A CEGUEIRA DE SARAMAGO – Jornal o Estado

Fiquei feliz quando soube que a língua portuguesa poderia ser agraciada com o Nobel de Literatura em 1998. Pensava em algum autor brasileiro, mas deu José Saramago. É verdade que Portugal fez “lobby” forte para mostrar seu potencial. Eram viagens de Lisboa a Estocolmo e vice-versa. Estocolmo é a sede do Prêmio Nobel e há muita política na concessão desse galardão. Se tiverem tempo, procurem ver os premiados em literatura nos últimos 10 anos. A maioria é desconhecida e as vendas são turbinadas pelo próprio prêmio. O fato é que Saramago ganhou. Depois, participou de uma espécie de Feira do Livro no Parque Eduardo VII, vizinho à Estufa Fria, área predominante da boa hotelaria de Lisboa e até registro fiz desse encontro. Depois do prêmio, Saramago passou a ser muito vendido cá no Brasil. Eu, na verdade, nunca namorei demasiado a sua escrita. Apenas um “flirt”, diria. Sua forma de escrever é límpida, longa, pesada e escorreita, mas o conteúdo parece ter, no caso do “Ensaio sobre a Cegueira”, um pouco da essência temática de George Orwell, na obra “1984”. Há tempo havia ganhado o livro de presente. Só há pouco, o concluí. Confesso: tive uma breve sensação de alivio. Li, na verdade, aos pedaços. O livro é um ensaio metafórico recomendável, quem sabe, para se discutir a essência do que somos. Narra a emergência de repentina cegueira, inexplicável e dita incurável. Abate-se sobre uma cidade qualquer. Sagra o desmoronar completo dessa sociedade que, por conta da cegueira, perde os valores essenciais da civilização. As personagens cegas do livro, só “veem” um clarão branco. Achei o livro fastidioso, apesar do milagre ou moral do final. Lia, relia uma página, grifava e ia em frente. Duvidei do meu magro julgamento. Admiti, em determinado instante, que o argentino Jorge Luís Borges, por ter sido um progressivo deficiente visual, poderia ter escrito algo sobre sua cegueira. Repito que não sou crítico literário ou resenhista. Sou leitor, apenas. Por esta razão tive a curiosidade e a sensatez de procurar ler algumas opiniões sobre o autor. Vou ficar com três. A do escritor português António Lobo Antunes, em entrevista à Folha de SP, em 22.04.1996. Ele diz: “eu posso dizer que José Saramago não me entusiasma de modo nenhum. Ainda bem que ele tem prestígio no Brasil”. O falecido autor cubano Cabrera Infante, no jornal El Clarin, de Buenos Aires, em 17.08.1995, afirma: “Saramago é um chato. Eu já lhe respondi amplamente em um número do “Nouvel Observateur” e desde então ele não voltou a dizer nada”. A revista Bravo, de outubro de 2008, em artigo assinado por Almir de Freitas, retrata: “10 anos após receber o prêmio da Academia Sueca José Saramago volta a lançar uma prosa pedregosa, o livro é chato, simplório e difícil de ler.” Não chego a tanto, mas optei por não ver o filme homônimo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/08/2009.

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