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O SONHO – Diário do Nordeste

Tive um sonho. Não foi um sonho qualquer. Era estranho, pois misturava pessoas vivas e já mortas. Mas havia uma singularidade. Todos os personagens, exceto eu, eram urbanistas e paisagistas. Lembro bem que os mortos eram Lúcio Costa e Burle Marx. Dos vivos não consigo lembrar. O fato é que sobrevoávamos a cidade de Fortaleza em dia de sol e céu azul. Lúcio Costa olhava tudo de binóculos. Não era um avião, balão ou dirigível, mas uma espécie de planador ou uma jangada aérea. Uma nave, enfim. E ele observava todo o traçado urbano: da Barra do Ceará à Praia do Futuro, do anel Viário à orla marítima. E perguntava, como se fosse um mantra: onde estão as grandes avenidas? Onde estão as grandes avenidas? E eu apontava para as vias que encontrava e ele balançava a cabeça. Não estou falando de ruas largas, mas de grandes e largas avenidas, dizia. E esboçou com um dedo, no denso ar espacial, um desenho que não tinha a forma de avião, mas a de uma mulher com braços e pernas abertos e cabelos revoltos. E dizia que cada um dos braços e das pernas poderia ser uma grande radial. Imagine a planta da cidade, falava ele. Sobre ela coloque uma grande mulher deitada com os cabelos espalhados como trapiches tocando a orla. Um dos braços estendido em direção à Barra do Ceará e ao Antônio Bezerra e o outro tocando as amplas dunas da Praia do Futuro e Sabiaguaba. As pernas seriam dois eixos enormes. Um, para os lados do Cambeba e Messejana. Outro, para Parangaba e Bom Jardim. E foi então que Burle Marx meteu a sua colher de paisagista: olhem essas lagoas, rios e mangues. Isso tudo poderia ser arrumado, mas estou vendo ocupações e fico triste. Faltam árvores nas praças e ruas. Há pouco verde, reclamava. No silêncio do espaço e quase ao final do passeio a nave sobrevoava a avenida Beira Mar. Os dois olharam um para o outro e disseram: Queremos ir embora daqui. Isso choca. Eu não sabia o que fazer para atender ao pedido deles. Não havia piloto, nem comandos e a brisa batia em nossas faces. Eles me olhavam seriamente e repetiam: queremos ir embora daqui. E Agora. Não sei como, caí da nave. Acordei.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/04/2008.

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A CIDADE – Jornal O Estado

Convivo com arquitetos e urbanistas há bastante tempo. No começo da vida profissional verifiquei, como hoje se diz, existir um “nicho” na área de planejamento urbano em todo o Nordeste brasileiro. Reuni alguns bons nomes como Marrocos Aragão, Juremir Braga e Jorge Neves e passamos, junto com profissionais de outras áreas, a trabalhar o caos. É claro que as nossas intervenções não tiveram a ousadia de um Napoleão III que modificou no século XIX, com a ajuda de Georges Haussmann, prefeito de Paris por 17 anos, a feição urbana da Cidade Luz. Mas tentamos.
O urbanista, no meu pensar, deve ter uma antevisão do futuro e buscar formas que se ajustem ou se contraponham ao espaço urbano onde intervém. Não estou falando do arquiteto como mero criador de habitações uni ou plurifamiliares, mas enquanto urbanista onde a singeleza de meros traços define o que se pretende no processo de intervenção no tecido da cidade, deixando exposta sua genialidade. Alguém bagagem urbanística, refere que Fortaleza não tem – salvo exceções – nada a preservar. Diz que as intervenções já sofridas não podem ser criticadas por quem não é do métier. Discordo. O urbanismo não é privilégio ou casamata. O urbanismo comporta uma visão multidisciplinar que começa com geógrafos, ecologistas, geólogos, passa por engenheiros, remonta aos historiadores, procura economistas para cálculos de viabilidade, administradores para ajustá-lo à realidade e advogados para transformar as legislações de áreas renovadas. Tudo sendo discutido no fóro próprio, a Câmara de Vereadores.
Fortaleza, até os anos 60, não havia descoberto o mar. A descoberta recente da orla marítima; seu uso indiscriminado com edifícios de alto porte; a proliferação de barracas de toda natureza tal qual uma babel; e o projeto da Praia de lracema exigem ainda um repensar global., a vir com o novo Plano Diretor. Tudo isso tem a ver não somente com intervenções que Fortaleza sofrerá com o Metrofor e o Transfor, mas com o crescimento total no limitado território de 336km2.É preciso encorajar o Município e o Estado a discussões conjuntas mais profundas sobre o que pretendem fazer na cidade. É importante que cada grande intervenção urbana tenha o aval de outros que, por verem de forma diferente, complementam, ajustam, discordam até e, por certo, enriquecem as concepções dos técnicos. Tomemos o caso de Paris. Lá as ZAC (Zone D’Aménagement Concerté) passam por todo um processo de análise histórica, social, financeira e gerencial, até que os urbanistas possam definir as mudanças estruturais de uma zona de recuperação. A ousadia, ponto basilar ou característica nas intervenções urbanas de profundidade, deve ter como contraponto a coerência dos que podem e devem ajudar como profissionais ou cidadãos a definir o futuro das cidades onde moram, tomando-as habitáveis e atraentes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/04/2008.

