Sem categoria

CORÍN TELLADO – Jornal O Estado

Maria Del Socorro Tellado López era uma mulher comum do interior da Espanha. Casou-se, teve dois filhos e, mesmo acreditando no amor, divorciou-se após 03 anos, aos 36. Virou escritora e nunca parou de escrever sobre os temas que considerava importante: amor e infidelidade. Escrevia sob o nome de Corín (derivado de Socorrín, diminutivo de Socorro) Tellado e sempre teve contra si o preconceito da maioria dos intelectuais da Espanha. Volto ao passado e lembro que meu pai era seu leitor inveterado. Eu apenas li páginas avulsas. Achava, na minha pseudo-sapiência juvenil, que era uma escritora menor, pois os seus livros, quase sempre, acabavam bem. O amor vencia, após os dramas. Ainda lembro das brochuras lá em casa em que suas pequenas estórias eram escritas. Tinham, quase sempre, figuras de mulher ou de casais na capa e as letras dos títulos eram rebuscadas, como se manuscritas. Agora, nesta semana, no dia 12, aos 82 anos, Corin Tellado morreu de acidente vascular cerebral. E o mundo ficou pasmo em descobrir que ela, com sua literatura cor-de-rosa, vendeu 400 milhões de livros. Repito: 400 milhões de livros e só é desbancada na Espanha pelo genial Miguel de Cervantes, autor do Dom Quixote. Entrou para o Guiness Book por tal feito e por ter escrito 4.000 novelas de cordel, romances e fotonovelas. Ganhou da Unesco o reconhecimento pelo conjunto de sua obra. Corin nunca deixou a cidade interiorana de Gijón, onde passou a residir nos anos 50 e de onde enviava os seus escritos para as editoras. Rica, famosa e simples, enveredou também pelo rádio, televisão, cinema com suas novelas, e até pela Internet, com a obra “Milagro en el Camiño”. Agora, passado tudo isso, procuro a razão de meu pai ter lido, entre outros autores, Corin Tellado e admito que era, quem sabe, uma forma simples de devaneio para aliviar a cabeça das agruras do mundo real. A partir desse fato, imagino que os romancistas – especialmente os que não conseguem vender suas obras ou serem lidos – precisam compreender que escrevem para si, mas se quiserem alcançar um público razoável precisam interagir com os leitores que, muitas vezes, têm um vocabulário limitado e não penetram no âmago de questões profundas e intrincadas e se contentam com o visível, mas não necessariamente risível. É bom lembrar o que dizia o grande romancista francês, Émile Zola, em seu livro “O Romance Experimental”: “O romancista compõe-se de um observador e de um experimentador. Nele, o observador fornece os fatos no modo como os observou, determina o ponto de partida, estabelece o terreno sólido sobre o qual caminharão as personagens e se desenvolverão os fenômenos. Depois aparece o experimentador e institui a experiência, quero dizer, faz mover as personagens numa história particular, para mostrar que nela a sucessão de fatos será tal como exige o determinismo dos fenômenos analisados”. Corin Tellado sabia disso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/04/2009.

Sem categoria

SALVE FORTALEZA, 283 – Diário do Nordeste

Nasci em Fortaleza em meio à Segunda Guerra sob o esplendor do sol, mas as noites, conta a minha mãe, eram escuras. Havia blecaute e medo. Fiz a Primeira Comunhão, estudante do Farias Brito, no ano em que o Brasil perdeu a Copa do Mundo, no Maracanã. Participei de desfiles no Dia da Pátria. Palanques em frente à Igreja do Carmo. Reuníamo-nos na Av. Dom Manuel, dobrando à direita na Av. Duque de Caxias. Íamos com fardas engomadas e pensávamos que as garotas, no cordão de isolamento, estavam olhando só para nós. Depois da dispersão, na Rua General Sampaio, voltava esbaforido para casa, na Rua Major Facundo. Frequentei a Biblioteca Pública, na Rua Sólon Pinheiro, por anos seguidos. Lia tudo o que encontrava e foi lá onde encadernei os meus diários, em oficina no seu subsolo. Ao lado da biblioteca, assisti, por anos, a aulas de inglês no IBEU e, no mesmo quarteirão, ouvia ensaios de música clássica no conservatório que ali funcionava. Já taludo, mudamo-nos para uma casa nova, estilo “funcional”, com coberta aparente de concreto armado, no Bairro de Fátima, tão novo quanto a Igreja de que lhe deu o nome. Ouvia Missa aos domingos no Colégio N. Sra. das Graças, na Mons. Otávio de Castro, a mesma rua onde também moravam o prof. Lauro de Oliveira Lima, dra. Maria de Lourdes Martins Rodrigues, sr. José Machado, cunhado do Alcides Pinto, e o sr. João Colares, pai da cantora Amelinha. Chegou o tempo de servir ao Exército. Fui parar na Av. Bezerra de Menezes, no CPOR, que tinha como vizinhos o prof. Waldemar de Alcântara, do lado direito, e, do esquerdo, o tio Pio Saraiva Leão, pai do Pedro. Entrei em duas faculdades. Administração (manhã), que se iniciava na esquina da Rua Jaime Benévolo com Duque de Caxias, frente ao Colégio Cearense, onde também estudei e, Direito (noite), na Praça Clóvis Beviláqua. Às tardes, ia escrever para o Correio do Ceará, na Rua Senador Pompeu. Mais iria contar, mas o espaço final é para dizer que hoje é dia de saudar os 283 anos desta cidade de Fortaleza, crescida sem planejamento, prostituída nas esquinas, emaranhada em trânsito caótico em bairros nobres e pobres, paupérrimas áreas de risco, eivada de insegurança, bares e medo, mas amada. Salve.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/04/2009.

