Os que nasceram dos anos 90 para frente, se não virarem historiadores ou jornalistas, não saberão que houve um grupo de comunicação chamado Manchete. Aconteceu assim: uma família de judeus ucranianos, em 1922, imigra ao Brasil com parcos capitais. Entre eles, um jovem de 14 anos, Adolpho Bloch
Esse menino era filho de gráficos que conseguiram comprar uma pequena impressora para fazer cadernetas do “jogo do bicho”. Nos anos 40, destemido e capaz, passa a trabalhar com Roberto Marinho, na Rio Gráfica, e ali cresce profissionalmente. Em 1952, funda a revista Manchete que, em pouco tempo, passa a ser a mais lida do Brasil.
Seu ex-colaborador Carlos Heitor Cony, sarcástico como sempre, diz que Adolpho não tinha vocabulário maior que 500 palavras. Mesmo assim, reuniu a nata dos escritores de então e deu-lhes emprego e espaço. A partir de Clarice, Drummond, Sérgio Porto, Otto Maria Carpeaux, o próprio Cony e outros. Arnaldo Niskier, jornalista, professor, escritor, acadêmico e uma espécie de sobrinho de “Seu Adolpho”lançou, agora, o livro “Memórias de um Sobrevivente”, focado na sua figura, que tinha JK como o seu maior amigo.
Niskier fala da vida e da obra do velho judeu, com suas revistas, emissoras de rádio e a TV Manchete, criada em 1983. Casado, sem filhos, morre em 1995. Em 2000 foi decretada a falência das empresas Manchete. A sede, invadida por sem tetos. Hoje, em notícia de pé de página na Folha, leio que foi implodida. Ali,o Governo fará apartamentos do “Minha Casa, Minha Vida”. Thomas Mann, escritor alemão, dizia: “A glória em vida é algo problemático: é aconselhável não se deixar deslumbrar por ela”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2011

