Era sábado à tarde. Dia de futebol, praia e bares, mas optei por ir à Escola Livre de História, coordenada pelo prof. Régis Lopes. Essa Escola, que tem dois meses de existência, procura, de forma diferenciada, fazer revisões críticas ou aprofundamento de obras e historiadores. Nesse sábado, seria discutida a obra de Capistrano de Abreu, o maior historiador brasileiro, nascido no Ceará, em 1853.
Como sou um aprendiz de Capistrano, embora não seja historiador, resolvi dar às caras no acontecimento. Cheguei, esbaforido, pois vinha de longe, mas a tempo de assistir a primeira palestra da tarde. Olhei e vi que jovens iam tomando assento e me quedei quase ao fundo da sala para ouvir. Ouvi uma jovem mestranda em História Social, Paula Virgínia Pinheiro Batista, falando com desenvoltura e carinho sobre o ofício do historiador na obra de Capistrano. Mais uma vez, dei-me conta da importância de Capistrano.
Oitenta anos após sua morte, estava sendo pesquisado, revisitado, com respeito e argúcia. Não só estava sendo apresentado, mas bem contextualizado de uma forma simples e didática. Com os olhos da memória revi a foto consagrada de Capistrano: rotundo, amarfanhado, míope e nada simpático. Mas sabia o seu ofício. E entendi, mais uma vez, que os valores da alma e do pensamento são os únicos permanentes. Não morrem com o tempo. Ouvi detalhes de suas cartas, tão bem tratadas por tantos, especialmente por José Honório Rodrigues e ali apresentadas em seus aspectos mais especiais. A palestra acabou e tive a curiosidade de saber um pouco mais, obtendo respostas lúcidas às minhas questões.
Depois, ouvi João Ernani Furtado Filho, doutor e professor universitário que conseguiu, de forma descontraída, com conhecimento e erudição, demonstrar que Capistrano tinha cumprido o seu papel de historiador, não só pela obra “Capítulos da História Colonial”, mas também por palestras, ensaios e as 1.500 cartas dirigidas a amigos e colegas. Ficava claro, mais uma vez, que a obra de Capistrano não se resumia a livros. A correspondência trocada com figuras como Pandiá Calogeras, Assis Brasil, Afonso de Taunay, Paulo Prado, João Lúcio de Azevedo e Guilherme Studart, entre outros, era rica, profunda, constituindo-se complemento importante de sua obra.
O sol já havia se posto quando o encontro terminou. Saí de lá alegre com aquela demonstração de amor à pesquisa, à História e, acima de tudo, ao Capistrano de Abreu, este cearense tão importante e não devidamente festejado. Recebi, de graça, mais uma lição, de que empáfia combina com disfarce e que o saber verdadeiro é simples, direto e sem lero lero.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/11/2007.