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A DENGUE É NOSSA – Diário do Nordeste

Bem que eu queria falar de coisa amena, mas há um mosquito zunindo impunemente neste país. Um país que deseja ter assento permanente na direção da ONU, mas não revela que todas as cidades brasileiras possuem esgotos a céu aberto. Um país que gasta bilhões para realizar os jogos Pan Americanos –e a Copa de Futebol vem aí – e não aparelha hospitais, tampouco paga bem a médicos que mal levantam a cabeça para atender clientes em filas imensas. Esse mosquito já havia sido exterminado em 1957, mas voltou e parece que veio para ficar. Ele é como alguns políticos que se elegem e acham que têm direito assegurado eternamente. Ele se originou no século XVIII na Ásia, na Ilha de Java e se espalhou pelo mundo, especialmente nos países em que não há saneamento básico e tampouco as pessoas têm educação sanitária mínima. É uma doença da falta de responsabilidade pública e da desinformação das pessoas. Ela pode acometer a qualquer um de nós, independente de idade, sexo, raça ou renda. Ela é a Dengue (Aedes Aegypti e A. Elbopictus). Atinge mais a crianças e adolescentes, mas já faz estragos e mortes em todas as idades. Esta semana, estive em um hospital de referência e vi crianças com dengue e a preocupação de seus pais e familiares, atônitos a espera do fim do ciclo da doença. Bem que eu queria falar de coisa amena, mas 50 pessoas estão sendo infectadas por hora, apenas no Rio. Imagine o número para todo o Brasil, especialmente no Nordeste, que vive a estação das chuvas e, como se sabe, a água é o habitat do mosquito que completa três séculos e ainda não conseguiu ser banido pela OMS, ministérios da Saúde e as secretarias estaduais e municipais da área dos países subdesenvolvidos da América, África e Ásia. Esse mosquito, no nosso caso, é o atestado maior do descomprometimento coletivo, a partir de um sistema eleitoral que vive, de dois em dois anos, a fazer eleições em que são gastos bilhões – a palavra é bilhões, mesmo – de reais em propaganda, cabos eleitorais, transportes, logística, informática, advogados e aliciamento para gáudio de candidatos e agências de publicidade que deveriam ganhar prêmios na arte do ilusionismo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/04/2008.

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TRÊS HISTÓRIAS COM O LÚCIO – Jornal O Estado

