Nesta terça feira foi comemorado o Dia da Consciência Negra no Brasil. Uma homenagem a todos os descendentes de africanos nascidos no Brasil e à Zumbi dos Palmares, chefe de um quilombo, morto em 20 de novembro de 1695, por não se submeter, mesmo tendo lhe sido prometida liberdade, ao jugo da Corte Portuguesa. Foi assassinado, decapitado e teve a cabeça exposta em praça pública para “acabar com o mito Zumbi”. Mais de três séculos se passaram e Zumbi está vivo na memória. Seus assassinos só são citados para dizer de sua morte. Ele representava a resistência à dominação, mas só em 1888, 183 anos depois, é que foi abolida a escravatura no Brasil.
Nesta mesma semana tomei conhecimento, através de Marcelo de Trói, do livro “Racismo e Solidariedade”, escrito por Carlos Moore, Mazza Edições, doutor pela Universidade de Paris. Esse livro pretende fazer algumas distinções básicas sobre o assunto no Brasil. Uma delas é a diferença entre racismo e preconceito. Trói. Para Moore: “racismo é algo que permeia toda a sociedade. As relações interpessoais são reflexos do racismo, elas refletem o que é dominante na sociedade”. Para ele, preconceito é qualquer coisa contra qualquer pessoa, seja ela de qualquer cor. O preconceito depende dos padrões de referência do preconceituoso. No entender dele, ser racista é “uma questão de querer exterminar o outro”. E ele diz que a mestiçagem – ou mistura de raças – foi uma imposição, após inundar o país de brancos para diminuir o percentual de negros existentes. Ele assegura que a mestiçagem é um fator dominante na sociedade. “Quando se está cantando todos os hinos à mestiçagem, é um hino à violência, ao estupro massivo de índias e das africanas”. Assim, segundo ele, “o mestiço surge nas sociedades violentadas e complexadas”.
Ele não acredita em um mundo “democraticamente racial”, pois aceitar a mestiçagem é dizer: “nós não conseguimos conviver com o negro como negro, temos que diluí-lo para aceitá-lo, temos que mudar o seu fenótipo”. “A ideologia da democracia racial é: “vamos aproximar o fenótipo do negro ao fenótipo ariano”. Ele propõe, ao contrário, o que chamou de “desracializar” ou tirar o fenótipo do lugar onde ele está. E diz até que “entre os negros se pratica essa maneira de eugenismo, de se casar com pessoas de pele mais clara, de escolher pessoas com cabelo mais liso…” .
Desracializar, enfim, seria destruir essa imagem normativa. Ele fala, temeroso, ainda que o ‘branco brasileiro normal’ esteja convencido de que vive no melhor país do mundo e que os negros estão contentes. E assevera: “tudo aqui está feito para que aconteça uma catástrofe. É por isso que felizmente uma parte dessa elite tem chegado a compreender que eles vão ter que mexer no sistema porque se não mexerem no sistema vão perder o país”.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/11/2007.

