Este artigo é um tributo a todos os administradores profissionais. E o faço em reconhecimento ao Conselho Regional de Administração, na pessoa do seu presidente, Reginaldo Oliveira, e ao Presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará, Domingos Aguiar, autores de proposta de uma Sessão Especial em comemoração ao Dia do Administrador. Nela, elegeram cinco nomes como representantes essenciais da classe dos administradores. Os eleitos: Carlos Gualter Lucena, gestor de grupo de empresas de prestação de serviços; Ernesto Sabóia, conselheiro-presidente do Tribunal de Contas dos Municípios; Beto Studart, controlador das muitas empresas que constituem o grupo BS; Sérgio Henrique Forte, superintendente de banco regional e a mim, o escrevinhador deste artigo. De surpresa, fui indicado para falar em nome de todos os homenageados. O fiz, na medida do improviso, louvando a cada um dos eleitos. Quanto à minha escolha, referi que ela se devia ao fato de ser integrante da Turma Pioneira da Escola de Administração do Ceará, a que deu origem a tudo o que veio depois. Estudamos ao tempo da divisão da ciência da administração em clássica e científica. A clássica era a do Fayol e a científica era a do Taylor. Hoje, nestes tempos informáticos e pós-moderno, em que as referências acadêmicas e de gestão são outras pela razão de que existem sistemas gerenciais para tudo, o que pode um administrador fazer? Ainda imagino que um administrador deve ter liderança. Ao mesmo tempo, precisa saber planejar, capacidade para dirigir pessoas, organização, assessoria, informações “up-to-date”, e gerir um orçamento a definir fontes e usos. Não pode deixar de ser criativo, mas não deve ficar só com o que aprendeu na faculdade ou nesses Mbas da vida. É bom saber línguas e ter conhecimento múltiplo. Isso é o residual a ficar depois de nos esquecemos de parte do que aprendemos. Para ser atual, deve ter um “core-business” e “target”. Os professores de administração adoram palavras em inglês. Core-business é o foco da empresa, do negócio ou da sua vida. Target é o seu objetivo, aquilo a que você se propõe a ser como pessoa, dirigente de empresa ou gestor público. O que sabemos vai abrindo a nossa cabeça para a vida. É bom andar pelo mundo afora e gostar de gente. No duro, no duro mesmo, aprendemos a administrar na marra, na pancada, acordando cedo, lendo, estudando caso a caso, dormindo tarde, dando exemplos. Mas, apesar disso, não há escola que nos ensine a identificar caloteiros, especialmente os bem vestidos, de fala mansa e enturmados. Assim, sempre é bom ter cuidado com pessoas que só dão importância às aparências e se encastelam em instituições sem legitimidade, usando artifícios e chicanas. Precisamos falar e agir do jeito que somos. Não se deve ter medo de errar, tampouco de dizer o que sentimos e sabemos. Cremos que o que vale mesmo é a nossa garra, a determinação e a capacidade de ficar à tona quando todos nos puxam para baixo. O mundo é um macro sistema em que perdura a incerteza. Os cenários são sempre de competitividade, daí precisarmos fazer o que sabemos com honestidade, qualidade e produtividade. Crie, sem medo, um manual de sobrevivência para você: saia de perto de gente desonesta, invejosa, fútil e desagradável. Respeite os seus valores essenciais. Arme-se de coragem, pois há dias em que o mundo parece que vai desabar. Desaba não, desde que as suas fundações, na linguagem da engenharia, tenham sido bem-feitas. Ou, na linguagem dos economistas, você tenha fundamentos, isto é, que seu aprendizado tenha sido de verdade e não pare de aprender com seus próprios erros. Pais morrem, dinheiro acaba, mas o conhecimento fica com você até à morte.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/09/2009.