Sem categoria

PAIXÃO, RESSURREIÇÃO E MORTE – Jornal O Estado

Neste corre-corre de todos nós, a Semana Santa ficou reduzida, para muitos, a um grande feriadão que começa na quinta e vai até o domingo. Para os que creem e professam a fé cristã, especialmente os da Igreja Católica, a de Roma, esta semana é mais que isso. Ela se prende a um ritual litúrgico em que é contada, vivificada e celebrada a paixão de Jesus Cristo, isto é, o seu julgamento sumário pelos judeus, os passos que o levaram até o monte do Gólgota, onde foi crucificado ao lado de outros dois condenados. A cruz ou a viga transversa em que foi pregado ou amarrado fazia parte do processo macabro pelo qual os condenados deveriam passar, antes da morte, por atos de vergonha e tortura, expiando, por flagelação, as faltas cometidas e não perdoadas pelo Sinédrio. O Sinédrio era um conselho ou assembleia formada por julgadores ou juízes a decidir, em conjunto, os problemas das cidades. No caso de Jesus, reza a tradição ter sido submetido, em Jerusalém, a julgamento por professar uma fé diferente da estabelecida pelas leis judaicas. Assim, Jesus seria um revolucionário, visionário ou dissidente e, por tal razão, condenado. Admitindo-se tal fato, após a humilhação, flagelo e crucificação, vinha a morte. Jesus morre, então. É preciso lembrar ter sido Jesus amigo de José de Arimatéia, importante figura da cidade e em casa de quem ficou hospedado algumas vezes. Na tarde da sexta-feira, José de Arimatéia foi até Pôncio Pilatos, a autoridade romana da cidade, exercer o direito, comum à época, de tomar para si a responsabilidade do sepultamento de Jesus. Pilatos assinou a autorização, José de Arimatéia apresentou-a ao Centurião, retirou o corpo, ungiu-o com ataduras saturadas de mirra e babosa, cobriu-o com lençol de linho e o colocou sobre uma pedra, no interior do novo sepulcro de sua família. Hoje, o dito Santo Sepulcro é um local de visitação permanente, ambiente denso, mas tocante. Estive lá. No domingo, segundo narra a Igreja, Jesus acorda para a vida eterna. É a ressurreição. O historiador evangélico John A. Broadus, sobre o fato, diz: “Se não sabemos que Jesus ressuscitou da morte, não sabemos nada da História.” Assim, independente de suas (des)crenças, procurem ler mais, a fim de que possam, se for o caso, buscar na História respostas para a sua fé e vida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/04/2009.