Minha amizade com Lúcio Brasileiro começou no ano em que ambos fomos aprovados no vestibular de direito da Universidade Federal do Ceará. Lúcio viu, em seguida, que só no jornalismo poderia ser ele próprio. Abandonou o curso no primeiro ano. Dois anos após, passamos a ser colegas no Correio do Ceará. Ele já escrevia há anos sobre Sociedade e eu começava a escrever sobre “Informes Acadêmicos” e “Administração e Negócios”. Passei alguns anos lá e a nossa amizade espontânea subiu ao Iracema Plaza Hotel, onde ele morava, e se fazia constante em vários lugares, especialmente em papos noturnos no Náutico e Ideal com amigos. Desse tempo tão bom e rico de fraternidade, guardo com carinho algumas lembranças que agora conto a vocês e é parte do livro editado pelo Lustosa da Costa: 1. Um dia, Lúcio cismou que eu era bom filho, estudioso e trabalhador. Um ‘rapaz de futuro’, como se dizia então e deveria ser seu cunhado. E foi do pensamento ao ato: apresentou-me a uma irmã. Ela e eu, alheios à idéia, na casa de sua família no começo da Av. Dom Luís, rimos e ficou nisso. 2. De outra feita, era uma tarde de sábado, já na sua nova e recém decorada – por Arialdo Pinho – cobertura do Iracema Plaza, quando avistamos um navio apitando forte no Porto do Mucuripe. Éramos uns cinco ou seis e Lúcio lançou um desafio a todos: sem saber para onde aquele navio iria quem se atrevia a tomá-lo? Ao final, só ele e eu tomamos o “Rosa da Fonseca” (ou seria o Ana Nery?) com destino a Belém. Chegando lá, peguei um Fusca e fomos passear com duas amigas, jovens da sociedade local. Fomos à praia de Icoaracy, lugar bonito, mas distante. Voltávamos tranqüilos, após meia-noite. Eram tempos da Revolução e, assim, fomos parados, sob a mira de metralhadoras, por patrulha da Aeronáutica por termos invadido, sem saber, área militar (era proibido trafegar à noite por lá). Descemos do carro e fomos levados para o Corpo da Guarda. O Lúcio, indiferente a tudo, mexia nas armas que ali estavam expostas. Chega o Oficial de Dia e informa que estávamos detidos e que só ao amanhecer, quando o Comandante chegasse, iríamos ter ciência do nosso destino. As duas jovens estavam constrangidas. Depois de algum tempo, lembrei que eu era tenente R2 – reserva – do Exército e até portava uma carteira de identidade militar. Graças a isso, fomos liberados com a promessa de não mais repetir o erro. Ele não se perturbou com nada, pois, de cansaço, já dormira. 3. Por escrever no Correio do Ceará, como já disse, sobre administração e negócios, a Indústria e Comércio de Minérios S.A. colocou à minha disposição passagens para levar jornalistas ao Amapá. Iríamos visitar minas de manganês, portos, estradas de ferro e o progresso que implantavam por lá. Lembro bem que as casas não tinham muros, eram ajardinadas e havia até boliche – algo inédito no Brasil – no clube charmoso e privativo dos empregados. O fato é que levei, entre outros: Joseoly Moreira, Guilherme Neto, Giacomo Mastroianni e o Lúcio. Nesse tempo, Lúcio usava um imenso bigode e, de ressaca, dormia no trem especial que nos conduzia a Serra do Navio. Consegui uma tesoura e me atrevi a aparar o seu bigode. Quando o metal da tesoura encostou-se à sua face, ele acordou e o bigode permaneceu intacto até o dia em que ele, por vontade própria, o tirou. Eram tempos de quase juventude e folguedos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/04/2008.

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SÍNDROME DE DOWN – Diário do Nordeste

Vi recentemente uma exposição com textos e imagens sobre a Síndrome de Down. Curioso que sou, procurei apreender alguns ensinamentos ali expostos e os transmito a vocês. Espero que sejam úteis a todos. Primeiro, vamos saber o que é síndrome: um conjunto de sinais e sintomas que definem uma enfermidade ou perturbação. A palavra down é de origem inglesa e tem vários significados. Atualmente, se diz de alguém que está triste (down), mas poderíamos ter outras interpretações. Nada a ver com o “Down” da Síndrome. Essa palavra é uma homenagem ao médico inglês John Langdon Down que, em 1866, ao cuidar de pacientes com essa síndrome, até então indefinida, cunhou a frase: “Sonhe alto o bastante”. Com isso, Down quis dizer que não existem limites para os sonhos pessoais, especialmente aos que, por motivos ainda hoje desconhecidos, foram concebidos com 47 cromossomos, ao invés dos 46 que têm as outras pessoas. Esse evento genético, o cromossomo adicional, dá origem às características particulares dos portadores dessa síndrome e ocorre na proporção de uma para cada setecentas crianças nascidas e não poupa nenhuma raça ou classe social. Mas, muitos avanços já foram feitos. Hoje, os portadores já têm uma expectativa de vida alongada, chegando, em alguns casos, aos 70 anos. Entretanto, é preciso deixar claro que essa expectativa só se concretiza quando o desenvolvimento dos bebês e de crianças é influenciado pelo amor, cuidados, estímulos, educação e experiência social dedicados por pais, familiares e amigos. Fica claro também que todo bom estímulo, amor e atenção provocam uma reação positiva no desenvolvimento e na longevidade dessas pessoas. É importante ainda que crianças com essa síndrome frequentem escolas regulares, pois a convivência com outras crianças é necessária no seu processo de entendimento do mundo. Nos últimos anos, alguns portadores da Síndrome de Down tornaram-se defensores diretos de seus anseios, clamando por mudanças na visão educacional do Estado e da sociedade, na perseverança de treinamento vocacional, na busca de oportunidades de emprego e de melhor qualidade de vida. É preciso sonhar alto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/03/2008.

