“No interior da grande cidade de todos está a cidade pequena em que realmente vivemos”.
José Saramago
Como já mexi em diferentes áreas do conhecimento, por oportunidade, ousadia, descortino, curiosidade e necessidade, ouso dizer que passei anos coordenando e dirigindo equipes de planejamento urbano em cidades do Nordeste, especialmente, na região semiárida. Do Maranhão à Bahia vasculhamos urbes e, com arquitetos, economistas, engenheiros, geógrafos, historiadores, advogados, sociólogos e outros mais fomos aprendendo, planejando e ensinando a fazer. O que foi difícil.
Orgulho-me, por exemplo, do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, de Mossoró, Rio Grande do Norte. Mossoró, então dirigida por Dix-Huit Rosado Maia, começou a implantação do que planejamos na década de 1970 e, hoje, é uma das mais promissoras cidades da Região. Tenho, em algum arquivo perdido, texto de jornal quando da entrega ao então prefeito de Sobral, Euclides Gomes, do Plano Estratégico daquela cidade da zona norte do Ceará.
Agora, neste 2014, vemos o óbvio: as cidades estão sufocadas em suas estruturas urbanas pela ausência de planejamento de longo curso, pelo fomento à industrialização de veículos em face dos impostos e empregos que geram. Esses veículos sejam bicicletas, motos, carros, caminhões e ônibus precisam de rodovias para a sua livre circulação. Os aviões carecem de bons aeroportos ou meras pistas de pouso onde taxiam Brasil adentro. Em pleno século 21 o Brasil tem baixa navegação fluvial e marítima. A grande rede ferroviária nacional foi sucateada sob, entre outras alegativas, das diferenças de bitolas que recebem as rodas dos trens. Há promessas de melhoras. Para quando?
Foi na década de 1960 que começou o cerco às carências de áreas urbanas para habitação e lazer. Adensam-se as favelas iniciadas, no século 19, pelos soldados vindos das guerras do Paraguai e de Canudos. A eles, em nome das “vitórias” foram prometidas moradias, nunca dadas pelo Governo. A propósito, o nome Favela (cnidoscolus phillanthus) tem a ver com o mundo ideal e utópico do messiânico cearense Antonio Conselheiro nos sertões da Bahia. Ela é planta espinhenta que servia de barricada contra as descomunais forças militares que, após sucessivos embates, dizimaram Canudos. Euclides da Cunha, um duplo, pois observador militar e escritor. O Autor de “Os sertões” expõe sua visão como engenheiro, antropólogo, escritor e homem frágil em crise pessoal permanente.
Em meio ao século 20, o grande Brasil rural passou a ser urbano com a velocidade do sonho de JK, e da atração capilar exercida pelas cidades-polo de crescimento sobre migrantes do sertão brabo em busca, de início, da sobrevivência. Após a sobrevivência, eclode o natural desejo de inserção na cidadania que cobra casa com água, esgoto, energia elétrica e ruas pavimentadas, assistência médica, educação para a descendência, segurança pública e, por fim, o tal do consumo conspícuo que os atrai com lampejos, apelos, veículos vendidos com crédito a perder de vista, cartões de créditos a juros absurdos e o fascínio do embuste que é o crédito consignado.
Estava formada a equação complexa para o caos que é hoje o Brasil urbano. Deixo, por ausência de conhecimento, de falar na economia e na produção rural que parecem ser pilar nas exportações brasileiras de “commodities”. Entretanto, quem exporta commodities é porque não alcançou ainda os patamares da industrialização competitiva no mundo sem confins e apátrida do mercado internacional.
As lutas de ecologistas sérios para a preservação da natureza não pode coibir as transformações que a mobilidade urbana está a exigir, sob pena de asfixia coletiva que coloca os guiadores em estado de suspense com medos de assalto pela lentidão do trânsito e do exagerado número de semáforos. Por outra parte, a criação recente de ciclovias e de faixas exclusivas de coletivos não deve apenas acelerar a quantidade de multas de trânsito, pois, na verdade, há ainda pouco uso dessas estreitas faixas fora dos horários de pico e os outros veículos precisam fazer conversões. A educação de trânsito é mais benfazeja que a aplicação de sanções pecuniárias a guiadores que ainda se consideram “donos da rua”. O diálogo democrático permite a confrontação das ideias, mas, infelizmente, as cidades não param de crescer.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/11/2014
