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A HISTÓRIA DO FUTURO DAS CIDADES E A CONSCIÊNCIA URBANA – Jornal O Estado

“No interior da grande cidade de todos está a cidade pequena em que realmente vivemos”.
José Saramago
Como já mexi em diferentes áreas do conhecimento, por oportunidade, ousadia, descortino, curiosidade e necessidade, ouso dizer que passei anos coordenando e dirigindo equipes de planejamento urbano em cidades do Nordeste, especialmente, na região semiárida. Do Maranhão à Bahia vasculhamos urbes e, com arquitetos, economistas, engenheiros, geógrafos, historiadores, advogados, sociólogos e outros mais fomos aprendendo, planejando e ensinando a fazer. O que foi difícil.
Orgulho-me, por exemplo, do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, de Mossoró, Rio Grande do Norte. Mossoró, então dirigida por Dix-Huit Rosado Maia, começou a implantação do que planejamos na década de 1970 e, hoje, é uma das mais promissoras cidades da Região. Tenho, em algum arquivo perdido, texto de jornal quando da entrega ao então prefeito de Sobral, Euclides Gomes, do Plano Estratégico daquela cidade da zona norte do Ceará.
Agora, neste 2014, vemos o óbvio: as cidades estão sufocadas em suas estruturas urbanas pela ausência de planejamento de longo curso, pelo fomento à industrialização de veículos em face dos impostos e empregos que geram. Esses veículos sejam bicicletas, motos, carros, caminhões e ônibus precisam de rodovias para a sua livre circulação. Os aviões carecem de bons aeroportos ou meras pistas de pouso onde taxiam Brasil adentro. Em pleno século 21 o Brasil tem baixa navegação fluvial e marítima. A grande rede ferroviária nacional foi sucateada sob, entre outras alegativas, das diferenças de bitolas que recebem as rodas dos trens. Há promessas de melhoras. Para quando?
Foi na década de 1960 que começou o cerco às carências de áreas urbanas para habitação e lazer. Adensam-se as favelas iniciadas, no século 19, pelos soldados vindos das guerras do Paraguai e de Canudos. A eles, em nome das “vitórias” foram prometidas moradias, nunca dadas pelo Governo. A propósito, o nome Favela (cnidoscolus phillanthus) tem a ver com o mundo ideal e utópico do messiânico cearense Antonio Conselheiro nos sertões da Bahia. Ela é planta espinhenta que servia de barricada contra as descomunais forças militares que, após sucessivos embates, dizimaram Canudos. Euclides da Cunha, um duplo, pois observador militar e escritor. O Autor de “Os sertões” expõe sua visão como engenheiro, antropólogo, escritor e homem frágil em crise pessoal permanente.
Em meio ao século 20, o grande Brasil rural passou a ser urbano com a velocidade do sonho de JK, e da atração capilar exercida pelas cidades-polo de crescimento sobre migrantes do sertão brabo em busca, de início, da sobrevivência. Após a sobrevivência, eclode o natural desejo de inserção na cidadania que cobra casa com água, esgoto, energia elétrica e ruas pavimentadas, assistência médica, educação para a descendência, segurança pública e, por fim, o tal do consumo conspícuo que os atrai com lampejos, apelos, veículos vendidos com crédito a perder de vista, cartões de créditos a juros absurdos e o fascínio do embuste que é o crédito consignado.
Estava formada a equação complexa para o caos que é hoje o Brasil urbano. Deixo, por ausência de conhecimento, de falar na economia e na produção rural que parecem ser pilar nas exportações brasileiras de “commodities”. Entretanto, quem exporta commodities é porque não alcançou ainda os patamares da industrialização competitiva no mundo sem confins e apátrida do mercado internacional.
As lutas de ecologistas sérios para a preservação da natureza não pode coibir as transformações que a mobilidade urbana está a exigir, sob pena de asfixia coletiva que coloca os guiadores em estado de suspense com medos de assalto pela lentidão do trânsito e do exagerado número de semáforos. Por outra parte, a criação recente de ciclovias e de faixas exclusivas de coletivos não deve apenas acelerar a quantidade de multas de trânsito, pois, na verdade, há ainda pouco uso dessas estreitas faixas fora dos horários de pico e os outros veículos precisam fazer conversões. A educação de trânsito é mais benfazeja que a aplicação de sanções pecuniárias a guiadores que ainda se consideram “donos da rua”. O diálogo democrático permite a confrontação das ideias, mas, infelizmente, as cidades não param de crescer.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/11/2014