TRÂNSITO BRASILEIRO – Diário do Nordeste
Estava a rodar, queimando combustível, poluindo o ar, procurando estacionar o carro. Só enxergava cones, correntes e ‘estacionamentos privativos’. Os cones de material plástico são hoje quase como escrituras públicas com registro de recuo usado para regular a parada de veículos. Basta comprar alguns cones e alguém se torna donatário da capitania da área pública, negando tudo o que diz o Código Nacional de Trânsito. É comum vê-los defronte a lojas, restaurantes, bancos e afins, sempre protegidos por seguranças, alguns cordiais, outros truculentos, a informar: não se pode parar, salvo se for cliente de quem lhe paga. Os sem guardiãs de seus cones usam correntes, apoiadas em pequenos postes de ferro – ajustados ao solo – trancados com cadeados e pequenas placas de ‘privativo’. A corrente só é aberta quando do horário comercial e, para os clientes. Ao fim do dia, volta a corrente. Se alguém encontrar, por milagre, uma vaga, logo se achegará uma pessoa, foreiro da dita cuja, um “flanelinha”, com colete, apito e pedaços de panos sujos a não limpar nada, apenas espalhando imundície nos vidros e pinturas dos carros. Encaram os “fregueses” como se prestassem relevante serviço público, ditando preços em função do carro, horário e mercado do dia. Há até os que levam pequenos papéis, como se fossem recibos do “serviço” e procuram receber adiantado, por garantia. A coisa não fica aí. Em quase todo semáforo com controle do tempo de tráfego há um grupo munido de garrafas plásticas, cheias de água com duvidosa procedência. Articulados com o “timing” da mudança do vermelho para verde, sem perguntar nada, molha o para-brisa do carro. E o “enxuga” com pequenos rodos que espalham o líquido por sobre os para-lamas. Mas, não fica só nisso. Há camelôs disso e daquilo, motoboys endiabrados, malabaristas, mendigos – verdadeiros e falsos – e, por fim, as zonas azuis, uma espécie de cobrança horária de IPTU do espaço público. Tudo isso para nós, os chamados, de dois em dois anos, a votar, obrigatoriamente, em candidatos que prometem tudo. Dá nisso.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/09/2009.
O AEROGERADOR E O RAIO – Jornal O Estado
Não se prova, tampouco se pode desmentir, a existência de Deus. Mas, a meu juízo primário e precário, Deus e a natureza são forças unidas. Tipo unha e cutícula. Sempre que ocorre uma catástrofe se fala da “ira de Deus”. O homem, por mais ciência que possua, não sabe explicar e tampouco evitar as consequências de alguns fenômenos da natureza, tais como ciclones, maremotos, erupções de vulcões, terremotos, raios e outros mais. Recentemente, vi uma manifestação forte da natureza. Um alto, esbelto e esteticamente equilibrado aerogerador parado. Um raio o atingiu, destruiu dois hélices, decepando-os e paralisando definitivamente o movimento. Venho, há algum tempo, lendo e procurando entender a ação dos aerogeradores. Já os vi na Europa, com destaque para a Espanha, na região montanhosa de Castilla, onde o escritor Miguel de Cervantes situou o seu épico D. Quixote. Lá, ainda parecem ser ouvidas, em meio ao vento monocórdio, as conversas havidas entre D.Quixote e o seu leal escudeiro Sancho. Hoje, aquela região está povoada de aerogeradores que também sussurram. Como ninguém é obrigado a saber o que é aerogerador, vou tentar explicar. O aerogerador consta de um alto poste que é a base de sustentação de um cata-vento. No alto desse poste é implantado um conjunto de três hélices captando ventos. Ele é usado para a transformação da ação dos ventos em energia elétrica através de um gerador acoplado. Deve ser instalado em lugares onde o vento sopra constantemente, mas mantendo uma cadência. Essa energia gerada é limpa, renovável e desejada, mas há queixas de que o zumbido constante dos hélices em movimento causa um desequilíbrio ao ouvido sutil de alguns animais e espantaria aves migratórias. Pelo sim, pelo não, constato que há hoje no Brasil milhares de aerogeradores espalhados, principalmente na zona costeira. O fato é que, após anos de refinamento de tecnologia, alguns aerogeradores ainda deixam de funcionar, sem prévio aviso. Não é raro ver-se aquele pirulito estático, com os três hélices sem nenhum movimento. O que não tinha visto era a reação da natureza sob o nome de raio fulminante. Veio certeiro à Ilha de Fernando de Noronha e tornou silente o apetrecho. Ainda permanece o escuro da sua descarga elétrica. Quem quiser ver é só conferir.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/09/2009.