Sem categoria

MACHADO JÁ DIZIA – Diário do Nordeste

Estou passando dois anos como presidente de uma academia de letras. A festa de posse foi bonita. Discursos feitos, inclusive promessas. Depois, vem a realidade nua e crua do dia-a-dia. A academia tem despesas a pagar, sessões a cumprir, revistas e livros a publicar, realizar concursos literários oferecendo prêmios, mas falta dinheiro, a vil moeda que não frequenta as arcas da maioria das academias. A primeira ideia é procurar Mecenas. Alguém que tem dinheiro e pode dar um pouco do que lhe sobra. Hoje, o dinheiro escasseia. Os tempos, parcos. E os verdadeiros Mecenas, raros. Outra ideia é procurar as leis de incentivo cultural, quer no Município, Estado ou União. Aí entram um cipoal de certidões, documentos, reuniões, estudos, projetos, contador a fazer balanço e demonstrações financeiras. O que era letra vira número. Os projetos demoram a ser feitos, analisados burocraticamente, os agentes públicos que os liberam têm cargos de confiança e, vez por outra, são mudados. Aí tudo recomeça. Por outro lado, como acadêmicos são vitalícios e imortais, alguns não se sentem motivados a comparecer às sessões. Cada reunião é precedida de correspondência, e-mails e telefonemas. Mesmo assim, o comparecimento é baixo. É há imprevistos como afazeres, doenças, viagens, e há a falta de segurança pública à noite no centro da cidade. O que é verdade. Soube que Machado de Assis, fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, agradecia quando a presença atingia a dois dígitos. Como se sabe, dois dígitos se contam a partir do numeral 10. É preciso esclarecer que as academias seguem o modelo da Academia Francesa e tem 40 membros. Ora, se dez comparecem, só 25% da sua força vital está presente. Mesmo assim, é um feito. Este relato é para mostrar aos leitores, à sociedade e às autoridades públicas que as academias precisam ser vistas não como uma reunião de pessoas excêntricas que adoram ler livros, falar, escrever em prosa e versos e, na sua maioria, tem cãs. As academias, apesar de todos esses problemas, são fontes geradoras de saber continuado e sem elas o mundo ficaria mais pobre, pois amar a leitura e a cultura é fugir de uma cegueira existencial.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/04/2009.

Sem categoria

VISÕES EM DOSE DUPLA – Jornal O Estado

Deixo claro, de saída, que não sou crítico de arte. Sou apenas um escrevinhador e admirador de olho vário que procura ao longo da vida ter sempre contato com o mundo das artes. especialmente a pintura. Por tal razão é que me atrevo a escrever algo sobre o trabalho de Nicolas Nascimento, cearense, e Píer Giorgio Serralunga, italiano. São pintores calejados, conhecidos de galeristas e marchands, participaram de individuais e coletivas, careciam de um público heterogêneo como o de um shopping, onde há muita energia no ar e se misturam crianças, jovens e adultos. Universitários dividem o espaço com professores, donas de casa com trabalhadores, profissionais liberais com empresários, aposentados com militares, religiosos com ateus etc. É um micro e infinito mundo. Voltando aos dois, Nícolas e Serralunga, deve ser dito que tem formação em escolas e países diversos, artistas deste mundo de hoje em que a pintura não é propriamente um artefato bem acabado, nem se enquadra em uma só característica ou escola, como se fora algo clássico ou industrial, feito em série. Ao contrário, deixa recados nas próprias transgressões e deformações das suas figuras, cores e matizes. As pinturas expostas refletem cada uma, um dos muitos estados de ânimo dos dois pintores, fazendo surgir o que, muitas vezes, nem eles próprios sabiam ou suspeitavam. Ao observar os múltiplos quadros dessa dupla exposição, o visitante terá sentimentos e sutis respostas céticas, enternecedoras, eróticas ou instigantes. Os olhares de cada um dos dois pintores, transformados em quadros por suas telas, tintas, pincéis ou espátulas nunca serão iguais ao que vê o visitante de uma exposição. Nós, os visitantes, vemos, mas impregnamos o que pensamos enxergar com a nossa história pessoal, seja ela com ou sem preconceitos, conhecimento profundo ou raso, curta ou longa admiração pela arte. Então, mais uma vez, a obra recebe outros significados e saberes, embora passageiros, pois o efeito se esvai (ou não?) com a mudança do olhar. Nada, portanto, é o mesmo depois que se vê com vontade de procurar respostas. Elas, na verdade, estão dentro de nós. Os quadros são apenas mensagens que nos enriquecem por seus efeitos estéticos. Elas estão em visitação pública, gratuita, até o dia 15 deste mês, na Galeria Benficarte, no 2º. Piso do Shopping Benfica. Vá e leve a família. Penso que vale a pena. Não custa nada.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/04/2009.

