‘Há mais de 20 anos que tenho insônias crônicas, coisa que, em si, não é perigosa, pois é possível vivermos dormindo muito menos do que se dorme. Cinco horas, para mim, são perfeitamente suficientes. Mas o que desgasta é a vulnerabilidade da noite, o que nela se dá enquanto dura: as proporções alteradas de tudo, o repisar de situações vividas, sejam elas estúpidas ou humilhantes, o arrependimento por maldades impensadas ou intencionadas. Amiúde, durante a noite, vêm me fazer companhia bandos de aves negras: a angústia, a fúria, a vergonha, o arrependimento, a neura. E até para a insônia existem rituais: mudar de cama, acender a luz, ouvir música, comer bolachas, beber chocolates ou água mineral. Um comprimido de Valium tomado na hora certa pode ser excelente, como também pode ser desastroso, provocando uma sensação que não raro redunda em ânsias’.
O longo trecho acima é uma homenagem e é de autoria do grande diretor de cinema, o sueco lngmar Bergman, recentemente falecido, já beirando os 90 anos. A insônia não o matou.
Faço parte do grupo de pessoas que dorme menos de seis horas por noite e somos cerca de 20% da população adulta, ou seja, de cada dez pessoas, 2 dormem menos de 6 horas. Descobri que tal fato parece ser genético. A minha mãe e os meus irmãos dormem pouco. No meu caso, em particular, sou um pássaro madrugador e, mesmo que saia à noite, pela manhã cedo estarei de pé, com todo o gás, pronto para a caminhada e mais um dia de trabalho. Agradeço se ninguém me convidar para nada que ultrapasse a meia-noite.
Houve um tempo em que me preocupei muito com essa história de dormir e a quantidade de horas de sono. Hoje já não dou muita bola e me acostumei com o fato de que parece irreversível. Se o seu caso é semelhante, não se preocupe. Você fica com mais tempo para fazer o que gosta. Dormir demais pode ser uma fuga da realidade e um descompasso com a ebulição de um mundo que tem tanta coisa a mostrar.
Dormir pouco não tem nada a ver com insônia. Insônia pode ser resultado de ansiedade ou depressão. Quase todo mundo já teve insônia. Ela se manifesta de duas formas: não se não consegue dormir assim que se vai para a cama e fica-se contando carneirinhos ou pensando bobagens. A segunda forma é acordar no meio da noite e não conseguir dormir mais. Descubra, por você mesmo, se dorme pouco ou se é insone. Se você e o seu relógio tiverem estiverem adaptados a dormir pouco, ótimo. Se, ao contrário, o que você tem é insônia, procure descobrir a razão. As nossas noites são a consequência dos nossos dias. Se você tem problemas psicológicos, assuntos pendentes a resolver, bebe muito, alguma doença ou seu estilo de vida é duro, é claro que a qualidade do seu sono não vai ser boa.
Um dia desses li uma reportagem com Michel Rimpoche, um jovem brasileiro, apesar do nome, que já é monge. Perguntaram a ele qual a forma de se atingir a paz. Ele respondeu tranquilamente que todo dia você deve fazer uma coisa boa a mais e uma coisa ruim a menos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/08/2007

