Tem-se notado, neste país e mundo afora, uma geração de jovens adultos completamente desinteressada pela realidade da vida, da política e do futuro. Essa geração, não por seus méritos, teve a sorte de nascer de pais trabalhadores, estudiosos, criativos e ativos na produção do bem-estar de suas famílias. Assim, eles, após programas de viagens pagas de intercâmbio ao exterior, passam em vestibulares e surgem em carros reluzentes, a disputar, no vácuo de valores essenciais, relógios, roupas de marcas, férias, hotéis, moradas, restaurantes e baladas. As contas pagas, quase sempre, com cartões de crédito das famílias.
Há uma peculiaridade entre a maioria desse contingente: confundem afetação com educação. A afetação é a representação da ‘persona’ criada a partir da versão entendida por boas maneiras, um mero verniz. Tratam bem o empregado desde admitido pertencer a outra casta. Até podem gerir, porém não mourejam como os pais o fizeram. Frequentam o trabalho com enfado, pois têm mais a fazer.
Não se pode generalizar, é claro. Esse fato causa problemas em processos de sucessão de empresas familiares. Pequenas ou grandes. Nos tempos de hoje os casamentos não são eternos. Acabam na justiça ou acordos ou se mantêm por interesses. Surgem conflitos. E a canoa vai. Ou se esvai.
A educação é basilar, natural, livre, refere sentimentos de alegria, de tédio, de revolta e de respeito. A afetação é pretensa, para uso exterior. Não são raros os casos de rupturas e decadências familiares logo na sucessão, pela inapetência dos descendentes. Cumprem luto breve e dividem o butim.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/03/2013