ALÉM DO MAR – Diário do Nordeste
Ana D`Aurea Chaves e Rita Cruz são minhas amigas desde o último terço do século passado. Nesse tempo, elas não eram muito próximas, mas já gostavam de viajar. São curiosas, inteligentes, sabem entrar e sair em qualquer espaço e têm a capacidade incomum de liderar. Ana D`Áurea casou cedo com Lauro Chaves, educou filhos, se fez funcionária de carreira do Banco do Brasil até se aposentar. Rita é formada em direito, optou por ser Defensora Pública, casou com Paulo Cruz, filhos foram criados e também se aposentou. As duas, com os maridos, faziam parte de um querido e instigante grupo de casais amigos. A vida vai passando, pregando peças e circunstâncias distanciam o que era próximo. Vai daí que elas, amigas que são, trocaram ideias e resolveram mostrar ao público a forma e os caminhos por onde andaram. Ana D’Aurea se profissionalizou como turismóloga de batente com a energia herdada de Evandro Ayres de Moura, um ser inquieto, visionário, mas objetivo. Rita resolveu, enfim, mostrar-se, com a inteligência herdada de Hildo Furtado Leite com o filtro da seleção natural. Isto posto, passaram a escrever, a quatro mãos, um livro sobre viagens. Não se contentaram – como muitos – em copiar e colar o que fotografaram, viram, leram em outros livros, folders ou, agora, nas buscas infinitas do Google. Escreveram muito, em dois volumes, com o poético nome de “Viagens além do olhar” e o fizeram de forma leve e primorosa, com o patrocínio de uma operadora de turismo e três empresas de agradecidos empresários, porque viajores. É claro que as viagens promovidas por Ana D’Áurea são seletivas. Quem sabe se o viés político-literário da Rita não tenha proporcionado o encaixe sensato a uma percepção próxima da realidade da sedenta classe média brasileira, louca por sair do Brasil com um livro-guia em português e um abastado nível de informações culturais, dicas e roteiros para a Europa, Ásia, África e América. E esse desconhecido leitor pode ter imantado a capacidade criativa da Ana D’Áurea, o gosto pela escrita da Rita e o concurso gráfico e estético de José Jesuíno da Costa. Essa trinca de azes gerou um duplo manual gostoso de ver, ler e levar para o além-mar.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/08/2009.
A CEGUEIRA DE SARAMAGO – Jornal o Estado
Fiquei feliz quando soube que a língua portuguesa poderia ser agraciada com o Nobel de Literatura em 1998. Pensava em algum autor brasileiro, mas deu José Saramago. É verdade que Portugal fez “lobby” forte para mostrar seu potencial. Eram viagens de Lisboa a Estocolmo e vice-versa. Estocolmo é a sede do Prêmio Nobel e há muita política na concessão desse galardão. Se tiverem tempo, procurem ver os premiados em literatura nos últimos 10 anos. A maioria é desconhecida e as vendas são turbinadas pelo próprio prêmio. O fato é que Saramago ganhou. Depois, participou de uma espécie de Feira do Livro no Parque Eduardo VII, vizinho à Estufa Fria, área predominante da boa hotelaria de Lisboa e até registro fiz desse encontro. Depois do prêmio, Saramago passou a ser muito vendido cá no Brasil. Eu, na verdade, nunca namorei demasiado a sua escrita. Apenas um “flirt”, diria. Sua forma de escrever é límpida, longa, pesada e escorreita, mas o conteúdo parece ter, no caso do “Ensaio sobre a Cegueira”, um pouco da essência temática de George Orwell, na obra “1984”. Há tempo havia ganhado o livro de presente. Só há pouco, o concluí. Confesso: tive uma breve sensação de alivio. Li, na verdade, aos pedaços. O livro é um ensaio metafórico recomendável, quem sabe, para se discutir a essência do que somos. Narra a emergência de repentina cegueira, inexplicável e dita incurável. Abate-se sobre uma cidade qualquer. Sagra o desmoronar completo dessa sociedade que, por conta da cegueira, perde os valores essenciais da civilização. As personagens cegas do livro, só “veem” um clarão branco. Achei o livro fastidioso, apesar do milagre ou moral do final. Lia, relia uma página, grifava e ia em frente. Duvidei do meu magro julgamento. Admiti, em determinado instante, que o argentino Jorge Luís Borges, por ter sido um progressivo deficiente visual, poderia ter escrito algo sobre sua cegueira. Repito que não sou crítico literário ou resenhista. Sou leitor, apenas. Por esta razão tive a curiosidade e a sensatez de procurar ler algumas opiniões sobre o autor. Vou ficar com três. A do escritor português António Lobo Antunes, em entrevista à Folha de SP, em 22.04.1996. Ele diz: “eu posso dizer que José Saramago não me entusiasma de modo nenhum. Ainda bem que ele tem prestígio no Brasil”. O falecido autor cubano Cabrera Infante, no jornal El Clarin, de Buenos Aires, em 17.08.1995, afirma: “Saramago é um chato. Eu já lhe respondi amplamente em um número do “Nouvel Observateur” e desde então ele não voltou a dizer nada”. A revista Bravo, de outubro de 2008, em artigo assinado por Almir de Freitas, retrata: “10 anos após receber o prêmio da Academia Sueca José Saramago volta a lançar uma prosa pedregosa, o livro é chato, simplório e difícil de ler.” Não chego a tanto, mas optei por não ver o filme homônimo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/08/2009.
