Resolvi dar uma trégua ao corpo e revigorar a alma. Ouvi-os e senti que precisava dar uma parada no trabalho e no dia-a-dia da minha cidade. Apenas um par de semanas, mas já estou voltando. Montaigne, escritor francês do século XVI, o das grandes descobertas, dizia: “Geralmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens, respondo que sei bem do que estou fugindo, mas não o que estou procurando.” Peguei o primeiro aeroplano e fui procurar novos ares. Não, não fui para o circuito Elizabeth Arden, tampouco aproveitar o sol das praias que restam ensolaradas em meio às estações que mudam com os hemisférios. Fui ver o que não conheço e rever o que vi pouco. Outros tempos, outros olhares. Esmiuçar lugares estranhos e passar longe do que costumeiramente se faz. Aprendi a viajar em aviões pequenos, ao lado do meu pai que me pedia para ler a bússola e segurar nos manetes. Depois, tomei peguei gosto e a estrada da vida, descobrindo que o mundo é também a minha casa. Vi sóis, chuvas, relâmpagos, trovões, ciclones, neves, desertos e florestas. Senti-me parte disso tudo, sem deixar de ter minhas referências. Amo a liberdade de ser apenas um e não fazer parte do todo que me abriga por um tempo, qualquer que seja ele. Olho para estranhos que nunca reverei e penso no que são e fazem e, algumas vezes, ouso até perguntar. Erro, quase sempre. Como desvendar a alma humana – se ela é um mistério – com um simples olhar? E me perco no encontro de ruas em que passo e repasso, procurando o que não sei. Mas, encontro o inesperado. Remexo em livros de uma livraria grandiosa ou despojada, ouço músicos de rua admirando a coragem de exporem seus chapéus à cata de trocados. Não faço fotos, retenho tudo na memória. Sento em um bar e bebo lentamente, esperando que esse longo drinque se transforme nos espirituais prometidos pelas águas límpidas dos rios que circundam as montanhas da terra de Sir Walter Scott. Não, não estou na Escócia. Lá só fui uma vez e basta. Estou longe, tão longe que o dia é noite e a noite se faz dia, segundo os meridianos de Greenwich.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/10/2008.

