IRMÃ PETRONILLA – Diário do Nordeste

Nesta semana, vi uma homenagem sincera. Era uma celebração religiosa. Pessoas do povo, de todas as idades, de forma espontânea, se juntavam e cantavam louvores pela graça que tiveram da companhia por 18 anos de Petronilla Isonni. Seu coração, cansado, se finou há uma semana, com a paz dos que não deixam rastros de problemas, mas caminhos de luz e concórdia. Era noite e a Igreja da Vila União estava repleta de famílias e de centenas de crianças assistidas pelo Lar São Domingos Sávio. E lá estavam também os aquinhoados, no passado, com a assistência, educação e paciência de Petronillia Isonni, essa italiana destemida que largou família e amigos, vindo, sob o manto de irmã salesiana, fundar essa casa de formação de pessoas na Vila União, subúrbio de Fortaleza, ao tempo em que tudo era mais difícil.
Tijolo a tijolo edificou, com o pouco que recebia, uma casa simples, despojada, mas digna de ter a palavra lar em seu frontispício. E o fez sem recursos, com quase nenhuma ajuda de governos, sem medo dos assaltos que aconteciam nas redondezas, das caras feias de fiscais, mas com o coração e as mãos plenos de esperança. Os tijolos, reunidos, tinham o sentido futuro da transformação de crianças pobres que a tratavam como segunda mãe, embora fosse rigorosa na educação e modos.
E a casa, com o tempo, se fez jardim de ensinamentos e posturas de vida, rendendo frutos humanos. Nessa celebração era evidente o bem querer nos olhares atentos, leituras dos textos e orações coletivas, nos aplausos que mãos simples ofereciam como presente, a quem tanto lhes deu e agora tinha ido para sempre. Naquela Igreja sem ornamentos, vi, ao final, a singeleza da encenação e crença de crianças transformadas em anjos e querubins em auto de louvor que ‘mostravam a chegada ao céu’ da Irmã Petronilla, gente de bem. E não faltou a recepção de Maria, José e Jesus à nova moradora das paragens celestes. Eu, quase um cético inato, deixei que viesse à tona o residual que temos consolidado da fé cristã e constatei, alegre, que a simplicidade torna as pessoas mais próximas, verdadeiras, generosas e felizes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/12/2007.

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