DE OLHO NA EXPOSIÇÃO – Jornal O Estado
José Augusto Lopes é avis rara. Por ter sensibilidade acurada e notar, desde cedo, existir – quem sabe – uma carência no feedback relacional com a maioria das pessoas, tenha optado por entrar na viagem, sem volta, da descoberta do mundo cinematográfico. Esse mundo em que fotogramas em determinada velocidade se transformam em movimento contínuo gerando arte, a partir de uma história ou estória, misturando glamour, amor, mesmo que falso, ciúme, ódio, crime, paz e muito mais. Bem que fez Direito e Comunicação Social, aqui e alhures, mas era preciso mais, descobrir nos livros, revistas, conversas e, principalmente, no interior das salas semi-escurecidas de cinema, a sua essência humana. E aí sentiu a imanência da arte dos irmãos Lumiére. Abro os meus diários de anotações dos anos de 58 e 59, e revejo que Brasil se preparava para as eleições presidenciais do ano seguinte. Cai um avião da Vasp e morrem 42 pessoas. Discute-se a importância de comprar um porta-aviões, o Minas Gerais, o açude Orós está em construção, enquanto a Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Eleazar de Carvalho apresenta o pianista Jacques Klein no José de Alencar. Outros tempos. O chique em Fortaleza era: e as badalações no Ideal, Maguary e Náutico, o San Pedro Hotel, os lanches do Tonny’s, a vitrina da Aba Film mostrando fotos das “moças de família”. As conversas eram feitas sem medo em 15.000 telefones pretos de galalite. O Theatro José de Alencar abrigava um festival de declamações de D. Violeta Modesto de Almeida, com o patrocínio das Damas de Jacarecanga. Os filmes mais significativos do ano eram Bela e Canalha, com Vittorio de Sicca e Sophia Lauren. Congotanga, dirigido por Joseph Pewney, com George Nader e Virginia Mayo. As sete filhas do Amor, com Maurice Chevalier. O Alucinado, com Arturo de Córdoba. Os Corruptos, dirigido por Fritz Lang, com Glenn Ford e Gloria Grahme. Blefando a morte com Antony Quinn e Kátia Jurado. O Fantasma do Gen. Custer (7ª. Cavallary) com Randolph Scott e Bárbara Hale. A Janela Indiscreta, de Hitchcock, com James Stewart e Grace Kelly. Foi nesse clima e tempo que José Augusto Lopes mergulhou no mundo do cinema e ainda navega. Todas as semanas mantém o olho nas telas, onde descobre não só o que diretores, atores, roteiristas, figurinistas aspiram mostrar, mas, por exemplo, vê os erros dos continuistas, a farsa de atores apaixonados por atrizes, mesmo que vivam realidades díspares. José Augusto poderia, quem sabe, ser comparado a um Rubem Ewald Filho pela capacidade de se empolgar, adorar ou criticar o que não aceita. Ele não é neutro, é o que escreve aos domingos no Diário do Nordeste. A Exposição no Benficarte foi a forma escolhida para mostrar ao público parte de sua intimidade, sejam pesquisas, manias, devaneios, fetiches e até glórias transformadas em troféus. O que está sendo exposto, de forma gratuita e aberta, é a parte visível de sua vida como comentarista de cinema. Algumas pessoas reagem com uma pergunta estranha quando se deparam com os “guardados” de alguém: Só isso?. Saibam, pois, que além do que é exposto com formas, matizes, desgastes do tempo, há um cuidado de quem coleciona, para desvendar o essencial. E o essencial varia para cada um. Esta é uma oportunidade para quem realmente gosta de cinema não apenas como diversão. Lembranças serão revividas. É uma trilha para os que estão começando a descobrir o que é cinema, como um filme é produzido, a fidelidade ou não do tema – baseado em enredo de um livro –, a capacidade cênica dos artistas, efeitos de som e luz, a diferença que faz um grande diretor, a publicidade gerada e a coerência ou disputa entre a crítica e o público. Enfim, é ver com os olhos este “making off “da alma e da razão de José Augusto Lopes que mistura o real e a fantasia e descobre que somos também aquilo que vemos, porque uma rosa não é meramente perfume. Há espinhos, à espreita. Viver entre espinhos e o néctar das rosas vermelhas ou brancas pode ter sido o paradoxo ou desafio da vida de José Augusto Lopes que está aqui, jovial no début de seus 70 anos, sabedor que pode voltar à tona, tirar o escafandro da reflexão, olhar para cima e ver estrelas no firmamento.
