Estou na cidade do México. Esta cidade tão bonita, quão diversa em suas múltiplas faces. Vim, meio atropelado e curioso, por minha conta e risco, para sentir o outono e ver a Feira do Livro que tem a cidade de Fortaleza como convidada estrangeira especial. Pena que Fortaleza só se faça representar pela Secretaria de Cultura do Ceará. De qualquer forma, vieram mais de 20 pessoas. A Secretária Cláudia Leitão, assessorada por Cleudene Aragão, comanda o grupo. Poucos escritores, é verdade. Mas há a alegria e os acordes do bom conjunto musical de Waldonys, com uma versão quase erudita da nossa música popular, as presenças dos escritores Ângela Gutiérrez, Batista de Lima, crítico literário Floriano Martins, artista plástico Hélio Rola e do cordelista Klévisson, entre outros.
A Feira do Livro fica situada na parte central da cidade do México, tão grande quanto rica em cultura e arqueologia. O Zócalo é o pulmão da cidade, na Praça da Constituição, próximo do bosque Chapultepec, onde se pode ver ruínas do Templo Mayor asteca, um dos parques mais bonitos da América Latina. Nele está montada uma grande área de 23 mil metros quadrados onde expõem cerca de 130 editoras. Mas, a Feira tem também eventos alternativos nos museus Nacional das Culturas e da Cidade do México e nas antigas – e restauradas – sedes do Palácio do Arcebispado e do colégio de Santo Idelfonso.
O tema desta Feira é “a cidade, um livro aberto”. Patrocinada pelo Governo do Distrito Federal, Secretaria de Cultura e Câmara Mexicana do Livro, pretende ter 900 mil visitantes e difundir, não só o gosto pela leitura, mas a beleza, a cultura e as artes eruditas e populares de Fortaleza. Há sim, acreditem, um stand ou tenda com gente, livros, música e arte plástica cearenses.
O amor do México por Fortaleza precisa ser correspondido com mais intensidade. O Consulado e o Adido Cultural da Embaixada do México no Brasil, Felipe Ehremberg, que tem sido um visitante ilustre em Fortaleza, mercê de sua larga de homem de cultura internacional, elegeram a nossa cidade para intercâmbios. Essa oportunidade rara, deveria ter tido uma repercussão de maior densidade cultural pela visibilidade que Fortaleza e o Ceará precisam ter. Não há outra forma de sairmos do anonimato. Urge entender que a cultura é um dos veículos propulsores do crescimento humano, sem falar na possibilidade do crescimento editorial, limitado em Fortaleza, via de regra, a saraus patéticos de lançamentos, alguns com longos discursos laudatários, onde se vendem livros que poucos folheiam e raros leem.
Nesta feira se esbarra, em todos os cantos, com expoentes da literatura da América Latina, alguns todos tão inseguros e vaidosos como podem ser os escritores. O importante é que se adotou e difundiu aqui que o livro é um instrumento de libertação da pessoa. Ler nos torna livre.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/10/2004.