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MANOEL DE BARROS E A ORFANDADE DA POESIA – Jornal O Estado

“Um mérito inegável da poesia: ela diz mais e em menor número de palavras que a prosa”.
Voltaire.
Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu, em 19 de dezembro de 1916, no Mato Grosso. Que, depois, virou dois Estados. Nasceu em Cuiabá, morreu em Campo Grande. Dois em um. Formou-se em Direito, advogou até. Casou-se, teve filhos, cansou de advogar e virou fazendeiro/poeta. Sofreu. Perdeu filho em desastre aviatório, mas nunca usou a tristeza como mote. Há um ano padecia e se finou no dia 13 passado. Quem quiser procurar, ele está em alguns escritos meus. Ora como epígrafe, ora com suas frases despidas de retórica, mas poéticas. O que escrevo abaixo é mera pesquisa/colagem. Reúno o que falaram sobre Manoel de Barros. Falta-me envergadura para descrevê-lo. Uso os outros como meio. Eu sou a mensagem. Carlos Drummond de Andrade, em 1986, teve a coragem de dizer que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. Não mentia.
A morte de Manuel de Barros nos entristece e mostra uma dura realidade: há poucos bons poetas no Brasil de hoje. Há rimadores e metrificadores, mas lhes falta essência na poesia, sobra a não naturalidade. Ele, Manoel, quis apenas dizer o simples, não se propôs a voos condoreiros que não mais cabem neste mundo transformado por mudanças que o dealbar deste século nos impuseram. Voou fora de sua própria asa.
Cada época da história deu à civilização um novo compasso. Ocorre que a invenção do chip, do computador, da internet, dos DJs, da quebra de fronteiras, dos livros digitais e do surgimento de novas linguagens, incomuns aos renitentes, mostram o atraso que nos persegue.
A “vanguarda primitiva” de Manoel de Barros possui sintaxe própria, sem o rebuscamento inglório dos que não sabem ser simples. Alguns se lastimam, outros cantam amores e há apenas os que tartamudeiam. Ele elegeu a singeleza. Vejamos: 1. Gravata de urubu não tem cor; 2.O esplendor da manhã não se abre com faca; 3. Mais alto que eu só Deus e os passarinhos. A dúvida era saber se Deus também avoava. Ou se Ele está em toda parte como a mãe ensinava. 4. A poesia está guardada nas palavras – é tudo que sei. Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. Não tenho conexões com a realidade. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado de elogios.
Em um especial da televisão GNT vê-se profunda identidade entre Manoel de Barros e o seu simplório caseiro, ambos felizes. Manoel de Barros poetou, pela primeira vez, em 1937, em plena ditadura Vargas, pouco antes da eclosão da Segunda Grande Guerra Mundial. Talvez, quem sabe, optou por ser lírico ou onírico. Nada de engajamento, de questionamentos, de dores de amores, de metáforas buarqueanas, que viriam depois. Era direto ao ponto. No filme documentário feito Pedro Cézar, de 2008: “Só Dez por Cento é Mentira”, o autor parte de um chiste de Barros: “Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”. Para Armando Freitas Filho, citado por Sérgio Rizzo, na Folha de São Paulo, 14.11.2014, Manoel de Barros “começou como um poeta formal, clássico, de dicção nobre, até chegar a uma poesia singular”. Refinou-se. Como ele próprio dizia: “Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma”.
Barros teve a sua fase revolucionária, diz Noemi Jaffe, doutora em literatura. Foi comunista e rompeu, sem tecer armas, com Luiz Carlos Prestes, quando o marido de Olga Benário, deportada para a Alemanha, por ordem de Vargas, aliou-se ao Getulismo, por ser útil. Como se sabe, Manoel de Barros era a favor da utilidade do inútil. Mia Couto, escritor moçambicano, enamorado pelo Brasil e que gosta muito de aparecer, por sua fotogenia, não perdeu a oportunidade: “Não era apenas um poeta, um recriador de um idioma que, depois dele, tornou-se mais nosso… Era um filósofo que pensava e repensava o mundo por via da poesia”. Óbvio.
Agora, editados os cadernos literários por sua morte esperada e as menções de praxe, Manoel de Barros vai continuar a ser lido por poucos. Não era funileiro de palavras. Era poeta, só. Cumpriu o seu fado. Poeta não é confeiteiro de frases. É músico sem metrônomo que escuta compassos e dissonantes e os transforma em versos melodiosos. Se a poesia é uma religião sem esperança, como queria Jean Cocteau, Manoel de Barros ultrapassou esse estágio. Viveu de esperança. Sua filha Martha despediu-se do pai com uma frase dele: “Do lugar onde estou, já fui embora”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/11/2014