João Soares Neto é cinemeiro.
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/08/2009.
E AGORA? – Diário do Nordeste
Era uma vez uma procissão de caravelas. Perderam-se por falta de vento de popa e acabaram dando com a proa em terras nunca dantes navegadas. Com vento ou sem vento, desceram pela terra a dentro e viram, estupefatos, “quase-pessoas”. E essas quase-pessoas eram donas de tudo, mas ainda não havia cartório nessa época para registrar as terras e cobrar os emolumentos, depois de muito protocolo. Como tal aconteceu é só ler a carta do Caminha, o escriba. E armaram uma cruz em torno da qual rezaram. E por conta dessa cruz quase-todos ainda estão crucificados. Quase-todos são os muitos dos que foram gerados nas relações entre as quase-pessoas e os quase-perdidos, pois navegar não sabiam. Se o soubessem cá não teriam chegado. Mas chegaram. E como os quase-perdidos não eram de trabalhar, imitaram os ingleses e trouxeram vozes e corpos de África. Mais corpos que vozes. E todos se embaralharam. Surgiu uma raça nova, essa que é produto de toda a turma. E aí começou a vir ao mundo uma gente peculiar, fruto do usufruto da gandaia geral estabelecida por toda a orla e das picadas pelo interior para escavar metais. E levaram, levaram tudo. O que ficou virou geleia. E essa geleia tem o nome do lugar de origem. Esse lugar com progenitores na cidade-estado quase copiada das ideias de Le Corbusier. E os pais do berço esplêndido usam ternos com muitos bolsos – para que será? – e gravatas para indicar que não são gente comum. E resolveram dar ordem à desordem e todos tinham muitos parentes e aderentes precisando de ocupação e distração. E lá ficaram na grande quenga de coco em que todos se empavonam de ser suas excelências. E como o circo precisava de animação colocaram uma televisão que não mostra o vazio das reuniões tribais em que se fantasiam de defensores de tudo. E o jogo não acontece por falta de atacantes. Quando aparece algum, pedem para sussurrar e não sujar a água bebida em comum. E de água semi-suja se faz a vida acontecer em três dias da semana. Os outros quatro são para as tramas. Aboliram os tremas, urdiram as tramas e tiraram as tramelas de janelas que continham o fétido odor da ambiência sem a qual não podiam respirar. E agora?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/08/2009.
