UTOPIA E A REALIDADE

Um dia desses, meio por acaso, acessei um desses canais alternativos, de audiência tida como zero, e, para surpresa minha, lá estava José Saramago, o único prêmio Nobel de literatura dos países de língua portuguesa. Pois bem, Saramago, ficcionista dos melhores, dizia, para pasmo de todos, ser contra a utopia, como a queriam Platão em sua República e, depois, muito depois, Thomas Morus. Para Morus, a Ilha da Utopia deveria ser lastreada em dois pressupostos: a abolição da propriedade privada e a limitação das ambições pessoais à necessidade de suprir os interesses coletivos.
Se vi e ouvi bem, e posso não reproduzir com fidelidade, Saramago, a quem tive a oportunidade de ver fugazmente em uma feira de livros lá na Marquês de Pombal, perto da Estufa Fria, em Lisboa, falava que o dia de amanhã é a nossa utopia. E o dia imediato só reproduz o trabalho de hoje. Nada mais chão, mais terra a terra. Nada de intermitências da morte, nada de memorial de convento. Era o lúcido senhor do alto da sua maturidade, mesmo com toda a sua equipagem marxista, dizendo que a vida se faz com trabalho, caminho, determinação, ao invés de utopia.
Ora, utopos é nenhum lugar, qualquer lugar, ou um lugar que não há. O que há parece ser o caloteiro com cara de sério, os puxa-sacos, a violência crescente, a pobreza renitente, a doença escondida, a sordidez das páginas policiais, a promessa não cumprida dos que anunciam muito e se desfazem em desencantos. Mas, o mundo real não é só o que foi dito acima, é muito mais que isso. Ele é também produto da luta humana, da dedicação dos que não estão tramando, enganando, confabulando, matraqueando inconsequentemente, mas aqueles que estão fazendo a sua parte, as tais formiguinhas que muitos gostariam de ser, cigarras que são e nunca formigas serão. Mas, a utopia, paradoxalmente, mesmo que não saibamos, é o que faz o nosso caminho, seja com trabalho árduo, paciência, tenacidade, ou olhos nas transformações, esse vir a ser que começa a cada dia e nos impulsiona dos sonhos à realidade, a que recebemos com todos os sentidos e com a importância da vida.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/02/2006

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