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FILHO DE RICO – Jornal O Estado

Vida de herdeiro é difícil. Imaginem que o filho do controlador de uma das maiores multinacionais, a Johnson&Johnson, talvez por falta do que fazer, resolveu inventar um filme-documentário. E escolheu como tema a desigualdade. Ele entende que há um desafio a ser resolvido pelos Estados Unidos, pois apenas 1% de sua população detém metade da riqueza do país. E deu ao filme, de 80 minutos, o título “Um por cento” (One per cent). O filme, que já foi apresentado em festival, é repleto de entrevistas com ricas personalidades como Robert Reich, Bill Gates e o próprio pai do cineasta. O economista Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia, também convidado, abandonou, irritado, as filmagens, acusando o cineasta de ser socialista. O certo é que o ‘leit motif’do filme é mostrar como vivem e falam os que não sofrem nenhum tipo de restrições e nada lhes falta. Têm dinheiro, compram. O filme já ganhou dois prêmios Emmy e o caso é relatado em Vida Americana pela The Information Company, do brasileiro Pedro Costa.
O lance, que o cineasta Jamie Johnson ouviu de seu pai, irritado, é o seguinte: “Por que você está falando sobre dinheiro? Se alguém perguntar a você sobre isto, diga que não é verdade, diga que não temos parentesco com a família que fundou a empresa”. E ele, o cineasta, retruca: “A fortuna de minha família está aumentando mais rápido do que nunca. Somos parte de um pequeno número de famílias que tem a maioria da renda nacional, mas ter-se tanto na mão de tão poucos não pode ser bom para a América”.
Essa aflição de rico mostra que os limites do ter foram ultrapassados e isso, seguramente, confunde as cabeças dos herdeiros coroados que pouco ou nada têm a fazer, a não ser esperar pela morte dos seus pais ou, sendo menos severos, receber, em vida, polpudos adiantamentos que lhes permitam ocupar o ócio, inclusive fazendo filmes denunciando a riqueza de suas famílias. Sobre o assunto, é bom ouvir o que dizia Andrew Carnegie, que nasceu pobre na Escócia, chegou aos Estados Unidos com 13 anos e – com uma vida de muita luta – tornou-se milionário do aço e petróleo, além de ser um grande filantropo: “Parece estranho, mas é verdade: as pessoas raramente tiram proveito do dinheiro que não ganharam com seu próprio esforço. A utilidade do dinheiro consiste na maneira como o empregamos, e não na sua mera posse. De um modo geral, a pessoa que ganha o seu próprio dinheiro adquire, juntamente com ele, parte do conhecimento necessário a seu inteligente aproveitamento”. Ou seria melhor ouvir o que diz Warren Buffet, um dos três homens mais ricos do mundo: “Tudo o que vem fácil, também se perde com muita rapidez. Por tal razão só vou deixar 15% do meu patrimônio para os meus descendentes”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/03/2008.

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A Ressurreição – Diário do Nordeste

Neste domingo de Páscoa – a data móvel da fé cristã para simbolizar a ressurreição de Cristo, três dias após sua morte – além das poucas ou muitas orações nas igrejas e das comidas e bebidas que são colocadas sobre as mesas dos que muito têm e daqueles que quase nada possuem, é preciso fazer uma reflexão pessoal sobre a nossa visão laica da data. É certo que a maioria de nós não possui embasamento teológico ou religioso para falar sobre os mistérios da cristandade e muito menos da ressurreição de Cristo. O pouco que sabemos, como leigos, é que, simbolicamente, todos nós poderemos ressuscitar, aqui ou no além. Sair de uma ‘morte’ em vida e conseguir uma passagem ou encontro com o que acreditamos ser verdadeiro ou, pelo menos, se ajuste ao conceito comum de amor ao próximo. Não o amor ao próximo estereotipado, coisificado, aparente e ao alcance da vista dos outros, mas o que se pode fazer em silêncio, sem que a vaidade da ação seja maior que o próprio bem produzido.
E há tanta gente simples que tem a capacidade de nos transmitir essa boa vontade, a capacidade de se doar ao outro, a de ver o outro não com os olhos dissimulados da inveja, mas com a compaixão e a afeição que enlevam e nos tornam próximos, sem que seja necessário seguir regras de etiqueta e tampouco trocar palavras amenas aprendidas e não vivenciadas. O amor ao próximo é atitude. É descobrir o que o outro pode precisar sem que ele nos peça e é também disponibilizar o nosso tempo para ouvir o outro, sem a urgência que comanda a vida atribulada de cada um. É, sobretudo, o amor a si próprio, o não compactuar com aquilo que o agride, incomoda ou interfere nas suas referências básicas ou padrões pessoais, sempre sabendo que não somos o centro do mundo, mas temos que ter uma diretriz para a nossa própria vida. A ressurreição pode ser quem sabe, a capacidade de, ainda nesta vida, acreditar no outro e na cura dos seus males físicos ou espirituais. É acolher a capacidade de manter ou fazer ressurgir o amor na família e no próximo, do encontro verdadeiro que gera alegria e paz, generosidade espontânea e a bondade que redundam na confiança que conforta e redime.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/03/2008.