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ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO DAS MÍDIAS, SEGUNDO NOAM CHOMSKY – Jornal O Estado

Caros leitores, esta semana resolvi repassar a vocês o artigo “10 estratégias de manipulação” que circula nas mídias atribuído ao linguista, filósofo e ativista político norte-americano Noam Chomsky. Ele é de origem hebraica, tem 86 anos, professor do Massachussets Institute of Technology – MIT por mais de 40 anos. Considera-se um “socialista libertário”, desde quando se posicionou contra a Guerra do Vietnã. Escreve, dá palestras e é um dos formadores de opinião do pensamento americano. Seria no Brasil, quiçá, um liberal, um social-democrata ou um politicamente correto.
Nestas quadras em que temos muitas mídias, umas falando bem, outras falando mal de todos, escândalos e pasmaceira, é bom que você fique alertado com o que vê, lê e ouve. Não é preguiça de escrever. É um desafio que lanço a cada um dos leitores. Repito, o texto abaixo e a tradução para português não são meus. O original está em parisis.files.wordpress.com. Há repetição de palavras no mesmo parágrafo, talvez como ênfase. Leia-o com atenção. Hoje, como se sabe, são muitas as mídias que nos alcançam onde quer que estivermos. A conclusão será de cada um de vocês. Apenas cedo o espaço para ele. Se for ele. Vai em itálico.
1 – A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais.
2 – CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES
Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.
3 – A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
4 – A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.
5 – DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê?” Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade.
6 – UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…
7 – MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossíveis para o alcance das classes inferiores.
8 – ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE
Promover ao público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…
9 – REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE
Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!
10 – CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM
No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO Jornal O Estado EM 28/11/2014.

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O CERCO À CHEFE – Diário do Nordeste

Ao redor da minha cama há jornais, revistas e livros. O mesmo acontece no meu escritório de casa, no trabalho e no carro. Os papéis vão tomando os espaços de mesas e dos sofás. É bagunça. Hoje, resolvi fazer uma limpeza nesses papéis avulsos. Estou meio gripado e a seleção do que será jogado fora é dolorosa. Espirros e culpa. Não precisarei disso daqui a algum tempo?
Assim, contra a minha vontade vou escolhendo muitos para descartar. Cada revista, caderno literário, recorte ou livro é olhado piedosamente e, num rasgo de desapego, vou enchendo um grande saco. Neste instante, vi que logo acima falei em papéis avulsos. Dou-me conta que uso o título de um livro de contos (1882) de Machado de Assis. Nesse livro, que recomendo, há a matreira crítica machadiana ao seu tempo e às instituições da época. Os contos são do final do século 19, mas há contemporaneidade nas análises, especialmente em “A Sereníssima República”.
A propósito, a nossa República de 2014 não anda nada calma. Há muitas questões irresolvidas entre os poderes e as mídias de hoje – que ainda incluem jornais, revistas e livros – mostrando as crateras de desentendimento, a contrafação e o jogo sujo da delação por interesses contrariados.
Partidos malthusianos ocupam todos os espaços para os seus e surge o quase isolamento da Chefe do Estado, por falta de confiança em auxiliares que escolhera para cargos estratégicos do governo. Nós, cidadãos e eleitores, somos as aranhas de que fala Machado, sem tessituras concretas. Há espasmos, mas prevalecem a voz e o desejo dos arautos.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/11/2014

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A ESTÉTICA REVOLUCIONÁRIA DO GRAFITISMO – Jornal O Estado

