Sou cinemeiro inveterado. Vejo filmes na telona todas as semanas. Vi, por exemplo, “Nosso Lar”, projeto continuado do jovem cearense Luís Eduardo Girão, filho do distante, mas lembrado amigo Clodomir. O primeiro filme dele foi “Bezerra de Menezes”, médico benemérito e espírita. Depois, emendou com “Chico Xavier”, famoso médium mineiro, e já tem quase prontos para 2011 “Área Q” e “As mães de Chico Xavier”. Luís Eduardo criou uma produtora de cinema e artes, a Estação Luz, com a qual, em outros projetos, procuro participar colateralmente. O fato é que ele mexeu em grande manancial de histórias que rondam o imaginário dos espíritas em geral e dos muitos crentes e até ateus desse sincrético Brasil. Não está em jogo neste alinhavado a qualidade técnica dos filmes, sequer a crença ou descrença nessa fé, que não se vê como religião. Não interessa aqui o que achei da interpretação, dos diálogos ou da fotografia de “Nosso Lar”. O manifesto nesta narração é a coragem do produtor Luiz Eduardo, o atrevimento da sua parceria em “Chico Xavier” com o cineasta Daniel Filho que, diga-se de passagem, ficou com a parte do leão na divisão dos resultados. Vão dizer que Luiz Eduardo não é cineasta. Mas é, pelo menos, destemido descobridor de uma segmentação estética que foge da violência urbana, do intimismo capenga, do humor escrachado ou da pobreza da caatinga. Seu êxito passa pela divulgação em revistas nacionais, jornais do Rio e paulistas em razão do público alcançado de um milhão de pessoas que saiu de suas casas e entrou em 453 salas de cinema espalhadas em todo o Brasil, em menos de um mês. A própria revista “Veja” procura, em vão, filosofar sobre crenças e, sem muita convicção mistura Shakespeare, o mágico canadense James Randi, os evangelistas, o Corão, o Budismo e até Madonna, entre outros. Tudo isso reunido apenas porque Luiz Eduardo teve a coragem de mudar pressupostos, investir os próprios recursos e ter fé no trabalho, sempre cercado de razoáveis profissionais, criando um paradoxo. Jean Cocteau, artista e cineasta francês, falecido em 63, dizia que “as críticas julgam as obras e não sabem que são julgados por elas”. O público escolhe.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/09/2010.

