O ESTADO, 77 ANOS DE COMBATE – Jornal O Estado

Imprensa é liberdade. O resto é armazém de secos e molhados”. Parafraseando Millôr Fernandes.
Quando o advogado José Martins Rodrigues e, o seu irmão, o banqueiro Júlio Rodrigues fundaram o jornal O Estado, em Fortaleza, Ceará, no dia 24 de setembro do ano de 1936, o Brasil caminhava a passos dúbios que desembocariam, no ano seguinte, no Estado Novo, com a emergência de Getúlio Vargas como o detentor absoluto do poder que se fez discricionário e voraz. Só em 1946 voltaria a ser uma democracia, com a eleição de Eurico Gaspar Dutra. Nesses 10 anos iniciais, O Estado foi um aliado do governo, mercê da assunção de Francisco Menezes Pimentel, aliado de Martins Rodrigues, como Interventor.
Restabelecida a Democracia, O Estado retomou suas frentes de luta e incorporou o ideal libertário que surgiria, efetivamente com Wenelouis Xavier Pereira. Como este relato segue uma linha histórica, o faço com a leitura da Cronologia de Fortaleza, volume II, escrito em 2001 por Miguel Ângelo de Azevedo=Nirez. Ajudou-me também uma rica conversa com o brilhante Professor Roberto Martins Rodrigues, filho do fundador José Martins Rodrigues. Este viria a se tornar um dos maiores políticos brasileiros, chegando a ser Ministro da Justiça.
Assim, vieram depois novos donos. Alfeu Faria de Aboim e Walter de Sá Cavalcante,em 1942; Antônio Gentil, o controla, em 1945; depois Cláudio e Fran Martins, comandam os anos 50; e Sérgio Philomeno até 1964. Em 1965, repito, impõe-se a figura destemida do advogado Wenelouis Xavier Pereira, que se tornou o timoneiro da fase clarificada e independente, sem partidarismo político ou a defesa dos grupos empresariais que o mantiveram até então, com diversas linhas editoriais.
A dolorosa e difícil independência perdura até hoje com o seu herdeiro e seguidor Ricardo Palhano, acolitado por seus irmãos e abençoado por sua mãe, a Procuradora Wanda Palhano. Estamos em 2013, mas não podemos esquecer os muitos jornalistas e colaboradores que ilustraram as páginas de O Estado nestes 77 anos. A todos, mesmo os não nomeados, homenageio. Começo com os do fim da década de pessoa de Joaquim Alves, editor da coluna “Educação e Ensino”; os dos anos 40 com Silvia Porto, que escrevia sobre Literatura e Artes. A vanguardista edição dominical bicolor com ênfase “No Jornal dos Nossos Filhos”, destacando o pioneirismo da fundação da Cidade da Criança pela professora Zilda Martins Rodrigues. Os dos anos 50, com Afrânio Coutinho em “Correntes e Cruzadas”; Dinah Silveira de Queiroz com “Filosofia Prática” e Roberto Martins Rodrigues, que passa a escrever, quiçá, a primeira coluna política do Ceará.
Aí chegamos aos anos sessenta, e para dizer que não falarei em armas e dragões, identifico as críticas e observações do cinéfilo Francisco (Chico) Sampaio, ilustre professor e fundador do colégio Geo, com métodos que começaram a mudar o perfil das demais escolas privadas do Ceará. Luciano Diógenes, após o fechamento dos Diários Associados no Ceará, passou a escrever no O Estado, tal como a novel jornalista, oriunda do curso de Comunicação da UFC, Regina Meyer Marshall, que fincou as bases de sua atuação destacada como colunista, fruto espontâneo de sua vivência social, mas com acuidade e capacidade crítica. Cléa Petrelli vem dar um charme diferente às coisas mundanas, às viagens e à política.
Nos anos 80, Wanda Palhano inova com a criação de “A Semana”, folhetim diferenciado. De 90 para cá quase todos são parceiros da contemporaneidade. Agora, neste dezembro de 2013, depois da homenagem recebida pela Assembleia Legislativa do Ceará ao jornal independente que é O Estado, cumpre realçar os que aqui mourejam de segunda à sexta nas pessoas dos jornalistas Macário de Brito, o mais atilado e “globe-trotter” dos jornalistas da terra; Fernando Maia, um dos mais antigos e bem informados colunistas políticos; Flávio Torres, com a sua alegria contida e candura natural; Antonio Viana, veterano radialista/jornalista com enfoque na política do interior; Rubem Frota, publicitário e jornalista, com informações sócio- econômicas; Natalício Barroso, intelectual e um dos mais cultos na análise da arte e da cultura; Solange Palhano com o seu jeito coloquial, pessoal e direto de falar de dores, amores, viagens e família. Isto sem contar os colaboradores nacionais como Sebastião Nery, Cláudio Humberto e Carlos Chagas.
Não há como lembrar todos, mas a mostra é significativa, sem deslembrar que jornal é como um filme. A diferença é que nunca acaba. Mas, tal como em todos os filmes, nos jornais há o Expediente, os créditos para os que o produzem, dirigem e atuam. Em letras pequenas, ele mostra o equilíbrio da presidência ou produção, de Wanda Palhano; da superintendência ou direção geral cuidadosa de Ricardo Palhano, com a ajuda irmanada de Soraya(financeira), Solange(institucional) e Rebeca(marketing).
Tudo isso sendo tocado na redação por Carlos Alberto Alencar (editoria geral), Daniel Nogueira (editor) Marcelo Cabral (economia), Nonato Almeida e Felipe Muniz(reportagem), Thatiany Nascimento(cotidiano) e J.Júnior(diagramação).
O Estado é tudo o que foi dito, mas o é por conta especial dos seus leitores e anunciantes que acompanham a sua trajetória e sabem que nestes 77 anos muitos jornais cearenses deixaram de existir. Ele está firme e tem ciência de que a independência custa caro, mas vale a pena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/12/2013

Sem categoria