Seriam, como admitem alguns, certas inscrições rupestres, embrião ou espécie de grafite? Pelo sim, pelo não, há uma corrente que associa o atual “grafitismo” a uma evolução de certas pinturas rupestres às garatujas e aos desenhos nos espaços da cidade de Nova Iorque do início dos anos 1970, quando a guerra do Vietnã trazia más notícias para familiares dos soldados americanos mortos. A maioria, descendente de latinos e negros. Detalhe: os caixões mortuários vinham lacrados, cobertos pela bandeira americana- posteriormente entregue às famílias-, saudados por tropas e salvas de fuzis no cemitério nacional de Arlington, que não fica em Washington D.C., mas no Estado da Virgínia.
O crescimento incomum dessa grei de pintores-pichadores(?) chocou. Eles o fizeram em todos os tipos de espaços urbanos encontrados(metrôs, prédios abandonados, paredes, outdoors) público ou privado, para assustar ou afirmar, através dessa linguagem pintada, que precisavam ser vistos como iguais, aceitos em uma sociedade apartada que deveria se voltar para a igualdade de direitos e oportunidades para as minorias a que eles pertencem.
Ao mesmo tempo, engajaram-se com o hip-hop, essa forma musical diversa do que os ouvidos tidos como cultos estavam acostumados a escutar. Era a nova “arte” em meio ao caos. Kitsch? Talvez. André Malraux, escritor e político francês (1901-1976), ao responder à questão “O que é arte?”, disse: “Aquilo por meio do qual as formas tornam-se estilo”. Neste sentido, o grafitismo, por já ter estilo definido, quer se aceite ou não, é arte.
No Brasil não seria diferente, e se fez notar a partir do fim dos anos 1970, consolidando-se de lá para cá, a ponto de alguns críticos enxergarem um estado da arte ou de estética nos grandes murais que foram sendo grafitados por todo o País. Essa expressão visual tem códigos e linguagem próprios. Um “bite”, por exemplo, é imitar o estilo de outro grafiteiro. Uma “crew” é uma tribo ou conjunto de pessoas a se expressar por essas formas coloridas e sinuosas que procuram so-le-trar a indignação – ou a arte – em uma estética questionada, porém sedimentada. Abriguem ou não.
A assinatura deles é um “tag”, um sinal ou marca. Não os comportados nomes dos pintores clássicos, tradicionais ou vanguardistas, firmados ao pé das telas. O grafiteiro iniciante é um “toy” (brinquedo). O espaço, o lugar onde se inscreve o grafite é um “spot”. Vejo no grafitismo a influência dos afrodescendentes dos distritos nova-iorquinos do Bronx e do Harlem. Depois, espargido e enriquecido por todo o planeta.
Aqui, nesta Fortaleza, de tantas artes e incômodos nas camadas mais simples da população, foi sendo cultivada o “graffitti”, como arte ripária. Agora, a Galeria BenficArte nos seus 15 anos, abre o seu novo espaço para 14 grafiteiros: Ana Rachel Lopes (Kel), Bruno Ribeiro (Spoteink), Cassius do Vale (K-Sim), Eduardo Santos (Edu), Gabriel Rodrigues (Qroz.VDM), Israel Félix, Ítalo Soares, Leandro da Silva (Filtro de Papel), Lourenço Pinto (Rayki), Moacir Júnior (Jr. Animal), Narcélio Dantas (NarcélioGrud), Pedro Henrique Lemos (Pedrim Moicano), Pedro Lopes (NOIA) e Ruy Bezerra, que aceitaram participar de um desafio, sob a forma de concurso, com consequentes premiações.0 15º. partícipe é cada visitante.
A “Exposição Grafitart” mostra e finca as tintas acrílicas/sprays em telas que não se enquadram na convenção da arte tradicional e, mesmo sendo rebeldes – com causa – se submeterão ao julgamento de uma comissão, constituída por artistas plásticos, colecionadores, galeristas, professores de arte, comunicadores.
No vanguardismo que caracteriza a Galeria BenficArte (Carapinima, 2200 – 2º piso) nestes seus 15 anos de vida, essa exposição nos dá a certeza de que não há mais lugar para o preconceito. Aceite-se, então, a criatividade diferente das ideias e formas consagradas. O assentimento maior vai depender do olhar, da intuição, do saber e da imagem fixada na retina de cada visitante, o 15º. participante dessa mostra que ficará exposta, de forma gratuita, até o dia 16 de novembro de 2014. Cada pessoa poderá dar o seu veredito, o voto popular, que, somado ao da comissão julgadora, dirá quem serão os premiados vencedores. Esperemos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/10/2014.