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A Paixão – Jornal O Estado

Hoje é sexta-feira Santa, segundo o calendário da fé cristã. Diz-se que é a data da Paixão de Cristo. Por qual razão tem esse nome? Por que não seria a dia da prova do amor de Cristo? Ou ainda a da sua resignação? O fato é que o nome consagrado e aceito por todos é paixão. Mas, qual o sentido dessa palavra? Como traduzi-la para que todos a vejam sem preconceito ou como mera submissão?
No meu leigo entender, é preciso começar sabendo o que é paixão. A paixão pode ser um sentimento ou uma emoção forte que, em um crescendo, sobrepõe-se ao que se chama de razão. Ela é ainda o contrário da lógica dos homens, pois é um afeto dominador, quase uma espécie de obsessão. No sentido religioso – que é utilizado pelas crenças cristãs- seria o martírio de Cristo, tudo tão intenso, rápido, que transgredia os preceitos judaicos de sua época e objetivava provar a existência de um Deus que determinava o seu destino.
Aquele homem simples, na maturidade dos seus 33 anos, de cujos primeiros trinta anos de vida pouco se sabe e ainda são um mistério para a História, não aceitava a dominação romana que cobria quase todo o mundo de então e acenava com um outro reino, transcendente, cheio de ventura, que fugia aos ditames da lei dos homens e da fé até então vigente. E chegou ao redor do templo da cidade de Jerusalém, como um revolucionário, brigando com os fariseus, reclamando dos vendedores no seu átrio, mas teve a liderança para fazer uma ceia com seus discípulos.
E nessa noite, percebeu ou concluiu que seria traído, mas não recuou e pregou uma nova ordem e o fez com paixão, isto é, acima do que o senso comum permitia. E consta que foi traído por um dos seus. A sua paixão desmedida naquilo que acreditava o tornara um dissidente do judaísmo e logo foi julgado, em rito sumário, e condenado à morte. E teve resignação para aceitar o que acreditava ser um ato de poder contra a fé que vinha pregando ao criar um império dos simples, com outra ordem de valores. E essa sua submissão, parecia uma paixão desmedida, mas poderia apenas ser a obediência ao Pai a quem pediu que perdoasse os seus julgadores, pois “eles não sabem o que fazem”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/03/2008.

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TALVEZ… – Diário do Nordeste

