A maioria das pessoas se descuida do hoje na esperança de um futuro melhor. Acreditam que chegará um tempo em que tudo estará bem. As dívidas serão pagas, haverá bom emprego, carro novo substituirá o comprado no consórcio e a casa própria será alcançada. E fazem isso não como atitude, determinação e desempenho profissional, mas sob o manto da magia, esperança e da fé. Não apenas da fé religiosa. A que nos é legada, quase sempre, pelos ancestrais e que cultuamos ou não. Mas na procura de oráculos, divindades e a crença, por exemplo, na astrologia. Há revistas, livros, sites, “blogs” aos milhares na Internet, isto sem falar nas colunas de horóscopos de revistas e jornais espalhados pelo mundo.
Muita gente, ao abrir o jornal ou revista, vai direto ao horóscopo e se sente influenciada pela predição do seu signo. Há ainda os que pagam por mapas astrais, tarôs e quiromantes. Procuram respostas para questões pessoais e formas de superar medos, desvios de personalidade ou de meras limitações. Sabedores disso, muita gente aproveita e se estabelece, como “consultores” pessoais nessa área, tão mítica quanto atraente, na busca de respostas para questões não resolvidas do mundo real ao qual pertencemos. E as colunas de horóscopo, embora singelas e feitas até para dar ânimo ou esperança, não são muito diferentes dos livros de autoajuda que vendem como banana e, quase sempre, restam guardados sem que seus leitores encontrem ali soluções miraculosas.
No fim da década de 50, os filósofos Roland Barthes, francês, e Theodor Adorno, alemão, fizeram trabalhos distintos sobre horóscopos. Roland Barthes escreveu o livro “Mitologias”, em que analisa a coluna de horóscopo da revista “Elle”. Adorno se valeu do “Los Angeles Times” e sua coluna diária sobre signos para escrever “As estrelas descem à terra”. Ambos desmistificam o assunto. Para Adorno tratava-se de “superstição de segunda mão”. Barthes dizia que a sua leitura é prova de “semi-alienação”. Para Ricardo Musse, sociólogo, USP, baseado nos dois citados, os horóscopos de hoje, como os de antes, são “espelhos do mundo social”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/02/2008.

