Deparo-me, por acaso, com um livro rico de capa dura e uma bela paginação intercalando textos, fotos antigas e contemporâneas. Sua capa mostra a Praça do Ferreira, não a antiga, mas a revisitada ou relida pelos arquitetos Delberg Ponce de Leon e Fausto Nilo. Creio que não entendi bem a explicação da foto da capa: “Praça do Ferreira – no fim dos anos 1960, a Coluna da Hora foi demolida, e em projeto de 1991 retornou à praça…”. A bela foto de Gentil Barreira já é da praça reformada em 1991. A estrutura da antiga Coluna não era em aço. A que aparece na capa é a releitura estética de Delberg e Fausto. Não há década de 1960. Há a década dos anos sessenta. Tirando esses pequenos detalhes, afora outros, há que se louvar a pesquisa de muitos e a organização de Patrícia Veloso, para a Terra da Luz Editorial. “Viva Fortaleza” teve o forte e decisivo apoio da Oi Futuro, Newland, Guanabara, Sobral & Palácio e o patrocínio da Oi, Coelce e Banco do Nordeste. Consta como realização do Ministério da Cultura, sem menção à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, tampouco da similar da Prefeitura de Fortaleza.
O exemplar que li me foi dado, a pedido, pelo engenheiro civil Luciano Cavalcante Filho, um dos responsáveis por incorporar edifícios sitiados no antigo bairro do Outeiro, hoje Aldeota, bem como na orla marítima. Fortaleza, em agosto de 1950, me via de calças (curtas) e paletó de casimira azul marinho com camisa branca, em trajo da Primeira Comunhão, na Rua Floriano Peixoto, entrando no Foto Moderno. Esse estúdio ficava do lado do sol, como se diz por aqui, no trecho entre as ruas Pedro Pereira e a antiga Trincheiras, depois Liberato Barroso. O calor do pós chuvas não era sentido por mim, garboso infante que, de vela enfeitada e laço de fita no braço direito, deixava-me fotografar.
Dali, com a minha mãe, fomos andando a pé para comer pastéis com caldo de cana na Leão do Sul, mercearia sortida, que ficava no lado sul da Praça do Ferreira, defronte ao Posto Mazine, no começo do antigo Beco dos Pocinhos, depois Rua Pedro Borges. Quase três da tarde. Saciados, ouvimos o repicar das triplas badaladas do antigo relógio da Praça do Ferreira. A praça de então era sombreada com fícus benjamins e dividida em alamedas paralelas que albergavam carros particulares e os de praça, precursores dos futuros táxis. No seu lado norte, entre a Rua Guilherme Rocha e a Travessa Pará, fulgia o novo Abrigo Central, construído, mediante licitação, na administração do Prefeito Acrísio Moreira da Rocha, pelo jovem empreendedor Edson Queiroz. Atravessamos a praça em diagonal e entramos na loja Flama, afamado magazine, vizinha ao edifício São Luiz que se erguia morosamente. Pulemos para o ano 1959. Meu pai havia comprado uma casa de pescadores (lado do mar) para passarmos as férias na praia. Era na altura da atual Nunes Valente. Mero calcamento tosco. Logo após veio o começo da construção, a casa foi ao chão, a via ficou pronta em 1963 e em 1964 recebeu o nome de John Kennedy, em homenagem ao presidente americano assassinado em 23 de novembro do ano anterior. Protestos de muitos a fizeram passar a ser a Av. Beira Mar. Isso já é outra história.
A publicação começa com uma profunda análise de Paulo Linhares sobre “A Fortaleza de Alencar” e agrega textos de qualidade de Ângela Gutiérrez, A. Carlos Coelho, Cláudia Albuquerque, Clélia Lustosa, Demitri Túlio, Fausto Nilo, Francisco Neto Brandão, Gylmar Chaves, Isabel Gurgel. Kadma Marques, Lira Neto, Natércia Pontes, Oswald Barroso, Peregrina Campelo, Régis Lopes e Romeu Duarte. As fotografias são de Alex Costa, Alex Uchoa, Bia Sabóia, Drawlio Joca, Fábio Lima, Gentil Barreira, JoOão Luís, João Palmério, Leo Kaswiner, Lia de Paula, Maurício Albano. Nelson Bezerra, Silas de Paula e Thiago Gaspar. Além de textos e fotografias atuais, esculturas de Sérvulo Esmeraldo e Zenon Barreto, contém ainda acervos fotográficos e objetos de pessoas amantes da cidade.
Esta sofrível e corrida Ficha Técnica tem apenas o objetivo de despertar a curiosidade dos que aqui viveram entre 1950-2010 ou a ela foram chegando, vindos do interior e de outros estados. Escolhi apenas a Praça do Ferreira como chamariz, pulmão e alma de Fortaleza. E um mero registro da construção da Av. Beira-Mar. O resto da cidade poderá ser descoberto, por cada leitor, na tessitura dos textos, nas breves legendas de Ângela B. Leal e Roberta Felix que adornam a profusão de admiráveis fotos, a tradução para o inglês e os agradecimentos que encerram as suas 240 páginas. Parabéns a todos os que participaram desse trabalho singular feito em 2011 e, desde já, histórico. Viva Fortaleza.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/03/2012