Um dia desses fui à casa prazenteira de uma das minhas filhas. As netas estavam fazendo tarefas escolares. Minha filha achega-se e mostra o caderno escolar de minha neta mais velha. E o faz como a dizer: veja, parece que ela tem alguma coisa sua. E vejo uma espécie de poesia, manuscrita, com o título de “Talvez…” E pus-me a lê-la. A neta estava, de forma espontânea, abordando um problema social. Ficava claro para mim que parecia sentida com uma constatação a que chegara. Essa constatação a impelia a escrever o que sentia de forma tão doce e, ao mesmo tempo, tão forte. E o fez como dever de casa para a escola. Vou abrir aspas para ela: “Talvez uma criança não tenha o que comer – enquanto eu tenho um banquete a escolher. Talvez uma criança trabalhe sem parar – enquanto para mim só basta estudar, estudar. Talvez uma criança more na rua e durma no chão – enquanto eu deito no meu gostoso colchão. Talvez uma criança passe o dia a chorar – enquanto eu só faço brincar. Talvez uma criança não tenha onde morar – enquanto eu tenho casa linda e vivo a reclamar. Talvez uma criança só queira ter uma família – enquanto eu reclamo que o controle não tem pilha. Essas são as diferenças daquela criança para mim – agora eu já sei que as vidas de algumas crianças são muito duras, sim”.
Olhei para a minha filha e sorri de alegria, embevecimento e ternura. Nada a ver com a forma do escrito, embora seja aprumada para uma menina de dez anos. Mas, principalmente pelo seu conteúdo. E vi que a dedicação de minha filha, ao acompanhar, com desvelo e atenção, – as tarefas das suas filhas – não estava sendo em vão. Aquele escrito era fruto que adoçava minha boca dos amargos que a vida impõe. E, mais que depressa, mandei tirar uma cópia para eternizar a sua escrita.
E, agora, partilho com vocês essa alegria de avô coruja, com a consciência genética de que ela só tem um quarto do meu sangue e isso me leva a dividir com os outros três quartos, as duas avós e o outro avô, esse regozijo. Aos seus pais, meeiros do seu amor, o realce pela educação transmitida. A ela, Lu querida, votos para que cresça assim, amando o próximo e escrevendo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2008.

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NOVO ACADÊMICO – Jornal O Estado

Ubiratan Aguiar é o mais novo acadêmico da Academia Fortalezense de Letras. Pulsou em mim a alegria de trazê-lo a esse delírio coletivo, a pátria dos que se lançam ao desafio de expor os seus escritos aos olhos dos outros. Não importa seja prosa, verso ou prosa poética. O que conta é a coragem de abrir suas veias e deixar que o sangue se perpetue no papel.
Ubiratan Aguiar chegou ontem ao Palácio da Luz, matriz das academias de letras cearenses e palco nos últimos duzentos anos dos mais importantes acontecimentos do Ceará. Um Palácio que, de propriedade privada, passou a bem público e agora abriga os que trabalham com palavras e quimeras. A Academia Fortalezense de Letras, nascida neste século, pelas mãos de Mathusaíla Santiago e José Luís Lira, e, por tal razão, compromissada com o futuro, mas ajustada na sua sedimentação com a argamassa da história, a água do passado e até do limo que exsuda destas paredes de tijolos dobrados. Na solenidade eu perguntei, como se fora um padre, pastor ou rabino em uma cerimônia de casamento: – Ubiratan, você exerce atividade literária? – Você está interessado no bom funcionamento da instituição? – Você quer se unir a ela? Ele respondeu sim a cada pergunta. Mas o fez com a linguagem da alma.
De minha parte, afirmei que você exerce atividade literária e que seu histórico de vida não deixa dúvida quanto ao compromisso de zelar por nossa Academia. Por essa razão tomei a iniciativa de indicar seu nome, obtendo total acolhida dos nossos pares. Ubiratan Aguiar é madeira de lei: um cedro menino transplantado para Fortaleza e daqui — onde suas raízes foram fundeadas — esgalhou-se pelo Planalto Central, esse quase sertão vermelho cujo ar rarefeito parece incidir, muitas vezes, na razão coletiva. Mas Ubiratan sempre teve um plano piloto pessoal que o conduziu pelos caminhos da decência. E o faz segundo uma cronologia simples, verdadeira e consistente.
O que dizer de um homem que, por méritos pessoais, consegue iniciar sua vida política como vereador, alça-se a condição de deputado estadual, secretário de Estado e chega já na qualidade de Deputado Federal, a ser Constituinte, Presidente da Comissão de Educação e, por duas vezes, é eleito Primeiro Secretário da Câmara Federal?
A sua história pessoal já está inscrita nos anais da Câmara Municipal de Fortaleza, da Assembleia Legislativa do Ceará, da Câmara Federal e nos arquivos eletrônicos e julgados do Tribunal de Contas da União. Queremo-lo – disse eu – Ubiratan, em outra nova luta coletiva: a de fazer este Palácio da Luz ainda mais esplendoroso em conteúdo, formas e cores. Garboso na sua restauração necessária e do seu entorno.
Saiba, por fim, que a dúvida que persiste na indagação que sempre faz ao fim de seus versos não deixa de ser uma inquietação poética. E quem escreve especialmente versos, estabelece uma relação de caráter dialógico ao procurar fazer um acerto de contas com o seu eu profundo, medos, sonhos, história, signos, símbolos e mitos. Se esse sentimento chega com a maturidade, que seja bem-vindo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/03/2008.