EUCLYDES, O CEARÁ, OS SERTÕES E A TRAGÉDIA – JORNAL O ESTADO
Interessará aos raros leitores desta coluna, inserida em caderno social, saber ‘notícias de primeira’ do fim do século XIX e começo do século XX? Direi, em rápidas pinceladas, que amanhã, 15 de agosto, faz cem anos que Euclydes da Cunha morreu. Por enquanto, respondo que Euclydes era carioca e não gostava de cearenses. E conto: o primeiro a quem criticou, por escrito, foi Antonio Maciel, dito Conselheiro, tecendo-lhe uma imagem sombria, preconceituosa e até racista. O que Antônio fez? Mandou-se de Quixeramobim, -onde fazia de tudo, pois ensinava e trabalhava avulso – para os cafundós da Bahia por conta da prima e mulher Brazilina que lhe traíra. Já observará o atento leitor que Euclydes era escritor. Bingo. Depois, poderá indagar por qual razão ele não gostava do Antônio? Vamos lá: Euclydes fora cadete, tendo sido expulso por suas ideias republicanas, estudou engenharia, reintegrado como tenente e a mando da novíssima República Brasileira foi à Chorrochó, Bahia, às margens do Velho Chico, para cobrir a Guerra ou Campanha de Canudos, morticínio de milhares de indefesos. A guerra, com Exército e tudo, partira da premissa falsa de que um mero povoado fundado e liderado por Antônio – que congregava e aconselhava (daí o nome conselheiro) a todos com fé fanática -, ameaçava a Pátria republicana emergente. Euclydes, tísico que era, passou duas semanas entre tosses, conversas e anotações no local, chegando pouco antes do assassínio do Conselheiro, em 22 de setembro de 1897. Levou também, de volta ao Rio, a foto do Antônio morto, batida por Flávio de Barros, fotógrafo do Exército. (O incrível é como essa foto se assemelha com a do cadáver de Che Guevara) Euclydes foi e voltou sem dar um tiro. Tiro ele deu em Dilermando Assis, cadete, o jovem e bem-apessoado amante de Ana Emília, sua mulher. Aguardem, conto logo mais. Assim, Euclydes e Antônio, apesar das divergências sociais, tinham um ponto comum: sofreram a traição das suas mulheres. Mas, esse tiro só ocorreria muitos anos depois. Euclydes, intelectual que era, perdeu, em 1903, o concurso para professor de Lógica do Colégio Pedro II, no Rio, logo para outro cearense, Raimundo de Farias Brito. De pura inveja, ele disse: Farias Brito é um “pobre filósofo, cearense e anônimo, autor de um livro que ninguém leu”. A palavra cearense, reparem, é usada como pejorativo. Aí, os amigos de Euclydes, do grupo positivista “Jardim da Infância”, uma espécie de Clube do Bode de então, deram um jeitinho e Euclydes conseguiu ser nomeado professor. Pulei, de propósito, o fato de que as anotações dele feitas nas duas semanas em Canudos geraram, em fins de 1902, o seu famoso livro: “Os Sertões”, bem aceito, reeditado várias vezes, com venda de 10.000 exemplares. Era um número alto para um país com 18 milhões de habitantes, dos quais 95% da gente era analfabeta. Piorando da tuberculose, Euclydes foi admitido, ainda em 1903, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e na Academia Brasileira de Letras. Mas, a glória seria efêmera. Parece que o fantasma de Antônio Conselheiro rondava a sua vida. E tudo se maximizava em sua cabeça de deprimido. Em um domingo, 15 de agosto de 1909, armado de um revólver emprestado, calibre 22, partiu, manhã cedo, para a casa do amante de Ana, sua mulher, o tal Dilermando de Assis que, adiante-se, era bom em tiro ao alvo. Chegou, bateu à porta, foi entrando e atirando em Dilermando que revidou com arma mais forte e certeira, um 32, matando-o na hora. A história não termina aqui. A alma de Antônio Conselheiro continuou azucrinando a honra da família Cunha. Em 1916, Euclydes Filho, resolve vingar a morte de seu pai. Mais uma vez, Dilermando levou vantagem e o filho foi fazer companhia ao pai no cemitério. Então, Dilermando casou com a Ana, a viúva e mãe dos Euclydes assassinados. “Em sociedade de tudo se sabe”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/08/2009.