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CONSTRUTIVA – Diário do Nordeste

João Jorge Melo, arquiteto sem prancheta, ambientador part-time e artista permanente dos pincéis e da vida, montou esta exposição “Construtiva”, em 100m que a Galeria BenficArte cedeu para ele neste outubro rosa, o mesmo das eleições presidenciais, da seca no Sudeste brasileiro e do 15º aniversário do Shopping Benfica, este misto de centro comercial e de artes que fincou as suas fundações no universitário bairro do Benfica, onde a “intelligentsia” de Fortaleza desponta em todas as gradações e ideologias.
E é bom que seja assim, não burguês, distinto dos demais e qualificado por sua própria história com a arte e a cultura deste século 21 ainda pré-debutante. O Shopping Benfica crescerá de forma íntegra e coerente com o que cavou, adubou, plantou e já começa a boa colheita. Construtiva é prova disso. João Jorge faz as vezes de semeador excêntrico, sem medo de expor as suas inseguranças – comum a todos os artífices – na astúcia experimentalista que permitiu a Descartes Gadelha, com propriedade, dar o seu Imprimatur: “João Jorge paira seu olhar sensível sobre todo esse contexto caótico/silencioso e faz na arqueologia a sua arte criativa…”.
Prossegue ele: “Assim, portanto, encontramos em João Jorge uma práxis eclética multiconceitual refletindo uma sociedade em constante mutação, reformas e adaptações”.
Ao conjunto dessa heterogeneidade o expositor decidiu chamar de “Construtiva”. Será adequado o nome? Os visitantes, responderão. Para os olhos de cada um, está aberta a oportunidade de entender as razões, os sentidos e a (des)harmonia nesse branco espaço de luz e graça.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/10/2014.

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COMO ESCOLHER OS SEUS CANDIDATOS NO 2° TURNO – Jornal O Estado

“A pior democracia é preferível à melhor das ditaduras”. Rui Barbosa, escritor e político brasileiro, 1849-1923.
Peço leitor, leitora, que faça um sacrifício: ouça e veja os programas de televisão e os debates ao vivo deste segundo turno das eleições de 2014.Sinta as promessas expostas. Compare essas promessas com a realidade em que você vive e tire as suas próprias conclusões. Não se deixe levar por nada além da sua própria consciência e da sua capacidade crítica. A partir daí forme um juízo de valor que lhe dê a sensação de que vai buscareleger os melhores candidatos.
Não importa que sejam apenas um, ou dois votos. É o seu voto. Você não poderá reclamar se houver votado por brincadeira, descaso ou desforra. Na democracia só se pode apear alguém do cargo que ocupa – oudo que pretende atingir – se ficarmos atentos à sua história pessoal, à sua vida política, à sua propaganda eleitoral e, principalmente, aos debates.
Há um conhecimento antigo, com mais de 5.000 anos, chamado fisiognomonia que indica quando a pessoa está mentindo pela incapacidade de dominar as expressões que o seu caráter difunde. Cada traço de um rosto e o som de uma fala diz muito sobre o comportamento do orador. É claro que há atores, mitômanos, mas, via de regra, fica claro quando a pessoa sai do seu natural e muda as suas feições por estar posando ao invés de dizer a verdade, pura e simples.
Além disso, a título de mera ilustração, passo a enumerar algumas frases de pessoas famosas que poderão lhe sugerir alguma saída para a possível dúvida que ainda perdure. Custa nada ler e concluir o que elas, as tais pessoas famosas, disseram, a partir de suas próprias credibilidades:1. O engano:La Rochefoucauld (escritor francês, 1613-1680):“O uso frequente da astúcia é sinal de pouca inteligência, e quase sempre quem se serve dela para cobrir-se de um lado acaba se descobrindo do outro”. Abraham Lincoln (presidente norte-americano,1809 -1865):“Pode-se enganar toda a população algumas vezes, ou parte dela sempre, mas não se pode enganar toda a população sempre”.2.O (a) adversário (a): Edmund Burke (político inglês, 1729-1797)diz:“Quem luta contra nós reforça nossos nervos e aguça nossas habilidades. O nosso antagonista é quem mais nos ajuda”. Ugo Ojetti (escritor italiano -1871-1946): “Se queres ofender um adversário, elogia-o em voz alta pelas qualidades que ele não possui”.Retomo o fio da meada para sair do sério, citar algumas frases alegres, porque brasileiras,e, quem sabe, possam ajudar na sua decisão de voto.
Lembra-se do Odorico Paraguaçu, personagem de novela do Dias Gomes: “Em terra de sapos, de cócoras com eles”.O famoso maestro e compositor Antônio Carlos Brasileiro Jobim deixava claro: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. O ex-guru do PSDB, Sérgio Motta, já falecido: “Com alguns deputados, só conversando na sauna, e pelado”. O também falecido cacique político Antônio Carlos Magalhães disse, certa vez: “Ninguém discute nada seriamente na presença de quatrocentas pessoas”. E, para finalizar, nada melhor que Lula: “Eu queria dizer para vocês que o que fizemos até agora foi mais fácil do que o que nós temos para fazer daqui pra frente”.
Por fim, leitor, leitora, vote em alguém parecido com você.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/10/2014

