27, a AFL participou da mesa diretora da sessão solene em homenagem a Rachel de Queiroz, no plenário 13 de maio da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. A sessão foi presidida pela deputada Rachel Marques, autora do requerimento. Na abertura, disse ela que se considerava, tal qual a homenageada, uma fortalezense que adotou Quixadá. Nessa tarde festiva era maior o número e o brilho de quixadaenses que os nativos de Fortaleza. Eles vieram preparados. Encenaram uma breve peça em que Rachel aparece menina, adolescente, mulher jovem e senhora madura. Houve cantador de viola e cordelista com louvações versejadas. As professoras Lourdinha Leite Barbosa e Cleudene de Oliveira Aragão apresentaram uma coletânea, enfeixada em livro, por elas organizado, “100 anos de Rachel de Queiroz, Vida e Obra” e editado pelo Inesp, dirigido pelo prof. Antônio Nóbrega Filho. O reitor da Universidade Estadual do Ceará, Francisco de Assis Moura Araripe, registrou a ideia de se criar o Instituto Rachel de Queiroz. A festa foi longa e os deputados Artur Bruno, Teodoro Soares (membro da AFL) e Júlio César disseram da alegria de ver tantos jovens estudantes e amantes das letras naquele recinto. A sobrinha Maria Inês Queiroz Chaves agradeceu em nome da família de Rachel. De nossa parte, cobramos, descontraidamente, a parte que cabe a Fortaleza na sua vida. Afinal, ela nasceu ali pertinho do Passeio Público e estudou no Colégio da Imaculada Conceição. Só depois, muito depois, Rachel foi para o Rio, onde teve mais de uma morada e lá se finou em 4 de novembro de 2003. Mas, Rachel sempre vinha ao Ceará e, antes de pegar a estrada para Quixadá, fazia pouso em Fortaleza para se reabastecer das estórias da cidade e trocar dois dedos de prosa com parentes e amigos. É por isso que dizemos, Rachel é de todos e, especialmente, da literatura modernista brasileira. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/04/2010. - [TEATRO BRASILEIRO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/teatro-brasileiro-diario-do-nordeste/): Ao meu olhar, temos poucos bons autores de peças teatrais brasileiras contemporâneas. A TV engole o teatro, que resiste. No, no meu leigo juízo, lembrei-me do autor de teatro Gerald Thomas, um desses brasileiros que, por ter nome estrangeiro e vivido muito tempo no exterior, sempre corre o risco da perda de identidade cultural. Aqui e lá. Ele foi e é polêmico e, nos anos noventa, criou peças loucas Depois de se separar de sua parceira, Daniela, foi companheiro da atriz Fernanda Torres, filha de Fernanda Montenegro. Em uma das peças (The Flash and the crash days) que montou em 1993, em São Paulo, Gerald usou, esta a palavra correta, as duas fernandas em cena sugerindo quase sexo explícito entre filha e mãe. Fiquei aturdido. À época, neste mesmo DN, escrevi artigo sobre a peça e concluí dizendo: “Lembro que, ao sair do teatro, tive a coragem de perguntar a espectadores se haviam entendido a peça. Disse ainda, quem tiver entendido levante a mão. Todos riram e ninguém levantou um dedo sequer”. Na verdade, o que ele fez nessa e em outras produções foi uma espécie do teatro do absurdo, sem Ionesco. “The Flash” pode ser remontada em qualquer sequência de cenas que não faz nenhuma diferença e há quase ausência de diálogos. Agora, neste 17.04.10, leio na Folha de São Paulo um artigo assinado pelo Gerald Thomas ao comentar o livro “Teatralidades contemporâneas”, de Sílvia Fernandes. Ele, enfim, para alegria dos que gostam do teatro verdadeiro, diz que vai deixar a ribalta. Transcrevo: “Agora, tendo me despedido do teatro, através de um artigo no velho blog...E continua: “vejo minha vida teatral e operística com grande saudade, mas com uma tremenda resolução: sou um ponto zero, um ponto falho, se deixei falhas enormes para trás”. Ao final do artigo, Gerald afirma que “paga-se um preço ao criar, e paga-se outro para imitar. O ‘teatro-supermercado de “gadgets” que precisamos para viver é algo chato e sem pensamentos a respeito de si. O teatro não se repensa há tempos”. O teatro brasileiro precisa, realmente, fazer uma autocrítica, mas, por favor, não convidem o Gerald Thomas, agora auto exilado em Londres. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/04/2010. - [SOBRE LIVROS E LEITURA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sobre-livros-e-leitura-jornal-o-estado/): Participei, nesta semana do livro, de debate na TV Fortaleza. Agradeci a Arnaldo Santos, coordenador, pelo oportuno convite. Falei a Auto Filho, Secretário da Cultura do Ceará, da alegria pela participação efetiva e bem recebida da Academia Fortalezense de Letras na 9ª. Bienal Internacional do Livro. Arnaldo criticou a ausência de políticos na Bienal. Ao meu lado esquerdo, estava a jornalista Adísia Sá, mestra e escritora. Ela é mulher casada com o livro de papel. Argumentei que o livro foi e é o caminho usado por nós, os debatedores, para aprender, procurar entender os fatos do mundo, aguçar o pensamento e transformá-lo em conhecimento, depois de depurado.Lamentei que só 7,0% da população brasileira adquire livros não didáticos. Constatei, por pesquisa do Ibope, que crianças entre 4 a 11 anos passam 5 horas por dia defronte a um aparelho de televisão. Segundo o mesmo IBOPE, 60 milhões de pessoas (adultos e crianças) passam igual número de horas diárias frente às tvs vendo novelas, programas policiais, fofocas, esportes, notícias plantadas e apresentadores apelativos. Relatei, com base em pesquisa nacional de 2009, feita pela Ipsos Public Affair, que mesmo as pessoas que dizem ter algum tipo de atividade cultural, - seja ir ao cinema, teatro, ler, comparecer a shows, dançar em festas e ver exposições de arte - apontam uma baixíssima média anual. Leem 5,1 livros, assistem a 4,1 filmes, vão a 3,8 shows, participam de 3,5 eventos de dança e só veem 2,1 exposições de arte. Por ano, lembrem. Argumentei, citando o crítico literário José Paulo Paes que lutava, entre outras coisas, pela facilitação da leitura e escreveu o ensaio “Por uma literatura de entretenimento (ou: o mordomo não é o único culpado)”, no livro “A aventura literária”. Segundo Paes, os escritores brasileiros precisariam ser menos canônicos e não apelar tanto para o regionalismo. Ler deve ser um prazer para quem está iniciando e não punição ou tortura. Ainda, segundo Paes, muitos escritores manteriam discussões linguísticas e acadêmicas e se descuidariam do público leitor. Viveriam em atritos, igrejinhas e se bastariam em suas questões recíprocas. Todos sabem que é preciso ter gosto de leitura apurado para ler, por exemplo, Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Mas, nada impede que se comece com escritores de linguagem mais simples. Acreditava ele haver preconceito contra a crônica, o romance policial, a ficção científica e o sobrenatural. Constatamos que todos devem procurar gostar de ler, desde cedo. Um bom leitor não tem solidão. Ele tem o livro como companhia, sempre. Sabemos que o mercado editorial já descobriu que livros de leitura mais acessível são fáceis de vender. Mas, é um absurdo que o livro “A Cabana” esteja há meses na lista dos mais vendidos no Brasil. Auto Filho afirmou que o brasileiro passou do estágio da oralidade para a cultura do audiovisual. sem parar no livro. Isto é, passou das histórias de Trancoso, assombrações ou de ninar para as novelas. Adísia Sá reclamou que não se lê e referiu que até professores universitários, inclusive doutores, quase nada leem. Pareceu claro para nós que alunos da 4ª. série do ensino fundamental não conseguem desenvolver competências básicas de leitura. Informei que o Brasil tem apenas 2.500 livrarias, quando, segundo especialistas, seriam necessárias 10.000. Disse ainda que 89% dos municípios brasileiros não têm uma única livraria. As pequenas livrarias estão definhando com o surgimento de mega-stores que focam na autoajuda e em livros ditos profissionais. Entretanto, paradoxalmente, o Brasil é o oitavo maior produtor de livros do mundo, com 2.000 editoras, mais de 12.000 títulos e 300 milhões de exemplares por ano. Desse total, 93% são livros didáticos, a maioria pagos pelos governos e, somente 7.0% são de outros gêneros. Por outro lado, é preciso saber que a leitura digital já vai atingir neste 2010 o total de 10% do mercado de livros nos Estados Unidos. Certamente, haverá um impacto nos livros didáticos, com a possibilidade de consulta de mapas e fazer pesquisas em salas de aulas equipadas com computadores ligados à internet. A distinção entre livro físico e livro digital já deve ser considerada. Estes serão, inicialmente, para um público específico, mas os e-books vieram para ficar. O Kindle, o Sony-reader e o I-pad podem ser popularizados e transportados para os computadores de bibliotecas públicas e escolas. Ler é viver. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/04/2010. - [UTOPIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/utopia-diario-do-nordeste/): Reflita: enquanto são gastos bilhões de dólares na África do Sul para a realização da Copa Mundial de Futebol deste 2010, esquece-se que lá o apartheid ainda resiste. No último mês, um branco - tido como racista - foi assassinado. Saudações nazistas no enterro. Passou nas tvs do mundo. País vizinho à África do Sul sofreu atentado. Morreram jogadores de futebol de seleção. Quase toda a África padece de fome, desnutrição e Aids, em percentual significativo da população. Há ainda regimes de exceção. Agora, por exemplo, uma facção, dizendo-se o braço africano do Al-Qaeda, promete atentados durante a Copa. O mundo, esse largo orbe, precisa parar para pensar. Que tal uma utopia mundial por um dia? As pessoas não sairiam de suas casas. Televisões, rádios e internet deixariam de funcionar. A indústria, o comércio e serviços paralisariam. Ficaríamos silentes. Faríamos balanços das nossas vidas. Infância, crescimento, desempenho profissional, relações afetivas, engajamentos -ou não - com os outros. Os outros são aqueles com quem não temos laços de sangue, amizade ou interesse. Os outros são a humanidade. A soma dos indivíduos da Terra. Passaríamos esse dia em pleno silêncio, nada funcionaria, as ruas ficariam desertas, aeroportos fechados e faríamos reflexões. Até um breve jejum de carnes e peixes. Tomaríamos água com vagar e pensaríamos no desperdício causado à natureza. Olharíamos uns para os outros, mas sem toques ou palavras. Pés descalços e roupas usadas. O grande problema é que essa utopia precisaria de um líder com visibilidade mundial. O Lula seria a opção, mas ele anda atarefado demais com a candidatura da Dilma e a possibilidade de obter posto em organismo internacional já em 2011. Outro seria o FHC, mas é ranheta. E o Papa? Há problemas seriíssimos com os seus pastores e as dores naturais dos com mais de 80. E o Obama? Está assoberbado com o novo plano da saúde dos EUA e as guerras do Iraque e Afeganistão. E o Paulo Coelho? Saiu da moda. Até o Chico Xavier foi cogitado. É hoje um espírito de luz com cartas multilíngues. Que tal a Madonna? Ela tem Jesus, disponível. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/04/2010. - [IMAGINE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/imagine-jornal-o-estado/): Imagine-se sem dinheiro, sem estudo, sem trabalho e sem casa. O primeiro terreno, seja em beira de rio, encosta de morro ou “rua da prefeitura”, serve. O mais é sair juntando madeira, parcos tijolos, entulho, papelão, telhas velhas, pneus e a morada estará pronta. Uma puxa outra, mais outra e se forma uma favela. Dirão sempre que moram ali há anos. Aí aparecem os políticos e os candidatos a políticos e dizem que vão urbanizar, iluminar e sanear. Imagine, paralelo a isso, uma indústria crescente no Brasil, a da invasão de terrenos. Há tropas de choque para escolher, definir, fotografar, filmar, “olhar no google”, programar e invadir terrenos. Tudo nas cidades. Os invasores têm “tecnologia”. Dá lucro fácil e as revendas são rápidas. Geralmente, aos fins de semana, grupos invadem área, marcam os “lotes”, os fiscais e a polícia fazem vista grossa e cria-se o que definem como movimento social de ocupação. E assim o fazem. Os processos de reintegração de posse quase não andam. Os juízes alegam não poder mandar citar “José de tal”, Maria do Barraco Azul etc. Os legítimos donos querem sua devolução, contratam advogados, pagam custas judiciais e amargam anos, décadas até, para o processo andar. E se não pagam o IPTU do imóvel invadido vão para o SPC, Serasa e, em breve, sacarão os impostos das suas contas bancárias. Imagine-se também com a capacidade de mapear nas cidades as residências dos policiais civis e militares. Por ganharem aquém do necessário, moram, quase sempre, na periferia e aí, mesmo sem desejarem, são obrigados a conviver com todos. Parte ínfima do todo é composta de marginais, tal como acontece também em bairros onde moram os tidos como classe média e “ricos”. Dessa proximidade espacial surge a camaradagem e daí para o desatino bastam a argúcia do delinquente, a tentação e a necessidade. Por tudo isso é que me pergunto se as ações humanitárias que o Brasil faz no Haiti (é claro que o Haiti precisa, mas...) e em outros países mais pobres que o nosso, não deveriam começar aqui com a atenção para, por exemplo, os que cuidam da segurança pública, sejam policiais ou agentes prisionais. Mereceriam eles ou não serem clientes prioritários, por exemplo, do “Minha Casa, Minha Vida”? Um redesenho dos antigos financiamentos da Caixa para casas populares, das antigas cooperativas habitacionais, das ancestrais Cohabs e tudo o mais que foi considerado o sistema financeiro da habitação. Criou-se por lei (4.380), extinguiu-se pela desídia e malversação. São Paulo e o Rio são estados onde a miséria e a riqueza moram juntas. Em qualquer cidade média ou grande, também. Claro que uma chuva forte de mais de 200 milímetros pode causar estragos, mas o saneamento básico- quando existe - deve servir também para coletar dejetos e escoar as águas da superfície em bueiros limpos. E onde ficam os bueiros limpos? Se há ocupação consentida de morros, encostas, orlas marítimas, rios e lagoas, estamos, a cada dia, plantando o caos para a próxima enchente. A solução não é olhar para a meteorologia, mas cuidar de fazer certo o que se propaga e não se executa. Desde o século passado. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/04/2010. - [HOJE, NA BIENAL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/hoje-na-bienal-diario-do-nordeste/): Este artigo é um convite especial para você, leitor(a). Hoje, domingo, às 11 horas, no Espaço “Não Me deixes”, no Hall Central do Centro de Convenções, a Academia Fortalezense de Letras realiza sua segunda sessão em bienais do livro. Vá, esperamos por você. Será uma forma simples, leve, audaciosa e manifesta de aproximar uma nova academia do público que se pretende ver em eventos literários. Sabemos que tradições devem ser respeitadas, mas urge oxigenar a cultura, dando ênfase na comunicação entre os que escrevem e os que leem, ainda que não sejamos sábios ou expoentes no que fazemos. Livro sem leitor é cadeado sem chave. Nessa reunião, o professor de literatura brasileira, Carlos Augusto Viana, falará sobre a obra literária de Rachel de Queiroz, enquanto o escritor José Luís Lira dirá de sua amizade - na varanda sertaneja - com a já então madura autora de “O Quinze”. Teremos a presença benfazeja de jovens integrantes de academias estudantis, que apoiamos. Tudo girará em torno da comemoração do centenário de nascimento de Rachel, patrimônio imaterial de todo o Estado do Ceará e, especialmente, da fortalezense cidade, onde nasceu e mantinha pouso. Se puder, dê um pulo lá, vale a pena, acredite. Vocês estão convidados a comparecer, não só a essa sessão, mas a todos os eventos da 9ª. Bienal Internacional do Livro do Ceará, aberta na sexta e que vai até o dia 18 próximo. Uma Bienal é uma festa múltipla, mas o seu objetivo central é o livro, esse pequeno objeto que nos faz distintos pelo saber. Vivemos, neste começo da segunda década do século XXI, a chegada de meios eletrônicos de leitura como o “Kindle” e o “IPad” que, ao contrário do que alguns pensam, não substituirão o livro, tampouco o escritor, o editor e nem arruinarão gráficas competentes. Serão apenas meios e estratégias a facilitar a leitura de livros na forma digitalizada. Ler, seja como for, ajuda a pensar, ficar mais centrado e infenso ao que não nos atrai ou incomoda. Abrir um livro, começar a lê-lo é um ato simples, despretensioso, mas pode enriquecê-lo. “O que estais lendo?”, perguntou Polônio a Hamlet. E você? João Soares Neto, da Academia Fortalezense de Letras CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/04/2010. - [CLÉBER AQUINO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cleber-aquino-jornal-o-estado/): Imaginem um menino tipicamente cearense, criado no interior, que, de repente, vem para a capital e, nela, descobre-se capaz de sonhos e realizar objetivos. Este era Cléber Aquino que se tornou administrador, professor e consultor de empresas. Cléber faleceu na última sexta-feira, 02 de abril de 2010, em sua residência de Fortaleza. Ele se dividia, há mais de 40 anos, entre São Paulo e o Ceará. Morreu como gostaria, lendo. Um fulminante infarto o levou, manhã cedo, logo após pronunciar: Ana Maria. Cléber, nascido em Maracanaú, formou-se pela então Escola de Administração do Ceará, hoje curso da Universidade Estadual do Ceará-Uece e, em seguida, foi para São Paulo onde concluiu mestrado e doutorado na USP-Universidade de São Paulo, da qual se tornou professor. Era casado com a Sra. Ana Maria Cavalcante Aquino e realizava há mais de 20 anos, entre outros projetos, o Programa História Empresarial Vivida. Esse programa consistia em uma reunião mensal na hora do café da manhã, onde convidados de múltiplas profissões e atividades afins ouviam palestras de autoridades, professores, empresários e intelectuais, quase sempre de São Paulo. Após as palestras, eram realizados debates. Tudo era gravado, transcrito e entregue em apostila na próxima palestra. Por outro lado, Cléber Aquino reuniu, em livros, vários depoimentos de empresários paulistas e cearenses que, no seu pensar, mereciam contar suas histórias pessoais e profissionais, de superação e sucesso. Rigoroso, quanto a horários, Cléber, viajado e interlocutor de grandes dirigentes de empresas, mantinha uma relação peculiar com a classe empresarial. Asseverava que os empresários deveriam ter melhor formação acadêmica, muita leitura, cultura, e saber de artes, preparar a sucessão, visão estratégica do mundo e ética em negócios. Era polêmico, dogmático e poderia até ser em alguns momentos, em sentido lato, rabugento. Todos os nomes de destaque empresarial do Ceará, desde os anos 80, participaram, pelo menos alguma vez, dos seus célebres cafés da manhã, que se iniciavam regulamente às 7.30 horas e culminavam com a entrega compulsória de livros para leitura, escolhidos pela sua ótica acadêmica e vivencial. Cléber nutria admiração por muitos empresários, mas era contundente e ferino em seus juízos críticos com alguns. Usava três ou mais canetas de cor no bolso da camisa para anotar ou grifar o que lhe agradava ou não em livros, jornais ou revistas, que sempre portava. Falava da “burguesia” empresarial de sua terra que adorava coluna social, mas, paradoxalmente, virou verbete no último bienal “Sociedade Cearense”, de Lúcio Brasileiro. O Ceará perde um de seus filhos ilustres e Maracanaú recebeu, de volta, o seu corpo eternizado que, por sinal, deu muito trabalho para se adequar ao exíguo espaço do jazigo onde já repousava sua mãe no velho e simples cemitério São José. Ele, tal qual o santo protetor do Ceará, não teve descendentes. Caía a noite, quando uma laje de concreto solveu o problema. Familiares, poucos amigos e jovens seguidores de Cléber acompanhavam Ana Maria a rezar um Pai Nosso. Uma vazia roda gigante de um mambembe parque de diversões, do outro lado da rua, permanecia inerte. Afinal, era noite de lua cheia na Sexta Feira da Paixão. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/04/2010. - [LENÇÓIS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lencois-diario-do-nordeste/): Neste domingo de Páscoa, os que se acreditam cristãos acordam para o cumprimento de atos religiosos ou curtir o que sobra do feriadão começado na sexta-feira. Acordam em camas, redes, macas hospitalares, enxovias e tiram de sobre os corpos o que usam como lençóis. Podem ser de seda pura, linho de poucos ou muitos fios, algodão, fibra, trapo, plástico ou meros papelões. Quase todos usam algo para cobrir-se como se fosse um manto protetor ou mero aquecedor do frio da alma ou do corpo. A natureza, especialmente nos trópicos e em outros lugares do mundo, nos presenteou com dunas de areias, verdadeiros lençóis. O mais famoso deles, para nós brasileiros, é do estado do Maranhão. A formação peculiar dos Lençóis Maranhenses é um imenso mar de dunas com areias atipicamente frias, entremeado de pequenas lagoas dando à paisagem um belo e quase lunar espetáculo geológico. É provável que neste dia da Ressurreição milhares de pessoas estejam saindo de seus lençóis, orando, bebendo ou passeando em dunas que formam os tais lençóis ou ressurja em revistas, jornais ou tvs a história do Santo Sudário, pano que teria coberto, após a crucificação, o corpo mutilado de Jesus Cristo. Há muito, o Santo Sudário é objeto de crença ou tido como embuste. Há, em Turim, Itália, um lugar onde está depositado o lençol que teria sido dado por José de Arimateia para cobrir o corpo cheio de traumatismos de Jesus. Testes científicos foram feitos com o método do Carbono 14 para tentar provar, pelo menos, o século de sua confecção. Os cientistas concluíram que o tecido seria do século XIV. Os crentes, por sua vez, têm fé nas manchas que não apagam. Por outro lado, nos Estados Unidos foram gastas 140.000 horas em exames microscópicos e outros até concluírem que as imagens não foram feitas por mãos humanas. Mistério da fé? Agora, os lençóis que nos preocupam são os muitos que aparecem, diariamente, em páginas de jornais e em programas de televisão cobrindo corpos inertes e ensanguentados de vítimas da violência. Esses lençóis dados por mãos caridosas deveriam ser o símbolo branco-escarlate da luta pela paz social. Eles não encobrem a nossa vergonha coletiva. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/04/2010. - [O VOO DO AUDIFAX - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-voo-do-audifax-jornal-o-estado/): Se eu fosse crítico literário ou algo parecido, certamente falaria que este novo livro de Audifax Rios completa a trilogia Memória do Encantamento, iniciada com Os Búfalos de Campanário, cresceu com Migalhas para Serpentes e agora forma o vértice desse triângulo literário. Eu diria que ele tem sensibilidade narrativa, concebe e formata a estética da imaginada cidade de Campanário, no interior do nordeste, mas que poderia ser em qualquer país hispânico da América. Constrói alegoricamente um mundo fantástico com personagens que têm identidade forte, sexo, cor, ação desenvolta, vida, quase-mortes, desmortes e morte. Como não sou crítico literário, digo que o autor de “Voe comigo quando desmorrer”, Audifax Rios, é um escritor especial. Homem maduro, longilíneo, óculos, grisalho, observador nato, com jeito de não estar com pressa. Engano. Mexe com arte desde menino na cidade de Santana do Acaraú, onde nasceu e da qual garimpa a essência de seus romances. Em 1965 veio ter a Fortaleza, aqui fixou seus lápis e pincéis, constituiu família, trabalhou com nanquim, aquarela líquida, guache, acrílica e se consolidou como artista plástico múltiplo, com um claro viés de pensador, pois fazia peças de publicidade que necessitam de interlocução com o público que almeja conquistar. Além disso, poder-se-ia dizer que seria um pensador-pintor-desenhista ou um desenhista-pintor-pensador. Acontece que Audifax é mais que isso. Tirou da memória e do detalhe de cada desenho ou pintura que fez e faz a sensibilidade que aplica ao escrever com sutileza, mordacidade e atilamento. Ele foi em busca de uma identidade literária a partir do seu outro eu, colocando-se como ficcionista. O fato é que Audifax produz saber e isso já havia sido demonstrado em outros livros em que cinzela personagens, pinta cenários e cirze o enredo com uma costura que o associa ao realismo fantástico latino, sem perder a brejeirice de narrador com sua endógena nordestinidade. Audifax tem jeito e pega os olhos do leitor, prende sua atenção com a narrativa e a paisagem de Campanário, sua Macondo, viva, tão detalhada que é. É um trabalho de sua memória, misturado à imaginação crítica e às muitas leituras que cada escritor faz como pesquisa, prazer ou amor ao ofício. E daí passa a construir de forma subjetiva até uma intertextualidade que é múltipla, pois herança de tudo o que ouviu, leu, intuiu e delirou. Fora isso, as personagens de Aparício Sansão e Guadalupe, para ficar nas principais, são construídas com arte e fé de ofício e restarão guardadas nas frestas da memória de quem sabe ler ou procura ler com um mínimo de atenção e capta as nuances sutis da narrativa e seus diálogos. O livro tem mortes redivivas, ambição, paixão tempestuosa, ironia, sarcasmo que deixarão o leitor alerta para não perder detalhes que são como cascalhos, onde os olhos não podem pisar rapidamente. Ele fica passeando pela música, arte, gestual e sensualidade latinas, especialmente do México, sem esquecer do circo, da pensão de mulheres, da Igreja e do bicho-homem, entre tantas outras reinações deste escritor que consolida um estilo a distingui-lo como referência no campo minado da fantasia, devaneio, alucinação, desditas que precisam de enredo, começo, meio e fim, a sequência lógica dos baixos e altos de todas as vidas e das obras de fôlego. Abra a primeira página. Leia, vale a pena. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/04/2008. - [O SONHO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-sonho-diario-do-nordeste-2/): Tive um sonho. Não foi um sonho qualquer. Era estranho, pois misturava pessoas vivas e já mortas. Mas havia uma singularidade. Todos os personagens, exceto eu, eram urbanistas e paisagistas. Lembro bem que os mortos eram Lúcio Costa e Burle Marx. Dos vivos não consigo lembrar. O fato é que sobrevoávamos a cidade de Fortaleza em dia de sol e céu azul. Lúcio Costa olhava tudo de binóculos. Não era um avião, balão ou dirigível, mas uma espécie de planador ou uma jangada aérea. Uma nave, enfim. E ele observava todo o traçado urbano: da Barra do Ceará à Praia do Futuro, do anel Viário à orla marítima. E perguntava, como se fosse um mantra: onde estão as grandes avenidas? Onde estão as grandes avenidas? E eu apontava para as vias que encontrava e ele balançava a cabeça. Não estou falando de ruas largas, mas de grandes e largas avenidas, dizia. E esboçou com um dedo, no denso ar espacial, um desenho que não tinha a forma de avião, mas a de uma mulher com braços e pernas abertos e cabelos revoltos. E dizia que cada um dos braços e das pernas poderia ser uma grande radial. Imagine a planta da cidade, falava ele. Sobre ela coloque uma grande mulher deitada com os cabelos espalhados como trapiches tocando a orla. Um dos braços estendido em direção à Barra do Ceará e ao Antônio Bezerra e o outro tocando as amplas dunas da Praia do Futuro e Sabiaguaba. As pernas seriam dois eixos enormes. Um, para os lados do Cambeba e Messejana. Outro, para Parangaba e Bom Jardim. E foi então que Burle Marx meteu a sua colher de paisagista: olhem essas lagoas, rios e mangues. Isso tudo poderia ser arrumado, mas estou vendo ocupações e fico triste. Faltam árvores nas praças e ruas. Há pouco verde, reclamava. No silêncio do espaço e quase ao final do passeio a nave sobrevoava a avenida Beira Mar. Os dois olharam um para o outro e disseram: Queremos ir embora daqui. Isso choca. Eu não sabia o que fazer para atender ao pedido deles. Não havia piloto, nem comandos e a brisa batia em nossas faces. Eles me olhavam seriamente e repetiam: queremos ir embora daqui. E Agora. Não sei como, caí da nave. Acordei. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/04/2008. - [A CIDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-cidade-jornal-o-estado/): Convivo com arquitetos e urbanistas há bastante tempo. No começo da vida profissional verifiquei, como hoje se diz, existir um “nicho” na área de planejamento urbano em todo o Nordeste brasileiro. Reuni alguns bons nomes como Marrocos Aragão, Juremir Braga e Jorge Neves e passamos, junto com profissionais de outras áreas, a trabalhar o caos. É claro que as nossas intervenções não tiveram a ousadia de um Napoleão III que modificou no século XIX, com a ajuda de Georges Haussmann, prefeito de Paris por 17 anos, a feição urbana da Cidade Luz. Mas tentamos. O urbanista, no meu pensar, deve ter uma antevisão do futuro e buscar formas que se ajustem ou se contraponham ao espaço urbano onde intervém. Não estou falando do arquiteto como mero criador de habitações uni ou plurifamiliares, mas enquanto urbanista onde a singeleza de meros traços define o que se pretende no processo de intervenção no tecido da cidade, deixando exposta sua genialidade. Alguém bagagem urbanística, refere que Fortaleza não tem - salvo exceções - nada a preservar. Diz que as intervenções já sofridas não podem ser criticadas por quem não é do métier. Discordo. O urbanismo não é privilégio ou casamata. O urbanismo comporta uma visão multidisciplinar que começa com geógrafos, ecologistas, geólogos, passa por engenheiros, remonta aos historiadores, procura economistas para cálculos de viabilidade, administradores para ajustá-lo à realidade e advogados para transformar as legislações de áreas renovadas. Tudo sendo discutido no fóro próprio, a Câmara de Vereadores. Fortaleza, até os anos 60, não havia descoberto o mar. A descoberta recente da orla marítima; seu uso indiscriminado com edifícios de alto porte; a proliferação de barracas de toda natureza tal qual uma babel; e o projeto da Praia de lracema exigem ainda um repensar global., a vir com o novo Plano Diretor. Tudo isso tem a ver não somente com intervenções que Fortaleza sofrerá com o Metrofor e o Transfor, mas com o crescimento total no limitado território de 336km2.É preciso encorajar o Município e o Estado a discussões conjuntas mais profundas sobre o que pretendem fazer na cidade. É importante que cada grande intervenção urbana tenha o aval de outros que, por verem de forma diferente, complementam, ajustam, discordam até e, por certo, enriquecem as concepções dos técnicos. Tomemos o caso de Paris. Lá as ZAC (Zone D’Aménagement Concerté) passam por todo um processo de análise histórica, social, financeira e gerencial, até que os urbanistas possam definir as mudanças estruturais de uma zona de recuperação. A ousadia, ponto basilar ou característica nas intervenções urbanas de profundidade, deve ter como contraponto a coerência dos que podem e devem ajudar como profissionais ou cidadãos a definir o futuro das cidades onde moram, tomando-as habitáveis e atraentes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/04/2008. - [A DENGUE É NOSSA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-dengue-e-nossa-diario-do-nordeste/): Bem que eu queria falar de coisa amena, mas há um mosquito zunindo impunemente neste país. Um país que deseja ter assento permanente na direção da ONU, mas não revela que todas as cidades brasileiras possuem esgotos a céu aberto. Um país que gasta bilhões para realizar os jogos Pan Americanos –e a Copa de Futebol vem aí - e não aparelha hospitais, tampouco paga bem a médicos que mal levantam a cabeça para atender clientes em filas imensas. Esse mosquito já havia sido exterminado em 1957, mas voltou e parece que veio para ficar. Ele é como alguns políticos que se elegem e acham que têm direito assegurado eternamente. Ele se originou no século XVIII na Ásia, na Ilha de Java e se espalhou pelo mundo, especialmente nos países em que não há saneamento básico e tampouco as pessoas têm educação sanitária mínima. É uma doença da falta de responsabilidade pública e da desinformação das pessoas. Ela pode acometer a qualquer um de nós, independente de idade, sexo, raça ou renda. Ela é a Dengue (Aedes Aegypti e A. Elbopictus). Atinge mais a crianças e adolescentes, mas já faz estragos e mortes em todas as idades. Esta semana, estive em um hospital de referência e vi crianças com dengue e a preocupação de seus pais e familiares, atônitos a espera do fim do ciclo da doença. Bem que eu queria falar de coisa amena, mas 50 pessoas estão sendo infectadas por hora, apenas no Rio. Imagine o número para todo o Brasil, especialmente no Nordeste, que vive a estação das chuvas e, como se sabe, a água é o habitat do mosquito que completa três séculos e ainda não conseguiu ser banido pela OMS, ministérios da Saúde e as secretarias estaduais e municipais da área dos países subdesenvolvidos da América, África e Ásia. Esse mosquito, no nosso caso, é o atestado maior do descomprometimento coletivo, a partir de um sistema eleitoral que vive, de dois em dois anos, a fazer eleições em que são gastos bilhões – a palavra é bilhões, mesmo – de reais em propaganda, cabos eleitorais, transportes, logística, informática, advogados e aliciamento para gáudio de candidatos e agências de publicidade que deveriam ganhar prêmios na arte do ilusionismo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/04/2008. - [TRÊS HISTÓRIAS COM O LÚCIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tres-historias-com-o-lucio-jornal-o-estado/): Minha amizade com Lúcio Brasileiro começou no ano em que ambos fomos aprovados no vestibular de direito da Universidade Federal do Ceará. Lúcio viu, em seguida, que só no jornalismo poderia ser ele próprio. Abandonou o curso no primeiro ano. Dois anos após, passamos a ser colegas no Correio do Ceará. Ele já escrevia há anos sobre Sociedade e eu começava a escrever sobre “Informes Acadêmicos” e “Administração e Negócios”. Passei alguns anos lá e a nossa amizade espontânea subiu ao Iracema Plaza Hotel, onde ele morava, e se fazia constante em vários lugares, especialmente em papos noturnos no Náutico e Ideal com amigos. Desse tempo tão bom e rico de fraternidade, guardo com carinho algumas lembranças que agora conto a vocês e é parte do livro editado pelo Lustosa da Costa: 1. Um dia, Lúcio cismou que eu era bom filho, estudioso e trabalhador. Um ‘rapaz de futuro’, como se dizia então e deveria ser seu cunhado. E foi do pensamento ao ato: apresentou-me a uma irmã. Ela e eu, alheios à idéia, na casa de sua família no começo da Av. Dom Luís, rimos e ficou nisso. 2. De outra feita, era uma tarde de sábado, já na sua nova e recém decorada - por Arialdo Pinho - cobertura do Iracema Plaza, quando avistamos um navio apitando forte no Porto do Mucuripe. Éramos uns cinco ou seis e Lúcio lançou um desafio a todos: sem saber para onde aquele navio iria quem se atrevia a tomá-lo? Ao final, só ele e eu tomamos o “Rosa da Fonseca” (ou seria o Ana Nery?) com destino a Belém. Chegando lá, peguei um Fusca e fomos passear com duas amigas, jovens da sociedade local. Fomos à praia de Icoaracy, lugar bonito, mas distante. Voltávamos tranqüilos, após meia-noite. Eram tempos da Revolução e, assim, fomos parados, sob a mira de metralhadoras, por patrulha da Aeronáutica por termos invadido, sem saber, área militar (era proibido trafegar à noite por lá). Descemos do carro e fomos levados para o Corpo da Guarda. O Lúcio, indiferente a tudo, mexia nas armas que ali estavam expostas. Chega o Oficial de Dia e informa que estávamos detidos e que só ao amanhecer, quando o Comandante chegasse, iríamos ter ciência do nosso destino. As duas jovens estavam constrangidas. Depois de algum tempo, lembrei que eu era tenente R2 – reserva - do Exército e até portava uma carteira de identidade militar. Graças a isso, fomos liberados com a promessa de não mais repetir o erro. Ele não se perturbou com nada, pois, de cansaço, já dormira. 3. Por escrever no Correio do Ceará, como já disse, sobre administração e negócios, a Indústria e Comércio de Minérios S.A. colocou à minha disposição passagens para levar jornalistas ao Amapá. Iríamos visitar minas de manganês, portos, estradas de ferro e o progresso que implantavam por lá. Lembro bem que as casas não tinham muros, eram ajardinadas e havia até boliche - algo inédito no Brasil - no clube charmoso e privativo dos empregados. O fato é que levei, entre outros: Joseoly Moreira, Guilherme Neto, Giacomo Mastroianni e o Lúcio. Nesse tempo, Lúcio usava um imenso bigode e, de ressaca, dormia no trem especial que nos conduzia a Serra do Navio. Consegui uma tesoura e me atrevi a aparar o seu bigode. Quando o metal da tesoura encostou-se à sua face, ele acordou e o bigode permaneceu intacto até o dia em que ele, por vontade própria, o tirou. Eram tempos de quase juventude e folguedos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/04/2008. - [SÍNDROME DE DOWN - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sindrome-de-down-diario-do-nordeste/): Vi recentemente uma exposição com textos e imagens sobre a Síndrome de Down. Curioso que sou, procurei apreender alguns ensinamentos ali expostos e os transmito a vocês. Espero que sejam úteis a todos. Primeiro, vamos saber o que é síndrome: um conjunto de sinais e sintomas que definem uma enfermidade ou perturbação. A palavra down é de origem inglesa e tem vários significados. Atualmente, se diz de alguém que está triste (down), mas poderíamos ter outras interpretações. Nada a ver com o “Down” da Síndrome. Essa palavra é uma homenagem ao médico inglês John Langdon Down que, em 1866, ao cuidar de pacientes com essa síndrome, até então indefinida, cunhou a frase: “Sonhe alto o bastante”. Com isso, Down quis dizer que não existem limites para os sonhos pessoais, especialmente aos que, por motivos ainda hoje desconhecidos, foram concebidos com 47 cromossomos, ao invés dos 46 que têm as outras pessoas. Esse evento genético, o cromossomo adicional, dá origem às características particulares dos portadores dessa síndrome e ocorre na proporção de uma para cada setecentas crianças nascidas e não poupa nenhuma raça ou classe social. Mas, muitos avanços já foram feitos. Hoje, os portadores já têm uma expectativa de vida alongada, chegando, em alguns casos, aos 70 anos. Entretanto, é preciso deixar claro que essa expectativa só se concretiza quando o desenvolvimento dos bebês e de crianças é influenciado pelo amor, cuidados, estímulos, educação e experiência social dedicados por pais, familiares e amigos. Fica claro também que todo bom estímulo, amor e atenção provocam uma reação positiva no desenvolvimento e na longevidade dessas pessoas. É importante ainda que crianças com essa síndrome frequentem escolas regulares, pois a convivência com outras crianças é necessária no seu processo de entendimento do mundo. Nos últimos anos, alguns portadores da Síndrome de Down tornaram-se defensores diretos de seus anseios, clamando por mudanças na visão educacional do Estado e da sociedade, na perseverança de treinamento vocacional, na busca de oportunidades de emprego e de melhor qualidade de vida. É preciso sonhar alto. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/03/2008. - [FILHO DE RICO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/filho-de-rico-jornal-o-estado/): Vida de herdeiro é difícil. Imaginem que o filho do controlador de uma das maiores multinacionais, a Johnson&Johnson, talvez por falta do que fazer, resolveu inventar um filme-documentário. E escolheu como tema a desigualdade. Ele entende que há um desafio a ser resolvido pelos Estados Unidos, pois apenas 1% de sua população detém metade da riqueza do país. E deu ao filme, de 80 minutos, o título “Um por cento” (One per cent). O filme, que já foi apresentado em festival, é repleto de entrevistas com ricas personalidades como Robert Reich, Bill Gates e o próprio pai do cineasta. O economista Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia, também convidado, abandonou, irritado, as filmagens, acusando o cineasta de ser socialista. O certo é que o ‘leit motif’do filme é mostrar como vivem e falam os que não sofrem nenhum tipo de restrições e nada lhes falta. Têm dinheiro, compram. O filme já ganhou dois prêmios Emmy e o caso é relatado em Vida Americana pela The Information Company, do brasileiro Pedro Costa. O lance, que o cineasta Jamie Johnson ouviu de seu pai, irritado, é o seguinte: “Por que você está falando sobre dinheiro? Se alguém perguntar a você sobre isto, diga que não é verdade, diga que não temos parentesco com a família que fundou a empresa”. E ele, o cineasta, retruca: “A fortuna de minha família está aumentando mais rápido do que nunca. Somos parte de um pequeno número de famílias que tem a maioria da renda nacional, mas ter-se tanto na mão de tão poucos não pode ser bom para a América”. Essa aflição de rico mostra que os limites do ter foram ultrapassados e isso, seguramente, confunde as cabeças dos herdeiros coroados que pouco ou nada têm a fazer, a não ser esperar pela morte dos seus pais ou, sendo menos severos, receber, em vida, polpudos adiantamentos que lhes permitam ocupar o ócio, inclusive fazendo filmes denunciando a riqueza de suas famílias. Sobre o assunto, é bom ouvir o que dizia Andrew Carnegie, que nasceu pobre na Escócia, chegou aos Estados Unidos com 13 anos e - com uma vida de muita luta - tornou-se milionário do aço e petróleo, além de ser um grande filantropo: “Parece estranho, mas é verdade: as pessoas raramente tiram proveito do dinheiro que não ganharam com seu próprio esforço. A utilidade do dinheiro consiste na maneira como o empregamos, e não na sua mera posse. De um modo geral, a pessoa que ganha o seu próprio dinheiro adquire, juntamente com ele, parte do conhecimento necessário a seu inteligente aproveitamento”. Ou seria melhor ouvir o que diz Warren Buffet, um dos três homens mais ricos do mundo: “Tudo o que vem fácil, também se perde com muita rapidez. Por tal razão só vou deixar 15% do meu patrimônio para os meus descendentes”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/03/2008. - [A Ressurreição - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-ressurreicao-diario-do-nordeste/): Neste domingo de Páscoa - a data móvel da fé cristã para simbolizar a ressurreição de Cristo, três dias após sua morte - além das poucas ou muitas orações nas igrejas e das comidas e bebidas que são colocadas sobre as mesas dos que muito têm e daqueles que quase nada possuem, é preciso fazer uma reflexão pessoal sobre a nossa visão laica da data. É certo que a maioria de nós não possui embasamento teológico ou religioso para falar sobre os mistérios da cristandade e muito menos da ressurreição de Cristo. O pouco que sabemos, como leigos, é que, simbolicamente, todos nós poderemos ressuscitar, aqui ou no além. Sair de uma ‘morte’ em vida e conseguir uma passagem ou encontro com o que acreditamos ser verdadeiro ou, pelo menos, se ajuste ao conceito comum de amor ao próximo. Não o amor ao próximo estereotipado, coisificado, aparente e ao alcance da vista dos outros, mas o que se pode fazer em silêncio, sem que a vaidade da ação seja maior que o próprio bem produzido. E há tanta gente simples que tem a capacidade de nos transmitir essa boa vontade, a capacidade de se doar ao outro, a de ver o outro não com os olhos dissimulados da inveja, mas com a compaixão e a afeição que enlevam e nos tornam próximos, sem que seja necessário seguir regras de etiqueta e tampouco trocar palavras amenas aprendidas e não vivenciadas. O amor ao próximo é atitude. É descobrir o que o outro pode precisar sem que ele nos peça e é também disponibilizar o nosso tempo para ouvir o outro, sem a urgência que comanda a vida atribulada de cada um. É, sobretudo, o amor a si próprio, o não compactuar com aquilo que o agride, incomoda ou interfere nas suas referências básicas ou padrões pessoais, sempre sabendo que não somos o centro do mundo, mas temos que ter uma diretriz para a nossa própria vida. A ressurreição pode ser quem sabe, a capacidade de, ainda nesta vida, acreditar no outro e na cura dos seus males físicos ou espirituais. É acolher a capacidade de manter ou fazer ressurgir o amor na família e no próximo, do encontro verdadeiro que gera alegria e paz, generosidade espontânea e a bondade que redundam na confiança que conforta e redime. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2008. - [A Paixão - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-paixao-jornal-o-estado/): Hoje é sexta-feira Santa, segundo o calendário da fé cristã. Diz-se que é a data da Paixão de Cristo. Por qual razão tem esse nome? Por que não seria a dia da prova do amor de Cristo? Ou ainda a da sua resignação? O fato é que o nome consagrado e aceito por todos é paixão. Mas, qual o sentido dessa palavra? Como traduzi-la para que todos a vejam sem preconceito ou como mera submissão? No meu leigo entender, é preciso começar sabendo o que é paixão. A paixão pode ser um sentimento ou uma emoção forte que, em um crescendo, sobrepõe-se ao que se chama de razão. Ela é ainda o contrário da lógica dos homens, pois é um afeto dominador, quase uma espécie de obsessão. No sentido religioso - que é utilizado pelas crenças cristãs- seria o martírio de Cristo, tudo tão intenso, rápido, que transgredia os preceitos judaicos de sua época e objetivava provar a existência de um Deus que determinava o seu destino. Aquele homem simples, na maturidade dos seus 33 anos, de cujos primeiros trinta anos de vida pouco se sabe e ainda são um mistério para a História, não aceitava a dominação romana que cobria quase todo o mundo de então e acenava com um outro reino, transcendente, cheio de ventura, que fugia aos ditames da lei dos homens e da fé até então vigente. E chegou ao redor do templo da cidade de Jerusalém, como um revolucionário, brigando com os fariseus, reclamando dos vendedores no seu átrio, mas teve a liderança para fazer uma ceia com seus discípulos. E nessa noite, percebeu ou concluiu que seria traído, mas não recuou e pregou uma nova ordem e o fez com paixão, isto é, acima do que o senso comum permitia. E consta que foi traído por um dos seus. A sua paixão desmedida naquilo que acreditava o tornara um dissidente do judaísmo e logo foi julgado, em rito sumário, e condenado à morte. E teve resignação para aceitar o que acreditava ser um ato de poder contra a fé que vinha pregando ao criar um império dos simples, com outra ordem de valores. E essa sua submissão, parecia uma paixão desmedida, mas poderia apenas ser a obediência ao Pai a quem pediu que perdoasse os seus julgadores, pois “eles não sabem o que fazem”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/03/2008. - [TALVEZ... - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/talvez-diario-do-nordeste/): Um dia desses fui à casa prazenteira de uma das minhas filhas. As netas estavam fazendo tarefas escolares. Minha filha achega-se e mostra o caderno escolar de minha neta mais velha. E o faz como a dizer: veja, parece que ela tem alguma coisa sua. E vejo uma espécie de poesia, manuscrita, com o título de “Talvez...” E pus-me a lê-la. A neta estava, de forma espontânea, abordando um problema social. Ficava claro para mim que parecia sentida com uma constatação a que chegara. Essa constatação a impelia a escrever o que sentia de forma tão doce e, ao mesmo tempo, tão forte. E o fez como dever de casa para a escola. Vou abrir aspas para ela: “Talvez uma criança não tenha o que comer – enquanto eu tenho um banquete a escolher. Talvez uma criança trabalhe sem parar – enquanto para mim só basta estudar, estudar. Talvez uma criança more na rua e durma no chão – enquanto eu deito no meu gostoso colchão. Talvez uma criança passe o dia a chorar – enquanto eu só faço brincar. Talvez uma criança não tenha onde morar – enquanto eu tenho casa linda e vivo a reclamar. Talvez uma criança só queira ter uma família – enquanto eu reclamo que o controle não tem pilha. Essas são as diferenças daquela criança para mim – agora eu já sei que as vidas de algumas crianças são muito duras, sim”. Olhei para a minha filha e sorri de alegria, embevecimento e ternura. Nada a ver com a forma do escrito, embora seja aprumada para uma menina de dez anos. Mas, principalmente pelo seu conteúdo. E vi que a dedicação de minha filha, ao acompanhar, com desvelo e atenção, - as tarefas das suas filhas - não estava sendo em vão. Aquele escrito era fruto que adoçava minha boca dos amargos que a vida impõe. E, mais que depressa, mandei tirar uma cópia para eternizar a sua escrita. E, agora, partilho com vocês essa alegria de avô coruja, com a consciência genética de que ela só tem um quarto do meu sangue e isso me leva a dividir com os outros três quartos, as duas avós e o outro avô, esse regozijo. Aos seus pais, meeiros do seu amor, o realce pela educação transmitida. A ela, Lu querida, votos para que cresça assim, amando o próximo e escrevendo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2008. - [NOVO ACADÊMICO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/novo-academico-jornal-o-estado/): Ubiratan Aguiar é o mais novo acadêmico da Academia Fortalezense de Letras. Pulsou em mim a alegria de trazê-lo a esse delírio coletivo, a pátria dos que se lançam ao desafio de expor os seus escritos aos olhos dos outros. Não importa seja prosa, verso ou prosa poética. O que conta é a coragem de abrir suas veias e deixar que o sangue se perpetue no papel. Ubiratan Aguiar chegou ontem ao Palácio da Luz, matriz das academias de letras cearenses e palco nos últimos duzentos anos dos mais importantes acontecimentos do Ceará. Um Palácio que, de propriedade privada, passou a bem público e agora abriga os que trabalham com palavras e quimeras. A Academia Fortalezense de Letras, nascida neste século, pelas mãos de Mathusaíla Santiago e José Luís Lira, e, por tal razão, compromissada com o futuro, mas ajustada na sua sedimentação com a argamassa da história, a água do passado e até do limo que exsuda destas paredes de tijolos dobrados. Na solenidade eu perguntei, como se fora um padre, pastor ou rabino em uma cerimônia de casamento: - Ubiratan, você exerce atividade literária? - Você está interessado no bom funcionamento da instituição? - Você quer se unir a ela? Ele respondeu sim a cada pergunta. Mas o fez com a linguagem da alma. De minha parte, afirmei que você exerce atividade literária e que seu histórico de vida não deixa dúvida quanto ao compromisso de zelar por nossa Academia. Por essa razão tomei a iniciativa de indicar seu nome, obtendo total acolhida dos nossos pares. Ubiratan Aguiar é madeira de lei: um cedro menino transplantado para Fortaleza e daqui -- onde suas raízes foram fundeadas -- esgalhou-se pelo Planalto Central, esse quase sertão vermelho cujo ar rarefeito parece incidir, muitas vezes, na razão coletiva. Mas Ubiratan sempre teve um plano piloto pessoal que o conduziu pelos caminhos da decência. E o faz segundo uma cronologia simples, verdadeira e consistente. O que dizer de um homem que, por méritos pessoais, consegue iniciar sua vida política como vereador, alça-se a condição de deputado estadual, secretário de Estado e chega já na qualidade de Deputado Federal, a ser Constituinte, Presidente da Comissão de Educação e, por duas vezes, é eleito Primeiro Secretário da Câmara Federal? A sua história pessoal já está inscrita nos anais da Câmara Municipal de Fortaleza, da Assembleia Legislativa do Ceará, da Câmara Federal e nos arquivos eletrônicos e julgados do Tribunal de Contas da União. Queremo-lo - disse eu - Ubiratan, em outra nova luta coletiva: a de fazer este Palácio da Luz ainda mais esplendoroso em conteúdo, formas e cores. Garboso na sua restauração necessária e do seu entorno. Saiba, por fim, que a dúvida que persiste na indagação que sempre faz ao fim de seus versos não deixa de ser uma inquietação poética. E quem escreve especialmente versos, estabelece uma relação de caráter dialógico ao procurar fazer um acerto de contas com o seu eu profundo, medos, sonhos, história, signos, símbolos e mitos. Se esse sentimento chega com a maturidade, que seja bem-vindo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/03/2008. - [MUNDO REAL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mundo-real-diario-do-nordeste/): Permito-me, vez por outra, andar pelo centro da cidade. Esse espaço múltiplo contemplando praças, avenidas, ruas, passeios de pedestres, lojas, biroscas e estacionamentos de veículos. E o faço em horários diferentes, com alegria, ao receber o sol forte a me mostrar no corpo e na alma o mundo real da maioria dos brasileiros. Esse mundo passa pelos terminais de ônibus, espreme pessoas em longas viagens, cata empregos e frequenta lojas de preços baixos e usados. Ouvem-se músicas cujos ritmos, autores e intérpretes não são os da mídia dita cult. Enquanto o suor molha a camisa, camelôs tomam conta das calçadas vendendo capas de celulares, fraldas, brinquedos, relógios, CDs piratas, livros usados, pilhas e panos de chão. Amolam facas e tesouras, consertam rádios, óculos, panelas e sapatos, vendem cafés com bolos, salgadinhos, sanduíches e sucos. Cantam emboladas e tudo o que a sua imaginação permitir. E vejo que as calçadas estreitas, nos obrigam a fazer malabarismos para não ir de encontro às bancas e aos ambulantes, embora parados. Muitas vezes, temos que descer para a pista de rolamento. Os carros passam buzinando e os retrovisores até tocam os nossos braços. Ainda bem que levemente, pois o trânsito é, quase sempre, moroso e caótico. Os postes são repletos de soluções para a vida, em cartazes: cursinhos para concursos, cartomantes que prometem a resolução de pendências afetivas e financeiras. Há também os que trabalham vestidos de palhaços ou pernas de pau, com alto-falantes em punho, oferecendo em som estridente roupas e utensílios de lojas com tabuleiros na calçada. E recebo folhetos sobre financeiras, cartões de crédito, loteamentos, comidas a quilo, vendas de motos e até de motéis populares com preços promocionais. Este mundo encantado e real não nos deixa perder a essência profunda da nossa brasilidade, forjada na luta que nos acompanha por toda a vida e prova, que a cada olhar que cruzamos nestas calçadas esburacadas e encardidas, que somos todos iguais neste universo desvairado do qual não temos a chave da entrada e, muito menos, a da saída. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/03/2008. - [POR QUÊ? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/por-que-jornal-o-estado/): Não concordo que apenas, amanhã, 8 de março, seja o Dia das Mulheres. Aliás, concordo apenas do ponto de vista da comemoração, da luta contra os preconceitos e das vitórias profissionais que alcançaram, mesmo com ou apesar de muitos homens. Não vou cair no clichê de dizer que todo dia é dia da mulher. Tampouco direi que todo dia é dia do homem. Precisa ser criado o dia dos dois, parceiros. Esse dia deveria ser celebrado todos os dias. Mulheres e homens de hoje ainda são herdeiros de preconceitos, desacertos, afetividades truncadas e vidas sofridas. Estão se redescobrindo, ensaiando relações novas, mas pecam em seus fundamentos. Mulheres e homens se chateiam, veem diferentemente as suas relações afetivas, têm níveis de paciência diversos e as suas crenças nos seres humanos e no trabalho obedecem a juízos de valor com níveis distintos de percepção. Mulheres e homens precisam descobrir como as suas diferenças básicas podem ser diminuídas, rediscutidas e acertadas. Se não acertadas, mas assimiladas. Nesse tempo de hoje em que muitos estão, em menor ou maior grau, insatisfeitos com o desenrolar de suas vidas é preciso humildade e sabedoria para discutir o simples. Por que ele não tem o mesmo nível de paciência dela? Por que ela se apega a detalhes que ele não vê? Por que ela reclama da sua desorganização e ele não aceita a pia coberta disso e daquilo? Por que ainda não descobriram uma forma cordial e leve de entender a função do dinheiro em suas vidas tão diferentes, mas complementares? Porque não veem os filhos com os mesmos olhares e os criam divididos entre as suas formas diferentes de expressar o amor? Porque se apropriam de frases soltas ditas no calor de uma discussão e fazem disso um grande problema? Por que se trai, não o amor, mas o que não se aceita na outra pessoa, tão frágil quanto você? Por que se discute sem o uso da razão e se deixa que tudo vá mais longe que o necessário? Por que não se aprende a pedir desculpas e não se cultiva o riso e a descontração como bases de uma relação, mesmo que ela seja difícil? Por que temos que ser vitoriosos em decisões bobas que vão se tornando maiores que a nossa capacidade de aceitar. Por quê? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/03/2008. - [ENVELHECER - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/envelhecer-diario-do-nordeste/): Acabei de ler um livro da escritora inglesa Elizabeth Taylor. Não confundir com a atriz homônima, também inglesa, mas que fez sucesso em Hollywood, Estados Unidos. “Mrs Palfrey no Claremont” é um romance curto sobre a solidão da velhice (“Ela aceitava a idade do modo que ela chegava, e estava chegando depressa”). Retrata com detalhes e humor tipicamente britânico a vida de uma senhora viúva que se recolhe em um hotel em Londres para fugir da solidão dos asilos de velhos. Vejam que trecho bonito e duro: “Envelhecer era um trabalho árduo. Era como ser um bebê ao contrário. Para um bebê, cada dia significa aprender coisas novas. Para os velhos, cada dia significa perder alguma coisa”. Mrs. Palfrey descobre, logo, que os poucos idosos residentes no hotel, têm uma teia de futricas, destacando-se a apresentação de parentes aos demais como forma de demostrar prestígio e fazer crer não estão sós no mundo. Ela tem um neto que mora em Londres que não lhe dá a menor atenção. Um dia, ela leva uma queda na cidade e é socorrida por um jovem, aprendiz de escritor. A esse jovem ela pede que se passe por seu neto. E o faz para não ficar por baixo. Dessa relação meio acidental, meio forçada, surge uma dependência emocional ao suposto neto que, algumas vezes, vive aflições nos contatos com os amigos de Mrs. Palfrey. O que importa e fica da história é a certeza de que as amizades são, algumas vezes, maiores que o parentesco. O que ela apenas pede ao falso neto é um pouco de atenção no vazio de tempo que é a sua vida de aposentada. Em inglês, aposentado é “retired”. Ao pé da letra são os retirados da circulação, do mundo produtivo. Quanto engano. Há muita sabedoria na convivência com idosos, pois passaram pelas alegrias e males da existência com capacidade de contemplação aliada à compaixão, sentimento pouco comum aos jovens, ainda envoltos com a falsa ideia da perenidade da vida. Não há tempo perdido no encontro com os mais velhos. Seus passos ou vozes vacilantes são iluminados pela sabedoria natural de conservar a esperança no próximo. Especialmente se o próximo deles se acercarem com carinho. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/03/2008 - [O TEMPO MARCA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-tempo-marca-jornal-o-estado/): Não importam idade, o sexo, cor, capitais e estado civil, todos vão recebendo marcas da vida ao longo dos dias. Todos vão somando alegnas, enganos, tristezas, acertos, dores, solidão, encontros e coisas que tais. De repente, as marcas vão povoando o espírito, quando não se transmudam em somatizações tão reais que podem ser auscultadas, sentidas e vistas. Essas marcas são mais fortes na medida em que não sabemos o nosso limite, a hora de mudar de rumo, de não entender o outro como projeção dos nossos desejos e aceitar que as promessas e juras são frutos de um contexto que se transforma no tempo com a lucidez ou a mudança de personagens. As marcas ficam tênues quando entendemos e admitimos que nós temos todas as respostas e que ninguém é responsável pelos nossos desatinos e a indecisão que machuca, desconforta e imobiliza. Ninguém tem respostas para você ou sabe o tempero que nutre as esperanças e as alegorias que embalam os seus sonhos. Não há como procurar muletas e admitir que alguém possa resolver os seus problemas. Mergulhe na água da sabedoria, que é a sua praia pessoal, e saia ungido da certeza, da confiança em si mesmo. Na medida em que você confia em si, os outros deixam de ser acessórios ou adornos e passam a ser companheiros e o compartilhamento é o somatório do esforço comum e não de frustrações e quimeras. A confiança em si é um pressuposto básico para a independência e sem independência não se pode ser livre e quem não é livre não sabe amar. O amor-submissão e o amor-dependência são relações ultrapassadas e neuróticas que reduzem os seus participes a meros marionetes do destino. A eclosão da independência e da liberdade se extravasam no amor próprio, na aceitação de si mesmo sem justificativas ou sentimento de culpa. A sua singularidade é um aviso, um balizamento para respeitar a identidade alheia e os acontecimentos devem abrir a sua mente em relação ao próximo que nunca será tão próximo que possa fundir¬ -se ou confundir-se com você. Como bem disse Ana Maria Ozório de Almeida: “Precisamos aprender a não carregarmos pesos demais, não escondermos de nós mesmos dores não saradas, não desperdiçarmos energia criativa, a energia do prazer, em remendos mal feitos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/02/2008. - [FIDEL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fidel-diario-do-nordeste/): O que falar sobre Fidel que já não tenha sido dito? Ditador? Revolucionário? Herói? Mito? Tudo já foi escrito em artigos, teses, livros, jornais, revistas, TV e filmes. O fato é que Fidel Alejandro Castro Ruz, 81 anos, deixou o poder efetivo que manteve por 49 anos sobre a Cuba que tomou de Fulgêncio Baptista. Sua luta hoje parece ser permanecer vivo, dar dignidade ao corpo alquebrado por doença a consumir todas as energias vitais. Não mais fará discursos com horas de duração, tampouco vestirá a sua farda de “Comandante”. Não usará mais os velhos aviões russos em que, garboso, viajava pelo mundo e aparecia na escada como estadista. O homem Fidel sente-se finito, cioso do que lhe resta e já não adiantará mais que assessores revisem - ou escrevam - e publiquem pronunciamentos seus no Granma, o diário oficial de Cuba. Sua voz poderá não ter vez no corpo doente. Talvez nada mais importe para quem não pode fumar os seus charutos, soltar baforadas e desaforos em direção aos Estados Unidos. Suas botas duras estão substituídas por chinelos moles. Seus álbuns de fotos restarão guardados em um velho armário e poucos terão acesso a eles. Lembrará ele do jovem advogado Fidel a descer de Sierra Maestra com seus companheiros e saberá que cada passada sua fechava um ciclo de Cuba e criava outro. Na planície, em La Habana, sonhou com a liberdade e tentou, a seu modo, escrevê-la de outra forma. Mas não há adjetivos para ela. Ou existe ou não acontece. E agora na lucidez que lhe é permitida pelos remédios que minoram suas dores lembrará certamente de seus tempos mexicanos quando cunhou a frase: “Pátria ou morte”. E terá a certeza de que Cuba sobreviverá a ele e nas casas de Havana, Santiago de Cuba e Trinidad jovens e velhos como ele estarão fumando e tomando rum, olhos e ouvidos nas notícias. Fidel talvez não queira mais falar com Chávez, tampouco responderá diretamente as mensagens que receberá ou sequer ouvirá o que prometem fazer por Cuba ou em Cuba os candidatos à eleição presidencial americana. Mas, mesmo se dizendo ateu, talvez agradeça as muitas rezas que mulheres cubanas ainda farão por ele. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/02/2008. - [EMPRESÁRIO DO IMPÉRIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/empresario-do-imperio-jornal-o-estado/): Jorge Caldeira, jornalista, sociólogo, cientista político, agora eleito para a Academia Paulista de Letras, utilizou três anos entre a pesquisa e a publicação do livro “Mauá, Empresário do império”, edição da Cia das Letras, em 1995. O resultado das 557 páginas é consagrador. Por muito tempo na lista dos livros mais vendidos, "Mauá” representa o resgate da figura de um menino pobre do Rio Grande do Sul que chegou ao Rio de Janeiro no ano da independência do Brasil com nove anos de idade. Empregou-se como “caixeiro”; aos 15 já sabia tudo de comércio e aos 30 era um grande empresário, homem à frente de seu tempo e foco de invejas até do Imperador D. Pedro ll, a quem fez, sutilmente, conduzir um carro de mão e utilizar uma pá no lançamento de uma ferrovia. O trabalho, naquele tempo, era apenas para escravos. lrineu Evangelista de Sousa, o barão de Mauá, desmitificou essa ideia ao contratar técnicos e mão-de-obra na Europa, com visão de mundo que ainda hoje causaria furor. Lançou-se em empreitadas tão dispares como a indústria naval, criação de bancos, estradas de ferro, navegação na Amazônia, empréstimos no Uruguai, iluminação a gás no Rio de Janeiro e, ao final de sua vida, à atividade agropecuária, tendo a coragem de trazer chineses para ajudá-lo nessa tarefa. O livro não é só Mauá. Jorge Caldeira repassa, com uma visão moderna, toda a história brasileira do século XIX, desde a chegada da família real portuguesa enxotada por Napoleão, em 1808, sua estada no Rio de Janeiro, a influência dos traficantes de escravos, a distribuição de empregos públicos para os amigos da Corte e a tutela inglesa em todas as nossas ações. Relata ainda a volta de D.João Vi à Lisboa, as regências, especialmente a do Pe. Diogo Antonio Feijó e sua controvertida figura de filho de padre e de ter tido, tal como seu pai, vários filhos. Destaca a personalidade de D.Pedro I e se detém em D.Pedro II, que nunca teve a dimensão que alguns historiadores lhe conferem nestes duzentos anos da chegada da família real ao Brasil. “Mauá” é também a história da fundação do Banco do Brasil, das tricas e futricas pela subscrição de suas primeiras ações e do uso, já naquela época, da instituição para beneficiar, a juros baixos, os amigos do Imperador, a quem Caldeira, por descuido ou sutileza, chama de rei em diversas partes de seu livro. Ele deve ser lido por todos os que acreditam no trabalho, na vitória da competência sobre a maledicência, na capacidade de superar obstáculos (faliu e deu a volta por cima) e de aliar tino empresarial a um conhecimento intelectual de fazer inveja, pois lia, em inglês, as obras de Adam Smith, Ricardo, Mill e Bentham. O resgate da figura de “Mauá” por Jorge Caldeira é um presente que se oferece aos jovens e, principalmente aos estudiosos da vida empresarial brasileira do Século XIX. Não basta comprar o livro, melhor que isso é lê-lo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/02/2008. - [LUTAS PRIMÁRIAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lutas-primarias-diario-do-nordeste/): Parece que os tempos andam mudando de verdade. Surge nos Estados Unidos Barack Hussein Obama. Vejam o nome, sugere ligação com o terror do Al Qaeda. Não tem. É filho de um queniano que foi estudar no Havaí, lá se encontrou com uma americana e com ela casou. Ali Nasceu Obama. Se brasileiro fosse, seria mulato. Nos Estados Unidos, ele é negro. O fato, independente de sua cor, é que Obama nasceu dois anos antes de John Kennedy ser assassinado e acontecer o fim legal da discriminação. Sua mãe o levou para a Indonésia onde passou anos. Voltou, estudou na Universidade de Colúmbia e, posteriormente, frequentou a Universidade de Harvard, de onde saiu advogado com louvor. Aos 46 anos, senador pelo Illinois, primeiro mandato, enfrenta Hillary Clinton, também senadora, herdeira política de seu marido Bill e figura proeminente do Partido Democrata que acredita ter chegado a sua vez de retomar a Casa Branca. As eleições primárias, essas em curso, são uma peculiaridade americana. Custam milhões de dólares e quase nunca apontam surpresas. Neste ano, Obama é a novidade, consegue apoio forte dos jovens que, até bem pouco, não se interessavam em votar, pois lá o voto é opção. É claro que só em agosto sairão os nomes dos candidatos que irão disputar as eleições para Presidente dos Estados Unidos em novembro, mas cresce uma onda de adesões e contribuições financeiras de alto quilate para Obama. E isso só é lógico se os grupos econômicos que o apoiam acreditam na possibilidade de sua indicação e consequente eleição. Ele é casado, evangélico, duas filhas, fluente, articulado, longilíneo e autor de dois livros (Sonhos Desde Meu Pai e A Audácia da Esperança), realmente escritos por ele e são bons. Não se sabe se foi dele a simples frase de duas palavras que está mexendo com a América: nós podemos (we can). Para a turma jovem brasileira seria o caso de dizer que ele está, realmente, podendo. O que ainda não fica claro é como será o desfecho dessa história. Parece cedo demais para já se falar em final feliz. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/02/2008. - [REPÓRTER - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/reporter-jornal-o-estado/): Gosto de notícias pelo rádio, jornal, televisão e Internet. Não a notícia requentada, mas aquela originada do trabalho de um repórter. O que vai atrás dos fatos, pesquisa, conversa, analisa, critica e a transmite, mesmo sabendo que a história possa estar incompleta ou em desdobramento. Atualmente, seja dirigindo o carro, sentado no computador, olhando a televisão ou folheando jornal, ficamos ouvindo, vendo ou lendo sobre o que acontece do mundo. É claro que há ênfase no noticiário local, mas os veículos de comunicação dão destaque ao que acontece no país e no mundo. Basta ver que jornais, agências de notícias e de televisão mantêm repórteres e até estúdios nos centros geradores de notícias. O que vale no repórter é não só a pauta ou tarefa que lhe é passada, mas o seu descortino, o jeito de ir fundo na matéria brotando de seus contatos, fontes básicas de informação, da conversa pretensamente solta com o povo e das testemunhas circunstanciais de quaisquer acontecimentos. Um exemplo desse fato é Macário Batista, viajante à cata de notícia pelo mundo. Escreve e mora aqui ao lado, mas vive de mala e cuia por tudo o que é lugar. Outro, o Wilson Ibiapina, saiu de Fortaleza para cobrir notícias de Brasília para o Sistema Verdes Mares e já mora a vários lustros naquela cidade. Todas as manhãs dá notícias na programação da Rádio Verdes Mares. Em Paris, Realli Jr., jornalista da Folha de São Paulo, se fixou e até escreveu livro sobre os fatos e as pessoas noticiadas em sua faina lá exercida há dezenas de anos. Além dos repórteres generalistas, há os especializados em cobrir áreas diversas como política, economia, esportes, clima, artes, cultura etc. Todos esses ramos da reportagem nos mantêm - na comodidade de nossas vidas - capazes de saber o que está acontecendo com o país e os políticos; como vai indo o nosso trabalho ou dinheiro; as razões para nosso time ter ganhado ou perdido; o que temos para ver de melhor nos cinemas, teatros, exposições; a roupa que vestiremos etc. Ninguém se dá conta de como seria o mundo sem informação, sem o repórter que, no mínimo, procura destrinchar fatos e oferecer um sentido profissional à comunicação tão importante à vida de todos. Como todos têm o direito ao seu dia, amanhã será o Dia do Repórter, a quem a sociedade tanto deve e talvez nem disso saiba. JOÃO SOARES NETO, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/02/2008. - [HORÓSCOPOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/horoscopos-diario-do-nordeste/): A maioria das pessoas se descuida do hoje na esperança de um futuro melhor. Acreditam que chegará um tempo em que tudo estará bem. As dívidas serão pagas, haverá bom emprego, carro novo substituirá o comprado no consórcio e a casa própria será alcançada. E fazem isso não como atitude, determinação e desempenho profissional, mas sob o manto da magia, esperança e da fé. Não apenas da fé religiosa. A que nos é legada, quase sempre, pelos ancestrais e que cultuamos ou não. Mas na procura de oráculos, divindades e a crença, por exemplo, na astrologia. Há revistas, livros, sites, “blogs” aos milhares na Internet, isto sem falar nas colunas de horóscopos de revistas e jornais espalhados pelo mundo. Muita gente, ao abrir o jornal ou revista, vai direto ao horóscopo e se sente influenciada pela predição do seu signo. Há ainda os que pagam por mapas astrais, tarôs e quiromantes. Procuram respostas para questões pessoais e formas de superar medos, desvios de personalidade ou de meras limitações. Sabedores disso, muita gente aproveita e se estabelece, como “consultores” pessoais nessa área, tão mítica quanto atraente, na busca de respostas para questões não resolvidas do mundo real ao qual pertencemos. E as colunas de horóscopo, embora singelas e feitas até para dar ânimo ou esperança, não são muito diferentes dos livros de autoajuda que vendem como banana e, quase sempre, restam guardados sem que seus leitores encontrem ali soluções miraculosas. No fim da década de 50, os filósofos Roland Barthes, francês, e Theodor Adorno, alemão, fizeram trabalhos distintos sobre horóscopos. Roland Barthes escreveu o livro “Mitologias”, em que analisa a coluna de horóscopo da revista “Elle”. Adorno se valeu do “Los Angeles Times” e sua coluna diária sobre signos para escrever “As estrelas descem à terra”. Ambos desmistificam o assunto. Para Adorno tratava-se de “superstição de segunda mão”. Barthes dizia que a sua leitura é prova de “semi-alienação”. Para Ricardo Musse, sociólogo, USP, baseado nos dois citados, os horóscopos de hoje, como os de antes, são “espelhos do mundo social”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/02/2008. - [LUÍS ESTEVES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/luis-esteves-jornal-o-estado/): Faz muito tempo. Eu estava prestes a casar e precisava mandar fazer os convites do casamento. Queria-os simples, sem dobras e nada de floreados. Procurei saber quem melhor fazia convites. Não foi difícil chegar a essa conclusão. Relutei em ir lá, pois a sabia como a maior e mais tradicional empresa gráfica da cidade, clientela imensa, tanto privada, quanto pública. Mesmo assim, fui dar com os costados à Rua Senador Pompeu, 754. Qual não foi a minha surpresa ao ser recebido pelo próprio dono. Luís Esteves Neto, um jovem quarentão, bem-apessoado, de bigode e óculos, atendia ao balcão. Tratava a todos sem distinção, mas particularizando o atendimento. Eu vi. Ninguém me disse. Nesse dia havia muitos clientes a atender. Ele fazia os cálculos com rapidez, mostrava detalhes, trocava dois dedos de prosa e fechava as encomendas. Chegou a minha vez. Mostrei o modelo que havia feito. Ele pediu licença, foi lá dentro e trouxe uma pasta com vários modelos. Nenhum era exatamente o que eu queria, por serem muito elaborados, dourados ou sofisticados. Queria algo simples, mas com classe. Ele concordou comigo, combinamos o dia para ver as provas e o preço final. Antes de me despedir, ouvi o barulho das impressoras funcionando e perguntei como ele se acostumara a aquele nível de ruído. Ele abriu uma portinhola, pediu que entrasse e disse: vamos dar uma olhada. E lá fomos ver todas as seções, onde dezenas de pessoas trabalhavam. Umas em composição e fotolitos, outras em impressão, corte, vinco, acabamento e expedição. Era um mundo. Estou escrevendo tudo de memória e relembro: eu era apenas um jovem profissional que estava prestes a casar e o Luiz Esteves já era um senhor empresário, líder, com clientes a esperar lá fora e empregados que solicitavam sua atenção. Vimos tudo e a todas as perguntas que fiz, ele respondia com atenção, calma e consciência de quem sabia o seu ofício, pois tinha crescido ali naquela gráfica de família. Ele já era a segunda geração dos Esteves e trabalhava com a energia de um calouro. No dia marcado da prova, fui lá. O mesmo burburinho de gente e de máquinas. O modelo foi aprovado sem restrições. Voltei apenas para receber a encomenda já empacotada com papel madeira e um original do convite na parte externa. Tirei o cheque do bolso para pagar o previamente acertado. Ele segurou minha mão e disse sorrindo: João, este é o meu presente para o seu casamento. Não quis aceitar, mas não houve jeito. E foi assim, a partir daquele fato que a minha admiração pessoal por Luís Esteves. Surgiu e permanece. Independente do tempo e da sua passagem para a outra vida. Deus o guarde. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/02/2008. - [É CARNAVAL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/e-carnaval-diario-do-nordeste/): Andei pesquisando para saber o que significa a palavra carnaval. Consta no Aurélio que era “no mundo cristão medieval, período de festas profanas que se iniciava no Dia de Reis (Epifania) e se estendia até a quarta-feira de Cinzas”. Diz, em seguida: “Os três dias imediatamente anteriores à quarta-feira de Cinzas, dedicados a diferentes sortes de diversões, folias e folguedos populares, com disfarces e máscaras”. Não há, nem nas definições seguintes, nada que explique a essência da palavra carnaval. Virei e mexi. Descobri em outras fontes três possíveis versões, talvez não confiáveis: 1- afastar a carne (carne vá), 2-carne nada vale (carnavalle) e 3- carro naval (car naval). Essas três versões permitem ilações de toda natureza e cada qual faça a sua, como melhor lhe aprouver. Desde que não ligue direção à bebida. O fato é que, até hoje, apesar de ser uma festa profana, é atrelada ao calendário da Igreja Católica. Por sua vez, o calendário religioso depende das fases da lua ou do sistema lunar. Assim é que o domingo de Páscoa é sempre o primeiro domingo após a primeira lua cheia que acontece a partir de 21 de março. É uma festa móvel, como se vê, dependendo da lua, ora veja. Parece coisa de samba de crioulo doido, misturando fé, astronomia e diversão. Mas é assim que ainda hoje se marcam os dias de carnaval que pularam de três para quatro, cinco ou até uma semana, dependendo da cidade ser mais ou menos festeira. Pelo sim, pelo não, estamos neste domingo de carnaval em pleno fazer nada, exceto para os que têm plantão obrigatório, e trabalham em órgãos de segurança, hospitais, transportes urbanos. E “brincantes” que se esbaldam, amanhecem no último dia, seja lá qual for, totalmente avariados, corpos moídos, ressacas física ou moral, quilos ganhos ou perdidos e contas que precisam ser pagas. E esse tempo de fazer nada me leva a indagar a razão de, “no Brasil, brasileiro”, a festa estar associada, desde os anos 40, a uma portuguesa, Carmem Miranda. Quem sabe se a baiana Ivete Sangalo, não venha a encarnar pela música, energia e séquito o ainda inculto e belo Brasil XXI? João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/02/2008. - [BOMBEIRO VOLUNTÁRIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bombeiro-voluntario-jornal-o-estado/): Fazer ações de voluntariado não é ser bonzinho. É algo maior, nobre e que contagia. Imagine-se, por exemplo, você como “Bombeiro Voluntário”. Há um projeto em andamento pelo Corpo de Bombeiros do Ceará que, em parceria com entidades ou empresas, treina pessoas, maiores de 18 anos, com boa capacidade física e um mínimo de conhecimento, para agir em múltiplas situações de risco. É um curso bem montado, com aulas teóricas e práticas que capacitam pessoas a, em situações de emergência, salvar vidas. Essas vidas são salvas não apenas em incêndios, mas em acidentes de veículos, paradas cardíacas, queda de um raio, choques elétricos etc. São apenas vinte horas de treinamento alegre, descontraído e eficaz dadas por instrutores dedicados e, o que é melhor, com situações práticas em que somos colocados à prova para, saindo de nosso casulo pessoal, lembrar que a nossa indiferença deve acabar e ajudar pessoas que se engasgam, crianças ou velhos que atravessam ruas sem prestar atenção, outras que são vítimas de fraturas em acidentes até que se chame e chegue uma ambulância ou médico, em enchentes, fogos que podem ser debelados com atitude, água ou extintor. Até lá, você, se tiver atitude e treinamento, poderá fazer a diferença e, na verdade, salvar vidas. O que se espera de quem deseja ser bombeiro voluntário é que dedique um pouco do seu tempo a aprender, tenha determinação para servir, disciplina para encarar o problema e desprendimento pessoal. A indiferença, o distanciamento dos problemas do outro, é o contraponto ao voluntariado que passa pela crença de que se pode melhorar o mundo, não para aparecer como herói, mas porque isso nos conforta e faz bem a quem recebe a atenção e é salvo. Procure conversar com pessoas que já fizeram esse curso. Participei de um deles com entusiasmo e conclui que em cidades grandes com estrutura viária complexa e precária a ajuda médica pode demorar a chegar. E minutos podem fazer a diferença. Nesses minutos cruciais é bom que apareça um bombeiro voluntário. Você, por exemplo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/02/2008. - [VIDA DE ESTUDANTE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/vida-de-estudante-diario-do-nordeste/): Com o andamento da vida, ainda que não se queira, voltam muitas coisas do passado. E escrevo sobretudo para jovens que andam reclamando do celular, computador, I-Pod etc. E querem carro. A coisa era diferente. Estou lembrando do meu tempo de estudante. Não existia nada disso, tampouco havia o “Google” para pesquisar. Era uma corrida louca, pois fazia, ao mesmo tempo, duas faculdades. Administração, pela manhã. Direito, à noite. Trabalhava à tarde, escrevia uma coluna diária em jornal, era correspondente de uma revista e fazia política universitária. Com as sofridas e próprias economias havia comprado um carrinho. Uma “gaforinga”, como o chamava o meu professor Parsifal Barroso, então governador do Estado, a quem tinha a ousadia de dar carona, imagine. Pois bem, esse carrinho, um Anglia, era bem conservado, apesar de velho e o grande luxo – para mim – de possuir vidros com maçanetas que os faziam subir e poder usar o banco traseiro como biblioteca ambulante. Talvez eu precise explicar que o meu primeiro carro, anterior a esse, era uma anciã camioneta Hudson, boléia de madeira, freio em uma só roda, sem vidros e apenas compatível com a minha quase liseira. O Anglia era, pois, uma evolução. Troquei-o por um Dauphine, bem menos usado, suando para pagar a volta. Quase no final do curso de Administração, resolvi criar uma empresa. Éramos eu e eu. Escolhi um pomposo nome e fui fazer pesquisas e dar consultoria. Assim é que, de um dia para a noite, me vi diretor de um curso de idiomas. Esse curso era uma franquia e o franqueado de Fortaleza havia me contratado para organizá-lo e, sem prévio aviso, sumiu. Liguei para São Paulo, contei o fato e eles responderam: fique você no lugar dele. Pense tudo isso junto na cabeça de um cristão mal entrado nos vinte. Mas, fui à luta e deu certo. No ano seguinte, passei o curso para frente e continuei a trabalhar, ao mesmo tempo em que dava aulas, sem saber de quase nada. Apesar do corre-corre, fui um razoável estudante. Terminei os cursos com boa média e um carro Gordine zero. Era a glória. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/01/2008. - [DOUTOR ÉDISON - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/doutor-edison-jornal-o-estado/): Recebo, com alegria, um belo convite de formatura em Direito. Parece, à falta de outra palavra, meio performático, primor de design em papel de qualidade, as mensagens de sempre, juramento, fotos dos concludentes na primeira infância e agora quando se formam na profissão mais simples e complexa que alguém pode escolher. Ela é simples, quando usada apenas como meio de dizer: estou formado e fico por aqui. Complexa, se encarada como profissão e missão, pois cobra estudos contínuos no cipoal das doutrinas e jurisprudências amazônicas e só dão azo a quem souber remar livros, pesquisar, ouvir e, naturalmente, ter sensibilidade e capacidade de colocar por escrito as suas ideias com o embasamento teórico que as apoia. E, certamente, souber fazer sustentação oral de suas ideias fundamentadas nos autos. Mas eu falava de um belo convite muito especial para mim, por conter uma particularidade: a formatura de um amigo na faixa dos sessenta anos. Ele, em meio à vida e à lida, resolveu se entregar a uma de suas paixões: o estudo do direito. Era comum em nossas rodas que ele falasse sobre leis, procurasse interpretá-las, apontasse erros, tivesse a acuidade de ver a essência de tudo o que permeia o vasto mundo real em que os legisladores as fazem e os agentes públicos as aplicam. Um dia, creio eu, tomou a decisão e resolveu se matricular em um curso de Direito. Quem sabe para legitimar o que sabia na prática. E o fez na condição de avô, cabelos brancos e pai de pequenos e adultos, inclusive advogados. Anos se passaram e ele mourejando, cuidando da vida como jornalista, estudando nas horas em que devia e podia, sendo o chefe de família que sempre foi. Agora, do seu jeito direto, entrega-me o convite. Antes de abri-lo, pergunto se será o orador da turma? Sim, diz ele. Não é surpresa, pois é uma pessoa articulada e sabe falar. Sugiro que o discurso seja breve para ser bem ouvido e trocamos amenidades. Ele se vai e vejo as muitas páginas desse gracioso convite, histórico para os formandos, um ‘mix’ de jovens e maduros, todos alegres em suas becas e ciosos de seus feitos. Por senso de justiça, sem que ele o saiba – certamente desautorizaria – divulgo o seu nome como exemplo de determinação: José Édison Silva. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/01/2008 - [CONVERSA DE DOMINGO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/conversa-de-domingo-diario-do-nordeste/): E agora que janeiro está próximo do fim, ainda lembra do que prometeu e pediu na virada do ano? Recorda que deu um balanço nos problemas, relacionamentos, visual, peso, imagem pública e idade? Como diria o Ponte Preta, tudo era óbvio e ululante. Tem aquela história de você ser uma pessoa única (se não o fora, um trem a teria dividido?), de seus planos pessoais não serem iguais aos de ninguém e coisa e tal. Daí, entre o calor e os respingos de chuva, fala-se muito em reinventar a vida, não deixá-la morna, modorrenta e igual à de anos passados. Até eu devo ter escrito isso por aqui. Desculpem, na hora com certeza estava pensando assim. Como este espaço é limitado, menos de 400 palavras (pode conferir), e não se propõe a aconselhamento, mas a articular ideias, breves que sejam, imagine-se em um “ashram”, um lugar aquietado, simples, em qualquer parte da Índia onde vive um Iogue de meia idade, uma espécie de guru. Lá, nos ashrams, eles têm vida contemplativa, extrema languidez de movimentos e falam inglês lento. E para esses lugares estão indo milhares de ocidentais à procura de paz. Vão ao exterior descobrir o seu interior. Assim, sem viajar, creia-se, por exemplo, em um ashram seu, exclusivo, que pode ser um quarto silencioso ou a sombra de uma mangueira frondosa. Dê uma de guru de si próprio, desempregue o Paulo Coelho. E, ao mesmo tempo, seja um aprendiz. Difícil? E o que é fácil? Como se fora um espelhamento veja-se refletido na sua imaginação, sem precisar abrir os olhos. Feche os olhos para ver. Experimente. Isso é conversa de domingo, dia da preguiça, exceto para os muçulmanos e judeus. Vá lá, cara. Tente. Não custa nada, nem precisa de plano de saúde ou fila do SUS. Basta parar e pensar em você mesmo. Um mergulho na alma. Se você não acredita que tem alma, dê uma olhada na consciência. Dá no mesmo. Vá devagar, a Índia é longe embora você não tenha saído de seu lugar. Tente o que chamam por aí de sincronização, uma espécie de embreagem que não permite solavancos na sua aquietação, mesmo que momentânea. E não esqueça de ter compaixão por você e pelos outros. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/01/2008 - [SEM DESTINO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sem-destino-jornal-o-estado/): Permiti-me passar uns dias longe de tudo. Distante, sem computador e fora de contato, exceto por raros telefonemas. Não sou acostumado a isso. Sempre fui multiuso, ocupado, cuidando disso e fazendo aquilo. Na virada do ano resolvi dar folga a mim mesmo, família e amigos. E o que fiz? Li um livro (Doublê de Corpo) com mais de 400 páginas, de Tess Gerritsem, uma médica que resolveu abandonar o estetoscópio para escrever romances policiais intrincados com pinceladas de conhecimento científico. Não precisa ter estudado medicina legal, basta ler sem ninguém por perto. Ao mesmo tempo, viajei e deixei que as alturas me conduzissem entre nuvens, cirros ou nimbo-estratos, de uma banda à outra desse mar-oceano que nos banha. E tive, uma vez mais, a sensação aquietada da grandeza do universo, exceto pelos raros solavancos ao cruzar ilhas que permeiam as muitas novas terras do sul e norte. Desci, vi parques, estradas, praias e gentes. Gentes, assim mesmo no plural, pois eram de muitas partes e de costumes vários. Umas vozes de acentos sincopados, outras com sons guturais fortes, acres, que não têm nada a ver conosco, livres por natureza e atitudes. Andei a esmo, sem destino, uma espécie de “easy rider” maduro, sem o chapéu do James Dean. E parei para rever um mosteiro sombreado. Velho conhecido que estava de cadeado à porta. Em compensação, fui a uma grande livraria. Dessas que têm um charmoso café onde xícaras, copos, livros, computadores, papéis, dividem as mesas entre jovens e maduros que estão lá esquecidos do mundo e um atendente gay fala com erudição afetada. De lá saí mais pesado, com o olhar raso de avidez pelo conteúdo do que levava. Como todo mortal, fiz compras de impulso, nada compulsivo. E até comprei Dvds remasterizados da série Flash Gordon que vou compartilhar com amigos cinemeiros. E, sem que a Cláudia Leitão e o Auto Filho estivessem por perto, entrei, por mera curiosidade, em duas bibliotecas públicas. Modernas, claras, envidraçadas, limpas, bonitas, frequentadas, informatizadas, onde se tira foto ao chegar. Lá, empanturrei-me de tudo, até de jornais, revistas, brochuras apregoando isso e aquilo ou representando valores, não necessariamente os meus. E, agora, estou de volta. Dirigindo, olhar atento, paro no sinal. Os vidros fechados recebem toques de dedos magros à espera de um trocadinho. Abro o vidro para a realidade e vejo um assalto logo ali na frente. É isso aí. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/01/2008. - [GARCÍA E RODRÍGUEZ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/garcia-e-rodriguez-diario-do-nordeste/): Estou voltando de um voo rasante e pude confirmar o que já havia constatado o “The New York Times”, em novembro passado. Hoje, nos Estados Unidos, entre os dez sobrenomes mais comuns, já há dois nomes hispânicos. Vocês sabem que houve uma guerra entre os Estados Unidos e o México entre os anos de 1846 e 48. Antes disso, o Texas já havia sido anexado à América em 1836. Depois, sem entrar no mérito, apenas citando o fato, durante dois anos, os Estados Unidos guerrearam contra o México e, através do Tratado de Guadalupe-Hidalgo, uma espécie de rendição, em 1848, os atuais estados do Texas, Novo México, Arizona e Califórnia passaram a fazer parte da nação americana. A área desses estados é maior que a de muitos países europeus e sua grande fronteira com o México tem permitido, desde esse tempo, a imigração sazonal ou permanente de milhões de mexicanos, legais e “indocumentados”. São, na maioria, trabalhadores, temporários ou não, que, inicialmente, mourejavam nas grandes fazendas. Depois, nas indústrias que ali foram sendo instaladas. Hoje, começo de 2008, os Estados Unidos têm 300 milhões de pessoas. Desses, 44 milhões são latinos. A realidade nos mostra que a cultura americana não pode mais desconsiderar a força dessa latinidade espalhada da Califórnia, no Oeste, à Flórida, no sul. Os latinos têm identidade cultural própria que os leva, entre outras coisas, a preservar seus sobrenomes de origem, embora usem prenomes americanos. Assim é que García e Rodríguez estão entre os dez sobrenomes mais comuns nos Estados Unidos, segundo dados do último Senso. E, entre os 25 sobrenomes mais comuns, já há seis latinos. Esses fatos têm motivado escritores, sociólogos, filósofos, antropólogos e cineastas a discutirem sobre uma ‘nova América’, onde todos possam ter direitos, liberdade, igual oportunidade de trabalho e um sentimento de pertença, sem a formação de comunidades isoladas. Essa integração, tão sonhada, passará ainda pela vontade política e já se manifesta na eleição crescente de congressistas com sobrenomes latinos, mas, ciosos de sua cidadania americana. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/01/2008. - [DE LEIGO PARA LEIGOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-leigo-para-leigos-jornal-o-estado/): Estou convivendo com duas pessoas queridas que lutaram contra o câncer. Um homem e uma mulher. Ambos maduros e que, apesar de inteligentes, não se cuidavam bem. O homem não fazia os exames rotineiros para detectar o câncer de próstata. Quando foi cuidar, ele havia se instalado e ameaçava a área periférica. Chorou, reclamou, desanimou. Pessoas amigas falaram duro e ele se mandou para São Paulo. Fez radioterapia e quimioterapia, reclamava muito dos enjoos e do sofrimento. Voltou mais magro e com o marcador (psa)ainda alterado. Tomou injeções de hormônio na barriga e já está com ótimo peso, marcador (psa) no nível normal, retocou o cabelo, anda de moto nos fins de semana e trabalha com afinco. A mulher, esclarecida e decidida, agiu ainda a tempo e conseguiu debelar o que invadia suas células. Tem o bom senso de fazer exames periódicos e mudou a sua cabeça. Agora, reserva mais tempo para ela e sua família. Não estou devassando a privacidade de pessoas queridas. O que estou tentando fazer é utilizar este espaço em que escrevo para alertar a todos, mulheres e homens, da necessidade de ser informado, fazer prevenções de saúde. Basta reservar algum tempo e fazer os exames por um plano de saúde ou até pelo SUS. O que não se pode é ignorar que existem formas de prevenir. Admitindo, só para continuar o papo, que alguém seja surpreendido por um câncer. Chore, reclame, dê muro na parede. Quando o choro secar, vá à luta. Não se considere derrotado de véspera. Há muitos recursos médicos, desde que bem utilizados e no tempo adequado. Se você não tiver dinheiro, venda qualquer bem, reúna a família e os amigos, conte a sua história e peça ajuda sem medo. Se não tiver quem ajude, vá atrás de seus direitos de cidadão na Secretaria de Saúde, no Decon ou denuncie a um promotor ou procurador. O direito à cura é fundamental. A única coisa que um doente com câncer não pode fazer é desanimar e deixar que a depressão roube as suas defesas. Pelo contrário, descubra-se forte, pergunte, leia, encha o saco dos médicos, converse com quem já passou por algo semelhante e vá em frente, com fé e sem essa de coitadinho. Se tudo estiver bem com a sua saúde, dê graças a Deus e, se for o caso, cuide para não ficar obeso, ande, mantenha uma dieta balanceada com frutas, legumes e carnes brancas, apague o cigarro, modere no álcool, informe-se, não esqueça dos exames de rotina e faça as pazes com quem brigou. Ódio é a pior doença. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/01/2008. - [VERMELHO E VERDE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/vermelho-e-verde-diario-do-nordeste/): Neste seis, domingo, dia dos Reis Magos, vá despertando para o ano real. Não vivemos tempos de reis, somos vassalos de uma máquina estatal a impor regras, cobrar impostos e a nos fazer, a cada semáforo, deparar com pedintes, flanelinhas, entregadores de propaganda, vendedores e malabaristas. Na realidade, malabarista é quem consegue, a cada sinal, sair ileso ou imune aos gestos, acenos, apelos, batidas no vidro da janela pedindo um trocadinho ou vendendo. É claro que a maioria tem bom coração, mas as cidades estão sitiadas para quem se locomove em veículo próprio. Deduz-se que não há magos que nos façam acreditar estarmos vivendo todos uma época de bonança. A maior bonança para o ser humano é a oportunidade de trabalho, sentir-se digno e capaz de levar para si e os seus o resultado de sua faina. O dinheiro que lhe dá o sustento e respeito por si próprio. Sei que os indicadores sociais revelam melhoria na renda da população mais pobre, mas há ainda um número grande de sem-teto, desempregados e crianças abandonadas em qualquer cidade brasileira. É claro que alguns recebem dinheiro do bolsa-família e outros programas. Mesmo assim, mendigam. Falta-lhes trabalho, um elo básico entre o homem e a sua dignidade. Se não ganha a vida com o suor do rosto, a vida perde sentido. Como não há mais reis e magos, é preciso que os dirigentes do Brasil, estados e municípios, que veem no turismo um caminho para o crescimento econômico, atentem para o choque que estrangeiros sentem ao ver cenas de crianças, homens, mulheres grávidas e esquálidas, disputando os segundos que medeiam o vermelho e o verde dos sinais. E o sinal vermelho pode ser um momento de reflexão para todos nós, fechados em nossas casamatas móveis olhando, com piedade ou indiferença, a cena a centímetros, e desviando dos catadores. Não há como não ver, não ser atingido. Não importa que o verde do sinal abra, pois, em seguida, outro vermelho nos fará parar, ver, e pensar no próximo, aquele que apela, pede, movido pela desigualdade que o revolta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/01/2008. - [VIAJAR - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/viajar-jornal-o-estado/): Viajar é sair do cotidiano. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer. O ser humano é um feixe de nervos que, vez em quando, precisa de relaxamento, descontração, para torná-lo apto a novas obrigações. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo países ou cidades, poderão sentir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais. A viagem, seja qual for o destino, é sempre uma porta aberta ao conhecimento. É também um tempo para nada fazer ou cuidar de nossas manias ou sonhos. O ideal é apenas viajar, observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua ou insegurança em aeroportos lotados, as conexões ou a trabalheira com malas, câmbio de moeda e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo, usando uma boa operadora de turismo. O primeiro mandamento de quem viaja é a descontração. Nada de levar muita roupa, pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe em falar errado, em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar. O segundo mandamento é aproveitar o tempo. Nada de ficar curtindo o apartamento, a não ser que... Ande, descubra o que está acontecendo na cidade e peça para lhe indicarem shows, livrarias, parques, shoppings, restaurantes, museus etc. O terceiro mandamento é não forçar a sua natureza. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia, mas saiba o que o satisfaz. O quarto é ousar, é tentar descobrir, por seus próprios pés, um lugar que lhe interesse, seja um barzinho com seis mesas, um museu com seu pintor preferido, um livraria-sebo com primeiras edições baratas ou uma loja com uma tremenda liquidação. O quinto é fazer amizades, descobrir gente positiva, alegre e comunicativa. O sexto é saber que você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, seja ela qual for. Você será muito mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer juízos de valor. O sétimo é esquecer problemas, queixas e lembrar que o tempo acalma até as maiores tempestades. Considere-se livre. E curta, pois a vida é breve. O oitavo e último é saber como usar o seu dinheiro ou o cartão de crédito. Não interessa a ninguém o quanto você leva e o que você faz dele. Lembre-se de que trazer presentes para as pessoas queridas é opcional. Você é quem merece os melhores presentes. É claro que estes mandamentos não constituem dogmas. São recomendações e servem apenas como sugestão aos que acreditam que os limites do mundo passam muito além da sua porta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/01/2008. - [QUE ANO! - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/que-ano-diario-do-nordeste/): Este é o meu 52º. escrito dominical de 2009. Como escrevo, em média, 385 palavras por texto, calculo ter digitado cerca de 20.000. Que palavras foram essas? Sei que, reunidas, tentam refletir o meu pensamento, sentimento ou o acontecido naquela semana. Pode ter sido artigo, crônica ou até arremedo de mini-ensaio. Falei de pessoas, cidades, cultura, viagens, comportamento, problemas brasileiros, fatos mundiais etc. Quem escreve deseja melhorar o texto, aprimorar linguagem, estabelecer comunicação com o conhecido e, especialmente, o desconhecido leitor. Não sei se o meu texto melhorou, tampouco quantas mil pessoas me leem. Algumas vezes, encontro pessoas fazendo referência a um texto específico e procurando aproximação para concordar ou discordar. Isso é bom. O leitor deve ter juízo crítico para analisar cada sentença e o sentido geral do texto. Leitores não devem ser seguidores, mas pensadores. Leitores são pessoas que elegem, dentro do jornal, algo para ler. Existe sempre diálogo surdo entre quem escreve e quem o lê. Quem escreve não é, necessariamente, um formador de opinião. Ele dá a sua ideia que pode ou não coincidir com a do leitor. É veleidade admitir que o que se escreve possa mudar- de cara - comportamentos, gerar atitudes ou formar conceitos. O importante é que alguém o leia e o discuta. Não existe escritor sem leitor. Óbvio. E o leitor é o elo mais importante dessa história. Sem ele não haveria ambiente para continuar a escrever. E por tal razão escrevo hoje para agradecer a você, caro leitor ou leitora, neste final de 2009. Que ano! O ano em que o Brasil mostrou cara enfezada ao mundo. O ano em que um negro assumiu o comando de um país de maioria branca e, até bem pouco, preconceituosa. O ano em que os filmes 2012 e Avatar anteveem catástrofes. O ano em que 192 países se reuniram para discutir a prevenção desses fenômenos e perderam o clima. O ano do fim da crise econômica mundial. O ano em que a China passou a ser a maior produtora de veículos. O ano em que nenhum escritor brasileiro ganhou o prêmio Nobel de Literatura. O ano Lula, personalidade do jornal “Le Monde”. Para você, feliz 2010. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/12/2009. - [O DONO DA FESTA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-dono-da-festa-jornal-o-estado/): Conta a História que, em Belém de Judá, nasceu um menino. Filho de José, um velho carpinteiro, e de Maria, uma jovem virgem. Ele, Jesus, nasceu em meio a festas pagãs do mundo hebraico. Faziam celebrações para louvar a Saturno, o deus da fartura ou da colheita, e a Mitras, o deus da luz e do sol. Esse menino era de uma pobre família nazarena e nasceu numa manjedoura ou gruta em noite alta em um 25 de dezembro. Consta que uma estrela brilhante desceu dos céus a anunciar a sua vinda. Ele foi crescendo e se descobriu diferente, pois pregava o amor, a fraternidade e a união, em meio a discórdias já existentes em seu tempo. E tornou-se homem. Saiu de Nazaré e foi trabalhar na Galileia com Zebedeu, ajudando-o a construir barcos. Depois, deu início a uma pregação nova. Seria anarquista, sábio ou patriota? O que ficou claro é que pregava o amor ao próximo, o perdão e dizia que para se viver eternamente seria preciso morrer. Falava de ressurreição e de um paraíso comandado por Deus, o senhor supremo. Condenado por blasfêmia, apedrejado e crucificado, aos 33 anos, em meio a dois ladrões comuns, sua morte foi fato restrito a uma província da Judeia, dominada então pelos romanos. Sua importância, século a século, foi aumentando por tradição oral e pelos seus seguidores, escritos dos evangelistas e pela consolidação do Cristianismo, no final dos anos 300 da nossa era. A contagem do tempo, no mundo ocidental, se faz a partir de seu nascimento, há 2009 anos, agora comemorado. A Ele e à sua Família reverenciamos neste Natal que se deseja cristão, ecumênico, amoroso e de congraçamento. Cada pessoa se dê conta de que possui alma ou espírito, aura ou juízo crítico a nos balizar frente às duras questões do dia-a-dia e do viver. Diz uma pastoral da juventude que a vinda de Cristo foi espontânea, gratuita e generosa. Ele veio sem ser pedido. Não olhava para o merecimento, mas redimia pelo amor. E não pedia nada em troca. Dessa forma, fazer o bem não seria contraprestação, mas dever de consciência e de amor ao próximo, àquele a quem devemos chamar de irmão. O Natal sempre é tempo de festas, confraternização, mas pede, igualmente, reflexão, revisão de princípios, e a tomada de consciência de que somos finitos, transitórios, embora acenados por perspectivas eternas, se justos. Feliz Natal. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/12/2009. - [RECEITA MÉDICA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/receita-medica-diario-do-nordeste/): Todos, crianças, adultos, maduros e idosos, precisamos de remédios. Alguns precisam de forma continuada. Outros, para debelar doenças oportunistas e afins, os tomam apenas por ouvir dizer que alguém se deu bem. A verdade sobre os remédios ou drogas manipuladas por laboratórios farmacêuticos ainda está nublada. Os remédios vêm, na maioria das vezes, das plantas. Há os criados, sintetizados, extraídos de animais etc. Recomendo a médicos, jornalistas e a todos a leitura do livro “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos”, escrito por Marcia Angell, com a autoridade crítica de médica e ex-editora-chefe do “New England Journal of Medicine”. Traduzido para o português pela Editora Record, esclarece dúvidas e pretende deitar luz sobre como os grandes laboratórios engajam médicos e escolas de medicina imaginando estar participando de pesquisas para o bem da humanidade. Segundo ela, um mito que cai por terra é o dos elevados custos das pesquisas. Ela revela que a maioria das pesquisas tem origem em universidades ou institutos governamentais e são apropriados pelos laboratórios farmacêuticos. Angell fala ainda em vícios de dados para produzir resultados positivos de futuras drogas ou a mera mudança de nomes como se fossem novos produtos. Pesquisando, li que, neste ano, um estudo do “Archives of Internal Medicine”, da American Medical Association, mostrou como agem alguns laboratórios. Lembram-se do anti-inflamatório Vioxx? Pois bem, ele deveria ter saído de circulação não em 2004, mas em dezembro de 2000, quando foram comprovados riscos do produto para doenças cardiovasculares e cerebrais. Assim, as pessoas com artrite e dores agudas, alegraram-se com a chegada do Vioxx em 1999. O que não se comenta é que esse remédio causou cerca de 139 mil eventos cardiovasculares, com até, dizem, 40% de casos fatais. Dessa forma, ao adoecer - ou cuidar de mal crônico - procure inteirar-se do seu médico sobre o bem e o mal que as drogas receitadas possam causar. O cáustico Molíére, em “O amor médico”, dizia: “Morreu de quatro médicos e dois farmacêuticos”. Errado. O médico deve e pode salvar vidas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/12/2009. - [O LIMITE DO BARULHO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-limite-do-barulho-jornal-o-estado/): Domingo passado assisti ao filme americano “Passando dos limites”.(Noise). Nele, Tim Robbins protagoniza um cidadão comum, empregado, casado, uma filha, apartamento etc. Ele começa a ficar incomodado com os barulhos noturnos das sirenas dos alarmes dos milhões de carros que, por qualquer razão, são disparados. A partir daí, ele desenvolve um transtorno obsessivo compulsivo que o enfurece ao ouvir o som ensurdecedor de alarmes a qualquer hora do dia ou da noite. Passa, então, de cidadão comum, a ser uma espécie meio paranóide de vigilante desligando cabos das baterias de carros até chegar ao ápice da sua semi-destruição com os pés e marretas, invocando, para si, um “papel social”. Vai preso, reincide, passa 30 dias no xadrez e, ao sair, o casamento é desfeito. Fica, além de obsessivo, desempregado. Procura, então, formar um grande “abaixo-assinado” para coibir a instalação de alarmes em carros. Logo, consegue adeptos para ajudar a mostrar que, em Nova Iorque, ninguém se importa mais quando um alarme soa. Deixemos o filme em suspenso. No dia seguinte, segunda-feira, o professor da FGV, Bresser Pereira, escreveu na Folha de SP, o artigo “Direito ao Silêncio”. Ele reclama dos alto-falantes dos aeroportos brasileiros que incomodam mais que informam. Fala também do que tenho escrito há algum tempo: o zumbido monocórdio dos hélices das torres de energia eólica. Cita até o “Le Monde Magazine”, de 28 de novembro passado, como fonte de clamor de franceses contra o som forte, grave e repetido que parece estar causando insônia, náusea, irritação e até depressão aos vizinhos desses grandes geradores. São duas narrativas distintas. A primeira é ficção, baseada na zoeira de qualquer grande cidade. A segunda, real e comprovada. Não bastam as descolagens e aterragens de aviões, ainda temos que ouvir os alto-falantes dizendo o que já se vê nos monitores de televisão, isto sem falar, nas constantes mudanças de portão de embarque. Além dos alarmes disparados, dos alto-falantes dos aeroportos, há muita coisa mais a fazer barulho. Espaços públicos com cantores e pastores. Pouca gente sabendo se comportar em restaurante. Fala-se alto, gesticula-se e os vizinhos, desconcertados. Nas ruas, camelôs, pedintes, buzinas e caixas de sons de alguns carros ultrapassam, em muito, os limites naturais da tolerância. Falar alto em ambiente público, usar caixas de som ensurdecedoras, acelerar quando o sinal abre são provas inequívocas de falta de educação. Diz o Talmud: “uma palavra vale uma moeda; o silêncio vale duas”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/12/2009 - [A VISITA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-visita-diario-do-nordeste/): Trocamos telefonemas. Tensão constante. Fui apanhá-lo no outro lado da cidade. Manhã alta. Dia de semana, trânsito caótico. Cheguei. Veio de lá com seu jaleco branco bem passado, olhar turvo por trás das lentes espessas, os ralos e gris cabelos da cabeça e bigode mostravam sinais de cuidado. Sabíamos o que iríamos fazer. Falamos do acontecido e o que se poderia tentar. Ouvi dos contatos preliminares, da ambulância e da necessidade de pedir boa assistência. Conseguimos estacionar, entramos no hospital. Direto ao elevador para a UTI, onde ficam os necessitados de tratamento intensivo. Lavamos as mãos, falamos com o médico intensivista, olhamos o quadro clínico no prontuário e nos encaminhamos para o leito. De repente, o homem do jaleco já não era mais médico, o que pastorea almas desesperadas, recomenda moderação, ouve queixumes e medica. Era o filho-menino do pai inerte, mas de face serena, sua cópia em sépia. Quem ali estava deitado, cheio de tubos, cercado de máquinas, era o velho “pairmão” amado e reclamão. O coma e o respirar por instrumentos obrigava a pensar na sua vida de atleta, jogador de futebol que fora, da lida em livraria para sustentar a família e das andanças etílico-sociais nas redondezas. A realidade se confundia com o tom monocórdio dos reguladores da vida a se esvair. E tivemos, sem trocar palavras, ciência de que a Caetana rondava e cobrava os dividendos do tempo. Pouco havia a fazer. Cumpri o estabelecido e coloquei o homem de jaleco em contato com a direção que prometeu cuidados maiores. Depois, tal como subimos, baixamos à vida espremida entre buzinas, camelôs, engarrafamentos e o calor abrasador do sol zenital. E, silentes, tivemos noção do provável infortúnio. A volta foi mais lenta e o jaleco, agora amarfanhado, parecia um cobertor a agasalhar o homem-menino que saia, pouco a pouco, do transe e se reencontrava com o ceticismo natural dos seguidores de Hipócrates. Parei. Ele desceu, acendeu o cigarro, abriu o portão e, penso, foi chorar sozinho. O resto é silêncio, como queria um certo William. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/12/2009. - [COPENHAGUE –COP-15 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/copenhague-cop-15-jornal-o-estado/): O que me chamou a atenção em Copenhague foram duas coisas distintas. Uma: 38% da população da cidade usa bicicleta como transporte. E o clima é frio, até na primavera. Há muitas e bem cuidadas ciclovias com raros cruzamentos. A outra: local de resistência à modernidade, a Christiania, comunidade baseada na filosofia hippie de “paz e amor”, instalada nos anos setenta em base militar abandonada. Hoje, definha, acreditando ainda que tendas de artesanato, cds alternativos, pinturas e músicas de artistas emergentes e, naturalmente, o consumo e venda de drogas proibidas, são meios naturais de vida para os que não aceitam a competição desenfreada como “leit-motif”. Nessa cidade, neste invernoso início de dezembro, estão reunidas milhares de pessoas, oficial ou voluntariamentepara a COP-15. Vão de governos às organizações sociais, de grupos multinacionais às instituições multilaterais, de seguranças aos ativistas. Só do Brasil estão, em Copenhague, cerca de mil pessoas. A maioria representa interesses públicos e privados na discussão sobre a possibilidade de redução dos gases-estufa no clima. Esse mal que, se não cuidado com tecnologia e dinheiro, continuará causando inundações como as do sul do país, as desta semana em São Paulo e os tsunamis, todos de triste memória. A estratégia da reunião oficial é dividida em três partes. Discussão com delegados dos países, análise preparatória por ministros e, ao final, o acerto ou desacerto ético-crono-financeiro com a criação -ou não- de Fundo Global pelos chefes de Estado. Há gente preocupada com os interesses que poderão colocar a perder essa oportunidade para a mudança: de hábitos individuais predatórios, de empresas poluidoras de cursos d’água, dizimadoras de florestas, produtoras de C02 e de cidades adensadas sem infraestrutura. Tudo, claro, a partir de governos que descumprem leis, não propiciam saneamento básico, moradas, empregos e aceitam os desmatamentos. Isso dá à crosta terrestre, que abriga nossos corpos, alimentos e casas, o direito de represália. O que vem da terra, a ela voltará, diz o Eclesiástico. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/12/2009. - [FÓRUM DE LÍDERES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/forum-de-lideres-diario-do-nordeste/): Sexta e sábado passados no WTC, em São Paulo, reuniu-se, em 32ª. edição, o Fórum de Líderes Empresariais. Trata-se de entidade nacional sem fins lucrativos com clara definição de propósitos, dirigida por Osires Silva, cidadão exemplar, ex-ministro e fundador da Embraer. O presidente do Conselho é Luiz Fernando Levy, antigo controlador da Gazeta Mercantil. Esse Fórum elege de forma idônea, anualmente, empresários de todos os estados. A edição deste ano durou dois dias. Começou com palestra do presidente do Banco Central, Henrique Meireles, sobre a situação do Brasil na retomada de crescimento mundial em 2010 e a preocupação da “administração do custo do sucesso”. Merece relevo a preocupação do Fórum com o desenvolvimento sustentável do país, que deixa a desejar. Governo e empresários foram alertados do perigo de suas possíveis ações predatórias e da urgência de revisão de conceitos e objetivos de todos. Exemplo: os filmes catastróficos “O Dia em que a Terra parou”, já antigo; e “2012”, em exibição, antes de serem apelos comerciais como ‘blockbusters’, independente qualidade de suas direções e argumento, mas os focos no desastre ecológico, seriam, quiçá, alertas piegas do nosso planeta contra a ausência da preocupação dos que o habitam: uso abusivo da água, descaso com a limpeza das cidades pelos habitantes, a ocupação predatória de áreas ribeirinhas e a destruição de florestas. Sabe-se, entretanto, que 50% das moradas não têm esgotos sanitários. Falta conscientização de entidades, empresas e governos que falam, mas não praticam a sustentabilidade. Agora, neste Fórum, o Ceará está representado por nomes de liderança estadual, todos sem vínculos maiores com entidades patronais, premiados que foram, neste novembro 2009, através de Yolanda Queiroz, Ivens Dias Branco, Deusmar Queirós, José Carlos Pontes, Beto Studart e um mais. Criou-se ainda, nessa reunião, um grupo chamado de G-27, que terá um representante de cada estado brasileiro, para agir ativamente em decisões estratégicas nacionais. País desenvolvido é integrado, tem escassos desníveis internos e elege prioridades sociais. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/12/2009. - [POLITICAMENTE CORRETO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/politicamente-correto-jornal-o-estado/): Está sendo discutida e criticada por muitos a expressão “politicamente correto”. Dizem os agora pragmáticos cientistas políticos, antropólogos, sociólogos e afins que se a ação é política não pode ser correta. A política tem vários componentes, mas nenhum deles prima pela correção. Maquiavel, já no século XVI, dá receita não correta: “Precisando um príncipe saber utilizar bem o animal, deve tomar como exemplo, a raposa e o leão; pois o leão não é capaz de se defender das armadilhas, assim como a raposa não sabe se defender dos lobos. Deve, portanto, ser raposa para conhecer as armadilhas e leão para espantar os lobos”. Política seria assim a arte de encantar serpentes e não desprezar variáveis desencontradas e antagônicas para ganhar e manter o poder que se quer ou tem. Acreditam os acadêmicos na mudança necessária para socialmente correto. Um fato pode ser socialmente correto, independente da política de qualquer natureza e dos que gerem a coisa pública. E por falar em coisa pública, lembrei da morte de Celso Pitta, ocorrida há duas semanas. Não se deve julgar os mortos, tampouco tripudiar sobre quem não pode mais se defender. Assim, relembro apenas que Celso Pitta, embora carioca, foi prefeito eleito com milhões de votos em São Paulo. Apoiado por Paulo Maluf, de quem fora empregado, derrotou Luiza Erundina (então PT) e José Serra. Foi exaltado, envaidecido e posteriormente crucificado, a começar pela ex-mulher com informações que o levaram a prisão e ao pôr-do-sol político. Aos 63, câncer propagado pelos infortúnios, teve apenas trinta pessoas em seu enterro. Muitos políticos, inclusive os do recente caso do Governo do Distrito Federal, e todos os ocupantes de funções públicas deveriam atentar ser a fama, como já se disse, uma sucessão de mal-entendidos. A história tem mostrado. Para isso é preciso ler o que Thomas Mann, esse alemão meio brasileiro, dizia em seus ‘Escritos autobiográficos’: “A glória em vida é algo problemático: é aconselhável não se deixar deslumbrar por ela, muito menos estimular”. Na esteira da glória está a fama. E sobre ela, em seu “Purgatório”, Dante Alighieri falava no século XIV: “A fama que se adquire no mundo não passa de um sopro de vento, que ora vem de uma parte, ora de outra, e assume um nome diferente segundo a direção de onde sopra”. Assim, a fama e a glória precisam de pressupostos, sem os quais serão sopros do vento. Sem essência e pressupostos verdadeiros, não há o politicamente correto ou o socialmente justo ou certo. As pessoas esquecem que são mortais, finitas. Por serem vaidosas e ambiciosas, se deixam levar por oportunidades, instantes, aparências, interesses e devaneios. Ao fim e ao cabo, descobrem que nada era tão importante e necessário. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/12/2009. - [OUTROS MUNDOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/outros-mundos-diario-do-nordeste/): Entre as minhas múltiplas tarefas, há a de ser uma espécie de galerista. Não a de gestor ou curador de galeria de arte tradicional, mas a que abriga, em seu espaço simples, agradável e receptivo, a arte em todas as suas manifestações, sem pensar em pecúnia. Penso apenas estar sendo intuitivo e incentivador de quantos têm, ao longo dos últimos dez anos, procurado esse espaço gratuito -com público crescente - para expor seus quadros, instalações, esculturas, livros raros, poemas, mensagens de denúncia etc. Em cada exposição é deixado - sobre um púlpito - um livro em que todos podem se expressar livremente, assinar, fazer garatujas e exercer a crítica. Seria longo e cansativo falar dos dez anos. Foram muitas exposições, misturando principiantes, lutadores e consagrados. Atenho-me, aos dois últimos meses, como uma amostra aleatória. Começo com uma exposição de pinturas e objetos feitos por jovens infratores, apenados, e em processo de recuperação. É claro que não se descobriu nenhum gênio, mas permitiu-se a expressão artística e, quem sabe, primal de jovens na luta diária entre o delito e a arte, entre o caminho do trabalho difícil ou da droga fácil. A exposição foi aprovada e prorrogada. Depois, mudando de tom, foram expostos móveis franceses dos últimos séculos, e o público aderiu àquela vaga e aproveitou para fazer observações no tal livro, inclusive com brincadeiras e sonhos de aquisição. Agora, fim de novembro, em parceria com o Departamento de Ciências da Informação/Biblioteconomia da UFC, são mostradas “As gerações invisíveis da cidade informacional”. Vítimas da intolerância por serem “diferentes” e não se enquadrarem no modelo cobrado pela sociedade. Essas gerações invisíveis não recebem sequer o olhar complacente de estranhos. Entre eles estão catadores de lixo, os sem teto, grupos de dança funk, surfistas, os “emos”, em trajes escuros, que ocupam uma rotunda da cidade. Nas fotografias denunciadoras e textos fortes, o visitante se depara com os “outros mundos” da cidade indiferente às suas presenças e expressões. Uma forma tão dura quanto o tratamento que recebem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/11/2009. - [ALMOÇO, DE PASSAGEM - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/almoco-de-passagem-jornal-o-estado/): Aconteceu longe daqui. Na terra do nunca. Ou na terra da incomunicabilidade. Foi assim: era um almoço de confraternização ou não era? Frater é irmão e isso já havia sido dito até altas horas entre todas. Vamos dizer que sim, era uma confraternização. Lato senso, todos são irmãos. Estavam ali com toda a tropa, casais, filhos, empregadas e até uma solitária cadela branca. Foram para ver um senhor, não o Deus, mas o que as havia ajudado a gerar com a energia do seu corpo. Fora há tempos, lustros atrás e tudo havia sido desfeito. Até a casa virará pó. Sobraram cobres, distribuídos, mas isso é outra história. Chegaram uns, outros vieram depois com sentimento de preguiça, e o senhor, como se tivesse fazendo uma paródia de si mesmo, veio conduzindo o peso de maletas portáteis, com rodízios, portando, cada uma, em seu exterior a foto e o nome do Superman. Era o que ele não era, pois se o fosse, ali não estaria mais, tantas as vezes que havia cedido por ausências, gestos, críticas e dores que só lhe diziam respeito. Mas, invocando, quem sabe, o amor definitivo e a força dos super-homens que conduzia com carinho, trouxera cartões individuais e afetivos para cada um dos vários pares que a vida unira. E juntou quinquilharias nessas bolsas de super-homem, somou atenções, brincadeiras e um pouco da veia espirituosa, como a dizer que não havia mudado. Era e seria o de sempre. Elas, sim, haviam mudado. Até o olhar. Ele juntara tudo, sem saber fazer as escolhas certas, pois todas eram refinadas e ele um senhor atrapalhado. Até repetira presentes anteriores e não obedecera a recomendações de só trazer o que fosse certificado pelo Inmetro, o órgão do governo que dá muito emprego e faz de conta que verifica pesos, medidas e qualidade. E ele estava ali e ouvia, de passagem, que uma delas iria se mudar para um pouco mais longe dali e não tão cerca do mar onde hoje habitava, mas para um condomínio novo, sofisticado, com áreas onde as crianças brincariam com seus iguais. E até foi sugerido, levemente, que outra também lhe fizesse companhia, cedendo o seu apartamento para a última, a que casaria em breve, andaria dez passos até o altar e precisava de cerimonialista competente para dizer a todos como andar dez passos sem errar. E estavam ali de passagem, pois a maioria subiria, em seguida, às montanhas, pois havia cansaço muito a ser refeito na mansão construída com o denodo e a qualidade de tudo o que a progenitora fazia. E cujo endereço, diga-se, o senhor não conhecia. E choveu. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/11/2009. - [VIDA E MORTE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/vida-e-morte-diario-do-nordeste/): Um rio separa a morte da vida. Estão ligadas por pontes. Do lado da vida estão majestosos edifícios, em rigorosa linha imaginária, tendo como referência de vitória um obelisco granítico. Acreditam os habitantes transitórios dessa linha da vida estar defendendo princípios, definindo missões, estabelecendo padrões de valores, mas convivem, a um relance da vista, com a morte. Dizia o poeta cego John Milton, em certa parte do “Paraíso Perdido”, o maior poema épico da língua inglesa: “Ele jaz estendido então na terra/ na terra fria: ali entre ais amiúde/a sua criação amaldiçoa/e amiúde a morte de tardia acusa/porque não vinha já, sendo presente/para o dia da ofensa perpretada.” O rio Potomac corre lento em margens amareladas pelas folhas do outono deste novembro de 2009. Por escolha, fiquei na mesma avenida em que mora, por tempo definido, o afrodescendente que prometeu esperança e o bordão “sim, nós podemos.” Nestes poucos dias em que estive por lá, revi o visto antes, especialmente a colina dos mortos, abrigando os que, enviados por decisões germinadas no grande “mall” atravessaram mares e espaços e morreram lutando pelo que bem não sabiam. Estão lá na terra fria, cobertos por relva, lápides e o respeito mudo de quem os visita por laços de família, comiseração ou curiosidade. E vi, no destaque, as poucas pedras marmóreas horizontais sobre o chão, alumiados por uma pira, juntando sobrenomes irlandês e francês, em uma união desfeita pela morte noutro novembro, em 1963. E lá, insolentemente como um aposto, há o sobrenome grego de um Aristóteles, não o sábio, mas o mercador. E neste novembro, uma noite mais fria se fez, enquanto se decidia sobre a saúde pública albergar os pobres e seus descendentes, os vindos de outras pátrias, em busca do milagre. E fiquei, por horas, acompanhando a votação ganha por cinco votos pelo quarentão nascido no Havaí, de pai queniano. E, no dia seguinte, o sol de fez claro, como se seus raios e halos cobrissem de energia os que não haviam perdido a esperança na terra onde limusines brilhantes e tão antiquadas quanto um réptil são símbolos da desigualdade e da injustiça entre os homens. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/11/2009 - [JOÃO SANTOS E DIX-HUIT - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/joao-santos-e-dix-huit-jornal-o-estado/): Já confessei ser leitor compulsivo. Caiu-me ontem às mãos um folheto de uma fábrica de cimento. Depois de lê-lo, parei e fiquei pensando em um dia no princípio dos anos setenta. Começara a vida real, a da luta pela sobrevivência, e estava em Mossoró, Rio Grande do Norte, dirigindo uma equipe e elaborando o Plano Diretor da cidade. Havia ganhado o serviço em concorrência do Ministério do Interior e o trabalho era árduo. Um dia, detalhando para o prefeito Dix-Huit Rosado, uma mudança urbana necessária, ele levou a mão a cabeça, como se lembrasse de algo, e disse “vamos ao aeroporto que já estou atrasado”. Lá, um pequeno avião taxiava, e dele desceu um homem de jeito e compleição nordestina, “slacks” branco, chapéu e testa larga. Era João Santos, o dono de fábricas de cimento que chegava. De lá, fomos almoçar. Dix-Huit disse para ele que eu estava mexendo em toda a cidade. João Santos olhou para mim, perguntou quais as minhas ideias, ouviu calado. Ao fim do almoço, nos despedíamos. Ele, João, olhou para mim, chamou-me a um canto, e perguntou de chofre: quer largar isso e vir trabalhar comigo? Engoli seco e respondi que não, queria ser dono do meu tempo e do meu destino. Agora, mais de trinta anos passados, lendo o tal folheto das primeiras linhas referidas, revejo que aquele homem simples, já falecido, construtor um império a partir do nada. Era um menino do interior de Pernambuco, igual a tantos outros. Mas havia nele o germe da esperança, da inquietação e, formado cedo em economia, meteu-se pelo mundo afora, lutando como sabem fazer os obstinados. Aportando na Bahia e, pouco a pouco, disseminando força por todo o Nordeste, em múltiplos e vitoriosos empreendimentos, inclusive comunicação. E veio, como já disse, a imagem nítida desses momentos importantes para mim, um jovem fincando base para o futuro em meio ao calor abrasador da terra dos Rosados. E lembrei também de Dix-Huit, um desengonçado, culto e doce grandalhão, político de têmpera que, logo depois, seria preterido para o governo do Rio do Grande do Norte, apenas por ter, como Senador que fora acompanhado à China a comitiva do então vice-presidente João Goulart. No dia seguinte à derrota, me desloquei à sua fazenda, e lá encontro o futuro ex-governador sozinho, de botas, chapelão. Pegou a sua velha pickup Toyota e saiu conversando comigo, como se nada tivesse acontecido e a mostrar as plantações e irrigações que fazia. (dedicado a todos os que subiram a escada da vida por seus próprios pés) João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/11/2009. - [05 DE NOVEMBRO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/05-de-novembro-diario-do-nordeste/): Voltei. Passei oito anos relutando em ver “in loco”. Todos lembram daquela manhã de terça, 11 de setembro. Vimos tudo pela TV, até a exaustão. Atônito, minha reação imediata foi escrever onze contos e enfeixá-los em livro. Nesse livro (Sobre a Gênese e o Caos), tento explicar, na gênese, as razões motivadoras do atentado, as lições não aprendidas e até ouso escrever uma carta para Bush e Bin Laden. Na segunda parte, ficção absoluta, falo do drama pessoal de uma cleptomaníaca; do menino afegão treinado para o terrorismo; de um casal que se separa enquanto tudo explode; de um velho e cansado vigilante; do amor carnal entre zeladora e segurança; de sessão espírita; do primeiro dia de trabalho de um jovem executivo negro; do voo de um Boeing 767; dos sonhos da viúva de um bombeiro morto; do imigrante judeu e sua família; e dos terroristas em ação. Em minha imaginação, tudo parecia um filme e criei os detalhes de cada conto. Faltou, quem sabe, Spielberg ou um Fernando Meireles para a direção. O fato é: voltei lá na quinta-feira, 05, deste novembro. O “Ground Zero” estava cercado por tapumes. Era hora do almoço, os trabalhadores saíam com suas marmitas para a grade acolhedora do jardim fronteiriço da capela de St. Paul, ilesa no ataque. Aproveitei, meti a cabeça, e vi o grande vazio em que as duas gêmeas se transformaram. Ao fundo, a construção do memorial Torre da Liberdade e gruas espanando os céus. Naquele mesmo dia 05 e hora, em Fort Hood, Texas, eclodia atentado dentro de base militar. 13 pessoas morreram e outras ficaram feridas. Soube logo depois, também pela TV. Não havia como não ligar os dois fatos, especialmente se um dos suspeitos, embora major do exército americano, é de fé muçulmana. No dia seguinte, apanhei um táxi com motorista etíope. Conversamos sobre o ocorrido e perguntei sua opinião. Ele disse que não entendia a razão, pois tinha sido bem acolhido no seu novo país. O tratavam como igual e aquilo poderia ser um novo caos. Relembrei dos contos publicados e o que narro a vocês agora ainda me causa estranheza pela incapacidade coletiva de se descobrir o caminho da convivência humana sem guerra. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/11/2009. - [A CÂMARA E A ACADEMIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-camara-e-a-academia-jornal-o-estado/): A História sempre nos ensina. Ela nos diz, por exemplo, que as Câmaras de Vereadores no Brasil são mais antigas que o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas. No Brasil, elas vieram com as Capitanias Hereditárias. A primeira Câmara instalada foi em SP, em São Vicente, que havia sido elevada à categoria de vila pelo donatário Martim Afonso de Souza. Essa 1ª. Câmara ficou conhecida como a “Câmara Vicentina”. Em todo o período colonial as câmaras municipais possuíam número considerável de atribuições. Eram elas que regiam as cobranças de tributos, definiam o exercício profissional, indicavam as atividades do comércio e ofícios, zelavam pelo patrimônio público e até administravam as prisões. Em suma, tinham funções executivas, legislativas e judiciárias. Após a Independência, veio a Constituição de 1824, quando o império centralizou a maior parte da administração pública e fixou em quatro anos a duração da legislatura. O vereador mais votado exercia a presidência da Câmara. Em 1889, com o advento da República, os vereadores passaram a ter exclusivamente papel legislativo e de fiscalização. Agora, com a Constituição de 1988, os papéis dos vereadores são os de legislar, fiscalizar, representar e sugerir/requerer. É exato nesse papel da sugestão que o Vereador Paulo Facó apresentou requerimento à Câmara Municipal de Fortaleza sugerindo a realização de uma sessão especial para homenagear a Academia Fortalezense de Letras. A Casa aprovou, unanimemente, o requerimento e ontem aconteceu a solenidade. Essa sessão, ontem realizada, se fez, acredito, como reconhecimento ao trabalho cultural de cada acadêmico da Fortalezense, bem como o esforço das gestões de Cid Carvalho, Cybele Pontes e Ednilo Soárez que deram uma feição contemporânea à nossa Academia Fortalezense de Letras. Ela é simples, mas diligente, atuante, diferenciada ao incentivar academias de estudantes. De forma inovadora desempenha o seu papel de regente, com empenho, de nomes qualificados. Agora, por exemplo, criou um blog, ao qual todos poderão acessar e incluir seus poemas, contos, ensaios e romances. Possui, em seus quadros, expoentes da cultura de Fortaleza. O seu presidente de honra é o Príncipe dos poetas cearenses, Artur Eduardo Benevides. Figuras políticas como os ex-vereadores Barros Pinho, Juarez Leitão e Ubiratan Aguiar. Barros Pinho também foi Deputado Estadual e Prefeito de Fortaleza e acaba de ganhar o Prêmio Osmundo Pontes de Literatura. Juarez Leitão, por sua atuação como mestre de história, produção poética e biográfica, é admirado por todos. Ubiratan Aguiar é Ministro do Tribunal de Contas da União, sendo, com muito zelo, o seu atual presidente. Na área pública, conta com o brilhante ex-senador da República, Cid Carvalho; o Deputado Estadual, Teodoro Soares; o Reitor da Universidade do Vale do Acaraú, Colaço Martins; e a ex-presidente do TRE, Gisela Nunes da Costa, que vem de ser agraciada com o título de Doutor Honoris Causa pela UVA. Destacam-se ainda sócios que dirigem outras entidades: o presidente do Instituto do Ceará, José Augusto Bezerra; Matusahila Santiago, da veneranda Casa de Juvenal Galeno. Maurício Benevides, presidente da Academia Cearense de Retórica; José Teles, presidente do capítulo cearense da Academia de Letras e Artes do Nordeste; Cybele Pontes, presidente da Sociedade Amigas do Livro; e Francisco Lima Freitas, presidente da Academia de Letras Municipais do Ceará. Os demais colegas são jornalistas, historiadores, bibliófilos, poetas, contistas, cronistas, romancistas e ensaístas. Esses acadêmicos, mercê de seus méritos, têm produção literária significativa nestes primeiros anos do Século XXI. A Fortalezense sugeriu ao presidente da Câmara, Vereador Salmito Filho, através do Vereador Paulo Facó, a elaboração, em 2010, de um “Cadastro Geral de Artes e Cultura de Fortaleza”, no qual todos os participantes dos mais diferentes segmentos das expressões artísticas, culturais e literárias da cidade, independente de credo, sexo, raça, ou de serem filiados a academias ou quaisquer entidades, em rigorosa ordem alfabética, possam ter seus nomes, breves currículos e produções impressos e registrados para divulgação, consulta e fins históricos. Por fim, louve-se a atenção do Vereador engenheiro Paulo Facó, que tem se caracterizado em conferir evidência especial à Cultura fortalezense. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/11/2009 - [O REAL URBANO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-real-urbano-diario-do-nordeste/): Amanhã é o dia mundial do urbanismo. As cidades são a prova da quase falência de uma só profissão, a arquitetura, como a única a reger o urbanismo. Urbanismo é muito mais que arquitetura, geografia, topografia, ecologia, história, sociologia, engenharia, informática, logística, economia, administração, direito etc. Urbanismo é o somatório de tudo isso. Ou, em outras palavras, é a absorção de cada uma dessas artes, ciências ou profissões, de forma integrada, para a análise sistêmica de uma cidade ou partes dela. Neste quase fim de 2009 há uma certeza: toda média ou grande cidade do mundo vive um caos urbano. No Brasil, é rara a cidade sem problemas de engarrafamentos, alagamentos e acidentes. De uns tempos para cá, a única novidade na face urbana das cidades foi o pardal ou foto-sensor. Ele reina, impávido caça - reais de todos os que, distraídos, esbaforidos pelo estresse ou medo de assaltos, se afoitam a avançar sinais, parar nas faixas de pedestres, fazer retornos indevidos ou dobrar à esquerda/direita. Sua tecnologia é de ponta. Ganham, a empresa que os instala e a cidade que a contrata. Quanto monta as multas de trânsito, não se sabe. O que se diz, especialmente no Rio Grande do Sul, é que os Detrans são os caixas dois preferidos de governantes. Deu até em CPI que, como todas, acabou em nada. Com a municipalização do trânsito, o problema tomou outra dimensão. Rara é a cidade a não adotar esse mecanismo de faturamento instantâneo, espécie de caixa-rápido. Por outro lado, não há projetos para radicalizar o uso dos transportes públicos e criar vias exclusivas para bicicletas e motocicletas. Estas últimas são o terror do trânsito. Um dia desses, sinal fechado, vejo uma moto subir, pela esquerda, o canteiro central da via para passar na frente do meu carro. Pelo retrovisor, olho outra moto vindo pelo lado direito. As duas se chocam. Lembrem que o sinal estava vermelho. Discussões fortes após a batida e eu esperando. Depois, quase roucos, lá se vão os dois motoqueiros arrastando suas motos para o passeio. Olho para frente e o sinal verde fechou de novo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/11/2009. - [ADÍSIA SÁ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/adisia-sa-jornal-o-estado/): Amanhã, sábado, 07 de novembro de 2009, Adísia Barros de Sá completa 80 anos. Adísia é dessas pessoas nascidas para fazer o novo, ser diferente, causar impacto e mostrar-se de forma límpida, corajosa e certeira. Adísia não é inventora. É inovadora, pois o inventor sonha com o que pretende fazer e, quase sempre, não materializa o seu devaneio. Ela o fez, inovou, criou escola, fez-se professora e jornalista em ambiente masculino, em época em que se olhava e considerava a mulher como adorno, aspirante à religiosa, desfrute ou simples mãe de família. Adísia sempre foi apaixonada. Procuro em Virgílio, poeta latino, na sabedoria de sua “Eneida”, uma resposta para a paixão de Adísia. Ele diz: “Quem poderia enganar uma mulher apaixonada?”. Assim, ela casou com a palavra, não a de adulações, engodos ou chistes, mas a que forma pessoas, gera opiniões e faz da coerência a viga mestra de sua oração. Foi no longo exercício do magistério, secundário e superior, e na impecável vida de jornalista que se descobriu como força motriz há quase sessenta anos. Hoje, no esplendor da maturidade, com a simplicidade dos que sabem que não é o tempo que os torna sábios, mas consolida as suas informações, transforma-as em conhecimento, sempre com a voracidade na ocupação da mente irrequieta, indignada com justiças, mas com coragem – e autoridade – para reconhecer méritos. Essa mulher já poderia ter-se recolhido ao aconchego de sua casa, com livros a ler, consultar os lidos ou pajear os que escreveu para ficar. Sabe, entretanto, que a brisa do leste ao lhe afagar os cabelos brancos, é aviso de um novo dia a surgir. E ela recomeça tudo. Analisa, pelas ondas do rádio, esse veículo a nivelar pessoas com respostas instantâneas para o que aflige e incomoda o seu povo, sua gente. Sofre com os percalços atuais do seu time do coração, o Fortaleza. Teve e tem o carinho e admiração de amigos, colegas, sobrinhos e família que a consideram mestra e mãe de todos. Usa o computador, contemporânea que é, como meio e mensagem curta e profunda nos artigos que escreve e publica, semanalmente. Parabéns, Adísia. Saúde e vida longa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/11/2009. - [MARGARIDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/margarida-jornal-o-estado/): O nome margarida provém do Latim e significa pérola. Em geral, a pessoa com esse nome é especial, fora do comum. Apresenta preocupação com os outros, é fiel no amor e não se intromete com a vida pessoal ou amorosa de ninguém. Margarida é ainda: nome de flor, santa, mulher e mãe. Hoje é dia de uma Margarida especial. Ela nasceu exato neste dia 30 de outubro, em 1919, há 90 anos. Nasceu bonita, inteligente, espirituosa e forte como ainda o é. Filha do Farmacêutico João Caminha Monteiro e D. Luiza Saraiva Leão, ex-aluna do Colégio da Imaculada Conceição. Seu pai morreu de câncer com 41 anos e deixou, como herança, uma grande família de 13 filhos em fase de crescimento. A vida foi dura para D. Luiza e seus filhos. Uma delas, Margarida, afilhada de batismo de Dionísio Torres, trabalhava em seu Laboratório no Joaquim Távora. Jovem, conheceu Francisco Bezerra de Oliveira, filho de João Soares de Oliveira e Joana Bezerra de Oliveira, seu único e definitivo amor. Quem sabe, pelos mistérios do insondável, ele parecia conhecera a letra da música Margarida, posteriormente, musicada por Gutemberg Guarabyra: “E retirando uma pedra, olé, olé, olá. Mais uma pedra não faz falta, olé seus cavaleiros. Que ainda correm pelo mundo. Ouçam só por um segundo que eu acabo de vencer: retirei pedras de orgulhos, majestades. Deixei todas de humildades, de amores sem remédio. Ela então se me rendeu. Eu já fui rei, já fui cantor, já fui guerreiro. E agora, enfim, sou companheiro da mulher que apareceu. Apareceu a Margarida, olé, olé, olá. Apareceu a Margarida, olé, seus cavalheiros”. E viveram 50 anos, em meio a lutas, problemas, superações, vitórias, e a educação - em colégios particulares - de 09 filhos. Todos vivos, independentes e com educação superior. Esses filhos casaram, geraram outros 24 filhos, seus netos, espalhados pelo Brasil e Europa, sendo advogados, administradores, psicóloga, psicanalista, médica, enfermeira, tradutora, fisioterapeuta, empresário, estudante da marinha e de medicina etc. E já existem 11 filhos dos netos, seus bisnetos. Margarida ao ficar viúva, em 17 de novembro de 1991, em meio a dores, assumiu, de direito, a liderança de toda a família que, por princípios, obediência e amor, a cerca de carinho e presença, mesmo os que moram no exterior. Não saiu de sua casa. Ao contrário. Cuidou de suas árvores, plantas e flores no quintal, jardim e calçada e vê o seu dia correr cercada de verde e de gente. Vive de suas rendas, livre que é. Manda pintar sua casa, todos os anos, com cores por ela escolhidas. Sua grande varanda é um relicário com santos e fotos de todos. Ali ela reina. Seu café da manhã dominical é ponto de encontro de todos os filhos, netos e bisnetos. Um dia, sem avisar, levei o amigo Cléber Aquino para tomar o seu café e ele saiu de lá impressionado com o que viu. Isto sem falar que a cozinha da Margarida, administrada por D. Zilmar e D.Fátima, amigas e cuidadoras, está sempre aberta e abastecida para filhos e netos que, diariamente, sem prévio aviso, por lá aportam. Essa mulher de fé, ainda é formosa e temente a Deus. Orienta filhos e netos sem rodeios, com palavras lúcidas e certeiras na ponta da língua. Não desgruda os olhos vivos de seus programas favoritos nas estações de televisão católicas para ouvir e ver missas, orações e pregações. Hoje, receberá a homenagem de toda a família, filhos, noras, genros, netos, bisnetos, de seus irmãos ainda vivos, das amigas que a visitam sempre, dos vizinhos que a cumprimentam com admiração e, certamente, ouvirá os parabéns entoado por todos e cada um em seu louvor. Sua bênção, minha mãe. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/10/2009. - [JUVENTUDE E FUTURO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/juventude-e-futuro-diario-do-nordeste/): Foi Simone de Beauvoir quem citou o jovem príncipe Sidarta, o futuro Buda, em livro escrito sobre a velhice. O fato: Sidarta saiu de seu palácio e viu, entre outras duas, uma figura alquebrada e sem rumo. Perguntou: quem é? Responderam-lhe: Um velho. Sidarta, ainda não Buda, voltou ao seu palácio. E teria cunhado a frase: “eu sou a morada da futura velhice”. Assim, o óbvio não é entendido pelos mais jovens a não admitir a velhice como futuro. Acreditam e pensam: esse tempo não chegará, e se chegar, os encontrará ativos, ocupando mentes com trabalho, família e cuidando dos corpos em academias, corridas e afins. Hoje, já se fala nos “novos velhos”. Novos velhos? Seriam eles os desafiadores do tempo como fator determinante, indo buscar em suas próprias vidas a energia para manter o alento de ser ativo e útil? Seriam os descobridores, por suas leituras e práticas pessoais, de caminhos definidos do bom uso do tempo extra conferido pela longevidade? Poderia ser uma nova geração de pessoas a admitir a possibilidade de diálogo com os dos olhares da indiferença? Seriam, talvez, os cheios de saúde, corpos hígidos, apesar das cãs? Ou o que seria essa safra de novos velhos? Seriam as mulheres a disfarçar o tempo com cirurgias reparadoras ou estéticas? Ou homens unidos a mulheres com a metade de suas idades? Ou vice-versa? Ainda é cedo para se definir essa geração chegada aos sessenta, apostando que, em se cuidando, terá qualidade de vida para mais 20 ou 30 anos. O fato real para a maior qualidade de vida na pessoa dessa faixa de idade é a saúde. E a saúde, salvo a hereditariedade, as surpresas dos males incuráveis, e as degenerativas, poderá ser relativamente preservada. Se a velhice vier comboiada da maturidade – a idade e a capacidade de ser maduro – o caminho não será uma estrada íngreme, um tsunami ou um abismo. Creio, mas não tenho certeza: os caminhos não são nunca iguais para ninguém. É preciso viver na esperança, na tentativa, mesclando menos erros e mais acertos. Resolvendo questões recorrentes, crendo no tempo com sua parábola a cumprir: o futuro da liberdade, a impermanência. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/10/2009. - [FORTALEZENSE FAZENDO HISTÓRIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fortalezense-fazendo-historia-jornal-o-estado/): Uma academia de letras tem vida. Acontece, cria, edita, reúne, sofre e motiva seus membros a materializar pensamentos em forma de livros de poemas, ensaios, discursos, crônicas, contos, romances etc. Este tem sido o dia-a-dia da Academia Fortalezense de Letras. Começou com Cid Saboya de Carvalho, figura ímpar do magistério, advocacia, política, jornalismo e literatura. Sua gestão contava com a experiência de Matusahila Santiago, advogada, funcionária pública e dirigente da Casa de Juvenal Galeno e o ímpeto de José Luís Lira, então jovem advogado, que passou a escrever biografias de poetas, escritores renomados e santos, transformando-se em hagiologista, professor e hoje está na UVA –Universidade Estadual do Vale do Acaraú. Depois, veio Cybele Valente Pontes com leveza, talento e tirocínio de gestão na Sociedade Amigas do Livro e na Coordenação do Prêmio Osmundo Pontes que realiza, anualmente, em parceria com a Academia Cearense de Letras. Cybele, com o suporte de Beatriz Alcântara e Regina Fiúza e a colaboração de alguns, instituiu e publicou a revista Panorama e a bi-anual Acta Literária. Além disso, reformou os estatutos e o regimento interno da entidade. Em seguida, veio a argúcia, cavalheirismo e inteligência de Ednilo Gomes de Soárez a dar nova forma ao Boletim mensal, incluindo fotos em cores dos acontecimentos e publicando mais um número da revista Panorama e outro da Acta Literária. Essa administração, encerrada em setembro do ano passado, agora, nesta semana, por sugestão nossa, entregou aos anais da Fortalezense de Letras, o livro pontuando as suas realizações e o fez de forma descontraída. O Livro foi apresentado por Regina Fiúza, na Faculdade 7 de Setembro, da qual Ednilo é o Diretor Acadêmico. Além de acadêmicos da Fortalezense e da Cearense, honrou-nos com sua presença o escritor cearense, radicado em São Paulo, Caio Porfírio Carneiro, Secretário Executivo da Associação Brasileira de Escritores. Alegravam-nos o comparecimento de jovens integrantes das “academias de estudantes” dos colégios Dáulia Bringel, Maria Ester e 7 de setembro. Nessa reunião da Fortalezense apresentei voto de louvor à nossa consócia Gisela Nunes da Costa pelo título de Doutor Honoris Causa que lhe foi outorgado pela UVA. A noite foi arrematada com a singularidade de uma exposição de artes plásticas em que autores mesclavam instalações e quadros-esculturas utilizando acrílico, aço sem pintura e barro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/10/2009. - [MULHERES PENSANDO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mulheres-pensando-diario-do-nordeste/): Nós, homens nascidos no século passado, casados ou descasados, temos que rever conceitos sobre mulheres. Ouvia-se nas rádios de então que a "Amélia é que é mulher de verdade". Ataulfo Alves pode ter vivido esse tempo. Não há mais "Amélias" em 2009. Dizia o poeta latino Virgílio que "Inconstante e mutável é a mulher". E olhe que Virgílio viveu antes de Cristo. Pulemos para a francesa Simone de Beauvoir, no século XX. Ela disse: "Nenhuma mulher nasce mulher: torna-se". E assim foi. As mulheres viraram mulheres e como tais estão alterando a cabeça dos homens. Não para olhá-las, admirá-las e amá-las. A história é outra. As mulheres já chegaram, em menos de cem anos, ao ponto em que os homens levaram milênios para alcançar. Se você olhar a nação alemã verá o pulso forte de Ângela Merkel. Se mirar os cílios postiços e adereços nada sutis de Cristina Kirchner encontrará a Presidente da Argentina. Se notar o equilíbrio de Michelle Bachelet, saberá que ela dirige, com aprumo, o Chile. Há três mulheres candidatas a presidente no Brasil. Paremos por aqui. Abramos o jornal. Vejam a notícia: mulheres são maioria no Nobel de 2009. Como vocês sabem, o prêmio Nobel foi criado pelo sueco Alfred Nobel, inventor da dinamite, por influência de sua amiga Bertha Kinsky. Armou uma fundação que, desde 1901, premia luminares da Física, Química, Medicina, Literatura e da Paz. Em 1968 foi introduzida a Economia. Pois bem, cinco mulheres ganharam este ano quatro dos seis prêmios. Elinor Ostrom, americana, ganhou o de Economia. Herta Muller, romena, naturalizada alemã, ganhou o de Literatura. Carol Greider, americana, e Elizabeth Blackburn, inglesa, dividiram o de Medicina. E Ada Yonath, israelense, levou o de Química. A entrega dos prêmios será feita no dia 10 de dezembro, data aniversária de Nobel. Sabem quem vai cantar na cerimônia? Donna Summer, mulher e negra. Assim, aviso aos amigos que se cuidem. Parem de perder tempo nos bares da vida, estádios de futebol e jogos de mesa. Fiquem de olho em seus trabalhos e companheiras. As mulheres chegaram e vocês não perdem por esperar. Ri melhor ... João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/10/2009. - [ADMINISTRADOR REFERÊNCIA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/administrador-referencia-jornal-o-estado/): Quarta, 14, foi realizada a abertura do XI Fórum Internacional de Administração, evento que reúne administradores de vários países. A importância era tal que havia mais de 3.000 participantes. Nessa ocasião, tive a alegria de ser homenageado com o título de Administrador-Referência. É claro que fiquei contente e repasso o que por lá. Falei a todos os administradores, especialmente aos jovens que compareceram a esse XI Fórum Internacional, o primeiro realizado no Ceará. A eles, afirmei que o sucesso profissional está ligado ao seu projeto pessoal de vida. Não basta títulos de bacharelado, mba, mestrado ou doutorado. É preciso ter, acima de tudo, atestado de cidadania, coragem de ser diferente, sem ser petulante. Possuir humildade para aprender, sempre. É praticar a leitura continuada que se transforma em informação e esta em conhecimento. E daí em atos e fatos concretos. É preciso ter ambição sem ter inveja. Exercer liderança sem privilegiar o comando. Saber que a velocidade do planeta Terra corre contra o a nossa percepção do tempo e o seu uso. Assim, é preciso estabelecer degraus de competência, padrões de referência e capacidade estratégica para a convergência adequada ao nosso propósito pessoal e o da sociedade. Entendo que ser referência implica em acreditar- e ser acreditado - naquilo que se faz; sugere a busca incessante do saber para, a cada dia, analisar dados e tomar decisões. Admitir erros e não confiar mais nos que, gentis, enturmados e bem vestidos, apenas aparentam honestidade. Saber liderar pessoas com estratégias certas. Usar a imaginação e consolidá-la em inovação. Ter responsabilidade social e honestidade de propósitos. Aos colegas administradores presentes à solenidade, especialmente aos jovens, disse que o futuro se faz com o somatório de todos os esforços que os nossos pais fizeram para nos dar rumo e prumo, do nosso compromisso com a carreira que abraçamos e a certeza de que o êxito não é produto do acaso, mas da perseverança, da competência e da dignidade pessoal. Disse aos colegas administradores, e dirigentes do CRA-Cerá, do Sindaece, do Conselho Federal de Administração e do Fórum Internacional, que considerava aquele instante, quem sabe, o coroamento de uma atividade profissional voltada para a gestão de pessoas e à transformação de oportunidades em empreendimentos com credibilidade pública e responsabilidade social. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/10/2009. - [MÉXICO-CEARÁ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mexico-ceara-diario-do-nordeste/): A visita ao Ceará, nesta semana, do Embaixador do México no Brasil, o diplomata de carreira Andrés Valencia, acompanhado do Adido Cultural Carlos Ortega e do Adido Naval, o Contra-Almirante German Ruiz, foi um ato claro de aproximação internacional benfazeja. Sabe o México, por ser parceiro comercial do Brasil, da importância emergente do Estado do Ceará, em face do seu posicionamento geográfico e, especialmente, em razão do potencial turístico de toda a orla. E sabe dos projetos estruturantes do governo cearense, como os que serão implantados no complexo do Porto de Pecém, a partir de uma refinaria de petróleo e das demais indústrias derivadas da sua existência. O México, por sua história e posicionamento estratégico, é o maior, o mais forte e culto país de língua hispânica da América Latina. Embora, geograficamente, se situe na América do Norte. Desde a administração do ex-presidente Vicente Fox houve real aproximação e pactos com Brasil. Agora, recentemente, os presidentes Lula e Felipe Calderón, fizeram visitas recíprocas, demonstrando podermos ser mais próximos, não só através de acordos bilaterais, mas na identificação de objetivos comuns a ambos países. Uma notícia alvissareira e simpática que trouxe o Embaixador Andrés Valencia é que o Navio Escola Cuauhtémoc, um veleiro clássico e bonito com tripulação mexicana, mas também com jovens de outros países das Américas, deverá aportar no dia 18 Janeiro em Fortaleza, para dar início ao ano de 2010, muito caro ao México, por ser o do Bicentenário da Independência Mexicana e dos 100 anos da sua Revolução, liderada, inicialmente por Francisco Madero. O Navio Escola tem uma tripulação de guardas-marinha competente e jovial que faz apresentações cênicas sobre as velas enfunadas do veleiro ao entrar no porto que, certamente, agradarão às autoridades e à população de Fortaleza. Para o Ceará, esta visita pode ter sido o início de um relacionamento consequente com o Governo Estadual, universidades, instituições culturais e empresariais. Esperamos boas notícias de parcerias em futuro próximo. Viva México. João Soares Neto, Cônsul Honorário do México no Ceará CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/10/2009. - [RIO,RISO E CHORO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/rioriso-e-choro-jornal-o-estado/): Estamos alegres com a vitória da cidade do Rio de Janeiro para sede das Olimpíadas de 2016. O Rio é o espírito coletivo do Brasil. Mas poucos sabem que até o dia da nossa escolha já havia sido gasta a razoável quantia de 100 milhões de dólares com a preparação geral da campanha. Além da ação decisiva de Lula, muitos não sabem também que foi um americano, Scott Givens, antigo dirigente da Disney Entretenimentos, o coordenador oficioso dos projetos brasileiros de filmes, vídeos e afins mostrando as nossas vantagens competitivas sobre Chicago, Tókio e Madri para os olhares do COI, o Comitê Olímpico Internacional. Assim, além de Lula, seus ministros, atletas e convidados, o diretor de cinema Fernando Meirelles, dono da empresa 02, contratada para a produção dos filmes e vídeos, teve a seu lado a experiência do citado Scott Givens que até diretrizes deu para os discursos de dirigentes do nosso Comitê Olímpico e as “marcações cênicas” de centenas de atletas e autoridades convidados. Pelé, por exemplo, apareceu, mas não falou. Pesava o argumento que já havíamos ganhado a Copa de 2014 ou que cometeria gafes. Houve aprumo no trajar e até o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse lá para os 106 membros do COI: ”Yes, we can. We have money and conditions”(Sim, nós podemos. Nós temos dinheiro e condições). Afinal, o Rio foi escolhida por ser uma cidade maravilhosa. Todos se confraternizavam. Abraçavam-se, choravam, riram, mas, como ninguém é de ferro, contrataram parte do Hotel SKT Petri para a celebração noturna em Copenhague regada com vinho espanhol (seria o sangue dos madrilenos?). Como não poderia faltar, lá estava na festa, entre tantas figuras, uma cearense (os do Ceará estão em todas), a dançarina Márcia Lemos, 27, com um grupo de amigas, que aproveitou para guardar na bolsa vários pins(escudos) da campanha brasileira. A comida e a bebida foram livres e até o Ministro do Esporte, Orlando Silva, cantou, no palco, música de Ary Barroso. Ao final, para comprovar que o Rio é Rio, a festa se transformou em baile funk. Brasileiros, convidados e penetras confraternizavam descontraídos em variados teores alcoólicos. Enfim, a Rio-2016 está começando e são precisos 28 bilhões de dólares para que tudo esteja pronto. Quase nada, afinal, já estamos emprestando ao FMI. Rio, riso e choro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/10/2009 - [MARCO CÉSAR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/marco-cesar-diario-do-nordeste/): Corriam os anos 70. Os da minha geração começavam a singrar os mares profissionais. Amigos, embora distintos, entravamos nos trinta: Antonio dos Santos, Artur Silva, Alfredo Couto, Giordano Loureiro, Gerardo Santos, Lauro Chaves, Marco Antônio, Marco César, Nisabro Fujita e Paulo Cruz. Antônio e Artur, deputados; Alfredo Couto advogava; Giordano e Gerardo, calculistas; Lauro Chaves, administrador; Nisabro, Paulo Cruz, Marco Antônio e Marco César, engenheiros civis. Todos casados. Filhos nascendo, estudando e crescendo. Vivíamos nas casas uns dos outros. E, particularmente, nos fins de semanas, na nossa casa na praia da desconhecida Tabuba. Falemos de Marco César, filho do general e ex-deputado federal Josias Ferreira Gomes. Foi engenheiro da Cenorte e, posteriormente, da Telebrás. Foi chamado para presidir a Coelce, a Companhia de Eletrificação do Ceará. Nela passou anos. Depois, compôs a diretoria da Teleceará. A roda do mundo gira e o que era público - com pouco dinheiro e fartos empréstimos do BNDES - passa a privado. Um dia, convidei Marco César para trabalhar comigo. Sabia ser difícil o processo de sua adaptação na vida empresarial. Os, sem padrinhos e conchavos, da empresa privada, somos catadores de conchas, pescadores de raras oportunidades, tratadores e vendedores de nossos peixes, miúdos, disputados em mercado sempre hostil. Assim, ele e eu tentamos, mas descobrimos que o serviço público estava entranhado no seu sangue, no valioso currículo e, especialmente, em seu espírito. Era homem para estratégias públicas e não mero engenheiro. Os anos passando. Marco César aposenta-se da Telebrás. Sabia-se capaz, mas a dinâmica política não tem memória. Foi então que ele, pouco a pouco, assumiu-se como quis. Senhor de seus atos, leitor e estudioso, ilustrado que era. Dava pouco espaço a intromissões no seu mundo onírico e particular. Nesta segunda, 28, manhã cedo, soube que a parca, na gris noite de domingo, o havia convocado, mercê da fragilidade de seu grande coração. Foi amado e respeitado por Diana, sua mulher, e pelas filhas Renata e Roberta, capazes e cidadãs do mundo. Marco César. Smile. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/10/2009. - [A GERAÇÀO PERDIDA E HEMINGWAY - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-geracao-perdida-e-hemingway-jornal-o-estado/): Terá sido mesmo, como intitulou a escritora americana Gerrude Stein, uma geração perdida, a que, vinda de países diversos, resolveu ocupar Paris nos anos 20 do século passado? A cidade de Paris, então o centro cultural do mundo, virou o exílio dourado ou o paraíso para imaturos escritores e artistas de todos os continentes, especialmente americanos do norte. Acreditavam eles que a elite cultural do planeta vivia ou acontecia nos arredores do Quartier Latin, na margem esquerda do Rio Sena. Essa área, onde se localiza, a Sorbonne, a universidade referência, gerava um espírito alegre coletivo e os cafés, bares, restaurantes, bibliotecas e museus favoreciam o convívio de gente querendo ser famosa e reconhecida. É esse o cenário que Ernest Hemingway usou em seu livro póstumo “Paris é uma festa”. Foi em 1921 o ano em que o jovem casal americano Elizabeth Hadley e Ernest Hemingway chega a Paris. Ernest participara da 1ª. Grande Guerra pela Itália, tinha estilhaços em uma das pernas e usava isso como diferencial. Nos cinco anos em que sedimentou leituras, fatos, relatos e aguçou sua visão objetiva, encontrou o ambiente que o empurrava para os rumos da então famosa livraria-biblioteca Shakespeare and Co. Foi em Paris que Ernenst consolidou a sua formação com leituras definitivas e ordenou os seus cadernos de notas em que registrava o fascínio por Tolstoi, Dostoiewski, Conrad, James Joyce, T.S. Eliot ,Proust e tantos outros. Assim, pouco a pouco, idealiza a sua estética e cria a ambiência para mesclar a sua ficção com o real. Como já havia dito Oscar Wilde: “a ficção antecipa a realidade”. Ao mesmo tempo em que se aprimorava, brigava com amigos, entre eles, Scott Fitzgerald. A seu modo e tempo, Ernest era correspondente de jornal, o que enxugava o seu texto. Nascido em 1899, Tinha pouco mais de 20 anos quando se aventurou no mundo da escrita. Aos 26, já havia escrito contos vanguardistas e lança “O sol também se levanta”. O livro não causou sensação. Descompensado, encharcado de mulheres e bebidas, no bar do Hotel Ritz, começou a contrair dívidas. Divorciou-se de Elizabeth, em 1927, e teve mais três casamentos complicados. Dois anos depois, lança “Adeus às armas”. Mas só após a sua participação como correspondente da Guerra Civil Espanhola, publicou, em 1937, “Por quem os sinos dobram”. Depois, veio “O velho e o mar” e assim a consagração, talvez tardia, em 1954, quando ganha o Prêmio Nobel de Literatura. A esse tempo, já deprimido, diabético, hipertenso e com arteriosclerose acreditava, em seu íntimo, que realmente a frase recorrente e maldita de Gertrude Stein fazia sentido. Ele era parte de uma geração perdida, pois não encarara a dura realidade do viver. Adepto da “evidência trágica”, morreu em 1961. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/10/2009. - [CONVERSAS DE DOMINGO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/conversas-de-domingo-diario-do-nordeste/): Última quinta, lancei o meu quinto livro. Ele é um extrato mínimo de centenas de artigos e crônicas publicadas em jornal. Não os reputo peças literárias. São apenas narrativas breves e, aqui e acolá, artigos de opinião. Não os centrei apenas em meu umbigo. O mundo é o seu picadeiro. Tentei estabelecer a dimensão de fatos, sua conexão com a realidade, com a vida e o comportamento humano. Uso, por limitação de espaço, linguagem curta e simples para me aproximar do leitor. Cada leitor é um crítico e por tal razão os escritos são abertos às suas lupas para reflexões. Não fora a indução de amigos, certamente não sairia este livro. “Conversas de Domingo” é um acidental encontro com o outro, com os meus fantasmas, meus amores e sonhos. Quem escreve em jornal e assina o seu nome é alguém disposto a ser julgado a cada semana por sentimentos revelados ou opiniões emitidas. Raras citações usadas não demonstram erudição. Revelam, quem sabe, a procura de validação de alguém, exemplo ou referência, em sua área de conhecimento. Algumas semanas trato de ideias. Em outras, sou anima e cuore, relatando tristezas, emoções e alegrias. Abordo, vez por outra, aspectos de viagens ao redor deste mundo, rico e pobre, e as impressões capturadas pelo obturador da minha retina, acasaladas no meu hardware mental. Não sou guia, sou apenas curioso. Tenho o olhar pronto para o inesperado. Não sou teórico, detesto falação sem racionalidade ou lógica. Sou traído, algumas vezes, pela indignação ou a emoção à flor da pele, pedindo passagem ou assumindo o espaço da dor contida, revolta ou a alegria da esperança. Entendo o leitor como alguém capaz de tirar conclusões, a partir da sua história pessoal. Não sou noticiarista. Apenas procuro ficar atento a acontecimentos, datas e feitos. Não esquadrinhem certezas nos meus escritos, apenas relato o cotidiano, cuidando de não me tornar monotemático. Como falo de muita coisa é certo não haver aprofundamento. Tento apenas arranhar ou assanhar a curiosidade dos leitores. “Conversas de Domingo tem muito de mim, como vivo, meus estranhamentos e amores”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/09/2009. - [LER E ESCREVER - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ler-e-escrever-jornal-o-estado/): Ainda parece estranho para alguns poucos o fato de eu escrever há tanto tempo. Parece igualmente esquisito para outros o fato de eu continuar a gostar de ler. Incomodam-se alguns ao saberem que a boa música me enternece. Deveriam estranhar que eu nunca soube cantar. Sou absolutamente desafinado. Tentei ser pianista e desisti com a desculpa de que era canhoto. Seis meses foi o tempo que a pianista Maria Helena Cabral perdeu comigo. Fui um péssimo jogador de futebol, só entrei em time de basquete quando não havia ninguém para completar o quinteto. Meti-me a participar de peladas de vôlei e quebrei o escafódio. Deixei o vôlei, mas descobri que tem um ossinho no punho com esse nome. No Exército, pus-me a atirar com revólver, fuzil e metralhadora e fui um fiasco. Passei por um triz. O que me restava era ler e isso eu fazia em um canto da casa dos meus pais por onde não passava ninguém. Era uma passagem de serviço por trás da garagem. Ninguém me via, nem ouvia, pois o ato de ler merece silêncio. E lia sempre desconfiando de quem escrevia. Será que isto é assim mesmo? E usava um lápis como arma para sublinhar, rabiscar e - pasmem – até discordar do autor que estava lendo. Como não conhecia nenhum escritor vivo, não tinha como imaginar a sua figura. Eu me imaginava um roteirista ou diretor de cinema e ia formando imagens do que estava a ler. Comecei a ler José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo. Como não tinha participado de rodas literárias, pus-me a ler o que não era devido. Assim é que me apaixonei pelos escritos de Monteiro Lobato, não os livros infantis, mas A Barca de Gleyre. Li um pouco de André Maurois. Ele tinha sido presidente da Academia Francesa e eu pouco me importava com isso. Gostava de seus textos e pronto. Depois, encarei Dostoievski sem saber dos muitos nomes de cada personagem e da densidade de seus temas. O lápis era meu aliado na concatenação das idéias para fazer anotações à margem ou inventar uma espécie de glossário. Não desistia. E foi assim, errando e descobrindo, que o hábito da leitura tomou conta de mim. A propósito, a Bienal do Rio de Janeiro terminou agora e a maior atração foi José Mayer lendo texto de Érico Veríssimo. Está na hora de se repensar a função e a relação das bienais com o público. O povo que entender o que os escritores dizem. As bienais não podem ser fogueiras da vaidade de A ou B. Voltando ao fio: nada me agrada mais que um bom livro e fico triste quando recebo um best-seller de presente. Tenho, então, a certeza de que a pessoa não conhece os meus hábitos ou quis se basear em lista dos livros mais vendidos. Este ano, por exemplo, ganhei dois exemplares de um livro que não sai do primeiro lugar. Uma lástima melosa falando de um pai e morte da filha. Assim é que a minha desconfiança na leitura ou uma espécie de distanciamento crítico parece ter uma explicação psicanalítica. Complexo, não? Fui criando coragem e comecei a escrever diários para me acostumar com o fato de que poderia ler o que havia escrito. É bom ler o que se escreve, mesmo que seja bobagem. Melhor ainda é reler. É por estas razões acima expostas que o consegui trazer até o ponto final. Consegui? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/09/2009 - [EUCLYDES, O HOMEM - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/euclydes-o-homem-diario-do-nordeste/): Tenho procurado ler sobre Euclydes da Cunha(1866-1909). Não falo sobre o livro “Os sertões”, mas seu autor. Euclydes, com y - pois o alfabeto atual da língua brasileira assim o comporta - era tímido, muito tímido. Marco Antonio Villa, professor de História da Universidade Federal de São Carlos, é autor do livro “Canudos – O Povo da Terra”, tendo autoridade para descrever a personalidade do mais famoso representante da família Cunha. Cita o próprio Euclydes ao dizer que: “nunca perdi este traço de filho da roça que me desequilibra intimamente ao tratar com quem quer que seja”. Apesar disso, Villa o considera um homem de Estado, pois “toda a sua reflexão foi dirigida ao poder: em momento nenhum falou para o povo”. Uma semana antes de morrer teria dito para o cunhado: “Vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis... Tu não imaginas como andam propícios os tempos a todas as mediocridades. Estamos no período hilariante dos grandes homens-pulhas... Nunca se berrou tanta asneira sob o sol... Este país é organicamente instável”. Um amigo seu, Francisco Escobar, tentou sondá-lo para se candidatar a deputado. Euclydes respondeu: “Ser deputado nesta terra é hoje uma profissão qualquer – para a qual não me preparei”. Vejam, tudo isso aconteceu na primeira década do século passado. Há exatos cem anos. Euclydes, entretanto, se beneficiou da frouxidão moral da política. Conseguiu ser nomeado professor do Colégio Pedro II, que era à época o Ginásio Nacional, graças à interferência de grupo de amigos que pediu a sua nomeação a Afonso Pena, o presidente (1902-1906) da época, em detrimento de Raimundo de Farias Brito(1862-1917), o grande e esquecido filósofo cearense, que havia tirado o primeiro lugar( Euclydes foi o segundo colocado) no concurso público para ensinar Lógica. Assim, uma coisa era o que via e pensava, outra a que vivia. Mas, como dizia minha avó Luiza, a justiça divina se fez e Euclydes só conseguiu dar dez aulas, pois logo foi assassinado por Dilermando de Assis, aquele que viria a ser marido de sua viúva. Mas, isso é outra história. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/09/2009. - [O GRITO DE DOLORES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-grito-de-dolores-jornal-o-estado/): A Independência do México, país a que sirvo como Cônsul Honorário, não foi pacata como a do Brasil. Lá, houve um longo conflito. Aliás, a História do México é plena de guerras. Ao contrário, o nosso país até faz revoluções sem grandes perdas humanas. O conflito que levou à Independência do México teve várias nuances. O D. Pedro I do México foi um sacerdote católico, o padre Miguel Hidalgo y Costilla, dito Miguel Hidalgo. No México, como nos outros países hispânicos, o primeiro nome de família - ou sobrenome - é o do pai. O nome da mãe, embora conste do registro de nascimento, não é usado. Assim, Miguel Hidalgo foi o protagonista do “Grito de Dolores”, no dia 16 de setembro de 1810. Esse grito eclodiu dentro de uma simples Paróquia do lugar Dolores Hidalgo, no hoje estado de Guanajuato. Como se vê, no próximo ano de 2010, o México completará 200 anos como país independente e, certamente, terá muito que comemorar, pois hoje é o mais importante e o mais culto país de língua hispânica das Américas. Voltando ao fio da história: não bastou o grito para que o México, então Vice-Reino da Nova Espanha, ficasse independente. Oito anos se passaram para a poeira assentar e terminar com a guerrilha que acontecia nas serras do sul daquela pátria. De 1810 para cá, o México passou por outras tantas lutas, sendo a mais cruenta a que travou (1846-48) com os Estados Unidos quando perdeu metade de seu território. Eram mexicanos os territórios da Califórnia, Nevada, Texas, Utah, Novo México e parte do Arizona, Colorado e Wyoming. Por outro lado, essa perda significou, paradoxalmente, o caminho para a libertação dos escravos americanos, pois no México já não mais havia escravatura. Voltando ao hoje, nesta quarta-feira, 16 de setembro, data nacional mexicana, o Consulado Geral do México no Rio de Janeiro, dirigido pelo intelectual e diplomata de carreira, Andrés Ordóñes, abriu no Museu de Arte Moderna, no Aterro do Flamengo, a mostra “Cumplicidades” em que realça o centenário de nascimento da pintora Frida Kahlo e o cinquentenário da morte de seu companheiro de tintas e vida, o singular e grande artista Diego Rivera. São “36 fotografias que mostram as paixões compartilhadas por ambos os artistas, suas cumplicidades, durante mais de 25 anos de relação”. Por fim, como lá se diz:” Viva México!” João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/09/2009. - [MATURIDADE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/maturidade-diario-do-nordeste/): Hoje, você, e os filhos que tiver, estarão mais velhos que ontem. Amanhã, seus netos - se os tiver - e você terão gastos 24 horas de suas vidas. Não há como parar o tempo, ampulheta eterna a surrupiar parte, mínima ou grande, de nossas existências. O furto é insignificante quando jovens e acreditamos ser o tempo infinito. Não o é. É grande quando amadurecemos e pensamos ser o tempo finito. Também não o é. O tempo é apenas definitivo. Nós somos finitos. Quanto tempo se perde em querer que o outro use a sua vida e experiências, a praticar o que achamos certo? Quem somos para saber do outro? Cada pessoa tem rotação própria e o seu caleidoscópio quase nunca entra em compasso com a nosso. Hoje, você e os seus talvez estejam longínquos. Amanhã, você e eles estarão ocupados com o fazer do dia-a-dia a construir. Todos poderiam estar conectados - embora separados - tecendo um tempo comum, mas... Mas, os filhos não são apenas aqueles que criamos. Eles são o que vivem após deixarem o casulo em que tentamos, por amor ou egoísmo, pajeá-los. Assim, passam a ser pais e têm filhos que nos veem como os pais de seus pais. Esses netos gastam o seu tempo como desejam e nele quase não há quadra para os avós, pois percebem, em suas sabedorias intuitivas, o outono vivenciado como prenúncio de despedida, da qual querem distância. O fuso dessa estação da vida vai gotejando, tecendo ilhéus na solidão não compartilhada. Essa consciência não deve alarmar, mas reavivar anseios intensos para arrasar as debilidades que as situações da vida permitem. No torvelinho desse balanço há de sobrar tempo para o aconchego, o liame a nos fazer próximos e íntimos. Esse tempo da maturidade não é o fim da sexualidade, mas a quadra da busca do entendimento, pois diferenças e desejos pessoais são insanáveis, a partir de valores que nos tornam distintos, singulares. E aí realça a importância do companheirismo, sem o qual seremos ilhas de razão, inacessíveis aos que não falam a nossa linguagem ou não usam a nossa bússola. Platitudes? Talvez. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/09/2009. - [ADMINISTRADORES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/administradores-jornal-o-estado/): Este artigo é um tributo a todos os administradores profissionais. E o faço em reconhecimento ao Conselho Regional de Administração, na pessoa do seu presidente, Reginaldo Oliveira, e ao Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, Domingos Aguiar, autores de proposta de uma Sessão Especial em comemoração ao Dia do Administrador. Nela, elegeram cinco nomes como representantes essenciais da classe dos administradores. Os eleitos: Carlos Gualter Lucena, gestor de grupo de empresas de prestação de serviços; Ernesto Sabóia, conselheiro-presidente do Tribunal de Contas dos Municípios; Beto Studart, controlador das muitas empresas que constituem o grupo BS; Sérgio Henrique Forte, superintendente de banco regional e a mim, o escrevinhador deste artigo. De surpresa, fui indicado para falar em nome de todos os homenageados. O fiz, na medida do improviso, louvando a cada um dos eleitos. Quanto à minha escolha, referi que ela se devia ao fato de ser integrante da Turma Pioneira da Escola de Administração do Ceará, a que deu origem a tudo o que veio depois. Estudamos ao tempo da divisão da ciência da administração em clássica e científica. A clássica era a do Fayol e a científica era a do Taylor. Hoje, nestes tempos informáticos e pós-moderno, em que as referências acadêmicas e de gestão são outras pela razão de que existem sistemas gerenciais para tudo, o que pode um administrador fazer? Ainda imagino que um administrador deve ter liderança. Ao mesmo tempo, precisa saber planejar, capacidade para dirigir pessoas, organização, assessoria, informações “up-to-date”, e gerir um orçamento a definir fontes e usos. Não pode deixar de ser criativo, mas não deve ficar só com o que aprendeu na faculdade ou nesses Mbas da vida. É bom saber línguas e ter conhecimento múltiplo. Isso é o residual a ficar depois de nos esquecemos de parte do que aprendemos. Para ser atual, deve ter um “core-business” e “target”. Os professores de administração adoram palavras em inglês. Core-business é o foco da empresa, do negócio ou da sua vida. Target é o seu objetivo, aquilo a que você se propõe a ser como pessoa, dirigente de empresa ou gestor público. O que sabemos vai abrindo a nossa cabeça para a vida. É bom andar pelo mundo afora e gostar de gente. No duro, no duro mesmo, aprendemos a administrar na marra, na pancada, acordando cedo, lendo, estudando caso a caso, dormindo tarde, dando exemplos. Mas, apesar disso, não há escola que nos ensine a identificar caloteiros, especialmente os bem vestidos, de fala mansa e enturmados. Assim, sempre é bom ter cuidado com pessoas que só dão importância às aparências e se encastelam em instituições sem legitimidade, usando artifícios e chicanas. Precisamos falar e agir do jeito que somos. Não se deve ter medo de errar, tampouco de dizer o que sentimos e sabemos. Cremos que o que vale mesmo é a nossa garra, a determinação e a capacidade de ficar à tona quando todos nos puxam para baixo. O mundo é um macro sistema em que perdura a incerteza. Os cenários são sempre de competitividade, daí precisarmos fazer o que sabemos com honestidade, qualidade e produtividade. Crie, sem medo, um manual de sobrevivência para você: saia de perto de gente desonesta, invejosa, fútil e desagradável. Respeite os seus valores essenciais. Arme-se de coragem, pois há dias em que o mundo parece que vai desabar. Desaba não, desde que as suas fundações, na linguagem da engenharia, tenham sido bem-feitas. Ou, na linguagem dos economistas, você tenha fundamentos, isto é, que seu aprendizado tenha sido de verdade e não pare de aprender com seus próprios erros. Pais morrem, dinheiro acaba, mas o conhecimento fica com você até à morte. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/09/2009. - [TRÂNSITO BRASILEIRO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/transito-brasileiro-diario-do-nordeste/): Estava a rodar, queimando combustível, poluindo o ar, procurando estacionar o carro. Só enxergava cones, correntes e ‘estacionamentos privativos’. Os cones de material plástico são hoje quase como escrituras públicas com registro de recuo usado para regular a parada de veículos. Basta comprar alguns cones e alguém se torna donatário da capitania da área pública, negando tudo o que diz o Código Nacional de Trânsito. É comum vê-los defronte a lojas, restaurantes, bancos e afins, sempre protegidos por seguranças, alguns cordiais, outros truculentos, a informar: não se pode parar, salvo se for cliente de quem lhe paga. Os sem guardiãs de seus cones usam correntes, apoiadas em pequenos postes de ferro - ajustados ao solo - trancados com cadeados e pequenas placas de ‘privativo’. A corrente só é aberta quando do horário comercial e, para os clientes. Ao fim do dia, volta a corrente. Se alguém encontrar, por milagre, uma vaga, logo se achegará uma pessoa, foreiro da dita cuja, um “flanelinha”, com colete, apito e pedaços de panos sujos a não limpar nada, apenas espalhando imundície nos vidros e pinturas dos carros. Encaram os “fregueses” como se prestassem relevante serviço público, ditando preços em função do carro, horário e mercado do dia. Há até os que levam pequenos papéis, como se fossem recibos do “serviço” e procuram receber adiantado, por garantia. A coisa não fica aí. Em quase todo semáforo com controle do tempo de tráfego há um grupo munido de garrafas plásticas, cheias de água com duvidosa procedência. Articulados com o “timing” da mudança do vermelho para verde, sem perguntar nada, molha o para-brisa do carro. E o “enxuga” com pequenos rodos que espalham o líquido por sobre os para-lamas. Mas, não fica só nisso. Há camelôs disso e daquilo, motoboys endiabrados, malabaristas, mendigos - verdadeiros e falsos – e, por fim, as zonas azuis, uma espécie de cobrança horária de IPTU do espaço público. Tudo isso para nós, os chamados, de dois em dois anos, a votar, obrigatoriamente, em candidatos que prometem tudo. Dá nisso. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/09/2009. - [O AEROGERADOR E O RAIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-aerogerador-e-o-raio-jornal-o-estado/): Não se prova, tampouco se pode desmentir, a existência de Deus. Mas, a meu juízo primário e precário, Deus e a natureza são forças unidas. Tipo unha e cutícula. Sempre que ocorre uma catástrofe se fala da “ira de Deus”. O homem, por mais ciência que possua, não sabe explicar e tampouco evitar as consequências de alguns fenômenos da natureza, tais como ciclones, maremotos, erupções de vulcões, terremotos, raios e outros mais. Recentemente, vi uma manifestação forte da natureza. Um alto, esbelto e esteticamente equilibrado aerogerador parado. Um raio o atingiu, destruiu dois hélices, decepando-os e paralisando definitivamente o movimento. Venho, há algum tempo, lendo e procurando entender a ação dos aerogeradores. Já os vi na Europa, com destaque para a Espanha, na região montanhosa de Castilla, onde o escritor Miguel de Cervantes situou o seu épico D. Quixote. Lá, ainda parecem ser ouvidas, em meio ao vento monocórdio, as conversas havidas entre D.Quixote e o seu leal escudeiro Sancho. Hoje, aquela região está povoada de aerogeradores que também sussurram. Como ninguém é obrigado a saber o que é aerogerador, vou tentar explicar. O aerogerador consta de um alto poste que é a base de sustentação de um cata-vento. No alto desse poste é implantado um conjunto de três hélices captando ventos. Ele é usado para a transformação da ação dos ventos em energia elétrica através de um gerador acoplado. Deve ser instalado em lugares onde o vento sopra constantemente, mas mantendo uma cadência. Essa energia gerada é limpa, renovável e desejada, mas há queixas de que o zumbido constante dos hélices em movimento causa um desequilíbrio ao ouvido sutil de alguns animais e espantaria aves migratórias. Pelo sim, pelo não, constato que há hoje no Brasil milhares de aerogeradores espalhados, principalmente na zona costeira. O fato é que, após anos de refinamento de tecnologia, alguns aerogeradores ainda deixam de funcionar, sem prévio aviso. Não é raro ver-se aquele pirulito estático, com os três hélices sem nenhum movimento. O que não tinha visto era a reação da natureza sob o nome de raio fulminante. Veio certeiro à Ilha de Fernando de Noronha e tornou silente o apetrecho. Ainda permanece o escuro da sua descarga elétrica. Quem quiser ver é só conferir. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/09/2009. - [ALÉM DO MAR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/alem-do-mar-diario-do-nordeste/): Ana D`Aurea Chaves e Rita Cruz são minhas amigas desde o último terço do século passado. Nesse tempo, elas não eram muito próximas, mas já gostavam de viajar. São curiosas, inteligentes, sabem entrar e sair em qualquer espaço e têm a capacidade incomum de liderar. Ana D`Áurea casou cedo com Lauro Chaves, educou filhos, se fez funcionária de carreira do Banco do Brasil até se aposentar. Rita é formada em direito, optou por ser Defensora Pública, casou com Paulo Cruz, filhos foram criados e também se aposentou. As duas, com os maridos, faziam parte de um querido e instigante grupo de casais amigos. A vida vai passando, pregando peças e circunstâncias distanciam o que era próximo. Vai daí que elas, amigas que são, trocaram ideias e resolveram mostrar ao público a forma e os caminhos por onde andaram. Ana D’Aurea se profissionalizou como turismóloga de batente com a energia herdada de Evandro Ayres de Moura, um ser inquieto, visionário, mas objetivo. Rita resolveu, enfim, mostrar-se, com a inteligência herdada de Hildo Furtado Leite com o filtro da seleção natural. Isto posto, passaram a escrever, a quatro mãos, um livro sobre viagens. Não se contentaram - como muitos - em copiar e colar o que fotografaram, viram, leram em outros livros, folders ou, agora, nas buscas infinitas do Google. Escreveram muito, em dois volumes, com o poético nome de “Viagens além do olhar” e o fizeram de forma leve e primorosa, com o patrocínio de uma operadora de turismo e três empresas de agradecidos empresários, porque viajores. É claro que as viagens promovidas por Ana D’Áurea são seletivas. Quem sabe se o viés político-literário da Rita não tenha proporcionado o encaixe sensato a uma percepção próxima da realidade da sedenta classe média brasileira, louca por sair do Brasil com um livro-guia em português e um abastado nível de informações culturais, dicas e roteiros para a Europa, Ásia, África e América. E esse desconhecido leitor pode ter imantado a capacidade criativa da Ana D’Áurea, o gosto pela escrita da Rita e o concurso gráfico e estético de José Jesuíno da Costa. Essa trinca de azes gerou um duplo manual gostoso de ver, ler e levar para o além-mar. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/08/2009. - [A CEGUEIRA DE SARAMAGO - Jornal o Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-cegueira-de-saramago-jornal-o-estado/): Fiquei feliz quando soube que a língua portuguesa poderia ser agraciada com o Nobel de Literatura em 1998. Pensava em algum autor brasileiro, mas deu José Saramago. É verdade que Portugal fez “lobby” forte para mostrar seu potencial. Eram viagens de Lisboa a Estocolmo e vice-versa. Estocolmo é a sede do Prêmio Nobel e há muita política na concessão desse galardão. Se tiverem tempo, procurem ver os premiados em literatura nos últimos 10 anos. A maioria é desconhecida e as vendas são turbinadas pelo próprio prêmio. O fato é que Saramago ganhou. Depois, participou de uma espécie de Feira do Livro no Parque Eduardo VII, vizinho à Estufa Fria, área predominante da boa hotelaria de Lisboa e até registro fiz desse encontro. Depois do prêmio, Saramago passou a ser muito vendido cá no Brasil. Eu, na verdade, nunca namorei demasiado a sua escrita. Apenas um “flirt”, diria. Sua forma de escrever é límpida, longa, pesada e escorreita, mas o conteúdo parece ter, no caso do “Ensaio sobre a Cegueira”, um pouco da essência temática de George Orwell, na obra “1984”. Há tempo havia ganhado o livro de presente. Só há pouco, o concluí. Confesso: tive uma breve sensação de alivio. Li, na verdade, aos pedaços. O livro é um ensaio metafórico recomendável, quem sabe, para se discutir a essência do que somos. Narra a emergência de repentina cegueira, inexplicável e dita incurável. Abate-se sobre uma cidade qualquer. Sagra o desmoronar completo dessa sociedade que, por conta da cegueira, perde os valores essenciais da civilização. As personagens cegas do livro, só “veem” um clarão branco. Achei o livro fastidioso, apesar do milagre ou moral do final. Lia, relia uma página, grifava e ia em frente. Duvidei do meu magro julgamento. Admiti, em determinado instante, que o argentino Jorge Luís Borges, por ter sido um progressivo deficiente visual, poderia ter escrito algo sobre sua cegueira. Repito que não sou crítico literário ou resenhista. Sou leitor, apenas. Por esta razão tive a curiosidade e a sensatez de procurar ler algumas opiniões sobre o autor. Vou ficar com três. A do escritor português António Lobo Antunes, em entrevista à Folha de SP, em 22.04.1996. Ele diz: “eu posso dizer que José Saramago não me entusiasma de modo nenhum. Ainda bem que ele tem prestígio no Brasil”. O falecido autor cubano Cabrera Infante, no jornal El Clarin, de Buenos Aires, em 17.08.1995, afirma: “Saramago é um chato. Eu já lhe respondi amplamente em um número do “Nouvel Observateur” e desde então ele não voltou a dizer nada”. A revista Bravo, de outubro de 2008, em artigo assinado por Almir de Freitas, retrata: “10 anos após receber o prêmio da Academia Sueca José Saramago volta a lançar uma prosa pedregosa, o livro é chato, simplório e difícil de ler.” Não chego a tanto, mas optei por não ver o filme homônimo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/08/2009. - [DE OLHO NA EXPOSIÇÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-olho-na-exposicao-jornal-o-estado/): José Augusto Lopes é avis rara. Por ter sensibilidade acurada e notar, desde cedo, existir - quem sabe - uma carência no feedback relacional com a maioria das pessoas, tenha optado por entrar na viagem, sem volta, da descoberta do mundo cinematográfico. Esse mundo em que fotogramas em determinada velocidade se transformam em movimento contínuo gerando arte, a partir de uma história ou estória, misturando glamour, amor, mesmo que falso, ciúme, ódio, crime, paz e muito mais. Bem que fez Direito e Comunicação Social, aqui e alhures, mas era preciso mais, descobrir nos livros, revistas, conversas e, principalmente, no interior das salas semi-escurecidas de cinema, a sua essência humana. E aí sentiu a imanência da arte dos irmãos Lumiére. Abro os meus diários de anotações dos anos de 58 e 59, e revejo que Brasil se preparava para as eleições presidenciais do ano seguinte. Cai um avião da Vasp e morrem 42 pessoas. Discute-se a importância de comprar um porta-aviões, o Minas Gerais, o açude Orós está em construção, enquanto a Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Eleazar de Carvalho apresenta o pianista Jacques Klein no José de Alencar. Outros tempos. O chique em Fortaleza era: e as badalações no Ideal, Maguary e Náutico, o San Pedro Hotel, os lanches do Tonny’s, a vitrina da Aba Film mostrando fotos das “moças de família”. As conversas eram feitas sem medo em 15.000 telefones pretos de galalite. O Theatro José de Alencar abrigava um festival de declamações de D. Violeta Modesto de Almeida, com o patrocínio das Damas de Jacarecanga. Os filmes mais significativos do ano eram Bela e Canalha, com Vittorio de Sicca e Sophia Lauren. Congotanga, dirigido por Joseph Pewney, com George Nader e Virginia Mayo. As sete filhas do Amor, com Maurice Chevalier. O Alucinado, com Arturo de Córdoba. Os Corruptos, dirigido por Fritz Lang, com Glenn Ford e Gloria Grahme. Blefando a morte com Antony Quinn e Kátia Jurado. O Fantasma do Gen. Custer (7ª. Cavallary) com Randolph Scott e Bárbara Hale. A Janela Indiscreta, de Hitchcock, com James Stewart e Grace Kelly. Foi nesse clima e tempo que José Augusto Lopes mergulhou no mundo do cinema e ainda navega. Todas as semanas mantém o olho nas telas, onde descobre não só o que diretores, atores, roteiristas, figurinistas aspiram mostrar, mas, por exemplo, vê os erros dos continuistas, a farsa de atores apaixonados por atrizes, mesmo que vivam realidades díspares. José Augusto poderia, quem sabe, ser comparado a um Rubem Ewald Filho pela capacidade de se empolgar, adorar ou criticar o que não aceita. Ele não é neutro, é o que escreve aos domingos no Diário do Nordeste. A Exposição no Benficarte foi a forma escolhida para mostrar ao público parte de sua intimidade, sejam pesquisas, manias, devaneios, fetiches e até glórias transformadas em troféus. O que está sendo exposto, de forma gratuita e aberta, é a parte visível de sua vida como comentarista de cinema. Algumas pessoas reagem com uma pergunta estranha quando se deparam com os “guardados” de alguém: Só isso?. Saibam, pois, que além do que é exposto com formas, matizes, desgastes do tempo, há um cuidado de quem coleciona, para desvendar o essencial. E o essencial varia para cada um. Esta é uma oportunidade para quem realmente gosta de cinema não apenas como diversão. Lembranças serão revividas. É uma trilha para os que estão começando a descobrir o que é cinema, como um filme é produzido, a fidelidade ou não do tema – baseado em enredo de um livro --, a capacidade cênica dos artistas, efeitos de som e luz, a diferença que faz um grande diretor, a publicidade gerada e a coerência ou disputa entre a crítica e o público. Enfim, é ver com os olhos este “making off “da alma e da razão de José Augusto Lopes que mistura o real e a fantasia e descobre que somos também aquilo que vemos, porque uma rosa não é meramente perfume. Há espinhos, à espreita. Viver entre espinhos e o néctar das rosas vermelhas ou brancas pode ter sido o paradoxo ou desafio da vida de José Augusto Lopes que está aqui, jovial no début de seus 70 anos, sabedor que pode voltar à tona, tirar o escafandro da reflexão, olhar para cima e ver estrelas no firmamento. João Soares Neto é cinemeiro. CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/08/2009. - [E AGORA? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/e-agora-diario-do-nordeste/): Era uma vez uma procissão de caravelas. Perderam-se por falta de vento de popa e acabaram dando com a proa em terras nunca dantes navegadas. Com vento ou sem vento, desceram pela terra a dentro e viram, estupefatos, “quase-pessoas”. E essas quase-pessoas eram donas de tudo, mas ainda não havia cartório nessa época para registrar as terras e cobrar os emolumentos, depois de muito protocolo. Como tal aconteceu é só ler a carta do Caminha, o escriba. E armaram uma cruz em torno da qual rezaram. E por conta dessa cruz quase-todos ainda estão crucificados. Quase-todos são os muitos dos que foram gerados nas relações entre as quase-pessoas e os quase-perdidos, pois navegar não sabiam. Se o soubessem cá não teriam chegado. Mas chegaram. E como os quase-perdidos não eram de trabalhar, imitaram os ingleses e trouxeram vozes e corpos de África. Mais corpos que vozes. E todos se embaralharam. Surgiu uma raça nova, essa que é produto de toda a turma. E aí começou a vir ao mundo uma gente peculiar, fruto do usufruto da gandaia geral estabelecida por toda a orla e das picadas pelo interior para escavar metais. E levaram, levaram tudo. O que ficou virou geleia. E essa geleia tem o nome do lugar de origem. Esse lugar com progenitores na cidade-estado quase copiada das ideias de Le Corbusier. E os pais do berço esplêndido usam ternos com muitos bolsos - para que será? - e gravatas para indicar que não são gente comum. E resolveram dar ordem à desordem e todos tinham muitos parentes e aderentes precisando de ocupação e distração. E lá ficaram na grande quenga de coco em que todos se empavonam de ser suas excelências. E como o circo precisava de animação colocaram uma televisão que não mostra o vazio das reuniões tribais em que se fantasiam de defensores de tudo. E o jogo não acontece por falta de atacantes. Quando aparece algum, pedem para sussurrar e não sujar a água bebida em comum. E de água semi-suja se faz a vida acontecer em três dias da semana. Os outros quatro são para as tramas. Aboliram os tremas, urdiram as tramas e tiraram as tramelas de janelas que continham o fétido odor da ambiência sem a qual não podiam respirar. E agora? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/08/2009. - [EUCLYDES, O CEARÁ, OS SERTÕES E A TRAGÉDIA - JORNAL O ESTADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/euclydes-o-ceara-os-sertoes-e-a-tragedia-jornal-o-estado/): Interessará aos raros leitores desta coluna, inserida em caderno social, saber ‘notícias de primeira’ do fim do século XIX e começo do século XX? Direi, em rápidas pinceladas, que amanhã, 15 de agosto, faz cem anos que Euclydes da Cunha morreu. Por enquanto, respondo que Euclydes era carioca e não gostava de cearenses. E conto: o primeiro a quem criticou, por escrito, foi Antonio Maciel, dito Conselheiro, tecendo-lhe uma imagem sombria, preconceituosa e até racista. O que Antônio fez? Mandou-se de Quixeramobim, -onde fazia de tudo, pois ensinava e trabalhava avulso - para os cafundós da Bahia por conta da prima e mulher Brazilina que lhe traíra. Já observará o atento leitor que Euclydes era escritor. Bingo. Depois, poderá indagar por qual razão ele não gostava do Antônio? Vamos lá: Euclydes fora cadete, tendo sido expulso por suas ideias republicanas, estudou engenharia, reintegrado como tenente e a mando da novíssima República Brasileira foi à Chorrochó, Bahia, às margens do Velho Chico, para cobrir a Guerra ou Campanha de Canudos, morticínio de milhares de indefesos. A guerra, com Exército e tudo, partira da premissa falsa de que um mero povoado fundado e liderado por Antônio - que congregava e aconselhava (daí o nome conselheiro) a todos com fé fanática -, ameaçava a Pátria republicana emergente. Euclydes, tísico que era, passou duas semanas entre tosses, conversas e anotações no local, chegando pouco antes do assassínio do Conselheiro, em 22 de setembro de 1897. Levou também, de volta ao Rio, a foto do Antônio morto, batida por Flávio de Barros, fotógrafo do Exército. (O incrível é como essa foto se assemelha com a do cadáver de Che Guevara) Euclydes foi e voltou sem dar um tiro. Tiro ele deu em Dilermando Assis, cadete, o jovem e bem-apessoado amante de Ana Emília, sua mulher. Aguardem, conto logo mais. Assim, Euclydes e Antônio, apesar das divergências sociais, tinham um ponto comum: sofreram a traição das suas mulheres. Mas, esse tiro só ocorreria muitos anos depois. Euclydes, intelectual que era, perdeu, em 1903, o concurso para professor de Lógica do Colégio Pedro II, no Rio, logo para outro cearense, Raimundo de Farias Brito. De pura inveja, ele disse: Farias Brito é um “pobre filósofo, cearense e anônimo, autor de um livro que ninguém leu”. A palavra cearense, reparem, é usada como pejorativo. Aí, os amigos de Euclydes, do grupo positivista “Jardim da Infância”, uma espécie de Clube do Bode de então, deram um jeitinho e Euclydes conseguiu ser nomeado professor. Pulei, de propósito, o fato de que as anotações dele feitas nas duas semanas em Canudos geraram, em fins de 1902, o seu famoso livro: “Os Sertões”, bem aceito, reeditado várias vezes, com venda de 10.000 exemplares. Era um número alto para um país com 18 milhões de habitantes, dos quais 95% da gente era analfabeta. Piorando da tuberculose, Euclydes foi admitido, ainda em 1903, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e na Academia Brasileira de Letras. Mas, a glória seria efêmera. Parece que o fantasma de Antônio Conselheiro rondava a sua vida. E tudo se maximizava em sua cabeça de deprimido. Em um domingo, 15 de agosto de 1909, armado de um revólver emprestado, calibre 22, partiu, manhã cedo, para a casa do amante de Ana, sua mulher, o tal Dilermando de Assis que, adiante-se, era bom em tiro ao alvo. Chegou, bateu à porta, foi entrando e atirando em Dilermando que revidou com arma mais forte e certeira, um 32, matando-o na hora. A história não termina aqui. A alma de Antônio Conselheiro continuou azucrinando a honra da família Cunha. Em 1916, Euclydes Filho, resolve vingar a morte de seu pai. Mais uma vez, Dilermando levou vantagem e o filho foi fazer companhia ao pai no cemitério. Então, Dilermando casou com a Ana, a viúva e mãe dos Euclydes assassinados. “Em sociedade de tudo se sabe”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/08/2009. - [DIA DO PAI - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dia-do-pai-diario-do-nordeste/): Ninguém é pai sozinho. É preciso a conjunção de um homem e uma mulher, para, por amor, desejo, negligência ou imprudência, haver o contato físico que, dependendo de fatores vários, transforma-se em fecundação e, passado o período da gravidez, dá origem a uma nova criatura. Assim, mesmo parecendo óbvio, somos o produto de vontades, acaso, talvez educações díspares e ambientes com características distintas. Sob o ponto de vista genético, herdamos o que agradecemos e também o que lamentamos. Desse modo, o pai parece ser apenas o mero detonador de um processo. A mãe é a geradora ou fiel depositária, estabelecendo, por nove meses, laços biológicos, de nutrição e afeição com alguém pulsando em seu interior. Essa elementar conclusão nos leva a crer que o pai possa ser um ente periférico, especialmente se a mãe for alguém a tentar, consciente ou inconscientemente, minimizar o papel do parceiro. É herança dos séculos passados a mistura dos papéis sociais de pai e marido. São coisas absolutamente distintas. Hoje, a sociedade relativiza esse matriarcalismo a conceder às mães uma espécie de tirania do afeto e relegar o pai a um papel secundário e estereotipado de mantenedor ou provedor. Hoje, tempos outros, sem a tutela de padrões superados na práxis da vida, há um esforço conjunto para enfrentar a dura luta pela subsistência e a educação de um ou mais filhos. Estas considerações, limitadas por espaço e conteúdo, são apenas para dizer que os pais precisam formar uma identidade comum de pensamento na condução da família, sob pena de causarem danos aos filhos, desnorteando-os pela divisão afetiva e a não apropriação de responsabilidades, ficando ao sabor dos humores da relação e da vida. Não, não esqueci ser hoje o dia dos pais. Mas é importante não romantizar em demasia a data comemorada, simbolicamente, neste dia. Há uma tarefa continuada e interminável qual seja a preparação de pais e de filhos para o mundo real sem príncipes, princesas ou fadas, pois composto de obrigações e responsabilidades. Para não dizer que não falei de flores, louvo o meu pai, supondo não ter sido filho ingrato. Segundo Shakespeare, em Rei Lear, a ingratidão é pior que a mordida de uma serpente. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/08/2009. - [SINGULAR - Jornal o Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/singular-jornal-o-estado/): Singular é uma palavra com várias significações. Pode ser pertencente ou relativo a um. Pode ser algo que não é vulgar, mas especial, raro, extraordinário, excêntrico, extravagante, esquisito ou bizarro. Mas, pode ter algumas dessas significações e ser uma experiência árdua e vitoriosa que completa dez anos. A escolha do nome, certamente, foi a propósito. Quem o escolheu estava querendo construir algo diferente, embora, para tanto, precisasse da habilidade e capacidade que acumulara em outras dezenas de anos. Fim do mistério: estou falando da revista Singular, formato de bolso, boa apresentação e cuidados gráficos que mostram o amor de seu criador, o jornalista Eliézer Rodrigues, formação em comunicação social, anos de batente nos vários escaninhos que fazem uma redação. Um dia, em 1999, esse número cabalístico que, noves fora, dá um. Isto é, singular, raro. E é o próprio Eliézer Rodrigues, na edição especial, número 28, quem conta: “A Singular surgiu, não por acaso, e sim por uma necessidade de continuar alimentando a inquietação pela notícia, após anos no batente de redação”. E cita, com acuidade, o pensamento de Dino Buzatti, jornalista e romancista italiano, através de seu personagem Drogo: “Tenho a impressão que o importante está para começar”. Cada número – e já são vinte e oito – é uma batalha e história. São novos colaboradores, diagramadores, anunciantes a conquistar e tensão até que a revista brote em formas e cores, oferecendo portabilidade ao leitor. Este número 28 contém preciosidades. Conto algumas. Há uma reportagem de Renan Antunes, forte e consequente, ganhadora do Prêmio Esso de jornalismo, em 2004. Contém a passagem por Quixeramobim do tísico Manuel Bandeira que ali aportou em busca de ares puros para os seus alvéolos pulmonares e nunca entrou em sua igreja matriz (“onde nunca entrei e hoje tenho pena”). E diz isso em crônica, tão poeta que foi. Ethel de Paula desvenda um advogado-dama. Jorge Pieiro, vindo do Limoeiro dos Maias, fala sobre a praça que adota a todos que aqui aportam e a usam e abusam. Ana Miranda diz da Praia de Iracema de sua infância. Há projetos de ciência com Miguel Nicolelis e há mais, muito mais. Leia a Singular. Compre um exemplar. Mas, se não tiver dinheiro, o Eliézer dará de graça com a mão calejada de palavras que trouxe ao mundo na ordem que quis e sabe fazer. E por ser benfazejo o trabalho de Eliézer Rodrigues é que o incluo no meu espaço semanal do jornal O Estado, um destemido e admirado diário que o povo do Ceará lê há mais de 70 anos. Parabéns, Eliézer. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/08/2009. - [CRIANÇAS E LIVROS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/criancas-e-livros-diario-do-nordeste/): Fiquei feliz em ver na cidade de Paraty, RJ, a Flipinha. Uma folia paralela para crianças em meio à, digamos, Flipona, a festa literária internacional, exclusiva para adultos. Uma das coisas que me chamou a atenção na cidade, foi a ambientação das praças carregada de simbologia infantil, tais como animais feitos de papel ‘marché’, adolescentes seguindo os passantes com pinturas brancas nos rostos e os corpos vestidos de negro. Como a festa era em homenagem ao poeta pernambucano Manuel Bandeira havia os célebres e grandes bonecos que enfeitam os carnavais de Recife e Olinda. Todos os professores recebiam, gratuitamente, um Manual da Flipinha. Nesse manual, realizado pela Associação Casa Azul, fica claro que ele é um apoio ou ferramenta das salas de aula para provocar o aprimoramento do estudante, através do livro e da consequente leitura. A intenção é transformar as crianças nascidas em Paraty em leitores conscientes, dando à cidade um modelo de turismo cultural a dar exemplo a todo o país. Assim, professores foram engajados à Flipinha e o que se via era um salão aberto, com palco, lotado de crianças, ávidas por conhecimento. Neste tempo em que a Internet duela com a televisão como foco de atenção dos pais e das crianças, os livros, erradamente, são considerados apenas obrigações escolares, como instrumentos necessários à formação elementar, secundária ou superior. Está provado que as pessoas que gostam e sabem ler têm mais facilidade de expressão e comunicação. Não falam “tipo assim”, por terem vocabulário limitado. Os que leem sabem descrever situações, assimilar o contexto de conversações. A partir das leituras conseguem ter uma visão maior do mundo, com seus perigos e oportunidades. Embora seja um avô não ortodoxo, tenho procurado estimular meus netos para a descoberta da leitura e da escrita. E o faço não interferindo na sua educação, mas lhes dando livros compatíveis com a idade. Tive o prazer de ver uma neta, pré-adolescente, recebendo prêmio e medalha de uma editora nacional por texto seu publicado, depois de selecionado no colégio. Luana, encabulada, devoradora de livros, estava, sem saber, concedendo-me alegria incomum. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/08/2009. - [ARIMATÉIA SANTOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/arimateia-santos-jornal-o-estado/): Após luta renhida, José de Arimatéia Santos deixou-se levar aos 81 anos, cercado por sua família nuclear. Partiu com a tranquilidade dos que sabem ter trilhado o caminho dos justos. Arimatéia foi, em vida, uma pessoa rara. Ele conseguia ser fiel, ao mesmo tempo, ao Grupo Edson Queiroz, ao qual dedicou meio século de trabalho; à família, especialmente, D.Isolete, sua musa em tantos versos compostos, às filhas Mônica e Fernanda, aos genros Otávio e Fernandes, e aos netos. Reunia essa turma e, todos os anos, viajavam pelo mundo afora. Era também leal ao Lions Jangada, o clube de serviço que integrava; à Saerg, sociedade benemérita por ele criada, que amparava jovens paupérrimos; aos colegas do cooper matutino na Beira-Mar e aos amigos da Turma dos Sábados, fundada na TV- Verdes Mares, ainda quando o Chanceler Edson Queiroz era vivo. Cordial, capaz e simples, Arimatéia era referência na equipe que ajudou a formar um dos mais sólidos e respeitados grupos econômicos do Nordeste. Como cidadão, criou um núcleo de assistência médica e educação rural, com salas de aula, ampla biblioteca e foco no ensino de informática a crianças e jovens. Orgulhava-se da banda instrumental por ele fundada, tudo em Guanacés, seu berço, distrito de Cascavel. Como letrista bissexto e diletante, teve CDs gravados, inclusive pelo Quarteto Iguaçu, do Paraná, destacando-se a música “A janela da Vida”, na qual escancarava o amor por D.Isolete. Se é certo que existe um paraíso celestial a acolher os bons de espírito, sem dúvida, nesse insondável espaço, Arimatéia deverá ter entrado, não pela janela, mas pelo acesso reservado aos retos de conduta e puros de coração, como ele o foi. Seu nome, José de Arimatéia, é o de um dos maiores amigos de Jesus, a quem abrigava em sua casa e para quem cedeu o próprio túmulo. Arimatéia, gente de bem, certamente foi recepcionado pelos santos que, em conjunto, a ele emprestaram seu sobrenome. Reunia as múltiplas qualidades de filho exemplar, irmão presente, marido leal, pai extremado, profissional correto, colega e amigo de quantos tiveram a oportunidade de gozar, por muitas décadas, de sua companhia cordial e folgazã. Deus o guarde. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/07/2009. - [BIBLIÓFILOS :25 ANOS DEPOIS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bibliofilos-25-anos-depois-jornal-o-estado/): Bibliófilos são seres estranhos no mundo pós-moderno. Apegam-se a capas e conteúdo de folhas amarelecidas pelo tempo e, pouco a pouco, se tornam cativos dos livros. Bibliófilos não são ruidosos. Por excelência, devem ser aquietados ao trilharem a ainda não bem entendida e definida tarefa de amar e cuidar de livros, especialmente os preciosos, antigos e raros. Mas o que é livro raro? Pergunta difícil. Nem todo livro antigo é raro. Tampouco, quando apenas só existe um exemplar dele. Ana Virgínia Pinheiro, no “Glossário de Codicologia e documentação” e em “Que é livro raro”, diz: “Antiguidade não é sinônimo de raridade, nem garante o mérito de um livro... A noção de raridade bibliográfica envolve tantos valores e circunstâncias que é necessário formalizar uma metodologia para organizar esse conhecimento. O primeiro passo está em por em confronto os conceitos de raro, único e precioso”. José Castello, em artigo publicado na revista Isto É, de 12 de novembro de 1997, fala sobre a relação entre leitores e livros. A primeira ideia é imaginar que poderemos ler mais do que é humanamente capaz. Depois, desejamos ter em mãos, cuidados e ordenados, as obras dos autores que apreciamos. Finalmente, surge o interesse pelas primeiras edições, ou seja, a iniciação à bibliofilia. Este artigo é dedicado a uma entidade da qual tenho o prazer de fazer parte, a Associação Brasileira de Bibliófilos, a mais antiga instituição do gênero do Brasil, que está comemorando, nesta data, os seus 25 anos de fundação e o ingresso de quatro novos sócios, Francisco Pinheiro, Hélio Leitão, Ingrid Schwamborn e Ubiratan Aguiar. Sejam bem-vindos. Seus nomes enriquecem o quadro social da Associação Brasileira de Bibliófilos, composta por membros curiosos, diletantes, cultos e ilustres e presidida por um dos mais atuantes bibliófilos do país, José Augusto Bezerra. Concluo. E o faço com frase do maior bibliófilo brasileiro, o empresário, acadêmico e apaixonado por livros, José Mindlin: “Num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver.” João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/07/2009. - [FLIP, A VOLTA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/flip-a-volta-diario-do-nordeste/): Estou vindo da Filp - Festa Literária Internacional de Paraty, Rio. Fui ver para crer. A Flip não é feira de cultura, tampouco de livros. Mas, paradoxalmente, é um pouco disso. O seu ar pós-moderno é a procura de se caracterizar como uma festa múltipla com intelectuais, jornalistas, câmeras de tvs, cantores, acadêmicos, estudantes, “bichos-grilo” e visitantes. Usa o espaço privilegiado e bonito do Centro Histórico (sem veículos) de Paraty, cujo pavimento é caracterizado por lajes ou calhaus assimétricos dando aos pedestres um requebro no desequilíbrio ao andar. Acima do nível do chão ergue-se o casario branco, tais como o quase-restauro feito em Salvador (Pelourinho), Recife (centro antigo) e Fortaleza (área do Dragão do Mar). As praças e parques são sombreados, cuidados e têm brinquedos. Até na principal igreja houve concerto público de música brasileira (choros, dobrados, emboladas e toadas), cujo regente era um fagotista cearense de Tauá, Francisco Formiga, que incluiu no repertório da noite a Suíte Hermética, do também cearense Liduino Pitombeira. Mas quem ganhou a maioria dos holofotes foi Chico Buarque. Em meio à travessia que fazia com o escritor Milton Hatoum teve a coragem de dizer: “Acho escrever uma chatice” e “tenho dúvidas se Guimarães Rosa é mais importante que João Gilberto”. Ora, não dá para comparar o que é distinto. Para os músicos, como o Chico, é natural escolher o compositor João Gilberto. Entretanto, nem os músicos podem desconsiderar o valor de Rosa. Zuenir Ventura, a quem encontrei, entre outros, na Flip, ficou indignado e usou o jornal O Globo para dizer: “como estabelecer paralelo entre quem usa como matéria-prima sons e acordes, e quem utiliza a palavra escrita?”. É preciso dizer ainda havia muitos convidados estrangeiros, alguns mais performáticos que intelectuais. Ouvi palestras e entrevistas. A do americano Gay Talese, uma espécie de Valdick Soriano do novo jornalismo usava chapéu, paletó, gravata e colete: Uma gracinha. Mas tinha gente como o jovem escritor mexicano, Mario Bellatin, o poeta e contista chinês Ma Jian, o biólogo-evolucionista inglês Richard Dawkins. Sem falar nos brasileiros, onde destaco o editor Rodrigo Lacerda, o crítico Sérgio Rodrigues e o veterano Edson Nery da Fonseca, cultor do homenageado Manuel Bandeira que escreveu este verso “a alma é que estraga o amor”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/07/2009 - [LUA DESVENDADA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lua-desvendada-jornal-o-estado/): Terça, 20 de julho, completa quarenta anos da subida da espaçonave americana Apollo 11 à Lua. Nesse tempo eu estava no Rio e as imagens da rede Globo mostravam, com certo atraso(delay) o que a televisão americana, enlouquecida, descrevia. Neil Armstrong e Edwin Aldrin manquejam nos grossos trajes espaciais na branca planície lunar. Deles, só víamos os rostos por trás das lentes dos capacetes. Era tarde da noite friorenta, a sala da televisão repleta de gente. Havia silêncio respeitoso. As expressões dos rostos, lembro bem, demonstravam espanto e admiração pelo feito, mas houve quem dissesse: isso é uma farsa. Até hoje, passados 40 anos, há livros, teses e audiovisuais que levantam a hipótese de uma encenação para quem, como o americano, seria acostumado a fazer cenários hollywoodianos, quase verdadeiros. Agora mesmo, acabei de ver um vídeo com o dístico “Top Secret”, supostamente do Departamento de Estado dos EUA, mostrando um civil, em trajes comuns, ao redor do passeio de Aldrin e Armstrong. A farsa, todavia, pode ser a edição da imagem verdadeira com superposição de outra pessoa. O fato é que a Guerra Fria entre os Estados Unidos e União Soviética provocava medo à humanidade e os soviéticos já tinham mandado Yuri Gagarin e um macaco ao espaço. Agora, naquele 20 de julho, seria o troco americano. Foi dado o alerta. Vieram os anos setenta e oitenta. A humanidade - com a física, a engenharia e a medicina- começou a usufruir das pesquisas espaciais, com o surgimento de novos materiais leves e resistentes para aeronaves, tecnologia de comunicação e drogas sintéticas que curam ou mitigam males. O fim da Guerra Fria, com a queda do Muro de Berlim, em 1989, a Europa teve o seu mapa mudado pelo desdobramento de países, inclusive os resultantes do desmanche da arquitetura política da União Soviética. Aconteceu, então, a desaceleração na corrida espacial. Descobriu-se o óbvio, o buraco é mais embaixo, é aqui mesmo, onde desmatamentos, fome, ideologias, guerrilhas, sede de poder, doenças, ditaduras e analfabetismo contaminam a terra. A lua, embora desvendada, voltou a ser dos poetas e enamorados com suas metáforas e enigmas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/07/2009. - [OBSERVAÇÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/observacao-diario-do-nordeste/): Rio. Estava lá e não se encontrava. Habituara-se a grupos pequenos. Muita gente não fascinava a seus olhos. Torcia o nó da gravata. O vozeio aumentando e o relógio de pé, antigo, marcava o tempo. Tinha o olhar da observação e captava descompassos sociais após cada chegada triunfal e a saudação aos próximos. Luzes havia e o calor das mãos não irmanava pessoas. Elas poderiam, sim, enaltecer o momento, descobrindo-se umas para as outras ou procurar o caminho da prosa factual. Mas eram estranhos entre si. Nem o aprumo na decoração e o ambiente iluminado e criativo, análogo a outros, eram admirados. Como deveriam ser por quem estava ali por motivações quaisquer. Apresentações e saudações feitas. Eram muitos os previstos e os inesperados, mas tudo correu no mundo da cortesia e civilidade a presidir encontro entre pessoas de falas e saberes variados, sem faltar o disse-me-disse costumeiro, de soslaio. Uns ficaram próximos, outros distantes, mas isso sempre aconteceu, desde a Grécia antiga. Palavras amáveis foram trocadas, umas com alma, outras por arte. Houve até, imaginem, a invocação do Senhor em meio laico e todos se compraziam com o papel de ser ou eram apenas como os outros imaginavam que fossem. E a comida saborosa e benfazeja ia ocupando espaços em estômagos não tão prenhes de fome, mas as papilas gustativas desempenharam seus papéis e muitos pareciam estar em mesas formadas. E bebeu-se. Cada um a de sua preferência e vezes sem conta, pois conta não havia. E havia música, de múltiplas formas, ritmos e andamentos. E, na euforia, uns dançavam ao som que se transmudava em decibéis pedindo conversas em tom mais alto. E, vez por outra, pessoas se acercavam das mesas para falar sobre os seus pares e ímpares. Em fala natural ou estranha. Eram adventícios, a maioria. E havia risos, chistes, e o tempo fluía como se tivesse sido confinado pelo frescor da noite. Sobremesas ricas e bebidas para paladares ávidos foram servidas com elegância para muitos que esqueceram o rumo de volta. E a narrativa se perdeu no sono da madrugada. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/07/2009. - [MOTOTAXISTAS E A LEI - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mototaxistas-e-a-lei-jornal-o-estado/): Já andei de moto. Ainda tenho pequena cicatriz de queda levada. Eram outros tempos. A cidade comportava a convivência entre motos e carros. Hoje, tempos outros. Motos e carros disputam as faixas de pista sobradas das vans de aluguel, ônibus e caminhões. As avenidas e ruas são palcos diários de acidentes. O problema com as motos é que os acidentes são mais frequentes e o impacto é maior pela pouca proteção. As motos levam, quase sempre, duas pessoas. Uma é o guiador, dono da moto ou arrendatário. A outra é um passageiro apressado. Falo das mototáxis, produto típico de país ainda subdesenvolvido. Imagina, falar de mototaxistas para um inglês. What? Até os chineses, ainda pobres, já adaptaram os seus riquixás puxados à força humana para motos. Assim, são triciclos. Menos perigosos. No Brasil existem, neste 2009, 500 mil mototaxistas, espalhados em 3.500 cidades e, segundo se sabe, atendem a 10 milhões de passageiros. Por que isso acontece? Porque pessoas cansam de procurar emprego a exigir qualificações acima da média e o transporte coletivo não é suficiente. O brasileiro comum, desempregado, compra uma moto, aprende a guiá-la para sobreviver e pagar com o apurado. Os incomuns, segundo se diz, estão no Senado. Pois é esse Senado, em meio ao tiroteio interno e da mídia, que aprova, nestes dias, a carreira em que o profissional tem que estar sempre sobre duas rodas, em processo de equilíbrio a misturar lei da física, pressa ou estresse, pavimento ruim e desempenho dos outros veículos que o acossam nas maltratadas vias das cidades. Assim, enquanto se nega reserva de mercado para pessoas formadas em comunicação, se abre – ou se regulariza –nova categoria profissional. Brevemente, os sindicatos dessa categoria elegerão líderes para câmaras municipais, assembleias e até para o Congresso. Quem sabe, daqui a algum tempo, um mototaxista-congressista, atrás de votos, apresente condolências às famílias de Josés e Joões, seus colegas mortos pela “insanidade do trânsito”. Ao Presidente Lula, depois da aprovação no Senado, cabe vetar ou sancionar a lei. O que acontecerá? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/07/2009 - [A ROUPA E O MONGE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-roupa-e-o-monge-diario-do-nordeste/): Ninguém é obrigado a saber que a palavra “apple” não é apenas maçã, em inglês. Tampouco, lembrar de Nova Iorque, a “big apple”. Acontece existir uma empresa de informática que incorporou esse nome comum de quatro letras. Ela começou pequena, cresceu demais, teve crises e um de seus fundadores, Steve Jobs, já saiu dela. Depois, retornou. Não vamos falar de computadores, negócios, iPhone, hoje o carro chefe dessa empresa. Estamos interessados no detalhe. Pomos os olhos em uma foto atual da European Press-Photo Agency e vemos Steve Jobs de calça jeans, sem cinto, camiseta preta de mangas compridas e uma caneca (daquelas que o Jô Soares gosta de mostrar em seu programa) de café à mão. Pois bem, esse é o trajo oficial de Jobs, nada de roupas de estilistas, tampouco ternos ou casacos de animais silvestres. Steve poderia, é verdade, comprar tudo o que quisesse vestir, mas optou por essa maneira casual. Nos jornais brasileiros veem-se empresários e executivos de lustrosos ternos, gravatas com cores fortes e sapatos de cromo. Sempre se disse que “a roupa não faz o monge”. Lembro: em 1965, o Concílio Vaticano II tornou opcional a batina ou “hábito” fora dos atos litúrgicos. Assim, esse ditado parece não estar valendo para o Papa Bento XVI que usa batinas, estolas e sapatos de marca, apesar da pobreza ser louvada e glorificada pela Igreja Católica. Voltemos a Steve Jobs. O seu temperamento forte, dinâmico e difícil foi surpreendido pela doença. Em 2004 teve de retirar um tumor maligno no pâncreas. Agora, em 2009, como sequela da primeira doença, fez um transplante de fígado. Ele já era simples, porém abusado, ficou hoje, aos 54 anos, mais simples ainda. Tanto isso é verdade que, para substituí-lo – ou ajudá-lo - na direção dos negócios contratou, há anos, um executivo, Tim Cook, também usuário de calça jeans, mora em casa alugada, afável, trabalhador incansável e não gosta de aparecer. Jobs e Cook seriam, pois, o oposto de Donald Trump, aquele empresário, também americano, sempre na mídia social, que até marca de perfume virou. Afinal, cada um tem o seu jeito e, sendo maior de idade, deve-se saber que estilo é o que fica quando a moda passa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/07/2009 - [PARATY E A FLIP Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/paraty-e-a-flip-jornal-o-estado/): Devo estar em Paraty, cidade entre Angra dos Reis e Ubatuba, quase à margem da estrada Rio-Santos. São quase quatro horas do Rio de Janeiro para cá. É inverno por aqui. Nada que um agasalho ou um blazer não resolva. Paraty é cidade histórica, com preservação de algumas áreas e prédios. Tem praia, bares, restaurantes e pousadas de todos os tipos. Vive do turismo, férias e pacotes de viagens, especialmente neste início de julho, quando tudo triplica de preço. Vim, curioso que sou, ver a Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP. Há dúvidas sobre a essência literária dessa festa. Vim para conferir. Neste ano, por exemplo, discute-se a obra do poeta pernambucano Manuel Bandeira, ao mesmo tempo em que, imaginem só, são apresentados cantores (os eternos Francis Hime e Olívia Hime), filmes e até histórias em quadrinhos (HQs). Parte-se daí para agitar o relacionamento amoroso, nas visões do cineasta Domingos de Oliveira, diretor de “Separações” e do escritor Rodrigo Lacerda. Claro que existem atrações internacionais. A primeira atração é o neodarwinista, Richard Dawkins. Depois, Chico Buarque e Milton Hatoun, conversando sobre o que as suas obras ajudam na formação do país. A música é objeto de bate-papo com Alex Ross, da revista New Yorker. A família cai na dança e é debatida por Anne Enright e James Salter. Gay Talese, autor, entre outros, de “Fama e Anonimato”, conversa sobre o novo jornalismo, de que é profundo conhecedor, com Mário Sérgio Conti, TV-Senac. O mexicano Mário Bellatin e o brasileiro Cristóvão Tezza procuram explicar suas experiências pessoais como literatos. E, para não cansar vocês, Catherine Millet, aquela que escreveu, quando jovem, a “Vida Sexual de Catherine M”, fala sobre o que viveu. Ao final, Zuenir Ventura e Edson Nery da Fonseca, encerram o tema Manuel Bandeira, a quem conheceram em vida. Como se vê, é realmente uma festa, em que há muita badalação e até um pouco de literatura. É, sem dúvida, um encontro midiático que atrai nomes internacionais, cujos cachês não estão nas alturas. Para alegria dos que gostam de Chico Buarque, ele é figura de proa nesta festa. É a “gota d’água”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/07/2009 - [ENTRAR E SAIR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/entrar-e-sair-diario-do-nordeste/): O ser humano tem ambições. Uns, aspiram apenas sobreviver. Outros, vencer. Para a maioria vencer é estudar, conseguir emprego, ter filhos ou ser dono do seu destino. Mas, há os que almejam muito mais. Precisam de fama, sucesso, força, dinheiro ou possuir poder, seja ele qual for. O caso do Senador José Sarney é emblemático. Conseguiu tudo o que um homem comum ambicionaria ser. Casou, teve filhos, formou-se, tornou-se deputado, senador por dois estados, governador e até Presidente da República. Além disso, é membro da mais prestigiada instituição cultural do Brasil, a Academia Brasileira de Letras. É um pai à moda antiga, cuida bem dos seus, mas tem a política como ópio. Assim, aos 79 anos, sofre uma série de denúncias de adversários, jornalistas e até de aliados. Não entro no mérito da questão, mas indago-me se não teria sido mais sensato para ele, nesta quadra da vida, escrever sua biografia, criar outro romance como o bom “Saraminda” ou presidir a Academia? Entretanto, aceitou, pela terceira vez, ser candidato a presidente do Senado, derrotando Tião Viana em luta feroz que deixou sequelas. Ao mesmo tempo, pelejava para reverter o quadro real da eleição do Maranhão e, ao final, fez de sua filha querida, Roseana, novamente governadora. Ela, doente, apoiou-se no pai extremado para vencer a batalha perdida nas urnas. Outra guerra, mais inimigos. Roseana, tal como o pai, também era senadora. Volta ao governo e, em seguida, se licencia. Possui crônicos problemas de saúde, tendo sofrido quase 20 cirurgias, lutou à exaustão para voltar ao Palácio dos Leões. Agora mesmo, acaba de sair de intervenção neurológica, por conta de aneurisma. Lembro de Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, de 1936, admitindo que a família quando se torna poderosa vira exigente, e sua sombra, persegue os seus mesmo fora do ambiente familiar. Assim, a família, como entidade privada, passa a preceder sempre a entidade pública. Estas poucas linhas não julgam, apenas relatam fatos públicos e tentam mostrar sempre ser difícil entender os múltiplos atos e momentos de nossas vidas. Vale a pena? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/06/2009. - [BRIGAS ENTRE GRUPOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brigas-entre-grupos-jornal-o-estado/): Gostaria que essa estorinha que vou contar fosse concluída por você, caro (a) leitor (a). Veja que situações poderá criar. Use o seu talento, descubra-se escrevendo e trace o rumo de sua prosa. Escrever não é difícil, tampouco chato. A dificuldade é começar. Eis a estória: Encontraram-se, não por acaso, a Alegria, a Paz, a Harmonia, a Força e a Coragem. Formavam um grupo coeso, mas tinham adversários. Haviam sido desafiados pelo grupo rival, constituído pela Tristeza, a Guerra, a Desavença, a Fofoca e o Medo. Esse encontro, coletivo, era o primeiro. Um a um, já havia acontecido encontro. A Alegria quase sempre vencia a Tristeza. A Paz vencia e perdia. A Desavença levava vantagem com a Harmonia. A Força tentava sobrepujar a Fofoca, que era tinhosa. E a Coragem era sempre tentada pelo Medo. Assim, iam vivendo temerosos. Um grupo temendo o outro. Agora estavam, reunidos, tentando agir junto. Decidiram que a Paz seria a líder do grupo, pois sabia conter os ímpetos da Alegria, dar uma mão à desencantada Harmonia e usar a Força e a Coragem contra os inimigos. Por outro lado, os do outro grupo, nomearam a Guerra como seu chefe supremo, apesar das ponderações da Fraqueza e do Medo. Foram votos vencidos. Houve então a seguinte conversa. Começa assim: A Guerra ligou para a Paz: - Sou chefe do meu grupo, queremos briga. A Paz respondeu:- Guerra querida, você não muda. Mas tenho esperança que isso aconteça. Venha tomar um chá de bom senso comigo. A Guerra, explodindo de raiva, retrucou:- Só tomo chá de pólvora misturado com arsênico. O resto é para fracote. -Não importa que você me chame de fracote, mas queria abraçá-la e ver se pode criar juízo nessa cabeça pirada, disse a Paz. - Deixe de conversa mole, escolha as suas armas e vamos à luta. Será amanhã, às 4 da tarde, nas campinas perto do Lago, falou a Guerra, soltando fogo pelas narinas. -Estaremos lá, sem armas, fique bem e durma com tranquilidade, disse a PAZ. E a Guerra: - Bem que eu poderia dormir com você, mas aí a estória seria outra, quente. -Crie juízo, finalizou a Paz, desligando o telefone. A estória, contada por mim, terminou. Será que você poderia continuá-la? Dizer como foi o encontro dos dois grupos? Quem venceu? Que armas usaram? Quem se destacou? As respostas são suas, mas se quiser enviá-las para mim use o e-mail oestado@gmail.com. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/06/2009. - [DEPOIS DA COPA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/depois-da-copa-diario-do-nordeste/): Sou brasileiro, fui péssimo peladeiro e gosto de futebol. Torço, porém, de forma diferente. Tenho rasgos de paixão, mas a lucidez aparece, às vezes. Após o anúncio das cidades da Copa/14, comecei a ler a previsão de gastos. São bilhões para cada uma das 12 escolhidas. Boa parte será gasto na adequação ou construção de novos estádios e infraestruturas de acesso. Fiquemos, por exemplo, com Fortaleza. Já existe o Castelão, reformado há poucos anos. São previstos novos investimentos de 400 milhões de reais em sua modernização e acessos. A partir desse fato, lembrei-me do exemplo do Estádio Engenhão (João Havelange), no Rio de Janeiro, construído para o Pan Americano e hoje cedido ao Botafogo, por conta de seu alto custo de manutenção. O público virou privado, sem pagamento. Voltando ao Castelão: poderão serão realizados, acredita-se, até três jogos. Assim, tudo será consumido em 270 minutos, por brasileiros e estrangeiros. Terminada a Copa, o que será feito desse e outros estádios que preveem até cobertura contra a chuva? Estive ano passado na China e visitei, com vagar, o Estádio Ninho do Pássaro. Majestoso na arquitetura e simples na ambiência. Nele cabem 91 mil pessoas, campo, pistas de atletismo e base física, incluindo infraestrutura de 258 mil m2. Gastaram 500 milhões de dólares. Foi realizado concurso pela Prefeitura de Pequim e três escritórios de arquitetura da Suíça, Inglaterra e China venceram, em consórcio. Volto a Fortaleza: os dois maiores clubes locais sofrem na série B do futebol. Até junho de 2014, parte ínfima de recursos poderia ser destinada aos clubes, condicionada sua aplicação à modificação à capacitação da gestão, visão de futuro e, claro, da Federação de Futebol, que dizem ser obsoleta. Teríamos gerenciamento, atletas formados nas bases, com público ávido e permanente, se Fortaleza e Ceará alcançassem e permanecessem na Série A. Assim, poderíamos ter algum retorno. Não adianta preparar os locais da festa se não mudarmos os métodos. A maior obra não está no concreto, mas em raciocinar para o futuro e ver o esporte como estratégia para o desenvolvimento das doze cidades. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/06/2009. - [CINCO MILHÕES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cinco-milhoes-jornal-o-estado/): Um apresentador de televisão domingueira acaba de renovar seu contrato com uma rede nacional. Vai ganhar cinco milhões por mês, entre salário e merchandising. Ou seja, a propaganda, disfarçada ou não, em que aparece. Então, alguns poderão perguntar: por que fazer vestibular, cursar cinco anos e depois ralar muito? Para que tanta gente se mata estudando para concursos? Para que muitos ficam pendurados em bancos, financeiras e afins? Dirão ainda: Entenda a razão pela qual médicos, engenheiros e advogados, as profissões antigas, ganham uma insignificância por mês. Vocês poderão pensar: isso é despeito, talento é assim, ganha milhões. Poderiam pensar ainda: vai lá e veja se faz o que ele faz? Não se trata disso, o que nós, os mortais comuns, os sem talento, não entendemos é como um cristão fica duas ou três horas vendo e ouvindo alguém a dizer uma série interminável de bobagens, entrevistar pessoas que precisam estar no ar para aparecer, ouvir cantores de vozes esganiçadas, fazer um júri com aspirantes ou decadentes artistas e, no final do mês, levar cinco milhões. Ele tem público, se não gerasse receita seria despedido. Não sei qual o público que o assiste, se das classes A, B, C, D ou E? Aliás, pessoas não deveriam ser classificadas como se fossem produtos, mas quem fica ali postado vendo diatribes merece sofrer. Uma dica: faz muito tempo, surgiu o controle remoto, esse aparelho pequeno, movido a pilha, que tem o condão de nos libertar do que não podemos ou queremos ver e ouvir. Faça um bem a você mesmo. Higienize a sua mente. Leia jornal, livros e revistas. Ouça o silêncio. É bom. Pare de ver tolices. Não só as do apresentador, mas outras em programas policiais, fofocas, shows de calouros, de realidades etc. Faça de sua televisão uma aliada. Desligue-a ou escolha. Mude, compare e acredite: há programas de bom gosto, populares e eruditos. A televisão nos põe a prova, mas a escolha é nossa. Se, ao final de uma tarde de domingo, depois de almoço mais caprichado, aceitar alguém na tela é porque concorda com a presença em sua casa. Aí, quando isso acontece, não vale reclamar. Olhe para o espelho e veja quem pode ser o culpado. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/06/2009. - [MADRILENHAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/madrilenhas-diario-do-nordeste/): Dizia o pintor cearense Antônio Bandeira (Fortaleza, 1922. Paris, 1967) sobre exposições: “Antes era preciso somente o ângulo visual para se olhar um quadro. Hoje necessitamos mais que isso. Queremos também o ângulo do sentimento. Buscamos os olhos não somente na cara, mas também no cérebro e no coração”. Para ver arte é preciso estar atento a todos os sentidos e emoção. Vando Figueirêdo é pintor inquieto. Não é aprendiz. Sabe e o faz em longo percurso. Teve a coragem de, já maduro, sair do casulo, atravessar mares e aportar na terra-mãe, Portugal. Depois, por sentimento atávico ou existencial, retornou. Vive procurando faces novas no imaginário de sua arte. Experimentado na lida contínua e árdua de assumir-se artista, vê sempre com olhos púberes (re)buscado em suas lentes intra-oculares. Agora, expõe estas ”Madrilhenhas” na cidade. O título é o ponto de vista do autor. É o conjunto de obras que teria exposto em Madri, Espanha, se a saudade ou a vida não empurrasse sua nau pictórica de volta aos mares turbulentos e difíceis do Brasil. Neste ano nove deste Século XXI, do Iphone, Google etc ele mergulha a seu modo, com matizes e materiais contemporâneos, por vieses onde usa até palavras. Transfigura a rudeza primitiva de contornos rupestres e outros arranjos para amigos e apreciadores da arte. As razões destas Madrilhenhas podem e devem ter algoritmos e significações. Os olhares de colegas, marchands e visitantes terão múltiplas interpretações. Dizia Benedetto Croce, filósofo italiano, morto em 1952: “arte é visão ou intuição. O artista produz uma imagem ou um fantasma: e quem aprecia a arte volta a olhar para o ponto indicado pelo artista. Observa pela fenda aberta e reproduz dentro de si aquela imagem.” Ou no dizer do poeta americano Ezra Pound: “Toda arte começa na insatisfação física da solidão e da parcialidade”. Eugène. Delacroix, pintor francês do Século XIX, contava precisarem os pintores sempre borrar ou inutilizar o quadro para concluí-lo. Por fim, declaro não ser crítico de arte, mas saber que artistas são, geralmente, solitários e parciais, especialmente pela paixão devotada ao que criam. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/06/2009. - [O QUE É NAMORAR? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-e-namorar-jornal-o-estado/): Fique claro ser hoje o namoro aberto a todas as idades, sem essa de ser privilégio de adolescentes. Nada contra os jovens. Muito a favor dos namorantes, independente do registro civil. Para sair da mesmice, resolvi entrevistar algumas pessoas, entre 20 e 60 anos, de ambos os sexos, todas com boa escolaridade, a maioria com nível superior. A todas, entreguei uma caneta e um pedaço de papel – desses blocos de notas - e pedi que respondessem, na hora, colocando idade, profissão e pseudônimo, a seguinte pergunta: O que é namorar. Aguardei as respostas. Foram entregues, rápido. Mudei os pseudônimos para números. Vamos primeiro às respostas dos homens. Começo pelo mais velho, a quem chamarei de Um: empresário, casado, 53: “é viver momentos felizes”. Dois, engenheiro, casado, 31, refere: “é estar feliz todos os momentos”. Três, economista, casado, 30: “é compartilhar momentos, alegria, momentos tristes... é poder usufruir da companhia com cumplicidade”. Quatro, solteiro, economista, 24: “aproveitar o que há de melhor na vida ao lado de quem amamos. Como se trata de um verbo deve ser uma ação de amar, então é a ação do amor. Logo, amamos namorar”. Agora, vêm as respostas das mulheres. Quinta, massoterapeuta, união estável, 53: “é conhecer, testar. É química”. Sexta, divorciada, 43, executiva: “é ver-se no centro. É sentir-se segura no carinho que dá e no que recebe. É sentir-se verdadeira, inteira e, portanto, completa. É sentir-se ingênua, pura e consequentemente feliz. Quase infantil.” Sétima, mãe solteira, 30, especialização em negócios:” é compartilhar todos os momentos como se fossem únicos.” Oitava, quase casada, 28, chefe de equipe: “é se entregar, se amar, ser feliz. É dividir momentos de felicidades e passar juntos momentos difíceis. É esperar uma grande surpresa, é sorrir sem cobrança, é viver pensando em dois, é viver sem limites para a satisfação de dois seres.” Agora, vamos ver o que dizem escritores. Para Balzac, francês: “talvez seja apenas o reconhecimento do prazer”. Marcial, latino: “contigo não posso viver, nem sem ti”. Lampedusa, italiano: “fogo e chamas por um ano, cinza por trinta”. Nietzche, alemão: “aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal”. Por fim, Oscar Wilde, britânico: “os homens querem ser o primeiro amor de uma mulher, as mulheres gostam de ser o último romance de um homem”. E você, o que conclui disso tudo? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/06/2009. - [VÔO NOTURNO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/voo-noturno-diario-do-nordeste/): Por duas vezes passei situações de risco em voos. Vou contar uma: foi de Portugal para o Brasil. O avião decolou à noite, serviram o jantar e me acomodei para dormir com máscara sobre os olhos. Cochilei. Depois, recebi um cutucão. Era o vizinho de poltrona, um português de olhos arregalados a dizer sem meias palavras: Tu sabes que vamos morrer? Procurei acordar de todo e ele me apontou o motor parado, ao lado. Já todas as luzes da cabine estavam acesas e havia um corre-corre de comissários a verificar cintos e que tais. De repente, o comandante do avião se identifica pelo microfone e diz para permanecermos sentados e obedecer a instruções dadas a seguir. Aí, o comissário chefe pede para todos tirarem cintos, óculos, sapatos, objetos pontiagudos, mostra coletes salva-vidas etc. Estamos em noite escura sobre o Atlântico. A Europa ficou para trás. Procuro na mente as aulas de geografia e vejo só existir alternativa em África, nas ilhas de Cabo Verde ou Canárias. O resto é oceano profundo. Meia hora se passa e o comandante volta dizendo: vai voar baixo para liberar combustível, ficar mais leve e seguirá para as Ilhas das Canárias. O avião inclina a sua proa e vai baixando de forma lenta, quase imperceptível. Começa a operação de esvaziar tanques. Já faz uma hora do primeiro aviso, todos estão seguindo as ordens, calados, alguns rezam, outros choram baixinho. Repasso minha vida. Minutos duram horas, enfim o comandante volta a falar e diz estar pousando em Las Palmas, Grã Canária. O avião faz o turno de pista, desce suavemente, enquanto ambulâncias e carros de bombeiros nos acompanham, lado a lado. Todos estavam aliviados. Foram longos e duros 90 minutos e 03 dias de espera por uma nova turbina Rolls-Royce vinda da Inglaterra. Lembrei disso por conta da tragédia do AirBus da Air France. Eles só tiveram 04 minutos e um fim trágico. O Criador os acolha. Lembrei também do escritor francês Antoine Exupéry, autor, entre outros, de Vôo Noturno e piloto pioneiro a trazer o correio da França para a América do Sul. Morreu, em acidente aéreo, no mar da Sardenha. Fica apenas o consolo de Caymmi: “é doce morrer no mar”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/06/2009 - [VILA DAS FLORES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/vila-das-flores-jornal-o-estado/): Há algum tempo recebi “Vila das Flores” de presente. Levei-o para casa e, em meio ao caos que são os meus muitos livros ainda não lidos, ele se perdeu. Um dia, Carlos Macêdo, seu autor, pergunta: Já leu? Não havia lido. Agora, com um segundo exemplar, posso dizer, de cara, que Macêdo não é como ele se imagina: “um louco”. É alguém capaz de escrever com ternura, misturar gêneros e ter a ousadia de ser um autor independente neste Brasil de tão poucos leitores Todo escritor parece um ser carente, solitário, manejando a palavra como argamassa sem querer fazer tijolo, mas edificar texto que o torne real no conturbado mundo da escrita e da leitura. A leitura é um exercício de paciência para quem não tem o hábito e é uma opção rica e natural para quem sente prazer em fazê-lo. Ela pode ser até uma forma de demonstrar a capacidade humana, seus devaneios, anseios, medos e afirmações. Na introdução, o próprio Macêdo afirma: “é que Vila das Flores, mais que um lugar no mundo é uma ocorrência curiosa, dessas que não se esquece com facilidade, que permeia o dia a dia sem deixar sequer respirar”. Creio ter sido Guimarães Rosa quem disse: “é porque narrar é resistir.” Assim, Macêdo em seus dez textos, se mostra um combatente da escrita. Em “Ourivesaria” ele garimpa palavras e narra a ação e o pensar dos trabalhadores em metais, a música que reflete os pensares díspares de homens que de “cabeça baixa cantavam a sua dor, paixão, sua lembrança, cada um ignorando os outros...” Nas estórias concebidas, ele refere sobre os contatos humanos assimilados. Fala, entre outros, em “Dorinha e o Bordel” de Canuto Lucy, Rute e suas desditas. Há uma frase curta, mas intrigante: “refeita dos efeitos do veneno, continuou seu destino de sorrir com o vento”. E essa intriga ou relação com a morte parece ser forte e recorrente para Macêdo. E em meio ao seu pensar vário há tempo para a fé. Em “O Sagrado Coração” fala sobre o padre: “Essa gente ri à toa, pensava, e essa é a porta de entrada do seu coração.” Ao final, descreve, em “O Cenário”, a Vila das Flores: “...tinha a aparência de um imenso transatlântico afundando com aproximadamente trinta por cento do seu casco submerso ... Bem abaixo da borda, na base de toda a extensão do casco do imenso navio tudo eram florestas...” Para concluir, direi que Carlos Macêdo parte da complexidade de análises para dizer de sua forma especial e simples o que o mundo reflete para ele. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/06/2009. - [FUMO E VIDA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fumo-e-vida-diario-do-nordeste/): Hoje é o Dia Internacional Sem Tabaco (fumo). Ser contra é muito fácil. Basta criticar ou discriminar quem fuma. A história é bem mais complexa e merece reflexão coletiva, inclusive das instituições e famílias. Desde 1987 a OMS - Organização Mundial da Saúde, estabeleceu o dia 31 de maio como data anual para, de forma explícita e objetiva, conscientizar a sociedade sobre os males e consequências do fumo. As estatísticas ficam para institutos de pesquisa e órgãos governamentais de saúde, mas sabemos o quanto o cigarro pode abreviar a vida de uma pessoa: doenças e morte evitáveis. Além de abreviar, pode ainda piorar a sua qualidade nos anos derradeiros. Todos nascemos para morrer, vivemos agora no intervalo entre o nascimento e a morte, mas o que fazemos com o nosso corpo e a mente faz diferença, para mais ou para menos. Um caso concreto: meu pai fumava muito desde a adolescência. Foi obrigado a parar aos 63, por conta dos problemas decorrentes do uso imoderado do cigarro. Viveu mais sete anos, após o fumo, mas ainda foi acometido de infarto fatal por conta das múltiplas sequelas venosas e arteriais. O vício é de tal modo difícil de curar. Vejam, irmãos meus, sabedores das aflições e da causa da morte do nosso pai, ainda fumam. De minha parte, não resisti ao enjoo ao experimentar – na adolescência - o cigarro e tive sorte. Tenho amigos sabedores do terreno minado e teimam em continuar a pitar. Há uma dependência química por trás do simples ato de fumar. Ela vai se formando dia a dia e chega montando morada com alicerces fortes. Controversas questões judiciais correm em tribunais de todo o mundo mostrando a batalha social e econômica por trás dos interesses de grandes corporações, pagando os mais altos impostos aos governos por serem produtores de cigarro e as famílias com criaturas perdidas por conta do fumo. Hoje, há uma consciência coletiva sobre o problema. Há leis duras e só se pode fumar em ambientes abertos. Grupos se formam para descobrir soluções médicas, pessoais e caminhos alternativos ao vício. Mas, “não ter vícios não acrescenta nada à virtude” dizia o poeta espanhol Antonio Machado. Há, todavia, vícios nos privando de outros prazeres, não necessariamente virtudes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/05/2009 - [AUGUSTO. PONTES PARA O SABER - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/augusto-pontes-para-o-saber-jornal-o-estado/): Nossa relação com Augusto Pontes remonta aos anos 60. Nessa época, Barros Pinho, Josino Lobo e eu éramos alunos da iniciante Escola de Administração. Por sermos tidos, dentre outros, como líderes, fazíamos política universitária, não só por ideologia, mas para consolidar a difícil institucionalização da Escola de Administração, então agregada ao Estado do Ceará. Pois bem, Augusto era estudante/político ou político/estudante, fazia Filosofia meio sem concluir o curso. Estava em quase todas as reuniões e assembleias de centros acadêmicos da antiga União Estadual dos Estudantes - que congregava os universitários - e do Diretório Central dos Estudantes, que tinha assento no Conselho Universitário. Descobrimos, desde cedo, que Augusto era um exímio pensador e isso já ficara comprovado na sua relação de trabalho com Barroso Damasceno, na Caba Publicidade. Sabia fazer graça dos infortúnios comuns aos seres humanos, especialmente nossos que lutávamos de forma quixotesca por melhores dias para a Universidade e para o Brasil. Não vou repetir o que já foi dito à exaustão pelos que deram depoimentos quando da sua morte, há duas semanas. Na noite de seu velório, ouvia o lamento sentido de sua filha Natércia ao pé de seu esquife. Acheguei-me e contei para ela que no dia 01 de abril de 1964, ainda sem saber bem o que estava acontecendo, o Augusto me pediu para deixá-lo lá para os lados da Parquelândia. Claro que topei, mas ele, por precaução, solicitou ir no bagageiro do carro. E assim fomos. Depois, foi para a Brasília, onde ensinou, e de lá voltou e continuou a trabalhar em publicidade como homem de ideias. Um dia, Ciro Gomes, seu amigo, é eleito governador e Augusto assume a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará. Ciro, na sua forma inteligente e ferina de aferir pessoas descobrira a grande cabeça que repousava sobre os ombros do Augusto. E lá se foi ele viver assim por dois anos como um secretário diferenciado. Deu a sua quota. Jogou o paletó fora e foi viver como gostava ou podia. Agora, estamos na última década do século passado, no Clube do Bode e o Augusto intercala chistes com cerveja e cochilos programados. Foi lá onde se comemorou, já em 2005, o seu aniversário de 70 anos. Festa grande organizada por Sérgio Braga, registrada em ata por Audifax Rios, discursos, músicas, mesas muitas e amigos, parceiros e companheiros de todos os tempos, matizes e gêneros. Depois, aderiu a outro grupo nosso, também pseudo-anárquico: a Sexta Literária ou Cesta Literária que se reúne às sextas-feiras à tarde em távola redonda. Pelo que sei, foram nessas duas agremiações etílico-culturais as últimas aparições públicas do Augusto, solitário comunicativo, que tinha, parafraseando W. Irving, escritor americano, mente e fala como ferramentas aguçadas que melhoravam com o uso constante. Na manhã de sábado em que foi sepultado no São João Batista batia um sol de verão brabo em pleno tempo de chuvas, as galhas das árvores da alameda central não recebiam o açoite do vento e mais de uma centena de amigos esteve lá, de forma contrita. Cada um tinha a sua estória pessoal com o Augusto e o silêncio só era interrompido pelo choro comovido das filhas. Augusto. Pontes para o saber. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/05/2009. - [NÓS E AS CHUVAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nos-e-as-chuvas-diario-do-nordeste/): Sexta, 22, foi o dia da biodiversidade, aproveito então para dizer o óbvio. Nós todos somos o planeta Terra. Todos sabem – ou deveriam saber - sobre a diversidade biológica, isto é, a heterogeneidade da natureza viva. Sabem, mas não cuidam. Tenho esperanças de mudanças em nossos comportamentos pessoais, os péssimos costumes advindos da origem rural de parte da população urbana. Não respeitamos a fauna, tampouco a flora e somos predadores do ecossistema de nossas cidades. “Jogar no mato” transformou-se em jogar em qualquer lugar. A rua é a lixeira gerada pela falta de educação. Agora mesmo estamos vivendo uma crise decorrente de um bom inverno – sempre pedido – que chegou e encontrou esgotos entupidos, rios, lagoas, riachos, córregos com margens ocupadas por famílias carentes em permanente situação de risco e uma malha viária mal asfaltada sem calhas de escoamento por gravidade ou por drenagem. As cidades viram caos, acontecem enchentes não só por culpa da pluviometria, mas por despreparo coletivo e falta de ação preventiva dos seus gestores públicos. Escolas, colégios, universidades, repartições, sindicatos, igrejas, clubes e afins precisam formar grupos de pessoas e começar um processo profundo de educação ambiental para crianças, jovens e adultos. Não basta enviar donativos e entregá-los a gestores acostumados a clamar. É preciso tornar permanente o cuidado emergencial e incutir nas mentes das pessoas a necessária relação entre nós e o meio ambiente. Não sou ambientalista, nada de eco chato. Sou apenas alguém que já viu esse filme se repetir e sabe que a saída é a educação a gerar respeito pelo outro e pela terra que nos abriga e alimenta. A ênfase é produto da indignação com a indiferença a começar na família descuidando dos restos ou resíduos gerados a cada dia. Há ainda pessoas tidas como de nível a jogar pontas de cigarro, latas ou garrafas plásticas pelas janelas de seus carros. Há também quem não possa ver um terreno não edificado e lá despeja sobras de construções ou reformas. Um dia, o inverno chega e a água precisa, além de banhar a terra, seguir o seu curso. Como, se tudo está entupido com as nossas sujeiras? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/05/2009 - [FILGUEIRAS LIMA: BALADA DO CENTENÁRIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/filgueiras-lima-balada-do-centenario-jornal-o-estado/): Ontem, 21, Antônio Filgueiras Lima, com a alma certamente genuflexa na eternidade, completou 100 anos. O marido de D. Amazônia, o pai de Ruy, Antônio e José aliava a sensibilidade de poeta à devoção do educador que formava pessoas para a vida. Em 1959, quando Filgueiras Lima completava 50 anos, recebi de suas mãos uma folha de papel, de razoável gramatura, que continha o poema Balada do Cinquentão: “Fatiguei-me tanto, amada/Viajei cinquenta léguas/por essa sinuosa estrada/ que toda, a pé, percorri/dentro d’alma fatigada/dos tesouros que juntei/ não resta nada? a saudade/ de tudo quanto gozei/de tudo quanto sofri/dos beijos que te ofertei/ dos vento que te devi/de um rio que atravessei/ inda criança e... perdi/claro sino que escutei/na cidade em que nasci/ doces rimas que rimei/quando menino – e esqueci/ das gerações que eduquei/pelas quais tanta lutei/ e das quais tanto aprendi/dos tempos da mocidade/ambiciosa, em que sorri/embalado na esperança/ de um bem que nunca se alcança/de um futuro que... não vi/ oh! futuro! espelho mágico/ montanhas de ouro, brilhantes/ as rosas caem do céu/abre-se o mar em corais/ tudo um sonho evanescente/ hoje só tenho passado/ hoje só tenho presente/ mais passado que presente/ futuro não tenho mais”. Esse poema é uma espécie de autobiografia/testamento literário e revela haver em Filgueiras Lima uma quase premonição de sua prematura e inesperada morte, quatro anos depois. Nesse intervalo de tempo é que fui seu aluno na Escola de Administração, tendo sido distinguido por ele como Monitor de sua cadeira. Via-o chegar, sempre bem composto, de terno e gravata, com uma leve fragrância de colônia, a ministrar suas aulas quando, por vezes, o poeta falava mais alto e saia do script do conteúdo programático. Esse homem, que veio dos confins das Lavras da Mangabeira, batizado pelas águas do Rio Salgado, aqui se fez poeta e educador verdadeiro. Cavalheiro por excelência, tinha tamanha ligação com os estudantes que foi o autor da letra do Hino do Estudante - cuja música é de Silva Novo - em que dá uma última e ainda atual lição aos jovens que hoje frequentam os bancos escolares deste Brasil, ainda esperança: “É chegado o momento da luta/ mocidade vibrante e viril/ este brado de angústia se escuta/vinde, jovens, salvar o Brasil”. Salve Filgueiras Lima, vate do ensino. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/05/2009. - [MÍDIAS E ESTRANHOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/midias-e-estranhos-diario-do-nordeste/): Não considero salutar o uso de revistas, televisões, rádios, cadernos e suplementos de jornais, sejam de cultura, entretenimento, arte ou sociedade, para enfocar, com destaque exagerado, figuras estranhas ao nosso meio social e à área de influência do veículo. Um exemplo: o simples fato de o cantor e compositor Bob Dylan ter lançado um CD foi objeto de notícias em TV, artigos e páginas de jornal. Ora, há tanto a divulgar sobre artistas locais, regionais e nacionais. Acho despropósito o verboso incenso ou confete em artista internacional sem nada a ver com a nossa cultura. Nada contra o cantor e compositor Bob Dylan, mas a favor de quem não tem espaço na mídia. “Deu no New York Times” é uma expressão a dizer: o fato – ou a pessoa – é tão importante ou raro a merecer a citação naquele jornal nova-iorquino. Sendo o fato importante ou raro é justo se louvar alguém de fora, mas usar isso como rotina ou como pretensa demonstração de inserção na cultural internacional é bobagem. A reciprocidade não é verdadeira: os jornais, redes de TV, bienais de cultura e arte, ignoram, quase sempre, nossos valores da cultura e da arte. Nós todos, brasileiros, devemos acabar com o provincianismo no endeusamento de mediocridades, efemeramente pululando no ‘show business’ internacional, na cultura e artes e recebidos ou citados como semideuses. Há ainda os casos de palestrantes econômicos - nada sabiam sobre a crise- a tentar explicá-la e autores de livros de autoajuda prometendo isso e aquilo, mas produzindo mediocridades travestidas de falsa cultura e farta propaganda. Existe cultura verdadeira e arte em nossa terra. Há múltiplos valores precisando ser reconhecidos pela mídia, produtores culturais, editores, curadores de bienais. Não têm espaço para suas obras de arte e livros com real densidade acadêmica, cultural ou artístico. Nenhum País, Estado ou cidade se torna importante culturalmente e nas artes com bajulação a estranhos ao seu meio. Nada de xenofobia. Deseja-se apenas sair desse endeusamento bobo a nos tornar ridículos aos próprios olhos dos incensados. Certamente, lá em seus íntimos, pensarão: qual a razão de esse povo estranho me ver assim? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/05/2009. - [SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sobre-a-vaidade-dos-homens-jornal-o-estado/): Li com atenção um pequeno livro. Escrito em 1752 por Mathias Aires: “Reflexões sobre a vaidade dos homens” é uma excelente leitura. O título parece dizer quase tudo, mas é um ensaio filosófico de fácil absorção. Mathias Aires era brasileiro, nascido em São Paulo, em 1705. Adolescente, acompanhou seus pais a Portugal e lá quase concluiu seus estudos em Coimbra, mas foi na Galícia onde se licenciou em Artes. O livro teve a transcrição e adaptação do Português da época para o do nosso tempo feita por André Campos Mesquita. O autor se baseia, de partida, no trecho bíblico do Eclesiastes, escrito em latim: “Vanitas vanitatem et omnia vanitas”. Traduzindo: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. É preciso contextualizar a época: a Península Ibérica era essencialmente católica e a Inquisição dominava a fé. Tanto isso é verdade que o livro, como todas as outras produções literárias e artísticas da época, precisou do aval do Santo Ofício. Havia um Qualificador da Fé. No caso, o frei Marcos de Santo Antonio. Ele diz, ao conceder a licença: “Revi por ordem de Vossas Ilustríssimas, o livro intitulado Reflexões sobre a vaidade dos homens, que pretende imprimir seu autor Mathias Aires... parece-me não conter coisa que se oponha à nossa Santa Fé, ou bons costumes, e que merece lhe concedam Vossas ilustríssimas à licença que pede. Esse é o meu parecer”. Como se nota, o escritor era previamente censurado, o que talvez tenha impregnado sua filosofia de “discursos morais”. De pronto, Aires afirma: “Trazem os homens entre si contínua guerra de vaidade; e conhecendo todos a vaidade alheia, nenhum conhece a sua: a vaidade é um instrumento que tira dos nossos olhos os defeitos próprios, e faz com que apenas os vejamos em uma distância imensa, ao mesmo tempo que expõem à nossa vista os defeitos dos outros ainda mais perto, e maiores do que são. A nossa vaidade é a que nos faz ser insuportável à vaidade dos outros; por isso quem não tivesse vaidade, não lhe importaria nunca que os outros a tivessem”. É bom ver o autor analisar os dois lados da questão vaidade. Diz ele: “Assim se vê que há vícios de que a vaidade nos preserva, e que há virtudes que a mesma vaidade nos ensina”. Agora, vejam a parte moral: “Buscamos a Deus quando o mundo não nos busca; se alguma ofensa nos irrita, deixamos a sociedade, não por arrependidos, mas por queixosos, e menos por amor a Deus, que por aborrecer os homens. A vaidade nos inspira aquele modo de vingança, e parece, com efeito, que deixar o mundo é desprezá-lo. Assim será: mas quem deseja vingar-se ainda ama, e quem se mostra ofendido ainda quer”. Essas lições, escritas nas trevas do século XVIII, são tão claras e mostram o quanto foi e é vão o mundo dos homens, daí parece ser verdadeiro que a vaidade é uma forma de querer reconhecimento. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/05/2009. - [HISTÓRIA DO DIA DAS MÃES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/historia-do-dia-das-maes-diario-do-nordeste/): Há uma ilação entre o Dia das Mães e a pieguice. Agora, nestes tempos, não há como ser piegas. A mãe não é mais a mulher com 30 dias de resguardo, e se contentando em procriar, fiar e cuidar da casa. A mãe de hoje é alguém preocupada com os filhos colocados no mundo. Ciosa de suas crias trabalha tal qual o companheiro e acompanha o desenvolvimento dos filhos. Procura entender suas angústias, carências e dificuldades em obter êxito profissional. No tempo restante, cuida de si e de sua vida afetiva. A história do Dia das Mães remonta à mitologia grega e passa por Rhea, mãe dos Deuses, em nome de quem era celebrada festa na entrada da primavera. Séculos se passaram até a Inglaterra, século XVII, antes da Revolução Industrial, quando todos trabalhavam sete dias por semana. Concedia-se, então, às operárias britânicas uma folga dominical, no quarto domingo da Quaresma, para ficarem em casa com suas mães ou seus filhos. Esse dia, chamado de “mothering day”, a celebração com um bolo da mãe, o “mothering cake”, para torna-lo mais festivo. Pulamos para o século XX e estamos nos Estados Unidos com a tristeza de Ana Jarvis, moradora da Virgínia Ocidental, ao perder sua mãe, em 1905, e cair em depressão. As amigas inventaram, para alegrá-la, uma festa para homenagear a sua mãe. Refeita do mal passageiro, Ana resolveu estender a todas as mães a festa preparada para a sua. E usava o cravo branco como o símbolo da maternidade. Assim, passou a lutar pela instituição oficial do Dia das Mães, conseguido em 1910, em seu Estado, e em 1914, por ato do presidente Woodrow Wilson, foi definido segundo domingo de maio como a data oficial nacional. O estranho nessa história: Ana Jarvis nunca conseguiu ser mãe. O cravo virou travo. No Brasil, em 1932, o presidente Vargas instituiu a mesma data móvel para celebrar a mãe. Hoje, não se louva mais a mãe pela simples maternidade, mas pelo êxito na criação de seus filhos: prepará-los para o mundo com dificuldades e ameaças reais como drogas, estudos, competitividade, desemprego, sexualidade solta e casamentos descartáveis. Mãe é ofício perene de difícil aprendizado na pele da vida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/05/2009. - [A VOLTA À PRAÇA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-volta-a-praca-jornal-o-estado/): Estava ali parado. Sentara na praça de sua infância, mas não era a mesma. Haviam-na mudado. Ficaram o nome e a memória. A propósito de revitalizá-la tinham copiado um projeto estrangeiro e ela era apenas um simulacro de sua arquitetura. Ali não era mais o seu lugar e, paradoxalmente, o era pelas lembranças invocadas. A primeira delas e a mais forte era a da festa popular após a vitória da Copa do Mundo de Futebol em 29 de junho de 1958. Nessa tarde havia feito uma promessa: se o Brasil ganhasse, não vibraria. Iria apenas ver a alegria dos outros. Chegara à praça com a mão esquerda metida no bolso da calça de brim afagando as contas de um terço aliviando a sua fé dúbia, mas a cobrar respeito à promessa feita. Agora, lustros passados, sentara na mesma posição daquela tarde, mas o banco era outro e os transeuntes, estranhos. Pensava com os seus botões e admitia se encontrar entre a lembrança do passado e o tédio daquele involuntário passeio em procura de sua alma. Agora, está preocupado com o tempo dissipado desde aquela afastada tarde do dia de São Pedro. Em meio ao barulho do ir e vir das pessoas, camelôs em profusão, sua alma se investe de silêncio e faz girar a ampulheta do tempo, grão a grão, a se esvair em sua existência sem grande expressão. A época do encantamento havia tomado outro rumo. Não sabia bem a razão de estar ali, em dia da semana, ao cair da tarde. Vivia um momento trafegando entre a paz ilusória e o vazio da solidão imposta pela aposentadoria e a separação de corpos da mulher, levando, de roldão, os filhos. Na sua cabeça era 1958 outra vez e se sentia o menino refugiado no silêncio não compartilhado. O futuro era a porta da vida, pensara naquela tarde festiva quando todos se rejubilavam pela vitória na Suécia. Agora, já estava no futuro e se lembrava do seu ego passado, o mesmo a acompanhá-lo até agora e, dentro dele, voltara à praça. Ego envelhece ou permanece tal qual era? Não sabia a resposta e isso pouco importava, pois aquilo não era uma equação matemática, mas existencial onde os números contam pouco e valem as pessoas. Limpava o silêncio do passado com as lembranças armazenadas em seu cantil de lágrimas quando o peito se fez em fogo por uma bala perdida com dores ziguezagueadas. Tombou e ouviu o cinza do silêncio. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/05/2009. - [DILMA E O LINFOMA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dilma-e-o-linfoma-diario-do-nordeste/): “O medo nunca levou ninguém ao topo”. Públio Siro Lia na Folha o artigo “Debaixo dos cobertores” de Luiz F. Pondé sobre feministas e homens, quando uma frase me lembrou a ministra Dilma Rousseff, a quem só vi em solenidades. Ele diz: “Mas a vida real vem à tona, quando sai de cena a militância e entra em cena a cama onde cresce a solidão das mulheres livres”. Dilma é uma mulher livre. Construiu isso a custo de uma forte militância, casamentos civis desfeitos e a descoberta madura de que poderia ser uma gestora pública ou, na linguagem neoliberal, uma executiva de governo como o são hoje seus parceiros Henrique Meireles e Guido Mantega. A semana está cheia de notícias sobre a saúde de Dilma. Ela tem um linfoma. E daí? Todos podem ter um linfoma. Não há escolha, a coisa vem quando quer. É o imponderável. Simplesmente, acontece. Depois de conversar com o presidente Lula e com Franklin Martins, das Comunicações, resolveu abrir o jogo, convocou seus médicos e disse, em coletiva, que ia lutar com chances de vitória, pois havia retirado o único gânglio detectado. Pelo nada que sei de medicina, aprendi que o sistema linfático é uma das defesas do organismo. Nos linfomas, as células podem se multiplicar desordenadamente. Ela fará quimioterapia para exorcizar o mal que pode voltar e usará o protocolo C-Chop, o “premium” em hematologia e precisará de boa cabeça. O seu jeito mineiro dá a sensação de que é forte ou se faz forte. Pode ter chorado, antes ou depois, são franciscos de lágrimas, mas soube se comportar com altivez defronte de jornalistas que não gostam de notícias boas. Certamente, às noites, na solidão do leito, meditará sobre a recorrente indagação: “por que comigo e logo agora?” Há um provérbio árabe que diz: “Deus não completa nada para ninguém”. Passado o susto, poderá vencer a batalha e isso a transformará, quer queira ou não, em alguém mais humana e ciente da sua finitude. Certa de que, desta vez, está do outro lado, contra uma guerrilha cujos passos podem ser seguidos. Voltará a ser militante em sua defesa, com as armas da Ciência, que não tem partido, mas atira certo e é trabalhadora. Saúde. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/05/2009 - [AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA E A NOITE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/affonso-romano-de-santanna-e-a-noite-jornal-o-estado/): “Existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”. Sócrates Havia tempo que uma conversa noturna não fluía com a desenvoltura da que tivemos com o escritor, professor e crítico da arte Affonso Romano de Sant’Anna. Éramos, além de Affonso, Newton Freitas, Paulo Moraes, o curador de artes Luciano Montezuma, e os artistas plásticos Vando Figueiredo, Cláudio César e Fernando França. Autor de mais de 40 livros, com sedimentação acadêmica em cátedras no Brasil e no exterior, Affonso é um mineiro essencial: saiu de sua terra, viajou mundo afora e assentou, enfim, sua imaginação em Ipanema, esse território mítico que separa a alegria contagiante de Copacabana do olhar meio snob do Leblon. Lá, entre pinturas, livros, lápis, canetas e computadores, divide o espaço com a consagrada escritora Marina Colasanti, sua mulher. Affonso veio a Fortaleza a convite de Newton Freitas para fazer, na Oboé, palestra sobre o que expõe em seu livro “O Enigma Vazio, Impasses da Arte e da Crítica”, ensaios em que discorre sobre a arte no século XX, poupando os artistas brasileiros. Não vou comentar o que ele falou, mas posso dizer que foi instigante e dual, no sentido de mostrar a dupla face das artes e artistas, em todo o transcurso de sua palestra e o debate que se seguiu. Expôs, com a possível simplicidade, fatos e futricas que rondam as vaidades, excentricidades e os múltiplos talentos dos nomes enfocados. Seu trabalho não é diletante, mas de estudioso a procurar descer à essência do que o atraia e, quem sabe, o incomodasse. De Sanctis, não o polêmico juiz brasileiro, mas o crítico literário italiano do século XIX, falava que “o crítico é semelhante ao ator; ambos não reproduzem simplesmente o mundo poético, mas o integram, preenchem as lacunas”. E no caso de Affonso, ficou mais fácil, pois é também poeta e respira arte, daí o fecundo trabalho produzindo com o cuidado linguístico de ter criado um Índice dos nomes e termos selecionados, além de usar 21 ilustrações significativas. Mas dizia que a noite foi agradável por ser regrada de vinho, generosa em questões e fez brotar até a arte espontânea de Vando Figueiredo a retratar, com os recursos de uma mera caneta e de páginas do próprio livro de Affonso, alguns dos presentes. A diversidade de conhecimentos dos presentes era o exato contraponto e enlevo a tornar o restaurante quase vazio pleno de vozes e rostos na madrugada anunciada. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/05/2009. - [NOTÍCIAS MEXICANAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/noticias-mexicanas-diario-do-nordeste/): Os noticiários internacionais sempre dão destaque aos problemas de fronteira entre o México e os Estados Unidos. Esses problemas são crônicos e têm relevo por conta da violência com grupos de narcotraficantes dos dois países. O filme “Crossing over”, traduzido erradamente como “Território Restrito” mostra, em parte, o sofrimento dos sem documentos atravessando a fronteira para os Estados Unidos. O filme não trata apenas de “indocumentados” mexicanos, mas de outras nacionalidades e como atuam os policiais de fronteira e os dos setores de imigração. A brasileira Alice Braga faz uma ponta como mexicana e acaba morrendo nas difíceis travessias nas mãos dos coiotes, bandidos que tentam “facilitar” a entrada nas não muito policiadas fronteiras americanas. Agora, neste 2009, o Comitê de Segurança Interna do Senado dos luta para diminuir o tráfico de drogas na área que só existe porque os Estados Unidos são os maiores consumidores do mundo. Onde há droga há armas e aí entra o Brasil. É provável que vocês não saibam, mas o Brasil é um dos grandes vendedores de armas do ocidente e, diz-se, que há negócios ilegais com os narcotraficantes mexicanos e americanos. Na semana passada o presidente mexicano Felipe Calderón recebeu elogios pessoais de Barack Obama por sua luta contra os traficantes. Espera-se que sejam destinados agora 550 milhões de dólares para os problemas da fronteira com a contratação de mais policiais, cães farejadores, helicópteros, veículos, investigadores e inspetores para coibir o tráfico de drogas e armas a evoluir, ano a ano. Por outro lado, pouco se fala no México real, uma potência emergente, entre tantos desafios, lutando ferozmente para desmontar grupos de traficantes com ramificações e apoios nos Estados Unidos. Esse México de que pouco se fala vai, por exemplo, inaugurar em 2010 o Museu Soumaya Polanco com 16.000m2 de área que terá 800 obras de artistas, com destaque para esculturas de Rodin, pinturas de consagrados europeus como Lautrec,Degas, Renoir, Van Gogh, Salvador Dali e mexicanos como Diego Rivera, Frida Kahlo, David Alfaro Siqueiros e Rufino Tamayo. O México é, saibam, bem maior que seus problemas. João Soares Neto, Cônsul Honorário do México CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/04/2009. - [A ARMÊNIA E O 24 DE ABRIL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-armenia-e-o-24-de-abril-jornal-o-estado/): Há algumas semanas os irmãos Armen e Boghos Boyadjian, descendentes de armênios, receberam, com suas famílias, os membros da Sociedade Consular para uma reunião social. Era tempo de noite escura. Um piano de cauda, aberto, roubava a cena do salão com telas afixadas às paredes. A área iluminada fronteiriça à praia mostrava, aos nossos pés, um trapiche e o mar remansado por diques de pedras. Nós, representantes de múltiplas nacionalidades, escutávamos músicas clássicas internacionais e as nativas da Armênia. Fez-se silêncio. Ouvimos então um relato dos dramas dos antepassados dos anfitriões quando, exato nesta data de hoje, 24 de abril, no ano de 1915, teve início o genocídio de um milhão e meio de armênios pelo Império Otomano. Para quem não sabe, a Armênia é um pequeno país-com menos de 30.000 km2 - situado entre o fim da Europa e o sudoeste da Ásia, no que se convencionou chamar de Eurásia. Continua vizinho da Turquia, pelo lado leste, fazendo hoje fronteira com o Irã, o Azerbaijão e a Geórgia. Esse país sofreu, em meio à Primeira Guerra Mundial, um grande, desumano e longo ataque do grupo que se convencionou chamar de os Jovens Turcos. Na noite desse fatídico 24 de abril, a intelectualidade, políticos, religiosos e profissionais de destaque armênios foram presos na cidade de Constantinopla pelos turcos e, em seguida, brutalmente assassinados. Começava, nesse dia, o massacre e a fuga de armênios que habitavam os territórios asiáticos à época ocupados pelos turcos. Milhares foram mortos em fuga para a Mesopotâmia, onde eram largados à míngua. Ao fim e ao cabo, repito, segundo historiadores isentos, teriam sido mortos um milhão e meio de pessoas. Nessa diáspora, alguns vieram ter ao Brasil e aqui criaram suas famílias, sempre em obediência ao trabalho árduo e à fé cristã que professam desde o século IV. O que restou do povo armênio foi sendo reintegrado, pouco a pouco, e há agora esperança de que o genocídio seja reconhecido internacionalmente e as almas dos muitos mortos possam sossegar. Noventa e quatro anos após o massacre, feridas profundas não foram saradas e continuam a doer. Voltando ao fio da noite: ela ouvia tudo, no seu escuro silêncio, quando, de repente, o firmamento se fez presente em forma de uma abrupta e copiosa chuva que parecia carpir o que, contritos, ouvíamos. Os grossos pingos d’água eram acompanhados de relâmpagos e do vento forte que irrigava as nossas faces, como se lágrimas nelas estivessem sendo implantadas pela natureza. Depois, tal como havia chegado, a chuva se foi e deixou em seu vácuo o silêncio para que queixas e compaixões saíssem das cordas do violino plangente de Armen e do compasso forte do piano de Boghos. E nós, estrangeiros na dor centenária, estávamos impregnados de um encanto triste que, mesmo tênue, permaneceu em mim deste então e me fez, exato neste 24 de abril, contar para vocês o que vivenciamos naquela noite. Salve a Armênia. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/04/2009. - [VOLTA NO PASSADO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/volta-no-passado-diario-do-nordeste/): Um domingo desses fui dar uma volta de carro e me encontrei no passado, repassando os locais em que vivi quando menino. Aprendi a não jogar bola na Rua Major Facundo, ali perto da antiga Associação Cultural Franco-Brasileira, chegando na Praça do Carmo. Eram poucos passos para as aulas no Colégio Farias Brito, na Duque de Caxias, alguns mais para o Instituto Brasil Estados Unidos na Rua Solon Pinheiro. Lá, no mesmo quarteirão, olhando para a Cidade da Criança, existiam a Biblioteca Pública e o Conservatório Henrique Jorge, importantes para a minha formação complementar. No Ibeu, aprendi o pouco de inglês que me salva por aí, na Biblioteca foi onde ficava a ler jornais, pedir livros emprestados e, no seu subsolo, encadernar os meus diários que foram deslembrando o tempo real. Na escola de música, eu, ouças cegas, ficava prestando atenção aos músicos e tentava ir aprimorando-as, o que não consegui. Depois moramos rapidamente na Visconde do Rio Branco, mas assentamos de verdade no Bairro de Fátima então começando a ser habitado, a partir da Igreja que abre as portas centrais para a Mons. Otávio de Castro, a rua da minha juventude. A casa que meu pai fizera era “funcional”, algo moderno, tal como no filme “Meu Tio” do Jacques Tati. Nela a varanda era coberta de concreto, a garagem fechava tipo alçapão, acionada por caixa de cimento que levantava e baixava o portão por um cabo de aço. Foi lá que reuni jovens e formei o Girafa, o pomposo Grupo de Instrução e Recreação Atlética de Fátima. Ocupamos um terreno e formamos times de vôlei. Havia festas mis, permutávamos livros e fazíamos a queima do Judas, não sem antes realizar debate sobre sua culpa ou sina. Era tempo em que jovens das famílias Rosa, Furtado, Carneiro Girão, Machado, Pinheiro, Holanda, além da nossa, não pensavam em drogas, sem ser caretas, mas namoravam em meio a santos amassos. Já trabalhando, resolvi fazer um quarto só para mim no quintal de casa e comprar telefone e um ar-condicionado usado. Parecia a chave da liberdade, mais importante que o pão, já dizia Nelson Rodrigues. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/05/2007. - [VISÃO TURVA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/visao-turva-jornal-o-estado/): Neste quase fim de maio, entre sóis e chuvas, alguém, certamente, sente a visão turva e pergunta as razões. Tantas, talvez. Todos, com poucos ou muitos lustros vividos, caminhos vários, expectativas reconstruídas ou não, vão sendo remexidos, por razões diversas, lá onde mora o sentimento profundo, naquele lugar onde não há máscaras, só nós temos a chave e não cabe vaidade. E tudo, pasme, por conta das contas, afetivas ou não, de quem faz do diz-que-diz o combustível que move a sua ótica e não sabe ver claro. Lentes ou visões turvas merecem ser limpas, alvejadas com sabão, mas sabão não limpa grilo, maledicência, nem engrandece espíritos pequenos, não aplaca as diatribes que se constroem quando alguém imagina que o outro vive um mar de rosas ou de prazer. É imperiosa uma procela para denegrir, separar, açular e até invocar amor que impeça, em nome da honra e dos modos, que ‘erros’ sejam cometidos, a moral e os bons costumes fiquem revestidos com o manto da hipocrisia que leva muitos de roldão nas vagas da incoerência, aquela que não traz ninguém à praia da razão. E a praia da razão está deserta até das poucas e cansadas almas que se animavam a deambular por entre areias molhadas com os salpicos dos perdigotos dos que se imaginam sérios, sensatos, falantes, mantenedores e dirigentes de espetáculos circenses de amor ou afabilidade doentia, porque despidos de propósitos coerentes, mas prenhes do direito de amordaçar e tolher o outro, o que sabem ser impossível, pela natureza de quem conhece. E na praia da razão o plenilúnio se esvai e a névoa desce por saber da tristeza dos que estão ainda com os pés feridos das ostras pisadas, perderam seus astrolábios, não sabem manusear bússolas e olham por entre a bruma e não acreditam que perto dali, passos à frente, há braços abertos que não se veem e nem se unem na clareira. E não se unem não só pela visão turva, mas pelo plenilúnio caído, pela névoa, pés feridos, perda de astrolábios e porque não sabem estender braços no escuro e não ousam desobedecer a preconceitos, mudar atitudes, desfazer amarras e se prostram na amargura da saudade, usando o disfarce da alegria como arte na vida. (Esta crônica é para Lucy, de Fortaleza) João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/05/2007. - [PIANO E MÚSICA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/piano-e-musica-diario-do-nordeste/): Sábado desses, meio sem fazer nada, fui ter a um restaurante. Pequeno, sem badalações, comida e bebida honestas, toalhas engomadas, espaços internos divididos, garçons simpáticos e um piano, fechado. Imaginei-o tocando, com um desses pianistas que já rodou a cidade inteira e que estaria ali mais pela sobrevivência que pela arte. Acontece que o piano ficava do meu lado e só depois que me sentei é que o pianista chegou: começou tocando blues. Tinha a idade dos maduros, a cor do cansaço das noites e o gesto delicado de quem sabe mais que arrumar as sete notas. Era um artista, cansado que fosse. Como disse, ele não estava ali por arte, mas a arte estava nele, mesmo que a mera sobrevivência o tivesse levado até ali. Pedi para tocar dez músicas, entre elas: Smile, Se a gente grande soubesse, The shadow of your smile, Águas de março, Unforgettable, Besame mucho, Samba do avião e Rapsódia em Blue´. Sabia tocar todas e o fez de forma dorida, harmoniosa e talvez com ouvidos e olhos esperando a minha reação. E entre uma música e outra me vi mexendo em sentimentos, lembrando por que e quem me lembrava cada uma dessas canções e qual a razão, se é que música precisa de razão de eu misturar compositores como: Charles Chaplin, Billy Blanco, Johnny Mandel, Tom Jobim, Consuelo Velásquez e Ira e George Gershwin, diferentes em suas naturezas, escolas, países de origem, mas atrelados pela capacidade de criar enlevo, dizer de amores, ajustar harmonia e melodia ao ouvido de um confesso leigo como eu. E me vi tomando vinho, não como enólogo, mas um tão simples quanto o momento, safra mediana, vermelho como o sangue que me corre nas veias, não tão frio que mudasse as minhas analfabetas papilas gustativas, mas que ia sorvendo, gole a gole, sem entorpecer sentidos, aguçando a memória, esse auto gravador a nos acompanhar que, vez por outra, desembucha sem pedir licença. E ao final das músicas, absorto estava em meu pensar vário e o quis trazer à realidade, mas ele teimava em ser etéreo, misturar épocas, pessoas e emoções, e não vi que o vinho acabara. Smile, sempre. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/05/2007. - [A DESCOBERTA DO NÁUTICO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-descoberta-do-nautico-jornal-o-estado/): Houve um tempo em que Fortaleza não sabia que tinha praias. Dava as costas para a costa. Foram os clubes, especialmente o Náutico, que desvendaram o mar e viram o futuro da cidade. As famílias tinham casinhas de “veraneio” onde hoje é a Av. Beira Mar, então uma ruela estreita de pedra tosca. A minha família tinha uma dessas. Ficava do lado do mar, na altura da Rua Tibúrcio Cavalcante. Passávamos parte das férias por lá. Foi nesse tempo, final dos anos 50, que descobri o Náutico. Seu nome lembra quem faz ciência e arte na navegação sobre a água ou o marujo que lê as cartas marinhas e descobre o rumo certo de sua navegação. Os fundadores e gestores do Náutico nestes seus 78 anos de vida foram e são marujos avançados no tempo que construíram um clube em meio às procelas da indiferença, e o fizeram em local estratégico, com solidez, formas arquitetônicas diferenciadas, quadras de esportes, piscinas e um salão de baile que, reunidos, falam do descortino e arrojo de seus dirigentes em uma cidade que tinha, quando o descobri, apenas 370 mil habitantes, 10.000 linhas telefônicas, ainda sem a televisão, embora com mais jornais (Unitário, Correio do Ceará, O Estado, O Democrata, O Nordeste e O Povo) que hoje. Possuía 500 ônibus, pouco mais de 3.000 veículos em circulação, o Cine São Luiz estava em construção, a Universidade Federal apenas engatinhava, mas o Náutico já era referência e aprumo. Eu me orgulhava de ser sócio juvenil com o número 3.996, se não estou enganado. A partir daí, por um tempo razoável, frequentei suas tertúlias e matinais, reuniões dançantes alegres, benfazejas e despojadas. Lembro que, já universitário, fui “requisitado”, junto com outros amigos, para “fazer sala” a um grupo de ricas moças paulistas que excursionavam de navio e ali iriam a uma tertúlia. Reza a lenda que Antenor Barros Leal Filho, colega de faculdade, teria sido perguntado: o que faz você? E ele teria dito: sou estudante de direito, tenho um fusca 58 ‘guaribado’ para 62 e um salão de barbearia no centro. Brincadeira, certamente. Nos anos 60 fiz parte de uma roda que se reunia no restaurante do clube, então comandado prodigamente pelo libanês Kury, da qual, entre outros, eram integrantes: Danilo Marques, Lúcio Brasileiro, Lustosa da Costa e Fernando Távora. Conversávamos sobre tudo e sobre nada. Gastávamos o tempo franco da mocidade, pois a idade é uma questão de conhecimento mais do que de anos, como dizia W. Somerset Maugham. Eu era o mais novo, ainda solteiro, e aí mais uma vez o NAC, de forma indireta, passou pela minha vida. Conheci Ângela, então eleita Miss Náutico, dançamos o Carnaval da Saudade de 1969 e depois casamos, sendo o casal Ary (Zélia) Araripe, um dos padrinhos. Mas isto é outra história. A propósito de história, desde 1966, anualmente, no dia 16 de dezembro, nós, os formados em direito pela UFC em 1966, somos intimados pelo Stênio C. Lima e almoçamos nos salões do Náutico, ouvindo música, discursos, o imenso poema de Castro Alves, “Navio Negreiro”, pelo Orlando Rebouças, e exercitando a benquerença que o tempo não consegue corroer. Hoje, neste 2007, vejo a ação vigorosa de Guedes Neto para segurar o timão e manter, com binóculo no futuro, acesa a tocha que foi carregada por tantos e o faz com competência e dedicação, apesar do olhar indiferente do poder público que só vê os clubes como meros contribuintes, não colabora e tampouco entende que eles são também centros de convivência, formadores de esportistas e aglutinadores de uma sociedade que cresce, mas fica encurralada nas ruas pela violência. O Náutico e seus dirigentes são combatentes, não apenas em batalhas de confete e serpentina, mas na luta pela manutenção de um patrimônio cívico de Fortaleza, agora historiado em livro pelo jornalista Rodolfo Spínola. (Rodolfo, se precisar: João Soares Neto é da Academia Fortalezense de Letras, Associação Brasileira de Bibliófilos e cronista semanal dos jornais Diário do Nordeste, O Estado e Carta Maior.). João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/05/2007. - [QUE MÃE? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/que-mae-diario-do-nordeste/): Procuro, de memória, definir um padrão de mãe ideal. O que seria, afinal de contas, mãe ideal? Descubro, de pronto, que escrevi um absurdo. Ideal, por si, pressupõe imaginação e utopia. Não é real, é imaginário. Não é essa a mãe que tento definir. O que talvez tenha querido dizer seja mãe completa. Mais uma vez, vejo que a palavra completa pressupõe alguém a quem não falta nada do que pode ou deve ter. Qual mãe teria essa completude? Nenhuma, é certo. Penso então em mãe fiel, mas acho que fica meio piegas, pois significa que é digna de fé. Por outro lado, é também quem cumpre o que promete. Mas, as mães não prometem, pois a curta ou longa vida vive-se no dia a dia, na lida. Elas não prometem, vão fazendo. Desisto então, de mãe fiel e imagino que mãe porreta seja mais moderno, justo para a moçada, mas descubro que há filhos nascidos nos tempos em que chamar uma mãe de porreta seria, para eles e para ela, no mínimo, uma grosseria. E aí fico meio embatucado. Afinal, que adjetivo seria adequado para qualificar a palavra mãe? Lembro de mãe legal, mas me dá a ideia de mãe que segue leis, costumes, serve não. E já estou mais do meio da escrita e não encontro uma palavra, que resuma o que todos nós, filhos da mãe, pensamos dela. Volto a olhar a frase anterior e vejo filhos da mãe. É no bom sentido, claro, mas se entende ‘filhos da mãe’ como uma ofensa. Desculpe. E o que estou querendo é saudar, deixar claro o meu bem querer às mães que fui encontrando ao longo da vida, à minha mãe, bonita e lúcida. Às avós, às tias. À mãe de minhas filhas. Às filhas que se tornaram mães, às mulheres-mães que compartilham o trabalho comigo há anos. Às irmãs, sobrinhas, amigas, amadas, a quem tento homenagear, mas ainda não consegui a palavra adequada, definitiva, resolutiva e justa. Fecho os olhos, penso em D.Margarida, na perceptibilidade de seus 88 anos, cheia de sabedoria em seu jeito simples de conduzir a vida com todas as incertezas e ouço a resposta que daria sem pestanejar: “Mãe é mãe”. Fica assim. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/05/2007. - [BRASIL BENTO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasil-bento-diario-do-nordeste/): O Papa Bento XVI, o erudito Joseph Ratzinger, chega quarta ao Brasil. Já conseguiu retocar a Basílica de Aparecida, santificar Frei Galvão como o primeiro santo genuinamente brasileiro e conversará com bispos latinos. A propósito: por que tanto santo europeu, poucos santos africanos e quase nenhum da América Latina. Talvez sigam Romanos 3:23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Por que, há 507 anos os brasileiros sofrem, fazem milagres para sobreviver, vivem sob governos parvos ou truculentos que fariam o Império Romano parecer o Paraíso, cultivam e professam a fé católica e, só agora, mediante ingerência política, é que se reconhece um único santo. Frei Galvão certamente merece, mas não é possível que, entre milhões de brasileiros, nestes cinco séculos de Brasil, não se entreveja outras pessoas mortas com as condições exigidas pelo Vaticano. Mexendo em meus livros, descubro o Sacrosanctum Concililium, 32: “... não se fará acepção(distinção) de pessoas ou de classes sociais, quer nas ações litúrgicas, quer no ornato externo”. Um santo antigo, Tiago, dizia: “minha fé em Cristo não deve admitir acepção de pessoas. Assim, pois se entrarem em vossa reunião duas pessoas, uma trazendo um anel de ouro, ricamente vestida, e outra pobre, com suas roupas sujas, e derdes mais atenção à rica... não estais fazendo distinções em vosso coração?” Será que os teólogos e doutores do Vaticano estão atentos para isso? Será que nós somos apenas pobres pecadores, embora, por nossa religiosidade, tenhamos aprendido, desde cedo, a ser pagadores de promessas? A resposta parece estar na palavra Roma. É lá, no pequeno Vaticano, em palácios, que a Igreja toma decisões com burocracia indiferente. Não valem o esforço e a fé de padre vivendo a Amazônia ou dando apoio a desvalidos dos sertões. É preciso milagre, algo sobrenatural. O milagre pode ser também lutar, não ceder a poderosos e ter vida santa, qualificadas por ações. Igreja é, sobretudo, assembleia, reunião que deve reunir iguais, o povo de Deus. Precisamos de mensagens novas e pouco discurso. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/05/2007. - [VIOLÊNCIA URBANA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/violencia-urbana-diario-do-nordeste/): Qualquer pessoa com um mínimo de sentimento de mundo ou responsabilidade social, como se diz agora, fica apavorada com a sucessão de atos de violência urbana e se pergunta por qual razão as polícias, civil e militar, não têm capacidade de coibir ou resolver as demandas que, todos os dias, entulham as delegacias, são exploradas em programas policiais de televisão em reportagens sensacionalistas, com presos, vítimas e familiares. Esses programas são reprisados e servem, dizem, até como fonte de referência entre a marginalidade para estabelecer uma gradação de periculosidade e prestígio. Procurei, com atenção, conversar com autoridade no assunto. Fiquei estarrecido em saber que são reservados como custeio, anualmente, apenas R$ 3,00 (três reais, repito), para a proteção de cada cidadão. Temos somente cerca de 170 delegados na ativa e o último concurso foi realizado em 1999.A polícia, pasmem, tem apenas 67 viaturas nas ruas, com restrição de combustível e não há um sistema “on line” de localização geográfica de chamadas feitas por delinquentes. Não existe um Código de Ética que defina parâmetros para a ação de policiais que têm a idade média de 34 anos, o que demonstra a necessidade de novos concursos públicos. Há, no interior, 139 municípios sem delegado e os 13 mil soldados da Polícia não têm equipamentos de qualidade, motivação e incentivos para a dura luta contra o crime. Por outro lado, repórteres policiais relatam que há cerca de dez presos que comandam, de suas celas, parte da atividade criminosa. Como esses presos não são isolados e usam, livremente, telefones celulares, aproveitam centenas de marginais e menores espalhados com áreas de atuação diferenciadas. É provável que os clamores nacional e local, somados às ações novas anunciadas que serão desencadeadas pelo governo estadual, a partir de maio, possam começar a fazer diferença. O que a sociedade, pacífica e apavorada, precisa é de uma gestão policial contemporânea, inteligente, integrada, consequente e eficaz com baixo nível de tolerância. Chega de insegurança e medo coletivo. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/04/2007. - [DESTINOS DIFERENTES? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/destinos-diferentes-jornal-o-estado/): Mesa de bar, anos 70, governo militar, cerveja. Três jovens, formados, discutem seus destinos. Um conseguira, por concurso, ser funcionário de banco estatal com quinze salários/ano, benefícios e segurança para o futuro. O outro, resolvera ser profissional liberal, fizera cursos, alugara sala, avisara amigos e parentes, colocara anúncios em jornal e começara a lida. O terceiro não decidira o que fazer, queria ser livre. Não aceitava ser funcionário e nem esperar clientes. Só via uma solução: viver por conta própria, criar algo. Virou, quase sem querer, empresário. 2007, o Brasil continua a ser promessa, faz zoada, mas representa apenas 2% da economia mundial. Tem focos profundos de desigualdade, cidades estão permeadas de violência e todos, ricos e pobres, sabem que não vivem no país que sonharam. TVs, rádios e jornais falam de crimes, sequestros, dão espaços e voz a marginais, corrupção, mas há fé e esperança. Os três amigos voltam a um bar. Já não tomam cerveja. Pedem Campari, suco e água com gás. Um tem diabetes, outro porta insuficiência coronariana e o terceiro reclama das articulações. Dão um balanço nas suas vidas. O funcionário perdeu “status”, os salários reduziram-se a 13, não muda de carro há anos, aposentou-se, mas continua trabalhando, apesar do diabetes forte. O profissional liberal, por conta das coronárias, teve que parar tudo, apenas caminha cedo. É viúvo, vê pouco os filhos e netos e dá graças a Deus por possuir um lugar onde morar e a parca aposentadoria do INSS. O empresário ainda não pode se aposentar. Divorciado, continua na luta. Relembra, didático, a hiperinflação, impostos insuportáveis, juros altos, desvalorização cambial, cinco moedas, 07 planos econômicos, concorrentes draconianos e até parceiros desonestos. De repente, dez da noite, “em face de todo o exposto”, soltam gargalhadas, abraçam-se, consideram-se sobreviventes e saem, sem olhar para dois “pivetes” de armas em punho, nervosos e com voz alta de urgência, pois estão na rua, pedem celulares, relógios e carteiras. Correm, um celular cai e toca. “Alô, ainda estamos vivos.” Há esperança. (esta crônica é dedicada aos policiais do Ceará) João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/04/2007. - [FICAR NU - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ficar-nu-diario-do-nordeste/): Escrever é ficar nu. É mostrar-se todo aos outros. É deixar que façam sobre você todo tipo de leitura, a partir dos valores de quem lê, história de vida, crenças, fantasias e projeções. Escrever é atirar em alvo desconhecido. A flecha toca o alvo que o leitor conduz no seu real, imaginário ou no terra-a-terra da sua ótica. Quando se critica, elogia, brinca, elucida, emite opinião sobre pessoa, coisa ou lugar, é claro que nos expomos. O ato de escrever é uma eterna exposição, se é julgado sem direito à defesa, criticado até sem dó ou piedade, pois o leitor é um desconhecido. Dizem que escrever é um ato de coragem. Prefiro dizer que é medo. Medo de silenciar quanto a fatos, pessoas e atos. É medo de ser cúmplice com o silêncio, indiferença, calúnia, violência, enganadores, líderes de araque e o descalabro. Escrever não é vaidade. Ao contrário. É aceitar que lhe grifem erros, riam de suas ideias e calem, quase sempre, quando imaginam que você está certo. A palavra posta no papel não mais lhe pertence e o contexto em que se insere, muitas vezes, é diferente do que você queria e o leitor imaginava. Saiu e pronto. Não sou muito de revisar o que escrevo. Se fizer isso, acabo alterando o sentido, mascarando ou destruindo o que brotou da imaginação, vivência, circunstância, momento e ambiente. Escrever, para mim, é relação complexa e solitária. A escrita é filha que se transforma – ou não - em amiga, amante e até cúmplice, pelo calor que transmite alegria, desabafo ou desejo de compartilhar o produto de sua criação. Escrever em jornal é, também, não policiar-se. É exercer o direito de ser livre, mesmo que essa liberdade efêmera se esvaia no ponto final. Escrever não é amontoar palavras difíceis, metáforas circundantes, personagens repetidos e conjugar verbos de forma pomposa e solene. É deixar que o pensamento se corporifique em frases simples e diretas. Foi E. Hemingway quem disse: “Um escritor sério não deve ser confundido com um escritor solene: o sério pode ser uma águia, um gavião, até mesmo um papagaio, mas o solene é sempre uma coruja”. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/04/2007. - [PORTFÓLIO DA SAUDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/portfolio-da-saudade-jornal-o-estado/): O obsessivo Nelson Rodrigues dizia que “o amigo é um momento de eternidade”. Especialmente, digo eu, se já não compartilhamos de sua presença. Tenho saudades de amigos que não estão mais aqui. O primeiro foi Francisco Jesus Parente de Vasconcelos, na flora da juventude, cabeça voltada para o direito e no silêncio de seu apartamento. Marcelo Duque, companheiro de colégio, sempre pensando diferente de mim, mas com quem mantinha papos intermináveis no Ideal, teve abreviada sua estada por sintonizar diferente do alfa e ômega da maioria. E a bruxa aérea foi cruel com Edson Queiroz, a quem admirava e ouvia falar da vida e negócios com sua energia, voz forte e pensamento instigante. E ela mesma, a dita bruxa, não a aérea, mas travestida em mal incurável, havia levado, pouco tempo antes, Astrolábio Queiroz, no apogeu de seu trabalho. Raul Fontenele, amigo desde menino, filho órfão que se fez varão trabalhador e capaz desde cedo e educou família exemplar, não suportou a partida da amada e, mesmo tentando, sucumbiu de mal aparentemente igual. E a alegria irreverente que se via no gestual forte, crítica contundente e na inteligência atilada de Alcimor Rocha foi silenciada pelo ar que se fez rarefeito. E aí Tancredo Carvalho, alegria e ponto convergente de um grupo de doidinhos, se deu mal com sentimentos, calou-se, somatizou, o corpo padeceu e finou-se. E o pior é que sempre estamos todos despreparados para esses baques nos desnudando dos atavios de amizades sedimentadas por anos. E esses baques sucessivos, próprios do ser e do fenecer, foram amarrotando pensares, sem saber nunca de onde parte a nefanda. E aí Régis Jucá, sempre lúcido, líder e de lavra médica inquestionável foi, pouco a pouco, mesmo relutante, avisando da partida deixando amigos, pacientes e familiares desarvorados. E não há nada que apague a lembrança forte, diária e sutil de Natércia Campos, amiga da madureza, pouco a pouco, assenhoreando-se de mim, preenchendo-me de cuidados e zelos ainda ecoando no meu escafandro pessoal onde não permito impurezas do mundo contaminando sentimentos. E foram-se outros, não menores por não serem citados, mas os nomeados são o portfólio da saudade ou lembrança, formando um vazio onde nem a irreverência contínua consegue preencher, por mais que se tente fazer de conta que a dor não conta. (esta crônica é dedicada à Turma dos Sábados, Edite Carvalho e Bia Jucá) João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/04/2007. - [CIDADES SITIADAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cidades-sitiadas-diario-do-nordeste/): Em qualquer cidade brasileira de médio ou grande porte, você que guia um veículo de uso pessoal terá, ao longo do dia, além dos problemas de vias de péssimas qualidades, engarrafamentos, batidas, manifestações, alagamentos e desvios, “pardais” escondidos ou olhares eletrônicos disfarçados que o multam, se transgredir regra de trânsito, e ‘blitze’ que podem ser reais ou falsas. Isso é apenas o começo. Além disso, você terá que conviver também com falsos ou reais “flanelinhas” que azucrinam a sua vida em todos os semáforos. Querem dinheiro, vender quinquilharias, lavar o para-brisa, mesmo que esteja limpo e, não muito raro, assaltam. Quando você, depois de todo o esforço, consegue chegar ao seu destino e estacionar, a novela continua. Agora, entram em ação os “guardadores de espaço”. Os que se apropriam de ruas, avenidas e praças e cobram, uns de forma acintosa, para que você estacione em áreas públicas que bloqueiam com cones e outros objetos. Esses espaços públicos são divididos em zonas. Cada uma tem seu “dono”, pastores pós-modernos de um rebanho de incautos. Sabemos que há muitos problemas sociais a resolver. Que há desemprego e que a desigualdade também é fruto da nossa indiferença e erro. Mas você, certamente, tenta fazer a sua parte, do melhor jeito que pode. Paga tributos, taxas e até participa de ações sociais. Mas ai de você, se não pagar a um “guardador”. Seu carro será arranhado, na melhor circunstância. Afora isso, nessas mesmas zonas, assaltos acontecem. Há pouco tempo, um casal, que ia participar de uma manifestação justo contra a violência, estacionou o seu carro, foi assaltado. Ainda hoje, o cidadão assaltado sofre as duras consequências físicas desse inopinado encontro. Viver em uma cidade sitiada é prova de que os governos não estão cumprindo com as suas obrigações e missões básicas. O que é propagado não é cumprido e todos se acovardam. A palavra cidade, vem do latim civitate, ela é ‘prima’ da cidadania que é a qualidade de ser cidadão, indivíduo no gozo de seus direitos. Direito de morrer ou sobreviver? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/04/2007. - [O PRIMEIRO SANTO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-primeiro-santo-jornal-o-estado/): Menos de um mês antes de chegar ao Brasil do Papa Bento XVI, o erudito alemão Joseph Ratzinger, precedido de conversações, séquito, aparato e elevadíssimas despesas para construir helipontos, recuperar estradas, estabelecer esquemas de segurança, aposentos especiais e mimosear a Basílica de Aparecida para santificar Frei Galvão como o primeiro santo genuinamente brasileiro, fico pensando por qual razão há tanto santo europeu, especialmente italianos, poucos santos africanos e quase nenhum da América Latina. Dizem que há mais de 10.000 santos na Igreja, ninguém sabe ao certo, mas nenhum é brasileiro, até agora. Talvez no nosso caso, sigam o que está escrito em Romanos 3:23: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Ora, há 507 anos que os brasileiros sofrem, são resignados, fazem milagres para sobreviver, vivem sob o tacão de governos parvos ou truculentos que fariam o Império Romano parecer o Paraíso celeste, cultivam e professam a fé católica em percentual de mais de 84% e, só agora, mediante ingerência política, é que se reconhece um único santo. Frei Galvão certamente merece, mas não é possível que, entre milhões de brasileiros católicos, nestes cinco séculos de Brasil, não se entreveja outras pessoas mortas com as condições exigidas pelos cânones do Vaticano. Mexendo em meus livros, descubro que na constituição do Sacrosanctum Concililium, 32, diz: “... não se fará acepção (distinção) de pessoas ou de classes sociais, quer nas ações litúrgicas, quer no ornato externo”. Um santo antigo, não brasileiro certamente, São Tiago, dizia: “minha fé em Cristo não deve admitir acepção (distinção) de pessoas. Assim, pois se entrarem em vossa reunião duas pessoas, uma trazendo um anel de ouro, ricamente vestida, e outra pobre, com suas roupas sujas, e derdes mais atenção à rica... não estais fazendo distinções em vosso coração”? Será que os teólogos e doutores do Vaticano estão atentos para isso? Será que nós do Novo Mundo e dos países colonizados na adusta África, somos apenas pobres pecadores, embora, por nossa religiosidade transmitida, tenhamos aprendido, desde cedo, a ser pagadores de promessas? Por que, por exemplo, Nelson Mandela não pode ser canonizado, se viveu preso parte de sua vida, praticou o bem por onde pisou, pugnou pela não-violência e conseguiu, do seu jeito harmonioso, acabar, em parte, com a apartação social gritante da África do Sul? É pressuposto ser católico? A resposta parece estar na palavra Roma. É lá, no pequeno e rico Estado do Vaticano, dentro de palácios, que a Igreja toma suas decisões com uma burocracia pesada e indiferente, fazendo acepção. Não valem o esforço e a fé de um missionário percorrendo a região amazônica em séculos passados. Não valem o enfrentamento e o destemor de dar proteção aos desvalidos no interior do nordeste. É preciso fazer milagre, algo sobrenatural. O milagre, hoje e sempre, pode ser também lutar pelo que se julga direito, não ceder a poderosos e admitir a nossa falibilidade, nossa dimensão humana, comportando erros e arrependimentos, desde que as palavras se qualifiquem por ações. Igreja é, sobretudo, assembleia, reunião que deve reunir iguais, o povo de Deus. Carece o Brasil, portanto, de ter mais santos no Céu para interceder em nosso favor. Que Frei Galvão seja o primeiro de uma série. Precisamos recuperar os santos perdidos. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/04/2007. - [AMOR INCESTUOSO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/amor-incestuoso-diario-do-nordeste/): Sou filho de Fortaleza e a amo de forma incestuosa. Por ser filho e amante apaixonado, seria demais pedir isenção na proposta de análises sociológica, econômica, política ou urbanística. Onde já se viu filho andar falando de mãe... Além de mãe, parteira e berço. Infância e escola. Juventude comprometida com sonhos, o cedo amadurecer e o tentar ser gente. Não vou dizer dos seus defeitos e virtudes. Herdei-os, como os outros filhos que ela mãe prolífera tem. A todos, pobres e ricos, que bebem e sentem a energia vinda de sua luz, sol, mar, ela mostra o seio farto que se espraia da Barra do Ceará ao Mucuripe onde o corpo que deita meio preguiçoso. Não digam que esta é uma visão apologética de Fortaleza. É como a vejo e a sinto na pele e nos sentidos. E por falar em sentidos, não posso e não devo esquecer do seu rico imaginário coletivo onde despontao poeta Paula Ney com a sua “loura desposada do sol”, hospitaleira e compadrio entre as pessoas. Embora pretensamente moderna e, com as desvantagens dessa condição, ainda assim não lhe quebraram, nos subúrbios, os hábitos das cadeiras, fofocas na vizinhança, bares com papos e cantorias, solidariedade nas doenças, missas de sétimo dia repletas de gente, apenas para cumprimento de obrigação social. Não importa que o imaginário venha cedendo lugar a uma realidade cruel com desigualdades sociais, áreas de risco, turismo predatório e vexatório, ausência de perspectivas individuais para muitos com a quase morte do sonho. Mas, acreditemos, pois se morreu, não era sonho. Esta é, definitivamente, uma crônica repetida, afetiva, comporta erros, omissões e contradições, pois assim é a vida das pessoas que fazem e amam Fortaleza. Os forasteiros que chegam para ficar assumem a sua juventude e liberdade, embevecem-se com a luz que dela irradia e contagia favorecendo mudanças, sedimentações e aventuras. E como num amalgamado “baião-de-dois” formam a teia da mútua boa vontade e do sincero entendimento. Fortaleza, paradoxalmente, é uma jovem mulher de apenas 281 anos, a contar do dia 13. Parabéns, um cheiro. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/04/2007. - [EUROPA, 2007 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/europa-2007-jornal-o-estado/): Nunca imaginei que um dia viesse a ter uma irmã alemã. Quis o destino que Luiza Helena, socióloga, conhecesse Wini, médico. Foi aqui mesmo, faz mais de 20 anos, antes do turismo sexual invadir o Brasil. Wini veio fazer residência médica, casou e levou minha irmã e nos deu duas sobrinhas, Júlia e Isabella, minha afilhada. Por conta disso, principalmente, amiudei minhas andanças pela Europa que começaram em 1965, ainda frangote. São 42 anos e, mesmo sem querer, vi muita coisa acontecer por lá. Vi o fim das ditaduras de Salazar (1974) e Franco (1975) e a queda do muro de Berlim (1989). Por acidente ou sorte, andava batendo perna por lá por esses tempos tão conturbados dos anos 70 e 80. Lembro de Lisboa quando da “Revolução dos Cravos”, da euforia dos espanhóis pós-Franco e de quão atônito fiquei quando em 89 vi, literalmente, o muro de Berlim ser derrubado, enquanto jovens arrancavam pedras com as mãos, gritavam e cantavam. Agora, neste ano de 2007, exatos no mês passado, completa 50 anos o Tratado de Roma que definiu os rumos do que é hoje a União Europeia, um complexo e bem cuidado sistema que tem como princípios fundamentais a democracia representativa, coíbe a pena de morte, não aceita o trabalho escravo, defende a liberdade de falar e escrever e expressa a igualdade por gênero, etnia, religião ou orientação. Todos os seus 494 milhões de habitantes são livres para circular e trabalhar, como cidadãos supranacionais, nos 27 países da comunidade, hoje tão rica quanto os Estados Unidos. Essa idéia engenhosa e trabalhosa, que não tem similar no mundo, pois o Nafta, o Tratado Norte-Americano de Livre Americano, que reúne Estados Unidos, Canadá e México, está longe de ser referência em igualdade de direitos e oportunidades para os cidadãos desses três países norte-americanos. Aqui na nossa América, a tentativa do Mercosul ainda engatinha, ao mesmo tempo em que o Chile se isola, a Venezuela grita e o Brasil sofre por falar e agir de forma diferente dos que têm a língua de Cervantes como meio de expressão e o arquétipo de Simon Bolívar, como herói continental. Como seria bom que tivéssemos uma semana de trabalho de 35 horas, igual à França. Como exultaríamos se a tarde de sexta-feira fosse enforcada, como na Espanha. Que alegria se o nosso SUS fosse substituído pelo quase igualitário modelo de Estado de bem-estar social, em que todos são, além de outros benefícios, atendidos e providos assistência e de remédios, sem distinção. Para isso, foi preciso muito trabalho, e o fim da tacanha patriotada e eugenia que provocaram duas guerras mundiais (1914-1917 e 1939-1945) no século XX. Essa luta iluminista culminou com a criação, em nível transnacional de órgãos tão diferentes quanto: um Conselho que estabelece as diretrizes gerais, uma Comissão que executa, um parlamento que legisla, uma corte de justiça que arbitra litígios e um banco central europeu que consolidou, administra o Euro e determina baixas taxas de juros. Tudo isso sem picuinhas e respeitando as individualidades nacionais. Sonhar com modelos semelhantes para nós é uma forma de pensar em sair desse círculo vicioso de quase riqueza e muita pobreza, permeada por ainda gritantes índices de mortalidade infantil e desigualdade social, tudo amparado na promiscuidade e impunidade que vicejam na política e incentivam desvios de conduta. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/04/2007. - [CARNAVAL, MARACATU E PIERRÔ](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/carnaval-maracatu-e-pierro/): O carnaval está chegando. Muita gente fala que carnaval é “coisa do demônio”, que os cristãos devem distanciar-se das tentações e orgias. O “demônio” está ou não está em nós, não nas coisas. O carnaval remonta à Grécia antiga, sendo então uma festa dionisíaca, mas, após o surgimento da Igreja Católica, foi atrelado ao seu calendário religioso, pois acontece sempre nos dias que antecedem o início da Quaresma. Essa festa popular, onde se extravasa ano após ano, com exagero de modos, os males do espírito, tem seu nome ligado ao costume antigo de abstinência de carne nos 40 dias antes da Páscoa. Assim é que a palavra carnaval significaria “adeus à carne”. Enfim, o exagero da festa seria então por conta da privação de carne que viria a seguir. Hoje, o carnaval tem faces distintas em todo o mundo. Aqui mesmo no Brasil, há vários carnavais. Há o carnaval das escolas de samba, dos blocos de frevo, do aché e o do maracatu. Fiquemos no maracatu que é uma dança de origem africana que se consolidou, com cadências diferentes, em Recife e Fortaleza. Tem ele o simbolismo da coroação de reis e rainhas, em seus países de origem, e que aqui eram escravos. Seria uma espécie de libertação esse cortejo, com vassalos segurando os pálios do rei e rainha, coroados e festejados ao som de tambores e zabumbas. Dessa forma, ao dar uma significação especial ao ato de coroação da rainha, que no Ceará é personificado por brincantes masculinos, há uma demonstração clara de não machismo ou de civilidade. Essa rainha, sendo homem, másculo, íntegro, seria, quem sabe, uma versão afro-brasileira da figura do Pierrô, esse personagem masculino da comédia de arte italiana que vem da Renascença e é a personificação da ingenuidade e sentimento, perdidamente apaixonado por uma Colombina que o deixa a sofrer e só. A rainha-homem, o contra-senso do imaginário africano, é também uma manifestação desse sentimento e ingenuidade que se harmoniza, no meu pensar e olhar, com o drama do Pierrô por sua batida sincopada, a face sonora de sua dor, do coração que pulsa e chora. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/04/2007. - [QUEM É NORMAL?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/quem-e-normal/): De repente surge uma fissura grave na couraça dos psicólogos, psiquiatras e psicanalistas. As sessões com os pacientes não chegariam a lugar nenhum, dizem alguns. Os problemas e distúrbios de comportamentos hoje são resolvidos com drogas, afirmam outros. Entretanto, na última edição de Veja, de 14.03.07, o psiquiatra americano Peter Kramer, diz que: “todos os remédios da classe dos inibidores de recaptação de serotonina, da qual o Prozac faz parte, são, em minha opinião, antidepressivos medíocres.” Daí, por exemplo, tanta controvérsia sobre o Prozac e seus sucessores que deixaram milhares de divãs sem pacientes. Agora, os tricíclicos voltam para valer. Com quem a verdade ou a certeza? Será por tal fato que na classe médica há gracejo antigo? Ele diz, mais ou menos, o seguinte: O clínico geral sabe tudo e não faz nada, o cirurgião não sabe nada e faz tudo e o psiquiatra nem sabe nada e nem faz nada. Mera piada, é claro. Talvez por não terem obtido sucesso em suas visitas a psiquiatras, psicanalistas e psicólogos é que tantas pessoas apelam para o consumo continuado de calmantes, antidepressivos e estimulantes de todas as naturezas, dosagens e composições químicas. Todas têm um médico amigo que as prescreve. As pessoas tomam remédios para aguentar o rojão da vida e se acreditarem normais. Mas o que é ser normal? Quais os referenciais que demonstram o desvio entre o certo e o errado? Será anormal quem não dorme bem, dorme pouco ou demasiado? Ou a anormalidade parte de quem observa? Será normal a pessoa comum, cotidiana que se compraz para acabar com o mofo de sua vida, em fazer cartas anônimas ou espalhar boatos falsos? A propósito, nos Estados Unidos, o país onde mais se consome remédios para depressão, insônia, neurose etc. foi editado -pela St. Martin Press - o livro “Você é normal?” (Are you normal?), escrito por Bernice Kanner. Por apenas US$ 6,99, o preço de uma refeição ligeira, você saberá que existe muito mais gente “anormal” do que imagina. As pessoas entrevistadas, segundo Bernice Kanner, tinham o compromisso de não mentir e revelar, sob a segurança do anonimato, coisas que não diriam nem para o pai, a mãe, o marido ou a mulher. As preciosidades colhidas por Bernice nos Estados Unidos mostram a vulnerabilidade, a ausência de altruísmo e outras falhas do caráter dos comuns mortais. Vamos lá: uma em cada quatro pessoas faria qualquer coisa por US$ 10 milhões; uma em cada dez pessoas compra um artigo, usa uma vez e o devolve; 3,9% das mulheres não usam calcinhas; 7,0% das pessoas utilizam o próprio cabelo como fio dental; 10% trocam etiquetas de preços de lojas para pagar menos; 10% admitem já ter visto fantasma; 23,5% não dão descarga quando vão ao banheiro; 25,0% furam filas; 28% admitem fazer xixi na piscina; 28% deixaram de declarar imposto de renda alguma vez; 29% já furtaram em lojas; 39% fofocam em salas de espera;54% reembrulham presentes recebidos e dão para outras pessoas; 58% já inventaram doença para não ir trabalhar; 60% dos homens cospem em público. Isto tudo nos faz lembrar uma frase de Millôr Fernandes: “Como são maravilhosas as pessoas que não conhecemos bem” ou aquela outra de Bertold Brecht: “Um bom país para viver é aquele em que as virtudes não são necessárias e no qual todos podem ser pessoas comuns, medianas e até mesmo um pouco covardes.” João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2007. - [BLANCHARD É INSTITUIÇÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/blanchard-e-instituicao-jornal-o-estado/): “Convenci-me, com o correr dos anos, de que, assim como as pessoas, também as instituições trazem, ao nascer, um signo que indicará para sempre a sua trajetória”. Blanchard Girão Neste mesmo jornal, em outro caderno, eu tinha o prazer de ler os escritos semanais de Blanchard Girão. Ele sempre trazia palavras gentis para escritores, iniciantes ou não, que lhes mandavam livros a lançar e cuidava de usá-las com muita sutileza. Aqui no O Estado, que o acolheu em sua maturidade, Blanchard exercia a alegria de escrever sem pauta, com liberdade, aprumo, distinção e graça. Era, quem sabe, nestes tempos de sua vida, uma forma de encontrar o seu eu profundo, relevar as ingratidões e tocar o bonde, não o que levava e trazia do Liceu do Ceará, mas o que conduziu como motorneiro seguro em trilhos certos da sua história pessoal, tornando-o uma instituição como jornalista, ativista político, cronista e memorialista. Conheci Blanchard ainda menino. Possuíamos algumas afinidades. Éramos ambos torcedores e conselheiros do Fortaleza, esse clube que mexe com nossos sentimentos e coronárias por conta de suas vitórias e tropeços. Depois, por vias indiretas, tivemos tênues laços familiares, mas o que caracterizava o nosso não tão próximo relacionamento era a forma gentil como sempre me acolheu. Ele era um exemplo vivo de sensibilidade e civilidade, qualidades tão em falta, sem perder a capacidade de indignar-se com elegância e tampouco transigir em suas convicções ideológicas. Não sei dos detalhes que antecederam o infarto que o vitimou, mas sei que a sordidez humana pode, por via telefônica, tecer ameaças contra familiares e isto, para quem ama os seus, causa dor profunda. Não sei também que incompreensão possa ter sofrido recentemente, mas sei que a amargura e o desencanto são hospedeiros de reações que o nosso espírito não aceita e o corpo padece. Estas palavras, desataviadas, não são um mero registro protocolar. Elas refletem, do meu jeito e modo, o pesar de todos os que conheceram a trajetória do menino que se criou nas areias claras da avenida João Pessoa, passou por tantos domicílios e residências, mas se quedou por destino ao redor da Praia do Mucuripe, na rua do jangadeiro Manoel Jacaré, não menos herói que o Dragão do Mar, mas que repousava sempre nas cercanias de sua Fortaleza querida, por ele decantada e que agora reclama, em vão, por sua presença. João Soares Neto, cronista. CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/03/2007 - [VIAJAR POR PRAZER - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/viajar-por-prazer-diario-do-nordeste/): Viajar é sair do cotidiano. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer. O ser humano é um feixe de nervos que, de vez em quando, precisa de um tempo de relaxamento, descontração, para torná-lo apto a novas obrigações e emoções. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo cidades ou países, poderão sentir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais. A viagem nacional e, especialmente, a internacional, seja qual for o destino, é sempre uma nova porta que se abre ao nosso conhecimento. E um tempo que reservamos para nossas prioridades ou, simplesmente, para observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm, por incrível que pareça, medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua além do vernáculo, insegurança em aeroportos para fazer conexões ou trabalheira com malas, câmbio de moedas e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo. O primeiro passo de quem faz turismo é a descontração. Nada de levar muita roupa, pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe com falar errado, em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar. O segundo passo é aproveitar o tempo. Nada de ficar curtindo o apartamento, piscina ou o hall do hotel. Ande, descubra o que está acontecendo na cidade e peça ao guia para lhe indicar teatros, livrarias, shoppings, restaurantes, museus etc. O terceiro passo é não forçar a natureza. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia. Defina o que lhe é prazeroso. O quarto é ousar, é tentar descobrir por seus próprios pés um lugar que lhe interesse, seja um barzinho com seis mesas, museu com seu pintor preferido ou loja com uma tremenda liquidação. O quinto é fazer amizades, descobrir gente pelo seu lado positivo, descontração e alegria de viver. O sexto é saber que você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, curta que seja. Você será muito mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer melhores juízos de valor. O sétimo é esquecer problemas, queixas e lembrar que o tempo acalma até as maiores tempestades. Considere-se livre. E curta, pois a vida é breve. O oitavo e último passo é saber como usar o seu dinheiro. Não interessa a ninguém o quanto você leva e o que você faz dele. Lembre-se de que trazer presentes para as pessoas queridas é bom, mas é você quem merece os melhores presentes. É claro que estes passos não constituem dogmas. São apenas sugestões, referências que, ajustadas a cada situação e pessoas, poderão até servir aos que acreditam que os limites do mundo passam muito além da nossa porta. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/02/2007. - [VIDA EM GRUPO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/vida-em-grupo-diario-do-nordeste/): De um modo geral, tentamos ser cordial, sempre procurando entender o pensamento e as idiossincrasias alheias. Ouvindo mais que falando, lembrando das datas de aniversário dos amigos mais chegados, enquanto a maioria não se toca. Procuramos, na medida das nossas imperfeições, ser solidário, discreto, presente e não nos furtar de tentar ajudar. Essa toada acima é de gente que participa de grupos. Seja associação de classe ou religiosa, clubes de serviço, social ou cultural, roda informal de amigos etc. Todos participamos de várias rodas, desde o nascer do sol. A par disso, os grupos criam, via de regra, depois de determinado tempo, uma inércia que cai em vazio existencial, só preenchido pela fofoca, visão distorcida de pessoas, transigência exagerada com alguns e intransigência com outros. Na realidade, parece haver, quase sempre, uma espécie de inveja latente, nessas manifestações irônicas e isso só desmerece quem as faz, não as pessoas que são objeto do pseudo-chiste ou pseudo-gracejo. Creio que pessoas, tidas e havidas como maduras, não precisam desse humor candente e perverso, para manter uma roda funcionando; alimentada, muitas vezes, por bebida e carência de afetividade. Essa constatação não é nossa. Ela é pública e comum a muitos grupos. A afetividade é atitude, não é gesto encenado para o público. Não são palavras ou discursos ocos de sentimento e plenos de metáforas que traduzem um relacionamento consistente ou uma data. A atitude é aquietada e não precisa de visibilidade. Ela se basta. Essas questões não são nossas, algumas pessoas que participam de grupos pensam assim, apenas não têm um canal ou a coragem de dizê-las e nos pedem para ser mensageiro. E as escrevemos na procura de caminho que leve grupos e pessoas que os integram, quase sempre de boa vontade, mas carentes de fraternidade, a um encontro não seja presidido apenas por mexericos e inconsequências. Brincar com o outro é uma atitude salutar, mas usar sempre uma pseudo-brincadeira como achincalhe ou disfarce de questões pessoais irresolvidas é outro caso e merece reflexão. Por que faço isso? A que isso me leva? O que quero justificar com essa minha ação? Eu mesmo, nos grupos de que participo, não me isento de culpa, mas há exagero nessas manifestações em turmas sedimentadas e que emperram no vazio. Nada de ser reformador do mundo, muito menos analista de comportamento, somos mero jogador de palavras. Mas sempre é bom entender que a falsa alegria de alguns no denegrir, mesmo que de brincadeira, contamina o mundo real em que vivemos e a boa relação que deveremos manter, apesar de nossos defeitos estruturais, humanos que somos. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/02/2007. - [O PESO DO CHATÔ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-peso-do-chato-diario-do-nordeste/): Tive sequelas com uma tenossinuvite provocada pelo peso do livro, “Chatô”, o Rei do Brasil, de Fernando Moraes. Só agora, anos depois, é que me disponho a comentá-lo. Não como crítico, mas mero leitor. Não concordo com amigos afeitos a leitura de biografias que afirmam ser “Chatô” um grande livro. Não é. É grande, com 700 páginas ao longo das quais o autor demonstra pura vaidade flagrada até em retrato seu na orelha do livro, onde com um grosso charuto procura dar um ar “blasé” ao brilhante jornalista.E claro que a audácia de escrever sobre um personagem tão controverso como Assis Chateaubriand é meio caminho para o sucesso, especialmente se respaldado pelo prestigio da Companhia das Letras. Em determinadas partes do livro, chego a desconfiar que Fernando Moraes deixa de ser biógrafo para, no entusiasmo de sua narrativa, tomar-se um fabricante de monólogos e diálogos entre pessoas mortas há tempos. Diálogos sem testemunhas. Exemplo: na pág. 304 ele cita uma conversa entre o Cap. João Alberto (assessor da presidência) e G. Vargas. Ora, se são mortos, não havia testemunhas, como, então, citar frases não ouvidas? imaginação. Não se pode dizer, por justiça, que o livro seja ruim. Às vezes chega a ser engraçado, contundente, especialmente quando transcreve os famosos artigos de Chatô. Chatô é material para filme hollywoodiano que já deveria estar pronto com o dinheiro recebido do governo, mas o filme não sai. Isso é outra história. Há ainda erros crassos, na pág. 550, Armando Falcão foi citado como deputado udenista. Vivo, o ex-ministro poderá ratificar que integrava o velho PSD. Valho-me de Carlos Heitor Cony que, em crônica na “Folha de São Paulo”, refutou inverdades sobre o comportamento do jurista Nélson Hungria narradas por Moraes. Para finalizar, eu diria que “Chatô” vale pela tentativa de entrelaçar a vida do discutido personagem às histórias política e econômica brasileiras, mostrar como permanecem atuais os seus métodos e como proliferam Chatôs pela imprensa de norte ao sul. Apenas isso. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/02/2007. - [SONHOS DE CONSUMO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sonhos-de-consumo-jornal-o-estado/): Tenho amigos e familiares espalhados pelo mundo. De vez em quando, um deles vem dá com os costados pelo Brasil. Da mesma forma, uma vez por outra, os visito. Um dos temas recorrentes de nossas conversas é o deslumbramento da classe média brasileira. Gastam o que podem e o que não podem. Estabelecem padrões de comportamento que são, de há muito, superados nos lugares citados. Exemplos 1: Fulano tem um bom emprego ou uma empresa que está crescendo. Compra um apartamento novo, chama uma decoradora que o enche de mesas, cadeiras, espelhos, cortinas, gravuras ridículas e tudo o mais que couber. O carro já não condiz com o apartamento e “os vizinhos ficam reparando”. O que fazer? Compra um novo. E não fica só nisso, aí vem a festa de inauguração e sua mulher resolve mostrar às amigas o quanto está bem de vida. Contrata serviço de “buffet”, som e o marido já reclamando dos compromissos que vai ter que honrar. Exemplo 2: A filha mais velha vai completar 15 anos e diz que todas as amigas fizeram uma festa maravilhosa. A mãe faz finca pé e se alia à filha. Conseguem. Sai a festa com cerimonial e tudo. O pai se sente meio ridículo dentro de um terno com gravata l apertando seu pescoço. Vê a quantidade de gente entrando e, sem querer, vai fazendo cálculos de como pagar as despesas da festa e a promissória vencida do seu negócio. Exemplo 3: Mariazinha tem 09 anos e Carlinhos vai completar 08 anos e ainda não foram à Disneyworld e “todo mundo já foi”. “Isso é um absurdo”. “Temos que dar um jeito” e lá se vai o pai comprar um pacote para os filhos não ficarem frustrados. A humilhação começa no pedido de visto, pedem comprovante de salário, original do Imposto de Renda, passagens de ida e volta e o diabo a quatro. Finalmente chega o grande dia e toda a família vai para o aeroporto deixar os heróis. Por outro lado, vamos dar só dois exemplos de estrangeiros Exemplo 1: Wini é médico, alemão, tem clínica bem montada em Frankfurt e todo dia pedala sua bicicleta que deixa na estação e toma um tem para o trabalho. Volta ás sete, ajuda a mulher a fazer a comida e ensinar os deveres das filhas. No final de cada ano, planejam férias sempre procurando opções econômicas. Exemplo 2: Nako é engenheiro mecânico, japonês, trabalha distante 02 horas de casa, e sua mulher deixa os filhos numa escola pública enquanto rala como bibliotecária. Só têm folga aos domingos para um piquenique em um parque próximo de sua casa. Férias? Há anos que não gozam. Viagem? Foram uma vez a Kioto. Parece estar havendo alguma coisa errada nessas informações, mas, não. Os relatos são verdadeiros e mostram visões diferentes de mundo. Cristopher Larsh, autor de «A rebelião das elites”, deixa claro que a decadência das nações está intimamente ligada aos hábitos da classe média. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/02/2007. - [MÉXICO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mexico-jornal-o-estado/): Na reunião havida na semana passada, em Davos, na Suíça, os jornalistas quiseram confrontar os presidentes Lula, do Brasil, e Felipe Calderón, do México, por terem discordado de aspectos político-institucionais de alguns países latinos americanos. Ambos os presidentes riram da tentativa e trocaram forte abraço, como a dizer: somos diferentes, mas somos irmãos. Isso é verdade, acreditem. O México tem, entre tantas coisas, terremotos, pirâmides e uma rica tradição pré-colombiana, graças aos aztecas e à sua cultura. O Brasil não tem nada disso. Se você for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira não vai encontrar muita semelhança. Se for comparar o biótipo do mexicano com o do brasileiro não identificará muitos traços de uma raça comum. Apesar disso, na essência, somos muito parecidos, embora não usemos “sombreros”, não comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e não tenhamos nada da tradição azteca. Isso é o estereótipo ou visão aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O México e o mexicano são muito, muito mais que isso. O que nos une, de uma forma clara e inquestionável, é o que se convencionou chamar de “latinidad”, no dizer de Carlos Fuentes. Essa latinidade é esse nosso jeito não anglo-saxão, não germânico, não helvético ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, após pouca conversa, têm histórias e sentimentos em comum. Com outros povos não latinos não há essa identidade, por mais que se tente. Não falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por nós mesmos, que só retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres (mexicano, 1994), Guantanamera (cubano, 1995), e o nosso Central do Brasil, (brasileiro, 1997), que teimam em realçar as estéticas das nossas desgraças e mazelas. Não é a questão de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas será que só temos misérias e tragédias para contar e mostrar? A latinidade a que me refiro não é essa visão cruel, embora real, mas a certeza de que temos saída e estamos em meio a um processo novo de imensa transformação em que todos os povos são obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez ir gostando do México e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida. Pouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura não ostentantória de cada um. Não era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, três ou quatro línguas, entendia de arte, música, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidadãos de excelente nível. Conto um episódio de solidariedade espontânea: acompanhei quando um jovem brasileiro que lá estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e atenção. O México é assim, as pessoas têm coração e atitude. Nós, também. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/02/2007. - [REDE DE BABOSEIRAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/rede-de-baboseiras-diario-do-nordeste/): A Internet é, sem dúvida, grande ferramenta de pesquisa e trabalho. E, naturalmente, oferece lazer para milhões de pessoas desocupadas por conta de aposentadoria, doença, férias ou de seus empregos públicos que pouco cobram. Mas, dá um misto de tristeza e desconforto o recebimento de e-mails primários, coloridos, músicas batidas e acompanhados de adjetivos: lindo!. Imperdível! Sensacional etc. E têm uns que dividem em sílabas a palavra adjetivada: ma-ra-vi-lho-sa. E, quase sempre, escrevem isso com letras maiúsculas em fundos de tons de róseo ou lilás que fazem qualquer pessoa de relativo senso estético perder a paciência. Peço, por favor, não me mandem essas baboseiras que rolam pela Internet. Recebo, mesmo sem querer, todos os tipos de Spams. Os Spams são e-mails genéricos, não solicitados: falam de vendas, cura de cânceres, crianças perdidas, testes, orações com melosas músicas e escritos piegas, supostos textos de intelectuais, correntes de felicidade, prova de amizade pedindo resposta para o próprio remetente etc. Sei que existe o mecanismo de bloqueio de remetentes e mensagens, mas sei também que as pessoas deveriam usar bom senso e não atazanar a paciência de quem tem pouco tempo disponível. Para bloqueio definitivo ou excluir os spams se perde um tempo que poderia ser mais bem utilizado. Essa rede de afetividade, interesses e afins deveria ser restrita a amigos íntimos de gostos similares, mas o que se vê, pelo contrário, é a exposição de dezenas de e-mails pessoais que, mesmo sem saber, passam a ser alvo, além dos spams, de vírus de todas as naturezas. Quem quiser me agradar, não me mande spams. Recebo, com prazer, quaisquer manifestações pessoais, individualizadas, curtas ou longas, mas rejeito tudo aquilo que vem como genérico, apenas cumprimento de tarefa de repassar ou alardear redes de relações, quando muitos não passam de meros conhecidos. Mas, como dizia Homero: “Sê paciente, alma minha, já passastes por coisas piores”. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/01/2007. - [CALOTES ANTIGOS E NOVOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/calotes-antigos-e-novos-jornal-o-estado/): Há alguns anos, quando ainda me impressionava com nomes, sobrenomes e locais de nascimento, fui apresentado a pessoas da melhor estirpe, excelente educação e que desejavam investir em nossa terra. Convocado para uma reunião com eles, tomei o avião e fui a um clube elegante do sul para um primeiro contato. Local refinado, pessoas bem vestidas, bebidas honestas e papo excelente, entremeado de citações a grandes amigos influentes, cursos no exterior, fins de semana memoráveis e, de passagem, algumas frases em inglês e francês. Final da reunião: muitas ideias, negócios em perspectiva e nada de ninguém se lembrar de pagar a conta. Tive que pagá-la. Certo de que havia feito bons contatos, aguardei a visita. Vieram em voo econômico, com a pose e quem estava chegando de jatinho. Hospedei-os em um bom hotel e, após lagostas e praias, sentamos para discutir negócios. Só se falava em milhões de dólares e no lucro que viria após a obtenção do financiamento, já que o grupo local entraria com o capital inicial para aquisição do terreno, projeto, viagens de técnicos e “alguns contatos importantes”. Eles, os ricos convidados, entrariam com o “know how”. Ouvi tudo, anotei, paguei a conta do hotel, levei-os ao aeroporto e nunca mais dei resposta. Tudo isso veio à mente por me lembrar de velhas e atuais histórias de calote. Por exemplo, lembro bem da insolvência da empresa Gurgel Motores. Nessa brincadeira, o Banco do Estado do Ceará entrou com 3 milhões de dólares pelo aval concedido perante o Banco do Nordeste. O Ceará passaria ao Primeiro Mundo com uma fábrica de automóveis e, nada mais justo que avalizar a operação. Não acredito que o BNB e o BEC, por seus técnicos, tenham assegurado então que o projeto teria êxito. Só um cego não via que os automóveis da Gurgel eram mais atrasados que os antigos “Ladas” russos e sua tecnologia ficava muito atrás das antigas montadoras de “Buggies” locais que, juntando fibra de vidro e componentes Volkswagen, conseguiam ótimos resultados. O que houve então? Deslumbramento, desonestidade ou a incapacidade de distinguir os que vêm para cá para investir e trabalhar dos que vêm para se arrumar. Será que leram balanços, pediram informações e ouviram a Serasa? Eu sei o que é não olhar cadastro e saber a fundo da história pessoal e empresarial de caloteiro. Sempre cordial, falso como uma nota de 15 reais e pomposo como os néscios costumam ser. Três milhões de dólares é dinheiro, por exemplo, suficiente para fazer uma porção de micro e pequenas empresas saírem de suas crises de capital de giro. Imaginem, por exemplo, esse dinheiro financiando lojistas e fabricantes da Av. Mons. Tabosa ou aos microindustriais do Montese. Seriam centenas de empregos, gente feliz, trabalhando dia e noite para pagar os empréstimos e não sujar o nome. Seriam famílias inteiras procurando economizar e reformar galpões feitos de forma improvisada nos quintais de suas casas. Mas essa gente, na maioria, não tem acesso livre a bancos, não frequenta reuniões elegantes, não tem cadastro e suas mãos calosas não têm classe para segurar uma caneta “Mont Blanc” e assinar, sorrindo, uma promissória de milhões de dólares que, antecipadamente, já sabem que não irão pagar. Fica mais uma lição, para os que ainda se deslumbram com os caloteiros da terra, que vão sendo conhecidos por todos, apesar de usarem laranjas, e com visitantes-caloteiros, tidos como ilustres, recebidos com pompa e circunstância e apresentado por lobistas empresariais. O amadurecimento de um Estado passa pela isenção com que todos devem ser recebidos, analisados, independente do nome, da pose ou da propaganda enganosa que fazem. Estado pobre, recursos limitados, carências mis, nada melhor que um pouco de cautela dos que dirigem as instituições de crédito oficiais na hora de financiamentos. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/01/2007. - [CULTURA NO CEARÁ - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cultura-no-ceara-diario-do-nordeste/): Há cerca de quatro meses passei uma hora conversando com Francisco Auto Filho. Mostrava exposições de arte que estava coordenando, costureiras trazidas do interior para fazer bonecas de pano e um anjo de cipó que um artesão fez, a partir de um tronco ressequido de árvore. E ele dava baforadas em seu cachimbo, enquanto se via livros novos na sua sacola plástica aberta. Pouco tempo depois, fiz o mesmo trajeto, mostrando as mesmas coisas à Cláudia Leitão. Ela dizia das suas andanças pelo interior, ouvindo mestres populares do saber, difundindo visões simples de que a cultura pode abraçar a todos e, igualmente, todos podem caber dentro da cultura. Agora, Cláudia deixa a Secretaria de Cultura do Ceará e Auto Filho a assume. São visões diferentes, mas complementares e instigantes. Cláudia e Auto são professores universitários. Ela é antropóloga., ele é filósofo. Ambos são polêmicos e cientes de que esta terra precisa ser revolvida e resolvida pela cultura. Não sei se já conversaram, mas fariam bem se trocassem ideias, mesmo que para discordar. Há pouca gente de boa cabeça nesta terra e não se pode, por pensar diferente, se dar o luxo de isolar esse ou aquele. Ambos, devem saber que a vaidade e a insegurança acompanham a todos, inclusive artistas, intelectuais e artesãos. Todos lutam pelo que fazem e precisam do olhar e da palavra do outro, esse que, muitas vezes fica mudo, para não elogiar ou validar o sucesso alheio. Este Ceará, tão rico e tão pobre, não comporta aposentadoria, alheamento ou desconexão das pessoas que sabem criar, agitar, liderar e fazer cultura. O exemplo do Clube do Bode, entidade etílico-recreativa-cultural, sem estatuto, muito calor e fofoca, é prova certa de que contrários podem sentar em uma mesma mesa, discutir e disso resultar ações anárquicas que são expressões e até instalações culturais pós-modernas, tudo registrado em atas, que poucos leem, mas todos assinam reverentes, destacando apenas os seus pré-nomes. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/01/2007. - [FAMÍLIA, RAZÃO PRIMEIRA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/familia-razao-primeira-jornal-o-estado/): Sou o mais velho de uma família de nove irmãos. Cinco homens e quatro mulheres, todos vivos, hígidos, espalhados e independentes. Família essa cheia de defeitos e poucas virtudes. Gente comum, sem glória, pompa ou circunstância. Pessoas que foram, desde cedo, obrigadas a compartilhar quartos, roupas e entender que seria necessária muita luta para conseguir um lugar ao sol, mesmo uma réstia. Hoje, as famílias são bem menores e, em todas as classes, parece não existir mais sentimento de união, superação das tão comuns brigas entre irmãos, motivadas por tudo ou por nada. Estudávamos em colégios privados, com a merenda ou dinheiro contado para a cantina, lá íamos nós a pé. É bem verdade que a distância era pequena e a cidade não oferecia o menor perigo. No final de cada ano, os livros encapados e as fardas passavam para os mais novos. Não se ouvia falar em mesada, em prêmio por ter cumprido a obrigação de ser aprovado, e nem viagens à Disney. Só existiam esportes, poucas rádios para ouvir emissora de TV em preto e branco, ficando a televisão na sala, dividindo com o piano surrado, os lugares de honra. Brigava-se muito, a tapas e socos. Não ficava mágoa. A rixa se exauria no banho que a mãe mandava os filhos tomarem após as refregas. Havia o terço, a missa aos domingos, as primeiras sextas-feiras e as procissões. Quando o dinheiro dava – e sempre dava - ia-se ao cinema e ninguém reclamava do calor, entretido nos filmes e nos seriados. Quando um dos irmãos brigava na rua lá se iam os outros tomar satisfações e dar - ou levar - surra do desafeto. Sem essa de psicólogo ou analista, nada disso. Tomava-se pouco remédio. Uma ou duas vezes por ano, um remédio para vermes. De quando em quando, um Calciogenol irradiado, Emulsão de Scott, Biotônico Fontoura, Phimatosan, Melhoral e muita abacatada, bananada ou “vitamina”, que era uma espécie de salada de frutas batida no liquidificador. Cada casa tinha uma bicicleta que ia passando de mão em mão ou de pé em pé. Estudava-se inglês, aprendia-se datilografia e jiu-jitsu e as meninas tinham aulas de piano. Quem era mais interessado em livros ia à biblioteca pública fazer pesquisas ou pedir empréstimos para entrega em 15 dias. Fazia-se uma ficha e nos entregavam os livros que os colégios nos obrigavam a ler e resumir. Ou se lia por prazer. Estas recordações, pessoais e desinteressantes, vieram a propósito do filme que vi em vídeo “Férias em família”, de Jodie Foster, em que se mostra a relação neurotizante de uma família americana que, quase obrigada, se reúne para o feriado do dia de Ação de Graças, a data em que todos se reúnem por lá, mais do que no Natal. De tudo, fica uma lição e a certeza de que irmãos, mesmo que espalhados pelo mundo, diferentes, vivendo outras culturas e distantes, são necessários e indispensáveis e, ao revê-los, a gente se dá conta de que a família ainda é base de todos os princípios, mas sem essa dos moralismos caretas da época. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/01/2007. - [PORTA DOS SONHOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/porta-dos-sonhos-diario-do-nordeste/): Concluí a crônica da semana passada escrevendo que estava entrando na porta dos sonhos. Foi o bastante para mexerem comigo: que porta é essa? Você poderia me emprestar a chave? O que há por trás dela? Como saber se ela existe? Pois bem, a porta dos sonhos é a capacidade de continuar pensando alto e acreditar que as pessoas são fonte de esperança. Pessoas diferem das coisas e atos. Não é o que se compra, o carrão para disfarçar a insegurança, o jeito prepotente de beber vinho caro, sem o mínimo conhecimento de enologia, o desejo de aparecer transformando comemorações íntimas em atos públicos, ou viajando – desde que noticiado - para lugares onde não se percebe nada além da ostentação e vazio. Ter sonhos é descobrir que a festa e o espaço a ser percorrido são o que está na nossa essência, com crença ou descrença. Não há chave na porta dos sonhos, ela é como aquelas portas de saloon de filmes de cow-boy em que o machão entra com dois revólveres e sai com a cara amassada por um pacato cidadão que foi desacatado. Logo, não há como emprestar a chave. Ela não existe. A chave é atitude, não o destempero verbal, a bravata, a demonstração burguesa de poder, quando se sabe que a impermanência é a única coisa duradoura nesta vida. Por trás da porta há o que plantamos, sonhos, quimeras, devaneios que nos conduzem, por exemplo, à realização de desejos, do amor juvenil ao maduro, com coragem de romper grilhões e preconceitos temporais. Ora, se a porta é virtual, logo ela poderá existir para uns e não existir para os só preocupados em saber da vida dos outros e que não param para se autocentrar e entender seus atos, talvez infantis, toldando sua relação com a realidade. E assim, tal como comecei, sei que estes escritos são meros alinhavos, mesclados com os confrontos naturais do existir e isso dá a confiança de que não posso deixar de sonhar e repetir o que muitos já disseram e poucos atingem: sonho bom mesmo é vivido a dois, atravessando portas, virtuais ou reais. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/01/2007. - [CARTA DE DESPEDIDA E RESPOSTA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/carta-de-despedida-e-resposta-jornal-o-estado/): Esta crônica consta de uma carta minha e a resposta, quem sabe. A carta:não importa que você não tenha entendido integralmente o que escrevi. Importa a minha conduta, leitura da realidade, pois sei que tudo é relativo Mas, sei também que os livros bobos dizem que o passado já passou e o futuro vem depois. Não é bem assim. Prefiro pensar com W. Faulkner: O passado nunca morre, nem é mesmo passado “. Já havia escrito e enviado, quando você disse, ao telefone, da sua apreensão com a visita feita, pois era o passado que não é nem mesmo passado, chegando, incomodando, interferindo no seu bem-estar. Não falei em despedida, você o disse. Falei de óbices e as metáforas que usei foram uma forma não linear de dizer que acredito em você, que me considero uma pessoa com quem você pode contar, sempre. Estarei por aqui. A resposta :Sem dúvida os encontros e desencontros permeiam a vida, tornando-a rica e inusitada, pois ambos têm sua função, desde que bem aproveitados. Acredito que os encontros mais importantes são os intrapessoais, os internos. Sem encontrar e unir as próprias partes interiores, sem definir e conhecer as "formas" que se possui, os desencontros interpessoais serão uma constante e o único encontro possível e certo será com o "caos". Talvez os desencontros internos expliquem exatamente a "gênese do caos”. Muitos se habituam ao “caos" de tal forma que nem mais percebem a perda daquilo que nunca tiveram. E nem terão, pois o “caos” torna-se um porto seguro. Obviamente não possui "formas", muito menos fronteiras entre interno e externo. Para esses tantos, o dismorfismo torna-se tão imprescindível para a própria sobrevivência que optam pelo caminho mais fácil. E taxam tudo aquilo que for diferente da referência que possuem, digo, da ausência de referência, como desencontro. Não consigo imaginar uma forma fixa, além da beleza do viver, especialmente a dois, que consiste em ajustar formas, encaixá-las e procurar por alguns segundos tornar-se una, coesa e harmônica. Um dia, quando ou se as formas não mais se encaixarem, o "caos" ressurgirá, mas como mero visitante, não como dono da casa. Penso que pouco tempo pode valer muito, afinal uma característica da felicidade é não perceber que as horas se passaram, assustar-se ao olhar o relógio, seja ele original ou falsificado....Essa questão do tempo para mim, a famosa quarta dimensão, como pura subjetividade que é, diante do real, do concreto, torna-se insignificante. Ontem eu falei que você me surpreendeu. Hoje posso repetir a mesma frase, mas com sentimentos diferentes. Sei que os paradoxos existem, mas fico agora a questionar em quem as "formas" estão precisando de refinamento e ajuste de conduta, assim como discordo da "quase-lucidez". Apenas para terminar, quase esqueço de dizer o que penso sobre a sua citação de "milhas e milhas a percorrer", do poeta Robert Frost ou dos quilômetros que poderiam ser percorridos no Brasil. Que pena! Entretanto, você me fez bem por me fazer voltar a acreditar em sentimentos, afinal, em pouco tempo, segundo sua matemática, vivi momentos que permanecerão por muitos anos. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/01/2007 - [AS PORTAS DE ENTRADA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-portas-de-entrada-diario-do-nordeste/): Entrei o ano por quatro portas distintas. A primeira, e mais importante, foi a da família nuclear. Juntos, esquecendo diferenças, respeitando-se e integrando-se de forma leve, saudável e emotiva. Até umas parcas lágrimas pediram passagem e fizeram com que uma neta perguntasse: por que você está chorando, vovô? Chora-se, quando nunca se chora, por saber-se meio peixe neste mundo em que os decibéis das músicas abafam sentimentos não aflorados por falta de eco. Mas, deu meia-noite e o céu se encheu de luz, fogos traçavam artifícios no espaço enquanto rosas, guirlandas, chuveiros, estrelas, bouquets e outras formas de pirotecnia me tornavam menino, na esperança de que o próximo arranjo de luz e som me embevecesse ainda mais. Acabaram os fogos, cada um se foi na rota da vida no ano despontado e me dispus a entrar na segunda porta, bem perto, também defronte ao mar, vizinha do celeiro da alegria popular e coletiva, do outro lado do muro de pedra. E, mais uma vez, o império dos decibéis brigava com meus tímpanos. Abracei amigos. E entre as bolhas de um espumante eu via as mutações temporais da vida. Ali, naquele lugar, por tantos anos, estive junto com a mesma família nuclear que cresceu e se fez múltipla. E me achei, em meio a tantos, com a incapacidade de falar ao telefone. Vivemos a época da impaciência e minutos desconectados nos tornam isolados, mesmo que multidões pululem à volta. E aí entrei na terceira porta, a da rua, no meio do povo misturado com autoridades que capricharam na concepção nova e manifesta da estética bela, mais profunda que a vã superficialidade possa imaginar. E, em meio ao povo, com suas cadeiras e mesas de plástico, cervejas, sandubas e afins, me vi brasileiro, essa mescla de raças, ritmos, harmonias e cores, plenos de singularidade. E havia duas mulheres loiras, uma liderava, outra cantava, ambas acreditando em novos limiares e atitudes. E, passo a passo, na rua, a senha da noite me acenava em direção à quarta porta, a dos sonhos. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/01/2007. - [CIVILIDADE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/civilidade-diario-do-nordeste/): Tenho amigos que, por conta dos seus afazeres, vivem viajando mundo afora. Não são turistas acidentais. Viajam com olhos para ver e “sentimento de mundo”, captam nuances nos contatos com seus iguais e o povo. Reconhecem, entristecidos, que nós, brasileiros, salvo exceções, somos ainda muito pouco educados, cordiais e incultos em nossos contatos e relacionamentos. Por questões até de sobrevivência, cultivamos hábitos que não passam pela polidez, gentileza com o outro, respeito ao trânsito e aos imóveis públicos e privados. Em qualquer cidade brasileira, do Oiapoque ao Chui, fácil é constatar a ausência de delicadeza no gesto das pessoas em contato com semelhantes ou, por exemplo, na intimidade dos banheiros. De princípio, eram apenas os homens os indelicados. Hoje, por terem jornadas duplas, as mulheres estão entrando no time dos que não primam pelo cuidado no falar, na gentileza de ouvir e na capacidade de entender a diversidade, essa realidade que distingue as pessoas, mas que, paradoxalmente, as nivela. Recentemente, uma pessoa me contou que ao guiar no estrangeiro foi abordada por um policial de trânsito “pelo simples fato de ter mudado de faixa de direção”. Ora, os sinais de trânsitos são internacionais e no país onde ela se encontrava ficam muitos claros. Ela havia, por força de hábito, cometido infração de trânsito comum em nosso país. Não nos incomodamos com os carros que vem atrás e apenas nos desviamos dos que cruzam à frente. É assim mesmo, acontece todo instante e isso faz com que acidentes entre veículos proliferem e impeçam a circulação ideal por conta de perícias que tardam. Falta-nos civilidade. Houve um tempo em que se estudava civilidade nas escolas. Lembro que a edição do livro era F.T.D. Hoje, certamente, isso pode ser considerado perda de tempo, mas não é. Dizia Mark Twain que “a gente não se liberta de um hábito, atirando-o pela janela. É preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau”. Isto vale para o trânsito, para as escadas da prepotência, para a bisbilhotice da vida alheia e ao desrespeito pelos direitos dos outros. É básico. É civilidade. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2007 - [2009- NOVES FORA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/2009-noves-fora-diario-do-nordeste/): Daqui a quatro dias o ano será findo. As previsões feitas pelos economistas não são boas, mas há um consolo: eles não são bons em presciência. Há ameaças de desemprego, por conta do fechamento de fábricas, mas a Igreja proíbe o controle da natalidade, a publicidade custa mais caro que os produtos ou serviços, os impostos comem 1/3 do que ganhamos e o Governo dá seis meses sem trabalho para as mães em curso. Que nasçam mais crianças. O país procura ter linguagem e ações de potência, mas patina no Índice de Desenvolvimento Humano. Empresas brasileiras viram multinacionais, mas não esquecem de pedir recursos ao BNDES. Os senadores querem aumentar o número de vereadores. Ótimo, esses poderiam ser pagos com parte do que os pais da pátria ganham. O ano foi sacudido com a crise financeira, a eleição de Obama e a sapatada no Bush. Mas, daqui a quatro dias, este ano e suas mazelas terão ido embora, em meio aos eventos finais em todo o mundo, com seus fusos diferentes e as mesmas histórias contadas por locutores maquiados defronte a câmeras de televisão. Esqueça o que passa e vá em frente. O companheiro Lula está no leme e nós somos bons marinheiros, havemos de encontrar terra firme, aquela em que se plantando tudo dá. Mas, os índios dizem que as terras eram deles. E eram, mas não esquente. O Brasil é grande demais, dá para todas as tribos, não importam os nomes dos morubixabas. Faça a sua parte, pegue o seu tacape e cuide de sua oca. Não deixe que queimem o seu roçado, nem se aproxime dos que vivem de não fazer nada, apenas enganando e tentando se arrumar. Achegue-se aos que fazem com dentes e unhas, mesmo que elas sangrem. Descubra-se novo, não em tempo, mas em ideias, sentimentos e atitudes. Estas valem mais que tudo, especialmente se não forem propagadas. Realimente-se de energia, palmilhe sonhos, não faça greve de benquerença, desestimule brigas e ausculte o seu coração, sem esquecer que em toda criatura humana bate também um similar ao seu. Viver é perigoso, já se disse, mas é uma dádiva e não podemos desperdiçá-la. Em 2009 sobram dois, você e o seu sonho. O resto são “noves fora”. Feliz Ano Novo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/12/2008 - [PARA UM ANO NOVO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/para-um-ano-novo-jornal-o-estado/): Não é só a edição desta semana da revista Veja que escreve sobre a morte anunciada de parte da África. Há dezenas de anos, desde o século passado, que sabemos disso e pouco fazemos. Uma vez, faz tempo, vi um filme em que gente africana, tangida pela fome, tentava atravessar o Estreito de Gibraltar. Causava um transtorno grande na Europa. Agora, correu pela internet um raro e-mail sério em que se fala expressamente que toda a fome do mundo seria resolvida com 40 bilhões de dólares. Milhões de pessoas poderiam entrar na história da civilização como as que sobreviveram da fome e das guerras tribais, graças a uma ação conjunta da humanidade. Digamos que, cessadas essas guerras e a fome dessas pessoas, se investisse mais 40 bilhões de dólares com habitações, infraestrutura, geração de empregos, alimentação e educação. Total: 80 bilhões de dólares. Pois bem, sabem quanto os Estados Unidos e a União Europeia já gastaram para tentar resolver o problema da atual crise financeira do mundo? Dois trilhões de dólares. Não escrevo em numeral, pois são tantos os zeros. E esses dois trilhões não asseguram nada, pois são injetados não diretamente na economia, mas para socorrer empresas e agentes financeiros que quebraram ou estavam a quebrar por conta de suas ganâncias ou incompetências. Havia executivo de empresas multinacionais que recebia, por ano, mais que a arrecadação fiscal de uma cidade média de um país em desenvolvimento. Pela minha própria história de vida não poderia ser contra pessoas que crescem profissionalmente e têm recursos e recato, até de sobra, para seus herdeiros. Daí a compactuar com a ação de bancos centrais e governos que se aliam para socorrer os que não souberam gerir seus negócios e créditos ou limitar suas ambições, a estória é outra. Esta crise anunciada poderá até ser benéfica se, no bojo dela, existir um tempo para a análise coletiva e profunda de suas causas com soluções globais. Não a análise de economistas que não viram o “tsunami” se formando e apenas explicam o óbvio, depois do fato acontecido. A análise deve ser feita por sociólogos, antropólogos e gestores públicos e privados que não tenham ainda sido mordidos pelas certezas de convicções e tampouco sejam frequentadores de convescotes em Davos ou similares. Nós, os do planeta Terra, temos de admitir que talvez não estejamos aproveitando os últimos avanços tecnológicos para o bem da humanidade, mas como instrumentos de intimidação, espionagem e até de devastação dos recursos verdes. Essa conversa poderia ser em outro tempo e não no limiar de um Novo Ano. Acontece que os que têm algum espaço, não podem perdê-los com o desfrute do próprio umbigo. O ano será novo se mudarmos, mesmo que um pouco, os nossos pensares individuais e coletivos. Caso contrário, é bom lembrar que um 8 é quase igual a um 9, bastar apertar um pouquinho do lado de dentro. Viva 2009. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/12/2008 - [NATAL SEGURO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/natal-seguro-diario-do-nordeste/): Não se preocupe. Não vou falar de preservativos. Tampouco aconselhar que coma, beba ou deixe de fazê-lo. Neste Natal a preocupação é com a violência em geral e contra os que andam de carros, sejam pequenos, financiados ou carrões. Não vou escrever nada novo. Apenas uma visão pessoal do que li como dicas. Morando em casa ou apartamento, verifique o ambiente ao sair. Não ande -nunca- de vidros abertos, mesmo fumando, não tenha ar e more em lugares muito quentes. Tranque as portas. Não fique ligado ao som, seja notícia ou música. Ponha os retrovisores e os olhos para funcionar. Fique alerta. Infelizmente, não se pode dar carona. Tampouco, sem piedade, socorrer acidentados no meio da via. Se baterem no seu carro e o prejuízo for pequeno, não pare, mesmo que anotem a placa. Se olhar sempre para os retrovisores verificará se um mesmo carro o segue. Dobre, sem sinalizar. Aumente a velocidade. Cuidado com flanelinhas e motos, não dê chances. Se for o caso, pare enviesado. Se o pneu furar, vá até a um posto de combustível ou pare junto a uma delegacia, quartel ou supermercado. Pneus e aros há aos montes. Sua vida é única. Não cole adesivo ou marcas nos vidros e na lataria do carro com símbolos de profissões, entidades, ou com o seu nome e o da pessoa querida. Se puder, não dirija à noite. Os serviços de tele táxis são confiáveis e até livram você das multas. Se, mesmo assim, tiver o azar de ser assaltado, fique calado, conte carneirinhos, e só fale o que lhe for perguntado. Não discuta, não barganhe, não grite ou chore. Não levante os olhos. Mire o painel e veja quantos km o seu carro tem. Não dê uma de valente, mesmo que o assaltante seja franzino e a arma não esteja visível. Lembre-se que tudo aquilo vai passar. Depois do susto, vá a uma delegacia, preferencialmente com um advogado amigo, e registre a ocorrência. Desculpe os lembretes. As cidades nos forçam a egoísmos para sobrevivermos da violência e do trânsito caótico. Procure gostar de ficar em casa, familiarize-se. Livros são bons companheiros, melhores que noticiários de televisão falando de assaltos e mortes. Cuide-se. Feliz Natal, mas duvide de Papai Noel. João Soares Neto, da Academia Fortalezense de Letras CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/12/2008. - [O VESTIBULAR, O CURSO E O TEMPO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-vestibular-o-curso-e-o-tempo-jornal-o-estado/): Quando fizemos vestibular para direito, o Latim era obrigatório. Exigia-se ainda uma língua estrangeira e bom conhecimento de Português. Havia provas escritas e orais. Não era fácil passar. Só existia uma faculdade, a da Universidade Federal do Ceará. Afinal, passamos. Éramos uma mistura de quase adolescentes com pessoas maduras. Uns, saídos direto do curso secundário. Outros, já casados e trabalhando, reescrevendo suas histórias ou procurando novos caminhos. Todos, uns e outros, subíamos os degraus dos sonhos que nos levavam ao prédio novo da velha Faculdade de Direito. Uns para o curso diurno, outros para as aulas noturnas. Em todos, esperança e vontade de aprender. Cada um vinha de diferentes caminhos na busca de uma identidade pessoal, de ser alguém. E a sala climatizada parecia nos acolher com certa frieza. Ou seria o “frisson” de estarmos construindo a tarefa de ser gente? O fato é que fomos os últimos daquela faculdade a usar paletós. Foi só um semestre. A crise na cadeira de Introdução à Ciência do Direito, com o Prof. Heribaldo Costa, fez estragos e todos dela saíram com mangas arregaçadas. E assim o fizemos por cinco anos. Além do estudo das matérias, houve política, muita. Jânio renunciou. Jango assumiu e Tancredo foi um breve Primeiro Ministro, até que em plebiscito o povo optou pelo presidencialismo. O Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua, inclusive, havia adotado o Parlamentarismo. Depois, Jango caiu. O sonho quase vira pesadelo. E aí a história mudou, mas não de tal forma que impedisse a conclusão de nosso curso, mesclado com greves, denúncias e manifestações. Afinal, a euforia do prof. Antônio Martins Filho, no esplendor de seu reitorado, nos contagiou e acolheu na Concha Acústica da Reitoria do Benfica e de lá saímos de beca para a vida real, esta que nos colocou na lida desde 16 de dezembro de 1965. Todos nós, os que viraram operadores do Direito e os que não, estamos, certamente, dando uma mirada no retrovisor existencial e, incontinentes, continuamos na estrada, certos de que construímos, individual e coletivamente, significados e razões para as nossas vidas. (este artigo é em homenagem aos colegas de 65, na pessoa de Stênio Carvalho Lima, organizador de nossas reuniões anuais) João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/12/2008. - [PROPAGANDA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/propaganda-diario-do-nordeste/): Agora que o mundo está em crise, descobre-se que o Brasil responde por 4,7% do mercado de propaganda do mundo. É o sexto país em gastos de propaganda/publicidade: US$ 26,6 bilhões de dólares por ano. Esses dados são da pesquisa World Advertising Trend 2008. O que isso quer dizer? Que a soma do dinheiro consumido anualmente em propaganda no mundo corresponde a US$ 563 bilhões. Desse total, 34,0% são com mídia impressa; 46,0% com a Tv; 7% com a Internet; e 13% com rádio, cinema e outdoors. Esses números mostram o quanto é agregado de custo a um produto ou serviço para ele ter uma boa aceitação no mercado. Você, certamente, perguntaria: o que tenho a ver com isso? Muito, pois a propaganda não poupa ninguém. Um torcedor de futebol, que vai ao estádio ver o seu time jogar, estará também, por 90 minutos, sujeito às propagandas das empresas que o estão patrocinando, na camisa, calção e até nos meiões dos atletas. Ao ver a novela da Tv ou filme, somos sugestionados por marcas de veículos, roupas, utensílios e até locais. Isso é ‘merchandising’, propaganda disfarçada. Talvez seja esta a razão, por exemplo, pela qual você pode achar que a Petrobrás queima dinheiro patrocinando, entre outros, ‘roadshows’ pelo Brasil afora; um carro estrangeiro de Fórmula Um; espetáculos de arte, teatro e cinema; clubes e centenas de atletas de todos os esportes e categorias. Ora, se a Petrobrás é a única fornecedora de petróleo, qual a razão de tanta propaganda? Não seria melhor, você argumentaria, ter combustíveis mais baratos? A resposta fica com você, mas leia até o final. Lembre-se que até a Igreja Católica, quando se viu ameaçada por Lutero e pela Igreja Anglicana, resolveu, em 1622, por ordem do Papa Gregório XV, criar a sua ‘Congregatio de Propaganda Fide’. Em 1627, criou um Colégio de Propaganda para difundir a fé católica pelo mundo. Não sei se São Tomé, o que só acreditava no que via, é benquisto pelos que fazem propaganda, mas basta, entre outros fatos, somar o número emissoras de rádio e TV públicas, católicas e evangélicas para entender o jargão: “a propaganda é a alma do negócio”. E aí? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/12/2008. - [TCU - TALENTO CEDRENSE, UBIRATAN - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tcu-talento-cedrense-ubiratan-jornal-o-estado/): Brasília- Chego ao TCU faltando cinco minutos para as dez. Subo em elevador apinhado. Assento-me. Vejo o auditório lotado. Cearenses são a maioria. Muitas são as autoridades. As que conhecemos e as que vemos pela televisão. A Ministra Dilma Rousseff dá sorrisos comedidos e cumprimenta os próximos. O cerimonialista afirma que o Presidente Lula está na ante-sala e que a sessão deverá ser iniciada em minutos. O Ministro César Rocha, Presidente do STJ, precede a comitiva. Chega o Presidente Lula e é formada a mesa que inclui o Governador do Ceará, Cid Gomes, na sua extremidade esquerda. No outro extremo da mesa está o Procurador Geral do TCU, Lucas Furtado, também cearense. Ecoa a fala significativa e letrada do Ministro Marcos Vilaça que fala “sem os espartilhos da conveniência”, mas consegue florir com metáforas o ambiente vetusto e o próprio sentido institucional do TCU, citando Ruy Barbosa. Começa saudando o Presidente Lula como ‘brasileiro de Pernambuco’ e, com a alegria de um pássaro canoro, adentra os mares e os sertões cearenses para resgatar a história pessoal do talentoso cedrense, Ubiratan. Villaça destaca, com graça e modos, os muitos que fizeram e fazem a história política, cultural e social da terra de Alencar. É fala digna de um acadêmico brasileiro. Ele dá ênfase à necessidade de conjugar o combate à corrupção com a eliminação do desperdício e termina na companhia de Patativa do Assaré: “Canto o que minha alma sente, e o meu coração encerra, as coisas de minha terra e a vida de muita gente”. O Procurador Geral Lucas Furtado fala em nome dos que resguardam a atividade-fim do TCU, ao mesmo tempo em que o conteúdo de sua fala diz do seu saber, lucidez técnica e amor à terra comum. É a vez de o novo Presidente Ubiratan Aguiar contar e cantar sua alegria, trajetória e responsabilidade. O cuidado em citar, amigos, colegas, instituições, familiares e autoridades. Dá uma palavra especial de alento ao Vice-Presidente José Alencar e, sem perder o rumo de sua prosa-poética, vai dizendo, entre leve e austero, de seus sonhos e metas que serão traduzidas em ações conjuntas com outros órgãos contra as ventanias dos ímpios e os desmandos públicos, Dá, ao final, o destaque à mulher, filhos e netos, realça a figura de sua mãe como conselheira dos 10 filhos e evocando a lembrança do seu pai, a quem dedica o dia de sua posse. Pois foi assim, sem mais, nem menos, que vi, do meu jeito, tudo o que se passava e para não ter que ficar esperando para abraçar o novo presidente do TCU, em uma fila digna de show de Madonna, foi que corri para este cativo computador e registrei o que vi, antes que a minha pouco diáfana memória se esvaia. Parabéns. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/12/2008. - [FUTEBOL CEARENSE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/futebol-cearense-diario-do-nordeste/): Afinal, o Ceará e o Fortaleza continuam na Segundona. Apenas isso. Fizeram um campeonato medíocre e não respeitaram os torcedores que têm e valem ouro. Há uma baixa organização gerencial. Fruto da emoção de dirigir um clube com a não aplicação efetiva de gestão empresarial. É claro que sei das boas intenções, paixões, mas nada disso justifica os descalabros que foram as nossas participações na série B do Campeonato Brasileiro. O Fortaleza só não foi rebaixado na última rodada e o Ceará não ganhou uma só partida fora do Castelão. Tirem o Corinthians e vejam os outros três classificados. Comparem as torcidas. Nós somos mais. Olhem os exemplos do Real Madrid, Chelsea e do Milan que têm torcidas cobradoras e são empresas com lucro. Ora dirão, lá é Europa. A diferença está na cabeça das pessoas. Pensar diferente faz sentido. Aqui no Brasil/Futebol e, especialmente, no Ceará não há planejamento, não se faz orçamento (e há base nas receitas dos anos anteriores), tudo é decidido na hora da crise sob emoção e pressão. Os técnicos contratados - e suas comissões auxiliares - são, dizem, apenas entregadores de camisa e, quando muito, motivadores. Não têm expressão no cenário do futebol e se preocupam apenas com seus contratos voláteis e a indicação de atletas. Não há sequência nos trabalhos anuais e os jovens valores sempre são perdidos. Ou porque não são descobertos a tempo ou por serem vendidos por nada para cobrirem rombos. Por outro lado, faz algum tempo que os dois clubes têm patrocinadores e deles recebem valores consideráveis. Recebem das loterias, sócios, percentuais dos jogos, venda de passes e transmissões pela TV. Sim, e daí, dirão vocês: qual a solução? A resposta poderia ser a humildade de admitir que o modelo usado seja caro, possa estar errado ou superado. Deveríamos aproveitar o novo campeonato cearense para formar quadros mesclados com jogadores jovens, sem vícios e que não ficassem meses com contusões discutíveis. É hora de repensar tudo, inclusive a gestão da Federação de Futebol que parece ter se exaurido no tempo. Não pesamos na CBF e o Estádio PV continua fechado. João Soares Neto, torcedor de futebol CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/12/2008. - [A ERA DO NENO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-era-do-neno-jornal-o-estado/): Tem gente que pensa agradar quando escreve empolado, usa metáforas pessoais e faz do seu mundo o mundo alheio. Tem gente que é previsível, risível e pouco aprazível de ler. Neno é o contrário de tudo isso. Escreve como fala, diz o que pensa na hora e não pondera entre o fato jornalístico e a conveniência. Sua irreverência é desmedida e caminha, lado a lado, com o seu quixotismo onde muitos são os sanchos, suburbanos ou não, que lhes indicam motes para destruir os moinhos de vento da impunidade, do descalabro administrativo, da falsa virtude de arautos do nada, da jactância de políticos que usam os repórteres de aeroporto como porta-vozes de suas não-falas em plenário federal. Neno é aquele que fala pelos cidadãos do Alto do Bode, é o eco da torcida indignada do Ceará, o espadachim que mexe suas mãos sobre o computador e registra, com sarcasmo e humor, as desditas de uma cidade sitiada pela marginalidade e pelo descaso de políticos encamisados com as gomas das benesses recebidas. Neno é indignado por todos os que não têm voz e precisam de um alento para circular, após o trabalho, entre os terminais de ônibus e tomar o último trago antes de chegar, exaurido, em casa. José Mairton Quezado Cavalcante, dito Neno Cavalcante, completou 30 anos de jornalismo crítico e comemorou a data cercado de amigos e admiradores de todos os naipes e o fez de forma singular e airosa, mostrando-se em livro que recebeu, ao vivo, vivas louvações decassílabas de Carlos Augusto Viana, seu stand by, e escritos carinhosos de Airton Monte, Ronaldo Salgado e Henrique Silvestre. Como se tudo isso não bastasse, na mesma noite, tira de sua cartola, o mágico violão de Manasses e banda e, após horas, a noite se queda na espontânea erupção de Raimundo Wagner em forma amisto-xistosa em violão cedido por Peninha. Finda a noite, voltemos ao livro. Ele deveria ter o título “A Era do Neno”, por configurar um tempo de vida fecunda, mas ficou apenas Era... Nas suas quase duzentas páginas, Neno desnuda-se e se declara amante apaixonado da mulher, pai vidrado nas filhas, amigo de seus amigos e defensor perpétuo de Fortaleza. Vale a pena ler as estórias breves que compõem a quase-história da cidade nestes 30 anos e formam a estrutura social do seu discurso jornalístico coerente, sutil, apaixonado e engajado. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/12/2008. - [ELA MUDOU - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ela-mudou-diario-do-nordeste/): Resisti o quanto pude. Ela veio e foi ficando. Não entendia a capacidade que ela tinha de ser múltipla. Zangava-me por saber que ela era o futuro e que deveria me ajustar ao seu charme, aos seus modos sutis, sua linguagem cifrada, sua velocidade, cada dia maior. Tinha que aprender a lidar com ela, o que não era fácil. Não dependia só de mim, mas de terceiros. De princípio, o telefone nos ligava e depois caía. Comecei brincando. Testava e ela fazia. Mudava o jeito e ela se ajustava, como se fosse tão maleável quanto alguém de boas maneiras. Tudo começou no meio da década passada. Precisamente, em 1996. A minha curiosidade era um meio de ir apagando saudades abertas. O jeito foi ir me apegando a ela que, nesse tempo, tinha que ser via Embratel. Primeiro, foi a mera comunicação. Precisava de um canal de comunicação e ela abriu, pouco a pouco, as portas do futuro para mim. A abertura era diretamente proporcional à minha capacidade de ver o novo, entender que o ontem havia passado e que o hoje era só mudança. Depois, paralelo a tudo isso, fui vendo que ela me ajudava com informações. Muitas vezes, a informação era fajuta, boba, superficial, mas ela estava lá, bastava procurá-la e ter paciência, para separar o lixo do que importava. Anos de assimilação. Até que não precisava mais de fios, nada de Embratel, era tudo rápido, cada vez mais, e podia ser em qualquer lugar que estivesse. Fiquei dependente dela e tinha vergonha de dizer isso. Tudo era dentro de quatro paredes. Às vezes no claro, outras até no escuro. Eu e ela. Ela tinha energia própria, singular. Foi então que descobri o óbvio, o que não queria enxergar. Ela não se ligava só em mim, tinha muitos outros, milhares, até que virou milhões e eu caí na real. Agora, que tudo já passou, ainda mantemos relações. Quando a procuro, ela me atende. Pode ser a qualquer hora, em qualquer lugar, nos basta a senha que combinamos. Ainda me surpreende, pois altera a dicção sem prévio aviso e tenho que procurar novos meios de vê-la. E, dessa forma, vamos indo, sem fazer planos para o futuro, pois ela mudou demais nestes nossos anos de relacionamento. Não é mais a mesma. A Net é fogo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/11/2008. - [EXPLICANDO O QUE NÃO SEI - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/explicando-o-que-nao-sei-jornal-o-estado/): Alguns perguntam o que é a crise. Já ouvimos isso de pessoas tomando uísque doze anos. De empresários, com ou sem empresa, de caloteiros contumazes, de jornalistas econômicos, ex-ministros da fazenda, economistas, ex-dirigentes do Banco Central, políticos que mudam de partido, mas não saem do governo, e até de pessoas sérias que trabalham duro e estão meio tontas. Não é para menos. Há um bombardeio da mídia nacional e internacional falando sobre a crise, da quebradeira de empresas e bancos que alavancavam. Alavancar é termo usado pelos economistas para dizer que determinada empresa ou banco trabalha com muito capital (dinheiro) de terceiros. Aliás, os economistas passaram longe do faro para descobrir essa crise. Sabem explicar o antes no depois. Mas, ninguém previu nada. Era uma euforia geral, até quando as hipotecas americanas deixaram de ser pagas, a crise de confiança aconteceu e as pessoas começaram a tirar dinheiro dos bancos, das bolsas e colocaram debaixo dos colchões. Aí os governos tiveram que correr para salvar o possível. O problema de muitos economistas, especialmente dos econometristas e dos que tratam da macroeconomia, é que procuram soluções matemáticas para problemas sociais. Os Estados Unidos têm vivido em crise desde 2000, quando as ações das empresas de tecnologia caíram assustadoramente, pelo simples fato de serem uma bolha financeira. Muita propaganda, euforia do mercado e a realidade: a queda. Depois, em 11 de setembro de 2001, a outra queda, o ataque muçulmano aos EUA, morrem milhares de pessoas e, em consequência, surge a Guerra do Iraque, alimentada pelos interesses armamentistas, do petróleo e da reconstrução do que foi bombardeado. Em 2002, somando a queda da Nasdaq ao problema causado pelos ataques aéreos, as empresas do ramo de tecnologia sofreram desvalorização de cinco trilhões e os que estavam na Bolsa de NY também perderam. Agora, em 15 de setembro deste 2008, o mundo ameaçou ir para o espaço, mas havia uma eleição americana com grandes interesses e a operação de emergência aconteceu. Disso se valeu o candidato Barack Obama para reforçar o que já dizia: “nós podemos” recuperar a economia americana que, quer queiramos ou não, ainda é o fiel da balança financeira do mundo. Essa minha explicação é banal, com um pouco de esforço de memória, e a guarda de recortes de jornais paulistas especializados em economia que previam que a Bovespa, bolsa de São Paulo, estaria com 85.000 pontos agora em dezembro. Dezembro está aí e a Bovespa luta para chegar aos 40.000 pontos, depois de ter atingido 73.000 em agosto. O petróleo que foi a perto de 150 dólares o barril, está em 50. Esta é a nossa rasa explicação. Pouco sabemos do que acontece no mundo, pois muitos confiaram em empresa, banco e gente. Alguns, desonestos, que continuam enganando por aí, mentindo e ocupando funções que não pedem folha corrida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/11/2008 - [MAUÁ E UNIFOR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/maua-e-unifor-diario-do-nordeste/): Com o zelo, a plasticidade e a classe costumeira, a Universidade de Fortaleza, com o apoio da Braspetro, está apresentando exposição sobre Irineu Evangelista de Souza, o empreendedor do século XIX, quando essa palavra ainda não existia. Sou fã dos empreendedores que aliam seu trabalho à criação diferenciada para a humanidade. Assim é que descobri há muito Monteiro Lobato, não apenas o grande escritor, mas o nacionalista e sofrido empresário, que até preso foi pela ditadura. Seu livro, “A Barca de Gleyre”, é o meu preferido. Ele previu até em “O presidente negro”, a eleição de um negro nos EUA, isso na década de 30. Voltando ao fio, a própria UNIFOR é fruto de um visionário. Edson Queiroz criou, do zero, uma universidade diferenciada que irrompeu com um magnífico campus, simplicidade, paisagismo exuberante, estratégia acadêmica, gestão eficaz e alcançou o reconhecimento público. A dedicação do Chanceler Airton Queiroz alia ao seu “hardcore” de ensino o declarado amor às artes e fez brotar ali um teatro com diferencial de qualidade pela escolha de peças, autores e atores de nível. Cuida de cada detalhe das exposições. Elas primam pela gentileza cultural e ambiental dando ao visitante uma aula preliminar até que se depare com a arte exposta. Agora, com a exposição sobre Mauá alia a arte a um necessário mergulho sobre a história brasileira do Século XIX e a empreitadas difíceis e díspares como a implantação de uma indústria naval; a criação de ferrovias; a navegação pela Amazônia; a iluminação à gás do Rio, sede do Império; a atividade agropecuária e empréstimos ao Uruguai. Até a pá entregue a D. Pedro II para um ato público tem a marca da ousadia privada. Mauá teve altos e baixos, como todo sonhador com o pé no chão e a cabeça no futuro. Conseguiu inovar até na contratação de técnicos e mão de obra da Europa e da China, quando só se usava escravos. Mauá é também a história financeira nacional quando da criação, subscrição e ingerência oculta nas ações do Banco do Brasil. Ele é, enfim, a lição de que o trabalho inovador, como obra de arte, também faz História. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/11/2008. - [MUSSA DEMES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mussa-demes-jornal-o-estado/): Ao longo da vida vamos conhecendo pessoas. Algumas passam. Outras ficam. Poucas se tornam amigas. Tenho uma concepção de amizade um pouco estranha. Para mim, ela é não uma experiência de troca de favores, tampouco é junção de interesses. Não é a identidade de costumes, vontades e gostos. Nem passa a ser amizade o encontro acidental ou até rotineiro. Amizade é aquela relação que vai brotando como um fio de água entre as pedras e não para de jorrar. O amigo não é o que fala ao seu corpo, ao bolso, mas o que toca a sua alma e lhe dá o direito de arengar em voz alta. . Foi assim com Mussa de Jesus Demes. Conhecemo-nos ao final da década de 60. Estávamos engatinhando na vida profissional. Cada um do seu jeito, no seu mundo, sem interesse ou favores pelo meio. De repente, éramos amigos de conversar horas, sem ver nem pra que. No começo dos 80 ele foi escolhido Secretário da Fazenda do Ceará e exultei por seu sucesso. Ele lá e eu na minha vidinha. Depois, o Piauí, sua terra natal, o chamou. Ele, que amava aquele chão, voltou e lá foi eleito Deputado Federal. Telefonei parabenizando-o e, em uma de suas vindas à Fortaleza, nos encontramos. Passou horas fazendo a minha cabeça para que eu me candidatasse a Deputado Federal pelo Ceará na próxima eleição. Dizia que eu tinha jeito, capacidade e condições. Disse-lhe que não. Ele me pediu para pensar. Um dia, resolvi ir a uma cidade do interior e ver como a política funcionava. Não era nada do que eu sonhava. Conversamos novamente e falei para ele que não tinha jeito para uma campanha, apesar de achar honroso ser Deputado Federal. Mudamos de assunto e amizade continuou. Ele, especialista em Direito Tributário e Finanças, logo foi novamente chamado para ser Secretário da Fazenda do seu Estado, em meio a mandato. Foi eleito Deputado Federal por seis vezes consecutivas. Era um dos maiores especialistas no Brasil em Reforma Tributária e queria mudar esse caos dos mais de 100 tributos brasileiros. Lutou muito. Nunca fui a seu gabinete em Brasília, mas estive em Teresina algumas vezes para conversar com ele e juntos até almoçamos com o Heráclito Fortes em restaurante simples e bom, com boas risadas. Anos se passaram. Soube que ele estava doente. Liguei e senti o quanto a coisa o incomodava e a luta que estava enfrentando. No Natal passado, sem querer incomodá-lo, entreguei a seu irmão Pedro um bilhete e ele me ligou da forma mansa e carinhosa de sempre. Agora, ele se foi, do jeito que vão os bons, sem barulho, assistido por uma família ciosa de seu líder. Mussa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/11/2008. - [MESTIÇAGEM E FUENTES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mesticagem-e-fuentes-diario-do-nordeste/): A 8ª. Bienal Internacional do Livro do Ceará usa como tema a Aventura Cultural da Mestiçagem, tal a força do convencimento vivenciado em suas andanças latino-americanas por Floriano Martins, curador geral e, pelo suporte recebido de Jorge Pieiro e Karine David, curadores, todos chancelados por Auto Filho, Secretário de Cultura. É provável que alguns intelectuais ainda não tenham atentado para a sutileza da iniciativa que procura introduzir o Ceará e Fortaleza no imaginário dos autores latinos que nos visitam e no mapa cultural dos países de língua hispânica. É importante lembrar também que nesta terça, dia 11, o maior escritor mexicano vivo, Carlos Fuentes, completou 80 anos. Ele está sendo alvo de manifestações culturais em todo o México. Não é oba-oba, mas uma sucessão de cursos, palestras, debates e seminários em que intelectuais latinos e de todo o mundo discutem o fazer literário de Fuentes e a sua cognição com o real e o fantástico, ao mesmo tempo em que se debruçam em temas sutis como as artes de narrar, fazer romance, filosofar, historiar, escrever ensaios, informar, editar, ler, olhar e filmar. O engraçado na vida de Fuentes é que, tal qual John McCain, o derrotado candidato à Presidência dos EUA, ele também nasceu no Panamá, onde os seus pais, mexicanos, exerciam a diplomacia. Fuentes também perdeu – misteriosamente - agora a sua quase certa indicação ao Prêmio Nobel de Literatura deste ano para o pouco conhecido escritor francês Le Clézio. As semelhanças param por aí. Fuentes acompanhou seus pais pelo mundo afora e passa a ser poliglota, criando uma percepção universal, sem perder a essência de sua mexicanidade que até foi criticada no lançamento de sua primeira obra “A região não transparente”. Agora, cinquenta anos depois, ela é relançada em edição Premium pela Associação das Academias de Língua Espanhola com a mesma pompa de um “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, e de “Cem Anos de Sólida”, de Gabriel García Márquez. Sempre é bom lembrar, como queria Goethe, que quem não conhece línguas - e terras, digo eu - estrangeiras, não pode saber muito da sua. João Soares Neto, Cônsul do México no Ceará CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/11/2008. - [COISA PÚBLICA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/coisa-publica-jornal-o-estado/): Não sei bem a razão porque insisto em falar neste assunto. Há um entendimento errado de que coisa pública não tem dono. A coisa ou bem público pertence a todos e está sob a guarda de administrações, sejam prefeituras, estados e a União e merecem o olhar atento de cada pessoa. Não sei se é assunto bom para hoje, mas amanhã não será um mero feriado, mas o dia da Proclamação da República, ocorrida no Rio de Janeiro na manhã de 15 de novembro de 1889. Consta que, embora com falta de ar, o Marechal Deodoro da Fonseca saiu de sua casa, forçado por partidários e camaradas. Reuniu a tropa militar que comandava e montado em um cavalo na Praça da Aclamação, disse a frase: “Viva a República.” Desceu do cavalo, voltou para casa e cuidar da dispnéia que o combalia. O império já estava podre e caiu de maduro. Todos torciam contra, até os próximos do Imperador D. Pedro II. Voltemos ao hoje. Em qualquer cidade brasileira há bens e prédios públicos abandonados, sem uso, ensejando saques e invasões. Na maioria das repartições públicas há sinais evidentes de ausência de comando, atendimento ineficaz, mesas e cadeiras vazias, energia elétrica gasta em profusão, amontoados de funcionários em conversas hilariantes tomando cafezinhos e, quase sempre, faixas reivindicatórias por melhores salários e condições de trabalho. Esse retrato tem exceções, é claro. Mas não há um só cidadão brasileiro que não tenha sentido o desleixo como são tratados os bens e coisas públicas. E esses mesmos cidadãos, eu inclusive, são os que elegem os administradores públicos maiores. Os de segundo e terceiros escalões são, quase sempre, frutos de conchavos políticos onde o mérito não é o que mais importa. Então é nossa culpa. Nada de apontar o mesmo dedo que digita números e nomes nas urnas eletrônicas para os políticos que se perpetuam no poder, graças a falta de compromisso social de cada um de nós. O próximo ano estará livre de eleições, mas será, quem sabe, o mais político desta década, pois em arranjos partidários serão conhecidos os candidatos a presidente da República e Vice, governadores de estados e seus vices, senadores, deputados federais e estaduais. Aproveite este fim-de-semana e faça uma reflexão pessoal sobre o seu voto e o seu compromisso como cidadão. A cidadania não é moda, é exercício. É a luta por seus direitos fundamentais, por um estado democrático de direito e a capacidade de se considerar apto a influenciar no destino de seu país, estado ou cidade. No final das contas, como disse J.Stuart Mill, “o valor de um Estado é o valor dos cidadãos que o compõem.” Viva a República. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/11/2008. - [PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/premio-nobel-de-literatura-jornal-o-estado/): Bem que, há tempos, eu desconfiava. Já havia até falado para um amigo letrado e leitor de Saramago sobre este assunto. Agora, realmente, comprovei. A escolha dos agraciados com o Prêmio Nobel de Literatura é uma ação entre amigos suecos e demais europeus. Se não tiver nenhum bom nome europeu, os 18 da comissão podem até fazer uma concessão a autores de outros países. A comprovação é fruto das minhas leituras desataviadas que foram bater os olhos em reportagem de Eduardo Simões e Sylvia Colombo, para a Folha. Vi que Horace Engdalh é o porta-voz e secretário da Academia Sueca, a que concede os prêmios Nobel. Engdalh, ao falar para o jornal sueco Dagens Nyheter, afirmou, sem meias palavras, que “há autores de peso em todas as grandes culturas, mas você não pode descartar o fato de que a Europa ainda está no centro do mundo literário”. Não contente com as besteiras ditas, arrematou: “Os EUA são muito isolados, não traduzem o suficiente e não participam do diálogo de literaturas. Esta ignorância os limita. Eles também não se distanciam da cultura de massa que prevalece no país.” Os gringos ficaram com raiva e a resposta certeira veio do editor David Remnick, da consagrada revista New Yorker. Ele disse: “A análise de Engdalh é banal e presunçosa. A lista de omissões no Nobel é muitas vezes mais contundente do que a dos escolhidos. Já mereciam ter sido premiados Philip Roth, John Updike, Thomas Pynchon, Ian McEwan e Mario Vargas Llosa.” Ficou clara para mim a razão de autores como o brasileiro Jorge Amado, com suas mulatas e narrando a cultura popular da Bahia, e o argentino Jorge Luís Borges, com sua poesia sublime e prosa cortante, terem morrido sem o galardão. Brasil e Argentina têm grandes culturas? Segundo os critérios do tal Engdahl, certamente que não, pois ficamos nos trópicos. Há um viés ideológico declarado e uma proteção aos autores europeus. Abre-se, todavia, uma perspectiva com a morada definitiva de Paulo Coelho na França, tal como o ganhador deste ano, Jean Marie G. Le Clézio. Quem sabe se Engdahl não recebe de presente de Natal um exemplar do Exorcista e se maravilha com a literatura nele contida? Rezemos que sim e esperemos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/11/2008. - [TEMPOS CHINESES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tempos-chineses-diario-do-nordeste/): A crise troava embaixo e eu voava de Dubai a Pequim. Sete horas depois, abria-se o novo aeroporto onde a imensidão da terra de Lao Tsé é transposta para a abóbada gigantesca que afirma, em arquitetura, aço e luzes o poder da nova China, a que emerge das Olimpíadas ao mostrar aos visitantes deste 2008 um país forte, com autoestradas, indústrias, universidades, arranha-céus hi-tec, hotéis, estádios, carros de luxo e um ar de futuro, no presente. Esquadrinhei o que ver, diferente da Ásia que vi em 1991. Olhei até como moradias humildes ficaram atrás de muros. Vi parques, palácios e jardins, lindos. Depois, fui aos arredores admirar as Grandes Muralhas. Metido a viajado, ousei usar o metrô (Bombardier-canadense), novo, limpo como um lençol branco e ir ao Ninho do Pássaro, estádio das cerimônias olímpicas. Mergulhei. Feliz, voltei à superfície e lá estava ele, majestoso em tom gris. Mas havia barreiras metálicas e me rendi à versão chinesa do mototáxi brasileiro. O guiador desse riquixá mecanizado, fica no selim do triciclo e há um banco de costas para dois passageiros. Seus guiadores andam por cima de passeios, cruzam faixas de pedestres e não dão bola para nada. Escapei. Milhares de turistas, quase todos asiáticos, abraçavam o Ninho. Obedeciam a ordens de guias com bandeiras coloridas. Eu me desguiava. Comprei o ingresso e entrei. Toquei a estrutura metálica e vi que tudo funciona nesse lugar onde deram e dão um show de tecnologia e organização. Agora, o lugar é palco diário para milhares de visitantes verem reapresentações e telões. Certamente que fui à Praça da Paz Celestial e à Cidade Proibida, que estava aberta, e o mausoléu de Mao, fechado. Outros tempos estes em que o mercado parece substituir o Livro Vermelho e a China é credora dos Estados Unidos, país que escolhe nesta terça um presidente entre a alvura republicana de McCain, herói de guerra, e a negritude redimida pós-Kennedy de Obama, filho de muçulmano. Vejo o último debate deles de um quarto de hotel neste outono chinês, enquanto meus olhos pairam na tela da CNN invasora - com legendas em Mandarim - e me belisco para sentir que não estou sonhando. Entramos no amanhã? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/11/2008. - [SOBRE A MORTE DE JOVENS - JORNAL O ESTADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sobre-a-morte-de-jovens-jornal-o-estado/): O que fazer quando a morte bate à porta de pessoas queridas? O que dizer então para os pais quando perdem filhos jovens e em plena efervescência da vida? Na dor, todos estão sós. Cada um sofre na sua forma pessoal, não há como comparar dores. Você pode ser mais forte ou contido, mas isso não quer dizer de sua dor, mas da forma como a expressa ou não. Você pode chorar rios de lágrimas, maldizer o Senhor e duvidar de sua fé, mas esse é o seu jeito. Talvez seja até o caminho da possível cura ou da conformação. A morte é uma trilha desconhecida pela qual todos passarão. Ela vem silenciosa, pungente e não poupa ninguém. Tem seus próprios tempos e modos. Escolhe e ceifa, não há como entender esse mistério. Se escolhe, elege. Se elege, deve ter alguma razão insondável. Mas vá dizer isso para pais inconsoláveis que, abruptamente, recebem a notícia da morte de seus filhos. Creio que devo invocar o filósofo Sócrates: “Pois bem, é hora de ir; eu para morrer, e vós para viver. Quem de nós irá para o melhor é obscuro, menos a Deus”. O que virá depois da morte? Como somos pecadores e não temos onisciência é que nos afligimos pelos que morrem, especialmente se jovens. O poeta russo Maiakovski achava que “não é difícil morrer nessa vida, viver é muito mais difícil”. Já se disse que os jovens que morrem são mais estimados pelo Céu e por tal razão seguem antes. Xenofonte, filósofo e historiador grego, ao receber a notícia da morte de seu filho, falou: “Eu sabia que meu filho era mortal”. Todos sabemos disso, mas como entender a ordem que ela escolhe? Svevo, escritor italiano do século passado, afirmava que “os mortos nunca foram pecadores”. Faz sentido. Os vivos são os pecadores. Se a morte é o encontro da paz, pensemos como Heine, poeta alemão, que dizia que a função de Deus é perdoar os mortos. A vida, penso eu, não tem grandes respostas, vive de perguntas. Essas perguntas, por exemplo, nos levam a admitir que a morte não faz sentido para os vivos. Por outro lado, será que a vida tem significação para os que deixaram de existir? Assim, em meio ao que escrevi ou transcrevi é que do meu jeito, meio sem jeito, me solidarizo com os que não encontram respostas prontas para as mortes de seus jovens filhos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/10/2008. - [DESERTO E PROGRESSO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/deserto-e-progresso-diario-do-nordeste/): Voltei de uma viagem profunda, embora breve. Foram milhares de quilômetros em pássaros metálicos novos a mostrar que o futuro chegou com a correção e distinção do atendimento multilíngue. Desci na primeira parada, aturdido. Era o esplendor do novo em meio a um calor de frigideira de ovos. Apesar disso, pude conversar com gente de todo tipo, raça, credo e cabeça. Não deixei ninguém de fora. Assim, abordei intelectuais, cientistas, autoridades, ricos, remediados, pobres, religiosos, ateus, jovens e velhos. A todos, fiz a pergunta: o mundo vai acabar? A reação, quase sempre, foi de estranheza. Com exceções, se assustaram, mas disseram que não e, foram mais longe, enfatizaram, cada um a seu modo, que as crises, entre outros fatores, são ainda produtos de vícios do século passado, criadas pela ilusão do lucro fácil, ideologias, dominação político/militar e a simbiose entre as atividades produtivas e a grande especulação financeira. Tudo isso junto, deu, segundo ouvi e deduzi, origem à Grande Depressão de 1929, a Segunda Guerra, a Revolução Chinesa de Mao, passou pelas guerras com a Coréia e Vietnã, a Guerra Fria com a queda do Muro de Berlim e o fracionamento da União Soviética em países de etnias distintas, invasões de países árabes pela busca ávida do petróleo, até o triste 11 de setembro de 2001, a ocupação do Iraque e todos sabem o resto da história. Hoje, mais uma crise envolve o mundo e a mídia internacional se alimenta de desgraças e dos alvitres que desejam plantar e colher. Alheio a esse jogo de xadrez geopolítico, vi brotar no deserto escaldante um planejamento urbano meticuloso e centrado no futuro, ao tempo em que surgem edificações cintilantes, majestosas e até exageradas. Mas, são talvez símbolos metálicos e concretos de uma nova geração de raça ciente de seu poder econômico a fincar raízes estruturais que parecem gritar: vejam, nós não somos o que pensam ou ouvem, somos o que estamos a construir. E não param. Estou falando de Dubai, Emirados Árabes, mas não sou guia turístico. Sou catador da essência do que ouço e vejo, Vi, quem sabe, na grandiosidade, a eloquência silenciosa de vozes não auscultadas sobre seu destino e história de milênios. A viagem não parou aí. Isto foi só o começo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/10/2008 - [O ENCONTRO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-encontro-jornal-o-estado/): ‘O mistério do galo não está na ilusão de que ele seja capaz de fazer nascer o sol, mas em que seu canto anuncia a existência do sol, mesmo ainda por nascer Cacá Diegues Conheço pessoas inteligentes, capazes profissionalmente, independentes, mas, apesardisso, não tiveram a coragem de marcar um encontro. Esse encontro é duro, fere profundamente e, na maioria das vezes, deixa sequelas. É preciso ter coragem para assumir o risco desse encontro. Não importa que você seja jovem ou velho, bonito ou feio, alegre ou triste, crente ou ateu, casado ou não; o importante é o encontro. Mesmo que alguém ou circunstâncias forcem esse acontecimento, se ele aconteceu não fuja dele, não se esquive com o manto das aparências que nada cobrem e despem até o que é nu por natureza. Esse encontro é um acerto de contas com o passado e um compromisso com o futuro. E aquele compromisso definitivo consigo mesmo, a que se referia Goethe. A partir desse encontro - e é Goethe quem diz - começa a acontecer todo o tipo de coisas para ajudar a você, o que não aconteceria se esse compromisso não existisse. Uma torrente de eventos emana das decisões favorecendo a pessoa com toda a espécie de encontros imprevistos e de ajuda material que homem nenhum poderia sonhar achar no seu caminho. Tudo o que você puder fazer ou sonhar, você alcançará. Sendo assim, mãos à obra. A ousadia contém genialidade, poder e magia. Comece agora. Deixando Goethe de lado e encarando a loucura santa do prematuramente falecido poeta Paulo Leminski, é preciso “não discutir com o destino, o que vier eu assino”. É preciso assinar, colocar o nome no que você faz conscientemente, assumir o encontro com o destino. E o que é o destino? Será, por acaso, o mundo das coisas se acasalando ou se chocando com o mundo das ideias ou das palavras? Mas, como diria um filósofo de botequim, é preciso deixar o pessimismo para tempos melhores. A hora do encontro é tempo de cataclisma e só se vence a tragédia com ação e riso. A ação é o remédio imediato. O riso é a capacidade de não levar a sério o seu drama, de debochar do seu ensimesmamento e encarar de peito aberto a nova consciência de sua individualidade, que o levaria irreversivelmente para a solidão a que todos estão sujeitos, não fora a solidariedade dos que ainda acreditam em você, a começar por você mesmo. É claro que essa hora do encontro nos mete medo. É preciso não ter medo do medo, pois como diz Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones: “O medo é uma coisa boa. Se você não tiver medo, pode acabar pulando pela janela”. Assuma os seus medos e admita que haverá um instante, independente das suas pretensões ou apreensões, em que tudo se tomará claro e o que lhe turvava os olhos passará a ser o colírio que mostrará o brilho da vida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/10/2008. - [LONGE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/longe-diario-do-nordeste/): Resolvi dar uma trégua ao corpo e revigorar a alma. Ouvi-os e senti que precisava dar uma parada no trabalho e no dia-a-dia da minha cidade. Apenas um par de semanas, mas já estou voltando. Montaigne, escritor francês do século XVI, o das grandes descobertas, dizia: “Geralmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens, respondo que sei bem do que estou fugindo, mas não o que estou procurando.” Peguei o primeiro aeroplano e fui procurar novos ares. Não, não fui para o circuito Elizabeth Arden, tampouco aproveitar o sol das praias que restam ensolaradas em meio às estações que mudam com os hemisférios. Fui ver o que não conheço e rever o que vi pouco. Outros tempos, outros olhares. Esmiuçar lugares estranhos e passar longe do que costumeiramente se faz. Aprendi a viajar em aviões pequenos, ao lado do meu pai que me pedia para ler a bússola e segurar nos manetes. Depois, tomei peguei gosto e a estrada da vida, descobrindo que o mundo é também a minha casa. Vi sóis, chuvas, relâmpagos, trovões, ciclones, neves, desertos e florestas. Senti-me parte disso tudo, sem deixar de ter minhas referências. Amo a liberdade de ser apenas um e não fazer parte do todo que me abriga por um tempo, qualquer que seja ele. Olho para estranhos que nunca reverei e penso no que são e fazem e, algumas vezes, ouso até perguntar. Erro, quase sempre. Como desvendar a alma humana - se ela é um mistério - com um simples olhar? E me perco no encontro de ruas em que passo e repasso, procurando o que não sei. Mas, encontro o inesperado. Remexo em livros de uma livraria grandiosa ou despojada, ouço músicos de rua admirando a coragem de exporem seus chapéus à cata de trocados. Não faço fotos, retenho tudo na memória. Sento em um bar e bebo lentamente, esperando que esse longo drinque se transforme nos espirituais prometidos pelas águas límpidas dos rios que circundam as montanhas da terra de Sir Walter Scott. Não, não estou na Escócia. Lá só fui uma vez e basta. Estou longe, tão longe que o dia é noite e a noite se faz dia, segundo os meridianos de Greenwich. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/10/2008. - [MÉDICO, AMANHÃ - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/medico-amanha-jornal-o-estado/): Bem que meu pai tentou, mas, teimosamente, não segui seu conselho. Não fiz vestibular para medicina, mas sempre admirei essa profissão que começa com a Anatomia e não tem fim. Dizia W. Whitman, poeta americano dos bons, "se existe alguma coisa sagrada, esta é o corpo humano". O corpo humano é o templo dos médicos. É nele que vão descobrindo a alma do paciente, ouvindo suas queixas, conhecendo-lhe os cinco sentidos, interpretando-lhe os exames e curando-lhe os males. Nesta já não tão breve vida, conheci de perto e me tornei amigo de muitos médicos, homens e mulheres. O que mais me cativa nessa profissão é a capacidade que cada um tem de administrar sua vida, enquanto outras vidas dependem do que leram, mourejaram em plantões, hospitais mambembes, residências, especializações, mestrados e até doutorados. Não é fácil ser oftalmologista e dizer a alguém que ele vai ficar cego. Tampouco, como fica um anestesiologista ao defrontar com um acidente de choque anafilático? E o hematologista ao descobrir, entre lâminas e microscópios, a leucemia que, quase sempre, ceifa vidas? E o oncologista que não gosta de falar a palavra câncer, mas sabe que precisa ser honesto e objetivo em seus diagnósticos? Como fica um nefrologista vendo um ser sendo destruído pela ingestão diária de álcool? E o pediatra que escuta o choro do bebê que não pode dizer o que sente? E o pneumologista que tenta fazer com que seus pacientes e a humanidade parem de fumar e poupem seus pulmões? E o radiologista que lê os nossos ossos e músculos? E o que dizer do cirurgião, entre sangue, artérias e músculos, a limpar o campo para o seu trabalho árduo de extirpar ou remendar? E o psiquiatra que cuida da alma, mas vê o corpo como resposta a perguntas que não pode fazer ao paciente. Há tanta grandeza no trabalho dessas pessoas que se dividem em empregos para procurar ter a dignidade que o juramento feito por Hipócrates lhes cobra. Amanhã é o Dia do Médico, essa criatura que não tem hora, tampouco dia, para o não fazer nada, pois o corre-corre do mundo e das pessoas a faz sempre necessária para o nosso bem-estar. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/10/2008. - [CRIANÇA, HOJE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/crianca-hoje-diario-do-nordeste/): Foi semana passada, mas há mais de dez lustros. Eu fui criança, acreditem. Sem essa de psicólogo, analista e que tais. O dr. Mário Mamede passava xaropes, purgantes e Calcigenol irradiado. Chupavam-se rolete de cana, pitomba e manga, tomavam-se refrescos, comiam-se pastel e goiabada. O dever de casa era feito sozinho, sem repetidora, todos dormiam em camas “Patente”, após tomar banho, jantar, rezar e deitar cedo. Após a escola, jogava-se pelada ao sol quente. Havia seriado nos cinemas e os índios sempre perdiam para os cowboys ou se via o Flash Gordon, com Steven Holland. Agora, as crianças têm grilos, seguem dietas, os pais ‘pisam em ovos’ e mesmo que tenham lido o Livro do Bebê, do Dr. Delamare, ou outros mais atuais, há um longo aprendizado - sem escola - que não termina nunca. Pois é, hoje é o Dia da Criança. A criança hoje, mesmo pobre, tem uma televisão em casa, ouve música em som três em um e brinca com jogos eletrônicos em que o objetivo sempre é vencer corridas, acertar objetivos e tentar não perder, nunca. Platão dizia que “os filhos dos homens, dentre todos os animais jovens, são os mais difíceis de serem tratados”. Não são muitos os considerados bons pais, apesar de terem tentado. Deus sabe como, mas há um fosso de tempo físico na linguagem que medeia o relacionamento entre pais e filhos, mesmo que sejam camaradas e pai e mãe pensem na mesma direção, o que não acontece sempre. Ninguém é filho(a) apenas do pai ou da mãe. São duas cabeças diferentes que formam um casal. Se afinarem, ótimo. Há a tal da herança genética, a convivência e a afinidade natural com a mãe, especialmente se as filhas forem mulheres, criando um halo de relacionamento maior. O pai, já disse, é um ser periférico e precisa esquecer o mundo profissional em que vive para ter a família junta e feliz. Acho que estou fugindo do tema a que me propus, pois como bem falou C. Pavese, escritor italiano da primeira metade do século XX: “não é bom ser criança: bom é, quando somos velhos, pensar em quando éramos crianças”. Agora, aproveitem este domingo, juntam as crianças, filhos e netos, lambuzem-se de benquerença. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/10/2008. - [RESSENTIMENTO E FELICIDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ressentimento-e-felicidade-jornal-o-estado/): Há uma frase bem conhecida de Tom Jobim: "o sucesso no Brasil é ofensa pessoal". Por que razão parte dos brasileiros não aceita que o outro tenha sucesso? A propósito, o que é sucesso? Garrincha, um dos maiores jogadores de futebol do mundo, foi um sucesso? E o seu alcoolismo? Ninguém é um sucesso pleno, pois a vida parece não completar tudo para ninguém. Há sempre uma busca incessante por algo mais. Sempre falta alguma coisa. Voltando ao eixo, creio que há, em muito brasileiro, um grau elevado de ressentimento. Ressentimento pode ser a palavra certa. Sentimento que ele, o ressentido, imagina seja o sucesso - ou distância - de alguém que queria seu, próximo ou eliminado. Friedrich Nietzche, pensador alemão do fim do século XIX, dizia que "a memória do ressentido é uma digestão que não termina". E essa digestão que não termina sempre é dirigida contra alguém, algo, lugar ou até, por exemplo, grupo, associação ou partido. Sem que o alvo desse ressentimento tenha ciência, pode ser difamado, observado, marcado, até para uma "vingança". Lembram do caso do fã que matou John Lennon? Recordam do muçulmano que atacou e atirou no Papa? Pois é, para essas pessoas ressentidas há a necessidade de uma revolta e vingança contra o objeto de seu desejo irresolvido ou desvio mental, como se a sua infelicidade decorresse do erro do outro ou de um grupo, religião, seita. Quem é ressentido, diz a psicanalista Maria Rita Kehl, com base no que estudou em Nietzche, não sabe amar e não quer amar, mas deseja ser amado. E para o ressentido, o outro é sempre mau. Ele é que é o bom. Se dividirmos a palavra ressentir, teremos re-sentir. Notamos que é sentir de novo. É a volta de uma dor não resolvida que se aprofunda até desviar o ressentido do eixo normal da sua própria vida. O ressentido repete, forte e pungentemente, seu desvario, ao invés de procurar a sua própria felicidade, que é a sensação ideal de completude, de levar a vida se arriscando para alcançar o que almeja, buscar amar sem medo da possível perda futura. Já há uma quase felicidade na ação, na procura da realização do desejo e é assim que imagino deva a vida ser tocada. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/10/2008. - [SEU VOTO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/seu-voto-diario-do-nordeste/): Não sei a que horas você vai abrir esta página de jornal, tampouco se vai ler o óbvio que escrevo, de forma simples. Admitamos que seja cedo e ainda não tenha votado. Hoje é dia de eleição municipal. A Constituição de 1988 entendeu que os brasileiros precisam votar de dois em dois anos. Neste ano, você votará duas vezes. Em alguém para ocupar a prefeitura de sua cidade e escolher um vereador. Vamos ficar, por enquanto, no vereador. Você sabe que o vereador é que ajuda a fazer e rever as leis do município? Saiba que ele é uma espécie de preposto seu, procurador ou representante, que decidirá como a cidade cresce através de um plano diretor, cobrados mais ou menos tributos, as ruas sejam bem assistidas pelos serviços essenciais e que haja uma estrutura básica de saúde e educação públicas para os que não têm planos de saúde e não podem pagar a escola para os filhos. O vereador não precisa ser bom em karaté, futebol ou sinuca, sambista, cantor, sanfoneiro ou religioso. Ele precisa ter lucidez, saber ler, ter descortino, capacidade de observação e, se possível, ser sério para evitar tentações e cometer deslizes ou conchavos. Não se deseja a eleição de anjos ou santos, mas, pelo menos, que a pessoa tenha uma história de vida digna, sem nada a esconder ou fingir. Agora, vamos falar das pessoas candidatas a prefeito. Não importa sejam homens ou mulheres. Vale ter vínculos reais e permanentes com a cidade que pretende dirigir. Essa pessoa, mulher ou homem, deve ser alguém que você convidaria para administrar o grande condomínio que é uma cidade. A diferença desse condomínio é que os condôminos têm culturas, saberes, valores, aspirações e rendas diferentes. Assim, essa pessoa tem que possuir sabedoria para repartir os recursos ou receitas contemplando prioridades, sem esquecer que a cidade é um todo que deve crescer de forma harmônica. Em todo condomínio há discussão. Nas prefeituras, também. Assim, é importante essa pessoa ter liderança e capacidade para arregimentar auxiliares idôneos, aptos e que tenham espírito público. Se já votou, desculpe pela amolação. Caso contrário, pense e vote bem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/10/2008. - [LÍNGUA MEXIDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lingua-mexida-jornal-o-estado/): Diz Mauro Villar, co-autor do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “que a ortografia é uma convenção. As pessoas vão assimilar as mudanças”. Diz também que as crianças não terão dificuldade, pois vão começar a aprender, já da nova forma ortográfica. Estou falando do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado pelo Presidente Lula, no dia 30 de setembro passado, terça-feira. Por esse Acordo, menos de 1% de nossas palavras terão modificações em sua grafia. Machado de Assis, tão celebrado esta semana, foi até citado por Lula: “Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra. E assim se faz um livro, um governo ou uma revolução”. Não entendi bem o encaixe da citação de Lula, mas admito que ele tenha querido dizer que o seu dom da palavra fez o governo atingir os elevados índices de popularidade. Esperemos, enquanto isso, que esse cataclisma, abalando os mercados financeiros do mundo, não cause transtornos maiores ao Brasil. Voltando ao fio da meada, revela o IBGE: oito entre dez crianças, que não sabem ler e escrever, estão na escola. Essa pesquisa, feita agora, mostra que 84,5% das crianças de 8 a 14 anos, que não sabem ler, estão estudando e somam 1,1 milhões de jovens. O Nordeste abriga 746 mil dessas crianças, que não sabem ler. Se não sabem ler, qual a diferença para elas que os ditongos “ei” e “oi” não sejam assinalados com acento gráfico? Qual o sentido de uma professora primária - mal paga - informar que não são assinaladas, com acento gráfico, as paroxítonas cujas vogais tônicas “i”e “u”são precedidas de ditongos crescentes? O Brasil tem outras prioridades, além dessas mudanças linguísticas, que não farão que a língua portuguesa falada aqui se identifique totalmente com as de Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Um dos maiores críticos da reforma ortográfica é o professor de português e consultor linguístico Sérgio Nogueira: “na minha opinião, o Brasil precisa de outras reformas, no Judiciário, na economia e na política, não de uma reforma ortográfica”. Pergunto a você, qual a consequência da palavra consequência não ter mais o trema? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/10/2008. - [](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/3448/): MACHADO DE ASSIS - Diário do Nordeste Amanhã, Machado de Assis completará 100 anos de morto. E, paradoxalmente, está vivo. Centro de discussão no Brasil e mundo afora. Não custa lembrar que Machado é, ao juízo geral, o maior escritor brasileiro. Vale dizer também que a Academia Brasileira de Letras, fundada por ele em 1897, está vivíssima, até aceitando Paulo Coelho em seus quadros. Mas, isso é outro assunto. Machado escrevia poesias, canções, peças de teatro, contos, crônicas e romances. Hélio de Seixas Guimarães, estudioso de Machado, refere que ele é “o maior contista e romancista do século 19, não só profundamente interessado pelas questões de seu tempo e lugar, mas talvez o mais agudo e radical crítico das instituições sociais e políticas do Segundo Reinado.” Autor consagrado pelos romances - para ficar nos principais: A Mão e a Luva, Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Este, pela trama insolúvel, envolvendo os personagens Bentinho, Capitu e Escobar, consegue ser objeto eterno de controvérsias entre críticos, psicanalistas e acadêmicos. Divagam sobre adultério, dissimulação, remorso, afabilidade e hipocrisia. Por outro lado, até hoje, 109 anos após sua publicação, em 1899, causa ‘frisson’ e ciumeiras entre intelectuais que se dizem machadianos. Como é natural, sempre houve críticos, como Sílvio Romero que dizia, à época, que Machado “macaqueou Laurence Sterne”, escritor irlandês do século 18, autor de “A Vida e as Opiniões do Cavaleiro Tristam Shandy”. Coelho Neto referia que “as casas de Machado não tinham quintais”. E daí? Harold Bloom, o maior crítico literário do mundo, ainda vivo, incluiu Machado entre “Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura”, livro do início deste século. Bloom também procurou semelhanças entre os textos de Sterne e de Machado, mas diz que “lembrar Machado é trazer à memória novamente os momentos em que me diverti com seus personagens”. Outro estrangeiro, John Gledson, professor inglês da Universidade de Liverpool, reclama do apelido de “Bruxo”, dado a Machado e atribuído a C. Drummond de Andrade, por seu poema” A um bruxo com Amor (“Em certa casa da Rua Cosme Velho...”) O fato é que, bruxo ou não, Machado é imortal. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/09/2008. - [FORTALEZENSE, HOJE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fortalezense-hoje-jornal-o-estado/): A Academia Fortalezense de Letras tem, a partir da noite de hoje, uma nova diretoria. O que será feito nestes dois anos de administração só o futuro dirá. Ednilo Soárez, o presidente que sai, deixa uma academia com vida, letras e caixa. Muitos dos acadêmicos têm, nos últimos seis anos, produzido obras dos mais diversos gêneros, densidades e críticas.Uma academia de letras – todos sabem - não é algo essencial, mas é indispensável aos que têm dissonâncias com a realidade imposta e sonham com sua transfiguração por meio da palavra. Sem elas, o mundo seria ainda mais cru, real, menos poético. Sem a sutileza, cuidado e determinação dos que escrevem ensaios, artigos, crônicas, contos e romances, o mundo perderia o enlevo, a graça e, quiçá, um pouco de sabedoria. Nessa diretoria que toma posse em reunião nesta noite no Palácio de Luz, berço da cultura acadêmica cearense, há pessoas com valores essenciais como Newton Freitas, com sua clara imagem de porto de letras e das artes; de Matusahila Santiago, que saiu de sua Casa de Juvenal Galeno para alicerçar o chão virtual ora pisado e volta com energia, depois de um tempo de dores vividas e não divididas; de Eduardo Fontes, jornalista, administrador e advogado, ciente de seu novo papel de escrivão nessa nau que zarpa em rumo a um mar de letras; de Roberto Gaspar, advogado, escritor e guardião veraz dos parcos reais das mensalidades; de Cláudio Pereira, lépido em seus múltiplos agitos, giros e registros culturais desta terra; de Vicente Alencar, duplamente fortalezense, senhor da terça de prosa e verso; de Leda Maria, a vate do colunismo a cobrar acontecimentos que devam ser publicizados; de Regina Fiúza, a senhora da sensatez e da articulação; de Beatriz Alcântara, séria e imparcial escrutinadora das palavras e ciosa do que é editado anualmente na revista Acta Literária. É uma equipe ainda em formação que recebe, certamente, os augúrios imanentes do Presidente de Honra, Artur Eduardo Benevides. Unidos, poderão, parodiando Sartre, fabricar grandes circunstâncias com os pequenos feitos de cada um. A proposta de trabalho passa pela compreensão de todos os acadêmicos no entendimento de que a Fortalezense é uma coletividade viva e complexa que só poderá crescer com o empenho de cada um na discussão e implementação da cultura em seus vários gêneros, com ideias que, se possível, inovem. Inovar é difícil, pois como dizia Paul Valéry:” Muitas vezes as objeções nascem do simples fato de que aqueles que as fazem não são os mesmos que tiveram a ideia que estão atacando.” João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/09/2008 - [EDILMAR NORÕES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/edilmar-noroes-diario-do-nordeste/): Faz muito tempo. Estava a estudar com Navarro Gondim, enquanto o rádio da Lila, sua irmã, tocava alto. Ela ouvia um programa da Rádio Verdes Mares, “Musifone” (alô Brotos, alô) comandado por Edilmar Norões, moço que viera da sua Barbalha e dava os primeiros passos em Fortaleza. Enquanto isso, no centro, os sinos da Igreja do Carmo anunciavam a missa dominical do Pe. Gaspar. Eu ficava no patamar e via as jovens Studart chegando. E, entre elas, Lucila, que talvez ouvisse o programa “Musifone”. Tempos depois, Lucila casa com Edilmar, já meu contemporâneo na Faculdade de Direito da UFC. Quem casa, quer casa e o destino nos reencontra na compra do seu primeiro apartamento. E aí é preciso dizer que havia as tertúlias noturnas e dominicais do Clube Maguary, no final da Barão do Rio Branco.E formávamos - Edilmar, Lucila, parentes e amigos - uma grande mesa, “a mesa do espelho”, pois, defronte a ela, havia um, resplandecente, a permitir vigilância dos diretores e dar ilusão aos casais dançantes que, de soslaio, nele se miravam pensando ser Fred Astaire e Ginger Rogers. A mesa tinha salgadinhos, guaranás, cervejas e os runs Merino ou Bacardi, as bebidas da moda. O tempo não para e o Edilmar passou a ser o cronista político que ainda hoje o é na mesma rádio. E aí Edson Queiroz, chefe e amigo, funda este Diário do Nordeste e lá vai, Edilmar- sem deixar a rádio e de cuidar da TV Verdes- ser o Editor de Política, aí na terceira página, onde permanece até hoje. Com sabedoria, bons ouvidos e discrição, trafega em todas as rodas políticas, pesando o que ouve e publica. E já nesse tempo, cada um na sua faina, fazíamos parte de outro grupo heterogêneo que se reunia aos sábados sob os olhares de Astrolábio e Edson Queiroz. Depois, os abriguei e a sua ACERT por anos e, mesmo que hoje não convivamos no dia a dia, somos próximos por fraternidade, aquela que não requer exposição, mas atitude no momento certo. Essa história toda é para dizer que Edilmar, profissional sem jaça, marido exemplar, pai e avô querido, é objeto de estudos por acadêmicos da Universidade de Fortaleza e eu procurei apenas deixar escrito o que a memória e o coração sabiam. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/09/2008. - [SEMANA DIFERENTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/semana-diferente-jornal-o-estado/): Esta semana está sendo diferente. A Bolívia vive em estado de guerra civil. O 4º. Maior banco americano quebrou, as bolsas de todo o mundo caem e Lula tem o maior índice de popularidade da República. E é porque agosto era o mês tido como aziago. Estamos em setembro, na véspera da primavera, faltando dois dias para o Dia da Árvore (plante uma, por favor) e ouvindo o tempo marcar hora para as eleições municipais do próximo dia 05 de outubro. Em janeiro, teremos novos ou reeleitos prefeitos, novos ou reeleitos vereadores. Milhares de funcionários públicos estarão lutando para manter ou obter um cargo comissionado, enquanto estranhos a esse quadro querem nele entrar como recompensa ao trabalho que dizem ter feito. Receberam promessas e cobrarão, certamente. Quem perder, vai limpar gavetas, apagar registros em computadores, reclamar da família, amigos, colegas, apoiadores e deixar dívidas que não serão quitadas, pois a desgraça só se completa com o abandono do barco pelos que já acenam para outras naus. Evo Morales, em meio ao confronto, é tido pelos “cambas”, os ricos de Santa Cruz de La Sierra, como um “colla” exótico em seu marxismo-indígena-bolivariano, que prende um governador e é recebido em Santiago do Chile como ‘avis rara’, alguém que, dizem, não sente estar em plena primeira década do século XXI, essa tal pós-modernidade que abomina o passado, especialmente os pensamentos sedimentados e transmitidos no Século XIX por filósofos e pensadores. O Lehmans Bank, do alto dos seus 156 anos de idade, deixa um rastro de destruição, bolsas despencam e há prejuízo de bilhões de dólares no encontro das finanças com a realidade de um mercado sem compromisso com a longevidade de seus pares. Enquanto isso, Lula lê as pesquisas favoráveis e dialoga com o espelho complacente. Vê, com alegria, os dentes refeitos, por ortodontistas, enquanto cofia a barba bem aparada, olha as não-rugas de sua “galega” e pergunta a si mesmo: há alguém mais feliz que eu? O não, não, não, ecoa pelos corredores do Palácio, acordando fantasmas dispostos em fotos na galeria que contempla indicados, impostos e eleitos. O vento encontra a noite desavisada e faz cair ao chão um outdoor da Coca-Cola. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/09/2008. - [ARRIBA MÉXICO! - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/arriba-mexico-diario-do-nordeste/): Conta a tradição nacional que foi preciso o Grito do Ipiranga para acontecer a Independência do Brasil em 1822. No México, doze anos antes, em 1810, no mesmo mês de setembro, exato no dia 16, terça, aconteceu o Grito de Dolores. Há quase três séculos os espanhóis colonizavam o México, mas, tal qual ao Brasil, existiam divergências políticas com a Corte, Madrid. O fato é que o Padre Miguel Hidalgo, na paróquia de Dolores, em Guanajuato, na madrugada de 16 de setembro de 1810, fez uma Declaração considerando o país como Império Mexicano, uma monarquia independente da Espanha. A semelhança entre as independências brasileira e mexicana para por aqui. No Brasil, houve o rápido aceite de Lisboa, pois D. Pedro I era português, a monarquia lusitana acabava e acreditava-se que tudo continuaria na mesma. No México, a história foi diferente. Após a declaração feita por Miguel Hidalgo que faleceu em 1811, houve sangrenta luta pela Independência concreta, chefiada por José Maria Morelos y Pávon. Essa luta transformou-se em guerrilha, inicialmente em Oaxaca, comandada por Vicente Guerrero e Guadalupe Victoria, uma suposta mulher, que na verdade era Manuel Félix Fernandez. Com foco nas montanhas do Sul, a guerra durou anos. Foi o coronel criollo, nascido em Valladolid, Agustín de Iturbide, quem, de fato, negociou com o Rei Fernando VII, de Espanha, em 24 de agosto de 1821, a Independência, pelo Tratado de Córdoba. Em 27 de setembro de 1821 foi instalado, finalmente, o Império Mexicano que se baseava em três princípios ou garantias de independência: o México seria uma nação independente, mas governada pelo rei Fernando VII; criollos e peninsulares teriam os mesmos direitos, obrigações e privilégios; e a Igreja manteria o monopólio religioso. Assim, se iniciou a implantação do ‘Plano de Iguala’ sob a égide de Iturbide, agora um paladino da independência, que satisfazia liberais e conservadores, dando início à construção do que viria a ser, como hoje o é, o mais culto, o maior e mais desenvolvido país de língua hispânica de todas as Américas, atualmente com 109 milhões de habitantes em rumo forte de desenvolvimento. Arriba México! João Soares Neto, Cônsul Honorário do México CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/09/2008. - [MEIO AMBIENTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/meio-ambiente-jornal-o-estado/): Meio ambiente e sustentabilidade são temas novos, sem literatura considerável. Muitas instituições, entidades, empresas e pessoas que não leram nada de significativo sobre esses temas - e tampouco as praticam em suas vivências como cidadãos ou como gestores - se arvoram em arautos e defensores pífios do que não conhecem. Já faz algum tempo, desde o ano de 1988, tenho procurado ler, conversar e participar de seminários, eventos e congressos que incluam o meio ambiente como foco. A maioria não sabe o que diz, afora os chavões da moda, as frases de efeito e o olhar sedento pelo aplauso ou pelo `reconhecimento’ do que acreditam praticar. Frases tipo “cuidar da casa, da vida, do planeta” podem soar vazias se não tiverem embasamento, justificação legal e compromisso. Um exemplo real? A Petrobrás vende diesel com alto teor de enxofre desde 2002 e agora pede mais quatro anos ao Conselho Nacional do Meio Ambiente para um cronograma de adaptação. Diz o prof. Victor Aquino, professor de publicidade da USP, que “temos que reconhecer que a questão ambiental ainda não faz parte das prioridades das pessoas”. Isso é pura verdade, o resto é demagogia ou tratamento superficial de um problema que deve envolver conhecimento, responsabilidade social e atitude definida. Algumas pessoas, entretanto, procuram estudar com afinco e trazem a lume raras preciosidades sobre o tema. Uma delas é o livro “Competências Constitucionais dos Municípios para legislar sobre Meio Ambiente”, editora Letra da Lei, da Dra. Lucíola Maria de Aquino Cabral, uma constitucionalista titulada que escreve de forma clara, concisa e certa. A partir da análise do Poder Local, ela se embrenha na Constituição de 1988, discute os aspectos do sistema federativo e da descentralização política, ao mesmo tempo em que analisa a definição de critérios interpretativos das normas ambientais. Não, o livro não é complicado. Ele é bom de ler. Cada página serve de base para o que é dito a seguir, sempre ancorado em saberes acadêmicos e a interpretação de artigos da Constituição. Em suas conclusões, diz a autora que “a relevância da norma ambiental municipal caracteriza-se pelo fato de que esta será tanto mais eficaz quanto mais diretamente abrigar aspectos da realidade política, social e econômica da população”. Assevera ainda que “as esferas de poder local estão mais habilitadas para atender os anseios da comunidade e que o direito ao meio ambiente adequado exige a aplicação do princípio do desenvolvimento sustentável.” Mais não digo para não tirar o prazer dos que realmente precisam ou desejam ler mais sobre meio ambiente e transformar em ações os discursos escritos por assessores e as propagandas midiáticas que, quase sempre, pouco têm a ver com a realidade do que fazem e vivem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/09/2008. - [ISABELLA E A INDEPENDÊNCIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/isabella-e-a-independencia-diario-do-nordeste/): Isabella é alemã, mas tem sangue brasileiro. Nasceu em um sete de setembro. Agora, jovem, culta, curiosa e minha afilhada, precisa saber mais sobre esta data. Digo primeiro que Napoleão Bonaparte deu um golpe, em 1799, e tomou o poder na França e queria a Europa toda. Contra Napoleão se insurgiram a Inglaterra, Prússia, Áustria e a Rússia. Por outro lado, é preciso falar que a Inglaterra mandava no mundo de então. Mandava até lá longe, em Portugal, onde o Marechal inglês Beresford tutelava a Corte lisboeta. Em 1808, a França invade Portugal. Prevenida, toda a realeza, D. João VI à frente, foge para o Brasil. Trouxeram móveis, artes e ouro. Tinham a segurança do oceano Atlântico a dividir os dois continentes. Aqui chegando, amedrontados e pragmáticos, resolveram abrir os portos às nações amigas. Quer dizer, à poderosa Inglaterra, sua tutora-aliada. Nesse mesmo tempo, o Brasil, então colônia - apenas produzia o permitido e mandava tudo para Portugal - já havia dado passos para ser livre. Tiradentes, um alferes mineiro, fora morto por suas ideias e surgiam conjurações/conspirações por toda a parte. A Corte se instala no Rio de Janeiro e ali fica até 1821, quando D. João VI volta para Portugal, em face da Revolução do Porto que pedia o fim do absolutismo português. Deixa seu filho Pedro como príncipe regente, a dirigir os destinos do Brasil - colônia. Acontece que havia políticos e aristocratas brasileiros que influenciavam a gestão do jovem e inexperiente D. Pedro. Entre eles, figuravam Gonçalves Ledo, Clemente Pereira e José Bonifácio. Este, a figura central da ação que culminou com a Independência em 07 de setembro de 1822. D. Pedro I viajara a São Paulo e, justo nesse dia, recebeu as costumeiras e abusivas ordens vindas de Portugal. Junto a essas ordens havia um bilhete de José Bonifácio em que dizia ser chegada a hora da libertação, pois havia clima interno, puxado pela maçonaria. Assim, às margens do riacho Ypiranga, D. Pedro disse as palavras: Independência ou Morte. Esse ato deflagrou o surgimento da nação brasileira que, desde então, luta para ser senhora de seu destino. Esta é a minha versão. Parabéns, Isabella. Viva o Brasil. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/09/2008. - [ECOS E REFLEXOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ecos-e-reflexos-jornal-o-estado/): Todos os poetas são loucos. Quem disse essa frase foi R. Burton, erudito inglês, nascido em 1577. Horácio, em “A Arte Poética”, escrita antes de Cristo nascer, já dizia que “aos poetas não permitem ser medíocres/ nem os homens, nem os deuses, nem as lojas de livreiros”. Ortega y Gasset, filósofo espanhol tão citado e pouco lido pelos brasileiros, assevera que “Não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria”. Linda de Cássia Sá Araújo transpõe a soleira da Casa de Juvenal Galeno, essa veneranda e esperançosa entidade de cultura, fundada há 89 anos por Henriqueta e Juliana Galeno em honra de seu pai, Juvenal Galeno, o poeta dos simples e pequenos. Vem, por motivação e benquerença de Matushaila Santiago, uma integrante e baluarte daquela Casa. Linda faz o lançamento de seu livro Ecos e Reflexos no Benficarte, único detentor, por quatro anos consecutivos, do Prêmio de Responsabilidade Cultural do Governo do Estado do Ceará. Ela chega, alegremente, com poesia simples, despretensiosa e coloquial. É uma mulher madura a se renovar como infante em versos de locução popular em que são referências os ecos e reflexos de sua vida. Albergar poetas, independente de suas produções, formações e títulos acadêmicos, é o propósito do Benficarte, como centro de cultura a não estabelecer distinção, tampouco tomar partido ou produzir julgamentos críticos. Para juízos de valor, leia-se Jean-Nicholas Arthur Rimbaud, poeta francês do século XIX: “Digo que é preciso ser vidente, fazer-se vidente. O poeta se faz vidente mediante uma longa, imensa e pensada desordem de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, esgota em si todos os venenos, para conservar apenas as quinta-essências. Inefável tortura em que tem necessidade de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que se torna o grande doente dentre todos, o grande criminoso, o grande maldito – e o supremo Sábio.” João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/09/2008. - [SEGURANÇA NO BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/seguranca-no-brasil-diario-do-nordeste/): Será chatice escrever sobre segurança pública e privada? Não bastarão os programas policiais de rádio e televisão? Não valerão os pronunciamentos de políticos eleitos por programas policiais? E as páginas de revistas e alguns jornais que mostram, com crueza, o problema? Por saber - como todo brasileiro - de casos de violência contra pessoas indefesas, é que resolvi pesquisar o assunto e passar a vocês que saem de casa com medo da insegurança das ruas e, ao voltar, trancam portas e janelas como se estivéssemos em guerra. Imagine uma cidade qualquer de 100 mil habitantes. Pela média brasileira atual, nela morrerão, a cada ano, 50 pessoas por assassinato, sem falar nos mortos do trânsito caótico, apesar da lei seca e da vigilância eletrônica com gorda arrecadação. Em 1980, a média era de 11,4. Os dados são do Centro de Estudos de Segurança Pública da Faculdade Cândido Mendes, RJ. Existem, registrados na Coordenação de Controle da Segurança Privada da Polícia Federal, 431.600 vigilantes particulares. Esse número é bem maior do que o efetivo de 320.400 militares do Exército, Marinha e Aeronáutica. Todas as polícias militares brasileiras, reunidas, têm um total de 411.900 integrantes, muitos deles em funções administrativas e de saúde. Como se vê, a segurança privada supera, também, o total de policiais. Os abastados blindam seus carros, e já são 60 mil no Brasil. Em 1999, eram apenas 400. Acontece que ninguém mora em carro. É preciso sair, arriscar-se profissionalmente e na vida real e isso faz com que 2.668 firmas dividam o mercado de segurança patrimonial, pessoal, escolta e transportes de valores. São números oficiais, sem contar os seguranças próprios da indústria, comércio, serviços, condomínios e residências. Em 1948, George Orwell, escreveu o livro ‘1984’. Nessa distopia, ele previa que as pessoas seriam vigiadas por câmeras e um ‘Big Brother (daí o nome do programa de TV) saberia de tudo. Pois bem, em 2006, só na Grande São Paulo, existiam 720 mil câmeras públicas e privadas. E ainda, em razão de sequestros, há pessoas que implantam chips’ em seus corpos, para monitoramento. Onde vamos parar? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/08/2008 - [VENCEDORES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/vencedores-jornal-o-estado/): Amanhece. Abro as cortinas, o sol me cinge com seu calor e toma a forma da brisa que lhe empinam os panos. Termino o banho frio e, de relance, vejo-me ao espelho. Olho a barba por fazer e intuo que cada dia pode ser um descobrimento de nós e dos outros. Descobrimo-nos tal qual somos ou pensamo-nos como imaginamos que somos? Somos o quê? Adulto, infantil, apaixonado, erótico, plácido, pragmático, invejoso, invejado, carinhoso, solidário, crítico, solitário, culto, capaz, vulgar, fraterno, loquaz, taciturno? Ou um ‘pot-pourri ’de tudo isso, mudando, segundo os olhares alheios e as trilhas que afunilam as sendas de nossas vidas? Assim é que não só nos vemos, como nos veem e somos tantos para os que nunca chegaram sequer perto de nossos sentimentos e essência. Sequer conhecem a nossa vida, pois falar do outro é fácil e comum, pensar no outro é raro. Pois bem, abro a caixa de pensar e me deparo com quatro amigos vencedores. Um é entronizado, com brilho, no pélago etéreo da cultura por seu lado poético, musical, saber jurídico e desempenho profissional. César Rocha busca refrigério nas águas da poesia e do ensaio para mitigar a faina das decisões que, por ofício, toma a cada dia. Outros três, por suas histórias de vida, percursos, olhares para o mundo e atitudes serão homenageados, agora em setembro, com a Sereia de Ouro. E fico pensando em cada um deles, suas trajetórias. A Ana menina, que ganhou mundo, resplandeceu e voltou, madura e saciada, como a consagrada escritora Ana Miranda. Veio para o ventre de sua terra, de onde continua a voar e a espargir saber em múltipla ficção transformada. No tímido garoto Zé Osvaldo, Carioca do Benfica, que encontrou na magia de sua química a resposta para o crescimento pessoal, científico e acadêmico e se fez doutor reconhecido além mar. No cedrense Ubiratan, hoje pajé da tribo Aguiar, que aportou nesta Fortaleza e, pedra a pedra, pavimentou seu caminho, sem esquecer de cobrir com benquerença e tato as muitas portas que foi abrindo, aqui e alhures. E ainda não tomei o café preto sem açúcar que me dá adrenalina para o caminho da ação, desviando de catadores com carroças de ventre aberto, atendendo a flanelinhas, pedintes, entregadores de panfletos, jornaleiros e vendo os porta-bandeiras de candidatos, alguns sem enredo para contar. E as ruas, por onde passo, são como as entranhas da cidade. Tão diversa em seus contrastes e ouvem cada um dos meus pensamentos que nascem do quase silêncio, enquanto ouço “Smile”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/08/2008. - [CÉSAR, O ACADÊMICO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cesar-o-academico-diario-do-nordeste/): Há uma falsa ideia sobre as academias de letras. Alguns pensam que elas são meros repositórios de pessoas que se comprazem em convescotes e não têm consequência ou sintonia com as carências culturais do povo. São, via de regra, criticadas por quem não as conhece, tal como na fábula de Esopo, “A Raposa e as Uvas”. Poetas, cronistas, articulistas, romancistas, ensaístas e todos os que escrevem precisam do olhar alheio, de reconhecimento. As academias têm como objetivo o crescimento cultural, mas são, exceção feita à Brasileira de Letras, carentes de recursos e de modernidade de gestão. Historicamente,elas remontam ao Século IV antes de Cristo, mas só foram consolidadas na era moderna, com a Academia Francesa criada em 1635, pelo Cardeal Richelieu, à época do rei Luiz XIII. Em Portugal, foram criadas academias no século XVII: a dos Generosos, em 1647, e a dos Singulares, em 1663, ambas logo fechadas. Depois, vieram outras, mas a Academia Real das Ciências de Lisboa só foi criada em 1779 e perdura até hoje. Aqui no Brasil-Colônia, criou-se na Bahia, em 1724, a Academia Brasílica dos Esquecidos, que reunia intelectuais excluídos pela pátria-mãe. No Rio, em 1736, surgiu a Academia dos Felizes, e a dos Seletos, em 1752. Alvarenga Peixoto e Basílio da Gama fundaram, em 1769, a Arcádia Ultramarina. A Academia Cearense de Letras foi a primeira a ser criada no Brasil, em 1894. Três anos depois, em 1897, nas pessoas de intelectuais como Machado de Assis, José Veríssimo e Rui Barbosa, surge a Academia Brasileira de Letras, como uma reprodução da Academia Francesa. Aqui no Ceará, 114 anos após sua fundação, a Academia Cearense de Letras dá um passo para o futuro com a posse nesta última sexta-feira do Acadêmico César Rocha. Capaz, crítico e cioso do nome que representa na magistratura brasileira, nunca descuidou de sua essência cultural. Ele, não só por seu saber jurídico, livros escritos e os múltiplos títulos, mas pela sensibilidade dos seus guardados que estão vindo à tona e musicados- virando até tema de novela- mostra que M. Yourcenar tem razão quando diz: “Existe mais de uma cultura, e todas são necessárias para o mundo; é bom que elas se alternem.” João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/08/2008. - [HILDEBRANDO ESPINOLA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/hildebrando-espinola-jornal-o-estado/): Corriam os anos sessenta. A Escola de Administração do Ceará havia sido fundada, fruto de um arranjo que contemplava políticos com ou sem mandatos como professores e que, em contrapartida, tiveram a sabedoria de escolher alguns nomes de intelectuais de proa para também compor o seu quadro docente. A Escola era apenas agregada à Universidade. Não tinha sede, orçamento, fora praticamente expulsa das salas que ocupava na Faculdade de Ciências Econômicas, no Benfica. Uma casa alugada e adaptada na esquina da Av. Duque de Caxias com a Rua Sólon Pinheiro, em frente ao Colégio Cearense, passou a ser a sua primeira sede efetiva. Foi nesse local, em salas sem ar condicionado, chão de cimento, que conheci Hildebrando Torres Espínola. Ele era jornalista, procurador do IPASE e fora escolhido para ensinar Sociologia. Abro um parêntese para dizer que eu, ao mesmo tempo, fazia direito na UFC e já tivera professores do quilate de Heribaldo Costa e Paulo Bonavides na área de filosofia e da ciência política; e fora aluno atento de Parsifal Barroso em Política Social Qual não foi a minha surpresa ao começar a presenciar as aulas de Hildebrando, esse paraibano alto, bem apessoado, galante, que havia começado a vida como Juiz Municipal na cidade de Taperoá, na Paraíba, em 1947. Deixou a Paraíba, veio trazer seus livros e cabeça inquieta para constituir família, ilustrar a procuradoria do IPASE, o então Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado e que, por formação ideológica e cultural, sedimentara conhecimentos na área da Sociologia. Suas aulas eram um espetáculo, pelo conteúdo, gesticulação forte e sua linguagem que misturava o erudito do conhecimento ao colóquio do grande conversador e “causeur” que sempre foi. Nossa turma era inquieta, diversos olhares para a história e o mundo, e tinha nomes como Barros Pinho, Gerard Boris, Josino Lobo, Ieda Meira, Ivo Martins, Galvão Filho, Lázaro Farias, José Maria Melo, Cláudio Teófilo, Heloisa Barros Leal, Nilce Freire e outros. A todos, Hildebrando dava atenção especial e criava vínculos especiais com alguns que se transformaram em admiradores e amigos. Desse tempo, entre tantos outros episódios e casos, houve um de colega que ficou em recuperação em Sociologia. A Sociologia tem, por exemplo, indagações como a que faz o filósofo Descartes: “O que sou, afinal? Uma coisa que pensa. E o que é uma coisa que pensa?”. Esse colega - pensava raso - não captava a essência da sociologia Ralou, estudou e na prova oral – havia isso naquele tempo – foi uma nulidade. Hildebrando coçou a cabeça e disse, entre sério e maroto: “Vou aprová-lo como punição aos meus colegas professores do próximo ano, não aguento mais sua parvice.” Hoje, passados 07 dias de sua morte, lembro da figura final de Hildebrando, aquietada, ouvidos moucos à liturgia católica celebrada em seu velório, coroas e flores em profusão, cercado pelo carinho de filhos, netos, parentes, colegas, amigos, admiradores e alguns ex-alunos que estavam lá. Hildebrando. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/08/2008. - [OLÍMPIADAS E O JOGO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/olimpiadas-e-o-jogo-diario-do-nordeste/): Estava eu, ao lado de um amigo, quando um vendedor de loterias da Caixa ofereceu bilhetes. O amigo sonha ficar rico. A partir de então, procurei saber o quanto se joga nas dez loterias bancadas pela Caixa: Mega-sena, Lotofácil, Quina, Lotomania, Dupla-sena, Federal, Timemania, Instantânea, Loteca e Lotogol. Só no primeiro semestre deste ano, foram arrecadados R$ 2,53 bilhões de reais com jogos federais. Verifiquei ainda que para a Mega-sena, a probabilidade de alguém ganhar é de uma para 50 milhões. A psicóloga Vera Ferreira, da PUC-SP, diz que “a aposta se fundamenta na crença infundada de que a pessoa vai ganhar o prêmio. Ela não sabe nem quer saber que tem apenas uma chance em 50 milhões”. Nessa história, não fica claro quanto a Caixa paga e lucra com cada uma desses jogos. Sabe-se que parte(qual?) do dinheiro é pago aos Comitês Pára(deficientes) e Olímpico, ao Ministério dos Esportes, ao INSS, ao Programa de bolsas para universidades particulares, ao Fundo Nacional de Cultura e ao Fundo Penitenciário. Mas, com quais critérios? Quem os fiscaliza? Quanto sobra cada semana? Fiquemos apenas, por ora, com o que foi para o Comitê Olímpico Brasileiro que levou para a China, além dos atletas, 200 ‘não-atletas’, eufemismo para aqueles da `patota’. E como as televisões vendem anúncios caríssimos, fica essa patriotada no registro de ‘heroicas’ perdas e glória por choradas medalhas. Em 2004, em Atenas, ficamos em 16º. lugar, com apenas 10 medalhas, atrás de países como Cuba, Ucrânia, Hungria e Romênia. Qualquer pessoa sabe que esses países não gastam um décimo do que o Brasil. Por outro lado, além dos gastos que saem das loterias jogadas pelos pobres e a classe média, há ainda patrocinadores públicos, como a própria Caixa e a Petrobrás, e privados. É dinheiro muito. Creio que ninguém lembrará de pedir, após o provável fracasso brasileiro nas Olimpíadas, uma CPI para saber as origens e uso dessa dinheirama que escoa pelos ralos do citado Comitê ou de questionar suor dos que apenas viajam a passeio, pois poucos são os atletas que, de verdade, trazem algumas medalhas para o Brasil. Ia esquecendo: 2016 pode ser o ano das Olimpíadas no Rio. Bota dinheiro nisso. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/08/2008. - [PALAVRAS SINGULARES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/palavras-singulares-jornal-o-estado/): Márcio Catunda é um duplo, sempre. Advogado e diplomata. Cearense e cidadão do mundo. Poeta e ensaísta. Prefere o Catunda, que adotou desde sempre, ao Ferreira Gomes, que omite e não se vale da notoriedade de outros para acoplá-lo de fato, pois de direito já o é. Ao mesmo tempo em que tirava de letra o curso de bacharel em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, dava rumo à sua nau poética aportando em grupos culturais e fazia-se presente aos “points” que a cidade abrigava sem medo de, àquela época, ser contracultura ao ouvir vozes roufenhas de poetas e cantantes. Inquieto, optou, logo em seguida, pela carreira diplomática e o fez com êxito. Agora, após ter velejado por mares e malas diplomáticas do Peru, de Mario Vargas Llosa, da Suíça de Herman Hesse, da Bulgária de Julia Kristeva e de Portugal, de tantos, que só nos bastam Camões e Pessoa, ele volta, com suas diopitrias, como sempre, à cidade que o preparou para a vida. E vem de livro em punho e pronto. Capa verde como a esperança, retrato fotoshopeado (valha-me Deus pelo neologismo) e em 195 páginas diz palavras, não as singulares do título, mas com a energia do tiete que se aproxima de gurus, a sensibilidade do poeta que é e de uma espécie de “realpotilik”, de um novo tipo de ensaio. E o faz nestas “Palavras Singulares”, em que se divide entre o lirismo etílico do poeta Vinicius de Moraes, seu duplo colega, pois ambos vadeiam pelas metáforas e nas aléias atemporais da Casa de Rio Branco, o Itamaraty; Cid Carvalho, múltiplo duplo, pois poeta e político, radialista e professor, espírita e bibliófilo, acadêmico e criador de passarinhos, por toda a vida e; Mário Gomes, essa figura que todos veem e poucos o sentem em sua educação deseducada, no paletó amarfanhado como o seu rosto em um constante esgar a espreitar lugares, pessoas e acontecimentos. Como já disse e repito: nada tenho de crítico literário, tampouco de resenhista, mas resta-me a condição intransferível e inalienável de ledor ou leitor. E nessa condição percorri e percebi com os olhos reais e os da alma o encanto que Vinicius e pessoas de Fortaleza exercem sobre Márcio Catunda. Ele reata também os laços afrouxados com a cidade tão cantada, festejada e hoje tão sofrida, a mercê de uma desenfreada prostituição genérica a céu aberto contemplada e sempre à espera de milagres em uma próxima eleição. Como fala o próprio Márcio: “Eu canto o advento do novo mundo e da nova era, mas não tenho a pretensão de ser profeta”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/08/2008 - [PAI - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pai-diario-do-nordeste/): Hoje, dia dos pais, como lembro do meu. Ele foi um vencedor, na sua maneira simples de viver, sem certificado de santidade, cheio de defeitos e pleno de talentos. Resolvia quaisquer quebra-cabeças com facilidade. Estudou por anos em seminário franciscano de onde saiu para o mundo real. Fez um pouco de tudo. Foi ‘intérprete’ de gringos à época da Segunda Guerra e se orgulhava de ser autodidata em inglês, tendo aprendido pelo método de, se lembro bem, um tal de Neif Antony Allen. Educou, junto com a guerreira da minha mãe, nove filhos, em escolas particulares, e se orgulhava de todos terem formação superior. Teve empresa de táxis, pilotava aviões, praticava jiu-jitsu, fundou indústria de sabão – que nunca deu certo – e criou uma metalúrgica que hoje é de irmãos. Foi presidente de clube de futebol, criava cavalos, puro-sangue, ingleses que corriam no Jockey Club, do qual era diretor. Meteu-se em política, tendo sido vereador e secretário de serviços urbanos que, à época, administrava quase a totalidade dos serviços prestados à cidade. Foi escolhido, sem picaretagem, mais de uma vez, secretário do ano, o que não o impedia de criar canários e campinas. Quis ser candidato a deputado e eu disse – como filho mais velho e intérprete da família - que deixasse a política e voltasse à rédea de seus negócios. Aceitou, resmungando. Passou a ler mais romances policiais e a cozinhar peixes e crustáceos aos fins de semana. Fumante inveterado, na década de oitenta seu coração andou fraquejando para tristeza de seus nove filhos, espalhados pelo Brasil, Estados Unidos e Europa. Pedi que fizesse um cateterismo. Fincou pé e não o fez. Queria morrer inteiro, dizia. Parou de fumar, sem deixar de beber socialmente, e viveu até aos 70 anos quando, ao fechar o portão de sua casa em um fim de tarde de sábado, teve um infarto fulminante e morreu nos braços de minha mãe, com quem viveu 50 anos de dores e amores. Hoje, se vivo fosse, receberia abraços e carinhos de seus filhos e telefonemas de netos de múltiplas profissões, tais como, médico, psicólogo, administrador, advogado, arquiteto, tradutor, analista, empresário, espalhados pelo Brasil, Espanha e Alemanha. Pai. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/08/2008 - [A QUEDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-queda-jornal-o-estado/): Estava no parque. Como de costume. Ninguém a notava. Poucos sabiam dela. Só quando vinha a crise é que os olhos da indiferença transformavam-se em piedade. E o medo de contágio fazia brotar o olhar sadio ou sádico dos outros. Tudo era sentido. Os prenúncios, o turbamento da vista, olhos revirando e o agito da convulsão. Agora, sentada ao chão, vendo a sombra da árvore brincar com os seus pés, sentia-se livre. Sabia que não viria o ataque. Era, naquela hora, tão sadia quanto o tronco em que escorava as costas. Respirou fundo e uma folha caiu em seu regaço, como uma mão invisível e sensível entre seus seios de virgem. Do outro lado do parque passava um homem de bicicleta. Era o Zé, aquele faz tudo que já desentupira a pia da cozinha e assentara o banco no jardim. Ele ia direto à vila de casas de aluguel do pai de Maria. No bagageiro, a bolsa entreaberta mostrava o cabo de uma colher de pedreiro. Zé não viu a pedra que fez a bicicleta derrubá-lo. Ela, rápida, correu. Zé já se recompunha, com um filete de sangue na boca. Maria rasgou a barra da saia e comprimiu o ferimento. Zé, calado, respirava calmo e punha os olhos na filha do patrão. Levantou a bicicleta, juntos os trecos da bolsa e o mais que disse foi: obrigado. Um dia, o patrão, já viúvo, morreu. Não se atreveu a ir ao enterro, mas ficou do outro lado da rua e viu quando Maria saiu sozinha, chorando. E foi então que correu a notícia: Maria viria morar entre eles. Zé ajudou na mudança: uma velha penteadeira, cadeiras, mesa, máquina de costura, mala, geladeira e o retrato do casamento dos pais. Maria sorriu, agradecida. Zé sorriu amarelo e pintou a casa de rosa, colocou telhas de vidro no teto e viu o sol sobre os mosaicos encardidos que lavou e poliu com esmero. E Maria pegou dos pincéis e pintou uma árvore. E o sorriso amarelo dele fez-se de todas as cores. Um dia, viu Maria desfalecer, tremendo. Ajoelhou-se, colocou sua cabeça ao colo, limpou a espuma de sua boca e a abraçou com carinho, protegendo-a. Os estertores foram parando. Maria dormia e ele sorria. Era a felicidade em seus braços. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/08/2008 - [O COELHO E O MORAIS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-coelho-e-o-morais-diario-do-nordeste/): Existe, há algum tempo, um filão na literatura brasileira. Descobriu-se que boas biografias são ótimas, financeiramente, para seus autores. Não estou falando de autobiografia ou das biografias feitas para familiares e amigos, mas as encomendadas por pessoas públicas que estão no imaginário coletivo dos que leem livros no Brasil. No momento, há dois autores de biografias em voga: Ruy Castro e Fernando Morais. Eles trabalham como em linha de montagem, tais como os autores de best-sellers internacionais. Explico: formam equipe e designam jovens talentos ou estagiários para coletar dados sobre cidades, fatos e costumes de época, fotos, escritos, idiossincrasias e pesquisar relações de parentesco e amizade da pessoa biografada. A partir do material coletado passam a acompanhar a pessoa, se viva, em seu habitat natural. Fazem viagens juntos, decodificam seus hábitos e reúnem - em gravação - centenas de horas de conversa. Um exemplo disso é Fernando Morais. Agora mesmo, acaba de lançar o livro ´O Mago´, biografia de Paulo Coelho, esse polêmico escritor que, integrando a Academia Brasileira de Letras, vendeu milhões de exemplares em todo o mundo e enriqueceu, apesar de não ser aceito por parte dos intelectuais brasileiros que o veem até como plagiário. Isso é outra história. Não vou comentar aqui a biografia, apenas observar que a linha de montagem de Morais precisa ser melhor cuidada. Um detalhe: no intuito de procurar ancestrais nobres de Coelho, descobre o cearense João Araripe Júnior, seu avô materno. Daí para frente começa o delírio de Morais. Diz que ´pelo cipoal dos Araripe Alencar, sobrenome da mãe, poderia se fartar, sem arredar pé da própria família, com o manancial de personagens perfeitamente adequados a seus livros - heróis ou vilões, à escolha do autor´. Logo abaixo, enumera ´parentes´ de Paulo Coelho. Vejam alguns citados: Bárbara de Alencar, José de Alencar, Rachel de Queiroz, Humberto Castelo Branco e Miguel Arraes. Do delírio passa ao cochilo: fala em Araripe Alencar e, em seguida, trata a mesma família de Alencar Araripe. Resumo da ópera: O Coelho e o Morais estão no mesmo compasso. JOÃO SOARES NETO, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/08/2008 - [PARTIDOS E CANDIDATOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/partidos-e-candidatos-diario-do-nordeste/): Ficaria feliz se partidos, coligações e candidatos a prefeito(a) e a vereador(a) lessem o que tento mostrar, como fortalezense, de pesquisa recente divulgada pelo IBGE. Trata-se do diagnóstico Indicadores de Desenvolvimento Sustentável 2008 (IDS 2008). Recortem e discutam. A pesquisa baseou-se em 60 indicadores e demonstra desigualdades sociais, a errada distribuição de renda e os graves entraves em face de infraestrutura deficiente, péssimo atendimento ou carência nas áreas de saúde, educação e moradias nas 200 maiores cidades do Brasil. Vou centrar o foco em Fortaleza. Os dados são de 2005. Fortaleza tinha então 2.374.944 habitantes e era a 5ª mais populosa do País. Esses habitantes geravam um PIB (Produto Interno Bruto, soma dos bens e serviços finais dividido pelo número de pessoas) de quase 20 bilhões de reais. O PIB a fazia descer para o 12º lugar entre as 200. Em seguida, o IBGE faz a análise do Índice de Desenvolvimento Humano, IDH, um identificador comparativo de alfabetização, educação, expectativa de vida, a soma das riquezas, natalidade etc. Ele é adotado desde 1993 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento-PNDU. Pois bem, considerando esses fatores, Fortaleza cai agora para o 148º lugar com um IDH de 0,717(a variação é de 0,0 a 1.0) o que a classifica como de qualidade de vida média. Entretanto, como é estatística, esse dado é falso, pois a distribuição de renda não se faz pela simples divisão aritmética da riqueza. Há alguns ricos, razoável classe média, bastante pobres e muitos miseráveis. Para se saber melhor qual a renda ou PIB por pessoa (per capita) é preciso dividir o total do PIB pela quantidade de habitantes. Nesse aspecto, Fortaleza ainda cai mais, fica no 166º lugar. Então, essa é a realidade de Fortaleza. Nada de 5ª cidade, mas vergonhosa qualificação nos índices que valem. O restante é conversa fiada e o povo parece estar se cansando de blá, blá, blá. A hora é de mostrar soluções competentes, sem milagres de Photoshop nos programas de televisão e nos comícios ilusionistas. Voto é vida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/07/2008. - [ESCRITOR, HOJE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/escritor-hoje-jornal-o-estado/): Escrevo em jornal desde meninote, 1962. O primo Pedro Henrique Saraiva Leão viajara e eu o substituí em “Informes Acadêmicos”, coluna diária do Correio do Ceará. Efetivei-me, em seguida. Depois, no mesmo jornal, passei a escrever –diariamente- por anos sobre “Administração e Negócios”. Daí até hoje, mesmo tendo que lutar para construir uma vida profissional como administrador de empresa, nunca abandonei a escrita. E o faço com amor, pois é preciso ir aprendendo a escrever, semear pensamentos, divulgar ideias, mostrar múltiplas visões de mundo, criticar, falar sobre livros/pessoas e interagir com os leitores. Não fico apenas no deleite da crônica, resvalo para artigos em que assumo posições, cobro posturas e aponto saídas para problemas concretos do povo e dos lugares. Hoje, na quase maturidade da vida, fico feliz em escrever, regular e semanalmente, para dois jornais impressos, neste O Estado e no Diário do Nordeste, aos domingos, e em dois renomados jornais eletrônicos nacionais: Carta Maior e Amigos do Livro. Tudo isso foi relatado apenas para dizer que hoje, 25 de julho, é o Dia do Escritor. E por conta deste dia festivo é que homenageio alguns brasileiros que considero grandes escritores. O primeiro deles, Machado de Assis, o maior de todos, e nem precisa comentar. Em seguida, viriam os cearenses José de Alencar, político e referência da então emergente literatura brasileira, e Capistrano de Abreu. Este, apesar de ser um Historiador, escrevia cartas fabulosas. Fico, depois, com Monteiro Lobato, não só o escritor lembrado por “Sitio do Pica Pau Amarelo”, para crianças, mas o empresário destemido que até foi preso pela Ditadura de Vargas e o homem que se desnudou em “A Barca de Gleyre.” Daria para esquecer de Adolfo Caminha, moço que desafiou a sociedade burguesa de Fortaleza, brigou com a Marinha e assumiu um amor dito impossível? E o partinte José Alcides Pinto, santo e maldito, que escrevia bem para ele e por outros? Como não lembrar de Jorge Amado, com o seu erotismo à flor da pele?; do jeito gaúcho e belo de Érico Veríssimo construir romances?; da absoluta irreverência de Nelson Rodrigues?; e das dores e sentimentos de Clarice Lispector? E há tantos outros. Aqui no Ceará atual, acima de quaisquer suspeitas, entre muitas escritoras, além, é claro, de Rachel de Queiroz, cito: Natércia Campos, Ângela Gutiérrez e a límpida e profunda Ana Miranda que acaba de ser laureada com a Sereia de Ouro. Dos homens vivos, não falo. São amigos ciumentos e os não citados me esganariam na primeira vez que me encontrassem nas ruas do Rosário e Dom Joaquim. Para terminar, com um pouco de pseudo erudição, cito Albert Camus, escritor argelino, que alguns pensam francês: “Aqueles que escrevem de modo claro têm leitores; aqueles que escrevem de modo escuro têm comentaristas”. Ou ainda, o americano Don Marquis, que dizia: “Se quiserdes enriquecer escrevendo, escreve o tipo de livros lidos por pessoas que movem os lábios quando leem para si mesmos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/07/2008. - [AMIZADE E AMIGOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/amizade-e-amigos-diario-do-nordeste/): Porque hoje é o Dia do Amigo e o Dia Internacional da Amizade é que procuro na minha já não tão breve vida uns poucos amigos a quem, por exemplo, possa recorrer em caso de necessidade. E incluo, de saída, os meus irmãos, cheios de defeitos, mas com a capacidade de chegar junto quando é preciso. Em seguida, alguns vindo quase todos do século passado, e me conheceram no colégio, nas universidades, no trabalho, em meios a livros, comidas e copos, nas viagens e foram, como se fossem um precioso néctar, depurando até estar hoje no ponto. E esses amigos sabem, mesmo sem nomeá-los, que podem contar comigo. Não a amizade espalhafatosa, a história do amigo-irmão, nada disso. Eles são amigos sem adjetivação. São os que nos veem tal como somos e não projetam as suas carências, frustrações e desenganos. Independente da conta bancária, status social e de quaisquer tipos de importância. Faz tempo, muito tempo, o amigo Tancredo Carvalho recebeu um telefonema meu. Eu o convidava para almoçar. No seu jeito brincalhão, ele respondeu: logo hoje quando deixei de ser importante (ele havia deixado um elevado cargo público). E fomos jogar conversa fora - o almoço era apenas um pretexto - e ele me questionou: por que você não me procurou quando eu trabalhava no Palácio? Falei que lá iam os que tinham interesses e eu passo ao largo dessa ideia. E estive com ele até o dia em que se encantou e, depois disso, continuo amigo de sua família. Este único exemplo é para dizer do elevado grau de estima aos amigos que sabem do nosso jeito singular de humor e do exercício bilateral de uma espécie de curatela para reclamar de excessos pessoais e, em contrapartida, aceitar críticas e reparos. Esses entes queridos, homens e mulheres, estão espalhados por vários lugares, neste Brasil e outros continentes. E a distância, ainda bem, pode ser suprida com ocasionais visitas, e-mails, telefonemas e, sobretudo, a certeza de que eles fazem parte da nossa vida. Assim, olho no retrovisor e vejo que o tempo não devorou amigos, apenas escoimou o joio do trigo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/07/2008. - [NÓS E A INTERNET - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nos-e-a-internet-jornal-o-estado/): Aprendi a mexer em computador meio sem jeito. Fiz um curso há muito tempo na IBM. Era em uma sala gelada e o computador, imenso. O formal professor usava o inglês-ferramenta e a linguagem era Cobol. Sai mais tonto que entrei, porém ficou alguma coisa. Comprei um micro – que ainda era grande - e fui mexendo aqui e ali, mais errando que acertando. O tempo passou, vieram novos computadores e as limitações diminuiram. Hoje sou ainda um mero usuário, sem método e sem fundamentação teórica (agora, tudo tem que se basear “em fundamentos”, o que também não sei bem o que significa). Como não tenho outro jeito, vou fazendo, errando e tentando aprender. Tenho até uma assistente de sobreaviso, rápida e preparada, a quebrar os meus galhos – e de amigos - quando o computador para e parece dizer que não sou inteligente. Ligo, ela vem e resolve, na maioria das vezes. E ainda diz: só isso? Pois bem, de tanto mexer, pesquisar, catar ensaios, livros e que tais, convivo com a Internet e o Google, o “buscador” que responde tudo ou quase tudo, mas dá também informações furadas. Se não sei, por exemplo, sobre Chopin, escrevo a palavra e mando procurar. É aí surge o problema: tudo o que é Chopin aparece. Assim é preciso refinar a pesquisa, dizer qual Chopin e eu escrevo Frederic – sem acentos - Chopin, pois ele não trabalha com acentos nas palavras. Brevemente, sim. Enquanto isso, não coloco til, cedilha, circunflexo ou qualquer tipo de acento. O que estou dizendo é o básico, óbvio. Voltando à pesquisa: procuro o que desejo de Frédéric Chopin, o compositor polonês, amigo do pintor Delacroix e de Liszt. Leio e seleciono o que interessa. Assim, não pensem que sei muita coisa. Pesquiso e, às vezes, encontro. Também ocorre de procurar um fato e descobrir outro ou me perder no imenso labirinto. Há, pasmem, bilhões de páginas na Internet. Mas, o que eu queria mesmo dizer é que no próprio Google descobre-se o “google earth”. Earth é terra, em inglês. O “google earth” é um programa que se serve de satélites com recursos para mostrar fotos aéreas de tudo no planeta Terra. É verdade. Tentei e apareceu a cidade onde moro, vista de cima. Tem uma mãozinha que você vai comandando com o “mouse”, e ela lhe leva para onde você quer. Pois não é que vi onde trabalho e moro e até os calçadões das praias. A propósito, li há algum tempo, que as tecnologias para exploração das profundezas da internet são consideradas questões e ferramentas de Estado. Paranoia ou medo? Valha-nos Deus. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/07/2008. - [NÓS E AS ELEIÇOES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nos-e-as-eleicoes-diario-do-nordeste/): Imagino que você tem mais de 16 anos. Se é esse o caso, tem um compromisso no dia 5 de outubro. Escolherá - entre muitos candidatos - dois nomes: um para prefeito, outro para vereador. Imagino ainda que não seja filiado a nenhum partido e que não acredite em político. Vota porque é obrigado, mas não está nem aí. Se é esse o seu perfil, reflita. Sabe o que é um prefeito? O que faz um vereador? Se não, procure saber. Mas não será nos programas políticos, no rádio e TV, que terão início em 19 de agosto, o local ideal para aprender. Tente formar um grupo. Seja de família, trabalho, amigos, igreja ou clube. Consiga material para ler. Procure em bibliotecas, fóruns, Tribunal Regional Eleitoral, escolas, universidades, igrejas e sindicatos. Descubra, primeiramente, que o (a) prefeito (a) é uma pessoa como você, pois escolhida com o seu voto e, sem ele, não seria eleita. O (a) prefeito (a) é um servidor público com tarefas e metas a cumprir em quatro anos. Você é que o (a) fará importante, se o desejar. E essa importância é estabelecida por leis que definem suas ações como gestor da cidade onde você vive, anda, como estão as ruas, praças, parques e jardins e o atendimento médico nos postos de saúde e hospitais. O prefeito tem outras responsabilidades. Por exemplo, é de sua competência propor e gerir orçamentos, definir prioridade de obras, realizar licitações e concursos e representar a cidade com honestidade, equilíbrio, capacidade e descortino. Enfim, é como se fosse o gerente de uma empresa pública cujos donos somos nós, eleitores. Mas, ele (a) também é político (a), precisa conviver com a Câmara de Vereadores e ter maioria para aprovar projetos. Aí é aonde atua o vereador, uma espécie de deputado municipal, que tem por objetivo principal formular leis e fiscalizar as ações da cidade. Infelizmente há vereadores que passam os 04 anos dando títulos e propondo votos de louvor ou pesar a pessoas e nada fazem de concreto. Comece a pensar um pouco em sua cidade, saber quem são os candidatos, suas histórias pessoais e políticas, onde vivem, o que prometem e se cumprem. Não adianta reclamar depois. A hora é agora. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/07/2008. - [VIOLÊNCIA E SEGURANÇA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/violencia-e-seguranca-diario-do-nordeste/): Estamos estarrecidos com a incapacidade dos órgãos policiais de coibir ações e atentados à segurança das pessoas. Assistimos acuados e impotentes a crimes cada vez mais ousados. As cidades brasileiras estão loteadas pela marginalidade. E é pena se misturar marginalidade com pobreza. A pobreza é uma situação de risco, que não leva, necessariamente, à marginalidade. O próprio Presidente da República é exemplo disso. Filho de retirante, mãe abandonada pelo marido, muitos irmãos e deu certo. Trabalhou, tornou-se sindicalista e é hoje quem é. Assim, não há como aceitar ou atenuar ações de marginais que se dizem pobres e se arvoram em “donos” de áreas físicas das cidades, fecham o comércio, roubam, matam, vendem drogas, sequestram e até são conhecidos da polícia. São conhecidos, sim. “Esse é o território do fulano”, “aquele é de sicrano” e por aí vai. Algumas televisões, concessionárias do poder público, têm programação de baixo nível, entrevistando delinquentes, ouvindo pais descontrolados pela morte de filhos e ninguém toma providência. “Não é comigo”, dizem uns. “Acho é pouco, dizem outros.” Enquanto isso, pessoas e famílias são submetidas a constrangimentos, humilhações e extorsões por assaltos em prédios, em engarrafamentos por “flanelinhas”, roubos de veículos e sequestros. Os bandidos são articulados e citados por policiais que não os prendem. Até quando se vai conviver com a insegurança a amedrontar e maltratar a coletividade? O país cresce, há empregos. Indústria, comércio, serviços e a construção civil voltam a ocupar mão-de-obra com pouca ou nenhuma escolaridade. Organizações sociais, entidades e empresas trabalham, de verdade, em projetos de inclusão social, mas, paralelo a isso, a marginalidade sobe e a polícia não dá cabo dos delitos. Ninguém sabe o que se gasta no Brasil com segurança privada. Estimam em 10 bilhões R$/ano. Esses fatos mostram que a segurança pública deve ser prioridade, além da verborréia. Na prática e de fato. E, mais que toque de sirenes, é preciso que a polícia se ajuste ao novo modelo da sociedade brasileira que, de forma pacífica, paga tributos de primeiro mundo e recebe tratamento de terceiro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/07/2008. - [AMOR FALADO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/amor-falado-jornal-o-estado/): Não gosto de amor cantado aos ventos ou mirado pelos próximos. Próximos, mas não tanto que possam saber ou sentir a intensidade - ou não - dos que procuram amar ou têm o desejo de, juntos, acertar o passo da afetividade sem interferências, palpites ou fofocas. Contardo Calligaris, cidadão do mundo, psicanalista, escritor e maduro, refere que as declarações de amor são “constatativas” ou “performativas”. As constatativas seriam, como se diz hoje, tipo assim: “digo que amo porque constato que amo”. As performativas seriam quando “acabo amando à força de dizer que amo”. É o eco do que digo fazendo morada por repetição. Contardo não fica no muro, prefere o amor que não fala e não aceita o que chama de “verborragia amorosa”, a esquecer conflitos e nuances da vida real em que somos múltiplos. Trabalhamos, temos descendentes, amigos e uma teia de relações que nos envolvem e essa singularidade, no geral, não é conhecida na essência pelos outros e somos vistos como uma ‘persona’ que não somos. Assim, também faço fé no amor silencioso ou sem palavras, porém com atitudes, gestos, linguagem de corpo e sentimento. Tem mais consistência e faz mais sentido que o amor-show, mãos dadas em público, aparições performáticas ou aquele baseado no olhar do outro sobre o que na verdade não somos. Nós, primeira pessoa do plural, pode ser apenas o eu e o tu, mas pode ser também o eu, o tu e muitos outros. Deste modo, para acertar o passo afetivo é preciso apenas duas pessoas, o eu e o tu ou você. Os demais são coadjuvantes e acessórios, inclusive ascendentes, descendentes e amigos. Daí, sempre é bom ouvir o que autores consagrados disseram sobre o amor. Não importa que tenham ou não sido bons amantes. Procuraram entender esta pequena palavra - em todas as línguas - de tantos significados. Balzac dizia que “o amor não passa de uma fome, de uma sede, embelezada por nossa imaginação”. Wertheimer contava que “o amor, para durar, exige incertezas”. Shakespeare era duro: “o amor é um desperdício de alma num deserto de vergonha” e Cervantes revelava: “muito te ama quem te faz chorar”. Eu, (des)aprendiz de amor, digo que palavras têm pouco peso. Ações, gestos, os olhos, o cuidado, a consequência dos atos, venturas a dois e a aceitação das falhas mútuas, são os insumos básicos do amor. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/07/2008. - [A BOSSA DO JOÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-bossa-do-joao-diario-do-nordeste/): Imagine uma pequena cidade baiana na margem direita do Rio São Francisco no ano de 1931. Tinha curso o governo provisório de Vargas e Juazeiro, isolada, energia precária, olhava para Petrolina, Pernambuco, na outra margem do rio. Ainda não havia sido feita a ponte que as ligaria, no Governo Dutra. Ali, em 10 de junho de 1931, nos braços de uma parteira, nasceu João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira, menino comum. Aos 14 anos ganha um violão e a vida muda. A cidade fica pequena e se larga aos 18 para Salvador onde conhece Dorival Caymmi. Agitado, dali vai para o Rio, participa da banda ‘Garotos da Lua’, é excluído por desobediência e por não gostar dos ritmos tocados. Conhece, anos depois, Tom Jobim, pianista clássico que tem profunda admiração pelo Jazz e a história de sua vida vira para sempre. Surge, ali entre Copacabana e Ipanema, o seu primeiro disco, ‘Chega de Saudade’, fins dos anos 50. O restante todos conhecem, pois João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlinhos Lyra e alguns mais modificaram a forma de tocar o samba, tornando-o uma mistura de ritmo sincopado da percussão mais simplificada e, paradoxalmente, mais sofisticada. Desde então, João Gilberto é o monstro sagrado da Bossa Nova e suas excentricidades o fazem desejado pelo público que aceita as suas exigências nos poucos shows que dá no Brasil e mundo. Assim, aproveitando o ano em que a Bossa Nova completa 50 anos e o mês em que ele faz 77, deu um show agora na principal sala do Carnegie Hall, em New York, reclamando do ar condicionado - tosse várias vezes - e da posição do microfone. Canta 22 músicas, começando com Doralice, passa por Chega de Saudade, Corcovado, Morena Boca de Ouro, Preconceito, O Pato, Caminhos Cruzados, Wave, Rosa Morena, Este seu olhar, Samba do Avião, Lígia, Desafinado. Ao final, homenageia os gringos com a versão de Braguinha da música de Irving Berlin, ‘God Bless América’ e fecha com Garota de Ipanema. É aplaudido de pé pelas duas mil pessoas que lotavam a sala. Para Sérgio Dávila, da Folha-SP: “João Gilberto desafiou o tempo e o vento em sua primeira apresentação no ano em que a Bossa Nova completa 50 anos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/06/2008. - [ESTORINHA DA INVEJA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/estorinha-da-inveja-jornal-o-estado/): Começo de uma estorinha do faz de conta: Um dia, alguém com os óculos na ponta do nariz, depois do cafezinho e com um olho na TV, abre o jornal e começa a folheá-lo. Vê jornal com fotos, escritos e notícias destacadas com nomes de pessoas, algumas conhecidas, especialmente uma. Essa sim, conhece bem. Gosta de promoção pessoal, propaganda disfarçada e faz mal feita. Só pode ser matéria paga, pensa. Assim, até eu, que não iria querer aparecer à custa de pagamento, só por pura vaidade. Não acredita em notícias boas, só notícia ruim é que vale: falência, separação, desastre, assalto, sequestro, doença e morte. O restante é arrumação. Quaisquer que sejam elas. E vai em frente na maledicência: Essa pessoa não é nada disso. Ela foi de minha turma por muito tempo e não tinha nada de especial. Houve um tempo, se lembro bem, ela quase arrebenta. Não sei se foi isso, mas é como se fosse e fica sendo. Ora já se viu, só pode ter alguma coisa por trás disso. Não adianta querer enganar, sempre tem alguma coisa de errado no reino dos escritos e das notícias. Meio descrente olha, mais uma vez, o nome da pessoa. Torce para que não seja ela, mas é. Também, só pensa em aparecer e se promover, sem ajudar a ninguém. Deixa pra lá, tenho mais o que fazer do que perder tempo com vaidades alheias. Eu, sim, é que merecia reconhecimento por tudo o que lutei na vida, assumindo responsabilidades e dando conta do recado. Mas, não ando me mostrando, bancando importante, dizendo que fiz isso ou aquilo. Prefiro ficar em meu canto, com a minha consciência tranquila, tomando as minhas biritas, pois não tenho inveja de ninguém, graças a Deus. Tive oportunidade de ganhar fácil, mas ninguém pega na minha munheca. Fim da estorinha. Essa historinha, fictícia, uma parábola, mostra, quem sabe, a reação de muitos diante do que vê ou lê, especialmente sobre outras pessoas a quem não conhecem bem e delas falam mal. Ela está muito mais relacionada com a estória pessoal de quem vê e lê, com sua vida interior e frustrações, do que realmente sabe e pensa sobre os outros ou o que está escrito nos jornais ou suplementos. Os olhos dessas pessoas, muitas vezes, acompanham ressentimentos e não se despegam de mágoas, decodificações, idiossincrasias, desvios e queixumes. Aliás, a questão não se restringe a quem se olha ou o que se olha, e sim o que se fica a ruminar de inveja sobre o que se vê. A inveja é não querer que o outro tenha ou seja, mesmo sem saber de verdade quem o outro é, sente ou vive. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/06/2008. - [CULTURA E PENÚRIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cultura-e-penuria-diario-do-nordeste/): A maioria das pessoas não tem ciência da situação de penúria das entidades - privadas, especialmente - que cuidam da difusão da cultura no Brasil. Exceção é feita à Academia Brasileira de Letras - com renda imobiliária própria - e algumas poucas. As demais, representando mais de 95% da ação cultural brasileira, não possuem sequer sede, equipamentos e orçamento, vivendo das minguadas mensalidades de seus consócios que, muitas vezes, premidos por outros compromissos, deixam de pagá-las. As leis de incentivos à cultura, sejam municipais, estaduais ou federais, precisam de mudanças que lhes deem agilidade e capacidade de resolver essa situação que se agrava a cada dia. A figura do Mecenas, aquele que disponibiliza valores para auxiliar a cultura em suas várias formas, está cada vez mais difícil. Tentando procurar soluções, foi realizado na semana passada, em São Paulo, encontro com foco nas “Perspectivas do Investimento em Cultura”. Esse encontro aconteceu na Pinacoteca de SP, a mesma que teve agora quadros roubados por conta de ineficaz estrutura de vigilância. Do discutido ficou o consenso de que a Lei Rouanet, que destina recursos mediante projetos, precisa de reparos, pois não há gerenciamento eficaz dos processos apresentados e tampouco critérios na escolha e ação dos “pareceristas”, os que analisam os pleitos em nome do Ministério da Cultura. Duras críticas foram feitas à gestão da cultura nacional. Foi sugerida a criação de um Fundo Nacional de Cultura, o que seria ideal para todos, mas cultura não dá voto. De tudo o que lá foi exposto, sem reservas, ficou claro que essas entidades, sejam academias, institutos, produtoras de cinema, museus, teatros ou outras organizações sociais, precisam parar um pouco e pensar em ter gestões eficazes e outras soluções, não apenas as que passam por contribuições de doadores que, em contrapartida, recebem títulos disso e daquilo. Não há desdouro em revelar problemas, erros e improvisações. O mundo real perpassa o universo da cultura, pede atitudes, ações e soluções que não cabem em filmes, peças, pinturas, esculturas, ensaios, versos e nem na boa prosa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2008. - [A HISTÓRIA DE FRANCISCO, TAMBÉM JOSÉ. - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-historia-de-francisco-tambem-jose-jornal-o-estado/): Depois de uma série de e-mails e telefonemas trocados, marco encontro com Luiza Amorim e seu marido, Kildare. Jovens, bem-apessoados, chegam e estou com visitas. Mesmo assim, atendo-os, e peço meia hora de tolerância. Na hora azada voltam, sentam e ela diz de seu projeto em fase de conclusão: escrever a biografia de Lustosa da Costa, o filho primeiro de “Seu Costa” e D. Dolores. Ela fala de sua vida acadêmica e da interrupção do trabalho como repórter de televisão para se dedicar integralmente ao final da história do Lustosa. Entrega-me um exemplar do livro que escreveu sobre a jornalista Adísia Sá. Vem munida de um MP-3 que usa, com a ajuda do marido, como gravador. Faz perguntas objetivas, certeiras e tem o cacoete de não querer ficar na superfície, mas mergulhar na essência da vida pessoal e profissional do procurador, jornalista e intelectual Francisco José Lustosa da Costa. Digo-lhe o que todo mundo sabe. O Francisco veio de Cajazeiras, Paraíba, onde perdeu o umbigo. O José cresceu em Sobral, sob os olhares vigilantes de sua família e as bênçãos de D. José Tupinambá da Frota, um dos seus ícones religiosos que talvez o tenha convencido a ser seminarista, por um tempo. O Lustosa surgiu em Fortaleza, depois dos anos no Seminário, com os Diários Associados, misturando faculdade, jornal e uma televisão incipiente em que o improviso abrigava os talentosos e dizimava os incapazes. Fez-se cronista político do primeiro time, ao tempo em que concluía direito e descobria que esta cidade era apenas uma Sobral maior e que ele poderia ser o exemplo da família que morava bem ao pé da Igreja da Piedade. E assim o fez. Foi abrindo caminho certo para os outros irmãos que, tendo a mesma carga genética, viraram deputado federal, ministro, historiadora, geógrafa, médico, jornalistas e escritores. E é desse tempo o meu conhecimento com ele. Alçávamos voos diurnos em direção aos ventos da realidade, mas tínhamos noites de quimeras no Náutico, Ideal e no restaurante Lido com Lúcio Brasileiro, Danilo Marques, Fernando Távora, Frota Neto e alguns mais. Depois, irmanado a Dorian Sampaio, ressuscita o Anuário do Ceará, dando-lhe nova feição e perspectiva exitosa. Aí a história muda e entra a cidade do Rio de Janeiro em sua vida, apenas um hiato, em que passa a ser jornalista maior. Mas, seria longe, além da costa, aonde resplandeceria o fulgor de seu talento. Brasília era a menina do cerrado e ele, Costa, curioso, atento e desbravador, queria conhecer seus meandros, participar das conversas que se transformavam em ações, leis, acompanhar o seu crescimento e criar seus filhos candangos, frutos da benfazeja união com Verônica. E o restante, quem quiser saber, compareça ao lançamento da biografia do Lustosa quando setembro chegar. Cuidem de reservar lugares, pois o Clube do Bode ocupará quase uma centena de cadeiras. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/06/2008. - [SOBRE ESCREVER - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sobre-escrever-diario-do-nordeste/): Algumas pessoas perguntam: como você tem tempo para escrever? Respondo: faço isso de há muito. É sempre uma tentativa de ir aprendendo a escrever ou, como diz Gabriel García Márquez: “para que me queiram(ler)”. Quem escreve deseja ser lido, aliviar-se, falar do que o alegra ou incomoda e também, se possível, interagir com o olhar e o pensar do outro. Gosto de escrever quando estou só, preferencialmente em casa e quando o silêncio só é banido por raros latidos do “Tico” ou o incômodo do telefone. Escrevo o que vem à mente, de memória, do que leio e vivo, mas estou sempre atento àquela frase de Shakespeare: “os loucos guiam os cegos”. Como todos somos cegos, quem escreve não passa de um louco a falar de sonhos, passado, presente, futuro, alegria, tristeza, filhos, família, pobreza, riqueza, desditas, vitórias, espertalhões, verdades e mentiras. Juntar tudo isso, da primeira palavra ao ponto final, é que nos torna diferentes, não especiais. Os que escrevem têm a mania, mesmo que inconsciente, de dizer isso e aquilo sobre a vida, lugares e pessoas. Acresça-se a isso a capacidade inesgotável de nos metermos onde não somos chamados e acreditar que poderemos melhorar o mundo com meras palavras. Desculpem, somos assim mesmo. As injustiças e os desmandos nos amolam, mesmo que sejamos participes ou coniventes. Vivemos a catar histórias e estórias e não descobrimos respostas para questões fundamentais: por que o homem mata outro homem? Os animais, ditos irracionais, só matam quando estão esfaimados. Se estiverem saciados, nada os incomoda, nem a presença do homem. Nós nos incomodamos com tudo e pouco fazemos de objetivo. Todos os dias compramos pão, mas nos esquecemos de dar bom dia a quem nos atende de pé e com um sorriso. Esse sorriso é a esperança vã ou séria a contaminar aos que não têm tempo de dizer olá, obrigado, bom dia, desculpe, fique bem, gosto de você etc. Por outro lado, a educação nos manda não dizer verdades e, sem querer, nos tornamos hipócritas. Não deveríamos ser, mas ter compaixão pelo outro, senti-lo, mesmo sem empatia ou reciprocidade no afeto. Mas eu falava nas razões de escrever e perdi o fio da meada. Isso é escrever. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/06/2008. - [NAMORAR, VERBO ANTIGO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/namorar-verbo-antigo-jornal-o-estado/): Não sei se vocês ainda lembram: ontem foi o dia dos namorados. Classicamente, namorar é procurar inspirar amor a alguém. É cortejar, cativar, desejar ardentemente, requestar etc. Ora, em tempos que as pessoas estão perdendo a ilusão e que cortejar é tão antigo, requestar é palavra que não se usa mais, não se pode traduzir, literalmente, o que hoje possa ser namorar. As mulheres ainda românticas acreditam que é um passo inicial de uma relação duradoura que leva ao casamento. Mas, para ser atual, há tantas variações desse verbo da primeira conjugação. Os jovens “ficam”. Os menos jovens tem “casos” e os maduros, os que saíram da primeira conjugação, não a do verbo, procuram entender e definir o nome da relação que os remete para a difícil tentativa de estar, de forma consistente, com outra pessoa. Tenho ido a casamentos na condição de padrinho, isto é, de amigo dos pais dos noivos ou de ‘conselheiro’ de um dos casantes. E ouço com atenção as homilias dos padres que, via de regra, são fracas, pois ditas por quem não viveu o que tenta explicar ou louvar. Pode até ter tido alguma relação, mas foi acidental, escondida. Não conviveu, não teve filhos e, se os teve, não os educou como pai, mas como ‘tio’. Assim, os padres estão fora, por não terem a vivência da história do amor entre um homem e uma mulher. Creio que os pastores e os rabinos têm mais autoridade para dizer o que significa o matrimônio, mas são presos aos seus evangelhos e se perdem também na idealização de uma relação real entre pessoas que, quase nunca, fizeram cursos de relacionamento humano e têm sexos diferentes, daí as visões não complementares sobre as coisas e os sentimentos do mundo. Mas, eu ia falando sobre namoro, palavra que está perdendo o sentido de arte, de descoberta do outro, pois tudo está tão direto e óbvio, a partir das roupas, dos gestuais e das ações de cada um. Com a morte do Artur da Távola, esse grande cronista que a política contaminou, o Brasil perde um dos grandes incentivadores do namoro, pois ele - que gostava também de música clássica- quer soubesse ou não, acreditava no amor tal um conservador ou um dinossauro, como os mais jovens veem os mais velhos. Em tempos de ‘união estável’, de divórcios sem necessidade de juiz, de mulheres que ainda dão o golpe da gravidez e da cobiça pelo que imagina que a outra pessoa possa ser ou ter, há falta de ilusão, enlevo, cortesia e de descoberta e isso vai dando uma versão ainda não bem definida do novo namoro, do novo casamento ou da relação como a arte do encontro e não da mera consumação do desejo. Vinicius e Drummond estão mortos. Chico desencantou-se com a tardia solteirice e Caetano volta ao seio dos meninos do Rio, daí restam os ‘bregas’ a falar obviedades do amor, sem apresentar nada de novo em tempos de Internet, Msn, de fins de semana sem pais e de uma liberdade que ainda não disse a que veio. Namorar não é fugir da solidão. É o encontro do riso, da alegria, mas é, sobretudo, a conjugação de esperanças, o compartilhamento de sonhos, de dores e a parceria na elaboração do rascunho de uma vida em comum que se pretende feliz, mas a escrita definitiva tem muitas versões. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/06/2008. - [ALCIDES PINTO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/alcides-pinto-diario-do-nordeste/): Estava a virar meninote. Vizinho à casa dos meus pais havia uma criação de marrecos barulhentos. Lá aparecia um sujeito magro, esquisito, idade do meu pai, mas diferente. Dias, de paletó branco e gravata; meses depois, vestido de franciscano e, vezes, quase normal. Era irmão da D. Mirian, a vizinha da esquerda. Procurei saber o que ele fazia. Poeta, foi a resposta. Essa a minha iniciação com JAP. Distante, o quanto pode ser a relação de um menino com um homem estranho. Próxima, por me encantar a forma como se portava, sem ser o que os outros eram. Um dia, tive a ousadia de mostrar-lhe um escrito. Olhou, riu e disse: vá em frente. Décadas se passaram. Agora, em figura de admirador confesso, estou a amealhar palavras para dizer alguma coisa sobre o poeta, ensaísta, ficcionista e teatrólogo, o eterno visitante da casa dos marrecos. Premiado, consagrado, maduro e lúcido como pode ser quem vive além do real, tal novo Quixote de muitas dulcinéias. Não vê moinhos de vento, mas faz, com seus escritos, mudar o vento da mesmice da literatura brasileira, especialmente a que se configurou como a geração pós 45. Eis que, tempos depois, nos tornamos amigos, pois os maduros não têm idade, amealham lembranças e servem-se de benquerenças para o dia a dia, São, ao mesmo tempo, meninos com sonhos de usar baladeiras, jovens a sentir o cheiro de mulher, maduros a lutar pela vida, não como a traçamos. O fato é que passei a fazer parte dos que estavam próximos ao JAP, sem que pedíssemos prefácios, olhadas em manuscritos, ajudinhas literárias, coisas assim. Esse grupo, entre outros, tem gente como Sérgio, Teles e Carlos Augusto. Gente que o incitava a sair de casa, a escrever e a aceitar os loiros que procuravam sua cabeça gris e o seu coração de curumim. E lá estava ele bebericando uma cervejinha, o olhar iluminado ao passar de uma mulher faceira e sabendo estar entre os seus. Agora, JAP, tal como desejava, volta para o lugar marcado, no Estreito. Encantado por Machado de Assis que, mesmo em sua casmurrice, por ironia do calendário, resolveu, enfim, premiá-lo e, paradoxalmente, o fará em duas dimensões. Os poetas não morrem. Viram versos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/06/2008. - [CADA QUAL FAÇA SUA PARTE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cada-qual-faca-sua-parte-jornal-o-estado/): Estamos comemorando a Semana Internacional do Meio Ambiente e da Ecologia. Preservar o meio ambiente é uma preocupação recente da humanidade. Quando o cientista Charles Darwin concluiu que somos frutos da evolução das espécies e não, segundo ele, de algo sobrenatural, os homens tomaram conhecimento de que tinham de cuidar, por sua conta e risco, de sua casa, o planeta Terra. Tomar conhecimento é diferente de tomar consciência, pois esta precisa de sedimentação, discussão, transformação em uma ideia política e disseminação. A essa ideia política se deu o nome de Ecologia, palavra roubada do grego “oikos”- casa ou habitat - e de logo, que significa estudo, reflexão. Assim, a Ecologia pode ser entendida como o estudo das relações dos organismos uns com os outros e com todos os fatores naturais e sociais que compreendem o seu ambiente. Definida essa ideia, a humanidade começou a viver, no século XX, especialmente em seu último quarto, uma luta renhida para difundir, de forma clara e lúcida, o que eram e para que serviam os seres vivos, a luz, a água, o ar, o solo etc. A presunção de que éramos ou somos o único ser vivo inteligente não deixa de ser um óbice. A falta de humildade de encarar o problema, como se todos os recursos naturais fossem inesgotáveis, é produto de conveniências de um lado e de intransigências, de outro. A humanidade ainda não aprendeu a conviver em equilíbrio. Guerras, guerrilhas e lutas tribais estão vivas neste século, o tal da Agenda 21, que pretende ser a luz do mundo. Hoje, podemos mapear, via Google, todos os continentes com focos de conflito entre etnias, interesses econômicos e religiões. Isso provoca destruição de seres vivos, sejam homens, animais ou vegetais, bem como comprometimento da natureza por seu uso inadequado. As necessidades humanas, mesmo que em áreas pacíficas, cobram da natureza alimentos, casas e mobiliários que são feitos a partir da agricultura e da indústria. E, se de um lado, há necessidades desses bens, a ganância humana não estabelece limites e ignora o conceito de desenvolvimento sustentável: reposição de áreas devastadas de florestas, recuperação de cursos de água contaminados e do ar poluído pelo gás carbono que exala dos escapamentos de bilhões de veículos automotores e as indústrias. Esta conversa pode não parecer tão agradável para quem está acostumado a jogar ponta de cigarro, papel amassado e latas vazias em todos os lugares ou para os que acreditam que a natureza é a sua lixeira básica e lá depositam tudo o mais que lhes sobra. Fala-se em desenvolvimento sustentável, mas é preciso que cada pessoa, desde cedo, aprenda a fazer a sua parte, vivendo em harmonia com o meio-ambiente sem molestar todas as criaturas, sejam pessoas, animais ou as do reino vegetal. Pensar no mundo, mas cuidar de sua casa. Parece óbvio, mas não é. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/06/2008. - [VALIDAÇÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/validacao-diario-do-nordeste/): A palavra validação tem significado interessante. Vem do latim “validare” e é usada no sentido de dar validade a algo ou pessoa. É usada para deixar claro, por exemplo, que acreditamos em alguém. Mas, e sempre tem um mas, essa validação sempre vem, não por nós mesmos, e sim por termos conhecimento de um fato na TV, rádio, jornal ou em papos. O “validador” é alguém confiável e, por conta disso, o que fala tem sentido e se dá fé. Neste 30 de abril, o Brasil recebeu de uma agência internacional de análises de risco a sua validação como “Grau de Investimento” (investment grade). Passa a ser agora um país confiável onde os estrangeiros podem investir sem medo. Outro exemplo de validação: existia em São Paulo, até esta semana, uma brasileira de 43 anos, com filhos, formada em teatro e que nunca teve vez na televisão nacional. Foi escolhida por Walter Salles para participar do filme “Linha de Passe”, ainda inédito. Pois ela, Sandra Corveloni, disputando com grandes figuras – sem saber, diga-se de passagem – como Angelina Jolie, Julianne Moore e Catherine Deneuve, ganhou o prêmio de melhor Atriz do Festival de Cannes, espécie de Oscar ‘cult’ europeu. Voltando ao fio da conversa: assim, o Brasil virou importante por conta dos outros. Agora, os nossos “experts” em economia começam a tecer loas ao que criticavam e as ações sobem e descem no embalo dos que sabem e podem manejar os cordões do mercado financeiro. Certamente, como o que escrevo só vai publicado dias depois, vocês verão nestes dias nas TVs e jornais a “descoberta” de Sandra Corveloni e seu endeusamento por entrevistadores que nunca a notaram antes. Nós todos somos, salvo exceções, vaquinhas de presépio, induzidos a achar que tal coisa é boa porque alguém usa ou faz; que fulano é importante porque saiu escrito; que o lugar é bom porque beltrano e cicrano o frequentam. Quanta bobagem. Valide ou valide-se por você mesmo, decida o seu pensar, não vá por aparências, propaganda, notícias plantadas e interesses. O Brasil está vivendo um grande momento, isto é um fato. Basta ter bom senso para ver. Do mesmo modo, Sandra ganhou por ter valor, desconhecido pelos que hoje a validam. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/06/2008. - [SENSIBILIDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sensibilidade-jornal-o-estado/): Fui a uma missa de Trigésimo Dia. Era numa igreja católica, certamente. A diferença é que era uma concelebração na noite que ensombrava neste maio calorento e úmido. Havia um padre e um pastor. Cada qual na sua eloquência, interpretando evangelhos complementares sobre a vida e a vida após a vida. As palavras eram soltas, mesmo que pré-pensadas, fugiam da liturgia usual e mostravam garantia de benquerença com a família. O conteúdo e a crença de cada um dos dois não causavam dano ao outro, mas sinergia e coesão. Falavam sobre amor e compaixão, não de forma ritualística, mas humana, quase casual e fácil compreensão laica. Por outro lado, a trilha sonora da cerimônia não havia sido encomendada aleatoriamente. Dignificava o ouvido e os dedos - puxando ou retendo cordas - que criavam acordes de quem havia partido. Dignificava, sobretudo, pelas melodias e o conteúdo simbólico dos versos de cada uma das canções escolhidas com carinho, sensibilidade e atenção. Havia dor, é claro, mas compungida. No ambiente cabiam a sonoridade da música e de seus intérpretes, a partir de uma criança de 10 anos. Essas ressalvas definem claramente a delicadeza dos que, mesmo pesarosos e privados de seu marido, irmão, pai, avô e líder, souberam honrar sua ausência-presença com amor e sutileza, inclusive na seleção de fotos a paginar o livreto de acompanhamento. É nesses momentos que se conhece o nível de educação, discrição e respeito de todos e cada um. Lá do meu canto, acompanhava tudo e sentia o pesar dos que lá estavam por parentesco e amizade. É claro que a maioria era de amigos, até os que não precisavam ir lá à frente apertar mãos e saíram como chegaram: silentes, com respeito e atenção, pois essa missa era, acima de tudo, um ato de fé e esperança. Não era fruto da razão, ultrapassava seus limites, pois segundo Anatole France: “A razão não tem tantas virtudes assim. É preciso, para servir aos homens, rejeitar a razão, como uma bagagem embaraçosa e, elevar-se sobre as asas do entusiasmo. Quem raciocina, não voa”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/05/2008. - [PERSONALIDADE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/personalidade-diario-do-nordeste/): A Brazilian-American Chamber of Commerce realizou, na quinta-feira, a sua 38ª. edição de entrega do prêmio Personalidade do Ano na cidade de New York. Essa grande festa anual tem nível de respeitabilidade internacional por conta de sua seletiva Diretoria e do Comitê Honorário. Os nomes que os integram são destaques em suas áreas de atuação e têm um zelo na escolha de cada personalidade que é eleita, anualmente, exceto no ano de 2001, por conta dos ataques de 11 de setembro. Este ano, a personalidade brasileira escolhida foi a senhora Yolanda Vidal Queiroz, dirigente do grupo Edson Queiroz, desde o falecimento de seu marido, em 08 de junho de 1982, em acidente aéreo. Não há dúvida que os patrimônios material e imaterial deixados por Edson Queiroz, espargidos por todo o Brasil, são significativos e relevantes. Não se pode deixar de realçar o empenho da família e executivos nos vários ramos em que atuam com discrição, responsabilidade, eficácia e descortino. Mas, cumpre destacar que D. Yolanda Vidal Queiroz, com seu jeito cordial de falar com todos, enfeixou e passou a liderar milhares de pessoas na complexa estrutura organizacional. Tem crescido, em atuações marcantes no ensino superior, com a respeitável Universidade de Fortaleza, exemplo de gestão acadêmica e de êxitos; na distribuição de gás liquefeito de petróleo em todo o Brasil; na indústria de eletrodoméstico; na sempre crescente atuação na área de águas minerais; imobiliária e fazendas; e no complexo de rádios, jornal e televisões que abrange não só o Ceará, mas outros estados brasileiros. E, repito, tudo isso é edificado e consolidado, no dia a dia, com cautela e sensibilidade femininas, atenta aos detalhes, auscultando familiares, mas tendo consciência de que a sua palavra final é decisiva. O que nos alegra, como cearenses, é que D. Yolanda é a primeira mulher brasileira a ser distinguida com esse laurel internacional que faz justiça à força do seu trabalho, respeito aos colaboradores e à crença de que somos operários da vida e que nossas mentes são fábricas de sonhos que precisam ser implantadas, mas sem os ruídos dos moinhos de ventos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/05/2008. - [MAIO 68, 40 ANOS. - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/maio-68-40-anos-jornal-o-estado/): Antes que maio acabe gostaria de dizer que muita gente idealiza o maio de 68 no Brasil. Aqui, na verdade, o ano começou depois. Havia uma ditadura e maio passou incólume. Depois, sim, como reflexo do maio da França. Vieram a Passeata dos Cem Mil, a invasão do restaurante Calabouço, em junho, no Rio, e o congresso da UNE, em novembro, em Ibiúna, SP, quando 920 estudantes foram presos. Como contrapeso, veio o Ato Institucional No. 5, em 13 de dezembro, e o ano não terminou no dizer de Zuenir Ventura, autor de “1968 – O ano que não acabou”. Ele diz: “Aquela utopia ingênua de que as drogas seriam uma abertura da consciência a novas percepções...” E continua: “a droga provou ser um instrumento de morte desde que foi apropriada pelas multinacionais do tráfico”. Ele também fala, hoje: Eu sou contrário a essa tendência de folclorizar 68, reduzindo-o a um movimento de malucos, drogados e porra-loucas. Não era e não foi assim”. Vamos então falar de maio de 68. O maio foi na França. Lá, aconteceu. E não foi um movimento organizado, mas uma espécie de “Woodstock” urbana em que se contestava tudo. O mundo havia mudado, sim, mas não por conta exclusiva desse maio de 1968, porém de tudo o que tinha sido vivido, dito e escrito antes por pessoas como Simone de Beauvoir que pregava a luta pela liberdade, ao invés da conquista da felicidade. Àquela época, as mulheres haviam conquistado a liberdade como decorrência de anos de lutas individuais ou coletivas. Os estudantes protestavam, eram cabeludos, o sexo aflorara com a pílula e a droga começava a sua trilha malfazeja, sem prejuízo dos sonhos que embalam as resistências. As universidades de Sorbonne e Nanterre foram o foco de todas as ações. Nessas ações surgem líderes, naturalmente. Um dos líderes franceses era Daniel Cohn-Bendit, então maoísta, trotskista ou anarquista, que depois “se tornaria um respeitável deputado no Parlamento Europeu”, no dizer de Peter Burke, historiador inglês. Os jovens arrancaram pedaços de calçamento, quebraram a representação da American Express e de bancos americanos, picharam a cidade e atiçaram o velho Charles De Gaulle e este queria reagir, mas recuou. Deixou a onda passar, ganhou as eleições parlamentares, mas renunciou em 1969, sendo sucedido por seu amigo Georges Pompidou, também do mesmo pensar. Em 1970, Jean Paul Sartre diria: “...estava pensando no que havia acontecido (68) e que não tinha compreendido muito bem. Não pude entender o que aqueles jovens queriam”. É claro que os jovens queriam avanços na alma política francesa, que as universidades fossem reformadas, com aumento de vagas e melhor qualidade acadêmica. As feministas queriam rasgar seus sutiãs e mudanças na organização familiar que passou a não esconder debaixo dos tapetes as suas mazelas e dramas. O que fica bem claro nestas comemorações é que o residual de tudo parte da busca da liberdade, do sexo sem medo, da aceitação das minorias, da disseminação da cultura pela dúvida, de novas posturas pessoais em relação à sociedade e da busca da igualdade entre homens e mulheres. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/05/2008. - [HERANÇA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/heranca-diario-do-nordeste/): As pessoas nascem, crescem, estudam e lutam. Umas apenas conseguem o mínimo para sobreviver. Outras alcançam êxito profissional, acertam ou não na escolha do parceiro conjugal, têm projetos comuns e uma vida longeva. Incerto dia, pela lei natural, um se vai e fica o outro, geralmente só. Filhos, se existirem, estarão casados, cuidando de suas vidas. Essas observações alinhavadas, decorrem da leitura acidental de notícia do jornal Folha de São Paulo com a manchete: "Por temer briga pela sua herança, Lily Marinho leva a leilão R$ 30 milhões em bens". A Sra. Lily foi casada, em primeiras núpcias, com o empresário Horácio de Carvalho. Eles perderam seu único filho, Horacinho, morto, aos 26 anos, em desastre de automóvel. Resolveram adotar um menino, João Batista. JB cresceu, não virou jornal, mas músico e foi morar nos Estados Unidos, onde casou quatro vezes e tem um filho de cada mulher. Horácio ao morrer deixou tudo para Lily. A Sra. Lily casou então com o Sr. Roberto Marinho, das organizações Globo. Agora, viúva de Roberto, aos 87 anos, ciente da finitude resolveu fazer leilão de fazendas, móveis, quadros e joias pessoais e, com o produto da venda, criar um fundo de investimento para o filho adotivo e os quatro netos. Ela se diz temerosa quanto ao futuro do patrimônio por conta de eventuais questões judiciais. Diz ainda que não vê mais sentido em ter tanta coisa ao morar sozinha no casarão que reverterá para os herdeiros de Roberto Marinho- com quem era casada com separação total de bens - após sua morte. O que se deduz é o óbvio: saímos do mundo sem nada. Os bens que acumulamos, por trabalho ou herança, sejam para desfrute, geração de empregos e renda, especulação ou mera ostentação, eventualmente se tornam uma espécie de punição, se a família não se mantiver unida para cuidar, repartir sem traumas e agir com sensatez. Ou, se em caso contrário, se engalfinham em questões, prejudicam empresas ou o usufruto comum dos bens, para deleite de advogados que, às vezes, açulam as partes sem o menor respeito pela memória ou patrimônio de quem se foi e tudo deixou. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/05/2008 - [DESTINO: ESPERANÇA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/destino-esperanca-jornal-o-estado/): Essa minha mania de ler muito acaba me pregando peças. Pois não é que uma simples notícia na revista Veja me levou a uma pesquisa inútil. Ela, de tão boba que é, fez com que risse de mim mesmo pelo tempo que perdi. De qualquer forma, estou passando para vocês, a quem peço, antecipadamente, desculpas. Juro que não sabia quem era Destiny Hope Cyrus, ou Miley Cyrus, uma garota americana que canta, toca guitarra e é atriz. Li na revista Veja. Depois, pesquisei em jornais, internet e outras revistas e constatei que ela só tem mesmo 15 anos e já fatura 17,5 milhões de dólares por temporada, o equivalente a 30 milhões de reais. Seu pai, Billy Ray Cyrus, um cantor de rock que não fez sucesso, parece ter tido inspiração do além ao lhe batizar com o duplo nome Destiny Hope (destino esperança). Ela hoje é o sustento de sua família e tem contrato permanente com os Estúdios Disney e já vendeu 8 milhões de CDs, 3 milhões de DVD, outros milhões de jogos interativos e até de livros. Agora, pasmem vocês, Miley Cyrus, seu nome artístico, terá a biografia publicada e os seus longos e profícuos quinze anos serão esmiuçados por um escritor-fantasma que encantará adolescentes e adultos já cansados dos filmes e livros de Harry Potter. A biografia venderá aos milhares, logo será traduzida em inúmeras línguas e vendida para diversos países. O Brasil será um deles, não tenham dúvidas. Além do contrato com a Disney, onde interpreta -em um seriado- a personagem Hannah Montana no qual contracena com o seu pai, no exato papel de pai, a garota-prodígio faz shows e já arrecadou 65 milhões de dólares com eles. Pais americanos, para apascentarem seus filhos, chegam a pagar até 1.000 dólares por um lugar privilegiado nesses shows. Os Estados Unidos, país dito civilizado, de vez em quando se torna uma paródia da televisão brasileira em que Xuxas, Angélicas e outras entretêm e hipnotizam milhões de pessoas que, em suas cabeças ocas, são consumidoras dessas fantasias, vendo a vida com olhos destorcidos da realidade, acreditando em meninas que viram princesas com o simples tocar de uma vara mágica de fadas ou achando que Chapeuzinho Vermelho encontrará um meio de se safar do Lobo Mau. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/05/2008. - [MARCELA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/marcela-diario-do-nordeste/): A noite findara o seu turno e não queria ir embora, esperava por você. As rendas de chuva fina duelavam com a tímida lucidez do sol até seus raios vencerem o duelo espacial para refulgir em sua face, chegando como alvíssaras. Você veio do recôncavo do amor para a plenitude da vida neste 05 de maio, dia consagrado, logo a quem, a Santo Ângelo, também protetor onomástico de sua irmã e avó. E sabe como Ângelo tornou-se santo? Pelo anúncio sagrado de que ele, Ângelo, teria um novo irmão, embora seus pais achassem impossível. Mas, aconteceu. E sabe qual foi o nome dado ao irmão de Ângelo? João. Engraçado, não. Você compreenderá, um dia. Somos todos irmãos, embora nomeados disso ou daquilo. A sua chegada, para mim, é a mais pura encarnação de amor e se sorrisse, gritasse ou sussurrasse ninguém iria entender o gesto. E por ser de pouca reza, apelei para um aquietado Pai Nosso, a oração de amigos, companheiros, filhos, pais e netos, na certeza de que somos grãos de areia na ampulheta do viver. Ainda que juntos, temos átomos a nos dividir e a desfalcar o amor. Não há como parar o tempo, vilão eterno a corroer partes do ser. O saque é mínimo quando se é como você, querida Marcela e o tempo soa infinito. Mas, para os que colheram muitos anos, intuem que seja finito. Tudo errado. O tempo é apenas definitivo. E você nasce para embalar o aconchego do amor, este o único liame a nos fazer eternos. Mesmo incompreendida, nunca deixe de amar, essa força única e ampla a nos tornar plenos. E se lhe digo isso no dia de sua entrada no mundo é porque outra pessoa nascida há 190 anos, neste mesmo 05 de maio, um filósofo, Karl Marx, escreveu que “tudo que é sólido se desmancha no ar”. Seja, pois, líquida, fluida, etérea e sublime no amor que venha a dar às pessoas, a partir de seus pais, irmã, primos, tios, avós e bisavó. Daí, lute e viva. Conte comigo, mesmo nascido noutro século, espero ainda ver muitas luas e sóis. Testemunhar que você, Marcela, tal qual um martelo, transforme as pedras de sua vida em estrada, ainda que singela, onde possa transitar com esperança, modéstia, confiança, trabalho, dignidade, energia e amor ao próximo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/05/2008. - [UMA JANELA COM OITENTA VENEZIANAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/uma-janela-com-oitenta-venezianas-jornal-o-estado/): Imagine alguém com 80 maios enviando, em requintado invólucro, CD com “passagens musicais” encimado por caricatura sua feita pelo artisita Valber em que um riso franco e maroto parece dizer: ‘pois é no dia 05 de maio de 1928 eu nasci para trazer ao mundo responsabilidade integral no trabalho, fidelidade a todos que me cercam, alegria e coesão com amigos e colegas, amor à minha família e um laço indissolúvel com Guanacés, meu berço-terra, antes por cascavéis protegida e, desde sempre, por mim’. E saiu do berço-terra com a garra dos que sabem o que querem e o que fazem. Estudou, mourejou alhures e aquietou-se há décadas, não por ação de gás paralisante, mas energizante a lhe conferir, a cada dia, água pura no singrar e embarcar no átrio da grande nau em que ressurge todas as manhãs como destemido guardião de valores. Por outro lado, nada disso o impede de desnudar a sua face simples com a coragem de ter seus traços faciais caricaturados. Rir de si mesmo pelo dom da vida que Deus lhe deu e compartilha da maturidade/juvenil que o envolve com D. Isolete, filhas, genros, netos, irmãos, sobrinhos, parentes´, companheiros e amigos de confrarias em uma ‘festalmoço’. Nela todos ouvirão e cantarão a Janela da sua Vida, com venezianas abertas aos sopros duradouros dessa tarde que não aceitará o crepúsculo e enfunará velas para o sempre. Ouvirão também outras passagens musicais que adornam, em dimensão paralela ao trabalho, seu repertório/repositório sensível de valores imateriais feitos em toda uma vida com ilhas de prazer em que se misturam, naturalmente, ao inesperado de tempestades, mortais que somos. E todos, familiares, colegas e amigos, meu caro homem de bem José de Arimatéia Santos, que o abraçarão neste sábado falarão com a linguagem da alma, aquela que, até no silêncio e no riso, diz da fraternidade de espírito e poderão, data vênia, dividir com D. Isolete a música que a ela dedicou, plagiando a você próprio ao entoarem de forma canora, uníssona e de mãos virtualmente dadas: “Eu gosto muito de você, eu quero você sempre assim, o nosso amor é um eterno viver. O nosso amor jamais terá fim”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/05/2008. - [CARTA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/carta-diario-do-nordeste/): Não fui à Assembleia Legislativa. Não queria vê-lo inerte. Por você, nos últimos meses, havia estado lá. Uma vez, por ocasião da homenagem aos oitenta anos da sua empresa. Ouvi o seu agradecimento e comentei que você falou melhor quando saiu do script. Lembra? Na outra, você me convidou para paraninfá-lo em duplo recebimento de prêmio. Depois, ficamos conversando a sós, como era rotina, até que o deixei em casa. Você sabe que nosso conhecimento vem de longe, muito longe e nunca teve viés de interesse, tampouco de negócios ou falávamos de pessoas. Trocávamos ideias e conversávamos sobre projetos, família, filhos, Fortaleza e o nosso Estado. Havia, entretanto, um pudor ou respeitoso silêncio mútuo sobre as dores da vida real. E por isso, hoje, me culpo. Esse limite tênue entre a intimidade e a bisbilhotice era respeitado desde os anos 70 quando viajamos juntos à Europa. Depois, pelo destino, nos tornamos uma rara espécie de contra-parentes. Foram muitos os encontros, em almoços, jantares, festas, ocasiões de luto, bate-papos, visitas, telefonemas e e-mails em que divagávamos, até sobre música, por seu viés de violonista encabulado. Mais uma vez, culpo-me por não ter lhe falado de outro Demócrito, o filósofo grego, nascido quatro séculos antes de Cristo. E eu poderia ter lhe dito alguns fragmentos do que ele escreveu. Em um deles, ele disse: “nós na verdade não conhecemos nada de certo, mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo.” Em outro, ele referia que: “falsos e hipócritas são aqueles que tudo fazem com palavras, mas na realidade nada fazem”. Você era um artífice de sonhos e do fazer acontecer. Basta abrir seu jornal, ouvir suas rádios, ver a sua televisão, ler as centenas de publicações de sua editora e constatar as ações de sua fundação e instituto que se transformam em audácia e vanguarda. Por fim, eu teria dito outra frase de Demócrito, o de Abdera: “Ocupe-se de pouco para ser feliz.” Mas, eu sabia que suas múltiplas vidas ocupavam uma mente criadora e que centenas de pessoas dependiam de seus sonhos metamorfoseados em ação que me obrigam a vê-lo sempre de pé, com o olhar de futuro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/05/2008. - [CHEGAR JUNTO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/chegar-junto-jornal-o-estado/): Faz uma semana que ando pensativo, mais que o usual. Penso na vida, família, amor, amigos, no sentido da luta pela existência, no descompasso entre o que intuímos, o que fazemos e em como tudo isso é lido e assimilado por nós mesmos e pelo outro. O outro, já disse certa vez, é alguém como nós, de modo reverso. E quando acontece algo de extraordinário, que nos comove e mexe com as nossas estruturas emocionais, ficamos pasmos. Por que isso? Por que aquilo? E o que sofremos, muitas vezes, é por não ver o outro como uma outra versão de nós mesmos, como semelhante que, muitas vezes, precisa de prontas atitudes de nossa parte. Seja um simples gesto, um palpite para mudança de foco ou até uma intromissão benfazeja, desde que no tempo certo. Mas, e o mas é fogo, ficamos, quase sempre, remoendo nossos problemas, como se fossemos o centro do planeta e esquecemos do outro. Daquele cujo olhar, gestual, até desleixo, excesso no comer e no beber ou no tom de voz a denunciar angústias, que não cuidadas, somatizam-se e transformam-se em depressões profundas a pedir atenções que passam além da boa vontade do amigo, parente ou companheiro. É preciso sair do nosso casulo, ter uma atitude ativa e encaminhá-lo a um profissional competente e sério, do ponto de vista ético. Não a meros experimentadores ou “receitadores” de remédios que embotam a razão de quem os toma. O olhar para si próprio é importante, mas nada há que impeça de se ver o outro, senti-lo, adverti-lo ou ajudá-lo. Trata-se de compaixão, sentimento que não é bem explicado e compreendido. Há quase sempre um olhar de urgência no outro que teimamos em não ver ou simplesmente não somos suficientemente atentos às dores alheias. O estar ocupado sempre, a falácia que é a pseudo proximidade pela Internet com e-mails genéricos de orações e correntes bobas. O despreparo para ouvir mais que falar são razões basilares do distanciamento entre as pessoas. Não acredite na euforia das grandes rodas, na alegria coletiva e em aparências. Se você gosta de alguém não o abandone, ligue-se e sofra até o peso de ser incompreendido. Ouça-o, por favor. Sem dúvida, será melhor que chorar pelo que não pode evitar. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/05/2008. - [ÍCARO E A FLAUTA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/icaro-e-a-flauta-diario-do-nordeste/): No dia 07.06.2007 escrevi “Tristeza e Tributo”, na imprensa local. Eu dizia estar triste e enumerava minhas razões. A primeira era o fato de jovens universitários terem maltratado, no Rio, uma mulher apenas por cismarem ser ela prostituta. Depois, escrevi: “em outro episódio, nada a ver com o primeiro, vi outros jovens estudantes de uma universidade pública, a tentar empanar o brilho da posse de um Reitor legitimamente eleito. Eles tocavam flauta, portavam cartazes, levavam um simulacro de caixão e falavam da democracia amordaçada. Tiveram plena liberdade de transitar, fazer sua ‘performance’ e se retiraram em meio ao silêncio democrático de todos, inclusive, de outros jovens.” Hoje, mais uma vez triste, posso dizer que o fato que retratei, veladamente, aconteceu na Universidade Federal do Ceará na posse do Reitor Ícaro de Souza Moreira. Eu estava lá e testemunhei o comportamento dele. Parou a solenidade, ouviu a marcha fúnebre na flauta tocada e leu todos os impropérios dos cartazes; impediu que a segurança retirasse os estudantes/manifestantes e, pacientemente, aguardou que saíssem, para concluir o evento. O cumprimentei e naquela mesma noite resolvi escrever o artigo citado. Dias depois, ele me escreve bilhete agradecendo e dizendo que teria um diálogo amplo com todos, inclusive os estudantes que o haviam hostilizado. Agora, Ícaro está morto. Foi acometido por mal súbito. O que depreender de todo esse episódio que ora lhes repasso? No meu entender, não tendo a pretensão de ser certo, Ícaro lutou, desde o primeiro dia, para fazer da UFC uma universidade aberta ao diálogo. Sentiu a injustiça e o emaranhado da burocracia, cientista que era. Mente e corpo pagaram preço alto para conviver com tanta luta que começava ao raiar do dia. O exemplo silencioso que ele deixa é prova de que ainda se pode ter esperança na administração pública. Poucos ali são os venais e muitos os que trabalham feito formigas, sem cantar de cigarras. No velório, encontrei um casal de filhos seus ao pé do caixão e lhes disse que Ícaro tinha cumprido a tarefa a que havia se proposto e agora descansava, sem ouvir flauta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/04/2008. - [FALSAS DITADURAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/falsas-ditaduras-jornal-o-estado/): Estamos todos vivendo falsas ditaduras: a dos que se dizem politicamente corretos, a dos metidos a ambientalistas sem saber sequer o que é meio ambiente e a dos que resolveram, de uma hora para outra, posar disso ou daquilo quando nunca foram nada além de seus sapatos. Todos somos pressionados ainda pelos laços de ternura que nos cobram tudo e pouco dão, pela dureza do trabalho, dos muitos impostos que pagamos e pela incerteza que nos propicia a falta de segurança pública. Compramos boas fechaduras para as casas, trancamos os carros, colocamos alarmes, levamos pouco dinheiro vivo no bolso e não nos sentimos seguros em lugar nenhum. Um dia desses, em das esquinas da vida, ouvi uma batida forte no vidro do meu carro. Olhei, distraído que estava, abri um pouco vidro e ouvi de um homem feito e maltrapilho: “vai me dar um dinheirinho ou quer que eu assalte”. Dilema facilmente resolvido, mas ficou ressoando aquela fala de revolta, o duro bater de dedos no vidro e o olhar que me fazia sentir culpado apenas por estar ali sentado a guiar o meu carro. De nada valem os impostos que pagamos e o que fazemos em nossas vidas. Em cada esquina somos confrontados com a realidade social gritante que é também fruto de tudo o que plantamos em anos de indiferença, ao eleger gente despreparada e/ou desonesta, não reclamar dos que achacam ou dos que usam e abusam de estratégias para corromper e zombar dos outros. Cada carrinho de geladeira de um catador é como se fosse um esquife de todos nós, não, não estou sendo injusto, acreditem. É preciso que as pessoas também batam às portas das autoridades e digam, depois que baixarem os vidros da indiferença, que está na hora de parar de zombar de nós. É tempo de se enfrentar os que acreditam que podem fazer tudo e ficar por isso mesmo. Basta de tanta submissão, de tanto salamaleque para quem sabemos que fala uma coisa e vive outra. É hora de dizer, de mostrar os erros, inclusive os nossos. É tempo também de desafiar os que se encastelam em cargos e entidades, sem representarem nada, passam a viver como se donatários delas fossem, sem nada a construir de concreto, a não ser plantar notas em colunas de jornais. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/04/2008. - [TIRADENTES E A INDEPENDÊNCIA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tiradentes-e-a-independencia-diario-do-nordeste/): A palavra independência soa forte para mim. No meu caso pessoal, o primeiro ato de “independência” foi não querer que ninguém me deixasse no colégio. Eu queria ir só. O máximo que consegui foi que alguém me seguisse a uma distância razoável. Eu era criança, mas queria independência. Depois, quando os anos correm, se descobre que há um preço alto a pagar pela independência. Para que ela aconteça temos que arcar com as consequências do viver. Cada ato que fazemos produz uma fagulha existencial que, queiramos ou não, tem implicação na vida das outras pessoas. Assim, tive que acatar e admitir a minha submissão até o dia em comecei a viver do meu trabalho. Lembrei de tudo isso a propósito do dia de amanhã, data consagrada à Inconfidência Mineira e a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Ele também queria a independência, não pensava em si, mas na submissão de todos à Coroa Portuguesa. O final, já sabemos. Só ele acabou sendo enforcado em 21 de abril de 1792, no Campo de Lampadosa, no Rio de Janeiro. Mas, estava plantada a semente da Independência que viria em 07 de setembro de 1822 e que só aconteceu porque José Bonifácio, que era conservador, brigava com Gonçalves Ledo, que era liberal. Bonifácio, juntamente com a Princesa –consorte - Leopoldina, fez a cabeça de D. Pedro e aí aconteceu o grito do Ipiranga. O fato é que D. Pedro andava muito por São Paulo a conversar com uma Marquesa e, no citado dia sete, voltava de Santos. O que não se diz é que a Independência custou caro ao Brasil, pois não aboliu a escravatura, não mexeu com a aristocracia rural e conseguiu o feito de falir o Banco do Brasil em 1829, quando, cansado dos trópicos, D. Pedro I volta a Portugal levando tudo o que tinha nos seus cofres, cerca de 50 milhões de cruzados. Além disso, aceitou pagar indenização de dois milhões de libras esterlinas a Portugal para a alegria dos ingleses, credores de Lisboa. E ele, que ‘rompera’ os laços com Portugal, paradoxalmente viria a ser, ainda por breve tempo, Rei de Portugal, como D. Pedro IV. Como se vê, o preço da Independência foi alto, mas eu deveria ter deixado para falar disso na Semana da Pátria e não hoje. João Soares Neto, escritor. CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/04/2008. - [BOI CHOCO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/boi-choco-jornal-o-estado/): Cansado das praias conhecidas, bares, clubes e restaurantes onde sempre encontramos as mesmas figuras, algumas tristes, como as queria Cervantes, outras saltitantes, como manda a vida que escolheram, fui, com pequeno grupo de amigos, levado ao Boi Choco. Certamente, vocês não sabem onde fica o boi choco. Eu também não sabia. Ele não consta de roteiro turístico, tampouco dos lugares aonde os saltitantes espíritos vão ao sair de casa, não para comer ou beber, mas para serem vistos ou ver e falar o que não sabem. O Boi Choco é um lugar perdido na zona oeste, no lado onde o sol dormita no crepúsculo, depois da barra de um rio, logo após o passar da grande ponte e começa outra cidade. Depois de se passar por um arruamento precário, chega-se a uma nesga de praia com pouca areia, em maré cheia. e uma curva profunda, com barracas de palha, mesas de madeira velha, cadeiras tortas e maresiadas, sons bregas emitidos por toca-fitas de carros com muito tempo de fabricação, múltiplos donos e alquebradas funilarias, mas que se afoitam a varar o areal, munidos de espontâneos capatazes dispostos a empurra-los quando o eixo traseiro afunda. E foi em um desses bares, onde o próprio dono serve os comes e bebes vestido em encardido calção de cor indefinida e mostra as pelancas de sua protusa barriga, que ficamos. Ao lado, havia pessoas misturando cachaça com sukita e tirando gosto com cerveja, sem esquecer de dar uma colherada em um baião-de-dois que mostrava a independência do feijão e do arroz. E foi lá que vi um bêbado que não era equilibrista, certamente não ouvira falar em Aldir Blanc, trocando as pernas e tartamudeando palavras, mas não escondia o desejo de mais uma bicada. Não sei se continuará bêbado, mas todo o seu sistema renal deveria estar sendo cobrado e os olhos vermelhos demonstravam a queda dos seus impulsos. E nas paredes estavam sendo afixados cartazes de candidatos, não mais com a velha cola branca, pois são autocolantes, eleição moderna, ora vejam. E quando me distanciei da roda para ver o mar de perto, ouvi o pio do meu celular informar que a bateria havia descarregado e eu estava só, isolado e olhando para a minha cidade, tão perto, mas distantemente silenciosa, não mais aquela que nos aconchegava a todos, mas a que amedronta em todas as esquinas, ruas e lugares. Ali, em meio ao sol da tarde e ao vento agudo que trazia micro grãos de areia vi meus olhos marejarem, mas isto é outra história. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/09/2006 - [BIBLIOTECAS E O AMOR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bibliotecas-e-o-amor-diario-do-nordeste/): Recentemente, por uma dessas sortes da vida, participei de uma tarde de conversa com o acadêmico Antonio Olinto, o bibliófilo José Mindlin, o cronista Vicente Serejo e outras pessoas. Falavam de livros, de como esses papéis impressos, encadernados e encapados foram importantes em suas vidas. Deixavam clara a seriedade da ação das bibliotecas públicas no desenvolvimento do saber e da cultura. E ficou explícita a carência de bibliotecas em todo o Brasil. Ao mesmo tempo, se chegou a conclusão de que é um profundo desperdício o fechamento das bibliotecas aos fins-de-semana. Ora, dirão alguns, quem trocará praia, banho de rio, futebol, botecos ou cinema por uma biblioteca? Ocorre que nas bibliotecas não caberiam todas as pessoas. Elas, ainda em pequeno número, dariam apenas para centenas de pessoas e essas mesmas pessoas sairiam de lá, sem dúvida, não com a pele bronzeada, mas com a inteligência aguçada, maior capacidade de análise crítica e descobririam que suas imaginações poderiam lhes transportar a outros mundos, outros sentidos de existir. O apelo que os bibliófilos, os que amam e cuidam de livros, fazem aos governantes de todos os matizes é que criem mais bibliotecas e as deixem abertas aos sábados, domingos e feriados; divulguem seus horários, locais de funcionamento, programem contações de histórias, palestras e debates sobre autores e suas obras. A propósito, a maior biblioteca de São Paulo, a Mário de Andrade, que tem um acervo de 3 milhões de obras, realiza, sistematicamente, ciclos de palestras. O último acontecido, foi sobre “A literatura russa pelo prisma do amor”. Assim é que autores clássicos como Dostoiévski, Tchekhov e Tolstói, entre outros, foram revisitados nas suas nuances afetivas, sensualidade e compaixão. Todos, desde os jovens que ainda não escrevem cartas ou e-mails de amor, aos já maduros com suas complexidades existenciais e até os idosos em seus processos pessoais de ajustes de contas com o tempo, são enredados, uns mais, outros menos, pelas teias do amor e nada melhor para guiá-los em suas trilhas afetivas, que um bom livro com paixão, sentimentos, relações de ódio, esperança e gozo. Não são as receitas prontas dos livros de autoajuda as que podem auxiliar nas dores de amores, mas a descoberta ou identificação em histórias que, aparentemente, pouco têm a ver com nossas vidas. E é nessa visão não ortodoxa que as bibliotecas e os livros podem agir como cupidos, encarregando-se do enlevo que precede o encanto dos que sabem estar apaixonados e correspondidos. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/09/2006. - [LEITURAS ERRADAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/leituras-erradas-jornal-o-estado/): Amiga reclama das leituras erradas que fazem do que fala e de como vive. Diz que é incompreendida e que alguns, de boa ou má-fé, resolveram espalhar inverdades a seu respeito. Lamenta que não a conheçam na sua essência e façam coro a estórias, sem ouvir a sua palavra. Reclama que alguns não a conheçam como realmente é, desconheçam as atitudes que toma em situações emergenciais quando é preciso ter bom senso, comandar, discernir e ajudar o próximo. Pois é. O comum, e mais cômodo, é as pessoas fazerem leituras erradas dos outros. Os sentimentos de empatia, simpatia e antipatia são muito próximos, limítrofes, e dependem sempre da história de vida, da essência, do olho e do ouvido do outro. Nós somos o que somos, mas os outros imaginam que somos o que pensam que somos. E aí é que residem as grandes querelas entre gente que se amou, foi colega ou amiga. Um dia, rompem. São fatos, atitudes, e boatos que minam as relações de amizade, benquerença e amor. Chega um dia em que os arautos da maledicência são os 'vencedores', por plantarem a discórdia, a desunião e até a separação de pessoas que, mesmo cometendo erros, gostariam de ter alguém que lhes trouxesse alento. Falta, nestas horas, um pacificador, alguém leal às partes envolvidas, sem tomar partido. Ao contrário, sobram os que põem lenha na fogueira das fofocas, os que referendam leituras erradas, aqueles que trazem a 'solidariedade' não pedida, fazendo eco às tais maledicências e desentendimentos. Os maledicentes depois voltam para as suas vidas, tristes, alegres ou indiferentes por terem insuflado o rompimento de colegas, familiares, casais ou amigos. Os rompidos ficam lá, em suas solidões induzidas, questões a resolver, sem ter mais o apoio dos que lhes minaram a relação e que, via de regra, já estão atrás de outras estórias, fofocas e vítimas. Os 'solidários' voltam, quando muito, como Pilatos no Credo, de mãos lavadas, sem emoção e coragem de, pelo menos, dizer: reconsiderem, reexaminem, não foi bem assim e, se foi assim, desculpem ou perdoem. Cada um precisa encontrar a sua própria resposta, sem medo de ceder, desculpar e sem ódio. E não seria perda de tempo conhecer a letra traduzida da música ´My Way´. Cada um tem o seu jeito, o seu modo de viver, reagir, amar e ser amigo. E o importante é que o nosso jeito de ser possa, apesar dos pesares, aceitar o jeito de ser do outro. E vice-versa. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/09/2006. - [AS DORES DOS FILHOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-dores-dos-filhos-jornal-o-estado/): Quem tem filhos sabe do que estou falando. Primeiro, são os choros que eclodem com a saída do ventre materno e o forte impacto com uma nova ordem de vida, alimentação, sono e vigília. Depois, vem a socialização com a família, escola, amigos e colegas que vão encontrando ao longo da infância. Um dia, mais cedo que se imagina, começam a entender que existe amor além da família. É o namoro que vem, rompendo as amarras dos sentimentos que estavam ancorados nos pais e irmãos, e chega com força, mexendo com a estrutura familiar que era fechada e não conhecia estranho, exceto parentes, amigos e colegas. É a partir desse encontro de nossos filhos e filhas com as filhas e filhos de outras famílias que surgem as primeiras dores existenciais das crianças que vão se tornando adultas, mas ainda acorrentadas pela imaturidade que nos acompanha quase sempre e, muitas vezes, atravessa toda a vida. Pois bem, os namoros geram conflitos e são os pais os que primeiro participam das dores de amores dos filhos, sem que tenham remédios prontos, pois suas receitas são de outros tempos, outros valores, outras histórias. Assim é que as famílias vão se conhecendo, quando há choro cá e chora lá. Quando as incompreensões podem toldar a alegria de estar junto, de dividir quimeras, de amealhar esperanças. Depois, amainado esse tempo, trabalho resolvido, vem o casamento e são tantas as dores quanto às alegrias nos preparativos, independente do que possuímos, que todos chegam estressados à cerimônia, muitas vezes sob a ditadura temporária de uma cerimonialista que se arvora de magistrada, decidindo, impondo a sua ordem aos que lhe pagam e têm que obedecer. Casados, enfim. E aí, pela ordem natural, esperam-se filhos dos filhos e os desejamos que venham sadios, bonitos, que portem nossos nomes e sobrenomes, mas há desígnios outros que, muitas vezes, impedem a realização dessa vontade e isto causa dor, dor essa que vai se alastrando e atinge a todos. E é nos instantes naturais, mas diferentes da alegria da chegada dos filhos dos filhos na incapacidade ou perda momentânea de uma planejada e querida vinda, que todos devem estar juntos, descobrindo-se solidários e coerentes, admitindo que a vida não é apenas um acontecimento, qualquer que seja ele, mas o saber extrair dela algumas reflexões que possam nos tornar mais humildes e corajosos, paradoxalmente, para enfrentar o futuro, esse lugar entre as lembranças de ontem e o que devemos fazer de bom, hoje. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/08/2006. - [TREINANDO PARA VOTAR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/treinando-para-votar-diario-do-nordeste/): Eleitores precisam de informações sobre os cargos e os candidatos, conhecer suas histórias de vida, seus atos públicos, ouvir menos propaganda enganosa e ter responsabilidade com os seus votos, pois não votam uma vez no dia 01 de outubro, mas várias. João Soares Neto Em crônica que publiquei em 1987, dizia que os eleitores não têm o direito de reclamar dos políticos eleitos. Eles foram eleitos por nós. Tem o nosso jeito. Os eleitos são, quer queiramos ou não, parecidos conosco. Agora, neste 2006, haverá nova eleição. A que escolhe deputados estaduais e federais, um senador, vice e governador, vice e presidente da República. Deputados e senadores são delegados diretos do povo, não despachantes a serviço de eleitores. Governadores são gestores, administradores e controladores das várias e complexas faces dos estados. O presidente da República é o mais graduado funcionário público do país, e a ele compete gerir com equilíbrio, segurança e honradez uma nação que já seria maior não fora os incontáveis desvios acontecidos ao longo da história brasileira republicana. Nada de novo no que escrevi, mas esta obviedade precisa ser repetida, entendida e vivenciada por eleitores e candidatos. Por incrível que pareça, algumas pessoas querem ser deputados porque não deram certo em outras atividades. Outros acreditam que exercem um cargo vitalício. Ser deputado é uma tarefa nobre, com tempo certo, e pressupõe que a pessoa exerce tal cargo com a dimensão da sua responsabilidade pública. O governador é um delegado-empregado da sociedade e a ela deve satisfações. O presidente é o funcionário público mais graduado do país. Tudo isso seria mais bem percebido se os partidos políticos tivessem a humildade de dar cursos de iniciação política e, principalmente, cuidassem que seus candidatos aprendessem, pelo menos, rudimentos de direito eleitoral, ética, noções de direito constitucional, representação popular, fidelidade partidária e por aí iria. Por essa razão, tomo a liberdade de sugerir aos coordenadores dos cursos de direito que assumam essa função: escrevam cartilhas simplificadas com perguntas e respostas sobre eleições. A idéia deveria ser discutida com os alunos. Dessa forma, pelo menos na minha ótica, seus úteis ensinamentos poderiam – ou poderão - gerar uma aura benfazeja junto aos partidos políticos, candidatos, Justiça Eleitoral e até para a mídia que a repassaria aos eleitores. Ora, se não sei o que vem a ser um deputado ou senador, qual o compromisso que tenho como eleitor? Se não conheço os limites da responsabilidade fiscal, dos graves problemas de segurança pública e educação, como me atrever a bem escolher um governador? Saberei que o presidente é “o mais alto dignatário da República”? Ora, para ser dignatário é óbvio que precisa ser digno, preparado, capaz. Eleitores precisam de informações sobre os cargos e os candidatos, conhecer suas histórias de vida, seus atos públicos, ouvir menos propaganda enganosa e ter responsabilidade com os seus votos, pois não votam uma vez no dia 01 de outubro, mas várias. É tempo. Há tempo. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/08/2006 - [INSEGURANÇA, DESONESTIDADE E IMPOSTOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/inseguranca-desonestidade-e-impostos-jornal-o-estado/): A maioria das pessoas com as quais converso só tem hoje três assuntos para falar: insegurança, desonestidade dos políticos e o absurdo dos impostos. Vamos à insegurança: falam em assaltos-relâmpagos, sequestros, assaltos e que tais. Já esqueceram a Copa perdida e ainda não se fixaram nas eleições de outubro. Adoram contar casos pessoais, de familiares e de figuras públicas. Contam como se tivessem narrando uma cena de novela e acreditam que suas versões são verdadeiras, pois souberam, por sofrimento próprio, ou narração das vítimas e de amigos íntimos. São detalhes mínimos, alguns meios cruéis, outros romantizados. Falam pouco do descaso na prestação da segurança pelas várias esferas de governo. O fato é que hoje ninguém se sente mais seguro, quer more na periferia, em casa com vigilância ou em condomínio-prisional, pois há guardas, câmeras, alarmes, grades e senhas de entrada. As casas viraram prisões, por conta do medo disseminado como uma peste e contaminando a todos. A desonestidade dos políticos é outro assunto em moda. Falam com deboche, com escárnio, mas há muitas pessoas esclarecidas, mesmo assim, a prometer repetir votos em candidatos confessadamente comprometidos com os últimos escândalos que movimentaram comissões parlamentares de inquérito e deram manchetes a jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão. Alegam: todos são iguais, farinha do mesmo saco, e que ladrão por ladrão votam nos que ideologicamente lhes são mais próximos. Quanta incoerência, quanta irresponsabilidade e que exemplos dão quando são formadores de opinião e escancaram suas preferências por políticos que não podem negar a participação ativa ou passiva em corrupção pública. A alta carga tributária é o terceiro assunto que mais ouço falar. Todos, do trabalhador avulso ao mais bem remunerado dos executivos, dão mais de quatro meses de salário ao governo. Ou dão sob a forma direta de imposto de renda ou sob a forma velada ao pagar ICMS da energia, de telefone, água e esgoto. De IPI na compra de bicicletas, motos, carros, roupas, sapatos e alimentos. Em tudo se paga imposto, desde o IPTU da casa onde moramos, ISS nos serviços, ao IPVA quando temos carros, como a CPMF em cada cheque que emitimos para pagar compromissos e impostos. Se estivermos satisfeitos com insegurança, desonestidade dos políticos e a alta carga tributária que pagamos, devemos votar nos mesmos candidatos que elegemos e não fizeram nada para modificar a situação. Prometeram, mas não tiveram tempo em quatro anos para nos dar um mínimo de segurança, de cuidar de ser honestos e de baixar a carga tributária. Preocupem não, estão prometendo para o próximo mandato. Votem neles, de novo. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/08/2006. - [O QUE OS PAIS GOSTARIAM DE GANHAR - DIÁRIO DO NORDESTE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-os-pais-gostariam-de-ganhar-diario-do-nordeste/): Acredito que deve chegar um tempo em que os pais – e os filhos – amadurecem, refletem, meditam, regulam o agir e o pensar. Diminuirão cobranças, surgirão mais afagos e acordos. Nesse tempo de cada um, as coisas, os presentes, os bens materiais, vão perdendo sentido nas datas marcadas. Haverá um instante em que não fará muita diferença receber ou não mais um par de sapatos, camisa ou perfume. Isso poderá, em momentos diferentes, valer até para todos os pais, mesmo os que têm poucos sapatos, camisas e não usam perfume. Nesse tempo que surge, o que os pais mais desejam é estabelecer gestos de entendimento com os filhos, pois são sabedores de que a diferença de idades influi na relação e modos de ver e encarar o mundo, mesmo que sejam queridos. Provedores, ditadores de limites, ajustadores de conduta, definidores de objetivos, chatos, de um lado e, rebeldes, transgressores, obedientes, abusados, tímidos, confusos ou meigos, do outro. Sempre sobrará sequela, mesmo que de leve, nas relações de anos a fio, dia e noite. Falíveis que somos. Esses gestos de entendimento têm que ser cultivados sem mútua cobrança, mas com esperança. Servem como indicadores da maturidade que vai sendo cozinhada em meio à vida, amores, sonhos, realidades, no molho das dores, desenganos e do conhecimento de cada um sem pretensão da certeza, pois de nada valerá estar certo se isso não for entendido pelos outros. Pais e filhos, em meio a mundos paralelos em que vivem, devem sentir a necessidade da presença do outro, que seja para um dedo de prosa, refeição ligeira, troca de ideias, ou uma distração qualquer. Mudam os tempos, filhos e pais já não viverão uma relação de dependência, mas de complementaridade, de troca de afeições, de ajustes de sentimentos. Este domingo, Dia dos Pais - invento americano do começo do século passado (1919), quando Sonora Dodd resolveu homenagear seu pai, John Dodd- poderá ser um alegre momento de reflexão entre todos os que se tornaram atados para sempre pelos cordões do sangue e da benquerença. Elos tão fortes que superam faltas e falhas mútuas e enternecem os que sabem fazer da convivência em família a base geradora da energia e segurança necessárias para a lida do dia-a-dia, tão árdua que será menos dura se todos estiverem em harmonia. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/08/2006. - [OS DIAS DOS FILHOS - JORNAL O ESTADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-dias-dos-filhos-jornal-o-estado/): Amanhece, os pais saem para o trabalho a pé, de bicicleta, ônibus, lombo de animal, trem ou carro. Fazem isso todos os dias, a vida inteira. Antes, tiveram que puxar pelos dedões dos pés dos filhos para que acordem. Colocaram pasta nas escovas de dente, preparam lancheiras, dizem se a roupa está certa e mandam, ou levam, a turma para a escola. Cansados na volta, à noite, ainda vão ajudar nos deveres de casa e nas tarefas extras que a escola pede. “Os pais não devem discutir na frente dos filhos”, mas têm, a todo instante, que separar brigas. Os pais podem estar desempregados, salário atrasado, empresa falida, mas têm que se virar, dar um jeito. Em contrapartida, há duas datas no ano consagradas a eles. São festas móveis, aos domingos. O segundo domingo de maio, para a mãe, e o segundo domingo de agosto, para o pai. São feitas aos domingos, quem sabe, para não atrapalhar os dias úteis dos filhos tão ocupados com as suas vidas. E os outros 363 dias? Todos os outros dias - e muitas das noites - são reservados aos filhos. Sem essa de queixa ou lamento, apenas registro. Os pais são vistos, via de regra, como aquelas pessoas cobradoras, procurando estabelecer limites, obrigando a estudar, verificando boletins da escola, falando que determinadas amizades não servem, tentando ajudar ou dar palpite sobre empregos, profissões e escolhas para namorar ou casar. Como se ainda adiantasse... “Os pais são velhos”. Vinte ou trinta anos são um tempo imenso para uma criança ou adolescente. Os pais têm costumes diferentes. E por isso são ´chatos´, pois precisam trabalhar para conseguir dinheiro da comida, aluguel, conta da luz e da água, prestação disso ou daquilo. Quando dizemos ´os pais´, estamos fazendo justiça a uma relação nova entre homem e mulher, pois ambos são provedores. Acabou-se aquela história do homem ir à luta e a mulher ficar em casa. Hoje, e já faz algum tempo, ambos vão à ação e contam o suado dinheirinho para fazer face aos compromissos. É claro, há exceções, mas essas não contam. Tudo isso é para narrar: os demais dias do ano são dos filhos, essas criaturinhas lindas, algumas parecendo ´ter o rei na barriga´ e que, quando crescem um pouco mais, as primeiras palavras a dizer são: ´não pedimos para nascer´. No próximo domingo será o Dia do Pai. Este ser mais periférico ainda que a mãe, atordoado ao saber existir um inevitável hiato ou desencontro entre gerações e as suas perspectivas pessoais com as dos filhos amados e pelos quais deu e dá tudo de si. Em meio a cafés, almoços, lanches e jantares no domingo, surgirão figuras novas, quase sempre bem-vindas, nas famílias: amigos, namorados, noras e genros, enquanto netos pequenos não entenderão bem por que os seus avós estão ganhando presentes, pois nem pais são. Pois é... João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/08/2006. - [O PROFESSOR E A MÁQUINA DE ESCREVER - DIÁRIO DO NORDESTE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-professor-e-a-maquina-de-escrever-diario-do-nordeste/): Esta semana encontrei um contemporâneo de bancos acadêmicos. A vida nos fez tomar rumos diferentes. Ele, atendendo ao chamamento da escola em que nos formamos, aceitou o desafio de ir se aprimorar em São Paulo, fez doutorado, tornou-se professor e consultor e por lá se quedou. De minha parte, também convidado, fui mordido pelo desafio de cuidar, eu mesmo, do próprio destino. Isso, entretanto, não impediu de termos contato. Aqui e em São Paulo. Já são dezenas de ano entre o sonho de ser gente e a realidade do viver. Falava que havíamos nos encontrado esta semana e o fizemos tomando um prosaico guaraná que imaginamos aditivar as nossas manhãs embaladas por corpos suados à cata de uma juventude que se faz distante. Pois bem, o meu camarada é hoje professor da maior universidade pública brasileira e o faz com maestria, comandando um programa de elevado significado social que se ramificou para as nossas plagas, onde, por conta disso, vem dar com os costados todos os meses. E o mais paradoxal nessa nossa conversa de agora, entre centenas de outras que já tivemos, é que ele se nega a usar o computador como instrumento de trabalho e o faz com a veemência que o seu público conhece. A sua argumentação é simples: o computador não tem nada a ver com ele. Nunca aprendeu a mexer com o “bicho” e não vai perder tempo com isso agora. Não se incomoda em dizer que essa invenção tecnológica veio a destempo para ele. Já estava com os seus hábitos arraigados, sua caderneta de anotações, canetas coloridas para sublinhar os muitos livros que lê e uma velha máquina de escrever na qual batuca os seus escritos. E em razão disso, da sua negativa aparentemente inabalável, é que torno público a nossa conversa e o desafio a mexer no “bicho” e não se apaixonar, principalmente ele, que coloca emoção em tudo que faz. Ser usuário de computador é uma das coisas mais simples que existe, o difícil, para os que viveram, até agora, analogicamente, é quebrar o gelo e ir em frente, sem medo de perguntar, de errar e ir, pouco a pouco, descobrindo o mundo inusitado que se abre com essa mera ferramenta, nada mais que isso. Desse modo e, de forma expressa, o convido a passear pelos caminhos desenvolvidos por Bill Gates, a quem ele tanto admira pela filantropia universalizada, mas que não teria sido possível, se usuários de todo o mundo não utilizassem, por exemplo, as linguagens e sistemas disponibilizados e tão repetidamente propagados e vendidos por uma estrutura de negócios que não teria existido se houve tanta resistência como a dele. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/08/2006. - [LER O OUTRO - JORNAL O ESTADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ler-o-outro-jornal-o-estado/): Um dia, há muitos anos, em uma dessas viagens noturnas aos Estados Unidos, conheci uma pessoa. Era uma viagem festiva, pois inaugurava linha aérea de uma companhia que não mais existe. Não, não era a Varig. Todos muito bem tratados pelos comissários e até um, que se fizera bêbado e incomodava os que procuravam dormir, só foi censurado quando apelou para a agressão verbal repetida a um dos pacíficos passageiros. Chegamos e o bêbado, num passe de mágica, recuperou-se de sua carraspana, ficou sóbrio a tempo de responder as perguntas que os guardas aduaneiros faziam. Mas dizia que, nesse voo, conheci e distingui uma pessoa, entre tantas outras. A perdi de vista no aeroporto. Para onde teria levado suas malas? Moraria por lá ou era uma visitante como eu? A mão do destino me fez, inocentemente, ir a certo hotel distante procurar um amigo. Soube lá que o amigo havia se mandado para outro estado a fazer pesquisas sobre criminologia, especialmente a era do surgimento da máfia e de seus principais personagens. Sem ter o que fazer, sentei no bar do dito hotel e lá estava a tal pessoa, a que havia visto no avião e me chamara a atenção por seu porte bonito e até a forma elegante de fingir não ouvir as diatribes do bêbado já mencionado. Acerquei-me e a cumprimentei. Estava triste, era visível seu ar de desencanto e angústia. Não sei bem a razão mas, sem intimidade alguma, falei para ela que viagem não resolve problema de ninguém, apenas o adia e, muitas vezes tem o condão de estragar o que se pretende ver. E disse mais: não adianta fugir de sua realidade e por aí fui. Ela me chamou de bruxo por ter lido o seu pensamento, o que parecia óbvio para mim. As pessoas, quase sempre, deixam pistas no rosto do que a alma não consegue resolver. E foi aí, em meio a confissões vindas a seguir, que se formou uma amizade que vara os tempos, não lastreada na presença física, no contato pessoal, mas na troca de sentimentos, na capacidade de ouvir o outro, mesmo que não se tenha resposta, pois as respostas estão, quase sempre, guardadas dentro de nós. O outro, quando muito, nos sacoleja e dá coragem para remexermos no nosso eu profundo e encarar ou negar a realidade que nos aflige com ou sem razão. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/08/2006. - [LACAN LEILOADO - DIÁRIO DO NORDESTE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lacan-leiloado-diario-do-nordeste/): Jean-Michel Vappereau era um jovem matemático francês quando conheceu o já consagrado psicanalista Jacques Lacan nos anos setenta. A psicanálise, como se sabe, é estudada em três níveis: como método de investigação para descobrir o significado inconsciente das palavras, ações, sonhos e fantasias; como método psicoterápico que cuida da interpretação controlada da resistência, da transferência e do desejo; e ainda como um conjunto de teorias psicológicas que sistematizam os dados introduzidos pela investigação e pelo tratamento. Pois bem, Lacan e Vappereau resolveram estudar juntos e teorizaram sobre conceitos matemáticos e a sua aplicação na arte de curar pessoas. Vappereau virou psicanalista, mas Lacan não se tornou matemático, embora tenha procurado explicar sua teoria, herdeira de Freud, em símbolos, desenhos e conceitos matemáticos. Precavido, Vappereau guardou desenhos, cálculos e manuscritos de Lacan. Agora, em Paris, certamente precisado de dinheiro, Vappereau autorizou um leilão desse material e faturou bem. Assim, Lacan, depois de morto, é a redenção da família de Vappereau, tal como aconteceu com os manuscritos de Sigmund Freud. A filha de Lacan, Judith (casada com o também psicanalista e executor-testamenteiro de seu pai, Jacques-Alain Miller), nada revelou sobre o que pensou do leilão, mas parece não ter gostado. A Artcurial, realizadora do leilão em 30 de junho passado, segundo Leneide Duarte-Flon, esperava que psicanalistas ou familiares dessem lances, mas foram colecionadores os que arremataram e não os seguidores do célebre psicanalista francês. O leiloeiro Olivier Devers, ao final do leilão, disse que “os psicanalistas são pão-duro, não gostam de gastar o dinheiro que ganham, nem mesmo quando se trata de Lacan”. Dessa forma, o afamado consultório de Lacan em Paris, na rua de Lille, que hoje pertence ao casal Judith-Jacques Alain, ficará privado desse material. Elisabeth Roudinesco, que escreve a história da psicanálise, esteve presente ao leilão e disse que “é normal que os manuscritos e desenhos de Jacques Lacan entrem no mercado. Os preços foram razoáveis, afinal é a primeira vez que Lacan é cotado”. Como se deduz, teremos outros leilões e, para não fugir à regra das celebridades, Lacan valerá mais morto do que vivo. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/07/2006. - [PRACINHA DO INTERIOR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pracinha-do-interior/): Domingo passado resolvi sentar em um bar na pracinha central de Pacoti, simpática e agradável cidade no maciço de Baturité, formação de serra que ainda preserva vegetação densa e bonita e cujo clima dá a fugidia lembrança de outonos do outro hemisfério. A praça, um ajuntamento de ideias desconexas que parece ter passado longe dos olhos de urbanistas ou paisagistas, pouco arborizada, cimentada e asfaltada, é o ponto de encontro de todos. Aos domingos, a feira armada em barracas de lona, é a reprodução minimalista desses mercados ambulantes espalhados pelo Brasil afora que conseguem juntar a venda de cds e dvds piratas, relógios, rádios, sons, bonés, camisas e tênis falsificados, roupas para todos os sexos e gostos e outras bugigangas mais. Só não vi produtos regionais, nada que tivesse a cara da cidade, da criatividade e da artesania local. Vi dois ou três “guardas de trânsito” locais, sem fardas, mas com crachás, walkie talks e apitos, comandando o trânsito para “riba” e para baixo, com gesticulações fortes, sopros poderosos e a ajuda de cones de plásticos. Vi uma banda de música, sobre um palanque armado, tocando dobrados, músicas populares e até o Hino Nacional, mas ninguém ouvia ou se comovia, pois só em tempo de Copa do Mundo é que o nosso hino é cantado, as lágrimas afloram e o patriotismo toma cerveja. Automóveis, motos, grandes camionetas com apenas o guiador, carros de bombeiros e da polícia, ônibus imensos e caminhões paus-de-arara carregando gente e carga, disputavam o espaço das ruas estreitas já atravancadas por veículos e motos parados de qualquer jeito e decidiam se iam para “riba” ou para baixo, pois o que queriam mesmo era passar pela praça, verem e serem vistos, com buzinações tonitruantes. Falei que estava sentado em um bar. Era um bar simples, mesas de compensado sem toalhas e apinhado de gente. Por lá, além dos nativos, magistrados, secretários de estado, empresários, radialistas, jornalistas, professores universitários e sitiantes que passam os fins-de-semana pelas redondezas. E o cardápio oferecia duas opções: panelada e buchada com cerveja e cachaça em robustos copos de vidro, ao mesmo tempo em que bêbados contumazes pediam uma “bicada” e se escoravam nos portais. Até que surgiu uma jovem nervosa, jaqueta de marca de grife amarrada sobre os quadris. Ela trazia cópias do retrato, impressas em folhas de papel, de um moço universitário de Brasília que ali se perdera duas noites antes. Ele tinha 19 anos, alto, bem-apessoado, sofria de depressão e disse para a turma de parentes e amigos que iria ao banheiro. Ninguém mais o viu e eu fiquei me indagando por que teria desaparecido. Teria sido pelo barulho ensurdecedor que incomodara o seu pensar despovoado? Seria por conta de mal de amores que o tornava diverso do grupo? Ou o que teria sido? Terá aparecido? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/07/2006 - [MULHERES PODEROSAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mulheres-poderosas/): Todos sabem que as mulheres estão começando a mandar no mundo. Já não só esposas e donas de casa. Também não são só auxiliares de homens nas empresas, instituições e repartições. Exercem, cada vez mais, funções de mando, tendo homens como subalternos e tomando decisões difíceis a cada dia. A par disso, querem ter também uma vida sentimental feliz e equilibrada. Foi pensando nisso que os professores universitários mineiros Betânia Tanure, Juliana Oliveira e Antonio Carvalho Neto, realizaram uma pesquisa sobre a felicidade e infelicidade das pessoas que exercem cargos executivos, com ênfase para as mulheres. Foram 965 pessoas entrevistadas, das quais 222 mulheres. Segundo os professores, “os resultados de nossa pesquisa não só confirmam a percepção geral de muitos dos problemas vividos por essas profissionais como também trazem revelações importantes. Uma delas é que os homens têm dificuldades em aceitar mulheres ‘poderosas’.” Verificaram também que há quase três vezes mais executivas solitárias do que homens na mesma conjuntura.36% das mulheres ‘poderosas’ estavam viúvas, separadas ou solteiras. Por outro lado, só 13% dos homens eram solitários. As mulheres solitárias relataram que se consideravam insatisfeitas por não descobrir parceiros que estivessem a fim de uma relação estável. Especialmente as sem filhos “que já passaram da fase convencionalmente reservada à maternidade”. Os homens não estariam nem aí, pois podem ser pais com qualquer idade. Descobriram também que as mulheres executivas casadas e com filhos, dão menos atenção aos maridos, pois “existe uma indisposição masculina em dividir igualitariamente as responsabilidades domésticas”. Outro aspecto identificado na pesquisa, foi que, mesmo no caso em que a mulher é responsável pela maior parte da renda familiar, ela se submete às decisões do marido na formulação das despesas da casa. Assim, mesmo muitas mulheres ‘poderosas’ não se livraram totalmente do jugo dos maridos, sendo “amélias modernas” com direito apenas a voos profissionais, que aumentam a renda familiar. Por outro lado, ainda admitindo, em parte, que o homem é o “chefe da família”, as mulheres executivas fazem fé em seus trabalhos, sentem prazer em mandar e acreditam que o sucesso as ajuda a resolver os desafios da vida profissional e afetiva. Elas acreditam e lutam, de forma corajosa, para conseguir harmonia entre o que fazem fora de casa e na vida familiar. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/07/2006. - [A ESTRELA PERDIDA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-estrela-perdida/): Escrevi, aqui neste mesmo espaço deste DN, que futebol não tem lógica. Futebol é arte, muito mais que qualquer coisa. E arte não se faz com coerência. Ao contrário, arte é desobediência ao previsto, é encontro da inspiração e desafio da não mesmice. Disse também: mas temo pelo burocratismo do Parreira, um cruzamento de monitor de autoajuda com bedel de internato antigo. Parreira é o rei da coerência e deu no que deu. Zidane e sua turma foram a arte aplicada, mais que jogadores de futebol. Eles pareciam brasileiros e os brasileiros não pareciam com ninguém. Não foi só perder, mas perder sem muita luta, em meio a um desânimo tropical que entorpecia a coragem esperada, a categoria alardeada e a genialidade cantada pelo “competente” Galvão Bueno e pela “repórter esportiva” Fátima Bernardes. Perdemos a sexta estrela, não um hexa, pois para ser hexa deveria ter sido uma sequência de seis copas. Mas a mídia e a publicidade desenfreada iludiram a maioria dos brasileiros, especialmente aqueles que não acompanham futebol e são apenas “copeiros”, se fantasiam e ficam gritando à frente das televisões. Era uma explosão de músicas, de entrevistas com pais dos jogadores, com namoradas e até amigos. Era uma alegria antecipada, uma espécie de catarse coletiva, evasão da realidade que nos impelia para um vazio existencial, por conta da descrença no dia-a-dia. Assim, vamos ter que voltar para a tal da coerência do Parreira, ele que se dizia gestor de talentos. E eu dizia por escrito: talento não se administra. A estrela pode ter sido perdida antes, como uma ou outra que nos cobriu de desesperança, pois imaginávamos que fosse à prova dos vendavais que engodam, mistificam comportamentos, desviam valores, atordoam inteligências e machucam o amor próprio. Agora, vamos ter uma outra copa, a eleição de outubro, com muita gente dizendo que é também o melhor do mundo. Acreditem não, vá atrás da vida de cada um. Não do que disseram, mas do que fizeram. Procurem saber onde moravam e onde moram, quem são seus aliados e relembre da eleição passada, vale a pena conhecer a quem estavam ligados e diziam loas. Confiram as promessas, vejam as amizades e o desempenho. A arte de ser brasileiro, glória e agonia, precisa ser levada a uma expressão mais profunda, sem patacoadas, sem bobices que podem qualificar os adjetivos que alguns preconceituosos do primeiro mundo nos impingem, por conta dessa exoticidade que permite que, justo eles, digam que não somos um país sério. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2006. - [MÉXICO: ELEIÇÕES, HOJE.](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mexico-eleicoes-hoje/): Hoje, 02 de julho, o México realiza eleições presidenciais com 71 milhões de eleitores. O que isso tem a ver conosco? Muito. O México é a mais pujante força latina das Américas. Seu ritmo de crescimento tem demonstrado que o México deu passos decisivos para tentar resolver mazelas que se perpetuavam, especialmente em zonas conflagradas, como a região de Puebla. Hoje, Vicente Fox, o atual presidente, está com 70% de aprovação, entrega um país organizado e com os pés fincados no desenvolvimento. Nem por isso, há no México a possibilidade de reeleição, após o mandato de seis anos. Assim é que, entre cinco candidatos, Felipe Calderón, do Partido da Ação Nacional, PAN, conservador, e Lopes Obrador, do Partido da Revolução Democrática, PRD, esquerdista, disputam, com chances reais de vitória. O novo presidente terá papel fundamental na consolidação do crescimento interno e na luta pela legalização dos 15 milhões de “indocumentados” latinos, a maioria mexicanos, que vivem nos Estados Unidos Obrador, opositor da privatização, é pelo esforço antiinflação, fixação de preços agrícolas e baixar o preço da gasolina e gás de cozinha. Pretende aumentar os gastos com educação e saúde, combater a pobreza e melhorar a distribuição de renda. Deseja unificar as forças policiais, dar relevância ao Ministério Público e criar varas especiais de justiça para o combate de crimes, especialmente o narcotráfico. É contra as propostas americanas de criação de muros e barreiras ao longo da fronteira e vai lutar para que as leis de imigração ianques sejam reformadas urgentemente. Afirma que o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio, o Nafta, tem beneficiado mais as multinacionais que os mexicanos. Deseja manter os níveis de produção de petróleo e aumentar a de gás natural, ainda dependente dos EUA. Calderón é favorável a investimentos estrangeiros, inclusive no petróleo, manterá a atual política fiscal, mas tentará fazer as empresas darem empregos a jovens entre 16 e 28 anos, com isenção de impostos por um ano. Deseja reduzir as alíquotas de imposto de renda e combater a pobreza com assistência médica gratuita e melhorar a educação nas comunidades pobres. Não hesitará em guerrear o crime organizado, com um banco de dados centralizado, treinar as forças policiais e modernizar o sistema judiciário por meio de julgamentos orais. Na política externa, defende a multilateralidade. Não terá medo de fazer um governo de coalização, se for eleito presidente, mas seu partido não atingir a maioria. Arriba México! João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/07/2006. - [PATATIVA E O PRECONCEITO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/patativa-e-o-preconceito/): Alguns intelectuais, entre eles amigos queridos, ficaram incomodados com a escolha de Patativa do Assaré como um dos nomes, da lista de dez autores para o vestibular da Universidade Federal do Ceará. Afirmam que Patativa não é poeta, pois foge aos cânones linguísticos, morfológicos e sintáticos determinados pelo saber acadêmico. Ora, ora. Patativa é poeta sim, mais poeta que muitos que sabem usar metáforas, metrificação, rimas ricas, metalinguagem, pois seguem as regras da poética e conhecem teoria e versificação. De nada disso precisou Patativa. Extraiu de suas dores, do viver e da própria limitação, o ritmo e a beleza do que versejava de improviso e hoje é objeto de estudo acadêmico em várias universidades. Ariano Suassuna diz que “um escritor nascido no Nordeste, tem que ser tão fiel ao seu local de nascimento e à sua comunidade como Guimarães Rosa foi fiel a Minas.” Quem poderá negar isso de Patativa que, até no nome, mostra o local onde nasceu? O grande problema é que por não usar imagens, símbolos, metáforas e retórica consagrados na arte clássica de poetar, Patativa seria “um poeta menor”, um simples cordelista e não mereceria destaque de uma comissão douta que, por justiça e nordestinidade, teve a sensibilidade de escolher Patativa como tema para estudo por jovens vestibulandos. Esses, em sua maioria, não dão valor às suas origens, engolfados por uma linguagem “tipo assim”, global e factual. Patativa, de poucas letras e muito saber, falou até sobre Luiz de Camões, o maior poeta da língua portuguesa: “Aqui de longínqua serra, de Camões o que direi? Quer na paz ou quer na guerra que ele foi grande eu bem sei, exaltou a sua terra mais do que seu próprio rei e por isso é novo no coração do seu povo e eu, que das coisas terrestres tenho bem poucas noções, porque não tive dos mestres as preciosas lições, só tenho flores silvestres pra coroa de Camões, veja a minha pequenez ante o bardo português.”. Escolhido “Doutor Honoris Causa”, “Cearense do Século” e tendo ganhado a “Sereia de Ouro”, não poderia ser alijado e esquecido pela UFC que sempre seguiu a máxima “o universal, pelo regional”? Está na hora de se misturar literatura com vida, com o real, esquecendo os encastelamentos, as tertúlias que pouco ou nada criam, a arte que não tem compradores e seguidores, e partir para uma visão menos elitista, mais simples, verdadeira e fiel às origens que muitos procuram esquecer. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/06/2006. - [DESONESTIDADE ENDÓGENA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/desonestidade-endogena/): Alguém me passa um e-mail e deixa claro seu desapontamento com um contra-parente. Ora, se é contra, brinco eu, só poderia dar no que deu. Brincadeiras à parte, mesquinharia, safadeza, jogo sujo, desonestidade e muito mais, são próprios de quem tem o verme da inveja, desvio de caráter e desonestidade endógena. Não importa se é parente, contra-parente, se diz amigo ou parceiro. Nada a ver. A revelação de quem é vem a galope, não valem os disfarces, os pseudopolimentos, a vontade de agradar por interesse permanente ou circunstancial. Cada pessoa, no dia-a-dia, trabalho, negócios, vida social, nos atos falhos ou não, vai mostrando toda a sua história de vida, origem e os desvios de caráter e personalidade. Os que têm desonestidade endógena são, quase sempre. os que vivem a reboque dos outros, não têm luz própria, formam grupos de puxa-sacos e adoram aparecer. Essas pessoas minam famílias, relacionamentos, entidades, grupos de quaisquer naturezas e sempre dão um jeito de estar perto de quem julgam ser importantes. Têm sempre algo “agradável” para contar, provocam intimidade, solidariedade e não se dão conta que vão deixando um rastro de sujeira, que o tempo detecta, embora queiram aparentar o que não são e falar o que não sabem. Elas nunca discordam claramente, sempre estão a mão para favores não pedidos, não esquecem datas, farejam acontecimentos e jamais vão sós, dão um jeito de levar gente da sua família ou turma e se postar ao lado de quem conta, pois pensam fazer parte do time. É bom que cada um fique atento e não se deixe ludibriar pela vaidade de ter alguém ao lado que só lhe diz o que quer ouvir, embora seja falso como uma nota de 15 reais. Muitas pessoas, mesmo inteligentes, ficam cegas e se deixam influenciar pela bajulação subserviente, falsa amizade e delicadeza de araque. Nestes tempos de hoje, sempre é bom que os amigos verdadeiros advirtam quando esses abutres se acercam e não digam apenas, depois de fatos acontecidos, que sabiam, mas não tinham coragem de dizer. Desmascare essas imposturas no tempo certo, não deixe para depois, é uma questão de saneamento social, além de ser uma prova de amizade ao amigo advertido, antes que seja logrado, como muitas vezes acontece, por omissão dos que não deveriam ter ficado calados. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/06/2006. - [FUTEBOLÓGICA?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/futebologica/): Depois de amanhã o Brasil entra em campo para o campeonato mundial de futebol de 2006. Vai com fama de favorito, o melhor jogador do mundo, time completo de craques e um aparato digno de potentados. Dos 23 jogadores brasileiros, 9 têm – ou estão em vias de ter – dupla nacionalidade. São ricos cidadãos europeus. Sabiam disso? A lógica, coerência de raciocínio e de ideias, é que dê Brasil no final, mas futebol é arte, muito mais que qualquer coisa. E a arte não se faz com coerência. Ao contrário, a arte é desobediência ao previsto, é encontro da inspiração e desafio da não mesmice. Por este lado, o da arte, o Brasil também tem grandes chances, alguns jogadores desequilibram pelo estilo peculiar, capacidade de improvisar e a quase perfeição da ousadia, mas temo pelo burocratismo do Parreira, um cruzamento de monitor de auto-ajuda com bedel de internato antigo. Vejam uma frase dele: “Não sou técnico de futebol, sou gestor de talentos”. Talento não se administra. Nós, brasileiros, sedentos por ídolos novos, pois decepcionados com os que temos, investimos emocionalmente nesse evento que é uma grande festa mercadológica, antes de ser um fato esportivo relevante. As somas gastas com publicidade são indescritíveis e os jogadores das seleções principais têm status de astros de cinemas em pleno festival de Cannes ou na entrega do Oscar em Hollywood. A partir de terça-feira, o Brasil entra em estado de prontidão, a espera do sucesso em cada jogo e a vitória sempre será encarada como natural, merecimento, honra, capacidade e posicionamento no mundo. A vitória pode até ser tudo isso, mas não permite que a glória efêmera resolva as questões que temos em aberto, não deve nos cegar e só enxergar o que a televisão mostra de forma ufanista. Um país que tem a sua Câmara de Deputados invadida por baderneiros ainda está longe de ser o que imagina que é. Claro que estarei torcendo e esquecerei, por horas, a razão que nos move, e esperarei pelos nossos gols, esse instante mágico em que, por segundos, a bola deixa o campo de jogo e se aninha dentro de uma rede como se tivera cumprido uma missão fugaz e gloriosa. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/06/2006 - [A VEZ DO VOTO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-vez-do-voto/): O que aconteceu em São Paulo há duas semanas foi um absurdo, embora real. Por outro lado, segundo especialistas em fome, a cada 04 segundos uma pessoa morre por absoluta falta de comida no mundo. Os índices de violência, sequestro, estupro, pedofilia e crimes contra a vida aumentam de forma assustadora e os economistas descobriram tardiamente, o que todos, desconfiavam: não sabem fazer previsões e continuam falando. Há desemprego, inadimplência, denúncias de corrupção e falta dinheiro para as empresas girarem seus negócios. Os funcionários públicos reclamam por aumentos, o governo eterniza impostos que se diziam temporários, as fiscalizações exorbitam, advogados aumentam suas clientelas e a Justiça fica abarrotada de ações, sendo mais de 50% originadas do próprio governo. Por outro lado, cá em entre nós, lembre-se que haverá eleições em outubro e, já, já, tudo será prometido, além de tudo ser permitido a uma imprensa dita investigativa, parte a serviço de interesses, falseando a verdade, julgando sem provas e condenando, como se tribunal fosse, os que não são de seu agrado. O que vale é iludir, confundir, difundir e denegrir o outro. É como se fosse um grande festival de ilusionismo com centrais de fofocas e fofoqueiros espalhados por todo o país. Dentro de três meses serão abertas as caixas de Pandora com os programas eleitorais gratuitos nas emissoras de rádio e televisão. Todos terão soluções, serão simpáticos, mostrarão suas famílias, brincarão com crianças, criticarão sem provar, abraçarão velhos, dirão que são melhores que os adversários e justificarão alianças. Cada um deve ver com os seus próprios olhos e escutar com as suas ouças. Julguem pelas histórias de vida de cada um, esqueçam os gestos teatrais, cenários, falas melífluas e ares de bonzinhos. Você não perde tempo em ouvir e ver, desde que descubra, por seu próprio caminho, o que é cidadania, a certeza de que está no gozo de seus direitos e tem a responsabilidade ou dever de exercê-los. Mantenha a capacidade de se indignar ou apaixonar, dar respostas aos criadores de vendavais, aos que estão aí há muito tempo e só falam em futuro, como se não estivessem comprometidos até agora com o nosso passado e não vivessem neste presente tão árduo e carente de homens públicos verdadeiros. Sua arma contra esse vendaval será o voto. É a sua flecha da esperança. E você poderá usá-la de forma silenciosa, sem medo, sem alardes, com os olhos no futuro que deseja e espera, sem esquecer o que muitos prometeram e não fizeram no passado e presente, embora rindo, apertando mãos e dourando pílulas que não conseguimos engolir. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/06/2006. - [FREUD, O EMPREGADOR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/freud-o-empregador/): Faz 150 anos que Sigmund Freud nasceu. Foi dele, médico de formação, a ideia de fazer do autoconhecimento, com a ajuda de um orientador, instrutor ou terapeuta, não necessariamente um médico, o caminho para o homem entender o seu viver. E o fez de forma tão lúcida e objetiva que criou a psicanálise, uma mistura de conhecimentos filosóficos e científicos que tenta desvendar os porões humanos e explicar porque somos tão complexos. De Carlos Augusto Viana, professor de literatura, e um escutador compulsório de psicanalistas, ouvi que Freud foi um dos maiores empregadores da história, pois milhares são as pessoas que, a partir de seus ensinamentos, têm a psicanálise como profissão. Por ser leigo e viver nas bordas do saber psicanalítico é que me dou o direito de divagar sobre tema tão complexo quanto apaixonante. E o faço sem profundidade, tão raso quanto uma bacia. Muitos acreditam que o dito hermetismo na linguagem psicanalista pode ser interpretado, pelo menos entendido, como pedantismo ou forma de, através de jargões, criar um mundo especial só para os iniciados. Paralelo a isso ou como contraponto, tem surgido na literatura uma forma de tornar mais leve o aprendizado ou o caminho utilizado para, se é que possível, cuidar dos males que ensombram a alma humana. Não estou falando de livros de autoajuda, mas de romances. Fiquemos em apenas um autor contemporâneo, certamente repudiado pela comunidade acadêmica da área: Irvin D. Yalom psiquiatra, professor emérito da californiana Stanford University, que descobriu o filão de romancear a história da psicanálise. E o faz de forma didática, repetitiva, utilizando filósofos como Nietzsche e Schopenhauer como ganchos de seus personagens. Seus livros “Quando Nietzsche chorou” e “A cura de Schopenhauer” têm alcançado sucesso e despertado o interesse de leigos sobre o assunto. Querendo ou não, procura desmistificar as técnicas da psicanálise, embora ele seja apenas terapeuta. Mesmo sendo acusado de superficial, Yalom é garoto propaganda da arte de curar a alma, missão quiçá impossível, pois “viver é sofrer”, como dizia o pessimista Schopenhauer que, paradoxalmente, só teve sucesso quando resolveu escrever de forma mais leve um livro de nome complicado( Parerga e Paraliponema) que trata da autoestima, essa coisa tão intricada que é confundida com vaidade. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/05/2006. - [HORA DE SEMEAR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/hora-de-semear/): Está na época de plantar. Mesmo que se more em locais que não tenham chão por perto. Compre um jarro, arrume uma lata ou um vasilhame plástico, consiga um pouco de terra adubada e plante alguma coisa. Molhe. Pode ser uma flor, uma árvore diminuta, qualquer espécie vegetal que floresça. Não deixe de plantar. Você se alegrará com o milagre da vida gerada em suas mãos. Está na época de conversar com amigos. Não o olá, como vai, tudo bem, oi, mas a conversa que se fala de coração aberto e se colhe a certeza da correspondência, do retorno sem nenhuma outra intenção que a da própria amizade. Aquela conversa que devemos ter para esvaziar comportas, abrir canais de solidariedade, entendimento e pontes de benquerença. Atritar é fácil, conviver certo é que é complicado e pede mão dupla com velocidade moderada em mútuos sentidos. Olho no olho, sentimento aflorado, sem medo de conter o espanto por ser você mesmo, não o produto que você tenta passar, mas aquele que você é. Amealhe suas confianças, mesmo que as dúvidas teimem em persistir. Existir é compartilhar, ainda que isto lhe dê comichões e petrifique suas ilusões, pois elas podem acontecer. Está na hora de não provar nada, nem que é melhor ou pior. Cada um do seu jeito, suas histórias, seus lauréis, seus traumas, o mundo particular que lhe é permitido, sem precisar de devassas e justificações. Está hora de não olhar para as horas, como se tudo fosse escoando sem jeito. Sempre haverá um jeito, mesmo que isso pareça difícil, mesmo que a tristeza teime em se fazer presente. Há turnos na vida, como o dia e a noite. E esses turnos podem ser claros, escuros, mas chegará um tempo da coexistência entre os diversos matizes e brilhará a luz que está dentro de cada de um nós. Dependerá do acesso ao interruptor que todos temos em algum lugar. É preciso procurá-lo, mas isso é outra história meio longa que não que cabe por aqui, mas vale a pena tentar encontrar, pois aí o plantio terá sentido e as flores ou frutos serão apreciados. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/05/2006. - [QUEM SOMOS, REALMENTE?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/quem-somos-realmente/): Alguém pergunta, talvez a título de especulação filosófica: o que leva você a classificar, rotular ou definir lugares e pessoas? Que lugares e pessoas? retruco. Qualquer pessoa, em qualquer lugar. Pode ser em um bar, restaurante, hotel, casa, avião etc. Fiquei pensando. A pergunta era meio vaga e dava margem a pensar em qualquer coisa. E foi aí que pensei na última coisa que imaginaria. Disse: banheiro. A razão, qual a razão? E me vi em tantos banheiros espalhados pelo mundo, espaços diminutos que dizem muito de quem os construiu, mais ainda de quem os cuida e desnuda quem os usa. Imagine um restaurante à margem de uma estrada neste nosso Brasil. Estou falando dos lugares onde todos param e já chegam procurando saber onde fica o banheiro. Primeira porta à direita, pois os banheiros são socializados, mas tendem sempre para a destra, mesmo quando são sinistros em odores e formas. E há ainda os que estão fechados e a chave nos é entregue como se fora o condão para o paraíso com um olhar duro pedindo a rápida devolução, depois de avaliar o nosso caráter. E aí chegamos ao dito cujo. Chegamos, não é bem o termo. Ele chega até nós, em primeiro lugar, pelo evolar de gases e nos deparamos com a realidade sociológica que nos faz lembrar os que imaginam poder decifrar a alma das gentes, tal como proposto no início e já ando meio perdido aqui pelo meio. Pois bem, depois dos gases e odores, vem a realidade crua da descarga quebrada, da tampa cambaia, quando existe, e o desejo de sair rápido dali. Saíamos do restaurante de estrada e penetremos no “banheiro social” de um clube. A primeira indagação: por qual razão o tal social? A segunda, por que a maioria dos homens faz xixi e não lava as mãos? A terceira, por que os vasos sanitários e mictórios não seguem uma linha cubista a la Salvador Dali e não têm um desvio para a esquerda? Agora, estamos em um voo longo, desses que varam a noite. Amanhece: o banheiro está sujo, papéis higiênicos ao chão e na pia, detritos. Terra à vista, solo. Vamos direto à casa de um emergente, desses que entregam seu habitat às vontades e ao gosto de quem o ambienta. E aí pensamos, como seria bom que todos tivessem noção que um banheiro ou lavabo deve ser apenas adequado e limpo, sem aqueles adereços, que o fazem parecer uma lapinha. E então, porque cansamos de andar por aí, voltamos à nossa morada. Chegamos, tiramos a roupa e vamos, imaginem, ao banheiro. E aí, defronte ao espelho e na nudez sem castigo, somos, finalmente, o que realmente somos. E será que caberia a pergunta: quem somos, realmente? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/05/2006. - [MÃE DE ONTEM E DE HOJE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mae-de-ontem-e-de-hoje/): Um dia desses comentava com amigos que a nossa geração – a minha e a deles – tinha vindo ao mundo de forma mais gentil. Os filhos nasciam, quase sempre, por mãos de médicos amigos ou de parteiras que, quase integrados às famílias, ofereciam a criança à mãe parida ainda envolta no líquido que a protegeu por longos meses. Após o parto, médico ou parteira lavavam o rosto e as mãos, tomavam café com bolo, davam adeus e saiam. A conta ficava para depois, sem pressa e sem ajustes prévios. A partir daí era a mãe quem tomava as rédeas. O filho é teu, cuida dele. Quando muito, era ajudada por uma parenta ou empregada que fazia de tudo. Os filhos mamavam no peito, o berço ficava ali de lado da cama do casal e os outros irmãos, pois sempre tinham outros, entravam e saiam em algazarra, enquanto ela pedia, sem êxito, silêncio. Essa mãe, quase sempre, era apenas dona de casa, daí encontrar tempo para cuidar dos filhos, contar histórias, ouvir rádio, costurar, cerzir, ler e tomar banho ao final da tarde para, perfumada e vestida em leve vestido de algodão, esperar o marido que trazia novidades da rua. Essas histórias e lembranças, em meio a este Dia das Mães de 2005, parecem ter acontecido em outra vida em que as portas das casas não tinham chaves de cilindro, nem eram protegidas por grades, eletrônica e trancas. As calçadas eram prolongamento do viver em família e os vizinhos não só se conheciam, mas formavam grupos de amigos que jogavam peladas, xadrez, damas, bila, triângulo, gamão ou baralho, com cartas já usadas e curtidas pelo tempo. Hoje, “é o menino do 201”, “a viúva do 402” e “o casal que briga no 702”. Parece que ninguém tem nome. E é esse mesmo tempo, que nos mostra a face atual da maternidade, pois quem muda são as pessoas e as coisas. A mãe de hoje é, via de regra, mulher profissionalizada, ciente dos seus direitos, corresponsável pelo sustento da família, interconectada, programando-se para ter os filhos que determinar, deles cuidar com outros olhares, e assistida – quando pode pagar - por “enfermeiras” ou babás de carteira assinada. É neste tempo de medo e dúvida que a família se nucleariza e se fecha com temor das diásporas sociais. A mãe de hoje vê o parceiro não mais como alguém que chega da rua com certezas, verdades ou mentiras, mas um associado, alguém que com ela compartilha e se defronta no dia- a- dia com uma sociedade competitiva, quase nada solidária e sem muitas referências essenciais. Às velhas mães ainda vivas, as que já se foram e as que estão no meio da tarefa braba de cuidar dos filhos e da vida, ficam o reconhecimento e estas lembranças catadas no passado, entremeadas com a vertigem do viver atual, tão imponderável quanto desafiador. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/05/2006. - [O IDOSO E A REALIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-idoso-e-a-realidade/): Começa a ter destaque em São Paulo o que se convencionou chamar de “condomínio assistido”, ou seja, um prédio ou casarão adaptado para receber idosos de classe média alta. Esses condomínios têm como característica a atenção especial para as limitações dos que estão ou vão chegando à terceira idade. As tomadas e interruptores de energia são dispostos à altura da cintura de uma pessoa adulta, as portas são mais largas para permitir a circulação de cadeiras de rodas, os pisos são antiderrapantes, os banheiros têm barras de apoio, há espaços para salas de convivência com jogos, existe enfermagem e há restaurante com cardápios especiais. Esses “condomínios assistidos” são comuns nos países do Primeiro Mundo, com a diferença básica em sua maioria é de responsabilidade do Estado. As pessoas se inscrevem, obtêm vagas e organismos sociais fazem o controle de suas ações. No Brasil, embora exista a Lei federal 8.842, de 1994, se comprometa a dar autonomia, integração e participação do idoso como instrumento de cidadania, nada de prático e objetivo foi feito. Agora, cogita-se da criação do Estatuto do Idoso, como se a lei já não existisse. O necessário é fazer que as pessoas idosas sejam mais respeitadas e assistidas, pois com o crescente aumento da população de terceira idade, que está perto dos 15 milhões, ainda não há uma política efetiva de governo com suporte aos que se aposentaram, seus filhos ganharam o mundo, um dos cônjuges desapareceu e só resta a opção do isolamento. O problema, voltando aos tais condomínios assistidos, é que a classe média alta – ou rica – é inexpressiva no Brasil. Mesmo em São Paulo, só há referências a poucas instituições particulares, menos de dez, considerando o universo dos habitantes da cidade. Não abrigam mais que 1000 pessoas. Mera ilusão. Por outro lado, este ano tem eleição. De deputado estadual à Presidente da República. Seria bom que os candidatos atentos aos planos de crescimento do país, não deixassem de observar também para o detalhe de que parcela significativa do eleitorado tem mais de 60 anos, correspondendo a quase 9% da população total e pode eleger representantes específicos ou influir em resultados. É claro que devemos nos alegrar com a auto-suficiência da Petrobrás, mas é preciso que o Sistema Unificado de Saúde tenha políticas públicas objetivas para os que já deram sua contribuição à sociedade e ainda são responsáveis financeiramente por cerca de 10 milhões de pessoas, pois 62,4% dos idosos sacrificam suas minguadas rendas com a manutenção de filhos e netos. Não basta uma vacinação anual, que objetiva mais diminuir custos de internação do que proteger idosos. A assistência ao idoso é algo mais complexo e sério, para servir apenas de mote demagógico. É preciso, igualmente, verificar que os planos e seguros de saúde estão limitando atendimentos e exames aos idosos, aqueles que fogem do descaso do SUS, mas estão sendo atropelados pela incapacidade de efetuar pagamento dos planos e dos remédios. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/04/2006. - [IMORTAL SEM FARDÃO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/imortal-sem-fardao/): Recebo um telefonema de pessoa querida convidando-me para uma recepção a Marcos Vinicios (com “o”) Villaça. Ele veio lançar a sexta edição do seu livro, feito em parceria com Roberto Cavalcanti de Albuquerque, “Coronel, Coronéis”. Na realidade, “Coronel, Coronéis” é fruto de pesquisa feita em 1963 que virou marco da historiografia nordestina em que trata dos coronéis que davam uma visão peculiar da região. Chego. A mesa principal está posta de forma retangular e, como contraponto, há uma redonda em que fica um grupo pequeno. De repente, entra Marcos Villaça. Eu que o imaginava de fardão e botões dourados, precedido por rufar de tambores, e o vejo de calça e camisa com cinto esporte de cor, acompanhado da mulher e de um grupo de amigos. Livros chegam junto. Vem, cumprimenta a todos. Vê, com atenção, a menção especial do caderno de “Cultura” sobre a sua obra e, como mortal comum, beberica alguma coisa e dá autógrafos em pequeno comitê. Marcos Villaça acumula funções “etéreas” de membro da Academia Brasileira de Letras e fáticas de Ministro do Tribunal de Contas da União. Assim, o escritor é também um graduado especialista em finanças públicas. Mas não estava ali para falar das contas governamentais, CPIs ou o que o valha. Ele ocasionalmente me respondia por qual razão não gostava de aquários. Riu e disse: “de onde você desencavou essa história” e o assunto virou um chiste. Quando falo em funções etéreas é porque a maior parte das pessoas não entende o simbolismo da vida acadêmica, como guardiã da língua e da cultura. Ser imortal é como uma figura de retórica, mas tudo foi feito no Brasil à imagem da Academia Francesa. Optou-se por dizer que alguém é imortal quando consegue entrar em uma academia de renome, é imortal não por si, mas pela obra que produz e, certamente, ultrapassará a sua temporalidade. E a conversa se tornou amena. Recebi, com alegria, o seu discurso de posse na presidência da ABL, em que está escrito: “sou um insistente na esperança e não sou um subalimentado de sonhos”. E ele define, de forma clara, o que deve fazer uma academia: “Seu papel será preservar e valorizar a memória nacional: a língua como instrumento de conhecimento e da convivência; as letras como reveladoras/formadoras da identidade nacional; a cultura preservada e habilmente inserida em processo civilizatório que seja também caracteristicamente brasileiro.” Pois foi assim que Marcos Villaça entrou na graça dos que não o conheciam e descobriram ter ele inteligência pernambucana, verve cearense e cultura nacional. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/04/2006. - [PAIXÃO EXPLÍCITA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/paixao-explicita/): Sou filho de Fortaleza e a amo de forma incestuosa. Por ser filho e amante apaixonado, a um só tempo, seria demais pedir isenção na proposta de análises sociológica, econômica, política ou urbanística. Onde já se viu filho andar falando de mãe... Além de mãe, foi parteira e berço. Foi minha infância e escola. Foi a juventude comprometida com tantos sonhos, o cedo amadurecer e o tentar ser gente. Não vou dizer dos seus defeitos e virtudes. Herdei-os, como os outros filhos que ela mãe prolífera tem. A todos, pobres e ricos, que bebem e sentem a energia vinda de sua luz, do seu sol, do seu mar, ela mostra o seio farto que se espraia da Barra do Ceará ao Mucuripe e o corpo que se deita meio preguiçoso lá para as bandas dos rios Ceará e Cocó. Não digam que esta é a minha visão apologética de Fortaleza. Esta é a forma como a vejo e a sinto na pele. E por falar em imagem, não posso e não devo esquecer do seu rico imaginário coletivo onde desponta, tenho que repetir, o poeta Paula Ney com a sua “loura desposada do sol”, a cidade hospitaleira com fortes laços de amizade e compadrio entre as pessoas. Embora pretensamente moderna e, com as desvantagens dessa condição, ainda assim não lhe quebraram, nos subúrbios, o hábito das cadeiras nas calçadas, das fofocas na vizinhança, dos bares com contorias, da solidariedade nas doenças, das missas de sétimo dia repletas de gente no patamar das igrejas, apenas para cumprimento de obrigação social. Não importa que o imaginário venha cedendo lugar a uma realidade cruel sedimentada em desigualdades sociais, turismo predatório, ausência de perspectivas individuais e a quase morte do sonho. Se morreu, não era sonho. Esta é, definitivamente, uma análise afetiva que comporta erros, omissões e contradições, pois assim é a vida das pessoas que fazem esta cidade. Os forasteiros que chegam para ficar assumem a sua juventude, se embevecem com a luz que dela irradia e se contagiam com o clima que favorece a mudanças, sedimentações e aventuras. E como num amalgamado “baião-de-dois” formam a teia da mútua boa vontade e do sincero entendimento. É uma jovem mulher de apenas 280 anos, completados nesta semana, em meio à paixão e a páscoa. Parabéns. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/04/2006. - [A PRAIA DE LUA GRANDE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-praia-de-lua-grande/): O mês de março de 2006 teve uma brisa forte soprando sobre a maturidade de Ednilo Soárez, debutante no difícil campo do romance. A brisa chegava do mar, ali em frente de quem entra no Ideal Clube pela Monsenhor Tabosa. Até uma lua grande (ou seriam os refletores?) aparecia, despistava e voltava trazendo os personagens do romance de estreia do adolescente que deixou sua terra, entrou na Marinha, andou por mares inéditos em nós lentos, de olhos à escuta. Mas, voltando apascentado à terra-mar, não retratou os mares dos outros, mas o das nossas paragens. Ateve-se a falar de pessoas, intrigas, assassinato e amarrar um desfecho que permite, se o desejar, sequencia-lo. Tinha mais gente por lá que em Lua Grande e, certamente, de patamares diferentes, formava um microcosmo assaz rico para os olhos vários dos que, convidados, chegam nos trinques e ficam a passear de livro às mãos, como se fosse uma prenda arrematada em pregão literário. Mas não era um pregão, posto que um sarau de classe, digno de qualquer recanto, de Lua Grande à já grande e marejada Fortaleza. O livro é um primor gráfico, os breves comentários na sua orelha esquerda ecoam sóbrios. A educação de Ednilo pediu que agradecesse e dedicasse os seus dois anos de labor. Reconhecido ao jeito de sempre, descontraído, gentil, aberto e leal. A apresentação de Carlos Augusto Viana é a reafirmação de seu talento, quer como poeta, ensaísta e crítico. Com sentido didático e erudição, como se aquelas páginas certificassem o seu estilo e com aprumo atestasse o “imprimatur”, no reconhecer pessoas, falar de coisas e sentimentos de forma apropriada. Tudo nos conformes. Mas, e o livro? Vou deixar que cada um que o tenha comprado ou o compre, faça a tarefa de ir descobrindo a jangada “Brisa do Mar”, seus tripulantes, as figuras mais importantes de Lua Grande, o Conselho Municipal, a visita do Governador, as intrigas, o crime em Fortaleza e o enredo que se renova a cada capítulo, como se fosse uma breve narrativa que vai tecendo nós de marinheiros. Por último, este livro é prova ratificada de cearensidade, mar de escavação existencial, praia cheia de simplicidade, entrelaçamento e areias onde dramas, percalços e alegrias se encontram. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/04/2006. - [TOLERÂNCIA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tolerancia/): A convivência social nos obriga a ser tolerante. Engolir sapos é uma arte que vamos aprendendo ao longo de nossas vidas. Começamos a ser tolerantes com os pais que, desde cedo, na ânsia de nos transformar em “gente”, nos obrigam a seguir horários, tomar banhos, ir a escola, cortar cabelos e unhas, comer o que não queremos, respeitar os mais velhos, aguentar o chato do irmão, tomar remédios que nos tornarão fortes e saudáveis, rezar para pedir perdão (de quê?) a Deus etc. Na escola ficamos horas e horas ouvindo professores falarem, muitas vezes sobre coisas que não nos interessam. Apesar disso, além da tolerância em assistir aulas enfadonhas, passamos a estudar matérias chatas e com pouco ou nada a ver conosco. Em outras palavras, devemos ser bons em assuntos que não são bons para nós. Muita gente dirá que as crianças e os adolescentes ainda não têm a capacidade de saber o que é importante ou bom para os seus futuros e é preciso colocar muitas informações em suas cabeças, na ilusão de que isso possa se transformar em conhecimento. Não concordo com essa ideia. Desde cedo deveríamos estudar aquilo que nos atrai, aguça a curiosidade e mexe com a inteligência. Sei, por outro lado, que é preciso de um instrumental básico, a partir do qual se pode ir estudando com prazer. Sei também que há um conjunto de regras sociais necessárias à convivência. Tudo isso não deve invalidar o prazer de estudar. Esse é um dado que professores e pedagogos parecem levar pouco em conta. Se isso é verdade, eles não estarão sendo tolerantes com crianças e adolescentes que precisam de estímulos e emulações para acordar cedo, cumprirem horários e ter regras de vida. A escola deve atrair o aluno, ser prazerosa, alegre e receptiva. Há um equívoco muito grande dos pais em imaginar que as escolas farão de seus filhos os geniozinhos desejados. Seu filho querido é, via de regra, apenas um no meio de dezenas de outros. Você é que deve ser tolerante com ele. Ouvir suas queixas, entender suas reações com os colegas e professores e lhe mostrar o mundo não como uma versão de Walter Disney ou de Federico Fellini, mas esse mundo real em que os contrários têm que conviver e aprender que a tolerância é sempre um grande aval de boas maneiras nessa vida competitiva e pluralista. Entranhe-se com seu filho, ao invés de estranhe-se. Misture-se, envolva-se, participe e acredite no potencial dele, sem endeusá-lo, mas o aceitando como uma pessoa autônoma que não é um clone seu. O DNA não é tudo. O amor, a compreensão e a tolerância são ferramentas para torná-lo forte, sem que perca a sensibilidade tão necessária ao equilíbrio emocional indispensável aos embates que terá por toda a sua vida. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/04/2006. - [ORAÇÃO, CÔCO, CHUVA E SOL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/oracao-coco-chuva-e-sol/): Estava andando pela areia da praia. Em meio a nuvens carregadas o sol pedia licença para sair e mostrar-se pleno. Era manhã cedo e procurei ver o meu derredor. Do lado esquerdo, perto de um espigão, um grupo de pessoas orava. Havia uma cruz de madeira fincada ao solo. Delimitava espaço e definia atitude. Estavam sentados em bancos improvisados de madeira, formando círculos. Não cheguei tão perto para ouvir o que oravam, mas dava para ver o estado de contrição de cada um. Pareciam estar a pedir proteção para as suas vidas, famílias e atividades. Mais à frente, na primeira curva, alguém montara uma venda improvisada de água de coco que poderia ser tomada em copos descartáveis ou em canudos devidamente encapsulados. Na precariedade do trabalho havia um mínimo de higiene e um atendimento cordial de um trabalhador desse tal mercado informal. Ele estava ali porque certamente perdera emprego ou viera de uma paragem qualquer de uma cidade distante, banido pelo desengano. Mas tomara tento. Acreditava no que estava fazendo e usava uma flanela meio suja e úmida para limpar os cocos guardados em um grande isopor com gelo. A roupa, o corpo e as atitudes não mostravam uma pessoa derrotada, mas alguém que lutava com as forças que tinha e do jeito que podia para apenas varar o dia. Logo à frente, um misto de guardador de carros ou flanelinha acena e ri com a fortaleza dos que sabem descobrir saídas, mesmo que tudo esteja adverso. Outra imagem, outro ensinamento a colher, por tantos que imaginam estar se cuidando e não ousam ver o seu derredor, tão pobre e tão rico. Vou caminhando, o sol desaparece, cai uma chuva rápida, mas bastante forte para misturar-se ao suor de cada um, como se fosse unção a dizer que a água é símbolo de refrigério, de bênção, de lavagem das mágoas, ressentimentos e, ao mesmo tempo, um toque sutil em cada pessoa dando-lhe esperanças, limpando-a e preparando-a para o novo dia. E o sol volta, agora com força, e os seus raios recaem sobre um grupo de estrangeiros sentado ao derredor de uma barraca a beber e conversar, mais por mímica e afetos que por palavras, com jovens mulheres ainda em trajes usados para a noite de trabalho que podem ter tido, não se sabe a que preço, por quais razões e com quais sentimentos. Pouco além, muitas pessoas obedecem a um instrutor e tentam alongar seus músculos, como se estivessem procurando estirar seu tempo no mundo. E o instrutor fala firme, corrige, exemplifica e vai mudando de comando, assim como a dizer que pés, pernas, coxas, cintura, abdome, ombros, braços, mãos, pescoço e cabeça, precisam de atenção como se cada um deles estivesse cobrando a parte que lhe toca neste bailado sem música, mas ritmado pela esperança. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/03/2006. - [CONY, 80 ANOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cony-80-anos/): O jornalista e escritor carioca Carlos Heitor Cony completou 80 anos. Lúcido, capaz, irônico, irreverente e lido. Os números redondos são importantes, devem ser lembrados e comemorados, pois definem épocas diferentes nas vidas das pessoas. Cada época com seu encanto e dores. Sou leitor cativo de Cony desde a minha juventude. Ele é referência do jornalismo brasileiro, expoente da crônica e consagrado palestrante. Há dois fatos na vida de Cony que considero importantes, pelo menos na minha visão. Um é o conteúdo de sua vida como jornalista combativo e temido, o outro é a obra literária que criou, parecendo sem pretensões e que o consagrou. Destaco, entre tudo o que escreveu, o livro “Quase Memória, quase romance” em que fala de sua vida, da infância suburbana, do seu tempo de seminário com a falta de fé inata, família, do amor extremado ao pai e, como suspense constante, a existência de um pacote atado por barbante que nunca é aberto até a última página da história. Em 28 de fevereiro de 1999, escrevi uma crônica aqui neste mesmo local do Diário do Nordeste, com o título “Eu, filho. Eu, pai. Eu, filho”, e a iniciei assim: “Todos nós, com o tempo, vamos ficando revisionistas. O que era, passa a não ser mais daquela forma, as tintas tomam tons amenos e a acidez das críticas perde as peremptoriedades”, e aí me refiro a Machado de Assis em Dom Casmurro. Nessa crônica de 99 falo de autores brasileiros, Machado de Assis, Zuenir Ventura, Érico e Luiz Fernando Veríssimo, mas o destaque é Cony. Lá pelo meio, digo: “Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista, a quem todo leitor de jornal conhece ou deveria conhecer, resolve revisitar as relações com o seu pai, jornalista que quase deu certo, já morto. E o faz com olhos de um homem maduro, já setentão, o que lhe permite sempre dourar a pílula e transformar um pai comum, sem grandes feitos e muitos defeitos, em um tipo que vai nos apaixonando com seus quase acertos, seus projetos inacabados, a preocupação com a educação dos filhos, o microcosmo do seu mundo suburbano e uma mitomania que se transforma em folclore”. É este homem simples e grande, que soube e ainda sabe ser filho de pai morto - e que chorou por escrito com a perda de sua cadela de estimação - que está merecendo os nossos parabéns pelo que nos deleita e ensina. Cony. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/03/2006. - [PORTE DE ARMA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/porte-de-arma/): Ao ler, no pachorrento domingo passado, o caderno Veículos da Folha de São Paulo, deparei-me com a reportagem de capa sobre o Salão do Automóvel ora em consumação em Genebra, na Suíça. Não se preocupem, não vou falar dos veículos, seus modelos arrojados e futuristas, mas de uma observação quase solta, que mostra como é vista a segurança em nosso país. Ao comentar determinado modelo, cuja marca não vem ao caso, o repórter diz de forma corriqueira, acidental e banal que “o teto fechado ajuda em países violentos como o Brasil”. É assim como nos enxergam hoje, um país violento, ilhado pela desigualdade que gera insegurança individual e coletiva, o que está causando paranoia em muitas pessoas. Todos querem ficar fechados, isolados em suas casas gradeadas, com medo do que possa acontecer nas ruas, como se não bastassem os outros golpes comedidos por espertos. Fiquemos apenas nas ruas. Hoje, todos conhecemos pessoas que foram vítimas de assaltos quando estavam aguardando em seus carros a abertura do sinal, dito semáforo. Todas as cidades têm pontos considerados “negros”, isto é, onde os assaltos ocorrem com frequência regular. A própria polícia nomina os cruzamentos perigosos e a imprensa os divulga. Assim, ao invés de eliminá-los, torná-los livres para todos, indica-se que é preciso contorná-los ou correr o risco. Estar sitiado em sua própria cidade passa a ser um fato que pode modificar comportamentos de pessoas pacatas, responsáveis e sérias. Avultam os assaltos em transportes coletivos e em veículos particulares. Nesta semana, ouvi relato em roda de amigos, dito pela própria senhora assaltada, ao cair da tarde, voltando de seu trabalho, em uma avenida de grande circulação. Ouviu um grande barulho e teve dois vidros do seu carro quebrados simultaneamente por assaltantes. Um, quebrou o vidro traseiro esquerdo. O outro, o vidro direito, lado do passageiro, no banco dianteiro. Ao mesmo tempo, um roubava a sua bolsa que estava no chão traseiro do carro e, o outro, armado de uma faca, ameaçava-a e desferia palavras de baixo calão, tomando-lhe pertences, inclusive celular. Atônita, tentou reagir e teve a sorte de sair viva, embora traumatizada. Em seguida, fez o registro da ocorrência na polícia, sem esperança de solução. Resolveu tomar uma atitude, vai fazer um curso de tiro e tentar obter um porte de arma, pois este foi o segundo assalto que sofreu. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/03/2006. - [MULHERES, SUTILEZA E CAPACIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mulheres-sutileza-e-capacidade/): A revista Forbes, editada no Brasil, resolveu escolher a alguns meses, mediante eleição pela Internet -- o que é democrático, justo e evita direcionamento, -- as mulheres mais influentes do país. A ideia e o fato demonstram que mulheres estão saindo de meras coadjuvantes para figurarem na vanguarda. Imaginem, há mulheres comandando ou liderando áreas tão diversas quanto agronegócios, hotelaria, preservação do meio ambiente, política, jornalismo, varejo, cosmético, literatura, gastronomia, finanças, medicina e outros. Não faz muito tempo, o Código Civil restringia as ações da mulher. Precisava da autorização do marido para realizar atos de comércio. Era assim e isso acabou. Acabou, não por deferência dos homens, mas pela mudança na velocidade dos acontecimentos. Isto nos alegra e mostra ser essa transformação mais célere que a capacidade masculina pode absorver. Ela é um terremoto feminino benéfico, eclodido para ficar e alterar as relações interpessoais. Em ocasião recente, estive em uma roda da qual fazia parte uma das mulheres eleitas. Ela comanda um grande negócio em todo o Brasil. Impressionou-me o seu jeito de levar a conversa para o rumo desejado, mesmo sendo pressionada por interlocutor alemão, sem precisar levantar a voz ou alterar o gestual. O exemplo citado não é fato isolado. Hoje, mulheres ainda jovens, exercem profissões liberais ou lideram pessoas com segurança e leveza, deixando de lado a ideia botocuda de que seus acessos ao poder, quando ocorriam, seriam frutos de concessão masculina. Os homens, ainda ciosos do poder unilateral, quando não cedem espaço, são atropelados pela sutileza, capacidade, firmeza de atitudes aliadas a rostos simpáticos, mas reguladores de comportamento. Do que tenho visto e de algumas conversas ocasionais com mulheres de ponta, fica bem claro, que elas sabem definir quem são e quais os objetivos pessoais e profissionais a serem alcançados. Haverá um tempo ainda, espera-se breve, no qual homens e mulheres lutarão, explícita ou tacitamente, questionando essa avalanche do sexo feminino como profissionais de bom quilate. Até lá, é bom todos procurarem entender que mérito e capacidade independem de sexo, mas de história de vida, desempenho, garra e liderança. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/03/2006. - [CARNAVAL. CARNAVAIS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/carnaval-carnavais/): Até que fiz planos para este carnaval. Tinha duas boas alternativas. Neste domingo, com certeza, onde estiver, e com quem estiver, terei livros por perto. Pena que já tenha concluído o inteligente romance “Equador”, do português Miguel Sousa Tavares, mas penso reler partes do bom “Tudo Faz Sentido”, ensaios de Raul Bellow, ou lerei algo novo. Mas, o que gostaria mesmo era falar de carnavais passados, sem essa de saudosismo, só lembrança mesmo. Era assim: Quando meninote, em um dia de carnaval, junto com uma turma, estávamos trepados na carroceria de um caminhão que nos levava ao corso, percorria a av. Dom Manuel e entrava na Duque de Caxias. Na D. Manuel, as famílias sentavam às calçadas e o mais que acontecia era serem saudadas com talco, serpentinas e confetes pelas pessoas dos veículos que passavam buzinando com gente nos estribos ou sentada em seus para-lamas. Na Duque de Caxias, era o carnaval de fato, em uma pista, os veículos, na outra, os blocos e maracatus. Música, gente pulando, o bloco dos “sujos”, mas a polícia só fazia olhar. Não havia brigas e, quando ocorriam, logo serenavam. Pois não é que nesse dia aspergi todo um tubo de lança-perfume em uma encabulada colombina que tentava se equilibrar dos solavancos do caminhão. Já adolescente, azucrinei meu pai para me levar a uma festa noturna. Só consegui na terça –feira. Seria minha estreia em carnavais noturnos, alegria total. Com jeito de homem, o juizado de menores não encheria o saco, pois estaria acompanhado dos pais. Acontece que já havia combinado ir a uma festa vespertina - tinha disso- na casa de uma amiga. Nada mais que uma sala decorada com qualquer coisa, discos, sucos, sanduíches e vontade de pular de mãos dadas. Resolvi que iria às duas, à da tarde e à da noite. Fui à da tarde, tudo do jeito que imaginara e a paquera foi legal. Cheguei em casa lá pelas oito da noite, tomei um banho, decidi descansar um pouco e só acordei na quarta-feira. O sono era tão profundo que meu pai teve pena de me acordar. Casado, convidei casais para um drinque na minha casa, antes de irmos à festa no Ideal Clube. Para completar, vestíamos todos uma mesma fantasia e lá fomos nós de apito na boca e muita disposição para brincar. Mesa grande, bebida farta e diversão limpa, sadia. Depois, vieram as festas infantis, mas aí as estrelas eram as filhas e agora, por acaso, estou olhando para uma foto delas brincando em uma matinée. Evoé. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/02/2006. - [UTOPIA E A REALIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/utopia-e-a-realidade/): Um dia desses, meio por acaso, acessei um desses canais alternativos, de audiência tida como zero, e, para surpresa minha, lá estava José Saramago, o único prêmio Nobel de literatura dos países de língua portuguesa. Pois bem, Saramago, ficcionista dos melhores, dizia, para pasmo de todos, ser contra a utopia, como a queriam Platão em sua República e, depois, muito depois, Thomas Morus. Para Morus, a Ilha da Utopia deveria ser lastreada em dois pressupostos: a abolição da propriedade privada e a limitação das ambições pessoais à necessidade de suprir os interesses coletivos. Se vi e ouvi bem, e posso não reproduzir com fidelidade, Saramago, a quem tive a oportunidade de ver fugazmente em uma feira de livros lá na Marquês de Pombal, perto da Estufa Fria, em Lisboa, falava que o dia de amanhã é a nossa utopia. E o dia imediato só reproduz o trabalho de hoje. Nada mais chão, mais terra a terra. Nada de intermitências da morte, nada de memorial de convento. Era o lúcido senhor do alto da sua maturidade, mesmo com toda a sua equipagem marxista, dizendo que a vida se faz com trabalho, caminho, determinação, ao invés de utopia. Ora, utopos é nenhum lugar, qualquer lugar, ou um lugar que não há. O que há parece ser o caloteiro com cara de sério, os puxa-sacos, a violência crescente, a pobreza renitente, a doença escondida, a sordidez das páginas policiais, a promessa não cumprida dos que anunciam muito e se desfazem em desencantos. Mas, o mundo real não é só o que foi dito acima, é muito mais que isso. Ele é também produto da luta humana, da dedicação dos que não estão tramando, enganando, confabulando, matraqueando inconsequentemente, mas aqueles que estão fazendo a sua parte, as tais formiguinhas que muitos gostariam de ser, cigarras que são e nunca formigas serão. Mas, a utopia, paradoxalmente, mesmo que não saibamos, é o que faz o nosso caminho, seja com trabalho árduo, paciência, tenacidade, ou olhos nas transformações, esse vir a ser que começa a cada dia e nos impulsiona dos sonhos à realidade, a que recebemos com todos os sentidos e com a importância da vida. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/02/2006 - [HÁ ESTRELAS NO CÉU](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ha-estrelas-no-ceu/): Esta semana, o Ceará perdeu duas estrelas. João Clímaco Bezerra e Aldemir Martins. Vieram do Cariri, João Clímaco, de Lavras da Mangabeira e, Aldemir, das Ingazeiras. Vieram pelos caminhos legítimos, naturais e crescentes da vida. Passos lentos, olhares firmes e vontades fortes. Há muitas biografias, resenhas, notícias e críticas sobre cada um. Não me proponho a isso. Desejo dizer apenas serem eles o milagre deste Ceará. São a esperança pessoal transformada em literatura e arte. João Clímaco, o que veio primeiro, em 1913, fincou-se em Fortaleza, aqui viveu, formou-se em Direito, pertenceu ao grupo Clã, ensinou, escreveu e, já maduro, mudou-se para o Rio de Janeiro, a trabalho. Aldemir veio nove anos depois (em 1922), sentou praça no Exército, participou da Sociedade Cearense de Artes Plásticas e daqui foi também para o Rio, em 1945, e no ano seguinte para São Paulo, de onde as suas artes e cores explodiram. Um e outro eram cearenses exilados, mas as suas faces, jeito de andar e de falar tinham toda a cearensidade possível. Expressavam-se, por palavras e tintas, como vitoriosos em suas lutas e o faziam, um com a sutileza da crônica e o mistério do romance. O outro, resplandecia nos objetos e animais, as cores fortes que o sol lhe incrustara e dera forma na alma. Conheci João Clímaco por sua crônica no jornal Unitário, dos Associados. Lia-o com os olhos de menino, a cabeça tentando absorver o dito e o sugerido nas frases sempre bem tecidas e atadas. Depois, fui seu aluno na Escola de Administração. Haviam-no feito professor de psicologia e lá vinha ele de paletó, gravata de laço grosso em crochê e livros a mão, falar de behaviorismo e outros que tais. Uma vez, por conta da não regulamentação da escola, fomos ao Rio em comitiva. Voltamos com a escola legalizada no Ministério da Educação. Via sempre exposições de Aldemir Martins, gostava de seus galos e gatos. Quando a Ignez Fiúza o trazia para exposições em sua galeria, eu ia por lá. Olhava o seu jeito meio manso, riso fácil e instigante. E foi por lá que comecei o meu pequeno terreiro, vigiado por cangaceiros, a cores e em bico de pena. Passou o tempo, eles foram ficando por lá, até virarem as estrelas que João Clímaco não encontrara no céu em 1948. Estão lá. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/02/2006. - [PARA LULA, ALCKMIN, SERRA, GAROTINHO E OUTROS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/para-lula-alckmin-serra-garotinho-e-outros/): Era um vez, um cara chamado Peter Drucker, o mais importante guru da teoria da administração do século XX. Canadense, mas naturalizado americano, influenciou gerações e gerações de administradores, gerentes, executivos e donos de pequenas, médias, grandes e imensas empresas. Seus livros são conhecidos de todos e não há – ou não deveria existir - uma só pessoa que tenha estudado administração, gerenciado ou dirigido uma empresa sem haver lido algo que Drucker escreveu. Se há alguém, deve ser a exceção para confirmar a regra, mas sugiro procurar qualquer livro de Drucker e comece a ler urgentemente. Ele não dará as respostas que desejamos saber mas, certamente, incitará você a descobri-las com mais atenção e método. Drucker, morto recentemente, era alto, pachorrento no falar, desengonçado, requisitado para fazer palestras, dirigir seminários e receber honrarias. Por ser um guru já idoso e não se omitir quando questionado, foi, certa vez, indagado que conselhos daria a um presidente da República. O jornal que o questionou foi o The Wall Street Journal, de Nova Iorque, e o presidente eleito se chamava Bill Clinton. Estou escrevendo na esperança de que alguém faça chegar este ao candidato Lula e aos demais. A experiência de Drucker o fez condensar em 06 pequenas regras o sucesso de uma gestão presidencial. Creio poder valer até para governadores e prefeitos. As regras foram retiradas de histórias de antigos presidentes americanos, ajustadas por Drucker e condensadas por mim. São elas: 01. O que fazer? É a primeira pergunta que deve ser feita pelo eleito. 02. Concentre-se, não diversifique. Tenha foco, isto é, escolha o que tem de fazer de saída e o faça rapidamente. Cause impacto, execute e conclua. 03. Não aposte ou acredite em uma coisa ou projeto dito seguro. Quase sempre o tiro é falho, faça pesquisas e não siga a sua intuição. 04. Um verdadeiro dirigente não micro administra, não faz varejo e nem tem secretário-geral. E nunca faça uma coisa que alguém possa fazer em seu lugar. Tome a decisão, designe alguém competente para fazê-lo e deixe que o faça. 05. Um Presidente não tem amigos na administração, tem servidores. Essa máxima é de Lincoln. O dirigente que se esquecer disso, viverá para lamentá-lo. Os amigos sempre ficam tentados a abusar da posição e o poder que isto implica. 06. Uma vez eleito, desça do palanque, pare de fazer campanha e governe. Isso foi dito por Truman a John Kennedy. Alguém vai entregar aos candidatos? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/02/2006. - [OS AVISOS DO CORPO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-avisos-do-corpo/): Estou escrevendo no computador e ouço um choro. É a minha secretária esvaindo-se em lágrimas. Recebera um telefonema. Seu pai acabara de morrer. Perguntei a idade. Era mais novo do que eu. Fico meio apavorado. Fumava e bebia muito, ela disse. E aí lembrei do meu amigo poeta ao me passar recado de seu cardiologista, amigo comum, dizendo que ele, o poeta, não era hipertenso. Não era, mas será, certamente. Será, pela simples razão do corpo pedir respeito. Pede com jeito: não coma demais, trabalho muito por conta disso. Pede com calma: não beba exagerado, veja seu fígado e as consequências para os rins. O amigo poeta, muitas vezes, não respeita seus limites. O corpo pede: vá dormir, e ele fica madrugada afora, catando insônia. Minha secretária continua chorando. O pai morava longe e lá se vai ela. Liga para a mãe e o choro fica mais controlado. Consola a mãe e diz: logo estará chegando. Enquanto ela agora deve estar em uma dessas Brs esburacada, lembro do meu amigo cronista-psi tossindo feito um condenado. Tosse por fumar em demasia. Sabe disso e não cuida, mas diz se preocupar quando a minha pressão ascende ao bom ou ruim futebol do meu time. Continuo lembrando haver o pai da secretária morrido de infarto, mas invento, para mim: ele só morreu porque fumava e bebia. Todos morrem, nada a ver. E aí lembro do amigo-editor, meio adoentado, semana dessas, por haver recebido um catatau de exames laboratoriais. Todos estavam bem, exceto um, o do colesterol e isso deve ter mexido com a cuca dele, e aí a pressão disparou e ele foi descansar em casa, de castigo. Pensa ser de ferro. Não é. Tem de se cuidar. Há centenas de lançamentos de autores vários, estreantes, repetentes ou delirantes, a serem feitos e só ele sabe cuidar disso com o seu jeito de quem não quer nada, mandando e-mails, correspondência com convite para todo mundo, telefonemas lembrando o compromisso e levando uísque para molhar o bico dos amigos. Tudo boca-livre. Ele é assim. Estou lembrando também de outro poeta, ora virando memorialista, a comer de forma pantagruélica. Come de ficar triste e vai embora. Come menos, cara. Lembro de outro amigo que se zanga facilmente. Para com isso, você sofre. Lembro de tanta coisa, mas não esqueço das nossas vidas, responsáveis e, quiçá, inconsequentes. A vida precisa ser cuidada. Ouviu, pessoal? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/01/2006. - [MICHELLE NÃO É MAIS UMA CANÇÃO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/michelle-nao-e-mais-uma-cancao/): Não sei se todos lembram da canção francesa chamada “Michelle”. Era linda. Hoje, Michelle é nome de presidente de República. Michelle Bachelet, médica, descasada, com três filhos havidos de dois pais diferentes, ex-ministra da Saúde e da Defesa, é eleita presidente do Chile e toma posse agora em março. Ela é a nova mulher, não mais a que recebia o marido ao começo da noite, banhada e empoada, mas a que volta para casa quando a tarefa se esgota. Mas ela não está só. Neste começo de 2006, mulheres maduras, formação superior destacada, tomam as rédeas de dois países deste mundo emergente em que vivemos. Michelle, no Chile e Ellen Johnson-Sirleaf, assumiu agora o comando da Libéria, país africano, fundado por ex-escravos libertados dos EUA. E na posse de Ellen, economista, pós-graduada em Harvard, estava outra mulher capaz, decidida e de origem simples, pois filha de imigrantes negros: Condoleezza Rice, Secretária de Estado, cabeça pensante americana, mesmo que possa pensar errado. Isto é outra história. O que vale aqui é a vida dessas mulheres. E não é bom esquecer de Angela Merkel, doutora em física, ex-ministra do Meio Ambiente, desde novembro passado, desbancou o poderoso Gerhard Schröder, e é a Premier da Alemanha. Imaginem. O importante nesta conversa é que mulheres despontam em partes diferentes do mundo e o fazem de jeito bem distintos. Michelle derrotou um empresário multimilionário, Sebastian Piñera, no Chile. Ellen lutou e ganhou de um grande ex-atleta de futebol, George Weah, rico e ídolo famoso. Condoleezza, não tinha ninguém para promovê-la, nem casada é. Há quem diga poder ser em 2008 a candidata, imaginem, do conservador e branco Partido Republicano. Angela era física, morava na parte oriental-comunista e, com a unificação, surgiu como política. E aí está. Acabaram-se as evitas, as isabelitas, e até as damas de ferro, tipo a Margareth inglesa. Hoje, a lucidez, a coragem, a capacidade, a liderança sutil e o sentimento de inclusão são as forças não só dessas mulheres citadas, mas de todas as outras, anônimas ou não, que não fazem mais só o modelo ‘boa esposa e virtuosa dona de casa’, a espera de um marido exemplar ou de uma pensão, quando o amor finda. É neste mundo novo, tão novo que nós, bichos homens, machistas ou não, ficamos tontos. Há que se aprender a conviver com essas mulheres que crescem, aparecem e permanecem. Deve eclodir um sentimento de júbilo pela nova divisão de tarefas no mundo real, pela certeza de que se poderá ter liderança com delicadeza, profissionalismo com ritmo sensorial, companheirismo sem subserviência ou melodrama, carinho sem hora ou local marcado e amor sem dependência. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/01/2006. - [OS INSUCESSOS DE CADA UM](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-insucessos-de-cada-um/): Tem gente que na primeira ou segunda paulada na moleira passa a reclamar da vida, das injustiças que recebe, da falta de sorte, de desamparo e coisa e tal. Acredita que é o último dos mortais, esquecido por Deus (quando imagina ter fé), família, amigos e que há uma trama contra ele. Mergulha em um alheamento e, não raro, fica deprimido, sorumbático e macambúzio. Esquece que as moleiras são fechadas na infância e ser humano é bicho de cabeça dura. Não importa quantos anos tenhamos. Não importa que nos digam que é assim mesmo. Não importa que a gente saiba que poderia ter tido um pouco mais de cuidado, atenção, tenacidade, simplicidade e lutado mais. Na hora do insucesso não há consolo. É quase o fim do mundo. Quase. É preciso que se assimile o insucesso e isso leva um tempo. O tempo é relativo, não é absoluto. E cada um tem o seu próprio tempo. Os insucessos, se bem assimilados, mastigados, digeridos, podem ser uma grande fonte de aprendizado. Eles podem nos tornar mais lúcidos, atentos e vigilantes com os nossos sonhos e realidades. Nada de se associar aos que consideram um insucesso o tal do fim do mundo. Ele não o é. Ele é didático, sábio e se presta para que descubramos a que viemos, as companhias que escolhemos, como estamos traçando os nossos caminhos, e se há jeito de mudá-los. Sempre há. Eles podem ter o condão de nos tornar mais humildes, menos vaidosos e mais comuns. Gente. Os insucessos são feitos para mostrar que a vida povoa desencontros, topadas, tempo jogado fora com bobagens, a crueza dos espelhos que teimam em nos mandar recados e não escutamos. Enfim, o insucesso pode até ser uma conquista, se dele tirarmos lições, não estas bobas e óbvias que estão aqui listadas, mas as resgatadas da purgação das dores, da nossa história de vida, seja ela breve ou longa. Tem também aquela historinha manjada do cara que estava perdido numa ilha e conseguiu com muito esforço fazer uma choupana. A choupana pegou fogo. Ele reclamou de Deus e se considerou derrotado. Um navio viu a fumaça do fogo e o salvou. Pois é. Insucessos podem também servir para mostrar que nunca estamos sós. Há amigos, sim. Mesmo que poucos ou que não nos façam festas, não endossem os nossos erros e critiquem atitudes. Amigo é bicho esquisito, tão esquisito quanto nós. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/01/2006. - [O OUTRO LADO DE MIM](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-outro-lado-de-mim/): Algumas pessoas falam que não gostam de ler best-sellers. Nada a ver. Conheço intelectuais de verdade que gostam de ler esse tipo de romance. É melhor ler um best-seller que nada. Eles são fantasiosos e têm um condão de nos tirar da realidade, de mostrar um mundo diferente e, quase sempre, seus protagonistas conseguem superar dificuldades e vencem. E ninguém pode falar desse tipo de literatura sem mencionar Sidney Sheldon. Ele já vendeu mais de 300 milhões de livros. Seus livros são lidos da primeira à última página, com avidez e à espera do desfecho quase óbvio. É como se todas as populações brasileira, mexicana e portuguesa, juntas, tivessem lido um livro seu. Eu li vários. Quem não se lembra de “O Reverso da Medalha”, “A Ira dos Anjos”, “Juízo Final”, “A Herdeira” e tantos outros? Sheldon tem hoje 88 anos, mantém-se lúcido e acaba de escrever sua autobiografia ou memórias. Em “O outro lado de mim” fala de sua vida, vitórias e fracassos. No dizer do jornalista Federico Mengozzi, falando sobre o dito Sheldon, só os bem-sucedidos podem falar de seus fracassos. E Sidney romanceia sua vida, como não poderia ser diferente. Judeu, discriminado e vivendo a juventude em plena Depressão americana, quis se suicidar, de desespero, aos 17 anos. Seu pai, que nunca tinha lido nada, sabia do gosto do filho pela leitura de romances. O flagrou misturando bebida com remédios, e falou para ele: “A vida é como um romance, não é? Está cheia de suspense. Você não faz ideia do que vai acontecer até virar a página”. Usando essa metáfora, fez com que o filho mudasse de ideia e até de nome. Sidney trocou o sobrenome judeu Schechtel por Sheldon e foi encarar sua múltipla vida. Só aos 52 anos começou a escrever romances. Antes, escrevia peças de teatro e roteiros para cinema. Até um Oscar ganhara como roteirista. Rico, famoso e ciente de sua finitude, resolve agora abrir seu passado e o faz do jeito que sempre soube conquistar leitores ao redor do mundo, parecendo íntimo e semelhante ao homem cotidiano, mas, ao mesmo tempo, misturando fracassos, sonhos, esperanças e bom humor. Ler memórias, mesmo romanceadas, é uma forma de cada um ir mexendo com os próprios botões, examinando seus significados, erros, medos, necessidades, desejos e atitudes. Como a vida é complexa e diferente para cada pessoa, é sempre bom lembrar o que disse o pensador inglês John Churton Collins: “A metade dos nossos erros na vida vem do fato de que nos deixamos levar pelos sentimentos, quando deveríamos raciocinar, ou de que raciocinamos quando deveríamos nos deixar levar pelos sentimentos”. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/01/2006. - [2006 E NÓS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/2006-e-nos/): Estamos aqui. 2005 já era. Não vale mais falar dele, passou. É passado. Depois da preguiça, da missa, da premissa, entra na liça o 2006. Vem com tudo o que tem de direito: cpi, carnaval, copa do mundo, eleições, secas, enchentes, inverno e tudo o que os outros anos têm de pior e do bom. O que é óbvio não se diz, mas os anos são feitos por nós. Nós, as pessoas. E os nós que atamos ou deixamos que atem ao nosso redor. Se admitirmos que nós fazemos o ano, então é hora de cada um ir arrumando o jeito de fazer a sua parte, com arte, destarte. Se acreditarmos que estamos cheios de nós, os que nos enredam, prendem o nosso hoje e quiçá o futuro, é bom lembrar da história de Alexandre, o Grande, o líder guerreiro macedônio que conquistou a Ásia e deu sentido ao império helênico, sobre o tal do nó Górdio. O rei, chefão, imperador da Górdia, por onde passaria Alexandre, em sua guerra de conquista criou um nó. Esse nó era um entrelaçamento de cordas e não havia ninguém que conseguisse desatá-lo. Era um nó cego, onde não se via forma de desatar o seu emaranhado. Até que um dia, conta a história, Alexandre resolveu aparecer por lá e foi tentar desatar o nó. Chegou com o seu jeito de conquistador decidido, passo firme e encarou o dito nó. Olhou, matutou, coçou a cabeça coroada, não via como resolver o problema e não podia sair de lá desmoralizado. Olhou para o chefão da Górdia e, sem avisar a ninguém, desembainhou a espada e cortou o nó ao meio. Estava resolvido o problema, de forma inusitada, e a fama de Alexandre foi aumentando. Assim é na vida real. De vez em quando precisamos tirar a nossa espada imaginária e cortar os nós que atam as nossas vontades, atitudes e decisões. Imagine o que deve ter passado pela cabeça de Alexandre. Muitos já tinham tentado desatar o nó górdio e todos voltavam de cabeça baixa. Ele, não. Da mesma forma que os demais, não sabia o jeito de desmanchá-lo, pois não conseguia que as pontas penetrassem no novelo que se formara. Deu uma de doido. Partiu o nó com a espada e todo novelo se desfez. Dar uma de doido, temporário, pode não só desatar nós, mas liberar o que temos aprisionado por medo, acomodação ou indiferença. Sem querer dar uma de Paulo Coelho e assemelhados, é bom que, de vez em quando, se faça algo inesperado, diferente do que esperam e que nos deixe livre de aporrinhações antigas. Começo de ano é tempo de amolar espada, verificar que a bainha está lubrificada e não vai impedir que, a qualquer dia ou hora, se ouse empunhá-la. O importante é não ficar segurando o cabo da arma, pois até a paz precisa ser conquistada pela audácia e surpreender os que se imaginam reis da Górdia. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/01/2006 - [2008 É 10 - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/2008-e-10-diario-do-nordeste/): Percebi que, somando todos os números do ano de 2008, se obtém 10. No sistema decimal, 10 é a nota máxima. Os jovens, ao se referirem a alguém que é bom, dizem ´você é 10! ´. Dessa forma, vamos todos crer que o novo ano que chega será o máximo ou, no mínimo, bom. Terá a força da cor vermelha a lembrar sangue, vida, energia e movimento. Dizem os que entendem - o que não é o meu caso - que números que somam 10 significam 1 em numerologia, pois nela o zero nada representa. Assim, poderíamos supor que será, igualmente, o primeiro, o 1 que se expressa pela criatividade, inteligência, argúcia, competência e independência. Essa divagação, pseudo-esotérica, é um alerta de que nós fazemos o ano, com a nossa vida, sangue, energia e movimento. Esses elementos se somam à nossa capacidade de trabalhar, inventar, criar algo de forma original e, acima de tudo, ser independente. Usar o seu sangue, energia e movimento significa que você não deve ficar aí parado. Novos rumos podem ser encontrados, sendo inventivo e livre. Desse modo, ao chegar o próximo dia 01, terça-feira, feriado, faça limpeza na bagunça de seus relacionamentos, papéis, roupas, entulhos mentais ou de sua casa e trabalho. Mantenha algo natural, vivo, ao seu lado, preferencialmente uma árvore, um vaso de plantas ou flores, e aceite que o meio ambiente é seu e sua preservação depende de você. E, mais que isso, é necessário que você propague a ideia de que, se bem cuidado, ele melhorará a nossa vida com ar puro, oxigênio e coisas tais. Abra as janelas, mas cuide de saber se não há gente negativa ou ladrões por perto, deixe que o sol entre em todos os cantos, especialmente no seu lugar de dormir ou trabalhar, que deve estar asseado. Use roupa limpa, mesmo que velha. E não esqueça de ter fé e acreditar no que faz, sem essa de fingir ser isso quando é aquilo. Assuma-se, respeitando o seu corpo magro ou gordo, a idade que tem, sem pensar que o tempo não passa. Mas passará bem melhor se você souber usá-lo a seu favor, vivendo o hoje, pois o futuro sempre será o amanhã. JOÃO SOARES NETO, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2007. - [FELIZ LIVRO NOVO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/feliz-livro-novo-jornal-o-estado/): Este virar de ano nos acena com uma conspiração nova, a de retomar o gosto pela leitura. Uma espécie de ONG ‘Leia Mais’ e uma organização social ‘Fique Lendo e não seja assaltado’ estão propagando nomes de autores cearenses que poderão ser visitados em livrarias e de lá saírem com você para a sua casa. Eles vão mostrar a você todos os seus sonhos, desejos, indignações, amores e desditas. Eles se revelam no que escrevem. Seja em prosa ou verso. Você ficará íntimo deles, Você passa, por exemplo, na livraria Livro Técnico e pergunta ao Sérgio Braga o que tem de bom na atual literatura cearense e, certamente, ele mostrará muitos títulos e autores. Depende do que você gosta de ler: poesia, crônica, conto, ensaio e romance. Há tanta pessoa iluminada nesta terra que você pode, por falta de informação, preconceito ou comodismo, estar perdendo momentos prazerosos de leitura. O livro é um mundo pequeno ou grande, só depende do olhar de quem o lê e de sua história pessoal, pois há um entrelaçamento entre o que você lê e o que sente. Muitas vezes, tem perguntas e respostas que não sabemos ou ousamos formular. Você que lê jornal está a um passo dos livros. Ao terminar de ler este jornal, espreguice-se, olhe o lá fora e pergunte a si mesmo qual foi o último livro que leu. Não lembra? Ótimo, está na hora de voltar a ler. Vamos começar pelas mulheres. Não deixem de ler Ana Miranda, Ângela Gutiérrez, Beatriz Alcântara, Giselda Medeiros, Natércia Campos, Regine Limaverde, Tércia Montenegro e tantas outras. Entre os homens, para falar só nos vivos, vou lembrando de Airton Monte, Alcides Pinto, Almir Gomes de Castro, Audifax Rios, Carlos Augusto Viana, Carlos Emílio, Barros Pinho, Batista de Lima, Dimas Macedo, Francisco Carvalho, José Teles, Juarez Leitão, Pedro Salgueiro, Luciano Maia, Lustosa da Costa, Rui Câmara e uma pá de outros valorosos escrevinhadores, todos servidores de leitores desconhecidos. Acredite, ler não é perda de tempo, é entrar em sintonia fina com você mesmo, sem precisar de testemunha. Basta um livro, luz do sol ou da lâmpada e pernas jogadas sobre qualquer rede ou sofá velho. Ia esquecendo: eu, por exemplo, leio sempre e mais de um livro ao mesmo tempo, alternando a leitura. Gosto de ler com um lápis à mão, especialmente se tiver uma borracha acoplada. Com ele vou grifando, discordando ou anotando o que me parece certo, risível ou errado. Faça isso nesse ano novo. Essa é uma forma segura de alimentar a sua alma, essa que conhece todas as suas mazelas e glórias e, nas noites insones, diz em seu silêncio: vai dormir, deixe de frescura. Na primeira nervura do ano alvoreça o seu espírito, esqueça os erros seus e os do mundo e vá de livro novo, esse companheiro silencioso, capaz e disponível, que está ali ao seu lado, todas as horas, para o que der e vier. Feliz 2008. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/12/2007. - [O POETA DO TRAÇO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-poeta-do-traco-diario-do-nordeste/): Anos 70. Rio de Janeiro. Esquina da Júlio de Castilhos com a Atlântica. Manhã cedo. Um Dodge Dart para. Desce um homem maduro. De onde estou, posso vê-lo por inteiro. Baixo, calvo, calça escura, blazer bege, camisa sem gravata e sapatos com saltos mais altos que o normal. Sobe à calçada, cumprimenta-me com um menear de cabeça e entra no prédio à esquerda. Era ele. Tinha certeza. Lembrei da primeira vez que fui a Brasília, quando tudo começava e o Plano Piloto mostrava grandes vazios. Embeveci-me com a genialidade do urbanista Lúcio Costa e os traços precisos e futuristas dos prédios concebidos por Oscar Niemeyer. Nesse tempo, tomara as dores de Lúcio Costa em rodas ditas letradas. A maioria achava que Brasília tinha sido planejada por Niemeyer. Não, foi Lúcio Costa, disse eu. Niemeyer projetou – e bem - as edificações. E Niemeyer, o poeta do traço arquitetônico, era aquele homem maduro que acabara de passar à minha frente. Depois desse dia, sempre o via fazer esse curto percurso. E, outras vezes, almoçando no restaurante Alcazar, vizinho à minha mesa. Mas, havia uma timidez a não me deixar quebrar o gelo e conversar com ele. Iria dizer da minha admiração por tudo o que vi dele aqui e em Israel. Sábado passado, lá estava eu de novo. Ele entrara no Ed. Ypiranga, um prédio simples, antigo, com varandas arredondadas, de cor ocre, onde trabalha na cobertura. Chovia grosso. Criei coragem e apertei a campainha. Hoje, o prédio está gradeado. O porteiro pergunta o que quero. Respondo: falar com o Dr. Oscar. Ele pede para usar o interfone para o número 1101. Um secretário atende. Digo que desejo apenas cumprimentar o Dr. Oscar pelos cem anos. Ele pede que ligue do meu celular para o número que me dá e fale com D. Vera Lúcia, mulher do Niemeyer. A chuva aumenta. Ela atende, ouve-me, e diz que ele está muito atarefado com a equipe e lamenta que não possa me atender naquela hora. Pergunto-lhe a que horas ele iria sair e ela diz: ele não tem hora para sair. E foi assim que perdi a oportunidade de dizer, antecipadamente: parabéns, Dr. Oscar, pelo dia 15. Ontem, por sinal. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2007. - [CAFÉ DO ANTÔNIO TORRES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cafe-do-antonio-torres-jornal-o-estado/): Olá, Antônio Torres, estou por aqui. Assim começou o telefonema com esse grande escritor brasileiro, autor de 11 romances, detentor, entre outros, do Prêmio Machado de Assis, maior glória concedida pela Academia Brasileira de Letras. Marcamos para andar juntos no dia seguinte. Na hora certa, desço e ele já está lá. Somos nordestinos. Ele, do Junco ou Alagoinhas, Bahia. Eu, desta Fortaleza de tantas faces. Entretanto, estamos ambos ainda aprendendo a ser cidadãos do mundo e a andar por aí afora. Atravessamos juntos a avenida vazia de carros e nos pusemos em marcha. Céleres senhores de tênis e calções em busca do sol dessa manhã escancarada. Na verdade, estou com um "short" de pijama, pois não encontrei o calção. Pergunto a ele se alguém vai desconfiar. Ele diz: nada, parece até calção mesmo. Fazemos uma curva e a praia além já é outra, sendo a mesma. O sol bate no mar e o reflexo nos encadeia um pouco. Ou seriam os corpos jovens semi-desnudos que passam ao lado, parecendo voar, mas não mudam a nossa prosa? Estamos, acidentalmente, passando em revista a história de cada um, antes e depois do Plano Collor. Temos lembranças e lambanças a contar do que sofremos com o 'cinquentinha' que amanheceu disponível naquele dia aziago. E, a cada passo, vamos nos mostrando por inteiro, como devem fazer os amigos e digo da felicidade de tê-lo visto na capa de O Globo como emérito escritor que é, julgando os que almejam ser ou já o são. Suados, cruzamos, sentido contrário, a avenida e lá vamos nos enfurnar, do jeito que estávamos, em uma livraria. Entramos em território dele. Um amor de Café que leva o seu nome. Com balcão, mesas e cadeiras decorados com esmero, uma carinhosa logomarca feita pelo Ziraldo e placa metálica registrando a data de sua abertura, no ano de 2003. Deixamos que partículas de H20 diminuam o desgaste das andanças quilométricas e ele, não contente apenas com o reencontro, mima-me com seu último livro de crônicas, "Sobre Pessoas". Lisonjeado, começo a folheá-lo. Vejo, alegre, ser o livro dedicado a umas poucas pessoas. Entre elas, Carlos Augusto Viana, Laéria Fontenele e Sérgio Braga. Agora, já estamos tomando o café da manhã, repondo, com sobra, calorias perdidas. Conversamos até sobre Machado de Assis e Capistrano de Abreu, enquanto pães, queijo e sucos juntam-se à negritude do café que me energiza para tentar, sem êxito, falar com Sérgio Braga e Carlos Augusto. Finda o café, o sol, já zenital, nos remete de volta à praia e à água de coco, enquanto procuro os amigos citados. Por milagre, Carlos Augusto atende com voz de barítono matutino, trocamos prosa e repasso o celular para o Antônio Torres, sem esquecer de olhar o Drummond em bronze, sentado, que parece dizer: "Lutar com a palavra é a luta mais vã, no entanto, lutamos mal rompe a manhã". João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/12/2007. - [IRMÃ PETRONILLA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/irma-petronilla-diario-do-nordeste/): Nesta semana, vi uma homenagem sincera. Era uma celebração religiosa. Pessoas do povo, de todas as idades, de forma espontânea, se juntavam e cantavam louvores pela graça que tiveram da companhia por 18 anos de Petronilla Isonni. Seu coração, cansado, se finou há uma semana, com a paz dos que não deixam rastros de problemas, mas caminhos de luz e concórdia. Era noite e a Igreja da Vila União estava repleta de famílias e de centenas de crianças assistidas pelo Lar São Domingos Sávio. E lá estavam também os aquinhoados, no passado, com a assistência, educação e paciência de Petronillia Isonni, essa italiana destemida que largou família e amigos, vindo, sob o manto de irmã salesiana, fundar essa casa de formação de pessoas na Vila União, subúrbio de Fortaleza, ao tempo em que tudo era mais difícil. Tijolo a tijolo edificou, com o pouco que recebia, uma casa simples, despojada, mas digna de ter a palavra lar em seu frontispício. E o fez sem recursos, com quase nenhuma ajuda de governos, sem medo dos assaltos que aconteciam nas redondezas, das caras feias de fiscais, mas com o coração e as mãos plenos de esperança. Os tijolos, reunidos, tinham o sentido futuro da transformação de crianças pobres que a tratavam como segunda mãe, embora fosse rigorosa na educação e modos. E a casa, com o tempo, se fez jardim de ensinamentos e posturas de vida, rendendo frutos humanos. Nessa celebração era evidente o bem querer nos olhares atentos, leituras dos textos e orações coletivas, nos aplausos que mãos simples ofereciam como presente, a quem tanto lhes deu e agora tinha ido para sempre. Naquela Igreja sem ornamentos, vi, ao final, a singeleza da encenação e crença de crianças transformadas em anjos e querubins em auto de louvor que ‘mostravam a chegada ao céu’ da Irmã Petronilla, gente de bem. E não faltou a recepção de Maria, José e Jesus à nova moradora das paragens celestes. Eu, quase um cético inato, deixei que viesse à tona o residual que temos consolidado da fé cristã e constatei, alegre, que a simplicidade torna as pessoas mais próximas, verdadeiras, generosas e felizes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/12/2007. - [HISTÓRIA LIVRE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/historia-livre-jornal-o-estado/): Era sábado à tarde. Dia de futebol, praia e bares, mas optei por ir à Escola Livre de História, coordenada pelo prof. Régis Lopes. Essa Escola, que tem dois meses de existência, procura, de forma diferenciada, fazer revisões críticas ou aprofundamento de obras e historiadores. Nesse sábado, seria discutida a obra de Capistrano de Abreu, o maior historiador brasileiro, nascido no Ceará, em 1853. Como sou um aprendiz de Capistrano, embora não seja historiador, resolvi dar às caras no acontecimento. Cheguei, esbaforido, pois vinha de longe, mas a tempo de assistir a primeira palestra da tarde. Olhei e vi que jovens iam tomando assento e me quedei quase ao fundo da sala para ouvir. Ouvi uma jovem mestranda em História Social, Paula Virgínia Pinheiro Batista, falando com desenvoltura e carinho sobre o ofício do historiador na obra de Capistrano. Mais uma vez, dei-me conta da importância de Capistrano. Oitenta anos após sua morte, estava sendo pesquisado, revisitado, com respeito e argúcia. Não só estava sendo apresentado, mas bem contextualizado de uma forma simples e didática. Com os olhos da memória revi a foto consagrada de Capistrano: rotundo, amarfanhado, míope e nada simpático. Mas sabia o seu ofício. E entendi, mais uma vez, que os valores da alma e do pensamento são os únicos permanentes. Não morrem com o tempo. Ouvi detalhes de suas cartas, tão bem tratadas por tantos, especialmente por José Honório Rodrigues e ali apresentadas em seus aspectos mais especiais. A palestra acabou e tive a curiosidade de saber um pouco mais, obtendo respostas lúcidas às minhas questões. Depois, ouvi João Ernani Furtado Filho, doutor e professor universitário que conseguiu, de forma descontraída, com conhecimento e erudição, demonstrar que Capistrano tinha cumprido o seu papel de historiador, não só pela obra “Capítulos da História Colonial”, mas também por palestras, ensaios e as 1.500 cartas dirigidas a amigos e colegas. Ficava claro, mais uma vez, que a obra de Capistrano não se resumia a livros. A correspondência trocada com figuras como Pandiá Calogeras, Assis Brasil, Afonso de Taunay, Paulo Prado, João Lúcio de Azevedo e Guilherme Studart, entre outros, era rica, profunda, constituindo-se complemento importante de sua obra. O sol já havia se posto quando o encontro terminou. Saí de lá alegre com aquela demonstração de amor à pesquisa, à História e, acima de tudo, ao Capistrano de Abreu, este cearense tão importante e não devidamente festejado. Recebi, de graça, mais uma lição, de que empáfia combina com disfarce e que o saber verdadeiro é simples, direto e sem lero lero. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/11/2007. - [CONSCIÊNCIA RACIAL - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/consciencia-racial-jornal-o-estado/): Nesta terça feira foi comemorado o Dia da Consciência Negra no Brasil. Uma homenagem a todos os descendentes de africanos nascidos no Brasil e à Zumbi dos Palmares, chefe de um quilombo, morto em 20 de novembro de 1695, por não se submeter, mesmo tendo lhe sido prometida liberdade, ao jugo da Corte Portuguesa. Foi assassinado, decapitado e teve a cabeça exposta em praça pública para “acabar com o mito Zumbi”. Mais de três séculos se passaram e Zumbi está vivo na memória. Seus assassinos só são citados para dizer de sua morte. Ele representava a resistência à dominação, mas só em 1888, 183 anos depois, é que foi abolida a escravatura no Brasil. Nesta mesma semana tomei conhecimento, através de Marcelo de Trói, do livro “Racismo e Solidariedade”, escrito por Carlos Moore, Mazza Edições, doutor pela Universidade de Paris. Esse livro pretende fazer algumas distinções básicas sobre o assunto no Brasil. Uma delas é a diferença entre racismo e preconceito. Trói. Para Moore: “racismo é algo que permeia toda a sociedade. As relações interpessoais são reflexos do racismo, elas refletem o que é dominante na sociedade”. Para ele, preconceito é qualquer coisa contra qualquer pessoa, seja ela de qualquer cor. O preconceito depende dos padrões de referência do preconceituoso. No entender dele, ser racista é “uma questão de querer exterminar o outro”. E ele diz que a mestiçagem – ou mistura de raças – foi uma imposição, após inundar o país de brancos para diminuir o percentual de negros existentes. Ele assegura que a mestiçagem é um fator dominante na sociedade. “Quando se está cantando todos os hinos à mestiçagem, é um hino à violência, ao estupro massivo de índias e das africanas”. Assim, segundo ele, “o mestiço surge nas sociedades violentadas e complexadas”. Ele não acredita em um mundo “democraticamente racial”, pois aceitar a mestiçagem é dizer: “nós não conseguimos conviver com o negro como negro, temos que diluí-lo para aceitá-lo, temos que mudar o seu fenótipo”. “A ideologia da democracia racial é: “vamos aproximar o fenótipo do negro ao fenótipo ariano”. Ele propõe, ao contrário, o que chamou de “desracializar” ou tirar o fenótipo do lugar onde ele está. E diz até que “entre os negros se pratica essa maneira de eugenismo, de se casar com pessoas de pele mais clara, de escolher pessoas com cabelo mais liso...” . Desracializar, enfim, seria destruir essa imagem normativa. Ele fala, temeroso, ainda que o ‘branco brasileiro normal’ esteja convencido de que vive no melhor país do mundo e que os negros estão contentes. E assevera: “tudo aqui está feito para que aconteça uma catástrofe. É por isso que felizmente uma parte dessa elite tem chegado a compreender que eles vão ter que mexer no sistema porque se não mexerem no sistema vão perder o país”. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/11/2007. - [LISBOA REVISITADA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lisboa-revisitada-diario-do-nordeste/): Era 1965, outono, tal qual agora, e o sopro da aventura me fez chegar a Portugal. Tempo de Oliveira Salazar. Políticos e intelectuais se sentiam amordaçados pela PID, a polícia política. Eu era um fedelho no início dos vinte e tinha sede de conhecer o mundo. O velho, principalmente. Lisboa foi e será sempre a minha entrada – e saída- para tudo o que tenho visto por este lado da terra. Escorado no parapeito da varanda do Hotel Mundial, oásis de cordialidade na Baixa, vejo que estou ao pegado do Rossio, Chiado, Restauradores e da Praça do Comércio. E saio a esmo singrando praças, avenidas, ruas e vielas e dou conta de que os nomes das ruas (dos Sapateiros, da Prata, do Ouro) têm a ver com o que as pessoas fazem. É a tradição e história dessa cidade que sofreu brutal terremoto e foi reerguida, graças à lucidez urbanística do Marquês de Pombal, após 1755. Está linda, mesmo na pureza conspurcada pelo progresso. E não fujo à tentação de chegar à Rua Garret e tomar mais uma foto com a estátua em que se transformou Fernando Pessoa, esse burocrata cumpridor de horários e a maior expressão poética portuguesa do século passado. No outro lado da rua, entro na Livraria Bertrand e vejo livros, inclusive o último, Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares, consagrado no romance histórico Equador e filho de Sophia de Mello Brayner que, além de poeta, é nome de avião da TAP. E já estou na esplanada da Praça do Comércio, custodiado monumento arquitetônico que dá a sensação de amplitude, desde o arco que fecha – ou abre- a Rua Augusta. É assim mesmo, sempre que dou os costados por aqui, me perco em fazer o que quero. Desta vez, tomo um táxi e sigo para a Expo, centro de eventos criados em 1998. Venho ver a “Arte Lisboa”, acontecimento que reúne expressões definitivas ou emergentes das artes plásticas portuguesas e me ponho a fotografar quadros, instalações e esculturas. E já estou levando publicações. Uma é minha. Outra, para amigo letrado e acostumado em pensar a arte como enlevo. E lembro Pessoa: “O comboio abranda, é o Caís de Sodré, chego a Lisboa, mas não a uma conclusão”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2007. - [O FRIO COM KAFKA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-frio-com-kafka-jornal-o-estado/): Seis horas da tarde. Faz muito frio, quase zero grau e chove forte. Todas as luzes estão acesas em Praga e, mesmo assim, vejo cinza. É fim de outono com pinta de inverno brabo. Ando apressado e o sinal de trânsito fecha. Olho para as pessoas que vão, certamente, para as suas casas ou diversões e me sinto estranho na cidade em que estou por curiosidade e de passagem. Deixo – que jeito - que a água ensope o meu casaco. Os óculos embaçados precisam ser limpos e o faço com o lenço. Os carros passam velozes e produzem barulho quando cruzam os trilhos dos bondes urbanos. Acabara, enfim, de ver a escultura com Franz Kafka, em uma pracinha pequena, triangular, ajardinada e meio escondida. Queria vê-la, andava e perguntava. Ensinaram-me e fui chapinhando na água que caia sem dó do céu nublado. Era um processo em andamento. E vi que o mais que uma cidade pode fazer por alguém é dar-lhe um nome a uma rua, erguer uma estátua e colocar informações nos guias turísticos. O que fica mesmo é a obra que deixa, o resto é vaidade, especialmente da família. E lembrei de toda a amargura e isolamento que Kafka sofreu e deixou passar em seus múltiplos livros. E ele estava lá sozinho e havia um grande vazio ovalado na escultura, como a registrar o que sentira. Só ele e eu na praça, ambos molhados. Ele não mais sentia o frio. Eu, sim. Uma metamorfose. E volto a estar no sinal de trânsito que já vai abrindo e apresso o passo. No meio da multidão - que vem em sentido contrário - vejo uma jovem mãe com o seu rosto colado a uma filhinha que tirita de frio. E não só o rosto está colado, mas a mão a afaga pelas costas. Tudo não passou de segundos e essa imagem foi a mais forte que ficou na minha retina e pairou no meu sentir, mesmo que tenha encontrado Kafka, visto pontes, castelos, igrejas, restaurantes, assistido a concerto com peças de Smetana e Dvorak. Nada há mais forte que o aconchego espontâneo, o estar junto verdadeiro, a proteção que o carinho consegue transmitir e espanta o frio do corpo e da alma. E vi, repito, naquele instante que nada existe maior que o sentimento que nos une aos que amamos, sem perguntar se vão retribuir ou não o nosso bem querer. Kafka era só, não sentiu isso e sofreu por isso. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/11/2007. - [QUEM SOMOS? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/quem-somos-diario-do-nordeste/): Nós somos seres complexos. Somos o que somos, o que temos e o que parecemos ser. O olhar do outro julga rápido, sem piedade. Mas quem somos nós? O ser que responde por nossos registros espaciais, raça, origem, categoria social e forma a base da educação, seja a familiar ou a forjada na vida por professores, trabalhos e colegas? Ou será o que temos? Sejam bens materiais ou as bagagens profissional, cultural, intelectual ou científica desenvolvidas, a partir dos nossos valores básicos? O ter é o que você não tinha e acredita possuir, como se seu fosse. O problema é que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Pessoas querem parecer o que não são e viver até com o que não têm. É o mundo da aparência, em que camisa ou vestido, por exemplo, são aceitos não por sua qualidade ou beleza, mas por ostentar marca de significação para a imagem de quem a usa. Um relógio deveria servir apenas para marcar horas, mas pode definir a posição social de quem ostenta um famoso. Falo em objetos para não trafegar na senda perigosa da essência, pois aí o terreno é instável. E há os que usam cópias ou coisas falsas imaginando que possam parecer verdadeiras para os outros. Ora, o que isso vale, se quem usa sabe que é imitação? A sociedade cobra os três. O ser, o ter e o parecer. O parecer é o reflexo, a imagem que os outros têm de nós, a partir de juízo de valor falso ou verdadeiro. É ainda aquilo que se acredita poder ser fabricado com “marketing pessoal”. O sair de casa, para ver ou ser visto. Alguns acreditam ser o que os outros pensam ou dizem deles. Esses, certamente, ficam à cata do que se chama de validação ou acreditar no que o outro diz. Não pesa, para o validado, a referência própria, o que a sua essência profunda diz, mas o soprado ou gritado em seu ouvido ou o escrito a seu respeito. Esse questionamento entre o ser, o ter e o parecer passa pela maior ou menor capacidade de cada um se auto avaliar, a partir da própria consciência ou razão. Como dizem que Sócrates dizia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz". João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/11/2007. - [ALEMANHA, 2007 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/alemanha-2007-jornal-o-estado/): No dia 09 de novembro de 1989 eu estava, acidentalmente, na Alemanha. Foi o dia em que o Muro de Berlim, construído em agosto de 1961, caiu. Fazia frio, mas o calor das pessoas que atravessam aquela barricada mostrava que o mundo desobedece aos que se imaginam donos dele. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial que a Alemanha, derrotada, estava dividida, loteada entre os vencedores, Estados Unidos, França, Inglaterra e Rússia. Do lado ocidental, eclodiu a força dos Estados Unidos com a política do “Plano Marshall”, promovendo um rápido desenvolvimento e estabelecendo padrões de referência para minar a ação da Rússia. Do lado oriental, dominado pela então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, foi crescendo a necessidade da construção desse grande muro para separar pessoas, costumes e crenças. Alemães passaram a ser compulsoriamente pró-Estados Unidos ou a favor da Rússia. Cansados, nessa noite de 09 de novembro de 1989, resolveram testar sua força e viram que a máxima de Marx valia: “o povo unido jamais será vencido”. Era o começo de uma nova história para a Alemanha, que também não estava satisfeita com a dominação e as bases militares americanas. E o país estabeleceu então políticas públicas de reencontro de famílias separadas, a custos financeiros pesados, e passou a cuidar de reconstruir cidades que ainda estavam, em parte, soterradas pelos escombros dos bombardeios sofridos em 1945. Era uma ebulição. Agora, quando faz 18 anos que isso aconteceu, pude ver, novamente, como aquele país mudou, consolidou sua força e é hoje uma potência econômica que, depois de pagar todas as suas dívidas de guerra, merece a atenção de quantos queiram ver como a autoestima pode ser importante na transformação social de um povo. Por outro lado, com a criação da comunidade europeia, o fim de sua moeda nacional, o Marco, o surgimento do Euro e a vitoriosa implantação desse bloco supranacional, nasceram alguns obstáculos como, por exemplo, a escassez de mão-de-obra qualificada, agravada pelo baixo índice de natalidade. Esse fato tem gerado controvérsias, pois pressupõe a concepção de um “blue card”, cartão com a cor azul da União Europeia, semelhante ao “green card” americano, que possibilite o ingresso de estrangeiros para trabalhar em funções tecnológicas qualificadas. Essa questão, ainda não aceita pela Alemanha, pode originar novamente o surgimento de um muro virtual e perigoso, o do preconceito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/11/2007 - [DIA DA CULTURA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dia-da-cultura-diario-do-nordeste/): Amanhã, 05 de novembro, será o Dia da Cultura. Na verdade, todos os dias são dias de cultura, pois as nossas vivências, valores, linguagens e técnicas vão construindo, de forma coletiva, a cultura. Não há como definir ou conceituar cultura em espaço tão pequeno. Ensaios e teses são instrumentos naturais para dissecar as múltiplas faces da cultura. Algumas pessoas imaginam que só artistas e intelectuais têm a ver com cultura. Bobagem. Tudo é cultura: música, cinema, teatro, artes visuais, livro, costumes, tradições, mitologia, esporte, folclore etc. Na hora em que participo, por exemplo, de um clube, estou vivendo um tipo de cultura que tem como base a camaradagem, o descompromisso, o espicaçamento do outro e, não por último, a própria cultura. Do mesmo modo, ao participar de uma reunião acadêmica que segue um determinado rito e cobra de seus membros produção cultural ou científica, estamos sedimentando outra forma de cultura. As torcidas organizadas de futebol, bandas de rock, conjuntos sertanejos, grupos políticos, instituições, classes, religiões, países, estados, cidades, bairros e famílias têm formas específicas de cultura. Dois pressupostos são básicos para se formar uma cultura: o sentimento de pertença ou identidade e o partilhamento de experiências pessoais que passam a constituir a cultura de um grupo. Eu falava que amanhã será o Dia da Cultura que tem o objetivo duplo de homenagear a Rui Barbosa, nascido na data, e nos levar a pensar. A abstração nos mostra que os elementos culturais só existem porque pensamos. Há objetos materiais na cultura, mas se precisa da mente para que eles sejam sentidos, pensados e tenham função. Ninguém é dono da cultura, posto ser múltipla. Existe um relativismo cultural que mostra não podermos ser iguais e que não há cultura superior. Há, entretanto, pessoas especializadas em algo. Isso lhes dá uma identidade, mas não os torna superiores aos que não a têm ou optam por outra. Isso é diversidade. O outro não sou eu. Eu não sou ele. Logo, somos diferentes e, mesmo vivendo em um mesmo tempo e lugar, temos o direito de sermos únicos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/11/2007. - [NELSON MANDELA, 90 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nelson-mandela-90-jornal-o-estado/): Foi lendo e vendo que me tornei olheiro do mundo. Sempre lendo, escrevendo e viajando, da forma que podia, procurando entender o que os meus olhos, arregalados, viam. E nesse duplo olhar, houve uma preocupação com a África, tão rica de recursos naturais e, àquele tempo, subjugada por um colonialismo feroz que tinha a Inglaterra e a França como principais vilões. Nesse tempo eclode a figura de Nelson Mandela, um advogado negro, pacífico no agir, mas rebelde no pensar em nome da sua África do Sul, dominada pela minoria branca. E ele estava preso. E ficou preso por 27 anos. Certa vez, foi chamado para negociar condições para a sua libertação. E essas condições incluíam aceitar o “status quo”. Ele respondeu: “só os homens livres podem negociar e eu sou um prisioneiro”. Afinal, em 1990, foi libertado e conseguiu, com a sua firmeza de caráter e liderança, dar um novo destino a um país sangrento e dividido. A África do Sul é hoje um país transformado, pujante e até se dá à pachorra de sediar a futura Copa do Mundo de Futebol, em 2010. Mas foi preciso que muitos morressem e que Mandela saísse das masmorras para comandar, pacificamente, como Presidente, a integração entre negros e brancos, sem ódios e queixumes pelo passado. Em 1998, ao deixar a Presidência da África do Sul, Mandela fez um discurso que ficou nos anais das Nações Unidas: “Persevarei na esperança de que um quadro de líderes emergiu em meu país e em minha região, no meu continente e no mundo, que não permitirá que ninguém seja privado de liberdade como nós fomos; que ninguém se transforme num refugiado como nós fomos; que ninguém seja condenado a sentir forme como nós fomos; que ninguém seja despojado da dignidade humana como nós fomos”. É essa a liderança de Mandela que estou a reverenciar quando ele completa 90 anos. E, por conta da falta de uma liderança como a dele que lamento este “apartheid” que ainda temos em outros países da África e em nosso país, alimentado por políticos sem ética, a indiferença dos poderosos, de entidades que só pensam corporativamente e pelo tráfico de drogas. O Brasil, os Estados e as cidades têm várias faces, desintegradas, desconhecidas umas das outras, sem que apareça ninguém para uni-las, mostrar que este país pode sim abrigar a todos com oportunidades e inclusão, sem o plantio do ódio e violência que são semeados como forma de dividir, mandar e enganar incautos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/11/2007 - [MARGARIDA FLOR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/margarida-flor-diario-do-nordeste/): Dois oitos deitados representam um duplo infinito. Dois oitos em pé formam uma idade longeva, a de uma mulher lúcida, ativa e forte que soube, passo a passo, cuidar de sua vida e plasmar que já teceram novas criaturas. E, por que sei de onde venho e aonde estou, é que dirijo palavras a uma mulher que, jovem e resolvida, uniu-se ao homem amado com a coragem dos que sabem construir o seu destino. E o fez com a certeza do passo firme, resoluto, mesmo sabendo que viver é não saber do dia seguinte. Mas soube cuidar de cada dia e de cada rebento sadio que nascia do seu ventre e, ao longo dessa saga percorrida, mesmo após perder seu companheiro de vida, pode olhar para trás, para frente, para os lados e dizer de suas vitórias, semeadas com lágrimas e lutas. Esta mulher-líder de família simples, sem pretensões genealógicas, sem arroubos de grandeza e riqueza, espraiou-se pelo mundo afora. Tem tentáculos viçosos aqui no Novo Mundo, mas resplandece no Velho Continente e seus raios iluminam terras de afeto, em outros lugares em outras pátrias. Para ela o mundo é pequeno. Usa o telefone com tranquilidade para falar com a filha na América, com um neto na Espanha, com a filha, genro e as netas alemãs e diz para outra neta, esta na Amazônia, que não use diminutivo para a bisneta que acaba de nascer. Fala, sem perguntar se querem ouvir. E é ouvida, com certeza. Independente, vive de seus recursos poupados e não aceita que ninguém lhe indique caminhos, porque fez o seu com as pedras da retidão, da benemerência e da fé que, segundo ela, cobre a todos os seus de graças. Ela resmunga, reclama de achaques, dita normas e se faz ouvida pela sabedoria acumulada em cântaros do viver. Todos a frequentam em sua casa ajardinada, sombreada, farta de comida, povoada de lembranças e retratos marcando o tempo. E é a ela que louvo neste escrito. Ela, que me trouxe ao mundo, como o primeiro de uma série de nove, todos vivos, sadios, independentes e ciosos da mãe que possuem e que tem nome de flor: Margarida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/10/2007. - [ARGENTINA, CRISTINA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/argentina-cristina-jornal-o-estado/): Daqui a dois dias haverá eleições para presidente na Argentina, ume país é bonito e paradoxal. Acredita-se europeu em meio aos trópicos, embora tenha parte de seu território na Antártida. A grande maioria da população tem sobrenome italiano, outros são de origem hispânica, alguns árabes, alemães e inclusive judeus. Todos se vestem como europeus, dizem as más línguas, pensando que são ingleses de costeletas. Os estrangeiros contam que eles são machistas, mas se deixam dominar por mulheres. Quem iniciou tudo foi o presidente Juan Domingos Perón, mal comparando, uma espécie de Vargas argentino. Perón teve duas mulheres metidas em política. A primeira, Evita, era uma espécie de mãe assistencialista de todos. Cantora apenas razoável, embora com idade de filha de Perón, se finou em 1952, vítima de câncer aos 33 anos. Teve um velório de 14 dias e está enterrada no cemitério da Recoleta onde, diariamente, flores naturais são colocadas em seu rico túmulo. Passado algum tempo, criado e cultivado o mito Evita, Perón casa com Isabelita, igualmente bem mais nova, artista iniciante de teatro e loira como a primeira. Não contente em ter casado, já alquebrado pelo tempo, Perón resolve fazê-la sua vice-presidente da República. E o consegue. Morre em 1974, Isabelita assume e a corrupção aumenta em níveis despudorados, tendo sido destituída pelos militares, em 1976. Só homens vieram depois. Agora, neste domingo próximo, 28 de outubro, a Argentina volta a optar entre duas mulheres. A favorita é Cristina Kirchner, mulher do Presidente Néstor Kirchner, que desistiu da reeleição. Peronista, cinquentona, senadora há vários mandatos, visual novo, grande capacidade de diálogo, o que falta a seu marido, tido como de sangue quente reeleição. A outra candidata é Elisa Carrió, da frente oposicionista Coalização Cívica, com poucas chances de vitória, dizem as pesquisas. Assim, a partir de segunda, o país vizinho que oscila entre a alegria com que encara o futebol e a amargura com que se deixa dominar pelo dramático compasso do tango e pelas tragédias pessoais, amanhece com a mesma face e isso já pode ser dito, pois Néstor e Cristina formam uma dobradinha e governam juntos, sem nenhum preconceito. A grande maioria dos argentinos encara a eleição com indiferença. A Argentina-2007 é um país em franca recuperação, mas teve a renda de sua classe média achatada, ao mesmo tempo em que a outrora rica Buenos Aires cedeu espaços para o surgimento de favelas que podem, por exemplo, ser vistas ao longo da estrada que demanda ao aeroporto de Ezeiza. A propalada autoestima elevada que o argentino diz ter pode não ser tão verdadeira. Citando Ortega Y Gasset é lícito dizer que “há uma permanente dissociação entre a imagem que têm de si mesmo e a realidade”. Esse fato se verifica no próprio jeito de falar dos argentinos. Quase sempre, iniciam com a palavra não(no) quando querem dizer sim. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/10/2007. - [O ROLEX DO HUCK - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-rolex-do-huck-diario-do-nordeste/): Muitas pessoas precisam do que se chama de validação. É quando o olho do outro sobre nós dá um “plus” na nossa autoestima ou no que achamos sobre nós mesmos. Relógios, carros, barcos, aviões, casas, roupas, joias e acessórios são sinais que definem ou mascaram uma pessoa. Assim é que soldados usam fardas, sacerdotes celebram paramentados, noivos se engalanam para as bodas etc. Assim é o mundo, desde sempre. O rolex do apresentador de televisão Luciano Huck, roubado em assalto recente em São Paulo, é símbolo ou referência visual do “status” adquirido com o dinheiro ganho de forma legítima, mesmo que à custa de espectadores de gosto discutível. A maioria das pessoas acha essas exibições desnecessárias e que agridem os pobres e os sem perspectivas. Outras, hedonistas, precisam que seus carros, sapatos, roupas, acessórios, visuais gritem por elas, dizendo: vejam que eu não sou igual a vocês, eu posso, eu quero, eu tenho. Em um país rico-pobre ou pobre-rico como é o Brasil, dependendo do ângulo em que o vemos, onde há uma estridente injustiça social e concentração de renda é difícil encontrar um ponto de equilíbrio que agrade os que frequentam a alta sociedade e os que, ávidos, ouvem programas policiais ou leem colunas de fofocas para saber das desgraças que acontecem com os mais famosos ou ricos. O que quase não foi dito nessa história é que Huck não prestou queixa. E não o fez por não acreditar na Polícia, a instituição paga por pobres e ricos para nos proteger, mas que, segundo as pesquisas de opinião, não protege ninguém, nem ela própria. Um policial paulista, Roger Francini, afirmou saber onde o rolex do Huck poderia ser encontrado “e que não iria atrás por ganhar míseros R$ 568,29”. É por esta e outras que ter empresa de segurança é um grande negócio. Mas, todos sabem, vigilantes, guarda-costas e transportadores de valores são pessoas de baixa renda. Um paradoxo, pois são obrigados a arriscar suas vidas para defender indivíduos - e bens -que, quase sempre, odeiam, negam ou invejam por estarem em escala social diferenciada e os tratar, via de regra, com indiferença. Isso é problema. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/10/2007. - [JORGE TUFIC, FORTALEZENSE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/jorge-tufic-fortalezense-jornal-o-estado/): Se tudo ocorrer como esperamos, Jorge Tufic, grande poeta, tão amplo quanto o Acre e o Amazonas reunidos, Estados onde, no primeiro, perdeu o umbigo e, no segundo, adquiriu sabenças e postou-se como profissional capaz de ter vida longa e equilibrada, receberá nesta sexta-feira a comprovação efetiva da benquerença recíproca que, unilateralmente, destinava com seu passionalismo árabe à Fortaleza, esta cidade-mulher, meio volúvel e instável em seus humores. Afinal, depois de tanto assédio, ela se rende aos afagos ilimitados que, por anos, lhe fez Jorge Tufic, cofiando seus vastos bigodes. E tomo dele, emprestados, versos de seu poema Vênus para mostrar, pintado, o corpo de delito de sua paixão por Fortaleza: “Dá-me, Apeles, o sangue dos teus dedos e as cores deste mar, espuma ardente em que Vênus ressoa e se reparte entre deusas e bichos, céus e terras, para que a louve, prostituta imensa feita de orgasmo e sol”. Sim, é linguagem de amante não correspondido. Aqui nesta terra ele assentou sua oca, deixando a glória pública, a consagração e o afeto dos muitos amigos e admiradores do Estado do Acre, um prolongamento da força cearense fincada ao norte por Plácido de Castro. Deixou, igualmente, de frequentar academias, saraus e as páginas da imprensa amazônica que lhe devota respeito e admiração. Veio para a adusteza do Ceará, acalentado pelos ventos e os mares que o embeveceram e o tornaram, se possível, maior poeta do que já era. E o fez por Destino, título de um dos seus poemas em que diz: “Um tear e uma aranha ponteiam meu destino. Quando o tear se esgota a aranha pega o fio e sobe.” O tear do norte se esgotou e ele se enredou nos fios da aranha-fortaleza e com ela subiu, mais ainda. Se tudo correr como esperamos, Jorge Tufic, este homem que fez o sol de Fortaleza mais brilhante com o esplendor do seu saber poético, esparramado em versos consagrados, aquilatados e premiados, neste dia de hoje, 19 de outubro, será Cidadão fortalezense. Cidadão do sagrado mundo dos que deliram em versos, não os frutos da consciência, mas os do saber-sentimento denso que responde a inquietações de sua profundeza existencial. Receberá esse título das mãos de um vereador-médico, acostumado a suturas, reduções e ajustes nos esqueletos humanos, mas que sabe das letras e volta sempre os olhos para as almas dos que mourejam palavras. Machado Neto, Machadinho, entregará um sândalo sob a forma de pergaminho perfumado com os olores de sua amada Fortaleza. E esse pergaminho de cidadania da terra de Alencar terá, em contraponto, um ganho verdadeiro. Em troca, a cidade perderá um amásio e ganhará um filho ilustre que, quem sabe, imortalizará em versos essa sua nova condição humana. E, tenho certeza, mesmo que não verbalize em seu agradecimento de poeta e fortalezense o amor agora correspondido, Jorge Tufic, tímido e contente, diria, com versos seus já escritos em Restinga’s Bar: “Sou frágil, meu bem, que nada pode separar-me de ti. Teu nome é um sonho que navega em meu sonho.” João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/10/2007. - [TAM-CHÁ DE AEROPORTO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tam-cha-de-aeroporto/): Saio de São Paulo pela Marginal Pinheiros em direção a Guarulhos. Vejo a beleza dos novos prédios ser contraposta com a rudeza dos casebres de zinco, madeira, papelão e alvenaria que assomam em quaisquer espaços sob viadutos e praças. O dia está no zênite e o caminho se faz lento. O progresso fez mais carros que estradas e já é comecinho da tarde quando, à direita, se espraia o aeroporto, batizado Mário Covas. Desço, consigo um carrinho e vou com a mala em direção ao despacho da Tam. Fila maior que a paciência. Que jeito! Meia hora depois, sou atendido. O bilhete e a bagagem estão certos. Pergunto se o avião está no horário. Claro, a Tam assegura. Olho o relógio, duas da tarde. Vejo conhecidos, troco dedos de prosa e vou ler Marina Colasanti. O avião deve sair às três. Estou na sala de embarque junto com colegas eventuais de voo. O auto-falante agora diz que o vôo vai atrasar um pouco. Pergunto o que significa um pouco. Não sabem. Já são cinco da tarde e nada de embarque. Pessoas abarrotam o balcão à procura de explicações que não são dadas. O ar fica pesado e começam reclamações. Outro aviso ao alto-falante: o voo sairá às sete. Já é uma esperança. Vou dar uma voltinha e como um brioche requentado, pois não há outra opção. São 18:40h e nada do aviso de embarque. Alguém respeitável pede explicações e o Assistente de Aeroporto da Tam só tem desculpas polidas. Sete horas da noite e estou com os pés doídos de tanto pisar e repisar na sala de embarque. Afinal, às oito, sai uma certeza: o voo foi cancelado. Pedem para nos encaminharmos a outro piso a fim de definir o que faremos. Tomo o elevador e encontro uma nova e tamanha fila. Uma jovem supervisora diz que a “Tam estará disponibilizando hotel e ônibus”. Lá vem gerúndio e besteirol treinado. Canso de tudo, vou atrás da mala, tomo um táxi, dirijo-me a um hotel. Faço o check-in, peço um drinque, janto e tento dormir, longe de onde esperava chegar, desde que acordei, e já é meia noite. Telefono para a Marta Suplicy e ela saiu. Então, não há como relaxar e gozar. Ela me paga. Ligo o som: ouço Jobim, desligo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/10/2007. - [EU, CRIANÇA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/eu-crianca-jornal-o-estado/): Neste 12 de outubro, Dia da Criança, também data da descoberta da América por Cristóvão Colombo, deixo uma colher mental dar uma mexida na panela onde foi cozinhada a minha infância e traga de lá memórias doces, como as cocadas feitas pela Ica que, de tão duras, passavam a quebra-queixo. E lembro que, por indicação da tia e professora Júlia Caminha, fui matriculado em uma escola americana, experimental, que me deu as primeiras luzes do mundo da escrita e da leitura. Depois, de armas e bagagens fui para o Farias Brito e lá cumpri todo o então chamado curso de humanidades. Gastava o tempo fazendo, por solicitação dos professores de Português Sildácio Matos e Fausto de Albuquerque, composições, dissertações e redações, tudo a partir de sugestões ou imagens mostradas em cartolinas. Sem falar nas aulas de Música e Canto Orfeônico com o prof. Pamplona que até metrônomo usava. Recordo das aulas de inglês do Ivan César, que torcia Fortaleza, e as de Ciências com o prof. Ailton Lóssio, pai do colega de sala, Júlio Jorge. Morávamos na Rua Major Facundo, a missa era ao lado na Igreja do Carmo e para se ir ao cinema bastava andar quatro quadras e lá estavam os cines Diogo, Moderno, Majestic, Samburá e Art. E, um pouco mais tarde, o São Luiz. Estudava-se Francês no Franco-Brasileiro, a dois passos e Inglês no IBEU, logo ali na Rua Sólon Pinheiro, ao lado do Parque da Criança, onde se montavam quermesses, rodas-gigantes, tira-teimas e se comiam rolete de cana e pipoca nos barquinhos-pedalinhos do lago. Tudo era simples e perto, andava-se sem medo com os vizinhos, amigos e conhecidos. Para se ir ao Teatro José de Alencar, bastava dobrar na Duque de Caxias e pegar a General Sampaio, nada mais que dez minutos, ainda tendo a curiosidade de olhar a Oficina do Abdon, que consertava baterias de veículos e tinha um grande par de chifres na entrada. E por falar em Abdon, existia outra oficina, esta na rua Meton de Alencar, do Dr. Batérico que, apesar do nome, consertava velocímetros, tocava piano e era um grande mitômano, sendo inclusive chamado para contar suas estórias na Ceará Rádio Clube. O Farias Brito, que era um só, ficava na esquina da Major Facundo com a avenida Duque de Caxias, a então “beira-mar” da cidade, pois lá aconteciam comícios políticos, desfiles militares de Sete de setembro, carnaval de rua com blocos, escolas de samba, maracatus e o “corso” dos automóveis e caminhões que vinham desde a avenida Dom Manuel. Um dia, descobri que esse desfile do passado havia desaparecido e vi nas ruas de hoje, mulheres, homens e meninos arrastando seus medos entre nuvens de desalento, mas a criança que inda existe em mim, no entanto, lembra das pitangas nas cercas vivas da Praça do Carmo, dos canários e sabiás que meu pai alimentava no corredor aberto de nossa casa e encontra sentido na esperança. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/10/2007. - [YOGA E VIDA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/yoga-e-vida-jornal-o-estado/): Tenho boas lembranças dos anos em que pratiquei Yoga. Bom tempo, aquele. Como esquecer o jeito suave da mestra Josina Borges aos nos comandar com alegria, música e energia? Como não lembrar a expressão do rosto da profa. Neusa Veríssimo ao reunir a turma para festejos com apetitosos pães de queijo? Por outro lado, descobrir, fora das aulas, o jeito silencioso de Vedi e o quântico e fecundo Harbans Lal Arora foi uma dádiva. Hoje, mais do que ontem, Harbans se dedica a minimizar dores do corpo e da alma de doentes terminais. Isso é atitude de paz. A Yoga, para quem não sabe, é praticada no Brasil como uma espécie de exercício físico(ásanas), técnica de respiração(pránáyama) e até meditação, tudo de forma lenta e moderada em que não se usa a força, ao contrário do que fazem os frequentadores das academias de ginástica. A Yoga leva à meditação, a um voltar-se para o espírito e dar um tempo na luta desenfreada pela vida. O certo é que se obtém, após se mexer com todos os músculos do corpo em exercícios lentos e repetidos, um relaxamento que, muitas vezes, leva à meditação. Essa pausa, sempre aos finais de cada aula, é aparentemente piegas, mas fortalece o nosso espírito conturbado pelas exigências do mundo inseguro em que vivemos. Ainda faço parte da ACEPY - Associação Cearense de Estudos e Pesquisas de Yoga e, todos os anos, compareço ao Sati-Sanga, uma espécie de festa à época do Natal em que se levam oferendas e todos confraternizam, descalços e desarmados de prevenções. Hoje, quando a Yoga virou moda entre algumas pessoas famosas, há gente que “corre” para a solução de suas vidas na prática yogue e se decepciona com a cadência desacelerada em que corpo e mente são levados. Há, na verdade, práticas diversas de yoga, uma delas chamada até de “power yoga”, mas o que parece ser a essência dessa quase-filosofia existencial é a Hata Yoga, a clássica. Para alegria nossa, no próximo mês de outubro, aqui em Fortaleza, entre os dias 11 e 14 deste outubro, será realizado o XIII Congresso Nacional de Yoga, uma rara oportunidade para quem desejar conhecer e sentir a teoria e essa prática indiana que atravessa cinco milênios e dá a seus praticantes mais saúde, bem estar e a possibilidade de integração do corpo e mente. Vindo de muitos países, estarão aqui, professores, mestres e até religiosos que, sem cismas, se misturarão aos congressistas na busca de um ideal de harmonia que anda em falta neste mundo. (esta crônica é dedicada a todos os atuais e futuros praticantes de Yoga) João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/10/2007. - [SENADOR REVELA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/senador-revela-diario-do-nordeste/): “Pouca gente se torna senador por acaso; no mínimo isso requer certa megalomania, a crença de que, entre todas as pessoas talentosas de seu Estado, você, de alguma forma, está mais bem qualificado para representa-las; e é preciso crer que você está disposto a encarar o processo às vezes animador, às vezes angustiante, mas sempre levemente ridículo ao qual damos o nome de campanha. A maioria dos outros pecados dos políticos deriva desse pecado maior – a necessidade de vencer, que também é a necessidade de não perder. Certamente é disso que trata a busca pelo dinheiro de campanha. Houve uma época, antes das leis de financiamento de campanha e de jornalistas intrometidos, em que o dinheiro moldava a política pelos subornos; em que um político podia tratar o fundo de campanha como sua conta bancária particular e aceitar viagens nababescas custeadas com dinheiro público. Se é possível confiar na precisão das matérias jornalísticas recentes, essas formas grosseiras de corrupção não foram totalmente erradicadas”. O dinheiro é incapaz de garantir a vitória – não pode comprar carisma, paixão, nem a capacidade contar uma história. Mas sem dinheiro, e as propagandas de televisão o consomem, a pessoa está basicamente fadada a perder. Há ainda outras forças que interferem no trabalho de senador. Por maior que seja a importância do dinheiro nas campanhas, não é somente a captação de fundos que coloca um candidato lá em cima. Seja como for, a abordagem dos grupos de interesse aos candidatos nem sempre é romântica. Para manter a participação ativa de seus membros e o fluxo de doações recebidas – e para serem ouvidos – os grupos que possuem algum impacto na política não estão interessados em promover o interesse público.” As longas declarações aspeadas acima são de um senador. Pasmem, não é brasileiro. É de candidato a candidato atual à Presidente dos Estados Unidos da América. Falo de Barack Obama e tudo tirei do seu livro “A Audácia da Esperança”. Lá, como cá, há mais audácia que esperança. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/10/2007. - [ESTRESSADOS EM AÇÃO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/estressados-em-acao-jornal-o-estado/): Todas as manhãs a Beira Mar recebe milhares de .A maioria na expectativa e melhorar a qualidade de vida, perder quilos ou centímetros na cintura. E outros, sabe Deus o que procuram. É um longo percurso que, para uns, se inicia na calçada do Edifício Lido, na praia de Iracema, e termina ao lado do mercado dos Peixes, no final da Beira Mar. A maioria vai do Ideal ao Iate, anda ou corre em grupos, seguindo critérios os mais diversos: idade, sexo, afinidades pessoais, esportes praticados e tempos computados, times que torcem e amizades aquecidas pelo sol da fraternidade entre profissionais dos mais diferentes matizes e tempos de vida. Os mais estressados começam a andar cedo. Alguns trazem o sol em seus pisares e o vão soltando bem devagar, até que o dia presenteia a todos com a luz e a energia necessários a mover pernas já não tão jovens e cinturas a ultrapassar os 94 centímetros, a medida que a Organização Mundial de Saúde toma como limite inferior para chamar alguém de obeso. Sabendo de tudo isso, faz alguns anos que um grupo se formou e cada um dos integrantes assumiu o estresse que leva dentro de si por diferentes razões. Esse “Grupo dos Stressados” nasceu da necessidade da convivência humana e, pouco a pouco, admitiu realizar sonhos. Hoje, o grupo agrega centenas. Muitos usam todos os dias camisetas padronizadas de empresas que contribuem com um salário mínimo mensal. Esses valores são utilizados em ações de congraçamento, manutenção do espaço - que acaba de ser totalmente reformado com doações, muitas anônimas - e em práticas filantrópicas junto a entidades como a Santa Casa, Abrigo de Idosos do Olavo Bilac, Casa do Sol Nascente, Curumins do Mucuripe, Iprede e Lar Torres de Melo. Dessa forma, os seus ciosos dirigentes Cláudia, Pedro Wilson, Jocenice e Genésio vão cumprindo tarefas sociais e cuidando com esmero de um espaço público que recebe, de forma diferenciada, a atenção do grupo – com personalidade jurídica definida- e estabeleceu, de forma aberta, parcerias com a Prefeitura de Fortaleza e o Corpo de Bombeiros. Eles vivem celebrando, criando, projetando, reformando, embelezando e mantendo essa área agradável de convivência, sombreada e ajardinada que conta com a prestação diária de serviço gratuito de aferição da pressão arterial para qualquer pessoa, independente de pertencer ou não ao grupo. Esse grupo, de tão forte, experimentou dissidência e isso acontece desde que o mundo é mundo. Essa dissensão é saudável, pois emula e diverte os que não veem razão para tanto. O fato é que a ‘Praça dos Stressados’, a base física do grupo, está bonita, com uma grande logomarca circular em pedra portuguesa, abraçada por pequenos bancos de madeira envernizada, canteiros com plantas viçosas e a atenção total da Cláudia Gondim -e sua turma - que dela cuida, atenção de mãe primípara. Enquanto isso, nós, os outros, pisamos em folhas e galhas de castanholeiras, tropeçamos em declives e aclives, desviamos de bicicletas e ambulantes, dividindo instantes de vida, suando e escrevendo sinfonias mambembes com os nossos pés. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/10/2007. - [LER POR PRAZER - DIÁRIO DO NORDESTE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ler-por-prazer-diario-do-nordeste/): É bom que você goste de ler. Não são muitas as pessoas que compram jornais e revistas. Entre os que compram, há os que se interessam apenas por colunas sociais, política, esportes, diversões, policia etc. Raro é o que lê de ponta-a-ponta. Livro então... Se você chegou até aqui, há indícios de que gosta de ler. O problema das pessoas que não gostam de ler é que possam ter sido mal orientadas na alfabetização e primeiros anos escolares. Rousseau já dizia que “a criança não deseja aperfeiçoar-se no instrumento com o qual é atormentada”. Isso vale tanto para Matemática como Português. Daniel Pennac é um escritor marroquino, que vive na França. Ele diz da necessidade de interessar crianças e adolescentes na leitura. Se preciso, até desligando a TV. Não importa que tipos de livros sejam, o importante é ler. Ele sugere que pais e professores devem ler em voz alta, a fim de educar os ouvidos das crianças com livros de fácil assimilação e que os empolgue. Está provado que a maioria das pessoas pouco retém do que lê. Sabendo disso, Pennac estabelece uma série de direitos do leitor. O primeiro é o de não ler. A leitura deve ser prazer e não tortura. O segundo é o de pular páginas. O terceiro é o de não parar a leitura de um livro chato. O quarto é que a leitura deve provocar alegria ou prazer. Para ele, os romances contam uma história que o leitor não tem obrigação de entender. Talvez você não tenha feito as contas, mas se ler cinco horas por semana, em um ano poderá ter lido 7200 páginas ou o equivalente a 40 livros de 180 páginas. Algumas pessoas, ao serem perguntadas por seus “hobbies”, incluem a leitura. Na maioria das vezes, não sabem o nome do último livro que leram, e o nome do autor. Ler é hábito e não deve servir apenas para impressionar alguém. A leitura é uma viagem curta ou profunda que cada um deve se permitir, na medida da satisfação do seu mundo interior. Dimas Macêdo, diz: “cada livro, por sua vez, corresponde a um projeto de mundo, o qual se insere num universo mais abrangente e diversificado, que somente a poucos é dado o prazer de conhecer”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/09/2007. - [VÁ E VOLTE - JORNAL O ESTADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/va-e-volte-jornal-o-estado/): Faz tempo, muito tempo que somos amigos. Ele, mais velho, quieto ou aquietado, era estudante responsável e socialista-universitário, essa categoria natural entre os que pensavam um pouco mais que a maioria. De repente, somos colegas de turma. Eu, agitado, fazendo duas faculdades ao mesmo tempo, também mexendo com política universitária e escrevendo em jornal. E não é que saímos da mera e circunstancial categoria de colega para a de amigo e parceiro de tantas lutas, trabalhos de natureza diversa e quase sempre ‘para ontem’. E ele me convocou para ser seu padrinho de casamento e aceitei com alegria. Comprei o presente possível a um estudante e aguardei a data. Pois não é que fiz um concurso, ganhei uma bolsa de estudo irrecusável e tive que viajar dias antes das bodas. Nessa época não havia Internet, tampouco celular e a comunicação internacional era difícil, ruim e cara. Mas, no dia e hora, lembrei que meu amigo estava casando com a única mulher que creio ter amado. Marido responsável, bancário concursado, administrador capaz, lá se foi ele singrando os caminhos da vida até que dois filhos, sãos e bonitos, nasceram e o enterneceram, mais ainda, para todo o sempre. E eu, anos após, já formado e “em começo de vida” resolvi casar e ele foi o primeiro padrinho convidado. E assim foi feito. Agora, esse meu amigo que, de forma paralela, contínua e amistosa, sempre co-participou de minhas lutas profissionais e teve participação decisiva como moderador de meus devaneios exagerados, resolve eleger prioridades pessoais e as cumpre com a discrição de monge e o prazer do menino peralta que nunca deve ter sido. E eis que ele atinge a idade, com tempo livre e saudável para convidar amigos e comemorar seu aniversário a bordo de um Catamarã, esse barco tão frágil nos mares revoltos, que os intimados ficaram cabreiros e desistiram. Tudo bem, ele disse, fiquem por aqui que me vou à Europa, rever o que já vi e caminhar passos novos em direção ao que ainda não conheço. E o fez sem vanglória, mas ao saber-se capaz de uma auto premiação por ter plantado em toda sua vida vínculos de responsabilidade, afeto e benquerença que só conhecem os amigos duradouros e leais. Vá amigo Josino e leve a Creuza, sua parceira de vida, divirta-se e traga para mim um presente de volta: a certeza de que você está por perto. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/09/2007. - [AMIGOS NA TARDE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/amigos-na-tarde-diario-do-nordeste/): Uma dúzia de mini-louras são o bouquet que entrego ao Airton, sempre esnobando os tintos estrangeirados, oferecidos com prodigalidade pelos cobres não poupados dos Cavianele. Chego. Abraço a todos e vejo que a mesa está posta com esmero para o repasto tardio por quem faz do receber um aceno fraterno à benquerença e ao encontro de almas, eventualmente irmãs. Lá abaixo o mar orvalha as pedras e o sol não está forte, como a se espreguiçar entre nimbos que embranquecem o firmamento azul. Um barco perdido vai na direção do seu trapiche, deixando o caís para os mais fortes, os de cascos de aço com limo coberto e que vagam pelo mundo. Chistes, troças, leitura extemporânea de uma crônica para mexer com o Airton e o telefone toca. Era a descendência, trocando afagos. O aroma dos condimentos vem da cozinha, mas tenho que sair. Que pena, agora que os decibéis etílicos dos amigos estão no ponto do Totonho perpetuá-los em aquarela e o Levy ficar ruminando o seu quipá imaginário, para contar os gastos da casa que poderiam ser amealhados para um futuro que não se sabe existir, pois quando vem já é presente. E renovo o meu olhar para o oceano e miro o edifício onde mora uma filha querida. Descubro-me em dívida com o ir e vir das ondas, empurradas pela energia superior que a física não consegue explicar, em teorias ou fórmulas. Do lado direito, ouço o trinar de um pássaro aprisionado, mas livre, incomodado com a zoada que fazemos, enquanto os cristais à mesa aguardam a conspurcação dos tintos. Chamo o elevador, esta máquina que, por seus espelhos, transforma em vizinhos os que se querem isolados. E todos fingem fazer alguma coisa para não aprofundar conversas, quiçá sentimentos. E o chão aparece. Ligo o carro e sinto-me só na estreita rua deserta. Utilizo a metáfora da paz na rua que tomo à direita e vejo enfileirados uma miríade de prédios, guardiões de segredos, dores, alegrias e amores. É meio da tarde e o acelerador do carro trasmuta-me no pai que sou, mesmo que queira, vez por outra, bancar o menino levado que nunca fui com maestria. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/09/2007. - [EDUARDO CAMPOS, HOMEM MÚLTIPLO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/eduardo-campos-homem-multiplo/): Estávamos nos anos sessenta. Eu era estudante universitário e escrevia a coluna diária “Informes Acadêmicos” no jornal Correio do Ceará, dos Diários Associados, substituindo, definitivamente, Pedro Henrique Saraiva Leão, que fora estudar no exterior. Tempos depois, tive a ideia de escrever sobre administração e negócios. Procurei o Superintendente Eduardo Campos e falei do projeto de uma coluna diária abordando esse assunto totalmente novo e vário. Do seu jeito direto, voz tonitruante e decidida, ouviu, discutiu e aprovou a ideia. Passei a ter salário fixo e a coluna foi em frente. Esta foi a forma de dizer que a minha admiração por Eduardo Campos vem de longe. Mesmo não privando de contato diário com ele, sempre que nos víamos havia uma boa troca de energia, por sua aura sem sombras. Certa vez, visitamos juntos a sua fábrica de liofilização de banana, lá pelo Mondubim. E jogamos conversa fora sobre como é difícil ser dono de qualquer coisa no Ceará. Ele sabia. Os tempos passaram e eu tentei fazer algo diferente em educação, na então Av. Estados Unidos. Adivinhem quem era o vizinho da esquerda? Eduardo Campos, dirigindo a Ceará Rádio Clube, em sua nova fase. Visitei-o e participei que estava ao lado para o que o desse e viesse. É claro que sempre falávamos nos acontecimentos culturais desta cidade de tantos escritores e poetas, mas de poucos leitores dos livros que compram- e não leem - nos saraus de seus lançamentos. Ele era sempre efusivo, guapo, olhar penetrante e jeito de quem sabe dizer o que quer. Eduardo Campos não deixou que o menino de Pacatuba morresse dentre dele e esse menino, órfão de pai aos quatro anos, sabia que seu destino era maior que o distrito de Guaiúba, onde nascera. Fortaleza o adotou e abrigou desde os seus nove anos e ele foi crescendo de mãos dadas com a cidade e se tornou homem valoroso e múltiplo. Radialista, jornalista, intelectual, administrador do então mais forte condomínio de empresas jornalísticas do Brasil e industrial. E esse mesmo Eduardo Campos foi o civil cearense de maior prestígio e trânsito durante os governos militares, mas isso nunca invalidou as suas relações de amizade e respeito com pessoas de esquerda. No seu velório, entre outros, estavam pranteando-o, Manuel Raposo, Barros Pinho e José Júlio Cavalcante, então referências socialistas. Tive a felicidade de estar em sua festa de oitenta anos e vi o carinho e aprumo da família em homenageá-lo ao lado de tantos colaboradores, amigos e colegas das muitas instituições das quais fazia parte. Uma noite de amor, brilho e descontração. Incansável, foi no curso de uma palestra no Dragão do Mar que um acidente vascular cerebral o levou ao hospital e, por consequência, à morte. Hoje, exato nesta sexta feira, 21 de setembro de 2007, Eduardo Campos inauguraria o Museu do Instituto do Ceará, entidade que renovara e presidia. O menino que chegou em 1923, acaba de partir. A vida é ida e volta. E todos sabem que era um homem sempre a frente da sua quadra, fundando e cumprindo roteiros profissionais e singrando sonhos pessoais. Ao final, pedindo que não julguem intromissão, sugiro que os membros do Instituto do Ceará deem o seu nome ao Museu que ele construiu e deixou pronto, não consentindo que as quimeras dos que semearam em objetos e livros a história, a historiografia, a antropologia e a geografia do Ceará e do Brasil, se transformem em mosaicos engastados em prateleiras fechadas, mas riquezas expostas para conhecimento de muitos que, doravante, possam e devam visitar o Museu Eduardo Campos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/09/2007. - [SETEMBRO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/setembro-diario-do-nordeste/): Passeio os olhos pelo calendário e vejo datas neste setembro. Desde 2001 o dia 11 passou a ser aziago, segundo alguns, como se infortúnios fossem culpados pelos desatinos dos homens, religiões e nações. O 11 é igual a todos os dias. Pouco antes dele, o da Independência, que já se foi e pode ainda não ter chegado. No dia 13, uma irmã querida, lutadora e vencedora, comemorou seu aniversário e a chegada da primeira neta. Maria Laura é filha de médicos e nasceu agora em Manaus, onde o pai foi cumprir missão e ficou, não colhendo borracha, como o faziam os antepassados que para lá iam fugindo de nossas calamidades. Foi com estetoscópio para auscultar corpos e almas. E a jovem mulher seguiu-lhe os passos e mergulhou na arte de curar. Os dois, neófitos na paternidade, sofrem como pacientes, o que prova o efêmero de tudo, e se alegram com a Maria, palavra que vem da língua hebraica e significa senhora soberana, com serenidade, força vital e vontade de viver. Maria também é Laura, derivada do Latim e diz de coroa de folhas de louro. Assim, Maria Laura, una, vem com energia e virtual coroa a encimar sua cabeça. Bem-vinda. Depois, já quando Virgem se despede e resplandece o equilíbrio da Balança, comemoro o nascimento, no mesmo dia - por uma dessas coincidências da sorte - de duas filhas muito amadas. Tanto que não fazem ideia quanto. E como viver é também colecionar recordações, lembro de suas chegadas ao mundo, os primeiros dias na pré-escola, as muitas viagens em que traspassamos estradas desconhecidas e vislumbramos sonhos. E lembro bem de todas as beiras das tardes em que as via na minha volta para casa. Hoje, estão no desabrolhar da vida, com âncoras fundeadas no meu coração. E, ao vê-las, meus olhos sorriem de tal forma expressa que não entendo como todos não percebem. Por fim, como nada é perfeito, virá o fim do mês e a lembrança de que o dia 30 foi e será sempre o dia de olhar nos espelhos do sentimento a imagem consolidada da amiga que partiu e está, pois fincou sensações de entranhamento que inundam o céu de esperanças, mesmo em meio à zelação que a vida impôs. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/09/2007. - [O TEMPO DOS CONSELHOS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-tempo-dos-conselhos-jornal-o-estado/): Não há como esconder. Cheguei ao tempo em que me chamam para conselheiro disso e daquilo. E eu que preciso tanto de conselhos e, pode acreditar, sei ouvi-los, embora faça muxoxos e banque o desinteressado. Banca, apenas isso. Confesso, de público, que a minha autoestima não sofre com o olhar alheio. Pelo contrário, cresce e absorve o que há de verdadeiro e bom nos que fazem das palavras não um açoite, mas um bálsamo. Dizia que esse tempo de ser conselheiro é um tempo novo e nada nele se assemelha ao tempo da amealhação, da luta desmedida entre a dissonância comum entre nós e o resto do mundo e da descoberta que a vida tem outros sentidos e significados. Nesta estrada tomada na hora crepuscular, não faz mais morada muita coisa outrora julgada importante e não o era. A vida não vem em ondas, como diz a música, a vida é seca, cheia, minguante, dilúvio, deserto e floresta. É remanso sem ondas, mas são também ondas sem remanso. Mas ela não vem, sempre vai e se metamorfoseia naquilo que plantamos, atitudes e vozes ansiosas ou acalmadas. A escolha é sempre nossa, embora imaginemos que alguém possa puxar os cordéis e nos tornar marionetes. Pode não! E você sabe disso. Talvez incomode dar o chute na mesmice e destravar o infinito que mora em sua alma. Mas comecei falando do tempo de ser conselheiro. Bobagem. Afinal, o aprendizado de ontem é História e o hoje se faz com a diferença e nunca com a mesmice. Há sempre um porto à espera, mas somos naus em busca de mares abertos da esperança e de piscosos cardumes de sentimentos. Vale não, dizer-se conselheiro é como cimentar a mudança e ficar postado, com a diferença que nenhum carteiro virá abrir a caixa de correspondência de suas emoções. Você, ó cara pálida, é que tem de descer desse muro feito com o medo e a indiferença e pisar no solo arenoso do perigoso e instigante ato de viver. Importa não que o Zé diga isso, a Maria reclame daquilo, a turma o triture. O que vale amigo/amiga é a sua pisada firme, mesmo que os ombros tremam. Desculpe, estou bancando conselheiro e negando o que pretendi afirmar. Contradição, talvez. Mas não pensem que estou certo, a sua verdade está no bolso de sua alma, espírito, aura ou como quiser chamar e não precisa de cirurgia para suturá-la ou extraí-la, ela brota. Só não chamem a mim, pois de conselheiro tenho quase nada. Mas não espalhe, do contrário serei convidado a pedir o boné de tantos conselhos de que faço parte e se isso acontecer, ficarei de cabeça exposta e com ralíssimos cabelos desgrenhados. (dedicada a Fernanda Quinderé e Ubiratan Aguiar, pelas vidas e crepúsculos editados) João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/09/2007. - [ADMINISTRADOR, HOJE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/administrador-hoje-diario-do-nordeste/): Ao findar o curso secundário, meu pai perguntou qual faculdade faria. Eu falei: Administração. Ele disse que não sabia o que era isso e que eu deveria fazer Medicina. Ligou para o amigo Ésio Pinheiro – que tinha um cursinho preparatório – e me matriculou. Só fui a uma semana de aulas e emburrei. Não voltei lá. Eu era teimoso e queria ser independente. Talvez, se meu pai não tivesse decidido tudo, teria concordado, pois gosto de Medicina. Assim é que fiz Administração na turma pioneira do Ceará. Convivi, desde então, com várias designações da carreira. No princípio era Técnico em Administração, depois Bacharel em Administração. Em seguida, mudaram para Administrador, o nome atual. O que vale é o saber e não o nome que se dá ao curso. Hoje há uma consolidação dessa atividade, ciência ou profissão, mas o foco deve ser no aprendizado, no conhecimento e não no título. É apropriado lembrar a história, pois em 1903, Henry Ford fundou nos USA uma fábrica de veículos e introduziu a linha de montagem e a quase automação. Surgiam os fundamentos do fordismo, criticados por C.Chaplin no filme “Tempos Modernos” e por A.Huxley no livro “Admirável Mundo Novo”. Ao mesmo tempo, Frederick Taylor concebia a ideia da racionalização do trabalho e dava embasamento teórico a essa “engenharia social”. Na França, Henri Fayol definia o seu lado conceitual. Agora, nestes tempos informáticos e performáticos, há um número imenso de cursos de administração no Brasil. Sabe-se até que a carreira de Administrador já está quase empatando, em quantidade, com a de Advogado e isso será positivo se a qualidade dos cursos for boa, o que não é a regra. A par disso, explodiu no Brasil uma miríade de cursos de MBA e mestrados que, salvo exceções, não acrescentam muito ao aprendido na graduação e na prática: estudando, fazendo, pesquisando, experenciando e consertando. Hoje é o seu dia e esta é a era do Administrador, profissão do presente e de futuro, sem a qual a sociedade não mais saberia como sobreviver. Entretanto, é bom relembrar que só diploma não vale. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2007. - [A INDEPENDÊNCIA SOMOS NÓS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-independencia-somos-nos-jornal-o-estado/): Hoje é feriado. Dia da Independência do Brasil, este país que é nosso chão, nos dá abrigo e destino. E por ser Sete de Setembro é que me lembro da História e, se penso bem, D. Pedro I fez mais encenação que demonstrou atitude. Não me conformo com o fato de ele ter sido a pessoa que, anos após a Independência, se tornou como D. Pedro IV, mesmo que por alguns dias, Rei de Portugal. Ora, como um país escolhe alguém para Rei se, anos antes, lhe tirara a maior fonte de renda e poder? Tudo era um engodo de monarquia decadente. Sim, o Brasil era mera fonte de renda para Portugal, nada mais que isso. A fuga da Corte Portuguesa de Lisboa, em 1808, com medo da França de Napoleão, trouxe algum desenvolvimento ao Rio de Janeiro, onde assentaram suas malas, tomaram dos donos as melhores casas, abriram pratarias e baús, criaram banco, imprensa e escola. Afinal precisavam de dinheiro, comunicar-se com os súditos e seus filhos e aderentes tinham que estudar. E assim o fizeram em meio ao lixo das ruas que cuidaram de mandar limpar. Passado o perigo napoleônico, seguiram o Atlântico e voltaram para a mesmice de todas as famílias reais, a comida desregrada, as fofocas e o não fazer nada, “pois trabalho é coisa de pobre”. Aqui ficaram os que deveriam mandar dinheiro para lá, para manter a pompa. Até que a República aconteceu. Hoje, 185 anos depois, somos quase 190 milhões de pessoas, das quais 45 milhões ainda precisam do Bolsa Família para ter um mínimo e não morrer de fome. O restante, a tal população economicamente ativa de que falam os economistas, estuda, trabalha, cuida de suas famílias, paga quatro meses e meio de impostos por ano e acredita no Brasil, este país que elegeu e reelegeu, sem preconceito e com alegria, Lula para Presidente. Não, não estamos cansados, estamos fazendo o melhor que podemos, mas temos ainda o grave defeito de esperar milagres. Não há milagres, nós somos os milagres. Cada um de nós, a seu modo, é um herói anônimo e precisa melhorar a sua autoestima, deixar de esperar pelos outros e fazer a sua parte, sem esquecer de que honra e dignidade são flores que não murcham. Não concordo com Lima Barreto quando dizia que ‘o Brasil não tem povo, tem público’. Nós estamos deixando de ser público. Agora, quer queiramos ou não, vamos agir como povo. A independência somos nós. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/09/2007. - [ESCREVA, SEMPRE - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/escreva-sempre-diario-do-nordeste/): Escrevo porque me faz bem. Não escrever é como se faltasse algo em mim. É preciso colocar no papel sentimentos, planos, atitudes, desejos, sonhos, amores, raivas, alegrias e desapontamentos. Dizia Fernando Pessoa que “a literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”. A vida é maior do que apenas trabalhar ou amar, é preciso mais e, para mim, esse mais consiste em viajar, ler, ver filmes e escrever. Não sei se o que escrevo é literatura, mas como diria Pablo Neruda, “escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias.” Este é que é o problema, o meio, o recheio entre a primeira letra maiúscula e o ponto final. E toda pessoa que escreve sempre sabe que precisa ler, acerta e erra, muitas vezes não diz coisa com coisa, mas vale. Jorge Luis Borges, poeta grande que foi ficando cego ao longo da vida, falava que “corrigir uma página é fácil, mas escrevê-la, ah, amigo! Isso é difícil”. A escritora Clarice Lispector, brilhante e não tão lida quanto falada, dizia: “eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.” É isso mesmo, escrever vai tornando livre o que estava aprisionado ou não se sabia existir. Pouco a pouco, palavra a palavra, a escrita vai aparecendo e nos surpreende, pois o escrito que sai não é exatamente o que se pensava. Há uma diferença sutil entre o pensamento e a escrita. O pensamento vagueia, a escrita permanece e pode ter desdobramentos, voluntários ou não. Assim é que estou sugerindo a vocês, leitores, que escrevam. Não importa o que, tampouco a forma, se contém erros ou se você terá vergonha de mostrar a alguém. Isso é outra história. O que vale é esconjurar os pensamentos recorrentes, aquilo que o angustia ou alegra, dando-lhe forma e sentido. Bastam uma folha de papel, um lápis ou caneta. Ou um computador com os seus tantos recursos de correção e ajustes. Deixe sair, como se você próprio psicografasse a sua mente. A memória está além do nosso controle consciente. A memória, se escrita, tem vida própria. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/09/2007. - [INSÔNIA E BERGMAN - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/insonia-e-bergman-jornal-o-estado/): ‘Há mais de 20 anos que tenho insônias crônicas, coisa que, em si, não é perigosa, pois é possível vivermos dormindo muito menos do que se dorme. Cinco horas, para mim, são perfeitamente suficientes. Mas o que desgasta é a vulnerabilidade da noite, o que nela se dá enquanto dura: as proporções alteradas de tudo, o repisar de situações vividas, sejam elas estúpidas ou humilhantes, o arrependimento por maldades impensadas ou intencionadas. Amiúde, durante a noite, vêm me fazer companhia bandos de aves negras: a angústia, a fúria, a vergonha, o arrependimento, a neura. E até para a insônia existem rituais: mudar de cama, acender a luz, ouvir música, comer bolachas, beber chocolates ou água mineral. Um comprimido de Valium tomado na hora certa pode ser excelente, como também pode ser desastroso, provocando uma sensação que não raro redunda em ânsias’. O longo trecho acima é uma homenagem e é de autoria do grande diretor de cinema, o sueco lngmar Bergman, recentemente falecido, já beirando os 90 anos. A insônia não o matou. Faço parte do grupo de pessoas que dorme menos de seis horas por noite e somos cerca de 20% da população adulta, ou seja, de cada dez pessoas, 2 dormem menos de 6 horas. Descobri que tal fato parece ser genético. A minha mãe e os meus irmãos dormem pouco. No meu caso, em particular, sou um pássaro madrugador e, mesmo que saia à noite, pela manhã cedo estarei de pé, com todo o gás, pronto para a caminhada e mais um dia de trabalho. Agradeço se ninguém me convidar para nada que ultrapasse a meia-noite. Houve um tempo em que me preocupei muito com essa história de dormir e a quantidade de horas de sono. Hoje já não dou muita bola e me acostumei com o fato de que parece irreversível. Se o seu caso é semelhante, não se preocupe. Você fica com mais tempo para fazer o que gosta. Dormir demais pode ser uma fuga da realidade e um descompasso com a ebulição de um mundo que tem tanta coisa a mostrar. Dormir pouco não tem nada a ver com insônia. Insônia pode ser resultado de ansiedade ou depressão. Quase todo mundo já teve insônia. Ela se manifesta de duas formas: não se não consegue dormir assim que se vai para a cama e fica-se contando carneirinhos ou pensando bobagens. A segunda forma é acordar no meio da noite e não conseguir dormir mais. Descubra, por você mesmo, se dorme pouco ou se é insone. Se você e o seu relógio tiverem estiverem adaptados a dormir pouco, ótimo. Se, ao contrário, o que você tem é insônia, procure descobrir a razão. As nossas noites são a consequência dos nossos dias. Se você tem problemas psicológicos, assuntos pendentes a resolver, bebe muito, alguma doença ou seu estilo de vida é duro, é claro que a qualidade do seu sono não vai ser boa. Um dia desses li uma reportagem com Michel Rimpoche, um jovem brasileiro, apesar do nome, que já é monge. Perguntaram a ele qual a forma de se atingir a paz. Ele respondeu tranquilamente que todo dia você deve fazer uma coisa boa a mais e uma coisa ruim a menos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/08/2007 - [GORBATCHOV E OS COMERCIAIS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/gorbatchov-e-os-comerciais-diario-do-nordeste/): Todos os que acompanharam a Guerra Fria - mesmo vendo o esforço da Mikhail Gorbatchov para reestruturar (perestroika) a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e dar sinais de que havia uma abertura (glasnost), em meio a toda pesada estrutura de poder - não poderiam supor que a queda do Muro de Berlim, em 1989, decretaria, por via de consequência, o fim da URSS. Dois anos depois, desestruturado o Politburo, Gorbatchov caiu em desgraça e teve que resignar no dia de Natal. Começava aí uma nova fase em sua vida, aos 60 anos. Tentava ter visibilidade internacional, participando de grandes fóruns de debate, criando uma fundação e adotando a postura de estadista em disponibilidade, mesmo tendo recebido em 1990 o cobiçado Prêmio Nobel da Paz. Volta então ao cenário mundial com desenvoltura, sem esquecer a amargura de não ter a legitimação do povo soviético que não o festejava como ele gostaria e acreditava merecer. Em 1997, para surpresa de todo o mundo, aceita fazer um comercial para a Pizza Hut, multinacional americana de fast-food, destinando os recursos para o que chamou de “arquivos Perestroika”. Parecia ser a necessidade de continuar na mídia e impactar os que já estavam esquecendo dele. Agora, agosto de 2007, quando completa 76 anos, aceitou fazer um outro comercial. Desta vez, a proposta foi da elegante ‘Louis Vuitton’, mega organização francesa que produz valises de alto luxo, comanda negócios de champagne, moda, perfumaria e lojas. Como da vez anterior, Gorbatchov afirma destinar os recursos desta vez para a Cruz Verde Internacional, sua fundação. No comercial, ele está sentado de terno e cachecol no banco traseiro de uma limusine, tendo ao lado uma valise Louis Vuitton e, como fundo de imagem, o Muro de Berlim, supostamente intacto. A ‘Louis Vuitton’, indagada sobre a razão da publicidade em foco, diz que ela tem “valores essenciais”. Gorbatchov costuma comemorar o seu aniversário com um jantar no restaurante “Napoleão”, em Moscou. Napoleão Bonaparte, como se sabe, foi derrotado na Rússia, pelo inverno, em 1812. Agora, é verão em Moscou. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/08/2007. - [QUEM NÃO ARRISCA... Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/quem-nao-arrisca-jornal-o-estado/): Os livros de autoajuda, religiosos, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas estão na moda. Até quem não lê, não tem fé ou não sabe onde vai dar uma análise, resolve enveredar por um desses caminhos imaginando ser a salvação ou a resposta a seus problemas, reais ou imaginários. Essas pessoas sentem necessidade de transformar suas vidas. Transformar significa mudar, dar nova forma. Não bastam, muitas vezes, uma plástica, lipoescultura, peeling, musculação, roupas novas, troca de amores, companhias ou amizades, mudança de estado civil, trabalho ou lazer. O que realmente conta é o que fica ou muda dentro de você. Não é o espelho que aprova você, você é quem vê o que está refletido nele. Muitos não veem ou não querem enxergar que a resposta está na sua alma, lá dentro, onde só você tem acesso. Por outro lado, é verdade que toda pessoa é um ser em mutação à procura do novo, de encontrar uma forma diferente de pensar as mesmas e repetidas questões e descobrir uma saída. A busca dessa saída pode ser um processo doloroso e longo. Não é um passe de mágica. Partindo da ideia de que, se todo dia você caminha em uma mesma direção, só poderá chegar a um mesmo lugar. Será preciso viver e fazer diferente, necessário ousar e, principalmente, acreditar. Acreditar que a resposta está dentro de você e não nas circunstâncias ou nos circunstantes. É preciso parar para pensar, avaliar e isso causa um profundo estresse e até deprê. Esse estresse ou deprê, se positiva a sua avaliação, trará enriquecimento, pois não se deve perder a capacidade de responder ao momentâneo desconforto físico e mental decorrente de mudanças. Cada pessoa deve ter o mínimo de maturidade para descobrir o óbvio: as situações em que nos envolvemos foram criadas por nós. Não importa se você se acha vítima ou algoz. Vale é a capacidade de transformá-las em fatos positivos. A paz que cada pessoa diz procurar só poderá ser encontrada dentro dela própria. Para obtê-la é preciso remexer fundo em sua história pessoal e usar uma hipotética sonda para auscultar a consciência. Não se pode, entretanto, em processos de ruptura ou transformação, esquecer a realidade, a nossa concreta história e as pessoas nelas envolvidos. Sonhar é bom, mas, infelizmente, sonhos não resolvem problemas reais. É preciso a coragem de admitir que o presente seja o único tempo que temos. O futuro será o produto virtual ou real da nossa postura perante o passado e a visão do presente. Não aceite que as críticas descabidas e os apoios, verdadeiros ou não, possam condicionar o seu vir-a-ser. Não é demais repetir que só a consciência de cada um descobrirá a resposta. Descubra suas forças internas e enfrente, com paciência e ânimo, as dificuldades. Para se respeitar como gente será preciso entender os seus próprios pensamentos, atitudes e sentimentos. Quem não arrisca nada, risca tudo. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/08/2007 - [MENOR E CRIME - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/menor-e-crime-diario-do-nordeste/): Segundo as estatísticas e as ONGs, cerca de 30 mil jovens, entre 12 e 24 anos, são mortos a cada ano no Brasil. O crescimento demográfico do século XX foi desordenado. Graças à posição da Igreja não se permitiu o controle de natalidade. Por falta de ação do Estado e do elevado grau de pobreza, parte significativa da população brasileira, egressa do interior, ocupou favelas e margens de cursos de água das áreas urbanas. A grande maioria da juventude está sem rumo, perspectiva e é presa fácil para ser cooptada por criminosos. Só no Rio, existem 5 mil adolescentes participando do crime organizado. Estas considerações refletem a nossa indignação quando um adolescente mata, a troco de nada, alguém que contraria a sua vontade ao não entregar, de pronto, o carro ou os bens que porta. Um exemplo, entre tantos: esta semana, um professor, ao lado de sua mulher, foram mortos por um grupo de adolescentes que já tinha cometido delitos. Chegava em casa de carro, apenas isso. O Estatuto da Criança e do Adolescente é “coisa de Primeiro Mundo”, dizem alguns. Mas, no Primeiro Mundo, os adolescentes são julgados como adultos. Não criticamos a lei ou sugerimos mudanças, mas cobramos do Estado a sua aplicação na tão falada ressocialização que, na prática, não existe. Não sabemos se a redução da maioridade resolveria, mas sabemos que as famílias precisam ser assistidas, quando seus filhos são recrutados para ingressar na marginalidade. O pai de um dos acusados do crime do professor, disse: “foi difícil para mim, mas assim que soube, fui lá dizer que era meu filho porque acho que ele deve ser detido”. A que ponto, chegamos. Enquanto isso, no Congresso Nacional, corre a ideia de dar estabilidade a 300 mil funcionários que entraram no serviço público sem concurso, fruto do apadrinhamento. Esse caos nacional não é só aéreo, é subterrâneo, pois está nas entranhas de uma ação política nefasta que perdeu o senso do limite e da compostura. Millôr Fernandes lançou um desafio: qual a diferença entre político e ladrão? Uma pessoa respondeu: o político, eu escolho e o ladrão me escolhe. Enfim, existe uma diferença. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/08/2007. - [MARCELO LINHARES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/marcelo-linhares-jornal-o-estado/): Marcelo Caracas Linhares, bancário, advogado, deputado federal por quatro legislaturas, intelectual, historiador e, sobretudo, homem de bem, viajou para o eterno na terça, dia 14. Há muito o seu coração fraquejava. Vi-o, minutos antes da derradeira missa, após cumprimentar sua mulher, Irismar. Ele estava ele. A doença não lhe tirara os traços fidalgos e o jeito sereno de ser. Ano passado, dentro de um projeto ainda em curso, o entrevistei. Conversei com ele, amigos que éramos e colegas da Academia Fortalezense de Letras, e pedi-lhe para responder a 40 perguntas. Ele o fez, gentilmente. Aproveito, partes de suas respostas, e ele mesmo escreverá esta crônica. Paro aqui, agora é ele. “Nos meus oitenta anos nunca imaginei responder perguntas sobre mim mesmo. Lembro-me sempre que a um Lorde inglês indagaram como havia chegado tão rápido àquela posição, eis que só tinha cinquenta anos. A resposta foi: ‘falando muito das coisas, pouco das pessoas e nada sobre mim mesmo’. A minha infância foi vivida em Guaramiranga, sozinho. Daí a influência na minha personalidade ser muito de minha família. Por outro lado, creio ser um pouco autodidata eis que tenho a impressão de haver feito o pior curso de direito de um aluno da Faculdade de Direito do Ceará. Parte dele estava no Crato e parte em Quixadá, vindo a Fortaleza fazer as provas. Deu-me muito trabalho recuperar, com novos estudos, o que deixei de fazer durante o curso. Na época em que entrei no Banco do Brasil, essa era uma das carreiras mais cobiçadas da mocidade de então. Ocorre que fui transferido para o Crato e depois para Quixadá. Mesmo assim, não me arrependo de haver nele ingressado. Fui aposentado, na última letra da carreira de advogado. Na realidade, fui um felizardo. Não sei o que teria sido de mim sem a âncora que encontrei, Irismar. Se você verificar em todos os livros que escrevi – e são oito até agora – sem contar com aqueles de menos de 50 páginas que não se mantêm em pé, os oferecimentos são a ela. Nos momentos de maiores dificuldades, inclusive na vida política, foi ela que me ajudou a delas sair. Deus foi pródigo comigo pondo-a no meu caminho. Logo que nos casamos, filhos era uma meta. Depois, com o passar dos tempos, fomos vendo – Irismar e eu – os dramas que muitos amigos passavam com os seus descendentes. Hoje vemos que Deus, mais uma vez, nos abençoou. Fora o meu casamento, a coisa melhor que fiz na vida foi ser deputado federal. Preciso dizer nunca haver sido derrotado. Cada eleição obtinha mais votos que a anterior. Só a fé nos conduz no reto cumprimento do dever. Nunca duvidei, graças a Deus, e minha fé continua inabalável”. Marcelo. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/08/2007. - [A ÚLTIMA LIÇÃO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-ultima-licao-diario-do-nordeste/): Meu pai, infelizmente, já morreu. Era um homem simples, inteligente, cara de duro, mas pleno de ingenuidade. Era charmoso, atraente mesmo e nunca posou de santo. Casou cedo, trabalhou, viveu plenamente, criou nove filhos, todos independentes, nível superior de instrução e cidadãos do mundo. Morreu aos 70, de infarto, fim de tarde, no jardim de sua casa, ao lado de minha mãe. De repente, tento saber se fui seu amigo, se conversei com ele o desejado e se não fui egoísta. Só ele poderia responder. Sei que, após aposentado, veio ter comigo e me ajudava, dizendo não entender porque eu trabalhava tanto, se da vida nada se levava. Repetia isso, sempre. E isso calou em mim. Nunca falei para ninguém, mas resolvi, passo a passo, diminuir o ritmo de trabalho e deixei de pensar em ser mais ou ter mais. Diminuí, faz muito tempo, só não pude parar, pois a dinâmica da vida nos impõe ação. Desacelerei. Passei a fazer coisas prazerosas, menos chatas, ver os netos, aceitar meus erros e ter mais tempo para o que sempre gostei: viajar, conversar, ler, escrever e fazer pouco, mas diferente, com responsabilidade. Agrupei-me com dessemelhantes e dispensei o aparato burguês de viver. Tive baixos e altos e vi-me livre, foi duro. Essa liberdade não se transformou em ócio, mas me aprumou no rumo do novo. E, certamente, conheci pessoas erradas, até desonestas, posando de gente boa. Farsantes. Também conheci gente séria, simples, valiosa e desprovida de interesses. E penso que essa mudança se deu também por conta das ponderações repetidas do meu pai. Na hora de sua morte, corri para o hospital para onde foi levado, mas ele já não respirava. O médico que o atendeu, pediu gentilmente, ao sair do quarto e me deixar só com ele, que retirasse logo a aliança de seu dedo. Depois, seria impossível. Olhei, perplexo, para o seu semblante acalmado eternamente, segurei sua mão esquerda e tirei a aliança. Relembrei do que ele sempre dizia: “do mundo nada se leva”. Pois é, ele, através de sua mão, me repetia, pela última vez, a lição. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2007. - [REGISTROS DA VIDA - Jornal O estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/registros-da-vida-jornal-o-estado/): Não importam a idade, o sexo, a cor, o que faça e o estado civil, todos vão recebendo registros da vida ao longo dos dias. Todos vão somando alegnas, enganos, tristezas, acertos, dores, solidões, encontros e coisas que tais. De repente, os registros vão povoando o espírito, quando não se transmudam em somatizações tão reais que podem ser auscultadas, sentidas e vistas. Esses registros são mais fortes na medida em que não sabemos o nosso limite, a hora de mudar de rumo, de não entender o outro como projeção dos nossos desejos e aceitar que promessas e juras são frutos de um contexto a se transformar com a lucidez ou a mudança de personagens. Os registros ficam tênues quando entendemos e admitimos que nós temos todas as respostas e que a outra pessoa não é responsável pelos nossos desatinos e a indecisão que machuca, desconforta e imobiliza. Ninguém tem respostas para você, ninguém sabe o tempero que nutre as suas esperanças e a alegoria a embalar os seus sonhos. Basta de procurar explicar-se e de admitir que alguém possa resolver os seus problemas. Mergulhe na água da sabedoria e saia ungido da certeza, da confiança em si mesmo. Na medida em que você confia em si, os outros deixam de ser acessórios e passam a companheiros e o compartilhamento é o somatório do esforço comum e não de frustrações e quimeras. Só temos a capacidade de falar por nós mesmos e as respostas para os dilemas humanos e os nossos registros são singulares, não há receita pronta para isso. A confiança em si é um pressuposto básico para a independência sem a qual não se pode ser livre e quem não é livre não sabe amar. O amor-submissão e o amor-dependência são relações ultrapassadas e neuróticas a reduzir os seus participes a meros marionetes do destino. A eclosão da independência e da liberdade se extravasam no amor próprio, na aceitação de si mesmo sem justificativas ou sentimento de culpa. A sua singularidade é um aviso, um balizamento para respeitar a identidade alheia e o sinal a abrir sua mente em relação ao próximo que nunca será tão próximo que possa fundir¬-se ou confundir-se com você. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/08/2007. - [BREGA BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brega-brasil-diario-do-nordeste/): Vocês sabiam, amigos Airton Monte e Carlos Augusto, amantes de música, que a agência de publicidade F/Nazca Saatchi, contratou agora os serviços do Datafolha para fazer uma pesquisa sobre o gosto musical dos brasileiros? Pesquisaram, do norte ao sul, 2.166 pessoas, maiores de 16 anos, em 135 cidades e chegaram a uma conclusão que parece surpreender a paulicéia, mas que mostra a cara brega do Brasil, esse que chora e ri nas novelas e se esgoela acompanhando músicas de dor de cotovelo e cantores sertanejos. Se você pensou, amiga Eliana, que ia dar Zizi Possi ou Marisa Monte, quebrou a cara. Nada de Betânia, Gil, Gal, Caetano ou Chico, tidos como “cults”. O brasileiro comum parece não gostar de metáforas, só entende letras acessíveis, diretas, rimas claras a mexer com o seu emocional conturbado pelas tragédias, desesperanças e falta de oportunidades. Nenhum dos letristas sofisticados foi, sequer, lembrado. Não é triste, Colares? E a grande campeã não tem nem gravadora. Ela mesma produz os seus discos, ouviram Sílvia, Sônia e Josino? Não está situada no eixo Rio - São Paulo. É do norte do país, da terra do Tacacá e do Caruru, Belém do Pará e é a Banda Calypso. Segundo Eduardo Miranda, produtor do programa Ídolos, a “A Calypso é a verdade do povo brasileiro”. Vocês sabem, Alexa, Cris, Mel e Bruna, quem são Zezé e Chimbinha? São as figuras de proa da Calypso. Depois, em segundo lugar, vem Zezé Di Camargo e Luciano, bem lembrados pelo filme-romance de suas vidas. Bruno e Marrone ficam em terceiro. E Roberto Carlos, meloso e agora plastificado, está em quarto lugar. Depois, aparecem, pela ordem, Daniel, Leonardo, Ivete Sangalo, Calcinha Preta, Amado Batista, Aviões do Forró e Jota Quest. Não, não fiquem tristes, amigos, pois sei de gente que, na intimidade de seus quartos, deixam rodar músicas bregas e posam de ouvidos refinados, dizendo-se admiradores de Milton Nascimento. Não adianta fugir à natureza, à genética produtora desse povo tão singular a desaprovar governos, mas adorando líderes com discursos plenos de emoções. Só cantando somos o que somos. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/08/2007. - [DORIAN OU DORIANUÁRIO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dorian-ou-dorianuario-jornal-o-estado/): Desculpem-me os editores Jocélio Leal e Fábio Campos. Desculpe-me Demócrito Dummar, mas ainda associo o Anuário do Ceará a Dorian Sampaio. Reconheço estar o Anuário a viver outros tempos, cumprindo nova função e ocupando espaço importante na área de pesquisa e construção da história cearense. Sei do cuidado no seu planejamento, comercialização, elaboração, dos novos métodos de gestão e dos sistemas de informática alimentando informações, tornando-as atuais, veras e consequentes. Mas, vi o Anuário renascer nas mãos de Dorian Sampaio. Era um projeto parado com a morte de Waldery Uchoa e Dorian teve a coragem de ressuscitá-lo. Participei dessa história. Era 1969. Dorian Sampaio, jornalista e ex-deputado estadual, não aceitava o revés de uma cassação injusta e o trauma causado, não fora a sua inquietude, talento e vontade de provar-se e dar a volta por cima. Um belo dia, ele me indagou se eu admitiria participar de um projeto de recriação do Anuário do Ceará contando e cantando as glórias do nosso povo. Respondi: estudaria o assunto, bastando me apresentar, por escrito, a ideia. Com o seu jeitão característico, ele me retrucou quanto ao volume de trabalho para fazer tal estudo e só o realizaria se eu garantisse: a) participar do negócio; b) ou, em caso contrário, pagar uma determinada quantia pelo trabalho. Aceitei. Li o projeto – devolvido anos depois - e disse ser uma empreitada diversa da natureza do meu trabalho, não combinando com o meu jovem e irrequieto perfil. Melhor seria convidar alguém do ramo para, juntos, tocarem a ideia. Paguei a quantia combinada. Surgiu então a parceria Dorian Sampaio e Lustosa da Costa, dois não-cearenses, talvez mais autênticos que 99% dos nascidos por estas terras tórridas. Com o gás e a sede de retomar o caminho abruptamente cortado, a dupla Dorian e Lustosa se materializou no Anuário do Ceará. Os primeiros anos do Anuário foram levados a quatro mãos. Com a ida do Lustosa para Brasília, a família de Dorian, incorporada, assume e dá a sua forma empresarial na Stylus, a editora-mãe. Lembro quando, ao completar 25 anos, escrevi na sua edição comemorativa: “estes 25 anos têm demonstrado o valor de uma ideia, a capacidade de uma pessoa, a importância da união de uma família em torno de um objetivo e o poder aglutinador de fazer e refazer equipes. A todos: ao líder, à família, à equipe e ao próprio Ceará, meu reconhecimento, minha homenagem e amizade”. Com a morte de Dorian, o Anuário do Ceará passou ao controle das empresas O Povo. Novamente, fui consultado. Dessa vez, por Demócrito Dummar e verifiquei, triste, não ter mesmo o perfil de gestor ou editor e não aceitei a parceria. Desejei sorte. Agora, por dever de justiça, rendo homenagem a esse veículo precioso a nos orgulhar e a registrar, de forma profissional em 660 páginas, na sua edição 2007-2008, a saga cearense. Parabéns ao editor-geral Fábio Campos, ao editor-executivo Jocélio Leal e ao Demócrito Dummar. Mas como esquecer Dorian Sampaio? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/08/2007. - [HOMENS E AVIÕES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/homens-e-avioes-diario-do-nordeste/): Nesta crise anunciada da aviação comercial fica claro que homens e aviões precisam de muitos e melhores cuidados. Parece que essa certeza básica não está sendo considerada por seus dirigentes públicos e privados. Desde que Santos Dumont voou em Paris em 1906, com o seu “14 Bis”, que o Brasil tem procurado ser uma referência na área. Na primeira metade do Século XX, a aviação era uma atividade perigosa, mas romântica. Até o escritor francês, Antoine Sainte-Exupéry (O Pequeno Príncipe, Correio do Sul, Voo Noturno etc.) era piloto comercial. Exupéry era triste, como também o eram Santos Dumont e Pinto Martins. Hoje, nada de romantismo, apenas empregos e tragédias. Mas, os pilotos continuam tristes. Na infância, convivi com pilotos – meu pai era um deles – e pude ver que eram audaciosos e imaturos. Depois, como passageiro, estive em avião da TAP que fez pouso forçado, após emergência, em Las Palmas. Nesse episódio, vi o descortino do comandante e tripulantes. Eles tinham uma crise e precisavam decidir. Demorou 90 minutos, mas pareceu uma vida. Agora, com o acidente do Airbus da TAM, precedido de avisos, desde a queda do avião da Gol no ano passado, ficou claro que os homens da aviação precisam ser melhor cuidados para ter calma e decidir em emergências. Mas, os pilotos lutam contra o desemprego (Transbrasil, Vasp e Varig demitiram) e as novas empresas são vorazes na maximização do uso de seus equipamentos. Há ainda o caso dos controladores de voo. Têm apenas o nível médio e três categorias: militares (sargentos), funcionários públicos civis e CLT. É uma mistura explosiva com salários diversos e lutas sindicais. Do mesmo modo, os pilotos comerciais só têm o segundo grau, estudam em apostilas, aprendem a voar por instrumentos e obtém brevês de piloto em aeroclube, não em faculdade. Os aviões, mantidos em terra, voam no limite, apresentam defeitos, são consertados por mecânicos mal remunerados, e usam aeroportos construídos e gerenciados por leigos, indicados por políticos. Dá no que deu. Por que não entregar tudo ao ITA ou à Embraer, que constrói aviões, mas não o do Presidente? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/07/2007 - [A CULPA É NOSSA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-culpa-e-nossa-jornal-o-estado/): Quando acontecem acidentes que comovem a Nação ou atingem familiares e amigos nossos, ficamos perplexos e cobramos atitudes, reclamamos e, momentaneamente, nos indignamos. Nós, brasileiros, temos o hábito de reclamar dos políticos em quem votamos. Isso é produto da cultura e do comportamento nacional de não escolher com atenção dirigentes, amizades e parceiros. De vez em quando ou muitas vezes, somos surpreendidos com decepções e até desonestidades. Por qual razão isso acontece? Por que não temos o cuidado de examinar quase nada, de nos aprofundarmos em reflexões e análises e nos deixamos levar pela empolgação, a conversa fiada e a falsa aparência de gente boa. Falamos dos banqueiros, mas eles são, por dever de ofício, cuidadosos ao conceder um crédito. Nós, pelo contrário, somos abertos demais, damos crédito fácil, seja de que natureza for, a quem não conhecemos em profundidade e temos a memória curta. Isso nos leva a escolha errada em muitas situações. Essa constante na nossa vida, por outro lado, é fruto, além da desatenção e falta de análise, apanágio do subdesenvolvimento, do descompromisso com nós mesmos. Fazemos tudo às pressas, como se nada merecesse um tempo de expectativa, tão comum em outros povos, que levam muito tempo para chegar a uma decisão. Por outro lado, tomada a decisão, mergulham, com profundidade, na luta para que ela se transforme em realidade, em êxito e, certamente, monitoram comportamentos e corrigem desvios, não tendo receio de excluir pessoas que falham, denigrem, roubam e têm cara de gente boa. Nós, não. Todos sabem que fulano de tal é desonesto ou trambiqueiro, mas ele continua saindo por aí, enganando pessoas, escudado, muitas vezes, em advogados que provocam chicanas em processos que tentam desmascará-lo. Se desejarmos um melhor destino para nós mesmos e para o Brasil será preciso que mudemos de conduta. Tornemo-nos, forçosamente, desconfiados, deixemos de aceitar os que fingem ser e não são, os que se apoderam de posições públicas, privadas, sindicais ou de associações de classe, apenas em benefício próprio, propalam isso e aquilo em relações públicas que nada mais são que mistificação e promoção pessoal furada, não conferida por quem as veicula. Temos que parar com a hipocrisia ou aceitar o que diz o ministro da Cultura, Gilberto Gil, atualmente em férias no exterior: “A hipocrisia é uma ferramenta da civilidade”. Será? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/07/2007. - [IGREJA BENTA? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/igreja-benta-diario-do-nordeste/): Quando menino, os padres e minha mãe recomendavam não conversar com “crente”, tampouco ter a audácia de pisar nas calçadas de igrejas evangélicas ou de centros espíritas. Nunca obedeci. As missas eram então em latim e, antes da bênção final, três ave-marias rezadas contra o “comunismo ateu”. Foi assim até o Concílio Ecumênico (62 a 65), que deu ares renovados a uma Igreja precisada de expurgar culpas antigas e novas, como a do Papa Pio XII na 2ª. Guerra. Estive em Roma em 65 e, bem jovem, saí de lá informado, alegre, inclusive dando carona para Paris a bispos cearenses. Nos anos 80 houve solidariedade com os pobres e diálogo com outras religiões, ao tempo em que a caridade anônima era incentivada. Depois, veio João XXIII e a Igreja voltava ao passado. Agora, 42 anos após o ecumenismo, vem o Papa Bento XVI e diz: “A única verdade da fé cristã encontra-se na Igreja Católica”. O ecumenismo parece enterrado nas catacumbas romanas e o catolicismo toma ares do fundamentalismo tão criticado por nós nos aitolás e talibãs. Neste breve papado de Bento (ou Benedito?) XVI há uma preocupação – ultrapassada - em ressuscitar a missa em Latim, língua morta, não aceitar a camisinha e teimar em não acolher o fim do celibato dos padres, ocasionando o pagamento de indenizações altíssimas por conta de abusos sexuais contra fiéis. Agora mesmo, em Los Angeles, o arcebispo fez um acordo com 500 vítimas e pagou 660 milhões de dólares. Nos Estados Unidos, onde a lógica permite o resgate da honra com dinheiro, a Igreja já gastou bilhões com pedofilia de padres. Não se pode mudar a natureza humana e os padres são homens, carentes e solitários. Um dos ensinamentos básicos aprendidos na minha fé torta foi o de que somos todos iguais e devemos cultivar a humildade. O catolicismo é maior que seus erros e os dos seus padres. O que a Igreja fez no seu ato da Congregação para a Doutrina da fé, em 29, dia de São Pedro, de junho de 2007, foi dizer que somos os escolhidos. Como fica a humildade (“melhor é ser humilde de espírito...”, Prov. 16:19) pregada por Cristo? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/07/2007. - [O QUE É UM AMIGO? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-e-um-amigo-jornal-o-estado/): Hoje é o dia do amigo. Você sabia? O que é um amigo? Será aquele que ampara e defende? Ou o que protege e acolhe? Ou o que ouve calado as nossas lamúrias? Ou o que está pronto para o que der e vier e vem sem ser chamado? Nelson Rodrigues, um frasista cínico e inteligente, tem várias versões sobre o que seja amigo. Na primeira, ele é negativo e diz: “Os homens, individualmente, não são amigos dos homens. O ódio começou quando, pela primeira vez um homem viu outro homem. E assim tem sido através de todas as manhãs e de todas as noites: - o “outro” continua sendo o inimigo de cada um de nós e de todos nós.” Em seguida, ele muda: “Daí porque o grande acontecimento é, sempre, o amigo. Ele é a desesperada utopia que todos perseguimos até a última golfada de vida.” Sendo polêmico, Nelson tinha humores e isso o fazia pensar diferente sobre amizade, dependendo do estado de espírito. Assim é que, em outra feita, ele chora: “A morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas as relações com o passado ficam alteradas”. Afinal, o que é um amigo? Atrevo-me a dizer que é aquele que quer bem ao outro. É o companheiro, aliado e simpatizante. Segundo Machado de Assis, “não é amigo aquele que alardeia a amizade; é traficante; a amizade sente-se, não se diz...” Procuro na história e valho-me de Aristóteles quando diz: “Não podemos nos contemplar a partir de nós mesmos. Do mesmo modo que quando queremos contemplar nosso rosto fazemo-lo olhando-nos num espelho, assim também quando queremos conhecer-nos a nós mesmos, conhecemo-nos vendo-nos em um amigo. Porque o amigo, dizemos, é um outro de nós mesmos.” Vejo em Michel Foucault, na obra “A palavra e as coisas” uma distinção epistemológica entre simpatia (que gera amizade) - o poder de assimilar, de fazer com que as coisas passem a ser semelhantes, ajustadas, de interesse comum - e antipatia, como contraponto que se caracteriza pela dispersão e dessemelhança. A amizade é uma relação em duplo sentido, onde a complementaridade, o respeito, a crítica que ajuda, o incentivo que estimula e o apoio que conforta, não devem faltar como condimento à convivência entre pessoas distintas. Socorro-me de Cícero quando fala da perda das amizades: “Se o acaso as faz cair por falta de discernimento em uma amizade, não se creiam ligados a ponto de não poder abandonar seus amigos gravemente culpáveis”. Há pessoas a confundir amizade com cumplicidade e subserviência, formas pouco leais de convivência. Ser amigo é, antes de tudo, saber lidar com a verdade, mesmo isso se tornando doloroso. A verdade relativa de cada um nos impõe uma característica de vida. Ela nos distingue dos demais, sem deixar de sermos semelhantes. Isto é a nossa integridade. E com poucos, mas escolhidos amigos, estamos mais seguros, com identificação clara, capacidade de servir e dizer ao outro o quanto o estimamos e estamos dispostos a relevar discórdias e eliminar frustrações. O poeta inglês William Blake disse: “tudo que vive, não vive sozinho, nem para si mesmo”. Por estarmos vivos e não vivermos isolados, não podemos deixar de ter amigos e de nos tornar integrantes de um elo comum a necessitar de permanente atenção e cuidado. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/07/2007. - [ESCAPEI? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/escapei-diario-do-nordeste/): Sérgio Braga perdeu a vesícula. Foi nesta semana. Vocês conhecem o Sérgio Braga? Ele mede 1,85m e pesa mais de 100 quilos. Pois esse ‘homão’ teve uma boba de uma crise de vesícula e ficou apavorado. Fez todos os exames com muito medo e, só após ter realizado o seu testamento, submeteu-se a uma ressonância magnética. Não tinha jeito, tinha de entrar na faca. O seu irmão e médico, Paulo, já não aguentava mais as perguntas e as medições diárias da pressão arterial. Eu, ‘paramédico’ conhecido, fui incumbido de indicar o cirurgião e sugeri o nome do Dr. Campos. Ele, mesmo com toda a sua comprovada experiência, foi ainda submetido a uma sabatina pelo Sérgio. Eu não estava lá, mas imagino o doente, com aquele jeito de boi manso, perguntando: Doutor, o Sr. se garante, tem perigo de algo sair errado e eu morrer? O Dr. Campos teria rido e respondido: todos nascem e morrem um dia. O Sérgio quase desmaia e foi logo ligando para o anestesiologista José Teles pedindo-lhe para acompanhar a cirurgia, como garantia pessoal. Para culminar os preparativos, ele me liga e diz: João, será possível um cardiologista acompanhar a minha cirurgia? Lá vou eu ligar para a Dra. Emair, diretora do Hospital. Data da cirurgia. O Sérgio, depois de inopinado registro, está deitadão na cama de seu quarto no hospital vestindo apenas uma minúscula bata. O relógio marca 10 horas e o Dr. José Teles se atrasa. O Sergio sua, apesar do ar-condicionado no máximo. O Dr. Campos entra no quarto, dá um bom dia e vê aquele gigante metido na sumária bata e pergunta se ele está pronto para a operação. Ele revira os olhos, reza para São Francisco, seu santo protetor, deixa cair duas lágrimas e vê o Dr. José Teles chegando. Apertam-se as mãos, o sangue corre melhor em suas veias e ouve, desconfiado, a conversa – em linguagem médica – mantida pelos dois médicos. A pré-anestesia começa a fazer efeito, uma maca chega e são necessários três maqueiros para transferir o Sérgio da cama para a maca. Ele sorri amarelo, os olhos pesados e apaga. Acorda, horas depois, são e salvo, e pergunta: escapei? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/07/2007. - [CRÔNICA DA SEMANA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cronica-da-semana-jornal-o-estado/): Esta semana foi intensa. Vi mais de 70 pessoas, de todas as idades, participando de um curso de bombeiro voluntário e primeiros socorros. Este curso é para quem pensa no outro e admite ter uma atitude modificando uma situação de emergência. Ser bombeiro voluntário é importante para todos e sua ação poderá salvar vidas e fazer a diferença. Vi também a exposição de gravuras de Rembrandt (pintor e gravador holandês do século XVII, de arte realista) na Unifor e fiquei maravilhado não só com a obra em si, de todos já conhecida, mas com a forma profissional, didática e ‘classuda’ como aquela Universidade trata os acontecimentos de arte. Uma pessoa, mesmo sem nunca ter comparecido antes a uma mostra, sai de lá com uma sensação de inclusão, pois, de forma bem sutil, é guiada nas formas, no conteúdo e na vida do autor exposto. Sem medo de errar, acredito terem as exposições da Unifor um tratamento de alto nível técnico e plástico, só encontrado no Brasil em São Paulo e em grandes eventos. Esta semana também estive, por várias vezes, no Hospital Geral da Unimed visitando amigos e pude verificar o zelo, a atenção e o espírito da equipe comandada pela Dra. Emair Borges. Há um compromisso disseminado entre todos, com a qualidade. Não a baboseira da total, mas a qualidade em si, a começar pelo tratamento paisagístico, o respeito ao meio ambiente pelos cuidados com os resíduos gerados. Vi a atenção aos usuários na tarja amarela identificando os degraus de cada escada e os avisos nos elevadores anunciando eventos e mudanças de comportamento. Vi também paciente sendo bem atendido e tendo alta médica um dia após cirurgiado, sem isso demonstrar pressa ou economia. Nesta semana também tive o prazer de trocar horas de prosa com amigos inteligentes e instigantes. Tão instigantes a ponto de o tempo passar sem nos apercebermos. É bom estar com gente de bem com a vida, sem esconder sentimentos e deixar, apenas pelo companheirismo, a conversa correr sem policiar palavras, frases ou atitudes. E a tarde anoitou e a noite madrugou. E nesses dois momentos distintos e raros de enlevo renovamos a fé na amizade, não a travestida em interesses ou ademanes, mas a espontânea como a fala de uma criança. E a semana já ia terminando quando falei ao telefone com o escritor Antonio Torres, candidato ao prêmio (nacional) Jaboti, por quem torço, não por compadrio, mas por já ter lido e gostado do seu novo romance “Pelo fundo da agulha”, um dos bem cotados em seu gênero. E gostei de ter ouvido a simplicidade do Antonio Torres dizer: “como este dinheirinho me faria bem”. Estou torcendo, Antonio. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/07/2007. - [OURO PURO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ouro-puro-diario-do-nordeste/): Hoje, com a longevidade acenando mais tempo, estamos condenados ou abençoados a ter um futuro da maturidade. E esse futuro da maturidade eclode depois do ímpeto começar a baixar. Reencontramos o nosso eu verdadeiro e procuramos um sentido mais profundo no tempo a nos restar, seja longo ou breve. E aí, em meio às calmarias e festivais de vento, descobrimos o prazer de ser inteiro, íntegro, mas precisamos de uma espécie de um alter ego ou companhia, alguém a nos animar, entender e amar. E isso, por conta desse novo mundo a engolfar quase todos, a fazer da liberdade uma panacéia e a nos levar, vez por outra, a uma estrada circular, na qual o nosso carro existencial patina, atola, faz voltas e não encontra as veredas da felicidade. E isto tem nome: solidão, especialmente aquele produto da separação de corpos e mentes anos e anos juntos, mas, por força do olhar diverso na vida ou do destino, tomaram sendas distintas. E essa conclusão rodrigueana nos atinge e pede reflexões. E aí lembro o exemplo de Ernando Uchoa e Regina completando 50 anos de casados. E daí? E daí é estar alegre em propagar esse feito, conhecendo os dois e sabedor da energia de cada um para, todos os dias, até andarem juntos ao calor do sol, rodeados de amigos. Antigamente, não se comemorava muitas Bodas de Ouro de casamento, pois raros eram os casais a atingir esse patamar tão restrito. Hoje, são igualmente escassos os verdadeiramente juntos e esse é o caso de Ernando e Regina, unidos e propagando o seu amor, mesmo sem a trombeta de filhos ou de netos. Ouro puro. É essa identidade plasmada na troca de essência vital a soldar a benquerença, essa aliança tão rara a resplandecer em ouro puro e cintilar nos olhos de seus personagens, tão queridos agora quanto no tempo de sua mútua e definitiva descoberta. Não a das aparências, mas a da aceitação da personalidade do outro e do conúbio verdadeiro a conseguir ultrapassar as intempéries da vida sempre com a certeza de ser na imperfeição do outro a trilha da descoberta da tolerância, respeito e do apego, reunidos, a celebrar o amor. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/07/2007. - [TRISTEZA E TRIBUTO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tristeza-e-tributo-jornal-o-estado/): Ainda estou meio triste e sem graça com o episódio dos jovens universitários a maltratar uma mulher por cismarem ser ela uma prostituta. Estou triste e sem graça por não ver sentido na selvageria e na discriminação de uma pessoa apenas por ser mulher, pobre, estar no alvorecer de um dia em um ponto de ônibus e ‘parecer’ uma prostituta. Em outro episódio, nada a ver com o primeiro, vi outros jovens universitários, de uma universidade pública, a tentar empanar o brilho da posse de um Reitor legitimamente eleito. Eles tocavam flauta, portavam cartazes e levavam um simulacro de caixão, falando de democracia amordaçada. Tiveram plena liberdade de transitar, fazer sua ‘performance’ e se retiraram em meio ao silêncio democrático de centenas de pessoas, entre eles, outros jovens. Por outro lado, Suely Vilela, reitora da USP, ao final da recente ocupação e greve dos estudantes, declarou à Veja desta semana: “temos muitos furtos de laptops, monitores, projetor multimídia, impressora, scanner, componentes de informática, DVD-player, pen drives, microfones, telefones e algumas máquinas também”. Sem saudosismo, mas como reflexão, lembrei do meu tempo de universitário nos anos sessenta, quando não existiam ainda universidades e escolas particulares. Formávamos um grande grupo, ora estudando, ora participando de passeatas, greves, congressos da União Estadual de Estudantes-UEE e da então famosa União Nacional de Estudantes-UNE, aqui e pelo Brasil afora. Éramos destemidos, abusados até, tínhamos divergências internas, mas nada de matar ou ferir pessoas, desrespeitar um ato solene de posse de uma universidade a tentar ser forte ou, aproveitando-se de uma ocupação, furtar objetos. Tudo acontece em meio às fraquezas conjunturais de um país pretendente a ser grande, mas sem coerência política, ética ou quase nenhuma identidade ideológica. E dessa lembrança forte veio, como firma de tributo, a recordação de alguns nomes, entre outros, de colegas bravos como Augusto Pontes, Aytan Sipahy, Barros Pinho, Hélio Leite, Josino Lobo, Maria Luiza, Roberto Amaral, Valton Leitão, René Barreira, todos, sem exceção, vitoriosos em suas carreiras, mesmo que tenham dado parte de seus tempos de juventude a essa luta sem fim e, ainda hoje, mantenham, sob formas diversas, a chama da esperança em suas cabeças prateadas. E, me perguntei se esse descompasso no agir de jovens de hoje a atacar índios, mendigos, mulheres ou velhos pelo Brasil afora, o episódio da ‘performance’ na posse de um reitor e os furtos na USP não serão frutos da carência de cidadania, esgarçamento das famílias um ideal maior, da velha ideologia, qualquer que fosse o seu substrato, a dar um sentido maior, além do mero existir? Os jovens têm que ser destemidos, encetar lutas, marcar posições, cobrar atitudes, transgredir até, mas daí a se transformarem em ‘exterminadores do futuro’ ou reeditarem as famigeradas Ku, Klux, Klan e assemelhados, há uma distância enorme que não se justifica na era de informação e do conhecimento, enquanto nós, jovens de ontem, usávamos panfletos feitos em mimeógrafos, não tínhamos telefone e tampouco as facilidades da Internet. A diferença é que dávamos sentido às nossas vidas, cobrando dos outros o que pregávamos e fazíamos. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/07/2007. - [TIROS E PAN - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tiros-e-pan-diario-do-nordeste/): O som de um tiro de revólver ou metralhadora, seja da polícia ou de marginais, tem o mesmo pam, pam, pam, no complexo do Alemão ou em qualquer parte do Brasil. O que muda é a velocidade ou a quantidade de disparos. Mas os protagonistas, os que acionam os gatilhos, são quase sempre pessoas do povo, às vezes vizinhas, independente do lado em que atuam. E só faltam poucos dias para outro pan, este com n, os jogos Pan Americanos, que custaram 3,8 bilhões de reais a um país que teima em ser rico e não sabe administrar o fim de sua pobreza. Visível nas filas de emprego, portas de fábricas, favelas mis espalhadas democraticamente ou doente em hospitais públicos sem capacidade de albergar a todos. As favelas são frutos de muitos problemas, dentre eles a teimosia da Igreja Católica em deter o planejamento familiar, desemprego, baixa escolaridade da maioria, ausência de política pública de urbanismo e habitação e a nossa indiferença social, como se tudo na vida não funcionasse como uma pedra na água. Os círculos vão aumentados e, querendo ou não, somos atingidos. Estive no Rio há poucos dias. A cidade está sendo maquiada, além da Vila do Pan, do ´remake´ do Estádio do Maracanã, arquibancadas são espalhadas pela orla e o relógio da Avenida Atlântica conta os dias. A propósito, conta-se ter sido interceptada uma ligação telefônica de um grupo ameaçando fazer estragos e atacar autoridades. Tomara que não. Enquanto isso, a maior parte da população, refém da violência, se queda perplexa ou ululante diante de aparelhos de televisão vendo as lutas fratricidas de todos os dias, açuladas por apresentadores ávidos pela desgraça, sempre portadora de maior audiência. Este é um país bravateiro, preparado para o Pan e lutando por uma Copa do Mundo de futebol em 2014. Pena que os assaltos, tiroteios e os controladores de voo possam tentar estragar tudo: basta cruzarem os braços em mais uma operação padrão, tão comum quanto os muitos tiros ecoados em todas as cidades brasileiras. Ainda bem que junho acabou e tudo pode ter sido ser apenas foguetório de São João e São Pedro. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/07/2007. - [DEUS VIVE? - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/deus-vive-jornal-o-estado/): Deixo claro, desde logo, que esta crônica é fruto de pesquisa, vivência, leitura despretensiosa de livros e ensaios. Nada de engenho e arte. Os que nasceram nas décadas de 40 e 50 e tiveram formação religiosa ou estudaram em colégios dirigidos por pastores, irmãos, freiras, rabinos ou padres, sabem que o Deus que nos foi apresentado, na maioria das vezes, era alguém onipotente, soberano e punia com castigo e aflições os que não seguiam os seus ensinamentos. As proibições imperavam e se pecava por pensamentos, palavras, obras e omissões. Veio a década de 60 e o mundo tomou novo rumo. Surgiram os hippies, o rock, o Concilio Vaticano II, o assassinato dos Kennedys, a guerra do Vietnã, o feminismo e a informática. Os homens e as mulheres estavam confusos com a liberação sexual, com a proliferação do uso da maconha, do LSD e diante da perspectiva de um programa espacial que pretendia desvendar os mistérios do espaço cósmico e mostrar que A era mais forte que B. Em 1966, a revista americana Time publicou matéria com o título “Deus está Morto”? tal era o agnosticismo que parecia imperar naquela época. As décadas de 70 e 80 foram utilizadas mais para a especulação científica, crescimento econômico e o desenvolvimento tecnológico. Imaginava-se que Deus estava à margem desse processo. De repente, surge nos anos 90, um fervor religioso com especial destaque para todas as igrejas. A Ação Preferencial pelos Pobres e a Teologia da Libertação cedem lugar para a Renovação Carismática (na Igreja Católica), os muçulmanos se expõem e tumultuam o nosso mundo, crescem os televangelistas nos Estados Unidos (destacando-se Pat Robertson, fundador da Coalização Cristã) e a exponencial atuação da Igreja Universal do Reino de Deus que, do Brasil, lançou tentáculos para o mundo e promove a fé presencial e televisiva. Ao mesmo tempo, na Rússia, num esforço da Prefeitura de Moscou, do Governo Soviético e da igreja Ortodoxa gastaram-se 250 milhões de dólares reconstruindo a catedral do Cristo Salvador destruída por Stalin. Os russos voltaram a ter fé. Enquanto isso, um intelectual americano, Jack Miles, escrevia um best-seller "Deus, uma autobiografia”, baseado na versão judaica da Bíblia, onde montava uma versão instigante sobre Deus. Agora, na Veja desta semana, outros escritores voltam a questionar e negar a Deus. Geraldo Mello Mourão, filósofo dos bons e polêmico por excelência, deu o seu pitaco sobre Deus: ‘Tudo será monótono, menos esse Deus arteiro e impagável , como o entendia Rilke, que cria todos os poliedros dos dias e das noites para seus servidores e que sempre os espanta e surpreende com sua presença cruelmente exigente e docemente compassiva’. Por outro lado, crendo-se que Deus está vivo, ele assume uma face mais branda, menos carrancuda, passando uma linguagem onde o amor predomina e a fonte dessa nova onda é a descoberta de uma identidade para o ser humano, baseada, talvez, em uma espécie de ‘fundamentalismo’ generalizado que, com muita força diz, através de ações, orações e cantos, que Deus está vivo e no meio de nós. Será? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/06/2007. - [LÚCIO E OSCAR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lucio-e-oscar-diario-do-nordeste/): Seis da tarde. O avião fazia aproximação e ela já aparecia no visual. Eu estava à direita, na janela, do lado do pôr-do-sol terracota, inebriante aos olhos. Parecia uma grande fogueira deste junho. Descemos, leve estremecimento, taxiamento e o bruto cerra as turbinas. Somos metidos em um fole e a noite suave nos acolhe nesta cidade de estórias, intrigas passadas e atuais. Nunca vim à Brasília a negócios, não entro em ministérios, autarquias, entidades ou bancos e nem procuro políticos. Venho por um amigo, apenas isso. Quero participar de sua alegria e sucesso, sem estardalhaço, com minha presença, tal qual sou, sem salamaleques. E o carro em que ando desfila pelos desenhos postos em betume do urbanista Lúcio Costa, o maior que este país já teve e terá. Sua visão genial de futuro é tão grande que a cidade, quase 50 anos após, ainda parece em esplendor, bela, ampla e pousada imaginariamente como um imenso e inamovível avião que mete o nariz nas entranhas desse solo barrento e ali se queda para todo o sempre. E dos dois lados de tudo o que Lúcio Costa esboçou, além dos parques e lagos, está o crayon do arquiteto Oscar Niemeyer, com suas linhas curvas e retas traçadas, fazendo poesia concreta, não a de poetas tecedores de palavras, mas a transmudada a partir do olhar de quem a vê sinuosa e eloquente em seu silêncio e voz de concreto. E os arranjos atuais de luminotécnica, de forma difusa, realçam tudo o que a visão capta na plasticidade vertiginosa, pois adelgaçada no pós-futuro. E não posso esquecer os olhos marotos de Juscelino Kubitschek, embevecido da obra dele, do construtor Israel Pinheiro, Lúcio e Oscar, que custou os olhos da cara de uma nação pobre, mas lhe deu identidade urbana, liberando-a de sua feição jeca e andrajosa. O país estava pronto para o futuro em 1960, mas havia o povo e este, na ignorância de que era possuído, não sabia escolher dirigentes e o caos se deu logo em 1962, e daí para cá todos sabem a história e as estórias que correm. Cada um com a sua versão e quem quiser que conte outra, pois esta é a minha. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/06/2007. - [A ORELHA DO PEDRO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-orelha-do-pedro-jornal-o-estado/): O Pedro José Negreiros de Andrade e eu somos companheiros matutinos há anos. Andamos, procurando a forma física que nunca teremos, trocamos prosas e, aqui ou acolá, temos a tola pretensão de alterar o mundo. E o que fazemos de concreto: lemos e escrevemos. E o Pedro, médico-cardiologista, professor universitário devotado e escritor diletante, não se esconde no que escreve, mas o que ressalta em seus artigos é o seu aggionarmento, a contemporaneidade e a atitude diferenciada. Ele não é só o médico e professor, mas um espécime raro, um ‘woodstockiano’ ou virtual espadachim do bem em pleno fim da primeira década do Século XXI, este que nos acena com longevidade, mas não nos diz como apascentar nossas almas inquietas. E a alma inquieta de Pedro José juntou seus escritos em ‘Ensaios politicamente incorretos” em que se espelha na Revolução Francesa para chegar às deformações da burocracia soviética. Crítico atilado e inconformado com as leis de cotas para estudantes não brancos neste país mulato, Pedro afirma: “O chamado estatuto de igualdade racial, assim como as leis de cotas deveriam ser chamadas de estatutos da desigualdade racial”. E explica por que: “raças não existem em um país profundamente miscigenado como o nosso”. Mas, o médico e o professor também dão as caras, quando, entre outros escritos, elabora regras para evitar que se conduza mal um caso médico mostrando os caminhos do erro aos que falam de forma complexa e dão pouca atenção à queixa do paciente. Fica em dúvida, mas absolve, por sua latinidade, a Fidel Castro e até dá sugestão para reformular a Copa do Mundo, tentando acabar com os empates nas prorrogações da finalíssima, recomendando a substituição de todos os jogadores, mas admitindo a decisão por penais. Pedro é: tão destemido que me pede para escrever a orelha de um livro seu que a transcrevo em jornal com o objetivo de anunciar, antecipadamente, a todos os seus colegas médicos cardiologistas, amigos, alunos, colegas de docência da Faculdade de Medicina, que vem aí mais um livro de Pedro Negreiros um especialista genérico, um professor difuso, um cardiologista apaixonado por ideias intricadas que vão mexer com sua adrenalina por escrever o que lhe apraz, sem medo de variações sistólicas ou diastólicas de terceiros. (esta crônica é dedicada a todos os médicos escritores) João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/06/2007. - [CAETANA E ARIANO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/caetana-e-ariano-diario-do-nordeste/): Natércia Campos era amiga de Ariano Suassuana. Um dia, Ariano estava em Fortaleza para uma de suas palestras-show no Teatro José de Alencar. Era começo de noite, o público-alvo se constituía de estudantes e o Governo o convidara para falar sobre ética e responsabilidade, ou algo parecido. Mesmo assim, fomos. Ariano, para quem não sabe, não segue ninguém, suas palestras já têm uma dorsal definida. E ele falou: quando eu disser “isso assim”, estarei querendo falar em ética e responsabilidade e riu feito um menino ‘malino’. Estávamos na primeira fila e rimos também. Depois da palestra, Natércia foi ter com ele. O fato é que tempos depois, conseguimos uma fita com uma outra palestra do Ariano. Tudo parecia igual à palestra, a sua cadência, as piadas, o gestual e a jaqueta por sobre a camisa. Agora, no dia de ontem, Ariano fez 80 anos, driblando a Caetana, como ele gosta de chamar a morte. E, por conta disso, lembrei mais ainda da Natércia que, justo no dia 02 deste junho, completou 03 anos de seu encontro inopinado com a dita Caetana. Quem leu “A Casa”, romance de Natércia, e já leu Ariano sabe que ela bebeu na mesma fonte armorial, movimento regional dos anos 70 que enfatiza o valor da cultura popular nas artes, brasões e na literatura. Mas sabe também que Natércia foi singular e especial, nada tendo a ver a sua construção literária com a de Ariano ou Câmara Cascudo, outro monstro da nordestinidade cultural. Voltando ao autor, dentre outros, de “O Auto da Compadecida” e do “Romance D’A pedra do Reino”, cuja apresentação, sob a forma de mini-série, foi encerrada ontem pela TV – Globo (com locação, atores e guarda-roupa nordestinos), ele ainda é um lépido e produtivo ser cultural que tem como meta definitiva enganar a Caetana, enquanto puder. Para ele: “Se nosso país estivesse pronto, eu até me aquietava. Mas não está”. Ainda bem que o Brasil não está pronto. Ariano permanece esgrimindo a sua caneta em manuscritos inéditos que pretende concluir em breve, mas a sua busca pela forma e pela vida o impedem bravamente de acabar. Ainda bem. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/06/2007. - [O LEVANTE DO ARCO-ÍRIS - Jornal O estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-levante-do-arco-iris-jornal-o-estado/): Domingo passado, a Avenida Paulista estava lotada de homens e mulheres que, por genética, vontade ou comportamento, fugiram da ortodoxia da sexualidade. Foram três e meio milhões de pessoas corajosas, sem medo de enfrentar familiares, colegas e a sociedade, optando por quebrar regras, preconceitos, em meio à discriminação de quem se acha superior apenas por ser o que é, sem saber exatamente o que passa na cabeça e no corpo de quem tem no arco-íris a sua bandeira de resistência e paz. Nestes tempos tão sofridos, em que o amor entre homem e mulher, dentro ou fora do casamento, passa por transformações tão profundas e ainda não sedimentadas e mexem com as formas tradicionais de família, é hora de olhar o outro, não pela sua preferência sexual, mas por seu comportamento e desempenho como ser humano e cidadão. Não se pode louvar alguém apenas por ser genuinamente homem ou mulher. Tampouco, se pode condenar outra pessoa por ela ter preferências que não as ditas naturais de seu sexo. A literatura, as ciências e as religiões ainda não têm respostas para os que saíram do estabelecido na certidão de nascimento e cumprem vida diferente da esperada por suas famílias e, de forma explícita, encaram gente preconceituosa, recriminações de parentes e as chacotas de muitos. É preciso coragem para, de cara limpa ou mesmo por trás de batons, adereços e perucas, enfrentar fotógrafos, microfones e câmeras que sempre apostam no caricato ou burlesco. Os tais críticos não procuram entender a razão dessas pessoas. O que eles, os críticos, realçam, e de forma perversa destacam, são as excentricidades, esquecendo que aquilo era uma parada e chocar é uma forma de chamar a atenção para si, de dizer que, se são milhões, esperam compreensão, outros olhares, outros comportamentos e atitudes de todos. A Justiça já começa a mudar a sua visão sobre o problema e passa a ver na parceria ou união entre pessoas do mesmo sexo como um fato e não como uma anomalia ou uma abstração teológica. Nós outros, os que somos diferentes deles, porque heterodoxos, não temos o direito de torcer o nariz ou de gargalhar. O que nos compete é ver na diversidade e alteridade explícita são os signos de um novo tempo, não o da era de Aquário, mas o da quebra literal dos vidros dos preconceitos, da farsa e do transbordar de águas limpas para banhar, limpar as dores, apascentar famílias e a todos os seres humanos, independente de suas preferências sexuais e idiossincrasias. Voltaire, já no século XVIII, dizia: “Um preconceito é uma opinião não submetida à razão”. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/06/2007. - [SENTIMENTOS E DESEJOS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sentimentos-e-desejos-diario-do-nordeste/): Certa vez, participei de um debate com a médica Carmita Abdo, psiquiatra do Hospital das Clínicas da USP e responsável por projeto sobre a sexualidade do brasileiro. Ela e a sua equipe fizeram 7.100 entrevistas e descobriram que a sexualidade masculina não vai bem, apesar dos remédios indutores para os que têm ou se imaginam com disfunção erétil. O fato é que nós, jovens ou maduros, precisamos reformular conceitos e relações pessoais e isso passa pelo nosso jeito de viver e parecer. O brasileiro sempre exagera seu desempenho sexual, mas há também gente escondendo suas calamidades pessoais. Primeiro, o homem precisa entender que a ereção resulta de uma conjunção de fatores, a partir do desejo e/ou do sentimento e, em seguida, se integra ao sistema nervoso central, nervos, vasos e testosterona. Pode parecer complicado, mas não é. Imagine procurar relatar como é dirigir um carro (abrir a porta, introduzir a chave, girar a ignição, olhar para frente, ligar a marcha e dar partida). É simples dirigir, é simples ter o desejo, mas tanto na direção do veículo, como na direção do seu espetáculo pessoal, há, por exemplo, influências do álcool, tabaco, obesidade e do estresse da vida. Isso muda. Outro médico, Gilberto Ururahy, relata que 28 mil homens ativos, entre 30 e 70 anos, foram analisados e, dentre eles, 70% relataram índices altos de estresse, 50% não faziam exercícios, 50% ingeriam álcool, 25% fumavam, 23% eram hipertensos e 50% tinham contas com o colesterol. Resultado: 25% com perda significativa do desejo sexual. Por outro lado, a pressa no viver e a liberação sexual aparente, produzem estilhaços nas relações e carências que não provocam a explosão de sentimentos e desejos. Porque é fácil, não se deseja. Porque poupa sentimentos, leva receios para o encontro, fracassa no amor e desempenho. O que digo aqui é apenas um alerta e cabe a cada um analisar e discutir com a sua parceira que, igualmente, não pode fazer jogo de cena. Sem sentimentos verdadeiros, o desejo passa a ser banalizado “porque em terra que tem fada, tem bruxa também”, dizia I.Legrand. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/06/2007. - [OUVIR DIZER - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ouvir-dizer-jornal-o-estado/): Ricardo Guilherme, para os que não sabem, é, além de ator consagrado e diretor de teatro, um apaixonado por leitura. E dessa a paixão e maturidade profissional, surgiu um projeto seu, acolhido pelo Centro Cultural do BNB, em que textos, poesias e prosas de poetas e autores cearenses, são levados à cena, mensalmente, em datas previamente marcadas e divulgadas, sempre às 16.00 horas, ali no auditório da Rua Floriano Peixoto. O cenário é apenas um pano preto de fundo, cor essa que também é a vestimenta do Ricardo, realçando apenas os seus grandes óculos, a vasta cabeleira branca e a voz sonora, modulável e que vai tomando o compasso e a harmonia de suas emoções. Não há música, tampouco apresentação prévia. Apenas um banco, uma estante e um microfone, certamente iluminados por spots direcionados, em meio à negritude do fundo. E aí Ricardo aparece e começa a falar da pessoa e da obra do escolhido. Digamos, por exemplo, que esteja falando do poeta Francisco Carvalho (que, por sinal, reservado que é, não compareceu no dia em que sua obra foi apresentada, mas sua família estava lá): conta a sua relação pessoal com o grande poeta de forma leve, mas segura e, sem que os ouvintes percebam, mostra as várias faces do autor, quer como amigo, incentivador de iniciantes, funcionário público, professor etc. Desse jeito sutil e precioso, dá-se uma natural iniciação do público, constituído, em sua maioria, por jovens de escolas públicas, e de escolas privadas, pois o projeto é aberto, democrático, gratuito e, certamente, a direção do Centro Cultural do BNB fará um bem maior se lhe der continuidade. Igualmente, as direções de colégios e universidades fariam um benefício imenso aos estudantes se os levassem para ouvir essas leituras dramáticas que têm consistência, tom intimista e até, algumas vezes, uma pitada de humor. Além disso, Ricardo escolhe autores (por exemplo: o já citado Francisco Carvalho, Moreira Campos, Airton Monte, Patatitva, Carlos Augusto Viana, Luciano Maia etc.) e estuda, com atenção, alguns textos especiais de cada um para ler, repetir e enfatizar, como a montar, na cabeça do ouvinte, um jardim de estética. Dura apenas uma hora, o que é lamentável, pois vai sendo criada, pouco a pouco, de forma didática, sem deixar de ser teatral, uma empatia entre o apresentador Ricardo Guilherme e o público. E o monólogo, de forma incrível, passa a ser diálogo com o sentimento e a atenção do ouvinte que, mesmo que não conheça nada de literatura, sai do auditório com muita coisa para pensar, ainda que não recorde exatamente tudo o que foi dito com maestria e simplicidade cênica. É um processo - e um projeto - de transformação de pessoas que precisaria do apoio maior do BNB para continuar e também ser mambembe, viajante, volante, aliar a clausura do auditório às quadras de escolas e comunidades, como a dizer que o mundo não é apenas violência das ruas, desatino de políticos, vazio de certos de shows, programas de televisão e de algumas emissoras de rádio que primam pelo chulo e o mau gosto. Há salvação, acredite, esse projeto, não pode ser interrompido, ele é um caminho e caminho se faz, passo a passo. (para todos os que acreditam na esperança, na escrita e na arte) João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/06/2007 - [EUROPA, 2007 - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/europa-2007-jornal-o-estado-2/): Nunca imaginei que um dia viesse a ter uma irmã alemã. Quis o destino que Luiza Helena, socióloga, conhecesse Wini, médico. Foi aqui mesmo, faz mais de 20 anos, antes do turismo sexual invadir o Brasil. Wini veio fazer residência médica, casou e levou minha irmã e nos deu duas sobrinhas, Júlia e Isabella, minha afilhada. Por conta disso, principalmente, amiudei minhas andanças pela Europa que começaram em 1965, ainda frangote. São 42 anos e, mesmo sem querer, vi muita coisa acontecer por lá. Vi o fim das ditaduras de Salazar (1974) e Franco(1975) e a queda do muro de Berlim(1989). Por acidente ou sorte, andava batendo perna por lá por esses tempos tão conturbados dos anos 70 e 80. Lembro de Lisboa quando da “Revolução dos Cravos”, da euforia dos espanhóis pós-Franco e de quão atônito fiquei quando em 89 vi, literalmente, o muro de Berlim ser derrubado, enquanto jovens arrancavam pedras com as mãos, gritavam e cantavam. Agora, neste ano de 2007, exatos no mês passado, completa 50 anos o Tratado de Roma que definiu os rumos do que é hoje a União Europeia, um complexo e bem cuidado sistema que tem como princípios fundamentais a democracia representativa, coíbe a pena de morte, não aceita o trabalho escravo, defende a liberdade de falar e escrever e expressa a igualdade por gênero, etnia, religião ou orientação. Todos os seus 494 milhões de habitantes são livres para circular e trabalhar, como cidadãos supranacionais, nos 27 países da comunidade, hoje tão rica quanto os Estados Unidos. Essa ideia engenhosa e trabalhosa, que não tem similar no mundo, pois o Nafta, o Tratado Norte-Americano de Livre Americano, que reúne Estados Unidos, Canadá e México, está longe de ser referência em igualdade de direitos e oportunidades para os cidadãos desses três países norte-americanos. Aqui na nossa América, a tentativa do Mercosul ainda engatinha, ao mesmo tempo em que o Chile se isola, a Venezuela grita e o Brasil sofre por falar e agir de forma diferente dos que têm a língua de Cervantes como meio de expressão e o arquétipo de Simon Bolívar, como herói continental. Como seria bom que tivéssemos uma semana de trabalho de 35 horas, igual à França. Como exultaríamos se a tarde de sexta-feira fosse enforcada, como na Espanha. Que alegria se o nosso SUS fosse substituído pelo quase igualitário modelo de Estado de bem-estar social, em que todos são, além de outros benefícios, atendidos e providos assistência e de remédios, sem distinção. Para isso, foi preciso muito trabalho, e o fim da tacanha patriotada e eugenia que provocaram duas guerras mundiais (1914-1917 e 1939-1945) no século XX. Essa luta iluminista culminou com a criação, em nível transnacional de órgãos tão diferentes quanto: um Conselho que estabelece as diretrizes gerais, uma Comissão que executa, um parlamento que legisla, uma corte de justiça que arbitra litígios e um banco central europeu que consolidou, administra o Euro e determina baixas taxas de juros. Tudo isso sem picuinhas e respeitando as individualidades nacionais. Sonhar com modelos semelhantes para nós é uma forma de pensar em sair desse círculo vicioso de quase riqueza e muita pobreza, permeada por ainda gritantes índices de mortalidade infantil e desigualdade social, tudo amparado na promiscuidade e impunidade que vicejam na política e incentivam desvios de conduta. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/06/2007. - [NOVO LIVRO? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/novo-livro-diario-do-nordeste/): Sei que tenho uns poucos leitores assíduos de meus escritos semanais. Sei que tenho amigos puristas que os chamam de artigos, sei que tem gente escondida que lê, gosta, mas não diz que gostou. Sei também que há gente que não gosta e finge adorar. É assim mesmo, não dá para ser agradável ou desagradável o tempo todo. É-se. E em sendo eu mesmo, escrevo sobre tantas coisas, não porque falte assunto. O que me falta é mais espaço para dizer. Tenho à disposição semanal 2.100 caracteres, cerca de 400 palavras, o jeito que penso e escrevo para tentar levar os olhos do leitor da primeira até à palavra final. É claro que há temas que não interessam ao Zé ou à Maria naquele instante da leitura, mas escrevo sobre coisas tão diferentes que acabo achando ledores que se identifiquem. Falo da minha terra, meu país, viagens, família, solidão e encontro, ‘puxavante’ de orelha em amigos, refiro-me a livros que li e gostei ou não, meu Clube do Bode, filmes que vejo na telona, a violência que nos oprime, do contentamento ao olhar um neto que surge. Reclamo de gente desonesta com pinta de séria, líderes de nada, declaro torcer pelo Fortaleza e ver árbitros garfando-o, amores e dores, fatos passados, acolho o inesperado. Falo de gente, não de enfatuados, fingidores e presumidos, mas gente, não puxo saco, cobro atitudes, mas sei do efêmero do escrito em jornal. Por estas e por outras é que amigos têm me pedido para reunir crônicas e montar mais um livro, tematizado e contextualizado. Qualquer dia me rendo, separando as quase seiscentas crônicas que consegui salvar entre tantas perdidas e editá-las. A quem entregar a tarefa? Gosto do Geraldo Jesuíno e do Luiz Falcão, mas como uni-los? Quem sabe peça ao Natalício Barroso, talvez ao Josino Lobo, quem sabe à Sílvia Magalhães ou à Rejane Costa Barros para fazerem uma leitura prévia e aproveitar as crônicas passáveis e possíveis. Eu, particularmente, não ouso, pois elas são filhas nascidas do meu jeito de ser e a autoestima - palavra moderna para o narcisismo - impede que se rejeitem filhas queridas. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/06/2007. - [MEUS ... - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/meus-jornal-o-estado/): Todos os dias, com horários, andares e propósitos diferentes, pessoas mis acordam, espreguiçam-se, vestem roupas e tênis e se dispõem, com o nascer da aurora, a fazer “cooper” em locais os mais diversos em todo o planeta. Essa palavra, originada das teorias de Kenneth Cooper, o fisiologista americano, demonstra o óbvio: andar faz bem e andar em ritmo um pouco mais acelerado que o normal faz mais bem ainda. Mas Cooper dizia que era preciso alongamento, condicionamento físico, saber os limites do seu corpo, vitaminas, exames e controles. Um dos marcadores mais simples e eficazes é a pressão arterial, essa que nos informa, por referências consagradas, se tudo está bem ou não. No local por onde ando pela manhã há gente de todas as idades. Cada um caminha ou corre do seu jeito. Uns vão em grupos, tagarelas ou meramente identificados com amigos com quem confraternizam e bebem a energia astral do Hélio que resplandece sobre seus corpos suados, protegidos ou não por bonés ou bloqueadores solares. E aí param e, quase sempre, no local dito ‘stressado’, reúnem-se, tomam sucos ou água, espiam notícias em jornal graciosamente ali exposto e, mais aquietados, se aproximam de um guarda-chuva protetor. Abaixo desse guarda-chuva estão montadas uma mesa e duas cadeiras de plástico. De um lado, está o sargento do Corpo de Bombeiros Pedro Eduardo, tão gentil quanto pode ser uma pessoa educada e que, sempre com uma palavra amena, recebe a todos para que afiram sua pressão arterial. Mas Eduardo não diz apenas: 12 por 08. Ele prefere dizer, “como você é uma pessoa assim ou assado, eu lhe dou 12 por 08”. E, mesmo para os que têm pressão alterada, Eduardo usa uma forma sutil de lhes chamar a atenção e dizer que devem se cuidar. Pois bem, agora Eduardo nos surpreendeu a todos, editando, por conta própria e da forma que soube e quis, um pequeno livro intitulado “Meus”, em que diz na sua abertura: “orgulhosamente coloco à disposição de todos os meus amigos esta minha primeira coletânea de enigmas, contos e versos, para que possam se divertir pela inteira satisfação de pensar”. E Eduardo, em suas 89 páginas, vai mostrando, de forma simples e singular, as suas ideias de mundo. Primeiro, ele cria “enigmas”. E, mais à frente, a partir da página 63, começa a desvendá-los. E é nesse desvendamento que Eduardo mostra sua preocupação com o semelhante, pois, de forma sutil, aborda temas vários como o cigarro, sangue, ar, paciência, sabedoria, saúde, sonho, ciúme, fé, emoção e muitos mais. A singela forma como escreve revela a sua formação e o principal, a vontade de servir, de iluminar pessoas quando ao final, diz: “o amor ainda é possível. Sonhar não virou utopia. A paz só depende de nós”. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/06/2007. - [MÉXICO NO CEARÁ](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mexico-no-ceara/): Neste início de setembro, o México se fez presente no Ceará em duas áreas distintas. Primeiro, foi a participação de Felipe Ehremberg, Adido Cultural da Embaixada Mexicana no Brasil, e Mário Gutiérrez, da Secretaria de Cultura da Cidade do México, que vieram apresentar, na Bienal Internacional do Livro, o programa “Arte por todas as partes”, um caleidoscópio de arte que culminou com a reafirmação do convite oficial para que Fortaleza e o Ceará se façam representar, por artistas e escritores, na Feira de Zócallo, uma grande feira artístico-cultural que começará em 08 de outubro próximo e que terá a duração de dez dias. A Feira de Zócallo fica na parte central da cidade do México e terá uma área destinada preferencialmente ao Ceará, o Estado convidado, de forma a permitir uma maior aproximação entre as culturas mexicana e brasileira, tão ricas e tão desconhecidas uma da outra. É de se acreditar que esta oportunidade seja correspondida e que Fortaleza e o Ceará possam levar uma delegação à altura de nossas aspirações de inserção no mundo, tão duramente perseguida por Floriano Martins, em um trabalho sem trégua. Em segundo lugar, a Universidade Autônoma do Estado de Hidalgo, com uma grande comitiva, veio com professores, pesquisadores e até empresários, para a formatação e assinatura de convênio com a Universidade Estadual do Ceará, bem como contatos com o Padetec, Partec, Unidade de Agropólos, Banco do Nordeste e com a Federação das Indústrias, onde foram examinadas possibilidades de cooperação científica e tecnológica. Estes dois fatos mostram o interesse objetivo que o México tem demonstrado de aproximar-se do Brasil e, por conta de um trabalho que já se faz maduro, especialmente com o Ceará, que tem procurado a superação de dificuldades e dar um salto de qualidade, tanto na área cultural, como em suas exportações, ainda tão pouco significativas. Não basta procurar, é preciso expor e expor-se. João Soares Neto, Cônsul do México no Ceará CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2004. - [DIALOGAR COM MOACYR SCLIAR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dialogar-com-moacyr-scliar/): LIVROS Moacyr Scliar na bienal Fui avisado, na semana passada, por uma das coordenadoras desta Bienal, que tinha sido escolhido para dialogar com Moacyr Scliar. Por que eu? João, deixe de conversa, será sexta-feira, dia 3, às 19 horas. Um beijo e desligou. Fico matutando e lembro que li recentemente uma pequena coleção chamada de “Vozes do Golpe”, da Companhia das Letras, e que um desses pequenos e preciosos quatro livros, era “Mãe Judia”, 1964, de Moacyr Scliar. Certamente, o exercício a que se propôs Scliar é prova de sua reconhecida capacidade de transposição do real para o imaginário e, ao mesmo tempo, de misturar real e imaginário ao criar uma mãe doente mental, que se vê em um hospital psiquiátrico e passa a falar de seu filho desaparecido e da sua vida para uma capela vazia e é objeto de escuta psiquiátrica e política, pois a coisa vem de longe, não é de agora. Relembro de Max e os Felinos e, certamente, de O Centauro e o Jardim, entre outros. E claro, de suas gostosas e sarcásticas crônicas, das segundas feiras, na 2ª página do caderno Cotidiano, da Folha de São Paulo, do qual sou assinante há décadas. Encabulado, ligo para a casa de Moacyr Scliar. Era fim de tarde. Ele está em meio a uma entrevista e falamos rapidamente. Digo, de saída, a verdade. Sou um mero escrevinhador amador de província e que tinha sido designado para um bate-papo com ele na Bienal. Ele responde rápido e vai retomar a sua entrevista. É cobra criada e uma bienal a mais não fará diferença para ele. Para mim, sim, pois estava falando com um ficcionista do tamanho dos pampas com uma experiência literária que faz inveja a qualquer grande escritor latino americano. Traduzido, entre outras línguas, em espanhol, inglês, alemão, holandês, sueco, francês e hebraico, Moacyr Scliar tem prêmios que dariam para tornar célebres muitos escritores. Um escritor para cada prêmio. Quem tem os prêmios Joaquim Manoel de Macedo, Érico Veríssimo, Cidade de Porto Alegre, Guimarães Rosa, Brasília, Jaboti, Associação Paulista de Críticos de Arte, Casa de Las Américas, em Cuba, Pen Clube do Brasil, José Lins do Rego, este da Academia Brasileira de Letras, pode, e tem o direito, de ser consciente de sua capacidade literária e receber de todo o público brasileiro a consagração que merece. E eu metido com ele. Imagina a minha perturbação. Resolvo, de forma audaciosa, mandar um livro meu para ele por Sedex e, após três dias, ligo novamente. Ele ainda não havia recebido o livro. Falei da minha apreensão sobre o nosso bate-papo. Moacyr disse que não carecia de eu me preocupar. E eu tremendo de medo. Tudo bem. Chegou a hora. Trocamos poucos e-mails e estou aqui nesta arena tal qual os cristãos lutando contra leões na Roma antiga. Seja o que Deus quiser. Direi apenas, o que todos já sabem, Moacyr Jaime Scliar é uma das maiores referências da literatura brasileira dos últimos 30 anos e, certamente, esta é a razão básica de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, em 2003, com 35 votos entre 36 eleitores. Sua história pode ser sumariada assim: Seus pais vieram da Besarábia para trabalhar em um projeto de colonização agrícola no interior do Rio Grande do Sul. Ocorre que o projeto já estava no fim e eles mudaram para Porto Alegre onde Moacyr Scliar nasceu no ano em que Vargas, seu conterrâneo, resolveu criar o Estado Novo, sob a inspiração do jurista Francisco Campos com toda a roupagem do fascismo que se instalava na Europa e começava a fustigar os judeus e toda a humanidade. A família morava no Bairro do Bom Fim, área de imigrantes, e Moacyr, além dos ensinamentos básicos recebidos de sua mãe, foi estudar, em 1943, na Escola Iídiche, que viria a ser futuramente o Colégio Israelita Brasileiro. Em seguida, em 1948, Scliar é transferido por sua família para um educandário católico, o Colégio Rosário. Menino, já era o escritor da família e do seu bairro, pois tudo colocava no papel, de pão que fosse. Em 1955, entra na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de onde sai formado no ano em que o seu conterrâneo João Goulart comemorava o primeiro ano de governo. Mal sabia ele o que viria depois. Diploma na mão e já com um primeiro livro pronto, “Histórias de um Médico em Formação”, em que conta a sua experiência acadêmica. Ingressa no SAMDU, uma instituição médica pública que a Revolução resolveu extinguir. Especializa-se em saúde pública com ênfase em medicina sanitária. A sua vocação de médico, exercida em plenitude, o fez estudar a vida e a obra de Noel Nutels e Oswaldo Cruz. Desse estudo, saíram dois livros. A partir de 68, o ano que antecedeu o Ato Institucional nº 05, surgiu “O Carnaval dos Animais” e não parou até hoje. São quase 70 livros entre romances, novelas, contos, ficção juvenil e ensaios, expostos nas livrarias da Bienal do Livro do Ceará que teve a honra de recebê-lo sexta à noite. CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/09/2004. - [CEARÁ: A FORTAL DA CULTURA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ceara-a-fortal-da-cultura/): O mês de julho serviu para debates e embates jurídicos se haveria ou não o Fortal, o carnaval fora de época. Cada dia parecia uma luta por medalha. Hoje, perde. Amanhã, ganha. Acabou havendo. Agora, neste final do mês de agosto, o Ceará vai virando um banco de cultura, do jeito que Lúcio Alcântara gosta e tenta, como intelectual assumido, sedimentar em nossa terra. Estou dizendo banco, no sentido de dizer que a cultura está viva por aqui, pulsando, com a troca de energia que torna as pessoas mais instruídas e valorizadas. De um lado, no aterro da Praia de Iracema, encerra-se hoje o Circuito Cultural Banco do Brasil que tenta popularizar a cultura, torná-la pública, com atividades gratuitas e outras a preços baixos. Armou tendas na praia e apostou em atrair público, especialmente o jovem, aquele que ainda está descobrindo que a curiosidade é filha da informação. E a informação é mãe do conhecimento. E o pai de tudo isso é o saber. Essa coisa que vai ficando sedimentada em nós, depois que todos os nossos sentidos são aguçados e resta lá no fundo da mente. O objetivo era que os jovens de idade e os de espírito deixassem suas tocas, unissem suas tribos e vestissem suas roupas de guerra, os seus “abadás”, nesta Fortal cultural, sem música baiana e sem confusão, e se misturassem, perguntassem, ouvissem, cantassem, discutissem e tentassem aprender e apreender um pouco sobre a arte e a cultura. Ao mesmo tempo, já começou a Bienal Internacional do Livro do Ceará, um charmoso evento que vai até o dia 07 de setembro. Com sede fixa no Centro de Convenções, estará também espalhada por alguns pontos da cidade. Será a Bienal fora da Bienal. É só acompanhar a programação pelo jornal, que dará destaques diários aos acontecimentos. A Bienal tem milhares de livros de autores consagrados, estreantes, clássicos e populares e as muitas editoras vão brigar para vender bem. Haverá mostras, reuniões, shows, atrações musicais, debates, travessias, gastronomia, declamações, instalações, e, claro, até vendas de livros a preços promocionais com a presença e autógrafos de escritores brasileiros e estrangeiros. O livro, desde que lido, é uma excelente moeda de troca no jogo da vida, especialmente neste Século XXI. O livro é também o amigo mais disponível e nunca reclama quando mexemos com ele. Ninguém é solitário se gosta de ler. A Bienal é uma feira livre de cultura, mercado aberto do saber e lugar agradável para se ver gente inteligente ou que posa de “culturette” com alguns livros debaixo do braço ou em uma sacola. Essa é uma programação recomendada até para quem não gosta de ler, o que não é o seu caso, pois se assim fosse você não estaria finalizando a leitura deste artigo. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/08/2004. - [O AMOR ATUAL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-amor-atual/): Somos todos frutos do amor. Seja ele duradouro ou circunstancial. De uma forma ou de outra, temos uma família que nos insere no mundo. Um dia, deixamos de ser filhos, e passamos a ver o amor como a mais legítima forma de estabelecer novos laços afetivos. A partir desse dia, vemos que é preciso encontrar uma pessoa a quem possamos amar, através de um processo de aproximação sucessiva, manter essa relação atraente, não desgastante-sufocante e viva com o correr do tempo, seja curto ou longo. E ao lado do amor, deixar fluir a vida real. Vivemos, quer queiramos ou não, o tempo da pós-modernidade, essa coisa meio chata de definir, mas que pode ser encarada de vários ângulos e aspectos. Por sermos humanos, não temos selos de garantia, somos fracos e falhos. E temos urgência em viver relacionamentos que nos deem prazer, apoio e danifiquem o menos possível os nossos sentimentos. Além de tudo isso, como vivemos contextualizados, não podemos fugir muito das regras sociais da família, grupo e local. Somos comparados e comparamos. Temos que crescer profissionalmente, também. “Isto é básico”, na linguagem atual. Esse mundo pós-moderno (do computador, celular, emprego externo ou em casa, contas divididas, insegurança pessoal e coletiva, caixa eletrônico, carro, liberdade, viagras e hormônios, corpos malhados ou remodelados querendo parar o tempo, motéis e da fragilidade dos relacionamentos) fez o ser humano ficar ainda mais tímido e confuso, admitindo que o seu amor pode se esvair rapidamente. Hoje, além de todas as artimanhas do amor, os casais têm que formar uma sólida base econômico-financeira que os proteja da volatilidade dos empregos e da incerteza do futuro que é a única certeza. Por tudo isso é que já não se estranha que uma pessoa entre em um relacionamento sem encerrar as contas do anterior, de modo a descobrir no outro o que falta “naquele, de antes”. Se der certo, fecha as contas de um e abre outra. Há, ainda, as categorias de casados-mornos ou casados-(a)parentes. Nelas, os parceiros têm consciência do desgaste da relação, esperam que os filhos cresçam ou que o tempo faça um milagre. Os amores, até em casas separadas, e não mais apenas em quartos separados, são indícios da fragilidade da consistência afetiva entre as pessoas. Por outro lado, a liberdade atingida permite ainda a troca continua de parceiros, o que banaliza o relacionamento. Ficar com alguém é distinto de amar alguém. Sair para ver o que vai dar é diferente daquela busca romântica e finita do outro. O verdadeiro encontro ou prazer só se dá com o amor. O tempo não é santo, pois é contaminado pelo dia-a-dia da vida crua e nua, que vemos dentro e fora de nossas janelas. O resto é ato. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/08/2004. - [ESCRITOR OU EMPRESÁRIO?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/escritor-ou-empresario/): Algumas pessoas perguntam por que, ao lado do meu nome aí no título, está a palavra escritor. Ora, certamente, porque estou exercendo aqui neste espaço o ofício de escrever. Não contentes com a resposta, alguns perguntam: mas você não é empresário? Sou, também. Ninguém tem que ter obrigatoriamente um só ofício, um só dom, um só problema e uma única solução. Todo o saber - ou a prática acumulada - vai sendo dirigida ao que se precisa para viver e também ao que nos dá prazer. Escrever, para mim, foi e é uma das atividades mais prazerosas. Tentei ser pianista, não consegui. Só pintei um quadro e fui um esportista de terceira categoria, até um braço quebrei jogando vôlei. Agora, escrever foi um hábito que veio desde a adolescência, quando já lia muito, fazia diários e imaginava que escrevia crítica de cinema. De repente, estava formado e precisava cuidar de ser advogado ou administrador. Já tinha trabalhado em jornal e sido correspondente de uma revista. Optei por ser administrador e fui juntando a pouca experiência com muita pretensão e destemor. Sem que me desse conta, virei empresário. Foi duro, muito duro. Deus sabe. Isso foi há 35 anos. Em março de 1969 era empresário com a coragem e a cara e, logo em maio, casei. A família é a base de tudo. No dia 31 de agosto do mesmo ano o Presidente Costa e Silva tiveram um derrame e assume uma junta Militar. O Brasil pára. E eu fico tonto. Decidem escolher Médici e o país volta a funcionar. Eu tento acompanhar o ritmo. Em 1974 o Gen. Geisel assume o poder, coincidindo com o fim do milagre econômico. Eu procuro entender e fico aturdido. De Geisel para cá já tivemos 09 presidentes (Geisel, Figueiredo, Tancredo, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique e Lula). Esses 09 presidentes já criaram 09 moedas diferentes, tivemos 05 planos econômicos e 18 ministros da Fazenda. Todos tinham a pretensão de salvar o Brasil e fizeram o que sabiam. Eu é que ia entendendo menos. Ora, com tanta confusão, crises econômicas, impostos novos e problemas para resolver, é preciso que um empresário – ou qualquer outra pessoa - procure uma válvula de escape. A minha sempre foi ler e escrever. Mania essa, como já disse, vinda de longe. Em meio a jornadas de trabalho de até três turnos, viagens de todas as naturezas e para quase todas as partes do mundo, o livro sempre foi a companhia indispensável. A par disso, ia escrevendo em máquinas de escrever, em todo pedaço de papel que encontrava, até que o computador pessoal entrou na minha vida. Sem querer - ou querendo – já faz mais de 20 anos que publico artigos, sempre aos domingos. O grande escritor Monteiro Lobato também era empresário e brigão. Tá explicado? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/08/2004 - [A ARCA, OS VALES E OS MONTES](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-arca-os-vales-e-os-montes/): Os que nos conhecem verdadeiramente ou de perto, sabem que não somos profundos em nada. Somos, quando muito, curiosos, especialistas em uma coisa só ou, ao contrário, em generalidades. Lemos muito de algo ou um pouco de tudo e, consequentemente, não aprendemos muito. De qualquer modo, pinçando, aqui e ali, alguma coisa do que lemos e vivemos, somada à nossa (in)experiência, vamos repassando uns aos outros. Um exemplo pessoal disso: faz cerca de vinte anos que procuramos ler sobre psicologia e psicanálise. Mera curiosidade ou seria acaso (Freud –ou Jung? - diz que não há acaso)? É um campo vasto, difícil, polêmico e apaixonante. Já andamos perpassando os olhos por Breuer, Freud, Jung, Melanie Klein, Lacan e, recentemente por Adam Phillips, um psicanalista inglês contemporâneo que escreve bem e fácil. A par disso, temos, aqui e ali, alguns amigos e conhecidos que são bons profissionais da área com os quais, eventualmente, trocamos ideias e livros. Assim é com Thaís Oliveira, Laéria Fontenele, Airton Monte, Contardo Calligaris, Caterina Saboya, Malvine Kalcberg e Nadiá Ferreira, esse rol de gente que sabe o que diz e com quem temos, mesmo que eventualmente, o prazer de conversar, discutir, ler ou passar/receber e-mails. Não se trata de mera troca de figurinhas, mas prazer e curiosidade de saber ou aprender. A esses, de uma forma ou de outra, procuramos atiçar com questionamentos teóricos ou falar sobre a vida e a morte de todos nós. Das correspondências, livros e artigos que escrevem, papos e telefonemas que trocamos, ousamos dizer que psicólogos, psiquiatras e psicanalistas não estão imunes a dramas e dilemas, do mesmo modo que ser da área de saúde não confere a ninguém garantia de bem-estar físico e, tampouco, os advogados vivem obrigatoriamente seguindo as leis. Somos todos, ao que parece, independente do que fazemos, passageiros dessa arca imensa, confusa e maravilhosa que é o existir, em meio a procelas. Clamamos por um porto ou um mero trapiche, mas parece que somos condenados ou eleitos a viver- e a morrer- longe da segurança da terra como terminaram os personagens centrais do livro de Gabriel Garcia Márquez, “Amor nos tempos do cólera”. E isto se tivermos a sorte de encontrar, no correr da vida, alguém que se arrisque a subir a escada bamboleante que leva à arca, onde marcamos encontro ou eventualmente nos achamos. Daí que ninguém se sinta abatido por ficar triste ou com dificuldade, pois estamos, certamente, ou na arca ou, se em terra, entre vales e montes que nos levam para baixo e para cima, com ares diferentes, conforme correm os fatos, atos e a nossa parca filosofia concebem. Por outro lado, tanto a arca nas águas como a terra, com os seus vales e montes, podem propiciar visões e momentos breves ou longos de alegria e deleite que ainda nos fazem crer nas pessoas e no significado da vida. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/07/2004. - [O MÉRITO INDUSTRIAL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-merito-industrial/): Fico feliz quando vejo pessoas jovens determinadas a ser empresários. Sei como isso acontece. É aquela vontade de ser independente, dono do próprio nariz e de escolher uma área para atuar. Não vai estudar para concursos públicos, não quer ser profissional liberal, o que deseja é criar, transformar e empreender. Tirar algo do nada e torná-lo real, palpável, mesmo que seja uma fábrica de velas. A pessoa que monta, por exemplo, uma fábrica de velas, compra a cera, faz ou manda fazer as formas, um grande fogão e panelões, cordão para o pavio e coloca um nome. Digamos, velas celestiais. O dono da fábrica de velas celestiais sabe que está criando algo para vender, disputar o mercado e, se tiver qualidade e preço, permanecerá. Caso contrário, a tal da mão invisível de que falava Adam Smith se encarregará de por termo à sua iniciativa. As velas servirão para iluminar a morte da empresa. Imagine que uma pessoa jovem, em vez de fazer velas, resolva, digamos, montar uma pequena indústria de confecções. É um prazer imenso estudar o mercado, escolher modelos, mandar fazer moldes, tecidos, aviamentos, embalagem, marca, distribuição, ajustar as máquinas em uma linha de produção e contratar gente, pois sem gente boa ao lado não se vai a lugar nenhum.Não importa o tamanho ou o negócio que se tenha, o admirável é que o traga seguro na mão, isto é, saiba como fazer para torná-lo rentável e vivo, ano após ano. Este é o grande segredo, pois as empresas morrem muito cedo no Brasil. Tão logo alguém monta um negócio e, orgulhoso, coloca a placa na frente, chega o fiscal municipal perguntando pelo alvará de funcionamento, o IPTU e a vigilância sanitária sai para ver banheiros, vestiários e refeitório. Depois, vem o fiscal estadual cobrando o ICMS e os livros de entrada e saída de mercadorias. Em seguida e, muitas vezes ao mesmo tempo, entra o Auditor da previdência pedindo as carteiras dos funcionários, os recolhimentos disso e daquilo, enquanto o pessoal do sindicato da categoria dos empregados coloca um alto-falante na porta e pede aumento, diminuição da jornada de trabalho, produtividade etc, mesmo que as vendas tenham despencado, o estoque cresça e os clientes não paguem. Tem também a fiscalização do IPI que chega junto. Se ocorrer de dar um lucro, o imposto de renda fica com um terço do que você produziu. E até agora não se falou ainda do tempo para cuidar da clientela, financiamentos bancários, de certos concorrentes que querem vê-lo arruinado, e da família que cobra, com justo direito, atenção e não entende porque não tira férias. Respira fundo, vê que já não cuida muito bem do seu corpo, dorme mal e, muitas vezes, recorre à bebida ou tranquilizantes para esquecer os problemas que voltam no dia seguinte. Essa estória acima não é para fazer ninguém desanimar, mas para vibrar com os jovens capazes e corajosos que, mesmo cientes de tudo isso, resolvem ser empresários. Industriais, principalmente. E enaltecer os que, na última quinta-feira, receberam o Mérito da Federação das Indústrias, vencendo o tempo e todas as suas barreiras, injúrias, invejas, desapontamentos, a imensa e desigual carga fiscal brasileira e gerando empregos. Eles sabem como isso é gratificante e, paradoxalmente, difícil de ser compartilhado. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/07/2004. - [CERVANTES E AS INJUSTIÇAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cervantes-e-as-injusticas/): A primeira vez em que estive na Espanha foi em 1965. Data desse tempo a minha aligeirada iniciação a Miguel de Cervantes, o mais célebre escritor espanhol. Foi numa longa viagem de ônibus, cortando todo o país. Comprei, num sebo, um barato e velho exemplar de D.Quixote. Outras oportunidades vieram depois. Nenhuma, como a que fiz em outubro passado, em que por erros e acertos, novamente de ônibus, andei pela região da Mancha, onde a imaginação de Cervantes, no ano de 1604, foi plantar, em meio a moinhos, a figura de D.Quixote, um desengonçado cavaleiro que via além do que era permitido à época, em que a inquisição reinava. Parecia que estava vendo o esboço errático de D.Quixote nos arredores de Albacete. Miguel de Cervantes tinha 57 anos em 1604, muita idade para a época, quando decidiu escrever D. Quixote. Já havia lutado, viajado, escrito, sido acusado e preso. Restavam-lhe uma mão, um pífio emprego e alguns fracassos literários. Parece que a sua desdita - literária e pessoal - foi o condão para criar uma prosaica história que se mantém viva 400 anos depois. Do seu gênio saiu o primeiro e um dos maiores romances da era moderna. A história de D. Quixote é simples: um velho e exótico fidalgo de província que se contentava em ler histórias de cavalaria, resolve incorporar um herói e se descobre sonhador, apaixonado, perdido e desolado. Veste-se com uma ultrapassada armadura e uma lança e sai a defender uma utopia, guerreando contra as injustiças. Apanha muito, mas não desiste de seus sonhos, dentre eles o amor idealizado por uma camponesa (Dulcinéia), que ele acredita ser a mais bela das mulheres. Não adianta que o padre e o barbeiro queimem seus livros. Quixote resiste a tudo, monta em seu cavalo (Rocinonte) e consegue a parceria e a fidelidade de Sancho, uma espécie de contraponto para as suas tristezas, quimeras e desventuras. Ao final, é ferido em duelo com Carrasco, recolhe-se e agoniza sem o amor de Dulcinéia (“Quem tu és não importa, nem conheces o sonho em que nasceu a tua face”, Saramago). E, mesmo assim, antes de morrer, os seus delírios realçam a ilusão e a crença nos seus valores e utopia. Pois bem, não é que D. Quixote e Cervantes foram, recentemente, tema central de um seminário (“A Justiça e D.Quixote”) entre juízes brasileiros no Rio de Janeiro, com a participação do Ministro Edson Vidigal, presidente do Superior Tribunal de Justiça, em que se rediscutiu a necessidade das pessoas manter utopias. Não basta a realidade crua e fria do dia-a-dia, é precisar sustentar acesos os sonhos, as utopias de combate à injustiça. E isso é bom, quando parte de juízes que precisam dar aos brasileiros alguma esperança em meio a tantos problemas reais que levam ao desencanto. Para o Ministro Edson Vidigal, “precisamos de um sonho para nos manter de pé. Por que então não sonhamos com um Brasil mais alegre, mais fraterno, mais desenvolvido e com menos sofrimento e ansiedade?”. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/06/2004. - [SOBRE NATÉRCIA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sobre-natercia/): Natércia Campos é mais do que se sabe. É preciso ler e reler o que ela escreveu, para conhecer a essência de sua obra. Não vale passar os olhos. Tampouco falar dos prêmios que ganhou. Urge ver o que está dito e o mistério tecido em tudo que escreveu. É preciso palmilhar as palavras e os seus significados em Iluminuras, Por Terras de Camões e Cervantes, A Noite das Fogueiras e A Casa. Não basta dizer que Natércia Campos era da Sociedade das Amigas do Livro, Academia Cearense de Letras e Academia Fortalezense. Nestes dois últimos anos, foi a mestra que conduziu com clarividência, energia e objetividade os passos que a conduziram para o eterno neste 02 de junho de 2004. Caterina, Emmanuela, Rodrigo, Clarissa e Carol, a família e os amigos sabem o quanto Natércia foi grande e que o lamento nunca passou por suas palavras e mente. João Soares Neto, da Academia Fortalezense de Letras CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/06/2004 - [ESSES, SÃO OS AMIGOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/esses-sao-os-amigos/): A comemoração dos 55 anos do cronista Airton Monte, alardeado por ele e amigos, entre os quais ouso me incluir, dá mote para este artigo/crônica. Leva a que cada um dê um balanço nas amizades que vão surgindo desde o tempo de ‘pratrasmente’ até os dias da maturidade. E, nesse tempo todo, se conhece muita gente. Algumas, inexplicável ou explicavelmente, são eleitas como especiais. Esses, são os amigos. É uma espécie de seleção natural, não adianta forçar. Amizade, de verdade, independe de tempo, duração, dinheiro, poder, sexo e circunstância. Ela é aquele realce espontâneo que a própria vida vai dando em algumas pessoas com as quais interagimos. Não pelo que têm ou são, mas pelo bem que provocam, pela empatia que surge e a confiança que se constrói sem medo. De repente, uma pessoa passa a ouvir você com mais atenção, entender os seus defeitos, reconhecer as suas razões, sem justificá-las, e cria-se o liame. Certamente, as pessoas têm a tendência de privilegiar amizades com o sexo oposto. Isto não quer dizer que homem não possa ser amigo de homem e mulher de mulher. Claro que pode. O que vale na amizade é o selo do entendimento que não privilegia mentira, trama, desonestidade e interesse. É, acima de tudo, o enlevo de saber-se ligado, legitimado, sem ser usado, mesmo que exista distância e a louca vida que se vive limite os encontros. Essas pessoas amigas são as que colocam água na fervura da nossa desventura, funcionam como moderadores e fazem ar de censura ou aprovação, muitas vezes sem precisar dizer uma palavra. Não é amigo o que fuxica, intriga, disputa, bajula, açula ou dá corda. O amigo tenta ser paciente, ponderado, mesmo se mordendo por dentro e já pense saber a resposta antes que o outro termine. Ter amigos é, neste mundo cão, uma dádiva. São como escudos que nos protegem sem que estejamos presentes, têm conhecimento das nossas fraquezas, mas não tripudiam sobre elas. Ao contrário, nos transmitem a sua força. Pois bem, entre os poucos amigos escolhidos ou que a vida, com a sua mão imponderável, nos dá, há sempre um(a) que, em determinado momento ou situação, precisa de mais atenção. Essa é a hora de perceber isso e estar junto, sem precisar ser alertado ou cobrado. Daí ser sempre bom não alardear o que se faz, diz ou sente. Achegue-se sempre e deixe que a energia da benquerença possa transmitir, mesmo calada, os seus sentimentos e atitudes. O tempo sempre põe as coisas no lugar e a incerteza que é própria do estar vivo não deve nos afligir, mas consolidar raízes que deixam um legado de confiança mútua. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/05/2004. - [A NOVA MÃE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-nova-mae/): O amigo Edison Silva instiga: ´e aí não vai falar sobre o Dia das Mães?´ Claro que vou falar sobre o Dia das Mães, mas desejo fugir do estereótipo. Nós, homens nascidos ainda nos desvãos do Século XX, tendemos a ter apenas uma imagem romântica da mãe. Somos, na maioria, presos a padrões familiares que o tempo vai se encarregando de mudar. Imaginava-se, no tempo dos nossos pais e até bem pouco, que casar - e ser mãe - era o único destino de quase toda mulher. Ela vivia de ciclos: nascia, crescia, casava, paria, cuidava da casa e dos filhos, envelhecia e morria. De uns tempos para cá, a história mudou. A mulher estabeleceu, por suas próprias conquistas e méritos, parâmetros diferentes em sua relação com o homem. O homem deixou de ser ´o senhor marido´ e mantenedor. Passou a ser o companheiro, o parceiro e alguém com quem também disputa o mercado de trabalho. Negligenciada por milênios, a mulher se descobriu com instrução, percepção, talento e conhecimento para mudar, por sua conta e risco, a imagem recebida de suas avós e mães. Hoje, lúcidas e ciosas de seus direitos, as mulheres já preferem até permanecer com seus nomes de solteira, programar filhos para o tempo em que achar certo, dividir as contas, casar - se for o caso - com separação de bens e viver uma relação mais honesta e clara. O amor deve durar o tempo que tiver que durar. E lutam para que seja duradouro. Os filhos, entretanto, não são mais joguetes para a sustentação de uma relação que, por várias razões, pode ter falido. Essa nova face da mãe é fruto da afinidade com o seu companheiro que deve se basear na cooperação, relacionamento, redistribuição de tarefas e encargos. Enfim, na comunicação que possa superar suas distinções de percepção e atuação, sem falar nas orgânicas e psíquicas que sempre existirão entre homem e mulher. Não pensem que esta nova mãe não tem medos, fragilidades e sonhos. Os medos e fragilidades, ela tenta administrar. Os sonhos são vividos, mas cuida do real que está ali a pedir respostas e ações concretas de responsabilidade. Não pensem que ela não gosta de ser tratada como princesa, mas sabe que seu homem também tem o lado sapo. Não duvidem nunca de seu amor pelos filhos. Passará noite acordada a ninar a criança insone, mas cuidará também do seu dia, pois o trabalho é uma das bases da sua independência. Esta constatação não é reparo ou agrado, mas a quase certeza de que essa nova mãe poderá ajudar a mudar a sociedade em que se viveu até agora, em que falsos padrões morais prevaleciam para manter aparências que, pouco a pouco, desmoronam. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/05/2004. - [UMA CARTILHA PARA AS ELEIÇÕES](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/uma-cartilha-para-as-eleicoes/): Em artigo que publiquei em 1987, dizia que os eleitores não têm o direito de reclamar dos políticos eleitos. Eles foram eleitos por nós. Os eleitos são, quer queiramos ou não, parecidos conosco. Agora, neste 2004, vai haver uma nova eleição. A que escolhe vereadores e prefeitos. Vereadores são delegados diretos do povo, mas não despachantes a serviço de eleitores. Os prefeitos são gestores, administradores e controladores das várias e complexas faces dos municípios. Nada de novo no que escrevi, mas esta obviedade precisa ser entendida e vivenciada por eleitores e candidatos a vereador e a prefeito. Por incrível que pareça, algumas pessoas querem ser vereadores porque não deram certo em outras atividades. Outros políticos acreditam que exercem um cargo vitalício. Ser vereador é uma tarefa nobre, com tempo certo, e pressupõe que a pessoa que exerce tal cargo tenha a dimensão da sua responsabilidade pública. O prefeito é um delegado-empregado da sociedade e a ela deve satisfações. Tudo isso seria mais bem entendido se os partidos políticos tivessem a humildade de dar cursos de iniciação política e, principalmente, cuidassem que os seus candidatos aprendessem, pelo menos, rudimentos de direito eleitoral e ética. Djalma Pinto, autor do bem elaborado livro “Direito Eleitoral”, publicado em 2003 pela Editora Atlas, procura dar, ao longo das suas 346 páginas, noções gerais sobre direito eleitoral, justiça eleitoral, direitos políticos, representação popular, partidos políticos e por aí vai. Ocorre que, mesmo tendo adotado uma linguagem simples, certamente não será lido pela maioria dos candidatos a vereador e prefeito. Seu livro serve basicamente, e é dito na contracapa, como leitura complementar para as disciplinas de Direito Eleitoral, Direito Constitucional e Ciência Política dos cursos de graduação em direito. Por esta razão, tomei a liberdade de sugerir ao prof. Djalma Pinto que transformasse seu livro em uma cartilha simplificada com perguntas e respostas. A ideia parece ter sido discutida também com a editora. Fui adiante e repassei a ideia para a Escola de Formação de Governantes, que está além dos partidos políticos. Dessa forma, pelo menos na minha ótica, seus úteis ensinamentos poderiam – ou poderão - gerar uma aura benfazeja junto aos partidos políticos, candidatos, Justiça Eleitoral e até para a mídia que a repassaria para todos os eleitores. Ora, se não sei o que vem a ser um vereador, qual o compromisso que tenho como candidato? Se não conheço os limites da responsabilidade fiscal como me atrever a ser prefeito? Eleitores e candidatos precisam de mais informações, menos propaganda enganosa e ter pactos com a sociedade. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/04/2004. - [A PAIXÃO DE CRISTO OU O FEL DO MEL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-paixao-de-cristo-ou-o-fel-do-mel/): Segundo qualquer dicionário, a palavra paixão significa sentimento exagerado, afeto violento, sofrimento prolongado e outros que tais. Neste sentido, a paixão de Cristo que, segundo a liturgia cristã, se encerra hoje com o domingo de Páscoa, foi o sofrimento a ele infligido pelos judeus, através de seus sacerdotes, com a passividade de Pôncio Pilatos, que representava o poder dominante de Roma. Roma dominava quase todo o mundo da época, diga-se de passagem. Tudo isso está na Bíblia, no Novo Testamento, no evangelista João, narrado como se fora uma história com começo, meio e fim. Esse evangelho, certamente, foi o material básico para Mel Gibson montar a estrutura dramática e o roteiro de seu discutido e visto filme “A Paixão de Cristo”. Na verdade, Mel Gibson diz ter se baseado em Mateus, embora, no meu entendimento, esteja despistando. O evangelho de João- que viveu na época de Cristo - parece, se lido apenas com cuidado, um roteiro básico. Basta, por exemplo, observar: “E era a preparação da páscoa, e quase à hora sexta (meio-dia); e disse (Pilatos) aos judeus: Eis aqui o vosso Rei. Mas eles bradaram: tira, tira, crucifica-o. Disse-lhes Pilatos: Hei de crucificar o vosso Rei? Responderam os principais dos sacerdotes (judeus): Não temos rei, senão César (o imperador romano que subjugava a pobre região judaica)”. Era a covardia do dominado em face da opção dada pelo preposto do poder dominante. Tudo isso está nos capítulos 18 a 21 de João. É só conferir o filme, está exatamente igual. A força da trama urdida por Mel Gibson é tão grande que não se fala muito do ator James Caviezel que interpreta, de modo convincente, o papel de Jesus Cristo em suas doze últimas horas de vida, tampouco se comenta o sóbrio desempenho da atriz Maia Morgenstern que faz uma Maria, a mãe de Jesus, equilibrada e nada piegas. O que há a reclamar na produção profundamente bem-sucedida de “A Paixão de Cristo” é o exagero na flagelação de Jesus. Para uma psicanalista amiga, tal exagero chegaria às raias do sadomasoquismo. Eu digo que essa tal brutalidade foi o fel do Mel Gibson. Na visão hollywoodiana, certamente esse fel ou a flagelação exacerbada foi o condão para gerar toda a polêmica – prévia e atual - que faz do filme um sucesso de bilheteira em todo o mundo e, ao mesmo tempo, deu aos cristãos, principalmente, oportunidade de revisarem os fundamentos de sua fé, após 2000 anos de história. Algo que persiste com tanta força, merece a atenção de todos, independente do fel do Mel. A propósito, feliz Páscoa, que vem a ser comemoração anual dos cristãos em memória da ressurreição de Cristo, após a sua paixão. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/04/2004. - [A POLÍTICA DA CULTURA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-politica-da-cultura/): Aqui em Fortaleza, ali no Centro Dragão do Mar, reuniram-se, na semana passada, embaixadores, adidos culturais e cônsules de cerca de 30 países para discutir, no Fórum Cultural de Cooperação Internacional, a posição da cultura neste mundo de tantos atentados, guerras e crises econômicas. Tudo isso se deu graças a uma iniciativa do governador Lúcio Alcântara, materializada pela Secretaria de Cultura e secundada pela Sociedade Consular. Foram três dias de muita troca de informações, discussões e entendimento, entre pessoas de línguas, histórias e formações distintas. Tinha gente da Finlândia ao Suriname. Da China à Costa Rica. Tudo começou com uma demonstração da realidade cearense com palavras, filme, coral, orquestra e a apresentação de uma suíte de “Duas Estações” pelas meninas da Edisca, dirigida pela Dora Andrade. Era o Ceará se pondo a nu, do Cariri ao litoral, mostrando as entranhas, carências e também o seu grande potencial. Nada de sofismas ou humildade disfarçada. Era como se toda a sessão inaugural fosse uma anamnese e tivesse uma mensagem: nós somos assim e assado, mas temos sonhos e capacidade. E o que se viu foi um contrato espontâneo de adesão sendo firmado e visualizado no gestual e aplauso dos estrangeiros que iam absorvendo e se maravilhando com o mostrado. Depois, vieram as sessões de trabalho. Muito trabalho. Tudo sob a coordenação da Secretária Cláudia Leitão, que soube dar o seu recado de forma certa, altiva e com aprumo. Cada país deu o seu quinhão desvendando e contando a história de sua formação cultural. E o fizeram de modos diversos, como era de esperar. Muitos, a maioria, com graça e estilo, outros, poucos, de forma enfadonha e ultrapassada. O resultado foi profundamente positivo, especialmente graças a uma plateia miscigenada. Intelectuais, professores, estudantes e curiosos do Ceará agregaram-se a diplomatas e deram expressão local a um evento internacional de excelente nível. Ao fim e ao cabo, o Ceará pode ter saído desse Fórum com uma nova e positiva imagem internacional, mercê da estrutura montada, do jeito simples de ação e da qualidade final das discussões. É preciso apenas que as pessoas nele envolvidas tenham a capacidade de decidir. Ficou clara a percepção de que a cultura não deve e nem pode ser considerada um apêndice, mas um assunto de Estado e, como tal, tratada com prioridade, valorizando as suas manifestações artísticas, acadêmicas, científicas, folclóricas e populares, como política de inclusão social. Os frutos da cultura percorrem caminhos diversos dos tradicionalmente conhecidos, mas podem ser uma âncora importante para a paz e entendimento neste mundo tão desigual e violento. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/03/2004 - [A CERVEJA E O SUPERMERCADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-cerveja-e-o-supermercado/): Houve um tempo, e não faz muito janeiro, em que as pessoas conheciam os donos das empresas, mesmo as grandes, de sua cidade. Sabiam suas histórias ou o que imaginavam ser, através de boatos e fofocas, as suas estórias. Depois, as ditas grandes empresas da cidade foram sendo incorporadas ou incorporando empresas regionais. Em seguida, as empresas regionais foram tentadas a ser maiores e viraram nacionais. Um dia, bem recente, as multinacionais ou transnacionais, como chamam agora, resolveram, por conta da paradeira do Primeiro Mundo sair comprando por países afora o que achavam apetitoso ou estava dentro do seu nicho - esta é a palavra que usam - de mercado. Todos sabem que Adam Smith, ao escrever “A Riqueza das Nações”, falou na tal da “mão invisível do mercado”. Ninguém vê a tal mão, mas ela não se mete em cumbuca. Só escolhe o que é bom e vai comprando, comprando, de forma invisível. Pois não é que, o supermercado que era do “seu Antônio”, já passara por outras mãos, é agora da maior multinacional do mundo de sua área. Silenciosos vieram os analistas, com os seus tradutores e os seus “notebooks”, fizeram as contas, disseram que pagaram e já estão mudando o nome. Tudo em nome do progresso, da economia de escala, da quebra de barreiras e da abertura internacional, pois este Brasil precisa muito de dinheiro de estrangeiro para pagar os juros que deve a estrangeiros. E como deve. Do mesmo jeito, e no mesmo tom, há bem pouco tempo as cervejarias número 1 e número 2 se fundiram. Sem mudar os nomes das marcas, criaram uma grande empresa que se meteu a multinacional, comprando outras menores no Brasil e a número não sei o que da Argentina. De repente, vieram, uns silentes belgas e vapt: compraram o controle da 1, da 2 e de tudo o mais. Deram declaração nas tvs, compraram páginas e páginas de jornais e revistas para explicar um “acordo de acionistas” em que os brasileiros ainda continuarão co-gerindo, apesar de minoritários. Pois sim. O que se explica demais nem sempre é o mais certo. Estas duas estórias, aparentemente engraçadas, são o retrato do que se vive hoje aqui e ali. Enquanto os josés, antônios e franciscos, que ainda são pequenos ou médios empresários continuam lutando para sobreviver, arranjar compradores, descontar títulos em bancos, receber o que lhes devem, acertar as contas com um fisco impiedoso e draconiano, as grandes empresas e as ditas transnacionais acercam-se de consultores fiscais, planejamento financeiro, não pagam impostos, até que se transformem, quem sabe, em um novo grande engodo ou escândalo, como aconteceu meses atrás no país onde se originou a pizza e veio reverberar aqui onde muita gente gosta de pizza. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/2004. - [CÂNCER: DE LEIGO PARA LEIGOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cancer-de-leigo-para-leigos/): Estou convivendo com duas pessoas queridas que lutam contra o câncer. Um homem e uma mulher. Ambos maduros e que, apesar de inteligentes, não se cuidavam bem. O homem não fazia os exames rotineiros para detectar o câncer de próstata. Quando foi cuidar, o câncer havia se instalado e ameaçava a área periférica. Chorou, reclamou, desanimou. Eu e outras pessoas amigas fomos duros e ele se mandou para São Paulo. Fez radioterapia, reclamava muito dos enjoos e do sofrimento. Voltou mais magro e com o marcador (psa)ainda alterado. Tomou injeções de hormônio na barriga e já está com ótimo peso, marcador (psa) no nível normal, pintou o cabelo, anda de moto nos fins de semana e trabalha com afinco. A mulher parece que deu azar. Apareceu uma “tal de água na barriga”, já era o câncer saindo da área primitiva e subindo. Enfrentou e enfrenta tudo com muita raça, perdeu a conta de quantas cirurgias já fez e continua lutando sem medo. Faz quimioterapia em casa, utiliza os recursos da alopatia e da homeopatia e tem um “savoir-vivre” de fazer inveja. A sua família faz a diferença. Não estou devassando a privacidade de pessoas queridas. O que estou tentando fazer é utilizar este espaço em que escrevo, para alertar a todos, mulheres e homens, da necessidade de ser informado fazer prevenções de saúde. Basta reservar algum tempo e fazer os exames por um plano de saúde ou até pelo SUS. O que não se pode é ignorar que existem formas de prevenir. Admitindo, só para continuar o papo, que alguém seja surpreendido por um câncer. Chore, reclame, dê muro na parede. Quando o choro secar, vá à luta. Não se considere derrotado de véspera. Há muitos recursos médicos, desde que bem ser utilizados e no tempo adequado. Se você não tiver dinheiro, venda qualquer bem, reúna a família e os amigos, conte a sua história e peça ajuda sem medo. Se não tiver quem ajude, vá atrás de seus direitos de cidadão na Secretária de Saúde, no Decon ou denuncie a um promotor ou procurador. O direito à cura é fundamental. A única coisa que um doente com câncer não pode fazer é desanimar e deixar que a depressão roube as suas defesas. Pelo contrário, descubra-se forte, pergunte, leia, encha o saco dos médicos, converse com quem já passou por algo semelhante, e vá em frente, com fé e sem essa de coitadinho. Antes de terminar, se tudo estiver bem com a sua saúde, dê graças a Deus e, se for o caso, cuide para não ficar obeso, ande, mantenha uma dieta balanceada com frutas, legumes e carnes brancas, apague o cigarro, modere no álcool, informe-se, não esqueça dos exames de rotina e faça as pazes com quem brigou. Ódio é a pior doença. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/02/2004 - [Cidade de Deus ou do Diabo?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cidade-de-deus-ou-do-diabo/): Gosto muito de cinema e estou orgulhoso pelo fato do o Brasil ter quatro indicações (direção, roteiro, edição e fotografia) para a festa do Oscar deste ano. E ficaria muito mais se o filme escolhido não fosse ´Cidade de Deus´. Vi o filme de Fernando Meireles com atenção e respeito, mas confesso que não encontro razões para tanto incenso a uma produção que tem como base a banalização da violência, o uso do que se convencionou chamar de ´cosmética da fome´, no dizer da professora carioca, Ivana Bentes. Para ela, ´o filme vende uma imagem caricatural, de traficantes negros animalizados, assassinos por natureza. Para ficar no passado recente, desde o filme ´Central do Brasil´, de Walter Salles, outro discípulo da ´cosmética da fome´, que o Brasil persegue as estatuetas do Oscar. O país mostrado nesses dois filmes é parte da realidade nacional, mas não é o que se poderia chamar de algo positivo ou alavancador da autoestima brasileira. São, ao contrário, denunciadores da desigualdade que temos e precisamos urgentemente reparar, mas não são bons produtos de exportação. Estão mais para a execração, ainda que lastreados em fatos reais. A imagem brasileira, já tão desgastada e propositadamente aviltada por parte das elites dos países desenvolvidos, parece ser compartilhada por cineastas que a usam para retratar apenas aquilo que nos caracteriza como ´terceiro mundo´. Aqui não é nenhum paraíso, sabe-se disso. Tampouco o Brasil é uma grande ´Cidade de Deus´. Há muito argumento, além das favelas, o agreste esquálido do Nordeste e o crime organizado ou desorganizado, que são as motivações essenciais de quase todos os últimos filmes brasileiros. Não se trata de esconder as nossas mazelas ou deixar de mostrar a face discriminatória de grande parte da sociedade brasileira. Mas há tantos outros ´brasis´ e enredos a serem mapeados para filmes de boa tessitura, que chega a parecer ranço ou aproveitamento esse renitente e repetido uso do que temos de mais feio, sob o ponto de vista estético, mais cruel, sob o aspecto social e segregacionista, na visão racial. Se eu estiver errado, peço desculpas, mas seria bom que os filmes brasileiros fossem não apenas denunciadores das graves e grandes desigualdades sociais, mas, igualmente, tentassem melhorar a nossa imagem externa tão combalida, repito. Que venham as estatuetas, se possível, mas é urgente se rediscutir o enfoque da filmografia brasileira tão ciosa de apoios do governo e de mecenas, mas imbricada apenas com o lado ´noir´ de uma nação colorida e diversa que precisa respirar, viver e sonhar com ares menos catastróficos e densos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/02/2004. - [RECEITA DE BOLO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/receita-de-bolo/): Pediram-me que escrevesse sobre a vida. Eu que ainda não aprendi. Vão alguns pensamentos alinhavados sobre vários ângulos do ato de viver. É uma mera receita de bolo. Posso ter errado nos ingredientes e nunca soube cozinhar. Apesar disso, desobrigo-me. Leia devagar. Frase por frase, como se fossem parágrafos. Aja com clareza, faça planos e tente atingi-los, pode ser hora de acreditar em você sem, necessariamente, descrer dos outros. Não esqueça os detalhes, simples números são o segredo para abrir um grande cofre. É preciso mesclar as coisas da vida: não se pode viver só estudando, trabalhando e sonhando. Tenha alegria, misture-se com gente, ore, cante, troque energia. Não se ache o melhor ou pior, cure a sua ferida e ria do que passou. É hora de alegrar-se, a tristeza é feia. Acredite, não há tantas certezas. Transforme suas dúvidas em atos de fé e vá em frente. Não tenha medo ou se tiver, enfrente as questões no tempo certo. O amor pode chegar derrubando porteiras ou manso e mexe com todos os seus sentimentos: curta-o, breve ou longo que seja. A mentira sempre retorna e você passa a desacreditar em si próprio. Os outros são você do lado de lá: fique no lugar deles e sinta. Sem amigos, você é um carro sem combustível: não vai a lugar nenhum e sobra estacionamento. Creia: sem acreditar que as coisas darão certas elas começarão com erros. Você é o seu maior torcedor: vista a sua própria camisa e atue para ganhar. Conheça-se: é difícil, mas tente. Não se vista para os outros. Vista-se para agradar a você e, se puder, aos outros. Estilo é quando você se repete. Espere: há situações em que precisa cautela; pondere, mas não pare. Siga sempre, mesmo que tenha que mudar de estrada ou de sapatos. Respire, puxe a sujeira que está dentro de você e expire devagar. Imagine o que quer e inspire fundo. É preciso trocar de ar, sempre. Ouça música, boa música. Boa música é a que você ouve sozinho e gosta. Faça tal qual o leão: seja forte, mas calmo. Cace o que precisa para sobreviver. Respeite e ame os mais velhos. Eles são iguais a você. A diferença está no seu olhar. Reexamine-se, olhe-se, questione-se, corrija-se. Todo o dia é hora de rever o errado e mirar o futuro. Não reclame da dor no braço, lembre-se do maneta. Levante cedo, respire fundo, dê língua para o espelho e enfrente tudo. Descalce os sapatos, pise no chão e sinta a energia da terra. Ande. Mexa-se. Você é terra, mesmo que precise de ar, água e luz. Tente acertar. Não deu certo, paciência. Vá em frente, ninguém sabe o que encontrar em rua nova. Mude de rua, mude de lua. Você é a história. Descubra a resposta, ela está no bolso da sua razão ou do seu sentimento. Compartilhe, especialmente atitudes. Pense sempre nos outros, mas não esqueça o seu maior companheiro: você. Ficar calado, às vezes é um ato de profunda sabedoria. Fale pouco, sempre. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/02/2004. - [A JANELA DA VIDA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-janela-da-vida/): Em meio à quietude da tarde, por opção e prazer, abro o envelope, rompo o lacre e retiro o disco compacto que recebi de presente de José Arimatéia Santos, um homem que mexe há tanto tempo com grandes números e conservou a capacidade de ser simples. Ligo o som, coloco o CD, ajusto graves e agudos procurando qualidade, e associo-me à harmonia, melodia e ritmo tirados dos ajustes das cordas às cravelhas de violino, viola e violoncelo dos músicos do Quarteto Iguaçu. Os arcos de Oliver, Freitas, José Maria e Dany estão prontos e ressoam os primeiros acordes com arranjos de Ricardo Petracca. Fecho os olhos e deixo que os sons das cordas do quarteto se misturem ao vento que entra na janela do meu quarto. Nem todas as janelas são da vida, mas a música que ouço dá vida à janela pela qual vejo, em meio ao casario e tantos prédios, a singeleza da igrejinha de São Pedro, nesta tão bonita, intrigante, discutida e abandonada Praia de Iracema. De princípio, veio Prelúdio ao Luar, certamente Pensando em Você, mas ainda dá para ver O Sol que Brilha no Mar. Se um dia não tivesse existido Isolete, penso eu, com a sua Mensagem de Amor, certamente não teria acontecido A Janela da Vida. Mas aconteceu. E José de Arimatéia é gente que troca a brisa do mar da cidade grande pelo calor e o amor à Guanacés, um lugarejo quase perdido no interior do Ceará, em Cascavel, onde espalha graça e esparge a sua benquerença com atitudes e afeto, levando saúde, instruindo jovens e formando banda de música. Mesmo não sendo compositor de carteira, pediu aos santos - que obrigatoriamente o acompanham até no nome - inspiração e Deus parece ter atendido nos sons aqui paridos e purificados por um quarteto no Paraná, capitaneado pelo músico cearense José Maria Magalhães Silva. E enquanto O Pôr do Sol já se aproxima desta Ponte dos Ingleses, aqui nesta terra em que pouca gente ouve música com enlevo e sem remelexo, ecoa O Meu Ceará, com uma viola sofrida e bela. De repente, aparecem A Espera, Você Chegou. Paradoxalmente, acabou-se a espera. É hora d’ A Chegada. Até que enfim, pois o Crepúsculo vai caindo, permitindo que os acordes do Quarteto Iguaçu reavivem os sentimentos nesta tarde-noite em que os sons parecem dar mãos ao marulho das ondas que morrem e renascem nestas pedras e areias com ritmo essencial para dizer que tudo é possível. É, basta abrir a janela para a vida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/01/2004. - [O ZÉ DO CAMPANÁRIO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-ze-do-campanario/): Audifax Rios galopa com maestria pelas areias da cidade imaginária ou imaginada de Campanário. Desloca-se na garra de um homem novo pela floresta adentro e o traz de volta com muito ouro e disposição. Tudo para dar sentido, vida, sustança e destino a Zé do Egito ou Zegito. Detalha com cinzel de artesão, pincel naife, linguajar de escritor maduro, prosa livre de cantador sem viola e a propriedade de etnógrafo, o que vai ocorrendo na vida e nas circunstâncias do Zegito. Como se fora um ferrador de gado, vai marcando, vezes sem conta, o que passa na mente e nos possuídos desse matuto brabo nascido no ano de 191. E o trás pelo cabresto, ao final desenfreado, até os recentes idos de 1964. Há tanta beleza na narrativa de Audifax que é difícil pinçar trechos, sem cometer injustiça, trechos entre os que embevecem, prendem e seduzem o leitor. Apenas dois exemplos: Um: ´Pois eu lhe conto uns tantos e quantos sucessos das gentes deste lugar perdido nos cafundós do sertão nordestino, que bem poderia ser um qualquer outro pedaço esquecido do planeta. Conversa fiada sobre alguns viventes de um chão abençoado e maldito, empoeirado pelo arrastado das bestas-feras e burras-de padre povoantes destes pagos em noite de espanto. Dois: ´E durante este tríduo de chuvas nefastas continuaram a desabar raios de pouca monta em comparação com a bola gigantesca e queimaram-se todos os bicos de luz, as válvulas dos rádios rabos-quentes e seus esmeraldos olhos mágicos. Enguiçaram também os aparelhos alto-falantes e o Morse do telégrafo e tudo quanto dependia de magnetos e galenas e outras maravilhas da ciência elétrica e mais descobertas deslumbrantes naqueles tempos de progresso. Com o jeito de quem conhece a estrada onde pisou e´as gentes deste lugar perdido´, Audifax Rios vai tecendo as teias do tecido social de uma cidade que recebe, em 1946, Zegito em seu retorno de herói-bandido das terras molhadas do Amazonas. Alforje pleno de ouro, um curumim-filho a tiracolo e uma disposição imensa de mostrar a todos quem era e quem seria, chega e finca os seus mourões, o dito José do Egito. De sobrenome tão grande quanto desnecessário, pois a fama daí para frente construída é fruto do Zegito, um agitador que tinha as rédeas da cidade e o beneplácito do céu pela intercessão do Pe.Justiniano, que acumulava as funções de seu amigo, confidente, sócio e beneficiário das suas diatribes. São tantos os personagens fortes ou sutis, marcantes ou marcados desta mini-epopéia que me indago a razão do destaque aos búfalos que, nada fizeram além de um galope alucinado igreja a dentro e da beberagem tomada pelos irracionais e racionais, todos animais, explodindo a capacidade ´viagrática´ de uma procriação maltusiana que nos faz lembrar o melhor da fantástica criação dos escritores latinos de língua hispânica. Não é preciso sair citando, um a um, os coadjuvantes dessa cidade-circo mambembe que nos lembra as reinações de Ariano Suassuna e, longe, muito longe, a fase primeira de Jorge Amado, nos confins das terras dos cacaus. Tão rico é Zegito que o aposto- é aposto mesmo - de Major é supérfluo e descabido. Essa patente teria sido ´comprada a peso de ouro à Guarda Nacional´, entidade extinta pelo presidente Wenceslau Brás desde 1918 e, por tal razão, desconectada da cronologia da narrativa. Tal fato, sem macular o brilho da história, dá a Audifax o condão que tem os autores de mexerem com a temporalidade, sem que isso perturbe ou aflija quem lê este livro. Ora, Candinha, Orapronobias, , Padre Justiniano, Henrique Imaginário, Maria Guayana, Messias Salvador e muitos outros são mais relevantes e revelantes que os 12 búfalos trazidos da Ilha de Marajó e que, incontidos em sua sexualidade, transgrediram as leis da natureza e receberam, quem sabe, por castigo a morte coletiva ´à beira do abismo inacabado´. Cada um desses coadjuvantes marca com ´letras capitulares´ todo o enredo que conta a saga, com um fim aligeirado, e a volta-fuga não bem explicada de Zegito para a Amazônia. Por estas e por outras não contadas é que me rendo ao título marquetado de ´Os Búfalos de Campanário´, mas faria, igualmente, elogios ao brilhante Audifax se ´O Zé do Campanário´ estivesse incrustado no frontispício deste primoroso livro que fecha com fulgor o ano da graça de 2003, tão rico em surpresa, quanto em desencanto, mas que prenuncia alvíssaras para todos no raiar do 2004. Os búfalos, afinal, já se foram. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/01/2004. - [INTELIGENTE, EDUCADO E ESTUPEFADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/inteligente-educado-e-estupefado/): A maioria das pessoas que se considera inteligente, educada e sabida se diz estupefata com a realidade crua de o Brasil ainda ser um país de Terceiro Mundo. A culpa sempre é dos outros, do governo e dessa ´gente sem educação e princípios´. Ora, ´essa gente´ somos todos nós, os que vemos sempre os defeitos do outro e esquecemos os nossos. Três exemplos: 01. Tudo pode começar no esporte: não importa que o nosso time faça um gol-de-mão aos 45 minutos do segundo tempo, o importante é que ganhe. 02.Passa pela mídia: Não importa que se saiba do preconceito disfarçado que há contra os nordestinos pobres. O nordestino só é manchete quando algo ridículo (comer rato, morar sob viaduto ou ter uma bicicleta muito enfeitada) possa ser levado à televisão, ou retratado em filmes caricatos. Isso vem de longe e ainda não se absorveu na cultura nacional a migração como fator natural. O nordestino é sempre o ´baiano´ e, quando se faz algo errado no trânsito, é uma ´baianada´. 03. Nem o dado inquestionável do presidente da República ser nordestino tem sido poupado. Muito pelo contrário, serve de motivo para piadas em jornais e o disse-me-disse em rodas que pretendem ter a hegemonia da educação, das regras de convivência e etiqueta sociais. As elites o engolem como alguém inevitável e porque precisam dos favores oficiais, não porque o assimilaram. Provavelmente, o início do ano deveria servir para crônica mais amena, menos óbvia e contundente, mas está na hora de se pensar em brasilidade, isto é, na capacidade de aceitar as peculiaridades e identidades de cada um, sem prejuízo do esforço coletivo de todos, para dar a este país um sentimento nacional de respeito ao outro, que nada mais é que ele visto por mim, ou eu visto por ele. Se assumíssemos que não somos inteligentes, sabidos e educados, não ficaríamos tão estupefatos com certos índices de desenvolvimento humano e econômico. Quase 50% da população mora em sub-habitações, mais de 12% da população ativa está sem emprego. Dados como esses refletem o quanto ainda precisamos aprender a crescer, para sermos, pelo menos, um país em que as desigualdades não tenham que ser resolvidas apenas com programas de combate à fome e à mortalidade infantil. Um país que enfrente a convivência com o favelamento, a que sucumbem as grandes e médias cidades brasileiras; onde falar de segurança pública, por exemplo, possa não parecer piada, já que a criminalidade não é apenas efeito, mas também causa dessa indiferença de todos os que se imaginam inteligentes, educados e sabidos. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/01/2004. - [BOAS FESTAS OU FELIZ NATAL?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/boas-festas-ou-feliz-natal/): Estão discutindo por este mundo afora, como se isso resolvesse alguma coisa, se devemos dizer Boas Festas ou Feliz Natal. Argumentam que, pelo menos, 30% da população do mundo não têm nada a ver com o mundo ocidental e cristão. Para eles, este tempo é uma quadra qualquer. E dizem que nós não celebramos Buda e Maomé. De qualquer modo, fico com as duas. Esses, os questionadores, os tais politicamente corretos, preferem Boas Festas. Argumentam, repito, que nem todos acreditam na natividade, no menino que nasceu em Belém e já há mais de 2.000 anos mexe com a cabeça das cabeças. Mexe com o que temos de mais profundo, o que revelávamos ao padre confessor, no tempo em que isso existia da forma que era. Mexe ainda hoje, quando, meio cínico e meio crente, nos perguntamos como anda a nossa fé. Essa fé que, com altos e baixos, nos remete ao nosso eu mais denso, quando mergulhamos no mar dos nossos pensamentos, sonhos e palmilhamos a estrada do que já passou e ficou. E nos faz, quando faz, orar em silêncio, sem repetir fórmulas prontas. Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com as festas, não essas a que somos obrigados a ir e todos já chegam com ar de enfado, o olho no relógio e a desculpa de que há ainda caminhos e caminhos a percorrer. As festas são os brilhos que saem dos nossos olhos quando estamos com gente que nos diz respeito, com quem o abraço não é uma pantomima, mas um halo de aconchego, um jeito seguro de ficar, sem que o tempo nos incomode. É festa quando as palavras não são policiadas e a delicadeza não é fruto de ensaio. Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com o Feliz Natal, não pelos presentes, pelas árvores ou a alegria consumista, mas a certeza de que precisamos estar juntos, não por laços de engodo, mas pelo enlevo e a suspeita de que somos únicos, uns para os outros. Não só pela fé renovada ou combalida, mas pela esperança. E é essa esperança que nos chama ao convívio e à celebração, mesmo que tudo seja efêmero. Boas Festas ou Feliz Natal? Fico com as duas, pois não há como dissociá-las, embora algum leitor possa não acreditar nos meus sentimentos. A crença é o produto da confiança e da história de cada um. E neste dia de hoje, em que paramos e pairamos sobre as nossas diferenças, há como ter perspectiva de que o amanhã virá melhor se não dissimularmos o que sentimos. Assim, de verdade, Boas Festas e Feliz Natal. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/12/2005. - [GUARDADOS EXISTENCIAIS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/guardados-existenciais/): Quando nascemos o pacote já vem pronto. Temos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses e anos. Tudo isso junto vai formando o tempo de viver. Essa vida que recebemos sem querer ou saber e, só a partir de um determinado instante, muito depois, dela tomamos vera consciência. E isso acontece, por exemplo, quando se completa 40 anos de formatura em Direito. Nesse instante é que nos perguntamos: E agora? Agora é aquele momento em que se para e recebe um sacolejo, procurando respostas que não sabemos ou a pouca audácia nos impede de descobrir. Esta época do ano não é só de justas comemorações, nem apenas o tempo de se fazer listas de presentes, comer, beber ou programar o que fazer com as sobras do salário. Ela é um tempo em que muitos ficam a pensar nos sonhos que imaginou, realizou ou os perdeu pelo caminho. Nos desejos jogados para escanteio em nome da preservação de relações, interesses ou medos. É a procura, quem sabe, daquilo que deveria ter sido feito e não foi. Isso bate mesmo. Bate para o Papa, o Rei da Espanha, o Zé da mercearia, o Dirceu, a Marília, o Bush, enfim, sobra para todos os que estão mexendo com o exercício de viver. E bate porque sabemos que para tudo há começo, meio e fim. E quando chegamos ao que se acredita seja o meio de tudo isso, aí a vontade vem de roldão e nos fustiga a coragem, mexe com as entranhas e estranhos juízos passam pela cabeça. É o tempo de remexer nos guardados existenciais, os que colocam uma espécie de Sonrisal no presente e dele não saem só borbulhas de amor, como quer o Fagner. Seria um tempo de revelação, mesmo que fugidio como o passo da gazela ou sutil como o pousar de uma borboleta. Essa estação que se quer eterna -- e não o é, mas um mero ciclo, quiçá um breve ciclone que provoca cismas, -- passa e deixa sedimentos de esperanças que não podem ser desperdiçados. Fugazes são e precisam ser capturados pelo obturador que repousa em nossos sentimentos. Como não podemos viver na ante-sala do amanhã, precisamos ralar o chão do presente, tentar dissipar as teias que nos enredam, escoimar o que não nos diz respeito e abrigar os que queremos bem, os que estão conosco para o que der e vier. Estes, são poucos. E justamente por serem raros têm de ser rastreados com destreza e atados pelos fios da benquerença em laços que não devem ser afrouxados pelo tempo, esse déspota que não descansa. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/12/2005. - [MEMÓRIA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/memoria/): Adam Phillips é um psicanalista que, atualmente, coordena a tradução, para o inglês, das obras completas de Sigmund Freud. Consequentemente, Phillips tem escrito sobre memória. De seu último ensaio, “A Memória Forçada”, vou tentar, na medida da minha incompetência psicanalítica, tirar alguns trechos. Foi originariamente, publicado na revista “Index on Censorship” e, posteriormente, no caderno de cultura “Mais”, neste novembro. Segundo ele, “Existe uma crença esperançosa sob o mito redentor da memória: a de aquilo que deve ser lembrado – desde que nos lembremos das coisas certas e da maneira certa -beneficia o nosso bem-estar e até mesmo a nossa virtude. Recordar, se o fizermos da maneira apropriada, nos dará as vidas que desejamos”. Adam Phillips pretende demonstrar, parece ser, que muitas memórias não têm nada de espontaneidade histórica e, provavelmente, apaziguam sentimentos. Na verdade, a memória é aquilo que não se esquece espontaneamente e a história registra independente do passar do tempo. Reparem quando diz: “A memória pode até nos manter cordatos. Mas, na verdade, estamos conscientes, em área distinta de nossas mentes, que a memória seja mais virtuosa do que aqueles que a manifestam”. E explica porque isso acontece: “Nosso medo (moderno) é o de que não obtenhamos sucesso no esquecimento ou de que o esquecimento não seja possível”. E vai em frente: “Fazer com que as pessoas recordem tende a presumir que seja possível calcular as respostas que terão às memórias. É uma tentativa de impor uma solução artificial, quando soluções artificiais são parte do problema. A recordação forçada – a absurda ideia de que seria possível aprender de cor a história pessoal e em uma visão correta – na verdade demonstra medo da história: um bem fundamentado temor de que o passado esteja sujeito a múltiplas e variadas interpretações”. Dito isto, pois de memória entendo pouco, embora imagine ter sentimentos que guardo e preservo, lembro-me do que escreveu, dia desses, Carlos Heitor Cony: “Leitores, se os tenho, reclamam aos canais competentes dos assuntos que abordo em minhas crônicas, que não considero colunas, mas crônicas mesmo”. Assim, falar de memórias, mesmo fazendo citações, pode até parecer que não seja crônica, mas talvez seja. E, para encerrar, uma de Gilberto Amado (A Chave de Salomão): “Todas as desgraças humanas vêm da memória. O homem junta-lhe ainda a inquietação do futuro.” João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/12/2005. - [PARAÍSO SEXUAL?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/paraiso-sexual/): Do lado direito de onde moro existe um prédio. Poderia ser mais um entre tantos, mas é desses do tipo “flat”. Flat é uma palavra inglesa que pode significar apartamento, mas não necessariamente. E significa também planície ou plano. Mas resolveram entender que “Flat” seria um conjunto de apartamentos pequenos, entre 25 e 60 m², para venda ou locação, administrado como se fora um hotel, sem sê-lo. Ocorreu uma profusão de construção de “flats” no final dos anos 80 e por toda a década de 90. O “Flat” é uma entidade híbrida: nem é edifício residencial, nem deixa de ser, e também não é um hotel, embora reúna algumas de suas características . Pois bem, esses tais “flats” são, em boa parte, ocupados por residentes nativos, pessoas comuns e ordeiras de todas as cidades, mas a sua população variável é composta, quase sempre, de estrangeiros, que vêm para cá na certeza de que isto aqui é um paraíso sexual. Não escrevi tropical, escrevi sexual. Quem quiser ver cenas de nudez e correlatos é só se demorar um pouco olhando para os tais “flats”. Há de tudo. Recentemente, por exemplo, vi um já combalido senhor, em plena calma e total nudez,de pé na minúscula varanda, como se estivesse em uma colônia nudista. E o fazia como se fosse o único habitante da selva, tal qual um Tarzan, mas sem a tanga. De outra feita, vi as figuras e ouvi todos os ruídos, sussurros e os gritos finais de uma relação entre uma bem jovem morena e um brancoso quarentão. Nada de puritanismo, tampouco de estupefação, mas esta terra precisa de uma definição turística mais lisonjeira. Hoje, quase todo taxista que estaciona seu carro defronte a esses flats, alguns bares e boates, sabe a razão dessas viagens organizadas por operadoras estrangeiras que praticam preços baixíssimos em moeda estrangeira. Os turistas, na maioria homens em grupos, trazem endereços, cotações dos serviços, fotos e outras indicações que tais. O que causa constrangimento é ler nos jornais que o turismo está sendo incrementado e que devemos receber bem os nossos visitantes. O que realmente é importante, justo e até bíblico. Mas, os que cuidam do turismo não podem fazer vistas grossas de tantos fatos sabidos, repetidos, comprovados e divulgados pela imprensa. Não vale a pena a quantidade de turistas de segunda classe que chegam, até infectam pessoas, degradam áreas, gastam míseros reais e saem propagando que aqui é terra de ninguém. E novas hordas chegam ávidas. Basta acompanhar os roteiros que fazem. É simples constatar. O que falta? João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/12/2005. - [MINDLIN](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mindlin/): Já faz alguns decênios que acompanho a trajetória de José Mindlin. O que me fazia curioso era entender a capacidade dele de ter sido empresário vitorioso e, ao mesmo tempo, intelectual consistente. Na verdade, o descendente de judeus russos, formado em Direito em São Paulo, foi sempre um ser múltiplo. Ao mesmo tempo em que conduzia com aprumo, desenvoltura e bom senso, a Metal Leve, empresa que comandou por dezenas de anos, ia consolidando a sua capacidade de leitura e, pouco a pouco, se transformando no maior amante de livros do Brasil. Nesta semana, José Mindlin esteve por aqui para dar nome a comenda criada pela Sociedade Brasileira de Bibliófilos. Veio, acompanhado por sua filha Betty, e esteve em rodas com apreciadores de livros, com a sabedoria acumulada em seus produtivos 92 anos. Por pouco tempo, bem menos que gostaria, estive a seu lado. Era admiração explícita, adulta, sem inveja e com a certeza de que aquele era um momento raro. E nesse instante me encabulou a fala de José Macedo, outro longevo, fraterno e bravo empresário, ao apresentar-me a ele como “o Mindlin cearense”. Agradeço a referência do amigo José Macedo, mas nunca serei bibliófilo, tampouco intelectual, apenas misturo o construir realidades com o enlevo da leitura, dispersa e vária, vício antigo e incorrigível. Não tenho livros raros. Longe, bem longe disso. Não há outros Mindlins por este Brasil. Quanto muito, há pessoas que vão se transformando em amantes de livro, ao mesmo tempo em que exercem outras atividades. Ser amante de livros é um processo, uma história longa que tem começo e não termina nunca. O bibliófilo é o amante depurado de livros. Não bastam as compulsões da compra. Valem a paciência na procura, o sonho da leitura e da posse, o tratamento que empresta à antiguidade da obra, a análise do seu conteúdo, a certeza do seu valor histórico e o básico de ser primeira edição, com ou sem anotações de seu primitivo dono. José Mindlin se confessa leitor, em média, de 100 livros por ano. Lê a quase 80 anos, o que daria um total de 8.000 livros já lidos, mas tem uma biblioteca imensa de quase 30 mil títulos, o que torna clara a sua paixão, quase uma obsessão. Essa paixão não embotou a sua lucidez e permitiu que doasse à Universidade de São Paulo o seu acervo de obras chamado de “brasilianas”. A Biblioteca José Mindlin na USP tem 10 mil títulos e ocupará 10.000m2, o que já a torna um dos maiores centros difusores do conhecimento nacional. Este contar aligeirado é apenas um assentamento de admiração e respeito. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/11/2005 - [A REPÚBLICA E A BANDEIRA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-republica-e-a-bandeira/): Terça-feira, 15, foi Dia da Proclamação da República. Feriado Nacional. O “brasileiro é um feriado”, já dizia Nelson Rodrigues. Foi dia de empresas paralisadas, repartições fechadas, cerveja, livros/jornais abertos, sol e papo furado. Poderia ser também o dia em que cada um tivesse pensado na sua relação com a República, o Estado organizado, a coisa pública que deveria ser comum a todos nós, mas parece ser mais de alguns que de todos. Nós, quer queiramos ou não, somos republicanos. Quando Deodoro da Fonseca proclamou a República, em 15 de novembro de 1889, havia um clamor nacional, uma vontade imensa de mudar os destinos do Brasil, este país colossal, rico e poderoso, que, apesar disso, se confunde com uma seleção de futebol. Não é brincadeira. Se alguém fizer uma pesquisa e perguntar: o que significa Brasil? Muitos, muitos mesmo, responderão que é a seleção canarinha, o time dos ronaldinhos e do Parreira. É pena. E aí desfraldam a bandeira e torcem. Ora pois. Ontem, 19, foi o Dia da Bandeira, um símbolo da Pátria, mas poucos se dão conta disso. Tampouco sabem que Brasil deveria significar República, nação organizada, um conjunto de valores e de ordem para servir à sociedade. E por que isso não acontece? Pelo nosso descivismo, descrença, desinformação e a presumida incapacidade de mudar as coisas que aí estão, como se tudo fosse fatalidade. Não é. Fazemos sempre do mesmo jeito porque ainda não desenvolvemos a cidadania, não admitimos que nós é que transferimos a alguém a capacidade de cuidar dos nossos anseios, a responsabilidade de agir e decidir. Isso se faz pelo voto, um a um. Só isso. Não cobramos. E não damos o troco na hora certa. Apenas isso, nada mais. Ao comparar, escolher, votar e eleger, estamos dizendo a uma pessoa que ela tem o nosso aval, autoridade e poder para agir. Ora, se a pessoa não age bem, se não fez aquilo que desejávamos, será tempo de mudar. Para isso é que existem eleições. Isso vale para o condomínio, clube, escola, associação de classe, cidade, estado e o País. Ninguém é insubstituível, especialmente se trata a coisa pública como se fosse um bem particular de que pode se apropriar e não tem o cuidado de escolher certo quem o acompanha. É simples, bem mais simples do que se pensa. Não são a pompa e a posição que tornam uma pessoa digna, são os cuidados com o que faz, o modo como trata o que é coletivo e a sua responsabilidade social. Responsabilidade social não é modismo, é a consciência amplificada e tornada prática, coerente no dizer, sentir, viver e fazer. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/11/2005. - [LIBERDADE, IGUALDADE E OPORTUNIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/liberdade-igualdade-e-oportunidade/): Há pouco tempo passei a virada do ano em Paris. Fazia frio, não havia táxis nas ruas e os metrôs estavam superlotados, porque gratuitos naquele dia. Depois do jantar, resolvi dar uma caminhada na região de Trocadéro, onde fica a Torre Eiffel. É um grande parque, lindamente gramado, fontes jorrando, bem iluminado, próxima do Rio Sena e da ponte D’Iéda. Desci as escadarias. Havia muita gente, especialmente famílias, mas notei que poucos pareciam franceses ou, pelo menos, o que imaginava ainda pudesse ser o biótipo do francês. Ninguém parecido com Alain Delon, Jacques Chirac, Jean Paul Belmondo e afins. Havia gente parecida com Zidane e com os muitos franceses -ou não- oriundos das colônias africanas. Havia muitos árabes ou filhos de árabes. O leito do Sena estava sujo de garrafas vazias, camelôs vendiam quinquilharias luminosas e a algaravia de idiomas me deixava desconcertado. O meu olhar procurara um táxi salvador, pois já viera de metrô. Era a primeira hora dia do novo ano e eu em meio à turba que cantava, bebia, vendia, enquanto outros, já entregues ao cansaço, dormiam sobre a relva. Naquele instante, passou o filme de minha primeira visita à França, em 1965. Era outro o país, não sei se melhor ou pior, mas o povo parecia ter uma maior identidade com a sua história. Ali, naquela madrugada, eu via algo como uma ocupação de imigrantes ou de seus filhos que tentavam se amalgamar aos costumes franceses, mas pareciam estranhos à terra, embora essa fosse deles. Tudo isso me voltou à mente ao acompanhar o que está acontecendo nestes dias na França. Milhares de carros são queimados nas vias públicas e a imprensa destaca que os incêndios são provocados por jovens negros e de origem árabe, todos na faixa de 20 anos, que reclamam de discriminação no mercado de trabalho, poucas oportunidades de empregos e sentimento de marginalização social. Esse caos, que já se espalha pela Europa, é o retrato de um mundo desigual que teima em não ver a realidade, tão dura quanto próxima da vida de todos. O premiê francês, Dominique de Villepin, meio perplexo, diz que é preciso respeitar a todos e cada um pelo que são, mas, ao mesmo tempo, destaca que os atos de violência são “inaceitáveis e indesculpáveis”. E a Europa passa a viver o rescaldo da imigração, talvez uma resposta tardia à colonização que pode ter originado esse drama cujo primeiro ato estamos vendo. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/11/2005. - [HOMENS E MULHERES](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/homens-e-mulheres/): Li crônica de Danuza Leão sobre misoginia (desprezo e aversão às mulheres) publicada no domingo passado na Folha de São Paulo. Ela fala de desencontro e indaga o que estará acontecendo se homens, de verdade, preferem conversar entre si em bares e restaurantes? Imagino que ela trocou a palavra. Talvez desejasse usar, em sentido amplo, misogamia (horror ao casamento). Os homens têm vivenciado que o casamento - ou união –vem se transformando, com a liberação e o crescimento das mulheres, numa relação nova, compartilhada e não de submissão. Ficaram tontos, mas nada de horror. Alguns homens podem ter medo da nova mulher, esse ser que despontou e que ainda está em processo de montagem final. Ela mexeu com a cabeça dos homens e não houve ainda a sedimentação dessa mudança, tão forte quanto necessária. O choque, que antecede ao ajuste, tem sido mais longo que o esperado, mais agudo que a capacidade de absorção masculina pode ter. Que nenhum homem saiba, mas as mulheres parecem mais centradas que eles. Sabem o que querem, vão à luta e, quase sempre, conseguem seus objetivos. Por outro lado, a conquista, em sentido amplo, que era privilégio masculino, passou a ser comum de dois. Se ela quer, encara e chega junto. Alguns homens, em resposta, ficam receosos e não sabem reagir com naturalidade a esse mundo emergente. Quando homens se reúnem isoladamente podem estar apenas se divertindo ou, em alguns casos, mostrando que a bebida, a vanglória e o falar alto, são disfarces de sua perplexidade. Nada de horror, aversão ou desprezo às mulheres. A perplexidade vai passar. Caso contrário, poderia torná-los, paradoxalmente, mais distante do real encontro com as suas parceiras. Passará. E chegará num tempo breve em que homens e mulheres não disputarão supremacia, pois reconhecerão que são seres distintos, livres, mas necessários, suplementares e indispensáveis uns aos outros. Nesse tempo de uma nova conquista, haverá mais mesas de casais em bares e restaurantes e, em vez, das vozes alteradas, sussurros e afagos antecederão o prazer do verdadeiro encontro. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/11/2005 - [FUTEBOL, JOGO SUJO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/futebol-jogo-sujo/): Luiz Fernando Veríssimo, Blanchard Girão, Carlos Augusto Viana e Airton Monte gostam de escrever sobre futebol. Nelson Rodrigues escrevia e torcia. Eu tento ficar ao largo, mas não dá mais para ter calma ou fair play, expressão inglesa que significa jogo limpo. Não há jogo limpo no futebol brasileiro de hoje. É jogo sujo, daí a revolta. Fazia sete jogos que o Fortaleza não ganhava uma partida. Foi a Minas jogar contra o Atlético de lá e quase era roubado, mais uma vez. Conseguiu, por felicidade, superar um árbitro parcial que validou gol em impedimento e truncava os seus ataques. Neste brasileirão de tanta mutreta, árbitros confessamente desonestos e outros, que continuam apitando. Vamos aos fatos: nos últimos jogos, o Fortaleza tem tido jogadores expulsos, sofre gols em impedimento, além de receber uma marcação exagerada de faltas. Coincidência? Não é. Por essa razão, o Fortaleza tem que jogar mais. Há xenofobia na CBF contra equipes nordestinas e o Fortaleza é o último e único representante da Bahia ao Maranhão. Querem que o Fortaleza perca. Isso todo mundo de lá fala, só não diz expressamente. Os dirigentes do Fortaleza e da Federação do Ceará não protestam, acham que já é muito estar disputando a primeira divisão. É não. Está por mérito. Protestem. A imprensa não dá ênfase quando o árbitro rouba. Deviam escrever, dizer nas televisões: o juiz roubou. Ninguém faz uma reclamação formal, anexando vídeo, depoimentos etc. É assim que muitos times fazem. Pressionam e a coisa muda de figura. Ninguém erra contra São Paulo, Corinthians, Internacional etc. Contra o Fortaleza, sim. É só rever todos os teipes, anotar e protestar. Além da roubalheira, o Fortaleza tem jogador que só dá para o gasto. Um exemplo: Marquinhos. Arrumadinho, é um “boleiro”. Há outros. O técnico Espinosa é pago para ver. Que veja. Por outro lado, Clodoaldo, de quem os preparadores físicos deveriam cuidar melhor, “come a bola” nos minutos em que joga. No jogo com o Palmeiras, por exemplo, o gol do Rinaldo veio de um passe de calcanhar de Clodoaldo. O penal que o Lúcio perdeu em outro jogo, foi cometido em Clodoaldo. Se tivesse cobrado, provavelmente teria convertido. Clodoaldo, quando joga, como na partida com o Atlético, sofre faltas próximas à grande área e, só agora, Igor começou a cobrar. O problema é que Clodoaldo e Igor são cearenses e baixinhos. O Fortaleza tem 21 pontos a disputar, precisa se impor perante a CBF e árbitros, e dar o retorno esperado por sua torcida. Fiel, ordeira e presente. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/10/2005. - [REFERENDO, DINHEIRO PERDIDO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/referendo-dinheiro-perdido/): Hoje será o plebiscito sobre o uso de armas. Dizem que foram gastos 700 milhões de reais pelo governo. Qualquer que seja o resultado, nem as armas vão deixar de ser vendidas, tampouco a violência desaparecerá. A raiz da violência é complexa. Há muitas causas. Uma delas é a própria natureza humana. Outra, a pobreza das cidades e a sua ocupação desenfreada por milhares de pessoas à procura de teto e trabalho. Bem que esses 700 milhões de reais poderiam ter tido uma outra utilização. Por exemplo: uma casa popular pode ser feita por 3 mil e quinhentos reais. Se você dividir setecentos milhões por três mil e quinhentos reais, dará 200 mil casas. Se essas 200 mil casas fossem feitas em uma metrópole qualquer, a maioria dos habitantes de suas áreas de risco teria um teto para morar. Seria um milhão de pessoas com casa. Imaginem, por outro lado, quanto se gasta em propaganda e publicidade públicas no Brasil. Se parte do que se gasta com propaganda e publicidade para referendo, eleições, inaugurar escola, estrada, preparação de viagem de autoridade, programa disso e daquilo, patrocínio de jogos de vôlei na praia, gasolina da Petrobras em carro de corrida estrangeiro e outros mais, fosse utilizado em habitação e segurança, a história seria outra. Mas, a propaganda do Brasil se gaba de ser uma das melhores do mundo. Isto quer dizer o quê? Significa que ela é também ilusionista, vende mortalha para casamento, engana, mistifica, doura a pílula. E tudo fica colorido apenas nos jornais e nas televisões. A pobreza é em preto e branco ou preto no branco, sem ilusão ou tapinha nas costas. Voltemos à habitação. Ora, se a casa é um dos bens e direitos fundamentais do ser humano, isso não parece preocupar governos, sejam quais forem seus matizes ideológicos ou partidários. Não se vê mais grandes construções na área de habitação popular. Só há discurso e promessa. E há uma profunda distinção entre o discurso e a prática política. Não vale o que se promete e pouco se cobra de quem prometeu e não cumpriu. Culpa nossa. No próximo ano haverá eleições. Muitas figuras de sempre tentarão permanecer. Mostrarão o pouco que fizeram, culparão a ´conjuntura´ pelo que não fizeram e terão desculpas pelos erros, se flagrados. Farão discursos, aparecerão em programas de rádio e televisão, abraçarão velhos, crianças e enfermos, visitarão templos religiosos e prometerão novamente. Alguns até chorarão. Nós, os eleitores, é que deveríamos chorar de vergonha pelos erros de escolha. Choremos, mas aproveitemos as lágrimas para limpar a vista e enxergar mais e melhor. É tempo. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/10/2005. - [URUCUBACA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/urucubaca/): Meu amigo Adamastor ficou injuriado com o bispo ítalo-paulista que quis fazer sucesso no nordeste-baiano. Ele disse que também vai fazer uma greve de fome até a Igreja acabar com o celibato dos padres. Ia falando em pedofilia, mas pedi que calasse. E pretende que a sua greve seja em frente à casa do tal bispo que recebeu a visita de tristes figuras e, ainda, segundo ele, tomava todas as noites uma sopa trazida por uma beata em caneca que dizia conter água. Maluquices à parte, de lá e cá, deixo claro que crônica não tem a obrigação de ser séria e profunda como um editorial, mas pode expressar revolta quando muita gente quer continuar usando a ´indústria da seca´ com carros-pipa, frentes de serviços e cestas básicas para ganhar dinheiro, votos e fazer média com eleitores incautos. Tem gente achando que sofrimento é destino e não vale a pena acabar com a miséria real da parte seca do Nordeste. Há revolta quando alguém fica do contra só porque imagina o presidente Lula ganhando a reeleição se iniciar a transposição de águas do Rio São Francisco para Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Ora, todo político quer ser reeleito, inclusive os que criticam a transposição porque estão do outro lado do rio. Digo melhor, em outro palanque. Querem colocar urucubaca em tudo o que o Nordeste real produz ou faz, para usar um termo da semana. Todos sabem que só serão utilizados menos de dois por cento das águas do Velho Chico. Todos sabem que, por conta disso, a Chesf não produzirá menos energia. Todos sabem que o Rio São Francisco precisa ser revitalizado. Isso é antigo, para não dizer centenário. Mas, uma coisa não implica em outra. Ocorre, entretanto, que a mídia dá cobertura às tristes figuras, criando obstáculo e citando problemas para a transposição. Simplesmente, a grande Imprensa se lixa para quem não tem como viver com dignidade no semiárido nordestino. Eles não são o público-alvo, o ´target´ de consumo e não contam nas pesquisas qualitativas. Os quase 5 bilhões de reais, pensam, seriam bem mais aproveitados em empréstimos para bancos que quebram, multinacionais que repatriam lucros, companhias quase insolventes como as de aviação e outros tomadores (na fiel expressão da palavra) que tais. Como diz o Lula: a turma do Flamengo não quer que o Vasco ganhe e a turma do Vasco quer a derrota do Flamengo. O grande problema é descobrir quem torce Vasco ou Flamengo e se o árbitro não faz parte da máfia do apito. Imaginem se não fossem todos brasileiros. Xô urucubaca. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/10/2005. - [NO REINO DO BESTEIROL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/no-reino-do-besteirol/): Já participei de muitos cursos, seminários, debates, jornadas e afins. Aqui e em outros países. Alguns são bons e deixam algo de positivo. Noutros, o que se ouve e vê, logo é esquecido, ou não serve para a vida. Não exagero. Esses surgem em ondas como modismo. Quem já não ouviu falar em reengenharia, qualidade total, leitura dinâmica, cinco S, planejamento estratégico e outros que tais? Eles chegam e logo aparecem “facilitadores” que cuidam de dar uma “visão sistêmica” e o uso do “data show” deixa a coisa mais bonita. É besteirol puro, quase sempre. Eles têm que ter “coffee break”. Não vale uma paradinha para o café, tem que ser” coffee break”. Neles algumas palavras são aprendidas, anotadas e repassadas até para discursos ocos feitos em solenidades, muitos deles escritos por assessores. Fazem-no como desobriga e aí a lengalenga se torna bonita aos ouvidos de alguns oradores e certos basbaques que os aplaudem com pose de inteligente. A propósito, isso me faz lembrar e-mail que tratava de palavras que hoje são usadas para tudo. Essas palavras servem hoje para: palestra, reunião de diretoria, encerramento de curso, entrevista, festa de tecnocrata, posse, recebimento de comendas e o diabo a quatro. Se você embaralhar as tais palavras da moda vai ficar um “gênio”. Não é brincadeira. Vou colocar as palavras, você poderá misturá-las e fará frases sensacionais. Quem sabe se não conseguirá aumento, ingressar ou continuar na política, ser convidado a participar de um grupo de trabalho ou algo parecido. Palavras não têm donos. As frases, sim. Por tal razão é que juntei palavras que me repassaram com outras que tinha na memória. Vejam como são interessantes: paradigma, emblemático, agilizar, meta, exercício, sistema, risco, otimização, operacional, gestão, resultado, implantação, fundamentos, aderente, rendimento, melhorias, funding, portfólio, briefing, enfoque, desdobramento, rede ou network, responsável, cronograma, diagrama, banco de dados, desafio, volatilidade, inferência, estratégia, mentalidade, planilha, somatório, ação preventiva, nicho, proativo, influência, ponto futuro, automação, em princípio, a nível de, custos, agregar valor, business plan, master plan, introjetar, investir, consignado, ranking etc. Experimente colocar essas palavras em cinco colunas com 10 em cada e depois vá fazendo combinações. Do jeito que quiser. Vou dar apenas dois curtos exemplos: 1) o paradigma é responsável pelos fundamentos e a sua estratégia cria um nicho proativo e agrega valor. 2) A rede ou network é um desafio, em princípio, mas seu enfoque de gestão e ação preventiva são um exercício responsável. Pouco mais que 50 palavras e você estará pronto para qualquer parada. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/10/2005. - [SORRI OU “SMILE”](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sorri-ou-smile/): Pedem-me que escreva sobre a música “Smile” ou “Sorri”, em Português. É covardia. Ela, com 69 aos e desgastada, é ainda das minhas favoritas e diz bem da tristeza que há até nos palhaços e humoristas. É verdade que Charles Chaplin é apenas um dos três autores, os outros são John Turner e Geoffrey Parsons. A versão brasileira, feita pelo compositor Braguinha, é um primor de delicadeza. Vejam como é bonita: “Sorri, quando a dor te torturar e a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios. Sorri, quando tudo terminar, quando nada mais restar do teu sonho encantador. Sorri, quando o sol perder a luz e sentires uma cruz, nos teus ombros cansados, doridos. Sorri, vai mentindo a tua dor e ao notar que tu sorris todo mundo irá supor que és feliz”. “Smile” foi feita para o filme “Tempos Modernos”, de 1936. Uma profunda sátira a um mundo que havia, entre outras coisas, acabado com o cinema mudo, criava o “fordismo”, a sincronização dos tempos e movimentos industriais e deixava perplexo quem não queria aceitar o dito “progresso” com greves, desemprego, drogas e pobreza no século XX. Charles Chaplin, ou “Carlitos”, seu personagem-clone, usou a bengala, quem sabe, como um modo de expressar que todos somos capengas e claudicamos em relação às nossas pequenas dores e as grandes agonias do mundo. E aí tem que sorrir. O sorriso é tido como atenuante “quando a dor te torturar”. E cada um deve saber qual a dor que o atormenta, se real ou imaginária/emocional. Ora, se a dor mexe com a emoção, ela deixa de ser imaginária e passa a ser “real”. E é uma tortura, pois faz “a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios”. Pois é, quando a saudade chega, ela toma assento e o sol se faz cinza e o dia fica vazio, embora possa estar pleno de luz. E a música pede – ou manda – que se sorria “quando tudo terminar, quando nada mais restar do teu sonho encantador”. Quando o sonho acaba, o amor termina, a doença chega, alguém morre, uma amizade aparta, a tragédia surge, parece que a única solução é sorrir. Pode até ser do jeito que Carlitos sorria, meio amarelo, meio triste, misturando o palhaço que mora na criança que fomos um dia, com o adulto que reclama, como se ainda criança fosse, das pauladas que a vida nos impõe. Por esta razão é que há décadas ouço as muitas interpretações originais e versões de “Smile”. Ouvir dá força, embora, como qualquer mortal, se possa sentir quando o sol perde a luz e rouba a energia. É aí, “quando sentires uma cruz nos teus ombros, cansados, doridos” deves mandar tudo para o alto, respirar fundo e sorrir. Sorri, porque é uma boa solução. Eita, está parecendo autoajuda, mas não há como não ficar tocado quando se ouve, fala ou escreve sobre “Smile”. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/10/2005. - [O NORDESTE TEM CULPA?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-nordeste-tem-culpa/): “O visual não chega a ser agradável, agravado pelas fotos que a imprensa, especialmente a semanal, se esmera em apresentá-lo como cangaceiro” Carlos H.Cony, FSP, 12.09.2005 Severino Cavalcanti renunciou por ter culpa. Este é o fato. Mas há muitos “severinos” por todo o Brasil. Imaginam, entretanto, os que moram de Minas para baixo, que não. Acreditam que só o Nordeste é lugar de incultos, desonestos e dos esteticamente não apreciáveis. O problema é que o Nordeste sempre foi tratado assim, como uma terra de “severinos”, apenas. O Nordeste, não é responsável se 300 deputados do Amazonas ao Rio Grande do Sul votaram em Severino há sete meses. A culpa, assim como a glória, é individual, não é de uma região. O Nordeste tem culpa, sim, de deixar que achincalhem seu povo comum em programas de televisão, jornais e outros que tais. O Nordeste tem culpa sim, de não reagir às grosserias perpetradas contra sua gente que luta e tenta sobreviver em ambiente hostil e preconceituoso. As novelas (onde os nordestinos são quase sempre coronéis, porteiros ou domésticas), os programas de humor e outras formas sutis de gozação são vistos, lidos e ouvidos como se isso fosse natural acontecer. A lei Afonso Arinos, que trata da discriminação racial, poderia, quem sabe, ser invocada, em sentido lato, para coibir tais abusos. E, igualmente, os nordestinos deveriam demonstrar o desagrado coletivo. A justiça e a imprensa não devem julgar pela origem. O que revolta é aproveitarem ocasiões desse tipo para denegrir a imagem de uma região, como se o fato de ter nascido em um lugar determinasse o DNA da ignorância, da periculosidade ou da desonestidade de alguém. Personalizam atitudes, generalizando comportamentos. No calor das discussões atuais do Brasil, houve a disseminação quase diária desses fatos, que transcendem a culpa individual e se cria um estereótipo. Essa visão, meio que subliminar, pode, se exagerada, tender a uma espécie de fascismo, em busca de uma eugenia que o Brasil não tem e nunca vai ter. Este país em que a maioria teima em parecer o que não é, fazer o mínimo que pode e viver acima do que deve, tem que cair na real de que é latino, misturado. Não adianta copiar, fingir e pensar que não é. E ser latino deveria ser motivo de orgulho, pois a mistura de raças sempre é um remédio contra pretensões desse tipo. No século passado milhões de pessoas foram mortas por conta de sua origem. Neste século, profundas diferenças e tratamentos entre raças têm produzido tragédias e guerras. O Brasil não deve aceitar discriminação. Afora em guerra, ninguém comete crime em nome de um país. E de uma região, muito menos. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/09/2005. - [A DURA ARTE DE VENDER LIVROS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-dura-arte-de-vender-livros/): No início da década de 80 tentei ser editor. Criei uma pequena editora. Só consegui fazer uma publicação técnica e dei o negócio por encerrado. Não me atreveria a voltar a ser editor. É uma tarefa difícil, incompreendida e de resultados imprevisíveis. Isso não impede que observe e admire os editores profissionais. Há pouco tempo, por dever, curiosidade e convite, participei de duas feiras de livro. Uma em Fortaleza, outra no México. Na Feira de Fortaleza, anfitrionei mexicanos desejosos de conhecer o nosso jeito de fazer feiras e fiz uma travessia literária com Moacyr Scliar. A Feira é realizada no ambiente refrigerado do Centro de Convenções, em meio à dificuldade de estacionamento e a uma circulação forçada por pisos diferentes. Na Feira da cidade do México, fui como convidado e vi a sua montagem em uma grande e plana praça central com pequenas, médias e gigantes tendas brancas, armadas ao ar livre em meio a bonitas esculturas e a uma vegetação em vasos. Ao canto, área para shows. Ao seu derredor, circulavam veículos, inclusive ônibus, sem falar na estação de metrô no subsolo. O povo se misturava naturalmente à Feira, pois ela estava no meio deles. Em ambas, vi o cuidado dos organizadores, editores, livreiros e autores, em apresentar opções várias de livros, especialmente os de preços populares. Das feiras, fiz dois registros. O primeiro, em Fortaleza: Sérgio Braga, que trafega entre a livraria e a editoria, revelou-me que as boas vendas foram apenas as de livros a preços abaixo do mercado, os chamados saldos. O segundo, no México: Luiz Falcão, da Imprensa da UFC, que comandou a venda de livros na bem decorada tenda do Ceará, viu como é duro vender livros em Português. Ao final, resolveu doar os livros que sobraram a instituições universitárias, culturais e à Embaixada do Brasil, sob pena de se pagar o frete de volta. Valeram os contatos. Na última Feira Nacional do Livro, em Porto Alegre, que também usa tendas e abomina os estandes e refrigeração, ficou clara a dura realidade do mercado de livros que encolheu 8% no último ano. O Brasil não tem ainda “a fome de livros”, projeto que o ministro Gilberto Gil tenta incrementar. Apenas 26 milhões de brasileiros são leitores ativos. Eleitores, sim. temos mais de 110 milhões. Mas isto é outra estória para livros de História. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/09/2005. - [QUATRO ANOS DEPOIS.](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/quatro-anos-depois/): Faz hoje quatro anos. O século mal havia começado. Todos nós imaginávamos que o novo século e o novo milênio seriam de bem-aventuranças. O muro de Berlim tinha caído, já não existia a polarização que durou por toda a Guerra Fria, a briga milenar continuava na faixa de Gaza, o Afeganistão era dizimado, a África continuava a morrer de fome e de doenças endêmicas, a Colômbia convivia com o narcotráfico, a Iugoslávia ia desaparecendo, mas, apesar disso e muito mais, acreditávamos que era assim mesmo e a vida ia sendo tocada como cada um podia. E o dia de hoje amanheceu. E o dia tinha sol em metade da Terra. As pessoas se encaminhavam para os seus trabalhos ou começavam as suas lidas. Bilhões de pessoas, pois somos perto de sete bi de todas as cores, raças, credos, idades, patrimônios, misérias, dores e sonhos. Todos em trânsito, mas o transe iria eclodir. De repente, todos fomos atingidos, não porque estivéssemos lá ou cá, mas por estarmos. Víamos tudo e do jeito que ainda estava acontecendo. Parecia loucura e era. A tragédia não era uma farsa. Era o cruel do real, do que a mente atormentada gera, do sucesso da insensatez ou do que a fé distorcida provoca. O que fosse. Era a vingança ou o delírio. Estava lá. Era fogo querendo aprisionar olhares, eram mergulhos nos ares criando um mar de desencanto. E as pedras rolavam, como se fossem puxadas pela gravidade. E havia gravidade, não a lei da gravidade, mas a de instintos que plantaram cântaros de ódio e os espargiram com um esgar mortífero. E respirações pararam para sempre. Atônitos, olhávamos uns para os outros, os meios de comunicação estavam a pleno, todos falando entre si, sem que uma língua comum existisse. Babel XXI. Éramos parvos a soletrar palavras desconexas e, disléxicos, mexíamos os braços sem saber onde colocar as mãos e os sentimentos. Desespero, era. Desilusão, era. Perplexidade, era. Medo, era. Desafio, era. E era uma Nova Era que chegava ao mundo, de forma tribal, sem limites e quiçá que não por muito. O dia custava a passar e nada do que se ouvia fazia sentido, embora todos os nossos sentidos estivessem alertas. E o pior é que não houve alerta, tudo foi de surpresa, não havia anunciação, chegou o dia de soslaio, como uma pedra que se joga no rio da humanidade e mata parte da fauna. Descobrimo-nos faunos e mergulhamos na busca dos homens que imaginávamos que fossemos. A noite chegou. O dia terminou. Quatro anos passaram, outros dias como aquele pulularam e, neste mesmo dia de hoje, nada mais tem a cor do céu de antes. É o mesmo azul, o céu eterno, as orquídeas florescem, mas os pintores são outros, e a plástica que se cria não inspira mais a ilusão que os olhares ainda acreditavam possuir. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/09/2005. - [EU, O COMPUTADOR E A INTERNET](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/eu-o-computador-e-a-internet/): Aprendi a mexer em computador meio desastradamente. Fiz um curso há muito tempo na IBM. Era uma sala gelada e o computador, imenso. O formal professor usava o inglês-ferramenta e a linguagem era Cobol. Sai mais tonto do que entrei, porém ficou alguma coisa. Depois, comprei um micro e fui batucando aqui e ali, mais errando que acertando. O tempo passou, vieram novos computadores e as limitações continuaram. Hoje, sou um mero usuário, sem método e sem fundamentação teórica (agora, tudo tem que se basear “em fundamentos”, o que também não sei o que significa). Como não tenho outro jeito, vou mexendo, errando e tentando aprender. Tenho uma assistente de plantão, Josilene Lima, inteligente e preparada, que quebra os meus galhos – e de amigos - quando o computador para e parece dizer que sou burro. Ligo, ela vem e conserta, na maioria das vezes. E ainda ri para mim: era só isso? Por tanto mexer, pesquisar, catar ensaios, livros e que tais, tenho que conviver com o Google, um “buscador” que responde tudo ou quase tudo. Se não sei, por exemplo, sobre Chopin, escrevo a palavra e mando procurar. É ai que surge o problema: tudo o que é Chopin aparece. Assim é preciso refinar a pesquisa, dizer qual Chopin e eu escrevo Frederic –sem acentos - Chopin, pois a Internet não trabalha com acentos nas palavras. Brevemente, sim. Enquanto isso, não coloco til, cedilha ou qualquer tipo de acento, grave, agudo ou circunflexo. O que estou dizendo é o básico, óbvio. Voltando ao fio da conversa: procuro o que desejo de Frédéric – com acentos - Chopin, o compositor polonês, amigo do pintor Delacroix e de Liszt. Leio e seleciono. Assim, não pensem que sei muita coisa. O que faço é pesquisar e, às vezes, encontro. Também ocorre de procurar um fato e descobrir outro ou me perder no labirinto. Há, pasmem, 600 bilhões de páginas na Internet. Mas, o que eu queria mesmo dizer é que no próprio Google descobri um tal de “google earth”. Earth é terra em inglês. O “google earth” é um site que se serve de satélites com recursos para mostrar fotos aéreas de tudo o que há no planeta Terra. É verdade. Tentei “Fortaleza” e apareceu a cidade, vista de cima. Tem uma mãozinha que você vai comandando com o “mouse”, e ele lhe leva para onde você quer. Pois não é que vi – e imprimi-os locais onde trabalho e moro e até os calçadões destroçados das praias. A propósito, li na Folha(FSP), de 31.08.05, pág. F2, que as tecnologias para exploração das profundezas da internet são consideradas questões e ferramentas de Estado. Paranóia ou medo? Valha-nos Deus. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/09/2005. - [OS APARATOS DA SOLIDÃO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-aparatos-da-solidao/): A maioria das pessoas reclama de solidão. E há até os que enxergam solidão nos outros, mas não veem as suas próprias. Criou-se na sociedade urbana atual um verdadeiro aparato para proteger a nossa privacidade. Temos carros com vidros escuros, travas elétricas, alarmes e até blindagem. Usamos telefone que recebe mensagens, ligações, mas tem bina para triar com que achamos por bem falar. As casas têm porteiros eletrônicos, cercas protetoras, grades, muros altos e cães ou vigias. O edifício tem vigias, vigilância eletrônica, interfones, câmeras e até os elevadores têm códigos ou chaves. As empresas são ou imaginam ser verdadeiras cidadelas. Tudo trancado, confinado, filmado. A cada dia as pessoas vão se isolando mais. Para alguns, o trajeto no elevador, em que o vizinho é companhia eventual, parece um tempo demasiado longo quando são apenas segundos. Trocam meros cumprimentos, se trocam. Há até os que entram no elevador, não enxergam o outro e ficam olhando para o infinito que esbarra na porta a centímetros dos seus narizes. O outro é o morador do 201 e não o fulano. A outra é aquela moça do carro cinza e sem nome E no mesmo prédio podem morar solidões a procura de companhia e ai os sites de amizades virtuais imaginam substituir as relações vivas entre gente de carne e osso. Lembro da minha casa da infância e juventude de porta sem chave, carro sem trava, irmãos entrando e saindo, vizinhos pedindo para dar um telefonema ou trocando gentilezas. Hoje, as pessoas se quedam no silêncio, extravasam seus problemas no consultório de analistas ou na ilusão da bebida em bares e restaurantes onde o barulho do som embota as conversas. O ombro amigo, aquele que ouve e cala, vai ficando longe da realidade. Não se confia, não se confidencia, não se fia. E aí se poderia objetar que a pessoa amada deveria ser esse confidente. Na verdade, seria bom se assim fosse, mas não é a regra geral. Mostrar “as fraquezas” poderá ser fatal e aí não se desce à essência e os dois vivem em mundos paralelos e dessemelhantes. Há saída? É claro que deve haver e isso vai depender de cada um admitir que o outro é alguém parecido com ele, padecendo dos mesmos males e ansiando por ter com quem possa trocar dois dedos de conversa ou de afagos sem medo de retaliações ou censuras, pois as nossas vidas, mesmo que não queiramos, acabam enredadas nas teias dos relacionamentos. Há um provérbio que diz: “Não declares que as estrelas estão mortas só porque o céu está nublado.” Assim, espere que as nuvens passem e descubra as estrelas. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/08/2005. - [DE MÉDICO E LOUCO ...](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-medico-e-louco/): Conviver é uma forma primária de se obter ou pensar obter saber. De médicos e loucos, todos temos um pouco, dizem. O meu “fortuito e pseudo - saber médico” é produto de “corda de amigos-clientes”, da convivência com médicos, de razoável ouvido e da curiosidade que me leva a pesquisas casuísticas na Internet, leitura do DEF - dicionário de especialidades farmacêuticas, e a alguns poucos livros sobre os meus males e os dos amigos. Alguns médicos amigos até já me disseram: João, cuidado com o Conselho Regional de Medicina. Fiquei temeroso, acreditem. Pois não é que, em vez de ser punido por “exercício ilegal”, uma entidade médica me confere um título honorífico? Sou agora um dos seus pares, imaginem. E esse título tem relevância ao ser outorgado pela Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, presidida pelo poeta médico José Telles. Teoricamente, os escritores veem mais, têm sonhos e delírios. E quando são delírios verdes de esmeraldas surgem com hiperatividade e mialgia, sem nenhum sinal de crioterapia nas emoções. Sabe-se que a literatura sempre se valeu da medicina como contraindicação à mesmice e a usa como plasmadora de enredos e tramas. Consta que Hipócrates comparava o exercício da medicina com uma cena em que intervêm três atores: o paciente, o médico e a enfermidade. Talvez seja esta a razão primeira da literatura e da medicina caminharem juntas, tentando, uma e outra, entender, explicar e resolver os problemas humanos. Claramente, o exercício da medicina é uma tarefa difícil, pois deve associar ciência ao humanismo indispensável à boa prática, no entanto fascina escritores e é matéria prima importante para a literatura. Igualmente, a literatura extasia muitos médicos. A escrita é como uma hemoptise imaginária, o sangue jorra pela mão que faz curar mente e corpo. É a premência de colocar no papel, ou no computador, como se fora uma emergência, juntando palavras. Não meras fórmulas alquimistas ou teses científicas, mas a quimera da escrita, uma espécie de catarse, de ressuscitação do eu profundo Então fica acertado assim, que por ser meio louco, por não ser médico e apenas mero aprendiz de escritor, amigos médicos-diretores da Sobrames, após grave junta médica, com anamnese e estudo clínico específico, cuidaram de apascentar meu juízo com o título de sócio honorário e o fizeram justo em um congresso nacional, para que eu assumisse de público, em caráter nacional, o compromisso de nunca mais exercer a minha proibida e incipiente medicina de algibeira. Ledo engano, agora é que a coisa complica, pois fui legitimado, Transformaram-me em colega. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/08/2005. - [O PRESENTE DO PAI](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-presente-do-pai/): As enciclopédias e dicionários dizem que pai é (1) homem que tem um ou mais filhos;(2) animal do sexo masculino que gerou outro;(3) Deus, no sentido bíblico;(4) protetor etc. Parece que hoje a coisa mudou. Pai é, quase sempre, apenas alguém que tem um barco para comandar e sabe que as suas mãos calejadas talvez não tenham mais força para levar a nau e tripulantes a um bom porto. De qualquer forma, cá estamos em novo dia dos pais. E o presente? No duro, o que me vem à mente é que o pai é um ser periférico. As mães, primeiras hospedeiras dos filhos, deixam isso bem claro para eles: eu é que sou importante. Eu é que sofro. Eu é que educo. Eu isso e aquilo. O pai, bem, o pai é apenas um pai. Sou pai do século passado, mas ainda não entendi bem a razão de nos cobrarem tanto e, em contrapartida, não nos darem muito? Cobram atitudes, comportamento, amor, dedicação, presença e parece que esse ato de cobrar se esvai nele mesmo. Tenho conversado com muitos pais, especialmente pais já maduros, de filhos adolescentes e adultos. E percebo, em muitos, um sentimento de desapontamento em relação aos filhos. São pais na hora dos problemas, das crises, das angústias, mas são esquecidos nas horas do bem bom, na alegria pelas vitórias pessoais, quando acontecessem. Desde Freud e seus seguidores, vem sendo dito que é preciso “matar o pai” para poder crescer. Se não é assim, é algo parecido, segundo os psi. Creio que a nova geração de jovens e adultos jovens levou essa história ao pé da letra. O pai é uma espécie de “step”, fica ali próximo, na reserva. É natural que o filho precisa crescer e tomar decisões próprias, daí, quem sabe, a ideia de isolar o pai e não se deixar contaminar por “sua experiência meio ultrapassada”. E se o velho sofrer com isso: “paciência, todos sofremos”. É provável que o pai, como todos os seres humanos, seja carente e, por tal razão, queira estar mais próximo, não apenas quando o circo pega fogo, mas no dia em a turma sai para festejar ou quando a sua opinião, mesmo não tão esperta, possa servir de alguma forma como balizamento em decisões. Pai não tem diploma de competência, certificado de santidade ou de referência de vida. Pai é apenas um cara que nasceu antes, escolheu e amou uma mulher com quem gerou filhos. Isso não o faz iluminado, semideus e paradigma de virtudes. Penso que o maior presente que o pai deseja do filho, é apenas ser reconhecido como sua imagem e semelhança, sem essa de patriarca, mas com a afetividade do amigo que entende o outro por ter defeitos parecidos. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/08/2005. - [OS MILHÕES DE SOLTEIROS DO BRASIL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-milhoes-de-solteiros-do-brasil/): Em meio a denúncias, fofocas e afins, sobraram seis páginas na revista Veja desta semana (03.08.2005) para um assunto ameno: as melhores cidades brasileiras para solteiros. Para quem não leu a reportagem na Veja, vá em frente. De princípio, fique logo acertado, que solteiro é hoje: toda pessoa, mulher ou homem, maior de 18 anos que não tenha casado, ou seja separada, desquitada, divorciada, viúva e junta, mas nem tanto. Há 52 milhões de solteiros no Brasil. De primeira remessa ou com muita estrada. A Veja quis saber o que fazem os solteiros e até estabeleceu “os critérios do ranking” das cidades: “A cidade precisa ser servida de bares, restaurantes e casas noturnas. Além disso, eles gastam mais com atividades culturais. Por isso, é importante que haja uma grande quantidade de teatros e cinemas”. Na classificação, deu São Paulo na cabeça. Lá, os solteiros têm tudo o que querem. Será? Brasília ficou em 2° lugar, também pudera, com tanto dinheiro circulando. Curitiba está no 3°. Belo Horizonte, apesar das agências de publicidade, ficou em 4°. Salvador, onde tudo é mais lento, ficou em 5°. O Rio de tantos tiros e folguedos vem no 6°. Porto Alegre, com chimarrão e churrasco, está no 7°. Recife do mangue-beat se queda em 8°. Fortaleza, metida a não sei o quê, amargou o penúltimo lugar e Manaus, franca e calorenta, fica em último. E tem mais: um em cada três solteiros de São Paulo fala no mínimo um idioma estrangeiro. Fala para o espelho? 33% dos brasilienses acessam a internet, certamente para ver como anda a sua conta bancária. Os curitibanos gostam de esportes radicais (40%). 87% dos belo-horizontinos adoram comprar roupas, pois há muito dinheiro. Em Salvador, o bom é beber. 66% frequentam bares e o resto vai para a academia. Trabalhar para que? No Rio, a cidade das aparências, 69% gostam de experimentar novos produtos e marcas. Em Porto Alegre, 60% dos solteiros preferem ficar em casa, não se sabe se sós ou acompanhados, mas criam gatos e cachorros. 60% dos recifenses colocam o trabalho em primeiro lugar e talvez por isto continuem solteiros. Em Fortaleza, 44% saem para jantar e 35% dizem frequentar clubes ou afins. Ao fim e ao cabo, apesar da superficialidade da reportagem e da crônica, fica a certeza de que mais de um 1/3 da população adulta brasileira mora só e parece não ver o casamento como solução ou segredo da felicidade. Egoísmo? É provável. Desapontamento? Todos têm desapontamentos. Insegurança emocional? Quem sabe. Mas, Sócrates já dizia que “um bom casamento exige que o homem seja surdo e a mulher cega”. Parece que os homens solteiros estão ouvindo bem e as mulheres solteiras cada vez enxergam melhor. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/08/2005. - [GONZAGA, LONDRES, GONZAGA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/gonzaga-londres-gonzaga/): Gonzaga é uma cidade perdida no interior de Minas Gerais. Tem menos de 6.000 habitantes, mas possui 4.599 eleitores. A renda média mensal é de 240 reais e lá não existe leito hospitalar. Foi nessa cidade que nasceu Jean Charles Menezes, o brasileiro de 27 anos, morto dentro de um vagão de metrô de Londres com oito tiros, dizem que imobilizado e de bruços. Um dia, como tantos outros brasileiros sem esperança, ele resolveu enfrentar a vida e escolheu Londres. Fez-se eletricista, ralou, regularizou seus documentos e ia vivendo. O problema de Jean Charles é que ele não era caucasiano. Era um brasileiro de raças misturadas, como quase todos nós. Por estar em Londres, a cidade que estava sendo alvo de atentados terroristas, Jean Charles foi perseguido por homens a paisana que eram policiais. Entrou no metrô e morreu, do jeito que todos já sabem. Londres abriga, como toda metrópole, um grande contingente de estrangeiros, especialmente os vindos do dito 3o. mundo em busca de emprego e um lugar em meio ao sol, ou melhor, à bruma quase diária. Pesquisas e análises feitas por organismos internacionais, ongs e assemelhados mostram claramente que esse êxodo é produto exclusivo da falta de oportunidade em seus países de origem. Acresça-se a isso: os imigrantes constituem mão-de-obra barata e, quase sempre, submissa e explorada. Quase todos os dias pessoas como Jean Charles estão tentando atravessar fronteiras de países. Só no México, neste ano de 2005, entraram cerca de 60.000 brasileiros e só há registro de saída de 7.000. Os outros 53.000 estão entre os que já tentaram atravessar a fronteira e conseguiram, os que tentaram e foram presos, os que tentaram e morreram e os que ainda estão tentando. Nos próximos dias chegarão em avião fretado 300 deportados. Voltemos a Londres. De lá o corpo de Jean Charles voltou para Gonzaga. Foi enterrado. Houve discursos e cobertura jornalística. Por certo, uma indenização seguiu junta e a família ficará agradecida ou dará procuração a um diligente advogado que, certamente, se apresentou solícito. Em breve, o caso Jean Charles será esquecido, mas outros brasileiros como ele estarão sendo empurrados para a aventura no exterior e correrão os mesmos riscos para mandar dinheiro para os seus, contabilizado pelos bancos brasileiros, quem sabe, como “divisas vindas do exterior”. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/07/2005. - [LEIA E PASSE ADIANTE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/leia-e-passe-adiante/): No Brasil se leem, em média, 1,8 livros por ano. Enquanto isso, na França se leem 7,0 livros por ano. Nos Estados Unidos, o nível de leitura é de 5,1 livros/ano. Os brasileiros precisam e devem ler mais. O problema é que as pessoas não compram livro por duas razões básicas: ou não têm dinheiro para comprar ou não gostam de ler. É tempo de mudar e há muita gente preocupada com isso. Se não leio, não me informo, se não me informo, não posso saber, se não sei, não posso decidir bem. Leitura de jornal e de livros é uma arma contra a ignorância, contra o alheamento e a manipulação de nossa vontade pelos outros. Quem não sabe ou gosta de ler e só ouve rádio e vê televisão é presa fácil, pois quase segue sempre o que ouve e vê ou o que querem que ele ouça ou veja. Felizmente, no mundo há uma porção de gente com ideias boas, sem outro objetivo que o de fazer o bem. Uma dessas ideias foi chamada de “book crossing” que, pelo dicionário inglês Oxford, é o ato de deixar um livro em local público para ser levado por alguém. Traduziram, livremente, em português, como “passe adiante”. O Passe Adiante é uma coisa que todas pessoas podem fazer. Não é uma dessas correntes de dinheiro, e-mails de fofocas, tampouco de felicidade, mas pode tornar pessoas mais ricas em conhecimento. A ideia de criar grupos de “book crossing” -ou passe adiante - no mundo, parte do pressuposto de que muita gente tem livro já lido e, na outra ponta, há gente que quer ler, mas não tem dinheiro ou hábito de ir até a uma livraria. O que se fez foi juntar grupo de pessoas que tenham livros, já lidos, em suas casas. Essas pessoas, inicialmente, em um dia determinado, após divulgação pela imprensa, fazem uma grande distribuição de livros em locais públicos previamente escolhidos e, juntamente com os livros, deixam mensagens para quem receber cada livro ter a gentileza de fazer o mesmo, ou seja, também passar adiante o livro após a sua leitura. Passar adiante é um ato simples, mas que pode criar hábitos de leitura. Escolha um local público. Pode ser um grupo escolar, colégio, igreja, faculdade, banco de praça, biblioteca pública, bar, shopping etc. Nesse local você deixará um -ou mais - livro e pedirá que o ganhador também possa, no futuro, fazer o mesmo. Desculpem se estou repetindo, mas é preciso que cada pessoa que deseje ser um voluntário no “Passe Adiante” conheça como ele funciona. Em breve, muito breve, teremos um ou mais movimentos Passe Adiante. Quem tiver livros já lidos para doar poderá ir separando. Uma pergunta final: Se alguém não lê, de onde virá o seu saber? Pense nisso. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/07/2005. - [DO SERTÃO OLHANDO O MAR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/do-sertao-olhando-o-mar/): Neste domingo, deste mês de julho de tantas descobertas não científicas, o Ceará, depois de muita luta, recebe, com alegria e carinho, expressivo número de cientistas para mais uma Reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência –SBPC. Todas as reuniões serão na Universidade Estadual do Ceará –UECE, campus do Itaperi, um ambiente simples, acolhedor e agradável que reflete o nosso jeito de ser. “Do Sertão olhando o Mar” é o sugestivo leit motif do encontro. E como ciência é uma palavra que comporta várias interpretações e gradações, certamente teremos manifestações diversas de conhecimento, todas passando, quem sabe, pela única definição clássica que penso ter aprendido de Ciência, aquela que se constitui um conjunto organizado de conhecimentos relativo à determinada área do saber, caracterizado por metodologia específica. O grande problema de reunir luminares, aspirantes e afins é que existe uma ciumeira histórica entre cientistas dos vários ramos do conhecimento humano. Se sou físico (especialmente neste ano que é dedicado à física), certamente imagino que sou mais cientista que um sociólogo. Já o sociólogo (que acredita que todos os anos são deles) pensa exatamente o contrário e por aí vai. E o que ficará pensando o matemático disso tudo? Pois é. Esquecida ou desaquecida a fogueira das vaidades, é importante que, mesmo com os naturais e benfazejos pensamentos conflitantes, cientistas das mais diversas áreas se reúnam e debatam livremente o que está acontecendo no mundo da produção científica, mas sem deixar de lado o que se passa no mundo real, base do nosso existir. Não quero e nem sei falar sobre a filosofia da ciência, pensamento que vem desde o século XIX, mas este encontro deve reservar bastante tempo para reflexões sobre o Brasil atual e real, este que nos acolhe e encolhe em meio a diatribes de muitos imputadas a poucos. É certo que não deve haver preconceito para rever posições e comportamentos em reunião de cientistas e, se isso acontecer, seguramente todos sairão ganhando, pois há temas que transcendem às pautas e teses a serem expostas e defendidas. E talvez seja o caso de nos lembrarmos da Ciência da Lógica de Hegel que a entendia não como o universal abstrato, mas o particular, o casuístico que modifica ou encarna o universal. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/07/2005. - [IDEALIZAR OU DEMONIZAR O OUTRO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/idealizar-ou-demonizar-o-outro/): Um dia, por um motivo qualquer, perdemos a confiança em alguém. A relação, que havia sido construída, acaba. E o pior é que nós ficamos ruminando, pensando, procurando descobrir as razões. Nessas horas, sempre idealizamos ou demonizamos o outro. Até o instante da perda da relação, o outro faz parte do nós, pois o nós depende de, pelo menos, duas pessoas. Assim, parece ser na vida familiar, afetiva, profissional, social e até nos sonhos políticos e de grandeza que sempre mantemos acessos para o nosso país em cada eleição. De dois em dois anos, quer queiramos ou não, somos obrigados a estabelecer uma relação lógica e lúcida com candidatos, mas somos afetivos. Temos que escolher, fazer um juízo de valor, mas, quase sempre, optamos por gostar mais de A do que dos outros. Por isso, o escolhemos. E como o brasileiro é passional, embora não vigie e nem cuide, imagina que tem um vínculo com o seu candidato. E o mais sério, cada um imagina que o seu candidato também tem um vínculo com ele. Basta uma frase bem dita na televisão, uma ideia salvadora, um gesto forte, a mensagem de que tudo será diferente e o vínculo está atado. Ele é o nosso candidato e herói e pensamos que vai fazer lá o que nós gostaríamos. Para nossa alegria, ele vai eleito. E aí torcemos para que tudo dê certo e as promessas sejam cumpridas. O tempo passa. Um dia, por outro motivo qualquer, perdemos a confiança na pessoa que foi eleita. Mas, para isso acontecer, durou um tempo anterior de desconfiança. Primeiro, foram os hábitos que mudaram. Depois, as companhias. Enfim, o comportamento. E aí o desengano, como se ele deixasse de fazer parte do nós afetivo que, unilateralmente, criamos. Pois o brasileiro não é apenas eleitor, é uma espécie de avalista afetivo do seu candidato. É claro que estou falando do eleitor que se imagina esclarecido, do que se acredita politizado, do que sempre faz planos para o futuro. E como os nossos políticos gostam de falar de improviso, isso me leva ao filósofo Thomas Hobbes, em seu famoso Leviatã, escrito em 1651, há 454 anos, e que pretendia ser matéria, forma e poder de um estado (eclesiástico e) civil. Pois Hobbes, talvez admitindo política como negócio, diz na página 256 do seu Leviatã: “Em qualquer negócio, por mais capazes que sejam os conselheiros, o benefício do seu conselho é maior quando o dão a qualquer pessoa sua opinião juntamente com as razões dela, do que quando fazem por meio de um discurso numa assembleia. É tanto maior quando pensaram antes o que vão dizer do que quando fazem de improviso. Porque em ambos os casos tiveram mais tempo para examinar as consequências da ação e estão menos sujeitos a cair em contradição, devido à inveja, à emulação ou a outras paixões que surgem da diversidade de opiniões”. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/07/2005. - [UMA FORTALEZA SEM FIOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/uma-fortaleza-sem-fios/): Ano passado, em uma noite de céu claro em Madri, descobri que não havia nenhum fio ou cabo entre os diversos postes da cidade. Tudo era subterrâneo. A paisagem ficava mais limpa e o céu parecia livre dos tentáculos dos fios e cabos que conduzem a eletricidade, a telefonia e as televisões a cabo. É claro que muitas cidades do mundo são assim (Brasília era assim, porém ...) e isso não é privilégio de Madri, mas foi lá que tal fato me chamou a atenção. Imaginem uma cidade sem fios e cabos, pois é bonito, posso dizer. Agora, para alegria minha, vejo que na cidade de São Paulo foi aprovado o projeto de lei nº 248/01 do vereador Milton Leite, do PMDB. Só precisa agora que o prefeito José Serra sancione. Se não sancionar, tenho pena do futuro político dele. Deixo tudo claro para que algum vereador de Fortaleza procure o texto na Internet ou tente fazer algo semelhante em Fortaleza. E a lei em questão prevê que tudo seja resolvido em cinco anos pelas concessionárias e que no local de cada poste retirado seja plantada uma árvore. Como seria bom que esta cidade se livrasse do emaranhado de fios e cabos e, consequentemente, dos furtos que provocam mortes, acidentes e desligamentos, sem falar nos “gatos” que encarecem a energia de todos, na melhoria visual da paisagem urbana e nas podas de árvores, nem sempre adequadas, que as concessionárias de energia e telefonia fazem. O plantio de árvores, por outro lado, poderia oferecer créditos de gás carbono à Fortaleza, instrumento normatizado pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto. Trocando em miúdos, a cidade agregaria valor do ponto de vista ambiental e teria condições de pleitear financiamentos nacionais e internacionais e negociações a fundo perdido para aplicar em meio ambiente. Hoje, já há mercado de negociações para as cidades que melhoram a poluição ambiental, aumentam o plantio de árvores, semeiam parques, despoluem cursos d’água e dão demonstrações claras de que lutam por um desenvolvimento sustentável. O desenvolvimento sustentável para mim, que não sou ecologista, é, pelo menos, a consciência e a ação dos que vivem hoje de que não podem abusar dos recursos naturais sob pena de prejudicar os que virão depois. Se não for assim, é algo parecido. O importante é que a responsabilidade social, não só a dos políticos, mas a de todos nós, se torne clara e não seja um mero exercício de retórica. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/07/2005. - [XODÓ BEM ANTIGO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/xodo-bem-antigo/): Dizia Mark Twain que “a pessoa que não lê bons livros não tem mais mérito que o homem que não sabe ler”. Foi por acidente que comecei a gostar de ler. E a cada dia que passa vou ficando mais ligado aos livros. É uma antiga história de xodó. Eu tinha menos de 14 anos quando uma camioneta de cargas parou defronte à nossa casa. Dela fizeram descer duas estantes de madeira com vidros. Na frente de uma estava entalhada no frontespício a palavra “Ateneu” (que significa academia ou escola e é também o nome de um romance - O Ateneu -de Raul Pompéia, escrito em 1888). Pois bem, começava ali, naquele dia, o meu xodó com os livros. Meu pai havia comprado toda a biblioteca de José Maia de Almeida. Sei disso porque em todos os livros estava a assinatura com letras bem desenhadas de Almeida. Até hoje não sei quem é ou foi José Maia de Almeida. Alguém sabe? A maioria dos livros, todos encapados em papel madeira, era de bons autores brasileiros, tipo Machado de Assis e José de Alencar. Havia poucos estrangeiros, alguns livros de História Geral e do Brasil e enciclopédias. Mandei fazer um carimbo e apelidei as duas estantes de “Biblioteca Bezerra de Oliveira” e, em cada livro, dava um número, a partir do 1. Faço a máquina do tempo girar e me vejo agora na Associação Brasileira de Bibliófilos, por obra e convite de José Augusto Bezerra, este sim, um bibliófilo apaixonado. Bibliófilo é quem ama e cuida de livros, os de primeira edição e, especialmente, os raros. Vai daí que recebi no dia 31 de maio passado, junto ao jornal Folha de São Paulo, o caderno Sinapse, um suplemento que a cada 30 dias traz matérias gostosas de se ler. Pois bem, a edição trazia na capa a manchete “Por amor aos livros” e falava de bibliófilos e de suas coleções. Mandei, com um bilhetinho, a tal Sinapse para o José Augusto Bezerra que, por sinal, acaba de ingressar, por méritos, no Instituto Histórico do Ceará. Foi aí que se viu a injustiça que a Folha cometeu com a nossa ABB. Deu destaque à Confraria dos Bibliófilos do Brasil que só tem 10 anos e esqueceu de lembrar da nossa Associação dos Bibliófilos do Brasil que faz exposições periódicas (agora mesmo tem uma sobre Don Quixote na Academia Cearense de Letras) e se orgulha dos bibliófilos que a integram. Está feito o registro. Que a Folha faça a correção, e breve. Caso contrário, mandaremos à sua redação qualquer livro-bomba, que certamente não fez e nunca fará parte de nossos acervos, pois como dizia Voltaire:” acontece com os livros o mesmo que com os homens: um pequeno grupo desempenha um grande papel”. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/06/2005. - [GUILHERME NETO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/guilherme-neto/): No quase final dos anos 60, saído da universidade, eu escrevia uma coluna diária no jornal Correio do Ceará, dos Diários Associados. Tinha o pomposo nome de “Administração e Negócios”. A coluna cuidava de escrever sobre essa profissão que surgia e, por conta disso, li e comentei sobre as minas do Amapá e a exploração de manganês pela Indústria e Comércio de Minérios – Icomi. Seu controlador, Azevedo Antunes, resolveu me convidar para conhecer “in loco” a extração e a exportação do manganês e o fez com liberalidade: “convide os jornalistas que quiser.” Assim o fiz. Chamei sete. Mas, o que importa nessa história é que João Guilherme da Silva Neto era um dos convidados. Os Diários Associados ainda estavam em seu auge e Guilherme Neto era uma espécie de faz tudo na TV-Ceará, onde hoje fica a “holding” do Grupo Edson Queiroz. Fazia direção, tele-teatro, redação e cantava. E fazia tudo muito bem, com os limitados recursos técnicos de então, dando asas ao seu imaginário e inventividade. Hoje ele é astro do “Clube dos Gatos”. Não frequento o “O Clube dos Gatos”, uma irreverência semanal etílico-literária onde a sabedoria do falar manso e a beleza de voz de Guilherme Neto se fazem ouvir. Mas, louvo os que ali se reúnem em torno de Baco e das canções com o descompromisso que a amizade deixa fluir. Embora distante, considero-me amigo do Guilherme Neto, pois dizia Emerson sobre a verdadeira amizade: “não precisamos nos encontrar, nem conversar, nem corresponder, nem trocar lembranças”. Basta ser. Voltando à viagem, saímos de Fortaleza de avião para Belém e de lá para Macapá. Em Macapá, tomamos um charmoso trem privativo e fomos para Porto Amazonas, quando tivemos oportunidade de descansar dos ares e da estrada de ferro. Foi lá que descobri quem era Guilherme Neto, uma figura já madura, mas leve, humana, companheira e agradável. Fizemos uma boa camaradagem, instigados por Lúcio Brasileiro, que também estava no grupo. Anos depois, Lúcio, com a sua mania de nos tornar maiores que somos, resolve chamar Guilherme Neto de “Barão”. Pois não é que acertou. Na realidade, no Ceará nunca houve baronato por nobreza e sim por concessão do poder vigente. Pois Lúcio se tornou o poder concedente e o fez muito bem. Agora, outro poder concedente, a Câmara Municipal de Fortaleza, outorgou a Guilherme Neto a Comenda Boticário Ferreira e o fez por justiça. E lá no Cumbuco, no seu exílio voluntário, certamente Lúcio Brasileiro, ao polir a dignificante 1ª. Medalha Régis Jucá que recebeu do Ideal Clube, no mesmo dia e hora em que o “Barão” recebia a Boticário Ferreira, verificará que seu gesto jornalístico antecipou em anos a homenagem que a cidade de Fortaleza devia a Guilherme Neto, gente de bem. E gente de bem fica para sempre. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/06/2005. - [O GRINGO-BRASILEIRO ERROU](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-gringo-brasileiro-errou/): “Por que um país católico, como o Brasil, tem uma cultura tão menos confessional do que a minha pátria protestante, os Estados Unidos, onde até os não-famosos escrevem sobre os seus triunfos e traumas, não importando o quão triviais eles sejam?” A pergunta é feita na Folha de São Paulo pelo escritor americano Michael Kepp que mora a 22 anos por aqui. Discordo completamente do “gringo-brasileiro”, como ele se auto-intitula. Kepp erra ainda ao dizer que “os brasileiros somente se expõem nos reality shows.” Ora, ele esquece que esses “bigs” da vida começaram lá na sua pátria. Uma coisa é ser confessional, outra coisa é a palhaçada em que a televisão mostra cenas íntimas de pessoas trancafiadas à espera do dinheiro do prêmio ou da glória futura. Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, Luiz Fernando Veríssimo, Airton Monte, Lya Luft e outros são puramente confessionais. Cony contou o drama da doença e morte de seu cachorro, sem falar na vida suburbana de seu pai. Zuenir relatou todos os seus passos de sua luta vitoriosa contra um câncer. Veríssimo descreve sobre o saxofone que toca, o time que torce e faz troça de sua condição de gaúcho macho. Airton se derrama falando dos amigos, das músicas que ouve, do dinheiro que espera ganhar na loto e das longas tardes-noite de domingo em que o vinho o embala na escritura. Lya se desnuda como mulher madura e fala como gente comum de dores, amores perdidos, desenganos, mas com esperança. Creio que Kepp anda lendo pouco os cronistas brasileiros. Bastaria ler, por exemplo, a Danusa Leão. Ela é confissão pura, sem retoques e com a liberdade da mulher que tirou todos os acessórios reais e virtuais e resolveu assumir a sua solidão, as lembranças dos ex-amores, a dor pela perda de um filho e a declarada antipatia pela vida social que levava. Os cronistas brasileiros, maiores e menores, se mostram totalmente no que escrevem. Qualquer leitor arguto verá as feridas da alma de quem registra fatos no papel, mesmo que a ironia presida as suas palavras. E olhe que não estou falando na profusão de livros lançados todas as semanas. Neles há meninos sonhando, adolescentes criticando, maduros se questionando e velhos se revelando. Muitos falam de suas vidas e as famílias ficam felizes por terem um “escritor” entre os parentes. Este não é só um país da fofoca, mas é também o país em que a maioria das pessoas, mesmo as que não escrevem, falam de suas entranhas e das coisas estranhas que acontecem em suas vidas. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/06/2005. - [CONVERSA SEM FIM](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/conversa-sem-fim/): Num dia qualquer do fim do século passado, Natércia e eu viramos amigos. Foi uma chuva de benquerença lavando as nossas almas já com tantos poréns. Descobrimo-nos amigos, aquela amizade definitiva e sem adjetivos que aporta e diz: estamos juntos. Pois foi assim. Era quase sempre na sua casa, doada pelo pai atento e cuidadoso. A varanda era o canto da conversa. De lá, o mar parecia tão perto, mas não se ouvia o seu barulho. Eu chegava e ela vinha com as mãos cheias de papéis, cartas e livros que íamos lendo, comentando, destrinchando, como se a destecer as redes que prendem as pessoas em mundos paralelos. Alegre, brejeira, crítica sem nenhuma acidez pessoal, entronizou-me em tudo. A partir dos tempos da Praia de Iracema, dos avós, a vida no Benfica, os filhos nascendo, as várias moradas, os primeiros escritos, o prêmio em São Paulo, o desfazimento do altar. A dor não superada da perda do filho Zé, e para cobrir o vácuo a profusão de cartas lítero-afetivas trocadas por correio, de forma ávida e romântica, com intelectual radicado em São Paulo. As amigas e a vida das filhas, as daqui e as que brilhavam em Brasília. E tinha o amor maduro lá em Acauã, tão terno e forte como uma estaca bem fincada, com atenções e idas e vindas. Desse amor saiu livro com conversas de alpendres. E no meu pensar, sua vida, a partir daí virou definitivamente. Câmara Cascudo cruzou o seu caminho e pode ter sido o mote das ricas imagens advindas. E aí a contista foi se alicerçando em romancista com luz, tempo, história e vernáculo próprios, criando a casa a contar sobre vivos e mortos o que nenhum analista ouviu e a exorcizar os demônios que a todos visitam até que a água encerra tudo. Outros prêmios, ingressos em academias, o casamento matutino da caçula em mês de luas azuis, o desvelo pelo filho varão, os telefonemas sem fim com a irmã dos Guararapes e o tentar cuidar da mãe que se bastava na sua lucidez. Ríamos e padecíamos com os nossos individuais casos afetivos, cada um do seu jeito, como só o fazem os que se conhecem sem mentiras e sabem que o afeto não precisa de forma definida para existir. Amigos, como não sabíamos haver entre homem e mulher. Um dia, ela me fala da água balançando. Sempre água. E aí não se antecipou sentimento que doía um pouco a cada dia. Foi um longo lutar médico, seguido de altos e baixos, com serena dignidade. E então veio a manhã do dia de 02 de junho de 2004, aquela era a exata manhã que eu não queria que acontecesse E veio precedida da certeza que espantava com conversas sérias e troças, mas sabia que Ela chegaria. E desde então não há tempo em que a cabeça deixe de pagar sentimentos e, em alguns momentos, ainda nos imagino conversando. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/06/2005. - [NAS FRONTEIRAS DA TOLERÃNCIA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nas-fronteiras-da-tolerancia/): Dizia Balshenkof que “toda relação é um teste de limites”. Nunca há greve de sentimentos na vida. Assim parece ser na família, trabalho, sociedade, política, costumes e ordem social. Por esta e outras razões, nos dias 16,17 e 18 deste maio que finda, na cidade de Lisboa, estudiosos, cientistas, profissionais, acadêmicos e interessados de Portugal, Espanha e Brasil estiveram discutindo as fronteiras da tolerância sob os auspícios da Universidade Nova de Lisboa. Na realidade, havia um Colóquio internacional e interdisciplinar tentando levantar questões e encontrar respostas envolvendo as perspectivas filosófica e histórica, cuidando de ver os direitos humanos e as liberdades do agir, pensar e da fé. Igualmente, analisava culturas e ciências, bem como o comportamento das minorias no ontem e no hoje. Verificava-se, como claro é, que há ressurgimentos com sinais claros de intolerância ao redor do mundo, daí foi escolhido o nome de Pro Dignitate para o movimento que foi organizado e deflagrado pelas Dras. Maria de Jesus Barroso Soares e Maria Helena Carvalho dos Santos, auxiliadas por Mery Ruah e Antonio Andrade, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL. Na abertura dos trabalhos, a Dra. Barroso Soares disse que “as questões da tolerância e da intolerância atravessam transversalmente as sociedades” e falou também que “a história do mundo tem constantemente viajado entre esses caminhos, seja no plano político e religioso, seja relativamente a imigrantes e minorias, seja, ainda, no interior das famílias, escolas ou no mundo do trabalho”. Assim é que se analisou, entre outros temas, o significado do humanismo, o papel da mídia, o direito de imigrar, a genética molecular, as liberdades individuais e coletivas, a violência contra a mulher, a prática da mutilação genital feminina em países africanos e do Oriente Médio, a xenofobia, os direitos humanos e a exclusão social. Poderá alguém dizer que é muito tema para 03 dias de estudo. É e não é. Na verdade, cada um dos expositores teve o cuidado prévio de arrumar, por escrito, suas ideias que brevemente serão apresentadas em livro que circulará inicialmente em Portugal, mas poderá ter edições brasileira e espanhola. Como escreveu poeticamente a Profa. Maria Helena Carvalho dos Santos: “continuamos a escrever livros e aprendemos a fazer colóquios. Para quê? Talvez todos juntos estejamos em condições de aprender a escrever a palavra paz”. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/05/2005. - [O SOL DE LÚCIA MARTINS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-sol-de-lucia-martins/): “Não há nada de novo debaixo do sol, e ninguém pode dizer: Eis aqui uma coisa nova, porque ela já existiu há séculos que se passaram antes de nós”. Está lá no Eclesiastes. E foi desse livro bíblico que Lúcia Martins tirou o nome do seu romance “Nada de Novo sob o Sol”, publicado em 1967. No princípio, era Sandra Lacerda, mas logo se descobriu o seu nome verdadeiro e com ele, em 1977, ganhou o prêmio José de Alencar, pela UFC. Mas, já era vencedora. Em 1945, com “Janelas Entreabertas”, foi menção honrosa no prêmio Aequitas. Em 1952, o prêmio Rádio Roquete Pinto, no Rio, com “Histórias Infantis Radiofonizadas”. Em 1953, com “Destinos Cruzados”, o prêmio da Prefeitura de Fortaleza. Neste mês de maio o Ceará perdeu o sol de Lúcia Martins. Não era cearense, mas se cearensizou ao casar com Fran Martins. Lúcia teve olhos atentos para o que acontecia nesta terra e manifestava esse conhecimento em crônicas, contos e romances. Olhar profundo, semblante sereno, o jeito de quem sabe do mundo e a certeza de “não há nada de novo sob o sol”, não se deixou ofuscar pelo brilho do marido. Tinha sol próprio. Eram talentos diferentes e paralelos. Em 1952, aos 26 anos, quando da morte de Joaquim Alves, integrante do grupo Clã, escreveu: “Agora, o que se faz preciso é cultuar-lhe a memória, dar-lhe o lugar entre os grandes trabalhadores intelectuais do nordeste, não deixá-lo esquecido, como se fez com Oliveira Paiva, que somente sessenta anos depois de sua morte teve os seus méritos justamente louvados.” Em 1953, na revista 14 do Clã, estava Lúcia a entrelaçar palavras ao criar o conto “Questão de Consciência”, depois reproduzido no seu livro “Histórias para passar o tempo”, de 2000. Vejam como Lúcia escreve sobre a morte de uma personagem: “Meia hora depois estava na casa da amiga morta. Chegou apressada, uma cara que sempre fazia para ocasiões dessa natureza: missa de sétimo dia e enterro pedem uma fisionomia diferente. Um ar mais sério, mais sóbrio. E ela sabia manter aquela linha que considerava fazer parte da personalidade da mulher”. Estive no velório e na missa de sétimo dia de Lúcia e tudo me fazia lembrar o que ela descreveu em 1953, como se madura fosse e era para antever fatos. A serenidade de Lúcia Martins, pós-morte, me fez lembrar de Platão, na Apologia, quando dizia que “ninguém sabe se a morte, que os homens, em seu medo, supõem ser o maior mal, não é talvez o maior bem”. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/05/2005. - [O BRASILEIRO É CORDIAL?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-brasileiro-e-cordial/): Já faz muito tempo que vivemos baseados em pesquisas. Pesquisa-se o clube favorito, carro adequado, perfume inebriante, mulher mais atraente etc. Há pesquisas para todos os gostos e formas. Uma delas me chamou a atenção. Via Internet foram entrevistadas 10.646 pessoas em novembro passado, sobre o que causa mais irritação ao brasileiro. O resultado foi apresentado neste maio de 2005, via Reader’s Digest, por Dirley Fernandes. Há até bem pouco tempo o brasileiro era tido como um “homem cordial”, assunto abordado inclusive no livro de Sérgio Buarque, “Raízes do Brasil”, de 1936. O brasileiro era alguém que levava tudo na brincadeira e aceitava os revezes com bom humor e galhardia. A coisa mudou e de forma bastante clara. A cordialidade urbana minguou. Até mulheres, que davam exemplos, hoje furam filas, fazem gestos obscenos ao dirigir, gritam e xingam por nada. Dos homens nem se fala. São os “machões” que sabem tudo, bebem em demasia, discutem muito, têm razão sempre e brigam em casa ou em público. A pesquisa recebeu respostas de todo o Brasil. Gente de todas as classes sociais, bastando ter um computador conectado à Internet. O resultado foi por ordem de queixa. Explicando: a primeira queixa foi a que teve o maior percentual de respostas. A última: a que teve menor índice. Deu Impunidade em primeiro lugar. 65% dos pesquisados não acreditam que as leis sejam cumpridas no Brasil. O segundo lugar (61%) ficou para a Violência, não só a urbana, nos estádios, mas a que se espalha nas cidades do interior e nas questões agrárias. A Falta de Segurança ficou em terceiro lugar (48%), incomodando brasileiros que referiram a assaltos, sequestros, assassinatos, roubos de carros, casas e em condomínios, e a desarticulação das polícias. O quarto colocado (43%) foi o Desrespeito às Leis. Todos se acham donos da lei, exigem-na e poucos a cumprem. Começa, por exemplo, com o vizinho que faz uma festa até às quatro da manhã e “faz porque pode”, não se importando com o descanso do outro. A quinta reclamação (34%) foi a Superlotação dos Hospitais Públicos. Esse item é tão claro que nem precisa explicar. A Descortesia (33%) vem em 6º lugar. No Brasil ninguém pede licença, poucos agradecem ou dão bom dia. Um minuto de elevador parece uma eternidade. Os Fumantes (32%) já caíram para o 7º lugar, mas ainda jogam pontas de cigarro pelas janelas dos carros, cospem após fumar, dão a última baforada dentro do elevador, e desrespeitam a proibição de não fumar em lugares fechados e climatizados. Em 8º lugar (30%) vem o Lixo nas Ruas. Muita gente culpa as prefeituras, mas a outra acusada é a absoluta falta de cidadania. A rua é um depósito onde todos jogam tudo e esperam que retirem rápido, pois ele próprio, o Sugismundo, passa a reclamar. Em 9º e penúltimo lugar (21,4%) vem os Engarrafamentos, muitos deles motivados por pequenas batidas de carros que não têm seguro e aguardam por perícias que pouco resolvem. Por último (21,3%) vem a Má Educação ao Volante. Todos têm razão, xingam, param nas faixas, pedestre não tem vez e isso, dizem, talvez se deva ao número de “flanelinhas” e pedintes que atormentam os guiadores brasileiros. Afinal, o brasileiro é cordial ou não? João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/05/2005. - [MÃE DE ONTEM E DE HOJE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mae-de-ontem-e-de-hoje-2/): Um dia desses comentava com amigos que a nossa geração – a minha e a deles – tinha vindo ao mundo de forma mais gentil. Os filhos nasciam, quase sempre, por mãos de médicos amigos ou de parteiras que, quase integrados às famílias, ofereciam a criança à mãe parida ainda envolta no líquido que a protegeu por longos meses. Após o parto, médico ou parteira lavavam o rosto e as mãos, tomavam café com bolo, davam adeus e saiam. A conta ficava para depois, sem pressa e sem ajustes prévios. A partir daí era a mãe quem tomava as rédeas. O filho é teu, cuida dele. Quando muito, era ajudada por uma parenta ou empregada que fazia de tudo. Os filhos mamavam no peito, o berço ficava ali de lado da cama do casal e os outros irmãos, pois sempre tinham outros, entravam e saiam em algazarra, enquanto ela pedia, sem êxito, silêncio. Essa mãe, quase sempre, era apenas dona de casa, daí encontrar tempo para cuidar dos filhos, contar histórias, ouvir rádio, costurar, cerzir, ler e tomar banho ao final da tarde para, perfumada e vestida em leve vestido de algodão, esperar o marido que trazia novidades da rua. Essas histórias e lembranças, em meio a este Dia das Mães de 2005, parecem ter acontecido em outra vida em que as portas das casas não tinham chaves de cilindro, nem eram protegidas por grades, eletrônica e trancas. As calçadas eram prolongamento do viver em família e os vizinhos não só se conheciam, mas formavam grupos de amigos que jogavam peladas, xadrez, damas, bila, triângulo, gamão ou baralho, com cartas já usadas e curtidas pelo tempo. Hoje, “é o menino do 201”, “a viúva do 402” e “o casal que briga no 702”. Parece que ninguém tem nome. E é esse mesmo tempo, que nos mostra a face atual da maternidade, pois quem muda são as pessoas e as coisas. A mãe de hoje é, via de regra, mulher profissionalizada, ciente dos seus direitos, corresponsável pelo sustento da família, interconectada, programando-se para ter os filhos que determinar, deles cuidar com outros olhares, e assistida – quando pode pagar - por “enfermeiras” ou babás de carteira assinada. É neste tempo de medo e dúvida que a família se nucleariza e se fecha com temor das diásporas sociais. A mãe de hoje vê o parceiro não mais como alguém que chega da rua com certezas, verdades ou mentiras, mas um associado, alguém que com ela compartilha e se defronta no dia- a- dia com uma sociedade competitiva, quase nada solidária e sem muitas referências essenciais. Às velhas mães ainda vivas, as que já se foram e as que estão no meio da tarefa braba de cuidar dos filhos e da vida, ficam o reconhecimento e estas lembranças catadas no passado, entremeadas com a vertigem do viver atual, tão imponderável quanto desafiador. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/05/2005. - [TRISTEZA NO AR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tristeza-no-ar/): Nos últimos dias tomei quatro voos diferentes. Como todos sabem, em cada voo há uma tripulação específica: comandante, co-piloto, comissário(a) chefe e comissários(as). Os aviões costumam ter, pelo menos, duas classes: executiva e econômica. Nos voos mais longos, pode haver uma primeira classe. O que distingue essa categorização é o maior tamanho da poltrona, uma tênue cortina que a separa dos demais e o serviço que inclui, nas classes primeira e executiva, bebidas alcoólicas e um cardápio que permite opções nas refeições. Essa tentativa didática, e talvez até dispensável, é para chamar a atenção do que está acontecendo, além do que já se sabe, com a aviação comercial brasileira. A crise é bem mais profunda que a qualidade do assento e da alimentação servida e sobre ela já falaram tantos. Até agora, nenhuma solução foi encontrada. As dívidas aumentam, empresas fecham, outras devolvem aviões etc. Não tenho a solução para a crise, pois esse assunto se arrasta há anos e, parece, que políticos que voam muito, sempre acenam com prováveis saídas. Que venham. O que me preocupou nestes últimos quatro voos foi a apatia, uma espécie velada de tristeza, das tripulações. Fazem o serviço seguindo o manual. Teoricamente são polidos, mas está faltando alegria no ato de trabalhar dos aeronautas. Cumprem a obrigação, mas sem amor. E o que digo não é obrigado a ser certo, mas tento errar o menos possível. Em um desses voos, procurei conversar com uma comissária e perguntei porque ela estava visivelmente triste. Foi o bastante para que uma torrente de afirmações saísse. Primeira queixa dela: estava trabalhando em escala apertada, em face das demissões na empresa para diminuir custos. Segunda queixa: não sabia até quando continuaria a trabalhar. Temia uma estafa ou receber o aviso prévio. No mesmo instante pensei nos pilotos na cabine, aqueles a quem são entregues os sofisticados aviões de hoje em dia e no pessoal da manutenção em terra, a quem cumpre checar se tudo está certo antes da decolagem. Na história da aviação comercial há exemplos claros de erros humanos que causaram a morte de muita gente, mas essas falhas poderiam ser minimizadas se a tripulação estivesse trabalhando com a cabeça tranquila e descansada. Bem que o Departamento de Aviação Civil, sabedor de tudo isso, poderia olhar logo o lado humano da crise, antes da solução financeira, se é que vai haver. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/05/2005. - [VESTIBULAR – A PRIMEIRA MARATONA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/vestibular-a-primeira-maratona/): A imagem que me ocorre no momento é a de que a vida é uma espécie de longa maratona. Você sabe como os atletas se preparam para uma maratona? Fazem exames médicos, usam roupas e sapatos adequados, estudam as regras da corrida, formam um pequeno grupo para treinar junto, contratam um treinador, passam anos e anos a acordar cedo aprendendo a correr. A vida real, não a ideal, é mais ou menos assim. Sempre – e para tudo – é preciso ter boa saúde. Imagine que você consegue ser empregado(a) de uma farmácia. Além de passar o dia todo de pé, o que exige um bom preparo físico, ainda terá que interagir com clientes, decorar nomes de remédios, saber para quais doenças servem e entregar ficha com o seu nome na hora da venda. Se, ao final do mês, a quantidade de fichas e os valores dos remédios forem compatíveis com o que determina a gerência, você fica. Caso contrário, será despedido(a). Sendo você mais ambicioso(a), não desejará ser apenas balconista. Digamos que deseje fazer um curso superior sério. Aí vai precisar estudar regularmente, escolher a profissão que mais se assemelha ao seu jeito de ser e tentar um vestibular. A dúvida na escolha da profissão é cruel, pois somos jovens e indecisos à hora de fazer um vestibular. Há tantas carreiras charmosas e a que escolhemos sempre nos parece a mais chata e a que exige maior dedicação. Não é verdade. Todas as carreiras exigem a tal da regularidade no estudo e perseverança. A perseverança é a coragem de ir em frente quando temos vontade de mandar tudo para as cucuias. É deixar de ir àquela festa ou praia e meter a cara nos livros, enquanto o irmãozinho fica nos azucrinando o juízo pedindo para consertar a sua velha bicicleta, que já foi nossa. O vestibular é também um exercício de memória, a contraprestação do aprendido, sem esquecer dos outros maratonistas que estão ao nosso lado. Todos correm na mesma direção, para entrar na primeira experiência como quase adultos, que é o estudo superior. Ora, se é superior, certamente é porque nos exigem que sejamos acima da média. Se ficarmos na média, estaremos no limbo, que é aquele espaço entre o céu – ou a felicidade – e o inferno – ou a infelicidade. Ninguém deseja ficar no limbo. Para isso é preciso estudar, estudar sempre e com método. O vestibular é uma espécie de hall de entrada da vida, um vestíbulo, em que os espelhos das paredes refletem se estamos adequados para entrar. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/04/2005. - [SAINDO DA FOSSA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/saindo-da-fossa/): O tempo de cada pessoa passa, segundo a segundo. A consciência desse detalhe acaciano nos faz pensar em não gastar mal a nossa máquina de viver, o corpo, que se imagina também possa abrigar uma alma. Como o tempo pode nos oferecer, sem que se peça: rugas, gorduras, celulites, dor nas costas, olheiras, pressão alta, insônia, visão curta, torcicolos, cabelos ralos etc., vamos nos olhando nos espelhos e procurando respostas. A resposta é o próprio tempo. Essa ampulheta cruel que não para. Entretanto, muita gente acredita que há formas de ir enganando o tempo, como se fora um Mefistófeles, e imagina fazer plásticas, regimes que aparecem em revistas e se submeter a uma ditadura da estética que não tem referência padrão, mas que mexe com a cabeça de muitos. Ou ler autoajuda. Um cara, sem profissão conhecida, resolve escrever um livro de medicina alternativa e vende milhares de exemplares. Mera e insossa colagem de publicações antigas de medicina natural. Mas os incautos compram e acreditam que, fazendo isso e aquilo, conseguem atrasar o seu relógio vital. Outros oferecem respostas prontinhas para o dia-a-dia em livros dito interessantes ou milagrosos que servem para dar conselhos, lições de vida, imaginam muitos. Cópias deslavadas. Apesar de tudo isso, de repente, caem na real vida e lá vem crise existencial. Um dia desses, por exemplo, uma pessoa amiga ligou e falou que a sua vida não valia mais nada, pois mesmo com plástica, regime, botox, alongamento, personal, acumputura, Reik, florais de Bach e uma vidente, o seu relacionamento havia ido para o brejo. Estava na fossa. Não concluiu. Caiu no choro e desligou. Dei um tempo e liguei de volta. Vi que não adiantava repisar conselhos manjados. Não era simples fossa, parecia uma depressão pra valer. Imaginei que só resolveria com ajuda psiquiátrica. Foi daí que perguntei a tal pessoa: você tem plano de saúde tal? Ela falou que sim. Recomendei, então, o nome de um amigo psiquiatra. Maduro, fumante, ouve música, toma umas e outras nos fins de semana, escreve sempre e lê tanto que está quase cego, mas entende de farmacologia e da alma humana, vivido e sofrido que é. Havia esquecido do fato. Após poucos meses eis que a pessoa me liga de volta, voz firme: “alegre e feliz com o que tem e o que é, sem essa de chorar o relacionamento que já estava falido mesmo” e diz que está “partindo para outra”. E ressalta que a ligação era para agradecer-me a indicação do nome do médico que a ajudou a “sair do buraco e recuperar a autoestima”. O que mais destacou: “não pagou nada”, bastou mostrar o cartão do plano de saúde e foi atendida com profissionalismo e descontração”. E pede para que eu faça uma crônica e diga o nome do médico que a atendeu. Não sei se ele vai gostar, mas o nome é Airton Monte. Pedido satisfeito. João Soares Neto, Escritor, CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/04/2005 - [VATICANO, WOJTYLA E VOTO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/vaticano-wojtyla-e-voto/): Corria o ano de 1965, era outubro, e eu estava em Roma. Primeira viagem à Europa e acontecia o Concílio Vaticano II. Ver como ele acontecia era um desejo curioso de um jovem adulto. Por sorte, havia um bispo amigo da família. Ele, literalmente, abriu as portas e passei sob as vistas da guarda suíça. Vi o alvoroço interno. Eram cardeais, bispos, padres e civis cuidando daquela reforma que marcaria o pontificado de Paulo VI. Depois, fui ao Colégio Pio Brasileiro e conversei com padres que faziam doutorado em teologia. Vivia-se um tempo diferente. O mundo ainda estava dividido em dois grandes blocos e as posições ideológicas eram extremadas. Mas, a Igreja Católica Romana, analisava e montava suas novas estruturas teológica, pastoral, política e social, desde 1962. O Concílio, no meu olhar, trabalhava a partir da ideia de fé e fraternidade universal, considerando o domínio de novas técnicas, o progresso da ciência, as transformações psicológicas, morais e religiosas da humanidade e os muitos problemas pessoais, familiares e coletivos. Tudo isso, objetivando satisfazer as aspirações do gênero humano e tendo Jesus, como solução e resposta. Depois de sentir o pulsar do Concílio Vaticano II, fui ver a Capela Sistina e os museus do Vaticano. Confesso ter ficado chocado com a riqueza, pompa e tradição. Ao mesmo tempo, lembrava das parcas coletas de esmola para as ditas Obras das Vocações Sacerdotais aqui no Brasil. Não tinha eu ainda a noção da Igreja como Estado e de que seu acervo de obras de arte se confunde com ela própria. Se tudo fosse vendido e repartido, a miséria do mundo não acabaria. A miséria é maior e mais profunda. O tempo passou. Veio 1978, o ano dos três papas. A morte de Paulo VI; a escolha e infarto fatal, 35 dias após, de João Paulo 1º; e, a eleição de João Paulo 2º, ora sepultado. Wojtyla, eslavo, operário, ex-soldado, ex-ator, quebrou a centralidade italiana de 450 anos, foi um grande diplomata e midiático propagador da Igreja. Alguns teólogos, L. Boff entre eles, o intitulam de ultraconservador. No tempo do seu pontificado, participando ele ou não, foi que a guerra fria acabou, o muro de Berlim caiu, a URSS se dividiu e a Comunidade Europeia surgiu. Neste 2005 ainda é cedo para julgar o pontificado de 26 anos desse polonês que misturava, é verdade, uma mão de ferro na gestão da Igreja ao carisma nas muitas viagens pelo mundo. Sabe-se que o Vaticano, lento em mudanças, costuma ser rápido, como regente de votos, em tempos de crise. E a morte, apesar da ressurreição sonhada e prometida, ainda é uma grande crise. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/04/2005. - [“AMÉRICA” E A REALIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/america-e-a-realidade/): A novela “América”, que não assisto ou vou assistir, mas sobre a qual ouço comentários e leio releases, notícias e sinopses, mostra e mostrará, entre rodeios, tapas, fugas e beijos, a crueza da luta de imigrantes ilegais brasileiros, via fronteira mexicana, para atingir os Estados Unidos, “fazer a América” e conseguir “ser gente”. Tudo por falta de oportunidade por aqui. Verdade e mentira. É verdade que milhares de brasileiros tentam, com risco de vida, fazer isso, desde sempre. É mentira que o Brasil não seja um país de oportunidades. Os grandes problemas do Brasil são a desigualdade na distribuição de renda, na formação educacional ou cultural das pessoas. Os que conseguem estudar, de verdade, têm oportunidade por aqui. A regra vigente há tempos neste país, e consolidada neste início de século XXI, é a de que só os de ponta obterão acesso às riquezas. Não haverá mais lugar para os mais ou menos ou para os que, por falta de oportunidade, não tiveram boa ou nenhuma formação, sem falar nas exceções. Daí o êxodo. Ele é o retrato de todos nós, ricos ou pobres, malditos ou miseráveis. Mas, estava eu no Palácio do Itamaraty, em Brasília, em julho de 2002, quando os presidentes Fernando Henrique e Vicente Fox assinaram o Acordo de Complementação Econômica entre o Brasil e o México. Por esse acordo, os dois países decidiram a redução ou a eliminação de tarifas de 800 bens ou produtos. Por coincidência ou não, bem perto de mim estava atento o empresário mexicano Carlos Slim, hoje um grande investidor no Brasil, dono, entre outras empresas, da antiga estatal Embratel. A tudo ouviam as embaixadoras do México no Brasil, Cecília Soto e a dos Estados Unidos, Donna Hrinak, hoje, casada com um brasileiro e atuando como consultora de investimentos. Em seguida, em conversa informal, falávamos que aquele instante estabelecia um novo marco na relação entre os dois países. Dito e feito. Hoje o México é um dos grandes mercados brasileiros. Basta dizer que, de 1998 para 2004 as exportações brasileiras para lá cresceram 300%, com ênfase nos três últimos anos. Por outro lado, as exportações mexicanas para o Brasil deram um pulo. Só em 2004 cresceram 34% e isso é bom para brasileiros e mexicanos, mas em nenhum dos dois lados a desigualdade tem diminuído. E isso é ruim, também para os dois. Estamos, Brasil e México, prestes a virar países ricos, desde que saibamos superar desafios nas relações internacionais. Podem crer. É questão de poucas décadas. Mas será, se acontecer, uma riqueza talvez sem alegria, pois ainda calcada na desigualdade, que esperávamos ver diminuída. É ela que dá origem ao sucesso de novelas como “América” que, além de levantar o problema, queira Deus não sirva de incentivo para os muitos que não têm vez e voz por aqui. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/04/2005. - [PÁSCOA: COMIDAS, BEBIDAS E REFLEXÕES](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pascoa-comidas-bebidas-e-reflexoes/): Já não há mais queimação ou malhação de Judas nos sítios arrumados com os longos testamentos e a algazarra dos meninos. Agora tudo é intramuros. São outros tempos. Tempos de insegurança. Os que podem trancam suas portas, das casas os lazeres, e vão de queijos e vinhos, peixes, ovos de páscoa e afins. Os outros, a maioria, ficam como já estavam a espera do que não sabem bem. Mas esperam. De que qualquer modo, hoje é domingo de Páscoa. A festa da Páscoa, instituída pela Igreja Católica Romana no Primeiro Concílio de Nicéia, no ano 325 depois de Jesus Cristo, é uma festa móvel, para louvar a ressurreição de Cristo e sempre celebrada no domingo que segue a lua cheia da passagem do equinócio. O primeiro equinócio, pois há outro em fins de setembro. O equinócio é um fenômeno da natureza, em função da posição do Sol em relação à Terra, e é a época do ano, aqui no hemisfério sul ou abaixo do equador, em que o dia e a noite tem, cada um, exatas doze horas. A religião, desde sempre, misturou ciência, fé e crenças populares. Daí acredito, marcar-se no Ceará o 19 de março, o dia do santo padroeiro, São José, bem próximo à passagem do Equinócio, quando pode haver a consolidação das chuvas ou a esperança de inverno. Se chove, haverá inverno. Por esta razão e outras mais, celebremos. A Páscoa é, pois, uma celebração coletiva dos cristãos, maior que cada um de nós. Nesta festa anual dos cristãos, onde se comemora a ressurreição de Cristo - aquele que teve a vida pública menor que um mandato político e mudou a história - é preciso que se exalte o amor ao próximo, o bem querer e a louvação à vida. Neste tempo de páscoa ou passagem de uma vida a outra, é bom que cada um reflita sobre o seu caminho e busque respostas para as suas dúvidas. Ora, se a vida é passagem, Páscoa também é passagem. Logo, tudo é trânsito, o eterno é o que fica. Como esta crônica está parecendo pregação de pastor, deixo claro que os tempos de alegria, e a Páscoa é um deles, devem ser momentos para regozijo coletivo ou de avaliações e ajustes pessoais, com a fé ou com os nossos botões. É bom que neste domingo de Páscoa, em que muitos se dão conta de que usaram apenas os feriados para libação a Baco ou investidas pantagruélicas ou, em português nosso de cada dia, beber e comer muito, ainda haja tempo para refletir sobre a nossa passagem por aqui, tão mais breve que imaginamos, mas tão mais longa que sobra tempo para uma parada essencial em nós mesmos. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/03/2005. - [AS TINTAS COLORIDAS DO ESCRITOR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-tintas-coloridas-do-escritor/): Juarez Leitão surgiu na ´turma dos sábados´, um grupo heterodoxo de pessoas que se permite sair do sério entre falações e Baco, pelas mãos de Dorian Sampaio, se não me engano. Eram os anos 90. Chegou e se tornou cativo. Contador de ´causos´, orador fluente, sabedor de seus dotes, misturando o quase recato de antigo seminarista ao escracho da vida real, foi sendo absorvido e querido. Daí que resolveu contar, em livro, o que ouvia, sentia e intuía. Desta salada saiu o livro ´Sábado, Estação de Viver´, memória, estória e história. O Juarez poeta passava a perder espaço para o cronista de uma cidade resoluta, dissoluta e desvairada. O espaço da ´turma dos sábados´ foi apenas o mote para a desenvoltura artística de Juarez. Além de cronista, fez-se pintor e retratou cada um de seus pares. A cada um entregou um retrato emoldurado e os inseriu nas páginas do livro. Era como se estivesse dizendo: ´a vida tem todos os matizes com os quais o vejo´. E assim, foi entremeando estórias da turma, com estórias de domínio público e privado da Fortaleza que o recebeu e adotou como filho. Surgia, naquele fim de década de 90, um novo Juarez. Enturmado, hilariante, mas cioso e ciente que estava sendo transformado. A palavra estação do título poderia ser entendida como uma parada em sua vida, em que tomou um novo trem e o destino, capcioso e curioso, sorria com a mudança. Sábado, Estação de Viver´, em nada se assemelha a outras duas estações que conheço, também cantadas em livro. Nada tem a ver com o romance (A Próxima Estação) de Teoberto Landim ou ao célebre ´Rumo à Estação Finlândia´, de Edmund Wilson. Enquanto Landim, professor e escritor, narra as aventuras e desventuras de um bolsista (Thomas) brasileiro na Alemanha e sua volta ao interior do Brasil, Edmund Wilson, americano, crítico literário, jornalista e escritor, vai mexer, ensaiar polemicamente sobre Marx, Engels e o socialismo. Juarez se permite, e o faz com maestria, a não seguir com organicidade o manual acadêmico de escrever, não vai procurar o problema do sujeito situado de Heidegger ou busca validar o saber e o conhecimento. Nada disso. Juarez se faz livre. Escreve como contador de histórias, sem preocupações filosóficas, como se estivesse - e realmente estava - em uma tarde de sábado olhando para um caís e visse, com o seu novo olhar de pintor, pessoas, navios, barcos e jangadas sossegados, mas cientes de que o destino de cada um é o desassossego da vida e do mar. Assim é o livro, tem remansos, mas é prenhe de ondas em que quase todos são jogados como o vai e vem das marés. Escapam todos na celebração. A partir de ´Sábado, Estação de Viver´, o trem literário e existencial de Juarez Leitão toma novo rumo, não o das indagações profundas de Edmund Wilson, tampouco o questionamento pessoal do personagem Thomas de ´A Próxima Estação´, de Teoberto Landim. E esse novo rumo é misturado com as fortes tintas em que retrata seus muitos amigos, colorindo-os, mesmo que o gris de seus cabelos pedisse comportamento mais comedido. Nada de gris. Nada de pastel. É o exagero do contador de causos também por trás da vida e do pincel. Some-se a isso sutilezas e não sutilezas que vão sendo expostas nas estórias relatadas como se achasse o contador de pernas estiradas, chapéu de palha na cabeça, camisa estampada, ventre protuso, copo à mão, e um grupo de amigos ruidosos, curiosos e atentos à escuta. João Soares Neto Academia Fortalezense de Letras CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/2005. - [MULHER TEM DIA?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mulher-tem-dia/): Não concordo que 8 de março seja o Dia das Mulheres. Aliás, concordo apenas do ponto de vista da comemoração, da luta contra os preconceitos e das vitórias que alcançaram, mesmo com ou apesar de muitos homens. Não vou cair no exagero de dizer que todo dia é dia da mulher. Tampouco direi que todo dia é dia do homem. Mulheres e homens de hoje ainda são herdeiros de preconceitos, desacertos, afetividades truncadas e vidas sofridas. Estão se redescobrindo, estão ensaiando relações novas, mas pecam em seus fundamentos. Mulheres e homens se chateiam, veem diferentemente as suas relações afetivas, têm níveis de paciência diversos e as suas crenças nos seres humanos e no trabalho obedecem a juízos de valor com níveis distintos de percepção. Mulheres e homens precisam muito descobrir porque as suas diferenças básicas não podem ser diminuídas, rediscutidas e acertadas. Se não acertadas, mas aceitas. Neste tempo de hoje em que quase todos estamos, em menor ou maior grau, insatisfeitos com o desenrolar de nossas vidas é preciso humildade e sabedoria para discutir o simples. Porque ele não tem o mesmo nível de paciência dela. Porque ela se apega a detalhes que não ele não vê. Porque ela reclama da sua desorganização e ele não aceita a pia coberta de cremes, colônias e perfumes. Porque ainda não descobrimos uma forma cordial e leve de entender a função do dinheiro em nossas vidas tão diferentes, mas complementares. Porque não vemos os filhos com olhos similares e os criamos divididos com as nossas formas diferentes de amor. Porque nos apropriamos de frases soltas ditas no calor de uma discussão e fazemos disso um grande problema. Por que traímos, não o amor, mas o que não aceitamos na outra pessoa, tão frágil quanto nós. Porque discutimos sem o uso da razão e deixamos que tudo vá mais longe que o necessário, porque não aprendemos a pedir desculpas e não cultivamos o riso e a descontração como bases de uma relação, mesmo que ela seja difícil e pesada. Por que temos que ser vitoriosos em decisões bobas que vão se tornando maiores que queríamos. Por que? João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/03/2005. - [HOLLYWOOD E A ESTÉTICA DA MISÉRIA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/hollywood-e-a-estetica-da-miseria/): Hoje é noite de Oscar em Hollywood. Não tem nenhum filme brasileiro (Diários de Motocicleta é falado em espanhol e é uma coprodução de vários países) na disputa e, se tivesse, certamente não ganharia. Quais as razões? Não sei, mas desconfio. Os diretores e produtores brasileiros, mesmos os ricos e herdeiros, teimam em fazer filmes que realçam a tal estética da miséria ou contar, em parceria, por exemplo, a história do jovem Che Guevara (Diários de Motocicleta). Filmes como Central do Brasil, Carandiru e assemelhados passam batido no critério hollywoodiano de escolher os vencedores da tal estatueta folheada a ouro. Olga, neste ano, nem indicado foi. Não adianta fazer lobby, associar-se com gringos, dar entrevistas e sonhar. Aliás, sonhar é bom, mas o sonho da turma de cineastas e produtores americanos é diferente do nosso. Eles não veem estética na nossa exposição de miséria. As nossas fraturas sociais não dizem respeito à traumatologia cinematográfica da era Bush. A festa da noite de hoje é, quer nós queiramos ou não, a festa da futilidade, exibição, filmes coloridos com histórias limitadas, grandes efeitos especiais, apresentador engraçado e entrevistas abiloladas. Nada de responsabilidade social, verdades nuas e cruas ou discutir o essencial. É o cinema quase inconsequente ou glamouroso. Lá o fórum é outro. É alienado, desengonçado e segue a estética das limusines, vestidos vaporosos, artistas com gel no cabelo, s esperando os “flashes’ e olhando para as câmeras. As críticas, quando as há, são em favor de alguma minoria ou contra a venda de armas. Mais do que isso, nada. É querer muito. Se é tempo de guerra no Iraque, miséria na África, “tsunami” na Ásia e guerrilhas na América Latina, os membros do júri do Oscar não querem ver, saber ou discutir disso. E parece que, mesmo assim, os filmes americanos continuam sendo admirados por aqui. O filme “Hitch” (Tennant, diretor e Will Smith, ator), uma comédia sobre um conselheiro sentimental, onde o espectador não precisa pensar, foi visto por mais de 262 mil brasileiros no último fim de semana. O “Aviador”(Scorsese e De Caprio) que é um pouco, só um pouco, letrado, pois conta a história, fragmentada, de uma das muitas versões de Howard Hughes, empreendedor rico, cínico e visionário que enveredou pelo transtorno obsessivo compulsivo e terminou louco, foi visto por 121 mil. E olha que não estou falando dos filmes “Menina de Ouro”, de Eastwood com Hillary Swank (a moça lutadora de Box) e “Sideways”, de Alexander Payne com Paul Giamatti e Haden Church (dois amigos maduros misturando conquistas e depressões) que mexem com sentimentos. Parece que os brasileiros estão cansados ou cansando do uso da miséria para os mais diversos fins. Quem sabe se mandarmos no próximo ano um filme da Xuxa ou do Renato Aragão não teremos mais chances de indicações? João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2005. - [PAIS, IGNORÂNCIA E APRENDIZADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pais-ignorancia-e-aprendizado/): Quando minhas filhas foram nascendo, procurei em livrarias do Rio e de São Paulo algo que me desse subsídio para entender de crianças. Não havia nada, exceto “O Livro do Bebê”, do dr. Delamare e chatos livretos de fundamentação religiosa. Fiquei meio perdido. Já havia feito cursos disso e daquilo, aqui e no exterior, mas não tinha aprendido nada sobre a difícil tarefa de ser pai. Falava com pais mais velhos e não recebia muita luz. “Cada filho é um filho”, “palmada só se perde a que não dói” e outros que tais. Resolvi pensar sobre o assunto. Lembrei da minha infância, éramos nove irmãos, compartilhando quartos, banheiros, toalhas, sabonetes, fardas que passavam dos mais velhos aos mais jovens e os livros escolares encadernados com papel madeira para durar dois ou mais anos. Depois de um tempo matutando, inventei dois personagens, Rosinha e Paulinho. Os dois seriam um pouco mais velhos que minhas filhas e não estudariam no mesmo colégio, pois assim poderia ser descoberto o mistério. Rosinha seria um bom exemplo de estudante, sempre uma das primeiras da turma, alegre, comunicativa, compreensiva e não se deixaria abater quando o Paulinho brigasse com ela ou não quisesse dividir a merenda etc. Deu certo. Quando algo acontecia fora do “script” familiar, eu me valia da Rosinha e do Paulinho. Eles tomavam banho quando voltavam da escola, não deixavam roupa molhada sobre a cama, faziam o dever de casa, dividiam as coisas, moravam no mesmo quarto e brincavam muito. Paulinho e Rosinha “existiram” até minhas filhas ficarem adolescentes. Nessa época, falei para elas da minha “invenção” como um recurso para lhes passar mensagens, ensinamentos, especialmente sobre o compartilhar, amizade etc. As minhas filhas riram muito, pois nunca “encontravam” a Rosinha e o Paulinho, a quem elas tanto queriam conhecer, especialmente quando passeávamos de carro ou íamos à praia. Sempre eu dava um jeito: eles acabavam de sair, estavam viajando etc. Recentemente, uma filha, já casada, disse-me que tinha “ressuscitado” a Rosinha e o Paulinho. Estava falando com sua filha – e minha neta – sobre o bom comportamento da Rosinha e do Paulinho, especialmente sobre cuidados com livros, a atitude de compartilhar, aceitar as diferenças e ouvir. Agora, havia chegado a minha hora de rir. Hoje, com tantos livros de autoajuda, Internet, reuniões de pais e mestres, talvez não seja mais necessário inventar personagens, mas alegra olhar para o passado e lembrar que vivências podem decorrer da mera imaginação e interação dos pais com os filhos. Procurando não ser caretas, mas realçando exemplos, respeitando o próximo e gerando união através de pequenos gestos, como o que faziam, entre outras coisas, as minhas filhas que passavam o ano poupando e guardando presentes para distribuir, pessoal e anonimamente, no Natal. Coisa que só vim a saber tempos depois. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2005 - [NÉLIDA PIÑON: DUAS PALAVRAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nelida-pinon-duas-palavras/): Na semana que passou, a escritora Nélida Pinõn visitou a Academia Fortalezense de Letras. Coube a mim a tarefa de saudá-la e ´dizer duas palavras´. As duas palavras seriam: Nélida Pinõn. Bastaria isso. Procurei, todavia, fazer apenas algumas rápidas observações sobre essa ilustre visitante. Ei-las: Nélida é um nome novo que com ela nasceu e que veio a existir pela criatividade de seu pai, Lino. Nélida é uma anagrama de Daniel, seu avô materno. Piñon significa um pinhão ou descanso de gatilho. Pinhão é uma engrenagem que se mexe, movimenta e gira. Nélida tem sido essa engrenagem na literatura brasileira. Professora de Criação Literária na UFRJ, romancista e contista, saiu de Vila Isabel, no Rio, e foi para a Galícia de seus pais dos 10 aos 12 anos. Voltou e aqui sedimentou a sua formação. A partir daí virou cidadã letrada do mundo, descansando o seu gatilho ou mexendo as suas engrenagens do saber na City University of New York, Columbia University, Miami University, John Hopkins University, Universidad Católica de Lima e na Universidad Complutense de Madrid. Suas engrenagens literárias continuaram a girar. Dessa vez em direção aos dicionários e à imortalidade.Pois foi ela, em 1990, a sucessora de ninguém menos que Aurélio Buarque de Holanda na Academia Brasileira de Letras e, em 1996, substituiu a Antônio Houaiss na Presidência da ABL. Era a primeira mulher - e única até hoje - a ser presidente da Academia Brasileira de Letras. Uma mulher de letras, cercada por muitos fardões, guardada ou guardando Aurélio e o Houaiss, os filólogos e os dicionários. A obra de Nélida é vasta. Não cabe analisá-la neste arremedo de apresentação. Mas recomendaria, entre tantos romances e contos, pelo menos um breve conto: I love my husband. Nesse conto, Nélida vai quase nocauteando o leitor, mas o deixa consciente para a reflexão sobre o viver a dois nesta terra brasilis, ainda tão machista. A nossa ilustre convidada é mulher de muita premiação. Em 1995, entre outros, ganhou o Prêmio Internacional de Literatura Juan Rulfo, da Universidad de Guadalajara, no México. Antes, já havia ganhado os prêmios nacionais Walmap, Mário de Andrade, Pen Clube, Bienal Nestlé, Golfinho de Ouro e outros. Em seus romances (Guia-mapa de Miguel Arcanjo, Madeira feita cruz, Fundador, A Casa da Paixão, Tebas do meu coração, A República dos sonhos, A doce canção de Caetana, Vozes do Deserto etc) e contos ( Tempos das frutas, Sala de armas, O calor das coisas etc), Nélida deixa flagrante a sua rara habilidade em tratar dos mistérios, dilemas e angústias do fazer literário, e isso parece incomodar aos que não sabem que a glória de quem escreve é ser bem lido por seu povo, tornando-o mais reflexivo e consciente das dores e amores do mundo. Nélida faz isso e os seus leitores sabem disso há mais de quarenta anos. Fique bem-vinda, sempre. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2005 - [O CELIBATO E A IGREJA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-celibato-e-a-igreja/): Há uma antologia feita por William J. Bennett que se chama “O Livro das Virtudes -O tesouro das grandes histórias morais”. O livro foi traduzido e adaptado para o Português por Luiz Raul Machado e publicado pela Editora Nova Fronteira. Esse livro enumera uma lista de virtudes que não são as únicas necessárias a um ser humano, mas básicas ou fundamentais. É claro que toda preferência implica em uma supressão. Mas, o que gostaria de levantar é que entre essas virtudes citadas não há o celibato. Neste começo de Século XXI, o celibato ainda é uma das mais fortes decisões dogmáticas, políticas ou estratégicas da Igreja Católica Apostólica Romana, remontando a sua consolidação ao Século XVI, no Concílio de Trento. Voltemos às virtudes citadas por Bennett. São elas: Disciplina, Compaixão, Responsabilidade, Amizade, Trabalho, Coragem, Perseverança, Honestidade, Lealdade e Fé. São 10 as virtudes. Iguais aos mandamentos da Igreja, mas não há nenhuma referência a celibato e olha que o livro trata das qualidades essenciais à formação ética das pessoas. Falemos um pouco de celibato. A Enciclopédia Larousse e o Aurélio dizem que “celibato é estado de celibatário, condição de solteiro” ou “o estado de uma pessoa que se mantém solteira”. De uma forma ou de outra, deduz-se que é uma opção pessoal. No caso da Igreja, deixa de ser uma opção para ser um ato de disciplina, responsabilidade, coragem, perseverança, honestidade, lealdade e fé. Em outras palavras, na visão estrita da Igreja, o celibato precisa de várias outras virtudes, mas não é, em si, uma virtude. Tudo isso me vem à mente por várias razões. Uma delas: na minha adolescência quis ser padre, mas já achava antinatural que se considerasse pecado até uma simples polução (polução mesmo) noturna de um jovem com hormônios à flor da pele. Havia ainda o voto de castidade eterna que estava implícito no celibato. Era demais para mim. Essa questão vem, tempos em tempos, à tona. Nesta semana, a revista Veja (edição de 12.01.2005), na sua página 86, sob o título Anunciado, traz a seguinte matéria: “acordo da Igreja Católica da Califórnia com 87 vítimas de abusos sexuais praticados por membros da diocese local contra menores nas últimas seis décadas. Serão pagos 100 milhões de dólares em indenizações. Em 2003, a diocese de Boston pagou 85 milhões em acordo semelhante. Calcula-se que o total de indenização no gênero nos Estados Unidos possa atingir 01 bilhão de dólares”. A minha pergunta – e de tantos outros - volta com mais intensidade: qual a razão dos padres serem celibatários, se a natureza e a fisiologia humanas indicam o contrário? Por qual motivo, a Igreja Católica ainda insiste em não enxergar o mal que faz a homens de fé, virtude, honestidade e outras virtudes, mas que sentem, mais fortes que suas vontades, o desejo de se acasalar? Não encontrando o apoio de sua igreja, muitos apelam, entre outras soluções, para o homossexualismo e causam constrangimento a tantas pessoas que veem com tristeza a cegueira de Roma que já dura cinco séculos. Até quando? João Soares Neto,Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2005. - [MÉXICO, TÃO DIFERENTE E TÃO IGUAL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mexico-tao-diferente-e-tao-igual/): O México tem, entre tantas coisas, terremotos, pirâmides e uma rica tradição pré-colombiana. O Brasil não tem nada disso. Se você for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira não vai encontrar muita semelhança. Se for comparar o biótipo do mexicano com o do brasileiro não identificará muitos traços de uma raça comum. Apesar disso, na essência, somos muito parecidos, embora não usemos “sombreros”, não comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e não tenhamos nada da tradição azteca. Isso é o estereótipo ou visão aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O México e o mexicano são muito, muito mais que isso. O que nos une, de uma forma clara e inquestionável, é o que se convencionou chamar de “latinidad”. Essa latinidade é esse nosso jeito não anglo-saxão, não germânico, não helvético ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, após pouca conversa, têm histórias e sentimentos em comum. Com outros povos não latinos não há essa identidade, por mais que se tente. Não falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por nós mesmos, que só retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres, México, 1994, Guantanamera, cubano, 1995, e o nosso Central do Brasil, 1997, que teimam em realçar as estéticas das nossas desgraças e mazelas. Não é questão de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas será que só temos misérias e tragédias para contar e mostrar? A latinidade a que me refiro não é essa visão cruel, embora real, mas a certeza de que temos saída e estamos em meio a um processo novo de imensa transformação em que todos os povos são obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez, pouco a pouco, ir gostando do México e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida. No ano 2000, o Embaixador mexicano no Brasil, Jorge Eduardo Navarette, veio a Fortaleza dar uma palestra. Eu estava lá. Após a palestra, batemos um papo acidental e essa conversa foi puxando outra e mais outra. Depois de algum tempo, me vi Cônsul Honorário do México no Ceará. Só então o Embaixador Navarette me contou que essa escolha teve que ser aprovada até no Senado mexicano. Levei um susto e tomei posse em meio a uma festa com comidas típicas, requintada exposição sobre a arte e a cultura mexicanas e um recital de música erudita. Mas isso é outra história. Pouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura não ostentantória de cada um. Não era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, três ou quatro línguas, entendia de arte, música, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidadãos de excelente nível. Conto um episódio de solidariedade espontânea: acompanhei quando um jovem cearense que lá estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e atenção. O México é assim. Posso citar alguns exemplos de pessoas que fui conhecendo: a Ministra Alejandra Garcia; a embaixadora Cecília Soto, que sucedeu a Jorge Navarette; e o então chanceler Jorge Castañeda. Depois, conheci o violoncelista Carlos Prieto; o Cônsul-Geral Jorge Sánchez, o Presidente Vicente Fox e o Secretário-Adido Cultural Felipe Ehrenberg, além de outros. Qualquer pessoa das citadas poderia ser objeto de uma crônica. O Embaixador Jorge Navarette e a Ministra Alejandra Garcia são diplomatas de carreira, viajados, amantes da gastronomia, música clássica e conhecedores da cultura mexicana. Cecília Soto, atual embaixadora no Brasil, é jornalista consagrada, ex-candidata a Presidente da República, aguçado gosto literário, além de ser uma mulher cativante, sagaz e leve. O violoncelista Carlos Prieto é possuidor de um dos mais raros violoncelos Stradivarius do mundo, concertista internacional dos mais requisitados nas grandes salas européias e americanas e nos honrou com um concerto no Auditório da Unifor. Jorge Castañeda é um social-democrata moderno, professor universitário nos Estados Unidos e profundo conhecedor de política internacional. Jorge Sañchez, Cônsul-Geral no Rio de Janeiro, é um inveterado cineasta e um exímio contador de histórias. O Presidente Vicente Fox é um pragmático homem de empresa, forte e decidido, conhecedor de todos os meandros das Américas e que conseguiu se eleger derrubando uma oligarquia política de mais de 70 anos. Com todo esse time de figuras notáveis, deixei para falar por último de Felipe Ehrenberg. Por qual razão? Primeiro, é preciso dizer quem é Felipe. Felipe não é diplomata de carreira. Foi convidado, por sua história profissional, a ser Adido Cultural no Brasil pelo Presidente Fox e já decidiu que vai morar o resto de sua vida por aqui. É um artista plástico provado e aprovado não só no México, como em muitos países. Sessentão, fartos bigodes, fala grave e uma mão tatuada, vai mostrando em sua conversa descontraída a profunda e versátil cultura que possui. Depois, porque Felipe teve uma imediata identificação com o Ceará, a ponto de termos, ele e eu, redigido a Carta de Fortaleza, documento síntese das decisões de fórum internacional reunindo embaixadores, cônsules e adidos culturais de 27 países, realizado aqui no Centro Dragão do Mar pelo Governo do Estado do Ceará, e ter provocado a escolha de Fortaleza como cidade estrangeira convidada para a Feira Internacional do Livro na Cidade do México, em outubro de 2004. É bem verdade que o município de Fortaleza não se fez e se fez presente. Explico: a Secretaria da Cultura do Ceará pegou o pião na unha e vez às vezes de Fortaleza, levando uma comitiva ao México que tinha de tudo, desde o sanfoneiro Waldonys e sua banda, a escritores, pintor, cordelista, editor, jornalista, montador de estante e pessoal de apoio. Pois esse Felipe, depois de estabelecer contatos com José Angel Leyva, Secretário de Cultura do Governo da Cidade do México, Mário Gutiérrez, do projeto Arte por toda a parte, e o Secretário de Cultura de Guadalajara, Santiago Baeza, os fez conhecer Fortaleza- por ocasião da última Bienal do Livro - para ganhar apoio e reforçar a nossa escolha como cidade convidada. No final, deu tudo certo. Lá no México, Felipe só manteve contato conosco na abertura solene da Feira, quando a Secretaria da Cultura Cláudia Leitão falou em nome de Fortaleza. Depois, Felipe desapareceu e nos deixou livres e soltos em pleno outono mexicano em meio a tendas brancas no Zócalo, no centro da cidade, cercados de gente, livros e artes por todos os lados, mas com o apoio integral do Governo da Cidade do México e a plena assistência de José Angel Leyva e Mário Gutiérrez, devidamente acolitados por Karla Flores. Felipe é assim. O México é assim. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2005. - [2004 MAIS UM OU 2005](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/2004-mais-um-ou-2005/): Estes últimos feriados e domingos são dias reservados à preguiça, festas e Baco, mas bem que poderiam servir também para analisar o que fizemos de errado. O certo não precisa ser remexido, deve ser incorporado ao nosso modo de viver. O que deve ser mexido e remexido são os nossos erros, especialmente aqueles que repetimos ano após ano. Se não fizermos isso, este ano vai ser mais um, igual ao que terminou anteontem. Vamos repetir o 2004 e ficar reclamando do Presidente da República, do governo do Estado, da prefeitura, dos deputados e vereadores, do nosso trabalho, da família, da imprensa, dos impostos, da falta de sorte, do sol, da lua e de nós mesmos. Uma palavra que está na moda, embora velha, é atitude. A atitude se refere ao modo como procedemos e aos nossos propósitos de modificar atos que nós mesmos identificamos como incorretos, errados, deselegantes, dissimulados, falsos, mesquinhos etc. Aproveite que está sem ter muito o que fazer e liste as dez coisas que você faz e sempre lhe causam problemas, quer por sua natureza ou por causar prejuízos, vexames, tristeza ou medo. Este exercício pode ser uma prova de maturidade e o começo real de um novo ano. A propósito, novo é novidade, é o que é feito pela primeira vez, o que é atual ou original. Sem querer dar conselho, pois tudo já é sabido ou óbvio, vou pensando por escrito, mesmo que fora de ordem. Eu imagino que o novo é procurar fazer sempre algo de bom e produtivo. É trabalhar procurando inovar e ter propósito definido. É respeitar os seus próprios limites. É pensar antes de dizer o que, em seguida, pode causar arrependimento. É amar sem medo e deixar-se amar sem peias. É tentar não ser vulgar e admitir que calar, na maioria das vezes, é bem melhor que falar. É tentar ouvir mais. É não contrair dívida sem saber se vai poder pagar. É não pedir e nem dar aval. É procurar falar a verdade, mas sem ser dono dela. É buscar aprender sempre. E se aprende na prática, com um bom livro ou ouvindo quem sabe. É admitir que sempre é possível poupar. E poupança dá segurança. É relaxar quando o corpo dá sinais de alerta. É andar, correr ou mexer-se, seja de que forma for. É fazer exames médicos. É cultivar os amigos com suas manias e caturrices, mas também é ser leal e dizer quando algo não lhe agrada. É procurar agendar sua vida e compromissos, mas não se escravizar. É ter paciência, especialmente com crianças e os mais velhos. É não deixar de ter fé e acreditar, sem ser bobo ou piegas. É tentar ir resolvendo as coisas tão logo elas aconteçam para não deixar pendências. É não se escorar nos outros esperando solução. Se não tivermos com uma cabeça nova, arejada, aberta, logo neste princípio de janeiro, podemos correr o risco de pagar pelo velho e o novo. Feliz 2005 e não um mero 2004 mais um. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/01/2005. - [BALANÇO DO ANO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/balanco-do-ano-diario-do-nordeste/): As pessoas que têm sentimento reconhecem suas faltas e enfrentam as consequências, sabem que todo tempo é época de balanço, não o de haveres e deveres materiais, mas os que, como refletia Einstein, acreditam que existam duas maneiras de ver a vida. Uma, é pensar que não há milagres e a outra é que tudo é um milagre. Sendo relativo, eu diria que a vida é um milagre sublime, mas cada pessoa tem que fazer sua parte, sair da superfície e descer ao seu eu profundo e descobrir-se. A vaidade, muitas vezes, faz muita gente inchar o peito e admitir que tenha a melhor cabeça, a companhia mais interessante, a casa mais bonita, a família mais perfeita, a vida mais justa, a resposta mais pronta e a saúde inabalável. E aí eu me lembro do que disse, certa vez, Carl Sagan : “diante da vastidão do espaço e da imensidade do tempo, é uma alegria para mim, partilhar uma época com você”. É bom compartilhar alegrias na simplicidade do existir e acreditar na permanência do efêmero, na aceleração que é a vida, esse tempo que nos arranca do ventre materno e nos põe no mundo para o que der e vier. E estou diante de uma taça de vinho. Olho a sua cor vermelha e lembro que alguém já disse que o vinho é poesia líquida. Então, sorvo poesia. E, de olhos fechados, vejo que viver é como estar na moda. Um dia, saímos de moda e viramos o estilo que fizemos ao longo do tempo que nos é destinado aqui na terra. E cada um vai, dia a dia, fazendo o seu estilo, deixando sua marca, costurando a sua boa ou má fama. E temos que ser pastores dos nossos momentos e descobrir que os possíveis gracejos dos que não nos conhecem a fundo são ultrajes e que o riso deles talvez seja uma forma inconsciente de admiração e inveja. E ainda não falei do ano que está a sair de moda, virar estilo, pois se consolidará, em nível pessoal, o que assentamos e colhemos. E no mundo, o que aconteceu, mereceu registro e ficará para julgamento. Cada homem é a sua moda. Seu estilo é a sua alma, mesmo que, por ser invisível, não seja reconhecida de pronto. As almas não têm fim. Feliz Ano Novo. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/12/2006. - [NOVO ANO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/novo-ano-jornal-o-estado/): Estou de paquera com o novo ano. Alguém já andou falando que paquera é química interativa. Linguagem jovem, mas sou um incorrigível acreditador e não tenho medo do ano novo, pois os dias são novidade para mim, eu que levanto nas manhãs pela graça de algo superior, porquanto o sono é a eternidade, até que se acorda. Estou de amor novo com minha casa. Nada mudou, o meu olhar é que está mudando e posso sentir no que faço e penso, outro sentir. E quero elogiar o ano que termina hoje. Ele foi o passaporte que nos deu visto de entrada neste portal novo, onde as estruturas são os nossos atos, suportando o que pesa sobre nós. Estou de paquera com o meu corpo, não de forma narcísea, mas por aceita-lo tal como é, bendize-lo pelos prazeres que me concedeu, pela locomoção permitida e a capacidade de fazer ainda o que sempre me enlevou. Estou amando os meus novos pensamentos, sem esquecer dos velhos, esses que se transformaram em conhecimento e me fizeram chegar até aqui, escrever estas linhas e alegre por dizer o que digo, na forma que digo e sinto. Estou em paz com a minha alma, ela que me cobra e sanciona os meus desregramentos. Ela que me conduz pelas picadas das noites, entre lençóis ou com os olhos varando livros. Estou pensando que esta alma que não tem forma é que dá a forma do meu pensar, deixando de lado o que não vale a pena e tentando descobrir o que me regozija. E estou fazendo a minha estrada, não é essa Br toda, mas é uma vicinal conhecida, tem sombras e remanso para matar a sede. E de pé no acelerador da vida vou fazendo o meu “punta taco”, acelerando e freando, pois o caminho tem curvas a vencer. Estou de amor novo com a esperança, pois sei das tristezas que passei e as fui levando, passo a passo, para o poço do Paço, pois não há palácio que não tenha um poço. E deixei por lá os meus desenganos e estou na minha estrada, do jeito que sei guiar, sem jogar nada pela janela, olhando para o horizonte real ou imaginário, eu que misturo o fato com o sonho. Mas estou pronto para o que der e vier, faltam poucas horas e quando o sol brilhar novamente há de ser a aurora do novo ano. E se houver chuva, nem assim o ano deixará de vir, pois a água fecundará o que estava seco e fará brotar a sensibilidade que tenho guardado escondida e que de tanto ter ficado amordaçada pede para respirar. E eu deixarei que respire no ano que está vindo. Feliz Ano Novo. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/12/2006 - [AMOR OU BENQUERENÇA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/amor-ou-benquerenca-diario-do-nordeste/): E como não fujo à regra geral, tento fazer uma lista de lembranças neste Natal. Penso na família, amores e amigos. Arrisco imaginar o que cada pessoa gostaria de receber, mas sou traído por desejos de que cada uma recebesse um livro. Não seria um livro impresso, porém especial e único para cada um. Nesse livro, manuscrito, eu falaria das emoções em comum, de amor ou benquerença, pediria desculpas por faltas cometidas, por ansiar que muitos vivam e reajam da forma como eu penso que faço. Diria que sinto falta delas, das que vejo sempre ou quase nunca e seria bom a nossa linguagem ter identidade comum, sem mal-entendidos, coberta de leveza, alegria e bem-aventurança. Pediria desculpas por minhas irreverências, erros, peripécias e desditas. Poderia até acontecer lágrima umedecendo página como prova dos pedidos recíprocos de perdão. E tentaria apagar gestos duros e atitudes fátuas. Verdade. E se tudo o que escrevesse nesses livros ecoasse nos sentimentos de cada pessoa, eu ficaria alegre como menino em entrada de circo e daria cambalhotas de felicidade, mesmo tendo que passar linimento no corpo dorido no dia seguinte. Mas, a par das dores físicas, este corpo ficaria mais ereto e conteria brilho permanente nos olhos que já viram tanto e enxergaram pouco. Olhos desviados de rotas, mas que voltaram a ver a luminosidade do sol, as nuances do claro e escuro, a segurança tranquila de um abat-jour que focava certo quando o corpo pedia repouso e se resguardava por trás de outros livros. E assim, por não ter sabido escrever cada um desses livros, mesmo que poucas páginas tivessem, eu me quedo triste pela incapacidade de me fazer entendido, de expandir este coração que ama mas tem medo de dizê-lo com alma e cara lavadas, peito arfante e riso encabulado de felicidade. E sou levado a caminhar nas alamedas das lembranças vãs, as que não levam impresso os meus sentimentos que, de forma marota ou infantil, se fecham quando deveriam dizer, simplesmente: estou aqui e estou com você. Feliz Natal. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/12/2006. - [ESTORINHA DE NATAL PARA CRIANÇAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/estorinha-de-natal-para-criancas-jornal-o-estado/): (especial para Luana, Amanda, Ângela, Bianca e Nícolas) Em uma cidade qualquer deste mundão em que vivemos, era uma vez uma família de gente muito bonita, que morava em casa agradável e que ficava mais simpática quando o ano ia terminando. Todas as crianças ficavam de férias e se preparavam para a festa de Natal. E em uma dessas festas de Natal usaram as suas melhores roupas, prepararam comidas e ficaram perto da Árvore, montada por todos, para bater fotos. Ao pé dessa árvore, que era feita de galhos secos e tinha enfeites de muitas cores, havia um pequeno berço de madeira, parecendo um escoador de água de pratos, com uma imagem do Menino Jesus, um desses de louça, que lembraram de colocar em meio aos presentes. Nessa árvore nada era vermelho, não havia a figura de Papai Noel, pois escolherem homenagear uma criança que, segundo a História e a tradição, nasceu judia, na cidade de Belém, lá no Oriente Médio, quando os romanos dominavam grande parte da Terra e viveu por 33 anos, quando foi crucificado e morto por sua fé em um Deus que não dizia as palavras do mesmo jeito como imaginavam os outros judeus de seu tempo. Voltando à estorinha: uma noite, já perto desse Natal, uma menina da família, perdeu o sono, contou carneirinhos, mas não conseguiu dormir. Levantou-se, saiu do quarto e de camisola velha e amarrotada foi ficar perto da árvore lá na sala. Deitou-se. E consta que ela ouviu uma voz na noite alta. Teria sido o Menino Jesus. Ele teria dito: - Você é bela. E ela teria respondido: - Como, se estou com roupa velha e amassada, cabelos despenteados? E ele teria falado: - A beleza que falo é a interior. As coisas do espírito, o que você faz pelos outros, sem aparecer. Seja sempre assim. E dizem que a menina adormeceu ali mesmo ao pé da Árvore e quando sua mãe acordou na manhã de sol ela ainda estava dormindo e sorria com um raio de luz sobre sua face e havia uma foto ao chão. A mãe olhou a foto: nela, um menino pequeno dava as mãos a todos os outros que ainda dormiam, se isso era possível. E nessa foto, o bercinho estava vazio. De repente, a foto caiu de sua mão e se transformou em um pequeno pássaro que voou em direção à luz do sol, enquanto a menina abria os olhos e se espreguiçava dengosa. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/12/2006. - [SAUDADES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/saudades-diario-do-nordeste/): O Natal vai ficando próximo e lembro dos que estão longe dos olhos, se perderam no insondável, mas se quedam firmes nos escaninhos da lembrança, lá onde não sai quem se retira de cena, pois as marcações gravadas nas saudades teimam em não se afastar. Assim é que percorro o labirinto do meu tempo vivido e vou pinçando os que se foram e não voltam na dimensão em que nos encontramos. Cada um do seu jeito peculiar, na amizade resolvida ou questionada, no folguedo ou na expiação, em longos tempos ou breves vidas em comum, mas ainda sinto-os de formas distintas, como se existissem diálogos inimagináveis em que conseguimos rir de nossas lambanças, andanças, festanças ou desesperanças. Se bem me lembro, o primeiro foi Francisco Parente de Vasconcelos que, ainda universitário, se fez éter lá no Rio de Janeiro. Depois, vieram chamar o Marcelo Duque, camarada de colégio, amigo de embuanças que se tornou diverso de todos e se foi. Geraldo Deusdarah, colega de direito, viajou em seguida por conta de seu coração sofrido. O comandante Edson Queiroz, tão forte quanto o monólito que o tragou, espaçou-se, refundindo-se de forma gaseificada e como água pura, jorra no eterno. E o jeito direto, instigante, atento e arguto do Alcimor Rocha deixou saudade. E que peça nos pregou o Rogaciano Leite, poeta-amante, isolando-se para sentir-se pronto, aquietado, quem sabe, e definitivo. Raul Fontenele ainda nos fixa com a imaginária brilhantina, camisa bem passada e o vejo impresso e impermeável. E aí o riso, galhofa e sentimentalidade do Tancredo Carvalho ocupam o vazio da mesa onde não mais nos reunimos, pois dispersos ficamos. Como discutir mais com o Régis Jucá ou ouvir o seu jeito didático de falar sobre as coisas do coração, órgão e sentimento? E é nesse estado meio entre o não entender mistérios e o resgate da parca memória que me sinto agora e procuro, não com lágrimas mas com emoção, as nuances sutis de cada relação com esses amigos homens, sem esquecer - e como poderia - a mulher amiga, Natércia Campos, que irmã se tornou pelo olhar comum e bem querer que enlevava e nos tornou cúmplices eternos. E nestes dias de Natal, quando as perdas dos amigos pesam e me tornam roto, relembro, com saudade profunda, além dos que enumerei com afeto, a figura do meu pai, simples e destemido, capaz e independente, inteligente e perspicaz, cioso de suas crias, levado que foi ao fechar o portão de sua casa, como se simbolizasse, nesse último ato, a abrupta saída de cena, tão gente que me perco em saúda-lo. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/12/2006 - [FUTEBOL E REALIDADE - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/futebol-e-realidade-jornal-o-estado/): Nós, brasileiros, com esse jeito que Deus nos deu, temos a certeza de que produzimos os melhores jogadores de futebol do mundo. Igualmente, temos a falsa ideia de que a nossa seleção de futebol é a melhor. Uma coisa não implica na outra. Uma seleção ou clube de futebol precisa de um histórico de administrações eficazes, formar jogadores, ter estruturas dinâmicas e flexíveis à realidade que, a cada ano, vai sendo modificada. Ou nos ajustamos às mudanças ou o nosso trabalho, qualquer que seja ele, passará a ser ignorado e só dele falarão, quando falarem, das nossas desditas. Estaremos de mudança para o passado. Isso também vale para o futebol. Venho pensando que é preciso mudar a estrutura do futebol brasileiro, da cúpula aos clubes da terceira divisão. Caso isso não aconteça, as coisas vão ficar como estão: clubes falidos, dirigentes brigando com torcidas, entrevistas pífias, a televisão ditando horários e determinando cachês diferenciados, alguns técnicos e jogadores mercenários sem identidade etc. Os grandes clubes europeus são estruturas de geração de renda de todas as naturezas, têm até títulos na bolsa de valores e seus patrimônios valem bilhões. Precisaríamos apenas olhar o que está acontecendo por lá. Não necessitaria ir muito longe, bastaria ver o que se faz em Portugal. Seria demais pedir dessem um pulo na Espanha e na Inglaterra. O Flamengo e o Corinthians, maiores e mais populares clubes brasileiros, por exemplo, são um poço de problemas e as receitas do televisionamento, campeonatos e torneios de que participam, não dão para cobrir sequer as dívidas com a previdência, salários atrasados e as questões trabalhistas oriundas de contratos capengas, juridicamente. Em janeiro, teremos novas administrações estaduais no Brasil e o governo federal acena com mudanças de rumo. O futebol pode ser um diferencial competitivo para o Brasil, não só pela imagem que gera, mas pelas divisas que são escamoteadas e receitas efetivas que não deveriam ser apenas as que constam nos borderôs declarados de cada jogo de futebol. Além das receitas com jogos no exterior, passes de jogadores, é preciso não abusar do torcedor. O brasileiro, ao menor aceno de esperança, vai aos estádios, paga ingressos, consome transporte, gasta com alimentos e bebidas. Agora, boa parte, fica em suas casas, restaurantes, bares e até nas sedes dos próprios clubes (ou times) vendo os jogos pela televisão paga. Tudo é mais prático e conveniente, em época de violência nos estádios e insegurança nas ruas. É preciso rever tudo isso. Há até um Ministério dos Esportes e só as loterias da Caixa Econômica repassam mais de um bilhão de reais por ano. Como e para quem são boas perguntas? Seria bom que todos pensassem mais sobre o que o Brasil está perdendo com o despreparo gerencial e mercadológico do futebol brasileiro. Os técnicos de futebol são, salvo exceções, aprendizes de monitores de autoajuda com alguma fundamentação futebolística. Nenhum país se torna desenvolvido por acidente, mesmo que tenha reservas minerais riquíssimas e talentos especiais. O principal elemento que transforma pessoas, instituições e países é o conhecimento. Não o de algibeira, midiático, focado no imediatismo e na mesmice, mas o que transcende e aniquila as obviedades e ousa, porque tem essência e substrato. O futebol precisa ser repensado. É tempo. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/12/2006. - [FRENTE PARA O MAR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/frente-para-o-mar-diario-do-nordeste/): Vou chamá-los de João e Maria. Moram ali defronte ao Atlântico que se espraia e quebra quase ao pé deles. Não plantaram a árvore, mas gostam de sua sombra e é sob ela, dia após dia, que cuidam de morar. Um atrelado ao outro, quase atados, roupas empilhadas, banho a poucos passos, iluminação boa, sem IPTU, cabine da Polícia a poucos passos e brisa permanente. E com eles está o Japi, digamos assim, o pequenino cão misturado à alegria dos dois. Japi, João e Maria, entre alegres, sonolentos e dengosos, se aninham sobre uma relíquia de colchão graciosamente disposto sobre o carpete cinza que envolve o chão vermelho de ladrilho. E a alegria se constata na forma como as mãos jovens de Maria catam aquilo na cabeça de João que, vaidoso, peito nu, ainda porta uma dessas barbichas ralas. Como todo os casais, brigam, ralham um com o outro, mudam roupas e até se amam ali mesmo, com a brisa a abençoar o clímax. Os olhares curiosos, dia e noite, são muitos, alguns balançam cabeças burguesas e não entendem talvez essa postura crítica, vanguardista, o descompromisso firme com o de trabalho, como se esse conjunto seja uma instalação viva de artista pós-tudo a chocar a plateia, cutucando a insensibilidade sócio-existencial que desnuda a indiferença dos provocadores dessa permitida atitude de ‘gentileza urbana’. E aí chega um casal de estrangeiros, sentam ao chão e, em português arrevesado, dizem que são de uma ONG em favor da aceitação do homem em seu habitat e prometem um movimento internacional com base no amor telúrico, no direito inalienável de escolher o local de morada e citam o Pe. Lebret para um João confuso e uma Maria perplexa, enquanto Japi lambe um caroço de manga. Ao final, tudo documentado em uma câmera portátil comprovando o alcance desse gesto solidário. E João e Maria se pensassem, admitiriam que bem cabe uma análise sociológica tendo como substrato o direito de morar bem e receber, com ou sem protetor solar, raios do sol acompanhando o ócio diário com amassos, saídas fisiológicas e comer o que não lhes falta, pois, prazerosos por sua companhia os vizinhos, sugerem que não instalem fogão, pois a dificultaria a ação dos bicos de gás. E assim, como nas belas histórias de amor, essa conjunção de almas é abençoada contra a maldade dos que se arvoram de donos do pedaço e gastam energias em caminhadas vãs, pois nada mais são que sobrepesados burgueses queimando excessos de alimento que falta a outros. Eles, João e Maria, devem ficar defronte ao mar. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/12/2006. - [ZÉ FLÁVIO, O PAI DAS MUDANÇAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ze-flavio-o-pai-das-mudancas-jornal-o-estado/): Há cerca de três semanas conversei, por algumas vezes, com Zé Flávio. Expliquei para ele a ideia “Gente Que Conta” em que entrevisto pessoas que com histórias para contar, entrelaçadas com as próprias vidas. Ele topou ser entrevistado, esbocei o questionário, mas não deu. Ele, já alquebrado, não resistiu. Hoje, é História. José Flávio Costa Lima nasceu em 1921 às margens do Rio Jaguaribe, na cidade de Aracati, de onde partem os ventos que amenizam a temperatura de Fortaleza. Era o primeiro filho homem de um casal que tinha gerado quatro filhas mulheres. Seus pais, Alexanzito e Egisa, provinham de troncos frondosos que se enraizaram e, juntos, formaram uma nova estirpe. E o menino cresceu - ou pensava demais - para ficar no Aracati e veio estudar na capital. Anos depois, faz vestibular para direito em Fortaleza, ainda brejeira e pachorrenta, cursou dois anos e seguiu para a Faculdade de Direito de São Paulo, onde se formou. Era a eterna necessidade de ares mais plenos, da não aceitação da mesmice, da descoberta do que imaginava existir além do que seus olhos viam e onde o corpo pisava. Estava na plenitude da 2a. Guerra Mundial. Quem sabe, tenha pensado em se alistar como voluntário ou ir lutar na Itália. Esse conflito, que abalou o mundo, certamente foi basilar para a sua formação democrática, entender os dissensos, pensar na carreira política de seu pai, Alexanzito, prefeito e deputado estadual. A guerra acaba. Diploma na parede e muitas ideias na cabeça. Ficar em São Paulo, a cidade grande que o acolhera ou voltar para o Ceará? Casar com uma paulista? Decide voltar, mas havia surgido D. Hebe em sua vida e, com ela, a alegria da chegada gradativa de Alexandre, Valéria, Urbano e Artur, seus filhos. No Ceará, encara a realidade como um “Costa Lima” do Aracati e procura centrar-se nos negócios da família de exportação e importação. De repente, ou lentamente, vai surgindo o germe da política classista em seu caminho e se viu engolfado na realidade cearense. O que realmente aconteceu nesses idos da década de 50, quando Vargas se suicidou e Juscelino ascende à vida pública nacional, teve ter sido o aflorar do atavismo paterno, doublé de empresário e político. E a política de verdade, a partidária, misturou-se ao seu sangue de empresário. Corria o tempo da União Democrática Nacional- UDN, do Partido Social Democrático-PSD e do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB. E foi com emoção e razão que se deixou enredar e não saberia dizer se isso alavancou ou prejudicou seus negócios. O pouco que sei é que foi secretário de estado da indústria e comércio, se fez bravo deputado federal por dois mandatos, lutou pela institucionalização, efervescência e equanimidade da Sudene e atou-se à política classista, sendo um dos sérios presidentes da Federação das Indústrias do Ceará, administrando-a por nove anos, ao mesmo tempo em que firmava posições sólidas na Confederação Nacional da Indústria. E aí, de seu pensar criativo e destemor, fez ressurgir o Centro Industrial do Ceará, CIC, que, por seus membros mais jovens e inquietos, modificou o panorama político do Estado, de forma irreversível, fazendo eclodir “o governo das mudanças”. A esse homem, espécie de Dílson Funaro cearense, devem a nossa indústria e a história política prestar reverência, por sua trajetória, inteligência aguçada e sentimento de que futuro não se espera, se planta com trabalho, decisão, inovação e capacidade. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/12/2006. - [AS TORRES FINCADAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-torres-fincadas-diario-do-nordeste/): E na terça-feira sou chamado por Laéria e Carlos Augusto para almoçar, juntamente, com Sérgio Braga e Antonio Torres. Antonio Torres, escritor brasileiro, nascido no Junco, interior da Bahia e que se fez globe-trotter aos 20 anos, resenraizando-se e ganhando prêmios e mundo. Jornalista, publicitário, mas escritor acima de qualquer dúvida ou compadrio, se fez cearense-visitante pelas mãos pródigas de Sérgio Braga,desde 1997. E esse Antonio Torres é um bom conversador que faz o tempo não descer na ampulheta e nos deixa a todos mais leves olhando, da varanda, os verdes mares bravios. E foi com José de Alencar, esse iracemista escritor, que Antonio Torres se alfabetizou falando ver-des-ma-res-bra-vi-os e sentiu seus olhos cresceram para o que não via, mas intuía. E o Junco foi sendo saudade, mas ficou a sedução da origem, da terra adusta, do formigamento mental do menino que sabia que ali era e não era o seu lugar. E tomou a estrada aérea da vida e foi parar na paulicéia, não a desvairada, mas a que despertava para uma tardia industrialização brasileira e levava a todos, passo a passo, para a escada ou o fosso da globalização. E a noite, após os camarões laerianamente preparados, apreciados, louvados e deglutidos no almoço, nos encontramos novamente. Aí o cenário era outro: a mesa bem posta do Lautrec, o pequeno reinado de César e Denise, em meio a luminosas micro lâmpadas que a China nos impõe culturalmente nesta quadra do ano. E a conversa ficou leve e se via, mesas ao lado, a beleza sutil de Patrícia Pillar, a inteligência nata de Ciro Gomes, a espirituosidade de Fausto Nilo e o olhar de lince de Arialdo Pinho. E do outro lado, bem próximo, estavam Fernando Costa e Fábio Campos que deixavam suas mentes pousar na essência do que bebiam e conversavam com José Carlos. Criara-se um halo virtual de bem-estar, do prazeroso convívio, cada mesa no seu universo privativo. Mas, a estrela da noite era Antonio Torres, com o ar sereno-maroto que a maturidade permite aos que ainda têm perguntas não respondidas e os solados dos pés estão esfolados das andanças pelas estradas do pensamento e dos lugares vistos de soslaio ou em profundidade. E veio o outro dia, a hora do almoço se fazia tardia e o Carlos Augusto nos impunha o Ideal, sua descoberta fim-de-século. E na cumplicidade com Sérgio Braga, desviamos a rota e aportamos em um pós-moderno self-service, essa comodidade que se impôs e está ficando. E o Carlos Augusto, fervoroso seguidor de Baco, bradava contra o calor pelo vinho tinto não bebido por ele, voraz quase-enólogo que, vencido, em meio às folhagens de seu prato, tomava uma prosaica Coca-Cola. E éramos homens-meninos na intimação costumeira e o Antonio Torres, naquele instante, em meio a doces saborosos, se consolidava no peito de cada um de nós, descrentes e crentes figuras, andarilhos não da região da Mancha de Cervantes, mas destas pequenas paragens e alegrias que nos transformam a todos em cavaleiros errantes nesta nau (des)governada que é a vida. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/12/2006. - [OAB, ALEGRIA E TRISTEZA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/oab-alegria-e-tristeza-jornal-o-estado/): Um dia, muito jovem, temos que fazer escolhas. E aí surgem as paqueras, amigos de longo curso, e opções de cursos que, admitimos, nos darão seiva para a vida real que vai chegando. E como não há lugar para todos, somos postos à prova em vestibulares para ratificar que sabemos mais que outros jovens, tão ou mais atarantados que nós. Por competência, sorte, persistência ou acaso, somos aprovados. Quase heróis, quase tolos, e aí seguimos o destino. Fiz direito. Juvenil, sem cursinho, no tempo da única faculdade, pública, exame anual e concorrido. E assim me tornei bacharel em direito e advogado, pelo exame de Ordem, uma espécie de validação do curso. Empós, passei mais dois anos estudando direito, não para concurso. E, desde esse tempo, sou e não sou advogado militante. Apesar disso, fui, com muita honra, até Conselheiro da Ordem. Circunstância. Mérito, zero. Mesmo assim, por necessidade, leio, acompanho trabalho de jovens advogados e, vez por outra, tento me atualizar, ouso emendar petições iniciais, contestações etc. Tudo isso é para dizer apenas que, por coerência, orgulho-me e alegro-me da escolha que me deu, entre outras coisas, embasamento filosófico para entender que a vida é um eterno contraditório. E aí veio esta eleição da OAB de 2006. Na sua primeira edição, o local quase virou uma praça de guerra. A par disso, o chão, coberto de papéis, estava feio. Do lado de fora, como se fossem donos das ruas, muitos paravam carros de qualquer jeito. Era o caos. Não era direito. Esta semana, houve a segunda rodada e, afinal, a eleição teve cabo. O que ficou claro nesta eleição foi a publicização de um problema conjuntural da Ordem em face do elevado índice de inadimplência. Por qual razão isso acontece? Creio que, afora os caloteiros existentes em todas as profissões, a grande charada é o enxurro de milhares de advogados lançados, semestralmente, no mercado, sem haver uma demanda efetiva por seus serviços. Existem, se vocês não sabem, mil cursos de direito no Brasil. A maioria é de faculdades particulares, algumas poucas são ótimas ou boas, outras são razoáveis e há cursos péssimos. Isto não quer dizer que os cursos em faculdades públicas estejam melhores, mercê das greves sistemáticas, professores desmotivados, bibliotecas pobres e descaso de governos que as patrocinam. Mas eu ia falando da inadimplência, pois não há quase mercado de trabalho para os que não se agruparem em escritórios, uns suprindo as deficiências dos outros ou somando suas inteligências. E há ainda a opção dos concursos disputados para o ministério público, judiciário, defensoria pública e carreiras afins. E disso me ficou uma tristeza, pelo vexame de milhares tendo seus nomes expostos, revelando escassez de clientes, incerteza do futuro e sonhos guardados em um vade-mécum qualquer. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/12/2006. - [FUTEBOL E REALIDADE - Carta Maior](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/futebol-e-realidade-carta-maior/): Nós, brasileiros, com esse jeito que Deus nos deu, temos a certeza de que produzimos os melhores jogadores de futebol do mundo. Igualmente, temos a falsa ideia de que a nossa seleção de futebol é a melhor. Uma coisa não implica na outra. Um clube de futebol precisa um histórico de administrações eficazes, formar jogadores, ter estruturas dinâmicas e flexíveis à realidade que, a cada ano, vai sendo modificada. Ou nos ajustamos às mudanças ou o nosso trabalho, qualquer que seja ele, passará a ser ignorado e só dele falarão, quando falarem, das nossas desditas. Estaremos de mudança para o passado. Venho pensando que é preciso mudar a estrutura do futebol brasileiro, da cúpula aos clubes da terceira divisão. Caso isso não aconteça, as coisas vão ficar como estão: clubes falidos, dirigentes brigando com torcidas, a televisão ditando horários, determinando cachês diferenciados, alguns técnicos e jogadores mercenários sem identidade. Os grandes clubes europeus são estruturas de geração de renda de todas as naturezas, têm títulos na bolsa de valores e seus patrimônios valem bilhões. Precisaríamos apenas olhar o que está acontecendo lá. Não necessitaria ir muito longe, bastaria ver o que se faz em Portugal. Seria demais pedir dessem um pulo na Espanha e na Inglaterra. O Flamengo e o Corinthians, maiores e mais populares clubes, por exemplo, são um poço de problemas e as receitas do televisionamento, campeonatos e torneios de que participam, não dão para cobrir sequer as dívidas com a previdência, salários atrasados e as questões trabalhistas oriundas de contratos capengas, juridicamente. Em janeiro, teremos novas administrações estaduais no Brasil e o governo federal acena com mudanças de rumo. O futebol pode ser um diferencial competitivo para o Brasil, não só pela imagem que gera, mas pelas divisas e receitas efetivas que não deveriam ser apenas as que constam nos borderôs declarados de cada jogo de futebol. Além das receitas com jogos no exterior, passes de jogadores, o brasileiro, ao menor aceno de esperança, vai aos estádios, paga ingressos, consome transporte, gasta com alimentos e bebidas. Há até um Ministério dos Esportes. Seria bom que todos pensassem mais sobre o que o Brasil está perdendo com o despreparo gerencial e mercadológico do futebol brasileiro. Nenhum país se torna desenvolvido por acidente, mesmo que tenha reservas minerais riquíssimas. O principal elemento que transforma pessoas, instituições e países é o conhecimento. Não o de algibeira, midiático, focado no imediatismo e na mesmice, mas o que transcende e aniquila as obviedades e ousa, porque tem essência e substrato. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO Carta Maior EM 26/11/2006. - [ESPECULAÇÕES - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/especulacoes-jornal-o-estado/): Esta crônica me leva a utilizar este finito espaço em caminhos de especulações recorrentes. Ouso arguir três aspectos complexos da vida de todos: o ser, o ter e o parecer. O ser é a base. É onde ficam o País, estado, cidade, bairro, espaço em que se vive, o tipo de família que nos trouxe ao mundo; com raça, origem, categoria social e formou a base da educação, seja doméstica, formal pela escola, professores e colegas; informal ou social e no que o seu espelho e a consciência revelam e se aceita com ou sem questionamentos. O ter é aquilo que se agregou a você, sejam bens materiais ou as bagagens profissional, cultural, intelectual ou científica desenvolvidas, a partir dos valores que acredita básicos para a sua existência. O ter é o que você não tinha e acredita possuir, como se seu fosse ou seu é, sendo. O problema é que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Algumas pessoas querem parecer o que não são e viver com o que não têm. É o mundo da aparência, do supérfluo em que uma camisa ou um vestido, por exemplo, é aceito não por sua qualidade intrínseca, mas por ostentar uma marca de significação para a imagem de quem usa. Um relógio, dando outro exemplo, deveria servir apenas para ler as horas, mas pode definir a posição social de quem, diferencialmente, ostenta uma marca famosa. Falo em objetos para não trafegar na senda perigosa da essência, pois aí o terreno é movediço. E ainda há os que usam coisas falsas imaginando que possam parecer verdadeiras para os outros. Ora, o que isso importa, se quem usa sabe que é imitação, cópia? A sociedade e, por mais que não queiramos estamos nela envolvidos, cobra o ser, o ter e o parecer. O parecer é o reflexo, a imagem que os outros têm de nós, a partir de juízo de valor falso ou verdadeiro. É aquilo que se acredita poder ser fabricado com “marketing pessoal”. O sair de casa, para mostrar-se ou ser visto, compensar o vazio de não poder ficar consigo mesmo e disso gostar. Algumas pessoas se acreditam ser o que os outros pensam ou dizem delas. Essas pessoas, certamente, ficam à cata do que se chama de validação. A validação é acreditar no que o outro diz para admitir-se ser aquilo. Não pesa, para o validado, a referência própria, aquilo que a sua essência profunda diz, mas o que lhe é soprado ou gritado em seu ouvido ou escrito a seu respeito. Esse eterno questionamento entre o ser, o ter e o parecer passa, talvez necessariamente, pela maior ou menor capacidade de cada um se auto avaliar e ver a autoestima a partir da própria consciência ou razão. Mas, descubro ter começado um assunto que não cabe em crônica. Bem apropriado seria em ensaio ou tese para os quais, infelizmente, faltam-me engenho e capacidade. Como disse Chamfort: “há tolices bem vestidas como há tolos bem vestidos”. João Soares Neto, Cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/11/2006. - [UMA MULHER CHAMADA LUIZA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/uma-mulher-chamada-luiza/): Corria o ano de 1991. Pelegrino José Donato e Luiza Trajano, estavam satisfeitos com o que faziam. Sua empresa era fruto de muito trabalho e de suas histórias de vida. Tinha nome, respeito, 31 lojas e faturava 80 milhões de reais por ano. Mas, como diz um provérbio árabe: “Deus não completa nada para ninguém”. Não possuíam filhos e estaria na hora da sucessão. Pensaram, trocaram ideias e escolheram a sobrinha Luiza Helena para dirigir o negócio e eles ficariam acompanhando, como conselheiros. E aí a sobrinha, que há muito integrava a equipe, incorporou, em plenitude, a superintendência dos negócios na cidade de Franca, interior de São Paulo. Era uma mulher no início da maturidade, casada, três filhos, formação em direito, comunicativa e ágil no pensar, decidir e comandar. E do seu jeito simples, direto e de olho em oportunidades focadas para o que fazia com amor, garra e competência, o “Magazine Luiza” foi crescendo, abrindo filiais e se aprestando a aportar na capital e outros estados. E, por gostar de lidar com gente, ser leve e ter consciência de que pessoas e empresas mal humoradas ou “metidas” estão ou estarão fora da realidade, foi que aprendeu a celebrar cada passo conquistado, cada nova loja aberta, sem esquecer de apoiar colaboradores, realizando confraternizações, orações em comum, subsidiando suas formações profissionais e garantindo-lhes assistência plena. Luiza Helena Trajano Inácio Rodrigues esteve falando, na semana passada, de forma ordenada, descontraída e prazerosa, na Unifor para professores, estudantes e convidados sobre sua trajetória de sucesso. Foi bom ouvi-la dizer do seu espírito inovador. Como, por exemplo, criou uma “liquidação fantástica”, no início de cada ano, que começa às 5.00 horas e se encerra às 8.00 horas da manhã. E ouvi-la dizer que ainda consegue tempo para escutar clientes que, por acaso, não tenham ficado satisfeitos com o serviço de atendimento ao consumidor e, para isso, criou o “Disque Luiza”. Hoje, espalhado por vários estados brasileiros, o “Magazine Luiza”, com faturamento anual superior a 2,5 bilhões de reais, é uma referência no varejo nacional, tendo uma eficaz logística, qualidade no que faz, agregando serviços com foco no cliente comum e inovando com lojas virtuais, que quebraram paradigmas. Por estas razões e por sua trajetória pessoal é que Luiza Trajano é tão festejada, ouvida e premiada. Entre tantas outras honrarias, ela é integrante do Fórum Permanente de Líderes Brasileiros, entidade a que pertenço e onde, mesmo distante, passei a vê-la como referência de preparo, simplicidade e sucesso. Tão especial ela o é, que incentivou sua filha Ana Luiza, a enveredar pelos caminhos da culinária e tivesse luz própria, tornando-se eficaz dona de restaurante nos Jardins, em São Paulo. Este curso de vida, para mim, é, sem dúvida, um “Brasil a Gosto”. João Soares Neto, especial para o DN CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/11/2006. - [LIBERDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/liberdade/): Alguns comportamentos são repetitivos. Por exemplo: você encontra com alguém e esquece que assumiu compromissos com outra pessoa. Por amizade, amor ou mera gentileza, deveria fazer o favor de comunicar a sua ausência. É provável que essa característica não seja um defeito, mas um hábito. E os hábitos ficam entranhados e passam a ser naturais para quem os têm. Há ainda artifícios que muitos usam, como o de dizer que está sempre cansado, doente, cheio de problemas e afins. Essa tendência, como uma espécie de defesa, pode levar, inclusive, à somatização que cria doenças de verdade. O corpo obedece ao que é repetido, sempre. Todos sabemos da importância da família e mais ainda das singularidades de cada uma, mas deve haver um mínimo de delicadeza no trato uns com os outros, na não dramatização de problemas pessoais que, por si sós, já são complicados. As relações pessoais não podem ser tolhidas por nossas conveniências, pois assim estaremos cuidando apenas do eu que sou e não do nós que uma relação cria. Algumas pessoas, por caminhos diferentes, foram habituadas a ditar as regras de uma relação. Por tal razão, talvez, as relações pretéritas dessas pessoas não tenham sido boas. Não há boa relação se ela não for franca, civilizada e consequente. Isto não implica em descaracterizar a nossa personalidade, nem invadir a privacidade do outro, tampouco abolir a família, mas ajustá-la a uma relação saudável e não traumática. Se alguém fica feliz com a alegria e o bem-estar do outro, é natural que a pessoa que é o foco da atenção também deva se comprometer. Uma simples ligação de dois minutos pode ser esclarecedora; uma atitude respeitosa sempre é entendida, mas a arma usada do telefone desligado, no silencioso ou não atendido é uma forma, no mínimo, não afetuosa ou educada de comportamento, para não falar de desrespeito. Cria-se um biombo na comunicação e na relação. Não temos o predomínio da verdade, tudo o que se disse acima pode não ter sentido para você, mas pode fazer sentido para quem vive misturado com os seus sentimentos, sejam eles certos ou errados. Por essas razões e por não acreditar em relação com horas, momentos, dia ou mês previamente marcados, é que muitos se consideram absolutamente livres, até porque é outra característica pós-moderna a liberdade de agir, viver e interagir com as pessoas, na hora e nas condições que se quer. Temos todos, hábitos arraigados. Por exemplo, o de não aceitar formas veladas ou ostensivas de desatenção. Ser amigo, simplesmente, pode parecer fácil, mas não é. O que mais se precisa é de cuidado. Não se não se pode continuar pensando e fazendo o que sempre se fez e não deu certo, sob pena de incorrer nos mesmos erros e resultados. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/11/2006. - [CHUTAR O PAU DA BARRACA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/chutar-o-pau-da-barraca-diario-do-nordeste/): Escrever algo e intitulá-lo de crônica é uma coisa aparentemente simples, mas não o é. Especialmente, se a tarefa é diária ou semanal, pública e sujeita a olhos ávidos para nos ver através de seus prismas existenciais. Mas falávamos de crônicas e cronistas. Há cronistas monotemáticos, cronistas de todos os assuntos e cronistas doridos, amargurados, como se as eras vitoriana ou romântica ainda fizessem parte deste mundo pós-tudo. O meu cronista preferido é Carlos Heitor Cony, que escreve diariamente na Folha de São Paulo, de quem sou leitor há décadas. E o Cony escreveu esta semana: “Tempo houve em que um cronista sem assunto era mais ou menos obrigatório, foi talvez a era de ouro do gênero. O cara abria a janela, olhava o mundo e a vida, sentava à máquina e escrevia sobre o nada, a falta de assunto. Hoje, com a inflação de assuntos, as crônicas já não se fazem como antigamente.” É verdade. Há tanta coisa para se falar que a desculpa de falta de assunto pode parecer enfado, charme, deprê ou preguiça. Basta olhar além do nosso umbigo, da nossa micro estatura e teremos assuntos tão variados, como: eleições, corrupção, desastre aéreo, assaltos, sequestros, cinema, futebol, música, viagens, amor, saudade, amigos, personalidades, livros, Brasil, mundo, discriminação, família, saúde etc. Agora, neste momento, estamos em um grande feriado no Brasil, que começou na quinta e se estende até hoje, domingo. Dos 180 milhões de brasileiros, mais de cem milhões estão de pernas para o ar, fazendo o nada, enxugando cervejas, bebericando umas e outras, comendo feijoadas e outras calorias brabas , mudando pneu furado, discutindo com agente de trânsito, vendo televisão, gritando nos estádios, queimando ao sol nas praias, visitando alguém em hospital, orando em igrejas ou aborrecidos em algum aeroporto por conta do atraso dos voos. Essa nossa condição humana de seguir o calendário imposto, nos transforma em seres quase programados, seguindo rotinas e roteiros de vida que não fogem ao lugar comum, não nos permitem tentar o novo, o ousado, o que poderia ou poderá ainda nos apaixonar sem amarras, sentir as narinas pulsando e o sangue impelindo ao desafio, ao contrário da corrente. Mas, e os mas são para isso mesmo, temos medo de chutar o pau da barraca, de dizer o que é preciso e fazer o que nos anima. E aí, quando nos decidirmos pela mudança, aventura, destemor, o calendário terá mudado, será segunda feira e as amarras serão reatadas, a nau da liberdade ficará encalhada no trapiche da nossa indecisão e mesmo que o sol brilhe, o cinza repercutirá em nossas retinas. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/11/2006. - [IDAS E VINDAS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/idas-e-vindas-jornal-o-estado/): Eu tenho me “especializado” em ir e voltar, quase nunca, fico. Por minha natureza e atividades acostumei-me a ser direto, inclusive nas viagens que faço. Procuro ver tudo de forma seletiva, mas ainda tenho tempo de olhar os meus sóis e luas, comprar livros, ver teatro, conversar com desconhecidos, algumas poucas compras, cada vez menos, e aí, volto. Não é não gostar de ficar. É claro, poderia permanecer sempre um pouco mais. Há, no entanto, um desejo, sentimento de urgência e a responsabilidade me trazendo de volta, sempre. Atavismo, quem sabe. Isso, entretanto, não me impediu de ver o sol da meia noite em Narvik, no Polo Norte; de participar de cerimônias budistas em Tóquio; de andar de riquixá em Seul; de fotografar as cataratas do Niágara quase congeladas; voar sobre os Andes, tentar esquiar nos Alpes; andar de camelo no Cairo; tomar um pisco em Lima; perambular pelos corredores da Casa Branca; subir escadarias de pirâmides no México;ver dois papas em Roma; andar na calçada da fama em Los Angeles; ser roubado em Nova Iorque; ouvir discursos malucos em parques públicos de Londres; sair vivo do Mar Morto; perder um trem em Baden; tocar em relíquias do campo de concentração em Auschivitz; fazer um check up em Frankfurt; curtir as ladeiras e curvas de San Francisco; passear na cidade proibida em Jerusalém; estudar em Massachusets; ver os destroços da deposição de Allende em Santiago; virar a noite em Madri até a polícia nos mandar para o hotel; jogar em Las Vegas; atravessar o antigo muro de Berlim; aprender a gostar de Miami; aguentar o papo dos gondoleiros de Veneza; conversar uma noite inteira com uma estranha em Saint-Malo; tomar banho em Punta Del Este; repetir as casas de tango de Buenos Aires; passear de navio pelo Caribe; enternecer-me com o Mosteiro dos Jerônimos; viajar de barco no Mar da China; discutir sobre Robert Frost em Barcelona; brincar no Tivoli Park em Copenhague e muita coisa mais. Pode ser que alguém ache - e talvez até tenha razão - que quis me mostrar. Quem escreve se mostra e se escrevo onde andei de carro, trem, avião e navio aí a coisa fica mais à mostra. Paciência, faço parte de uma família de andarilhos. Começou com Pero Vaz de Caminha, meu "ancestral materno". Gosto de ver o mundo do meu jeito, ficar olhando os nativos de cada lugar. Nós somos pessoas de um mesmo planeta, mas diferentes. Não é só questão de raça, religião ou do lugar onde moramos. É algo maior, separando os costumes, a cultura e o jeito de cada um ser, ver e viver o mundo. Há algum tempo, li um livro da jornalista Sônia Nolasco, "Moreno como vocês", nele ela narra o choque cultural e social de brasileiros morando em Nova Iorque e nas suas identidades abaladas. É um livro sobre a análise dos comportamentos dos expatriados e lembrei dele porque, em certa viagem feita, li no "The Brazilian Sun" depoimento de uma jovem brasileira, após quatro anos nos Estados Unidos, resolver entregar os pontos e voltar em meio a desilusões. Quem sabe se as minhas viagens de ida e volta não sejam para não perder o meu senso de lugar e me imaginar fazendo parte de um mundo não meu? O meu mundo é aqui, onde estão as pessoas amadas, conheço até os buracos das ruas, sei quem são as criaturas boas e me sinto parte do povo, com o qual interajo sem medo, vanglória ou preconceito. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/11/2006. - [BRASIL: A RESPOSTA DAS RAÍZES - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasil-a-resposta-das-raizes-diario-do-nordeste/): Ocorrendo hoje tudo o que dizem as empresas de pesquisa, Lula será reeleito. O jornalista José Simão, de humor fino e ácido, diz que será “réu-eleito”. Lula não é réu, nada resta provado e a vontade do povo é soberana. O que alguns podem fazer é procurar explicações para o comportamento da maioria dos eleitores brasileiros. O duelo dialético da corrupção versus privatização parece ter sido vencido pela indiferença da maioria. Essa indiferença representaria ainda, quem sabe, nesta época de pós-modernidade, ao que Sérgio Buarque de Holanda chamou da reação do “homem cordial”. Pois bem, esse “homem cordial” seria, ainda agora, a representação simbólica do brasileiro típico. O excelente escritor Silviano Santiago, em seu recente livro “As raízes e o labirinto da América Latina”, editora Rocco, analisa os pensamentos de Sérgio Buarque em “As raízes do Brasil” e do ensaísta mexicano Octavio Paz em “O labirinto da solidão” e volta a falar no “homem cordial” brasileiro e no “pachuco”, seu similar mexicano. Fiquemos no Brasil. Silviano diz que “o retorno do recalcado tem um nome feliz e inglório, o homem cordial”. O “recalcado” a que ele se refere, quem sabe, pode ser entendido de duas formas: como o reprimido que se solta ou o excluído que tem a oportunidade de mostrar os seus desejos. Essa leitura é que precisa ser entendida pelos que se consideram “elite” em um país mestiço e que não tem, na sua maioria, identidade com o que vem de fora do seu meio e da sua capacidade de apreender. Tanto isso é verdade que Alckmin passou a ser chamado por seu pré-nome Geraldo. Lula representa uma profunda identidade com a maioria dos brasileiros, os que não leem revistas semanais e não ficam acordados para ouvir debates tardios, pois têm que acordar cedo para trabalhar. Além disso, criou-se, artificialmente ou não, nestas eleições, especialmente no segundo turno, uma clara apartação social, o que pode trazer consequências danosas num futuro próximo. O fato concreto, incontestável, é que o povo decidiu pelo modelo, no entender da maioria, que mais se aproxima da satisfação dos seus desejos. Quem sabe se o povo não está procurando, no seu inconsciente coletivo, a sua real identidade: deixar de ser postiço. Essa mobilidade social é argutamente definida por Silviano “como nem sempre fosse vedado a netos de mecânicos alçarem-se à situação dos nobres de linhagem e misturarem-se a eles, todos aspiravam à condição de fidalgos”. Foi o Brasil não “fidalgo” que venceu. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/10/2006. - [LIVROS - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/livros-jornal-o-estado/): Hoje é o Dia do Livro. “Os livros governam o mundo, ou pelo menos aquelas nações que têm uma linguagem escrita. As outras não contam”. Quem disse isso foi Voltaire, escritor francês do século XVIII. E o padre Antônio Vieira dizia que “o livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. Ora, se o livro é tudo isso, por que se lê tão pouco neste Brasil? Será por que o livro é caro? Será por que não sabemos ler? Ou por que esta é uma nação que não conta? Já foi dito que um país pode ser considerado como civilizado quando se gasta mais com livros do que com goma de mascar. Tenho, por prova provada, a convicção de que não há solidão quando se tem um bom livro. Pelo contrário, muitas vezes, ser interrompido ao ler, pode nos deixar tristes, embora acompanhados. O mundo atual tem encantos mais fáceis que a leitura de um livro. A televisão é uma delas, mas o livro nos faz pensar, criar, criticar, perceber, distinguir, elucidar, duvidar, enfim, nos dá capacidade de raciocinar criticamente. De não aceitar verdades que nos são impostas, de assumir atitudes dissonantes da maioria, de ter autocrítica, de rir de nós mesmos. Ter livros, abri-los, lê-los, grifa-los, guardá-los ou emprestá-los são movimentos que dignificam uma pessoa, mesmo sendo tão simples. Alegrar-se ou indignar-se com o conteúdo de um livro é uma forma de demonstrar que estamos vivos, não desistimos de nossos sonhos, temos convicções, alimentamos esperanças e não nos acomodamos com a mediocridade do viver supérfluo, sem mergulhos na essência do existir. Ler nos faz escrever com um pouco mais de segurança esta língua portuguesa tão cheia de armadilhas. Saber o usar o ponto, a crase, a vírgula. A propósito, conta a lenda que alguém foi condenado à morte pela Corte. Recorreu à autoridade suprema. Esta, respondeu: “Se o Tribunal condena eu não absolvo”. O réu verificou que a decisão não tinha pontuação, resolveu, então, pontuá-la a seu modo e, assim ficou: “Se o Tribunal condena, eu não: absolvo.” E, ladinamente, foi solto. Lendas à parte, os pontos e as vírgulas fazem sutis diferenças. mas para tentar aprender a usá-los é preciso ler. E ler sempre. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/10/2006. - [FALTA UMA SEMANA - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/falta-uma-semana-diario-do-nordeste/): Não importa em quem você vai votar, importa a razão pela qual vai votar. Não se vota por vingança, gratidão, compadrio ou simpatia, vota-se por convicção de que estamos fazendo o mais certo. Dessa forma, é bom que você tenha uma conversa com você mesmo. Só você sabe de suas razões e das suas convicções. Este festival de obviedades que estou a dizer é, quem sabe, necessário. Algumas pessoas acreditam piamente no que dizem os candidatos. É preciso ter cuidado, ir mais fundo, saber a diferença entre a mistificação e a verdade, entre os nossos valores pessoais e os apregoados pelos que tentam nos encantar com imagens e promessas. É preciso pensar mais um pouco no Brasil, este grande teto que nos abriga a quase todos. Desde os confins da Amazônia, com suas riquezas e ainda mistérios, até ao Rio Grande com seus pampas tão belos. Há tantos brasis em cada região, estado e até em cada cidade. A filosofia, o inconsciente coletivo, o jeito de ser de cada comunidade, são frutos da história prosaica que acontece no dia-a-dia, nas necessidades ou desejos não realizados, na luta árdua ou amena pela educação, sobrevivência e sustento de cada família ou pessoa. Assim é que, sem essa de sociólogo, antropólogo, cientista político ou reformador social, fico matutando sobre o que deve levar um brasileiro pobre do Alto Xingu a escolher um candidato. Igualmente, um solitário morador de um povoado distante e paupérrimo, no oeste do Piauí, no sertão central do Ceará ou das Alagoas, do norte de Minas e por tantos outros lugares desvalidos que ainda traduzem a miséria e aclaram a indiferença coletiva. A incapacidade política de transformar milhões de pessoas em cidadãos cônscios dos seus direitos e deveres, aptos a decidir o seu destino, sem esperar milagres que nunca chegam, olhando a abastança que passa ao largo, vivendo a pobreza que os consume e os incapacita de ver e julgar por conta da educação que nunca receberam e das oportunidades que não lhes foram dadas. Falta uma semana. Depois dela, qualquer que seja o eleito, novos circos serão armados, os das alianças indispensáveis à governabilidade, e os que estiveram em lados opostos talvez se componham. Será nessa hora que precisaremos estar, mais uma vez, atentos, não apenas como meros leitores não-críticos de publicações e emissoras que querem nos impor seus disfarçados interesses, mas como brasileiros que não estão mais deixando ser tutelados por mistificações e engodos. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/10/2006. - [RÉGIS: O BRASIL SE ACABANDO E NÓS BRINCANDO...” Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/regis-o-brasil-se-acabando-e-nos-brincando-jornal-o-estado/): “A doença nasce em silêncio. Seja pela ação de germes, ou substâncias nocivas, ou por processos endógenos, sutis alterações processam-se nas células: é a enfermidade em marcha. Quietamente, imperceptivelmente, implacavelmente. Em algum momento, algo acontecerá, uma dor, falta de ar, palpitação, hemorragia”. Este texto é do escritor e médico Moacyr Scliar no livro “A Paixão Transformada”. Régis Jucá sabia e cuidava disso com a competência de cirurgião, senso de humanidade e o convencimento de terapeuta. Régis Jucá saía da UFC quando eu ainda estava entrando. Lá, os que fizeram política universitária, tinham conhecimento da trajetória do Régis no Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina e no Diretório Central dos Estudantes. Fomos a geração seguinte e nos espelhamos naqueles que nos tinham precedido. Régis era um deles. Depois, de uma forma espontânea e meio anárquica, formamos há mais de 30 anos, sob os auspícios de Edson Queiroz, o que hoje se chama de “Turma dos Sábados”. Régis foi um dos seus fundadores e expoentes, embora essa turma, por natureza, seja iconoclasta. Ele era assíduo, referência, polêmico e um hábil contador de histórias. Falava de suas viagens, seus cursos e professores, de figuras humanas, entre outras, de Juscelino e Edson. Leitor voraz, inclusive de jornais, um dia bem cedo me liga e fala que havia acabado de ler uma crônica que eu escrevera: “Hospitais, ante-sala da morte”. Nela eu reclamava da falta de pronto atendimento – no hospital em que Régis pontificava – levando à morte por hemorragia interna o comum amigo Afrânio. Régis lamentou, mas justificou o fato por ser um fim-de-semana próximo do carnaval em que a emergência fica a cargo de médicos residentes. Recentemente, sua mulher Bia e as filhas do Régis, Juliana, Raquel e Laura resolveram editar, tendo como organizadores Natalício Barroso e Luiz Falcão, o livro “Com O Coração Nas Mãos” que contém escritos seus: crônicas, perfis de personalidades, reflexões, política, temas ligados à saúde, educação e publicações científicas. E o fizeram muito bem. O lançamento foi no começo de uma noite nos jardins da Reitoria da Universidade do Ceará e lá se podia ver familiares, amigos, colegas e pacientes, todos lembrados de histórias vividas com o Régis, semelhantes ou diferentes das que contei acima. Mas, o que me chamou a atenção nessa noite foi o clima cordial, ameno, sem faltar o uísque que o Régis bebia como uma bebida que deve ser tomada lentamente para gerar a espiritualidade que seus ingredientes provocam. Não é minha intenção fazer uma resenha de .“Com o coração nas mãos”, outros já o fizeram. Mas dizer que é um livro bem feito, gostoso de ler, pela forma simples, direta e limpa com que Régis cuidava das palavras, como se a arte de escrever tivesse que, necessariamente, incluir preparação, assepsia, técnica, a operação em si da escrita e o seus escritos encerrassem com efeitos positivos, como o resultado de uma boa intervenção cirúrgica, tais quais centenas das que ele fez. Esta crônica, que reproduz alguns trechos por mim já escritos, deveria ter sido publicada no dia 22 de setembro passado, um dia após o 2o. aniversário de morte do Régis mas só sai agora, na Semana do Médico, véspera das eleições – política e medicina eram duas das paixões dele - para o segundo turno e me valho do próprio Régis, com trecho de seu artigo “O Brasil se acabando e nós brincando...” para finaliza-la: “Uma nação, ou mesmo uma cidade, será melhor ou pior conforme mais certa ou mais errada for a nossa decisão de hoje. Eleição é coisa séria, não é brincadeira, não é quermesse nem final de campeonato de futebol. E foi de brincadeira e brincadeira que chegamos onde estamos e pelos nossos erros, poderíamos já estar pior”. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/10/2006. - [O AMANHECER NAS PRAIAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-amanhecer-nas-praias-diario-do-nordeste/): Amanhece. É hora de ouvir motoristas com camisas doadas por algum dono de boate, esperando incautos ou impetuosos turistas sexuais saírem de suas tocas aqui nestas praias sem dono. Eles param os carros de qualquer jeito. Não há mão ou contramão, não há silêncio, também pudera, não há fiscalização. O que vale uma orla em uma cidade cheia de problemas? Mero mictório público e estacionamento matutino de táxis que aguardam o fim de encontros entre mulheres pobres ou pobres mulheres que ainda acalentam sonhos de ser amadas por seus cafetões e clientes-usuários e se entregam a estrangeiros de qualquer nível por poucos euros, dólares ou reais, tão poucos que não dariam para uma refeição ligeira no outro lado do continente. Imagino o que possam pensar desta cidade os que vêm, apenas ejaculam e voltam. Lembrarão do seu nome? Seria Fortaleza ou retirariam do nome o rt e colocariam um d? Por outro lado, literalmente, do lado de fora da proteção estrutural do local de onde estou escrevendo, ouço pios de andorinhas. Serão pios ou cantos pios? Na sutileza do canto da andorinha há a esperança não dissipada de que o pesadelo que deixaram florescer nestas praias não prospere e a cidade retome o que foi seu, tão grosseiramente perdido. Enquanto o canto da andorinha nos nutre de esperança, a algazarra dos motoristas insones - catadores de lixo, meninos que cheiram cola, passeios quebrados plenos de areia por conta de uma disputa judicial sem fim, bêbados, pedintes - retrata o que todos plantamos com a nossa indiferença, descaso ou, quem sabe, da corrupção institucionalizada nos órgãos licenciadores e de registros, policiais surdos, rondas que não acontecem, imprensa investigativa que ainda dorme, CPI da prostituição que deu palanque e votos, promessas não cumpridas e escolhas que não sabemos fazer, mas fazemos, sem respeito a nós mesmos e ao próximo. JOÃO SOARES NETO, CRONISTA CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/10/2006. - [AS CAIXAS PRETAS SÃO AMARELAS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-caixas-pretas-sao-amarelas-diario-do-nordeste/): Aprendi a não ter medo de voar em teco-tecos. Meu pai era piloto privado, tinha um avião Aeronca e me levava para passear. Fiz muitos voos com ele e seus colegas de aeroclube. Os aviões, por serem pequenos e frágeis, balançavam muito e o ruído forte e contínuo, ainda bem, do monomotor chegava diretamente aos nossos ouvidos, mas tudo era folguedo. Depois, vieram os voos em aviões comerciais. Era ainda tempo dos Douglas, dos Constellations, dos Viscount, até chegarmos a era dos jatos, quando a Boeing se projetou com o 707 que hoje não passa de um sucatão. Passei, entretanto, por dois sustos, um pela TAP, outro pela Varig. No primeiro caso, um motor parou. No outro, o trem de aterrissagem não recolheu. Em ambos os casos, os aviões tiveram que jogar combustível fora e fizeram pousos de emergência, depois de pânico entre os passageiros. Hoje, os aviões a jato são altamente beneficiados pelos avanços da tecnologia e têm sistemas quase perfeitos de segurança. Tudo, ou quase tudo, é controlado por sistemas de computador que ainda possuem alternativas em casos de pane, incêndios e outros incidentes e defeitos. Apesar disso, vemos, vez ou outra, cenas de desastres aviatórios e eles nos chamam a atenção pela quantidade de vidas perdidas e as dúvidas sobre as suas causas que não são totalmente respondidas pelas “caixas-pretas” que, quase sempre, são amarelas. E o amarelo é sinal de perigo. Está mais que provado que a maioria das causas em quedas de aeronaves é falha humana. O homem foi feito para viver com os pés no chão, onde pode cair e levantar mesmo que seja com o braço quebrado. Lá em cima, em meio ao firmamento, não pode haver erros, tudo tem que estar certo. E o pior é que pilotar avião é extremamente monótono, há pouca coisa a fazer, os instrumentos cuidam de todos os acertos, ajustes e alertam em perigos. Mas, e sempre há os mas, há situações em que o olho humano, o seu cuidado, atenção, são desviados por problemas que ficam aqui na terra e sobem à sua cabeça. Por outro lado, os controladores de voo, os que ficam nos aeroportos e fornecem as “aerovias” aos aviões são funcionários com problemas como todos nós e podem falhar. Ainda bem, que falham pouco, mas quando falham o resultado é uma tragédia. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/10/2006. - [ÚLTIMA PESQUISA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ultima-pesquisa-jornal-o-estado/): Imaginemos um acadêmico-pesquisador em contato com jovens um pouco acima de 16 anos. Digamos: um adolescente rico, um de classe média, um filho de trabalhador e um morador de favela. Imaginemos, também, que todos estão estudando, tiraram o título de eleitor e o que ele deseja saber é o que pensa a juventude brasileira sobre o que está acontecendo no Brasil, neste exato momento. O pesquisador toca a campainha da portaria do edifício onde mora o menino-rico. Alguém, do outro lado de um grosso vidro, fala, pela voz metálica de um microfone: quem é, mostre a identidade, com quem deseja falar e se já havia marcado. O pesquisador coloca a identidade no escaninho, diz seu nome, afirma que já havia ligado, marcara hora, podia confirmar. Um minuto. Passam dez. Pode entrar. O portão se abre, uma câmera gira e mira o pesquisador que fica confinado em uma antecâmara gradeada. Não recebe a sua identidade, só na volta. Vem um segurança armado e o acompanha até o elevador envidraçado e segue junto até ao andar determinado. Aperta a campainha do apartamento e vê que o hall tem detector de presenças e uma câmera disfarçada. Afinal, a porta pesada se abre. O menino-rico está de gel nos cabelos e uma raquete de tênis na mão. Pede que o pesquisador sente e vem uma copeira fardada servir café e água. Afinal, vamos às perguntas: Em quem você votou para presidente da República? Ele responde: em uma mulher. O senhor quer dizer Heloisa Helena. Ele responde: talvez. Posso saber a razão? Era uma coroa raivosa, deve ser legal sair com ela, imagino. E em quem vai votar no segundo turno? Ainda vai ter essa chatice, acho que vou viajar, que saco. Levanta-se e acompanha o pesquisador até o elevador. O pesquisador entra no pátio do condomínio de casas geminadas de um bairro afastado, mas bonito, onde o espera o menino-de-classe-média. O porteiro conversa com uma doméstica e nem olha para ele. A mãe de classe média, com os cabelos numa touca, pede que entre e sente na sala onde os sofás são de imitação de couro. Dá um grito e lá vem o menino-de-classe-média com um I-Pod na mão, fone nos ouvidos e o corpo balançando ao som de uma música que tem tudo para ser baiana. O pesquisador faz as mesmas perguntas e ele responde: pensei em votar no Lula, fiquei em dúvida, depois pensei em votar no Geraldo, mas não gosto de chuchu e aí anulei o meu voto. No segundo turno, acho que vou fazer a mesma coisa, não acredito em político. Você não vai assistir aos novos programas eleitorais? De forma alguma, tenho mais o que fazer. A rua esburacada, o lixo amontoado, antecede a casa de vila onde está o menino-filho-de-trabalhador.Os pais estão trabalhando fora. Entra sem cerimônia na porta cortada ao meio, à guisa de janela. Ele usa camisa de imitação de uma dessas marcas conhecidas e calção comprido que cobre os joelhos. Não há cerimônia, o pesquisador senta em uma cadeira de plástico meio cambaia e ouve: votei nele, vou votar de novo, ele é legal. O resto não me importa. Fim de papo. E coloca a mão no ombro do pesquisador que se despede. O pesquisador entra na favela, vê uma aglomeração, gritos, carros de polícia, tiros, e é atingido por uma bala perdida. Sua pasta cai, alguém a rouba. Era a sua última pesquisa. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/10/2006. - [PENSAR PARA VOTAR - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pensar-para-votar-diario-do-nordeste/): Não sei se você vai ler jornal antes de votar. Espero que sim. Fique calmo, não vou pedir voto. Também não desejo criticá-lo, induzir ou aliciar votos. O que venho tentando é mostrar o óbvio: que somos responsáveis pelas nossas escolhas e decisões, e votar é um dos principais exercícios da cidadania. Votar é estar comprometido com o coletivo, com essa ideia de Estado, de Federação, de Nação. Se você não teve tempo de pensar nisso e vota apenas porque é obrigação, infeliz de você, coitado de nós, desgraçado Brasil. Votar é escolher, é decidir, é influir no futuro, não é se vingar anulando ou deixando em branco, é corrigir erros do passado ou reafirmar sua satisfação com resultados, projetos, propósitos de alguém, de ideologias, partidos ou coligações. Tenho dito que deputado, seja estadual ou federal, não é despachante, amigo ou alguém indicado por A ou B, nem mera pessoa que faz da política uma profissão, por falta de outra opção. Deputado é representante do povo, delegado, isto é, alguém que recebe uma missão de quem o elegeu e deve ter um mínimo de conhecimento e capacidade para participar de uma assembleia ou congresso que delibera, faz leis e fiscaliza governos. O deputado deve se submeter ao longo e, especialmente ao final de seu mandato, a uma nova avaliação dos seus feitos, propósitos e atitudes. Assim, votar consciente para deputado, estadual ou federal, mostra o seu compromisso com as coisas públicas. Não é favor, é exercício de direito, é cidadania O senador deve ser alguém maduro, na presunção de que mais idade possa dar comedimento, moderação e serenidade na função de revisar as leis oriundas da Câmara dos Deputados, de julgar o Presidente da República, ministros, membros do Supremo Tribunal Federal, procurador geral da Republica em crimes de responsabilidade. Assim, é muita clara a função do senador: não deve ser um mero aliado ou adversário do partido que detém o governo. É bem mais que isso. É ele quem representa seu Estado. O Presidente da República é o mais alto funcionário do país. A ele incumbe não só representar o Estado brasileiro, mas administrá-lo, geri-lo, ter o seu controle, através de ministros, assessores e ocupantes de cargos comissionados ou de funções gratificadas. Enfim, deve entender e respeitar o princípio universal da divisão dos poderes entre o executivo que representa, o legislativo que elabora as leis e o judiciário que julga a todos. Não, não sou professor de direito constitucional, tampouco nada tenho de cientista político, mas creio, por responsabilidade social, que este espaço é importante para esclarecer o significado do ato de votar, pois o voto é uma decisão que tem efeitos a curto, médio e longo prazos e atinge a todos, especialmente a mim e a você. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/10/2006. - [SAUDADE QUE NÃO É METÁFORA - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/saudade-que-nao-e-metafora-jornal-o-estado/): Amanhã, 30 de setembro, é dia dos santos Jerônimo, que sabia rezar e escrever, e Gregório, um iluminista ou iluminado. E também era o dia em que nasceu uma não-santa, uma mulher pequena e grande, valente e medrosa, paradoxalmente, vinda a este mundo para enriquecê-lo com os filhos que gerou em 54 meses, ou quatro anos e meio de barriga, em que deixava seu corpo adelgaçado se transformar em outras vidas. Amanhã, 30 de setembro, estaria marcando tempo uma mulher nascida e criada por estas paragens, miúda, ampla, silente e palradora. Essa mulher que andou, já madura, pelas terras de Camões e Cervantes, as que ficam na outra margem do Atlântico Sul e lá foi se aconchegar e aninhar-se aos seus. Essa que navegou pelas águas turvas dos rios da Amazônia, onde seus pontos de lágrimas clareavam e rastreavam a escuridão próxima dos corrimões do seu navio. Espantou-nos, com arte delicada, cuidada e misteriosa, em noite de fogueiras, com as suas iluminuras. Era simples, até tomar da caneta, Amanhã, 30 de setembro, será dia de louvação a uma mulher que, após filhos criados, recolheu seus bordados, com lágrimas vertidas ou não, exorcizou desdita, tomou da caneta como se fora colher de pedreiro, e construiu uma casa, tijolo a palavra, arquitetada pela memória ancestral ou recente, em meios a arquétipos, desilusões, devaneios, lembranças, realidades, brumas, mistérios, dramas e nela gravou seu ferro invisível: NC. E, quiçá espantada pelo que criara, deixou-a afundar. Amanhã, 30 de setembro, será dia de exaltar a vida de quem se fez viva na juventude da maturidade em meio a missivas trocadas, guardadas, e soube dar sentido ao que era sentido, sem ser permitido. Deixou-se enlevar, guiar pelo odor da tinta e a goma dos selos que tiravam o bolor do seu existir. Transformando-se e transformada. Essa vida, transformada, transformadora, quis ser acesa em alguma paragem, em dimensão outra, e nos dar a sensação da presença-não-presença e do enlevo-desengano, obra do que se sente e não se explica. E hoje, amanhã e sempre, será parte do húmus da terra, fazendo brotar quimeras, em meio à saudade que não é metáfora, e não está fora, pende dentro, em lugar inacessível aos olhos alheios. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/09/2006. - [CONVERSANDO COM MONA ANIS - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/conversando-com-mona-anis-diario-do-nordeste/): Participei de uma travessia literária com a escritora e jornalista egípcia Mona Anis, na “Tenda do Escriba” da 7a. Bienal Internacional do Livro, em Fortaleza, Ceará. Travessia literária é uma oportunidade que se dá a dois escritores para que troquem ideias durante determinado tempo, com a intervenção de um(a) mediador(a), sobre suas obras ou sobre o contexto sociocultural em que vivem. No caso específico dessa minha travessia, poderia dizer que estava surpreso com a escolha do meu nome para debater com a escritora Mona Anis, uma das expoentes do pensamento cultural contemporâneo do Egito e, por extensão, dos países árabes do Oriente Médio. Mona Anis é editora de cultura de um jornal egípcio editado em inglês, Al-Ahram, e tem uma larga vivência acadêmica, a partir de um doutorado na Universidade de Essex, na Inglaterra. Suas experiências acadêmica e jornalística, especialmente quanto ao que pensa, como vive e reage o povo árabe, espalhados em vinte países, que vão do Marrocos até o Iraque, têm dado origem a convites para que possa expor suas ideais sobre as questões que causam tanta repercussão na mídia internacional, como agora entre o exército israelense e a facção Hezbollah, no sul do Líbano. Conheço o Oriente Médio apenas de passagem e pouco sei da cultura árabe, tão rica e com fundas raízes na península ibérica, da Idade Média até o Renascimento, época em que ocuparam Espanha e Portugal, influenciando toda a sua linguagem, pensamento, arte e arquitetura que, por força da colonização portuguesa, nos foram, em parte, repassados. Entender, o que não é fácil, todo esse amálgama foi o que procurei, especialmente nas perguntas que lhe fiz sobre o que havia mudado no mundo islâmico para a mulher que adentra o século XXI. Como ela entendia as justificativas do grupo Al-Qaeda sobre os atentados aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001? Que perspectiva admite existir para a solução do conflito entre palestinos e judeus? e quais as consequências da ocupação americana no Iraque e como ficará aquele país quando essa ocupação findar? em razão de tantas as correntes de pensamento que dividem a sua classe política e os religiosos. O que deve ter ficado de positivo nesse encontro foi o despertar da minha curiosidade sobre a vastidão de literatura, que se encontra sobre o que se convencionou chamar de “orientalismo”, no dizer de Edward W. Said, autor do livro “Orientalismo, o Oriente como invenção do Ocidente”. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/09/2006. - [DESENCANTO E ENCANTO NO RIO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/desencanto-e-encanto-no-rio-diario-do-nordeste/): RIO DE JANEIRO – Desço no Aeroporto do Galeão, aliás Tom Jobim, teoricamente é inverno, estamos em setembro, mas a temperatura é de 35%. Aparece logo um agenciador dessas cooperativas de táxi e, após alguns minutos, chega um Vectra novo, ar condicionado, cumprimento o motorista e tomamos o rumo da cidade. Este Rio é um velho conhecido meu, desde o tempo de estudante em que ficava por aqui mesmo na Ilha do Governador, depois me mandava para Copacabana, onde até hoje permaneço, na minha temporalidade. Dizia que ia de táxi e, de repente, um brutal engarrafamento. Penso no pior, um assalto ou arrastão. Não era. Era um acidente com um carro que, desgovernado, bateu no guard-rail da ponte nova, onde estamos parados. Vejo o motorista ligar seu rádio e informar a seus colegas de cooperativa que evitassem a ponta nova, seguissem pela velha. Parados, sem ter o que fazer, pergunto a ele em quem vai votar. Ele, meia-idade, linguagem clara, coerente e articulada, me diz que anulará seu voto e explica as razões. Formou-se em Matemática, fez pós-graduação em informática e foi ser analista de sistemas. Juntou dinheiro, comprou um pequeno posto de gasolina ao tempo em que liberaram as “bandeiras”, isto é, todos podiam comprar o combustível onde quisessem. Apareceram os vendedores de combustíveis adulterados, não comprou. Depois, vieram os fiscais e o quiseram achacar. Triste, vendeu o posto, com prejuízo, e comprou um táxi, onde trabalha 16 horas por dia, paga os estudos em uma faculdade particular de biologia para a única filha, que não conseguiu vaga em universidade pública. Desfila, a partir daí, o desencanto com os políticos do Rio e do Brasil. Termina o engarrafamento, passamos pelo Fundão e tomamos a Linha Vermelha. Mostra os outdoors perto da favela da Maré e diz que o que os políticos gastam nas eleições, só recuperarão se for roubando. Entramos no túnel e já estamos na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde tristes militantes acenam cartazes de candidatos de vários partidos. Ele ri e diz não acreditar em pesquisas, é um cético e com sua formação cartesiana “prova” que a eleição não está decidida para ninguém, pois o número de indecisos, dos que vão votar em branco e nulo, é muito grande. Aparece o mar, é, enfim, a orla do Rio, do jeito que Deus a fez, bela, exuberante, cheia de gente miscigenada em pleno dia de trabalho, biquínis e calções fazem pares, enquanto vendedores apregoam todos os tipos de quinquilharias. Sol a pino, é inverno, creiam. Chego a meu destino. Ele desce, apanha minha mala, pago e se despede. É Carlos, um brasileiro. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/09/2006. - [DE BRASÍLIA AO MÉXICO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/de-brasilia-ao-mexico-jornal-o-estado/): É fim de tarde. O avião sobrevoa Brasília e lembro da primeira vez que aqui estive. Quase tudo era barro, essa argila avermelhada que, ao contato com a água da chuva, se transforma em lama. Assim, o nascimento da cidade foi na lama. Era tempo de bossa nova, o aeroporto muito precário, quase tudo na cidade era oficial: carros, apartamentos, obras em construção e funcionários vindos do Rio e de outras partes. Placas, muitas placas. E o sonho urbanístico de Lúcio Costa, que muitos ainda imaginam ser de Niemayer, tomava a forma de um grande avião, com um grande bojo ou eixo e duas asas, a sul e a norte. Era, àquela época, uma espécie de “far-west”, como um “remake” atualizado de um filme de Gary Cooper, todos em busca do ouro. Todos vinham para cá porque acreditavam no Eldorado, no que estava acontecendo e no que imaginavam iria acontecer. Vieram muitos, quase todos ficaram e hoje, neste quinto ano do novo milênio, Brasília é patrimônio da humanidade, pelo inusitado partido urbanístico que recebeu, pelos lindos parques burlemarxeanos e por sua implantação vigorosa e vertiginosa. O carro passa pela Esplanada dos Ministérios, edifícios retangulares, sem adornos, sóbrios, iguais no pensar do Oscar, mas desiguais na prática de suas diferenciadas verbas, poderes e ações públicas e privadas. Lá está a Praça dos Três Poderes e há uma manifestação popular em suas cercanias. Os outros e são muitos, os não-ativistas, passam ao largo e nem olham para os piquetes, pois isto faz parte da paisagem da cidade-estado, onde tudo se procura e pouco se encontra. Ou melhor, alguns encontram. Abro a janela, o ar rarefeito de setembro se depara com a minha face e há carinho na pouquíssima umidade que me afaga. Vou em direção ao setor de embaixadas e surge o desfilar de edifícios-nações, à esquerda e à direita, cada qual com seu estilo, mas todos cercados, vigiados, com carros de segurança por perto. Dobro à esquerda, entro em território mexicano, pois piso na Embaixada do México, é festa. Ali se comemora o 194o. aniversário de sua independência, há uma profusão de raças reunidas, latinos, anglo-saxões, africanos, asiáticos, enfim, povos de todos os cantos. Tocam os dois hinos, o Embaixador Andrés Valencia levanta um brinde em nome da luta iniciada por Miguel Hidalgo e seus companheiros, enquanto a noite vai entrando no lago em frente. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/09/2006. - [OUTUBRO ESTÁ CHEGANDO - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/outubro-esta-chegando-diario-do-nordeste/): Dá uma sensação esquisita ver e ouvir candidatos a deputado e até a senador, falando no tempo limitado da propaganda eleitoral gratuita na televisão como se estivessem pleiteando uma função de despachante, estafeta ou algo parecido. Na realidade, há uma parcela significativa de candidatos que não tem realmente nenhuma mensagem, além de serem desconhecidos da maioria dos eleitores; são os que se intitulam assim (Zé do Box) ou assado (Maria Parteira), colocando-se à disposição da comunidade em que atuam. E estou falando de candidatos pelo Brasil afora, pois me atrevo a sair catando essas preciosidades por aí. Faltam duas semanas para as eleições, as esquinas estão cheias de bandeiras acenadas por “militantes” pagos, muros são pichados por todas as cidades, carros são adesivados e outdoors dizem das maravilhas que são os tais zés e marias. E assim, em meio a esse engenho, o Brasil mostra a sua cara, os candidatos, com exceções, é claro, são o que plantamos e colhemos em nosso tímido exercício de cidadania, nossa indignação capenga e na inapetência da maioria da população com o destino do país. Em 01 de outubro, o Brasil informatizado, “coisa de primeiro mundo”, totalizará as urnas eletrônicas e dirá rapidamente a nós e ao mundo o nome dos vencedores aos cargos majoritários, os que passarão ao segundo turno e os dos novos e velhos representantes nas assembleias legislativas e Congresso Nacional. E as Comissões Parlamentares de Inquéritos, as tais CPIS, ainda por terminar, se arrastarão, os projetos prontos para a aprovação pela Câmara e Senado como “redenção” do país passarão para a próxima legislatura. O tempo que sobrará no ano que já finda será gasto com os segundos turnos, aonde e se acontecerem, para diplomação dos eleitos, arranjos, troca de partidos, limpeza de gavetas pelos derrotados, composição de ministérios, secretariados, estatais, descontingenciamento de verbas, confecção, distribuição e leitura de milhares de currículos de candidatos aos milhares de cargos comissionados e funções gratificadas, esse time que, meio desconhecido dos ocupantes do segundo e terceiro escalões, tece toda a trama burocrática brasileira, tão complexa quanto modorrenta, embora cheia de computadores e carimbos. E o que importa é que dentro de pouco tempo, o programa eleitoral acabará, muitos muros continuarão pichados, o campeonato nacional entrará na fase decisiva, as compras de Natal ficarão aguardando a liberação do 13o salário. No próximo ano, teremos os jogos pan-americanos no Rio com a pompa e circunstância e a segurança pública cuidará de todos, que alegres e felizes poderemos comemorar a passagem do ano e nos prepararmos para o carnaval, pois ninguém é de ferro. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/09/2006. - [ADMINISTRADORES, SENHORES DO FUTURO - Jornal O Estado](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/administradores-senhores-do-futuro-jornal-o-estado/): Estudo administração desde a década de 60. De lá para cá já convivi com várias designações da carreira. No princípio era Técnico em Administração, depois resolveram transformá-la em Bacharel em Administração. Em seguida, reduziram-na para Administrador. Qualquer que seja o nome, pois hoje o importante é o saber e não o nome que se dá ao detentor do conhecimento, há uma consolidação dessa atividade, ciência ou profissão. A par disso, explodiu no Brasil uma miríade de cursos de MBA e mestrados que, salvo exceções, não acrescentam muito ao que se aprende na graduação e na prática, fazendo, errando, lendo e consertando. É bom lembrar que em 1903, Henry Ford fundou uma empresa que fabricava veículos e introduziu a linha de montagem e os processos de automação. Surgiam, então os fundamentos do fordismo, tão criticado por Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos” e, posteriormente, no livro “Admirável Mundo Novo”, de Adlous Huxley. Ao mesmo tempo em que Henry Ford praticava gerência, Frederick Winslow Taylor, considerado o pai da profissão, concebia a ideia da racionalização do trabalho e dava o embasamento teórico da “engenharia social”, nome primitivo da atividade. Do outro lado do mundo, precisamente na França, Henri Fayol começava a definir o lado conceitual da administração. Isso foi apenas o começo. Agora, nestes tempos informáticos e performáticos, há, como já disse, um número imenso de escolas e faculdades de administração pelo Brasil afora. São cursos de montagem relativamente barata e a obtenção de licença de funcionamento do Ministério da Educação não parece ser tão difícil. O fato é que a profissão de Administrador já está quase empatando, em quantidade, com a de Advogado e isso seria positivo se a qualidade dos cursos fosse boa, mas não é o que consta, pelo menos é o que tenho ouvido falar de quem tenta recrutar bons administradores. Esta é a semana do Administrador, uma profissão de futuro e do futuro, sem a qual a sociedade não mais teria capacidade de entender os mecanismos de funcionamento das empresas, um amálgama de procedimentos, entendimento de legislações, manutenção e prospecção planejada de novos negócios. Por essa razão é que os candidatos a Administrador devem procurar bons cursos. E bons cursos são os que exigem presenças, puxam pelos neurônios nos trabalhos e provas, incentivam leituras e cobram resultados. Os outros são auto-engano. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/09/2006. - [INDEPENDENCIA OU SORTE? - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/independencia-ou-sorte-diario-do-nordeste/): Quinta-feira comemorou-se mais um aniversário da Independência do Brasil. Já lá se vão 184 anos desde que D. Pedro I, “às margens do riacho Ipiranga, resolveu cortar os laços com Portugal”. O mais estranho nessa história é que esse mesmo D. Pedro I, Imperador do Brasil, foi, quatro anos depois, escolhido Rei de Portugal, ainda que pelo período mínimo de sete dias, entre abril e maio de 1826, com o nome de D. Pedro IV. Ora, se era para romper os laços, como é que D. Pedro I veio a ser, tempos após, Rei do país que havia perdido a sua mais importante colônia? Coisas de família real, os Orleans e Bragança que mandavam aqui e lá. Será que isso mudou muito? Agora, nesta antevéspera de uma nova eleição, inclusive para presidente da República, uma espécie de “rei” para grande parte da população, exatamente a que vota agradecida por favores recebidos, pois não possui o menor sentimento de cidadania, não conhece os direitos que tem, analfabeta que é. Não falo do analfabeto político a que se referia Bertold Brecht e é comumente citado, mas do dito analfabeto funcional, o que apenas sabe escrever o seu nome e não possui, pois estudo não teve, capacidade de analisar criticamente virtudes e defeitos de candidatos. Dessa forma, o país que todos desejamos independente, só o será por sorte, pois o fado não concede prazos para quem não se qualifica aos humores do mundo, que nos cobra desempenho, responsabilidade e atitude. É patético ouvir frases que justificam votos a pessoas sabidamente comprometidas com falcatruas ou incompetentes. “Todos são iguais”, “farinha do mesmo saco” e outros que tais, são exclamações de quem não tem tempo a perder com a escolha consciente de candidatos ou, infelizmente, não sabe mesmo escolher e vai à onda. Ao ver as paradas militares, os pronunciamentos de políticos e a cegueira de grande parte da imprensa, só nos resta exercer, mesmo com indignação, os votos que somos obrigados a dar. O fato de ser obrigatório, como forma de consolidar o hábito democrático de votar, transformou-se em pesadelo para quem não acredita mais na ordem que está vigendo e não sabe qual a melhor saída que nos tire da opção da sorte e que nos conduza não à morte, mas à vida. João Soares Neto, cronista CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/09/2006. - [A FLOR AMERICANA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-flor-americana/): Eu vi na pré-estreia numa última sessão de uma noite de sexta-feira. Fiquei chocado e, ao mesmo tempo, entusiasmado. Passei a indicar, no dia seguinte, para amigos de um grupo que frequento aos sábados. Bonito e doloroso. Meigo e cruel. Sensível e lancinante. Doce fel. Tedioso e eletrizante. Agora, passada três semanas e quando já entrou em cartaz regular, me permito falar sobre “beleza americana”, um filme dirigida por um jovem inglês, 34 anos, descendência portuguesa, chamado Sam Mendes. O seu filme conseguiu impactar e mexer com a cabeça de milhões de pessoa. Quem acompanha a história da sociedade americana neste último quartel do século XX sabe do orgulho dos estadunidenses em proclamar e exportar o “american way of life”. A alta classe media americana é a baluarte e condutora de todo o processo comportamental e de mídia do “grande irmão”do norte. Lá, como aqui, a alta classe média traduz padrões de referências e vive de um sonho que se baseia na família estruturada, no status social e no consumo. Pois bem, o “beleza americano”trata disso com a sensibilidade de uma batuda de maestro, a sutileza de um misturi de um cirurgião, o ponta pé de um carateca e um soco de um lutador peso pesado de boxe. A voz em “off”, no início do filme, do ator Kevin Spacey, soa lenta e modorrenta como o subúrbio em que se desenrola o filme. O personagem Laster Burnaham diz que vai morrer e que ainda não sabe disso. Ora, todos sabemos que vamos morrer, apenas não queremos pensar nisso. Ele, contudo, fala em morte próxima. O filme passa a derrubar o primeiro ícone da sociedade americana: a idéia de que o automóvel feito em Detroit ou outras cidades dos Estados Unidos é o melhor do mundo e toda família deve tê-lo. Os dois carros do casal são um japonês Camry da Toyota e uma mini-van Mercedes Benz alemã. O segundo ícone desmistificado é a propaganda americana com seus apelos ao consumo: Spacey/Levin trabalha há 14 anos em uma agência de publicidade e ao sentir que vai ser despedido relata todos os “podres”dos dirigentes e o embuste que é o seu emprego. Sua Mulher(Annete Bening) é o exemplo da corretora de imóveis padrão que ensaia as conversas para clientes e tenta vender gato por lebre. O casal é uma farsa, pois o marido e a mulher estão distanciado física e mentalmente, tornando claro que nada resistiu ao tempo e que um sofá de “chintz” de 4.000 dólares é mais importante que a tentativa de reaproximação, possivelmente salvadora. A juventude da escola secundária é mostrado sem rodeios: consumo e tráfico de maconha, fantasias eródicas, líderes de torcida e distância de pensamento, comunicação e identidade com os pais. Daria para falar mais, muito mais, especialmente da paulada que dá nas forças armadas americanas ao criar um coronel reformado dos fuzileiros navais, sua moral, a submissão e alheamento de sua mulher e seus desejos(dele) inconfessáveis. Mais não digo, para não tirar o prazer de quem não assistiu a esse intrigante filme que luta por oito “Oscars”. A quem já viu, peço que reflita e veja que as coisas por cá, embora sejam diferentes, não são muitas. Afinal, nós temos a mania de copiar e os Estados Unidos são a nossa maior referência, para o bem e o mal. Ia esquecendo: O título do artigo refere-se à flor (Americana Beauty) que dá nome ao filme: é linda, mas não tem cheiro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/03/2000. - [MÉDICOS E (IM)PACIENTES](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/medicos-e-impacientes/): Há quase 400 anos William Shakespeare se valia do personagem Helena, na peça "Bem está o que bem acaba", para dizer no primeiro ato: "Às vezes está em nós a medicina que em vão ao céu pedimos". Nós, não médicos, muitas vezes pensamos que o médico é um ser milagroso. Paradoxalmente, alguns médicos se deixam levar por essa mesma ideia. Todos estão errados. As relações entre pacientes e médicos não são relações comuns, pois plasmadas, de um lado, por dependência e, não raro, um ar de enfado, mesmo disfarçado por boas maneiras, do outro. Muitas respostas pedidas não podem ser dadas, mesmo após uma anamnese (o relato dos padecimentos, segundo Miguel Torga, médico e escritor português) bem-feita ou uma bateria de exames laboratoriais ou de imagem. Há muito de não explicado, até pelos médicos que cuidam das mentes das pessoas. O médico não é apenas um elemento importante na engrenagem das respostas dadas pelo nosso corpo às dores, sejam elas reais ou imaginárias. Ele é o fio condutor do processo. É provável estar com Platão a resposta: "O maior erro dos médicos é tentar curar o corpo sem procurar curar a alma. Entretanto, corpo e alma são um e não podem ser tratados separadamente. "Um médico e escritor, Moacyr Scliar, parece concordar com Platão quando diz no livro "A Paixão Transformada": "A situação mudou por várias razões: em primeiro lugar, o médico perdeu a posição aristocrática que muitas vezes o caracterizava no passado. Depois, a medicina foi adquirindo um caráter mais técnico, pouco compatível com a expressão humanista". O outro lado da história é quando se fala em qualidade de vida dos médicos. É lúcido concluir necessitar o médico de um mínimo de condições de vida para ser uma pessoa razoavelmente feliz e, conseqüentemente, ter gosto pelo que faz. Por ter alguns amigos médicos posso me permitir fazer estar observações. Sei como são responsáveis, trabalhadores, estressados, ganhando relativamente pouco, tão carentes de afeto quanto seus pacientes, mas têm, por ofício, de tomar decisões rápidas que podem salvar ou não vidas ou não. Essa rotina não os robotiza, mas pode lhes dar aquele ar de enfado já referido. Pode ser até exagero ou inadequada a expressão enfado. Melhor seria, quem sasbe, incômodo, pela quase real incapacidade de estabelecer um diálogo racional com o paciente. Enquanto o médico procura em seus alfarrábios mentais e na farmacologia o cutelo para ceifar a doença, o paciente - e sua família - quer respostas, sejam mágicas ou milagrosas. Talvez pudesse ser inferido, com relativa margem de erro, que os médicos ao não se sensibilizarem com os dramas dos doentes possam, em contrapartida, maximizar os seus e de familiares, tornando-se frágeis para resistir às suas próprias dores. A reportagem sensacionalista da revista Veja da semana passada sobre o uso de álcool e drogas por médicos, reflete um percentual significativo. o mesmo escrito sobre médicos pode ser dito de jornalistas, políticos, empresários etc. Por outro lado, a atual situação social-econômico-financeira dos profissionais da medicina parece ser crítica, mas não sei da existência de pesquisas e estudos sobre tal fato e, especialmente, a respeito da saúde física e mental dos médicos. Se há, gostaria de conhecer. Não existindo, é tempo de fazer. Poderiam ser úteis aos conselhos regionais de medicina e aos sindicatos dos médicos. Forneceriam elementos para reflexões e reivindicações importantes para o exercício digno dessa profissão que alia ciência e arte. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/02/2000. - [SALÃO DE BELEZA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/salao-de-beleza/): Acordo com a unha do dedão do pé esquerdo quebrada, um pouco de sangue e o estrago feito. A saída foi procurar onde dar um jeito naquilo. Alguém me diz que os salões de beleza não costumam, talvez por falta de freguesia, abrir às segundas pela manhã. Felizmente, uma alma caridosa me indica um que abriria às 8:00 horas e lá se fui eu com o meu dedão do pé inchado. Salão moderno, piso de granito, luzes, espelhos em profusão, ar condicionado e tudo já funcionando àquela hora da manhã. Pedirão meu nome, dei João. Pediram o sobrenome e falei o Soares. Abriram uma nota de serviço e entreguei o meu pé a umas dessas moças do subúrbio distante, mas que estava ali com alegria nos olhos, equilibrando o corpo não tão pequeno em uma cadeirinha minúscula. Não me sinto bem colocando o pé no colo de alguém como se fora um paxá. Era o jeito. A gerente me entregou uma revista. Fiquei feliz, não era “Caras”. Era “Dinheiro”, talvez tenha sido o meu jeito circunspecto. Os olhos estavam livres. Vi ser o único homem do local. Procurei me concentrar na revista, mas de vez em quando passeava os olhos pelo salão espelhado e via quase tudo em dose dupla. Eram muitas as mulheres cuidando da beleza. De todas as idades. Umas pintavam os cabelos, outras tinham máscaras na face, algumas ficavam embaixo do secador e poucas já estavam nos arremates finais, o penteado, ou a maquiagem, ou ambos. Uma jovem não largava o celular, colocou o que soube ser “papelotes” e parecia o “Arc”, aquele marciano da “Veja” que acha estranho as coisas por aqui. Eu também. Dizem que ser mulher e ficar calada é impossível. Imaginem em um salão de beleza. Elas falam, gesticulam, andam, tomam cafezinho, fumam e agora com a praga do celular aí que a coisa complica. Uma senhora discutia a nova cor dos cabelos a potes, revistas e, mesmo sem ouvir o diálogo, parece-me pretender sair parecida com Catherine Deneuve ou a Sharon Stone. Tinha até gente conhecida. Uma amiga da minha faixa de idade, recém separada, veio falar comigo com o cabelo já feito e disse do amor novo surgido em meio a uma solenidade. Estava feliz e parecia fazer fé nessa nova relação amorosa com alguém também separado. E lá se foi ela com a sua esperança para o sol do dia. Toda nos trinques, naturalmente. Depois de cortes, mertiolate, unguentos, água quente e mãos competentes sai de lá com o pé bem melhor. Saí, mas voltei. Esquecera o celular e ao voltar, vi que novas mulheres estavam chegando e saindo com aquele jeito de ser tão especial que transforma a vaidade de um pecado capital em uma necessidade básica no comportamento feminino. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/02/2000. - [ANA E MERYL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ana-e-meryl/): Eu não sou chegado a novelas, mas não posso ignorar o sucesso de Ana Paula Arósio, uma jovem de 21 anos que, de repente, começou a aparecer na mídia e passou a ser considerada uma das mulheres brasileiras mais bonitas do século. O sucesso leva, muitas vezes, a faturamentos extras em publicidade, fotos, desfiles. festas e merchandising. De repente, a Ana em questão ficou “rica” e passou a ser o xodó do Brasil como já tantas outras foram. Esse exemplo pode dar a falsa ideia de que é fácil atingir o sucesso. Basta uma cara e um corpo bonitos, um pouco de talento e muita sorte. Não é bem assim. A sorte pode até ajudar, mas ela tem muitos a quem atender e é extremamente volúvel. Ninguém tem bola de cristal para saber do futuro, mas há uma receita quase certa para o sucesso em qualquer área da atividade humana: competência, persistência, responsabilidade e profissionalismo. Quantos atores e atrizes já se acharam o máximo e hoje, passados poucos anos, se contentam em fazer papéis secundários em novelas e filmes com salários que mal dão para dividir um apartamento de sala e quarto. Há uma artista americana por quem tenho a maior admiração: Meryl Streep. Não é bonita, não tem esse charme todo, mas é uma atriz competente, responsável e altamente profissional. E isso não foi construído em um conto de fadas, ela se preparou. Estudou no Vassar College (uma faculdade charmosa que conheço para mulheres) e, após isso, fez o mestrado em dramaturgia na Universidade de Yale. Resumindo: criou uma bagagem intelectual e foi à luta com os cabelos tingidos de louro, seu nariz fora dos padrões estéticos e se fez protagonista em 1978 do filme “O franco atirador”. Passados mais de 20 anos e quase 30 filmes depois (quem não lembra, por exemplo, de Kramer vs. Kramer, A Escolha de Sofia e Os Dálmatas), ela continua dando o mesmo duro da época em que caçava trabalho. Com 47 anos, ela já ganhou dois Oscars e um Emmy. Não se pode comparar as trajetórias de Ana Paula Arósio e Meryl Streep. Uma está no orgasmo da glória inicial e a outra sedimenta a sua saga de formiga como se fora uma trabalhadora intelectual e não um objeto do desejo. O que pretendo passar para alguns poucos jovens leitores é que o talento é importante em qualquer profissão. Uma boa aparência ajuda bastante, a sorte pode fazer diferença, mas sem base intelectual, sem profissionalismo e a essência do conhecimento, ninguém chega a lugar nenhum.No máximo, ficará olhando para a efêmera glória que se esvai como se fora um comprimido efervescente. Como já disse alguém: “uma rosa não pode nascer de uma cebola”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/02/2000. - [TODOS OU QUASE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/todos-ou-quase/): Cheguei cedo e tive tempo de trocar algumas palavras com ele. Leve, adocicado pelo tempo, retemperado pelas dores da vida e com o olhar de vaga mundo que se auto exilou para ter o distanciamento crítico. E voltar ou quase. Respondi às suas gentilezas e prometi-lhe uma encomenda para a Rua Mons. Bruno. Educado, levantou-se e trocou aquele abraço caloroso que só os que acreditam na sua masculinidade podem dar em ouro homem. O lugar era quase o mesmo do passado, tingido de verde na esperança de novas glórias como se as festas e farras pudessem ter “revivals”. Postei-me equidistante e pude acompanhar a nuvem de gente que chegava. Uns por pura, franca e duradoura amizade, outros por supina vaidade e ainda uns outros que estão sempre, aconteçam o que acontecer. Via-se de tudo, desde o jornalista com e sem jornal, ao político com e sem mandato, o empresário com e sem empresa, os que contam e os não, os que pensam, os que registram, os que fofocam, os colunáveis, os emergentes de todas as castas e quase todos pouco ligavam quanto tempo esperariam pelo autógrafo absolutamente personalizado e carinhoso. O tempo passava e como manda quem pode, fez-se uma mesa solene e muitos se postaram atentos e, por minutos, se quedaram mudos. Basta dizer do carinho de quem o apresentou, amigo sem jaça, mosqueteiro de tantas andanças e esclarecedor de detalhes vívidos de um passado que se fez presente e tão dourado como a cor da camisa daquele que falava com a simplicidade de quem conta o que sabe, do jeito que sabe, gostem ou não. Foi aí que me veio à memória que eu e o autor festejado, fomos sempre quase. Éramos meros João e Antônio, simples netos ou netos simples. Quase companheiros de jornalismo em eras de 60, quase colegas da mesma faculdade, quase ensinamos juntos e quase fomos bons amigos. E nessa condição de quase é que estou aqui para dizer quase nada. Direi apenas que minha memória visual penetrou na sala da Vila Angelita e se permitiu criar asas: vi chegar à redação e pegar um paletó emprestado para ir à Assembleia. Tomar um avião para Cuba, dar prego no meio de uma estrada, transformar sonhos de uma mera jangada em frota de desejos, mudar para Brasília, desfazer-se de parte do passado – como se isso fora possível – e tornar-se alado para pousar agora com asas cansadas por tantas estranjas e encher de luzes as coisas que remexem a memória e azucrinam o coração, pois dão aquela arritmia que nos impele a escrever sem a preocupação do memorialista, mas dos que ainda imaginam ter o direito de falar. Pois como bem disse a citada Susan Cheever: “O passado é um lugar perigoso”. Ou quase... João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/02/2000. - [O NOSSO FUTURO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-nosso-futuro/): Quem se dá ao trabalho de ler jornais, revistas e ver televisão deve estar apavorado de tanto ouvir, de um lado, notícia de concordatas e falências de tradicionais empresas. Do outro, a cada dia acontecem aquisições de empresas e bancos nacionais por empresas estrangeiras e, nos noticiários internacionais, são mostradas megafusões de conglomerados industriais e de serviços. Até clubes tradicionais de futebol como Corinthians, Flamengo e Vasco estão atrelados a contratos que os tornam joguetes e fontes de lucro. Nós, enquanto pessoas, somos absolutamente frágeis e não sabemos aonde, nem como e quando essa estória de globalização vai parar. Todos os ramos de atividade estão sob os olhos de lince de equipes de empresas que identificam oportunidades, têm acesso a crédito com juros baixos, conversam tranquilamente com ministros e presidentes de república (especialmente os do hemisfério sul) e têm poderes para aniquilar os que não se rederem às suas propostas, sejam decentes e indecentes. As empresas brasileiras, especialmente as de pequeno e médio porte, estão absolutamente desprotegidas e sem defensores à altura de seus problemas. Ora, se até grandes bancos e empresas brasileiras já foram vendidos ou estão sendo pressionados a fazê-lo, o que acontecerá com quem não faz parte dos círculos de poder que manipulam e tecem as teias dessa nova economia sem pátria e movida unicamente por interesses? O que dizer aos jovens que viram suas famílias trabalhar anos e anos e, de repente, veem tudo indo para o espaço pela falta de crédito, pela incapacidade de oferecer preços competitivos em face da concorrência desleal ou pela substituição de hábitos de consumo que alijam seus produtos ou serviços? Esse retrato pungente e assustador me faz lembrar uma frase do escritor russo Leon Tolstoi, bem no princípio do século XX: "O homem só pode melhorar uma coisa, a única que está em seu poder: ele próprio. Mas, para melhorar a si mesmo, é necessário que cada um reconheça que não é bom; e isto é a última coisa que o homem admite e quer". Pois esta é a hora de admitir que não somos bons e temos de melhorar, crescer como gente e, paralelamente a isso, espantar a nossa ignorância e tratar de aperfeiçoar os nossos níveis de informação e conhecimento, sob pena de nos vermos absolutamente engolfados nesse turbilhão que não tem tempo previsto de parar. É prudente ter medo, é lógico ter receios, mas é preciso que cada pessoa ou empresa não sucumba às primeiras águas. É hora de aprender a nadar contra a correnteza, repetir o fenômeno da piracema a descobrir as nascentes dos novos rios que nunca pararão de correr, até porque não se passa duas vezes pelo mesmo rio, segundo Heráclito. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2000. - [CASADO E SEPARADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/casado-e-separado/): Fiquem tranquilos. Vocês não conhecem. É gente distante. Pessoas amigas gastam seus e-mails para me falar da incoerência de estarem casadas e viverem separadas. Paradoxal? Não. Absolutamente verdadeiro. Eu sempre tento responder o que me perguntam, mas não tenho certeza de colaborar. Às vezes, posso até atrapalhar. Correndo esse risco, sempre é bom discutir as razões, mesmo me faltando à ferramenta terapêutica para apontar soluções. Afinal, como dizem os profissionais que vivem de cuidar das almas e das mentes dos outros, as soluções estão dentro de nós. O difícil é manter um casal pensando como “nós”. Acredito que os casais não podem procurar respostas isoladas para seus problemas. É preciso admitir, para começo de conversa, que os dois devem voltar a conversar, sem medo de estar invadindo o espaço do outro. Pelo contrário, o respeito ao espaço do outro pode dar origem ao distanciamento, um dos alavancadores da solidão entre casais. É claro que cada um deve, nestes tempos bicudos, procurar viver a sua vida. Isso não invalida que se comuniquem, falem de suas alegrais, fraquezas, desejos e sonhos. Briguem, até. Os olhos podem até demonstrar começar com raiva e terminar com ternura, brilhar ao ver o outro. Sem brilho no olho não há amor e é preciso usar um colírio para manter e lubrificar o olho atento: o toque físico, o erotismo, o companheirismo e a ternura. Ainda não somos virtuais, somos gente de carne e osso, com odores precisando ser sentidos, corpos necessitando de afagos e ouvidos desejando não a censura, mas o papo descontraído, as pernas cruzadas, a cumplicidade e aquela arenga puxando o lençol podendo acabar em um simples abraço ou algo mais quente. As estatísticas, sempre elas, demonstram o óbvio. Casais jovens se tocam mais, chegam a perto de 40 toques mútuos por dia. Os casais mais velhos se preocupam em tocar a vida, o controle remoto, órgãos eletrônicos e, passando a discípulos de Onã, descobrirem o seu próprio corpo. Está errado. A saída pode estar em andarem mais juntos, descobrirem que não são tão chatos quanto imaginam e não usarem somente as suas reservas de boa convivência na presença de estranhos. Sejam menos exigentes com o outro. Afinal, todos temos os nossos defeitos e, defeito repetido, vira mania e mania incomoda o outro. O homem vai, pouco a pouco, perdendo a sua capacidade de conquistar ou manter a conquista da própria mulher. É a acomodação que deve ser rompida pela mulher com os seus enlevos, coragem e iniciativa. Não estou falando só dos casais que possam eventualmente ter uma aventura extra, mas do que perderam o apetite pelo outro pela falta de diálogo, pela ignorância de admitir que só o outro é que envelhece e se afasta para um mundo seu, quase autista. É preciso diálogo e deixar a conversa superficial de filhos, trabalho e dinheiro, para o que sinto, o que me falta, onde você poderia me ajudar etc. É indispensável deixar brotar os sentimentos, adivinhar pensamentos e assassinar a rotina. Saiam só, sem amigos e conversem sem medo, sem acusações, recriminações e fantasiem o erotismo que, por certo ainda existe e tornem-no prático, sempre. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/01/2000. - [PARI](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pari/): A gestação foi longa. Anos. Décadas. Lembro: o "primeiro livro" escrito por mim aos 14 anos. Era um "romance" bobo feito à mão em um caderno "Avante" em que um adolescente se apaixona, nas férias, por uma menina faceira e arisca. E por ai ia. O fato é que, um belo (ou nefasto) dia, o caderno caiu numa piscina, o romancista e o romance se afogaram. Depois, como todo mundo, fiz versos que estão mofados nas gavetas. Já universitário, passei a escrever em jornal com coluna diária assinada. A primeira fase foi sobre "informes acadêmicos" em que narrava o acontecido na vida universitária. Posteriormente, escrevi durante anos sobre "administração e negócios" e fui correspondente de uma revista semanal de economia. Tive até a audácia de, por breves tempos, coproduzir com o Hélio Mota um programa semanal de TV, "Fortaleza, preto e branco", em que a cidade era passada a limpo, sem apelações. Na universidade fiz trabalhos, monografias e teses, mas a vida me jogou em outros rumos e, já como planejador, dirigi a elaboração de muitos planos e projetos. Tinha de escrever, é claro, mas não era a escrita solta, descomprometida do escrevinhador que ama o papel em branco para colocar o que sente, sem peias. Um dia, faz muito tempo, me permiti voltar a escrever em jornal e o fazia de forma esporádica. Ora um jornal, ora outro. De repente, me fixei nesta página dois do DN e cá estou eu espremido pelo editor Bilas há mais de trezentos domingos. Toda essa lenga-lenga é para dizer aos meus parcos leitores que reuni no ano passado, em livro, algumas das crônicas aqui publicadas. Procurei as que fossem mais leves. Pedi a Saulo Neiva, Professor Doutor de Literatura Brasileira, hoje docente da Université Blaise-Pascal, na França, que lesse o "boneco do livro" e, se gostasse, fizesse o prefácio. Ele fez o prefácio. E o livro foi parido com o prosaico título de "Sobre a vida e o amor". O livro é como o título, simples, raso e tenta apenas mostrar uma face minha pouco visível. Como disse Guimarães Rosa, em Tutaméia: "o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber". Não fiz noite de autógrafos, por achar que há uma saturação indevida desse evento. Preferi presentear a alguns amigos e livrarias o estão vendendo. Finalmente, foi Machado de Assis, no livro Dom Casmurro (XCII), quem falou: "O resto deste capítulo é só para dizer que, se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar, não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta". João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2000. - [O BRAZUCA E O ANO NOVO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-brazuca-e-o-ano-novo/): Há muita informação no mundo e as notícias – ou fofocas – correm céleres. Quando não saem nas televisões e jornais locais ou nacionais, os de fora mostram sem dó, nem piedade. Acho que foi por tal razão que, de repente, um brazuca me liga e pergunta se não soube da história do FHC no Forte de Copacabana, no Posto Seis no Rio de Janeiro. Segundo ele, auto banido do Brasil, a festa a que o nosso presidente compareceu parecia um” baile da Ilha Fiscal” com tendas, champanha francesa, uísque escocês, vinhos de várias origens, acepipes e iguarias de todas as espécies. Havia castas: 100 muitos amigos, 200 menos amigos e 200 militares, em espaços separados. Pois não foi que o vento moleque de Copacabana resolveu acabar com a festa, derrubar tendas, apagar a luz e colocar em alerta os seguranças que fizeram o que sabem: dar pancada em fotógrafos e jornalistas. A grande imprensa não deu detalhes, mas não teve como esconder tudo. A coisa esteve feia e o nosso presidente viu o ano nascer no escuro, cercado por seguranças, sem telefone funcionando (o que é paradoxal) e ouvindo a truculência a poucos metros. E o que é pior é que tudo era pago pela Embratel, uma empresa nossa que virou transnacional. Nos Estados Unidos seria caso de cadeia, bradava ele. E desligou a ligação. Sei que o nosso brazuca, ou brasileiro desterrado, pode ter complexos, arengas pessoais ou exagerado, mas já é tempo dos que são empregados por nós para dirigir a coisa pública, por tempo determinado, começarem a pensar e agir de outra forma. Afinal, empregado tem que prestar contas do que faz, sob pena de perder o emprego. Neste ano dos três zeros é tempo de reflexão para que, nas próximas eleições, os zeros passem a ser nota. Os brasileiros já estão recuperando a sua memória e, por certo, saberão exercitá-la no próximo pleito municipal e, em 2002, escolherão deputados, senadores, governadores e um presidente que tenham compromissos com os novos tempos que estão surgindo e uma postura pública mais coerente com a nossa realidade. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2000. - [HORA DE AGRADECER](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/hora-de-agradecer/): Agora que os anos começados com o numeral um (1900 a 1999) acabaram, não tripudie sobre eles. Eles foram extremamente importantes para toda a humanidade. Escrevemos em computador com internet ligada e fax, usamos ar condicionado, telefone disponível, circuito de segurança ligado, fechaduras eletrônicas, geladeira, freezer, fogão à gás com acendedor elétrico, micro-ondas, televisão, vídeo cassete, aparelhos de som com CD e carro na garagem. Todas essas coisas fazem parte da vida de muita gente. Nada disso existia no ano 1900.Agradeça. Varamos céus em aviões de carreira por todos os continentes e isso não poderia acontecer em 1900. Usamos sais minerais e vitaminas de A a Z, e eles foram criados neste século. Não temos medo de varíola, febre amarela, poliomielite, sífilis, tuberculose e outras doenças. A Azt deu um freio na praga da Aids. No século passado as pessoas morriam com 40 anos, em média. Hoje, aos 40 anos, as pessoas estão absolutamente jovens. As cirurgias são feitas com a ajuda de computador e laser, a anestesia não deixa ninguém sentir dor e quase ninguém mais morre. No século passado, apenas 5% dos operados escapavam. A radioterapia e a quimioterapia são sucesso na cura de vários tipos de moléstias. Há muitos transplantes sendo feitos com êxito e não é raro alguém enxergar com a córnea do outro, um rim novo doado, coração de um morto e muita coisa mais. A angioplastia evitou milhares de mortes de doentes cardíacos que não precisaram ser operados. Um simples cateter desobstruindo. Os corações descompassados usam marcapassos. Agradeça. Os hospitais psiquiátricos estão acabando graças a novas drogas, o valium ajudou a muita gente, a aspirina aplacou dores, o prozac deu alegria a pessoas tristes e o viagra recuperou a autoestima de muitos homens. Agradeça. As mulheres estão firmes no mercado de trabalho, só tem filhos quando desejam, não precisam usar o sobrenome do marido, a maioria sabe o que é orgasmo, participam de parlamentos, ministérios, organismos internacionais e vão ganhar ainda mais espaço, pois são capazes e têm sensibilidade. Muitos casais que não podiam conceber filhos usam a fertilização artificial. Agradeça. É claro que ainda existe guerra, desrespeito ao meio ambiente, miséria, fome, corrupção, desemprego e fanatismo religioso, mas éramos menos dec2 bilhões em 1900 e hoje somos seis bilhões. É muita gente para morar, alimentar, vestir, educar e trabalhar. Isso é tarefa que cabe a quem recebeu tudo o que falei acima. Todos nós somos devedores. É preciso que cada um faça a sua parte. Não espere por governo e nem por milagre. Você é o santo, use as suas forças, qualquer que seja seu tamanho ou intensidade. É tempo de agradecer a Thomas Edison, Henry Ford, Marie Curie, Albert Einstein, Santos Dumont, Paul Ehrlich, Alexander Fleming, Sigmund Freud, Jacques Costeau, JoãoXXIII, Churchill, Charles Chaplin, Yuri Gagarin, Igor Stravinski, John Kennedy, Shere Hite, Gorbachev, Nelson Mandela e, principalmente, a seus descendentes que lutaram para você estar aqui participando desta glória que é estar vivo. Agradeça, por fim, a Deus. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/01/2000. - [DOIS PRÁ LÁ, DOIS PRÁ CÁ](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dois-pra-la-dois-pra-ca/): Não, não é a música de João Bosco e Aldir Blanc maravilhosamente cantada por Elis Regina. São os números 2002. Não entendo – e nem quero aprender – nada de numerologia, mas acho esses números equilibrados, bonitos de olhar e escrever. O 2 da esquerda pode ser eu e você. Os dois zeros parecem dizer nada. O 2 da direita pode ser o balanceamento da equação do bem viver entre nós (o 2 da esquerda) com o outro 2, eles. Pode ser que este novo ano que está chegando depois de amanhã venha com mais equilíbrio. A soma dos números é quatro, quantidade ideal para uma mesa de conversação, troca de ideias, resolver diferenças, assumir culpas, perdoar e ajudar. Quatro também é um bom número para viajar de carro por este mundo afora. A energia gerada e trocada serve de fermento a entendimentos multipessoais, dois a dois, como se estivéssemos despreocupadamente jogando biriba com os pés descalços, a roupa folgada e o coração aberto às brincadeiras, sem deixar de prestar atenção ao jogo, o sentido figurado da própria vida. 2002 assemelha-se a um par de cisnes, patos silvestres ou garças alçando voo em formação. Vai ser fácil de escrever em cartas, cartões, bilhetes e cheques. Pode ser bobagem o que estou escrevendo, mas levar a vida e os seus números muito a sério não deixa também de ser uma bobagem. Afinal, estamos aqui de graça e por tal razão devemos agradecer a Deus chegarmos a este novo ano, que não tem nenhum 1, número que imperou quantitativa e soberanamente durante o século passado, ainda tão perto, mas já tão longe, parafraseando Richard Bach. Quem sabe se o século passado não tenha sido o do individualismo, justo por causa de tanto um, repetidos ano a ano. Alguém poderá me dizer: mas este ano de 2001 já é do novo século e a humanidade sofreu tanto com ele. Não terei dúvida em responder: talvez tenha sido porque o 1 ainda era o rescaldo do individualismo do século passado. Agora só teremos um 1 em 2010 e ele, certamente ficará imprensado entre os dois zeros, sem poder dar vez ao egoísmo individualista. Fim de ano é para isso. Conversar miolo de pote, comer muito, inventar história como esta e desejar a todos vocês, os que conheço e os não, votos de um 2002 em que eu, você e eles – os outros - vivamos em paz, com saúde, alegria e amor. Feliz Ano Novo. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2001. - [CURTINDO O NATAL?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/curtindo-o-natal/): Ainda não arrastei asa para as festas de Natal. Ando meio cabreiro, arredio a muitas dessas comemorações que enchem os estômagos, mas deixam a mente vazia. Vejo as confraternizações como uma coisa boa, mas a palavra “frater” que dizer irmão, vá onde estão os seus irmãos, seja os de sangue ou os de coração, mas não exagere em demonstrações de sentimentos que não nutre. Há tanta gente se abraçando, mas se tivéssemos um medidor de afeto, um “afetômetro”, talvez as pessoas fossem mais cuidadosas com as demonstrações não avalizadas por sentimentos. Fingir faz criar rugas, provoca halitose, altera a pressão, causa enxaqueca e aumenta os radicais livres, dizem os naturebas. É claro que não se deve ser ranzinza, muito menos agora. Mas sem essa de falar o que não sente para pessoas que não tem nada a ver com você. Seja cordial, como sabe ser o brasileiro. Mas não fique meloso, derramado, se o seu coração pede recato. Bons modos e educação são uma coisa, babação é outra. Guarde-se para quem realmente gosta, os que conhecem você, sabem de seus defeitos, carências, limitações, mas o aceitam sem reservas o ano todo. Para esses vale tudo: cartões feitos à mão, aquele CD, um livro legal que saiu ou uma lembrancinha que mostre a sua atenção. Escolha o que realmente imagina possa interessá-lo. Se ele faz coleção de tampa de cervejas, por exemplo, vá atrás das raras. Se ela só aceita roupa íntima de uma marca especial, procure. Mas, se ela quiser apenas o seu amor ou a sua amizade, melhor ainda, sobrará para comemorarem juntos em um self-service, na festa da família, na igreja, na churrascaria, dividindo um frango, ou no requintado restaurante que você passa o ano todo planejando levá-la e não teve coragem. A hora é essa. Pelo amor de Deus, não beba em demasia para não virar aquela pessoa chata que muito fala, nada diz, nos enche de perdigotos e amassa a nossa roupa. Pode até beber, ficar alegre, mas sem essa de perder a classe, de “dizer aquelas verdades” que ninguém está disposto a ouvir, muito menos agora. Não conte mais piadas do Bush ou do Bin Laden. Não fale em economia, política, CPI, FHC, dinheiro, não xingue no trânsito. Isso já encheu o ano todo. Tenha imaginação, seja “light” como diz a turma jovem e fique “maneiro”, sem querer resolver os problemas do mundo. Acredite que esta época é mágica para as crianças e renove as suas próprias esperanças. Quando as festas terminarem, aí sim é hora de você cuidar de manter o emprego, não deixar que a empresa vá para o brejo, fazer regime, pagar as contas, mas, por enquanto, é jogar conversa fora ao lado dos que você realmente gosta e, tenho certeza, há pessoas que o adoram, seja você quem for ou onde estiver. Pense em um Natal feliz. Pensou? Então curta, a vida é breve. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/12/2001. - [OS SERMÕES DO TELLES](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-sermoes-do-telles/): Acabo de ler “Sermões de Pradaria”, poemas de José Telles, doído homem maduro, acostumado, por ofício, a abolir a dor alheia. Telles, médico e poeta, é, provavelmente, maior do que ele imagina ser como ente literário. Não sou de louvações. Dizem, até, que minha essência natural também se faz presente na parcimônia de elogios. Quem sabe. Não gozo da intimidade de Teles. Trafegamos apenas entre copos, gente amostrada e trêfega de emoções em tardes volúveis e incertas de sábados. Como se aqueles momentos pudessem dar o perfil de cada um. Doce e falsa ilusão. Telles revela ter amizades placentares e isso deve ser bebido em virtuais taças amnióticas. É preciso sempre ter cuidado com os cordões umbilicais que transcendem as placentas. Cortar é, paradoxalmente, muitas vezes, atar e dar nova vida à vida. O poeta escancara louvor a algumas mulheres – maravilhosas, segundo ele – com a admiração do pôr do sol. Se fosse psicanalista diria que Bitupitá, onde Telles nasceu, fica do lado onde o sol se põe e essas mulheres são, talvez, mulheres de não-bitupitá ou a negação inconsciente do regaço primal. Sei lá. Quem sabe, as mulheres de Bitupitá não são, em sua singeleza, maravilhas verdadeiras? Conheceram o Telles desnudo, sem sobretudo e cachecol, e o aceitam assim. Creio que a poesia de Teles o autoriza também como anestesiologista, pois fornece o substrato humanista tão importante no trato com a alma do paciente. Mário Quintana, já maduro, disse algo muito profundo: “cada verso é uma pergunta do poeta”. Telles é, portanto, um homem de muitas perguntas, profundas, nada cutâneas. “No meio dos meus amigos, ninguém percebe que meu sorriso é alheio”. Discordo. Os verdadeiros amigos, dito placentares, sim, sabem dos nossos choros antes das lágrimas. Dividem as alegrias e desenganos, conhecem nossa alma. Jacques Derrida sentencia cruelmente: “quando os amigos se multiplicam, a amizade desaparece”. Fico no meio termo, entre a placenta e Derrida. “Ah! Esse pedaço de tarde sem mistério é dono da minha angústia e sócio dessas lágrimas e o meu raciocínio é a face trágica da espera”. Lindo, mas o poeta imagina ser o único condômino da dor. Alguns, pensam até ser o síndico da angústia e das lágrimas. O poeta vê a dor sem o recurso anestésico dos comuns. E os comuns veem os poetas como a propagação desmesurada da aflição instantânea e deveras passageira. “Em compensação, meu corpo dorme e cansa quando começa a dança louca dos meus sonhos”. É isso aí. Na idade do pôr do sol, o cansaço já não é mais um adicto, é companhia impregnada, servindo para estabelecer modos aos nossos loucos sonhos e tornar-nos aptos ao real. “E num galope aberto canso meus momentos a caminho das estrelas. Viajo nas caravelas do medo ou nas fúrias das marés, dentro dos quartos de luas e dos segredos do mundo”. Poderia ter sido escrito por um poeta consagrado. E cá fico eu, espião amador da arte alheia, deixando apenas o pulsar da emoção compartilhada, cúmplice sentido. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/12/2001. - [A MORTE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-morte/): Leio - e me aproprio de citações - um ensaio feito sobre a morte, por Janaina Fidalgo (caderno “Equilíbrio”, da Folha de São Paulo). Lembro que uma pessoa amiga dizia ser eu chegado a um enterro. Mera gozação ou erro de perspectiva. Não tenho prazer algum em ir a enterro, muito pelo contrário. Mas, se alguma pessoa ligada a mim morre, acho um dever ir ao enterro. Não sou de fingir sentimentos, dar aqueles abraços, mas compareço e me comporto com atenção e respeito. Ao longo da vida, quer queiramos ou não, sentimos a morte rondar por perto. Ora é um parente próximo, um amigo querido ou uma pessoa notória que a mídia se encarrega de enfocar, com detalhes sobre sua vida e morte. No fundo, parece que ficamos felizes por continuarmos vivos quando alguém morre. Não estamos falando em tempo de catástrofes e guerras, quando a banalização da morte mostra a iniquidade dos homens. Falamos da morte no varejo, uma a uma, e aos fins de semana, por conta dos sinistros ocorridos no atacado com acidentes e choques de veículos, pegas de jovens e crimes. Se ninguém próximo é atingido, apenas passamos os olhos pelo jornal ou, bocejando, vemos a notícia na televisão. É assim que o mundo gira, a indiferença está arraigada em nossa civilização hedonista e egoísta. E isso é, talvez, o que nos mantém vivos e relativamente saudáveis. Já Albert Camus, escritor francês, dizia que “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”. Falava assim para lembrar a nossa condição de mortal, pois queremos esconder a morte, escamoteá-la do nosso viver. Segundo o antropólogo Acácio Almeida Santos, a propagação de funerárias, onde os velórios são realizados, são recursos “de afastamento, ao colocar a morte para fora de casa.... para fingir que ela não existe.” Se um parente de alguém morre em um hospital ou em um desastre, e o seu corpo é velado fora de casa, a família fica aliviada mais rápida, pois finge ou disfarça a realidade. A psicóloga Maria Helena Pereira Franco advoga a ideia de que, em nosso dia a dia, as perdas ( relações cortadas, desemprego, não passar em concurso etc) deveriam ser entendidas como uma forma de preparação, pois “trabalhar com essa experiência negativa, que causa dor, traz crescimento e é uma maneira de entender o cotidiano, de tocar a vida e avaliar o que é e como enfrentar a morte”. Gláucia Rezende Tavares, fundadora do grupo “Apoio a Perdas Irreparáveis”, mostra, sem paranóia ou morbidez, como devemos conviver com a inexorabilidade de morrer. Para ela: “O melhor preparo para a morte é viver bem a vida. É como calibrar o farol do carro. Curto para não cair nos buracos e longo para ver as curvas. Lide com a vida no dia-a-dia, mas saiba que existe essa projeção (a morte) para o futuro”. Por outro lado, Ariano Suassuna, do alto dos seus 74 anos, diz – e eu ouvi – que não vai morrer e tem mais é que se preocupar em viver. E você? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2001 - [LIÇÕES NÃO APRENDIDAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/licoes-nao-aprendidas/): No dia 14 de agosto deste ano, menos de 30 dias antes dos atentados aos Estados Unidos, o diplomata Sérgio Danese, autor do livro “Diplomacia Presidencial”, publicou, no Jornal “O Estado de São Paulo”, o artigo “As lições dos 13 dias de outubro”, baseado no filme americano “Treze Dias”, dirigido e estrelado por Kevin Costner. O filme conta a crise dos mísseis entre os Estados Unidos e Cuba em 1962. Danese faz referência especial às lições que poderiam ter sido tiradas dessa crise, ocorrida no Governo John Kennedy, entre os dias 16 a 28 de outubro de 1962. Embora seja a ótica americana da crise, há um aspecto didático para reflexão dos governos que sucederam a Kennedy. Ninguém refletiu. Que lições seriam essas?: 1) Confie, mas verifique; 2) quem decide deve ouvir opiniões conflitantes; 3) nunca negocie por medo, mas nunca tenha medo de negociar; 4) em muitas ocasiões em que tudo parece exigir pressa, vale a frase de Taleyrand: “é urgente esperar”; 5) quando estiver negociando, estabeleça quais os seus objetivos reais e não procure ganhos adicionais; 6) calce sempre os sapatos do seu adversário para saber como ele observa você; 7) nunca acue um adversário e sempre dê oportunidade dele salvar sua pele; 8) as decisões têm que ser legítimas e não amparadas pela força ou artifício político; 9) as recomendações para usar a força têm que pesar as suas consequências e implicações futuras; 10) a ameaça de uso da força nunca pode ser um blefe ou retórica; 11) “nenhuma ação se toma contra um adversário poderoso no vácuo”, já dizia Bob Kennedy; 12)não tente comprometer publicamente o seu adversário, nem negociar com ele pela mídia, sem antes convencê-lo privadamente; 13) “há vitórias que não se comemoram (Rio Branco).” Essas lições, por nós adaptadas e ora repassadas, servem para todos nós, governados e governantes. Provavelmente, os atuais governantes não têm tempo para ver filmes. Não seria perda de tempo se vissem filmes, ouvissem músicas, lessem livros, conversassem com gente comum e não se restringissem às cerimônias previamente organizadas e ao que ouvem de seus áulicos e assessores. A distância do mundo real torna-os insensíveis. Este século – ou década? - parece que veio para nos mostrar isso. Embora fora do contexto, é bom lembrar a alienação de Maria Antonieta ao ser informada em Versailles - na eclosão da Revolução Francesa – de que faltava pão para o povo. Na sua ignorância, que lhe valeu a cabeça na guilhotina, disse: por quê não servem brioches? Quantas marias antonietas teremos hoje? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/11/2001. - [BARBAS DE MOLHO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/barbas-de-molho/): Uma boa parte da minha vida gastei andando pelo mundo. Já vi fausto e miséria. No primeiro, segundo, terceiro e quarto mundos, pois sociólogos e afins têm manias de qualificar e classificar pessoas, países, religiões, comportamentos etc. Já escrevi – e publiquei – sobre os desatinos da humanidade e quem quiser é só reler o que disse muitas vezes. São centenas de artigos. Falo de pessoas, de lugares, do que me alegra e aflige no mundo. Nada de muito profundo, pois para isso existem os filósofos. Mas, dizia que já vi muita coisa. Vou citar alguns exemplos: estive no Oriente Médio. Conclui e concluo, sem medo, que ninguém vai resolver a questão entre judeus e árabes com conversas de gabinete. É uma guerra cruenta, de áreas tão próximas como bairros de uma mesma cidade. Ao mesmo tempo, já há uma miscigenação entre árabes e judeus formando uma juventude atônita, filhos que são de uns e outros. A posição francamente favorável dos Estados Unidos a Israel é tão clara e visível que pode ter gerado ódios sem limites. Certos ou errados, os palestinos sentem-se violentados e clamam pó um Estado. Fui ao Extremo Oriente e sei que a divisão artificial entre a China e Twain não tem nada a ver com a sua cultura milenar. São irmãos, divididos apenas por ideologias e interesses estranhos. Alguém precisa fazer algo para unir ideias, famílias e sentimentos, isto sem falar no Vietnã, Laos e Cambodja. São mais de um bilhão de pessoas e nós, do lado de cá, fazendo piadas sobre os dois pauzinhos. Tenho falado da fome da África, da miséria que ali transforma crianças esquálidas em futuras estatísticas de mortalidade infantil, das doenças endêmicas, da Aids que ataca a quase todos indiscriminadamente e da corrupção de governantes que são manipulados por multinacionais ou pelos países líderes. A tudo vemos com indiferença nos telejornais, nas revistas e jornais que vemos, ouvimos e lemos todos os dias, enquanto fazemos regimes para não engordar. O que separa a África da Europa é apenas o estreito de Gibraltar. A Europa, desde a da década de 50, vem sendo invadida por imigrantes em busca da sobrevivência. São tratados, até hoje, como pessoas de segunda e terceira classes, alimentando ódios imensos. Um exemplo: a Alemanha só reconhece como alemão alguém que tenha, pelo menos, pai ou mãe alemã. Milhares de turcos nascidos na Alemanha são estrangeiros no próprio país onde nasceram. Deixei as américas para o final. Há dois países muito ricos: Canadá e Estados Unidos. Alguns poucos remediados e o restante, muito pobres. A produção e exportação de cocaína, as guerrilhas, a prostituição e a imigração desenfreada para os Estados Unidos são frutos da indiferença e da gestão de alguns políticos despreparados, populistas, desonestos e respaldados. Ninguém deverá mais ignorar o pobre, quer more longe ou ao lado. Um dia ele poderá se rebelar. O fanatismo não é só decorrente de questões religiosas, mas, quem sabe, fruto do desespero de vozes que nunca foram ouvidas por uma elite surda. Querem um exemplo? leiam a página A23 do jornal Folha de São Paulo, do dia 18 de fevereiro deste ano, em que os países árabes condenam ação (bombardeio sobre Bagdá no dia 16.02.2001) dos EUA e do Reino Unido e prometem retaliar. Não acreditaram. Deu no que deu. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/10/2001. - [CARTA PARA BIN E BUSH](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/carta-para-bin-e-bush/): Pode ser uma ideia meio sem pé nem cabeça, mas foi a que me ocorreu no momento. Escrever uma só carta para vocês dois. Vai pela imprensa, pois de um nem o endereço eu sei, aliás, tem muita gente querendo saber para ganhar 25 milhões de dólares. Do outro, embora saiba do endereço, creio que não lhe chegaria às mãos. Vocês nasceram ricos, de pais importantes, mas falam em nome do povo e não se conhecem. Sei da inimizade violenta surgida e da argumentação de cada um. Foram, cada a um a seu modo e tempo, ficando intransigentes desde a consumação dos atos insanos, irresponsáveis e abomináveis do dia 11 de setembro passado. Ouvi, há poucos dias, um ministro do Afeganistão dizer que não há provas contra você, Bin Laden. Ora, se você não é culpado, defenda-se. Use a ONU e a imprensa internacional como escudos. Mostre as suas razões. Se você é um homem de fé, não há porque se esconder. Allah, seu único Deus, certamente, o protegerá. Marque uma entrevista exclusiva com algum jornalista internacional famoso ou desafie o Bush para um debate. Apareça e diga que os árabes, palestinos ou afins, passageiros dos aviões causadores dos sinistros, não eram seus seguidores. Prove isso. Diga também que os palestinos mortos no World Trade Center não faziam parte do seu grupo, o que será fácil. Ouça o que Bush tem a dizer. Não precisa ser cara a cara. A mídia eletrônica pode produzir milagres em uma teleconferência, mesmo com a distância real e ideológica entre vocês. Eclodirá um grande mediador e as grandes de TV pagarão milhões de dólares que poderão ser destinados aos pobres. Haverá tradução simultânea e a humanidade poderá ouvir verdades, versões ou fatos. Certamente, caro Presidente Bush, o senhor dirá, novamente, que não tem nada contra os palestinos. Transforme isso em atitudes, “permitindo” o surgimento do Estado Palestino. Faça mais, ouça o que o Bin tem a dizer. Depois, tome a atitude correta. As famílias dos 6.500 mortos têm o direito de saber os nomes dos articuladores de tão hedionda tragédia. Os criminosos devem ser punidos, está na Bíblia e no Alcorão. Seria bom que vocês dessem uma lida em algumas de suas passagens. Sugiro que o Bin dê uma olhada na Bíblia e o Bush no Alcorão. Deem uma chance à paz, não custar tentar. Parem de pensar só em guerra. Tem gente interessada nos negócios decorrentes de uma guerra, usam a honra como pretexto. Os bilhões de dólares poderiam ou poderão servir para acabar com a fome endêmica na África, acelerar pesquisas sobre doenças, hoje incuráveis, e gerar emprego e renda em todo o mundo, inclusive no Afeganistão. Insensatez tem limite. Um novo dia 11 vem por aí e será bom que não seja o grande dia da vingança. Transformem esse próximo 11 no dia da verdadeira justiça, mas identificando, julgando e condenando os culpados. Só os culpados, ouviram? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/10/2001. - [O DESENHO DA LUANA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-desenho-da-luana/): Luana tem quatro anos. É uma menina muito inteligente, um pouco tímida e observadora. No dia do ato terrorista nos Estados Unidos ela viu alguns noticiários de televisão. Foi para o quarto, apanhou um papel, lápis coloridos e desenhou uma grande torre. Cada espaço ou andar era representado por uma cor diferente. Colidindo com a torre pintou um simulacro de avião bojudo. Lá no pé da página vagões coloridos formavam um trem. Sua mãe pediu que ela assinasse o desenho. Ela recusou. Outros tentaram, sem êxito. Pode ter sido a tal da timidez, mas, por outro lado, talvez ela quisesse dizer que não legitimava o que vira e registrara, agregada à sua imaginação, no papel. É provável que o trem seja o comboio em que todos estamos metidos sem saber qual o destino. Este fato me veio à mente, após ter conversado com alguns amigos que estão apreensivos com perguntas de filhos e netos. As perguntas mais repetidas: O que é uma guerra? Vai haver guerra? Guerra contra quem? Os brasileiros vivos, na sua maioria, não sabem o que é uma guerra. A última participação brasileira em guerras foi de 1944 a1945, anos finais da Segunda Guerra Mundial. De lá para cá, salvo o episódio da guerrilha do Araguaia, as nossas armas estão virgens de guerras, embora quentes de assaltos, sequestros, assassinatos e afins. Como explicar, então, o que não entendemos. As guerras que conhecemos são as dos filmes americanos e as últimas, a partir da Guerra do Golfo, já televisionadas ao vivo. Somos, na verdade, expectadores passivos da brutalidade do mundo. Passivos em todos os sentidos: não participamos, tampouco nos indignamos, pois tiramos os olhos das atrocidades expostas nos jornais, revistas, televisão e fitamos a comida nas salas de refeições sem mudança de apetite. Estamos pasmos. Sem saber explicar nada e mais ainda por não termos a coragem de assumir que todos somos culpados. Não adianta apenas culpar uma etnia, país ou grupos de fanáticos. Eles são produtos da nossa indiferença. Da desigualdade que plantamos com a nossa ambição desmedida, em busca de status que não leva a nada, da morte da comiseração e do amor ao próximo. Somos, quase todos, centrados em nossos umbigos e não vemos um palmo adiante dos nossos narizes. O mundo tem mais de 6 bilhões de pessoas. Metade vive em miséria quase absoluta. A outra metade pouco se dá conta disso e nada faz para tornar o mundo menos injusto. Fome, doença, desemprego e desengano não são problemas dos outros. São mísseis que atingem ou atingirão os indiferentes. Cada um pode e talvez deva travar uma guerra íntima, sem testemunhas, a não ser a sua própria consciência, para descobrir o quanto estamos perdidos e errados. Antes de fazermos acertos de conta com os nossos algozes, temos que apascentar as nossas consciências, perdidas que estão pela ausência de valores essenciais. Nessa hora, quem sabe, o trem de nossas vidas possa ter um bom destino. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/09/2001. - [A GÊNESE DO CAOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-genese-do-caos/): Se eu pudesse puxar o leitor através do tempo, bem que o puxaria de volta ao princípio dos anos 60 e mostraria a exuberância dos Estados Unidos e de seu jovem Presidente John Kennedy. Veríamos, em seguida, sua morte inexplicada até hoje, a do seu irmão Robert, a do suposto matador Lee Oswald e a do matador do suposto matador, Jack Rubin. O tempo voou, passamos o ano de 1984, emblemático pelo conteúdo catastrófico do livro homônimo de George Orwell. Os computadores saíram de sua pré-história para as loucuras visionárias de Artur Eduardo Benevides, um poeta que, sem saber, estava se transformando no cavaleiro do Apocalipse cibernético ao escrever o conto futurista “A revolta do computador”. Hoje, alguém bem-dotado de inteligência, pode furar o bloqueio de sistemas de defesas de instituições financeiras, países, organismos internacionais, empresas e fazer misérias com a humanidade. Para que isso não acontecesse precisaria que, do outro lado, existissem pessoas igualmente inteligentes, com elevado senso de justiça e humanitarismo, tivessem o poder de estabelecer limites barrando as pretensões de países e grupos econômicos que já não sabem mais fazer distinção entre 100 ou 200 bilhões de dólares. São meros números que retratam o poder, nada mais que isso, pois desprovidos de significado maior por não gerarem empregos, mitigarem a fome, eliminarem doenças e tampouco diminuírem as desigualdades tão vis do mundo. Parece que os quocientes de inteligência dos líderes da humanidade são, na verdade, menores que dos “hackers” e dos terroristas, desafiadores da ordem estabelecida, sem compromissos de ordem ética ou pretensões de justiça. Agem por desatino ou mera vingança. O que aconteceu ontem nos Estados Unidos ainda não pode ser entendido em toda sua profundidade. Forçoso é, entretanto, associar essa loucura inominável ao desespero de minorias que não acreditam mais em saídas para a humanidade. A conferência de Durban, na África do Sul, que pretendia ser um libelo contra o racismo e a discriminação passada e atual, foi esvaziada pelo poder dos mais fortes que tudo querem e nada dão em troca. A hegemonia dos Estados Unidos pode ter gerado em países ou etnias de índole terrorista o estopim desses atos tão brutais quanto insanos. É muito cedo para saber os desdobramentos de tão graves acontecimentos, mas ainda não é tarde para revermos os valores da sociedade, especialmente de suas elites dirigentes, encasteladas em um mundo em que as pessoas são meros eleitores, consumidores ou excluídos, esquecendo-se que os ressentimentos e as humilhações sofridas podem ter fomentado essa malta de terroristas que hoje, graças à evolução da informática, quebra sistema de defesas e provoca o caos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/2001. - [INDÍCIOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/indicios/): Neste país em que muitos estão desanimados pela crise estrutural, corrupção, falta de perspectivas profissionais ou existenciais, criou-se um clima de denuncismo, fofocas, suposições, indícios, aliados, ainda bem, a uma ação firme e decidida do Ministério Público. Paralelo a isso surgiu o jornalismo investigativo a mostrar fatos, mas que não deve pré-julgamentos. Cada leitor ou ouvinte fará sua própria leitura. Há transformações e ganhos sociais, pois os poderosos estão sentindo, afinal, que são pessoas semelhantes às outras, sujeitas a responder por seus delitos. Pode ser o começo do fim da impunidade. É preciso entender, entretanto, que não bastam notícias em um canal de televisão ou em página política, social ou policial para condenar uma pessoa. Faz parte de uma leitura correta dos direitos humanos a ampla defesa a todos. O direito moderno contempla o acusado, posteriormente absolvido, até com a possibilidade de, em alguns casos, arguir reparação por danos morais causados à sua pessoa, contra quem, levianamente, o tenha incriminado. Todos precisam saber do óbvio, quem julga é a justiça. É elementar saber disso. A sociedade pode pressionar, mas a ela não cabe julgar. Nós todos somos, algumas vezes, levianos na análise de casos ou de pessoas a quem não conhecemos de perto. Somos alimentados não por fatos, mas por conversas, suposições, interesses, emoções, invejas, fofocas ou indícios. Mas, a propósito, o que é mesmo indício? Nem tudo que parece, é. Poderia citar muitas frases parecidas com esta. Basta uma para dar o mote necessário ao exame do que seja indício. Quem passou por uma Faculdade de Direito tem a obrigação de saber o que significa a palavra indício. Ela vem do latim “indicium” e é um sinal, uma referência, um vestígio, uma indicação aparente e provável de que uma coisa ou um fato ou ato deve ser apurado. No Direito Penal, por exemplo, os indícios podem levar à elucidação de um crime. Não se deve esquecer que uma coisa aparente pode não ter essência ou sustentação que comprovem um fato, servindo apenas como detonador de uma investigação que careça de fundamentação. Às vezes, a emoção natural, pois humana, de quem possa vir a conduzir um inquérito na fase policial e precisa, por dever de ofício, dar satisfação à sociedade e ao ordenamento jurídico, prejudica ou compromete o futuro destino do processo aberto. O que deve ser provável, isto é, ter provas, é responsabilidade de quem acusa. É elementar, em direito, que “o ônus da prova é do acusador”. Há uma outra tese: ninguém pode ser considerado culpado até que a justiça assim o determine. O que distingue o trabalho do advogado dos outros profissionais é que ele precisa convencer um juiz singular ou um tribunal de que o seu cliente não é culpado ou inocente. Os outros profissionais, quase sempre, se consideram donos da verdade e não sofrem contestação. Por isso o direito é tão bonito, quanto complexo e mal compreendido. Qualquer estudante de direito aprende, desde cedo, que a riqueza do contraditório, ou seja, duas proposições necessariamente opostas, em que uma nega a outra, é que fornece ao juiz, além dos indícios e provas, os elementos para a sua sentença. Ao Estado, através da Justiça, como guardião da sociedade, cabe a indução e condução de todo o processo até o deslinde final. Um processo pode ser gerado só por indícios, mas nem todo processo leva à condenação. E, mesmo quando gera uma condenação, há casos, na história, de erros judiciais famosos que tiveram base apenas em indícios fortes e o tempo demonstrou isso. A pena de morte, por exemplo, foi abolida no Brasil por um desses casos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/09/2001. - [ENFIM, SEX](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/enfim-sex/): O título é “Enfim, sex” mesmo. Explico no final. Foi há muito tempo, no meio da Segunda Guerra que minha mãe resolveu mostrar minha cara ao mundo. Com a festa do meu primeiro aniversário pronta, sendo o primeiro filho, o primeiro neto, o Brasil resolveu complicar: justo no dia decretou guerra às potências do Eixo. Resumo da opereta: a festinha teve como música de fundo o noticiário de um rádio a válvula em que o Presidente Vargas dizia ao povo brasileiro que não deixaria Hitler tomar conta do mundo. Hitler não deve ter dormido e meu pai, no albor dos seus 21 anos, tremia de medo de ser escolhido “voluntário”. Terminada a guerra houve o famoso julgamento de Nuremberg, enquanto isso eu me perdi no centro da cidade, mas soube dizer o meu nome e onde morava. Prepararam outra festa para mim: a da Primeira Comunhão. Pois não é que a Seleção Brasileira resolveu perder o Campeonato Mundial de Futebol em pleno Maracanã, enquanto aprendia a dizer o ato de contrição e usava um terno de casimira azul com as calças curtas. Tive meus 15 minutos de glória ao conversar com muita gente importante por aí, mas sempre é bom lembrar a síndrome do cavalo de Napoleão. Quem ficou na história foi o francês e não o cavalo que o conduzia. Formei-me em pleno alvorecer da Revolução e casei à época do Ato Institucional nº 05. Daí para cá muita coisa aconteceu, o tempo passou ligeiro, mas não o suficiente para me levar muito a sério, do trabalho árduo e sem trégua. Se a vida nos é dada de graça, não há razão para siso. Rio quieto, com medo que pensem que sou doido. Vá lá que eu seja mais ou menos normal, pois acredito ter senso de integridade, fiz muita bobagem e, hoje, como o título de uma velha seção da revista “Seleções”, rio, pois rir é o melhor remédio, Chorei também, lágrimas divididas ou solitárias. . Tive e tenho problemas. Enfim, lágrimas lubrificam. As cicatrizes pensam as feridas, respiro fundo, o oxigênio brota, irrigo sonhos e faço sempre pactos com a esperança. Bati pernas, muitas vezes, pelo mundo afora, mas sou daqui e aceito críticas, paciência. Procuro ter consciência dos meus erros, purgo minhas culpas e, às vezes, a dor é grande. Tenho medos, mas nunca fugi da luta. Faço força para ser congruente, ponderando palavras e atitudes, o que não é fácil. Quando não dá para segurar, digo o que sinto. Sou amigo, sem efusividades. Não gosto de puxar saco e oba oba. Amei e amo, tenho laços e engodos, sou passado e presente, caminho meus passos arrevesados de canhoto em um mundo destro e, às vezes, tropeço, literalmente. Levanto a cabeça e sigo em frente, sempre consciente das minhas limitações, desimportância e finitude. Tenho bem lembrado um provérbio mexicano: “Pegue o que quiser, disse Deus, mas pague por isso”. Paguei e devo ainda, com a consciência do muito a agradecer. Mas falei que explicaria o sex. Uma amiga me disse certa vez: gastei muito para fazer plástica, ficar bonita e só encontrei sex. Eu disse que bom, você encontrou um homem sexy. Não, você não entendeu nada, ela respondeu, só encontro homem sex, sexagenário. Pois é, a contragosto meu e alegria, afinal, de amigos, alguns da onça, passo a fazer parte dessa categoria. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/08/2001. - [APRENDIZ DE PAI](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aprendiz-de-pai/): Fazemos exames para passar a cada ano no colégio, servir ao Exército, entrar na universidade, ter a carteira de motorista, arranjar emprego e tantos outros mais. Para fazer esses exames, nós nos preparamos, estudamos, perguntamos, pesquisamos. E ninguém faz nenhum tipo de curso ou exame para ser pai, uma das mais importantes funções ou tarefas de nossa vida. Mesmo que se leia alguns livros, somos totalmente despreparados ao iniciar nossa “carreira” de pai. De repente, se sai de uma maternidade com uma criaturinha nos braços enrolada em panos. Vamos procurando entender seus sinais e movimentos. Entre fraldas e cueiros faz xixi a toda hora, chora quando está com fome ou dor e não fala nada. O pai, esse ser periférico, fica desesperado e tenta conviver com o novo, sem saber direito como proceder. A mãe leva nove meses de vantagem, e são, ela e a criatura, naturalmente, íntimos. Pois bem, o pai vai errando e tentando aprender. Antigamente, existiam as avós, as tias, as velhas e fiéis agregadas das famílias para ajudar, mas a vida mudou e hoje instituiu-se a familiar nuclear e cada um cuida de si. Depois de muito leite, pediatra, vacinas, papinha, mingau e conversa ta-ti-bi-tate, a criaturinha passa a engatinhar e se meter nos locais mais esquisitos da casa. É um pulo para começar a andar. Com um jeito de bêbado em fim de festa, lá vem a criaturinha rindo até que bate a cabeça na mesa mais próxima. E correndo se vai ao médico que, para completar, nos chama de leigo ou, simplesmente pai, como se isso fosse sinônimo de ignorante. Afinal, chega o dia da primeira aula no maternal e lá se está a criaturinha com um aparato de farda, pasta, merendeira mais parecendo um escoteiro indo acampar. Há choro na despedida e se fica com o coração batendo acelerado. Vem a escola de verdade, a seguir, e tome acordar cedo para ajudar a criaturinha a se levantar, vestir a farda, não esquecer do dever de casa, dos livros, do dinheirinho para o lanche e dos pagamentos extras que a escola sempre cobra. A criatura cresceu, começa a ficar adulta, já tem uma turma de amigos, tranca-se no quarto, coloca o som nas alturas e não quer mais papo com o coroa do pai. Só fala por monossílabos e diz que o pai não entende nada. E é verdade. Então, chega – para quem ainda pode – o tempo de mandar a criatura fazer um desses programas de intercâmbio no exterior e o besteirol começa com as informações dos pais que já mandaram antes, o enxoval e a partida triunfal, rumo à fama e um álbum de fotografia. De repente, um cara que nunca vimos mais gordo, passa a ser “o pai americano” de nossa criatura. Ora, ora. Retorna da viagem, quase sempre, com uns quilinhos a mais, um inglês para demonstração aos amigos e novos cds com música de cantores pops. Vem o vestibular e a família se transforma. É um clima de guerra. Aulas a toda hora, livros espalhados, choros fora de hora, nervosismo, até que o jornal publica a relação e se a criatura foi aprovada, sobe à condição de herói familiar, digna de todas as atenções e recompensas. A mãe ajuda na cobrança. A criatura é gente e, como tal, namora, fica, rola, ama, odeia, paquera e ai não se sabe como agir. Hoje, já não se conhece mais o pai ou a mãe da nova companhia da nossa criatura, pois o mundo mudou. O José é José, a Maria é Maria, sem sobrenomes. E, olhar atento, tentando sondar, conversa-se com a outra criatura filha do outro pai, pisando em ovos para não causar melindres. Uma bela noite, depois de tantos preparativos e crises, a nossa criatura vai casar. É o ciclo natural. Antes de colocar a gravata, olhamos no espelho uma lágrima que cai furtiva misturando sentimentos, trazendo recordações e invocando graças. Tão nova, já casando, é assim que o mundo gira. E o pai, em meio a convidados, é um aprendiz nesse acontecimento gerador, com a graça de Deus, de novas criaturas. E algumas mães ao lerem este artigo poderão dizer, com razão: estes pais são uns filhos da mãe. Pois é, ainda não aprendemos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2001. - [MISTURA DE SONHOS, GENTE E CONCRETO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mistura-de-sonhos-gente-e-concreto/): Ao receber a comunicação do jornalista Luiz Fernando Levy, diretor-presidente da Gazeta Mercantil, de que havia sido escolhido para integrar o seleto grupo representado pelo Fórum de Líderes Empresariais Brasileiros da Gazeta Mercantil, fiquei a um só tempo alegre e preocupado. Alegre, por ter sido um dos três escolhidos, em meio a tantos nomes no segmento de shopping centers espalhados por este país, e, preocupado, por saber da responsabilidade social que essa honraria envolve e me compromete a tentar seguir as diretrizes do empresário Luiz Fernando Furlan, presidente do Fórum e do Conselho de Administração da Sadia S/A. Desculpem, mas preciso falar um pouco a meu respeito para, quem sabe, justificar a escolha feita pela Gazeta Mercantil. Não é vanglória, é um retrato em sépia de um menino comum que quis ser gente. Toda a minha vida tem sido de bênçãos. Nasci filho de um casal simples, que soube, em meio às dificuldades, criar nove filhos. Sendo o mais velho, misturei, desde cedo, estudo, trabalho e atividades públicas ou de classe. Fiz política estudantil, sem medo, participando de passeatas, congressos, seminários, e cheguei a ser vice-presidente da entidade nacional que congregava estudantes de administração. Na vida profissional, que já se faz longa, participei, como dirigente e conselheiro, da Associação Brasileira de Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança, presidi um Rotary Club, fui Conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-CE); Administrador Notável, escolhido pelo CRA-CE e, hoje, sou diretor e conselheiro de várias entidades de classe e Cônsul Honorário do México no Ceará. Viajei pelo mundo afora com olhar ávido. Inventei-me empresário. Planejei e presto serviços na área ambiental. Misturei sonhos, gente e concreto e fiz brotar edifícios. Coordenei dezenas de projetos e planos técnicos no Nordeste. Adoro Fortaleza, cidade que me concedeu a sua maior comenda. Leio muito, como curioso que sou, e escrevo desde jovem. Publiquei um livro de crônicas e um de contos. Há anos, escrevo, no Diário do Nordeste, de Fortaleza. Sou especialista em generalidades. Meu foco é a vida. Isso, de alguma forma, foi dando a mim um sentido do mundo. Tudo sendo feito aos poucos, sem procurar atalhos, pois precisava ter confiança em mim mesmo; senso de humor para rir dos meus erros; um pouco de inteligência para apreender as mudanças; buscar e dar apoio à minha família; sensibilidade para captar nuanças; modelar a auto-estima; traçar objetivos, deixar fluir a imaginação, sem perder o desejo por novos desafios; criar coragem para superar meus medos e dúvidas; ser solidário, respeitando a privacidade do outro, viver Mateus 6: 1-6; motivar-me para ter determinação e não fraquejar e, finalmente, não perder meu senso de integridade. Esses traços não me fizeram um grande empresário, mas me tornaram ousado para, por exemplo, na área específica de shopping centers, planejar, construir e administrar um centro de compras numa região da cidade de Fortaleza que precisava de uma revitalização urbana e de uma agitação social e cultural que mexesse com os brios de seus integrantes. Usei, na prática, o que faço na minha vida: negócios, socialização discreta e a busca permanente do conhecimento. Com pouco mais de um ano, o Shopping Benfica polariza atividades de 140 lojistas e é um marco de cultura, além de ter recebido o prêmio padrão qualidade Master Imobiliário, ano 2000, como Shopping revelação, outorgado pelo Sindicato das Empresas de Compra e Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi). À sua equipe de gestão, aos lojistas e aos clientes cabem a honraria que me foi distinguida. A mim, certamente, o compromisso de tentar aumentar, na convivência com os grandes nomes que integram o Fórum, a consciência social, materializando-a em ações. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/07/2001. - [A NOVA SÃO PAULO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-nova-sao-paulo/): Estou em São Paulo. Meus ouvidos não convivem bem com o tom monocórdio da música baiana que rola aí neste final de semana. Por mais boa vontade que demonstre, não encontro sentido para tanto barulho em uma festa que não tem nada a ver com nossa cultura, incomoda o trânsito, compromete a higiene, causa transtorno a moradores, transformando as frentes de seus prédios em barricadas e é pobre como manifestação popular. O pior é que, quando voltar, ainda estarão armados os camarotes onde pessoas desfilaram suas vaidades. O desarme tem a velocidade inversamente proporcional à da montagem e depende do destino itinerante desse circo. E os canteiros ficam servindo de depósitos, enquanto os operários armam suas redes nas árvores e caminhões gigantescos atrapalham o trânsito. Como sou curioso, estou conhecendo essa região nova que fica para os lados de Santo Amaro, uma avenida com o nome pomposo de Nações Unidas, por abrigar multinacionais e pretensões de ser uma espécie de Av. Paulista do século XXI. Sou um estranho em São Paulo pela falta de um mar que dê referência. Já vim dezenas de vezes e nada de saber direito onde ficam os lugares aonde tenho de ir. Em alguns bairros ainda me mexo, noutros fico igual a cego em tiroteio. Poucas vezes atrevi-me a dirigir em São Paulo. O trânsito é lento, agora que as peruas clandestinas perderam o medo de competir com os ônibus e táxis. Em toda esquina tem vendedor ambulante e flanelinha. A maioria com cara de nordestino e se abriga deste frio de fim de julho com agasalhos velhos. Jovens com pouca esperança, mas com risos nos lábios e as mãos cheias de quinquilharias para vender a motoristas amedrontados – com os vidros dos carros fechados – enquanto o sinal, que é conhecido aqui como farol, fica vermelho. São os “baianos” daqui, o nosso produto de exportação mais conhecido e discriminado, fruto de uma região que conviveu de forma passiva com políticos salvadores de uma pátria especial, a deles, e esqueceu dos incautos eleitores, até que a miséria os enxote para as cidades grandes e, muitas vezes, à delinquência. Mas, falava que estava me sentindo estranho e é verdade. Há hotel com campo de golfe, passo por um centro de convenções bonito e moderno e vejo o nome: Credicard Hall. Mas, ali perto, tem uma favela que se multiplica a cada dia. Acho que é um subproduto da nova globalização que nos impele a aceitar, goela abaixo, o que a mídia e as grandes empresas impõem com seu poder e tentáculos. Somos todos marionetes nesse jogo em que a regra é não ter regra e isso fica patente aqui em São Paulo, uma cidade dividida em guetos e amedrontada pelo paradoxo de sua pujança e pela miséria avizinhada e visível. Paro um pouco para pensar e concluo o óbvio: as grandes cidades brasileiras não são diferentes de São Paulo. Fortaleza está tão desumana quanto. A única diferença é que os estrangeiros ainda estão chegando por aí e vindo, parece, com vontade de ficar. São recebidos com festa, têm direito a financiamentos, gostam do sol, do mar, da mão de obra barata, mas não têm sonhos, têm metas. Vou procurar o José Simão, talvez, como diz ele, seja preciso um colírio alucinógeno para não ver e sentir como será o futuro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/07/2001. - [DRAMAS PARA GOVERNANTES](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dramas-para-governantes/): José veio do interior e mora em uma favela. A duras penas, por ser analfabeto, conseguiu um emprego na área da construção civil. Com dificuldades, luta para manter a mulher e quatro filhos, um deles com desnutrição crônica. Saía de casa ao raiar do dia e ia de bicicleta para o trabalho. Trocava os vales transportes por comida, mas anda triste e preocupado, pois já foi assaltado duas vezes ao sair do caixa eletrônico onde a firma em que trabalha, por segurança, deposita o seu salário mensal. Na última vez, além do salário, roubaram sua bicicleta. E o que é pior: ouviu do mestre de obras que a construtora está falindo porque não vende os apartamentos e não recolhe o FGTS há quatro meses. Se ficar desempregado, o que vai fazer? Raimundo é policial e separado. Dá 30% do que recebe à ex-mulher e hoje vive com uma prima que era mãe solteira com dois filhos. Comprou uma casinha financiada cujas prestações estão atrasadas há seis meses. Recebeu uma notificação para pagar o atrasado em dez dias ou será despejado. Sai para o trabalho com um revólver na cintura e mil problemas na cabeça. Não sabe como sair dessa situação e não vê como proteger os cidadãos (palavra que aprendeu em um curso de relações humanas), o que tem que fazer por dever de ofício, pois se sente totalmente desprotegido e triste. Há horas que dá vontade de “fazer uma besteira com o revólver”. Marcos entrou no banco como contínuo. Estudava à noite e terminou, com a ajuda da família, um curso superior que lhe deu direito à progressão no trabalho até chegar, depois de muitos anos, ao cargo de gerente de agência. Foi uma alegria, chamou os amigos e tomaram cerveja até o raiar do dia. Mudou de casa, comprou um carro de consórcio e matriculou os filhos em uma escola pública perto de onde mora. Sua mulher faz doces e salgados para ajudar a renda familiar. Há alguns meses, Marcos recebeu um telefonema de sua mulher: ou ele dava o que tinha no cofre do banco ou ela e os três filhos seriam mortos por dois bandidos que invadiram a sua casa. O comparsa estava defronte ao caixa 3 de paletó e gravata amarela. Pensou e entregou os 45 mil - que arrecadou nos caixas, assinando guias de retirada - ao bandido que saiu rindo e em passo normal. Hoje, tenta se livrar de um processo como autor intelectual do assalto e foi sumariamente afastado da gerência. Sérgio é sócio de uma empresa. Começou a trabalhar desde menino. Poupava quase tudo que ganhava. Era diligente, inteligente e não media esforços em descobrir alternativas para vencer na vida. Fez do trabalho a sua meta e conseguiu, já maduro, um nível de renda acima da média. Nunca badalou em festas, não frequenta clubes e, quando muito, vai a um restaurante do bairro com a família nos fins-de-semana. Recentemente, após demitir um empregado por justa causa recebeu uma carta anônima ameaçando-o de sequestro. Não queria fazer ligação dos fatos, mas foi aconselhado por precaução a levar a carta anônima à Polícia. Carta anônima não é prova, disseram. Perguntaram se queria fazer uma representação contra o ex-empregado. Pensou duas vezes e disse não. Hoje é um homem amedrontado, pois não sabe quem o quer atingir. Carta anônima não é prova é uma frase que fica martelando em sua cabeça. Conversou com a mulher e os filhos para terem cuidado, mas anda sem ânimo, infeliz e começou a tomar antidepressivos. A mulher reza e chora. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/07/2001. - [MOREIRA REDIVIVO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/moreira-redivivo/): Quando leio o endeusamento de alguns críticos literários do leste e do sul a Rubem Fonseca sobre “Secreções, Excreções e Desatinos”, tenho saudade de Moreira Campos. Fico, igualmente, desapontado ao ver que na seleção feita por Ítalo Moriconi, integrante do Instituto de Letras da UERJ, para “Os cem melhores contos brasileiros”, não consta nenhum de Moreira Campos. Não importa que não tenha embasamento teórico para desancar ou elogiar alguém. Mas, seria a banalização da violência e a estética dos dejetos orgânicos o produto requintado de Fonseca? Retorno ao dia 12 de junho de 1995, quando em que publiquei neste Diário do Nordeste o artigo “Moreira Campos e o Silêncio”. Nele, respondia a Carlos Emílio Correia Lima que, indignado, reclamava do silêncio da crítica literária brasileira ao registro da morte de Moreira Campos. Eis um trecho do que escrevi à época: “Não bastam o nosso ufanismo e a consciência de que se cometem injustiças contra nossos autores. É preciso muito mais. É importante que saiam de seus casulos, de suas trincheiras e batalhem no campo minado que é o mercado editorial”. Tenho a mesma opinião sobre o assunto. Os culpados, quem sabe, sejamos nós, leitores e autores cearenses, que acendemos um pseudo holofote em terra que se pretende da Luz, mas sofre, a terra, há muito de um apagão auto crítico, pela vaidade provinciana e pelo medo de enfrentar o rito de passagem que é o de procurar ser alguém fora do útero do Ceará. Por essas razões, Natércia Campos, Carlos D’Alge e nós, resolvemos reunir, conhecedores da obra de Moreira Campos, carente de mais divulgação. Descontadas as vaidades de alguns poucos, eclodiu, um alerta e um chamamento a quantos se fecham em suas igrejinhas e convescotes, aos ecos dos próprios escritos e vozes aliadas a um gestual estudado, para uma abertura que contemple até o paradoxo e a humildade de se discutir literatura dentro dos limites de Cine-Teatro Benfica. Acontece que esse cine-teatro foi fincado no mesmo chão em que Moreira Campos mourejou seus escritos. Seria, quem sabe, uma estrutura geológico-literária única a fazer brotar centros de conhecimento. A casa de Moreira Campos foi inundada por estudantes, desejosos de ser alguém. Quem sabe, um novo Moreira Campos. Isso tudo não me faz cair no exagero de dizer que Moreira Campos seria um Hemingway brasileiro, mas me atrevo a afirmar que ele deve estar no podium, sem medo de ultrapassar, entre outros, os mitos Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Vou buscar em Hélio Pólvora a gênese do crescimento de Moreira Campos, em que identifica sinais de Graciliano Ramos em Vidas Marginais, de 1949. Mas, é o mesmo Hélio Pólvora quem solta o rastilho da libertação literária de Moreira Campos, na arte de sintetizar o núcleo ficcional. Segundo ele, o Mestre Moreira Campos, poderia manter como divisa de sua arte a observação de Gorki a Thekhov: “também sei que você é um homem a quem basta uma palavra a fim de criar uma imagem, uma frase para armar um conto – um conto maravilhoso que desce às profundezas e significados da vida, tal como uma perfuradora que penetra na terra”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/07/2001. - [CRACK E O BRASIL - Diário do Nordeste](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/crack-e-o-brasil-diario-do-nordeste/): Falar de "crack" não é assunto agradável. Acontece que o Brasil está perdendo boa parte de sua juventude para as drogas. O "crack" é uma delas e, certamente, das mais perigosas. O verbo inglês "to crack" significa quebrar. Daí o nome da droga, pois surgem pequenos barulhos -ou quebras - quando os cristais são queimados. Seria uma espécie de pipocar. O "crack" brotou nos anos 80 nos Estados Unidos e seu uso, inicialmente, atendeu as classes mais pobres que não podiam consumir cocaína. Ele é produzido de forma simples, a partir da mistura da pasta impura da cocaína, bicarbonato de sódio e água, como elemento agregador para formar a "pedra". Os especialistas dizem que o crack - depois de queimado e aspirado em cachimbos, latas de bebidas furadas e afins- atinge o sistema nervoso central em dez segundos. Daí o sentimento imediato de euforia que dura, no máximo, dez minutos. Após a euforia, vêm a depressão e crises de paranoia, induzindo o usuário a voltar a tomar. Cria-se o círculo vicioso e, rápido, a dependência se instala. Ao ser inalado ou fumado, o crack aumenta a temperatura do corpo e pode, inclusive, ocasionar AVC- acidente vascular cerebral, destruição de neurônios e degeneração da massa muscular, pois inibe a fome e causa insônia. É comum que o já viciado se torne violento com familiares e passe a praticar furtos e delitos para conseguir comprar a droga que "repõe a sua energia". O Brasil tem milhares de dependentes. Em qualquer cidade se vê, em todos os cantos, a fortuita brasa vermelha que é consumida por grupos de jovens formando uma espécie de círculo. A cidade de São Paulo tem a "Cracolândia". Lá, dia e noite, comercializa-se essa e outras drogas. Agora, o prefeito Gilberto Kassab, tenta apelar para a prisão dos viciados que não aceitam o tratamento com abstinência. Falta, dizem juristas, amparo legal, pois isso cerceia o direito de ir e vir, assegurado pela Constituição. Em Fortaleza, de janeiro a maio deste ano, foram realizadas 1.611 operações de apreensão de crack, com um crescimento, em relação ao ano anterior, de quase 50%. Você está atento ao problema? Conhece algum usuário de crack? Faça a sua parte. João Soares Neto escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/06/2001. - [ANALISTA OU MÉDICO?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/analista-ou-medico/): A palavra psicossomática é pré-freudiana. Foi utilizada pela primeira vez por Helmhotz, em 1818. Ora, se já há quase dois séculos se conhece esse vocábulo, por qual razão não há um consenso sobre o que realmente significa? Sendo simplista, bastaria darmos uma olhada no Dicionário do Aurélio: “Psicossomático (De psic.(o)+ somático. Adj.1. Pertencente ou relativo, simultaneamente aos domínios orgânico e psíquico. 2.Diz-se das perturbações ou lesões orgânicas produzidas por influências psíquicas (emoções, desejos, medo etc).” A úlcera gástrica é, por exemplo, muitas vezes, uma lesão psicossomática. Seria simples. Ocorre que nada na vida é simples, por sermos complexos, apesar de singulares, e isso nos leva a entender, na nossa visão de eternos e curiosos estudantes, que muitos já tentaram conceituá-la, defini-la, metodizá-la, mas como há correntes que pensam de uma forma e outras que se lhe opõem, ficamos tateando para descobrir a verdadeira essência dos conceitos psicossomáticos. Permitimo-nos, pois, dizer que a psicanálise teve – e tem - uma contribuição muito grande a oferecer na área do tratamento psicossomático, a partir da sua ação como método terapêutico das neuroses, da investigação da personalidade, com resultados que propiciaram melhorar os acompanhamentos psicológicos, do uso da psicologia em função do inconsciente (o que enseja interpretar sintomas físicos) e, finalmente, do estudo das relações de objeto, cuja forma transferência-contransferência tem mostrado soluções para as questões entre paciente e analista. Poder-se-ia dizer que tudo isso seria, em sentido amplo, o conceito de psicossomática. Ou não seria? Abram Eksterman, in Medicina Psicossomática no Brasil, considera que ela é “uma nova visão da Patologia e da Terapêutica, tornando possível o axioma antropológico do objetivo médico”. Vê-se, aí uma condição restritiva, já que só o médico teria esse objetivo. Por qual razão, indagam os outros psicanalistas? Muitos profissionais não médicos, que a cada dia aumentam, questionam essa restrição e dizem ser preciso não confundir psicanalista com psiquiatra. A psicanálise, como todos sabem, é um método terapêutico que mexe com o inconsciente para curar desordens nervosas ou neuroses. A psiquiatria cuida das doenças mentais em geral. Afirmam os não médicos que o psicanalista tem um foco único e o psiquiatra seria um generalista das doenças mentais. Um amigo psiquiatra que prefere ser chamado de psicoterapeuta, rebate e diz que psicanalista não cura, apenas identifica o mal ou males. Segundo ele, a interação bio-psico-social é quem resolve, de verdade. Por outro, os psicanalistas não médicos acreditam ter formação e competência para cuidar das neuroses, inclusive de médicos, sem precisar de drogas, mas usando a ciência, arte e a técnica que aprenderam. Brigas à parte, é preciso que cada paciente e a sua família saibam exatamente o que procuram e quem encontram, pois como se diz “de médico e de louco, todos temos um pouco”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/06/2001. - [RABUGICE OU MATURIDADE?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/rabugice-ou-maturidade/): Enquanto escrevo esta crônica estou ouvindo Carmina Burana. Para o meu ouvido leigo são sons ininteligíveis, mas o crescendo melódico me agrada e dá uma sensação de que as pessoas, especialmente os artistas, são bem maiores que a mediocridade reinante em grande parte das rodas. Há pessoas que não crescem. Até estudam, alguns viajam, frequentam, podem até amealhar, mas são de uma pequenez facilmente desnudada em gestos, em demonstrações pueris e pelo entorno de suas vidas. Imagino se deve encher o saco ser-se vazio, não ter a capacidade de privar do isolamento, do silêncio prazeroso, do livro degustado palavra a palavra, da música enternecedora, da bebida sem culpa e sem vício e do conversar sobre fatos e não sobre fotos ou fofocas. Faz tempo, muito tempo, que perdi a ilusão da unanimidade. Faz tempo, bastante tempo, em que admitia ser capaz de ter muitos amigos, Hoje, quero-me privando de poucos e privado dos muitos que frequentam ou bordejam os acontecimentos, pela simples incapacidade de não poderem ficar a sós com os seus ais. Para esses, é preciso sair de casa, aparecer, ser visto, rir para desconhecidos ou fotógrafos, colecionar recentes amigos de infância e cortejar poderosos. Não importa se compram ou não quadros, leiam livros ou não, sejam distantes do falecido ilustre ou dos patrocinadores da festa badalada. O que conta é a presença a qualquer acontecimento. É dizer: eu fui, eu vi, eu estava lá, como se alguém se importasse com isso. Pode ser casmurrice, rabugice e chatice. Vá lá que seja, mas não me compraz a alegria encomendada, gente disfarçando suas (in)diferenças em postura de conveniências, conversas inconsequentes em que, por exemplo, autores tipo Paulo Coelho são citados como arautos da sabedoria e pessoas são bajuladas, como se fossem senhoras do mundanismo, pelo capacidade de registrar o vazio de puxa-saquismos explícitos ou disfarçados. Não vou modificar o mundo, sei disso. Ninguém pode, todavia, conduzir-me ao bloco dos que aceitam tudo isso como natural. É ruim ver a falsidade como característica da personalidade e a maledicência como divertimento. Recuso-me a participar do que não me agrada. Tenho pouco tempo para concessões e devo respeito a mim mesmo, com quem convivo 24 horas por dia. Não me queiram mal por falar o que sinto, sinto muito, mas sentiria muito mais se, para agradar, me visse rindo do que não gosto, convivendo com quem não prezo, aceitando convites impessoais, batendo palmas sem vontade. Tudo isso pode ser rabugice, repito. Mas, quem sabe, possa até ser um privilégio da maturidade, em que nos aceitamos como somos e nos permitimos cometer erros, inclusive este, de dizer o que se pensa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/06/2001. - [ÂNGELA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/angela/): Acasos acontecem? Justo no instante em que pretendo sair, ocupado e apreensivo, ponho meus olhos (não me liberto do vício de ler até nessas ocasiões) em texto de Jorge Medauar: “tanto entendo um gemido de criança como o soluçar oculto de um avô”. Do mesmo Medauar, como por magia, leio em seguida: “Bem sei que por misteriosos laços, minha vida na tua está contida. E quando me descubro nos teus traços, quero que tudo em mim renasça e viva”. Deus sabe que foi assim. Entre o banho corrido e a saída para o hospital, eis que me deparo, sem querer, com esses textos do escritor consagrado Jorge Medauar. Não procurei, não pedi, não pesquisei. Eles vieram ter às minhas mãos, exato naquele instante, talvez por uma fada madrinha, acolitada pelo acaso. Foi precedido e acompanhado pelo eco do que li, que me dirigi, banhado e de olhos brilhando, ao hospital. Como se o mundo não tivesse pressa, fico preso em um engarrafamento e me contento em pensar e orar sem orações, se é que tenho direito, por Alessandra, minha filha primeira, que vai parir pela primeira vez. Seria um parto normal, mas, decorrido o prazo, não houve a dilatação e o tempo urge. É começo de noite, céu estrelado e corre uma brisa junto ao mar. O engarrafamento persiste. Enquanto os carros buzinam, como se dissessem: “tem alguém com pressa aqui, deixem passar”, lembro do dia 24 de setembro de 1971 quando Alexa veio ao mundo com seus olhos miúdos, feições finas e bonitas, para dar luz à minha vida. Pois hoje, tantos setembros passados, lá vai de novo, Alessandra, colocar mais um pouco de luz em meu caminho. Saio do engarrafamento (era um carro de resgate de bombeiros) e consigo chegar, a tempo, ao hospital. Quarto repleto: mãe, irmãs, marido com sua família, e amigas. Todos, em um tagarelar nervoso, próprio dessas ocasiões. Ela, a futura mãe, está tranquila, bonita com seus fartos cabelos soltos e com um sorriso especial, devolve o meu beijo e responde ao meu abraço, como a dizer: vai dar tudo bem. E lá se vai ela de maca acompanhada pelo séquito da afetividade e eu me quedo sozinho no quarto que lhe dará o atestado de mãe. Corro os olhos pelo quarto e sorrio vendo que trouxeram o aparato que conheço tão bem. Não conto os minutos e, de repente, lá vem Ângela, a neta tão esperada, ainda nas mãos do pediatra. Não me rendo aos carões, e mesmo com a fé que não tenho de todo, faço um sinal da cruz em sua testa. Quero lhe dar as boas vindas a este mundo e palavras não fazem sentido. Um gesto, sim. Mãe e filha estão nos braços uma da outra. Agora, todos riem, alegres, filmando e fotografando. A anestesia fez sua parte e Alessandra diz: “quero ter todos com cesária”. É uma definição de futuro. E eu, lá dentro do que tenho de mais profundo, misturo graças e sorrisos ao “soluçar oculto de um avô”. Deus te abençoe, Ângela. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/05/2001. - [TEMOS MEDO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/temos-medo/): Aproprio-me do trecho inicial de “A Casa”. Da escritora Natércia Campos: “Fui feita com esmero, contaram os ventos, antes que eu mesmo dessa verdade tomasse tento”. Hoje, as casas feitas com esmero estão sendo abandonadas e demolidas, tudo em nome do medo e em busca da segurança perdida. Fui, como a maioria das pessoas, criado em uma casa. As casas tinham jardins e quintais, mas não possuíam grades, alarmes, câmeras, cercas elétricas e vigias. Eram, simplesmente, casas. Hoje, quase todos fogem de casas. Minha mãe ainda resiste. Mora, cercada de plantas, em uma casa toda gradeada, trancada e encadeada. Tem medo, mas gosta de mexer em jardim, criar um pequeno e inofensivo cão e colher umas poucas frutas de seu quintal. Já sofreu pequenos furtos, mas ainda não foi vitimada por violências comuns às grandes cidades. Ela resiste e nós, seus filhos, temos medo. Temos medo, não por paranoia, mas pela violência e consciência da degradação urbana a que somos submetidos por nossas ações predadoras e por omissões de cidadania. As grandes cidades brasileiras estão mostrando a face crua do desaparelhamento policial, do descompasso da distribuição de renda e do desemprego oriundo de uma economia que não tem mais sua sustentação no trabalho. Por outro lado, a “delinquência romântica” cedeu lugar aos assaltos planejados, aos sequestros e a uma corrupção tão forte que cria a sua própria teia de autossustentação. Em “Morte e vida de grandes cidades”, Jane Jacobs (Ed. Martins Fontes) diz que: “É inútil tentar esquivar-se da questão da insegurança urbana tentando tornar mais seguros outros elementos da localidade, como pátios internos ou áreas de recreação cercadas. Por definição, mais uma vez, as ruas da cidade devem ocupar-se de boa parte da incumbência de lidar com desconhecidos, já que é por elas que eles transitam”. Um dos males das grandes cidades é que nós não estamos acostumados a lidar com desconhecidos. Fomos todos acostumados a saber quem são as pessoas que encontramos no trabalho, no lazer e nas ruas. Hoje, isso é impossível. Vá a um cinema, teatro, igreja, loja ou restaurante e verificará como tem gente desconhecida. O desconhecido nos mete medo. Jane Jacobs, por outro lado, critica os urbanistas que advogavam a recuperação de áreas urbanas com a construção de apartamentos ou conjuntos habitacionais para pessoas de baixa renda. Segundo ela, “tornaram-se núcleos de delinquência, vandalismo e desesperança social generalizada, piores do que os cortiços que pretendiam substituir.” Seria a institucionalização de uma apartação social garantidora da ordem urbana? Creio que a insegurança pública é bem mais profunda e é fácil – e simplista – culpar somente o poder público. Ela, a insegurança, nos deve remeter à discussão urgente do nosso descomprometimento social. Não é o ato de pagar impostos que nos exime de uma responsabilidade solidária. Temos medo sim, da insegurança e da violência, mas nos constrange dizer que temos mais medo de uma sociedade alienada que está medindo seu poderio pelo gasto com segurança privada quando não percebe o caos social gerado por sua indiferença. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/04/2001. - [SARAMINDA E SARNEY](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/saraminda-e-sarney/): Saraminda, o novo livro de José Sarney, prova que ele não é bem normal. É preciso ter muito de louco para misturar personagens, beirar a criação de um realismo fantástico (“Você não está morta? Aqui todos morrem e vivem”.) com uma latinidade tão clamada pelo mexicano Carlos Fuentes e que o escritor brasileiro, via de regra, não costuma exercer. Falar de comida (“Um brochete de rabo de jacaré, frito com banha de anta e conhaque, um hoko e um assado de cochon bois”), moda (“O vestido tinha a saia comprida, de pregas que caíam da cintura e eram acompanhados pelas dobras até a barra da saia circundada por uma cinta de rendas e de franjas bordadas. Um casaco de elegante corte de sino, repartido em duas abas também rendadas, que desciam como estolas e passavam alongadas além da cintura, ladeadas por duas fileiras de botões cobertos de cetim e pequenos bordados”) e de uma guerra que não houve entre o Brasil e a França pelo território do Amapá (“acabo de saber que a França perdeu estas terras que agora são do Brasil. Foi uma decisão da Suíça. Amanhã, só vai haver uma bandeira, a do Brasil”). Saraminda sugere que José Sarney não é político comportado, pois expõe, mesmo sem querer ou querendo, o seu lado sensual ao descrever como um retratista de pico de pena ou crayon o corpo (“Nela o sangue bretão, judeu, índio, banto misturou-se ao longo dos séculos, concentrou-se nos olhos, afinou os lábios, alongou-lhe o pescoço, deu-lhe sorte e sedução”), a faceirice ( “Eu quero que você tenha alegria e felicidade. Prazer de coisa de amor de gente que se junta... Quero que você receba meu corpo de ouro embrulhado em papel de seda, enrolado em veludo, cheirando a patchuli”), as falas (” Seu Cleto, me trate com respeito. Não sou coisa suja, sou mulher para ser tratada com gosto. Aprecio modos. Entrei na vida mas não sou uma sem-vergonha”) dessa mulher tão simples e paradoxal, como se fora uma personagem vivida pela Sônia Braga dos áureos tempos. Saraminda induz que José Sarney não é rico. Se o fosse não descreveria com tanta paixão a avidez dos garimpeiros, a cobiça (“O garimpo é de uma solidão imensa. Quando a gente olha, parece que não é no mundo. O ouro não tem cheiro. Se tivesse, o homem ia farejar e saberia onde ele está”) e a luxúria (“tive vontade de beijar, beijar com força, ficar deitado nele, mas me controlei, não dei modos para não verem onde estava minha bestitude”) que o ouro ( “Não achei que fosse ouro, de tão feia, e pude então compreender que a beleza do ouro está nos homens”.) exerce sobre a razão e o imaginário de pessoas rudes com estéticas comprometidas pelas rugas e as rusgas que terminam em sangue para aplacar a ira dos deuses. Saraminda revela que Sarney não é romancista. É um espécime novo, um poemancista com imagens (“Na casa de sombras, era o remoer da lembrança que alimentava os fantasmas”) e figuras (“Era um brinquedo muito triste esse jogo de gostar”) dignas, quem sabe, de um Jorge Luís Borges. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/04/2001. - [O APOSENTADO E A SENADORA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-aposentado-e-a-senadora/): A era do pecado explícito americano terminou ontem. Hoje recomeça o moralismo rico, branco, anglo-saxão e protestante. Terminou a fase do tocador de saxofone. Meio desafinado talvez, mas com as bochechas cheias de ar que se transformavam em foxes e blues sincopados que muito têm a ver com os negros e a mãe África, berço gerador de parte da musicalidade que tomou conta dos microfones de Nova Orleans, Menphis e da Nova Iorque de tantos ritmos e melodias e se espalhou pelo mundo. A era dos charutos cubanos pitados escondidos desaparece em meio à fumaça do tempo. O que talvez se verá na era de moralismo emergente será a fumaça do bom juízo. E o rapaz, apesar de ter sido um grande advogado e da posição que ocupava, não conseguiu se livrar de grandes questões judiciais que ainda ameaçam ser reativadas. É o ônus de sua vitalidade. Nascendo pobre em uma pequena cidade chamada Esperança (Hope), acabou dando no que deu. A era dos olhares cúpidos chegou ao fim. O homem que, mesmo conduzindo a maior economia do mundo, não deixava de fixar olhares em rabos de saia e andou se metendo com muitas mulheres, embora sabendo da fera que tinha – e tem - ao lado. Fera adormecida que hoje é senadora e pode passar a rugir. Ele é hoje um aposentado de luxo aos 54 anos. Sai do Distrito de Colúmbia e vai morar em um subúrbio luxuoso de Nova Iorque. A partir de agora e pelo resto da vida, como pagamento do que fez nos últimos oito anos, ganhará bem. Cerca de 25 mil reais por mês, mas tem contas a acertar com advogados que o defenderam por honorários milionários. Talvez por causa de tais dívidas aceite receber um adiantamento de 5 milhões de dólares por sua biografia. Já disse que não usará de escritor-fantasma e mostrará o que a moral americana tem olhos para ler sem arregalá-los mais do que deve. Esse hoje aposentado – ainda com muito gás, diga-se de passagem - cometeu muitos erros, apoiou governantes que se tornaram corruptos, aumentou o protecionismo, deixou de ajudar nações pobres que deveriam ter sido mais assistidas, lançou mísseis sobre alvos civis, tentou celebrar pazes entre povos sem êxito, mas teve o mérito de reconhecer erros e, por incrível que pareça, propiciou a criação de 22 milhões de novos empregos e fez voltar a autoestima de um povo que não comprava mais nem os carros nacionais.Não foi, nem é e nunca será um anjo, mas desmitificou o salão oval da Casa Branca, tornando-o um lugar comum, com o pecado trabalhando ao lado. É um homem do Século XX, que parece ter sido, para alguns, apenas o século dos erros, comuns a todos os mortais pecadores, sem o que não necessitaríamos de perdão da divindade superior. AGRADECIMENTO: Durante anos escrevi, uma vez por semana, neste espaço. Peço desculpas aos leitores pelas crônicas que não agradaram. Afinal, foram algumas centenas. Resolvi, por decisão pessoal, dar um tempo e deixar de escrever com regularidade. Poderei voltar a fazê-lo sem a obrigação semanal. Aos raros e caros leitores e aos que fazem o DN, muito obrigado. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/01/2001. - [INTELIGENTE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/inteligente/): Às vezes me acho meio burro. Não adiantou nada ter feito alguns testes de Q. I. e saído feliz com os resultados. Não valeu ter alisado, por muitos anos, carteiras escolares. A certeza da minha burrice parece ser procedente. Não é conversa fiada. Ela se baseia na constatação de que não tenho capacidade para entender determinadas coisas neste nosso querido Brasil. Cinco exemplos. Primeiro: Leio estarrecido que o governo já emprestou R$ 2,4 bilhões às empresas de telecomunicações privatizadas. E não fica só nisso, vai emprestar – ou já o fez - mais R$ 7 bilhões. O total arrecado com as vendas foi de R$ 22 bilhões. Se emprestar 9,4 bilhões, os grupos compradores terão recebido 42% do total da compra. Ora, se o governo vendeu para se livrar de um problema (?), como financiar, se todo o santo dia pede dinheiro emprestado aos bancos? Segundo: Qualquer pessoa medianamente esclarecida sabe que os bancos têm no governo a sua maior fonte de receita: segura, não discute preço e sempre quer mais. Se o governo não tem dinheiro, reclama com o novo mínimo de R$ 180, como é tão liberal em facilitar a vida de grandes empresas que fizeram cadastros, disputaram licitações em que se diziam fortes financeiramente e estavam capacitadas a assumir o controle das empresas privatizadas? Além disso, o valor pago como ágio na ocasião das compras das teles poderá ser abatido do imposto de renda a pagar. Terceiro: Alguns membros do Governo eram dirigentes de bancos e de empresas internacionais com salários mensais superiores, afora despesas pagas, lucros e gratificações anuais, em média, a 20.000 dólares ou 40 mil reais. Por patriotismo, passam a trabalhar no governo com um teto de 11 mil reais. Usam ternos e complementos importados, viajam para o exterior com regularidade e alguns mantêm dupla residência. Aqui e fora do país. Quarto: É simples saber que um hospital não pode sobreviver com os valores que o Sistema Unificado de Saúde (SUS) paga. O governo continua fazendo de conta que está pagando correto, os hospitais dão um jeito para sobreviver - enquanto muitos pacientes morrem - com os atrasos, preços defasados e os médicos obrigados a ser ubíquos. Enquanto isso, os remédios custam, às vezes, no Brasil mais do que nos países - do Primeiro Mundo - sedes dos laboratórios. Por outro lado, umas farmácias dão 25% de desconto e outras dizem que, em nome da ética, não podem dar desconto algum. Dá para entender? Quinto: As eleições municipais passaram. Quase todos os municípios brasileiros referem estar falidos, com dívidas maiores que suas capacidades de pagamento. Os prefeitos eleitos ou ré já se dizem injustiçados pela imprensa, desgastados com o funcionalismo, pressionados pelos credores, alguns são investigados por Cpis, cobrados pelas famílias e com um estresse enorme. Nem por isso, a grande maioria deixou de se (re)candidatar, sofrer, gastar muito dinheiro, comer maioneses, discursar em palanques, abraçar crianças, cantar o hino nacional de mãos dadas com familiares e correligionários que, em breve, poderão se tornar adversários. Dá para ser inteligente? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/01/2001. - [VIAGEM PELO SÉCULO XX](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/viagem-pelo-seculo-xx/): Nasci no ventre da Segunda Guerra Mundial. Começava a redemocratização brasileira e aprendia a escrever com a mão canhota. No suicídio de Vargas ainda vestia calças curtas, mas lembro do espanto geral, do feriado forçado e da crise gerada. Com a eleição de Juscelino, em 1956, o Brasil foi recuperando a autoestima até que um porre e/ ou a loucura de Jânio, em agosto de 1962, fez surgir a “Cadeia da Legalidade” pedindo a posse de João Goulart, que passeava na China, às nossas custas. Em julho de 1963, por um desses acidentes da vida, presenciei a luta por direitos civis na marcha dos negros sobre Washington, sentindo de perto – e ao vivo - a energia contagiante de John Kennedy. No dia 01 de abril de 1964 amanhecemos sem saber de nada e, logo após, euforia de um lado e medo espalhado no meio universitário, tão idealista quanto desinformado. Em outubro de 1965 vi, em Roma, o funcionamento do Concílio Vaticano II e pude participar, graças a um parente bispo, de uma bênção apostólica de Paulo VI. Em julho de 1969 estava no Rio grudado em uma televisão vendo Neil Armstrong andar na lua. Presenciei no Maracanã, nas eliminatórias da Copa de 70, ao jogo Brasil 1 X Paraguai 0, em que aconteceu o seu recorde de público, quase 200 mil pessoas. Em setembro de 1973 participava de um congresso em Lima quando derrubaram Allende. Não tive dúvidas, fui à Santiago do Chile ver os estragos feitos à democracia e ao Palácio presidencial. Com um grupo de amigos, me aventurei a tomar, em Estocolmo, um trem superlotado para ver o fenômeno do sol da meia-noite em Narvik, no Círculo Polar Ártico. Foi impressionante ver um dia com 24 horas de duração sem resquícios de noite. Quando Nixon foi defenestrado, em 1974, da Casa Branca veio parar com os costados em Paris onde, por coincidência e com a presença do José Rangel, ficamos em um café do Champs Elisée. Mais uma vez, em 1989, me protegia do frio outono alemão na casa de uma irmã quando caiu o Muro de Berlim, em meio a comemorações improvisadas mostrando o outro lado e o portão de Brandemburg, que já conhecera, não sem antes ser revistado por policiais orientais e farejado por cães treinados. Tive que ir a Hong Konk exato em 1994, ano em que ela se despedia da Coroa Inglesa e a festa do Dragão mostrava a cultura, a ascendência e a vizinhança da China do outro lado das montanhas. Era visível o mal-estar dos ingleses de Hong Kong com a perda - mesmo bem negociada - de um de seus mais rentáveis negócios. Passei uma semana em Israel em meio à Intifada e pude sentir que, pelo menos para mim, não adianta alguém pensar em solução negociada para a luta entre árabes e judeus. Tenho uma teoria meio absurda sobre a solução desse conflito. Ela se baseia na miscigenação das raças, pela proximidade e o jogo de sedução e medo que os rebeldes árabes exercem sobre as mulheres de Israel e, igualmente, o despudorado assédio dos soldados israelenses sobre as jovens dos territórios ocupados. Os filhos dessa zorra poderão gerar a paz. Do que vi no Século XX, para mim tão rico e contraditório, é o que cumpre destacar pois contextualizado, correndo o risco de parecer cabotino, mas o silêncio sobre esses fatos poderia ser, mesmo agora, um deslize maior. Corro o risco, mas viver é correr riscos, como já se sabe. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/01/2001. - [O NATAL E A FOME](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-natal-e-a-fome/): Fala-se em Natal sem fome. Pensa-se que um, dois ou cem quilos de alimentos aplacam nossa consciência. Cuida-se que um cartão de Natal nos redime dos esquecimentos do ano todo. Pensa-se tanta coisa nesta época. E até se pensa que só agora é preciso pensar mais nos outros. Entender, por fim, que a vida é uma sucessão de elos nos tornando brutos ou gente. Tenta-se usar um spray que espalhe pelo ar a fragrância da fraternidade e, ao mesmo tempo, estanque a dor de tanta gente querida. Gente que está aqui lutando para viver, em meio às apreensões e dúvidas do dia a vir. A fome não se aplaca com meros quilos de alimentos de segunda. A fome só acabará com atitudes de primeira. Menos melodrama e mais consciência. Menos espetáculo e mais ação. Vivemos num mundo em que se gasta mais na mídia para se dizer que se construiu uma creche que o valor da própria creche. É preciso dar um fim ao mundo do faz-de-conta e viver num mundo em que o outro é quem conta. Não importa o que vai ao ar ou fica escrito, importa o que faço pelo outro, sem que ninguém veja ou saiba. Sem o estardalhaço da fraternidade religiosa ou midiática. É dentro de nós que a fome de aparecer tem que começar a acabar. Tirar das entranhas dos nossos sentimentos as respostas ao bem-querer verdadeiro, em que o outro não seja apenas alguém que vejo, mas com quem interajo, troco sonhos e busco soluções para nossa vida e a dos outros. Há, certamente, gente a quem amamos, mas é preciso que se tenha a coragem de dizer isso a ele ou a ela. Olha, eu o(a) amo. Vamos nos inteirar, deixarmos de ser meros pedaços de nós mesmos e formar vidas inteiras. Quando tivermos a coragem de amar de verdade, sem peias, aí o mundo vai ficar com menos fome. Não importa quem seja você, nem quão bom se ache. Há muito a melhorar. E isso não é pieguice de época de Natal. É um sacolejo que devemos fazer sempre em nossas vidas. A fome não é só produto da injustiça social. Ela é a cara da nossa indiferença pessoal, desse individualismo que nos isola até dos mais próximos. Prometa a você: vou dizer a alguém que ele - ou ela - é importante para mim. Não importa que ele – ou ela - não lhe dê ouvidos. Insista, invada a sua privacidade e achegue-se. Achegue-se, abanque-se, troque energia, chore, ria dos erros cometidos. Perdoe. Perdoe-se. A vida é assim mesmo, complicada. Descomplique-se, pois. Apresse-se, a fome só se aplaca se você se der. Mexa-se. Feliz Natal. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/12/2002. - [A CORNUCÓPIA E O OBOÉ](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-cornucopia-e-o-oboe/): Na mitologia grega dizia-se que Zeus ou Júpiter tinha o poder de fazer com que um chifre de cabra – a cornucópia -enchesse com tudo o que se desejasse. E a criou em retribuição às ninfas que cuidaram dele, abandonado que fora, em sua infância. Seria o símbolo da abundância. Hoje serve como símbolo de negócios. A par disso, sabe-se que o oboé é um instrumento de sopro surgido há milênios, remontando à China ou à antiga Grécia de onde derivaria do aulo, que também era soprado, tinha palheta simples ou dupla, com um ou dois tubos furados por onde saiam os sons. O oboé é feito de madeira com um tubo ligeiramente cônico e emite, quando soprado, sons que são preciosos em uma orquestra sinfônica. E qual a relação entre uma cornucópia e um oboé? Nada e tudo. Nada se os virmos de forma isolada. Uma, a cornucópia, é fruto da antiga civilização grega e passou à história da humanidade sob a forma didática da mitologia. O outro, o oboé, é resultado de trabalho de artesãos que o foram aprimorando por séculos e séculos e hoje tem palheta dupla, três chaves, e é soprado, saindo o som por seis orifícios. Tudo, se admitirmos que, visualmente, os dois têm algo de parecido e que, talvez sem saber, um contador que, por profissão, vê tudo pelo método cartesiano das partidas dobradas quando há ou não abundância ou lucro, os uniu. Uniu mitologia à música e, querendo ou não, passou a fazer artes em meio a números. Paradoxal? Mas o que é a própria vida senão um grande e indecifrável paradoxo? Pois foi assim que Newton Freitas, ao procurar sedimentar a imagem cultural de seu negócio de valores despeja sobre seus clientes e amigos uma cornucópia de informações sob a forma de dicionários. Já misturou finanças com vinhos e artes. E o faz de forma didática, como se estivesse analisando contas, expressando pensamentos de “auditores culturais”, com a simplicidade capaz de dar aos não iniciados um caminho para a informação básica que, sedimentada, poderá se transformar em conhecimento. E o conhecimento é que gera, por decantação e apuro, a cultura. É bom que nestes tempos alguém ouse coligir verbetes, os reúna sob a forma de dicionários e os distribua com prodigalidade na esperança de que sirvam para a alegria dos que ainda acreditam que não se vive só de cornucópias ou valores, mas é preciso também ouvir oboés em meio a sinfonias. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/11/2002. - [ELAS NÃO FALAM](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/elas-nao-falam/): Para quem não sabe: sou um “cinemeiro”. Gosto de filmes em tela grande e dos que mexem com a nossa cabeça. Gosto de ver além do filme, atento aos detalhes. É um exercício a que me proponho desde a juventude e fico alegre quando por quase duas horas somos, por exemplo, impactados pela dureza e a beleza das danações do Pedro Almodóvar em “Fale com Ela”. Não se pode, por menos que se deseje, dissociar a opção sexual e o amor extremado à mãe de Pedro Amodóvar das situações que cria neste seu novo filme. Benigno é o filho da mãe. Aquele que sacrifica vinte anos de sua vida ao lado de uma mãe que dele exige tudo. Resta-lhe a réstia de uma janela onde a sua utopia de amor é transferida para uma desconhecida inatingível, Alicia. São dois vidros, uma rua e um mar de diferenças. A carteira caída ao chão, apanhada por Benigno e entregue à Alicia, um clássico recurso, não serve para atar os laços pretendidos. E ela se vai por trás do grave portão. Fazer-se analisado pelo pai dela é uma tentativa de aproximação e mostra a sua ambigüidade como ser humano o que o habilitará, paradoxalmente, no futuro, a cuidar de Alicia. Na outra trama, Lydia e Marco vivem uma relação conflituosa e a toureira destemida tem medo de cobras. O matador de cobras é um homem que chora ao ouvir música e ambos se encontram em seus descaminhos de segunda ronda. Para unir essas situações díspares surge o hospital “El bosque”, - seria uma alegoria à Bela Adormecida no bosque? - ao qual são levadas, em tempos diferentes, em coma profundo, as duas mulheres do filme, Alicia e Lydia. É nesse cenário em que as relações de dois homens diferentes por suas naturezas – um é enfermeiro-terapeuta e outro é jornalista-escritor – passam a se casar. E o casar aí é a minha mordacidade, pois Almodóvar faz questão de manter um clima de amizade que beira à amor. E tudo acontece de forma surrealista, mas com uma naturalidade que faz rir e comover. Não importa se o que se conta é verossímil, não importa nada. O que Almodóvar e seus personagens desejam passar é, entre outras coisas, a mensagem que as pessoas só se comunicam quando um fala e o outro, bem o outro é o outro. Não se discute o final do filme, as razões das músicas cantadas por Caetano, visualmente parecido com a toureira Lydia, e Elis Regina em “off” – quando a toureira é golpeada - mas a sua tessitura intimista, limítrofe de monólogos recheados de sensualidade não compartilhada e a consciência de que é possível amar unilateralmente, mesmo que isso doa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/11/2002. - [BRASILULA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasilula/): Segundo as pesquisas, Lula será eleito hoje. Far-se-á a vontade da maioria. Lula, com a persistência de um Miterrand, chega à Presidência. Chega no esplendor da sua maturidade cronológica e no limiar de uma nova ordem mundial em que a recessão e a ameaça de ‘default` são variáveis em jogo. Vem com a força e a esperança de milhões de eleitores e de uma militância de fazer inveja. A sua eleição representará uma guinada para um país que teima em ser primeiro mundo, mas tem o pé na miséria. Ou melhor, tem os dois pés na lama das favelas, os membros atados com compromissos meio espúrios e a cabeça, só Deus sabe. E há os que não acreditam em Deus. Talvez seja a hora de se parar de pensar tanto em riqueza e ter-se coragem de assumir a pobreza ou abolir, pelo menos, a miséria. Bastaria mais responsabilidade social e menos demagogia, não só dos políticos, mas das elites que não praticam o que discursam e de uma classe média deslumbrada pelo consumo e o mundo das aparências. Lula emerge de uma história que remonta à redemocratização, à insubordinação sindical e se acultura na ligação umbilical com a inteligência universitária que deu ao PT a essência de sua estrutura ideológica, hoje aromatizada. Muitos anos se passaram e foi preciso que o povo brasileiro acumulasse revoltas, salários pífios, sofrimentos, sentimentos de insegurança e desamparo para que Lula emergisse da sua base histórica e fiel, para os braços generosos de eleitores ainda não politizados e de uma burguesia meio sem rumo, pouca visão de mundo e sempre com o apetite de adesão à vitória, qualquer que seja o vencedor. Há na trajetória de Lula um pouco da história da pobreza do nordestino imigrante, da força da mulher abandonada – sua mãe - que protege e cria os filhos na periferia das grandes cidades, de um sindicalismo capaz, de um partido operário consistente e da crença de que o bem pode vencer o mal. Apesar disso, Lula não é messiânico, é pessoa centrada, treinada e ajustada a uma realidade mercadológica que exigia uma postura diversa da sua essência fundamental. Lula mostrou-se, para ganhar, como a maioria queria. A essa maioria só se pode parabenizar, pois não se discute vitória, aceita-se. Assim é a democracia que, entre outras coisas, tem a capacidade de ver que o outro pode estar certo, apesar de você imaginar estar ele errado. Passada a euforia da vitória, haverá a assunção do Lula verdadeiro e da sua equipe multifacetada que não precisarão mais fazer caras e bocas e sim tentar apresentar respostas urgentes que o Brasil e o mundo esperam de um ainda desconhecido “mix” entre socialismo, neoliberalismo e política de resultados. A governabilidade é uma arte de engenharia política e nela o discurso é desprezado. Por outro lado, a estrutura de poder presidencialista brasileiro, especialmente após a lei de responsabilidade fiscal, neutraliza o voluntarismo e fará emergir, se bom senso houver, uma coalizão de forças – espera-se que a custo razoável - que respaldará as ações tão cobradas pelos que ainda acreditam em milagres. Lula não é milagreiro, é apenas um homem do povo que se fez líder capaz e persistente, adotou modos sofisticados, e vence em meio a uma tormenta, precisando mais que nunca da prudência dos que o cercam, da sabedoria dos que o assessoram, de saber transferir o cetro da oposição aos que eram governo, da confiança dos mercados internacionais, da paciência dos que o elegeram e da atenção dos meios de comunicação. Resumindo e citando o cientista político José Murilo de Carvalho: “As dificuldades de Lula serão proporcionais à esperança que criou”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/10/2002. - [VOCÊ É EMPREENDEDOR?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/voce-e-empreendedor/): Um dia destes, fui instado a responder o que era ser empreendedor. A resposta poderá, quem sabe, ser útil a jovens, única razão pela qual a repasso tal qual respondi. Nasci e cresci em Fortaleza. A cidade estava evoluindo com energia e sempre pensei em crescer com ela, pois havia muito a fazer. Foi o que tentei, desde cedo. Cursei Direito e, ao mesmo tempo, integrei a turma pioneira da Escola de Administração do Ceará, fiz política estudantil e tive o privilégio de conhecer Edson Queiroz, empresário cearense precocemente morto em desastre aéreo, a quem ouvia. Isso me fez procurar ser curioso, instigante, trabalhador e saudável. Quis ser e, pouco a pouco, tornei-me o que se chama hoje de empreendedor. Empreendedor é quem identifica uma oportunidade e, mesmo que temeroso, enfrenta a luta e atinge o objetivo. Minha primeira experiência foi, ainda estudante, comandar uma pesquisa com 300 homens no campo. Em seguida, descobri que pouca gente trabalhava com planejamento e o BNH havia surgido. Era o nicho. Depois, concluí: se posso planejar para os outros, por que não planejar e fazer para mim? Descobri que a melhor maneira seria estudando sempre, a maioria das vezes por mera curiosidade e de forma casuística. Ao mesmo tempo: viajava, lia muito, assistia a todo tipo de palestra, feira, seminário, congresso e cursos e farejava oportunidades. Cuidava disso com muito trabalho, determinação e objetividade. Nunca me empolguei com incentivos fiscais e deles nunca me utilizei. Sabia desde cedo que credibilidade só se consegue comprando e pagando em dia, nunca devendo a bancos, tentando fazer as coisas certas ou corrigindo os erros, recrutando gente jovem e potencialmente capaz para ajudar a conduzir o barco do trabalho que, mesmo sem se desejar, pega mares revoltos. Sou um mutante, pois o novo me atrai e a experiência tenta regular o meu passo. Procuro administrar os medos, agir com cautela, mas com decisão. Parto da certeza de que a mudança é uma constante. O que me obriga, reafirmo, a ser mutante e tentar superar as dificuldades que são muitas e imprevisíveis. Procuro ajustar-me às intempéries, a continuar com liquidez, renovando, sempre, pois as nuvens de incertezas brasileira e mundial são visíveis, mas parto da convicção de que descobriremos saídas. Temos que lutar por isso. Todos os meses, e não necessariamente em outubro, somente. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/10/2002. - [O PRÓXIMO DOMINGO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-proximo-domingo/): No próximo domingo poderá chover ou fazer sol. Depende de onde você esteja. No próximo domingo poderá haver alegria ou tristeza, depende do que você fizer e desejar alcançar. No próximo domingo haverá esperanças ou choro. Esperanças para uns, outros chorarão. É assim com todos os dias. O próximo domingo não será diferente. Os dias são semelhantes. Nós é que fazemos a diferença. E você saberá fazer a diferença? Nós temos a mania de reclamar dos outros. De dizer que a culpa é sempre do outro, mas será que fazemos bem a nossa parte? Será que somos honestos conosco mesmo? Ou estamos tão acostumados a fingir que, nas horas difíceis, não sabemos ser nós mesmos, aquele que imaginamos correto, bom e confiável? Se for honesto com você mesmo, com a sua história de vida, o seu sentimento de civismo, o seu senso de justiça, certamente o próximo domingo será um dia feliz. Não será um dia feliz se você utilizar o domingo próximo para destilar ódio e pensar em mera vingança. Será apenas um dia de cão, pois não há como se ter paz com sentimentos pouco nobres. Ainda há uma semana pela frente. Descubra-se. Revele a você mesmo o que o incomoda e procure as suas próprias respostas. Esqueça tudo o que ouviu dos outros, ouça apenas a sua razão. A razão não tem ódios ou paixões. Ela tem discernimento. Utilize o domingo próximo para dar as suas respostas. Serão seis respostas silenciosas. Sem medo ou ódio, elas terão a capacidade de reverberação maior do que você pensa. Olhe-se no espelho e diga, em voz alta, o que vai fazer no próximo domingo. Ouça a resposta com os seus olhos. Faça isso só, a única testemunha deverá ser a sua consciência. Você é mais importante do que imagina. Só quem pode sonhar os seus sonhos é você e não há melhor forma de transformar os sonhos em realidade que o uso de sua capacidade de julgamento. Tire um tempo para pensar. Pense em tudo o que está acontecendo e em tudo o que poderá acontecer. Você tem seis armas. É o seu exército, mas não seja um terrorista ou um franco-atirador. Use-as como o faria para defender a sua família. É bom não esquecermos que o domingo, segundo nos ensinaram, é o dia do Senhor e ele deseja que todos sejamos irmãos, uma família. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/09/2002. - [VIAGEM COLORIDA EM PRETO E BRANCO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/viagem-colorida-em-preto-e-branco/): Recentemente, fiz uma viagem sentado numa cadeira em meio a coisas de ontem. Em duas horas, o tempo de uma sessão de cinema, passeei entre os anos de 38, que antecederam à 2a Guerra Mundial, e o de 63, o que precedeu a Revolução de 64. Mas, fora a contextualização, o que vi foi uma história de amor, simples e bonita. Vi partes de Fortaleza tão aquietada e dolente. A praia de Iracema, com ruas estreitas, sem máculas, e uma lagoa, também de Iracema, mas lá na Messejana provinciana e, então, distante. Vi as cercanias da cidade, serras nativas sem doenças, um navio, o seu tombadilho com cadeiras longas de madeiras, numa viagem mostrando frações de uma natureza rica, com sua graça escancarada e ainda não aviltada. Vi mais do que isso. Vi o nascer de uma família que, de tão simples, se dignificou. Uma mãe, desmodelada para os dias de hoje, fazia, a bico de pena, singelas e belas ilustrações, acompanhadas de palavras que diziam do momento captado pelo obturador. Vi textos apaixonados de uma mulher. E os de um homem que se transmudava em papai Noel para enlevar a companheira de uma tropa em formação. Vi uma menina nascendo, crescendo, fazendo careta, rindo, sempre pronta e bem cuidada como para ir a uma festa. E era sempre festa, pois eles estavam em comunhão e essa é a maior de todas as festas. Vi outra menina nascendo, formando uma dupla faceira, brejeira e lampeira. E aí veio o príncipe para formar o trio ou o quinteto enamorado da casa no final da ruela da praia. Vi famílias se ajuntando, compartilhando parentesco e amizade. E, como se fora um conto de fadas, uma menina se fez moça, de amigas se acercou e virou princesa por um dia eternizado. Não deixei de notar a argamassa dessa união consolidada numa casa que ficava bem do outro lado da cidade, perto de uma igreja onde havia remédio para as suas almas. Vi mais, muito mais, entre esmaecidas páginas de álbuns, com cartolinas antigas e papéis de seda clara, que se tornaram de cor sépia, meras fotos em preto e branco, mas coloridas pela essência de vida que transmitem e pelo calor virtuoso e virtual que perpassa as mãos de quem, atento, as perceba com os olhos de sonho. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/09/2002. - [O SER, O TER E O PARECER](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-ser-o-ter-e-o-parecer/): Contardo Calligaris é um psicanalista italiano que já morou no Brasil e hoje vive entre os Estados Unidos, a Europa e o nosso país. Leitor de almas e escritor sofisticado, comparece às quintas-feiras na Folha de São Paulo. Na semana passada abordou a “crise do mercado ou a crise do sujeito?”, uma crônica-ensaio que me levou a utilizar o finito espaço-tempo usado para devaneios em direção a caminhos sem saber exatamente as saídas. Daí, por exemplo, ter questionado três aspectos da vida: o ser, o ter e o parecer. O ser é a base. É onde ficam o país, o estado, a cidade, o bairro, a casa em que nasceu, o tipo de família que lhe trouxe ao mundo, com raça, origem e categoria social e formou a sua educação, seja doméstica, formal pela escola, professores e colegas, informal ou social e no que o espelho e a sua consciência revelam e se aceita com ou sem questionamentos. O ter é aquilo que se agregou a você, sejam bens materiais ou a bagagens cultural, intelectual ou científica desenvolvidas, a partir dos valores que acredita positivos para a sua existência. O ter é o que você não tinha e acredita possuir, como se seu fosse ou seu é, sendo. O problema é que, entre o ser e o ter, existe o parecer. Algumas pessoas querem parecer o que não são e viver o que não têm. É o mundo da aparência, do supérfluo em que uma camisa ou um vestido, por exemplo, é aceita não por sua qualidade intrínseca, mas por ostentar uma marca de alta significação para a imagem de quem usa. Um relógio, dando outro exemplo, deveria servir apenas para ler as horas, mas pode definir uma posição social de quem, diferencialmente, ostenta uma marca famosa. Falo em objetos para não trafegar na senda perigosa da essência, pois aí o terreno é movediço. A sociedade e, por mais que não queiramos estamos nela envolvidos, cobra o ser, o ter e o parecer. O parecer é o reflexo, a imagem que os outros têm de nós, a partir de juízos de valor falsos ou verdadeiros. É aquilo que pode ser fabricado com “marketing pessoal “e o sair de casa, para mostrar-se ou ser visto, compensa o vazio de não poder ficar consigo mesmo e gostar disso. Algumas pessoas se acreditam ser o que os outros pensam ou dizem delas. Essas pessoas, certamente, ficam à cata do que se chama de validação. A validação é acreditar no que o outro diz para admitir-se ser aquilo. Não pesa, para o validado, a referência própria, aquilo que a sua essência profunda diz, mas o que lhe é soprado ou gritado em seu ouvido ou escrito a seu respeito. Esse eterno questionamento entre o ser, o ter e o parecer passa, talvez necessariamente, pela maior ou menor capacidade de cada um se auto avaliar e ver a autoestima a partir da própria consciência. Mas, descubro ter começado um assunto que não cabe em crônica. Bem apropriado seria em ensaio ou tese para os quais, infelizmente, faltam-me engenho, densidade e tempo. Como disse Chamfort: “há tolices bem vestidas como há tolos bem vestidos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/08/2002. - [DEZEMBRO, MÊS COMPLICADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dezembro-mes-complicado/): Dezembro é um mês complicado. É o mês dos presentes e dos ausentes. Especialmente, destes. É o mês do balanço pessoal, dos planos, dos acertos com a nossa cabeça, do que não parece encaixar e fica ali martelando, mesmo que mandemos embora. É a tal da consciência nos cobrando, dizendo das falhas, das omissões e semeando dúvidas irrigadas por nossa tão falada e natural incompetência de ser feliz. Fazer o quê? Não se pode ser múltiplo, embora nossa unicidade seja complexa, dê sinais tão díspares e nos tornem perplexos. O ideal seria o bem-estar geral, a paz coletiva, mas nosso egoísmo exige exclusividade e não se pode - e nem se deve - querer tudo. E aí é preciso optar. A opção é, sempre, que nos transforma no que somos, naquilo que nos é essencial e não aceita a farsa, o engodo, a alegria de encomenda, a efemeridade do gozo, mas a consistência do compartilhamento espontâneo, da identidade em meio às nossas diferenças. Somos todos seres em busca, em eterno desejo do encontro. De estabelecer liames, de ter laços atados a trocar energia de forma sutil, olho no olho, brilhando na certeza do encontro visual, tátil e interior. Seria o amor com paz. Ocorre que a paz não é um fim. Ela pode ser a resposta encontrada aos nossos embates verdadeiros com a negação das aparências e conveniências. Mas viver não é só ter paz, é ter forma e arte para administrar conflitos e a compaixão de ver o outro em nós mesmos. Falei ser dezembro e este mês nos obriga, repito, a analisar atitudes e a dar um espaço mais significativo para nosso eu interior, aquele que não sufocamos com as aparências e nem, tampouco, aplacamos as suas críticas e desejos, pois conhecedor profundo de nossas limitações e natureza. Sim, é tempo de presentes, mas não só os dos pacotes bem cuidados, mas, prioritariamente, daqueles entes queridos que formam o nosso melífico mundo. A esses, quem sejam ou onde estejam, cumpre amá-los, não como promessa vã, mas perdoando e pedindo desculpas, sedimentando comportamentos positivos, atitudes e tentando sempre estar afinados, pois a vida não é só euforia, tampouco tristeza, mas sintonia. Viver é ter consciência disso e estar sempre pleno de esperanças, sabendo que perder, ganhar, perdoar, amar, conviver e compartilhar são a nossa essência básica. O restante, como diria a Amanda, do alto dos seus quatro anos, é bobeira. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2002. - [O AMOR CURA?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-amor-cura/): Em uma cidade qualquer deste mundo morava um homem muito solitário. Até aí nada de novo ou surpreendente, pois em todas as cidades há pessoas, homens e mulheres, muito solitárias. Mas esse se imaginava muito mais solitário, de verdade. E a sua solidão era tão forte que, ele próprio, ao olhar no seu rachado, manchado e quase opaco espelho, falava a si próprio: - como vai? E ele próprio respondia: vou só. Não tinha amigos, colegas, conhecidos, adversários, confidentes, amores, ex-amores ou parentes. Morava só, no fim de uma rua esburacada, num casebre velho que nem chave tinha, bastava uma tramela por dentro e um pano que servia de calço ao sair pela única porta. Herdara de uma tia-avó que morrera tísica, o único parente que lhe restara, pois a mãe faleceu no seu parto e nunca conheceu o pai. Herdara era maneira de dizer, pois nem a tia, tampouco ele, tinha qualquer documento de propriedade. Também ninguém se importava com isso. Era biscateiro. Pintava ruim, as torneiras consertadas logo voltavam a vazar, os pregos pregados saiam tortos, as paredes rebocadas nunca ficavam lisas e, um dia, ao se meter a eletricista, levou um choque, caiu da escada e daí levado a um hospital público com politraumatismo. Ficou em coma e ao acordar não se lembrava sequer do nome do hospital onde estava. Sabia ser grande, fracas luzes, cheirando a urina e a éter, ouvindo dia e noite choros, gemidos e gritos, e as pessoas de branco o tratando apenas como o prontuário 35 da enfermaria 07. Engessaram braços, tronco e pernas. Enfaixaram a cabeça. Ninguém dizia seu nome, não falavam com ele. Apenas aplicavam injeções, faziam curativos, abriam sua boca e colocam pílulas com um pouco de água. Todo engessado criara escaras nas costas. Ele sabia que ia morrer, até porque a vida não o interessava mais. Gemia baixo até quando sentiu que uma auxiliar de enfermagem o tratava com muito carinho. Não sabia nada de amor, mas notou que ela ficava mais tempo que as outras ao lado dele. Limpava-o, penteava seu cabelo, brincava com ele, mas pouco se falavam. Os olhos eram os mensageiros. Ela aparecia pela manhã e ficava até o fim da tarde. Às vezes, pela madrugada. Tirava turnos de colegas, o cobria de atenções e sempre arranjava uma comidinha extra. Ele foi dando atenção à vida. Viu-se pedindo a Deus para ficar bom. Um ano depois, estava sarado, com pequenas sequelas e uma carteira de aposentado na mão rendendo um salário mínimo mensal. Olhou para a auxiliar de enfermagem, a sua, ao sair do hospital e criou coragem para perguntar: quer morar comigo? Ela respondeu: não. Você é que vai morar comigo. E saiu protegendo o seu ainda lento andar. O dia estava claro e as nuvens brincavam nos céus. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/07/2002. - [VINTE ANOS SEM ELE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/vinte-anos-sem-ele/): Ontem fez 20 anos. Fortaleza amanheceu estarrecida com o acidente do avião da Vasp na serra de Pacatuba. Naquela oportunidade, publiquei, neste mesmo DN, o artigo que ora tomo a liberdade de reproduzir. “É difícil entender certas coisas. A morte, por exemplo. É cruel admitir a nossa dimensão diante dos fatos. Quem não está abalado e, guardadas as proporções, um pouco morto com o desastre de ontem? Senti, com a minha incapacidade de mudar os fatos consumados o drama pungente de tantas famílias hoje esfaceladas. É triste reconhecer que a mão do destino atingiu, de uma só vez, tantas pessoas que, na sua maioria, tinham o único objetivo de trabalhar e produzir. Desse binômio, trabalho e produção, fizeram sua crença e sobre ele montaram suas empresas, tais quais templos contra o subdesenvolvimento. Imagino a alegria dos que voltavam da Fenit, alguns pela primeira vez. Extasiados pelo sucesso do que produziram, jamais poderiam admitir que seus compromissos não iriam tão longe. Desses jovens empresários, forjados na camaradagem e na disputa que, ao mesmo tempo, os unia e separava, fica a lembrança de que, de forma espontânea, estavam dando uma contribuição valiosa e decisiva para o futuro do Ceará. Cada um deles, na dimensão de seu universo, estava se sentindo um Edson Queiroz e o destino trouxe exatamente esse mesmo Edson Queiroz para paraninfá-los em sua última viagem. Sobre Edson Queiroz não se pode falar sem passionalidade, sem que se invoque tudo o que ele fez. O que dizer de um vitorioso? O que dizer de um obstinado? O que dizer de um líder? O que dizer de um fanático do progresso? O que dizer de um idealista prático? Se é que se pode ser idealista e prático ao mesmo tempo. De nossa parte, fica a lembrança de um homem quase sisudo, com risos largos quando descontraído, um homem nervoso como todos os que têm uma dimensão maior do universo e um trabalho com 10.000 companheiros que o tinham como comandante. O engraçado ou paradoxal é que ele morreu como viveu: em um avião de classe econômica, aproveitando a noite para ter mais disponibilidade de tempo para o trabalho, voltando para a sua terra querida, em alta velocidade e, mesmo sem o querer, como a estrela maior desse acontecimento”. CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2002. - [APRENDENDO A DESAPRENDER](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aprendendo-a-desaprender/): Estudo administração há muitos anos e tive sempre o cuidado de andar pelo mundo, de olhos bem abertos, para ver o que ensinavam e praticavam por aí afora. Li livros, revistas, teses e artigos. Participei de cursos, congressos, seminários, debates, mesas-redondas e jornadas. Escrevi ensaios, artigos, dirigi empresas e elaborei planos e projetos. Hoje, vejo sem medo, que é preciso desaprender quase tudo o que aprendi. As mudanças na área de gestão foram muito grandes e a velocidade da informação mexeu com todos os paradigmas válidos até quase o final do século passado. Para citar um exemplo, Maurício Góis, publicou em fevereiro deste ano, no Venda Mais, on line, uma série de maneiras novas de pensar, chamadas de mudanças, que precisam ser entendidas e seguidas para que se tenha a capacidade de sobreviver no trabalho ou na direção de uma equipe ou empresa. Hoje, sabe-se que o trabalho não é mais emprego, no sentido de segurança. Você hoje está empregável. Amanhã, sabe Deus. Por outro lado, o profissional, qualquer que seja o nível, não deve ser um mero subalterno, mas um colaborador, alguém que critica e interage, pois deve ter a cabeça arejada, grau razoável de sociabilidade e ter, vá lá, a tal da inteligência emocional, entendendo o que é dito e, principalmente, o não verbalizado por palavras, mas atitudes. É preciso fugir das ideias velhas e procurar novas, sempre. Pesquise, invente, descubra oportunidades e faça as coisas certas, repasse os seus conhecimentos para o maior número de pessoas e veja o mundo como se fosse a antiga idéia de país. O talento, a informação, o conhecimento e a responsabilidade social são o capital que darão qualidade ao seu desempenho e longevidade à sua vida como trabalhador ou chefe. Não esqueça nunca que você está fazendo alguma coisa para alguém. Esse alguém é o cliente. E cliente é para ser bem tratado e não enrolado ou enganado. Se o seu serviço não presta o cliente não volta. Daí é preciso que todos os integrantes da micro à grande empresa, isto é, da birosca da esquina à grande indústria, melhorem a qualidade dos serviços, modificando processos sempre, e persevere na avaliações de desempenhos. Se você não ajuda com afinco a sua empresa, ela vai para o brejo e o seu emprego para o espaço. Não acredite em chefes ou patrões bonzinhos. Acredite em pessoas justas que cobrem eficácia e estejam dispostas a ajudá-lo a aprimorar os seus conhecimentos seja em cursos, videoconferências, viagens ou lazer e artes. Não acredite que o tempo resolve tudo. Você é que vai passando, o tempo é o tempo, nada mais. Atualize-se, pois a cada dia mais gente está querendo o seu lugar ou montando uma empresa parecida com a sua. O uso que fará de seu tempo é que mostrará a eficácia do seu talento, capacidade e energia despendidos. Não esqueça nunca de viver em paz com você mesmo e lembre-se de que pensar sempre é, talvez, a grande diferença. Afinal, como é óbvio, o dia tem a mesma duração para todas as pessoas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/07/2002. - [A CORÉIA JÁ GANHOU](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-coreia-ja-ganhou/): Amanheci o dia de ontem vendo a prorrogação do jogo entre a Espanha e a Coréia do Sul. Não discuto os erros do juiz egípcio. O concreto é que a Coréia do Sul saiu classificada e vai disputar uma das semifinais da Copa do Mundo de Futebol. Como não sou cronista esportivo, o que me veio à mente ao ver aquele mar de camisas vermelhas no estádio foi o espírito do povo coreano. Estive na Coréia e no Japão e, observando atentamente, pude ver como são diferentes essas duas civilizações. “Japonês e coreano é tudo igual”, dizemos nós. Puro engano. O Japão é imperial, cauteloso, cerimonioso e de cultura milenar. A Coréia é revolucionária, rebelde, descontraída, obstinada e ainda guarda a mágoa da dominação, por séculos, do Japão. Qualquer enciclopédia mostra isso. Dê uma olhada. Na segunda metade do Século XX a Coréia foi dividida em duas e teve uma luta fratricida que ainda hoje perdura. A “Guerra da Coréia” ocorreu logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. A Coréia foi dividida em duas. Os Estados Unidos colocaram seu tacão na Coréia do Sul e os comunistas na Coréia do Norte. A Coréia do Norte ainda vive em situação adversa e as tentativas de união, embora lentas, prosseguem. Mas, o que vai destacar aqui é o espírito do povo da Coréia do Sul. E, certamente, é esse espírito, a tal da autoestima, o grande vencedor dessa competição particular travada entre a Coréia do Sul e o Japão. A Coréia do Sul não perdoa as humilhações sofridas dos dominadores japoneses. Houve um tempo em que os coreanos eram apenas mão-de-obra barata, quase escrava, para o Japão. Depois da Constituição de 1980 a Coréia tomou, literalmente, um chá de dignidade e resolveu crescer, sempre com o objetivo de suplantar o Japão. O que, na verdade, ainda hoje está longe de acontecer. Mas, sediou, com sucesso, as Olimpíadas de Seul em 1998 e a sua capital é bonita e alegre. Fez fincapé e não aceitou que o Japão fizesse sozinho a Copa de Futebol deste ano de 2002. Lutou e é co-anfitriã. A primeira vez no mundo em que uma copa é disputada em dois países. Em qualquer cidade da Coréia do Sul as pessoas riem nas ruas, recebem bem os turistas e todos, especialmente os jovens, têm uma meta: suplantar o Japão. Ontem, no futebol, a Coréia do Sul lavou a sua honra. Está entre as quatro melhores seleções de futebol do mundo e o Japão, desclassificado. Essa é a copa particular já vencida, mas, obstinada, quem sabe, vai lutar por mais, como é de sua índole. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/06/2002. - [AS TRÊS BEBIDAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-tres-bebidas/): Era a primeira vez em que essas três mulheres estavam reunidas. E foi à noite, na mesa de um bar, em meio à rua, ouvindo os passantes e até os ruídos de um camelô imitando gatos num saco. Somavam anos, enganos e desenganos, mas se mostravam educadas e gentis, embora, como já disse alguém: mulher é sempre muito severa ao julgar uma semelhante. Sem que combinassem, sorviam bebidas diferentes. Uma, a mais velha, a observadora, ficava com o gosto amargo do Campari, como se estivesse sentada em uma pizza italiana. A outra, a risonha, deliciava-se com o calor da tequila transformada em Marguerita numa imaginária bodega mexicana. A terceira, a sonhadora, foi buscar nas terras altas da Escócia o seu néctar e, como se num pub londrino estivesse, bebia goles do seu uísque. O Campari poderia ser apenas uma bebida, mas também retratar uma trajetória, mostrando como nada havia sido doce e ameno. O amargor da bebida parecia ser a confirmação da luta já tão larga em tempo e que ainda não quedara suave, pois ora navegava em meio a procelas, sem que fosse barcaça ou timoneira. A Marguerita talvez simbolizasse a sexualidade forte, aguçada pelo sal da borda da taça. Só que não se vive na borda e aí o agave da tequila mostrava a crueza da aguardente, sem refino e sem sofismas. O Uísque é uma bebida longa que vai entorpecendo as dores, aguçando os sentidos e tentando repor a alma em seu devido canto, mesmo que o pranto já não brote pelos olhos, mas umedeça o coração. E a conversou tomou o rumo dos descompromissos. A mais velha usou de sua argúcia para dizer verdades, misturando verve com a crueza da realidade, sem perder o senso de humor que se fazia vário. A da marguerita apenas intervia, como uma moderadora de diálogos, a espicaçar, fustigar e plantar revelações na boca de cada interlocutora. A terceira, despia-se de suas mágoas e mostrava a inquietude guardada com cautela, mas transbordante em gestos e amuos. A carne crua do salmão era o único elo entre elas. Um elo tenro que, pouco a pouco, desaparecia entre pequenas e literais garfadas, só acompanhadas do pão torrado que já perdera suas características e propriedades. Mas, era noite leve e tudo se dizia sem medo, sem reparar que, em mesa contígua, pessoas estranhas a tudo ouvissem. Importava não, eram as dores do mundo que as tornavam semelhantes, embora, quem sabe, pouco tivessem em comum. CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/05/2002. - [O SILÊNCIO NA MESA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-silencio-na-mesa/): Estávamos, os mesmos de sempre, almoçando na sexta-feira passada, quando o telefone tocou e fomos informados da morte de Tancredo Carvalho. A conta já havia sido pedida e não existia mais ambiente para conversa. Faltava ânimo, sobravam silêncio e tristeza em homens que já estão aprendendo a perder amigos. Não se disse mais palavra. Cada um saiu à sua maneira, pois, apesar da gravidade da doença, ainda contávamos com a esperança. Tancredo era um velho amigo desde os tempos de juventude que se tornou jornalista por seus próprios méritos. Ainda adolescente fez jornalismo esportivo. Adulto, abraçou o jornalismo político com fé e descortino. Colunista, passou a editor político consagrado, transmudando-se em editor chefe, dando conta do recado, sempre com profissionalismo, mas com a afabilidade e a bonomia que o caracterizavam. Convidado por César Cals, foi seu porta-voz no Governo do Ceará, permanecendo amigo de seus amigos, mas sabendo sempre distinguir o público, do privado. Ao ser escolhido Ministro de Minas e Energia, César Cals o convidou, mais uma vez, para assessorá-lo. Com simplicidade, dignificou o seu cargo, sendo sempre o conselheiro arguto, discreto e leal, acompanhando-o pelo mundo afora, cuidando com zelo da imagem de um ministro que tinha contra si o fato de ser nordestino, em meio a um mar de interesses. Voltando ao jornalismo, reviu-se editor-chefe, até que foi chamado a implantar e dirigir, com equilíbrio, uma emissora de televisão onde fez brilhar o seu espírito alegre e vivaz criando tipos e personagens que hoje fazem escola. Ao mesmo tempo em que cuidava de sua atividade profissional era sempre o eterno namorado de sua mulher e cuidadoso pai de filhos que estão aí adultos e bem-criados, tendo como exemplo a parcimônia de um homem honrado que conhecia e vivia dentro de seus limites. Há anos, muitos anos, éramos amigos de convivência semanal integrando um grande grupo, além de um regular almoço às sextas-feiras. Pois foi justo numa sexta-feira que Tancredo nos deu uma lição, expirando na hora em que acabávamos de almoçar, como se nos mostrasse, sem alardes, que seu tempo estava cumprido e alertava para a nossa desimportância. CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/05/2002. - [ESCOLARIZAR A SELEÇÃO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/escolarizar-a-selecao/): Parece que os brasileiros com razoável nível de conhecimento não confiam muito na capacidade de Felipe Scolari. Suas entrevistas às estações de televisão demonstram, salvo erro da maioria, como é tosco o técnico da seleção brasileira de futebol. Quando jogador era defensor, daqueles que a bola passa e o adversário fica. Dizem que Felipe Scolari tem curso de educação física. Se o tiver, deve ter sido um desses muitos que pululam por aí afora e que não merecem comentários. Já vai longe o tempo em que um técnico em qualquer área esportiva era um mero entregador de camisas. Os técnicos modernos, além de conhecerem a sua profissão, devem ser proativos, motivadores, líderes com características de ousadia e intuição da exigência de novos conceitos para modificar velhas abordagens, de tal modo a aproveitar o potencial de cada atleta. E, para usar uma palavra da moda, precisam entender de planejamento estratégico. Basta ver o comercial de um refrigerante em que Felipe Scolari atua como garoto-propaganda para sentir que, apesar de todos os ensaios e recursos publicitários, o nosso selecionador fica de sofrível a medíocre. Não precisa ser filólogo para saber que os aumentativos usados nos prenomes são, via de regra, resultantes de dois fatos: ou a pessoa é gorda ou é considerada bronca, desajeitada, debochada etc. O nosso Felipe é Felipão e não é gordo. A futrica da convocação ou não, de Romário demonstra à saciedade o nível do futebol brasileiro atual. Romário ainda é um grande jogador, mas está com 36 anos e leva uma vida extracampo que todos conhecem. Apesar disso, é objeto de pesquisas, pedidos de políticos e destemperos verbais do treinador. Ora, se um país deseja que a sua seleção de futebol seja campeã não deve – e nem pode – depender de qualquer jogador e sim de uma equipe homogênea, mas a cada jogo a escalação muda e um empate com Portugal é saudado como positivo. Espero que estas minhas observações, feitas 40 dias antes do início da Copa, estejam erradas e que a seleção brasileira de futebol saía da Ásia como campeã, mas desafio a qualquer leitor para dizer agora, pelo menos, o nome de sete jogadores que considera titulares. Escreva e confira depois. Desafio também que digam os nomes dos clubes e os países em que esses jogadores atuam. Hoje, mais que nunca, o futebol está contaminado por interesses de empresas multinacionais sem pátria ou emoção e de muitas pessoas que vivem do futebol sem saber nada dele. Vou torcer pela seleção, é claro. Mas não acredito que haja tempo de escolarizar esta seleção, de torná-la crível. Acordarei pela madrugada, gritarei, xingarei, mas, em sã consciência, não faço fé. Aceitam apostas? CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/04/2002. - [VIOLÊNCIA AO VIVO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/violencia-ao-vivo/): Estava dirigindo meu carro em estreita rua da cidade, com veículos estacionados em paralelo, enquanto um jovem, conduzindo uma pick-up preta incrementada, ia à minha frente. De repente, freou bruscamente. Já desceu de punhos cerrados e saiu batendo em dois homens, bêbados e completamente fora da realidade, andavam abraçados no meio da via, atrapalhando o já conturbado trânsito. Em questão de segundos, vi um festival de pancadaria. O jovem motorista, de camiseta cavada e tatuado em um dos braços, sentiu-se incomodado com os bêbados que, mais para lá do que para cá, tiveram a audácia de, nos seus andares cambaleantes, encostarem-se na reluzente camioneta. Sentado estava, sentado fiquei a observar. Atônito, descobri que o vidro do para-brisa do meu carro parecia uma tela de cinema com um filme violento em versão local. A agressão do jovem motorista não ficou só nas pancadas desferidas. Quando os dois bêbados tentaram, de forma atabalhoada e até cômica, reagir, como se também atletas fossem, o rapaz tatuado correu, abriu a porta de sua camioneta e de lá retirou uma arma com a qual passou a ameaçar os “perigosos” bêbados. Felizmente, não houve tiros, pois muita gente foi juntando até que apareceram uns pedindo calma e levando os bêbados, já cheios de hematomas, para longe. Buzinei, olhei para o agressor e, por gestos, falei que o seu carro – atravessado e de porta aberta - estava atrapalhando o trânsito. Olhou firme para mim e, talvez por minha calma, resolveu sair e me dar passagem. Tudo isso ocorreu nesta semana. Durou uns dez a quinze minutos, em pleno cair da noite na Rua dos Tabajaras, na Praia de Iracema, área turística da cidade. Não apareceu nenhum policial, civil ou militar, tampouco os guardas azuis da autarquia do Trânsito, a AMC. Alguns turistas estrangeiros, apreensivos, ficaram longe e olhavam desconfiados. Talvez imaginassem também estar assistindo uma filmagem com cenas de violência, mas não havia nenhuma câmera em ação. Era apenas a realidade de mais um início de noite na Praia de Iracema, com seus pontos de venda de drogas, suas prostitutas nas esquinas e onde alguns bares são meros antros de pedofilia. Não adianta construir hotéis, planejar um monumental centro de feiras e convenções, se não se cuida do básico, a segurança pública, sem a qual nada disso vale nada. Quem escapar da violência, verá. CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/04/2002. - [ROSEBUD E A JANGADA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/rosebud-e-a-jangada/): Quem conhece a filmografia de Orson Welles sabe que o criador de “Cidadão Kane” era um ser estranho, mercê de toda a sua genialidade. Revi, nestes dias, Cidadão Kane e, em seguida, li o livro “Orson Welles no Ceará”, do crítico de cinema Firmino Holanda.Com maestria, Holanda narra a filmagem não concluída de “It’s all true” (É tudo verdade) e, especialmente, descreve, como agradável cronista, a ambiência da época. O livro é bom no começo, meio e fim. O filme Cidadão Kane, para os que ainda não ouviram falar sobre ele ou não tiveram a ventura de assisti-lo, trata, em rápidas pinceladas, da história de um menino pobre que, ao receber uma inesperada herança, sai da província, estuda, cresce e vira um magnata da imprensa, casa, tem uma amante, tenta a carreira política, sofre chantagem e cai em desgraça. Durante as suas filmagens, Orson Welles, que tinha como referência a vida do empresário jornalístico William Randolph Hearst, monta um jogo psicológico forte e, por conta disso, padeceu deste todas as formas de restrições, ameaças e bloqueios, só concluindo-as graças à tenacidade que os seus 24 anos lhe conferia. Foi acusado até de comunista, por atacar um ícone do capitalismo americano e mostrar a sua decadência. Era 1941, os Estados Unidos entrava na II ª Guerra Mundial e o patriotismo americano, como acontece em épocas de crise, estava exacerbado. Talvez para provar não ser comunista, Orson Welles, fazendo parte da “política da boa vizinhança” encetada pelos Estados Unidos, veio filmar no Brasil no ano seguinte, 1942, o que seria o filme não concluído, “Tudo é verdade”. Filmou o carnaval de 42 no Rio de Janeiro e veio ao Ceará, motivado por uma reportagem da revista “Time” sobre a aventura de quatro jangadeiros cearenses que viajaram mar afora, sem bússola e sem mapa, de Fortaleza ao Rio de Janeiro. Welles desceu no campo de pouso do Alto da Balança, hospedou-se no Excelsior Hotel, enturmou-se no Jangada Clube, um bucólico bangalô na Praia de Iracema à beira mar, onde parte da elite de Fortaleza se encontrava, e reuniu os heróis do mar para ouvir a narrativa de sua epopeia. Conviveu com ricos, mas tomou-se de amores pelos pescadores que, àquela época, aportavam suas jangadas na Praia de Iracema, especialmente Manoel Jacaré, o líder do grupo do raid destemido. Manoel e os seus companheiros voltaram ao Rio para, com Welles, filmarem a chegada triunfal (já acontecida) à antiga capital da República. Um barco - com os equipamentos e o pessoal de filmagem – puxava a jangada. O cabo soltou-se, a jangada virou e Manoel Jacaré desapareceu para sempre na baía da Guanabara. Volto ao Cidadão Kane para falar de um pequeno trenó que o personagem principal, quando criança, usava para deslizar no gelo e cujo nome, Rosebud, é uma espécie de enigma até o final do filme. Agora, uma ideai me ocorreu: seria a jangada uma espécie de trenó dos mares a fazer uma ligação no imaginário de Welles? Ou o mastro que teria batido na cabeça de Manoel Jacaré seria a antevisão da marca da maldade de Welles? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/03/2002. - [A MULHER SOBE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-mulher-sobe/): Anteontem foi o Dia Internacional da Mulher, como todos já sabem. Foram prestadas homenagens naturais e muita coisa foi dita e escrita. Nesse dia 08, por dever de ofício, acompanhei Cecília Soto, embaixadora do México no Brasil. Cecília não é diferente da maioria das mulheres da geração que nasceu nos anos 50. Órfã de mãe, estudou em colégio católico, formou-se em jornalismo, casou com um biólogo - que não era o preferido por seu pai -, teve um casal de filhos e, contestadora, ingressou na política, por conta de suas opiniões firmes nos artigos que escrevia em muitos jornais mexicanos. Elegeu-se deputada estadual e, posteriormente, deputada federal. Fugindo dos grandes partidos de seu país, PRI e PAN, filiou-se a um pequeno, o Partido do Trabalho - uma espécie de PT deles, com coloração esquerdista - e teve a ousadia de se candidatar à presidência da República do México. Sem recursos financeiros e não dispondo do apoio da grande mídia, conseguiu uma consagradora votação, mas não foi eleita. Voltou ao jornalismo, sendo seus artigos de opinião republicados por dezenas de jornais em vários estados mexicanos. Na última eleição presidencial criticou os candidatos em debates, programas de rádio, televisão e em seus artigos deixava claro suas opiniões sobre o que entendia ser o melhor para o seu país. Ganhou Vicente Fox, a quem criticara, derrubando a dinastia do PRI que comandou o país por mais de 70 anos, prometendo mudanças fortes na estrutura de poder. Cecília Soto foi surpreendida por um convite que nunca imaginou receber. Jorge Castañeda, ministro das Relações Exteriores, em nome do presidente Fox, a convocava para ser a embaixadora do México no Brasil, considerado o maior posto diplomático em toda a América Latina. Pensou e aceitou com o objetivo de aproximar os dois países tão parecidos, mas ainda distantes em relações de negócios. Hoje, com a desenvoltura de uma diplomata de carreira, Cecília Soto trafega em meio a dirigentes de organismos internacionais, ministros e chefes de estado. Em Fortaleza, para a assembleia anual dos governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento, conseguiu conciliar a sua agenda oficial com contatos com a imprensa, da qual nunca se desligou, e passar mensagens positivas em reunião com mulheres das mais diversas profissões. Uma jovem senhora acercou-se dela e perguntou qual o segredo de tanta energia. Ela não teve dúvida em responder em meio ao riso que a caracteriza: fazer cada coisa no tempo devido, com amor e acreditar que o trabalho é uma forma de mostrar a cada mulher o seu valor. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/03/2002. - [LUA DA MEL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lua-da-mel/): Procurei descobrir a origem da expressão lua-de-mel e encontrei quatro versões. Todas muitas antigas, as duas primeiras meras lendas. Na antiga Germânia, Alemanha de hoje, os noivos casavam à época da lua-nova e levavam uma mistura de água e mel para beber ao luar em busca da felicidade. A segunda: no tempo em que as jovens eram capturadas, muitas vezes contra sua vontade, os raptores escondiam-nas por um mês, de uma lua-cheia a outra lua-cheia, para apaixoná-las, ou convencê-las a casar e, para isso, davam-lhes uma bebida afrodisíaca à base de mel que, segundo a lenda, surtia bom efeito. A terceira, deve-se a um costume dos romanos que untavam com mel a soleira das portas dos noivos. E a quarta, entre os povos orientais, os noivos recebiam mel e vinho e depois se retiravam, permanecendo longe do povoado por certo tempo, o equivalente a uma lua, que poderia significar uma semana ou um mês. Não é preciso conhecer a origem da expressão vinda do latim (luna, lua e melle, mel), nem o tratado sobre as abelhas, a melissografia, para saber ser o mel tirado do néctar das flores, e guardado em favos ou alvéolos, para servir de alimento às suas larvas ou às pessoas. E também que designa, desde tempos imemoriais, as primeiras semanas seguintes ao casamento. Anteontem foi lua cheia. Fase em que esse astro feminino está visível, claro, belo e pleno de luz. Saí de onde estava e, por momentos, fiquei só, ao relento, olhando para a distante lua, a me fazer perguntas sem encontrar respostas. Era plenilúnio. O terceiro dia de lua cheia quando ela refletia o esplendor de sua luminosidade naquela noite entre preces, risos, cânticos, choros, cumprimentos, abraços, votos, luzes, flashes, músicas, comidas e bebidas, De vez em quando uma nuvem branca, outra mais espessa, encobria a fosforescência da regente das marés e das mentes. Soprava um vento e eu absorvia o ar como fonte de energia, pois a emoção dava um sacolejo na alma fazendo o corpo responder por reflexo. Mas, como a volubilidade da própria lua, isso também passou. Anteontem, para quem não se lembra, foi primeiro de março. Sessenta dias desde que o ano começou e, como se sabe, o ano é o pai de todos os meses e dias. Segundo um calendário-folhinha, editado em Petrópolis, era o Dia da Oração da Mulher. Sou pouco de ave-marias e pais-nossos. Mesmo assim, por mais alinhavada que fosse, brotou lá de dentro uma oração em meio a sentimentos vários. Nessa mesma folhinha, um pensamento de Madame de Staël: “quando sozinhos, vigiemos nossos pensamentos; em família, nosso gênio; em público, nossa língua”. Pois é. Voltei a olhar a lua e ela não estava entre os astros distraída. Batia firme, bisbilhoteira, espreitava tudo, teimava em pratear as flores. Independente das cores, mostrava sua face inteira, arredondada, como a dizer que o mundo gira e nos leva de roldão, sem que o presente seja sempre a linha reta ligada ao passado e tampouco o futuro a mera e única esperança do hoje. Quis fazer mais uma pergunta e eis que uma nuvem a cobriu, por certo a esquivando de mim. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/03/2002. - [CANTO DE AMOR A FORTALEZA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/canto-de-amor-a-fortaleza/): Um dia desses pediram-me para escrever algo sobre a cidade de Fortaleza. Disseram-me que os visitantes, a quem a mensagem era dirigida, não sabiam nada da cidade e seria preciso iniciá-los e orientá-los. Vejam o que escrevi. Chegue manso, sem alardes, sem pompas. Fortaleza, esta cidade tão altaneira quanto seu nome e tão leve quanto a sua brisa, não combina com paletó e gravata ou vestidos de noite. Ela pede descontração e sorriso. Sinta o sol radiante, a brisa gostosa e o povo singular que alia compromisso com o futuro, sem perder as raízes do seu passado, mas não esquece de viver o hoje. Como se fosse mágica, Fortaleza têm multifacetadas caras, conforme a hora e o lugar, pois, sendo mulher charmosa, é vaidosa. Mas, em nenhuma face, se vê sinal algum de envelhecimento. Possui corpo vivo, gracioso, radioso e o que mais se sente é o seu pulsar constante beirando e beijando o mar, das margens dos rios Ceará até o Cocó. Suas águas mornas, uma mescla de verde marinho e azul escuro, batem na praia em nuvens dançantes de algodão tal qual movimentos de sístole e diástole. Faceira, maneirosa, trejeitosa e de contornos indefinidos, vai quase forçá-lo a fotografá-la, mas a emoção pode ser tão grande que o filme chega a velar e perder os múltiplos focos, pois, como se você usasse uma velha máquina fotográfica, aperta o obturador no instante errado. Não tenha pressa. Dá tempo de ver a antiga Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, a Praça do Ferreira, o Teatro José de Alencar, a Praia de Iracema com o pôr-do-sol da Ponte Metálica e os bares e restaurantes à noite, a Catedral, o Centro Dragão do Mar, os mercados Central e dos Pinhões, a feirinha na Av. Beira Mar, as jangadas do Mucuripe, comer pratos típicos em restaurantes simples e bons ou regalar-se em sofisticados lugares, afinal a conta é sua. Ande a esmo, fale com qualquer um, todos são gente igual a você, nem melhor, nem pior, só mudam o timbre da voz, o lugar onde moram e a forma como veem o mundo. Tendo tempo, viaje pelos arredores. Praias para todos os lados e gostos e, por pouco mais ou quase nada, você presenteia seus olhos com dunas e falésias e ouve histórias brejeiras. Não é pretensão e não se assuste. Você vai se apaixonar por Fortaleza. Ela é assim mesmo, encantadora e perturbadora. Ao voltar à sua cidade poderá sentir suores, o coração bater mais forte e as mãos frias. Não pense em consultar médico. Preocupe não. Você apenas contraiu o vírus de amar Fortaleza. Só existe um remédio: voltar sempre, pois ela pode ser o antídoto para os seus males. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/02/2002. - [CARNAVAL E CUCA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/carnaval-e-cuca/): Hoje é domingo de carnaval. Este país imenso está imerso em fantasias e em quimeras e a realidade crua vai chegar, independente da nossa vontade, já na quarta-feira. Nelson Rodrigues falava com a sua rabugice costumeira: “nosso carnaval moderno é uma sucessão de quartas-feiras de cinza.” É claro que todos devemos ter consciência de que, vez por outra, é preciso dar uma parada. As pessoas, muito mais que as máquinas, precisam de descanso. Mas, o que é descanso para uns pode ser cansaço para outros. E este espaço não serve para dar receitas de bem viver, até porque minha vida também não é lá essas coisas todas. Dizia que toda pessoa, vez por outra, precisa de uma parada. Mas, como a máquina, essa parada só tem razão se auxiliar o nosso bem-estar. Imaginemos, por exemplo, uma pessoa que, dirigindo um carro, saiu de sua cidade com a família no dia de ontem, cheio de bagagem, dirige centenas de quilômetros em estradas ruins e movimentadas, vai para um local qualquer onde, via de regra, fica bem menos acomodada que em sua casa, come e bebe mais que o normal, dorme pouco porque vai a festas ou fica a ver os desfiles das escolas de samba. Terça ou quarta tome estrada de novo, e lá se vem mais uma família estressada, apesar dos cinco dias de descanso. Marido e mulher discutindo e meninos reclamando, isto sem falar no trânsito. Posso estar exagerando, é verdade. A pergunta, porém, persiste: valeu o “descanso”? Cada um pode responder a essa pergunta, mas seria bom imaginarmos porque, por exemplo, os fabricantes de automóveis estabelecem revisões – que são paradas – periódicas. Nessas paradas é feito um exame de todo o veículo. Da mesma forma, deveríamos aproveitar essas paradas que o calendário nos dá. Fazer coisas simples. Dar uma geral em nosso corpo e nossa cuca: como cortar cabelos, examinar as unhas, medir a cinturinha e comparar com o furo do cinturão velho. Abrir a boca, olhar os dentes, tentar fazer aquele exercício que nos foi recomendado e relaxamos. Conversar, brincar com os filhos, rasgar papel velho, andar a pé, separar roupa que não se usa mais, telefonar para alguém distante, ler, escrever ou ver aqueles filmes velhos tipo Casablanca, Cidadão Kane, Tempos Modernos, Cinema Paradiso e outros atuais à sua escolha. É claro que, para quem gosta, vale a pena dar seus pulinhos, tomar cerveja e se meter no meio do frege. Faça o que gosta, mas tome cuidado para não virar estatística, pois os jornais, as rádios e as televisões ficam de plantão só para dizer dos acidentes fatais, dos comas alcoólicos, das brigas de ruas e de tudo o que foge ao normal. Dê um jeito de esquecer o computador, esse tóxico que causa dependência e não nos deixa desligar. Permita-se andar descalço, ficar alheio, rindo até das bobagens que já fez, e tente segurar, com carinho, a mão de quem você gosta. É tão simples e faz bem à cuca. Caso contrário, previna-se. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/02/2002. - [O VENDAVAL E O VOTO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-vendaval-e-o-voto/): Todos nós estamos atônitos. O século XXI continua a aprontar. Depois dos atentados aos Estados Unidos em 11 de setembro do ano passado, a eterna briga entre israelenses e palestinos parece coisa da Idade Média. Enquanto isso os Estados Unidos ameaçam invadir o Iraque com armas nucleares e segundo especialistas em fome a cada 04 segundos uma pessoa morre por absoluta falta de comida no mundo. Os índices de violência, sequestro, estupro, pedofilia e crimes contra a vida aumentam de forma assustadora e os economistas descobriram tardiamente, o que todos desconfiavam, não sabem fazer previsões e continuam falando. Há recessão, desemprego, inadimplência, denúncias de corrupção, falta dinheiro para as empresas girarem seus negócios, o dólar dispara, a credibilidade do Brasil fica comparada à da Nigéria, os funcionários públicos reclamam por aumentos, o governo consolida impostos que se diziam temporários, as fiscalizações exorbitam, os advogados aumentam suas clientelas e a Justiça fica abarrotada de ações. Por outro lado, cá em entre nós, haverá eleições em outubro e tudo é prometido, além de tudo ser permitido a uma imprensa dita investigativa, a maioria a serviço de interesses, mas que falseia a verdade, julga sem provas e condena, como se tribunal fosse, os que não são de seu agrado. Os marqueteiros, senhores da ilusão e criadores de mitos, exultam pela capacidade de mistificar, de propor o que sabem não ser possível realizar. O que vale é iludir, confundir, difundir e denegrir o outro. É como se fosse um grande festival de ilusionismo misturado com centrais de fofocas e fofoqueiros espalhados por todo o país. A partir desta semana serão abertas as caixas de pandora com os programas eleitorais gratuitos nas emissoras de rádio e televisão. Todos terão soluções, serão simpáticos, mostrarão suas famílias, brincarão com crianças, abraçarão velhos, dirão que são melhores que os adversários e justificarão alianças. Vejam com os seus próprios olhos e escutem com as suas ouças. Julguem pelas histórias de vida de cada um, esqueçam os gestos teatrais, os cenários, as falas melífluas de locutores e os ares de bonzinhos. Você não perde tempo em ouvir e ver, desde que descubra, por seu próprio caminho, o que é cidadania, a certeza de que está no gozo de seus direitos civis e políticos e a responsabilidade ou dever de exercê-los. Tenha a capacidade de se indignar ou apaixonar, dar respostas aos criadores de vendavais, aos que estão aí há muito tempo e só falam em futuro, como se eles não estivessem comprometidos até agora com o nosso passado e não vivessem neste presente tão árduo e carente de homens públicos verdadeiros. Sua arma contra o vendaval é o voto. É a sua flecha da esperança. E você poderá usá-la de forma silenciosa, sem medo, sem alardes, com os olhos no futuro que deseja e espera, sem esquecer o que prometeram e não fizeram no passado e presente, embora rindo, apertando mãos e dourando pílulas que ainda amargam em nossas entranhas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/02/2002. - [O PAÍS DO SONHO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-pais-do-sonho/): Uma vez, ao voltar de uma das minhas visitas à Alemanha, escrevi um artigo (Alemanha de raspão) em que disse que aquele país passava a sensação de estar pronto. Lá não há miséria, a segurança é perfeita, a economia é forte, os parques e as florestas são bem cuidados e o povo tem amor próprio. Hoje, após o segundo gol de Ronaldo, agradeci a Deus pelo fato da Alemanha já ter tudo. Nós precisamos de sonho, esperança e não nada mais parecido com o sonho brasileiro que futebol. Ganhamos com a alegria de meninos favelados que conseguiram, com os pés, a reverência de países ricos que os idolatram. É o menino pobre do interior pernambucano que se soma ao favelado carioca e este ao moleque gaúcho. São tantos, a maioria já rica e consagrada, pela graça de suas fintas e a pontaria de seus chutes. A Alemanha não precisava do campeonato. A Alemanha tem o Euro e pode trabalhar amanhã com mais afinco em suas milhares de fábricas robotizadas. O brasil sim precisava desta taça, onde não há concavidade, mas uma bola sendo erguida como se fora – e é – um cetro. Em meio a tanta crise, a uma campanha eleitoral marcada pela perfídia, a espionagem e o uso exacerbado do marketing, ao descrédito mundial provocado pela ganância de investidores sem pátria e sem hora, o brasil precisava beijar o ouro. Mesmo que de forma fugaz. Um país que, quem sabe, precise da rudeza e do sentimentalismo de um sargentão, que está faltando para colocar ordem em nossa grande casa. Avulta, em meio do Delírio coletivo, a certeza de que basta alguém falar grosso, bater na mesa e saber afagar, quando possível. Chega de parecer primeiro mundo. Não dá pra esconder nossas mazelas com a visita obrigatória de autoridades às escolas de samba. É preciso assumir o que somos, mas cozinhar a nossa dignidade com todo o misticismo inato. Paradoxal? Claro. Este é um país assim, nenhum se compara a ele. Esta lição do futebol nos remete à capacidade de manter acesa a esperança, mesmo que nos vejam com olhos atravessados, torçam o nariz ao nosso exotismo e não acreditam que a bagunça é a ordem do caos com uma pitada de felicidade. Queremos tão pouco. É só deixar que as favelas exportem talentos, que os intelectuais não sejam tão pomposos e a alegria para substituir a violência. Há neste país muito a fazer. Nada está pronto, tudo precisa ser cuidado e as pessoas podem se unir para isso. O futebol, na sua singeleza, nos aponta o caminho. Acreditem em sonho. Sonho tem cinco letras, as cinco letras do penta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/02/2002. - [PARA TER FÉ NO FUTURO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/para-ter-fe-no-futuro/): Dá para ter fé no futuro? A pergunta, feita de chofre por pessoa jovem e inteligente, de primeira linha, me pega de surpresa. Antes de tudo, preciso explicar o que entendo por pessoa de primeira linha. Penso ser aquela que, após um curso secundário bem feito, passa sem sobressaltos para o curso superior escolhido. Não o mais fácil, mas o que combina com a sua personalidade. Não na faculdade ou universidade mais camarada, mas na que dê respaldo à sua vida futura. É preciso ficar claro que o curso universitário é apenas uma etapa da vida de uma pessoa, importante para semear e consolidar conhecimentos, fazer estágios, sedimentar amizades, distinguir amigos de colegas e criar base para encarar o mundo com respeito, mas também com fé, sem medo de amar e ser feliz. Depois da universidade vem a vida real, a dureza. Dito isto, não tenho dúvida em repetir a pergunta (dá para ter fé no futuro?) e responder não e sim. Paradoxal? Pode ser, mas é simples de explicar. Não dá para ter fé no futuro se acredita que o paizão ou a mãezona vão continuar a quebrar todos os seus galhos, soltar aquela grana e conseguir um trabalho ou emprego legal, afinal, quem vai ficar lá é você. Não dá para ter fé no futuro se você faz de conta que estuda ou trabalha, não se relaciona bem com amigos, colegas e familiares. Viver é comunicar-se. É interagir, isto é, trocar ações, energia, sentimentos e visões. Não dá para ter fé no futuro se você sucumbe na primeira dificuldade e se escuda em desculpas esfarrapadas. Reconhecer erros e admitir falhas são atitudes que levam à maturidade, a compromissos para superá-los, descobrindo saídas alternativas ou refazendo o caminho percorrido. Dá para ter fé no futuro se você gosta de ler, de escrever, de rir de si mesmo, de pensar abstratamente e possui a consciência de viver em um mundo competitivo onde os mais capazes terão mais chances de êxito. Dá para ter fé no futuro se você for brincalhão, curioso, souber estabelecer juízos de valor e tiver uma memória razoável. Dá para ter fé no futuro se você for capaz de ir se apercebendo das mudanças de cada dia e acreditar que isso será uma constante. Dá para ter fé no futuro se você souber usar bem o computador como instrumento de trabalho e até de comunicação, mas sem esquecer de que as criaturas foram feitas para o olho no olho, para toques e nada substitui o relacionamento humano, por mais difícil que isso possa parecer. Enfim, a fé no futuro começa com a fé em você próprio, passa pela compaixão pelo outro e no amor compartilhado, sempre. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/01/2002. - [AS MISTURAS DO EVANDRO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-misturas-do-evandro/): Quem conhece Evandro Ayres de Moura sabe que seu livro “Histórias do Ontem e de Hoje” é a cara dele. É muita história vivida com fatos misturados, aparentemente díspares, mas todos fazendo parte do variegado cotidiano e do rico imaginário de um homem inquieto, inteligente, trabalhador, destemido, competente, amoroso, sentimental e leal. Não poderia ser diferente. Evandro é misturado mesmo. É cearense ou paraibano? Ama Sobral ou Fortaleza? Bancário ou advogado? Administrador ou político? Professor ou contador de histórias? Pai extremado ou marido apaixonado? Frequentador das rodas do Ideal Clube ou xingador nos estádios pelo time do Fortaleza? Religioso ou amante de versos fesceninos? Gosta da roda da Praça do Ferreira ou da turma dos sábados no Iate Clube? Quem optou por todas as respostas, acertou. Na linguagem dos jovens de hoje, poder-se-ia dizer: “Pense em uma pessoa ativa, agitada?”, pois essa pessoa seria Evandro. Há alguns anos seu coração, talvez cansado de tanta lida, pediu sossego, pois tinha acompanhado suas várias emoções de menino querido, depois sofrido e solitário, seminarista, estudante, revisor, jornalista, estudante de direito, bancário comum, pai de família, gerente de agência, presidente de banco público, professor, diretor de clube social, prefeito de Fortaleza, deputado federal e diretor de banco privado. Mas ele não concordou. Foi ao embate com a ajuda de médicos, refez-se tal como o sertão seco aparentemente morto tinge-se de verde e de benesses ao fim de chuvas copiosas. Redivivo, impôs-se a tarefa de registrar em livro, o que viu, sentiu, lutou e venceu. E o fez para gáudio de seus amigos, que são muitos, e de seus filhos. Quem conhece os filhos de Evandro sabe que está lidando com gente diferenciada. Cada qual com modo peculiar de ver o mundo e todos com acendrado sentimento de família. Isso é genético e produto do desvelo de Evandro e de sua discreta, fiel e diligente mulher, Aunésia. Como se formassem um casal de águias, protegeram seus filhotes, deram-lhe vida e amor, mostraram um céu sem limites e permitiram voos independentes. Cada um a seu modo, mas nunca esquecendo o velho ninho, permanente, grande, caloroso e generoso. Evandro finaliza seu livro mostrando, com propriedade, ser ele uma referência “que registra para os pósteros a memória de acontecimentos do passado por mim vividos ou presenciados, para preservar a história da região, do seu povo e de seus costumes”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/01/2002. - [ENTENDENDO O BRASIL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/entendendo-o-brasil/): Quando voltei de minha primeira viagem aos Estados Unidos, por conta de uma bolsa de estudos, fui perguntado por um repórter: do que gostou mais? Respondi, voltar para o Brasil. Soube que a entidade patrocinadora não ficou feliz. paciência. Era e é o que penso. Gosto muito deste país tão louco, sem pé nem cabeça, em que nós agradecemos a um sargentão, adequadamente chamado de Felipão, por ter lavado a nossa honra e tudo com os pés. Era o maior herói nacional e no primeiro jogo após o penta perdeu para o Paraguai. Levou vaia. Conheço quase tudo neste país. Já viajei por terra, mar, rio e ar. Converso com miseráveis, pobres, remediados e ricos. Este é o melhor país do mundo. Já andei por muitos lugares em vários continentes, mas não há nada que se assemelhe a esta terra. Ela é tão singular que tem dois descobridores: Pinzón e Cabral. Duas datas de descobrimento, uma independência onde não houve morte e uma república proclamada enquanto se pedia a volta do Imperador. Mais de 40 anos após a transferência da capital para Brasília os congressistas ainda têm direito, todos os meses, a passagens aéreas para o Rio de Janeiro, a antiga capital Os ecologistas, após mais de 500 anos, resolveram dizer que havia 5 milhões de índios à época da descoberta. Quem contou? Este país é tão louco que o candidato à Presidência do partido da situação diz que não concorda com o que os seus pares fizeram por oito anos. O candidato da oposição, tida até bem pouco como radical, ostenta ternos de costureiros internacionais, um candidato a vice que é um megaempresário, e fala hoje como um monge franciscano. Outro candidato se diz representante de Vargas e Juscelino e sequer havia começado a ler quando ambos faziam política. É pastor evangélico e o seu partido é socialista. Um é cearense, mas nasceu em São Paulo. É separado, mas luta pela eleição de sua ex-mulher, enquanto cuida com desvelo pela saúde da atual namorada. Ambas o apoiam com veemência. Cada candidato diz que os outros estão mentindo e que só ele fala a verdade. As emissoras de televisão e jornais se dizem isentos mas até um cego pode ver e um surdo ouvir por quem estão torcendo. E tudo com uma sinceridade que dá para rir. É tudo tão insano. Bandidos fecham ruas em sinal de luto por colegas assassinados e policiais encontram celulares, diariamente. nos presídios, embora todos sejam revistados ao entrar. Não dá para entender nada e não há cientista político que possa fazer um juízo profundo sobre os nossos valores. Rio quando ouço sociólogos e antropólogos procurando justificar o nosso status quo. Mas este é o país em que vivemos, amamos e pelo qual, patrioticamente, iremos às urnas no dia 06 de outubro acreditando que vamos salvá-lo. A velhinha de Taubaté já está com o título pronto e nós também. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/01/2002. - [SE É NATAL, POR QUÊ LER?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/se-e-natal-por-que-ler/): Neste domingo, você escolheu, entre tantas opções, ler esta crônica. Obrigado. Vá juntando as palavras e frases e veja se elas fazem sentido para você. Uma crônica é um relato simples, uma mistura da intuição de quem escreve e a sua oportunidade de falar do cotidiano. Hoje, o mote é dizer do Natal que aí está. Um natal sem fome, pregam uns. Um natal de paz, oram outros. Um natal sem injustiças, pedem todos. Um natal de amor, enfim. Mas, poucos se dão conta de que o Natal é uma etapa, o nascimento, a délivrance, a expulsão de um feto que deixa o útero após meses de gestação e, para viver, chora. Assim é o ensinamento deste Natal, mesmo que a nossa fé seja interesseira, a solidariedade seja falsa e amor se esfume na primeira intriga. De repente, não importa a nossa história pessoal. Estamos todos, queiramos ou não, envolvidos na aura de um tempo que há de vir. Sempre foi assim e é assim que deve ser, pois não importa o que somos, vale agora como estamos e o queremos vir a ser. E como estamos? Estamos perplexos pela pouca preparação de vida de cada um de nós para esta festa, repetida todos os anos, como se fosse um aviso ou chamamento que, independente do que compramos ou comemos, dá um sacolejo em nossas entranhas, tornando estranhas as mesquinharias a que todos estamos sujeitos. Esta festa é uma espécie de incenso virtual inalado, a penetrar em nossa pequenez. A fumaça perpassa, simbolicamente, os nossos chacras, sentimentos, a razão e as áreas de nossos corpos e mentes. Corpos e mentes talvez afetados por males reais ou imaginários, e sai... Sai, subindo o espaço sideral e leva uma radiografia do que somos, temos e podemos nos transformar ainda. Precisamos reescrever novos roteiros pessoais, mesmo que isso nos custe caro e as incompreensões surjam. Não é uma garfada segura que nos garante o alimento que necessitamos, mas o ofício de reescrever sempre o que precisamos e devemos, com os sinos da esperança que teimam em tocar dentro de nós, por mais descrentes e indiferentes que estejamos. Vale o lugar comum: este é um tempo mágico, mas, paradoxalmente, temos de arremessar fora cartola, habilidades de mágico e cartas marcadas. A magia de que se fala é uma conjunção e você, despido de suas verdades e certezas, pode sair do abstrato de sua realidade atual e imprimir o sonho que nunca teve coragem de viver. Se você chegou até aqui é porque valeu a pena. Feliz Natal. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/12/2003. - [MALEDICÊNCIAS E DESENTENDIMENTOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/maledicencias-e-desentendimentos/): Uma pessoa reclama das leituras erradas que fazem do que fala e de como vive. Diz que é incompreendida e que alguns, de boa ou má-fé, resolveram espalhar inverdades a seu respeito. Lamenta que não a conheçam na sua essência e façam coro a estórias, sem ouvir a sua palavra. Reclama que alguns não a conheçam como realmente é, desconheçam as atitudes que toma em situações emergenciais quando é preciso ter bom senso, comandar, discernir e ajudar o próximo. Pois é. O comum, e mais cômodo, é as pessoas fazerem leituras erradas dos outros. Os sentimentos de empatia, simpatia e antipatia são muito próximos, limítrofes, e dependem sempre da história de vida, da essência, do olho e do ouvido do outro. Nós somos o que somos, mas os outros imaginam que somos o que pensam que somos. E aí é que residem as grandes querelas entre gente que se amou, foi colega ou amiga. Um dia, rompem. São fatos, atitudes, e boatos que minam as relações de benquerença e amor. Chega um dia em que os arautos da maledicência são os 'vencedores', por plantarem a discórdia, a desunião e até a separação de pessoas que, mesmo cometendo erros, gostariam de ter alguém que lhes trouxesse alento. Falta, nestas horas, um pacificador, alguém leal às partes envolvidas, sem tomar partido. Ao contrário, sobram os que põem lenha na fogueira das fofocas, os que referendam leituras erradas, aqueles que trazem a 'solidariedade' não pedida, fazendo eco às tais maledicências e desentendimentos. Os maledicentes depois voltam para as suas vidas, tristes, alegres ou indiferentes por terem insuflado o rompimento de colegas, familiares, casais ou amigos.Os rompidos ficam lá, em suas solidões induzidas, questões a resolver, sem ter mais o apoio dos que lhes minaram a relação e que, via de regra, já estão atrás de outras estórias, fofocas e vítimas. Os 'solidários' voltam, quando muito, como Pilatos no Credo, de mãos lavadas, sem a emoção e o comprometimento da coragem para dizer: reconsiderem, reexaminem, não foi bem assim e, se foi assim, desculpem ou perdoem. Cada um precisa encontrar a sua própria resposta, sem medo de ceder e sem ódio. E não seria perda de tempo conhecer a letra traduzida da música ´My Way´. Cada um tem o seu jeito, o seu modo de viver, reagir, amar e ser amigo. E o importante é que o nosso jeito de ser possa, apesar dos pesares, aceitar o jeito de ser do outro. E vice-versa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/12/2003. - [KENNEDY, 40 ANOS DEPOIS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/kennedy-40-anos-depois/): Ontem, 22 de novembro, fez 40 anos que John Fitzgerald Kennedy morreu. Todos lembram ou ouviram falar do fato acontecido em Dallas, Texas. Eu tinha 21 anos e, com a vaidade boba dos jovens, orgulhava-me de ter ganho, por concurso, uma bolsa de estudos para os Estados Unidos. Era uma bolsa privilegiada e, ao final, incluía uma visita à Casa Branca. Não aos seus corredores, mas um encontro nos jardins internos com o Presidente, o jovem quarentão John Kennedy. Pois bem, fomos todos de paletó e gravata falar com o homem. Ele nos recebeu de terno azul marinho, camisa branca e gravata vermelha. Alto, olhos miúdos com rugas ao redor, sardento, louro, jeito descontraído, parecendo estar à vontade. Era a época da “Aliança Para o Progresso”, angariando simpatias e fustigando Fidel Castro, que já incomodava Washington. A conversa foi amena, fotos tiradas, gravação pela Voz da América, apertos de mão trocados e saímos todos com os nossos minutos de glória. Não é todo o dia que se é recebido pelo Presidente. Voltamos ao Brasil em agosto e aqui as coisas já esquentavam. João Goulart sofria pressão por “reformas de base” e os militares começavam a se articular. Mas isto é outra conversa. Exato no 22 de novembro de 1963 estava eu escrevendo na redação dos Diários Associados, em Fortaleza, quando chegou a notícia do assassinato de Kennedy. Foi um alvoroço geral e eu ajudei a compor a matéria. Meses depois, conheci uma moça, funcionária do Dnocs, que estava em Dallas no dia do atentado. Explico: o Dnocs fazia a manutenção de um avião seu em Dallas e ela, amiga do piloto, pegara uma carona. Ocorre que, Lee Oswald, suposto matador de Kennedy, quando era levado à prisão, foi assassinado diante das câmeras. Ela me disse que assistia à TV quando reconheceu Jack Ruby, com quem havia dançado em uma boite. De repente, Ruby puxou de um revólver e matou Oswald. Soube-se depois que Ruby seria ligado à Máfia. Mundo pequeno. Voltando à história, tem-se hoje quase certeza de que Lee Oswald, foi tido - e mantido - como o assassino oficial de Kennedy, mas o seu rifle de 13 dólares, não teria a precisão de dar os três tiros fatais, especialmente o último que destruiu o crânio do Presidente. A versão atual é que o real homicida foi o corso Lucien Sarti, contratado pela Máfia. E como a memória é episódica, tudo isso me fez lembrar o caso dos compadres (por procuração, via consulado) nordestinos dos Kennedy. Zé chegando alvoroçado da roça e dizendo para Maria: “Mataram compadre Kennedy.”. E Maria respondendo aflita: “Como ficará a comadre Jacqueline?” Pois é... João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/11/2003. - [RACHEL E O ATO DE ESCREVER](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/rachel-e-o-ato-de-escrever/): Terça-feira, manhã cedo. O telefone toca. É Natércia Campos quem me relata o telefonema recebido, minutos antes, da amiga Maria Luiza de Queiroz. A irmã de Raquel fala de sua última noite, insone como que conversando com os seus mortos queridos. Aquietara-se só às cinco horas e às seis já havia partido, sem lamentos ou ais, como a cearense forte que sempre foi. Não há meios de entender a hora da morte, mas há sentido em louvar a vida. Rachel com ch. Ch de chama: o fogo que a incendiou e que deu luz à liberdade intelectual da mulher. Ao gerar “O Quinze” em 1930, com 20 anos, decretava o fim da submissão literária das que haviam nascido apenas para estudar, casar e cuidar da família. Rachel foi chamego de seus leitores e chama que ainda ardia aos 93 anos. Fez-se grande com seu jeito simples, direto e sábio de dizer o que pensava, em entrevistas, crônicas e romances conhecidos de todos. Sem alardes, mas com a têmpera dos que esperam a justiça dos homens, foi a primeira mulher a entrar, em 1977, na, até então machista, Academia Brasileira de Letras. Rachel não era produto da mídia. Ela era a mídia. Não era uma marqueteira, mas produto de sua competência. Não bajulava, era bajulada, mesmo contra a sua vontade. Não era objeto de contemplação, mas um caniço ou baobá, dependendo das circunstâncias, com raízes fincadas em dores sentidas, em vitórias alcançadas e saudades acalentadas. Era tripartida: Fortaleza, onde deixou o seu umbigo; Quixadá, onde assentou seu coração; e o Rio, onde pousou seu corpo por mais tempo e para o sempre. Não vou apreciar a obra literária de Rachel. Quase todos já leram O Quinze, As Três Marias, Caminhos de Pedras, Dora Doralina e Memorial de Maria Moura, para ficar nos trabalhos mais consagrados. Prefiro reverenciá-la. Curvo-me à sua face expressiva de cronista, quando fala com propriedade do ato de ler e do ofício de escrever. Em crônica intitulada “Escrever”, publicada em 2000, no jornal “O Estado de S.Paulo”, Rachel assevera: “Existe ainda uma outra maneira de ver estimulada a vocação literária dos jovens: é uma casa aberta onde todo mundo lê, o bom e o ruim, mas onde igualmente todo mundo tem direito à crítica, a falar o que pensa sobre a produção de pais, irmãos, tios e visitas íntimas, numa espécie de tribunal literário exercido à mesa de jantar. E sobre escrever de verdade, ela assevera: “Mas voltando ao assunto da vocação literária: para escrever, tem que haver o dom da escrita, tal como para o cantor é preciso o dom da voz. Todos conhecemos pessoas inteligentes na sua especialidade – medicina, arquitetura, engenharia, economia e, na verdade, por mais sabedores que sejam do seu ofício, não conseguem exprimir na palavra escrita essa sabedoria. Deus sempre é parco na concessão de dotes”. Em março de 2003, no mesmo jornal, Rachel afirma, já no título, que “A inspiração não vem para todos”. Diz: “A noção comum que se tem a respeito do escritor é que são pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são periodicamente visitadas por uma espécie de iluminação das musas ou do Espírito Santo, ou de um outro espírito propriamente dito – fenômeno a que se dá o nome de ‘’inspiração’. O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel... E continua: Pode ser que existam esses privilegiados – mas os que conheço são diferentes...O processo todo é penoso e dolorido...” concluindo, com brilhantismo: “Talvez com autores de imaginação rica o fenômeno se passe diferente... Aí a sensação criadora deve ser de plenitude e gratificação. Mas esses são as estrelas. A arraia miúda escrevente – ai de nós – é mesmo assim como eu disse: pena, padece e só então escreve”. Rachel mudou de cenário e sabe que seu agnosticismo, mesmo citando Deus, não será empecilho para, na dimensão em que estiver, velar pela arraia miúda que pena, padece e tenta escrever. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/11/2003. - [OS NOVOS MOINHOS DE CASTILLA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-novos-moinhos-de-castilla/): Andei pelas terras de Castilla neste outono chuvoso e quase frio de meados de outubro. Não montava o ´Rocinante´, tampouco estava atrás de uma ´Dulcinéia´, mas percorri a região que serviu de palco imaginário para a obra de Miguel de Cervantes. Foram 750 km, entre ir e vir, e descobri que os moinhos de ventos só existem agora nas duas partes do romance Dom Quixote, escrito entre 1605 e 1615 e que hoje faz parte da boa literatura universal. Passei - e parei - por Toledo, patrimônio histórico da humanidade, tão linda com sua mistura de influência espanhola e moura, circundei o rio Tajo, que é o nosso Tejo português, e tomei a estrada moderna, sinalizada e sem pedágios que dá acesso a Albacete, nosso destino naquele dia. Chovia, o sol era tímido e o ar montanhoso mostrava uma região inóspita, tal qual o Nordeste brasileiro. As pedras afloram do chão e a vegetação não consegue esconder que suas raízes sofrem ao penetrar no solo rochoso. Ovelhas lanzudas pastam como em uma eterna espera pelas diatribes de Sancho Pança, fiel escudeiro e servidor do cavaleiro Quixote. Próximo a Albacete o sol reaparece e mostra que moinhos novos estão surgindo nos morros a 1.000m acima do nível do mar. São quase 200 aerogeradores imensos, com 54m de altura, captando a energia eólica e a transformando em riqueza para acionar o desenvolvimento da Espanha arvorada, com sucesso, a pertencer ao time das nações desenvolvidas. Fecho os olhos e penso nos ventos cearenses tão fortes quanto inaproveitados. É bem verdade que já temos alguns aerogeradores espalhados pelo Titanzinho, na entrada da Prainha, e na Taíba. Mas são tão poucos, quase nada em frente à realidade que ora vejo no silêncio desta tarde que me molha o corpo, mas não impede que o meu espírito continue a sonhar, tal qual um Quixote, por um Ceará em que as suas potencialidades sejam aproveitadas, sem que sucumbamos no mar de vaidades e quase nenhuma ação. E por tal razão é que nesse dia tive a alegria de alinhavar palavras em papel para tentar sedimentar, mediante um protocolo de intenções, com a Universidade de Castilla - La Mancha e a Federação das Indústrias do Ceará, uma perspectiva de criação em Fortaleza de um Instituto de Energia Renovável com a absorção de tecnologia que transforme os nossos ventos na riqueza tão necessária para que não se percam como os sonhos mirabolantes de Dom Quixote. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/10/2003. - [OLHAR MATUTINO OU DE COMO OS OLHOS PASSEIAM](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/olhar-matutino-ou-de-como-os-olhos-passeiam/): As janelas estão orvalhadas. O dia está tímido e o sol ainda se espreguiça entre as nuvens que teimam em acobertá-lo. A cidade está muda. Os raros notívagos embebecidos e pouco embevecidos passam com as suas garrafas tão vazias quanto a solidão que os acompanha. As moças do atacado - ou seria do varejo - dão as últimas passadas metidas em saias mínimas, com seus toscos e cambaios sapatos altos e a pintura desbotada. Um quitandeiro noturno recolhe a sua mesa e cadeiras de plástico enquanto conversa com desocupados. Boceja, arruma tudo em uma tralha, põe as mãos nos quadris e toca o bolso, talvez assegurando que o minguado dinheirinho está lá. Uma geladeira usada virou um trenó, uma espécie de ´rosebud´ de sua maturidade sem perspectivas. Aqui do lado, na pracinha vazia de almas, pássaros pequenos entoam, em bloco, uma louvação à manhã, como se as nervuras de nuvens trapaceassem com eles que clamam sem êxito pelo fulgor do sol. Um táxi branco passa vagarosamente à cata de passageiros e dois mototaxistas ficam à espreita, como se disputassem o que não vem. Há telhas sujas, cobertas dignas de um pardieiro e os edifícios altos quedam-se sem luzes aparentes. Do outro lado, o mar faz a sua tarefa contínua de ir e vir trazer água salgada, envolta em brancos filós, às pedras que impedem sua passagem, mas recebem beijos molhados com a sua frieza estrutural. O mar ainda está gris e só uma bamboleante jangada se aventura nesta manhã ainda infantil de um sábado que já ouviu o repicar das seis badaladas. Um homem gordo, de velhas bermudas caqui e camisa rosa, pita um cigarro na sacada de seu prédio. Dá a última baforada, mostra que não tem civilidade e recolhe-se, deixando a porta entreaberta como a esperar a felicidade que talvez persiga. Aqui bem perto tem gente que amo. Um pouco mais na frente, também. E andando-se na mesma trilha, outras amadas estão a dormir ou voaram de seus leitos para paragens várias. É assim. Minha força de amar tem tristezas, mas o sol está perdendo a timidez e eu revolvo e renovo sentimentos. Meus olhos voltam-se para onde estou e após escrever o ponto, farei gestos mecânicos obedecendo a um ritual tecnológico que incorporei e desliga-me da máquina que, paradoxalmente, dá sentido humano ao letramento produzido. João Soares Neto Da Academia Fortalezense de Letras CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/10/2003. - [GENEROSIDADE OU RESPONSABILIDADE SOCIAL?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/generosidade-ou-responsabilidade-social/): As experiências das empresas no campo da ´responsabilidade social´ não deveriam decorrer de atos generosos, mas da consciência de que é preciso retribuir o que a sociedade lhes confere, independente do rótulo novo. Há empresa que, muito antes da obrigatoriedade dos vales-transportes, já financiava bicicletas, veículos e mantinha ônibus para transporte de seu pessoal. Paralelo a isso, construiu casas em vila operária, servidas por energia elétrica, água da concessionária, telefone público, parque infantil e escola. Todos seus empregados recebem, pelo menos, uma cesta básica por mês, são segurados (inclusive os cônjuges) e participam de planos de saúde. Essas ações internas, feitas sem alardes, motivam ações externas para difundir a arte, como um concurso público entre pintores e escultores julgados por dois júris (um popular e um formado por críticos), concedendo dois prêmios: uma viagem aos Estados Unidos e outra à Europa. A empresa também desempenha sua responsabilidade social nas áreas da cultura e da solidariedade com carentes, assistidos e reunidos em ONGs e organizações sociais. Entre outras ações, destaca-se hoje a assistência a pessoas com mais de 55 anos que têm direito a preços diferenciados e participam de reuniões mensais onde são ministrados cursos, palestras, e sessões de motivação. Outra experiência que merece destaque na área é um projeto de solidariedade permanente, renovável todos os meses, em que são distribuídos gêneros não perecíveis, brinquedos e roupas, arrecadados de seus empregados e clientes, a entidades reconhecidamente sérias. O importante é que os diversos setores da sociedade estão redefinindo seus papéis. As empresas, adotando um compromisso socialmente responsável, são agentes de mudança para, juntamente com Estados e sociedade civil, construírem um mundo melhor. Esse comportamento é caracterizado por uma coerência ética nas suas ações e relações com os diversos públicos com os quais interage, contribuindo para o desenvolvimento contínuo das pessoas, das comunidades e de suas relações entre si e com o meio ambiente. A responsabilidade social deixou pois, de ser uma alternativa, para se tornar um componente estratégico na política das empresas. E a principal tendência que se vem delineando nos últimos anos desafia as empresas a adotarem uma postura de responsabilidade social desfocada dos seus objetivos econômicos e essenciais. Isso evita que a imagem da empresa e seus valores sejam confundidos como simples propaganda, superando antigos paradigmas de lucratividade, para, então, viabilizar uma postura cidadã integrada ao processo de desenvolvimento social do país e especialmente dos locais onde exerce a sua atividade. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/10/2003. - [INTENÇÃO, PROPÓSITO E REALIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/intencao-proposito-e-realidade-2/): Ninguém desconhece existir boa intenção e firme propósito do Governo Lula em resolver, entre muitos outros, os problemas gravíssimos da fome, desemprego, assistência médica pública, inclusão social e desequilíbrios regionais. Lula tem fé de ofício nessas áreas. Saiu de Pernambuco em um Pau-de-arara, amargou fome com a família, viu a primeira mulher morrer por falta de assistência médica e foi um sindicalista proeminente no combate ao desemprego. Conhece, de prova provada, o que é desequilíbrio regional. Vivia na São Paulo dos pobres, sem participar da São Paulo dos ricos que hoje querem ser os seus mais recentes amigos de infância. Lula tem formação de vida nitidamente paulista, mas traz na sua história genética a dor e a angústia do nordestino retirante. Ninguém desconhece também que grande parte dos atuais ministros de Lula não tinha experiência na gestão dos graves e complexos problemas a necessitarem de soluções urgentes e equilibradas. Isto não quer dizer que as pessoas escolhidas não possam adquirir experiência, mas é preciso saber que a palavra experiência deriva de experimentar ou experienciar. Em outras palavras: leva tempo. Por outro lado, o Brasil entregue à Lula e sua equipe era, e ainda é, um país dividido em Capitanias na mão de ´lobbistas´, políticos e partidos praticando pouco do discurso, especialmente quando diante de microfones ou em entrevistas públicas. Acresça-se a isso, a existência de uma burocracia pesada, cara e pouco eficaz, sem entender ou não querendo entender a necessidade da agilidade no serviço público. Um país com pouca burocracia seria a nova cara do Século XXI. Neste sentido, os agentes públicos precisam ficar cientes de que todos os brasileiros, direta ou indiretamente, são contribuintes e os verdadeiros pagadores de seus salários e aposentadorias. Ao entrar em uma repartição, qualquer brasileiro se sente aturdido e desestimulado pela morosidade das informações e, muitas vezes, pela indiferença ao que acredita ser legítimo pleitear. Todo brasileiro é cliente da máquina estatal e por tal razão merece ser bem tratado, independente da sua condição social ou financeira. Já ouvimos falar de várias reformas, especialmente as previdenciárias (para diminuir despesas) e tributária (para gerar mais receitas). Não se falou, contudo, da necessidade de uma reforma ou planejamento administrativo, gerencial ou estratégico para tudo funcionar. Isto nos remete às intenções e propósitos de Hélio Beltrão e Paulo Lustosa em desburocratizar o Brasil. A realidade mostrou terem sido vencidos pela máquina kafkaniana da burocracia. É preciso, portanto, contar com o apoio dos servidores públicos e dos gestores de escalões intermediários. Sem eles, será difícil aproximar intenção e propósito da realidade fática. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/09/2003. - [DOAR É UMA NOVA GÊNESE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/doar-e-uma-nova-genese/): Estava eu com um artigo pronto para este domingo sobre o 2o. Aniversário do 11 de setembro de 2001. No ano passado escrevi um livro - ´Sobre a Gênese e o Caos´ - no qual, sob a forma de contos, especulo as reações pessoais dos envolvidos nas tragédias dos atentados à nação norte-americana. Iria dizer o pensado e o ainda a pensar sobre a gênese e o caos decorrentes. Porém, em telefonema com um amigo, tomo consciência do drama de uma família perdendo seu chefe pela impossibilidade de fazer transplante de rim. Decido, então, abordar este caos, na esperança da eclosão de uma nova gênese. Há uma culpa coletiva nesta história. Mesmo que já tenham sido definidos em lei a forma e os procedimentos necessários ao recebimento de órgãos por doadores mortos. Há uma ausência de responsabilidade social dos principais agentes. Poderiam motivar as pessoas para deixarem determinado por escrito: eu sou doador(a). Igualmente, deveriam ser conscientizadas as famílias de pessoas com morte cerebral não ser a doação uma mutilação do corpo, mas a dignificação da vida transmudada. Os órgãos encarregados da saúde pública, a imprensa -como está fazendo o SVM-, as igrejas, os clubes de serviços, as escolas, as universidades, as forças armadas, as entidades patronais e sindicais deveriam procurar divulgar de todas as formas possíveis o que significa ser doador(a). Apegos, desinformações e até ignorância podem estar bloqueando desejos latentes de fraternidade e até de caridade. Doar órgãos pode poupar vidas de pessoas acometidas de doenças curáveis ou controláveis, morrendo pela indiferença de parte da sociedade que tanto cobra e pouco dá. Sou doador universal e deixo isso, mais uma vez, bem claro neste artigo. De que me servirão órgãos se estiver com morte cerebral comprovada? Cada pessoa, independente de suas crenças religiosas e idade, deveria fazer uma reflexão sobre o significado de ser doador, não só por se sentir mais digno, mas como contraprestação à natureza transformadora de um mero gameta em ser vivo, partícipe do milagre da existência, maravilhando-se a cada dia com o nascer do sol, a possibilidade de respirar livremente, se locomover, amar, procriar, progredir e, naturalmente, morrer. Não como uma punição, mas como coroamento de um ciclo a se fechar. Fechar sim, para os não-doadores, pois os doadores se perpetuarão em novas vidas alegrando famílias por seus gestos de desprendimento. Acredite, doar pode ser uma nova gênese. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/09/2003. - [A VIÚVA ENCARNADA NO VESTIDO - DN CULTURA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-viuva-encarnada-no-vestido-dn-cultura/): Conheço José Maria Barros Pinho desde 1961. Fomos colegas da turma pioneira da escola de Administração do Ceará. Barros Pinho chegara do Piauí, via Crateús, e assentara-se na Pedro Pereira com Padre Mororó. Estudamos, lutamos, viajamos e fizemos política estudantil. Barros Pinho, por sua liderança, pagou um preço muito alto. A vida política quase pagou essa conta. Mas isto é outra história. Desde esse tempo, Barros Pinho aliava à sua retórica a veia poética que ele teima em situar nas barrancas do Rio Parnaíba. Sua poética transcende às nascentes e a foz de um rio, ela se fez mar e inundou a praia onde moureja seus versos há mais de quatro décadas. Agora, na juventude de sua maturidade, envereda pelo gênero da crônica, salvo incursão ligeira numa antologia de cronistas novos em 1971. Primeiro concorreu com o conto “O Zeca do tiro no bode da Nazária” ao Prêmio Ideal de Literatura, ano 2000, merecendo destaque. Depois, neste livro, reuniu 16 contos, editados pela Record, 2002, e, já na estreia oficial como contista, teve a honra de ser prefaciado por Gerardo Melo Mourão, o maior intelectual vivo nascido no Ceará e, sem dúvida, um dos maiores do Brasil. Se isso não bastasse, José Alcides Pinto (na orelha), Cineas Santos e Francisco Carvalho, (na contracapa) dão o fechamento, aprovação e louvação à obra de Barros Pinho. O que dizer ainda, até porque não sou crítico literário. Sou sim um leitor crítico. Concordo com Lya Luft, no seu livro “O Rio do Meio” , p. 134/135, quando diz: “ Impressiona-me que outros analisem com tanta clareza textos que escrevi: comentários eruditos, profundas aproximações, fazem-me parecer tão grave que chego a me inquietar, como se, de volta aos bancos de escola, andasse outra vez distraída de tarefas importantes. Essa de que aí falam sou realmente eu? Pois é, Barros Pinho, embora possa ser vaidoso de sua trajetória, não é uma pessoa grave. Barros Pinho não se desfaz da veia poética: O sol era o mais claro referencial da manhã. O rio, a mesma indiferença de sempre. A capela, no alto, erguia-se para o céu. (p.20). E vai em frente: Os peitos dela, mal comparando, eram duas nascentes de bicos finos, ver bico de beija-flor atacando no mato das veredas no início das águas (p.44). Por outro lado, constrói frases próprias de cronistas não derramados, mas aprumados em suas tramas. Os dias eram uma gulodice comendo o tempo (p.28). “Vive da sala para o quarto onde padece seu sentimento de dor dentro dela. É tanto, que a gente sem querer, olhando para ela, bota água nos olhos com gosto de não parar” (p.47). Fêmea comigo hoje não tem preço e pode até custar a vida de quem meter tramela na minha tão grande vontade (p.67). Destaque-se, ainda, o tratamento dado aos personagens, com suas falas, pensamentos, medos, modos, com a pureza de um mundo talvez não urbano talvez não mais existente, perdido em meio a rios sempre recorrentes, mesmo que o conto seja outro, e as margens deem em lugares diferentes e nos quais nunca pisamos. Há contos com personagens duros e dramáticos em seus conteúdos, gestados na infância, paridos nesta maturidade libertária de fantasmas agourentos, trazem epílogos cruéis ou fantásticos, apascentando a alma de quem escreve, disfarçando a dor vinda de longe, não se perde com o tempo e se recria no imaginário da prosa curta, mas firme. Assim é com Zeca: O Zeca se rezava, rezava com o punhal na mão” (p.60), Bené Galvão. “O Bené pulou este batente e saiu daqui com uma cabeça de onça, o corpo de homem e asas de gavião encantado (p.85). Ou com Tia Donana: Vestia o vestido encarnado da promessa feita ao italiano, seu marido, sob o olhar espantado de quantos se preparavam para assistir a cerimônia oficiada pelo cônego Deusdedith de Freitas, que nos dentros dos botões de sua batina viveu atormentado por muito tempo (p.127). João Soares Neto, Da Academia Fortalezense de Letras CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/09/2003. - [BENQUERENÇA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/benquerenca/): Vai chegando um tempo em que as águas assentam no fundo do pote. Você sabe bem quando a coisa está acontecendo e quando as benquerenças ficam definidas. É uma coisa que não depende de você, nem de contrato, tampouco de tempo definido. Chega e mostra a cara, quando vem de sopetão, parecendo enchente de rio em inverno bom. Outras vezes, aparece de mansinho, vai somando afinidade e se define no jeito de ver as coisas, o mundo e as pessoas, principalmente, como se fosse uma árvore que vai crescendo e já lhe dá sombra. Há também aquelas que pareciam ser uma coisa e são outra. A purpurina parece ouro, mas não é. O ouro é feio e esmaecido, quando sai do garimpo. Aí a gente reformula o pensamento, pede desculpas, se explica e abre o coração sem medo. Tal como o polimento do ouro fora do garimpo bruto, quando o brilho resplandece parecendo sol de verão. Benquerença é reserva de domínio de sentimento. É aquela vontade de trocar ideias sobre qualquer coisa ou nada, especificamente. É empatia ou anseio que se transmuta em identidade entre duas pessoas, independente de sexo, idade, estado civil, cor da pele, dinheiro na poupança, grau de instrução, religião, ideologia ou nacionalidade. Isso que, a gente sabe, vai rareando a cada dia que passa, mas é só parar e sentir, sem pressa. Quando do lado de fora há tanta pressa em se chegar. Alguns não sabem bem para onde vão, mas vão apressados. Basta você ver quem buzina no sinal de trânsito, não respeita pedestre, vê mendigo com olhar atravessado, fura fila, faz cursos que não levam a nada, vão a tudo que é lugar, riem sempre ou são sempre zangados, não sabem ficar calados e ouvir, têm respostas para tudo e imaginam que a vida é eterna. Comportamentos assim mostram como a vida é complexa, porque nós, seres humanos, somos tão diferentes apesar de parecidos. Aí que, se alguém afina com você, não perca tempo. É a tal história do cavalo selado que passa na sua frente. Não tenha medo de benquerença. Pessoas seguras de si revelam sentimentos e abrem as comportas de suas reservas, deixando escoar o que podem compartilhar e usufruir. E, preste atenção, benquerença não é só o usufruto do prazer, mas a percepção do outro em suas nuances não faladas, mas reveladas em gestos e silêncios. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/08/2003. - [OS DIAS DOS FILHOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-dias-dos-filhos/): Há duas datas no ano consagradas aos pais. São festas móveis, aos domingos. O segundo domingo de maio, para a mãe, e o segundo domingo de agosto, para o pai. São feitas aos domingos, quem sabe, para não atrapalhar os dias úteis dos filhos tão embricados com as suas vidas. E os outros 363 dias? Todos os outros dias - e muitas das noites - são reservados aos filhos. Não vai aqui nenhuma queixa ou lamento. Mas, a história parece se repetir. Os pais são vistos, via de regra, como aquelas pessoas que cobram, tentam estabelecer limites, obrigam a estudar, verificam os boletins da escola, falam que determinadas amizades não servem e tentam até dar palpite sobre as escolhas para namorar ou casar. Como se ainda valesse... Os pais são pessoas mais velhas. Vinte ou trinta anos é um tempo imenso para uma criança ou adolescente. Os pais têm costumes diferentes. E são ´chatos´, pois têm de levar, quase sempre ´à força´, os filhos à escola, seja puxando pelo braço, no colo, na garupa da bicicleta, no ônibus, no lombo de um animal, no trem ou carro. Os pais também puxam pelo dedão do pé para que acordem, colocam a pasta na escova de dente, dizem que a roupa não está certa e, cansados, à noite, ainda vão olhar os deveres de casa e as tarefas extras que a escola manda fazer. Os pais não devem discutir na frente dos filhos, mas têm, a todo instante que separar as suas brigas. Os pais podem estar desempregados, salário atrasado, a empresa falida, mas precisam conseguir dinheiro para a comida, aluguel, conta da luz e da água, prestação disso ou daquilo. Quando se diz ´os pais´, estamos fazendo justiça a uma relação nova entre marido e mulher ou companheiros, pois ambos são provedores. Acabou-se aquela história do homem ir à luta e a mulher ficar em casa. Hoje, e já faz algum tempo, ambos vão à guerra e contam o suado dinheirinho para fazer face aos compromissos. É claro, há exceções, mas essas não contam. Tudo isso é para dizer: todos os demais dias do ano são dos filhos, essas criaturinhas parecendo ´ter o rei na barriga´ e, quando crescem um pouco mais, a primeira coisa a dizer é: ´não pedimos para nascer´. No domingo passado foi o dia do pai. Este ser mais periférico ainda que a mãe, meio abobalhado ao saber existir um inevitável hiato ou desencontro entre gerações e as perspectivas pessoais com os filhos amados e pelos quais deu e dá tudo de si. Em meio aos cafés, almoços, lanches e jantares no dia dos pais e das mães, surgem figuras novas das famílias, as noras e genros, enquanto os netos não entendem bem por que os seus avós estão ganhando presentes, pois nem pais são. Pois é... João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/08/2003 - [EM MEIO A LIVROS AVIA-SE UM VIOLÃO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/em-meio-a-livros-avia-se-um-violao/): Sergio Braga trabalha em uma sala entulhada de livros. Aos sábados, a sala se transforma em ponto de encontro de gente que gosta de conversar, ler, escrever e até tocar. Em meio a tudo isso, circulam capotes, galinhas e peixes, todos devidamente mortos e prontos para serem deglutidos. Não há hierarquia, embora circule gente que comanda o Estado, poeta, crônica, pinta, caricatura e, repito, toca. No sábado, 2, deste, Nonato Luiz estava por lá sem instrumento de trabalho. Sergio aviou um Di Georgio desafinado e lá se foi Nonato Luiz dar o seu jeito às cordas. Enquanto isso, o instiguei a pensar na hipótese de só tocar três compositores. Após eles, o dilúvio. Nonato escolheu: Haendel, Villa Lobos e Baden Powell. E o fez com a maestria de sempre, como se os acordes que aprendeu em Lavras da Mangabeira tivessem, por mimetismo, se assenhoreado de um andamento andaluz ou mouro. No instante em cada melodia era tocada, peguei um pedaço e fiz breves anotações: Haendel – Sentados, sentidos e postos. O violão decola e entre na história. Parte de Haendel e tira da corda o que o saber evoca e recorda. Faz-se pausado, cadência vária e a sala vira santuário, um oratório. Como se os livros fossem mudos instrumentos uníssonos. E os pés silentes deixam que as mãos falem. E falam fundo, profundo, como se existisse um mundo barroco e um vale na floresta negra em pleno dia de sol e ventos cearenses. Villa Lobos – chega Heitor e não traz uma matilha de lobos, nem as bachianas. Constrói uma vida de acordes e nos desperta da barbárie, fazendo-nos meditar quão grande tolice seria o mundo sem a música, ela que nos extasia e mexe até com o que imaginávamos não mais escutar, nem os cantos da floresta tropical. Baden Powell – não foi e nem é um escoteiro, mas cria, escolta e revolta a afro-música brasileira que, em meio a dissonantes, se transformam afinados em berimbau em que a corda esticada e marcar dolente parecem mostrar a negritude das origens e o banzo que nos acode nas aflições do amor. João Soares Neto Da Academia Fortalezense de Letras CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/08/2003. - [O TRONCO DA BIANCA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-tronco-da-bianca/): Saio do hospital onde fui ver Bianca nascer. É dia claro, os ventos são fortes nesta manhã venturosa e a poeira levantada me faz fechar os olhos, entrar numa viagem no tempo. Tempo que se confunde e infunde tantas vidas. Eis a narrativa da viagem: era o primeiro filho... Não lhe deram nem o sobrenome da mãe, tampouco o do pai. Herdara um dos dois sobrenomes do avô paterno, exatamente o que o dito-cujo avô não incluíra na certidão de batismo do seu pai. Assim, sem pedir, viera ao mundo desconectado dos nomes do pai e da mãe que o conceberam e amaram. E o avô voou cedo para outras paragens, lá ficou e finou. Não herdou fama, nem desfama. Era apenas um neto usando o nome do avô. E descobriu depois, quando vieram os irmãos, que também eles não tinham nada do seu nome. Era neto, filho e irmão desconectado de sobrenome. Parece que seria ele, só, sempre. Foi crescendo em meio a essa confusão e um dia amou e pretendeu casar. Casar nos dois, no religioso e no civil com comunhão total de bem-querer e de bens. Precisava do batistério, prova de que era cristão, sua cabeça havia sido banhada na água-benta, ungido nos santos óleos e provara o sal da salvação. Juntou o batistério à certidão de nascimento. Não conferiam. Um ano as separava. Um ano não vivido. No limbo. Era mais velho para a lei dos homens, sem ser, e só fora recebido na igreja no ano seguinte. Nem era ainda cristão, mas já era pagão, sem ter corpo ou alma. Explicou-se tudo, muitas vezes e devagar. Entenderam quando um parente bispo, apaziguou os ânimos, disse ser um erro do cartório e o casamento foi acertado. A noiva, por seu turno, resolvera retirar, ao casar, o sobrenome duplo do pai. Assim, os filhos deles, o novo casal, teriam o sobrenome dele, sem nada a ver com o de seus irmãos e pais. E o dela, apenas com o sobrenome da mãe. Era uma genealogia nova e diferente. E gente, nascida do e por amor, foi brotando, surgindo um novo tronco. As velhas raízes que sustentavam a árvore haviam sido podadas e só restara aquele novo a crescer e esgalhar. Deus - ou o destino-, por pirraça, por não entender a confusão ou em represália, quem sabe, ao podar as raízes paternas, determinou com seus poderes supremos e mágicos que só vingaria mulher naquele novo tronco que formaria outras famílias. Vieram quatro filhas, frutos da nova árvore-base. Cresceram, apaixonaram-se e duas delas, com os seus eleitos maridos, geraram novas quatro filhas, incluindo a que chegou agora, nesta última quarta-feira, 30 de julho: Bianca, leonina, nascida sob os ares do sol, uma melodia, canto novo, plena de graça, verdadeira prenda para seus pais, bonita, sadia, abençoada por Deus. Nova vida, novo ciclo, quem sabe. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/08/2003. - [FOFOCA E PRIVACIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/fofoca-e-privacidade/): Pesquisas revelam que o Brasil é o país da fofoca. Fortaleza seria a cidade-rainha da fofoca. É por estas e por outras, que cada pessoa deve preservar mais a sua intimidade. Assim, seja você como for, não permita que invadam a sua privacidade, lute para afastar os que se adonam de você de forma explícita ou não. Não existem só os meios tradicionais de invasão que você conhece (os que se fazem de íntimos, os amigos de todo mundo e de ninguém, os bisbilhoteiros contumazes, pessoas que você não vê há séculos e dão as caras, parentes com quem não convive e tecem redes de intriga etc). Não dê trela a quem, por não ter satisfação com a própria vida, vive de bisbilhotar e distorcer as dos outros. Hoje, neste mundo em que a informática e a comunicação têm um lugar destacado, há outras invasões menos sentidas, mas também danosas. Por exemplo, há alguns anos foram criadas as mailing-lists ou listas de correspondência. Se você compra em loja, se tem um ou mais cartões de crédito, faz parte de alguma entidade ou clube, assina revistas etc, certamente integrará as famigeradas mailing-lists e receberá cartas, cartões, convites, propagandas e outros que tais. Hoje, no Brasil, há empresas especializadas em vender listas de correspondência e faturam alto com o nosso nome. Se você utiliza computador, tem um e-mail e cai na tolice de responder a alguém que lhe manda correntes de orações, piadinhas, protestos contra políticos etc., sem dúvida entrará em muitas listas de ´spam´, que é o lixo da Internet. O spam é, em outras palavras, tudo aquilo que você recebe sem pedir e querer e que lhe dá trabalho de, literalmente, colocar na lixeira Outra invasão é aquela feita através do seu telefone fixo ou celular. Há pessoas que adoram números de telefones de amigos ou de gente importante e têm o desplante de passarem para frente, o que alguém lhe confiou ou conseguiu, por mera bisbilhotice. Outros, sem perguntar se você está ocupado, ligam dizendo que querem trocar duas palavras e passam um tempo maior que a sua paciência permite. Isso tudo é quebra de um tácito contrato social de privacidade/civilidade que lhe deixa vulnerável a pessoas que violam a intimidade a que todos têm direito, especialmente fora do exercício de uma função pública. Ouça gente que sabe que a sua imagem (fotos, filmagens etc) não pode ser utilizada sem a sua autorização e se deixam embevecer pelo flash que espoca ou o aparato de uma filmagem. É claro que não podemos viver como Howard Hugues, um excêntrico bilionário americano que se isolou do mundo e acabou morrendo sozinho. Você deve estar atento à infiltração contínua da sua privacidade e lutar para que fantasias, interesses, fantasmas e fofocas não sejam criados a partir da imaginação dos que, costumam ter a inveja como prumo e o desatino como rumo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/07/2003. - [DISCURSOS E IMAGENS DE PRESIDENTE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/discursos-e-imagens-de-presidente/): Quem viveu ou estudou os anos 60/70 na América Latina sabe que era comum o tratamento ´companheiro´ entre os jovens e militantes de esquerda. Vieram os anos de repressão, a clandestinidade, as guerrilhas e a volta gradual à democracia. Quem viveu ou estudou os anos 60/70 no mundo sabe da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, da guerra do Vietnã e da intensa propaganda feita por Moscou e Washington para demonstrar isso ou aquilo. A queda do muro de Berlim em 89 e o esfacelamento da União Soviética nos anos 90 tornaram a balança favorável aos Estados Unidos. Esse fato não fez diminuir a existência de grupos e correntes de esquerda na América Latina e a expressão ´companheiros´ continuou em voga. Ano 2003, Brasil. Um antigo companheiro chega à Presidência da República. Assume com um apoio popular imenso, enquanto a credibilidade externa do país está em baixa. Em seis meses de governo pode ter sido o Presidente que mais tenha feito discursos. É natural que um político que criou e viu crescer o Partido dos Trabalhadores até chegar ao poder, tenha ânsia de dizer a que veio, o que pretende e o que espera de políticos e da sociedade. Por outro lado, mais natural ainda é que os seus assessores, que se esmeram em apresentá-lo bem vestido e cuidado, tenham a coragem de dizer-lhe que já é tempo de participar de menos reuniões. Qualquer assessor presidencial sabe que o chefe da Nação é o ´Primeiro Magistrado´. O que quer dizer isso? Que a pessoa que ocupa os palácios da Alvorada e do Planalto é o delegado de todos nós para governar e distribuir justiça. O discurso não deve ser o foco. O foco é a governabilidade e a distribuição da justiça sem precisar, por exemplo, vestir a camisa de times de futebol, receber misses ou usar bonés seja de quem for. Alguém precisa ser mais leal ao Presidente. Lealdade não passa pela subserviência e a aprovação popular não deve ser entendida como aval para dissipar o tempo em cerimônias e viagens que podem ser evitadas. O Presidente tem ministros e assessores e esses são, naturalmente, seus representantes nessas solenidades menores. O Presidente deveria ser mais resguardado para manter incólume a credibilidade que granjeou em meio à esperança de todos. O Brasil precisa sair mais do noticiário. A imprensa brasileira atual, especialmente a da televisão, só tem duas vertentes: a denúncia e o governo. A mídia deveria ser mais responsável e criativa. Ao invés de espalhar maledicência e flagrar o presidente comendo um biscoito ou falando de sua mulher, deveria estar preocupada em melhorar a qualidade do que informa, pagar seus impostos e ver o Brasil não como um produto, mas como um país a ser respeitado. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/07/2003. - [GABO E A SOLIDÃO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/gabo-e-a-solidao/): Um dia desses alguém me perguntou se deveria ler o livro ´Cem anos de solidão´, de Gabriel (Gabo) Garcia Márquez. E argumentava: ´já não aguento a minha própria solidão, pois não sei administrá-la. Como perder meu tempo lendo um século de solidão?´ Cada pessoa é livre e ler é um ato individual que exige vontade e concentração. É uma decisão pessoal em que os olhos passam a comandar os nossos sentidos e nos fazem deixar o mundo real para penetrar em uma seara imaginária em que tudo é permitido, pois depende do contrato de adesão entre a mente de quem lê e foco de quem escreve. Ler pode até ser perda de tempo, mas é uma das perdas de tempo mais gratificantes da vida. O ser humano começa a ler quando identifica a mãe, o pai e o lugar onde vive. Antes de falar, os olhos já leem. Depois, passa a entender símbolos: as letras do alfabeto. Em seguida, junta os símbolos e faz um primeiro jogo com as palavras: bola, pé, papai, mamãe etc. De repente, o jogo clareia e as palavras formam frases. É claro que o ambiente familiar e a formação escolar ajudam a formar leitores. Se observa os pais lendo e há jornais, livros e revistas em casa é um passo para a criança passar a ser um leitor, especialmente se foi acostumada, desde cedo, a ouvir histórias antes de dormir. Igualmente, se a escola a estimula a ler para fazer pesquisas, aprender biografias e História. Feito isso, será mais fácil gostar de escrever e compreender melhor o que lê. Voltemos ao livro. Não vou fazer resenha nem aconselhar. Apenas tal pergunta aguçou minha curiosidade. Resolvi procurar o meu velho livro ´Cem anos de solidão´ e verifiquei que o permanente costume de marcar frases estava lá. A marcação de frases pode representar o que se pensa no momento da leitura, concordância ou discordância com o que diz o autor através de seus personagens. Entre amigos que gostam de ler há intercâmbio de livros ´marcados´, isto é, já lidos. A partir das marcações, fazem até psicanálise de brincadeira e identificam os pontos que têm em comum, apesar de, muitas vezes, terem nascido em lugares ou países distintos e profissões diferentes. Vou mostrar as minhas marcações de frases sobre o que dizem os personagens de Márquez no ´Cem Anos de Solidão´. Cito apenas sete: 01. As coisas têm vida própria. Tudo é questão de despertar a sua alma. 02. A curiosidade pode mais que o temor. 03. Na verdade estavam ligados até à morte por um vínculo mais sólido que o amor: uma dor comum de consciência. 04. O tempo põe as coisas no lugar. 05. Não suplique a ninguém, nem se rebaixe diante de ninguém. 06. Só ele sabia, naquele tempo, que o seu aturdido coração estava condenado para sempre à incerteza. 07. A armadilha da saudade... Que se há de fazer, o tempo passa. É verdade. Mas não tanto. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2003. - [O INCONFORMISMO DO OLHAR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-inconformismo-do-olhar/): Quem olha com mais atenção em geral é inconformado. O que vê não é apenas o que se pretende mostrar. Vê muito mais. Os olhos inconformados fazem leituras, filmam, auscultam, pintam e veem além da paisagem ou da pessoa. Vão lá dentro da alma, da essência e sentem o outro em sua fisiognomonia das aparências e dos gestos. E isso produz uma visão crítica severa, a de entender o outro não pelo que diz, mas pelo que se infere da sua e da nossa história. Os artistas, especialmente os pintores, escultores, compositores, cineastas, poetas e escritores têm, quase sempre, esse viés. Não se contentam com a realidade aparente ou a aparente realidade. Fixam o olho e extraem a essência, aquilo que não fica exposto, embora seja uma fratura. Os que viram o filme ´Frida´ puderam observar que ela possuía inconformismo no olhar e isso a fez ser a pessoa que foi, mesmo tendo ao seu lado a figura consagrada do pintor e muralista Diego Rivera. Eram avançados para o seu tempo e os seus olhos viam mais do que o mundo mostrava. Despetalavam a realidade e com o seu inconformismo, a transformavam na loucura real em que viviam. Virgínia Woolf, tão pouco lida, mas muito comentada depois que um filme mostrou uma réstia da sua vida, era outra pessoa com inconformação no olhar. Acabei de ler ´Mal de Amores´, da consagrada escritora mexicana Angelles Mastretta. A personagem principal, Emília, tem o mesmo mal ou bem. Não repousa o seu olhar apenas nas paisagens de Puebla, mas o distribui por todo o México e dá rasantes na América, sem nunca esquecer de seus dois amores, tão diferentes quanto preservados e relevantes em sua vida singular e dupla. Por aqui há uma mulher de olhar inconformado: Natércia Campos, cansou-se de ser filha, esposa e mãe, e deu a si o direito de construir uma casa com o olhar tão amplo quanto os seus sonhos reprimidos. Sonhos transbordados em prosa tão luminosa quanto a dramática trama de seu livro ´A Casa´, um libelo pouco entendido, mesmo para os que o imaginaram ler com atenção. Será preciso ter olhar inconformado para conseguir ver ´A Casa´ em toda a sua plenitude e assombrações, este livro sobre pessoas, mas com almas e as lamas permeando o seu enredo. Talvez valesse dizer aos namorados, festejados no próximo dia 12, que deem vazão ao inconformismo preso em seus olhares. Não finjam sentimentos e poupem quem espera amor e não apenas presentes. É preciso ser verdadeiro neste tempo de tantas mentiras. É preciso ter os olhos inconformados para adonar-se da vida, abrí-los para ver além. Depois, fechá-los e ouvir a sua voz interior. A que realmente conta. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/06/2003. - [ENTREGA À MÃE-TERRA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/entrega-a-mae-terra/): Voltei mais rápido que esperava e desejava. As bandeiras me chamaram. Estava, novamente, na terra do chapéu Stetson e aonde foi selada a vitória de Bush sobre Gore. Foi agora em maio e eu me lembrei, mesmo sem querer, da entrega do Oscar deste ano, quando um americano meio fora do padrão, Michael Moore, ganhou a estatueta de melhor documentário com o filme “Tiros em Columbine”, brandindo horrores contra o Sistema americano por ser uma nação louca por armas. A América é muito complexa para ser descrita em um só filme. É um país tão multifacetado que cabe não só em “Tiros em Columbine”, como no filme “Pães e Rosas” e em tantos outros. Voltava às pressas, a chamado de sentimentos. Os mesmos voos, a mesma estrada, as mesmas árvores, a rua tranquila. Faltavam as bandeiras americana e brasileira. O pórtico estava apenas com os aros. As bandeiras haviam sido retiradas. Estavam em outro lugar. E foi para lá que fui. Era uma igreja católica. Bonita, moderna. Estrutura de aço, mas toda recoberta por madeira. Parecendo ser o que não era. Ou era o que não parecia. Lá estavam as bandeiras, lado a lado. De pé. A diferença é que havia alguém deitado para sempre e outra tentando, com todas as suas forças, manter-se de pé. Um padre jovem, alto, bem-apessoado, de voz canora, fazia às vezes da casa. Houve cânticos, discursos, rosário, missa de corpo presente, música sacra, gaitas irlandesas, encomendação e a gentileza dos homens de preto que cuidavam de tudo. Era chegada a hora de tomar outra estrada, afinal. Partimos para a cidade onde Jeb Bush trabalha. Chegamos à noite e, em poucas horas, novamente, uma igreja. Desta vez ela era americana assumida, batista, inflável, de plástico, climatizada e poderia ser também uma quadra esportiva. As bandeiras já estavam lá. Haviam sido transportadas. Houve mais preces, cânticos e até um longo discurso do Procurador Geral do Estado. Reminiscências. A música cessou e apareceu a limusine. Sem limusine não estaria encerrada a participação dos homens obrigados a estar ali. Tomamos a limusine. Gente das duas bandeiras. Vimos a estrada nos levando para uma floresta bonita. A limusine fez uma curva, saiu da estrada, e parou. Pisávamos em chão batido. Descemos e ficamos em posição. Éramos das duas bandeiras. Estávamos ali para entregar à mãe-terra alguém que quis ficar em meio a ciprestes e a seus ancestrais, fora da estrada e ao reencontro de sua verdadeira natureza. Pássaros cantaram e saímos silentes. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/05/2003 - [AS MÃES-MENINAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-maes-meninas/): Seria bom que o dia de hoje fosse um dia alegre para todas as mães brasileiras. Seria bom que todos os filhos pudessem homenageá-las e vê-las felizes. Seria bom que todos nós tivéssemos a consciência tranquila de que as mães são assistidas, respeitadas, amadas e festejadas. Neste País em que 40 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, a história real é bem diferente da mostrada nos elaborados comerciais de televisão, jornais e emissoras de rádio. Não haverá festa, nem presentes para a maioria das mães brasileiras, especialmente as mães-meninas. Será mais um dia de cão. Em qualquer pequena, média ou grande cidade brasileira você viu, vê e verá, dia e noite, adolescentes grávidas ou jovens mães vestidas com andrajos levando crianças ao colo ou puxando pela mão como aval para mendigar nos semáforos, praças, avenidas e portas de templos religiosos. Este é um retrato cruel, sem retoques e malsinado de um país que se arvora de ser uma das maiores economias do mundo. Neste dia das mães é para essas meninas-mães ou mães-meninas que a lembrança acode. Não estudaram, suas famílias são desestruturadas, têm na face a desnutrição, nos olhos carregam a desilusão, no corpo as mazelas, mas não puderam conter o fogo natural da juventude, perdidas na voracidade das noites em que tudo é permitido, nada é vigiado e o sol custa a nascer. Sem saber nada de nada, estavam grávidas a troco de qualquer coisa e jogadas em um mundo cruel que as discrimina e desampara. O que dizer de tudo isso? O que é tudo isso? Há dezenas de órgãos de proteção aos menores. Há um Estatuto da Criança e do Adolescente e tudo continua na mesma, sem que nenhuma orientação seja dada ou providência tomada. Não são raros os casos de mães que entregam seus filhos por qualquer ninharia e o fazem, quem sabe, como um último ato de amor. Se não podem mantê-los têm, pelo menos a esperança ou a ilusão de que a pessoa que ´comprou´ sua criança cuidará dela melhor e a criará ´feito gente´. Pode ser indelicado falar, no dia de hoje, nesta face cruel que tentamos esquecer ou ignorar. Por outro lado, seria bom que cada pessoa de bem pudesse sair de seus casulos e em meio às suas festas pantagruélicas sentisse um pouco dessa dor e compartilhasse da solução com responsabilidade solidária, a partir de engajamentos cívicos, sem demagogia ou alardes. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/05/2003. - [A PRIMAVERA DA AMÉRICA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-primavera-da-america/): Sou uma espécie de peregrino sem caminho preestabelecido. Penso estar aqui e me surpreendo voando. Não que voar seja o meu fraco, pois não sou alado e tenho que me render aos aviões. Dois voos após, estava na América. Na América pós-Iraque, nestes feriados da Páscoa emendados com Tiradentes. Por desligamento, entrei na imigração na fila dos americanos. Pedi desculpa e ia saindo. O agente que estava atendendo riu e disse: fique. Mostrei o passaporte e eu fui quem fez perguntas sobre o seu sobrenome não americano grafado no crachá. Falou-me dos pais imigrantes, carimbou o passaporte e deu votos de boas-vindas. Estava na América de Bush. Na terra em que de cada dez carros, pelo menos quatro, portam bandeiras americanas. Onde os prédios públicos e privados e as escolas vivem uma febre patriótica exacerbada. Paciência, as eleições americanas foram o que foram. Eles são assim, pensam que pensam certo e agem errado, até, vá lá, por boa-fé. Saí do aeroporto e me dei conta da primavera que iluminava o sol, mas deixava ainda um friozinho na pele. Peguei a estrada. Tinha milhas e milhas a percorrer e promessas a cumprir antes de dormir, como diria Robert Frost. Duzentos e oitenta milhas depois estava na casa de amigos, por quem o meu coração clamava. Casa grande, bonita, quase centenária em uma pequena e nobre alameda de apenas duzentos metros, povoada de árvores frondosas que pareciam chorar pelas galhas. No pórtico: duas bandeiras. Uma americana, outra brasileira. Ainda bem. Limpei os pés e toquei a campainha. Era hora de estar lá. Sem promessas, mas com a espada da benquerença desembainhada. Falamos tanto, como se houvesse uma guerra ao silêncio que cercava o medo. Falamos sem peias, expressando tudo. E o passado se fez ali para, mesmo que em vão, descobrirmos as origens das feridas sorrateiras a corroer o corpo quando a alma silencia. Éramos irmãos, mesmo que de países diferentes, falando de coisas sérias e duras com uma candura imprópria a homens maduros. Só as árvores testemunhavam o nosso entendimento à beira da hora da verdade. Após tudo ter sido dito, passamos a ser três. Achegou-se a irmã de sangue, embora prenhe de costumes americanos. Sabíamos que podíamos escancarar a alma e que ninguém estava ali por acaso. Ali fui levado pela linguagem da alma. Não tinha nada a dar, mas precisava ir. Era tempo de chegar, da adição do olho no olho. Do aperto de mão verdadeiro, do conforto mútuo e da consciência de que estávamos prontos, mesmo sem saber para que. A vida põe âncoras em pessoas em portos não escolhidos e vai-se gastando o tempo da ampulheta do destino quando surgem os terremotos. Mas os que se respeitam e creem no que fazem, logo encontram o chão firme e não têm receio do vazio. Há sempre plenitude na racionalização e no emaranhado de sentimentos que teimam em florescer. Fez-se hora de voltar. Nada é permanente, a não ser a efemeridade do instante. Tudo fora dito e sabíamos que voltarei qualquer hora dessas, desejando seja novamente primavera e as bandeiras, as duas, ali continuem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/04/2003. - [A CIDADANIA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-cidadania/): José Gutiérrez nasceu em um bairro pobre da Guatemala. Viu que seria pobre eternamente e descobriu-se sonhando com um futuro mais promissor. Não seria como seus pais, já velhos e sem perspectivas com menos de 50 anos. O mundo estava aí para ser conquistado. Trabalhou, juntou tudo o que tinha e fugiu para os Estados Unidos. Foi dar com os costados na Califórnia, lugar lindo, rico, em que tudo parecia funcionar. Viajava de trens, ônibus, caronas, mesmo que dormisse em prédios abandonados e vivesse se escondendo da “la migra”, como é chamada a polícia migratória. Acreditava haver encontrado um sentido para a sua vida e uma nova casa. Não voltaria para a pobreza guatemalteca. Sonhava em ser um novo Antonio Banderas ou, quem sabe, um dono de uma daquelas lanchonetes em que a comida era cheirosa, serviam água com gelo e nos banheiros limpos fazia, escondido, os seus asseios. Um dia, sem que esperasse, foi preso pela “la migra”. Desolado, soube por outros imigrantes ilegais que a melhor maneira de se safar era declarar-se refugiado. Assim o fez. Saiu das grades e viu que a única saída para ser igual aos outros que viviam na América era ter um “status”. Se não tinha dinheiro, não falava bem o inglês, mas era forte e jovem, a solução seria ingressar nas forças armadas, onde já estavam 130 mil latinos como ele, e conseguir o “green card”. Era vidrado em filmes de guerra em que os “marines” sempre venciam as batalhas e tinham as mulheres que queriam. Seria um deles e mandaria fotos coloridas para seus pais e amigos da Guatemala. Escolheu o Corpo de Fuzileiros Navais. Agora era mais uma praça, o “Joe”. Veio a oportunidade sonhada: a Guerra do Iraque. Não sabia bem qual a razão dela, mas isso pouco importava. Teria viagens, bom soldo, promoções e gostaria de conhecer de perto aquelas mulheres que se cobriam todas. Tiraria os seus panos e mostraria porque se achava um Antonio Banderas. Viajou em um grande avião com farda camuflada e viu, ao chegar, que a coisa não era bem o que pensava. O Iraque lembrava a pobreza de sua Guatemala e o calor fazia ferver o seu sangue latino.Logo foi destacado para uma missão de reconhecimento em uma cidade que não sabia pronunciar o nome. Mascando chicletes, com toda uma parafernália de munições, equipamentos e armas, pensava estar protagonizando um daqueles filmes em que os “marines” sempre vencem. Seguia o que seu sargento mandava fazer e gostava de colocar os óculos em que via no escuro, como se fosse dia. Era, enfim um americano. O “Joe”. Em um instante, José Gutiérrez estava morto. Uma bala perdida ou dirigida, nunca se saberá, o encontrou. Era o segundo americano morto em operações no Iraque. Nem aí teve a glória de ser o primeiro. Seu corpo foi resgatado e colocado em um caixão de zinco enrolado em uma bandeira americana. Voltou no porão de um avião de guerra. A América concedeu a José Gutiérrez a cidadania post mortem, não precisaria mais do “green card”. Escrito por João Soares Neto, a partir de notícia verídica do jornal “El Clarín”, de Buenos Aires, edição de 29.03.2003 CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/04/2003. - [BUSHUSSEIN: O SHOW DA VIDA E DA MORTE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bushussein-o-show-da-vida-e-da-morte/): Não quero ter na consciência o peso da indiferença ou da omissão. Os canais de TV estão fazendo da guerra do Golfo Pérsico um ato vil, sádico, desumano e tornando as pessoas insensíveis ao absurdo da agressão mútua e da morte descabida. Pintar Saddam Hussein e George Bush de tiranos ou defensores ou o quer que seja, é um filme tão ultrapassado, de retórica antiga, consistente como um pudim e defensável como uma freira fazendo ´strip-tease´. Nenhum analista político americano ou iraquiano teve a coragem de ser explícito: a guerra é um emaranhado de mentiras, de embustes, de interesses econômicos contrariados e a pretensa defesa ou conquista de um emirado do Oriente Médio - que há pouco mais de trinta anos era parte de um protetorado britânico - não dá a ninguém o direito de fazer o que está sendo feito. O Iraque brigou oito anos com o Irã e ninguém se meteu. Até armas químicas foram usadas. Os Estados Unidos invadiram Granada e o Panamá e a ONU ficou calada. A Rússia quase dizimou a Letônia e nada. A Letônia, o Panamá e Granada não têm petróleo. O Irã era inimigo dos Estados Unidos e o Iraque - até recentemente - seu aliado. Estes são os fatos. Não consigo entender a razão pela qual os canais de TV, inclusive a poderosa CNN americana, se rendem - ou se vendem? - a um ilusionismo digno de Houdini. Esse canais são dirigidos por pessoas como nós e se rendem a uma ignóbil propaganda, a mesma utilizada por Goebbels na Alemanha nazista. O elevado índice de aceitação (79%) por parte da opinião pública americana da posição adotada por Bush e o gen. Collin Powell, o primeiro negro a comandar uma guerra nos Estados Unidos, reflete a maciça propaganda mostrando que cabe aos Estados Unidos defender o mundo. Para defender o mundo, os Estados Unidos estão com um contingente onde a maioria é constituída pelas minorias raciais. Basta dizer que, segundo o jornal New York Times de 25 de janeiro último, 24,6% do total de soldados é de cor preta. Outro tanto é constituído de latinos, eslavos, italianos etc. A parcela WASP (anglo-saxônica, branca e protestante) é menos que 50% do total de americanos envolvidos no conflito. A humanidade sofre com a fome do terceiro mundo, onde a África e a América Latina são contrapontos na orgia de mísseis e tecnologias que devoram, por dia, a dívida externa da Bolívia. Os cientistas do primeiro mundo dão uma demonstração patente de ausência de humanismo, de falta de preocupação de males como a fome, o câncer, a Aids e as doenças endêmicas resultantes de atraso e do descaso de uma comunidade de seres privilegiados e alheados da realidade social. Ninguém pode se orgulhar de uma guerra com data marcada, correspondentes a postos como se fosse uma olimpíada, bilhões de dólares em equipamentos e em pessoal para serem dizimados em uma contabilidade onde o registro de uma façanha destruidora é motivo de uma edição extra por locutores com emoções orgásticas citando número de mortos e feridos. Para concluir, só um detalhe: este artigo foi escrito e publicado neste Diário no dia 07 de fevereiro de 1991. Filme em reprise? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/03/2003. - [PORTUGAL DO EURO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/portugal-do-euro/): Revi Portugal. Todo viajante leva uma mala com roupas e outra, invisível, com a sua história, seus preconceitos. Não sou diferente. Portugal, para mim, é um país ainda a ser descoberto. Por mais que tenha estado lá, pouco entendo de seu ritmo, da essência do seu povo, da cultura de seus autores consagrados e da que exala de seus sobrados, monumentos, mosteiros e igrejas. Não entendo, mas tento. A primeira vez que estive em Portugal foi em 1965. Nessa época reinava a ditadura de Antônio Salazar e as cidades portuguesas pareciam tristes como o andamento do fado e a roupa preta das mulheres. Nem a língua comum permitia ouvir dos portugueses o pulsar real de suas queixas. Ela se fecha em lamentos surdos e pouco se extrai da dor –nostalgia- avassaladora que parece ser a sua essência. Como se a dor alimentasse o semblante quase sempre carregado. Quando da Revolução dos Cravos, em 1974, estive por lá e fiquei alegre por ver em Mário Soares um sopro da redescoberta intrauterina de Portugal. Parecia uma catarse coletiva e o país despedia-se da era salazarista à procura de uma nova identidade. Voltei outras vezes e vi nas décadas de 80 e 90 que o país tentava esquecer o ultramar perdido e abria-se para a Europa, sendo visto pelos países ricos como novo destino turístico, campo crescente para a implantação de indústrias, até culminar com a sua entrada na Comunidade Europeia em 1986. Foram feitas privatizações. As multinacionais baixaram em Portugal e saíram comprando o que podiam. Grandes grupos portugueses se consolidaram. Aí parece ter ocorrido um erro de perspectiva. Com dinheiro fácil para novos negócios o país foi ficando endividado e, hoje, neste inverno de 2003, revi Lisboa como uma cidade mais moderna, com as reformas introduzidas para a realização da Expo-98 com o belo e grandioso Parque da Exposição, mas com um certo ar de recessão. A euforia parece ceder, novamente, ao lamento e há até quem diga que o Euro, introduzido em 1999, não tenha feito bem a algumas pessoas que teimam em raciocinar em escudos e contos de réis. O choque da europeização de Portugal ainda é um fenômeno novo, mas o fado parece voltar a ter sentido, pois se reacendem os sentimentos de pesar, como se o progresso tivesse minado a alma de quase todos. Os preços subiram e o rico dinheirinho que era mandado de volta para as famílias pelos emigrados porteiros, motoristas, governantas, recepcionistas e garçons espalhados por toda a Europa rica não tem mais o encanto de outrora. Disse, no início, não conhecer bem a essência da alma portuguesa, mas retrato o visto e ouvido nas minhas andanças pelo velho Chiado, a Baixa e tantos outros lugares. E o faço com o que tenho de Caminha e Soares no sangue. Gostaria de estar errado. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2003. - [HISTORINHAS DE CARNAVAL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/historinhas-de-carnaval/): Neste domingo de carnaval em que muitos brincam, outros se escondem, vários viajam, os tristes curtem suas solidões e alguns até leem, resolvi contar umas historinhas de carnaval, todas passadas comigo. Primeira: tinha por volta dos 12 anos e fazia parte de uma turma, entre adultos e crianças, que conseguiu um caminhão para passear no corso (corso era uma área da cidade em uma avenida de pista dupla, destinada, de um lado, aos blocos e os sujos, a atual turma da pipoca; do outro, ao tráfego dos veículos). Nosso caminhão era do tipo misto, com duas boléias e uma carroceria de madeira. Os mais velhos iam nas boléias. Os mais jovens ficavam na carroceria. Tinha ganho um lança perfume (cloretil Rodouro). Embora não estivesse fantasiado de pierrô, vi uma perfeita colombina e gastei todo o lança perfume com ela que me mandava tímidos sorrisos ao lado do irmão. O corso acabou, a colombina foi embora acenando e fiquei com o lança perfume vazio na mão. Segunda: estava com cerca de 15 anos. Pedi ao meu pai para ir com ele a uma festa noturna de carnaval. Ele concordou. Era terça-feira. Naquele tempo havia umas vesperais em casas de família com discos. Fui participar de uma. Cheguei em casa cansado, resolvi repousar um pouco e acordei na quarta-feira. Terceira: no fulgor dos 18 anos, resolvi liderar a formação de um bloco com estudantes do C.P.O.R. (para quem não sabe, futuros oficiais da reserva do Exército). Conseguimos até uma viatura militar para nos levar aos bailes. Houve um dia em que, eufóricos, levantamos o estandarte do nosso bloco mais alto que o da turma do Clube Líbano. Foi o bastante. Começou uma briga e a festa acabou. Quarta: Já universitário e com namoradinha a tiracolo, fizemos um Bloco das Almas. Todos de branco, cobertos da cabeça aos pés, pintávamos e bordávamos pelo meio da avenida, sem que ninguém nos reconhecesse. Não havia bebida, só muita energia até que os pés pisados por terceiros pedissem uma trégua. Quinta: Teatro Municipal, São Luís. Havia convidado uma turma de cearenses para assistir ao baile municipal com concurso de fantasias. Todos solteiros. No meio do desfile, um de nossa turma, que havia bebido, subiu à passarela e resolveu tomar, de um dos candidatos à originalidade, o longo bambu que tinha na ponta um pagode chinês iluminado por uma vela. Tomou, a vela ardeu e foi um vexame. Sexta: Marquês de Sapucaí, Rio. Estava sentado na cadeira vendo as escolas de samba passarem. Nos intervalos, o bloco dos garis fazia a festa, até que apareceu alguém de paletó azul marinho e gravata acenando fortemente para a multidão, indo e vindo sem parar de um extremo ao outro. Perguntei quem era: Fernando Collor, futuro candidato a Presidente da República. É doido, pensei, e não votei nele. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/02/2003. - [A BIENAL ARTE CABEÇA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-bienal-arte-cabeca/): Visitei, com olhos de leigo, uma parte da Bienal de Artes das Américas. A própria bienal se diz "ponta-cabeça". É uma proposta de vanguarda, experimentação, rupturas, instalações e objetos. Certamente sem rigor, conceito, conteúdo e formas consagradas. Ponta-cabeça pode dizer muita coisa ou não expressar quase nada. Sabemos que a arte pode ser um choque, uma distorção da realidade, um desfocar sobre a visão dita normal. Sabemos também que toda arte, como já pensava Picasso, é uma espécie de mentira por meio da qual se procura perceber a verdade. O artista, no caso em espécie, é, tal os poetas, um fingidor, e dá aos seus desvarios uma expressão viva dos seus sentimentos, engajamento social ou político e, quiçá, de sua alienação. A "ponta-cabeça" parece não ter feito a maioria das cabeças das pessoas que estavam por lá. Tive o cuidado de perguntar e o desapontamento era maior que o regozijo. Coisa de leigo, quem sabe. Embora não possa dizer que baldes plásticos agrupados não sejam uma expressão artística. Tampouco tenho autoridade para discordar que graxa espalhada em um encontro de paredes seja, em sua negritude, uma manifestação fértil a perturbar a retina de quem vê. Arte é perturbação. Nesse caso, a graxa está bem aplicada. Pregos em uma parede branca com iluminação artificial podem ter efeitos inquietantes. E arte é também inquietação. Jornais espalhados e um caminho a percorrer entre eles pode não ter uma finalidade precípua. E arte não tem finalidade. Tem simbologia, alegoria e reflexos. E quem sou eu para dizer que não havia reflexos e simbologia em meio ao caminho que passei entre vales e montanhas de páginas políticas, econômicas, sociais, esportivas etc. Vi águas da Tailândia em um vídeo que poderiam ser de um rio qualquer, mas eram da Ásia e revoltas. E águas revoltas, de qualquer continente, serão até manifestação de arte. Tudo o que mexe com a nossa inércia mental, provoca pensar, prazer, desconforto, sentir, e poderá ser arte. Talvez tenha sido essa a intenção do artista filmador. E, de sala em sala, vi ainda retratos em que as íris dos olhos eram máscaras de homens engravatados, como a dizer algo que o artista percebeu. Artista vê com o terceiro olho, como os yoguis. Quase a sair, outro vídeo. Este, de pessoas tentando fazer o jogo da velha em meio a um cruzamento de um trânsito louco, em que semáforos não oportunizam o pintar dos jovens ajudantes do câmera inquieto que dirige a cena sobre o asfalto pintado em xis. No final, uma grande bola, com pequenas reentrâncias, quase monocromáticas, assimétricas, como a nos dizer da imperfeição de todos nós, especialmente os que, como eu, não entendem de arte. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/02/2003. - [CAMINHOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/caminhos/): Tenho recebido alguns convites de formatura das várias universidades que hoje pululam por aí. Todos muito arrumados. Feitos para durar. Há mensagens (aos pais, mestres, amigos, amores, ausentes etc.) imagens, fotos sorridentes, papel de qualidade, diagramações cuidadas e espaços para oferecimentos. Isso mostra, por um lado, o zelo dos formandos. Por outro, salvo engano, a vaidade de parecer dizer a alguém: ´o meu é mais bonito que o seu´. Pois o público que vai a essas solenidades é constituído, como todos sabem, dos pais, namorados, amigos e os antigos colegas de colégio que seguiram ou tentaram carreira diferente. Estarei errado? Além de ter recebido vários, alguém teve a coragem de me pedir idéias sobre mais um convite. Queriam fazer algo diferente. É provável que vá estragar a surpresa, mas resolvi sugerir a abertura com Patativa do Assaré: ´É um me chama para cá, me leva para lá, diploma, festejo, uma louvação danada´. Sugeri também uma reflexão de Rainer Maria Rilke: ´Você está olhando para fora, e é justamente isso o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou julgar. Ninguém. Só há um caminho: procure entrar em você mesmo´ Recomendei ainda citações de Einstein, Camus, Emerson, Cantares (8:6-7), mas fiquei encantado com uma, especialmente do quase esquecido Carlos Castañeda, tão lido pelos jovens contestadores dos anos 70. Diz ele: ´Cada caminho é apenas um entre milhões. Se você acha que não deve segui-lo, não precisa ir adiante. O fato de abandoná-lo não pode agredir você, nem pode ofender ninguém. A sua decisão de seguir ou abandonar um caminho deve ser livre de medo ou ambição. Eu lhe aviso: examine cada caminho com atenção e propósito. Experimente-o tantas vezes quanto julgar necessário. E pergunte a você mesmo: esse caminho tem coração? Se tiver, o caminho é bom. Se não tiver, não tem utilidade´. Depois que repassei o material, li e reli. Descobri que não só os formandos com as euforias naturais, mas os pais, os amigos, os namorados e os mestres deveriam meditar sobre os seus próprios caminhos, tão difíceis nesta época em que as pessoas ficam cheias das próprias certezas por não terem coragem de abandonar comportamento, vertebrarem-se, que não agregam muita felicidade e isolam entendimentos. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/02/2003. - [A FESTA DE PARIS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-festa-de-paris/): Por um desses acasos, na virada do ano, estive em Paris. Relembrei Hemingway no livro ´Paris é uma festa´. Preparado para a noite fria, misturei-me à multidão na vasta região que fica entre a Av. Champs-Elysées e a Torre Eiffel. Táxi, nem pensar. O jeito foi mergulhar na estação George V e emergir do metrô superlotado em Bir Hakeim perto do Trocadero ao pé da obra de Gustave Eiffel. Na noite do dia 31 de dezembro os metrôs de Paris são gratuitos, pois não há possibilidade de controlar a multidão e os táxis somem. Há policiais de carro, moto, bicicleta e todos ficam atentos, mas distantes. Restaurantes cheios, gente de todo o mundo e uma turba imensa soltando fogos de artifício, bebendo, esquecendo a baixa temperatura que sombreava a noite, mas deixava resplandecer os lampiões e a iluminação especial que adornava a torre de mais de 300 metros de altura. Depois do jantar gostoso, cheguei à base da torre onde camelôs vendiam brincos e colares fosforescentes, bebidas e comidas. Foi então que descobri que grande parte do povo na rua parecia de origem muçulmana ou africana. As roupas coloridas, a cor da pele, as famílias com muitas crianças sendo puxadas por pais severos, o som característico das suas línguas denunciavam a ´invasão´ turística ou permanente tão reclamada pelos franceses. ´A França é dos franceses´, dizem os xenófobos, mas não haverá lei, tratado ou força militar que consiga mais desentranhar dali os que chegam ou vieram das antigas colônias e se apropriam da metrópole, repetindo sem saber, o que dizia o socialista utópico francês Proudhon ser a propriedade um roubo. À meia-noite não houve contagem regressiva. Cada qual viu em sua própria hora chegar o novo ano e os fogos que nem de longe lembravam Copacabana ou qualquer grande cidade brasileira coloriam a noite de forma tímida, enquanto garrafas vazias de champanha entulhavam os canteiros e até desciam para repouso nas águas do Sena. Pouco a pouco, como se houvesse uma chamada geral, as pessoas foram se dispersando. Os mais afoitos e liberados se cumprimentavam, trocavam abraços e se beijavam. Era 2003 e o jeito foi pagar mais euros que o devido a um taxista que, usando o seu carro particular, aproveitava a oportunidade, para garantir a compra dos queijos que, certamente, comeria na manhã do novo ano que já despontava. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/01/2003. - [NOVOS PLANOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/novos-planos/): Estamos no começo de um ano. É hora de agendar-se, planejar o que se deseja fazer. Que tal estabelecer duas metas por mês? É claro que é só sugestão, cada um faça as suas, se desejar. Apenas levanto questões, bagunço, nada mais que isso. - Em janeiro, o mês do novo ano: 1. Estabeleça: neste ano agirei com clareza, farei planos e tentarei atingi-los. É a hora de acreditar em mim. 2. Cuide: não esqueça os detalhes. Simples números são o segredo para abrir um grande cofre. - Fevereiro, o carnaval se aproxima: 1. Decida: É preciso mesclar as coisas da vida. Não se deve viver só estudando e trabalhando. É preciso alegria, misturar-se, trocar energia. 2. Simplifique: não se ache o melhor ou pior, cure a sua ferida. É hora de alegrar-se. A tristeza é feia.- Março, quando já aparecem dúvidas 1. Acredite: não há tantas certezas. Transforme suas dúvidas em atos de fé e vá em frente. Não tenha medo ou se tiver, enfrente as questões. 2. Ame: o amor quando chega derruba porteiras e mexe com os sentimentos. Curta-o, mas não machuque. - Abril, que começa com o dia da mentira: 1. Não minta: a mentira retorna e você passa a desacreditar em si próprio. Os outros são você do lado de lá. 2. Amizade: sem amigos, você é um carro sem combustível. Não vai a lugar nenhum e sobra estacionamento. Maio é um mês de fé: 1. Creia: sem acreditar, as coisas começarão com erros. Vista a sua própria camisa e atue para ganhar. 2. Moda: Não se vista para os outros. Vista-se para agradar a você. Estilo é quando você se repete - Junho, quando as fogueiras começam a acender: 1. Espere: há situações em que precisa cautela. Pondere, mas não pare. Siga sempre, mesmo que tenha que mudar de estrada ou de sapatos. 2. Mistério: não conte tudo. É sempre bom um mistério. Dá a você o domínio sobre o fato. - Julho, para quem pode tirar férias: 1. Respire: puxe a sujeira que está dentro de você e expire. Imagine o que de novo quer e inspire. É preciso trocar de ar, sempre. 2. Música: ouça música, boa música. Boa música para você é a que ouve sozinho e gosta. -Agosto, que é de gosto para uns e desgosto para outros: 1. Lute: faça tal o leão. Seja forte, mas calmo. Não desista. 2. Velhice: respeite e ame os mais velhos. Eles são iguais a você. A diferença está no seu olhar. -Setembro, o mês da pátria: 1. Sinta: Reexamine-se, olhe-se, questione-se, corrija-se. Todo dia é tempo de escoimar o errado e mirar o futuro. 2. Saúde: Não reclame da dor no braço, lembre-se do maneta. Levante cedo, respire fundo, dê língua para o espelho e enfrente tudo.- Outubro, mês do médico e do professor: 1. Chão: descalce os sapatos, pise no chão e sinta a energia da terra. Você é terra, mesmo precisando de ar, água e luz. 2. Arrependimento: Não deu certo, paciência. Vá em frente, ninguém sabe o que encontrar em rua nova. Mude de rua, mude de lua. -Novembro, quando o ano já está a acabar: 1. Pense: se não deu ainda certo, olhe para você. Você é a história. Descubra a resposta, ela está no bolso da sua razão ou do seu sentimento. 2. Fotos: não mostre fotos antigas, faça com que as fotos de hoje sejam melhores. - Em dezembro quando tudo é plano novo: 1. Compartilhe: é época de troca, especialmente de atitudes. Pense nos outros, mas não esqueça de você. 2. Sabedoria: Ficar calado, às vezes é um ato de profunda sabedoria. Sorria, faça caras e bocas, mas fale pouco, sempre. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/01/2003. - [A UFC DE TODOS NÓS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-ufc-de-todos-nos/): A história da Universidade Federal do Ceará coincide com a maioria das estórias pessoais dos cearenses nascidos a partir do século passado. Ou somos professores, ex-professores, funcionários, egressos da UFC, ou pais, filhos e parentes dos quase 60 mil estudantes que passaram por ela nestes seus 50 anos de vida. É ainda uma curta história de 50 anos, mas já é tempo suficiente para mostrar resultados que vão além das áreas do conhecimento em seus diversos centros e faculdades. Muita gente, mesmo professores, funcionários, estudantes e egressos, não tem noção exata da dimensão da UFC. Geralmente se pensa que as áreas de graduação, pesquisa, pós-graduação e extensão, que constituem - aparentemente - o seu foco principal, são tudo o que a UFC faz. Esquecem que há uma atuação discreta, mas consistente, na área de assistência aos estudantes, com residências universitárias, restaurante universitário a preços simbólicos e um meio milhar de bolsistas de iniciação científica. Além disso, a UFC mantém a Casa de José Alencar, patrimônio histórico nacional; um Museu de Arte, com rico acervo; a Casa Amarela, que disponibiliza cursos de cinema e correlatos; um Curso de Arte Dramática; uma Orquestra de Câmara, em parceria com o Sesi; uma Rádio Universitária; 14 bibliotecas; seis Casas de Cultura Estrangeira; uma Editora; uma Maternidade-Escola; um Instituto de Ciências do Mar, o Labomar; e um grande Hospital Universitário. Tudo isso é a UFC, mas ela poderia ser bem maior se os ex-alunos, entre os quais me incluo, tivessem uma organização social institucionalizada de apoio às suas múltiplas atividades que beneficiam grande parte da sociedade cearense. Creio que é tempo, sempre é tempo, de retribuir o que a UFC fez por todos nós. É hora de se criar uma entidade de ex-alunos que possa captar e fomentar recursos privados, sob a forma de mensalidades, doações e outras ações inteligentes de suporte para criar, manter e oferecer um diferencial qualitativo ainda maior que o atual. Estas minhas observações são fruto de observação pessoal, por participar, com muita honra, da Comissão que cuidou, neste ano de 2004, do cinquentenário da UFC. Pude observar o nível de benquerença e interesse que reina entre todos os seus integrantes e isso se deve ao jeito simples e competência com que o reitor René Barreira conduz as reuniões, mostrando os seus sonhos, limitados pela crua realidade de um orçamento que não dá margem a quase nada. Os sonhos da UFC de hoje precisam ser compartilhados por todos nós, especialmente os que nela mourejaram e nela obtiveram ensinamentos que serviram de base e alavanca para suas realizações pessoais e profissionais. E é bom que ninguém esqueça e tudo fique mais claro do que já é: isso se deu graças a um sonhador inveterado, Antônio Martins Filho, que no próximo dia 22 completaria cem anos. O sonho se tornou a realidade, hoje festejada com orgulho e reverência. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/12/2004. - [O FORTALEZA É ASSIM](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-fortaleza-e-assim/): Nasci em Fortaleza. Sou Fortaleza. Criança ainda acompanhava meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, que foi Presidente do Fortaleza Esporte Clube nos anos 50/60, aos treinos no Quartel do 23º BC, às concentrações no Balneário de Pirapora, em Maranguape, e ao velho Presidente Vargas. Depois, meu pai comprou a sede da Rua Júlio César, no Benfica. Era uma casa simples, recuada, uma espécie de bangalô, próxima do Estádio Presidente Vargas. Vieram o Estádio Alcides Santos e a sede do Pici, o Castelão foi inaugurado e o resto todos sabem. O que não sabem é que na tarde em que meu pai foi enterrado, um domingo, 22 de novembro de 1991, quando voltava do Cemitério Parque da Paz, passei pelo Castelão. Era um FortalezaXCeará. Abri momentaneamente o rádio do carro e ouvi que o Fortaleza perdia por 1X0. Em um diálogo mudo com meu pai eu falei: além de morrer, ainda perde para o Ceará. Fechei o rádio. Cheguei em casa, abri o rádio: Fortaleza 2XCeará1. Ontem, 11 de dezembro de 2004, era o último jogo do Fortaleza na série B do Campeonato Brasileiro. Segundo os matemáticos e estatísticos, o Fortaleza era o time que tinha menos possibilidade de ir para a primeira divisão, de onde saiu, em parte por arbitragens desastrosas, na única vaga que existia. A outra já estava definida, do jeito Brasiliense de ser. Mas isso é outra história. Pois bem, foi o Fortaleza, o que disputava com mais três, o que matematicamente tinha menos probabilidade de vencer, quem ganhou o jogo e se classificou, a despeito da crônica esportiva do Rio e São Paulo que torcia por Bahia e Avaí e já dava o Fortaleza como permanente na Segunda Divisão. O Fortaleza é assim, surpreende, desmoraliza cronistas esportivos, desfaz projeções estatísticas, faz a gente sorrir e chorar. Faz também a gente voltar a ser menino e ficar ligando para os amigos dividindo a alegria que cura até gripe. E o Fortaleza manda sempre mensagens aos seus dirigentes. Ontem, foi passada uma nova mensagem. O gol da vitória foi de Ronaldo Angelim, que veio lá de Juazeiro do Norte e não dos muitos bondes que vieram de fora e precisam ser devolvidos o quanto antes. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/12/2004. - [CELA NA UNIFOR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cela-na-unifor-2/): Tomei o carro, segui pela Av. Washington Soares, dobrei à esquerda na entrada da Unifor, contornei o Centro de Convenções e estacionei em uma área bem cuidada e com sombra farta, em frente ao discreto e belo Espaço Cultural Unifor. Fui ver a exposição de Raimundo Cela em meio a um dia de trabalho. Parei tudo o que estava fazendo e fui. Fui só. Havia recusado convites, inclusive o da abertura. A arte pictórica, para mim, é para ser contemplada sem troca de conversas, sem auxílio de bebida e com o silêncio que nos ajuda na concentração e no foco que a retina pede. Na tarde em que fui, só ouvia o leve ruído do ar condicionado, não quebrado pelas atendentes e vigilantes, tão discretos e eficientes como costumam ser os que mourejam na Unifor. Eram poucos os quietos visitantes. Entrei devagar, com o respeito de quem já conhecia a história – e parte da obra – do pintor cearense Raimundo Cela (1890 -1954), que me foi passada na juventude por um já falecido colega, Valério Cela Militão Menescal. Segui o roteiro que o meu jeito manda. Vejo as coisas da esquerda para a direita, canhoto que sou. E foi assim que ia, pouco a pouco, me deliciando com as pinturas, desenhos e gravuras que começaram em Camocim, passaram por Fortaleza e Rio de Janeiro, vararam parte da Europa, retornaram a Fortaleza e se quedaram em Niterói. É claro que tudo já foi dito na apresentação de Airton Queiroz, na introdução de Max Perlingeiro, no Prefácio de Estrigas, na cronologia apurada e nas críticas de Fábio Magalhães (pinturas), Cláudio Valério Teixeira (desenhos) e Adir Botelho (gravuras). O que mais eu poderia acrescentar a essa primorosa iniciativa cultural da Unifor? Apenas duas ideias, se é que já não foram tomadas. Primeira: prorrogar a exposição pelo período das férias escolares de dezembro a fevereiro, incluindo-a nos roteiros de operadoras de turismo nacionais e estrangeiras que trazem grupos de pessoas a Fortaleza. Segunda: produzir um filme em 35mm ou DVD para posteriores projeções em escolas públicas e privadas de todos os níveis do Ceará e do Brasil, servindo de exemplo a quantos desejam fazer da arte o seu caminho básico. Ou mesmo que assim não seja, possam ir aprimorando o olhar. Essa exposição, pela riqueza de seu acervo, bom gosto no seu layout, coerência na iluminação e curadoria profissional, tem o jeito low profile que Airton Queiroz, um amante das artes, sempre impõe as coisas que faz sem alardes, mas com competência. Mesmo que as minhas duas sugestões não sejam acatadas, veja se você consegue umas duas horas do seu tempo e vá lá até o próximo dia 12 e descubra porque William Somerset Maugham dizia que “a arte é um dos grandes valores da vida e ensina aos homens humildade, tolerância, sabedoria e magnanimidade”. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/12/2004 - [O CÓDIGO DA VINCI E A ARTE DE VENDER.](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-codigo-da-vinci-e-a-arte-de-vender-2/): Junte Leonardo Da Vinci e a sua obra, um professor de Harvard quarentão e bem apessoado, uma bela policial especialista em criptologia(ocultismo), um assassinato em pleno Museu do Louvre, um monge albino fanático, um rico inglês com sequela de poliomielite e uma “intricada” história sobre Jesus, Maria Madalena e sociedades secretas, em meio a uma caçada policial entre Paris e Londres, envolvendo jatinho e limusine, e terá todas as misturas que o escritor Dan Brown utilizou para escrever o romance “O Código Da Vinci”, um fenômeno editorial no mundo, pois se diz ter vendido 15 milhões de exemplares. E o pior é que tive de ler o livro, pois o ganhei de presente e sempre era perguntado: Já leu? Acabei lendo e o li com atenção, embora não tenha, desde o começo, gostado. É claro que tudo que se escrever sobre o livro dará a ele a publicidade que a Editora Doubleday, ardilosa como a maioria das grandes editoras norte-americanas, soube construir. De cara, mandou 10 mil exemplares de graça para jornalistas, donos de livraria e outros. Depois, começou a fomentar a “polêmica” de que o livro trazia um grande segredo que poderia destruir a fé católica. A Editora Sextante, responsável pela tradução e venda no Brasil, não fez por menos. Distribuiu, com livrarias e críticos literários, brochuras com os quatro primeiros capítulos do livro e criou uma falsa ansiedade, além de grandes reportagens na mídia. O resultado é a grande vendagem. Desconfio que a grande maioria compra, começa a ler, folheia e não conclui a leitura. O livro tem 475 páginas e, adivinhem o que tem na página 476? O resumo-propaganda do próximo lançamento no Brasil do livro do mesmo Dan Brown, “Anjos e Demônios”, com o mesmo professor de Harvard, Robert Langdon, como protagonista principal. Paralelo a isso, já está em andamento a filmagem do “O Código Da Vinci” que, certamente, terá uma grande bilheteria, pois o seu diretor, Ron Howard, é o do filme “Uma Mente Brilhante”, que ganhou o Oscar em 2002. Tom Hanks será o protagonista principal. Tudo o que escrevi serve apenas para mostrar como nós, pobres leitores, somos levados, muitas vezes, a achar “excelentes” autores que apenas trilham um caminho já conhecido da construção de livros com descrição pormenorizada de lugares, coisas, objetos e instituições, respaldado por um suporte bem urdido de marketing de editora. Rever a história, descrever pessoas, lugares, objetos e instituições são hoje atos profundamente simples, que podem parecer ao leitor como erudição e talento, quando não passam de mera pesquisa que pode ser feita pelo próprio autor, qualquer boa bibliotecária ou historiadora. A propósito, a mulher de Brown, Blythe, é historiadora de arte. Joao Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/11/2004. - [DEPOIS DAS ELEIÇÕES, VEM A PRÁXIS POLÍTICA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/depois-das-eleicoes-vem-a-praxis-politica/): Desde agosto que o povo brasileiro está envolvido com as eleições municipais. Todos ouviram, leram, viram, meditaram e, muitas vezes, ainda ficaram inseguros. Agora, veio o segundo turno, e parece que muita gente estabeleceu, conforme seus padrões de referência, uma espécie de empática lúcida. A empatia lúcida, nestes tempos de hoje, é votar não só com quem nos identificamos, mas no provável e possível vencedor. Os eleitores, calejados de tantas decepções, ainda assim aceitam os cenários, as falas, as tramas e as promessas. Mas, hoje não gostam de perder, querem votar no vencedor, mesmo sem entenderem bem o porquê. Não é para isso que as pesquisas existem? O processo democrático das eleições é uma forma elegante de se prometer mais do que se pode cumprir. Isso não é regra apenas para as eleições municipais. Vale para todas as eleições, até para a badalada eleição americana, tão ciosa de seus padrões éticos e tão vulnerável na sua antiquada forma de colégio eleitoral. O que se viu nos últimos meses, do Acre ao Rio Grande do Sul, foi a tentativa de misturar política com moral. Esqueceram -ou até será que estavam lembrados, mas faziam de conta que não? - os especialistas em marketing que política e moral são assuntos de filosofia. A crueza da realidade do marketing político imagina que a pessoa em si vale pouco, o que conta são os grupos na formação da opinião. A moral é uma questão individual, mas os grupos agem, influenciam e contam. Por tal razão é que as pessoas tentam não se isolar, formam grupos de naturezas diversas, e disso os políticos sabem muito bem como cuidar. E sabem também, que ao contrário da filosofia e da ciência política, a atividade política não antagoniza o saber e a ignorância, a mentira e a sinceridade. Na verdade, a práxis da política dos candidatos mexe com forças e opções. Os políticos não são testados, são escolhidos, em um combate meio insano de correlação de forças e valores. Passada a pirotécnica das duas eleições, aqui e alhures, é hora de deixar os marqueteiros em remunerado descanso e partir para a outra práxis, a da arte de governar em meio às restrições legais, institucionais e as promessas que fizeram, sem as quais, poucos teriam sido eleitos. Estes quase dois meses de transição que antecedem as posses serão consumidos na montagem das equipes, no acompanhamento das eleições das mesas das câmaras de vereadores e na elaboração das ações de governo, não necessariamente as que nos palanques bradavam, mas as que a realidade e a urgência clamam. Sorte para todos. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/11/2004 - [ELEIÇÕES: CÁ E LÁ](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/eleicoes-ca-e-la/): Fico pensando que no próximo domingo, dia 31, eleitores, de 44 médias e grandes cidades brasileiras, estarão escolhendo, em segundo turno, obrigatoriamente, os seus prefeitos. No Brasil, somos obrigados a votar. Dizem que é uma forma de aprimoramento democrático. Devemos escolher sempre entre duas pessoas, geralmente de pensamentos opostos, que admitem ter soluções e respostas para todos os calcificados e endêmicos problemas urbanos. Dois dias após, os eleitores americanos, que desejarem, estarão votando para eleger o presidente dos Estados Unidos. Lá o voto é opcional, vota quem quer. Dizem por lá que não votar é uma expressão de liberdade, de democracia. O que tem uma coisa a ver com a outra? Nada e tudo. Nada porque as cidades brasileiras, aparentemente, pouco têm a ver com a realidade americana. Tudo, porque da decisão da escolha do Presidente americano, dependerá, quer queiramos ou não, parte do modo de viver da humanidade. A pobreza das cidades brasileiras – e isto inclui São Paulo – é fruto, entre outras coisas, de uma falsa autoestima da sociedade dita culta e dos que se consideram ricos. Somos meros copiadores de padrões que nos repassam a academia, a moda, as grandes empresas transnacionais, a televisão, e os outros meios de comunicação. Não criamos ainda uma identidade nacional e até parece que temos vergonha disso. Não aprendemos a nos contentar com o essencial, mas buscar o supérfluo e a copiar o que tem de pior nas sociedades ditas avançadas. Aprendemos a olhar os nossos pobres e miseráveis com desdém e a nada fazer por eles, como se fossem pessoas de outras naturezas e nos encastelamos em nossas casamatas com seguranças, alarmes e medo. Igualmente, nas sociedades avançadas, se fez do medo a motivação para a guerra. Se você é social ou racialmente diferente, se não pensa como a maioria, pode ser uma ameaça que precisa ser isolada, rechaçada ou exterminada. Lá e cá não se ajuda a erradicar as causas da pobreza que passam pela baixa ou nenhuma educação e do absoluto paradoxo que a vida industrial nos relegou: as máquinas precisam de pouca mão-de-obra e os “pobres e os ignorantes parecem não ter jeito”. Esperemos que cá e lá tenhamos um mínimo de bom senso na hora de votar, para não continuarmos neste intrincado mundo em que a saída mais parece um denso labirinto que se assemelha a trincheiras cavadas repletas de cansados e confusos combatentes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/10/2004 - [MÉXICO: UM LIVRO ABERTO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mexico-um-livro-aberto/): Estou na cidade do México. Esta cidade tão bonita, quão diversa em suas múltiplas faces. Vim, meio atropelado e curioso, por minha conta e risco, para sentir o outono e ver a Feira do Livro que tem a cidade de Fortaleza como convidada estrangeira especial. Pena que Fortaleza só se faça representar pela Secretaria de Cultura do Ceará. De qualquer forma, vieram mais de 20 pessoas. A Secretária Cláudia Leitão, assessorada por Cleudene Aragão, comanda o grupo. Poucos escritores, é verdade. Mas há a alegria e os acordes do bom conjunto musical de Waldonys, com uma versão quase erudita da nossa música popular, as presenças dos escritores Ângela Gutiérrez, Batista de Lima, crítico literário Floriano Martins, artista plástico Hélio Rola e do cordelista Klévisson, entre outros. A Feira do Livro fica situada na parte central da cidade do México, tão grande quanto rica em cultura e arqueologia. O Zócalo é o pulmão da cidade, na Praça da Constituição, próximo do bosque Chapultepec, onde se pode ver ruínas do Templo Mayor asteca, um dos parques mais bonitos da América Latina. Nele está montada uma grande área de 23 mil metros quadrados onde expõem cerca de 130 editoras. Mas, a Feira tem também eventos alternativos nos museus Nacional das Culturas e da Cidade do México e nas antigas – e restauradas - sedes do Palácio do Arcebispado e do colégio de Santo Idelfonso. O tema desta Feira é “a cidade, um livro aberto”. Patrocinada pelo Governo do Distrito Federal, Secretaria de Cultura e Câmara Mexicana do Livro, pretende ter 900 mil visitantes e difundir, não só o gosto pela leitura, mas a beleza, a cultura e as artes eruditas e populares de Fortaleza. Há sim, acreditem, um stand ou tenda com gente, livros, música e arte plástica cearenses. O amor do México por Fortaleza precisa ser correspondido com mais intensidade. O Consulado e o Adido Cultural da Embaixada do México no Brasil, Felipe Ehremberg, que tem sido um visitante ilustre em Fortaleza, mercê de sua larga de homem de cultura internacional, elegeram a nossa cidade para intercâmbios. Essa oportunidade rara, deveria ter tido uma repercussão de maior densidade cultural pela visibilidade que Fortaleza e o Ceará precisam ter. Não há outra forma de sairmos do anonimato. Urge entender que a cultura é um dos veículos propulsores do crescimento humano, sem falar na possibilidade do crescimento editorial, limitado em Fortaleza, via de regra, a saraus patéticos de lançamentos, alguns com longos discursos laudatários, onde se vendem livros que poucos folheiam e raros leem. Nesta feira se esbarra, em todos os cantos, com expoentes da literatura da América Latina, alguns todos tão inseguros e vaidosos como podem ser os escritores. O importante é que se adotou e difundiu aqui que o livro é um instrumento de libertação da pessoa. Ler nos torna livre. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/10/2004. - [O RÉGIS DOS SÁBADOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-regis-dos-sabados/): “A doença nasce em silêncio. Seja pela ação de germes, ou substâncias nocivas, ou por processos endógenos, sutis alterações processam-se nas células: é a enfermidade em marcha. Quietamente, imperceptivelmente, implacavelmente. Em algum momento, algo acontecerá, uma dor, falta de ar, palpitação, hemorragia”. Este texto é do escritor e médico Moacyr Scliar no livro “A Paixão Transformada”. Régis Jucá sabia e cuidava disso com a competência de cirurgião, senso de humanidade e o convencimento de terapeuta. Régis Jucá saía da UFC quando eu ainda estava entrando. Lá, os que fizeram política universitária, tinham conhecimento da trajetória do Régis no Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina e no Diretório Central dos Estudantes. Fomos a geração seguinte e nos espelhamos nos que tinham nos precedido. Régis era um deles. Depois, de uma forma espontânea e meio anárquica, formou-se há mais de 30 anos sob os auspícios de Edson Queiroz o que hoje se chama de “Turma dos Sábados”. Régis foi um dos fundadores e expoentes, embora essa turma, por sua natureza, seja iconoclasta. Ele era assíduo, referência e um hábil contador de histórias. Falava de suas viagens, seus cursos e professores, de figuras humanas, entre outras, de Juscelino e Edson Queiroz, mas pouco se referia aos seus êxitos como cirurgião. Tivemos divergências. Mas a sós, conversávamos e víamos que tudo era bobagem, mera bobagem. Leitor de jornais, um dia bem cedo me liga e fala que havia acabado de ler um artigo que eu escrevera: “Hospitais, ante-sala da morte”. Nele eu reclamava da falta de pronto atendimento – no hospital em que Régis pontificava – levando à morte (hemorragia interna) o nosso amigo comum Afrânio Santa Cruz. Régis justificou o fato por ser um fim-de-semana próximo do carnaval em que a emergência fica a cargo de médicos neófitos e conversamos longamente. Régis era um defensor de sua categoria, mas não fazia alarde disso. Agia assim, em surdina. Outra história: Régis era candidato ao Senado, seu partido começou a boicotá-lo e ele renunciou à postulação. Escrevi um artigo elogiando a renúncia do Régis em face das injustiças cometidas pelo partido. Ele telefona agradecendo o apoio e tenta justificar a fraqueza dos homens. Deixava de ser candidato, mas continuava um animal político, opinando, escrevendo e influenciando pessoas do seu vasto círculo. Falava com convicção e tinha estofo. Ontem, foi o primeiro sábado da turma sem o Régis. Essa turma já perdeu grandes figuras: Astrolábio e Edson Queiroz, Alcimor Rocha, Newton Gonçalves, Raul Fontenelle, Tancredo Carvalho e agora, Régis Jucá. Certamente, Régis terá muito com quem conversar e debater, pois os que já se foram são um time de primeira grandeza, brilhantes e polêmicos. Creio que os amigos não desaparecem, mudam de dimensão. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/10/2004 - [LEITURA DE BORDO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/leitura-de-bordo/): Costumo ler quando viajo em aviões. E, naturalmente, procuro ver o que os passageiros ao alcance da minha vista estão lendo. Nas viagens de curta duração há uma tendência para a leitura de jornais e revistas da semana, distribuídos pelos comissários. A maioria folheia e passa pouco tempo lendo. Depois, vêm as revistas das próprias companhias aéreas. Elas são bem diagramadas, geralmente bilíngues com propagandas de bens e artigos finos. Trazem matérias leves, bem-humoradas e, quase sempre, mostram assuntos de moda, variedades e fotos em profusão em reportagens sobre cidades onde há escalas ou interesses. Nessas revistas, há espaços para cronistas consagrados que, com sutileza, tentam distrair os passageiros do medo de viajar, dos raros vácuos, da proibição de fumar, cintos atados e até do gordo vizinho que teima em aboletar-se do braço da poltrona que, imaginávamos, seria nosso. Nos voos de ponte-aérea é comum a leitura de relatórios empresariais, uso de notebooks, e a preparação de agenda de trabalho. Nos voos longos aí a coisa fica mais nítida, e se descobre quem realmente gosta de ler. É raro, mas há pessoas que leem romances e ensaios. Essas são as que se fecham e se isolam. Geralmente usam óculos e, quase sempre, são maiores de 30 anos. Não sei dizer se a maioria dos leitores é constituída por homens ou mulheres, considerando que cerca de 60 a 70% dos passageiros, via de regra, é formada por homens a trabalho. Mas não é raro mulheres executivas, com pretinhos básicos ou blazers, lendo, mexendo em suas geringonças eletrônicas ou, distraidamente, folheando revistas de fofocas com celebridades ou emergentes. Como o avião ainda é um meio de transporte teoricamente elitista, fácil é a constatação de que o brasileiro escolarizado não é muito chegado à leitura, mesmo descontando o tédio de ficar algumas horas no ambiente confinado, poluído e comunitário de uma cabine fechada em que sons e odores se misturam com o ar seco e artificial. No último voo que fiz, em uma escala, esqueceram, na poltrona vizinha, algumas revistas dais quais eu nunca tinha ouvido falar: Up Date, Revista Mensal da Câmara Americana de Comércio; B2B (computação em ambiente de negócios); IC World, publicação da Siemens sobre informação e comunicação; Ao lado de títulos técnicos como estes, um horóscopo chinês e um mapa astral de pessoa bastante conhecida, anunciando que poderia morrer em acidente. Ainda bem que ela não estava no voo. João Soares Neto Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/2004 - [Fortaleza e eu](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2024/04/12/fortaleza-e-eu/): Nasci em Fortaleza em meio à Segunda Guerra Mundial. Não havia razão para intuir o que acontecia no mundo. - [PRESENTE DE NATAL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/24/presente-de-natal/): Neste Natal vá ao encontro dos que você ama, sem medo e com o passo firme dos que ainda acreditam na força do amor. - [CAPISTRANO, 170 ANOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/capistrano-170-anos/): João Soares Neto, ex-ocupante da cadeira Capistrano de Abreu na Academia Fortalezense de Letras, da Academia Cearense de Letras, do Instituto do Ceará e da Associação Brasileira de Imprensa Dizia Gabriel Garcia Márquez que “um escritor já nasce escritor, nasce com o dom e a vocação, precisando apenas aprender a escrever”. Capistrano falava que “aprender a escrever é aprender a ler”, especialmente para ele, historiador, que parte da leitura crítica de livros, textos, traduções, documentos e os persegue em uma busca sem fim, com um estilo que faz inveja. História como se fizesse uma longa crônica, um ensaio, um romance e há trechos até que são poesias, plenos de belas imagens e profundos encantos. José Aurélio Saraiva Câmara, um de seus biógrafos, diz com propriedade: “Descrever uma vida como a de Capistrano de Abreu é enfrentar um seríssimo tropeço: o paradoxo que representa a humildade do homem ante a majestade da obra; a timidez e a indiferença do operário face a audácia e à afirmação granítica do trabalho realizado. Na sua história, o homem diz pouco e a obra Louvo-me da aversão declarada de Capistrano às academias e as sociedades a que não quis pertencer para ter a certeza de que, na dimensão em que ele estiver, não se ocupará de dar atenção ao que aqui será descrito. As comemorações dos 170 anos de nascimento de João Capistrano de Abreu ecoam, pouco visíveis, por todo o Brasil. No Ceará, nos 150 anos, houve um calendário oportunamente conduzido pela Secretaria de Cultura, universidades, Prefeitura de Maranguape e um apreciável número de artigos e ensaios nos jornais de Fortaleza. A propósito, compulsando a memória do Jornal “O Povo” de 1953, pude observar que a Prefeitura de Fortaleza lançou um concurso público sobre a vida e a obra de Capistrano por seu centenário. Apenas um candidato concorreu, Pedro Gomes de Matos. Fosse hoje, certamente, alguns o fariam. De qualquer modo, não é mais necessário pedir vênia aos meus pares, pois declaro pública a minha incapacidade de cumprir com brilho a missão que, se juízo tivesse, não teria aceitado. Esse trabalho foi feito apenas com amor, pois como dizia o próprio Capistrano: “As obras de amor são as únicas que pagam o sacrifício”. Vamos, pois, ao sacrifício. No dia 23 do mês de outubro de 2003 fez 150 anos que João Capistrano de Abreu, filho de Antônia e Joaquim Honório de Abreu. Nasceu na Ladeira Grande, no sítio Columinjuba, Maranguape e de lá partiria para ser, provavelmente, o maior historiador brasileiro. De família simples, solitário, crítico, irônico e taciturno, foi sempre maior do que os colégios onde estudou: o Colégio de Educandos (onde hoje fica o Colégio da Imaculada Conceição), que abrigava meninos pobres; o Ateneu Cearense, o Seminário da Prainha, de onde foi desligado por seu ceticismo mordaz e, especialmente, por não ser vocacionado para padre. Posteriormente, já aos 18 anos, foi reprovado quando dos preparatórios para a Faculdade de Direito do Recife. Foi reprovado porque seu aprendizado não se cingia ao conteúdo programático estabelecido para quem desejasse ser advogado, mas já se misturava em Recife aos intelectuais Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Tomás Pompeu, Tobias Barreto, Rocha Lima e outros. Já se iniciava na leitura de Stuart Mill, Spencer, Taine e Buckle e aprendia latim, inglês e francês. Voltou para Columinjuba, por conta da carta trocada entre o seu tutor/correspondente em Recife e seu pai, Jerônimo Honório. Debaixo de repreensões, foi para o cabo de enxada como caboclo qualquer, em meio a um alambique para destilar cachaça, um engenho de açúcar, rapadura e a bolandeira que transformava a mandioca em farinha. Durou pouco esse tempo. Inquieto, desobediente, sabia que seu destino nada tinha a ver com a casa paterna. Engajou-se, em seguida, em movimentos literários e culturais de Fortaleza quando escreveu “Perfis Juvenis”, que eram, na verdade, dois ensaios sobre a poesia de Junqueira Freire e Casimiro de Abreu, publicados em edições sucessivas no “Maranguapense”, jornal recém criado na pequena cidade de Maranguape. Foi nessa época que retomou os contatos com Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico de Farias, momento em que eclodia em Fortaleza uma agitação literária chamada jocosamente de “Academia Francesa” a reunir jovens quase imberbes. Capistrano, que nem aos 20 chegara, associava-se a Araripe Júnior, João Lopes, Rocha Lima e Tomás Pompeu que, igualmente, iriam criar uma escola noturna – A Escola Popular – que objetivava educar operários, ensinando-lhes, como registrou o jornal A Constituição, de 02 de junho de 1874: “A escola noturna popular, além das aulas de primeiras letras, gramática, francês, inglês, geografia e aritmética, que começaram a funcionar, abrirá espaço para uma série de conferências do gênero das que estão fazendo na Corte com tanta aceitação. Fundaram também o jornal Fraternidade, de origem maçônica e inspiração positivista, que pretendia ser arauto de um movimento libertário contra a religiosidade do clero e dos fiéis, apregoado pelo jornal A Tribuna Católica. É provável que a figura admirada e já então mítica de José de Alencar, ido e vivido na Corte, que chegara doente e alquebrado a Fortaleza em meados de 1874, tenha lhe dado o alento que faltava para deixar o Ceará. Capistrano, aos 21 anos, tinha os pés na província e os sonhos na Corte, onde precisava beber os conhecimentos que o transformariam no grande historiador que foi. De Alencar se aproximou e ganhou o respeito. Rodolfo Teófilo, em O Ateneu Cearense, narra esse encontro: “A impressão que teve o consagrado homem de letras e político, foi a que se pode ter de um caboclo matuto. Começaram a conversar e, no fim de alguns minutos, Alencar, com grande admiração, viu que ali não estava um simples sertanejo, porém um erudito.” Era efervescência demais para uma terra aquietada e pobre. Arrumou as trouxas, pediu a benção ao pai, de quem divergia no pensar e agir, pegou o vapor Guará no Porto de Fortaleza, em 12 de abril de 1875, chegando ao Rio de Janeiro antes de completar 22 anos. Seria José de Alencar quem abriria as portas do Rio para Capistrano. A partir daí é que explode a grandeza autodidata de Capistrano que admitia ser súdito do Império, mas não abria mão de ser, ao mesmo tempo, um cidadão brasileiro. É assim que José de Alencar apresenta Capistrano: “Esse moço, que já é fácil e elegante escritor, aspira ao estágio da imprensa desta Corte. Creio eu que, além de granjear nele um prestante colaborador, teria o jornalismo fluminense a fortuna de franquear a um homem do futuro o caminho da glória, que lhe estão atribuindo acidentes mínimos.” Os caminhos da sua vida nunca foram fáceis, apesar das relações tão procuradas na Corte. Seu primeiro trabalho no Rio foi na Livraria Garnier como simples resenhador de livros por ela editados. É provável que começasse aí o seu conhecimento com os intelectuais que admirava e com os jornais para os quais remetia as resenhas. Em 1876 passou a morar e a lecionar português e francês no Colégio Aquino, um emergente estabelecimento que pretendia, entre outras coisas, preparar jovens para os cursos superiores. Sua vida como redator-jornalista no Rio se inicia em 1879 na Gazeta de Notícias. Já em 1882, Valentim Magalhães, na seção Tipos e Tipões, de A Gazetinha, escreve sobre o jornalista Capistrano: “(...) quem seja aquele rapaz forte, de estatura meã, grosso de tronco, de cabeça um tanto cúbica, dessas que vêm bradando aos olhos da gente: ‘eu sou do norte’, de pescoço atlético, olhos pequeninos, piscos, míopes, escandalosamente míopes; trajando escuro com filosófico descuido, chapéu raso de que sobejam sobre a fronte cabelos pretos, ninguém sabe ou desconfia sequer quem seja ele, quando se esgueira rente à parede, cabeça levemente à banda, com o seu passo miudinho e ligeiro(...)(...) Pois esse rapaz é o Capistrano de Abreu, a cabeça mais ilustrada, mais pensadora, mais ‘curvada’ ao trabalho de quantos funcionam no escritório da Gazeta( ...).” Nesse mesmo ano de 79 fez concurso para oficial da Biblioteca Nacional, um misto de burocrata, bibliotecário e ledor de livros. Era o que sempre sonhara. Foi classificado em primeiro lugar, nomeado em 09 de agosto, e, a partir de então, começaria a consolidar a sua carreira de historiador. Seriam transformadas em marca-páginas da história suas incursões brilhantes como crítico ou ensaísta literário. Por outro lado, o seu grande sonho profissional era ser professor do Colégio Pedro II, mantido pelo Império. E como nunca perdeu a sua veia mordaz, mesmo antes de fazer o concurso e ser aprovado, já criticava o ensino de História do colégio onde pretendia ensinar. Mesmo sabendo que o prof. Matoso Maia seria, certamente, examinador de sua futura banca, critica, genericamente, o seu livro “História do Brasil”. Matoso Maia pede-lhe para identificar os erros. Ao que ele responde, dizendo: ”Não poder satisfazê-lo, entre outros motivos, porque muito provavelmente ainda nos havemos de encontrar frente a frente e reservamos para então o prazer um pouco malicioso de dar-lhe alguns quinaus.” Tomava forma o grande historiador com ênfase na historiografia, que vem a ser a arte de escrever a história. Segundo José Honório Rodrigues, quando da morte do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, em necrológio que publicou no Jornal do Comércio, Capistrano mostrou: “um modelo de estudo sobre o mestre e o primeiro trabalho historiográfico, exemplar pelo espírito crítico, a orientação metodológica, o domínio filosófico.” Casou, em 1881, com Maria José de Castro Fonseca, filha de um Almirante. A ela dera aulas particulares, particulares até demais, como se infere de carta sua a Assis Brasil: “Casei-me a 30 de março, isto é, dois meses antes do que esperava. Ainda não tinha casa pronta, nem podia demorar o casamento sem que sobreviessem obstáculos que poderiam ser insuperáveis.” Desse casamento que durou apenas onze anos, pela morte de Maria José de febre puerperal, nasceram cinco filhos: Honorina, Adriano, Fernando, Henrique e Matilde. Os que merecem registros mais significativos em sua vasta correspondência são: a filha Honorina que viria a se tornar, em 10 de janeiro de 1911, contra a sua vontade e para sua profunda tristeza, a freira carmelita Maria José de Jesus, beatificada pela Igreja Católica e Fernando, a quem chamava de Abril, por ter nascido nesse mês e cuja morte prematura, de pneumonia dupla, em 24 de outubro de 1918, o fez baquear profundamente, aumentando a sua casmurrice e infelicidade. Em 1883, mediante concurso em que superou outros quatro candidatos, entre eles, Franklin Távora, consegue realizar o sonho de ser professor do Colégio Pedro II, de Corografia, que vem a ser o estudo ou descrição geográfica de um país, região, província ou município e História do Brasil, com a tese “Descobrimento do Brasil e seu Desenvolvimento no Século XVI. “ Em 1889 foi excluída do currículo escolar do Colégio Pedro II a cadeira de Historia do Brasil. Capistrano se recusa a ensinar História Geral, denuncia o fato e é posto em disponibilidade. Nesse mesmo ano de 89 publica o seu primeiro livro: O Descobrimento do Brasil, escrito em 40 dias. A sua grande obra, Capítulos da História Colonial (1500-1800), foi produzida em um ano, sendo patrocinada pelo Centro Industrial do Brasil e publicada em 1907. É nela que fica realçada a sua capacidade de sintetizar, que o consagrou definitivamente como historiador e não um mero coletor de acontecimentos, nomes e datas. Capistrano, expoente que era do Movimento de 1870, que tinha como pressuposto o cientificismo ou método crítico com três elementos básicos: testemunha visual, caráter lógico do relato e coerência entre o texto e realidade, renovou os métodos de investigação científica e de interpretação historiográfica brasileira da época, partindo do determinismo sociológico - positivista que foi e deixou de ser - para, em seguida, descobrir a essência do que regia a sociedade colonial. Fica claro que sua análise da sociedade brasileira, lastreada na influência teórica da teoria realista alemã de Leopold Von Ramke, enfoca o estudo do ambiente, dos fatores corográficos, da miscigenação da raça, dos aspectos econômicos e psicológicos, sempre realçando a conquista do interior pelo brasileiro mestiço. Para ele, já mostrando a sua face republicana, o destaque não é o português ou reinol, mas a capacidade do povo e das pessoas comuns, sem expressão política, na procura de uma identidade nacional ao longo de nossa evolução histórica, deixando, cada vez mais patente, a desimportância do Rei, vice-rei, governadores e dos heróis. O povo é o sujeito da história. Por outro lado, fugindo do geral e indo para o particular, visualiza com a sua ótica corográfica a cidade do Rio de Janeiro, que o abrigou por 53 anos, permitindo antever, como se urbanista, sociólogo e antropólogo fosse, com quase um século de antecedência, o caos em que viriam a se tornar as favelas nos morros cariocas. Capistrano denuncia isso em carta a João Lúcio de Azevedo, em 11 de novembro de 1921: “Muita gente é amiga dos morros e cita em seu favor a opinião dos estrangeiros que aqui passam indiferentes ao que deixam. Sou adversário convicto: enquanto não for arrasada a maioria, morros são compartimentos estanques que impedem a circulação social.” Autodidata, lendo muito mais que escrevia. Adorava ler na rede de dormir e para onde viajava pelo Brasil – quase sempre para casa de amigos - a levava sem medo e pudor. Curioso e inquieto, não sossegou até aprender a língua alemã, além do latim, francês e inglês que já manejava. Sem nunca ter saído do Brasil, ao longo de seus 74 anos, incompletos, idade avançadíssima para a média de vida do brasileiro de sua época, foi se tornando cada vez mais culto, fechado em si mesmo, a ponto de se auto intitular, a partir de 1925, de João Ninguém, sem nunca perder a capacidade de escrever de forma simples, elegante e perspicaz, especialmente na sua vasta e dispersa correspondência aos amigos. Sua correspondência, organizada pacientemente por José Honório Rodrigues em três volumes, é, segundo alguns, a sua segunda grande obra. É ela uma demonstração de apreço aos amigos, conhecimento profundo do que falava, firmeza de ideias, capacidade de rir de si mesmo, falar das perdas familiares, suas doenças, achaques e da caturra melancolia, que o acompanhou até à morte em sua casa, em Botafogo, Rio, em 13 de agosto de 1927, rodeado de amigos verdadeiros que, em féretro a, pé, o levaram ao Cemitério. Provavelmente, a melhor descrição de Capistrano de Abreu tenha sido feita por seu amigo João Pandiá Calógeras, um dos fundadores da Sociedade Capistrano de Abreu, em discurso no Instituto Histórico e Geográfico, logo após a sua morte. Diz Calógeras: “Rude, em sua terrível franqueza; hostil a todo o pedantismo; irremediavelmente indignado contra toda futilidade vaidosa, detestava hipócritas. Sincero admirador das mentalidades superiores era destituído de toda inveja. Indulgente, quando explicável a falta por um motivo mais alto, por amor à inteligência ou à bondade perdoava deslizes de menor alcance. Intratável em questões de honra, de lealdade e de afeição, não admitia atenuantes para o delinquente.” Esse perfil poderia ser resumido em uma frase do próprio Capistrano: “Eu proporia que se substituíssem todos os artigos da Constituição por: Artigo Único – Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha cara”. Mas, adocemos a sua mordacidade com duas frases suas: “Todo artista tem um germe original que é a base e o ‘substratum’ de seu talento” e, “Nunca pensei que eu pudesse morrer”. Na verdade, não morreu. Transformou-se. Bibliografia consultada - AMARAL, Eduardo Lúcio Guilherme, Correspondência Cordial - Capistrano de Abreu e Guilherme Studart, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003. - BUARQUE, Virginia A. Castro. Escrita Singular - Capistrano de Abreu e Madre Maria José, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003. - Câmara , José Aurélio Saraiva. Capistrano de Abreu, UFC, 1999. - Modernos Descobrimentos, Capistrano de Abreu Descobridor [on line]. Rio de Janeiro, PUC, Disponível: www.modernosdescobrimentos.inf.br - RODRIGUES, José Honório (Org.). Correspondência - Obras de Capistrano de Abreu, 03 volumes, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1977. - SÁEZ, Oscar Calavia. A Morte e o Sumiço de Capistrano de Abreu [on line]. Florianópolis UFSC. Disponível: www.cfh.ufsc.br - [INTENÇÃO, PROPÓSITO E REALIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/intencao-proposito-e-realidade-3/): Ninguém desconhece existir boa intenção e firme propósito do Governo Lula em resolver, entre muitos outros, os problemas gravíssimos da fome, do desemprego, da assistência médica pública e dos desequilíbrios regionais. Lula tem fé de ofício nessas áreas. Saiu de Pernambuco em um Pau-de-arara, amargou fome com a família, viu a primeira mulher morrer por falta de assistência médica e foi um sindicalista proeminente no combate ao desemprego.Vivia na São Paulo dos pobres, sem participar da São Paulo dos ricos que hoje são os seus mais recentes amigos de infância. Conhece, de prova provada, o que é desequilíbrio regional. Lula tem a formação de vida nitidamente paulista, mas trás na sua história genética a dor e a angústia do nordestino retirante. Ninguém desconhece que grande parte dos atuais ministros de Lula não tinha experiência provada na gestão de graves e complexos problemas a necessitarem de soluções urgentes e equilibradas. Isto não quer dizer que as pessoas escolhidas não possam adquirir experiência, mas é preciso saber que a palavra experiência deriva de experimentar ou experienciar. Em outras palavras: leva tempo. Por outro lado, o Brasil entregue à Lula e sua equipe era e é ainda um país dividido em Capitanias na mão de lobbistas, políticos e partidos praticando pouco do que falam, especialmente diante de microfones ou em entrevistas públicas. Acresça-se a isso, a existência de uma burocracia pesada, cara e pouco eficaz, sem entender ou não querendo entender a necessidade da agilidade no serviço público. Os agentes públicos precisam ficar cientes de que todos os brasileiros, direta ou indiretamente, são contribuintes e os verdadeiros pagadores de seus salários. Ao entrar em uma repartição qualquer brasileiro se sente aturdido e desestimulado pela morosidade das informações e, muitas vezes, pela indiferença ao que acredita ser legítimo pleitear. Todo brasileiro é cliente da máquina estatal e por tal razão merece ser bem tratado, independe do que ganha, da roupa que veste ou da função que exerce. Já ouvimos falar de várias reformas, especialmente as previdenciária (para diminuir despesas) e a tributária (para gerar mais receitas). Não se falou, contudo, da necessidade de uma reforma administrativa ou gerencial para que tudo funcione. Isto me faz lembrar das intenções e propósitos de Hélio Beltrão e Paulo Lustosa que pretendiam desburocratizar o Brasil. A realidade mostrou que foram vencidos pela máquina kafkaniana da burocracia. Está na hora de mudar. João Soares Neto, administrador e escritor - [SARAMINDA E O SARNEY SENSUAL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/saraminda-e-o-sarney-sensual-2/): O nosso comum amigo, César Asfor Rocha, surpreendeu-me no Natal passado com a sua encomendada, mas especial dedicatória (“Ao João Soares, que tem a paixão pela letras, o abraço do José Sarney) no livro “Saraminda”. Li-o no dealbar do ano e, passado o processo eleitoral do Senado e pensadas as dores das suas incisões vesiculares, vi-me aprestado a lhe agradecer a gentileza. Aviso-o que não sou crítico literário. Faço da empresa o meu viver, sem esquecer de tecer sonhos com os sentidos. Perpetro escritos, meras crônicas descompromissadas e publicadas e, guardados estão poemas ainda virgens de outros olhos, pois a auto-censura os enclausura Além do amigo comum, restam-nos apenas a identidade do Jota e do Esse que emolduram o seu e o meu nome, mas isto é alongar conversa, para a qual não recebi permissão. Receba, como agradecimento, o que escrevi abaixo, tão isento quanto pode ser um pré- sessentão encantado por Saraminda, nossa amada. Cordialmente, João Soares Neto SARAMINDA E O SARNEY SENSUAL Saraminda prova que José Sarney não é normal. É preciso ter muito de louco para misturar personagens, beirar a criação de um realismo fantástico (“Você não está morta? Aqui todos morrem e vivem.”) com uma latinidade que o escritor brasileiro não costuma exercer e falar de comida (“Um brochete de rabo de jacaré, frito com banha de anta e conhaque, um hoko e um assado de cochon bois”), moda ( “O vestido tinha a saia comprida, de pregas que caíam da cintura e eram acompanhados pelas dobras até a barra da saia circundada por uma cinta de rendas e de franjas bordadas. Um casaco de elegante corte de sino, repartido em duas abas também rendadas, que desciam como estolas e passavam alongadas além da cintura, ladeadas por duas fileiras de botões cobertos de cetim e pequenos bordados”) e de uma guerra pelo território do Amapá (“acabo de saber que a França perdeu estas terras que agora são do Brasil. Foi uma decisão da Suíça. Amanhã, só vai haver uma bandeira, a do Brasil”) que não houve entre dois países tão distintos quanto o Brasil e França. Saraminda prova que José Sarney não é político, pois expõe, mesmo sem querer ou querendo, o seu lado sensual ao descrever como um retratista de pico de pena ou crayon o corpo(“Nela o sangue bretão, judeu, índio, banto misturou-se ao longo dos séculos, concentrou-se nos olhos, afinou os lábios, alongou-lhe o pescoço, deu-lhe sorte e sedução”), a faceirice( “Eu quero que você tenha alegria e felicidade. Prazer de coisa de amor de gente que se junta... Quero que você receba meu corpo de ouro embrulhado em papel de seda, enrolado em veludo, cheirando a patchuli”), as falas(”Seu Cleto, me trate com respeito. Não sou coisa suja, sou mulher para ser tratada com gosto. Aprecio modos. Entrei na vida mas não sou uma sem-vergonha”) dessa mulher tão simples e paradoxal, como se fora uma personagem vivida pela Sônia Braga dos áureos tempos. Saraminda prova que José Sarney não é rico. Se o fora não descreveria com tanta paixão a avidez dos garimpeiros, a cobiça(“O garimpo é de uma solidão imensa. Quando a gente olha, parece que não é no mundo. O ouro não tem cheiro. Se tivesse, o homem ia farejar e saberia onde ele está”) e a luxúria(“tive vontade de beijar, beijar com força, ficar deitado nele, mas me controlei , não dei modos para não verem onde estava minha bestitude”)que o ouro( “Não achei que fosse ouro, de tão feia, e pude então compreender que a beleza do ouro está nos homens”.) exerce sobre a razão e o imaginário de pessoas rudes com estéticas comprometidas pelas rugas e as rusgas que terminam em sangue para aplacar a ira dos deuses. Saraminda atesta que José Sarney não é romancista. É um espécime novo, um poemancista com imagens (“Na casa de sombras, era o remoer da lembrança que alimentava os fantasmas”) e figuras(“Era um brinquedo muito triste esse jogo de gostar”) dignas de um Borgesïï Saraminda fez enfim, José Sarney calar os que ainda não têm olhos para ver que, além da sua matreirice, da lhaneza, do faro e da capacidade de focar a política, sobram-lhe sentimentos lustrados em palavras ajuntadas em bateias de idéias que brotam como florestas de uma amazônia de encantamentos. João Soares Neto, especial para o DN. - [CAPISTRANO, POR QUEM E PARA QUEM NÃO O CONHECE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/capistrano-por-quem-e-para-quem-nao-o-conhece-2/): João Soares Neto, ocupante da cadeira Capistrano de Abreu na Academia Fortalezense de Letras. Diz Gabriel Garcia Márquez que “um escritor já nasce escritor, nasce com o dom e a vocação, precisando apenas aprender a escrever”. Capistrano dizia que “aprender a escrever é aprender a ler”, especialmente para ele, historiador, que parte da leitura crítica de livros, textos, traduções e documentos e os persegue em uma busca sem fim, com um estilo que faz inveja. Historia como se fizesse uma longa crônica, um ensaio, um romance e há trechos até que são poesias, plenos de belas imagens e profundos encantos. José Aurélio Saraiva Câmara, um de seus biógrafos, diz com propriedade: “Descrever uma vida como a de Capistrano de Abreu é enfrentar um seríssimo tropeço: o paradoxo que representa a humildade do homem ante a majestade da obra; a timidez e a indiferença do operário face a audácia e à afirmação granítica do trabalho realizado. Na sua história, o homem diz pouco e a obra diz tudo.” Tenho consciência disso. Falta-me maior intimidade com a sua obra. Sou curioso e o conhecimento não tem dono, mas neófito sou em admirá-lo. Não vejo em mim autoridade para descrever a vida, tampouco a obra, pois além do embasamento que não tenho, some-se a isso o exíguo tempo de menos de uma semana, sem prejuízo dos meus outros afazeres, em que fui gentilmente compelido por esta Academia Fortalezense de Letras a escrever este relato. Sabem com que credenciais? A qualidade única de ocupante da cadeira que tem Capistrano como patrono. Louvo-me da aversão declarada de Capistrano às academias e sociedades a que não quis pertencer para ter a certeza de que, na dimensão em que ele estiver, não se ocupará de dar atenção ao que aqui será brevemente mal dito. As comemorações dos 150 anos de nascimento de João Capistrano de Abreu ecoam por todo o Brasil. No Ceará houve um calendário oportunamente conduzido pela Secretaria de Cultura, universidades, Prefeitura de Maranguape e um apreciável número de artigos e ensaios nos jornais de Fortaleza. A propósito, compulsando a memória do Jornal “O Povo” de 1953, pude observar que a Prefeitura de Fortaleza lançou um concurso público sobre a vida e a obra de Capistrano por seu centenário. Apenas um candidato concorreu, Pedro Gomes de Matos. Fosse hoje, certamente, dezenas o fariam. De qualquer modo, não é mais necessário pedir vênia aos meus pares, pois declaro pública a minha incapacidade de cumprir com brilho a missão que, se juízo tivesse, não teria aceitado. Este trabalho foi feito apenas com amor, pois como dizia o próprio Capistrano: “As obras de amor são as únicas que pagam o sacrifício”. Vamos, pois, ao sacrifício. No último dia 23 deste mês de outubro de 2003 fez 150 anos que João Capistrano de Abreu, filho de Antônia e Joaquim Honório de Abreu, nasceu na Ladeira Grande, no sítio Columinjuba, Maranguape e de lá partiria para ser, provavelmente, o maior historiador brasileiro. De família simples, solitário, crítico, irônico e taciturno, foi sempre maior do que os colégios onde estudou: o Colégio de Educandos (onde hoje fica o Colégio da Imaculada Conceição), que abrigava meninos pobres; o Ateneu Cearense, o Seminário da Prainha, de onde foi desligado por seu ceticismo mordaz e, especialmente, por não ser vocacionado para padre. Posteriormente, já aos 18 anos, foi reprovado quando dos preparatórios para a Faculdade de Direito do Recife. Foi reprovado nos preparatórios porque seu aprendizado não se cingia ao conteúdo programático estabelecido para quem desejasse ser advogado, mas já se misturava em Recife aos intelectuais Silvio Romero, Joaquim Nabuco, Tomás Pompeu, Tobias Barreto, Rocha Lima e outros. Já se iniciava na leitura de Stuart Mill, Spencer, Taine e Buckle e aprendia latim, inglês e francês. Voltou para Columinjuba, por conta da carta trocada entre o correspondente em Recife e seu pai, Jerônimo Honório. Debaixo de repreensões, foi para o cabo de uma enxada como um cabloco qualquer, em meio a um alambique para destilar cachaça, um engenho de açúcar e rapadura e a bolandeira que transformava a mandioca em farinha. Durou pouco esse tempo. Inquieto, desobediente, sabia que seu destino nada tinha a ver com a casa paterna. Engajou-se, em seguida, em movimentos literários e culturais de Fortaleza quando escreveu “Perfis Juvenis”, que era, na verdade, dois ensaios sobre a poesia de Junqueira Freire e Casimiro de Abreu, publicados em edições sucessivas no “Maranguapense”, jornal recém criado em Maranguape. Foi nessa época que retomou os contatos com Tomás Pompeu, João Lopes e Xilderico de Farias, momento em que eclodia em Fortaleza uma agitação literária chamada jocosamente de “Academia Francesa” que reunia jovens quase imberbes. Capistrano, que nem aos 20 chegara, associava-se a Araripe Júnior, João Lopes, Rocha Lima e Tomás Pompeu que, igualmente, iriam criar uma escola noturna – A Escola Popular – que objetivava educar operários, ensinando-lhes, como registrou o jornal A Constituição, de 02 de junho de 1874: “A escola noturna popular, além das aulas de primeiras letras, gramática, francês, inglês, geografia e aritmética, que começaram a funcionar, abrirá espaço para uma série de conferências do gênero das que estão fazendo na Corte com tanta aceitação Fundaram também o jornal Fraternidade, de origem maçônica e inspiração positivista, que pretendia ser arauto de um movimento libertário contra a religiosidade do clero e dos fiéis, apregoada pelo jornal A Tribuna Católica. É provável que a figura admirada e já então mítica de José de Alencar, ido e vivido na Corte, que chegara doente e alquebrado à Fortaleza em meados de 1874, tenha lhe dado o alento que faltava para deixar o Ceará. Capistrano, aos 21 anos, tinha os pés na província e os sonhos na Corte, onde precisava beber os conhecimentos que o transformariam no grande historiador que foi. De Alencar se aproximou e ganhou o respeito. Rodolfo Teófilo, em O Ateneu Cearense, narra esse encontro: “A impressão que teve o consagrado homem de letras e político, foi a que se pode ter de um caboclo matuto. Começaram a conversar e, no fim de alguns minutos, Alencar, com grande admiração, viu que ali não estava um simples sertanejo, porém um erudito.” Era efervescência demais para uma terra aquietada e pobre. Arrumou as trouxas, pediu a benção ao pai, de quem divergia no pensar e agir, pegou o vapor Guará no Porto de Fortaleza, em 12 de abril de 1875, chegando ao Rio de Janeiro antes de completar 22 anos. Seria José de Alencar quem abriria as portas do Rio para Capistrano. A partir daí é que explode a grandeza autodidata de Capistrano que admitia ser súdito do Império, mas não abria mão de ser, ao mesmo tempo, um cidadão brasileiro. É assim que José de Alencar apresenta Capistrano: “Esse moço, que já é fácil e elegante escritor, aspira ao estágio da imprensa desta Corte. Creio eu que, além de granjear nele um prestante colaborador, teria o jornalismo fluminense a fortuna de franquear a um homem do futuro o caminho da glória, que lhe estão atribuindo acidentes mínimos.” Os caminhos da sua vida nunca foram fáceis, apesar das relações tão procuradas na Corte. Seu primeiro trabalho no Rio foi na Livraria Garnier como simples resenhador de livros por ela editados. É provável que começasse aí o seu conhecimento com os intelectuais que admirava e com os jornais para os quais remetia as resenhas. Em 1876 passou a morar e a lecionar português e francês no Colégio Aquino, um emergente estabelecimento que pretendia, entre outras coisas, preparar jovens para os cursos superiores. Sua vida como redator-jornalista no Rio se inicia em 1879 na Gazeta de Notícias. Já em 1882, Valentim Magalhães, na seção Tipos e Tipões, de A Gazetinha, escreve sobre o jornalista Capistrano: “(...) quem seja aquele rapaz forte, de estatura meã, grosso de tronco, de cabeça um tanto cúbica, dessas que vêm bradando aos olhos da gente: ‘eu sou do norte’, de pescoço atlético, olhos pequeninos, piscos, míopes, escandalosamente míopes; trajando escuro com filosófico descuido, chapéu raso de que sobejam sobre a fronte cabelos pretos, ninguém sabe ou desconfia sequer quem seja ele, quando se esgueira rente à parede, cabeça levemente à banda, com o seu passo miudinho e ligeiro(...)(...) Pois esse rapaz é o Capistrano de Abreu, a cabeça mais ilustrada, mais pensadora, mais ‘curvada’ ao trabalho de quantos funcionam no escritório da Gazeta( ...).” Nesse mesmo ano de 79 fez concurso para oficial da Biblioteca Nacional, um misto de burocrata, bibliotecário e ledor de livros. Era o que sempre sonhara. Foi classificado em primeiro lugar, nomeado em 09 de agosto, e, a partir de então, começaria a consolidar a sua carreira de historiador. Seriam transformadas em marca-páginas da história suas incursões brilhantes como crítico ou ensaísta literário. Por outro lado, o seu grande sonho profissional era ser professor do Colégio Pedro II, mantido pelo Império. E como nunca perdeu a sua veia mordaz, mesmo antes de fazer o concurso e ser aprovado, já criticava o ensino de História do colégio onde pretendia ensinar. Mesmo sabendo que o prof. Matoso Maia seria, certamente, examinador de sua futura banca, critica, genericamente, o seu livro “Historia do Brasil”. Matoso Maia lhe pede para identificar os erros. Ao que ele responde, dizendo: ”Não poder satisfazê-lo, entre outros motivos, porque muito provavelmente ainda nos havemos de encontrar frente a frente e reservamos para então o prazer um pouco malicioso de dar-lhe alguns quinaus.” Tomava forma o grande historiador com ênfase na historiografia, que vem a ser a arte de escrever a história. Segundo José Honório Rodrigues, quando da morte do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, em necrológio que publicou no Jornal do Comércio, Capistrano mostrou: “m modelo de estudo sobre o mestre e o primeiro trabalho historiográfico, exemplar pelo espírito crítico, a orientação metodológica, o domínio filosófico.” Casou, em 1881, com Maria José de Castro Fonseca, filha de um Almirante, a quem dera aulas particulares, particulares até demais, como se infere de carta sua a Assis Brasil: “Casei-me a 30 de março, isto é, dois meses antes do que esperava. Ainda não tinha casa pronta, nem podia demorar o casamento sem que sobreviessem obstáculos que poderiam ser insuperáveis.” Desse casamento que durou apenas onze anos, pela morte de Maria José de febre puerperal, nasceram cinco filhos: Honorina, Adriano, Fernando, Henrique e Matilde. Os que merecem registros mais significativos em sua vasta correspondência são: a filha Honorina que viria a se tornar, em 10 de janeiro de 1911, contra a sua vontade e para sua profunda tristeza, a freira carmelita Maria José de Jesus, beatificada pela Igreja Católica e Fernando, a quem chamava de Abril, por ter nascido nesse mês e cuja morte prematura, de pneumonia dupla, em 24 de outubro de 1918, o fez baquear profundamente, aumentando a sua casmurrice e infelicidade. Em 1883, mediante concurso em que superou outros quatro candidatos, entre eles, Franklin Távora, consegue realizar o sonho de ser professor do Colégio Pedro II, de Corografia, que vem a ser o estudo ou descrição geográfica de um país, região, província ou município e História do Brasil, com a tese Descobrimento do Brasil e seu Desenvolvimento no Século XVI. Em 1889 foi excluída do currículo escolar do Colégio Pedro II a cadeira de Historia do Brasil. Capistrano se recusa a ensinar História Geral, denuncia o fato e é posto em disponibilidade. Nesse mesmo ano de 89 publica o seu primeiro livro: O Descobrimento do Brasil, escrito em 40 dias. A sua grande obra, Capítulos da História Colonial (1500-1800), foi produzida em um ano, sendo patrocinada pelo Centro Industrial do Brasil e publicada em 1907. É nela que fica realçada a sua capacidade de sintetizar, que o consagrou definitivamente como historiador e não um mero coletor de acontecimentos, nomes e datas. Capistrano, expoente que era do Movimento de 1870, que tinha como pressuposto o cientificismo ou método crítico com três elementos básicos: testemunha visual, caráter lógico do relato e coerência entre o texto e realidade, renovou os métodos de investigação científica e de interpretação historiográfica brasileira da época, partindo do determinismo sociológico - positivista que foi e deixou de ser - para, em seguida, descobrir a essência do que regia a sociedade colonial.Fica claro que sua análise da sociedade brasileira, lastreada na influência teórica da teoria realista alemã de Leopold Von Ramke, enfoca o estudo do ambiente, dos fatores corográficos, da miscigenação da raça, dos aspectos econômicos e psicológicos,sempre realçando a conquista do interior pelo brasileiro mestiço. Para ele, já mostrando a sua face republicana, o destaque não é o português ou reinol, mas a capacidade do povo e das pessoas comuns, sem expressão política, na procura de uma identidade nacional ao longo de nossa evolução histórica, deixando, cada vez mais patente, a desimportância do Rei, vice-rei, governadores e dos heróis.O povo é o sujeito da história. Por outro lado, fugindo do geral e indo para o particular, visualiza com a sua ótica corográfica a cidade do Rio de Janeiro, que o abrigou por 53 anos, permitindo antever, como se urbanista, sociólogo e antropólogo fosse, com quase um século de antecedência, o caos em que viriam a se tornar as favelas nos morros cariocas. Capistrano denuncia isso em carta a João Lúcio de Azevedo, em 11 de novembro de 1921: “Muita gente é amiga dos morros e cita em seu favor a opinião dos estrangeiros que aqui passam indiferentes ao que deixam. Sou adversário convicto: enquanto não for arrasada a maioria, morros são compartimentos estanques que impedem a circulação social.” Autodidata, lendo muito mais que escrevia. Adorava ler na rede e para onde viajava pelo Brasil – quase sempre para casa de amigos - a levava sem medo e pudor. Curioso e inquieto, não sossegou até aprender a língua alemã, além do latim, francês e inglês que já manejava. Sem nunca ter saído do Brasil, ao longo de seus 74 anos, incompletos, idade avançadíssima para a média de vida do brasileiro de sua época, foi se tornando cada vez mais culto, fechado em si mesmo, a ponto de se auto intitular, a partir de 1925, de João Ninguém, sem nunca perder a capacidade de escrever de forma simples, elegante e perspicaz, especialmente na sua vasta e dispersa correspondência aos amigos. Sua correspondência, organizada pacientemente por José Honório Rodrigues em três volumes, é, segundo alguns, a sua segunda grande obra. É ela uma demonstração de apreço aos amigos, conhecimento profundo do que falava, firmeza de ideias, capacidade de rir de si mesmo, falar das perdas familiares, suas doenças, achaques e da caturra melancolia, que o acompanhou ate à morte em sua casa, em Botafogo, Rio, em 13 de agosto de 1927, rodeado de amigos verdadeiros que, em féretro a, pé, o levaram ao Cemitério. Provavelmente, a melhor descrição de Capistrano de Abreu tenha sido feita por seu amigo João Pandiá Calógeras, um dos fundadores da Sociedade Capistrano de Abreu, em discurso no Instituto Histórico e Geográfico, logo após a sua morte. Diz Calógeras: “Rude, em sua terrível franqueza; hostil a todo o pedantismo; irremediavelmente indignado contra toda futilidade vaidosa, detestava hipócritas. Sincero admirador das mentalidades superiores era destituído de toda inveja. Indulgente, quando explicável a falta por um motivo mais alto, por amor à inteligência ou à bondade perdoava deslizes de menor alcance. Intratável em questões de honra, de lealdade e de afeição, não admitia atenuantes para o delinquente.” Este perfil poderia ser resumido em uma frase do próprio Capistrano: “Eu proporia que se substituíssem todos os artigos da Constituição por: Artigo Único – Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha cara”. Mas, adocemos a sua mordacidade com duas frases suas:“Todo artista tem um germe original que é a base e o ‘substratum’ de seu talento” e, “Nunca pensei que eu pudesse morrer”. Na verdade, não morreu. Transformou-se. As citações estão contidas na Bibliografia consultada: - AMARAL, Eduardo Lúcio Guilherme, Correspondência Cordial - Capistrano de Abreu e Guilherme Studart, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003. - BUARQUE, Virginia A. Castro. Escrita Singular - Capistrano de Abreu e Madre Maria José, Fortaleza, Museu do Ceará, Sec. Cultura do Ce, 2003. - CÂMARA, José Aurélio Saraiva. Capistrano de Abreu, UFC, 1999. - Modernos Descobrimentos, Capistrano de Abreu Descobridor [on line]. Rio de Janeiro, PUC, Disponível: www.modernosdescobrimentos.inf.br [22.10.2003]. - RODRIGUES, José Honório (Org.). Correspondência - Obras de Capistrano de Abreu, 03 volumes, Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1977. - SÁEZ, Oscar Calavia. A Morte e o Sumiço de Capistrano de Abreu [on line]. Florianópolis UFSC. Disponível: www.cfh.ufsc.br [26.10.2003] - [A VIDA EM CÓDIGO: SAULO RAMOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-vida-em-codigo-saulo-ramos/): Faz anos. Ganhei o livro “Código da Vida”, de Saulo Ramos. Li-o, mais por curiosidade que por outra razão. O livro é derramado, aberto, sem censura. Aos 78 anos, em 2007, curado de um câncer, e sabedor de uma doença coronária grave, Saulo Ramos resolve contar sua vida, do seu jeito, seguindo seus cânones. Escreve como advogado, mas sem esquecer a sua vertente literária – tipo contador de histórias- como integrante de duas academias de letras: a de Ribeirão Preto e a Santista. O livro já teve mais de 20 reimpressões e deve aumentar os lucros da editora Planeta, agora que Saulo Ramos morreu, em 29 de abril último, vítima do coração já esfalfado, em face de sua dura, brilhante e, quiçá, romanesca vida. Nasceu em 1929, em Brodowski, cidade pequena, vizinha a Ribeirão Preto. Lá, já havia nascido outro brasileiro ilustre, Cândido Portinari. Portinariestá lá na página zero do seu livro com um retrato em crayon de Saulo, aos 24 anos. Ele manuscreve e proclama: “Para Saulo, que honrará nossa Brodowski, lembrança afetuosa do Portinari, 1953”. Não deu outra, Saulo foi um dos maiores paulistas dos últimos tempos. Nasceu pobre, chegou a ser caminhoneiro, mas descobriu na advocacia o seu destino. Discípulo de Vicente Ráo, um grande advogado, resolveu fazer carreira solo. Foi quase tudo na advocacia e na política brasileira. Só não foi mais porque não o quis. Começou trabalhando com Mário Covas, depois foi ajudar Jânio Quadros a ser presidente por sete meses e chegou a ser ministro da Justiça de José Sarney, de quem era grande amigo. Tancredo morreu como todos sabem, antes da posse na presidência. Havia um impasse. Saulo comandou a equipe que solucionou o problema constitucional. O resto já é história. O livro não é um exercício de modéstia. Não poderia sê-lo. Saulo, aos 78, tinha a língua solta dos que acreditam estar próximo o encontro com o desenlace. É, talvez, uma autobiografia romanceada. Parte de um caso singular da defesa, por Saulo, de um pai, acusado de pedofilia pela própria mulher, a partir de gravação feita com os filhos. E esse eixo básico não é seguido. Há muitas vertentes e ocasiões em que o autor, vaidoso, nomeia várias celebridades. São tantas, entre elas, Che Guevara. Conta um jantar com ele, em 1962, em Punta Del Este, Uruguai. Em seguida, vem a concessão por Jânio Quadros da “Ordem do Cruzeiro do Sul” ao então ministro cubano. Por fim, afirma que Fidel Castro estaria por traz da trama que matou Guevara na Bolívia. Paro por aqui, não vou tirar o prazer dos futuros leitores do livro. É um passeio pela história brasileira contemporânea. No livro, Saulo não poupa Lula. Diz cobras e lagartos do então presidente da República e se derrama em amores e elogiosa José Sarney. Não só Lula é criticado, até alguns integrantes do STF são descritos sem muita piedade pela azedia de Saulo. A história, que é o fim condutor da narrativa, não concluída no texto, merece um epílogo em que ele deslinda tudo. Não gostei da batida citação – o livro tem 140 - atribuída a Charles Chaplin usada para fechar o livro. Ela, no meu pensar, é piegas e esgotada. Merecia outra, talvez dele próprio. Quem sabe, esta: “Espero que tais fatos esclareçam algumas interrogações daqueles que os viram acontecer e sejam úteis para as novas gerações, que ainda dependem dos historiadores, nem sempre muito fiéis, segundo tenho visto em isoladas manifestações de jornais. Mas advirto: os fatos são aqui narrados numa espantosa desordem cronológica, porém fielmente. Detesto a manipulação do passado e o mascaramento das versões”. Saulo Ramos. João Soares Neto CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 3/5/2013 - [MEUS HOMENS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/meus-homens/): Faltando 06 dias para o ano de 1999 terminar e com essa estória da mídia publicar listas disso e daquilo, pois não é que me lembrei de fazer a lista dos cinco homens com os quais mantive contato pessoal, mesmo que eventual, e que ficaram no meu “Top of the mind”, ou no topo das minhas lembranças. Da vida universitária dois nomes surgiram cristalinos: Heribaldo Costa e Parsifal Barroso. Heribaldo era professor de Introdução à Ciência do Direito e a ele devo parte do pouco que aprendi de filosofia e lógica. Austero, obrigava os alunos a usar paletó em suas aulas e teve a coragem de dar mais de cem zeros em uma prova semestral. Houve uma campanha forte contra ele e a aposentadoria o acolheu. Parsifal era Governador do Estado e dava aulas de Ciência Política com a simplicidade de um padre e a fluência e o saber que Deus lhe deu. Falava pausado, era enfático e apaixonado pelo conhecimento. Vez por outra, me pedia carona para ir deixá-lo em palácio. Vão me chamar de presumido (faz mal não), pois vou citar três nomes consagrados mundialmente. Em 1962 passei num concurso e fui fazer um curso de verão na Universidade de Harvard. O coordenador do curso era Henry Kissinger, que viria a ser, em seguida, Secretário de Estado e o segundo homem mais importante dos Estados Unidos, apesar de ser judeu alemão. Nariz adunco, óculos grossos, voz com sotaque, grave e rouco, ficava fulo da vida quando se falava em imperialismo americano e, uma vez, nos perguntou sobre “o imperialismo paulista”. Nessa mesma viagem fomos a Washington para uma visita a várias autoridades. Eu, como fazia direito, integrei um pequeno grupo que teve a sorte de conversar com Bob Kennedy, então Ministro da Justiça. Seu gabinete era amplo, poltronas de couro e um grande quadro abstrato na parede principal. Ele era jovem, absolutamente descontraído e cordial. Em cima do seu birô repousava um capacete amassado de soldado e a seus pés dormitava um enorme cão. Na hora da informalidade, perguntou se sabíamos a razão daquele capacete estar ali. É claro que não sabíamos. Disse ser o símbolo da luta pelos direitos civis dos negros. Brincalhão, indagou quem entendia de pintura para explicar o seu quadro abstrato. Muitos palpites, nenhum acerto. Ele riu e falou que era uma chuva de papel picado quando das comemorações da eleição de seu irmão John. De paletó e gravata, todos ficamos nos jardins internos da Casa Branca, ali onde os presidentes dão entrevistas. De repente, lá vem John Kennedy. Louro, queimado de sol e paletó azul marinho. Falou de sua “aliança para o progresso”, perguntou quantos futuros presidentes do Brasil sairiam dali e trocou palavras amenas com alguns de nós. A mim, por exemplo, perguntou de que região eu era. Nervoso, troquei nordeste por noroeste. Quatro meses após ele seria assassinado em Dallas. Feliz Ano Novo para todos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/12/1999. - [PSIQUÉ](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/psique/): Neste mês de dezembro todos recebem cartões, brindes, presentes e convites. Boa parte deles peca pela falta de imaginação e alguns atentam contra a sensibilidade. Um dos convites que recebi me chamou a atenção. Foi um de formatura em psicologia. Por que me chamou a atenção? Pela linda gravura de William Adolphe Bouguereau, designada como "Invading Cupid's realm" ou invadindo o reino de Cupido. Uma linda mulher semi-nua cercada de anjos parece quebrar barreiras. Foi isso o que o convite me passou: quebrar barreiras. Além dessa abertura inusitada, procurou não puxar saco de ninguém escolhendo os pais como "patronos" e os mestres como "paraninfos". E não fica só nisso. Conta o Mito de Eros e Psiqué. Vejam um dos trechos: "Psiqué penetrou o palácio e, a partir de então, foi servida por uma multidão de Vozes, que lhe atendiam mesmo os desejos não formulados. Naquela mesma noite da chegada da princesa, Eros, sem se deixar ver, fez de Psiqué sua mulher, mas, antes do nascer do sol, desapareceu rápida e misteriosamente". Ainda fugindo das citações convencionais, o convite contém citações que transcrevo para conhecimento de vocês. De Ruy Barbosa, aos pais (Se um dia já homem feito e realizado, sentires que a terra cede a teus pés e que não há ninguém para te estender a mão, esquece a tua maturidade, passa pela tua mocidade, volta à tua infância e balbucia entre lágrimas e esperança as últimas palavras que te restarão na alma: meu pai, minha mãe). De Fernando Pessoa, aos professores (Mestre, meu mestre! Na mágoa quotidiana das matemáticas do ser, Eu escrevo de lado como um pó de todos os ventos, Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!). Mário Quintana, aos clientes (... até que um dia, por astúcia ou por acaso, depois de quase todos os enganos, ele descobriu a porta do labirinto. Nada de ir tateando os muros como um cego. Nada de muros. Seus passos tinham - enfim! - a liberdade de traçar seus próprios labirintos). Como mensagem final, Manuel Bandeira (Assim eu quereria o meu último poema. Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais. Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas. Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume. A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos. A paixão dos suicidas que se matam sem explicação). Não é um charme? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/12/1999. - [A PARANÓIA DO 2000](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-paranoia-do-2000/): Está todo mundo contando. Faltam 24 dias para o ano 2000. E daí? O que é que este tal ano dois mil vai mudar na sua vida se você mesmo não resolver mudar? Não é o tempo, se considerarmos que um ano é um período de tempo, que muda você. O que muda você é o uso que faz do tempo. Então, cara prepare-se para mudar daqui a 25 dias ou tudo vai continuar na mesma, sem que o calendário possa ser usado a seu favor. Um doidinho, Albert Einstein, na primeira metade deste século, andou desmanchando o que Isaac Newton dizia há tempos: o tempo é absoluto. Não é. O tempo é relativo, segundo o Albert. E para entender tudo isso é preciso ficar sabendo que não existem só três dimensões: altura, comprimento e largura, formando o espaço. Além dessas três existe o tempo, que é uma quarta dimensão. Pois voltando ao que interessa, nós vivemos em função do espaço e do tempo e é por tal razão que digo: se não soubermos aproveitar o tempo, de nada valerá o espaço, isto é, o mundinho que escolhemos para nós. Pode parecer confuso o que disse acima, mas não é. Se tiver dúvida, releia. Você precisa administrar o seu tempo, fazer as coisas acontecerem, ao invés de ficar na janela olhando o mundo rodar. Mova-se, traduza-se em movimento, ação e descubra em si e nos outros o sentido de sua vida. Vá tentando e consegue. Não desanime se o seu atual espaço não lhe for favorável, respire fundo e lembre-se que o mundo todo é o seu espaço, só o tempo é finito, em sua dimensão. O que estou querendo lhe passar é que é preciso limpar a sujeira que o tempo deixou em seu corpo e na sua mente. Remova as estruturas superadas que só servem de obstáculo às mudanças que você ensaia fazer e não faz. Sai dessa, se você acha que o 2000 é milagroso, vai rodar. Quem tem que obrar o milagre é você, sacudindo os seus poréns e entretantos. Deixe de procurar resposta no tempo e no espaço, a resposta está, usando o que disse Taiguara, no “universo do teu corpo”. Mexa-se e descubra se pode mandar para a cucuia o que lhe está enchendo o saco há tempos. Aproveite a desculpa do ano 2000 para romper alguns preconceitos que você mesmo criou. Dane-se o que os outros pensam ou você vai ficar ai esperando por milagre? Daqui a alguns dias você será uma pessoa do século passado – se você acredita que o século termina em 1999, mas isto é outra estória – e se não ficar atento, independente da sua idade, poderá parecer antigo, ultrapassado. Mostre que não é antigo, ligue-se no espaço e no tempo e desligue-se das pessoas chatas que perturbaram no “século passado”. Assuma um compromisso e tente o usar o tempo como aliado e o seu espaço parecerá mais livre e despido de obstáculos para encontrar a felicidade que está aí no “universo do seu corpo” e da sua alma. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/12/1999. - [ENFARTE E FAMÍLIA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/enfarte-e-familia/): Um amigo de velhas datas liga pedindo uma hora para conversar comigo. Como esse amigo sabe que não revelarei seu nome, nem sob tortura, posso me permitir escrever, em linhas gerais, sobre o teor da nossa conversa. Aliás, eu submeti este artigo à sua análise. Um dia, dirigindo o seu carro após o trabalho, veio aquela dor violenta entre as costas e o peito e ele teve força de chegar a um hospital. Saiu de lá dez dias após com três pontes de safena, recomendações sobre mudança de estilo de vida e uma porção de remédios a tomar todos os dias, pelo resto da vida. Chamou a mulher e disse desejar repensar sua vida. Ela chorou abraçada a ele e ficou calada. Ficou mais 20 dias em casa. Os dias não passavam, a televisão cansava e a cabeça não parava de martelar questões sem respostas. Esse meu amigo desejava trocar ideias sobre ele, sua empresa e seus filhos. Descobrira-se mortal. Reuniu a mulher e os filhos para uma conversa. Disse que ia tirar o time de campo e queria saber a opinião de cada um. Foi um Deus nos acuda. Segundo ele, os filhos ficaram apavorados, pois ainda não estavam preparados para comandar a empresa, feita com muito trabalho, dedicação e renúncia. Por essas dúvidas ele me procurou e conversamos mais do tempo combinado. Relembramos fatos, demos algumas risadas e até algumas lágrimas rolaram, talvez pela certeza da finitude e da nossa incapacidade de administrar situações complexas. Lembrei - me, rindo comigo mesmo, da condição de “conselheiro” e me descobri sem quase nenhuma capacidade de ajudá-lo. Preferi que, nós dois, entendêssemos os dramas na sua cabeça e analisássemos o que, igualmente, poderiam pensar – naquela situação – os seus filhos. Uma coisa estava definida para ele: queria escolher alguém capaz para dirigir os negócios no lugar dele. Ele ficaria apenas dando as diretrizes. A quem escolher? Falou, com carinho, sobre os filhos, quase todos formados, mas nenhum quisera fazer mestrado ou ganhar experiência trabalhando em outras empresas. “Não tinham estrada” e não conheciam, no duro, o chão de fábrica. Viviam do que a empresa lhes pagava e não esperavam, para tão rápido, a possibilidade de um deles ter de assumir, para valer, a direção do negócio. Talvez, por culpa do meu amigo, não eram ainda trabalhadores profissionais, de sol a sol, não conheciam o seu atual nível de "stress", nem amargaram anos de lutas e as noites em claro antes de tomar decisões. A partir de suas informações, fizemos o perfil de cada um e, além de todos os problemas, como sombras, as figuras de nora e genro apareceram. A coisa complicava e eu sem saber mais o que dizer. Por fim, lhe sugeri optar por alguém de fora da família, com características e habilidades semelhantes às que ele acreditava ter ou queria para a empresa, neste mundo competitivo, não morrer. Ele coçou a cabeça e pediu um tempo para pensar. Há três dias recebi um telefonema dele. Contratara um profissional de excelente nível, na faixa dos 30 anos, ganhando quase o mesmo que seus filhos que ficaram resmungando e ele bateu firme na mesa. Estava decidido. Nenhum assumiria, continuariam fazendo o que sabiam e ainda era pouco. Hoje, ele viaja, pela primeira vez, à Europa. Boa viagem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/12/1999. - [LUSTOSEX](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lustosex/): Lá estávamos nós na fila, vendo o primogênito do “Seu Costa” e de “Dona Dolores” espalhar a sensibilidade, a mordacidade e a gentileza que se amalgam em sua personalidade. Terno azul, camisa branca, gravata importada, cabelos aparados, óculos graves e aquele bigode latino que criou para espantar a timidez e lhe dar o ar da sisudez que não tem, embora cultive. Não era uma noite de autógrafos, era uma festa de benquerença, de reencontros e de reminiscências entre o autor e muitos de seus personagens políticos, de amigos e do dia- a -dia de sua vida que se transformou em um triângulo afetivo: Sobral, Fortaleza e Brasília. Peguem um mapa do Brasil e vejam se não dá um triângulo, não um equilátero, mas um isósceles, pois um dos vértices desse triângulo parece ser o seu centro gravitacional. Esse menino tímido que, desde cedo, bisbilhotava o viver dos outros com a argúcia do futuro contador de estórias, estava ali declarando, de público, ter atingido a sexagidade, se é que esta palavra existe ( caso contrário, fica a sugestão para o próximo Aurélio). E a declarava com a verve e o gostoso “non sense” com que mistura suas múltiplas vidas nas cidades que escolheu para viver e amar e a sua permanência triunfal em Paris, quando os filhos lhe passavam “quinau” em seu francês pouco Sartreano. Soares Feitosa, esse cearense que mostrou a possibilidade de ser técnico, empresário e intelectual em uma só pessoa, nos dá um puxão com “as orelhas” que escreveu no “Como me tornei Sexagenário”. Claro, profundo e com a simplicidade que só os que sabem ler podem ter. Digo isto e provo. Cito o Feitosa em questão: “Poucos têm o dom. Lustosa da Costa tem. Sob prosa leve, um senso de humor à inglesa, a capacidade de rir em primeiro de si mesmo, e - as cartas, o epistolar... onde parece escrever para a eternidade. Pinçar, eis a essência do escrito lustoseano nesse mar de banalidades”. Para não dizer que também não pincei nesse mar de palavras alguma coisa, mostrarei o lado “tímido sex” do autor, revelando, com a sua forma peculiar, cinco dos seus muitos encontros-desencontros amorosos. Vamos a eles? 01.“Também conheci uma moça gordinha, do interior, de pele macia como a carteira de plástico com que me presenteou. Foi um namoro que não se consumou apesar do mimo”. 02. “Anos depois, barba feita, coração por fazer, amei. E amando, gastei a sola dos sapatos, muitas vezes por dia, pela rua Joaquim Ribeiro, na esperança de avistá-la à janela”. 03. “Fui acometido de esperanças violentas e desesperos mortais. Até que veio o não". 04. “A essa época, namorei Maria Helena, que era jovem e virgem como acontecia àquele tempo”. 05. “O sexo não era risonho nem franco. A moçada de hoje, criada com a tranqüilidade da pílula e o conforto dos motéis, precisa saber que, naquele tempo, não havia nem uma coisa nem outra”. Muito mais teria. Vou ficando por aqui, pois o espaço é curto - e o Bilas teima em editá-lo com esse tipo de letra que faz a alegria dos oculistas - citando o próprio Lustosa: “escrever, para mim, é compulsão. Escrever me libertou da timidez. Escrever me pôs em contato com o mundo o que nem sempre é fácil, oralmente”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/11/1999. - [ONTEM E HOJE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ontem-e-hoje/): Estava eu cá pensando como os meninos de hoje são diferentes dos de antigamente. Tenho um amigo, filho de um amigo, de sete anos. Ele me chama de João e não tem a menor cerimônia em falar comigo. Até a última vez em que o vi ele tinha quatro pontos na testa, já havia visto o "Titanic"34 vezes, montara uma réplica do dito cujo sem grandes dificuldades e mexia com informática, especialmente jogos. Por conta disso, lembrei da minha infância, quando qualquer pessoa mais idosa era senhor ou senhora e resolvi recolher fatos, alguns bobos, perdidos no tempo que aconteceram comigo. Muitos deles não fazem hoje o menor sentido, mas acreditem, aconteceram. - Aos cinco anos me perdi. Fiquei olhando desconfiado para todos os lados. Um senhor perguntou meu nome, o nome dos meus pais e onde eu morava. Voltei para casa. Todos se conheciam. - Tinha só nove anos e gostava de voar de teco-teco (avião monomotor) com meu pai. Ele colocava um caixão coberto de alumínio cheio de gelo dentro do avião. Descíamos nas praias desertas e comprávamos peixes. Voltava feliz e cheirando a peixe. - Nessa mesma época aproveitei o carro do meu pai dando sopa e liguei a chave. Sem saber como, engatei a ré e foi fogo para parar. Não sabia como. Aprendi a dirigir ao contrário. - Foi aos 10 anos. Não tinha idade para fazer o "admissão ao ginásio". Um exame então obrigatório ao ingresso no curso secundário. Aumentaram minha idade. Até hoje sou, oficialmente, um ano mais velho. Quando fui casar deu problema, a certidão de nascimento era diferente do batistério. - Por volta dos 11 anos, no carnaval, meu pai me deu um vidro de lança perfume. Saí em um caminhão cheio de gente e despejei todo o conteúdo do vidro em uma menina. Ela me olhava e eu esvaziava o vidro, sem trocarmos uma palavra. O vidro secou e eu mudo fiquei. - Aos 12 anos comprei uma bola e fiz um time de futebol. Fiquei na reserva. Acabei com o time. - Com treze anos já era encrenqueiro. Um professor era um pé no saco e a maioria da turma não gostava dele. Na hora do recreio, juntamos areia e fizemos um simulacro de seu corpo em cima da grande mesa da sala de aula. Quando ele chegou, esbravejou e todos rimos. Ele deixou a turma. - Aos 13 anos apaixonei-me por uma moça mais velha. Ela foi a uma festa à noite e eu esperei que o dia amanhecesse para brigar. - Tinha um parente bispo que, vez por outra, me convidava para viajar com ele. Um dia chegamos a um convento, onde serviram uma merenda reforçada. Ele me chamou ao canto e disse: Encha os bolsos com o que você puder. Bispo não pode, mas perdoa. - Nessa época, 13 anos, tive um surto de fé fora do comum. Queria entrar no seminário para ser padre. Meu parente, bispo, pediu que um padre amigo conversasse comigo. Batemos um longo papo e ele sugeriu que eu passasse uns meses rezando para confirmar minha fé. Deu no que deu. - Aos 14 anos, véspera do Dia das Mães, fiz um discurso infame no colégio. Ganhei o apelido de "João Mamãe". - Aos 16 anos fazia política estudantil e gostava dos congressos para escrever dedicatórias nas pastas de papelão das colegas. Recebia delas, em contrapartida, muitas frases feitas, a exemplo de: "o essencial é invisível aos olhos" ou "tu és eternamente responsável por aquele que cativas". Antoine Saint-Exupery e "O Pequeno Príncipe" estavam na moda. Antes das misses. Tudo isto foi já na segunda metade deste século que está por terminar e parece tão distante, como se o hoje caçoasse do passado. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/11/1999. - [TESTEMUNHA, SEM QUERER](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/testemunha-sem-querer/): Acabara de chegar da Grécia. Era uma Quinta-feira fria em Mannheim, cidade vizinha a FrankFurt. A noite de 09 de novembro de 1989 corria normalmente. Gravávamos uma fita com jazz ( entre elas, Bye Bye Black Bird) e uma fantasia composta por um alemão sobre o Hino Nacional brasileiro e o vinho ajudava a espantar o frio. A TV estava ligada baixinho, como contraponto. De repente, o noticiário da TV começava a sair do seu natural e os repórteres davam informações desencontradas. Vali-me de meu cunhado alemão para entender. Ele me respondeu: não estou compreendendo nada, parece que o Muro de Berlim está caindo. O povo começava a sair às ruas e não havia nenhuma autoridade falando, pois Helmut Kohl, estava ausente do país em visita oficial à Polônia( Seria de propósito?). O que se soube logo foi que as autorizações de saída de Berlim Oriental estavam sendo concedidas sem limitações e em prazos mínimos. As pessoas passaram a tirar pedras do muro e o resto todo mundo já sabe. Começara a ruir o mais forte ícone da divisão forçada da Alemanha, feita pelos aliados e a União Soviética, um país que nunca gostou de ser tutelado. Hoje, passados 10 anos, pode-se dizer que Mikhail Gorbatchov, então premiê da URSS, foi um dos grandes alavancadores desse processo de abertura, iniciando o fim de uma guerra fria beneficiadora de fabricantes de armamentos e políticos reacionários iludindo seus eleitores, de ambos os lados. Eu estive em Berlim Oriental, antes da queda, passei pelo "Check Point Charlie" e senti como era rígido o controle de entrada. Viajava de trem. Primeiro, o trem parou. Depois vieram policiais com cães amestrados farejando tudo. Em seguida, lanças com espelhos na ponta, como os que os dentistas usam para olhar os nossos dentes de trás, foram passados por baixo dos vagões do trem. Após tudo isso, descemos, entregamos os passaportes, faziam algumas perguntas, nos fotografavam, mandavam comprar certa quantia em marcos orientais - que não podiam ser recomprados na volta - e aí, sim, éramos liberados para uma visita restrita. Isto é, não se podia ir aonde queríamos, mas aos pontos recomendados. Isso foi no fim da década de 70 e eu não podia entender edificações divididas ao meio, um muro altíssimo, rolos de arame, casamatas, postes com iluminação feérica, postos de observação e um aparato de guerra que não combinava com a efervescência a 200 metros dali, onde em Berlim Ocidental a vida corria normalmente, com o seu ar cosmopolita. Pulemos para 1989. A noite se fez tarde, os vinhos seus efeitos e fomos dormir. Ao amanhecer, a história tinha dado mais um passo e os jornais e as televisões mostravam os estragos no muro, famílias se reencontrando e o povo nas ruas. Houve excessos, de lado a lado, nas comemorações, e só depois de algum tempo é que a calma voltou a reinar. Hoje, dez anos depois, tendo voltado algumas vezes à Alemanha, sinto que os 400 bilhões de dólares gastos na reconstrução da parte oriental surtiram efeito, mas há muitos descontentes, especialmente os que tiveram de pagar a conta. Mas isto é outra história. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/11/1999. - [IMPACTO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/impacto/): A gente vê na televisão, lê na revista e no jornal e não sente quase nada. 214 pessoas morreram na queda no mar de um boeing 767 da Egypt Air, no nordeste dos Estados Unidos. E daí? A banalização da desgraça alheia passa pelas mortes das Febens da vida, na indiferença na doença grave de uma pessoa conhecida, nas micro-guerras de todos os dias, nas guerrilhas, no desemprego definitivo, nos assassinos paranóicos de escolas, empresas e cinemas, nas lutas dos sem terra, na Aids e a fome dizimando a África com os olhos cegos da Organização Mundial de Saúde, preocupada com a obesidade no Primeiro Mundo e na morte de uma prefeita que queria apenas trabalhar honestamente. E nós comendo, rindo, trabalhando, dormindo, como se vivêssemos em um outro planeta e estivéssemos anestesiados. Afinal, a anestesia serve para alguma coisa, mitiga ou suprime dores/ sentimentos que, após a sedação, voltam fortes ou desaparecem, se a razão da dor ou do sentimento foi extirpada ou os nervos definitivamente lesados. Mas falávamos de desgraça e de como essas desgraças não nos causam mais impactos. Talvez, se pudéssemos, gostaríamos de um pouco mais de tranqüilidade, mas como? Queremos o controle remoto para o portão, o celular que nos azucrina, o cartão de crédito, o computador, a tevê com os seus shows da vida e da morte, os jornais com suas fofocas e a dia a dia com a sua dureza. Somos bombardeados com informações. O que ganhamos com tanta informação? De que vale uma linha quente (hot line) que nos mostra, a todo instante, as desgraças do mundo, os cartéis de droga, governos sendo depostos, fofocas, crianças abusadas sexualmente, pornografia na Internet, o FMI ditando normas, um presidente de CPI querendo aparecer, os cartões de crédito cobrando os juros da cara com a maior cara de pau? Creio que isso parece um pouco do apocalipse. A burrice de não saber usar o que o progresso nos concede, de não entender o mundo e saber conviver com as pessoas. Cada um vai se fechando nos seus muros existenciais, deixando de sentir os impactos, quer das sensações positivas, quer das que nos deveriam machucar profundamente e apenas causam - quando causam - mossas em nossos sentimentos e consciências. Mal comparando, é como alguém que faz plástica e fica perguntando aos outros se ficou bom. Quem tem que saber é a própria pessoa, os outros não estão nem ai. Ninguém está nem ai para as dores dos outros, imagine plástica. E tudo parece plástica. E no meio de tudo que escrevi de forma desencontrada, propositadamente, pode existir alguma resposta e cada um deve procurá-la do seu jeito, na urgência do tempo que passa e dos impactos que não ferem mais, desde que não sejamos nós as vítimas. Nesse caso, a coisa muda. E como muda. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/11/1999. - [CONSTRUTOR DE SONHOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/construtor-de-sonhos/): Sonhei que eu era um construtor de sonhos. Amo sonhar o impossível, como diria Goethe. Um menino nascido em meio a uma realidade dura, tentando transformá-la, abençoado por Deus, pela esperança, por pessoas e pelos ventos dos tempos. Nesse sonho, entre os bocejos da noite e o espargir da aurora, cuidei de plantar. Preparei o solo, eu que nem de terra entendo, adubei-a com o sal do suor, misturado a raras, mas sofridas lágrimas e a reguei com afinco, como se fora uma chuva fina e constante que molha, mas não encharca. Sonhei que não acreditavam no meu plantio, mas não sabiam que as sementes tinham na sua composição as qualidades do destemor e da perseverança e, se pareciam fenecer, era apenas o entretempo certo ao desabrochar radioso. E eu jardineiro estava ali presente, sempre. Os jardineiros têm as mãos marcadas por espinhos, mas não perdem a sensibilidade, nunca. Raras sementes e a espera, após a rega, se fizeram demorar, pois não eram couves, imaginavam-se bambus, poucos que fossem. E furaram a terra difícil e viram o despontar do sol em meio a um quase deserto. Como eram bambus ou queriam ser bambus não tinham medo dos açoites dos ventos e os recebiam com um aparente vergar. Engano ledo. Logo voltavam, eretos e se faziam fortes para florescer em meio às daninhas ervas. E como em sonho tudo é permitido, os poucos bambus foram se enfeixando, metamorfoseando-se em um jovem baobá. Sentindo a licença poética dessa transmutação genética, advertiam que os baobás eram uma espécie em extinção. Importava não, a licença poética permitiria a ação transgênica, ora bambu, ora baobá. Cada sonho é, digamos uma utopia e nem todos são Thomas Morus, mas há os que acreditam nas suas utopias pelo relativismo das coisas. E o sonho não era mais um sonho, posto realidade com a clareza e os matizes da vida. E o sonho amadureceu. Amanheceu. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/10/1999. - [O SENTIDO DAS COISAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-sentido-das-coisas/): Tem muita gente procurando o sentido das coisas. Compra livros, vai a analistas, escolhe um guru, reza, mas não o encontra. Claro, não há encontro com o sentido das coisas. Para se saber o sentido das coisas é preciso criá-lo. Você é que deve fazer com que as coisas tenham sentido. Não adianta a muleta dos livrinhos de autoajuda, dos analistas cheios de problemas pessoais a resolver, dos gurus ascéticos e carentes de realidade e da oração sem fé, como uma troca. Não basta também a boa vontade dos parentes, amados ou dos amigos, você tem de descobrir a sua própria história, viver as suas próprias dores e despedaçar-se, pois, segundo Cecília Meireles “quanto mais me despedaço mais fico inteira e serena”. Para as coisas terem sentido é preciso que a pessoa se despedace, com o condão de ficar inteira, como resgate. Todos nós temos ouvido frases como: “a minha vida não faz sentido”, “isto não faz sentido”. E o que faz sentido para você? A vida dos outros? Calcem as suas botas e descubra o seu mundo. Não é preciso ir a Santiago de Compostela para encontrar o Ser Supremo, nem ir a um “ashana” na Índia para ficar zen. Você é que tem o caminho, o cajado e a escolha. Faça-o sem medo, no dia a dia, em meio à pontaria dos que lhe atiram flechas, como se você fosse o alvo. Você não é alvo, você é algo, torne-se especial, sendo simples. Não precisa usar as sandálias do pescador para se tornar puro, a pureza não vem do vestuário, nem dos olhos dos outros, ela assoma do seu coração e quem o redime é a sua consciência, não o julgamento dos outros. Cuide de você e já terá um grande trabalho. Que ser complexo é ser você. Ser você é ser único e não uma cópia de alguém ou do modelo que imaginam lhe cair bem. “É preciso ser um realista para descobrir a realidade. É preciso ser um romântico para criá-la”, já dizia Fernando Pessoa. Torne-se romântico sem ser piegas. Não pense, por exemplo, que “As time goes by”, “She” ou “New York, New York” foram compostas para você, mas se permita sentí-las. Da mesma forma, não se sinta embriagado com Marisa Monte, Fernando Brandt, Milton Nascimento e, vá lá, Roberto Carlos, mas os considere como reserva técnica de seus devaneios. Não deixe que os outros façam as suas coisas e escolham seu destino, calce os seus próprios sapatos, caminhe a dura estrada e se, não encontrar estrada, faça uma. Seja um Rondon, sem medo de florestas e de feras. Quem tem medo fica acuado e não vive, perde-se no labirinto e não encontra a saída e ela pode estar bem aí à sua frente. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/10/1999. - [RUPTURAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/rupturas/): É próprio do ser humano viver de rupturas. Aliás, as rupturas são o cerne do crescimento e progresso, sejam eles pessoais ou coletivos. Todo ato de romper, criar é, em sua essência, uma desobediência, uma quebra com o estabelecido, a procura do novo, mesmo que o novo seja até a reencarnação do velho. Neste momento que estamos vivendo no mundo, no Brasil e em nossas vidas pessoais tão plenas de problemas e carentes de soluções, é chegada a hora das rupturas, de cada um entender que a mesmice, seja ela coletiva ou pessoal, não nos levará a nada, a não ser a vala comum da mediocridade, onde todos são enterrados como cadáveres desconhecidos ou indigentes mentais. É preciso ter a coragem de ousar, de olhar o dia, a vida, as pessoas e o mundo que nos cerca como algo a ser modificado, a partir de nossas informações, conhecimentos e valores que, necessariamente, sofreram abalos sísmicos desde os nossos nascimentos. Os valores e a cultura que nos foram passados por nossos ancestrais, pais e mestres, embora essenciais à nossa formação, já não são mais referências pétreas. Até porque a velocidade das transformações ocorreu em todos os campos do conhecimento humano. O certo, o justo e o correto são decorrência de valores em mutação e isto causa um desconforto tanto na “Terra de Marlboro” como aqui na pátria do “levar vantagem em tudo”. Até os amorais e imorais, naturalmente infensos a questões existenciais, estão sendo atingidos por essa aura benfazeja. Francis Fukuyama, um polêmico professor americano da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, já havia escrito há mais de uma década que estávamos no fim da História. Segundo ele, as nações tenderiam a ser democracias liberais e, quando atingissem esse fim, a História terminaria. Iria acabar por falta de objetivo, a ausência da luta pelo domínio, a conquista e o reconhecimento, próprios do ser humano. Agora, passados dez anos, ele nos propõe uma nova leitura sobre o mesmo tema. Com o seu novo livro, a “Grande Ruptura” (The Great Disruption), ele fala das grandes crises ocorridas nas décadas de 60 a inícios da de 90, como o aumento de criminalidade, divórcios, filhos naturais e, do outro lado, o descrédito pelas instituições sociais e a perda da confiança pessoal. Citando Fukuyama, Anthony Gottlieb, do “The NYT Book Review”, destaca esse trecho de seu livro: “os seres humanos sempre criam regras morais pelas quais se pautam, em parte porque a natureza os fez assim e em parte pela busca de satisfação de seus próprios interesses”. Gottlieb deseja, na verdade, criticar. E o faz com veemência: “esse é um fenômeno para o qual Fukuyama oferece apenas respostas insatisfatórias”. Ele insiste que nossa recuperação da Grande Ruptura não teve nada de automático. Eu concordo com Gottlieb. Creio que, rompendo, nós todos estamos crescendo e avançando e isto faz a diferença. Hoje, cada um está, a seu modo, vivendo a sua ruptura continuada, descobrindo novos caminhos, fazendo releituras de suas histórias e tentando obter respostas. E isso é bom. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/10/1999. - [SER CRIANÇA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ser-crianca/): Já faz muito tempo. Eu era criança quando se podia ir à escola a pé ou de ônibus, ficar brincando na praça perto de casa sem ninguém importunar, jogar futebol com bola de pito. Eu era criança quando se acordava cedo, orava, tomava banho, vestia a farda, bebia-se café com leite e pão com manteiga ou uma vitamina onde a banana era o carro chefe, levava-se merenda e voltava faminto para almoçar. Mas se aguardava a chegada do pai. Eu era criança quando se colecionava carteira de cigarros, flâmulas, lápis, moedas, cartões postais, álbuns com artistas de cinema e jogadores de futebol. Jogava-se triângulo, bila, que depois virou bola de gude, soltava-se arraia, que mudou para pipa, e todo menino tinha um time de botão cujo melhor jogador, não sei porque, era sempre o “Paulo Caminha”. Eu era criança quando quiseram me ensinar a escrever com a mão direita. Não aceitei. Até hoje continuo usando a mão esquerda para tudo e a direita para quase nada. Eu era criança quando minha mãe queria mandar uma empregada me levar ao colégio segurando minha mão. Não concordei. Fizemos um armistício: a empregada iria pelo outro lado da calçada. Eu era criança quando um diretor de escola puxou a minha orelha porque me atrasei no recreio. Joguei o refresco que estava tomando em seu corpo, pedi para falar com o meu pai e disse que não ficaria mais ali. Ele concordou. Eu era criança quando se marchava no dia 7 de setembro puxando carneirinhos ou com caixas de sapato às costas, cobertas de papel branco com uma cruz vermelha, como se fôssemos enfermeiros. Eu era criança quando no carnaval havia corso, as pessoas passeavam em caminhões e carros conversíveis, sentavam nos para-lamas ou pisavam nos para-choques. Jogavam-se talco, serpentina, confete e dois tipos de lança-perfumes, um dourado e outro de vidro. Eu era criança quando a praia ainda se fazia distante, pois a cidade lhe dava as costas. Não havia edifícios e os pescadores misturavam-se aos banhistas. Os calções eram frouxos, a areia era branca, limpa e boa para jogar futebol, vôlei ou frescobol. Eu era criança, imaginem, de rezar o terço, das missas aos domingos, ir às lojas com minha mãe, acompanhar procissões, comungar às primeiras sextas feiras de cada mês, mas não deixava de aprender jiu-jitsu. Hoje, já não sei bem o que é ser criança. Acompanhei, passo a passo, a vida de minhas filhas, desde o pré-natal. Agora, meio sem jeito e sentindo que estou como que sobrando, tento me misturar com duas pequeninas netas. Mas, não sei mais, de verdade, o que é ser criança Nem sei que presentes dar no Dia das Crianças. As opções são tantas e nada parece ser novidade. Não gosto do “no meu tempo”. Cada tempo tem suas próprias cores e vida e as cores e a vida de hoje resplandecem de outra forma. Não sou e nem pretendi ser saudosista, quis apenas lembrar o que, à época, se fazia com alegria e simplicidade que, talvez, fossem, para os de então, a essência da felicidade. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/10/1999. - [ESPERAR, POR QUEM?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/esperar-por-quem/): Tem gente esperando o 1º de janeiro de 2000, como se esse dia venha a ser milagroso e traga, nas suas 24 horas, respostas para as nossas questões, aspirações e sonhos. Sem querer ser um desmancha-prazeres vou apenas dizendo que esse tal 01 de janeiro será apenas o dia da maior ressaca, essa sim, totalmente globalizada. De Narvik, no pólo norte, à Patagônia, no pólo sul, homens e mulheres, tiradas as exceções de praxe, tomarão os seus pileques, engordarão gramas ou quilos, farão juras de amor, provocarão acidentes de trânsito, gastarão mais do que podem e devem, darão telefonemas melosos, orarão em suas crenças e aproveitarão o grande feriado de 02(sábado) e 03 (domingo) para preparar a entrada na realidade do dia 04 de janeiro, a primeira segunda feira do último ano do século XX. Pois é, o século XXI só começará no dia 01 de janeiro de 2001. Os séculos vão do ano 01 a 00 e, como é óbvio, têm 100 anos. Tudo bem, mas a virada do milênio será no dia 01 de janeiro, dirão vocês. Será não, segundo alguns poucos cientistas que falam na mudança do calendário gregoriano, no acúmulo dos dias a mais dos anos bissextos e no movimento da obliqüidade da eclítica (palavrinha complicada) terrestre. Vamos admitir que esses cientistas estejam errados e que a virada seja mesmo ao final deste ano. E daí?, Direi eu. O novo milênio pagará suas contas, enxugará suas lágrimas, melhorará sua saúde, aplacará sua solidão e manterá o seu trabalho? Portanto, cada um cuide de sua vidinha e trate de acabar com essa frescura de achar que um novo ano, século ou milênio mudará o seu destino. Isso é conversa de agente de viagem, vidente, cartomante, pai de santo, programas de televisão de segunda classe e os aproveitadores de sempre. Cuide-se não e espere pelo milagre e você estará ferrado. É o mesmo que esperar por promessa de político e governante. Papo furado. Trate do seu dia a dia, vá vivendo a sua própria realidade e procure transformá-la com seu trabalho e suas forças. Sem essa de achar que as coisas caem do céu. A propósito, o Vaticano rendeu-se à ciência e admitiu que o paraíso celeste não fica no firmamento ou no espaço sideral. O paraíso é um lugar virtual, onde os virtuosos ressuscitarão um dia. Não vale mais dizer: Meu Deus do Céu. Deus está, como sempre esteve, em todas as partes e a matéria... Bem isso já é outra conversa. É bom lembrar os versos de Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Diz um velho brocado americano: “ Todo aquele que espera que as coisas melhorem e não colabora com o tempo, verá, bem cedo, que aquele que não esperou estará tão longe que jamais será alcançado”. Ou com o fala um matuto conhecido: “Quem espera por tempo bom é vazante”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/10/1999. - [FILOSOFANDO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/filosofando/): De repente, um grupo heterogêneo de pessoas, sem nenhuma razão aparente resolve estudar filosofia. São, na maioria, empresários e alguns professores e estudiosos do assunto, sob a coordenação de um doutor em filosofia. A propósito, é bom ler o que disse Michel Foucault sobre a busca de conhecimento: ”Não há relação de poder sem a constituição correlativa de um campo de conhecimento, como também não há nenhum conhecimento que não pressuponha e constitua ao mesmo tempo relações de poder”. Como não havia um nivelamento entre todos os participantes, o professor optou por uma visão abrangente da história da filosofia e de suas principais figuras. Cada sessão tem a duração mínima de duas horas, uma vez por semana. Já estamos nisso há mais de dois meses e, passo a passo, vamos chegando à modernidade. Didático, preparado e com uma capacidade incrível de se recuperar após perguntas de toda ordem, o professor vai mostrando aos que nunca tinham estudado filosofia e aos que imaginavam saber alguma coisa, as diversas concepções acerca do ser, dos seres e dos papéis do homem no universo dentro das variáveis espaço e tempo. Imagino que se criou no meio do grupo - uma espécie de babel de formações pragmáticas e acadêmicas - a consciência da necessidade de uma atitude crítica, a partir de reflexões. Já se observa, como produto dessas reflexões, um amadurecimento do raciocínio lógico e de especulações, talvez até inconscientes, sobre a moral, a ética e a semiologia com sua linguagem dos signos. Muitas vezes, após as aulas, alguns ficam confusos e sentem o peso das informações recebidas, mesmo com a ressalva da bibliografia, cuidadosamente preparada para neófitos. Pois não é que ä frequência tem aumentado e muitos já não se sentem acanhados em associar os seus raciocínios à lógica das escolas filosóficas. Ora, se filosofia, do ponto de vista etimológico, significa “amor à sabedoria”, os que estão tateando têm consciência de suas limitações e o fazem na certeza de que precisam refletir sobre o pensar e o agir humanos. Essas atitudes reflexivas vão sendo agregadas e servirão, provavelmente, para balizar suas condutas. Certamente, após esse curso, não serão conferidos diplomas e ninguém se sentirá um novo filósofo, mas, por certo, a formulação de seus pensamentos práticos ou teóricos obedecerá, mesmo sem perceberem, a novos critérios, ideias e juízos de valor, a partir da perplexidade, base primeira da filosofia, segundo Aristóteles. Durante algum tempo, considerando que tudo não venha a ser absorvido e ficar de todo sedimentado, pensarão no que ouviram sobre a filosofia grega, os filósofos cristãos, a reforma, o iluminismo, a modernidade e nessa coisa meio louca que é o pós-modernismo, a partir do niilismo que nos conduziu a este mundo de hoje, com poucas crenças e muitas desavenças. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/09/1999. - [TOLERÂNCIA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tolerancia-2/): A convivência social nos obriga a ser tolerante. Engolir sapos é uma arte que vamos aprendendo ao longo de nossas vidas. Começamos a ser tolerantes com os pais que, desde cedo, na ânsia de nos transformar em “gente”, nos obrigam a seguir horários, tomar banhos, ir à escola, cortar cabelos e unhas, comer o que não queremos, respeitar os mais velhos, aguentar o chato do irmão, tomar remédios que nos tornarão fortes e saudáveis, rezar para pedir perdão (de quê?) a Deus etc. Na escola ficamos horas e horas ouvindo professores falarem, muitas vezes sobre coisas que não nos interessam. Apesar disso, além da tolerância em assistir aulas enfadonhas, passamos a estudar matérias chatas e com pouco ou nada a ver conosco. Em outras palavras, devemos ser bons em assuntos que não são bons para nós. Muita gente dirá que as crianças e os adolescentes ainda não têm a capacidade de saber o que é importante ou bom para os seus futuros e é preciso colocar muitas informações em suas cabeças, na ilusão de que isso possa se transformar em conhecimento. Não concordo com essa ideia. Desde cedo deveríamos estudar aquilo que nos atrai, aguça a curiosidade e mexe com a inteligência. Sei, por outro lado, que é preciso de um instrumental básico, a partir do qual se pode ir estudando com prazer. Sei também que há um conjunto de regras sociais necessárias à convivência. Tudo isso não deve invalidar o prazer de estudar. Esse é um dado que professores e pedagogos parecem levar pouco em conta. Se isso é verdade, eles não estarão sendo tolerantes com crianças e adolescentes que precisam estímulos e emulações para acordar cedo, cumprir horários e ter regras de vida. A escola deve atrair o aluno, ser prazeirosa, alegre e receptiva. Há um equívoco muito grande dos pais em imaginar que as escolas farão de seus filhos os geniozinhos desejados. Seu filho querido é, via de regra, apenas um no meio de dezenas de outros. Você é que deve ser tolerante com ele. Ouvir suas queixas, entender suas reações com os colegas e professores e lhe mostrar o mundo não como uma versão de Walter Disney ou de Federico Fellini, mas esse mundo real em que os contrários têm que conviver e aprender que a tolerância é sempre um grande aval de boas maneiras nessa vida competitiva e pluralista. Entranhe-se com seu filho, ao invés de estranhe-se. Misture-se, envolva-se, participe e acredite no potencial dele, sem endeusá-lo, mas o aceitando como uma pessoa autônoma que não é um clone seu. O DNA não é tudo. O amor, a compreensão e a tolerância são ferramentas para torná-lo forte, sem que perca a sensibilidade tão necessária ao equilíbrio emocional indispensável aos embates que terá por toda a sua vida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/09/1999. - [NOVOS MICROCONTOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/novos-microcontos/): Quando tive a coragem de publicar 12 microcontos neste espaço, fiquei tão atônito que até meu e-mail forneci para receber opiniões. Foram várias e, graças a Deus, sempre favoráveis. Bancário, advogado, psicanalista, médico, pedagogo e jornalista (imaginem) foram algumas das profissões de pessoas que, não só gostaram, mas pediram para escrever mais alguns. Aproveito este espaço liliputiano com tipo de letra consorciado a oftalmologistas e óticas, para, apropriadamente, publicar mais alguns microcontos. MC 01 Os gêmeos univitelinos eram econômicos. Uma só casa, um só carro, um retrato 3X4 para os dois, uma só mulher e um vizinho muito atuante. MC 02 Deu na televisão. Um brasileiro, afinal, poderia ganhar o Prêmio Nobel da Paz por ter matado um grupo de brancos que dizimara uma tribo de índios. MC 03 Tinha consciência de sua falsidade e isso o machucava. Subiu no palanque, abriu o sorriso, fez o discurso e se julgou eleito pelo povo. MC 04 Viúva recente. Os bons costumes pediam recato. Telefonou, pediu uma pizza e entregou-se ao entregador na cama do falecido. MC 05 Vail, Colorado. Os esquis caíram. A neve a cobria, lentamente, até o pescoço. Gritou e a avalanche chegou em resposta. MC 06 Hospital cheio e o jovem médico atendia pacientemente a moça estuprada. Limpava o sangue e o seu sangue fervia. Tomou um calmante e deu uma canelada na maca. MC 07 Pois não é que descobriram umas cartas da Hillary para a Mônica reclamando de sua falta de amor ao Bill. Hillary, indignada, dizia não entender a traição de Mônica. MC 08 No interior do submarino ele temia ler a carta da mãe. Criou coragem e leu que seu casamento dera água. Sua mulher acabara de fugir com um vendedor de aquários. MC 09 Estava com fome e não tinha dinheiro. Trocou a roupa do corpo por um sanduíche. Teve botulismo e o corpo pagou. MC 10 Ajustou os óculos novos. Enxergou o que não via antes: a miséria de sua casa, a pobreza de sua favela e a fealdade do seu rosto. Matou o oculista. MC 11 Era carnaval. Tímido, usava máscara. Encontrou-se perdido no meio da multidão abraçado a um gay. Gostou. Rasgou a máscara. MC 12 No curso da invasão de terra um dos posseiros viu a dona da fazenda de rifle em punho. Foram ao chão, o rifle tombou e ela tomou posse dele. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/1999. - [CARTA ANÔNIMA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/carta-anonima/): Alguém me telefona do sul do país e pergunta o que fazer com uma carta anônima. Respondo, sem titubear: deixá-la anônima, não passar o recibo que o seu autor ou autores desejam. Segundo Aristóteles, a coragem é a primeira qualidade humana, pois garante todas as outras. Quem não tem coragem, utiliza, por exemplo, o recurso da carta anônima. Há uma corrente psicanalítica que considera a carta anônima uma coisa abjeta. Quem escreve uma carta anônima, no mínimo, tem medo de mostrar a sua cara, deixando patente, segundo essa corrente, a sua pequenez. Ninguém e nenhuma instituição são tão fortes que não possam ser enfrentados. Se você se sente fraco, impotente, procure alguém para lhe aconselhar e respaldar. Una-se à sua associação de classe, procure a polícia, um advogado, a imprensa ou a justiça. Agora, escrever carta anônima é um recurso absolutamente descabido e inócuo. Ninguém pode ou deve acreditar em pessoas que não têm coragem de defender os seus pontos de vista e usar o seu próprio nome ou, se for o caso, do grupo ou instituição que integra. Imaginemos que uma pessoa A não goste da pessoa B e não tenha coragem de enfrentá-la. Será muito fácil dizer cobras e lagartos de B, utilizando-se do recurso do anonimato. Da mesma forma, se algumas pessoas, em bloco, se julgam prejudicadas, estabeleçam uma estratégia e mostrem a sua identidade. Quem não aparece e não tem coragem de enfrentar o adversário não merece fé. A carta anônima é uma instituição antiga, usada, segundo especialistas, via de regra, por pessoas invejosas, recalcadas e que se comprazem em denegrir, sem provas, a honra alheia, quase sempre construída a custa de muitos sacrifícios. Ora, como acreditar em quem tem medo de aparecer? O argumento de que a pessoa denunciada tenha um aparato para defendê-la não procede. O Presidente Collor foi apeado do Poder porque os seus denunciantes tinham nomes e assumiram suas acusações. Um dos denunciantes era um simples motorista. Viver é correr riscos. O autor da carta anônima, quando não identificado – o que quase sempre acontece pelas pistas que deixa – não corre risco nenhum e pode jogar lama nos outros de uma forma condenável para ver se fica alguma sujeira. “Ninguém pode usar máscara por muito tempo”, já dizia Sêneca. É por isso que os autores de cartas anônimas, mais cedo ou mais tarde, são identificados. Principalmente agora que a tecnologia funciona junto com a criminalística na elucidação do que se imagina secreto. Quem já foi alvo de alguma carta anônima sabe o quanto é desconfortável não identificar a pessoa que está lhe assacando impropérios. Aquele que tem indícios ou provas, pesquisa, mostra, desmascara, enfrenta, denuncia ou utiliza a imprensa que está ai sequiosa por notícias e manchetes. Ao receber uma carta anônima não a propague. Jogue-a no lixo. Se você ainda não é, poderá ser a próxima vítima e, nessa ocasião, não estará rindo da desgraça alheia. Ficará atônito e amaldiçoará quem utiliza tal expediente torpe. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/09/1999. - [SEM TERRA, SEM RUMO E STRAVINSKY](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/sem-terra-sem-rumo-e-stravinsky/): Desde que há algumas semanas os caminhoneiros se reuniram-extremamente bem coordenados, diga-se de passagem - para a sua greve geral que se fala em crise institucional. De repente, na quinta-feira passada, outro grande movimento, o dos sem terra, segundo muitos, e dos sem rumo, segundo FHC, mexeu com o coração de Brasília e escancarou a situação brasileira. Enquanto isso, no sul e sudeste, aproxima-se a primavera e, segundo os arautos de sempre, o Brasil, em breve, entrará nos eixos. É bom lembrar que o 05 de outubro é nada mais, nada menos, que o “Dia da Ave”, segundo o calendário cívico-histórico brasileiro. Os pássaros ficarão felizes pela escolha, quem sabe, do seu dia para o anúncio do fim dos problemas brasileiros. E voarão em rasantes sobre a Praça dos Três Poderes. Quem acredita em Nostradamus pode acreditar em tudo. Para quem mora por estas bandas do Brasil, onde as estações se resumem a sol e chuva, ou seca e enchente, a coisa até parece piada. Como parece piada a discussão sobre globalização e o que é ou não é empresa nacional, pois parte das maiores das daqui, se não tivessem sido assistidas com o dinheiro farto e generoso dos incentivos fiscais e dos rombos em bancos estatais, pouco mais seriam que espectros. Por tudo isso é que fiz, mesmo sem entender de música erudita, uma analogia entre as promessas da primavera, do governo e a obra musical “A Sagração da Primavera”, de Igor Stravinsky. Recebida como um verdadeiro escândalo quando de sua estréia na primavera de 1913, em Paris, sua força foi tamanha que passou a influir na mudança da postura cultural da época e o choque produzido mexeu com as classes dominantes de então que, estupefatas, a ouviam no Teatro dos Campos Elíseos. É provável que a analogia que me proponho a fazer se prenda ao próprio conteúdo da peça musical que se compõe de duas partes. O governo atual também tem duas partes, a antes do início do segundo mandato em janeiro de 1999 e a que veio depois. Voltemos à Strasvinsky. A primeira parte da peça é a Adoração da Terra (seriam a defesa intransigente dos ruralistas e a ação constante dos sem terra?), em que é descrita o renascimento da natureza (seria o respeito ao meio ambiente ou o aproveitamento de terras improdutivas?), os augúrios da primavera: dança das adolescentes (seriam as esperanças e os dramas da nossa jovem democracia?), os jogos de captura (seriam os jogos de poder entre os do governo e as esquerdas?), os jogos das cidades (poderiam ser os interesses e as guerras fiscais entre sudeste-sul e norte- nordeste?), a procissão do sábio (alguma semelhança com alguém e o seu séquito?) e a dança da terra (as invasões, os crimes e a impunidade?). Espero que esta analogia não se configure também na segunda e última parte da composição de Stravinsky que é iniciada com o sacrifício (seria o nosso holocausto?) e concluída com a dança do sacrifício (seria a vingança dos “sem, sem” com a dança dos “com, com?”). Stravinsky e analogia à parte, o brasileiro já vive a dança do sacrifício há muito tempo e se penitencia, talvez, da insensatez coletiva que permite a eleição e reeleição de muitos políticos corruptos, despreparados ou maquiavelicamente geniais que se contrapõem a uns tantos capazes e honestos que, pouco ou quase nada, conseguiram nesta década findante. Vitórias a comemorar? Quais? Não se sabe ainda como o país e a Nação reagirão aos direitos, encargos e diretrizes da globalização, nome que pode ser tão efêmero quanto o tempo que medeia uma e outra estação. Ë bom lembrar que a estação que antecede à primavera é o inverno, sem esquecer que ela é substituída pelo verão, época sujeita a chuvas e trovoadas, especialmente em países tropicais e bonitos por natureza. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/08/1999 - [ANIVERSÁRIO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aniversario/): Pois não é que hoje é o dia do meu aniversário. Nasci no meio da Segunda Guerra Mundial e, no dia em que completei um ano, o Brasil declarava guerra ao Eixo. Os alemães deviam estar tremendo nas bases enquanto eu me lambuzava de bolo, recebendo a atenção comum aos filhos primogênitos. Comecei a estudar quando os Estados Unidos outorgaram uma Constituição ao Japão e implantavam o Plano Marshall na Europa. Fiz minha primeira comunhão logo após o Brasil ter perdido a Copa do Mundo no Rio de Janeiro. Terminei o ginásio quando Juscelino inventou de criar Brasília. Conclui o colegial após o Brasil ter ganho a sua primeira Copa do Mundo. Entrei na Universidade quando Jânio aparecia com sua vassoura. Fiz minha primeira viagem ao Exterior no ano em que John Kennedy morreu. Conclui administração no ano da Revolução e Direito quando foram criados o cruzeiro novo, o MDB e a Arena. Casei no ano em que o homem pisou na Lua e a minha primeira filha nasceu quando a China foi admitida na ONU. A segunda filha nasceu enquanto Ernesto Geisel era indicado para Presidente da República. A terceira filha nascia enquanto morria Mao Tse Tung e a última no ano em que o divórcio foi instituído no Brasil. Nos anos do milagre brasileiro eu cuidava de minha firma que havia sido fundada à época da morte de Costa e Silva e da Constituição outorgada. No ano em que foi decretada a Anistia ela completava dez anos. Dei um duro danado e fui queimando etapas. Completei a idade em que Cristo morreu quando foi inaugurada a Ponte Rio – Niterói. Descobri-me quarentão quando o Aiatolá Khameine foi escolhido presidente do Irã. Desde cedo aprendi e continuei a fazer, como hobby, o que Carlos Heitor Cony faz por profissão. Andei meio mundo, conheci muita gente e cultivei alguns poucos amigos, dentre os quais o que faz censura prévia em quase tudo o que escrevo. Concordo com o doido do Paulo Francis quando ele dizia que “as amizades mais profundas vêm desse sofrimento a dois, ou a três”. Todas as manhãs, bem cedo, ando com um grupo de amigos. Às sextas-feiras e sábados, quase sempre, almoço com amigos que fazem da crítica inteligente o prato principal da refeição. Tomo, aos sábados, café com uma colega de universidade e os domingos eu reservo para intimar com minha mãe que se tornou mandona depois da morte do meu pai, no ano em que completei dez lustros de vida. Nesse dia ela dá carão nos seus filhos marmanjos e puxa o saco das “santas filhas”. Faltando três anos para a virada do século (não do milênio) eu tive a alegria de ser avô, dose repetida no ano seguinte. E cá estou eu lépido e fagueiro com muitos cabelos, embora mal distribuídos, esperando minhas filhas e netas acordarem para decidir o que faremos hoje. Sei que uma delas, pelo menos, vai chegar atrasada. Não faz mal, estou acostumado. Aproprio-me de versos anônimos para encerrar: “conta teu jardim pelas flores, nunca pelas folhas que caem. Conta teus dias pelas horas douradas, e esquece por completo as nuvens. Conta tuas noites pelas estrelas –não pelas sombras. Conta tua vida pelos sorrisos, não pelas lágrimas. E, alegremente, conta tua idade por feitos, não por anos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/08/1999. - [VIAGENS VAPT-VUPT](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/viagens-vapt-vupt/): Eu tenho me especializado em viagens vapt-vupt. Por minha natureza e atividades acostumei-me a ser rápido. Vejo tudo de forma seletiva, faço sempre o possível, mas ainda tenho tempo de olhar os meus sóis e luas, comprar livros, ver teatro, identificar e conversar com tipos estranhos, algumas poucas compras e volto. Não é não gostar de ficar. É claro, gostaria de permanecer sempre um pouco mais. Há, no entanto, um sentimento de urgência e responsabilidade me trazendo de volta, sempre. Isso, entretanto, não me impediu de ver o sol da meia noite em Narvik, no Polo Norte, de participar de cerimônias budistas em Tóquio, de andar de riquixá em Seul, de fotografar as cataratas do Niágara quase congeladas, voar sobre os Andes, tentar esquiar nos Alpes, andar de camelo no Cairo, tomar um pisco em Lima, perambular pelos corredores da Casa Branca, subir as escadarias das pirâmides do México, ver dois papas em Roma, pisar na calçada da fama em Los Angeles, ser roubado em Nova Iorque, ouvir discursos malucos em Londres, sair vivo do Mar Morto, perder um trem em Baden, mexer em relíquias do campo de concentração em Auschivitz, fazer um check up em Frankfurt, curtir as ladeiras e curvas de San Francisco, passear na cidade proibida em Jerusalém, estudar em Massachusets, ver os destroços da deposição de Allende em Santiago, virar a noite em Madri até a polícia nos mandar para o hotel, jogar em Las Vegas, atravessar o antigo muro de Berlim, aprender a gostar de Miami, aguentar o papo dos gondoleiros de Veneza, conversar uma noite inteira com uma estranha em Saint-Malo, tomar banho em Punta Del Este, repetir as casas de tango de Buenos Aires, passear de navio pelo Caribe, enternecer-me com o Mosteiro dos Jerônimos, andar de barco no Mar da China, discutir sobre Robert Frost em Barcelona, brincar no Tivoli Park em Copenhague e muita coisa mais. Pode ser que alguém ache – e talvez tenha razão – que quis me mostrar. Quem escreve se mostra e se mostro onde andei de carro, trem, avião e navio aí a coisa fica mais à mostra. Paciência, faço parte de uma família de andarilhos. Começou com Pero Vaz de Caminha, meu “ancestral materno”. Gosto de ver o mundo do meu jeito, ficar olhando os nativos de cada lugar. Nós somos pessoas de um mesmo planeta, mas como somos diferentes. Não é só questão de raça, religião ou do lugar onde moramos. É algo maior, misturando os costumes, a cultura e o jeito de cada um ser, ver e viver o mundo. Recentemente, li um livro da jornalista Sônia Nolasco, “Moreno como vocês”, nele ela narra o choque cultural e social de brasileiros morando em Nova Iorque e suas identidades abaladas. É um livro profundo na análise dos comportamentos dos expatriados e lembrei dele porque, nesta última viagem feita, li no “The Brazilian Sun” um depoimento de uma jovem, após quatro anos nos Estados Unidos, resolver entregar os pontos e voltar em meio a desilusões. Quem sabe se as minhas viagens vapt vupt não sejam para eu não perder o meu senso de lugar e me imaginar fazendo parte de um mundo não meu? O meu é aqui, onde estão as pessoas amadas, conheço até os buracos das ruas, sei quem são as criaturas boas e as maledicentes e me sinto parte dessa coisa informe chamada comunidade que, na verdade, poderia ser mais solidária. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/08/1999. - [PAIS E PAZ](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pais-e-paz/): Já vai bem longe o tempo em que os pais faziam e aconteciam. Hoje os pais, via de regra, pisam em ovos ao falar com os filhos. Quando falo de pais, estou falando do plural de pai, o bicho homem. Os que foram e são pais nestas três últimas décadas sabem a diferença entre o que viveram, enquanto filhos, e o que tentaram ao quebrar as barreiras do relacionamento humano, estabelecer vínculos de amor e laços de ternura. Há muitos dilemas no relacionamento pai e filho. É lógico, racional e educativo estabelecer limites, agir com firmeza, mas o coração amolece e a vaca vai para o matadouro. Os filhos, desde cedo, são exímios em testar os pais, pedindo o que podem e não podem, o que devem e não devem. Ao menor sinal de fraqueza o tiranozinho ou tiranazinha vai ganhando terreno e adquire hábitos que, quase sempre, comprometem a sua vida. Como as coisas do mundo não são fáceis, os que recebem tudo podem ficar despreparados para os embates do dia a dia, por toda a vida. É preciso que se deixe claro o que é certo e errado e isso vai depender dos valores dos pais. Daí é essencial que a relação pai x filho seja baseada na franqueza e não se crie um escudo protetor isolando o filho da realidade. Os erros provocam consequências e isso os pais, mesmo cortando seus corações, devem deixar que aprendam para não repeti-los. Os filhos costumam exagerar na atenção que necessitam. Nem tanto ao rio, nem tanto à margem. Distribua o seu tempo. Há tempo para tudo e isso não quer dizer que os filhos tenham o direito a usar todo o seu. Você tem compromissos e desejos outros. Use o bom senso e não fique com sentimento de culpa por umas férias necessárias ou um fim de semana para desanuviar o juízo. Não prometa o que não pode e não fique estabelecendo comparações. Os filhos são severos na cobrança do prometido e não aceitam referências ao filho de fulano ou ao irmão que dá bom exemplo. Os filhos podem até mentir, mas não gostam de saber que seus pais mentem. É bom que você tenha fé para transmitir a seu filho, mas é ruim que transmita a idéia de um Deus que pune e cobra. O “novo Deus” deve ser solidário e entender as fraquezas de todos nós. É como se fora um Deus-gente ao invés de um Deus-bicho papão. Não enrole nas respostas. Se não sabe, diga. Um dia o filho vai saber que também não sabe. Não banque o durão. Há uma diferença entre ser firme e duro. As pessoas firmes têm e mostram sentimentos. As pessoas duras escondem ou escamoteiam. Respeite os medos do seu filho. Não brinque com os fantasmas dele, você ainda tem os seus. Por outro lado, mostre que o medo faz parte da vida e só quando o entendemos é que podemos superá-lo. Não queira que o seu filho seja você. Ele tem 50% de outros genes e vive um tempo novo que não é o seu. No máximo, queira que ele conheça você para entendê-lo e estabelecer uma relação de paz em que o bem querer não é uma virtude, mas um processo de aprendizado contínuo, a partir da tolerância e do respeito à individualidade do outro. Posso ter me contradito? Paciência, pai é assim mesmo. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/08/1999. - [BIP](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bip/): Gosto de ler o que escreve Carlos Heitor Cony e acompanho seus artigos e romances há anos. Fala de tudo, especialmente do que nos aflige e sufoca neste país ainda sem destino certo. Critica, mostra erros, dá exemplos e sugere soluções. Diz do seu ateísmo e não esquece o seu tempo de seminário. Se considera um homem antipático, não gostar de muito papo e conversar com muita gente. Criou o seu mundo particular e, nesse mundo, havia um lugar para o amor que dedicou a um cão. Falava dele com um enlevo que enternecia e deixou claro a sua dor quando o seu animal de estimação morreu. Mandou enterrá-lo em cemitério zoológico e se fez triste por um bom tempo. Visita o túmulo do seu cão e, vez por outra, deixa claro que a ferida ainda não cicatrizou. Há pouco mais de um ano ganhei um cãozinho de presente, pequeno, castanho, peludo, mistura de duas raças estrangeiras e de uma meiguice que aplaca a raiva de recolher o seu cocô pelos cantos que escolhe. É solícito, gosta de brincar com bolas e se põe bípede quando chego do trabalho ou lhe acaricio a cabeça pequena e irrequieta. Agora, no quarto crescente da maturidade, passo a entender o sentimento de Cony e de muitas pessoas que se apegam a um cão ou a um gato. Os animais não falam, não discutem, não criticam, contentam-se com pouco e são extremamente reconhecidos a quaisquer gestos. Um dia desses assisti a um filme sueco em que um menino foge de casa porque os pais não deixaram que criasse um cão. Fugiu de bicicleta, com o cão dentro de um cesto no bagageiro. Os pais ficaram aflitos e depois de muita procura conseguem localizar o filho e aceitam o cão que rejeitavam. E ai entenderam que o seu filho único precisava de uma companhia leve, como não costumam ser os pais. Não sei o que dizem psicólogos, psicoterapeutas, psicanalistas e psiquiatras sobre a criação de animais domésticos, mas a minha pouca experiência demonstra que eles ajudam a dar paz às pessoas a quem estimam. É claro que não estou dizendo que um “pet” substitui os relacionamentos humanos, saudáveis, indispensáveis e enriquecedores. Gente precisa de gente, sempre. Mas, tenho consciência de que há uma complementação sutil no lidar com o silêncio, o olhar indecifrável e a alegria manifestada em movimentos do corpo de um pequeno cão. Agora, neste instante em que escrevo, o “Bip”, meu cão de estimação, está aqui dormitando, esperando que eu levante do computador para brincar com ele e, se não o faço, cobra em latidos a minha atenção. Pode parecer tolo o que escrevo, mas nós precisamos, de vez em quando, ficar tolos, se é que não o somos sempre. Dizia Churchill que “os tolos, às vezes, estão certos”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/08/1999. - [INTIMIDADE DEVASSADA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/intimidade-devassada/): Recebi, de alguns leitores, cartas ou e-mails falando sobre o artigo Intimidade, que publiquei no dia 04 deste. Para quem não leu o referido artigo – e apenas para acompanhar o raciocínio dos leitores que me escreveram – digo que ele tratava do sagrado direito que temos de preservar a nossa intimidade e dos poucos amigos que a conhecem, sem precisar devassá-la, pois dela participam. Voltando ao que recebi. Escolhi três leitores diferentes, identificados apenas pelas iniciais, que, cada um a seu modo, escreveram sobre o artigo “Intimidade”. Como os textos são longos, tomo a liberdade de condensá-los. O primeiro leitor(AJL) limitou-se a remeter o texto muito conhecido “Procura-se de um amigo”, de Vinícius de Moraes. Aí vão algumas partes: “Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir... Deve guardar segredo sem se sacrificar...Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar...Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo dever ser o de amigo...Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive”. A segunda carta é de uma leitora (LPCC). Diz ela: “Sagradas as amizades. Você já definiu tão bem o que é um verdadeiro amigo. Posso acrescentar? E o que é necessário para que duas pessoas sejam amigas? Algumas afinidades, uma ética rigorosa no comportamento, uma lealdade inquestionável, e, o mais importante, aquela coisa que não se define, nem na amizade nem no amor, que não se sabe porque acontece: o gostar... Com os amigos deve-se fazer como fazem os bancos recadastrar periodicamente. As pessoas infelizmente mudam, e às vezes para pior.” A terceira carta é de uma leitora do Rio, psicanalista de profissão(TSPO) que escreve: “ Você deve perturbar muito seus leitores... e provavelmente, também, enchê-los de prazer...Você utiliza um recurso que obriga o leitor a se deter, a prestar atenção ao que está lendo. É também um ‘chega prá lá’ que você parece dar, no real, aqueles que, justamente, querem chegar perto demais sem que para isso tenham conquistado o direito. É algo que você usa, desconsertando o invasor, pedrinhas que coloca no caminho como se dissesse que não é tão fácil assim chegar perto de pessoas atentas...Combina a delicadeza da sensibilidade à crueza daquele que não faz concessões... Agora, uma discordância(e ela me cita): “ algumas pessoas se aproximam e dizem que gostam de nós. Ora, como podem gostar do que não conhecem”(termina a citação). E ela continua: “ E eu digo: o pior é que quase sempre os que gostam de nós não nos conhecem. Pelo menos por inteiro. Mas e se nós mesmos não nos conhecemos? E quem pode impedir que o outro goste de uma coisa em nós que ele inventou (idealização)? Ele ( o outro), às vezes precisa, para sobreviver, amar o que não existe. Mas que existe para ele. E logo existe...” Obrigado aos três. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/07/1999. - [TOLICES JORNALÍSTICAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tolices-jornalisticas/): Recentemente, o francês Philippe Mignaval resolveu reunir em livro as bobagens escritas na imprensa do seu país. Sob o nome de “Le Sottisier des Journalistes”, Mignavil reuniu uma coletânea de bobagens, impropriedades e até, vamos lá, idiotices publicadas em jornais franceses. Tal procedimento, como se verá, não é privilégio de brasileiro. Ainda bem. Escrever é uma faca de dois gumes. Tanto pode engrandecer como denegrir a imagem de quem escreve. Diz o jornalista português Edson Athayde, colecionador desses deslizes: “acidentes lingüísticos e semânticos apenas demonstram que a escrita também pode ser uma arma”. Só para vocês terem uma idéia de como são comuns os erros na imprensa, vou citar dois exemplos brasileiros, de órgãos do primeiro escalão, antes de entrar nos franceses. O prestigiadíssimo Jornal “Folha de São Paulo”, publica, diariamente, no caderno Cotidiano, ao lado da seção “Mortes” um aviso que tem o seguinte título: “O que fazer em caso de morte” – “você deve procurar o serviço funerário do Município de São Paulo pelo telefone (011) 2377000 ou pelo fax (011) 2321203.” Quem é você? O morto, a família?, Quem, afinal? A revista Veja, edição de 23.06.99, página 39, publicou um quadro (box) com o título: “Eles querem seu emprego”. Em seguida, diz: “O Brasil tem cerca de 30.000 imigrantes que vieram para trabalhar. Saiba quais são os países campeões na exportação de mão-de-obra e quantas pessoas cada um deles mandou para cá até hoje: 5.000(EUA), 2.300(Inglaterra), 1.950(França), 1.800(Japão), 1.750(Alemanha) e 1.500(Argentina). ” Ora, é tão ridículo, os números são tão fora da realidade e a observação furada “quantas pessoas cada um deles mandou para cá até hoje”. Ora, cada um desses países mandou muitos mais imigrantes.Não indicando o período de tempo, a notícia é errada e absolutamente sem sentido. As tolices francesas são engraçadas. Vamos lá: “Parece que ela foi morta pelo seu assassino”. “Ferido no joelho, ele perdeu a cabeça”. Os antigos prisioneiros terão a alegria de se reencontrar para lembrar os anos de sofrimento”. “O acidente fez um total de um morto e três desaparecidos”. “A polícia e a Justiça são as duas mãos de um mesmo braço”. “Ela contraiu a doença na época em que ainda estava viva”. “O aumento de desemprego foi de 0% em novembro”. ”A conferência sobre prisão-de-ventre foi seguida de um farto almoço”. “À chegada da polícia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel”. E tem mais: “O presidente de honra é um jovem septuagenário de 81 anos”. ” Depois de algum tempo, a água corrente foi instalada no cemitério para satisfação dos habitantes”. “Os sete artistas compõem um trio de talento”. “Um surdo-mudo foi morto por um mal-entendido”. “Este ano, as festas do 04 de setembro coincidem exatamente com a data de 04 de setembro, que é a data exata, pois o 04 de setembro é um Domingo”. “O Tribunal, após breve deliberação, foi condenado a um mês de prisão”. “Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio, trata-se de um incêndio”. “As circunstâncias da morte do chefe de iluminação permanecem obscuras”. “Apesar da meteorologia estar em greve, o tempo esfriou ontem intensamente”. “O velho reformado, antes de apertar o pescoço de sua mulher até a morte, suicidou-se”. E, para finalizar, esta pérola: “Nossos leitores nos desculpem por este erro indesculpável”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/07/1999. - [INTIMIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/intimidade/): Muitas pessoas imaginam ser agradáveis ao tentar pensar sobre os seus sentimentos. Algumas são tão falsas quanto uísque do Paraguai. São melosas, fingem uma intimidade que não têm e, como não querendo nada, disparam: como vai você? Conte-me os seus problemas. Você não se sente só? Você precisa de alguém para compartilhar as suas tristezas e alegrias? Essas são as mais perigosas e esquecem que seu disco já está gasto e as frases de efeito não produzem mais resultados. A não ser nas pessoas incautas ou carentes. Há outras, honestas no perguntar a quantas andam a sua vida, mas não dispõem de ferramentas para apertar as porcas frouxas das suas dores ou de óleo para lubrificar suas ilusões. No fundo, são bisbilhotices e a solidariedade mostrada em nada resolve os seus males, sejam eles reais ou imaginários. Muitas pessoas se aproximam e dizem que gostam de nós. Ora, como podem gostar do que não conhecem? É preciso conhecer, saber quem o outro é, o que fez e faz, como vive, para admitir o bem querer. Não o bem querer de coquetéis com vinhos e destilados atilando uma intimidade fugaz. Para gostar é preciso caminhar uma mesma estrada, identificar os sinais do corpo e as mazelas do espírito. Não é, por exemplo, a nudez moteliana que torna as pessoas íntimas, é algo mais profundo como sentir os olhos, beber os sentimentos, entender os silêncios e perdoar os ditos malditos. Não permita que devassem a sua intimidade. Importa não que fabriquem versões a seu respeito. Se isso acontecer, paciência. Faz parte da vida. As pessoas que não dão vida às suas vidas vivem do que imaginam ser a vida dos outros. Fantasiam, xingam, caluniam e nisso vão agregando uma couraça invisível, mas sensível a quem conhece um pouco esses amigos de araque. Os amigos não precisam alardear afinidades. Afinidades não são trombeteadas, são guardadas com o carinho especial dos que não necessitam provar nada. Basta o fluir da vida e elas se agregam de uma forma misteriosa e bela. Os verdadeiros amigos não perguntam, eles sentem. São presenças sem serem chamados. São ouvidos atentos para os nossos silêncios ou queixumes. São uma força magnética imantando atitudes desinteressadas e não pedidas. Os caros e poucos amigos não devassam a nossa intimidade, eles fazem parte dela, desnudam-na sem perguntas e nos tornam fortes em meio às fraquezas comuns aos humanos. Os amigos não adulam. Apoiam e confortam. Os amigos têm o direito da crítica pela capacidade de saberem tocar os nossos sentimentos. Mesmo que, às vezes, isso possa doer. Os amigos tomam partido e não assumem atitudes dúbias, convivendo com os nossos inimigos. Eles nos defendem em nossas ausências e procuram entender as nossas razões. André Malraux disse certa vez: “Amizade não consiste em apoiar os amigos quando eles têm razão, mas quando erram”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/07/1999. - [DOUTOR CHICO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/doutor-chico/): Nenhum brasileiro de cultura mediana desconhece a discografia de Chico Buarque. Os que estavam na universidade na década de 60 sabem do engajamento de Chico Buarque aos movimentos de rebelião à ordem vigente no país. Os mais novos conhecem também o escritor Chico Buarque, elogiado por uns, criticado por outros e com livros que não fariam nenhuma falta se não tivessem sido escritos. Por sua condição social, cultura, tratamento poético, linguístico e musical que dá a sua excelente obra discográfica, Chico Buarque constitui uma referência na história da música brasileira na segunda metade deste século. Quem não conhece, por exemplo, Pedro Pedreiro, A Banda, Apesar de Você, Cálice, Meu Caro Amigo, Samba de Orly, Pelas Tabelas, Suburbano Coração, Bancarrota Blues, Carolina, Geni e Não Existe Pecado ao Sul do Equador. O seu passado de luta, engajamento político, excelente discografia e a sua sofrível incursão literária, não são motivos – pelo menos, no meu entendimento - relevantes e suficientes para a obtenção de um galardão como um título de Doutor Honoris Causa por uma universidade pública. Sempre tive em alta conta os títulos conferidos pelas universidades, apesar de entender que, algumas vezes, eles são usados para atender aos poderosos de plantão e a visitantes ilustres. Não conheço os mecanismos de escolha, os critérios adotados e, dessa forma, o meu juízo fica meio capenga. Mas uma universidade, teoricamente um centro de decisões equilibradas e austeras, não pode ficar por ai distribuindo títulos honoríficos como o fazem muitas casas legislativas. Como o próprio nome traduz, um doutor de causa honrosa deve ser alguém que pugnou, no cenário internacional, nacional ou no âmbito da universidade, por causas de grande significação. Até se poderia dizer que Chico fez isso. Mas quantos artistas de bom nível e politicamente engajados deveriam, segundo os mesmos critérios, ser agraciados? Ao receber o título, em cerimônia fechada, Chico se auto intitulou o “doutor Chico da Mangueira”. Ora, não seria o caso de, aproveitando a oportunidade, falar de suas ideias e projetos para uma universidade mais ligada à cultura popular, à música como instrumento da realidade? Poderia até ter repetido alguns versos seus, por exemplo: “De tal maneira que, depois de feito Desencontrado, eu mesmo me contesto “(Fado Tropical c/Ruy Guerra), ou “Não me diga mais quem é você Amanhã, tudo volta ao normal Deixa a festa acabar “. (Noite dos Mascarados), ou ainda, “ Quando é missão de esculacho, olha aí, sai de baixo que eu sou embaixador”. (Não Existe Pecado... c/Ruy Guerra). Pareceu-nos sem emoção o recebimento da honraria e sem nenhuma imaginação a sua fala. Talvez encarnasse o seu antigo heterônimo, Julinho de Adelaide, criado à época da repressão, desejando ser o Doutor Chico da Mangueira. Tem a fala de Chico Buarque muito ou pouco a ver com um título de Doutor Honoris Causa? Ou estarei sendo um estorvo? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/06/1999. - [AOS SEM NAMORO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aos-sem-namoro/): E aí você está lendo este artigo e não compreende a razão de tanta falação sobre o Dia dos Namorados. Pois saiba: é o quarto evento do comércio lojista. Lojistas e publicitários, à parte, cá entre nós você talvez esteja é com uma dor de cotovelo por se encontrar só nessa data. As rosas oferecidas, nas bancas improvisadas por toda a parte, parecem não lhe dizer respeito. Só parecem. Na verdade, você está é como se um espinho virtual tivesse furado o seu dedo de estimação. Aquele dedo usado para ligar para a pessoa querida. Aí o amor acabou e o dedo ficou em riste, apontando para as suas falhas. Não se culpe, não é bem assim. Os amores podem acabar. Não pode acabar é o amor no seu coração. Não pode deixar de existir é a eterna busca pelo ideal de ser feliz, embora tudo seja mais um caminho que uma meta. Não há de ser nada. 12 de junho é apenas um dia. Mas logo nessa data, você gostaria de estar com alguém, não é? Sem essa de autocomiseração, bancando a vítima. Coisa feia. Talvez, você precise descobrir porque as coisas deram erradas. Não na busca de culpados, mas na identificação do que pode ser feito hoje e no futuro, o hoje do amanhã. Vai ver você não dava valor a quem lhe amava. Comprava presente, escrevia até um cartão bonitinho, mas faltava a entrega. Esse se jogar sem medo no poço profundo do amor. Essa capacidade de sentir o coração apertar quando uma simples troca de olhares age como uma flecha. Tire os óculos escuros, mostre os seus olhos, não importa a cor, as rugas a redor. Mire com firmeza e diga dos seus sentimentos. Fingir saiu de moda. Enganar, já era. Abra a sua caixa de ferramentas e não tenha medo de consertar os seus defeitos. Acabe com o medo de se expor. O mais grave a acontecer é descobrir ser você um mortal comum. Não fique pensando que defeitos são privilégio seu. Sai dessa. As novelas têm começo, meio e fim. Você não deve imaginar dramas. Afinal de contas, Janete Clair e Dias Gomes estão mortos. Enxugue as lágrimas. Não é preciso fazer da vida uma novela. Desvencilhe-se do novelo em que está enredado e não fique aí esperando alguém cair do céu à sua procura. Outros dias dos namorados virão, fique certo. Embora só exista um Dia do Namorados por ano, todo santo dia é dia de namorar. Mexa-se, desenferruje a sua capacidade de caçar felicidade. Não estou falando de pedrador e sim do caçador de esperança. Aquele que não esmorece quando tudo fica cinza e as águas da vida parecem turvas. Águas turvas podem ser ilusão de ótica, mude as lentes do sentimento, recicle-se na gestão de um projeto pessoal verificando que seu ponto forte é ter certeza dos seus pontos fracos lhe tornarem gente. Em amor, como na vida, não há qualidade total. No amor há loucura. La Fontaine, em uma de suas fábulas, conta que o Amor e a Loucura brigaram um dia. A Loucura furou os olhos do Amor, tornando-o cego. Vênus, mãe do Amor, pediu justiça a Júpiter e aos juízes do Olimpo. E esses sentenciaram que a Loucura serviria de guia eternamente ao cego Amor. Para de choramingar, vá à luta, o mundo é seu e fique cego de Amor. Mas não esqueça de amar a si próprio. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/06/1999. - [KEYNES, O FILÓSOFO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/keynes-o-filosofo/): Os que mourejam em economia sabem – ou deveriam saber- quem foi John Maynard Keynes. Os outros, naturalmente, não têm a obrigação de sabê-lo. De qualquer sorte, como diria outro economista, Keynes foi o mais famoso economista inglês do atual século, autor da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, e agraciado com o título de Cavalheiro (Sir) pela Casa Real da Inglaterra. Ocorre que não desejo falar sobre o economista Keynes e sim sobre o pensador Keynes. O estudioso de Bertrand Russel e Ludwig Wittgenstein. O homem que varava horas da madrugada conversando amenidades com um grupo (o badalado “Bloomsbury group”) de amigos intelectuais, dentre os quais Virginia Woolf e os seus lobos imaginários. Em 1930, Keynes escreveu um ensaio chamado “As possibilidades econômicas de nossos netos”. Nesse trabalho há trechos lindos demonstrando que Keynes era um filósofo, no sentido lato da palavra. Vejamos dois deles: “Quando a acumulação da riqueza não tiver mais uma grande importância social, haverá grandes alterações no código de moralidade. Seremos capazes de nos permitir avaliar em seu real valor o motivo econômico. O amor ao dinheiro como uma posse - diferente do amor ao dinheiro como um meio para o gozo e as realidades da vida – será reconhecido pelo que é: uma morbidade um pouco fastidiosa, uma dessas tendências semicriminosas e semipatológicas que se costuma confiar com arrepios a especialistas em doenças mentais...” “Ele (o homem) não ama o gato, mas os gatinhos do seu gato; na verdade, sequer os gatinhos, mas apenas os gatinhos dos gatinhos, e assim por diante, para sempre, até o fim da gataria. Para ele, uma geléia não é uma geléia, a menos que se trate de uma geléia para amanhã e nunca de uma geléia hoje. Assim, sempre projetando para o futuro sua geléia, ele se esforça em garantir a imortalidade para seu ato de fazê-la”. Diz mais: “Os ativos e decididos ganhadores de dinheiro podem levar-nos todos ao aconchego da abundância econômica. Mas apenas serão capazes de aproveitar a abundância, quando ela chegar, os que puderem manter viva e cultivar para uma perfeição mais completa a arte de viver, e os que não se vendem pelos meios de vida”. Nesses trechos Keynes denuncia um defeito comum a quase todos nós: o amor ao dinheiro pela sua mera posse e deixa claro ser essa uma morbidade, só justificando seu uso dignificante para o gozo da vida. Fala também da loucura que é a tendência de muitas pessoas em imaginar que a felicidade é um vir a ser e não o aproveitar as pequenas alegrias do dia a dia, como, por exemplo, admirar e gostar de um simples gatinho. Ao admitir que os ganhadores de dinheiro poderão levar o mundo a uma abundância, considera apenas que fruirão dessas benesses os que saibam cultivar a arte de viver. Para saber o que Keynes consideraria “cultivar a arte de viver” poder-se-ia dizer, por inferência de seus escritos e dos grupos sociais de que participava, que seria saber dividir o seu tempo entre o dever e o prazer, colocando a amizade e o relacionamento social como um desiderato. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/05/1999. - [INVASÃO DE PRIVACIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/invasao-de-privacidade/): Grande parte dos brasileiros, por comodidade, economia e para facilitar o controle de despesas mensais, paga as suas contas com cartões de crédito. Você paga com cartões de crédito estrangeiros. Eles têm seu endereço, CPF, sabem em que você gasta, quanto gasta por mês, que lugares frequenta, quando e para onde vai. Querem um exemplo? Soube-se que o escritor Dias Gomes, antes de morrer acidentado, jantou no restaurante paulista “Famiglia Mancini”, o que comeu, quanto pagou e saiu às 1:53 horas do dia 18.05.99. A precisão das informações, inclusive o horário de saída, 1:53, deve-se ao registro do pagamento eletrônico feito por cartão de crédito. No instante em que se liga o telefone, em uma companhia privada controlada ou de propriedade estrangeira, tudo fica registrado e um simples detetive bisbilhoteiro pode saber para quem se liga, se não ousar gravar a conversa. Não se passa um dia sem que a imprensa informe algo inovador na forma de invadir a privacidade individual. Tomemos, por exemplo, uma notícia, na primeira página da insuspeita Gazeta Mercantil, de 17.05.99: “O recrutamento de executivos está chegando à era dos Jetsons. Recrutadoras como a Korn/Ferry, a Heidrich & Strugells e a Russel & Reinolds estão implantando a busca de profissionais via Internet. ...A Korn & Ferry desenvolveu um recrutamento para lá de futurista, que deve chegar este ano ao Brasil. Profissionais selecionados pelo “site” Futurestep (Degrau do futuro, trad. nossa) recebem em suas casas envelopes da Federal Express. Dentro dos pacotes, está uma minicâmera chamada de videofone, que eles devem plugar na tomada de seus telefones. Um headhunter (caçador de talentos, trad. nossa) liga para esses profissionais e eles são entrevistados e filmados, enquanto podem ver o entrevistador na tela suas minicâmeras “. O mundo está ficando globalizado, como já previa a “aldeia global” de Marshall McLuhan, nos anos 60, e nós não temos mais privacidade. Paradoxalmente, o livro “1984”, de George Orwell, falava do perigo de um Big Brother (Irmão Grande) comunista que saberia tudo das nossas vidas. A realidade nos mostra o contrário. São as grandes empresas e o Estado, dito democrático, quem grampeia telefones, filma escondido e sabe o que querem de nós, através dos registros feitos ao longo de nossas vidas. Um dia desses, assisti ao filme americano “O Inimigo do Estado” e saí do cinema, mesmo descontados os exageros, abismado com a parafernália utilizado para conhecer a vida de um advogado. As informações, a tecnologia e a eletrônica são espiões silenciosos, eficientes e de relativo baixo custo. Nós não deveremos mais ter a ilusão de que a nossa intimidade nos pertence. Cada ato de consumo seu, seja o simples crediário preenchido inocentemente, uma mera ficha cadastral para receber um cartão de crédito ou uma passagem aérea, vai definindo o seu perfil e lhe colocando nas malas diretas vindas de todos os cantos, oferecendo tudo. Sem que saiba, você passa a ser um registro vendido pelas empresas de mala direta e isto lhe torna, independente de autorização, uma pessoa sem privacidade, mas um “cidadão global”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/05/1999. - [SOCIALITE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/socialite/): Muita gente usa a palavra “socialite” sem saber exatamente o seu significado. Aliás, por não saber, a forma incorreta como é usada passa a ter cânone de verdadeira. Diz-se, de um modo geral, ser uma mulher “socialite” quando ela é colunável socialmente. Os(as) colunistas sabem, por viverem paparicados(as), quem seriam as “socialites”, as alpinistas e as “informantes”, integrantes de uma espécie de SNI social, que transformam um trivial almoço com alguns poucos familiares e amigos, uma viagem boba, um fato qualquer, em uma nota de jornal. O que essas “socialites” ainda não se deram conta é que o perfil da coluna, dita social, mudou. O(a) colunista já sabe disso há anos. Hoje, ela é um misto de política, negócios, eventos culturais e sociais e, como todo mundo gosta, um pouco de mexerico que serve para apimentar. Algumas pessoas só acreditam em suas festas, casamentos, vitórias empresariais, sucesso acadêmico ou profissional, quando a versão glamourosa é contada no jornal. Não deu no jornal, não aconteceu. Isso vai alimentando “a fogueira das vaidades”, referida por Tom Wolfe em seu romance homônimo lançado no fim da década de 80, usando como pano de fundo os novos ricos de Wall Street, Nova Iorque. O fenômeno é mundial e não se limita à cidades tidas como provincianas. Cientes desse filão inesgotável, a vaidade humana, surgem revistas tipo “Caras”, a expressão pura e acabada da futilidade e do exibicionismo. De uns tempos para cá começaram a aparecer, na mesma esteira, programas de televisão alimentados pela vaidade encobrindo a insegurança ou pela insegurança geradora da vaidade. Revelam preferências, inaugurações, festas de toda natureza, casas prontas para mostrar, simulam entrevistas deixando patentes a pose e o ridículo; e fazem a alegria e a glória de quem precisa de uma alta exposição para aplacar, em alguns casos, o seu vazio. Além disso, dão ao comum dos leitores ou telespectadores uma pretensa intimidade com “gente muito importante” ou Vip (very important people). Mas, afinal, o que significa o termo “socialite”? Esse neologismo, “newyorquismo” ou anglicismo foi gerado por jornalistas com a fusão das palavras social e socialista. A revista “Time”, nos anos 60, descobriu existir um tipo de mulher de Nova Iorque aliando à sua condição de frequentadora da sociedade a de “socialista”. Seria, mais ou menos, o equivalente ao conhecido no Brasil como “esquerda festiva”, esquerda de coquetel ou botequim ou, trazendo para os tempos atuais, uma espécie de “Radical Chic” engajada. Um exemplo desse tipo de “socialite” seria, talvez, como satiriza a intelectual multimídia Susan Sontag, ao criticar as pessoas que vão assistir à peça “Esperando Godot”, de Samuel Beckett: “Esperando Godot é chique, todo mundo acha profundo, porque ninguém entende nada”. Ou como disse Antônio Gramsci: “ O otimismo da barbárie é o pessimismo da inteligência”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/05/1999. - [A NOVA MÃE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-nova-mae-2/): As coisas do mundo mudam muito rápidas. Fui criado no tempo da mãe tempo integral. Os filhos e o marido eram o seu universo. E o restante, orações. Mulheres jovens reuniam os filhos à seis da tarde para “tirar” o terço. Mulheres aguardando o marido para mandar servir o jantar e, se o marido atrasava muito, corriam para o quarto e choravam quietas para os filhos não ouvirem. Mulheres, muitas delas envelhecidas aos 40 anos, se comprazendo em manter os filhos limpos, sadios e estudando. Mulheres “tementes a Deus”, com muitos filhos, empregadas ou irmãs e tias ajudando a cuidar da casa, o marido reinando absoluto. Provedor e ditador. Hoje, as mães são fruto de uma revolução feita pelas próprias mulheres, sem a ajuda dos homens, nestas últimas décadas, à custa de muito sacrifício, de batalhas públicas e privadas assegurando-lhes uma nova dimensão. As mães de hoje são outras, enquanto cuidam do filho insone fazem uma tarefa do seu trabalho ou arriscam o olho em um livro ou numa televisão multifacetada abrindo-lhe as portas do mundo, sejam cafonices, pieguices, devaneios ou a informação em tempo real. Essas novas mulheres são corajosas, fortes, diligentes, mesclam o dever com o prazer e multiplicam seu tempo para ser mãe, trabalhadora, dona de casa, cuidar do corpo e prender o marido. Esse bicho danado e teimoso querendo criar asas, embora seja um mero bípede e, muitas vezes, não sabe nem onde pisa. A nova mãe não é um estereótipo, é um ser mutante tentando conviver num mundo novo, lado a lado, com um parceiro incapaz de esconder suas fraquezas, pois visíveis. Divide despesas, faz orçamentos, leva filhos a médicos e dentistas, cozinha ou compra congelados, copia modelos de vestidos, aproveita liquidações, estuda e/ou trabalha fora, briga por vaga em escola gratuita ou por mensalidades mais baixas e defende seus pontos de vista nas reuniões de pais (e mães) e mestres, integra uma turma de amigas, possui a liberdade oferecida por um celular e teme o futuro. É um ser estressado como se fora um homem, trabalhando, às vezes, mais que ele e se quer bonita, alegre e saudável. Ela só deixa de trabalhar nos últimos dias da gravidez, vai para o parto já com uma cinta pronta para recompor a silhueta e 24 horas após está em casa administrando o caos. Decide se vai usar o Diu, ligar as trompas ou pedir ao marido para fazer vasectomia. Não há um novo homem pronto e acabado para essa nova mulher e mãe. Os homens ainda não se deram conta de sua mãe não servir mais de modelo e os édipos estão sendo sepultados, mesmo à força. Atônitos, despreparados, procuram em seus pares as explicações sonegadas por suas mentes. Aos poucos, passam a ver sua mulher como alguém exatamente igual a ele e isso lhes amedronta, pois sabem do que são capazes. Se eles são, elas também. Do receio talvez surja o respeito oxigenador dessa relação ainda difusa e confusa tendente a se alicerçar na independência mútua e, paradoxalmente, venha a ser o elo faltante dessa nova convivência. A essa nova mãe, fruto de todos os acontecimentos deste final de século, nos cabe homenagear como alguém emergente do meio de tantos desencontros entre pessoas ainda não aptas a trilhar o caminho dessa estrada libertária e amedrontadora, por ser desconhecida. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/05/1999. - [LISBOA E BARCELONA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/lisboa-e-barcelona/): Estou voltando de Barcelona. Foi o cansaço quem me mandou viajar. A corda estava esticada demais e resolvi dar uma paradinha de uns dias. Nada mais que isso. Direto, rápido e revigorante. Primeiro foi Lisboa. Tenho uma relação muito amistosa com Lisboa. A primeira vez que vim ainda era tempo de Salazar, o velho ditador. Apaixonei-me pelo jeito meio pachorrento da Lisboa da década de 60. Os bondes, o fado, a velha Alfama, as ruas estreitas, a estufa fria, o Museu dos Coches, a Universidade de Lisboa, a Fundação Gulbekian, o Mosteiro dos Jerônimos, a praça Marquês de Pombal, onde, por uma dessas coincidências da vida encontrei agora dando autógrafos, como um autor comum, na Feira do Livro de Lisboa, José Saramago. Revi o Bairro Alto e o Rio Tejo de tantos versos e muita prosa. Comi a boa comida portuguesa que parece sempre, ter sido feita por uma velha tia gorda. Foi em Lisboa que conheci Victor Manuel Ribeiro, um português gentil que nos serviu de cicerone e veio dar com os costados aí no Brasil e passou a trabalhar comigo até a sua morte. Hoje, Lisboa e Portugal, por extensão, tentam se ajustar às regras da Comunidade Europeia. Correm contra o atraso que os indicadores sociais demonstravam. Portugal é um país em transformação, uma viva ebulição, tentando promover o turismo, criar novas indústrias e serviços para os patrícios que saíam para empregos subalternos na França, Inglaterra e Alemanha e mandavam cheques mensais para suas recatadas mulheres, semi-analfabetas com suas roupas pudicas a cuidar dos miúdos. Durante o período obscuro da ditadura de Franco, especialmente na Guerra Civil Espanhola, Barcelona, como catalã, se constituiu o núcleo central da resistência. Hoje é uma cidade onde os turistas se misturam aos nativos apressados no exercício de suas atividades, especialmente na metalurgia de transformação, na química fina e no imenso parque gráfico. Falar apenas na Costa do Sol e na Costa Brava como rotas turísticas que tem Barcelona como centro irradiador é ser simplista. Barcelona é muito mais do que se pode dizer em uma mera visita aos seus diversos museus, onde se destacam Miró e Picasso, a avenida La Rambla, o charmoso bairro Barceloneta, a Vila Olímpica, suas belíssimas igrejas, destacando-se a da Sagrada Família com a irreverência artística de Gaudí. O novo complexo turístico de Maremagnum com os seus restaurantes, bares e o passeio marítimo, é uma espécie de avenida à beira mar, frente ao mar Mediterrâneo. Nesta primavera europeia, no meio de pessoas de uma língua assemelhada à nossa, embora martelado pelas ligações internacionais que teimam em reavivar os problemas e a cobrar minha volta, eu tento, em meio a “tapas” e “paellas”, recarregar minhas baterias jogando conversa fora, por exemplo, com uma tradutora americana, um editor espanhol de origem basca, um empresário brasileiro e um mestrando de comércio exterior. Tudo isso com o bom propósito de reoxigenar-me e tentar assimilar as diatribes do nosso Brasil, tão rico e, paradoxalmente, tão pobre. É bom vir, mesmo com limitação de tempo. Melhor mesmo é voltar, pois em nossa terra é que tudo faz sentido, mesmo quando não há explicação lógica. O Brasil é como aquela pessoa a quem amamos muito, apesar de conhecer seus defeitos. Bendito Brasil. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/05/1999. - [KOSOVO E DENVER](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/kosovo-e-denver/): Um leitor pede-me para escrever sobre Kosovo. Não sei nada sobre guerras. O que aprendi no curso de oficiais da reserva, já esqueci. Mesmo que ainda lembrasse, de nada serviria na análise dessa idiotia que levou quase 20 países a se reunirem, sob o manto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), para atacar a Iugoslávia com mísseis e bombas, com o pretexto de serem delegados de uma Europa civilizada e democrática, atuarem contra o inimigo ditador e perverso. Na ótica do Presidente americano, Bill Clinton, “nossa aliança quer por fim à crise, ao sofrimento dos kosovares, às provações suportadas por uma população sérvia forçada a se envolver numa luta por um líder cínico que despreza seu bem-estar, que esconde dela a verdade sobre o que está acontecendo em Kosovo”. E arremata: “A tragédia de Kosovo deve e precisa incentivar os esforços dos países da Otan, que deverão prolongar-se por algum tempo, para dar suporte ao aprofundamento da democracia e tolerância e à integração étnica e religiosa entre as nações do sudeste europeu”. Por outro lado, o Presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, não tem o direito de promover matanças e discriminações em nome de uma pureza étnica. É outro idiota. As atrocidades por ele cometidas devem ter o repúdio da comunidade internacional, mas isso não dá o direito a ninguém de fomentar uma nova guerra sob o pretexto de uma intervenção humanística. Serão os americanos que choram o deplorável e brutal atentado à uma escola em Denver os mesmos que aplaudem a insensatez dos mísseis? Será que os mortos americanos são mais mortos que os mortos da Iugoslávia, sejam sérvios ou kosovares? A leitura verdadeira de uma guerra, como a que está sendo travada, passa pelo poderoso “lobby” da indústria armamentista, apátrida e sem escrúpulos, pela necessidade de demonstração de poderio militar e de vigilância continental que a OTAN faz na Europa, sob os olhares submissos da Organização das Nações Unidas. Enquanto isso, na África, milhares de angolanos morrem há anos em luta fratricida e ninguém se interessa ou faz nada. Será que a ONU é cega ou não vê a guerra civil em Angola por que os combatentes são negros e pobres? Igualmente, lá na Ásia, exatamente no Laos, na planície de Jars, se desenvolve outra guerra interna com outros milhares de vítimas. Ora, no Laos eles são asiáticos e pobres, parece dizer a indiferente ONU. Não há lógica nessa aberração de Kosovo, a chamada “Albright’s War”, como referência à Secretária de Estado americano, Madeleine Albright, e nenhum político, militar ou comentarista de jornal ou televisão consegue dourar a pílula dessa guerra tecnológica, que se dizia asséptica e instantânea. Noam Chomsky, ativista político americano, é um dos críticos da guerra de Kosovo. Segundo ele, “existe um regime de lei internacional e ordem internacional ao qual todos têm a obrigação de se sujeitar, baseado na Carta e nas resoluções subsequentes da ONU e nas decisões da Corte Internacional de Justiça... Se você não consegue imaginar nenhum meio de obedecer àquele princípio elementar, então não faça nada. Sempre haverá meios que poderão ser considerados. A diplomacia e as negociações nunca serão esgotadas”. Quem achar que sabe quando e como vai acabar esse conflito pode estar fazendo um arriscado exercício de futurologia. A insensatez dos homens armados e empoleirados em seus aviões e helicópteros é comandada por homens engravatados que sempre afirmam estar lutando pela paz. Quem acreditar nessa história merece um prêmio: uma passagem de ida para Kosovo, com opcionais para Angola e Laos, com tudo pago, até a mortalha. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/05/1999. - [ESCREVENDO MICROCONTOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/escrevendo-microcontos/): O conto é um dos gêneros literários que mais me atraem. É claro que gosto de romances, ensaios e poesias. Mas, o conto tem seus encantos. Por ser breve e ter um final, quase sempre, surpreendente, ele agrada e, muitas vezes, choca.. Segundo Alexandre Severino, autor de “The Brazilian Short Stories: Reflections of a Changing Society”, “o conto... com sua capacidade segmentada – a apreensão ilógica e inexplicada do momento atual da verdade – é a forma literária mais apropriada para a descrição da sociedade brasileira contemporânea”. Eu me arriscaria a dizer que não só da sociedade brasileira. Uma condição do conto é ser curto, mas alguns autores teimam em escrevê-lo longo, quase um romance. A partir dessa premissa de que o conto deve ser curto, resolvi me questionar: e por quê não curtíssimo, um mero parágrafo que reflita um momento, uma história, uma fantasia, uma loucura, um sabor picante ou cáustico? Passei então a escrever o que chamei de microcontos. Já escrevi quase cem deles. Mostrei ao Juarez Leitão e ao Pedro Henrique Saraiva Leão, intelectuais de carteirinha acadêmica, e eles disseram ter gostado. Julguem vocês. Como a ideia é nova, é preciso que o leitor leia o microconto (MC) com atenção. MC01. A música era forte e o som aumentava. Desistiu de matricular-se em uma escola de surdos e foi atropelado pelo carro silencioso. MC02. O bandido olhou para o corpo morto e coçou a cabeça. Era o seu segundo engano. Precisa usar óculos. MC03. No escuro do cinema sentiu a mão sobre sua coxa. Continuou olhando firme para a tela. Gostara do imprevisto. No final do filme, outro imprevisto. Era seu marido. MC04. Lera Machado, Eça, Drummond, Trevisan, Rubião e só lhe perguntavam se conhecia Brida, de Paulo Coelho. Suicidou-se. MC05. Londres, meia noite. Olhou para o Big Ben e viu a Lady Diana pendurada nos ponteiros do relógio e as badaladas não soaram. Meia noite e um minuto. MC06. Subiu a escada do avião rezando. Sentou, afivelou o cinto, tomou o calmante e dormiu. Sonhou que estava dormindo e nunca mais acordou. MC07. Era engenheiro de decisões concretas. Resolveria todas as dívidas. Caiu no caminhão betoneira. A viúva recebeu o seguro, não pagou as dívidas e casou com o dono da betoneira. MC08. Aquela vontade no corpo e mulher nenhuma. Alô, é do Disksexo? Sim. Mande uma. Desculpe, filiamo-nos a CUT, estamos em greve. MC09. Correu atrás do pivete que lhe roubara o relógio. Depois de duas quadras o alcançou. Tomou o relógio, olhou as horas. Devolveu-o ao pivete e saiu correndo. Estava atrasado. MC10. A mulher lhe obedecia, estava em um spa para emagrecer. Na data marcada, não voltou. Fugiu com um gordo. MC11. A primeira equipe do FMI que chegou ao hotel foi logo abrindo as agendas e telefonando para as meninas indicadas pelo Ministro. Queriam acertar as contas atrasadas. MC12. Era um novo rico perfeito. Depois que colocou as dentaduras superior e inferior, passou a usar flúor. Apreciaria receber comentários dos leitores a respeito dos microcontos (e-mail jsn@planos.com.br). João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/04/1999. - [NÓS E OS GRUPOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nos-e-os-grupos/): Assisti há alguns dias a uma entrevista do sociólogo Domenico De Masi concedida ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura de São Paulo. Posteriormente, li uma entrevista do mesmo De Masi à revista Exame. Para concluir, descobri, entre os meus livros, “A Emoção e a Regra”, uma coletânea de ensaios sobre grupos criativos na Europa entre 1850 e 1950, organizado por Domenico De Masi e editado pela José Olympio. Para quem nunca ouviu falar em Domenico De Masi eu direi que é italiano, 61 anos, sociólogo do trabalho que, além de ser professor universitário em Roma, vive pelo mundo afora a dar palestras. Quem estiver interessado em ideias novas, com um excelente respaldo cultural e estético, é bom conhecer o trabalho de De Masi. Por ora, para justificar o título do artigo, ficarei apenas no livro “A Emoção e a Regra”, especificamente no ensaio feito por Emma Gori sobre o grupo de Bloomsbury. Nesse ensaio de 40 páginas se pode conhecer o surgimento, o desenvolvimento e o papel transformador de um punhado de pessoas à frente de seu tempo. Desse grupo que se reunia no bairro de Bloomsbury, na cidade de Londres, nos primeiros anos deste século, fazia parte gente de todos os matizes culturais que se reunia pelo prazer de estar junto e, ao mesmo tempo, trocar ideias sobre o que estava acontecendo no mundo. Virginia Woolf (escritora famosa e mulher de comportamento liberado), Leonard Woolf (editor e marido de Virgínia), Clive Bell (negociante de arte e marido de Vanessa, irmã de Virgínia), Duncan Grant (pintor), Vanessa Bell, Maynard Keynes (economista famoso em todo o mundo) e tantos outros eram os integrantes desse grupo diletante que se reunia sob dois nomes. Um deles era a Sociedade dos Apóstolos(Apostles Society) e outro, pasmem vocês, Sociedade da Meia-noite (Midnight Society) que se reunia às sextas-feiras à meia noite. Ora, perguntarão vocês, o que é que essa lenga-lenga tem a ver com os dias de hoje e o precioso tempo que gastamos para ler este artigo? Simples. Estou tentando demonstrar que, se há quase um século, pessoas diferentes se reuniam para trocar ideias, essa carência ainda hoje persiste. O corre-corre que nos estressa e o isolamento em nossos trabalhos demonstra a necessidade de nos reunirmos em grupos para deixar que surjam coletivos criativos. Para isso existem os clubes de serviços, as associações de classe, os clubes sociais, as entidades culturais e as científicas. Além dessas organizações formais, existem os grupos informais de amigos (como o de Bloomsbury) das mais diversas profissões e visões que se gratificam em jogar conversa fora. Na realidade, não estão jogando conversa fora, pois cada um relata as suas experiências e fantasias, tornando a discussão rica e proveitosa. Da minha parte eu faço grande fé em grupos. Sejam formais ou informais. Desde adolescente tenho participado dos mais variados grupos. Atualmente, sou diretor, conselheiro e membro de várias entidades. Além disso, tenho meus grupos informais de amigos. Um deles tem mais de 25 anos. Permaneço até o instante em que a relação entre os pares é espontânea, instigante e gratificante. Na hora em que a mera obrigatoriedade, a mesmice e a futrica surgem, eu dou um tempo ou saio. Se você faz parte de grupos, meus parabéns. Você está utilizando um antioxidante para o corpo e para a mente. Se você ainda vive isolado, descubra a sua turma. Não se preocupe se alguém ou alguns não gostarem muito de você, isso pode ser prova de que você não é o que eles são. De minha parte, nunca vi uma pessoa que fosse unanimidade ser ou fazer alguma coisa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/04/1999. - [COMPLICAR OU SIMPLIFICAR?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/complicar-ou-simplificar/): Vivemos tempos tecnológicos onde tudo é fugaz. O saber de ontem é a ignorância de hoje. Confesso que, muitas vezes, fico intrigado com tantas teorias novas que, logo cedo, viram modismos. Não importa nominá-las para não magoar “facilitadores” e os que ainda permanecem como seus seguidores. Fico intrigado e acrescento, de orelha em pé, quando alguém, de boa fé, me diz que contratou uma consultoria de alto nível para isso e aquilo. Ora, a primeira indagação é saber se a empresa e os seus dirigentes têm essência para entender e aplicar as novas técnicas que vierem a ser implantadas. Em segundo lugar, é preciso saber quem são e quais as experiências de “alto nível” da consultoria. Já se disse que “especialista é alguém que vem de longe”. Não basta vir de longe, trazer modelos prontos e criticar o que, bem ou mal, está funcionando. É preciso chegar junto e conhecer não só a realidade da empresa, mas as peculiaridades do mercado em que tenta sobreviver. Vi muitas dessas empresas com problemas sérios depois de reformularem seus métodos, sistemas e processos. Vi dirigentes com as mãos à cabeça sem saber o que fazer com tanto papel, sistemas “on line” e o diabo a quatro, enquanto olhavam bestificados para as modificações no lay-out e mobiliário de suas empresas e descobriam que os problemas financeiros estavam em pior situação do que quando a consultoria chegou. Agora, a consultoria passava a ser mais um problema financeiro. Será que estou caricaturando ou exagerando? Talvez. Há consultorias boas, mas não são muitas. E as que complicam o simples são as piores. Jack Trout, um americano que entende de administração, escreveu recentemente o livro “O Poder da Simplicidade” (The Power of Simplicity, ed. Mc Graw Hill) que diz, entre coisas, mais ou menos o que venho dizendo há anos. Segundo ele “é tão difícil ser simples, porque as pessoas têm medo de parecer pouco inteligentes se agirem dessa forma... Nós ficamos impressionados pelas coisas que não conseguimos entender”. Ora bolas, nós não devemos ter medo de ser simples. Caso você não entenda, pergunte, anote, pesquise, estude. Mas, no final faça do seu jeito. Quem dorme com a sua consciência e os seus problemas é você. Você é que paga as suas contas ou, na situação atual, pagará as contas vencidas e a vencer. O segredo de qualquer negócio é gastar menos do que fatura. A fatura pressupõe um pagamento futuro que, às vezes, custa a vir ou não vem. Gaste pouco, fazendo o máximo. É mágica mesmo e o nome é trabalho duro, parcimônia, simplicidade, modéstia, cuidado com as despesas, sejam grandes ou pequenas e não deslumbrar. Deslumbrou, cuidado. A outra história dos modismos é “encantar o cliente”. Cliente não é cobra nadja para ouvir música de um encantador de serpentes. Cliente é para ser bem servido, respeitado e tratado com honestidade e atenção. Encantar lembra enfeitiçar que, em linguagem vulgar, pode ser traduzido por picaretagem. Cuide do dia a dia de sua empresa e pare de inventar. Em resumo, vivendo no Brasil de hoje planejar a longo prazo é como tentar descobrir o nome da futura namorada do Bill Clinton. Nem ele sabe. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/04/1999. - [O QUE É SER RICO?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-que-e-ser-rico/): Nos Estados Unidos há pesquisas de todas as naturezas. Há no americano uma preocupação incomum de ter informações. Uma dessas preocupações é esmiuçar a riqueza, sua e a dos outros e definir o que é ser milionário. Convencionou-se que milionária é aquela pessoa que possui, como o próprio nome sugere, um milhão de dólares de patrimônio líquido. Thomas J. Stanley e William D. Danko passaram vinte anos pesquisando a vida dos milionários americanos e, ao final, escreveram o livro “O Milionário Mora ao Lado”, publicado em Português pela Editora Manole. Sérgio Vilas Boas, no suplemento literário da GM “Fim de Semana” de 21.03.99, fez uma resenha interessante sobre o referido livro e deixa claro que “a obra não se propõe a ensinar como se tornar milionário em dez lições”. Na realidade, o livro pretende analisar o comportamento do que os autores chamam de “milionários de uma geração”. Em outras palavras, pessoas que não herdaram e conseguiram ao longo de suas vidas acumular um patrimônio líquido igual ou superior a um milhão de dólares. Para tanto, formularam “uma equação da riqueza” que consiste em multiplicar a sua idade pela sua renda familiar anual bruta decorrente de todas as fontes, com exceção de heranças. O resultado obtido dívida por dez. Para eles, isso é o patrimônio líquido. Há no livro uma implicância sutil contra os herdeiros. O que conta é o homem feito por si mesmo (Self-made man). Esses milionários de uma geração constituem apenas três e meio milhões de famílias. Desse total de 3,5 milhões, 95% ou cerca de 3,3 milhões de famílias têm um patrimônio entre um e dez milhões de dólares. Deduz-se que apenas 200 mil famílias americanas têm patrimônio líquido acima de dez milhões de dólares. Esses podem fugir dos padrões analisados. Um detalhe interessante é que, apesar de não apresentar receita para alguém se tornar milionário, os autores concluíram que ser frugal é um bom caminho. E o que é ser frugal? É ter um estilo de vida simples, sem ostentações em casas, carros, joias e roupas. Nada de mansões ou apartamentos luxuosos, carrões importados, relógios de grife etc. Apesar de saber que revistas e jornais já apresentaram resenhas e trechos do livro, é bom mostrar o que Sérgio Vilas Boas chama de “perfil” do milionário americano:1) idade média: 57 anos;2) um em cada cinco estão aposentados; dois terços – dos que ainda trabalham – são donos do próprio negócio;3) seus negócios, de um modo geral, são considerados comuns ou tediosos;4) 50% de suas mulheres trabalha fora e a outra metade cuida do controle rigoroso do orçamento doméstico; 5) em média possuem um patrimônio líquido de 1,6 milhão de dólares e vivem com menos de 7% da riqueza que possuem; 6) moram em casas hipotecadas com valor médio de 320 mil dólares, compradas em financiamento de longo prazo;7) 80% nunca receberam qualquer tipo de herança; 8) têm poupança acumulada para viver até dez anos sem trabalhar; 9) por serem parcimoniosos e frugais possuem uma renda 6,5 superior a de seus vizinhos (daí a razão do título do livro); 10) 20% não concluíram uma faculdade;11) investem alto na educação dos filhos, de modo a torná-los independentes; 12) aplicam 20% de sua renda bruta anual e geralmente decidem por si mesmos onde e quando investir. Depois dessa conversa toda sobre milionários é bom refletir no que diz Mark Twain. “A convicção dos ricos de que os pobres são felizes não é menos tola do que a convicção dos pobres de que os ricos são felizes”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/03/1999. - [A ESTÉTICA DA POBREZA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-estetica-da-pobreza/): Com todo respeito aos partidos de esquerda do Brasil, mas, um rapaz rico e inteligente, Walter Salles, pode ter denunciado igualmente, com tanta veemência, a crua pobreza e a violência brasileiras a milhares de pessoas no exterior. Ele fez tal qual ou melhor que sindicalistas, vereadores, deputados e senadores. A intenção de Walter Salles talvez não fosse essa. Utilizaria a “estética da pobreza” para transformá-la em um filme realista - ou um drama, como se diz nos Estados Unidos - vencedor e candidato a mais prêmios, inclusive ao Oscar 99, em que uma heroína (Fernanda Montenegro) sem caráter (uma macunaíma de saias?) vai, pouco a pouco, procurando uma identidade perdida nos desvãos da vida. Certamente, o desempenho impecável de Vinícius de Oliveira (Josué) faz crescer a atuação de Dora-Fernanda. Não creio que governantes fiquem alegres com o sucesso de filmes como “Central do Brasil”. O filme é tudo o que se nega nas propagandas oficiais. É claro que se pode dizer que todo filme é uma alegoria. “Central do Brasil” pode ser visto como um libelo e uma prova visível e risível da decadência do Rio de Janeiro com seus superlotados trens de terceira categoria e da violência urbana (os grupos para-militares que executam pessoas a troco de nada), do desemprego e subemprego, das aposentadorias irrisórias que precisam de complementação (Dora é uma professora aposentada que ganha uns trocados escrevendo cartas para terceiros), do analfabetismo (“a senhora escreve para mim?”), das famílias desgarradas país afora pela fome, do trânsito louco (o acidente que mata a mãe de Josué) e do interior do nordeste com sua pobreza resignada, alimentada pela ignorância, crendices ou uma religiosidade ultrapassada e canhestra. “Central do Brasil”, antes de ser um filme candidato a dois Oscars, é também uma sequência de diálogos fortes e contundentes, uma “aquarela do Brasil” que se arvora em ser a 8ª economia do mundo apresentando indicadores de qualidade de vida típicos de um país africano com uma apartação social cruel que muitos desejam ver debaixo do tapete. O tapete é curto e nos coloca, com a velocidade de uma ágil câmera bem posicionada, frente a frente com o que gostaríamos de fazer de conta que não existe. Existe. Está em toda as partes deste imenso Brasil, tão rico e, paradoxalmente, tão miserável. Não precisa procurar. Basta sair às ruas de qualquer cidade. A música de Jacques Morelenbaun é uma espécie de açoite aos nossos ouvidos moucos. Os vilarejos, os grandes vales e descampados da paisagem nordestina são uma constatação da inexistência de qualquer tipo de política fundiária que priorize o homem e o transforme em cidadão. Não sei se “Central do Brasil” ou Fernanda Montenegro ganharão um ou dois Oscars. Afinal, “a vida é bela”, há “crianças no paraíso”, todos gostam do “o avô” e “tango” nunca saiu da moda. Como diria Shakespeare, apaixonado ou não por “Elisabeth”, “há muito mais coisas entre o céu e a terra...” Torcer ou não, nada influirá nos “lobbies” e na cabeça dos 5.500 votantes da Academia de Hollywood que podem ter outros padrões culturais e estéticos como referência. O que todos os que dirigiram, produziram e atuaram em “Central do Brasil” deveriam ganhar, independente da estatueta famosa que é o maior aval para o sucesso financeiro de um filme, diretores e atores, seriam troféus nordestinos feitos à base de mandacaru que serviriam, pelo menos, para espicaçar as consciências dos que tudo prometem e pouco fazem. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/03/1999. - [PERDI O EMPREGO. O QUE FAZER?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/perdi-o-emprego-o-que-fazer/): Todos sabem que estamos vivendo uma época difícil, com elevado índice de desemprego. O que ocorre, então? As pessoas desempregadas, especialmente as que participaram de programas de demissão voluntária, receberam indenizações e, como não tinham muitas alternativas, resolveram partir para pequenos negócios próprios, sem registro de empresa. Some-se a isso as que foram demitidas das empresas privadas. Expandiu-se o que se chama de economia informal. Com as mudanças da legislação previdenciária, muitos funcionários públicos e de estatais de bom nível, já com tempo de serviço para a aposentadoria, resolveram também deixar seus empregos e ficar recebendo o que têm direito. Grande parte dessas pessoas, depois de um certo tempo, procura voltar ao mercado de trabalho, quer em novos empregos ou montando pequenos negócios. Além das pessoas desempregadas e aposentadas, existem – e são milhões - as que terminaram ou interromperam seus estudos e deixam de ser absorvidas pelo mercado de trabalho, isto é, não se empregam. Essas pessoas também estão sequiosas para começar suas vidas profissionais. Em outras palavras, todos estão tendo um nível elevado de concorrência, isto sem falar na retração em face da crise econômica. Essas considerações são ditas não para desestimular, mas para retratar a situação conjuntural. Aumentaram, então: mototáxis, taxis, microvans para transporte escolar, alternativo e turismo, vendas de comidas a quilo, frango assado, pequenas confecções, bares e restaurantes, consertos em roupas, carrinhos de lanches, consultorias, prestadores de serviço etc. É preciso que essas pessoas (maduras ou jovens) que desejam montar ou montam um negócio e, por suas histórias de vida não estão acostumadas a esse trabalho e a obter resultados a médio ou longo prazos, tomem cuidado quanto à pressa. Essa pressa, às vezes, é prejudicial. É elementar que todo negócio para dar certo, além de outras coisas, tem que: ØSer precedido de uma pesquisa de mercado para verificar o seu potencial ØFazer benchmarking (sondagem) nas empresas ou pessoas que já atuam no mesmo segmento; ØDeterminar o quanto se quer obter de resultado e, a partir daí, saber as potencialidades do mercado, o nível de investimento necessário e o tempo em que esse investimento deverá retornar; ØSaber quais serão os custos fixos (as despesas que existirão independente da receita) e os variáveis (os decorrentes da receita); ØTer paciência, determinação e coragem para manter o negócio; ØCriar um diferencial para bem atender a clientela. Em outras palavras, fazer o que disse Ezra Pound: “Do it new”, isto é, faça novo, diferente. Ofereça o que os outros não estão fazendo. É preciso ainda muita disposição para conversar, analisar, fazer cálculos e o que for necessário. É bom nunca esquecer que “negócio é como andar em uma bicicleta, ou você continua pedalando ou cai”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/03/1999. - [O ATO DE LER](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-ato-de-ler/): Há dias, participava eu de uma reunião com amigos inteligentes e instigantes, quando surgiu uma suave e agradável discussão sobre livros. Em meio a vários autores e livros citados eclodiu o nome de Carlos Heitor Cony e, consequentemente, o de um livro que, por sinal, ensejou o mote para o artigo da semana passada. A discussão girava em torno do nome do livro. Enquanto eu sustentava que o livro se chamava “Quase Memória – Quase Romance”, um outro amigo afirmava, de forma veemente, que o título era apenas “Quase Memória” e alegava, em reforço de sua opinião, já ter comprado – e dado de presente - mais de 20 exemplares do citado livro. Como o livro não estava à mão, as discussões foram ficando acaloradas e ligações telefônicas completadas para livrarias locais. Em todas, a resposta foi contra mim. Pedia-se que lesse a capa e eles, os atendentes das livrarias, diziam: “Carlos Heitor Cony, Quase Memória”. Até a minha secretaria do lar, consultada ao telefone, deu a mesma resposta. Apostamos, de forma simbólica, eu e o amigo, cinco reais cada. Pedimos a outro amigo para servir de juiz. Diplomaticamente, o amigo nos devolveu o dinheiro dizendo que não se tinha chegado a uma conclusão. Na verdade, todos pensavam que eu estava errado. O pior era que eu tinha a convicção de que estava certo. Liguei novamente para minha casa e pedi que deixassem o livro na portaria. Acompanhado de um amigo, por sinal, um magistrado, passei e recolhi o livro. Estava lá na capa: “Carlos Heitor Cony, Quase Memória, Quase Romance”. O problema estava desvendado e o meu amigo conselheiro, prudente e conciliador, dizia que o fato das duas palavras “Quase – Romance” terem sido escritas em um tipo menor dava a idéia de um subtítulo. Lêdo engano. Fomos para a ficha de catalogação e ficou claro, mais uma vez, que o nome do livro era o que eu dizia. Não são a tipia, a escolha e o tamanho da letra, que determinam o título de qualquer obra literária. A intenção de Cony era exatamente a de ter um título duplo, usando tamanhos diferentes de letras em uma mesma capa. Coisa tão simples, captada pela bibliotecária que fez a ficha de catalogação. Do ponto de vista da semântica, Cony obedeceu à regra de empregar a letra inicial maiúscula, como bem diz o professor de Português, José Myrson Melo Lima: “Emprega-se a letra inicial maiúscula, entre outros casos, nos nomes de títulos de livros”. As bibliotecárias, por ofício, são obrigadas a saber ler, para registrar, pelo método de catalogação escolhido, as características do livro ou a sua ficha técnica. “Quase-romance” não é gênero literário. Foi um recurso usado pelo autor para misturar, sem pedir desculpas, a ficção e a não ficção. O gênero literário é romance brasileiro. Tudo isso por causa de uma discussão pueril, à moda dos saraus literários de antigamente. Ler, para mim é um ato muito importante. Aprendi, desde cedo, a ter esse hábito que, com o passar do tempo, tornou-se quase um vício diário sempre crescente E quem ler por prazer e vício é cioso do que faz. Ler não é só perpassar os olhos sobre um texto, é fixar o seu conteúdo, é entender as linhas e as entrelinhas. Segundo a enciclopédia Delta Larrouse ler, entre outras coisas, é “Tomar ou dar conhecimento do conteúdo de um escrito; penetrar algo não manifesto”.Dessa forma, ler é um ato solitário, quase sempre, em que se precisa tomar conhecimento. O conhecimento é mais que um simples passar de olhos por uma página. É observar, captar e registrar. Como diria Bertrand Russel: “O conhecimento pode ser comunicado e ensinado, mas não a sabedoria”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/1999. - [AS MULHERES DE TODOS NÓS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-mulheres-de-todos-nos/): Amanhã, dia 08, se comemora mais um Dia Internacional da Mulher. Talvez, por tal razão tenham me ocorrido às reflexões abaixo. Não as fiz, com o propósito de agradar ou desagradar, mas com a intenção de procurar entender o que aconteceu conosco, homens e mulheres neste fim de século. Não necessariamente, o fim dos tempos. Quiçá, um novo. Nós, os homens nascidos pelo meio deste século, não fomos, culturalmente, acostumados a atender a alma feminina. Víamos, em nossas casas, quase sempre, um pai dominador com direito a tudo. Nossa mãe era, via de regra, submissa. Estudávamos em colégios só para homens, jogávamos futebol, brigávamos de tapa uns com os outros, começávamos a namorar meio amedrontados e nos iniciávamos sexualmente com prostitutas. O nosso contato mais aberto com as mulheres, como parceiras, começava na universidade ou no trabalho. Jovens, mulheres e homens, não sabiam como lidar um com o outro. Era o princípio de um aprendizado doloroso e, ao mesmo tempo, estimulante. Surgiam os Beatles, acontecia o ano de 1968, eclodia o cenário de Woodstock e o feminismo mostrava a sua cara mais sectária, para se defender de um mundo absolutamente masculino, machista. Os homens não sabiam como lidar com essa avalanche e reagiam mal. Procuravam uma afirmação e não tinham referências para descobrir a saída. A perpetuação do machismo estava sedimentada no seu inconsciente e não havia, ainda, a consciência de que homens e mulheres são seres complementares e não adversários. Não existia literatura, não havia história, não havia boa vontade e, principalmente não havia preparo, de lado a lado. Estávamos atônitos e não tínhamos referências. O resultado foi triste. Os casamentos iam fazendo água. Os que permaneceram, de um modo geral, ainda têm o ranço da conveniência burguesa e se apequenaram na acomodação e na farsa. Os que acabaram, produziram suas mazelas, físicas e mentais, desencorajando, muitas vezes, novas relações pelo medo do fracasso e a inabilidade de saber lidar com circunstâncias novas, como conviver com os filhos do outro ou da outra. Antes que o “bug” do milênio ameaçasse os nossos computadores e, consequentemente as nossas vidas, fomos atacados por esse vírus do descompasso entre homens e mulheres, irremediavelmente destinados a desvendar os caminhos de uma nova relação, a custa de tantos desencontros e muita dor. Será que valeu a pena? Claro. É preciso chorar para aprender a alegria de enxugar as lágrimas. É necessário saber como levantar quando se tropeça. É lógico rediscutir as relações homens e mulheres e transformar o casamento não em um contrato mas em um acordo de vontades, sentimentos e aspirações. Tudo isso é óbvio, mas a vida nos mostra que nem sempre vemos o óbvio e nos perdemos complicando o simples, como se fossemos cerimonialistas querendo mostrar serviço. É preciso acabar com o duplo sentido do título. As mulheres não são os nós de nossas vidas. Pelo contrário, é preciso aprender juntos a desatar nós e celebrar alianças. E aí sim, criar um novo nós, mulher e homem, seres distintos e destinados a formar uma nova sociedade a procura das respostas que não conseguimos descobrir, ainda. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/03/1999. - [EU, FILHO. EU, PAI. EU, FILHO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/eu-filho-eu-pai-eu-filho/): Todos nós, com o tempo, vamos ficando revisionistas. O que era, passa a não ser mais daquela forma, as tintas tomam tons mais amenos e a acidez das críticas perdem as peremptoriedades (“Todo esse discurso não me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente, peremptório...“, M.Assis, Dom Casmurro, pág 75). Estou em fase muito brasileira de leitura. Pode ser um espasmo contra essa globalização, quem sabe. O fato é que ando relendo e lendo autores brasileiros. Uns dias desses me peguei relendo Machado de Assis (Dom Casmurro). Que beleza. Outro fim de semana e lá fui eu descobrir o Zuenir Ventura (vocês que ainda não leram “Mal Secreto –Inveja?”, cuidem de fazê-lo) de quem fiquei admirador e amigo; depois veio o Luiz Fernando Veríssimo, com quem penso ter intimidade, pelo longo trajeto nas deliciosas páginas de seu pai, Érico Veríssimo. A propósito de Luiz Fernando Veríssimo, faço de conta que não li “A Gula”. Esse livrinho magro (130 páginas), com muitos ingredientes, uma pitada de erudição enológica, personagens fracos e envenenamentos de segunda classe que fariam a Agatha Christie torcer o nariz. Resultado: dá fastio. Gula, nunca. Mas o que vale, no caso de hoje, nestas leituras brasileiras, começa com o meu título: “Eu, filho. Eu, pai. Eu, filho”. Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista, a quem todo leitor de jornal conhece ou deveria conhecer, resolve revisitar as relações com o seu pai, jornalista que quase deu certo, já morto. E o faz com olhos de um homem maduro, já setentão, o que lhe permite sempre dourar a pílula e transformar um pai comum, sem grandes feitos e muitos defeitos, em um tipo que vai nos apaixonando com seus quase acertos, seus projetos inacabados, a preocupação com a educação dos filhos, o microcosmo de seu mundo suburbano e uma mitomania que se transforma em folclore. Cony usa em seu livro “Quase memória, quase-romance” um recurso interessante: um pacote misterioso que recebe de seu pai, por um portador, dez anos após sua morte. E esse pacote vai sendo uma espécie de fio condutor (seria o barbante que o envolvia?) que, ao final da história, já não tem tanto sentido conhecer o seu conteúdo. Tudo está exposto, com ou sem fraturas. Além do quase-romance, há muitas leituras nas entrelinhas de “Quase Memória”. As três fases da relação pai e filho. Pai e filho na infância deste; as relações filho e pai na maturidade daquele; e a (in)dependência do pai ao filho às vésperas da morte. Desprovido de pompas e pleno de essência, “Quase Memória” é um “revival” a que todos estamos sujeitos a fazer, absorvendo fatos e absolvendo pessoas. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/02/1999. - [CLINTON E A INFIDELIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/clinton-e-a-infidelidade/): Steven Pinker, cientista, 44 anos, casado, é diretor do centro de Neurociência Cognitiva do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o famoso MIT. Pois bem, o Dr. Pinker assegura (Veja, 13.01.99) que o “comportamento é resultado de um conflito entre os nossos módulos mentais”. Ainda segundo ele, os homens são mais infiéis não porque desejam, mas por serem volúveis. Diz ele: “Quando uma mulher é infiel, normalmente é porque seu parceiro ocasional é sexualmente mais desejável que o habitual. No caso masculino, a infidelidade ocorre apenas porque uma parceira é diferente da outra. Os homens buscam muitas parceiras pelo prazer de tê-las”. Fica claro, na teoria do Dr. Pinker que a volubilidade masculina independe de sua vontade? Segundo algumas teorias científicas ainda não comprovadas, seria uma questão de falha no DNA masculino, um problema em seu código genético. Seriam esses cientistas apenas homens procurando uma desculpa para seus comportamentos? Tomemos, por exemplo, a figura de Bill Clinton. Monica Lewinsky não foi a sua primeira encrenca, foi a mais recente e que lhe causou mais confusão. Antes houve Gennifer Flowers e Paula Jones. A posição de Clinton e os casos revelados de Flowers e Jones deveriam ter acautelado a sua libido. Apesar disso, correndo todos os riscos, Clinton se meteu com Monica. Isso comprovaria a teorias de Pinker ou da falha no DNA masculino? Adam Phillips, um médico psicanalista inglês, escreveu recentemente um livro chamado “Monogamia”. Nesse livro, Phillips, usa a estratégia dos aforismos, talvez para tornar a leitura mais amena e passar suas mensagens de forma pontual. O primeiro deles: “Nem todo mundo acredita na monogamia, mas todos vivem como se acreditassem. Todos têm consciência de estar mentindo ou querendo dizer a verdade quando estão em jogo a lealdade ou a fidelidade. Todos sentem ciúmes ou se sentem culpados, e sofrem a angústia de suas preferências... Noutras palavras, acreditar na monogamia não é diferente de acreditar em Deus”. Seria então a fidelidade (ou a infidelidade) uma questão de fé? E aí a palavra fé vem mesmo a calhar. O que é mesmo ser fiel? Ou o contrário disso, o que é ser infiel? Seria apenas uma questão de natureza sexual? Ou, considerando a capacidade do ser humano de pensar e sonhar, envolveria questões subjetivas em que os corpos não são necessariamente envolvidos? O “flirt” é infidelidade? Amizades secretas sem a consumação do sexo são infidelidades? “Desejar a mulher- ou o homem – do (a) próximo(a)” é infidelidade? As pessoas que não traem com medo de perder o “status” são fiéis? Por outro lado, ser fiel envolveria a perda da liberdade? Todos querem ter liberdade. Poucos admitem que o(a) parceiro(a) também anseia por liberdade? A maioria das pessoas acredita que seus relacionamentos duradouros não são satisfatórios e isso alimentaria o desejo de descobrir algo novo, que quebre a monotonia de suas vidas. Esse desejo, essa busca de liberdade, seria um embrião da infidelidade ou a mera constatação de sua individualidade independente do outro? Estas questões não tem respostas prontas. As respostas afloram no cotidiano das pessoas e o mais óbvio – e pouco considerado – é que estamos constantemente mudando, com o(a) outro(a) ou apesar do(a) outro(a). João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/02/1999. - [A CRISE BRASILEIRA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-crise-brasileira/): Desde o fim do ano passado que tenho me recusado, sistematicamente, a falar sobre a crise brasileira. Nesta semana, algumas pessoas têm me pedido, de forma insistente, que eu faça algum comentário sobre a crise. Alegam que, quanto mais leem ou ouvem, mais atônitos ficam. O grande problema em qualquer análise que se venha a fazer sobre a crise brasileira é saber por onde começar e como terminar. Tema vasto, espaço curto, optei por ficar com três personagens do livro: “ A Crise do Capitalismo”, Editora Campus, 1999, de George Soros: Armínio Fraga Neto, o terceiro presidente do Banco Central nestes dois meses de 1999, o próprio George Soros e o Brasil. Personagem um: Armínio é um brilhante economista de 41 anos, já foi diretor do Banco Central, fez seu doutorado em economia nos Estados Unidos, dava aula, como professor adjunto, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque e era, até o mês passado, diretor da Soros Fund Management. Em novembro passado, escreveu o prefácio brasileiro do já citado livro de George Soros. Personagem dois: George Soros tem 69 anos. Nasceu sob o comunismo da Hungria, emigrou para a Inglaterra e se formou em economia na London School of Economics. Aos 26 anos, já formado, mudou-se para os Estados Unidos, passou a trabalhar na área de mercado de capitais, ficou multimilionário criando e gerenciando fundos de investimentos internacionais. Tornou-se cidadão americano, afinal o Tio Sam adora quem faz sucesso e abomina fracassados. Personagem três: O Brasil somos todos nós. Pensei então: não seria melhor deixar que os próprios Armínio e o Soros comentassem a crise brasileira? Vamos ler o que eles escreveram. Se vocês quiserem conferir é só comprar o Livro. Comecemos com ARMÍNIO FRAGA: 01.O Brasil tem vivido ao longo dos últimos 20 anos um processo de transição política... em parte detonada pelo esgotamento do modelo econômico anterior caracterizado por uma economia fechada na qual o Estado participava diretamente do processo produtivo... Por um lado o Brasil não tinha o mecanismo básico de orçamento para alocar os escassos recursos disponíveis de acordo com as novas prioridades. Por outro lado, também não tinha instituições monetárias para evitar que o resultado desequilíbrio fiscal se transformasse em combustível para a explosão inflacionária. 02.A estabilização foi possível graças à combinação de um engenhoso processo de desindexação aliado a uma política monetária restritiva de moldes ortodoxos, aplicada através de uma âncora essencialmente cambial. 03.O processo de estabilização desembocou em uma situação superior à inicial, mas ainda é cedo para declarar vitória... O Brasil voltou a ser um tomador líquido de recursos na economia internacional. 04.O déficit do setor público é hoje o maior entrave à retomada do crescimento pois reduz a poupança disponível para o investimento e pressiona para cima as taxas de juro. 05.... países que se financiam tomando recursos de curto prazo, especialmente para cobrir déficit público, são mais vulneráveis aos ciclotímicos movimentos do capital internacional. Agora, vamos ao que escreve GEORGE SOROS: 01.A fuga de capitais atingiu o Brasil e, se o Brasil cair, a Argentina estará em perigo. 02.Também precisamos estabelecer alguma modalidade de supervisão internacional sobre as autoridades supervisoras nacionais. 03.O Brasil ainda está padecendo da fuga de capitais externos e internos e não será capaz de conviver por muito tempo com taxas de juros estratosféricas. 04.O caso do Brasil é mais complexo... Evidentemente, o Brasil precisaria empreender medidas agressivas para reduzir o déficit fiscal. Mesmo assim, há um risco efetivo de fracasso do programa. 05.O papel da opinião pública e da sociedade civil reveste-se de primordial Importância, pois, numa democracia, os políticos são sensíveis às demandas populares. Nas verdadeiras democracias, os estadistas talvez assumam a liderança na mobilização da opinião pública. Para concluir, deixo apenas uma pergunta no ar: temos estadistas? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/02/1999. - [MULHERES E HOMENS, 50 ANOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/mulheres-e-homens-50-anos/): Não só as mulheres, mas também os homens foram obrigados a tomar conhecimento da existência de uma escritora chamada Simone de Beauvoir. Em 1949, um ano importante para as mulheres, nascia o livro “Segundo Sexo”, obra que marcava uma mudança de comportamento entre pessoas que tinham, até aquela data, uma vida de submissão. O jornalista Marcelo Rezende, diretamente de Paris, cobriu para o suplemento (GZM) “Leitura Fim de Semana”, de 31 de janeiro passado, um congresso de feministas que resolveram rediscutir a obra de Simone de Beauvoir. Mulheres de todos os lugares, especialmente francesas, tentaram esclarecer um pouco mais a vida e a obra dessa charmosa e bonita De Beauvoir que, já aos 17 anos, se dedicava à literatura e à matemática. Daí para o socialismo foi um pulo. Em 1929, aos 21 anos de idade, conhece Jean-Paul Sartre que foi seu companheiro até 1986, quando morreu. Dizem que o livro “O segundo sexo” surgiu de uma pergunta de Sartre para Simone: “O que é uma mulher?” Sua resposta foi o “Le deuxième sexe”. A frase mais batida do livro é: “Não nascemos mulher; nos tornamos”. Segundo M. Rezende, em sua análise: “Uma mulher não é ‘naturalmente’ nada. Ela pode tornar-se o que desejar. Não há lei, regras biológicas, ‘estado natural das coisas’ determinando o ‘estar no mundo’ feminino. Não existem diferenças qualitativas. Não existe um jogo de superioridade e inferioridade”. É a partir dessa constatação que o homem, acostumado há milênios a ser o senhor, o provedor, o predador e o protetor, começa a ficar incomodado e não consegue reagir bem. Problema cultural? Problema biológico? Só para se ter uma ideia o escritor francês Albert Camus disse ser a obra de Simone “uma ofensa ao macho francês”. Como se vê, partiu da própria pátria civilizada de Simone o primeiro grito de revolta masculina contra a liberação das mulheres. Por quê isso? Certamente porque as mulheres não pediram licença e foram construindo as suas vidas novas, crescendo em conflitos com os homens, mas transformando esta segunda metade do Século XX num ambiente em que foram tornadas públicas as revoltas das mulheres contra a dominação masculina. Talvez cinquenta anos, dentro do contexto geral da história, seja muito pouco tempo para que surja uma relação amadurecida entre homens que traziam ao nascer a “certeza de mandar” e mulheres que pensavam em compartilhar, mas não sabiam como fazê-lo ainda. Era preciso chocar, impor e aí vieram os conflitos, as separações e desencontros. O crescimento das mulheres nos diversos campos sociais pode ser o condão para reatar os elos ainda tão frouxos entre mulheres que exigem direitos e parceira e homens acostumados a impor deveres e decisões. As gerações que viveram sua adolescência na primeira segunda metade deste fim de século receberam uma carga muito forte de transformações, não souberam costurar, via de regra, uma relação nova, amadurecida, provavelmente por causa da luta pela sobrevivência e da falta de conhecimentos psicológicos, sociológicos e culturais para tratar do que surgia de forma tão abrupta. O que nos consola é que as novas gerações, nascidas já na segunda metade deste finzinho de século, possam ter absorvido essa revolução no relacionamento mulher e homem. Por outro lado, contraditoriamente, há uma revisão do feminismo, feita “post-mortem” pela própria Simone. Descobertas há três anos, foram editadas cartas de Simone em que ela revela sua paixão pelo escritor americano Nelson Agren. Eis um trecho: “Eu lavarei o chão para você; eu cozinharei para você. Eu pertenço a você, e assim é o meu amor”. Essas revelações não diminuem as conquistas do feminismo, pelo contrário mostram que nós, homens e mulheres precisamos sempre reaprender a viver, admitindo nossos desejos, fraquezas, esquecendo velhas regras e preconceitos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/02/1999. - [TEMPO DE REVISÃO GERAL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/tempo-de-revisao-geral/): Enterros, missas de sétimo dia, visitas a hospitais, notícias de doenças de colegas e amigos e aí começa, meio forçada, a consciência da mortalidade. Essa consciência se manifesta de várias formas: 01. Talvez, por tais razões, amigos e amigas da minha geração resolveram, de uns tempos para cá, fazer revisões gerais. As revisões gerais são frutos desses enterros, missas, visitas a hospitais, das doenças de colegas, parentes e amigos. Elas decorrem também do que se vê nos espelhos, das revelações silenciosas das balanças caseiras, do cansaço ao fazer um simples exercício, do surgimento de doenças, da queda do desempenho sexual, da acomodação e do descuido com a aparência. 02. As clínicas de cirurgias plásticas passam a ser fortes aliadas de pessoas que desejam adiar a velhice ou retocar o que imaginam possam enfear seus corpos. É no instante em que, paciente e cirurgião plástico se encontram pela primeira vez, desponta a capacidade de convencimento e persuasão do médico, agindo, preliminarmente, como um consultor estético e psicólogo, tirando fotos, mostrando as vantagens e falando das técnicas que executa. 03. Pululam por todas as cidades clubes de Mountain Bike, hidroginástica e as academias de ginástica, onde, além dos equipamentos indispensáveis aos cuidados do corpo, pontificam grandes espelhos para mostrar a face narcísica que aflora em seus freqüentadores. 04. Os corpos passam a fraquejar e as visitas ao clínico geral ou a especialistas mostram a quantas andamos. De repente, aprendemos o que é ácido úrico, avc, bursite, calorias, carboidratos, cineangiocoronariografia, colesterol, creatinina, densitometria óssea, diabetes, distonia, estresse, glicose, hiv, insônia, mamografia, presbiopia, próstata, psa, ressonância magnética, rinite, triglicérides, uréia e tanta coisa que pensávamos não existir ou não ter nada a ver conosco. E o pior é que tem. E os laboratórios de análises e as clínicas de imagem passam a fazer parte do nosso imaginário, 05. De repente, vem a célebre desculpa: “eu não sei o que está acontecendo comigo, foi a primeira vez”.Na verdade, não foi. E não só acontece com ele. Acontece com ela também. Só que o homem pode mentir, mas não pode fingir. Nessa hora nem é preciso fazer autocrítica e descobrir de quem é a “culpa”. Nossa? da outra pessoa? Na verdade, talvez seja a hora da revisão adiada, dosando hormônios, fazendo prevenções ou ajustando a cabeça às novas regras da idade e do corpo, procurando fidelizar relacionamentos na base da compreensão e do amor. 06. Por outro lado: na mulher, as roupas soltas e largas procuram disfarçar as formas. No homem, o cinturão passa a ter uma nova marca, a camisa é comprada um número maior e o desleixo pode passar a ser uma companhia desagradável. Nessa hora é preciso criar coragem e ir à luta, descobrindo um novo sentido para o corpo e a vida, optando por dietas mais saudáveis e estabelecer a prática de exercícios ou caminhadas como rotina diária. Esses seis itens levantados – entre tantos outros - com a profundidade de um dedal, objetivam apenas despertar a sua atenção para as mudanças naturais do nosso corpo e deixar claro que há sempre uma resposta positiva para as dúvidas, desde que procurada a tempo. Não se deve, entretanto, esquecer o que disse Mark Twain: “A única maneira de conservar a saúde é comer o que não queremos, beber o que não nos agrada e fazer o que preferíamos não fazer”. Será? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/01/1999. - [SOMOS DIFERENTES](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/somos-diferentes/): É claro que somos diferentes. Você é você. Eu sou eu, como diria Fritz Pearls. O que eu gosto só é referência para mim, pode servir – ou não – para você. Essas diferenças nos mantém vivos, alertas, intrigados, intrincados, mexendo com a nossa capacidade de tentar – o que é difícil – conhecer o outro, esse ser misterioso, às vezes tão próximo e ao mesmo tempo tão desconhecido. Graças a Deus somos diferentes. Isso é instigante e enseja que se façam conjecturas, devaneios, sonhos, promessas e que tais, quando, muitas vezes, as respostas são tão óbvias. Lágrimas podem ser apenas lágrimas. Ao secá-las, o espírito se restabelece, o corpo recebe adrenalina e endorfina, para torná-lo capaz de fazer a pulsação disparar com novas emoções que darão vida à nossa vida. Imaginemos que todos fossem iguais. Tudo seria previsível, sem graça, chato e modorrento. É bom que cada dia e cada pessoa nos propiciem descobertas, novas formas de partilhamento e desafios. É ótimo que você me surpreenda e, certamente, será agradável que eu não seja o retrato da mesmice que entedia. O novo encanta e estimula. A busca do novo e do desafio, próprios do ser humano, quando levados para os relacionamentos pessoais, torna-os mais emulantes e ricos. Cada informação nova parece uva decantando gota a gota formando aquele mosto que se transformará em vinho ou vinagre. A qualidade e o “bouquet” do vinho ou o sabor acre do vinagre dependerão de cada um e de suas habilidades no relacionamento com o outro. É natural que nessa busca do novo no outro – o conhecimento, enfim – não se perca a noção da realidade que, cedo ou tarde, nos cobra o seu dízimo. Isso não deve nos amedrontar ou tolher nossos passos em direção ao outro, desde que saibamos ou imaginemos, pelo menos, saber o que queremos. A liberdade total nunca nos é concedida. Ela é fruto da insubmissão, da inquietação, da conquista e da consciência de que o que se vive e como se vive não nos agrada, daí a porta aberta para um mundo desconhecido. Mas, é preciso deixar claro o preço que se paga ao tentar o novo, assumir as diferenças e, talvez, não chegar ao lugar que se sonhe. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/01/1999. - [AS COISAS BOAS DA VIDA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/as-coisas-boas-da-vida/): Em um desses papos informais que todos temos ou deveríamos ter, verifiquei que muita gente não curte mais as coisas simples da vida. De um tempo para cá as pessoas reclamam de tudo: do governo, do povo, da família e delas próprias. Reclamam, reclamam e não cuidam de simplificar suas vidas, cortando o que não convém. É claro que não se pode cortar tudo, mas vale, pelo menos, evitar, desconversar, sair de fininho etc. Por curiosidade pessoal – e em decorrência de tal conversa - tentei enumerar, por exemplo, algumas coisas e pessoas que me dão prazer e considero boas ao meu viver. Vou colocar em ordem alfabética para deixar claro que não é uma classificação, mas uma listagem: acordar cedo, amar, amigos, andar, anonimato, aprender, ar condicionado, banho frio, café com minha mãe aos domingos, cinema no cinema, cheirar a Amanda, comer e beber com amigos, comer pouco, construir, conversa inteligente, criar, descobrir lugares novos, dinheiro no bolso, dizer o que penso, enfrentar desafios, escrever, esquecer mágoas, estar com saúde, estar vivo, fazer as pazes, ficar em casa, lençol velho, ler, ler livro grifando, meu quarto, minhas filhas, música lenta, orar pouco e só, pagar em dia, pesquisar na Internet, recortar jornal e revista, roupa usada, ser independente, ser útil aos outros, sonhar, soprar os pés da Luana, tesão, trabalhar, viajar, além de outros. Cada pessoa sabe quais são as melhores coisas da vida para ela. Depende do sexo, da idade, do estado civil, da situação financeira, do nível intelectual, da bagagem cultural, do estado de espírito etc. Procure você fazer uma lista das coisas e pessoas que lhe agradam. Eu, enquanto puder, vou tentar, neste ano, não falar em crises, catástrofes, problemas, política, economia etc. Já tem muita gente cuidando disso. Das crises e catástrofes, as televisões fazem os seus filões; os problemas estão ajudando psiquiatras, psicanalistas e psicólogos; a política é o carro forte dos jornais que batem nos governos federal, estaduais e municipais e adoram uma publicidade institucional; economia é coisa para todo mundo, até para economista. O ideal, repito, nestes dias de hoje, é tentar falar das coisas boas da vida, não à guisa de fuga da realidade, mas como forma de ajudar a transformá-la em algo mais leve, menos caótica e suportável. O que são as coisas boas da vida? São as que fazemos por e com prazer, sem obrigações, com riso e alegria no coração. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/01/1999. - [OS NOSSOS MAPAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-nossos-mapas/): O ano terminou, morreu. Outro ano nasceu e também morrerá. Os anos tem ciclos definidos e só podem fazer bem ou mal durante certo tempo. Por exemplo, este ano que terminou, ou morreu, só serve agora para a história e as estórias que dele se contarão. Quando muito, ficará na memória das pessoas, pelo que representou em suas vidas. As pessoas são diferentes. No início de cada ano e, dizem, nos aniversários, recebem uma carga de energia transformadora, quando parece eclodir uma espécie de dilúvio interior que as compele a colocar em suas arcas o que vale a pena escapar. Esse dilúvio, esse cataclisma, é um processo a que todos somos obrigados a passar. Seria, talvez, o que se diz em psicologia: um rito de passagem. É como se recebêssemos um aviso do eu profundo, dizendo: explore seus sentimentos e reformule sua maneira de encarar as pessoas e a vida e aí você encontrará suas próprias respostas. Nós podemos ter todas as respostas. Muitas vezes não queremos ou sabemos fazer as perguntas certas. No ano iniciante (e no dia do aniversário, vá lá) o espelho não deve só refletir a nossa face, mas, se mudarmos o paradigma e encararmos a possibilidade de, ao mesmo tempo, sermos responsáveis e livres, poderemos ter consciência de que a nossa vida tem sentido. Os nossos paradigmas são, em suma, a maneira como vemos e encaramos o mundo e as pessoas. Imaginemos, por exemplo, que desejamos conhecer Paris com um mapa que nos deram. Na impressão do mapa, aparentemente certo, tem o nome Paris, só que a cidade é outra, por um erro gráfico. Não vai adiantar procurar o Louvre, a Notre Dame e o Boulevard Saint Michel, pelo simples fato do mapa não ter nada disso, apesar do nome Paris lá em cima. Logo, é preciso descobrir se o mapa está certo e, se for o caso, trocar de mapa. Às vezes, o que parece, não é, apesar do escrito. Nas nossas cabeças, como diz Stephen Covey, escritor americano, nós temos muitos mapas. Os mapas podem ser de dois tipos: mapas de como as coisas são, ou a própria realidade (mapas reais) e mapas de como as coisas deveriam ser, segundo os nossos valores pessoais (mapas imaginados). Cada um faz sua vida a partir desses mapas. Raramente procuramos descobrir se o mapa está certo e, às vezes, usamos os errados sem perceber. Quem usa o mapa errado não chega a lugar nenhum ou, quando muito, ao lugar para onde não queria ir. Além de tudo isso, é preciso saber o que queremos quando estamos com o mapa certo nas mãos. Não é só a mera posse do mapa que nos fará encontrar os caminhos. É preciso saber ler e entender as estradas e as mudanças que ocorrem nos mapas reais. Muitas vezes, chegamos a determinado lugar que sonhávamos e exclamamos: era isso? Assim é a vida. Os mapas são cartas que precisam ser atualizadas em função da realidade, dos nossos desejos, do nosso crescimento e das próprias mudanças da vida e do mundo que somos obrigados a absorver. Resumo da história dos mapas: A maneira como vemos o mundo e as coisas são a fonte do nosso pensar e agir. Duas pessoas podem ver uma mesma coisa de uma forma diferente e ambas terem razão. Isto não é uma questão lógica, mas psicológica. É célebre o desenho em que uns veem uma moça jovem e outros, de olhar mais acurado, descobrem uma velha de nariz adunco. Questão de ponto-de-vista. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/01/1999. - [O TITANIC E O 1999](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-titanic-e-o-1999/): Foi bom para o Brasil o filme Titanic ter passado em 1998. Foi bom para o Brasil que o maior número de pessoas tivesse tomado conhecimento do afundamento daquele navio. A história do Titanic tem mais de 86 anos mas, para a maioria dos que viram o filme, aquilo estava acontecendo ali, naquele instante. Além do romance água com açúcar, com lágrimas e suspiros, ficou claro que faltavam botes salva-vidas; não se diminuiu a velocidade de 41km/hora; carecia de modéstia o seu construtor Morgan Islay e o comandante Smith foi displicente (inexistiam meros binóculos para os vigias em meio a tanto luxo). Junte tudo isso e se tem facilmente os porquês do naufrágio na madrugada de 14 de abril de 1912. Antes do encontro fatal com o iceberg, o navio Califórnia, que navegava próximo, avisou do perigo. Posteriormente, outro navio, o Balthic, voltou a avisar. Resumo das águas: não faltou aviso. O que faltou? o elementar: simples binóculos, mais cuidados para mudar a rota, diminuir a velocidade e considerar sempre o perigo. E daí? O que isso tem a ver com o iniciante ano de 1999? Todos estamos sabendo que vem iceberg por ai, a rota atual é de colisão, é preciso alertar sempre o comandante e os avisos semelhantes aos passados pelo California e o Balthic já foram dados. Cada um de nós é um passageiro de terceira, segunda ou primeira classe desse grande navio que é o Brasil. Há anos ele navega em mares revoltos. Não é um Titanic de primeira viagem e nem todos os passageiros são deslumbrados. Não faz mal que diminua um pouco a velocidade. É preciso cuidado com o que faz o presidente FHC ( o comandante Smith) e não acreditar muito no que dizem os jornalistas. Na época da única viagem do Titanic da Inglaterra aos Estados Unidos, os jornalistas diziam que nem Deus afundaria aquele transatlântico. Todos erraram. Aliás, jornalista erra muito, graças a Deus. Então jornalista metido a economista é que erra mesmo. Se falta dinheiro para comprar salva-vidas e botes para todos, que tal gastar uns míseros reais com simplórios binóculos? Ora, todos estamos avisados que vem iceberg por ai e isso é bom. Estaremos prevenidos. Todos ficaremos de binóculos e gritaremos para o comandante Smith, desculpem, o presidente FHC, sobre o perigo. É preciso parar a festa e a gastança e ouvir o som dos mares no meio da noite. O Titanic tinha 16 compartimentos estanques, o navio Brasil tem centenas, milhares, milhões. Nós somos esses compartimentos. Nós temos a capacidade de poder acionar os botões na hora certa e não deixar que esse colosso que é o Brasil naufrague por falta de avisos. Não fiquem tristes pela diminuição da velocidade, é preciso. Os icebergs têm uma rota só, o Brasil sabe – e como sabe - mudar de rota. Acreditem em mim, comprando meros binóculos poderemos ficar alertas, sempre. Eu já comprei o meu e tenho certeza de que, na superfície e no fundo, os icebergs não passam de água congelada e nós somos um país cheio de sol que derrete tudo. Gelo então é pinto. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/01/1999. - [PASSAGEIROS DO TEMPO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/passageiros-do-tempo/): Não há como fugir do assunto. Procuro pensar em outra coisa, mas sobreexiste uma recorrência: fim do século. Hoje é o último dia do século em que todos nós nascemos. Amanhã, com o mesmo sol, a mesma lua, o mesmo mar e a mesma terra estaremos vivendo um novo século e outro milênio. Nós somos gente deste século, carregando em nossos corpos e almas as venturas e desventuras de um mundo que não é mais o que recebemos ao nascer. Somos seres transformados, urbanos, carentes e plenos de dúvidas. Podemos até fingir o contrário, mas vivemos na era de extremos de que fala o historiador Eric Hobsbawn. O que sabemos do que vai acontecer em breve? Somos passageiros do tempo em um veículo em movimento com muitos pilotos e sem destino certo, pois não chegam a um acordo. A sua inocente lista telefônica é feita por uma multinacional e foi impressa no exterior, o refrigerante que você consome, o ônibus e o carro em que andamos são todos produzidos por empresas cujos empregados nunca conhecerão os seus donos. A estrutura é maior que a pessoa, independente da sua importância. Você está lendo um jornal impresso com tecnologia de ponta. Escrevi este artigo em um computador e o mandei por e-mail. O jornal é todo diagramado sistemicamente e a impressão é feita com um mero apertar de botão. Você vive a tecnologia, por mais simples que seja a sua vida. Não dá para se livrar dela. Um caixa de supermercado trabalha on-line. Ao mesmo tempo em que você compra um sabonete, o estoque é baixado e já entra na nova programação de compras. O operário mais humilde recebe seu salário em um caixa eletrônico, sem ninguém para ajudá-lo, pois a senha é só sua. Isto é o começo do novo futuro. Nós todos somos mais urbanos. A população agrícola caiu, mas os equipamentos substituíram a mão de obra. Estudamos muito mais que no passado, embora ainda existam milhões de analfabetos em todo o mundo. Tivemos guerras, genocídios e ainda não conseguimos debelar doenças endêmicas e a fome. Mais de um bilhão de pessoas vive no mundo ganhando dois reais por dia. Mas, mesmo a indiferença já parece ter seus dias contados. Há uma ordem jurídica em transformação clamando por ética, pois até os Estados Unidos e a Europa estão sitiados pela imigração e não têm outra saída. Terão que entender a nova ordem do mundo, apesar da ganância das corporações. Devemos ter a consciência de que somos afortunados, em meio às limitações de um mundo desigual que nos angustia e causa perplexidade. Enquanto isso, temos que reaprender o que fazer dos relacionamentos humanos, base primeira de nossa passagem pelo tempo. Temos que reaprender a conviver, a fazer escolhas e admitir responsabilidades, pois muitos estão perdendo os elos; o medo e a busca por segurança não devem nos enclausurar. Somos seres afortunados, apesar de todas as limitações de um mundo desigual que nos angustia e causa perplexidade. Não podemos viver sem utopias, somos prenhes de esperanças e isto é que nos faz bancar crianças à cata de um novo tempo, que virá com a graça de Deus, feito por nós, suas criaturas. Precisamos estar juntos, apesar das nossas diferenças. Dois mil e um votos de felicidades para todos. João Soares Neto, Escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/12/2000. - [CEM ANOS DEPOIS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/cem-anos-depois/): Descobri um texto do escritor Gustavo Barroso da virada do século passado. O filme, se assim podemos chamar, não é novo. As expectativas de fim de século, sejam reais ou imaginárias, mexem com o nosso comportamento e podem desapontar. Vamos ao que diz Gustavo Barroso em seu livro “O Consulado da China”: “A 31 de dezembro tive licença de ficar na rua até depois da meia-noite. Só um grande acontecimento permitiria isso: a comemoração da passagem do século... O estúpido século XIX, como o denominou alguém, era substituído pelo século XX... Que decepção! Pensava que a passagem de um século para o outro fosse muito mais interessante, que houvesse qualquer alteração na ordem das cousas naturais, pelo menos assim como um estalo no mundo... que haveria de mais em ouvir-se o rumor das mudanças dos séculos? Como não pretendo assistir a outra passagem de século, força é contentar-me com essa”. Cem anos são passados e, certamente, não assistiremos o dealbar do século XXII. O bom é nos alegrarmos com o que vai chegar daqui a uma semana, considerando que o mundo não é o mesmo da época de Gustavo Barroso. Agora temos a globalização e a ação de uma mídia predatória que compara pessoas, incita desejos e fomenta banais necessidades. Mas, estamos vivos e isto importa. Hoje é o penúltimo domingo do ano. Neste, estaremos vivendo o Natal. No próximo, à espera dos novos anos, década, século e milênio. É sempre bom não ficar desapontado. É sábio não abortar sonhos, cumpre pari-los e deixar-se ficar enlevado em meio ao misto de euforia e depressão que embala as pessoas nessa ciclotimia própria desta época, já de muitos conhecida. Mas essa bipolaridade não deve embotar os nossos sentidos, apesar da realidade que nos espreita, como já o fazia há cem anos com o jovem Gustavo Barroso, sempre para cobrar o devido e o indevido. Ao contrário do que dizia o compositor, dá para ser feliz. Basta ter capacidade de abstração e parar um pouco de gerenciar problemas pois, segundo o filósofo Marx, os problemas só existem porque temos a capacidade de resolvê-los. Abrace os amigos. Confraternize. Feche os olhos, sonhe. Chute o balde dos desenganos e plante sonhos, mesmo que tenha que regá-los com suas lágrimas. Afinal, lágrimas devem ser vertidas, sob pena de causar estragos e, nesta época do ano só valem – se é que - os estragos com o beber e o comer. Torne-se simples, não dá para complicar quando até os abraços formais se transmudam pela essência da bondade que ainda existe em cada ser humano. Feliz Natal. Sem medo. Sem culpa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/12/2000. - [REFLEXÕES DE FIM DE SÉCULO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/reflexoes-de-fim-de-seculo/): Pois não é que os tais de fim de ano, de década, de século e de milênio vão nos levando, mesmo sem querer, a fazer reflexões? A primeira delas é: o que andamos fazendo neste mundo de meu Deus? Como nos livrar dos que roubam o nosso tempo e, paradoxalmente, cuidar dos dias e horas em que não fazemos nada, sós ou acompanhados, desperdiçando-os? Este foi o século da ciência e da tecnologia, dos equipamentos criados para destruir (bomba atômica, gases tipo napalm, mísseis e outros) e facilitar as nossas vidas. No ano 1900 não tínhamos quase nada do que utilizamos hoje. O que nos foi agregado em matéria de felicidade ou, para ser pós-moderno, de qualidade de vida? Com a geladeira, o cinema falado e colorido, as máquinas de lavar e secar, a televisão, o vídeo cassete, o ar condicionado, o fax, o telefone celular, o computador, o carro com airbags e freios Abs, o avião a jato, o micro-ondas, o cartão de crédito, as comidas congeladas etc. ficamos mais felizes ou mais neuróticos? Nossos desejos de consumo foram ficando sem limites e isso nos levou a quê? Para que isso tudo foi feito? Por coincidência, ouvi ontem em uma emissora de rádio que a média de tentativas de suicídio nesta cidade de 2 milhões de habitantes é de dez por dia ou 3650 por ano. Dos que tentam, dez por cento conseguem. A mídia nos impele a ficar por dentro de tudo, sabendo de tudo e desfrutar o que está acontecendo. Mas já se sabe que a maioria das pessoas só utiliza em torno de cinco por cento do que lhe é oferecido, em todos os sentidos. Falamos em bem-estar, lazer, afetividade, desejos, amizade, ecologia, cuidar do corpo, mas realmente estamos comprometidos com isso? As pessoas parecem estar fugindo dos outros e de si mesmas, em nome do quê? Este também foi o século da penicilina, valium, prozac, gardenal, anticoncepcional, isordil, enfim, de tantos remédios feitos para prevenir, melhorar ou curar, mas as doenças se renovaram, os vírus se multiplicaram, as bactérias estão aqui e ai e a ciência de tantas universidades e laboratórios não sabe o que fazer com muitos tipos de canceres e ainda parece estar longe a cura da Aids que já afeta 36 milhões de pessoas, isto sem falar na fome endêmica da África, enquanto alimentos são desperdiçados nos países do Primeiro Mundo. Não é catástrofe, nem pessimismo, mas não podemos viver em um mundo do faz de conta. Há, por outro lado, muita coisa boa acontecendo e a realidade só pode ser mudada com ação e não com avestruzes. Vá fazendo a sua parte, pare de conversa mole e mude você o que achar que está errado. Pare de dar valor a coisas, pessoas e instituições sem sentido. Só a partir da sua própria conscientização, as coisas, as pessoas e as instituições poderão ir mudando. Leva tempo, mas precisa começar a ser feito. Agora é hora. O que estamos refletindo é o que vivemos neste instante. Amanhã poderemos pensar diferente, mas já é um caminho. Você não é obrigado a concordar conosco, mas é ruim não pensar, esperar por governo, políticos e acreditar em promessas. Duvide e aja. Rememore Einstein: “Uma coisa só é impossível até que alguém duvida e acaba provando o contrário”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/12/2000. - [FREUD E OS SONHOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/freud-e-os-sonhos/): Embora leigo, não resisto à ideia de fazer uma leitura de “A Interpretação dos Sonhos” de Sigmund Freud, obra que está completando 100 anos. Ela nos remete a sentimentos de alegria e perplexidade. Alegria, por estarmos procurando respostas coerentes para esse ainda grande mistério que é o sonho. Perplexidade, por ser um assunto de múltiplas interpretações, ensejando visões de todo tipo, em que se misturam conhecimento com religião, culpa com desejo, enfim, um amálgama. É claro que o estudo dos sonhos continua a ter um lugar destacado na psicanálise e sendo “A Interpretação dos Sonhos” uma referência, apesar de escrita há cem anos, não há como desconhecer o que o próprio Freud considerou como a mais valiosa descoberta que tivera a felicidade de fazer. O sonho parece ser o fenômeno da vida psíquica normal em que os processos inconscientes da mente, incluindo o aprendizado, são revelados de forma bastante clara e acessível ao estudo. A interpretação dos sonhos trás a tona os conteúdos mentais reprimidos ou excluídos da consciência pelas atividades de defesa do Ego. A parte do Id, cujo acesso à consciência foi impedido, é a que se encontra envolvida na origem das neuroses. Daí o grande interesse de psicanalistas pelos sonhos dos pacientes. Ora, se os sonhos são fenômenos comuns e normais, devem servir para ajudar a identificar e entender os processos desencadeadores dos sintomas neuróticos. Fica claro que os sonhos, além da mera compreensão dos processos e conteúdos mentais inconscientes em geral, revelam o que foi reprimido ou excluído da consciência. Para o fundador da psicanálise até os sonhos de angústia, os pesadelos, os que fazem as pessoas acordarem no meio da noite, são realizações de desejos. Ele justifica essa teoria agrupando os sonhos em três tipos ou categorias: Primeiro – sonhos em que a realização dos desejos está tão clara que quebra as regras que se estabeleceria entre as forças motivadoras do sonho: o desejo de dormir e a realização disfarçada dos desejos inconscientes. Segundo – os sonhos punitivos ou masoquistas, quando os “sonhadores” estão vivenciando momentos satisfatórios em suas vidas. Passam a ter um caráter punitivo ou masoquista ao surgirem como pesadelos que estragam o prazer dos bons momentos vividos acordados. Terceiro - sonhos em que a angústia é produzida por fatores alheios a eles próprios: doenças físicas, entre outros. Nessas hipóteses, os desejos inconscientes que, em outra situação, teriam ocasionado esse mesmo desenvolvimento de angústia, aproveitam para surgir sem disfarce. Posteriormente, Freud faz menção a uma única exceção a essa fórmula, a dos sonhos traumáticos. Para Carl Jung, um dos seguidores de Freud: “O sonho é uma porta estreita, dissimulada no que tem a alma de mais obscuro e de mais íntimo; abre-se sobre a noite original e cósmica que pré-formava a alma antes da existência da consciência do eu e que a perpetuará até muito além do que possa alcançar a consciência individual”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/12/2000. - [OS FALSOS AMIGOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/os-falsos-amigos/): Dizia Mark Twain que são necessárias duas pessoas para uma calúnia prosperar: um inimigo caluniador e um amigo para contar a história. Quem propaga uma calúnia não é amigo, Twain errou. Quem conta são os falsos amigos. Quase todos têm falsos amigos. É uma praga universal tão velha quanto a história da humanidade. Há muito dos sete pecados capitais nas relações de falsa amizade. O mais visível deles é a inveja. Os falsos amigos invejam o que imaginam que o outro tem, muitas vezes, sem ter. Idealizam a pessoa invejada e tornam-na alvo de seus petardos, frutos de sua própria pequenez e não da suposta grandeza do outro. Há, entre várias, uma característica própria dos falsos amigos: a encenação. Os amigos têm gestos, discretos, velados até. Os falsos amigos são ruidosos, expansivos e supostamente fervorosos. Existem livros e mais livros tratando das relações de amizade; uns as tratam de forma pueril, como se fora uma coisa maravilhosa, outros as veem com desconfiança e, ainda, há os que não acreditam em amizades. Penso que não é bem assim. Há amigos verdadeiros que fazemos ao longo de nossas vidas e permanecem ao nosso lado em todas as ocasiões; e há amizades circunstanciais que se desvencilham pelas próprias mudanças de estados de espírito e civis, de lugar, de trabalho e da forma que, em determinado instante, passamos a ver o mundo. Há gente boa, íntegra e capaz que, por razões várias, não nos diz mais respeito. Passam a faltar o sal e a naturalidade no falar. Para um amigo não se procuram palavras, elas brotam e têm a naturalidade do falar de uma criança. Se você fala de forma estudada com uma pessoa, provavelmente essa pessoa não será sua amiga. O sal é o clima que transforma as coisas mais pueris em conversas sem fim, em bem-estar, ao sentir que o outro tem algo a ver conosco, mesmo que pense de forma totalmente diferente. Aliás, amigo verdadeiro não é um prolongamento dos nossos pensamentos, é um ser soberano que compartilha ideias, mas não alguém que nos bajula ou serve. O amigo é uma espécie de espelho em que nos vemos, pois as suas reações mostram o que estamos fazendo de certo e errado. Mas é preciso saber se o espelho está refletindo um amigo ou um falso amigo, pois muitas pessoas são eternas fingidoras e, por serem assim, perdem a sua própria identidade e o que se vê no espelho é um disfarce ou uma visão desfocada. Um sinal de maturidade é não compactuar com os falsos amigos. Não é preciso agredi-los, basta dar sinais inequívocos da inexistência de intimidade, uma característica básica da amizade. Desconfie dos que lhe afagam em demasia, elogiam tudo e procuram ser íntimos sem serem, ao mesmo tempo em que transmitem estórias e mazelas sobre amigos comuns, ou alguém que você não gosta. Na primeira oportunidade, eles farão o mesmo com você. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/12/2000. - [APARÊNCIA E REALIDADE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aparencia-e-realidade/): Um sociólogo e semiólogo (aquele que estuda os fenômenos culturais como se fossem significações ou imagens, gestos, vestuários, ritos etc.), Andrea Semprini, tem estudado a influência das marcas nas roupas, joias, produtos de beleza etc. Segundo ele, as marcas oferecem aos usuários a oportunidade de viver em mundos paralelos, fugindo à realidade do dia-a-dia através da construção de um universo simbólico. Ele denominou a isso de “mundo possível”, isto é, aquele em que o consumidor consegue conviver ou sobreviver. Diz o italiano Semprini que no mundo atual “o lugar da realidade fica reduzido em favor de outras dimensões. Nós passamos dentro da realidade menos de um terço das nossas vidas, preferindo sonhar com coisas mais interessantes”. Atuando como consultor internacional para a análise de mudanças sociais, estratégia de marca e comportamento de consumo, Semprini deixa claro que as mudanças dos estilistas se tornaram comuns a partir do instante em que conglomerados financeiros começaram a controlar o mundo. Em outras palavras e em sentido amplo, os estilistas, perfumistas, joalheiros, desenhistas de veículos etc. são direcionados a criar novos modelos, fragrâncias e designs, de modo a fomentar e aplacar a necessidade intrínseca de consumir de pessoas que substituem o encontro com a ‘realidade’pela fuga das compras. A moda, para Semprini, tem duas características singulares. Uma seria o caminho de auto-expressão (olhem eu aqui) que produz confiança às pessoas. Reforço e ego e o bem-estar. A outra vertente, uma espécie de identidade (eu faço parte da turma) ou passaporte a grupos socias, econômicos ou culturais. Se é que um extrato considerável da gente brasileira vive em uma sociedade de consumo, são explicáveis – se não justificáveis e aceitáveis – os apelos que os publicitários e os meios de comunicação utilizam para induzir os consumidores. Um desses absurdos é que grande parte deste país tropical – que só tem a estação da chuva e a estação do sol – seja compelido a acatar as modas de outono e inverno, verdadeiras agressões ao nosso clima. Tudo em nome do desejo criado em comerciais veiculados sem nenhum compromisso ético ou social. Tão artificiais quanto o de certas “griffes” que não tem produção própria, mas utilizam pequenas fábricas, inclusive com mão-de-obra infantil, colocam suas etiquetas em produtos comuns, apenas com alguns detalhes diferenciados. E o pior, ou melhor para elas, conseguem convencer incautos de que estão vendendo algo muito especial para pessoas “necessariamente especiais”. Uma pessoa que utiliza casa, carro, roupas e joias para ficar cheia de si, talvez não sabia do vazio em que se encontra. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/11/2000. - [DUAS ESTORIAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/duas-estorias/): Estória um: Ao atravessar a avenida, ela foi abordada por dois homens que lhe disseram imediatamente: abra a bolsa. Ela, sem nenhum sinal de medo, abriu a bolsa e um deles meteu a mão. Viu o cartão de retirada de dinheiro no caixa automático de um banco. Chamou um táxi e lá se foram os três ao banco, onde ela entrou sem que nenhum guarda visse que estava cercada de dois marginais. Colocou o cartão, digitou a senha e retirou R$ 2.000,00. Os bandidos receberam o dinheiro e a colocaram em um novo táxi. Ela chegou em casa e, incontinenti, resolveu voltar ao banco, pois ainda tinha R$ 900,00 e os marginais sabiam de sua senha. Retirou o saldo, trocou a senha e voltou, calmamente, para casa. Somente após nove meses, relatou o fato aos filhos, pois, certamente, iriam proibi-la de andar sozinha pela cidade. Contou rindo, como se fora uma aventura pela qual pagou um ingresso de R$ 2.000,00. Os poucos filhos que souberam, olharam-na desconfiados e disseram o de sempre: “Mãe, a senhora não tem jeito”. A mãe, sem jeito, criou todos eles e, mesmo após viúva, continua no albor da sua octogeneidade estudando música, lendo jornais e, de leve, palpitando sobre a vida de cada um. Estória dois: Chegaram dois caminhões com quinze homens encapuzados e renderam todos os empregados. Colocaram-nos em um depósito e ficaram esperando que os donos da fazenda chegassem. Era uma sexta-feira. Data marcada para toda a família deslocar-se à fazenda, fazer as contas com os moradores, e,naturalmente, descansar. Já era meia-noite e os donos não chegavam. O chefe dos encapuzados dizia que estava louco para matar os donos da fazenda e que a demora era injustificável. Ocorre que um dos filhos dos donos da fazenda foi acometido de um grave problema de saúde justo ao cair da tarde da dita sexta-feira. Ao invés de irem à fazenda, tiveram que cuidar do filho enfermo. E os encapuzados, na manhã de sábado, roubaram alguns pertences, um trator e se foram deixando um recado: voltariam. Estas duas estórias, ainda bem que, com finais felizes, são o retrato deste nosso Brasil inseguro, onde ninguém sabe mais o que fazer, pois os bandidos usam fardas para assaltar, as polícias se dizem desequipadas e sem pessoal suficiente e ninguém toma uma providência mais séria. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/11/2000. - [ELEIÇÃO EMBANANADA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/eleicao-embananada/): Há muitos anos corre nos Estados Unidos a expressão “banana republic”, referindo-se, de modo pejorativo, a países da América Latina que, durante algum tempo, foram meros exportadores de banana. Agora, o grande país do norte, está embananado e teve as vísceras de um arcaico sistema eleitoral exposto à exaustão para todo o mundo via televisão, internet, jornais, rádios e revistas. No domingo passado, havia escrito que a eleição seria muito difícil e que ambos os candidatos tinham chances Na madrugada do último dia sete para o dia oito, passei quase toda a noite defronte o meu aparelho de televisão acompanhando o processo eleitoral americano, vendo e ouvindo as duas CNNs, a BBC, a Globonews, a RAI e a, cada notícia, eu ficava mais confuso. Houve um instante em que Al Gore telefonou para George Bush cumprimentando-o pela eleição. Pouco tempo após, ligou novamente pedindo para desconsiderar o telefonema anterior. Cedo da manhã fui andar e referi a amigos que a eleição americana parecia a de uma cidade do interior do nordeste, antes do advento da urna eletrônica. Com um detalhe, não terminava. Pesquisei as razões de tanta confusão e descobri: 01. O Estado de New York utiliza máquinas de votar com 38 anos de idade; 02. Incluindo New York, 25% dos eleitores votam nessas engenhocas. 03. Dois por cento do eleitorado americano votou em cédulas de papel como se fazia antigamente no Brasil. 04. Somente oito por cento das cidades utilizaram urnas eletrônicas. O5. As cédulas eleitorais não são padronizadas. Cada Estado pode fazer um tipo, inclusive delegar para municípios, como ocorreu em Palm Beach. 06. Por causa disso, a cédula eleitoral utilizada em Palm Beach, na Florida, era confusa – embora tenha sido aprovada pelos dois partidos, pois ao lado do nome de Al Gore tinha quase três círculos (um deles deveria ser perfurado com uma ponta de caneta). 06. O candidato do nanico Partido da Reforma, Pat Buchanann recebeu cinco vezes mais votos em face do círculo com o seu nome ter ficado (e confundido) ao lado do de Gore. 07. Dezenove mil votos foram invalidados por terem sido perfurados (acidental ou propositadamente?) duas vezes. Em quase todos, o circulo de Al Gore estava perfurado junto ao de outro candidato. 08. Três ações populares já deram entrada na Justiça da Florida pedindo a anulação das eleições. 09. Parece haver um choque de competência entre a Justiça da Florida (governada por Jeb Bush, irmão de George)e a Justiça Federal para decidir a validade ou não do processo eleitoral naquele Estado. 10. Pode até haver decisão no tapetão, como diria um locutor esportivo. Para concluir, a jornalista Maureen Dowd, do “The New Times”, disse: “agora a campanha de Gore declarou guerra às excentricidades eleitorais digna de uma república de bananas”. Viram em que dá falar mal dos outros: o feitiço virou contra o feiticeiro. E agora Tio Sam? João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/11/2000. - [BUSH E GORE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bush-e-gore/): Na próxima terça feira, dia 7, George W. Bush e Al Gore estarão se defrontando para a escolha -por um colégio eleitoral de 270 votos - do sucessor de Bill Clinton nos Estados Unidos. E daí? E daí é que o Brasil precisa ficar atento e saber o que pensam os dois candidatos, especialmente sobre a América Latina e o crescimento de guerrilhas e narcotráficos na América do Sul. Nos limites das fronteiras brasileiras há plantações de coca, traficantes e guerrilheiros. Nós não podemos fazer a pose da avestruz. Os Estados Unidos são os maiores consumidores de cocaína do mundo, o que parece conceder direito àquele país de apoiar países produtores a erradicar plantações e caçar narcotraficantes. Por outro lado, eles são um grande mercado para os produtos brasileiros e a onda protecionista americana tem afetado as nossas exportações. Essas, entre outras, as razões para que saibamos a quantas andam os pensamentos de Bush e Gore. A campanha, na última semana que antecede a eleição, tornou-se mais acirrada. As pesquisas mostram uma ligeira vantagem de 3% de Bush sobre Gore, o que não significa muita coisa, pois uma declaração em falso ou qualquer episódio pode reverter esse quadro. Sem falar na margem de erro de 2%. George W.Bush, do partido republicano, é filho do ex-presidente George Bush que foi derrotado em 1992, em pleno mandato, por Bill Clinton .É governador do Texas, irmão do governador da Flórida, conservador, defende corte de impostos e aumento para militares. A propósito, vejam o que ele falou: “O moral está baixo entre os militares.Não conseguimos atender as nossas necessidades de recrutamento. Estamos vendo capitães abandonando o serviço militar porque o soldo é baixo”. Ele diz que a América Latina faz parte dos “interesses estratégicos americanos”. Segundo ele, “Do Canadá ao extremo sul”. Misturar Canadá com a América Latina é coisa de quem nunca estudou geografia, matéria em que os americanos não são muito fortes. Essas gafes têm dado oportunidade ao candidato a vice de Gore, Joseph Lieberman, de afirmar que põe em dúvida a capacidade intelectual e a experiência de Busb para ocupar a Casa Branca. Al Gore, democrata, tão rico, cinquentão e simpático quanto Bush, é o vice-presidente- e amigão- de Bill Clinton nos dois mandatos e é considerado inteligente, moderado e experiente, mas Joe Klein, da revista The New Yorker, disse, recentemente: “Ele parece ter perdido tudo isso na campanha eleitoral. Há uma desesperança triste e uma falta de graça no contato de Gore com o eleitorado”. Acresça- se que Bill Clinton, andou falando demais na revista Esquire (pensando que a entrevista só seria publicada após as eleições, mas jornalista...) quando afirmou que a maioria republicana no Congresso “deveria pedir desculpas ao povo americano” por havê-lo processado no caso Mônica Lewinsky. Era o que os republicanos queriam. Ressuscitar o caso. A propósito, indagado sobre referido caso, Gore disse: “Só fiquei sabendo quando ele admitiu publicamente. Eu tinha minhas suspeitas, mas não sabia o que era. E quando um amigo nega um fato, você concede o benefício da dúvida. Ou isso ou rompe a amizade”. Para encerrar: lá como cá, há uso de baixaria e casos pessoais. É aguardar para ver, pois como diz o escritor Gore Vidal: “o país não é governado por presidentes, e sim pelas grandes corporações”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/11/2000. - [AO NOVO PREFEITO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/ao-novo-prefeito/): Todos nós estamos felizes com o fim desta campanha eleitoral para Prefeito. Fortaleza e mais 30 cidades brasileiras tiveram 29 dias de prorrogação. Candidatos e eleitores estão saturados. Apurados os votos, definido o eleito, gostaria de fazer algumas sugestões. Sei que as promessas foram muitas. Algumas exequíveis, outras decorrentes do clima da campanha e da imposição de marqueteiros políticos, a doce reencarnação eletrônica e midiática de Maquiavel nestes estertores de fim de milênio. Tenho algumas sugestões, simples, sem precisar de muito dinheiro e fáceis de serem executadas. Só precisará de modéstia para examiná-las e torná-las factíveis. Muitas vezes, o simples é tão óbvio, mas não se vê. Alguém da equipe do prefeito eleito deve ter cuidado de registrar o que foi prometido. Essa mesma pessoa poderia, se desejar, agregar as idéias abaixo. Por outro lado, seria bom que a nova equipe fosse definida logo para a sociedade tomar conhecimento de seus nomes, de seus planos de trabalho e das fontes dos recursos. Fortaleza vai cobrar as promessas feitas, mesmo as mirabolantes. Daqui há quatro anos os eleitores serão ainda mais esclarecidos. Mas eu falava de sugestões e aí vão elas. Vou enumerá-las para tornar mais fácil. 01. É preciso que a Prefeitura e o Governo do Estado passem a agir com maturidade, bom senso e equilíbrio. Governador e Prefeito são prepostos da população e a ela devem satisfação. Não fica bem essa disputa boba e sem sentido entre Estado e Prefeitura, quando poderiam, entre outras coisas, somar esforços para erradicar os habitantes das áreas de risco, melhorar as condições sanitárias da cidade, equipar os hospitais e definir, seguindo a Constituição, quais as reais áreas de competência do Município e do Estado. Um exemplo dessa briga boba é uma placa colocada no local do antigo Fórum Clóvis Beviláqua, dizendo ser a área de propriedade do Estado. Na verdade, a área é do povo e a ele deve ser restituída, futricas e vaidades à parte. 02. Todo final de ano a Praça Portugal é lindamente decorada. Por que não deixar a iluminação permanente, tirando apenas os adereços natalinos?03. Por que não se aproveita o largo em declive defronte ao Labomar e ao Edifício Granville na Beira Mar e se faz uma praça bonita, com um relógio de sol e canteiros de flores?. Não há flores nas praças de Fortaleza. 04. O Mercado Central dá as costas para a Monsenhor Tabosa e o Centro Dragão do Mar. Bastaria uma alça metálica, com uma desapropriação mínima, para ligá-lo ao maior corredor de compras da cidade. 05. Considerando que as casas que margeiam o lado sul da Avenida Leste Oeste (do viaduto do Marina até à Escola de Aprendizes Marinheiros) não devem ser retiradas, por que não torná-las atraentes, pintando-as de cores diferentes, como se fosse um grande casario e gramando os acessos paralelos à antiga via férrea? 06. Falou-se tanto em “parada fácil” para ônibus, por que não fazer três: nas saídas da Unifor, da Uece no Itaperi e da UFC no Pici? 07. Os taxis locais são de todas as marcas e cores, mas poderiam ser padronizados com um simples adesivo axadrezado com as palavras:Taxi, Fortaleza com amor. Custa fazer? 08. Por qual razão não se utiliza a Rua José Avelino para escoamento de parte do tráfego da Monsenhor Tabosa?. Bastaria alargá-la (enquanto não há edifícios), asfaltá-la e fazer um binário à altura do Sebrae. 09. Criar uma linha de jardineira (ônibus abertos) para turistas entre a Beira Mar e o Mercado Central, passando pelo Centro Histórico, Monsenhor Tabosa, Mercado dos Pinhões, Praia de Iracema e Beira Mar. Qual o impecilho? 10. Criar postos anticorrosivos de salva-vidas ao longo da orla marítima, da Barra do Ceará ao Caça e Pesca. Pessoas se afogam por falta de assistência imediata. 11. Já que não se pode extinguir, por falta de empregos, por que não institucionalizar a atividade de “vigilante de veículos”? Cadastrados, com crachás, fardados e treinados poderiam ser distinguidos de marginais. 12. Em todas as avenidas abertas há grandes paredes remanescentes de desapropriações sem tratamento paisagístico. Por que não utilizar pintores populares e embelezá-las?13. Criar um painel informativo computadorizado na frente do IJF, mostrando o atendimento diário, a internação instantânea, os acumulados no mês e no ano. Vou parar por falta de espaço. Não de ideias. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/10/2000. - [NARCISISMO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/narcisismo/): Para começo de conversa, é bom que se fale sobre a razão de se chamar alguém de narcisista. “Fulano é um narcisista” ou “este é um comportamento narcisista”. Por quê se diz isso? Segundo a mitologia grega, Narciso era um jovem por quem a ninfa Eco se apaixonou. Eco fora privada da fala por Hera, a esposa de Zeus, e só podia repetir as últimas sílabas das palavras que ouvia. Incapaz de dizer a Narciso de seu amor, foi por ele rejeitada e morreu de tristeza. Os deuses puniram então Narciso por seu desamor, fazendo-o apaixonar-se pela própria imagem. Um dia, quando olhava sua face em uma fonte, ficou enamorado por ela e recusou-se a abandonar o local. Morreu de debilidade e transformou-se numa flor (o narciso) que cresce à beira das fontes e mananciais. A psicanálise, a psiquiatria e a psicologia apropriaram-se desse mito e, a partir dele, começaram a desenvolver seus estudos e teses. Essas observações são mero produto da leitura do livro “Narcisismo, negação do verdadeiro Self”, de Alexander Lowen, Editora Cultrix, e decorreram da verificação óbvia e real de que o narcisismo está em franca ascensão em todas as camadas sociais e faixas etárias. Como não tinha conhecimento sobre assunto tão sério, resolvi dar um passeio sobre o livro em referência. Do que li, ouço e vejo, ficou claro que o narcisismo sinaliza uma perturbação da personalidade caracterizada por um investimento exagerado na imagem da própria pessoa à custa do self (ego, o eu, a individualidade). Avulta também que os narcisistas estão mais preocupados com o modo como se apresentam do que com o que sentem, daí negarem quaisquer sentimentos que contradigam a imagem que procuram apresentar. Via de regra, são egoístas, concentrados em seus próprios interesses, mas carentes dos verdadeiros valores do self – notadamente, auto expressão, serenidade, dignidade e integridade. Parece faltar aos narcisistas um sentimento do self derivado de sensações corporais. Sem um sólido sentimento do ego, vivem a vida como algo vazio e destituído de significação. Muitos dos narcisistas são bem-sucedidos em suas atividades profissionais ou negócios, o que sugere uma divisão entre o que realizam no mundo e o que acontece em seus íntimos. Por outro lado, apresentam combinações de ambição intensa, fantasias de grandeza, a par de sentimentos de inferioridade e excessiva dependência da admiração e aprovação externas. Olhem as colunas sociais, joalharias, salões de beleza, boutiques, academias de ginástica, igrejas, universidades, reuniões sociais, entidades de classe, clubes, empresas, imprensa, profissionais liberais, os poderes constituídos e vocês identificarão muitos narcisistas. Alguns temporários, outros incuráveis. Os narcisistas têm a clara necessidade de ser perfeitos e de fazer com que os outros os vejam como tais. É bom estabelecer uma distinção entre a preocupação saudável com a busca da perfeição profissional e da própria aparência, baseados no senso do self, e o deslocamento da identidade do ego para a imagem, o que é característico do estado narcisista. Ora, dirão vocês, se o narcisismo é um comportamento patológico que fica patente, apesar dos disfarces, adiantaria falar sobre ele em um simples suelto? Entendo na minha visão laica que, pelo menos, algumas pessoas poderão fazer uma autoanálise ou identificar melhor as suas companhias e tirar, quem sabe, algum benefício, pois como disse Shakespeare há 400 anos em “Muito Barulho Por Nada”, Ato III, Cena I, sobre o narcisista: “tem-se em tão alta conta o seu espírito que tudo o mais para ele é sem valia”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/10/2000. - [ESTAR CRIANÇA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/estar-crianca/): Quinta-feira foi o Dia das Crianças. É claro que a mídia tem interesse em fomentar os dias disso e daquilo. Mas, nós também vivemos de símbolos, arquétipos, lembranças, ícones, motivações e sonhos. Sonhemos, então em estar criança. Os que já passaram há muito do tempo de ser criança poderiam aproveitar seus imaginários para revisitar as crianças que foram. Poderiam ver o “making off” de suas infâncias, analisar com olho adulto e serem mais indulgentes com os pais e irmãos. Olhar de onde vieram seus pais, quais eram os seus valores, as suas formações e as lutas que travaram para ocupar seus lugares neste tão vasto mundo. É preciso, repito, ver o passado com olhar indulgente, sem a lente zoom que particulariza e aumenta os defeitos. Os nossos pais talvez sejam como nós, mas no tempo deles. De um tempo para cá, especialmente nestes cem anos freudianos, os pais passaram a responder por muitos dos nossos erros, das nossas frustrações, dos desencontros existenciais e por ai vai. Os pais foram ficando na berlinda com os estudos edipianos e as visões de Electra. De princípio, todos os pais eram castradores, cerceadores de nossos desejos, balizadores de nossas condutas e indutores dos nossos destinos. Depois, veio o contraponto. Deixaram de proibir. Liberaram geral e são culpados por omissão, dos mimos em excesso ou pela falta de tempo para os diálogos necessários entre pais e filhos. Cá entre nós, na minha revisita pessoal, me vejo cercado de irmãos com idades parecidas e gostos díspares, na grande mesa da sala de jantar com uma jovem mãe dedicada, equilibrada e ciosa de suas responsabilidades. Um pai mantenedor e coadjuvante no processo de tentar transformar aquela “miuçaia” de gente. Sendo o mais velho, precisava ser exemplo e, na verdade, não sabia ser nada, era massa em formação em meio a um mundo que se encantava com a televisão, a liberação feminina, a pílula anticoncepcional, a militância estudantil, a magia dos livros, os enlevos dos filmes e a obrigação de estudar o que muitos professores mandavam e eu já intuía que pouco valeria na vida real. Foi assim comigo, não deve ter sido muito diferente para vocês, humanos e contemporâneos que somos. Mas falava de estar criança. Estar criança é não complicar, é tentar dormir o sono dos justos, diminuir a autocensura, ouvir histórias, rir de qualquer coisa, meter a mão em tinta fresca, embevecer-se, não levar a vida muita a sério, acreditar em sonhos e não ter medo de bicho papão. Estar criança é muito mais que isso. Parece ser um processo individual de resgate, como se fora uma forma proustiana de desencavar porões para retirar apenas e nada mais que brinquedos, mesmo que simples. Como diria Bernardo Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa: “Sim, julgo, às vezes, considerando a diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao cevado que é o nosso destino”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/10/2000. - [BRASYDNEY](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/brasydney/): De forma vergonhosa, o Brasil terminou a sua participação nas Olimpíadas de Sydney no 51º lugar (ranking de produtividade). Ficamos atrás do México, Cuba, Uruguai, Belarus, Bahamas, Letônia, Azerbaijão e Moldova, entre outros. Há denúncias de corrupção, recebimento de dinheiro de patrocinadores por baixo do pano, atletas “amarelando” e “sem amor à pátria” e poucas, pouquíssimas (12) medalhas de prata (6) e bronze (6). Necas de ouro. Parece que tudo deu errado e deu, na verdade. As televisões e os grandes jornais foram, como sempre, os grandes beneficiados. Venderam a idéia – e caríssimas cotas de patrocínio - de que o Brasil ganharia isso e aquilo e fomentaram uma empolgação e expectativas nacionais. Nem uma coisa, nem outra. A diferença de fuso horário, virava de ponta cabeça a nossa idéia de dia e noite. Por outro lado, a divulgação à exaustão com narradores bobos e monótonos, depois de um certo tempo, causava um enfado imenso. A patriotada das redes brasileiras de televisão chegava a desfaçatez de divulgar apenas os cinco primeiros países colocados e o pífio desempenho nacional. Os jogos Olímpicos, de há muito, deixaram de ser somente uma competição esportiva. São um grande negócio que tira da magia do esporte bons resultados financeiros e de marketing para o país sede. No caso específico de Sydney, os custos foram da ordem de um bilhão e duzentos e oitenta milhões de dólares (muito menos do que o Brasil perdeu com os bancos Marka e FonteCindam). Esse dinheiro foi gasto em recuperação de áreas, construção de estádios, remodelação da cidade, passagens aéreas para todas as delegações (sob o argumento de que a Austrália é muito longe), um grande investimento em marketing, construção de apartamentos-alojamentos que, em seguida, serão vendidos à população local etc. Mas, o dinheiro não saiu apenas dos cofres públicos australianos. Grandes patrocinadores como a Coca-Cola, a BHP (que atua em mineração), a Westerfield (imobiliária) e a Testra (telecomunicações) bancaram parte da festa. A Austrália, distante, passa a fazer parte do imaginário de quantos viram os jogos e as festas de abertura e encerramento. Isso dá retorno imediato e no futuro. Penso que está na hora do Brasil se candidatar, de verdade, sem carioquice, a ser sede de uma futura Olimpíada. Seria uma grande jogada de marketing, um processo de desenvolvimento forçado da região escolhida, melhoria na segurança pública, trazer o foco das comunicações mundiais para o nosso país e, quem sabe, um pouco mais de medalhas. Temos charme, talento e muitas cidades a escolher. Falta apenas gente séria para tomar a iniciativa. O Comitê Olímpico Brasileiro deve ser mudado, de ponta a ponta. As escolas e as universidades precisam voltar a estimular a prática de esportes e nós, com certeza, deixarmos de ser bobos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/10/2000. - [DIA DE VOTAR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dia-de-votar/): Chegou o dia. Como o voto no Brasil é obrigatório para maiores de 18 e menores de 70 anos, você deve ir votar. Procure seu título, veja a seção eleitoral, pegue um livro ou revista e vá. Pode ter fila, mas não acredito. A votação será eletrônica e tudo correrá mais rápido. Esta é a parte legal e mecânica da história. A outra parte, a de consciência, é a mais séria. Você tem que procurar respostas na sua consciência e não nas propagandas eleitorais dos candidatos. A sua consciência é guardiã de sua história pessoal, das suas origens, do seu desenvolvimento e da sua maturidade como cidadão. Não adianta ficar lembrando o que disse o candidato A, B, C, D ou Z. Você tem que conversar com você mesmo. Descobrir o que lhe incomoda, o que lhe agrada. Pensar no que deseja para a sua cidade em termos de futuro e saber quem poderá ajudá-la a atingir esse objetivo. A sua consciência tem que responder aos ditames de sua realidade pessoal e da “realidade real”, aquela do dia-a-dia, em que as promessas mirabolantes são apenas jogo de cena para enganar incautos. Prove que você não é incauto. Permita-se pensar um pouco em sua cidade. Lembre-se como ela era quando você nasceu, como foi ficando e como é hoje. Veja o que foi feito, o que não foi e o que você imagina ser prioritário. Raciocine um pouco e não tenha medo de concluir, por exemplo, que você até hoje estava influenciado por isso ou aquilo. Estabeleça juízos de valor e dê alguns minutos do seu tempo em favor de duas decisões corretas: a escolha dos seus candidatos a vereador e prefeito. Não fique aí indeciso. Não vote só por votar. Vote no que acredita ser o melhor para a sua cidade. Não vote contra alguém ou algum, vote a favor do que considera capaz. O vereador é como se fosse um procurador seu. O seu pensamento deve ser parecido com o dele. Ou melhor ainda, o pensamento dele é que deve ser parecido com o seu. O Prefeito, por sua vez, é uma espécie de administrador ou gerente de alto nível da cidade, um tipo especial de empregado, por tempo determinado, de todos nós, os eleitores. O Prefeito não deve ser alguém superior, iluminado, mas uma pessoa comum, capaz, dinâmica, com capacidade de arregimentar e liderar uma equipe multiprofissional para cuidar das ações da cidade. Prefeito não é mágico, nem santo, nem demônio. Prefeito ou prefeita tem que ter legitimidade para poder lutar e conseguir administrar o caos em que as cidades, especialmente as grandes, se tornaram. Agora feche o jornal. Pare diante do espelho e diga o nome dos seus candidatos. Se você não fizer careta, as escolhas estão certas. Se ficar em dúvida, pense mais um pouco e vote a favor de sua cidade. Bons votos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/10/2000. - [A DITADURA DO CORPO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-ditadura-do-corpo/): O surgimento, neste século, de profissões novas como, por exemplo, educação física, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição e a atenção que a medicina, a biotecnologia e a engenharia genética deram ao ser humano, fizeram aumentar os cuidados com o corpo, sem falar nas plásticas, pois isto é outra história. Honoré de Balzac falava, no século XIX, das “mulheres de 30” como se estivessem no ponto final de uma vida ativa. Hoje, as mulheres – e os homens, por extensão – de 30, 40 e 50 anos estão se vendo e se sentindo bem mais novas que suas mães, na mesma idade. Os recursos da coméstica, as aulas de ginástica, musculação, natação, corrida, alongamento, yoga, dança e as lutas estão deixando um rastro de saúde, especialmente quando associadas a uma alimentação saudável, e a ingestão de vitaminas e antioxidantes. Hoje muita gente fala com desenvoltura sobre ácidos graxos, fibras, sal, gordura, proteína, carboidrato e colesterol. Por outro lado, o aumento da longevidade, as aposentadorias precoces e o medo de envelhecer têm encorajado pessoas de mais idade a saírem de suas casas em demanda de parques, praças, avenidas, praias, piscinas e academias. Assim, jovens, adultos, maduros e velhos misturam-se em uma sinfonia em que todos entoam uma mesma trilha melódica: mexer com o corpo para viver mais e melhor. Acordar cedo e malhar deixou de ser um modismo e transformou-se em prática saudável para os que precisam, acreditam e desejam continuar em forma, obedecidas as razões do corpo. Ao mesmo tempo em que psiquiatras, psicólogos e terapeutas cuidam das mentes das pessoas, há um quase exagero na publicidade, na medicina, na nutrição e nas carreiras esportivas com a obtenção de um melhor físico. É a ditadura do corpo esbelto, mesmo que a mente não esteja totalmente sã. Vamos a um exemplo: recentemente, no estado americano do Novo México, os pais perderam a guarda de uma filha de três anos pelo simples fato dela estar pesando 55 quilos. Em outras palavras, é o Estado dizendo que compete à família a responsabilidade de cuidar dos corpos de seus integrantes. A Olimpíada em curso na Austrália está sendo pródiga em quebras de recordes, pois os atletas vivem cuidando,por anos seguidos, de seus corpos de modo a transformá-los em feixes de músculos capazes de obedecer a impulsos instantâneos. Uma fração de segundo pode ser fatal na obtenção de uma medalha. Poder-se-ia dizer que esta olimpíada associa, de forma absolutamente integrada, a medicina e a nutrição às técnicas esportivas, não dando oportunidade a improvisações, mesmo que o talento e o arrojo ainda sejam as maiores características dos vencedores. Esta ditadura do corpo parece ter uma razão de ser. Os geriatras e gerontologistas têm afirmado que as pessoas que conseguirem chegar saudáveis ao ano 2010 terão, ainda, muitos e muitos anos de vida. É chegar para ver. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/09/2000. - [MACHO MAN](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/macho-man/): Os homens brasileiros, com mais de 50 anos, vivem dilemas existenciais sérios. Sabem que o nosso modelo de “macho man” está ultrapassado, não tem volta. Por outro lado, não possuem a maturidade para encarar, como naturais, as mudanças chegadas com o tempo. São tantas, de toda ordem, a causar espantos e perplexidades. Ora é a parceira a desafiar com o seu saber e independência; os filhos a fustigarem com indagações, cujas respostas não sabem; os reptos da vida profissional, mostrando sem dó, nem piedade, a necessidade de reexaminar os caminhos já percorridos e sinalizando novas estradas a serem trilhadas, mesmo sinuosas e insondáveis. Paralelo a tudo isso, além da mente, o corpo passa a emitir sinais, pedir cuidados com o diabetes, o colesterol, a visão, as coronárias, a obesidade, a flacidez dos músculos, as artroses, o fantasma da impotência e as doenças cativas do homem, dentre as quais avulta as da próstata. Um anúncio institucional de um plano de saúde tem alertado para esse problema, a Faculdade de Medicina da USP realizou, no último mês, a Semana do Alerta sobre a próstata e pessoas próximas a mim que foram afetadas. Daí, passei, casuisticamente, a estudá-lo com atenção. O que escrevo a seguir é a visão curiosa de um leigo, nada mais que isso. O objetivo é um só: alertar. O urologista, com o seu dedo em riste, é temido por muitos homens, sob a desculpa de “depois eu faço”. Hoje, um homem com mais de 50 anos, ao fazer o seu check up anual deve incluir o exame do PSA. Na realidade, o PSA, um exame recente, feito a partir do sangue, é um marcador eficaz da saúde da próstata. Seu nome vem do inglês e significa Antígeno Prostático Específico. O antígeno, no caso, é uma substância que, penetrando no organismo, vai detectar especificamente através de uma escala, que começa com zero e cresce, o grau de sanidade – ou não - da próstata. Determinaram, após pesquisas, que os níveis ideais variam de zero a quatro. Assim, o homem, ao fazer anualmente o seu exame de PSA, deve ler e discutir os resultados com o seu urologista. Além do PSA, o toque retal é outro indicador importante. Dura menos de um minuto, e nenhum homem deve se sentir menos “macho” por ter a consciência de fazê-lo a partir dos 50 anos, ou após os 40 anos, se houver história de câncer, especialmente de próstata, na família. Quando o PSA apresenta índices superiores a quatro, não há razão para alarmes. O paciente poderá ter apenas uma inflamação na próstata ou, ainda, uma hiperplasia benigna, isto é, uma doença perfeitamente curável, através de tratamento ou cirurgia. Auxiliado por exames de ultra-som trans-retal e biópsia , o urologista poderá indicar o procedimento mais adequado a cada caso. Na pior hipótese, os que forem acometidos de câncer de próstata poderão ficar curados, desde que a doença tenha sido detectada no início e atingida somente a cápsula prostática. O médico retirará toda a próstata, verificará se não há metástases – auxiliado pela patologia - nas áreas próximas e, com muita probabilidade, o doente poderá ficar curado. As técnicas, usadas universalmente, tentam preservar a capacidade de ereção do paciente e minimizar a possibilidade de incontinência urinária. Ser homem, depois dos 50, é ter uma mente lúcida para agir previdentemente, com capacidade para enfrentar as adversidades - se elas acontecerem - e forças para superá-las, tocando a vida com energia e sem medo. Este é o novo macho man. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/09/2000. - [INDEPENDÊNCIA E DEBOCHE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/independencia-e-deboche/): Parte dos brasileiros ainda debocha do episódio da independência brasileira. Pouca gente estudou o assunto, pesquisou a história e se compraz em achar graça e ridicularizar o ato. Bobagem ou falta de autoestima nacional. Seria o inconsciente coletivo do povo? A independência das colônias latino-americanas já vinha acontecendo há tempos, seguindo o exemplo da América que se libertou da Inglaterra, em luta que durou de 1775 a 1782, mesmo após a independência em 04 de julho de 1776. Os latino-americanos aproveitaram o exemplo da América e a invasão francesa em Portugal e Espanha por Napoleão Bonaparte, destronando os seus soberanos, propiciando a onda de rebeldia nas colônias. Foi a essa época que surgiram, entre muitos, Simon Bolívar. Miranda, Hidalgo, San Martin e Iturbide, com os processos de libertação da Venezuela, México, Chile, Colômbia, Equador, Argentina e outros. O enfraquecimento dos países colonizadores, Espanha e Portugal, oferecia clima propício, e isso ajudou a eclodir um sentimento de revolta e a procura da independência. No caso específico do Brasil, surgiu em 1820 o regime constitucional proclamado pelos portugueses, mas a pressão dos separatistas criava condições para a independência. D. João VI, como todos sabem, foi chamado de volta à Portugal em abril de 1821, deixando seu jovem filho D.Pedro I, como regente. A esse tempo, a maçonaria brasileira, talvez procurando cooptar D.Pedro I, outorgou-lhe o título de “defensor perpétuo do Brasil”, aconselhando-o a não obedecer às ordens de Portugal. A partir desse e de outros fatos, surge o episódio do Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, e começa a história que todos conhecem. O não derramamento de sangue no episódio da independência brasileira parece ter frustrado alguns historiadores e patriotas, apelando para o deboche, perdurando até hoje. O que essas pessoas não atentam é que o Brasil estava cercado de lutas libertárias em todo o continente e isso foi o elemento indutor do processo que se fez, graças a Deus, pacificamente, pois não houve resistência de Portugal, sem forças, pois às voltas com seus próprios problemas. Criava-se, naquele episódio, uma característica própria da nação brasileira. O diálogo sempre tem superado as questões ideológicas. País gigante, não viveu grandes episódios localizados ou generalizados de insurreições, guerrilhas significativas, revoluções ou movimentos separatistas. Com o seu imenso território, tem oferecido a nós brasileiros, apesar de tudo, esse clima de liberdade, euforia e a capacidade de superar os nossos problemas, ainda tão grandes. Em meio a denúncias de corrupção, às procelas da globalização, acrescidas do canibalismo interno das grandes empresas nacionais, o Brasil vive um momento muito especial, pois tem que se firmar como nação independente, neste mundo comandado por corporações transnacionais que desrespeitam fronteiras, descaracterizam culturas e corrompem instituições e governos. Para isso, mais uma vez, temos que nos unir e, sem deboche, procurar consolidar a nossa independência, comum a todos os que nasceram e vivem neste país tão maravilhoso. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/09/2000. - [O AMOR MATA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-amor-mata/): Li muito do que foi escrito pelos grandes jornais e revistas brasileiros acerca do assassinato da jornalista Sandra Gomide pelo ex-namorado Pimenta Neves. Muito sensacionalismo, corporativismo, apelos sentimentais e pouca análise crítica. Parece que todos os jornalistas foram apanhados de surpresa, pois, via-de-regra, a imprensa dita regras, insinua culpas, antecipa julgamentos e toma partido. De repente, ficou atônita. Um jornalista era um assassino; uma jornalista, a vítima. Imaginem, só para raciocinar, se o assassino tivesse outra profissão. Teria, talvez, sido linchado, pois a imprensa sensacionalista poderia incitar populares a isso. Para encerrar esta parte da história, fica apenas uma lição elementar: jornalista é gente igual a todos. Dito isto, fiquei me indagando, por quê a falta coletiva de lucidez? Por quê não se considerou a fragilidade do ser humano, tão clara para Isaiah Berlin, ao dizer: “A noção do todo perfeito, a solução final, em que tudo o que é bom coexiste, não me parece apenas inatingível- isso é um truísmo”. Como os jornais e as revistas não me deram respostas convincentes, procurei me valer, lá no Rio de Janeiro, de uma leitora e amiga. Ela é, para mim, uma pessoa capaz de emitir opinião, pois, na sua condição de psicanalista, costuma escrever artigos e ensaios para revistas especializadas Vejam o que Thaís Oliveira nos diz sobre o comportamento de Pimenta: “A ligação que mantinha com ela, graças à sua idade, lhe dava uma espécie de garantia contra a idéia de envelhecimento e portanto de morte. A origem narcísica do desespero de Pimenta pode ser enquadrada no que foi designado pelo psicanalista Heinz Kohut como “fúria narcísica”. Essa reação pode ocorrer quando uma pessoa, ferida em sua vaidade patológica – e aqui não importa o seu grau de cultura e experiência – é tomada por uma agressividade descontrolada que anula praticamente sua racionalidade. Nesse estado, ela age tomada por grande impulsividade, com o intuito de punir o responsável pela sua dor, pela perda de seu equilíbrio.” Thais, finalmente, vai ao crime: “ao rejeitar Pimenta, privou-o da impressão de ser ainda um homem jovem, poderoso , viril e, portanto, protegido da morte. Ao invés de entrar em depressão ou sentir tristeza com a perda da namorada, o jornalista a puniu como ‘responsável’ pela ‘fúria narcísica’ que lhe foi imposta, invertendo a situação e fazendo com que ela, que era de fato jovem, viesse a morrer... Sandra, sem saber, pôs um ponto final à situação de efeito “mágico” que sustentava a vida emocional de Pimenta e que o ajudava a negar todas as perdas que sofremos no processo de perda da juventude”. Para mim, a análise da psicanalista Thais Oliveira é um um bom subsídio aos que não entendem que o amor pode matar. E não se contenta em matar só a pessoa, o “criminoso-abandonado” transcende a dor da sua perda ao procurar sepultar/aniquilar, post-mortem, igualmente, o caráter, a família, a dignidade, enfim, os valores da abandonadora-morta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/09/2000. - [DISTRAÇÃO OU BURRICE?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/distracao-ou-burrice/): Eu posso até disfarçar para os outros a minha burrice, mas não consigo me enganar. Muitas vezes, as pessoas me chamam de inteligente e retruco que estão enganadas. Pensam ser falsa modéstia ou provocação de elogios. Nada disso, é a consciência, a cada dia aumentada, do agravamento da minha burrice. Ora, dirão vocês, como uma pessoa revela de público ser burra. E muitos dirão, até que enfim, ele confessou. Acontece estar eu meio ressabiado com os erros cometidos. E o pior não é só cometer. É repetir. Muitas vezes eu utilizo a desculpa de ser canhoto e, em decorrência disso, justifico cair de escadas, bater com a cabeça na parede, tropeçar em batentes, entrar em rua na contramão etc. Poderia dizer, por ser verdade, em minha defesa, que sou distraído. Vá lá que seja, mas repetir os mesmos erros, sempre, só pode ser algo mais que distração. Uma vez, em Londres, deixei de morrer por um triz, olhei para um lado da rua e não vinha veículos, atravessei fagueiro e quase ia esmagado por um daqueles ônibus de dois andares. É elementar: se eu fosse inteligente, deveria ter colocado na minha cachola que a mão de direção na Inglaterra é a inversa da do Brasil. Tem um cara que com quem não falo desde menino. À época, ficamos "mal de sangue-a-fogo". O problema é que tento me lembrar a razão e não consigo. A próxima vez que encontrá-lo, vou perguntar: Você pode dizer por que deixamos de falar?. O ruim será se ele ainda lembrar e tiver raiva. Este ano já fechei, em três ocasiões diferentes, a porta da minha casa com a chave por dentro. A primeira, foi exatamente na manhã do dia primeiro de janeiro. A última, anteontem. Nesse dia, além de trancar a casa, eu usei o micro-ondas de forma errada, ocasionando a quebra de um prato, queimando toda a comida e deixando a cozinha cheia de fumaça. Não espalhem para ninguém: vez por outra, eu mesmo ligo para o meu celular, tentando encontrá-lo. Pode parecer engraçado, mas é verdade. Já fiz teste para saber se estou bom do juízo e o médico riu para mim, como a dizer: que juízo? Recomendaram-me tomar um remédio natural excelente para a memória capaz de evitar esses erros frequentes. O problema é ter esquecido o nome do remédio e não lembrar do nome da pessoa que me recomendou. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/08/2000. - [O SUBMARINO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-submarino/): Já utilizei velocípede, bicicleta, motocicleta, carro, caminhão, ônibus, ultraleve, uma espécie de paraquedas monitorado, aviões de todos os tipos, helicóptero, mas nunca tive a coragem de viajar num submarino. Na verdade, uma vez, num desses parques de diversões americanos, fiz “uma viagem ao fundo do mar”, em um simulacro de submarino, parece que chamado de "Yellow submarine", em alusão à música dos Beatles. Eles tentam reproduzir todas as sensações, mas é só uma viagem brevíssima e à flor da água. Como cinéfilo, já vi muitos filmes centrados em viagens submarinas, mas sempre parece que vou me afogar na quantidade de água que circunda um submarino no silêncio e na pressão existentes no fundo do mar. É claro que há as belezas da flora e da fauna marinhas, mas meu elemento é a terra. Nem de nadar no mar eu gosto. Sempre o considerei um ente indomável que se sente conspurcado com tudo o que lhe é estranho e mexe com as suas entranhas. Os submarinos são elementos estranhos aos oceanos, especialmente os nucleares que tem a sua razão de ser na possibilidade de lançamentos, entre outros, de mísseis de guerra na direção mar-solo com alcance de 4.000 km. Conclui-se, facilmente, que um submarino nuclear não é uma nave comum de pesquisa, mas integrante de um sistema de armamento estratégico de um determinado país. Essa conversa preliminar é para mostrar como estavam, estão, estiveram ou estarão (sub)metidos os 118 tripulantes do submarino nuclear russo Kursk que, por um defeito técnico ou sabotagem, ficou à deriva no fundo do mar de Barents, a noroeste da Rússia, em águas internacionais. Junto com os 118 tripulantes estão 24 mísseis. Foram os americanos que inventaram o submarino nuclear, em plena guerra fria dos anos 50. Os russos não se fizeram de rogados e logo dominaram a tecnologia. O resultado está ai, 118 pessoas ameaçadas de uma morte anunciada em toda plenitude. Não vale falar nos acidentes passados, pois, no caso em espécie, o passado só deveria ser referido como uma forma inteligente de aprendizagem para o presente. Tento imaginar a convivência, nestes dias, dessas 118 pessoas, constituída de técnicos em balística, a oficialidade e meros marinheiros. Todos, seres humanos, com vínculos fortes – ou tênues – aqui na terra, onde suas famílias indefesas torcem pelo sucesso da operação resgate, pois o oxigênio só dá para mais cinco dias. É claro que este não é o único problema que a televisão globalizada e catastrófica nos mostra, mas pincei esse fato para mostrar a minha angústia kafkaniana em saber que sempre algo pode acontecer pela insensatez dos homens. A Rússia, herdeira presuntiva dos antigos poderes da U.R.S.S., é o exemplo de um país que ainda não se definiu entre levar avante os mirabolantes sonhos de superpotência ou acabar com a miséria das classes menos favorecidas, elas que, no começo do século, exterminaram a família do Czar Nicolau, que pode vir a ser, paradoxalmente, canonizada – em bloco- pela Igreja Ortodoxa Russa. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/08/2000. - [PAI AO QUADRADO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pai-ao-quadrado/): Um dia desses, ouvi um avô compenetrado dizendo ir ensinar o aprendido na vida a seus netos. Suas experiências seriam passadas para servirem de referência aos netos. Ora, a experiência dos avôs quase nunca é válida para a nova realidade vivida pelos netos. A velocidade atual do mundo envelhece o dia de ontem. Daí eu pensar diferente. Neto é para desfrute. Neto é uma espécie de filho de estimação. Avô não é para ensinar neto a escovar os dentes, estudar nas horas certas, tomar remédio para isso ou aquilo, nem a se portar direitinho na frente das visitas. Neto é para bagunça, desfrute, prazer puro. Fui um pai presente. Tentei fazer a minha parte. Acompanhei as primeiras aulas do maternal, conferia boletins escolares, servia de despertador pela manhã, ia aos pediatras, ajudava nos estudos, comparecia a reuniões de pais e mestres etc. Fui não, sou um pai presente, continuo cobrando. Imaginando estar fazendo tudo na melhor das intenções. E o pior é que posso estar redondamente enganado. Paciência. Agora, com netos, a história é diferente. É só bagunça. Sou, para quem não sabe, um avô novato. Tenho pouco mais de três anos na profissão que é exercida com uma certa dificuldade, pois se o pai é um ser periférico, imaginem um avô. Mãe e avó acham que eu só quero perturbar. E, o pior, é que elas podem estar certas, pois não acredito que possam existir regras no relacionamento entre pessoas sem juízo. Umas porque ainda não têm e, a outra, por estar pouquíssimo preocupada em usar o pouco que tem – se é que ainda resta algum... Na fase em que estou vivendo, isto é, na infância do meu avozado, tenho mais é que mandar tudo para o alto. Pena eu não exercer o papel de avô bagunçador em toda plenitude. Ainda tenho milhas e milhas a percorrer antes de dormir, como diria o poeta americano Robert Frost. De qualquer modo, vou soprando os pés, fazendo cócegas, dando biscoito, fazendo barulho na barriga, beliscando, de leve, e batendo testa com testa. Pensando bem, talvez tudo isso deva ser feito com os filhos. E se faz. Mas, tem a história de estabelecer limites, colocar para estudar, ensinar bons modos, levar ao médico, dentista etc. E, aí, a história complica um pouco. Com neto, a coisa muda de figura. Não precisa bancar o durão e fazer de conta que está com raiva. É, exatamente, o oposto. O avô deve se especializar em “desensinar”, em confundir, em contar estórias sem pé, nem cabeça e não se importar que o filho ou a filha diga que ele está deseducando. Está mesmo. É para isso que avô serve; uma espécie de Piaget aloprado, pelo menos, enquanto os netos não crescem. Mesmo sendo você um avô neófito, como eu – uma espécie de aprendiz de avô –, não vá muito nesta minha conversa maluca. Você tem o seu jeito. Estou falando do meu, que não serve de exemplo para ninguém. Na realidade, não posso – e nem quero – dar exemplos. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/08/2000. - [VIAJAR SEMPRE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/viajar-sempre/): Um dia desses fui tomar café em um flat da orla. Alta estação, muita gente com a parafernália típica de turista ao lado das mesas. De repente, um senhor colega em idade do FHC, mas já assumido como velho, pede a uma garçonete para tirar uma foto dele ao lado do “buffet” e ainda fez um gesto como se tivesse bebendo alguma coisa. Logo após, no “lobby” vi que ele fazia parte de um grupo de terceira idade que estava em desses pacotes turísticos que prometem o céu e a terra, sem dizer que falar com Deus é opcional. Vi muitos deles em passos arrastados, uma das características do declínio corporal. Apesar disso, pareciam vivazes, acompanhados de suas gordas mulheres, subindo, com a ajuda de um guia, os degraus de um ônibus de turismo que atrapalhava o trânsito e impedia, inclusive, que meu carro saísse. Fiquei quieto, esperando o último subir e, nesse entretempo, me perguntei porque muita gente só começa a viajar quando o corpo já não é tão ágil e os programas parecem longos e cansativos, a ponto de, no horário da tarde, ser comum que muitos turistas cochilem, enquanto os guias se esgoelam falando das belezas do lugar. Viajar é, para mim, uma das melhores formas de se aumentar conhecimento, de crescer como pessoa, de entender as diferenças entre os povos, ter uma exata dimensão do local em que vivemos e captar o ridículo dos que viajam sem norte, sendo guiados como cordeirinhos em visitas tão superficiais quanto os seus interesses. No século XXI que já desponta, em poucos meses, de parto natural, seria importante que os colégios, as faculdades, as associações de classe, os clubes de serviço, as congregações religiosas e, especialmente, as famílias, estimulassem viagens a seus membros. Sei que alguns já fazem isso, mas são as exceções. Viagens para poucos e escolhidos lugares, onde a pessoa tivesse mais tempo de conhecer o que lhe interessasse, de passear sem destino, de tomar um ônibus e se misturar com o povo, em meio a feiras, comícios, passeatas, concertos, ofícios religiosos e nos parques onde muita gente lagarteia olhando o céu. Não valem as viagens a Disney, as compras em New York, nem as excursões de três semanas à Europa com visitas a cinco ou seis países, onde o que mais se faz é mala e tomar trem, avião ou ônibus. O que deve valer é sair do quadrado do imposto por agentes de viagens, muitos deles sem cultura, loquazes em propagar maravilhas de lugares de onde recebem comissões. Para isso, é preciso aprender a viajar cedo, sem medo de errar, sem compromissos, por exemplo, com grupos onde sempre um se perde ou atrasa, prejudicando os demais. É preciso mudar, pois como já dizia Camões há quinhentos anos: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a esperança”. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/08/2000. - [O ESCREVER EFÊMERO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-escrever-efemero/): Li, com interesse, um artigo do filósofo e escritor (nem todo filósofo é escritor e recíproca é verdadeira) espanhol Fernando Savater sobre “A importância do efêmero”. Nele, Savater fala de sua preocupação com as novas gerações virem a esquecer de ler jornais, em troca da navegação pela Internet e dos “chats” de conversação. Eu penso que sempre existirão jornais, talvez as formas venham a ser diferentes, mas as pessoas gostam do prazer tátil de abrir um jornal e procurar o que lhe interessa ou atrai. As novas gerações precisam ser incentivadas, especialmente pelas famílias e os próprios jornais, deveriam ser mais alegres, menos sisudos e ter uma forma de comunicação mais leve para conquistar novos e jovens leitores. Voltando a Savater. Para alegria minha, ele elogia os artigos publicados em jornais - mesmo os de tipia tão diminuta como este, que força a vista do leitor. Ele diz que a efemeridade do artigo é o fundamental: “Nenhum artigo, por melhor ou certeiro que seja, sobrevive muito além do dia em que sai impresso. Pelo menos não é saudável para quem o escreva pense que está cunhando um ditame para os séculos vindouros, devendo contentar-se em se dirigir àqueles que compartilham com ele a luz desse mesmo amanhecer”. No meu caso, é o que tento fazer, com os poucos dotes de que disponho. Compartilhar com os meus escassos leitores, entre eles, por exemplo, uma advogada, uma procuradora, um renomado engenheiro, uma funcionária pública e uma cerimonialista que me alegraram, em encontros fortuitos, falando, no mesmo dia, sobre o artigo do domingo passado (O Rio, o mar e a amiga). “A arte do articulista com certa inspiração a aprofundar seus temas consiste em falar das coisas que passam como se não fossem passar. É um autêntico desafio, alegre e difícil ao mesmo tempo”, afirma Savater. Vamos por partes. Quem escreve por prazer, gosta de saber-se lido. Quem escreve, não tem também o direito de perder-se em fraseado bonito, ôco e inconsequente. Tem que ser simples e rápido, pois o articulista é um sequestrador do tempo de seus leitores e imagina poder criar uma espécie de “síndrome de Estocolmo” em que refém e sequestrador possam vir a gostar um do outro. O articulista deve saber sequestrar o leitor da sua realidade, especialmente o escrevinhador dominical que compete com a preguiça, o sol, o mar, o rio, a televisão, o cinema, o futebol, o ofício religioso e o velho e bom livro ali do lado. Savater fala dos artigos de Chesterton (Gilbert Chesterton, escritor inglês, falecido em 1936) e diz: “nada por aqui, nada por ali, e de repente surge uma brevíssima teoria sobre o que quer que seja, em que se concentra mais pensamento e mais sabedoria que em qualquer volume filosófico escrito por alguns de meus colegas acadêmicos... Para essa escória, nada mais respeitável que o pedantismo que ocupa calhamaços e vem com notas de rodapé”. O segredo parece estar nisso, sair falando sobre coisa e lousa e,de repente, passar uma ideia, mínima que seja, como a de se mostrar aos filhos o suplemento infantil em uma atitude sábia, para incutir-lhes o hábito prazeroso da leitura.Pois ler nunca é tempo perdido, mesmo que o escrito não seja bom. Nesse caso, exercitou-se, no mínimo, o juízo crítico. No máximo, pode-se virar a página. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/07/2000. - [O RIO, A AMIGA E O HOTEL](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-rio-a-amiga-e-o-hotel/): Parece nítida a imagem. A Av. Atlântica ainda era estreita e abrigava, do posto 02 ao 06, vários casarões e sobrados. Em um deles, a proprietária, uma ex- nobre viúva de muitos e muitos anos, hospedava moças de “fino trato, bem recomendadas e de boa família”. Entre elas, uma amiga que viera passar as férias de julho no Rio. Eu me deslocava para visitá-la lá da Ilha do Governador, onde ficava na casa de uma tia. Em horários marcados para sair e voltar, passeávamos alegres e despreocupados. Um desses passeios era ir até à esquina da Rua Sá Ferreira, onde se erguia o bonito e majestoso Miramar Palace Hotel. Lá, um empresário destas plagas, hospedava-se com toda a sua família por semanas seguidas. Éramos recebidos no “lobby” e os meus olhos de jovem ficavam impressionados com a suntuosidade da escadaria, a beleza dos lustres, o brilho dos mármores e a vista do mar descortinada de suas sacadas. Aquilo ficou gravado na minha memória. Anos após, já formado e começando a minha vida profissional, hospedei-me no Miramar para tentar sentir a mesma sensação gerada no primeiro impacto visual. Era julho, novamente, fazia o mesmo friozinho gostoso e comportado do Rio e recebi amigos no mesmo “lobby” e no bar. Senti-me infantilmente vaidoso de estar no lugar idealizado na primeira juventude. Semana passada, mesmo sem precisar, mas para um ajuste de contas com o passado, voltei a ficar no Miramar. Aos meus olhos de hoje, não passa de mais um velho e razoavelmente conservado grande hotel do Rio, que perdeu parte de seu charme ao ceder sua varanda térrea, defronte ao mar, para uma cadeia estrangeira de sorvetes sofisticados. Hospedei-me no nono andar e vi, por breves dias o mar encoberto pela fria neblina deste novo julho, décadas depois. Fiquei olhando o imenso apartamento, com sofás, mesa de jantar e quarto de dormir, e tudo voltou à tona. Mas não havia mais perguntas e as respostas pareciam não fazer mais sentido. A Av. Atlântica, alargada, já não comporta mais o fluxo de veículos, e é ainda essa mistura de encanto, sedução - e agora - permanente medo. Os sobrados e casarões foram, há muito, implodidos em nome do progresso e a amiga de então quedou-se sozinha em sua vida povoada de leituras, pela madrugada, de livros, pareceres e processos. Eu, por outro lado, já não tenho os fervores da juventude e da imaturidade e, o barulho seqüenciado - e monocórdio - do mar parece mostrar, sem nenhuma dúvida, que os sonhos são engolfados pela realidade, que nos puxa para frente, mesmo que as lembranças do passado estejam por perto. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/07/2000. - [O DINOSSAURO E O FUTURO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-dinossauro-e-o-futuro/): Eu sou um dos dinossauros da profissão de administração. Fui aluno da primeira turma e, se me lembro bem, junto com um punhado de colegas, andei ajudando no processo de reconhecimento do curso de administração, na regulamentação da profissão e até nas escolhas do símbolo e da cor da pedra do anel de formatura. A profissão era absolutamente nova. Ninguém tinha idéia exata do que aprender e, muitos professores, do que ensinar. Era um processo de ajuda mútua, de erros e acertos, ajuste de currículos e mudança de sede emprestada, para alugada e, finalmente, própria. Foi uma luta muito grande. Pouca gente sabe disso e, os poucos que sabem, não lembram ou fazem idéia das idas ao MEC e das vindas de comissões do Ministério de Educação para aprovar o curso. Vestibular, pasmem, foram dois. O primeiro não valeu, apesar de aprovados e cursando até outubro. Tivemos que fazer um novo e repetir o primeiro ano. Alguns desistiram, outros foram em frente. Hoje, passados tantos anos, vejo que a luta não foi sem sentido. Da Escola de Administração já saíram ministros, um governador e um vice (os atuais), prefeitos, senadores, deputados federais e estaduais, administradores de empresas multinacionais, nacionais, regionais, estaduais e locais. Isso é um dado bastante positivo e pode servir de referência para a história. Por outro lado, sei que isso pode parecer coisa do passado e "o passado não move moinhos". Acontece que não temos moinhos de vento e o passado, neste caso, é que dá autoridade a algumas pessoas para propor uma revisão crítica da carreira do administrador e a conseqüente melhoria da qualidade do ensino. Melhorar significa dar uma qualidade maior às coisas boas que são feitas. Melhorar é tornar-se capaz em face das condições emergentes deste século novo que vai começar em poucos meses. A globalização e a competição desenfreada germinaram tudo isso. Nós estamos ai com um mundo completamente diferente, por exemplo, de há dez anos. A velocidade das transformações dos processos de gestão cria essa angústia em profissionais recém formados que não têm ferramentas para ingresso no escasso mercado de trabalho e, por outro lado, elimina os que não souberam se ajustar ao mundo informatizado e prenhe de novas informações e conhecimentos. Não basta, por exemplo, fazer esses cursos de especializações e MBAs, muitos sem consistência e visando apenas fornecer diplomas em troca de dinheiro. Recentemente, soube de um processo de seleção promovido por um "headhunter" para "trainees" ou profissionais recém-formados. Fizeram uma pré-seleção com avaliações específicas da profissão e de conhecimentos gerais. Passaram uns 20% dos inscritos. Na segunda etapa, colocaram todos em uma sala às 7.30 horas da manhã e disseram: quem não leu os jornais de hoje pode sair da sala. Em seguida: quem não falar inglês fluentemente, pode sair da sala. Quem não souber utilizar a informática como ferramenta básica, até logo. Os poucos que ficaram ainda tiveram que fazer uma última prova. O mercado está a exigir mais capacitação, excelência e eficácia. E o mercado não manda mais avisos. Age de olho no futuro que se prenuncia nebuloso para as pequenas e médias empresas e cruel para os profissionais que não estiverem de acordo com as suas exigências, cada dia maiores e mutantes. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/07/2000. - [OPINIÕES](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/opinioes/): Algumas pessoas têm me perguntado sobre a repercussão que teve o meu livro "Sobre a Vida e o Amor". De princípio, evitei falar. Mas, por dever de gratidão, reproduzo, em rigorosa ordem alfabética, algumas opiniões generosas. Nenhuma delas foi provocada. Todas absolutamente espontâneas, umas publicadas na imprensa, outras remetidas diretamente para mim. A todos, meu muito obrigado. "Tenho lido assim: saboreando aos pouquinhos. Assim, vem a alegria, a ternura, a reflexão, o sonho, o criador, força, nostalgia, saudade, sensualidade, tranquilidade, graciosa descrição, tristeza, ação, fraternidade e verdade. Tantas coisas". Ana-Isa Barbosa - pedagoga "Cronista bom é aquele que tem olhos para ver e alma para sentir o drama do cotidiano. Suas páginas agradam não só pela suavidade do estilo como pela objetividade dos conceitos". Blanchard Girão - escritor "Gostei bastante da maneira com que você apresenta certos temas, atacando mitos, criticando o ridículo, denunciando o absurdo ou, então, expondo seus sentimentos, suas vivências, suas alegrias, seus sofrimentos. De tudo, o que mais me agradou, foi a sua coragem de se expor". Claudia Broetto - analista Bacen "Concordei com suas colocações. Não só concordei. Ri e chorei. A sua linguagem é simples, precisa e correta. Suas ideias são ótimas e você sabe tirar do cotidiano salutares lições de vida". Célia Vause - professora USA. " Sabia que você escreve bem, é lido e sabe diversificar os temas para as suas crônicas. Você não me surpreendeu mais, porque o conheço de anos atrás, sempre inteligente..." Eduardo Campos - escritor "Gostei muito. Também me diverti com as artimanhas que usa para esconder, ou proteger sua individualidade. Parece que é ET, algumas vezes pairando sobre o bem e o mal, a vida e o amor. Conhecedor profundo de seus mistérios, todos". Eliana Palma, radialista "Gostei sobremaneira do modo como consegue ser profundo e sucinto ao mesmo tempo. Você se revelou um homem sensível e justo diante da vida, com opiniões e conselhos sábios". Neusa Veríssimo -mestra de Yoga "Foi lendo seu livro na varanda da pousada onde me hospedei por três dias que tive o ensejo de violar o espaço sagrado de seu interior através das palavras que suas crônicas me proporcionaram." Ubiratan Aguiar - dep. federal "Amei sobretudo 'Meu pai' e os artigos em que você fala sobre sua dependência das mulheres, isso é grande, um homem inseguro não revelaria isso". Nícia Cláudia Marcílio - juíza do trabalho "Além de um belo conteúdo, este livro tem servido para um leitor atento verificar que, no Brasil, as coisas nunca mudam, e quando mudam, quase sempre, para pior. Eu gostaria de lhe pedir permissão para emprestar este seu material, para alguns amigos, professores e estudantes do Brasil, que se encontram aqui em Cornell." Raimundo Souza - professor doutor visitante, Cornell University-U.S.A "Aprendo e me delicio com os seus textos". Roberto Martins Rodrigues - professor e procurador da república. " Ficou mesmo bonito. Voltei a folhear os seus artigos e gostei de relê-lo, mais do que da primeira vez". Saulo Neiva - professor doutor, França, prefaciador do livro. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/07/2000. - [O FUTURO MEXICANO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/o-futuro-mexicano/): O México está vivendo neste domingo, 02 de julho, uma data extremamente importante. Serão realizadas eleições gerais em todos os níveis. Cerca de 58 milhões de mexicanos irão às urnas para escolher o novo Presidente da República, 500 deputados, 128 senadores, prefeitos e vereadores. O México é pouco conhecido para a maioria dos brasileiros que o associam a "sombreros", "tequillas", "tacos", mariacchis", às praias de Cancún e Cozumel, às novelas que a SBT retransmite e à grande população (20 milhões) de seu Distrito Federal. O México é mais que isso .É um país que luta tenazmente para conseguir um estágio de crescimento que permita a diminuição das suas desigualdades sociais. E o faz demonstrando uma grande pujança econômica, após a crise eclodida em dezembro de 1994. O petróleo e as empresas montadoras decorrentes do NAFTA, entre outros, dão ao México um relativo suporte para seguir em busca de seu grande destino. Com uma população de quase cem milhões de habitantes, vive um instante importante nas suas exportações com 150 bilhões de dólares neste ano de 2000 a uma taxa de crescimento de 5% do seu Produto Interno Bruto, com uma característica especial. Das 40 mil empresas exportadoras estabelecidas no México, 95% são pequenas e médias Sendo a segunda economia latino-americana - e o país latino mais próximo dos Estados Unidos- está sob os holofotes da imprensa internacional, inclusive brasileira, neste instante significativo de sua trajetória em busca da sua consolidação democrática. Observadores, jornalistas e integrantes de organizações governamentais internacionais e ONG's estão dando especial atenção ao processo eleitoral de hoje que escolherá, para um único mandato de seis anos, o novo presidente da República, pois no México não há nem reeleição, tampouco segundo turno. Esse caldeirão,reunindo progresso e ainda desigualdades, tem sido o principal argumento dos três principais candidatos à sucessão do Presidente Ernesto Zedillo que assegura um pleito limpo, pois, segundo ele "o sistema eleitoral mexicano é eficiente e os resultados serão transparentes". Os três candidatos mais fortes são Francisco Labastida Ochoa, do Partido Revolucionário Institucional, Vicente Fox Quesada, da Aliança pela Mudança (Pan/Pvem) e Cuaúhtemoc Cárdenas da Aliança por México (Prd/Pt/Psn/Pás/Cd). Os candidatos com mais chances de vencer são Francisco Labastida Ochoa e Vicente Fox Quesada que estão praticamente empatados em todas as pesquisas de opinião levadas a efeito. Com matizes ideológicos semelhantes, os dois principais candidatos focaram as suas campanhas em ataques aos adversários e na indicação de soluções para os problemas da nação, sob a proteção da dualidade cósmica da águia e do jaguar, que representam o dia e a noite, o céu e a terra mexicanos. Isto sem falar em orações à Virgem Morena (N.Sra. de Guadalupe), apesar do país ser laico. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/07/2000. - [PENSAR EM VOTAR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pensar-em-votar/): Este ano teremos eleições municipais. O Brasil, de ponta a ponta, vai escolher vereadores e prefeitos. Você tem consciência disso? Faltam apenas 90 dias. A propósito, você sabe bem o que faz um vereador e um prefeito? como funcionam uma prefeitura e uma câmara de vereadores? como são feitas as leis municipais? o que é uma lei? para que serve? como o dinheiro público - nosso - é empregado? Creio que o TRE, as escolas, colégios, universidades, organizações não governamentais e entidades de classe deveriam dedicar mais atenção às eleições. Todos, especialmente os jovens, deveriam receber informações sobre o voto, partidos e seus programas, candidatos e seus planos, sistema de votação, processo de apuração, a declaração dos eleitos e os deveres e direitos de cada vereador e prefeito. É preciso deixar claro que os vereadores e prefeitos são delegados do povo, ou mais claramente, são a cara e a voz do povo que os elege. Vejam como surgem, por exemplo, os candidatos a vereador: Imaginemos um dirigente comunitário ou corporativo com a capacidade de liderança em um bairro pobre ou de classe média ou em determinada categoria profissional. Esse dirigente se destaca e um partido lhe oferece uma legenda, isto é, a oportunidade de ser candidato a vereador. Ele preenche uma ficha de filiação a esse partido e torna-se apto a se candidatar. Vai para uma convenção como pré-candidato e, nessa convenção, passa a integrar a lista de candidatos do seu partido à Câmara de Vereadores. Faz propaganda, visita amigos, participa de reuniões, comícios, debates etc. e, se ao final do pleito, for um dos eleitos, terá um mandato por quatro anos. A palavra mandato deixa claro que alguém lhe deu essa oportunidade. Quem manda no vereador, e no prefeito é o povo. Pouca gente sabe disso e até imagina o contrário. Procure saber da vida pública dos candidatos a vereador e prefeito, especialmente se são candidatos a reeleição. Veja se não estão metidos em escândalos, respondendo a processos e se os seus próprios partidos estão satisfeitos com eles. Verifique nos casos dos candidatos a Prefeito se têm experiência administrativa, o que comandaram nas suas atividades pública e privada, se conhecem os problemas de sua cidade e quem são as pessoas que o assessoram e acompanham. Tem aquela velha estória: "diz- me com quem andas, que te direi quem és". Na próxima eleição de 01 de outubro você vai ter oportunidade de mandar um vereador para a Câmara e um prefeito para dirigir a sua cidade. Mal comparando, é como se você estivesse delegando - dando uma procuração ou mandato - a sua capacidade de decidir sobre o futuro da cidade onde vive a duas pessoas em quem confia e, principalmente, a quem pode cobrar prestação de contas. Temos tempo. Se você já votou, procure se lembrar em quem votou nas últimas eleições municipais. Caso os seus candidatos tenham sido eleitos, procure saber o que eles fizeram. Telefone, informe-se, leia jornal, veja televisão, participe de comícios de vários candidatos e pense muito. Procure saber como esses candidatos viviam antes de se eleger e como vivem hoje. Perca - ganhe, na verdade - tempo analisando os nomes das pessoas que lhe pedem voto e imagine como se comportarão após eleitas. Dedique um tempo a pensar neste assunto. Converse, ouça e decida por você mesmo. Se você pensar mais e escolher melhor poderá começar a entender o que é cidadania e o poder do voto. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/06/2000. - [ANÁLISE E INTUIÇÃO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/analise-e-intuicao/): Os tempos de hoje são, essencialmente, analíticos. Quase toda pessoa ou microempresa pode ter um computador e até o mais modesto merceeiro sabe fazer contas, estabelecer comparações e tirar conclusões. Vivemos uma época de um aparato tecnológico exuberante. Todos se servem da tecnologia nas mais diferentes áreas do conhecimento. Mas, são poucos os atrevidos a usar a intuição nas decisões mais intrincadas, sejam pessoais ou profissionais. Até mapa astral e horóscopo são feitos por computador, imaginem. Os anatomistas e os neurologistas falam que possuímos, nos nossos cérebros, dois hemisférios: um do lado esquerdo, cuidando da análise e outro, do lado direito, valendo para as intuições. Segundo eles- se não estou errado - os canhotos têm as ligações cerebrais invertidas. Eu sou canhestro, logo os meus fios cerebrais estão trocados. Igualmente, dizem ser as mulheres mais sensíveis, humanas etc. Teriam elas também as ligações trocadas? De minha parte, pelo sim, pelo não, acho a intuição muito forte no meu dia- a- dia. Não cresci com a tecnologia, cresci com as humanidades e uma tintura muito tênue de ciências exatas. Aprendi a ler e escrever e tomei gosto. Aprendi a fazer cálculos e a coisa ficou por ai. O fato é que, por necessidade, fui, aos poucos, ingressando no mundo da tecnologia e, consequentemente, das análises lastreando decisões, de modelos a serem respeitados se desejamos que as coisas saiam certas. Por cauda de tudo isso, sou um bi-hemisférico. Tenho horas em que me vejo como um analista racional e, paradoxalmente, me considero um intuitivo nato. É claro que essa intuição já me fez poucas e boas, quebrando a cara muitas vezes, especialmente acreditando em pessoas que eram um simulacro do que aparentavam ou não me aproximando mais de gente sem máscaras e autênticas. Igualmente, as minhas análises, precedidas de cálculos e estudos, também já falharam muitas vezes. O que pode parecer uma ambivalência, na realidade é, pelo menos para mim, uma graça que me confere a capacidade de acertar e errar pelos dois lados, mostrando-me o ser comum e falho que sou. Algumas pessoas chamam essa dualidade de pensamento integrado. Esse pensamento integrado faria parte de uma revolução mental no cipoal do mundo tecnológico, sob pena de soçobrarmos no caos desrespeitador das glórias do passado e desmistificador, a cada dia, das vitórias presentes. Independente de tudo isso, se tivesse - e se fosse possível - de optar apenas por um hemisfério, faria, sem medo, a escolha pelo do lado direito. Nele são geradas as criações e a imaginação flui sem medo, aparecendo os “palpites”, as “sensações”, os "pressentimentos" ou o que os de língua inglesa chamam de “feeling”. Apesar dos meus erros nas intuições, repito, creio na empatia e me restam a sensatez e a sensibilidade de não acreditar apenas em números, gráficos, fórmulas ou postulados. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/06/2000. - [NÃO MORAR](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/nao-morar/): É claro que sabemos ser amanhã o dia dos namorados, véspera do dia de Santo Antônio. Mas, não sabemos por qual razão, independente da nossa vontade, tem uma frase martelando na cabeça: namorar é não morar. Essa frase veio sem pedir licença, com "gosto de gás" e impôs-se forte e já está ai, escrita. Convivemos com gente de todas as faixas de idade e sabemos ser a ideia básica do namoro o conhecimento, a explosão do amor e o acasalamento, o morar junto. Aí é onde o namoro pode bater asa, até o casamento aparecer e, mesmo sem querer, fenecer. Estamos convencidos de que os seres humanos foram feitos para amar e um dos pressupostos para amar pode ser a liberdade: estar-se preso a alguém pelos invisíveis laços do amor. Sonhar é um dos mistérios que nos mantém vivos. Por que nos rendermos ao cotidiano do pão e café, do banheiro dividido, da cara amassada ao acordar e da falta de ar em meio aos ventos que sopram e não afastam os males? Amor não é consórcio de problemas. Não morar talvez seja o mais romântico no namoro e diz do desejo de visitas e das premências em ver o outro, rever o rosto, sentir as mãos, aconchegar o corpo, ouvir a voz e escutar o silêncio, após tudo. Namorar não é sugar o mel, mas ver a flor desabrochar e sentir o seu perfume sem asfixiá-la, deixá-la livre, até que sua fragrância esvaeça, pouco a pouco, tornando-nos ébrio de sentimentos meio desataviados e, paradoxalmente, atados pelos liames do indizível, mas sensível e, até, palatável. Não morar pode ser a solução anti-habitacional do amor, mas talvez seja também a resposta gravitacional do escravo- livre que, como o João- de- Barro volta ao casulo pelo prazer que dá em construí-lo, sem a obrigação da perpétua residência. Como seria bom rimar namorar e morar, transformar em versos o que é diverso. Saber que, apesar de iguais, somos absolutamente diferentes e inexoravelmente destinados a uma solidão compartilhada (ou não) ou a namorar sem morar. Paradoxo pouco ortodoxo? Ou a irreverência de uma prudente imprudência? Tempos permissivos? Morar pode ser conhecer o todo. Pode negar a navegação da descoberta, das trilhas do desejo e dos arrecifes dos amuos. Morar, quem sabe, seja banalizar-se, tornar-se cúmplice de um crime não cometido, proscrito ou prescrito. Por outro lado, se livre estivermos voltaremos felizes em busca da água que sacia a garganta seca e amacia os lábios crestados. Não nos peçam para ser mais claros. Clareza em excesso cega e só os cegos aceitam guias, pois não têm alternativas. Sejamos essas pessoas confusas, difusas e, até, obtusas que têm a impureza necessária ao pecado de viver. Façamos do namorar o bem a vir e, do morar a inutilidade, o supérfluo, mas aquilo que talvez fuja à essência do devaneio e escancara a face velada da hipocrisia. O namorar é a esperança. O não morar é a fé no outro. O morar não deve ser a caridade indesejada ou a acomodação lentamente suicida. O morar deve ser a consciência amadurecida, independente das cobranças, mas produto da vontade e não da obrigatoriedade ou necessidade. Não se tenham como cínicos, descrentes ou desiludidos. Devemos ser, pelo contrário, um condão de esperanças aos que ainda acreditam que amarras não podem ser confundidas com amarás compulsoriamente pois, caso contrário, o (mesmo) teto cairá sobre nossas cabeças. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/06/2000. - [RETRATO DE DORIAN](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/retrato-de-dorian/): Era pouco mais que uma criança quando conheci Dorian Sampaio. Foi em dia festivo na casa dos meus pais e me puseram para falar. Ao terminar, ele me disse: esse menino leva jeito. Pouco tempo depois, fui com ele assistir a reuniões do centro cultural Humberto de Campos, se me lembro bem, congregando intelectuais e afins aos domingos pela manhã. No início dos anos 70, já era metido a empresário, quando Dorian me procurou para falar de um projeto que tinha em mente. Disse-me, em linhas gerais, da idéia de montar um anuário que contaria a história do Ceará e do seu povo, a exemplo do que já fizera Waldery Uchoa. Ele acertou comigo que desenvolveria o projeto por um determinado valor, independente de eu aceitar ou não participar. Dito e feito, depois de algum tempo, ele me entrega uma pasta (que lhe devolvi como relíquia em 1998) com todo o delineamento do que viria a ser o "Anuário do Ceará". Falei que a idéia era muito boa, mas fugia do foco do meu negócio, paguei e lhe desejei boa sorte. O Anuário do Ceará foi o sucesso que todos conhecem, mas Dorian tinha uma questão não resolvida com a política. Retirado de cena no auge da sua brilhante carreira parlamentar, Dorian desejou voltar e o fez de forma estóica. Lutando com a palavra e o caráter que Deus lhe deu. Não foi o bastante. Saiu tão digno quanto entrou, vencendo em Fortaleza, elogiado e respeitado até por adversários. No ano passado, ele, Demócrito Dummar e eu, nos reunimos para repensar o Anuário do Ceará. Fizemos algumas reuniões, mas o assunto não evoluiu. A par de tudo isso e, ao longo de todos esses anos, existia uma amizade respeitosa e francamente cordial. Na edição comemorativa dos 25 anos do Anuário ele me pediu para fazer uma espécie de prefácio, o que escrevi com prazer. No dia 25 passado, uma quinta-feira à noite, o vi sentado na platéia por ocasião do lançamento do excelente livro de Juarez Leitão, “Sábado, Estação de Viver”. Estava quieto, ouvindo atentamente as falas de seu ex-sócio Lustosa da Costa e a do próprio Juarez. Sábado, 27, dia em que dormiu para acordar na posteridade, o vi no começo da tarde em roda de amigos que freqüentamos há anos. Ele me deu um abraço e falou que havia recortado o artigo que escrevi sobre “Dona Margarida”. No dia seguinte, Edison Silva me liga informando da morte do Dorian. Fui imediatamente ao velório e olhei fixo para o seu rosto inanimado e lembrei do então vereador da “Vila São José” no Jacarecanga, onde montou uma prefeitura paralela para denunciar os desmandos do prefeito de então. Dorian, algumas horas depois, voltaria para pertinho da “Vila São José” e nesse instante deve ter reiniciado uma nova luta no ainda, para nós, insondável mundo eterno. Lembro que no dia do lançamento do livro do Juarez, que contém, entre outros, um retrato do Dorian, falei ao Gil Vicente Bezerra que andava relendo Oscar Wilde. Ao chegar em casa, naquela noite, abri “O retrato de Dorian Gray” e agora repasso um dos trechos que sublinhei: “sou de parecer que se o homem vivesse plena e totalmente a sua vida, desse forma a todo sentimento, expressão a toda idéia, realidade a todo devaneio...creio que o mundo receberia um novo impulso eufórico.” Esse era o retrato de Dorian. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/06/2000. - [SENNA VIVE](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/senna-vive/): Ao vencer mais uma das suas muitas corridas, Airton Senna disse " É engraçado. Quando acho que cheguei ao ponto máximo, descubro que é possível superá-lo". Ele era assim, só o próximo "grid" contava. Ayrton Senna foi, em vida, uma das poucas unanimidades do nosso país. No seu jeito manso de falar, na sua obstinada manutenção da privacidade e na loucura planejada de suas corridas. Era especial sendo simples e nem os milhões que conseguiu amealhar acelerando no pequeno espaço de um "cockpit", conseguiram freiar a sua indiscutível timidez. Quis a mão do destino que uma curva encurtasse a sua trajetória. Foi-se o corpo, mas seu espírito parece permanecer vivo e de uma maneira tão clara que o seu Instituto Ayrton Senna ocupa, com méritos próprios, a "pole position" dos avançados projetos de responsabilidade social operacionalizados no Brasil. Semana passada participei de duas reuniões em que, Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna pontificou. A primeira foi uma palestra, seguida de debates, em que ela mostrou competência, serenidade, fair play, agudeza de raciocínio e jogo de cintura. Psicóloga de formação e batente, elegante sem perder a simplicidade, voz pausada dos que não precisam gritar para serem ouvidos, foi concatenando idéias e fatos com um didatismo que pouca gente tem. Realçou, entre outras observações, que as pessoas jovens no Brasil têm potencialidades, mas não tem qualificação para responder às necessidades do mercado. O seu trabalho ajuda os jovens a se qualificarem. Recebeu homenagens e presentes, pousou com crianças e adolescentes, dividiu cerimoniosos beijinhos nas faces de pessoas que eram íntimas ou se faziam passar como tal. Ao final da palestra e dos debates atendeu, pacientemente, a todos os que queriam falar de seus trabalhos e não entenderam que o Instituto Ayrton Senna exerce uma ação proativa e pinça, após análises próprias, por este Brasil afora, projetos e parceiros para a obra que vai executando. Após a palestra, ela participou da segunda reunião, um jantar reservado. Mais uma vez pude constatar a fleuma de Viviane Senna que, a todos tratou com alegria e atenção, mas deixou patente o seu recato público. Ouviu discursos equilibrados, veementes e até extemporâneos. Após o jantar, distribuiu sorrisos, cumprimentos e, como uma mortal comum que é, não se fez de rogada e subiu, com classe, o alto estribo de um jeep, recolhendo-se ao hotel. De tudo o que vi, ouvi, senti e intui, ficou uma idéia recorrente: a de que, paradoxalmente, Senna morreu para viver. E vive pelas mãos de uma mulher capaz, dedicada a uma causa que conduz com lucidez, sem ares quixotescos, melodramas ou choros próprios de nós latinos, dando-nos exemplo e lição. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/05/2000. - [QUEM SOMOS NÓS?](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/quem-somos-nos/): Será que realmente sabemos quem somos? Ou será que imaginamos ser uma pessoa e somos outra? Você, eu, nós temos uma autoimagem construída a partir do que achamos que somos e de como imaginamos que os outros nos vêem. Os espelhos em que nos miramos, apenas, mostram um reflexo. Da mesma forma, a nossa auto-imagem é ilusória, embora pensemos ser ela real. Ora, se a auto-imagem é uma miragem, ela, por certo, não nos ajuda nos momentos reais em que precisamos ver o mundo e as pessoas com clareza e sem as distorções e os antolhos de nossos preconceitos e defeitos. Cada um deve ter a consciência de que, em determinadas ocasiões e situações, desconhecemos os nossos pontos fracos. Reconhecer os nossos pontos fracos é um “start” na reviravolta talvez necessária em nossos comportamentos. Daí, é partir para mudanças, ao invés de tentar camuflar nossos defeitos – comum a tantas pessoas – e impedir o nosso desenvolvimento como pessoa. O que fazer, então, para nos tornarmos mais verdadeiros, menos sujeitos às tiranias da auto-imagem e do que os outros pensam a nosso respeito? Não sei bem a resposta. Podemos, apesar disso, ir tentando descobrir juntos. Descubra, por exemplo, como você é para você mesmo (quando está só) e como você é ou aparenta ser para os outros. Não tenha medo de dar uma de detetive e siga sua história e seus próprios passos e imagine-se um Sherlock Holmes, a seu próprio serviço. Fotografe-se mentalmente, grave-se, escute-se, veja o seu modo de andar, gesticular, comer, beber e encarar as pessoas. Certamente, como diria o próprio personagem de Conan Doyle, será elementar descobrir quem é você, sem esconder o que tem de positivo e de negativo. Na hora em que você começar a se enxergar com clareza e se aceitar sem receios, certamente haverá uma fusão entre o seu “eu real” e o “eu produzido” para consumo externo”. Sendo uno, fundido em sentimento e verdade, sem medo de seus defeitos, você emergirá do meio das tormentas, derrubará os muros ao seu redor e, certamente, passará por um processo de crescimento, sem desperdiçar energia, tentando mentir, fingir, enganar-se ou enganar os outros. A partir daí, certamente, tornar-se-á mais fácil viver com simplicidade, clareza, agir com firmeza, perseguir seus objetivos com determinação e enxergar as qualidades das pessoas que realmente contam e com as quais convivemos ou pretendemos conviver. Nunca é demais lembrar, como dizia Gilbert Arland, “que quando um arqueiro erra um alvo, vai buscar o erro dentro de si mesmo. Se você não acerta na mosca, isso não é culpa do alvo. Para melhorar a sua mira, melhore a si mesmo”. Nunca culpe a flecha ou o alvo, tente acertar a pontaria. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/05/2000. - [DONA MARGARIDA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/dona-margarida/): Dona Margarida, minha mãe, tinha vinte e dois anos quando, como primogênito, nasci. Era uma mulher jovem, bonita e arrumada. Os retratos não mentem e ela está aí aos 80 anos para quem quiser ver. Vai a pé para a hidroginástica, não aceita palpite de filho em sua vida e dá pitaco na de todos. É mulher de missa e comunhão quase diárias e, aos domingos, quando tomo café com ela, assiste a todas as missas e pregações pela TV. Filha de uma família de muitos irmãos, perdeu o pai no início da juventude e, poucos anos após, foi-se consolar nos braços do meu pai, com quem viveu longos cinqüenta anos e teve nove filhos, "todos com formação universitária e donos dos seus próprios narizes", segundo ela. Ao ficar viúva, mesmo chorando muito, passou a morar só na mesma casa onde cultiva um jardim com plantas de muitas espécies e, anualmente, muda a cor da fachada e dos muros, com opções tão modernas e avançadas que lembram o pop e o high-teck .As suas decorações de Natal misturam lâmpadas multicores, guirlandas, papais noéis, e um arremedo de lapinha com anjos, santos e, óbvio, o menino Jesus. Sem medo, independente financeiramente e com uma clareza de raciocínio bem própria das pessoas que lutaram muito – pois ajudou sua mãe a criar os seus irmãos –, é, ainda hoje, líder de todos eles e foi mulher tranqüila de um homem irrequieto, inteligente e charmoso. Cuida dos seus afazeres como mulher valente que sempre foi e continua sendo, vai ao Banco do Brasil, pois só confia em banco oficial. Todo pano, novo ou velho, que chega a suas mãos é transformado em lençóis, calções e calcinhas, que distribui, segundo seus critérios, a pessoas necessitadas. Doa umas cestas básicas, ponderando a sua justiça social do jeito que lhe convém. Com filhas espalhadas pelo Brasil(Piauí) e mundo(Alemanha e Estados Unidos), fez-se viajante e destemida. Uma vez, perdeu-se na Alemanha, mas não se fez de vítima e encarou o fato com naturalidade. É louca por comprar bugigangas e quase nunca deixa passar uma liquidação. Usa uma filha como motorista, sem lhe dar tréguas e, caso não tenha outra alternativa, toma um ônibus ou um táxi sem problemas. Reclama de não ter aprendido a dirigir na época certa, pois "não precisaria de ninguém". Ultimamente, ela tem brigado comigo. Diz que vou pouco à casa dela e, nos domingos, após o café, leio jornal. Ela não aceita isso. Devo dar toda a atenção a ela e às estórias que conta: da família, as tiradas do jornal que lê diariamente e das notícias que uma televisão, ligada o dia todo, lhe transmite. Quando lhe digo que, por sua causa, ganhei o apelido de “João Mamãe”, ela fala, meio abusada, “você já foi João Mamãe!” Às noras, ela diz que não aceita reclamações, pois uma mulher deve saber com quem vai casar. Seus cinco filhos são homens, o que na linguagem direta dela, significa gente com possibilidade de errar. Dos genros, ela só tem elogios, pois, segundo ela, as suas quatro filhas são mulheres "tementes a Deus, direitas, trabalhadoras, capazes e mereceram os maridos com quem casaram". Hoje, certamente cercada por filhos, netos e bisnetos, não deixará de dar “carão” aos que não fizerem o que gosta ou aprova mas, ao mesmo tempo, dará boas risadas com o que achar alegre ou engraçado. Receberá presentes e, certamente, entre meio encabulada e curiosa, dirá: "precisava não". João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/05/2000. - [COLÉGIO DE IDEIAS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/colegio-de-ideias/): A nova diretoria do Centro Industrial do Ceará é formada por gente bem jovem, a maioria na faixa dos 30 anos. Muitos deles são oriundos da Associação dos Jovens Empresários, pegaram gosto pelo debate e têm uma sede muito grande de conhecimento e engajamento social. Essa consciência é fruto da constatação óbvia de que as mudanças do mundo globalizado são irreversíveis e necessitam ser entendidas em sua essência, a fim de que o medo e a apreensão sejam transformados em oportunidades. Dessa forma, essa nova diretoria do CIC tem procurado ser a mais plural possível, convidando políticos, conferencistas e debatedores dos mais diferentes matizes ideológicos, recebendo-os sem preconceito e com vontade de agregar valores. Paralelamente, sistematizou o que já havia sido iniciado na gestão passada, qual seja um ciclo de estudos para aprimorar a base de saber de seus integrantes, através de aulas que lhes são ministradas semanalmente, em um período de seis meses. Mas, o que há de novo nessa história é que essas aulas, ministradas por professores- doutores, são abertas a quaisquer pessoas interessadas, convidadas ou não. Na realidade, o que o pessoal do CIC está fazendo é, lato senso, uma espécie de curso de pós-graduação enfocado no saber, dando ênfase à Política, aos fundamentos da Sociologia, à Sociologia da Globalização, à Macroeconomia, à Ética e à Ciência e Tecnologia. São duas horas de aula e debates às noites das quartas-feiras no 5º andar do prédio da Fiec. A esse curso deu o nome de Colégio de Ideias, numa alusão ao espírito do "college" e a um congraçamento de ideias abstratas e práticas. Esse trabalho é coordenado por um professor-doutor que, além de ministrar aulas, assiste às demais aulas, observa e interage, se for o caso. Como forma de preparação dos participantes é distribuído, previamente, material didático, extraído de livros com textos específicos para estudo e análise, após o que são ministradas as aulas com discussão no final. Esse processo permite uma avaliação semanal do que está sendo ensinado e aprendido. A partir dessas avaliações são feitos ajustamentos que tornam consequente o aprendizado. Seria bom se, pessoas ciosas de sua responsabilidade social e interessadas em aumentar ou reciclar o seu nível de saber, desejassem, pelo menos, conhecer o que está sendo ensinado e aprendido, repito, - de oito às dez das noites de quartas feiras - no CIC. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/05/2000. - [ELIÁN, VINTE E UM ANOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/elian-vinte-e-um-anos/): Creio que muita gente já esteja cansada com essa história do menino cubano Elián, salvo pela Guarda Costeira americana, após a mãe ter morrido na travessia marítima Cuba para Miami. Essas viagens-aventuras são uma constante há 40 anos e sofrem tripla repressão: do mar do Caribe que não gosta de embarcações frágeis; do governo cubano, que não quer fugas; e do governo americano, que não aceita mais imigrantes. A mídia encarregou-se de transformar o episódio em audiência e logo parentes (exilados em Miami), não tão próximos (tios-avós) arvoraram-se em guardiães e fecharam questão pela permanência de Elián nos Estados Unidos. Ano eleitoral naquele país, mais um ano na provecta gestão de Fidel Castro e o problema estava criado. Fidel mandou o pai de Elián buscar o menino. Foi aí que a Secretária de Justiça, Janet Reno, disse o óbvio, o pátrio-poder pertence ao pai de Elián e, fez isso transformar-se em realidade com o uso de força. Tudo isso já se conhece, o que não se sabe é o que vou imaginar agora, dando uma de futurólogo, deixando claro que todos os futurólogos que conhecemos erraram muito. Vamos a quatro hipóteses, sempre considerando que estamos no ano 2015 quando Elián completa 21 anos. Claro que é apenas imaginação. Ao Elián desejo um futuro de paz, saúde, prosperidade e longevidade. Hipótese 01 - Elián fica em Miami, pois seu pai morre de botulismo ao comer um frango cubano. Volta para os tios-avós e matricula-se em uma escola pública. Deixa de ser notícia e, entediado, por ser considerado um estranho em sua escola, mete-se com drogas aos 14 anos, engorda 30 quilos ao ser internado em uma clínica de desintoxicação, abandona os estudos, vai morar com uma imigrante curda, após ser expulso pelos tios-avós, trabalha em uma boate latina como cozinheiro e está na iminência de perder seu visto de permanência por porte de arma branca, uma faca de cozinha que, segundo ele, pretendia amolar em casa. Hipótese 02 - Elián volta gripado com o pai para Cuba em barulhento e velho avião Tupolev russo. Vai direto para um comício em que Fidel Castro o levanta nos braços como troféu e, mesmo espirrando, ouve três horas de discurso. Desmaia e é levado a um hospital onde são diagnosticadas pneumonia e otite. Recebe alta em duas semanas, surdo de um ouvido. A primeira coisa que deseja comer, ao sair à rua, é um BigMac e leva um bruto carão da assistente social que o acompanha. Estudou agrimensura. Hoje, anos após a morte de Fidel Castro, está trabalhando em Matanzas como técnico agrícola e já é pai de Elián Júnior. Tem um sonho recorrente: Lembra de um vídeo que viu aos seis anos em que um rato (Mickey) leva vantagem sobre um gato. Hipótese 03 - Uma associação de exilados cubanos nos Estados Unidos requer - e consegue - seja feito um exame de DNA em Elián e em seu pai. Resultado: Elián não é filho do pai. O governo americano procura a família de sua mãe, mas há um complicador. A mãe não pode ser dada como morta, pois ninguém é considerado morto sem um corpo para comprovar. Dessa forma, a Justiça americana determina que Elián fique em custódia em um abrigo para crianças órfãs, cresce estudando em uma escola pública e, aos 21 anos, pretende ser mórmom. Hipótese 04 - Seu pai pede asilo político nos Estados Unidos. Elián aprende a jogar basquetebol, consegue destacar-se em esportes na universidade, foi contratado pelo time do Giants e ganha 50.000 dólares por mês. Antes de cada jogo repete, em espanhol, para os companheiros atônitos: "Patria o Muerte". Sempre que pode visita Janet Reno, que mora em um asilo para velhos em Maryland onde se diverte fazendo crochê e comendo os chocolates que Elián lhe leva. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/04/2000. - [NO REINO DO FAZ DE CONTA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/no-reino-do-faz-de-conta/): Bem que nós todos deveríamos estar felizes. Ontem foi o dia das comemorações dos 500 anos do Brasil e, nós os colonizados, agradecemos, rejubilados, aos colonizadores que dizimaram grande parte dos nossos índios(eram 8,5 milhões à época do descobrimento), levaram nossas riquezas minerais para a metrópole portuguesa e, ainda segundo pesquisa feita na própria pátria-mãe, Portugal, eles não são tão apaixonados por nós quanto imaginamos. Daí muita gente não ver razão de tanta festa. Por outro lado, no tempo em que eu tinha muita fé, hoje, Domingo da Ressurreição, seria um dia para renovar minhas esperanças, especialmente nos seres humanos. Hoje, já não tenho a fé de antigamente, e quando as coisas e a realidade ficam meio confusas e as contas não fecham por conta de auditores que fazem (de conta) que têm alma e veem no erro humano a oportunidade de ajustes (de conta), é hora de dar um passeio no mundo da fantasia e lacrar o cofre do dissabor. Sem medo de viver o sonho, mesmo que fugaz, vai-se ao reino do faz de conta. Era uma vez um reinado cheio de sol e de gente. O sol parecia torrar o juízo do povo e, talvez por causa disso, uns se compraziam em azucrinar o juízo dos outros. Não havia pessoa que escapasse. Todos tinham defeitos e contas a acertar e, para os poucos que não tinham, inventavam. Um dia cheio de sol, o que era natural no reino, amanheceu e muita gente foi trabalhar e andar, como de costume. Formavam empresas, grupos, conversavam, riam e brincavam enquanto trabalhavam e andavam. E eis que um súdito possuidor de muitas contas em seu colar, resolveu brincar com uma súdita com menos contas em seu(dela) colar. Era costume no reino que só as pessoas de colares parecidos poderiam ter intimidades. Precisavam ser parecidos em quantidade e na forma das contas. Havia contas para todos os gostos, e isso é que era levado em conta. Cada qual segundo as suas contas, era a espécie de regra social do reinado. Um belo dia ou noite, ainda não se sabe bem e talvez não se saiba nunca, começaram a fazer contas e era conta que não acabava mais. Até se imaginou que conta não contava. Mas contava. O povo não deixava de contar e nem fazia de conta que não estava contando. E os dois, segundo uma versão, mesmo sem querer, foram se preocupando com as contas que haviam se entrelaçado, mas fizerem de conta que nada havia contado. Mas há outras versões, é o que se conta. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/04/2000. - [A MISSA, E OS 500 ANOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/a-missa-e-os-500-anos/): Para quem não sabe, sou Caminha pelo lado materno e Soares pelo paterno. E o que isso tem a ver com os 500 anos do Brasil? Nada ou alguma coisa. Alguma coisa, se considerarmos que o celebrante da primeira missa no Brasil foi Frei Henrique Soares, de Coimbra, e o escrivão da frota, o homem da célebre carta inaugural, Pero Vaz de Caminha. Logo, também sou culpado, pelos dois lados, por tudo o que vem acontecendo nesta pátria amada, salve, salve, desde que um dos dois (ou os dois, não se saberá nunca), junto com o restante da tripulação das 13 caravelas, andaram se metendo com as nativas e deu nessa zoeira que é a raça brasileira, misturada depois com as fortes e bonitas negras vindas da África. Tinha que acabar em samba, em futebol (dizem até que os índios antecederam os ingleses na criação do futebol, chutando caveiras e cocos no meio de seus jogos tribais), no rebolado das mulheres (para se livrarem dos beliscões e açoites) e no banzo (tristeza) que muita gente ainda tem e nem prozac resolve. Este país comemora os seus 500 anos em meio a uma onda de denúncias, investigações e um jornalismo sensacionalista, comandado, em razoável parte, por empresas que têm concessões vencidas ou questionadas e algumas devem milhões ao governo e sempre servem aos dirigentes de plantão, independente de regime, partidos ou atestados de honestidade. Acrescente-se que são hábeis em desviar focos, direcionando a atenção do povo para o que agrada a quem lhe interessa. Enquanto os dirigentes mandam, eles elogiam, escamoteiam, defendem, afagam e cortejam. Na hora em que farejam a estrela caindo são os primeiros a fazer uma espécie de lobotomia e o passado é apagado, como se o povo não tivesse memória. Quando se comemora os 500 anos constata-se estarrecido - só para citar um exemplo- que o governo já emprestou R$ 2,4 bilhões às empresas de telecomunicações privatizadas. E não fica só nisso; pode emprestar mais R$ 7 bilhões em breve. O total das vendas foi de R$ 22 bilhões. Se emprestar 9,4 bilhões, os grupos compradores terão recebido 42% do total licitado. Ora, se o governo vendeu para se livrar de problemas (?), como ajudar, se todo santo dia pede dinheiro emprestado aos bancos? Além disso, o valor pago como ágio (condição básica para vencer a licitação) ,na ocasião das compras das teles, poderá ser abatido do imposto de renda a pagar. Faz parte ainda da festa entender que os bancos têm no governo a maior fonte de receita: segura, não discute preço e sempre quer mais. Se o governo não tem dinheiro, reclama que não pode aumentar o mínimo para R$ 180, como é que é tão (neo)liberal em facilitar a vida das grandes empresas que compraram as teles, disputando licitações em que se diziam fortes, financeiramente, e estavam capacitadas a assumir o controle das empresas privatizadas, pagando o ágio que, agora, descontam do imposto de renda?. Faz mal não, a culpa é minha e dos meus ascendentes portugueses. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/04/2000. - [MICROCONTOS A PEDIDOS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/microcontos-a-pedidos/): Alguns benevolentes leitores me pedem - e eu atendo - para publicar mais microcontos, Para os que ainda não leram, explico. Os microcontos: são curtíssimos, ilógicos, tem começo e fim. Espero que agradem: MC 01 Viu o monstro. Não teve medo. Era sua imagem refletida no espelho. MC 02 Recebera um beijo, não sabia de quem. Estava no necrotério. Ficou. MC 03 Na suite principal do Kremlin viu um vulto barbado (seria Marx?) deitado a seu lado e sentiu um calafrio. Uma alma? Não poderia ser, comunista não acredita nisso. MC 04 Policial e bandido estavam mortos. De mãos dadas, um segurando o revólver do outro. MC 05 Ajeitou a gravata, entrou solene e foi preso. Estava nu. MC 06 Acordara do sonho. Tivera a mulher desejada em seus braços. Virou para o lado e sua companheira roncava. MC 07 Feriadão. Preguiça muita e mulher pouca. Alô, é do Disksexo? Sim. Mande uma. Desculpe, filiamo-nos à CUT, estamos em greve. MC 08 Copenhague, outono, fim de tarde. Saiu do Tívoli Park à pé rumo ao centro. Não viu a jovem na bicicleta. Hoje, manca um pouco, mas é um adepto do ciclismo. MC 09 Reprovada até ontem. Hoje, a aluna provocante passara na prova. Que prova. MC 10 Quanto mais orava, mais pecava. Pedia a Deus coragem mas continuava com aquela pessoa que não lhe dizia nada. Seus corpos estavam nus e sós. MC 11 Enxugou-se na toalha rala do motel e cantarolou. Estava feliz. Sua mulher descobrira agora que ele era impotente também fora de casa. MC 12 Vontade incontida de chorar. As lágrimas saiam aos borbotões. Qual a razão? Não sabia. Saiu do velório e recebeu pêsames pela morte do marido. MC 13 No curso da invasão de terra um dos posseiros viu a dona da fazenda de rifle em punho. Foram ao chão, o rifle tombou e ela tomou posse dele. MC 14 O Juiz leu a sentença e deu um telefonema. Queria almoçar com a ré, que recusou. MC 15 O gerente do banco foi solícito. Cheque especial na mão, comprou a passagem que a libertaria. Fez um bilhete agradecendo ao gerente e devolveu os cheques não usados. MC 16 Tinha consciência de suas limitações e isso lhe machucava. Abriu o sorriso e continuou a fingir. MC 17 A mulher ligou para a polícia, tirou um cigarro do bolso dele, acendeu, deu uma longa tragada até formar cinza e despejou sobre o corpo do seu homem, morto. Cansara de apanhar. MC 18 Tirou a barba postiça com cuidado e a roupa vermelha de papai noel. Dormiu e sonhou chorando pedindo um presente. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/04/2000. - [COMPARTILHANDO](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/compartilhando/): Preenchi um formulário há algum tempo em que a Amana-Key e a Personal, empresas de consultoria, me indagavam se gostaria de participar de um encontro nacional de estratégia de país e, concomitantemente, de um sobre gestão compartilhada. Tempos depois, recebi a confirmação de minha participação. Entre curioso e desconfiado fui lá conferir. Hoje, depois de tantos cursos, seminários, palestras e encontros, ando meio ressabiado com conversa mole e palavras da moda como cenário, facilitação, paradigma, globalização, milênio, virtual etc. Confesso que ainda não as absorvi de todo. A curiosidade, no meu caso, é sempre maior que a desconfiança e isso mostrou que a minha intuição havia acertado, apesar de tantos erros passados. Gente de bom nível de todo o país, mais da área pública que da privada, se reuniu e tentou, durante três dias, demonstrar o óbvio: é preciso aprender a compartilhar. É tão óbvio que precisa ser dito a exaustão, pois a maioria das pessoas é, como eu também, desconfiada e precisa se convencer do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. A despeito da pieguice do encontro ter se iniciado e encerrado com o "Hino Nacional" e das pessoas se dado as mãos fazendo uma corrente, havia pureza, boa vontade e honestidade na maioria dos presentes. Esses elementos perduraram em todo o transcorrer do encontro, especialmente em depoimentos significativos de integrantes de organizações não governamentais e de gestores de projetos de desenvolvimento sustentável. Para os que não têm obrigação de saber o que significa "estratégia de país" eu diria que são caminhos diferentes dos que estão sendo trilhados pela maioria dos governantes. Partem de um raciocínio estratégico em que se minimiza o empirismo, o imediatismo e se tenta descobrir maneiras de fazer acontecer e de encontrar alternativas e soluções que permitam a sustentabilidade das futuras gerações em convivência pacífica com o meio ambiente. Acrescente-se a tudo isso que há gente capaz envolvida na condução e coordenação desse processo. Faltam a difusão na mídia, o comprometimento de políticos e de grande parte da sociedade organizada, ainda alheia a essa nova onda. Hoje, mais do que nunca, vivemos em ondas. Esses encontros tendem a proliferar e ganhar corpo. São o fio de um novelo condutor que poderá tecer uma teia em todo o país, sem partidos e interesses menores. Criticam, analisam, mas não visam a derrubada de ninguém. Querem correção de rumo, enquanto há tempo. São, como se depreende de um documento entregue, tais plantadores que vão jogando sementes de idéias para fora, às vezes até desconexas, sem sentido e que germinam, transformando-se em conhecimento, procurando encontrar respostas para os problemas brasileiros. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/04/2000. - [ALDEOTA, 20 ANOS DEPOIS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/aldeota-20-anos-depois/): Há exatos 20 anos um grupo de jovens empresários e profissionais liberais, a maioria já rotarianos, decidiu fundar um novo clube de Rotary. Imaginavam que poderiam fazer algo diferente e tinham gás para isso. Procuraram o saudoso Cláudio Martins, o guru rotário de então, e esse deu total apoio e sinal verde. Foi a tramitação mais rápida, até então, de toda a história do Rotary. Em questão de dias o "International Board" aprovou a criação do Rotary Club de Foraleza - Aldeota. Para quem não sabe o que é Rotary eu diria que a ideia partiu, em 1905, de um advogado americano chamado Paul Percy Harris que, sentindo-se isolado em Chicago, resolveu juntar um grupo de pessoas de profissões diferentes para a troca de informações e ter algumas metas sociais, éticas e filantrópicas. Essas pessoas reuniam-se em locais diversos por sistema rotativo, daí a palavra "rotary". A ideia de Paul Harrys tornou-se grande, mais do que ele pensava e difundiu-se pelo mundo afora dando um destaque especial ao que se tornou o maior clube de serviço do mundo, com 1,2 milhões de asssociados e 27 mil unidades. Para ser rotariano você tem que responder a uma prova quádrupla: é a verdade?, é justo?, criará boa vontade e amizade? e será benéfico para todos? Anteontem o Rotary-Aldeota comemorou os seus primeiros vinte anos de existência e, se me lembro bem, logo após sua fundação, teve o crédito da ideia e da participação na execução da campanha de geração de recursos e doação de mil cadeiras de rodas a deficientes físicos. Igualmente, conseguiu, nos seus primeiros anos, um número razoável de palestrantes de excelente nível e ter frequência 100% . Àquela época foi produzido um documento com o título: " Um novo Rotary - da ideia à realidade", que dizia, em um dos trechos, o seguinte: "O poder de um clube de serviço reside no esforço, na capacidade e na ação conjunta de seus membros em favor de um objetivo comum, de modo a assegurar a sua presença no espaço social. Por conseguinte, a importância de um clube não deve ser medida em função de anos de existência e do número de associados mas, e principalmente, pelo papel que desempenha , no efeito-demonstração que exerce na comunidade a que serve, na autoridade que reflete no círculo social da área em que está inscrito e da rede de sociabilidade que gera". Há muito deixei o Rotary-Aldeota, mas lembro bem dos ex-companheiros e da camaradagem entre a maioria. Sei que há novos membros, inclusive mulheres, ideia que advoguei à época. Tenho a convicção de que os atuais dirigentes do Aldeota estão reenergizando o clube e preparando-o para entrar na idade adulta dentro da coerência, confiança e continuidade, indispensáveis ao cumprimento da visão atual do Rotary. Parabéns. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/03/2000. - [PESSOA MARAVILHOSA](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/pessoa-maravilhosa/): Depois que algumas pessoas descobrem o nosso e-mail somos bombardeados com estorinhas, fábulas, contos, mensagens, pedidos, pesquisas, correntes, cartoons etc. Isso faz parte da aldeia global em que nós, índios incultos, estamos ainda engatinhando, sem saber onde isso tudo vai dar. Um desses textos, de autoria de Olavo de Carvalho, extraído do livro “O Imbecil Coletivo”, mostra o que o cada um deve fazer para ser “politicamente correto”. Pessoas mal comportadas como eu, sem a sabedoria para falar o que os outros desejam ouvir ou calar diante de asneiras ou poltrices, precisam conhecer, pelo menos, um capítulo que trata de “como se tornar uma pessoa maravilhosa”. O sonho de todo mundo é ser feliz, se mostrar culto, inteligente, agradável, suave e socialmente aceito. Pois bem, ai vão algumas normas de conduta e frases chaves que adaptei a serem usadas nos coquetéis, nos bate papos, nas conversas com intelectuais etc. Conheço gente, por exemplo, que não lê livros e pergunta com um ar pseudo-interessado: “qual o livro que você está lendo?”. Não é para esse tipo de pessoa que estou escrevendo. Estou escrevendo para os que ainda não sabem fingir e dizem o que pensam. Aproveite, a sociedade gosta de gente leve, agradável e falsamente cordial. 01. Não fale dos outros. Fale apenas do que já estão queimados tipo: Collor, Maluf, Quércia, George Soros, Bill Gates e aquele direitista austríaco, Haider. Os demais devem ser tratados como “pessoas maravilhosas”, “um ser humano muito especial” etc 02. Procure não entrar em disputas verbais. Caso entre, não tente provar que suas convicções são verdadeiras. Saia-se com a frase “não há verdades absolutas”. 03. As idéias conservadoras ou conhecidas como tais devem ser tratadas como “preconceitos”. O uso da palavra preconceito poderá ser muito útil e é vaga. 04. Trate de saber o que o grupo ao qual você está inserido pensa e não martele contra. Seja suave nos seus juízos de valor. Contemporize. 05. O socialite adora posar de socialista. Veja, por exemplo, com simpatia os movimentos dos sem terra, o PT e o “Greenpeace” (grinpice). 06. Em matéria de sexo concorde com a maioria, sem ter medo de passar a imagem de avançado, de quebrador de regras. Fale em sexo seguro e diga que o governo deveria destinar mais verba para as campanhas e tratamento da Aids. 07. Em manifestações sociais trate de expressar os sentimentos coletivos, mas não esqueça de se mostrar um pouco herético, não-conformista e um quê de excluído. 08. Não fale que é católico, protestante, espírita etc. Fale em duendes, anjos, manifestações afro, new age, Lair Ribeiro, Paulo Coelho, Santiago de Compostella, ficar zen etc. 09. Em papos literários é preciso mostrar um ar atento quando citarem alguma obra. Diga, com um jeito blasé, que "ela rompe com as convenções do gênero". Não significa nada, mas agrada. 10. Demonstre saúde, bem-estar e prosperidade para ser uma pessoa maravilhosa. Boa sorte. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/03/2000. - [BOB FIELDS](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/2023/12/21/bob-fields/): Os que foram estudantes universitários na tumultuada década de 60 recordam estas duas palavras: Bob Fields. Era assim que os universitários, na sua maioria, chamavam o embaixador e ministro Roberto Campos. Essa era uma maneira de chamá-lo de entreguista, vendido aos americanos, calhorda, direitista etc. Ainda não se usava o epíteto neoliberal da forma pejorativa como é feita hoje. Roberto Campos era a imagem do cão, o vendilhão da pátria e outros adjetivos não menos nobres. Pois não é que, por conta de uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, conheci o dito cujo, então Embaixador do Brasil em Washington. A embaixada oferecera uma recepção aos bolsistas e o próprio nos recebeu de paletó e sua marca registrada, a camisa social listrada com a abotoadura no colarinho como os americanos e ingleses mais tradicionais usam e, obviamente, a gravata. Lembro bem. Ele era um homem no esplendor do início da maturidade e se fazia acompanhar de SanThiago Dantas, já acometido e em tratamento do câncer que lhe mataria tempos depois. Campos e Dantas eram, à época, o que de mais expressivo existia de intelectuais exercendo cargos públicos. San Thiago havia dado uma palestra em um congresso da UNE do qual participara e, acidentalmente, o recebi e com ele travei uma ligeira conversa. Como gancho, voltando à recepção da embaixada, relembrei tal fato a San Thiago e ele, por delicadeza ou com a bonomia própria dos que estão com a sorte selada, disse relembrar. Formamos então um pequeno grupo e, receosos do seu decantado encanto pessoal, passamos a ouvir a fala mansa e de timbre característico de Roberto Campos. Ele estava solto e falava com sabedoria e conhecimento que, mesmo os seus adversários, sempre souberam reconhecer. De repente, um colega bolsista, Flávio de Sá Bienrrebach, paulista de bigodes retorcidos que viria a ser deputado federal, começa a falar sobre o “imperialismo americano”. Sem alterar a voz e com o ar de ironia que o caracteriza, Roberto Campos perguntou a que tipo de imperialismo Flávio se referia. Flávio tentou explicar. Campos retomou o fio da conversa e disse que conhecia sete formas diferentes de imperialismo e tome história, informação e conhecimento. Quedei-me mudo e absorto, o Flávio colocou a viola no saco e resolvemos mudar de assunto. Anos depois, em Londres, fui encontrar uma pessoa que o visitara já na condição de embaixador brasileiro na Inglaterra. Essa pessoa falava de suas gentilezas e do seu fino humor. Campos foi eleito, em seguida, deputado federal e senador, por Mato Grosso e Rio de Janeiro. Ouvi muitas de suas palestras. Apesar de não concordar com suas idéias, gostava de ouvi-lo. Na penúltima delas, quando lançou o livro “A Lanterna de Popa”. Anos depois, o ouvi novamente e senti que ele estava se repetindo, não tinha mais nada de novo a dizer, era apenas um octogenário vivendo de sua fama. Retirei-me da sala, antes de concluída sua palestra. Agora, aos 82 anos, tenta se recuperar de uma lesão cerebral que uma hipoglicemia fez eclodir. Prefiro lembrar dele como o detestado Bob Fields, a quem nunca reverenciei como político, mas respeitei como intelectual. Algumas frases suas são um primor. Vamos a quatro delas: 1. A burrice, no Brasil, tem um passado glorioso e um futuro promissor. 2. O governo não é uma orquestra afinada. É um forró com muitos zabumbeiros. 3. O camelo é um cavalo planejado por um comitê de economistas, nem por isso é um animal inútil. 4. Os elogios incondicionais que estou recebendo estão transformando esta solenidade em meu obituário. João Soares Neto, escritor CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/03/2000. ## Pages - [Arquivo](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/arquivo/) - [Início](https://joaosoaresneto.com.br/) - [Escritos](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/escritos/) - [Sobre o autor](https://joaosoaresneto.com.br/index.php/sobre-o-autor/): João Soares Neto, nascido no dia 22 de Agosto de 1941 em Fortaleza, Ceará, é jornalista, administrador, advogado, empresário, cônsul honorário do México e escritor brasileiro, membro da Academia Cearense de Letras. ## Optional - [Agent (MCP protocol)](websites-agents.hostinger.com/joaosoaresneto.com.br/mcp) [comment]: # (Generated by Hostinger Tools Plugin)