DIA DO PAI – Diário do Nordeste
Ninguém é pai sozinho. É preciso a conjunção de um homem e uma mulher, para, por amor, desejo, negligência ou imprudência, haver o contato físico que, dependendo de fatores vários, transforma-se em fecundação e, passado o período da gravidez, dá origem a uma nova criatura. Assim, mesmo parecendo óbvio, somos o produto de vontades, acaso, talvez educações díspares e ambientes com características distintas. Sob o ponto de vista genético, herdamos o que agradecemos e também o que lamentamos. Desse modo, o pai parece ser apenas o mero detonador de um processo. A mãe é a geradora ou fiel depositária, estabelecendo, por nove meses, laços biológicos, de nutrição e afeição com alguém pulsando em seu interior. Essa elementar conclusão nos leva a crer que o pai possa ser um ente periférico, especialmente se a mãe for alguém a tentar, consciente ou inconscientemente, minimizar o papel do parceiro. É herança dos séculos passados a mistura dos papéis sociais de pai e marido. São coisas absolutamente distintas. Hoje, a sociedade relativiza esse matriarcalismo a conceder às mães uma espécie de tirania do afeto e relegar o pai a um papel secundário e estereotipado de mantenedor ou provedor. Hoje, tempos outros, sem a tutela de padrões superados na práxis da vida, há um esforço conjunto para enfrentar a dura luta pela subsistência e a educação de um ou mais filhos. Estas considerações, limitadas por espaço e conteúdo, são apenas para dizer que os pais precisam formar uma identidade comum de pensamento na condução da família, sob pena de causarem danos aos filhos, desnorteando-os pela divisão afetiva e a não apropriação de responsabilidades, ficando ao sabor dos humores da relação e da vida. Não, não esqueci ser hoje o dia dos pais. Mas é importante não romantizar em demasia a data comemorada, simbolicamente, neste dia. Há uma tarefa continuada e interminável qual seja a preparação de pais e de filhos para o mundo real sem príncipes, princesas ou fadas, pois composto de obrigações e responsabilidades. Para não dizer que não falei de flores, louvo o meu pai, supondo não ter sido filho ingrato. Segundo Shakespeare, em Rei Lear, a ingratidão é pior que a mordida de uma serpente.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/08/2009.
SINGULAR – Jornal o Estado
Singular é uma palavra com várias significações. Pode ser pertencente ou relativo a um. Pode ser algo que não é vulgar, mas especial, raro, extraordinário, excêntrico, extravagante, esquisito ou bizarro. Mas, pode ter algumas dessas significações e ser uma experiência árdua e vitoriosa que completa dez anos. A escolha do nome, certamente, foi a propósito. Quem o escolheu estava querendo construir algo diferente, embora, para tanto, precisasse da habilidade e capacidade que acumulara em outras dezenas de anos. Fim do mistério: estou falando da revista Singular, formato de bolso, boa apresentação e cuidados gráficos que mostram o amor de seu criador, o jornalista Eliézer Rodrigues, formação em comunicação social, anos de batente nos vários escaninhos que fazem uma redação. Um dia, em 1999, esse número cabalístico que, noves fora, dá um. Isto é, singular, raro. E é o próprio Eliézer Rodrigues, na edição especial, número 28, quem conta: “A Singular surgiu, não por acaso, e sim por uma necessidade de continuar alimentando a inquietação pela notícia, após anos no batente de redação”. E cita, com acuidade, o pensamento de Dino Buzatti, jornalista e romancista italiano, através de seu personagem Drogo: “Tenho a impressão que o importante está para começar”. Cada número – e já são vinte e oito – é uma batalha e história. São novos colaboradores, diagramadores, anunciantes a conquistar e tensão até que a revista brote em formas e cores, oferecendo portabilidade ao leitor. Este número 28 contém preciosidades. Conto algumas. Há uma reportagem de Renan Antunes, forte e consequente, ganhadora do Prêmio Esso de jornalismo, em 2004. Contém a passagem por Quixeramobim do tísico Manuel Bandeira que ali aportou em busca de ares puros para os seus alvéolos pulmonares e nunca entrou em sua igreja matriz (“onde nunca entrei e hoje tenho pena”). E diz isso em crônica, tão poeta que foi. Ethel de Paula desvenda um advogado-dama. Jorge Pieiro, vindo do Limoeiro dos Maias, fala sobre a praça que adota a todos que aqui aportam e a usam e abusam. Ana Miranda diz da Praia de Iracema de sua infância. Há projetos de ciência com Miguel Nicolelis e há mais, muito mais. Leia a Singular. Compre um exemplar. Mas, se não tiver dinheiro, o Eliézer dará de graça com a mão calejada de palavras que trouxe ao mundo na ordem que quis e sabe fazer. E por ser benfazejo o trabalho de Eliézer Rodrigues é que o incluo no meu espaço semanal do jornal O Estado, um destemido e admirado diário que o povo do Ceará lê há mais de 70 anos. Parabéns, Eliézer.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/08/2009.
