Se eu fosse um fabricante de livros, faria um registro comentado das diversas mortes. Quem ensinasse os homens a morrer, ensiná-los-ia a viver. Montaigne
Não sei se você lembra quem foi Franz Paulo Trannin da Mata Heilborn. Depois, eu conto. O fato é que até hoje a sua biblioteca de 5.000 livros de primeira linha continua nas mesmas estantes. Morreu de um enfarto, brigava contra uma estatal que acreditava ter métodos e ações dos tempos dos dinossauros.
A viúva, passado o luto, fala em negociações não concretizadas. Erudito, polêmico, preconceituoso, mas inteligente. Escrevi dois artigos metendo o pau nele, mas me espantava a sua coerência excêntrica em seus escritos e falas. Mudando e mantendo o mesmo objetivo, estive agora na morada de outro intelectual morto. Jubilado, após glorioso percurso mundial diplomático, veio ter à sua terra e, após algum tempo, finou.
As paredes falsas, agregadas às existentes eram mais que necessárias para formar estantes repletas de livros, condecorações, diplomas e medalhas de vários países. Tudo está lá, pois como dizia o meu pai, nada se leva deste mundo. No tempo em que lá passei, mais do que o necessário para um visitante, a cabeça relembrava um encontro que, ainda jovem, tive com esse intelectual no Rio. Faz décadas. Não tenho a intenção de revelar o seu nome, mas direi que deixou um caminho iluminado em sua vida e em cada estante, nos detalhes do mobiliário, dos quadros, das gravuras e dos adornos muitos sobre mesas.
O fato ficou remoendo para, no mesmo dia, ao abrir o “Ilustríssima”, caderno literário da Folha, deparar-me com o artigo “Na cova da Fera”, de Lucas Ferraz, sobre Paulo Francis, a pessoa referida na primeira frase, para dar gancho a este escrito. Coincidência? “No lo creo”. Duas pessoas distintas e plurais, em tempos, atividades e lugares diferentes, deixam, ao partir, além dos livros escritos, os lidos, os grifados, e os velhuscos. Apelo a Agostinho, o santo e intelectual: “Ama e faze o que queres”. Enquanto é tempo, digo eu. A morte é um esconderijo, refrigério ou fuga?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/05/2013