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OS PINHEIROS – Diário do Nordeste

A contação de histórias de sucesso parece fácil. Por trás de cada pessoa exitosa, profissional liberal, empresário, político, acadêmico, cientista etc. Há longo caminho percorrido com determinação, estilo, destemor e saber.
O saber pode ser inato, mas o adquirido tende a ser a gradiente básica para o longo prazo. Ninguém faz sucesso se não há trajetória clara a ser contada sem medo.
Assim, aos 60 anos, Honório Pinheiro emerge para o cenário da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas-CNDL, depois de percorrer uma longa trilha, desde Solonópole ao perímetro de Fortaleza. Daí pelo Ceará, ao lado do irmão Bosco e escutando o pai, Joaquim.
Honório Pinheiro não deixou que a pátina dos balcões e o tintilar das registradoras o cobiçassem e o alijassem dos estudos. Acumulou informações básicas nos cursos de direito, psicologia e administração e as transformou em conhecimento objetivo, mas sensível, na rede de supermercados – e cinemas -que dirige com o irmão Bosco, os filhos e os sobrinhos.
A integração familiar foi básica. Esse bastião o levou ao seio da CDL, depois à FCDL sem esquecer-se da implantação das Faculdades CDL e, agora, para a presidência da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas.
Este pequeno relato não acrescenta um cêntimo aos valores essenciais que Honório consolidou, mas, quiçá, possa incentivar jovens a acalentar sonhos de independência e desejosos de construir caminho próprio, a partir da fé em si mesmo.
Por tal razão, o faço com a alma leve dos que se regozijam com o lícito sucesso alheio.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/10/2014.

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DE UM TUDO – ALMANAQUE CEARENSE DO AUDIFAX RIOS – Jornal O Estado

