MACHADO DE ASSIS – Diário do Nordeste
Amanhã, Machado de Assis completará 100 anos de morto. E, paradoxalmente, está vivo. Centro de discussão no Brasil e mundo afora. Não custa lembrar que Machado é, ao juízo geral, o maior escritor brasileiro. Vale dizer também que a Academia Brasileira de Letras, fundada por ele em 1897, está vivíssima, até aceitando Paulo Coelho em seus quadros. Mas, isso é outro assunto. Machado escrevia poesias, canções, peças de teatro, contos, crônicas e romances. Hélio de Seixas Guimarães, estudioso de Machado, refere que ele é “o maior contista e romancista do século 19, não só profundamente interessado pelas questões de seu tempo e lugar, mas talvez o mais agudo e radical crítico das instituições sociais e políticas do Segundo Reinado.” Autor consagrado pelos romances – para ficar nos principais: A Mão e a Luva, Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Este, pela trama insolúvel, envolvendo os personagens Bentinho, Capitu e Escobar, consegue ser objeto eterno de controvérsias entre críticos, psicanalistas e acadêmicos. Divagam sobre adultério, dissimulação, remorso, afabilidade e hipocrisia. Por outro lado, até hoje, 109 anos após sua publicação, em 1899, causa ‘frisson’ e ciumeiras entre intelectuais que se dizem machadianos. Como é natural, sempre houve críticos, como Sílvio Romero que dizia, à época, que Machado “macaqueou Laurence Sterne”, escritor irlandês do século 18, autor de “A Vida e as Opiniões do Cavaleiro Tristam Shandy”. Coelho Neto referia que “as casas de Machado não tinham quintais”. E daí? Harold Bloom, o maior crítico literário do mundo, ainda vivo, incluiu Machado entre “Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura”, livro do início deste século. Bloom também procurou semelhanças entre os textos de Sterne e de Machado, mas diz que “lembrar Machado é trazer à memória novamente os momentos em que me diverti com seus personagens”. Outro estrangeiro, John Gledson, professor inglês da Universidade de Liverpool, reclama do apelido de “Bruxo”, dado a Machado e atribuído a C. Drummond de Andrade, por seu poema” A um bruxo com Amor (“Em certa casa da Rua Cosme Velho…”) O fato é que, bruxo ou não, Machado é imortal.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/09/2008.

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