Escrevo porque me faz bem. Não escrever é como se faltasse algo em mim. É preciso colocar no papel sentimentos, planos, atitudes, desejos, sonhos, amores, raivas, alegrias e desapontamentos. Dizia Fernando Pessoa que “a literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”. A vida é maior do que apenas trabalhar ou amar, é preciso mais e, para mim, esse mais consiste em viajar, ler, ver filmes e escrever.
Não sei se o que escrevo é literatura, mas como diria Pablo Neruda, “escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias.” Este é que é o problema, o meio, o recheio entre a primeira letra maiúscula e o ponto final. E toda pessoa que escreve sempre sabe que precisa ler, acerta e erra, muitas vezes não diz coisa com coisa, mas vale. Jorge Luis Borges, poeta grande que foi ficando cego ao longo da vida, falava que “corrigir uma página é fácil, mas escrevê-la, ah, amigo! Isso é difícil”. A escritora Clarice Lispector, brilhante e não tão lida quanto falada, dizia: “eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.” É isso mesmo, escrever vai tornando livre o que estava aprisionado ou não se sabia existir. Pouco a pouco, palavra a palavra, a escrita vai aparecendo e nos surpreende, pois o escrito que sai não é exatamente o que se pensava. Há uma diferença sutil entre o pensamento e a escrita. O pensamento vagueia, a escrita permanece e pode ter desdobramentos, voluntários ou não. Assim é que estou sugerindo a vocês, leitores, que escrevam. Não importa o que, tampouco a forma, se contém erros ou se você terá vergonha de mostrar a alguém. Isso é outra história. O que vale é esconjurar os pensamentos recorrentes, aquilo que o angustia ou alegra, dando-lhe forma e sentido. Bastam uma folha de papel, um lápis ou caneta. Ou um computador com os seus tantos recursos de correção e ajustes. Deixe sair, como se você próprio psicografasse a sua mente. A memória está além do nosso controle consciente. A memória, se escrita, tem vida própria.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/09/2007.