“Os lugares-comuns, as frases feitas, os bordões, os narizes-de-cera, as sentenças de almanaque, os rifões e provérbios, tudo aparece como novidade, a questão está só em saber manejar adequadamente as palavras que estejam antes e depois”. José Saramago (1922-2010), escritor português.
Audifax e João Rios, pai e filho, formam a dupla que edita, por sua conta, risco e atitude, o almanaque “De um Tudo”, já no número 17,cujo título é escrito assim: De*Um*Tudo traz as cores fortes das camisas tropicaiscom as quais Audifax pisa as ruas da Praia de Iracema e as do centro, sem deixar de bater ponto na sede do Clubedo Bode, presuntivo, talvez realherdeiro psicodélico, anárquico, etílico, armorial, cult, chique e brega da centenáriaPadaria Espiritual, tão obsequiada por fortuna crítica mais apaixonada que conferida.
Assim, o “De Um Tudo” é escoadouro para a torrente de escritores, poetas, contadores de estórias e assemelhados que frequenta, nas noites de sextas e aos sábados, do meado das manhãs ao começo das calorentas ou refrigeradas tardes -dependendo da casta- de um comprido e não tão largo imóvel. O local é, ao mesmo tempo, antiga livraria de linhagem familiar, emergente galeria de arte e escritório, climatizado, multiuso, onde se faz alguma coisa, come-se e bebe-se em boca livre, sabe-se de tudo o que acontece ou o que se inventa na vida mundana, política, cultural, artística e social do Ceará. Na área externa, a calorenta, cada um paga o que consome.
É verdade que o citado Clube do Bode já foi e é visitado por autoridades federais, estaduais e municipais, ministros de tribunais superiores e de eucaristia, acadêmicos da Brasileira de Letras, adversários políticos que ali, eventualmente, se congraçam; jornalistas, escritores, diletantes, aposentados, aspirantes a isso e aquilo, pessoas sérias e, algumas, nem tanto.
Esse templo pagão fica na primeira quadra da Rua Dom Joaquim, logradouro sentido norte-sul, em homenagem ao bispo cearense D. Joaquim José Vieira, morador ali perto, no começo da Prainha, a renovada Avenida Monsenhor Tabosa, onde debulhava o seu terço e preparava homílias entre as paredes arqueadas de tijolo de barro do velho -e ainda aberto- Seminário e da Residência Episcopal.
Voltando ao Almanaque: o número 17 contém 24 páginas em que figuram: Tarcísio Matos, jornalista e produtor de programa de televisão; Assis Martins, cronista e ilustrador; homenagem a Xico Theófilo, que partiu antes de nós para o porvir; Paulo de Tarso Pardal, professor, escritor e Luthier; Eleuda de Carvalho, jornalista e professora de literatura; Raymundo Netto, escritor, design e editor; Airton Fontenele, pesquisador de futebol, torcedor do “Fortaleza”e escritor; Luizinho Ferreira, fotógrafo veterano; este escrevinhador; Edmar Carneiro, santanense e aposentado; Dimas Carvalho, poeta, prosador, protagonista e contador de histórias cabeludas.
Há uma bela homenagem a Ariano Caetano, ou Suassuna, com testemunhos de Ricardo Guilherme, ator e diretor de teatro; Ferreira Gullar, poeta e escritor maranhense; Gilmar de Carvalho, professor e pesquisador. Se não estiver cansado, leia ainda sobre a admirável e ribeirinha cidade de Santana do Acaraú, em duas páginas; vá em frente com Narcélio Limaverde, João Lucas Arcanjo, Alexandre Henrique e leia Audifax sobre a Padaria Espiritual, já citada por mim lá no alto da página. O Almanaque fecha com um horóscopo heterodoxo.
Vamos ficando por aqui, não sem antes dizer que o surgimento de um almanaque é fato auspicioso -pela leitura breve, jocosa, séria e agradável-para a cultura local, por sua capacidade de abrigar escritores não optantes por blogs e o mundo encantado/aloprado da Internet.E, de revelar-se, em tempos de seca, a resistência firme dos dois Rios, Audifax e João. Vida longa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/10/2014

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FLUXO E CONTRAMÃO – Diário do Nordeste

Todos sabemos que Fortaleza está procurando mudar o seu sistema viário urbano, criando, entre outros, viadutos, passagens de nível e binários onde há tráfego excessivo de coletivos, autos e motocicletas. A cidade só começou a ter viadutos na administração Juraci Magalhães.
Fortaleza não teve a ventura de formular bons planos de desenvolvimento urbano.
Desde o de Silva Paulet, em 1818, com a planta em xadrez da Villa de Fortaleza, passando pelo de Saboya Ribeiro em 1947. Depois, vieram os planos diretores de 1962, 1972, 1992 e 2009. Nada de significativo alterou ou inovou.
Deu-se aos semáforos a função de regular o tráfego. Não se levou em conta- tampouco se mudou – a forma de implantação da cidade e de seus loteamentos, quase todos ortogonais. Agora, neste 2014, já perto de um milhão de veículos, há tentativa de desfazer o nó górdio gerado.
Já escrevi, em análise anterior, que, pelo menos, as margens justafluviais do Rio Maranguapinho e Ceará deveriam servir para construir vias paralelas de escoamento de coletivos e caminhões pesados. As hoje usadas não possuem caixas suficientes para dar vazão ao volume de veículos, em qualquer sentido de direção.
Além dos desvios, ordenados, com sinalizações e fiscalizações, devem ser coibidas as diversas contramãos usadas como pontos de fuga da confusão nas horas do “rush”. Um exemplo: a estreita rua Princesa Isabel, sentido sul-norte, quase todas as noites é invadida por alguns ônibus urbanos e metropolitanos na contramão, sentido norte-sul. Prevenir é cogente.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/10/2014