Convivem, na minha maturidade, o menino que teve formação religiosa católica, o adolescente/universitário duvidando de tudo, enveredando pela leitura da filosofia, lutando por ideais; o homem jovem teoricamente racional que imaginava saber alguma coisa e fazer muito e; agora, nesta fase, senhor do direito de não ser enquadrado em nada e poder tentar ser livre. Discordo da excomunhão da família e dos médicos que livraram uma criança de 09 anos de uma gravidez indesejada. Nenhum direito, nem o canônico, deve desconhecer a realidade, tampouco acreditar que os seres humanos possam ser punidos por suas coerências existenciais quando não desrespeitam as normas legais do seu país e previnem consequências funestas. O que esperar de uma mãe de 10 anos, com duas filhas-irmãs, de uma avó, traída, de 23 anos, e de um padrasto que, mais dia, menos dia, estará livre para voltar a usar e abusar de quem não sabe e nem pode se defender? Essa excomunhão não combina com a fé, a inteligência e a razão de muitos teólogos e religiosos que compõem o corpo social da Igreja Romana. A excomunhão aconteceu exata no mês de fevereiro, quando se comemorava o bicentenário de nascimento de Charles Darwin, o cientista inglês que, segundo os historiadores Adrian Desmond e James Moore, passou 20 anos entre o temor religioso e o moral, Anglicano que era, para revelar a sua teoria da evolução das espécies. “É como confessar um crime”, dizia. Mas o fez. O “crime” era demonstrar à comunidade científica – conservadora e vitoriana – que a espécie humana não surgiu como narrado na Bíblia, mas por meio de um processo de seleção natural, explicação contida em detalhes no seu livro “A Origem das Espécies” que completa, em novembro, 150 anos. Darwin também foi execrado por sua Igreja, mas os tormentos pessoais passados e sua decisão conferiram à humanidade uma versão nova, coerente e revolucionária para a sua época. Voltando ao nosso tempo, é preciso que a Igreja Católica revise seus dogmas e preceitos legais para que não fique “pregando no deserto”. Todos os seres humanos que creem têm direito à salvação: “porque não há um justo, nem um sequer” (Romanos, 3:10).
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/03/2009.

