Acabamos de realizar uma excelente exposição fotográfica na Galeria BenficArte. Por um desses imprevistos aborrecidos, não pude estar presente ao coquetel na noite da sua abertura, 04 de julho passado. Peço desculpas públicas ao parente e colega, Marcos Soares de Castro, Cônsul da Noruega, e ao seu Cônsul Geral no Brasil, Jens Olsen. Eles, taças de vinho a mão, esperaram para brindar comigo. Unnskylde, desculpem.
Na manhã do dia seguinte, entretanto, passei muito tempo a admirar cada um dos quadros dos “Três Fotógrafos Noruegueses” que fogem ao lugar comum da fotografia. A mostra, gratuita, encerrada no dia 28, foi visitada por centenas de pessoas que assinaram o livro de presenças. Como costumo fazer, deveria escrever algo específico sobre a qualidade e o jeito peculiar de Pern Berntsen, VerenaWinkelmann e Rune Johansen mostrarem aquele país. Como “mea culpa” vou me privar de. O texto a seguir não é meu. É de autoria do crítico de arte e jornalista Lars Elton:
“A fotografia sempre é uma versão editada da realidade, e esse é um fator importante a levar em consideração diante destas imagens. Todas foram feitas na Noruega, um país conhecido por seus belos fiordes, pelo sol da meia-noite, pela aurora boreal, por ursos polares e renas. Ao mudarmos o foco ou viajarmos para outros lugares que não sejam os destinos turísticos tradicionais, talvez possamos encontrar o que vemos nas fotografias do trio Berntsen, Johansen e Winkelmann. Pois aqui há paisagens sem qualidades espetaculares, pessoas que talvez sejam um pouco esquisitas, paisagens urbanas sem elementos dramáticos e interiores criados ao longo do tempo, sem qualquer preocupação com os modelos estéticos das revistas de decoração.
Mas essas fotos têm algo em comum com a propaganda turística: na medida em que há pessoas nas imagens, elas mostram que os indivíduos que moram na Noruega têm bastante espaço, seus vizinhos moram longe, e a natureza é algo que, em grande parte, se pode apreciar sozinho, sem ser perturbado por outras pessoas. Essa experiência está tão profundamente arraigada na nossa alma que dificilmente podemos pensar em nós mesmos como noruegueses sem a natureza como referência.
No projeto “Placed”, de VerenaWinkelmann,realizado entre 2004 e 2008, em diversas pequenas e grandes cidades do sudeste da Noruega, as fachadas das casas compõem parte considerável do material fotográfico. De acordo com ela, as cidades norueguesas são compostas por construções independentes e solitárias num mundo sem fim – assim como as pessoas.A série inclui diversos retratos, mas as imagens não procuram caracterizar as pessoas retratadas. A fotógrafa não quer invadir a esfera privada, ela capta os rostos “na encruzilhada entre a sensibilidade e a autoconsciência”.
As fotografias de RuneJohansen também mostram casas isoladas. Como na Noruega,há espaço sobrando, é natural construir sua casa um pouco afastada da do vizinho. Ele retrata pessoas que moram em sítios isolados, mostrando os ambientes que essas pessoas construíram, as casas que ergueram e a paisagem que elas moldaram. Johansen nos proporciona um olhar privilegiado sobre o vizinho.
As fotografias das paisagens de Eggedalde Per Berntsen não contêm nenhum elemento dramático. São os detalhes e as amplas vistas que caracterizam a narrativa do fotógrafo. Mas é desses retratos cotidianos de uma paisagem insignificante que surge uma nova experiência. As imagens geram o reconhecimento das qualidades do ordinário, do potencial estético que reside naquilo que normalmente deixamos passar despercebido.
Um conhecido teórico da arquitetura, o norueguês Christian Norberg-Schulz (1926-2000), escreveu sobre o conceito genius loci, que pode ser traduzido simplesmente como ‘a alma do lugar’. Uma interpretação dessa ideia é que a paisagem onde o indivíduo cresce forma seu caráter. Nesse contexto, os três artistas apontam para uma compreensão da Noruega e dos noruegueses” . “Mea Culpa” em norueguês é Min Feil.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/08/2013

