Antes que maio acabe gostaria de dizer que muita gente idealiza o maio de 68 no Brasil. Aqui, na verdade, o ano começou depois. Havia uma ditadura e maio passou incólume. Depois, sim, como reflexo do maio da França. Vieram a Passeata dos Cem Mil, a invasão do restaurante Calabouço, em junho, no Rio, e o congresso da UNE, em novembro, em Ibiúna, SP, quando 920 estudantes foram presos. Como contrapeso, veio o Ato Institucional No. 5, em 13 de dezembro, e o ano não terminou no dizer de Zuenir Ventura, autor de “1968 – O ano que não acabou”. Ele diz: “Aquela utopia ingênua de que as drogas seriam uma abertura da consciência a novas percepções…” E continua: “a droga provou ser um instrumento de morte desde que foi apropriada pelas multinacionais do tráfico”. Ele também fala, hoje: Eu sou contrário a essa tendência de folclorizar 68, reduzindo-o a um movimento de malucos, drogados e porra-loucas. Não era e não foi assim”. Vamos então falar de maio de 68. O maio foi na França. Lá, aconteceu. E não foi um movimento organizado, mas uma espécie de “Woodstock” urbana em que se contestava tudo. O mundo havia mudado, sim, mas não por conta exclusiva desse maio de 1968, porém de tudo o que tinha sido vivido, dito e escrito antes por pessoas como Simone de Beauvoir que pregava a luta pela liberdade, ao invés da conquista da felicidade. Àquela época, as mulheres haviam conquistado a liberdade como decorrência de anos de lutas individuais ou coletivas. Os estudantes protestavam, eram cabeludos, o sexo aflorara com a pílula e a droga começava a sua trilha malfazeja, sem prejuízo dos sonhos que embalam as resistências. As universidades de Sorbonne e Nanterre foram o foco de todas as ações. Nessas ações surgem líderes, naturalmente. Um dos líderes franceses era Daniel Cohn-Bendit, então maoísta, trotskista ou anarquista, que depois “se tornaria um respeitável deputado no Parlamento Europeu”, no dizer de Peter Burke, historiador inglês. Os jovens arrancaram pedaços de calçamento, quebraram a representação da American Express e de bancos americanos, picharam a cidade e atiçaram o velho Charles De Gaulle e este queria reagir, mas recuou. Deixou a onda passar, ganhou as eleições parlamentares, mas renunciou em 1969, sendo sucedido por seu amigo Georges Pompidou, também do mesmo pensar. Em 1970, Jean Paul Sartre diria: “…estava pensando no que havia acontecido (68) e que não tinha compreendido muito bem.
Não pude entender o que aqueles jovens queriam”. É claro que os jovens queriam avanços na alma política francesa, que as universidades fossem reformadas, com aumento de vagas e melhor qualidade acadêmica. As feministas queriam rasgar seus sutiãs e mudanças na organização familiar que passou a não esconder debaixo dos tapetes as suas mazelas e dramas. O que fica bem claro nestas comemorações é que o residual de tudo parte da busca da liberdade, do sexo sem medo, da aceitação das minorias, da disseminação da cultura pela dúvida, de novas posturas pessoais em relação à sociedade e da busca da igualdade entre homens e mulheres.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/05/2008.

