Minha amizade com Lúcio Brasileiro começou no ano em que ambos fomos aprovados no vestibular de direito da Universidade Federal do Ceará. Lúcio viu, em seguida, que só no jornalismo poderia ser ele próprio. Abandonou o curso no primeiro ano. Dois anos após, passamos a ser colegas no Correio do Ceará. Ele já escrevia há anos sobre Sociedade e eu começava a escrever sobre “Informes Acadêmicos” e “Administração e Negócios”. Passei alguns anos lá e a nossa amizade espontânea subiu ao Iracema Plaza Hotel, onde ele morava, e se fazia constante em vários lugares, especialmente em papos noturnos no Náutico e Ideal com amigos. Desse tempo tão bom e rico de fraternidade, guardo com carinho algumas lembranças que agora conto a vocês e é parte do livro editado pelo Lustosa da Costa: 1. Um dia, Lúcio cismou que eu era bom filho, estudioso e trabalhador. Um ‘rapaz de futuro’, como se dizia então e deveria ser seu cunhado. E foi do pensamento ao ato: apresentou-me a uma irmã. Ela e eu, alheios à idéia, na casa de sua família no começo da Av. Dom Luís, rimos e ficou nisso. 2. De outra feita, era uma tarde de sábado, já na sua nova e recém decorada – por Arialdo Pinho – cobertura do Iracema Plaza, quando avistamos um navio apitando forte no Porto do Mucuripe. Éramos uns cinco ou seis e Lúcio lançou um desafio a todos: sem saber para onde aquele navio iria quem se atrevia a tomá-lo? Ao final, só ele e eu tomamos o “Rosa da Fonseca” (ou seria o Ana Nery?) com destino a Belém. Chegando lá, peguei um Fusca e fomos passear com duas amigas, jovens da sociedade local. Fomos à praia de Icoaracy, lugar bonito, mas distante. Voltávamos tranqüilos, após meia-noite. Eram tempos da Revolução e, assim, fomos parados, sob a mira de metralhadoras, por patrulha da Aeronáutica por termos invadido, sem saber, área militar (era proibido trafegar à noite por lá). Descemos do carro e fomos levados para o Corpo da Guarda. O Lúcio, indiferente a tudo, mexia nas armas que ali estavam expostas. Chega o Oficial de Dia e informa que estávamos detidos e que só ao amanhecer, quando o Comandante chegasse, iríamos ter ciência do nosso destino. As duas jovens estavam constrangidas. Depois de algum tempo, lembrei que eu era tenente R2 – reserva – do Exército e até portava uma carteira de identidade militar. Graças a isso, fomos liberados com a promessa de não mais repetir o erro. Ele não se perturbou com nada, pois, de cansaço, já dormira. 3. Por escrever no Correio do Ceará, como já disse, sobre administração e negócios, a Indústria e Comércio de Minérios S.A. colocou à minha disposição passagens para levar jornalistas ao Amapá. Iríamos visitar minas de manganês, portos, estradas de ferro e o progresso que implantavam por lá. Lembro bem que as casas não tinham muros, eram ajardinadas e havia até boliche – algo inédito no Brasil – no clube charmoso e privativo dos empregados. O fato é que levei, entre outros: Joseoly Moreira, Guilherme Neto, Giacomo Mastroianni e o Lúcio. Nesse tempo, Lúcio usava um imenso bigode e, de ressaca, dormia no trem especial que nos conduzia a Serra do Navio. Consegui uma tesoura e me atrevi a aparar o seu bigode. Quando o metal da tesoura encostou-se à sua face, ele acordou e o bigode permaneceu intacto até o dia em que ele, por vontade própria, o tirou. Eram tempos de quase juventude e folguedos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/04/2008.

