A ESTÉTICA REVOLUCIONÁRIA DO GRAFITISMO – Jornal O Estado

Seriam, como admitem alguns, certas inscrições rupestres, embrião ou espécie de grafite? Pelo sim, pelo não, há uma corrente que associa o atual “grafitismo” a uma evolução de certas pinturas rupestres às garatujas e aos desenhos nos espaços da cidade de Nova Iorque do início dos anos 1970, quando a guerra do Vietnã trazia más notícias para familiares dos soldados americanos mortos. A maioria, descendente de latinos e negros. Detalhe: os caixões mortuários vinham lacrados, cobertos pela bandeira americana- posteriormente entregue às famílias-, saudados por tropas e salvas de fuzis no cemitério nacional de Arlington, que não fica em Washington D.C., mas no Estado da Virgínia.
O crescimento incomum dessa grei de pintores-pichadores(?) chocou. Eles o fizeram em todos os tipos de espaços urbanos encontrados(metrôs, prédios abandonados, paredes, outdoors) público ou privado, para assustar ou afirmar, através dessa linguagem pintada, que precisavam ser vistos como iguais, aceitos em uma sociedade apartada que deveria se voltar para a igualdade de direitos e oportunidades para as minorias a que eles pertencem.
Ao mesmo tempo, engajaram-se com o hip-hop, essa forma musical diversa do que os ouvidos tidos como cultos estavam acostumados a escutar. Era a nova “arte” em meio ao caos. Kitsch? Talvez. André Malraux, escritor e político francês (1901-1976), ao responder à questão “O que é arte?”, disse: “Aquilo por meio do qual as formas tornam-se estilo”. Neste sentido, o grafitismo, por já ter estilo definido, quer se aceite ou não, é arte.
No Brasil não seria diferente, e se fez notar a partir do fim dos anos 1970, consolidando-se de lá para cá, a ponto de alguns críticos enxergarem um estado da arte ou de estética nos grandes murais que foram sendo grafitados por todo o País. Essa expressão visual tem códigos e linguagem próprios. Um “bite”, por exemplo, é imitar o estilo de outro grafiteiro. Uma “crew” é uma tribo ou conjunto de pessoas a se expressar por essas formas coloridas e sinuosas que procuram so-le-trar a indignação – ou a arte – em uma estética questionada, porém sedimentada. Abriguem ou não.
A assinatura deles é um “tag”, um sinal ou marca. Não os comportados nomes dos pintores clássicos, tradicionais ou vanguardistas, firmados ao pé das telas. O grafiteiro iniciante é um “toy” (brinquedo). O espaço, o lugar onde se inscreve o grafite é um “spot”. Vejo no grafitismo a influência dos afrodescendentes dos distritos nova-iorquinos do Bronx e do Harlem. Depois, espargido e enriquecido por todo o planeta.
Aqui, nesta Fortaleza, de tantas artes e incômodos nas camadas mais simples da população, foi sendo cultivada o “graffitti”, como arte ripária. Agora, a Galeria BenficArte nos seus 15 anos, abre o seu novo espaço para 14 grafiteiros: Ana Rachel Lopes (Kel), Bruno Ribeiro (Spoteink), Cassius do Vale (K-Sim), Eduardo Santos (Edu), Gabriel Rodrigues (Qroz.VDM), Israel Félix, Ítalo Soares, Leandro da Silva (Filtro de Papel), Lourenço Pinto (Rayki), Moacir Júnior (Jr. Animal), Narcélio Dantas (NarcélioGrud), Pedro Henrique Lemos (Pedrim Moicano), Pedro Lopes (NOIA) e Ruy Bezerra, que aceitaram participar de um desafio, sob a forma de concurso, com consequentes premiações.0 15º. partícipe é cada visitante.
A “Exposição Grafitart” mostra e finca as tintas acrílicas/sprays em telas que não se enquadram na convenção da arte tradicional e, mesmo sendo rebeldes – com causa – se submeterão ao julgamento de uma comissão, constituída por artistas plásticos, colecionadores, galeristas, professores de arte, comunicadores.
No vanguardismo que caracteriza a Galeria BenficArte (Carapinima, 2200 – 2º piso) nestes seus 15 anos de vida, essa exposição nos dá a certeza de que não há mais lugar para o preconceito. Aceite-se, então, a criatividade diferente das ideias e formas consagradas. O assentimento maior vai depender do olhar, da intuição, do saber e da imagem fixada na retina de cada visitante, o 15º. participante dessa mostra que ficará exposta, de forma gratuita, até o dia 16 de novembro de 2014. Cada pessoa poderá dar o seu veredito, o voto popular, que, somado ao da comissão julgadora, dirá quem serão os premiados vencedores. Esperemos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/10/2014.

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