LEITURA E LIVROS – Diário do Nordeste

Recebo e-mail de autor desconhecido com pinturas e frases sobre leitura e livros. Resolvo aproveitar as interessantes. Começo com a quase brasileira Clarice Lispector: ”Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor. Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um livro que eu mesma escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim: eu o estaria lendo e, de súbito, uma frase lida com lágrimas nos olhos…” Mudo para Henry Miller, escritor erótico americano, autor da trilogia Nexus, Sexus e Plexus, que dizia: “Devemos ler para oferecer à nossa alma a oportunidade de luxúria”. Jorge Luís Borges, escritor argentino que, pouco a pouco, foi cegando e lia pela voz dos outros, mesmo assim afirmava: “O livro é uma das possibilidades de felicidade que dispomos”.
A poeta mineira Adélia Prado, imitando o Cântico das Criaturas, de São Francisco, criou o “Louvai ao Senhor, livro meu irmão, com vossas letras e palavras, com vosso verso e sentido, com vossa capa e forma, com as mãos de todos que vos fizeram existir. Louvai o Senhor”. Vejam, citei Clarice, Miller, Borges e Adélia e ainda estou no meio do meu espaço.
É que a escrita, quando é nossa, sai aos borbotões, mas a colagem a que me propus é mais difícil que criar o próprio texto. Entretanto, a tarefa tem que ser cumprida e me valho agora do escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón, autor de “A sombra do vento”. Quando afirma: “Cada livro, cada volume que vês tem alma, a alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte”. O atormentado escritor checo Franz Kafka, autor de “O Processo” acreditava que “um livro deve ser o machado que partirá os mares congelados de nossa alma”. Tentei mostrar que usar texto alheio, mesmo falando sobre leitura e livros, foi tarefa que não me afagou.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/2010.

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