Sem categoria

PESSOA E MULTIDÃO – Diário do Nordeste

Estive a ler artigo de Maria Rita Kehl, psicanalista, com o nome de “A era das multidões”. Nesse trabalho, ela cita a obra do
francês Gustave Le Bon (1842-1931), especialmente o livro “Psicologia das Multidões”, analisando o comportamento de massas formadas por pessoas heterogêneas que, em determinado tempo ou circunstância, passam a ter uma conduta uníssona. Seria, por exemplo, o caso dos seguidores de líderes, sejam democratas, ditadores, chefes de Estado, religiosos etc., a criar ou praticar determinadas teorias que, lato senso, nos levam até a cogitar não ficarem longe, nem muito diferente do procedimento das torcidas organizadas dos grandes times de futebol brasileiro e do mundo. Na África, na recente visita do Papa Bento XVI, três pessoas foram pisoteadas e mortas pela multidão. Vi, também pela TV, a luta entre a torcida do Santos e a Polícia Militar, ao final do jogo em que o Corinthians ganhou por 1X0. Naquele instante, a massa santista, revoltada com a derrota, descarregou sua frustração em qualquer coisa ou pessoa que encontrou pela frente. A Polícia, acuada, passou a reagir por espasmos, sem comando racional. O que se seguiu foram cenas de selvageria, de parte a parte. É lúcido admitir que cada uma dessas pessoas não fosse, necessariamente, delinquente. Mas, quando, estimulados, açodados e liderados em grupo, praticam atos inconscientes e/ou de violência sem nenhuma restrição moral. Coloquei, a propósito, a data da morte de Le Bon (1931), para dizer que o comportamento das multidões só tem piorado, desde então. Freud, também citado, escreveu, em 1920, o livro “Psicologia das Massas e a Análise do Eu”, em que fala, não de forma romântica, sobre a “alma coletiva”, inspirado no que pensava Le Bon. Seria, talvez, lícito admitir que, em todos os tempos, surgem líderes que, por prestígio, carisma ou hipnose, conseguem levar multidões para situações-limites, sem que a maioria se aperceba disso. Foi aí que lembrei, por exemplo, de grandes líderes recentes de multidões. Uns para o bem. Outros, nem tanto. Seriam os casos de Hitler, Mussolini, Ghandi, Mandela, Fidel, João XXIII, Luther King, Bin-Laden, Chavéz, Lula e Obama. Concorda?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/03/2009.

Sem categoria

FORMANDO GESTORES – Jornal O Estado

Faço parte, não por mérito, da direção Escola de Formação de Governantes do Ceará. Essa Escola, fruto de uma visão de longo prazo, procura, como o próprio nome o diz, treinar pessoas e qualificá-las para a prestação de serviços na área pública como gestores. Elas não precisam ter, necessariamente, curso superior concluído, mas é importante que estejam vinculadas a uma entidade pública, nas esferas do Executivo, Legislativo e Judiciário, ou a atividades do Terceiro Setor, como ONGs, Institutos etc. Neste ano de 2009, estamos começando o XIII Curso que envolve aulas e práticas. A intenção é que pessoas, em início de carreira, ou as que queiram se reciclar, possam, com frequência de apenas dois dias por semana, no horário noturno, ter um ganho de qualidade em suas vidas profissionais. A abrangência do currículo permite que cada integrante possa ter um espectro crítico básico sobre democracia, direito, cultura, política, governabilidade, ética, desenvolvimento humano, teoria da complexidade e educação para a cidadania. Como entidade sem fins lucrativos que luta por um ideal maior de seriedade na gestão pública, a Escola de Formação de Governantes vive de parcos recursos que consegue, com excessivos esforços, de órgãos e empresas. Não há ainda um reconhecimento público a esse trabalho sério que tem como presidente, o notório advogado e professor Roberto Martins Rodrigues e, como executivo principal, o professor Antonio Alberto Teixeira, um abnegado que sente a dificuldade efetiva de cuidar dessa ideia. O imaterial, essência da formação, é o cerne desse curso que não discrimina partidos políticos, sexo ou idade, basta que seja feita uma inscrição que passa por um processo de seleção não ideológico. A turma deste ano tem cerca de 60, já está em andamento, a maioria com graduação universitária e alguns com especialização e mestrado. Os que desejarem conhecer o trabalho da EFG e com ela colaborar podem visitar o site www.efg.org.br. Todos serão bem-vindos, desde que tenham como pressuposto não aceitar que “político é tudo igual”. É possível, sim, fazer diferença. Lutamos por isso, lute também.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/03/2009.

Sem categoria

CHEGAR LÁ – Diário do Nordeste

Todos desejam chegar lá, mas poucos admitem quando atingem. O relativismo do tempo dá ímpeto para aceitar um quase, mas com resistência. Uns, fingem. Outros procuram ocultar os sinais com ajustes estéticos e a maioria teima em dizer: não sou. Primeiro, vieram os antibióticos, o saneamento básico melhorou, a engenharia ajudou a ciência médica a fazer sua parte e a consciência social resultou em cuidados que prolongam a existência. Hoje, não é raro se chegar à idade limite para a infância do outono, com energia e integridade física. Esse fato é comemorado por uns, mas causa perplexidade a outros. É confinante, para a maioria, o tempo da jubilação e, com ela, a inapetência para o ócio e o medo pelo que virá depois. É o tempo de fazer contas, todos tem esse direito, mas só 67% obtém os benefícios da previdência social. E desses, 54% ganham só um salário mínimo. A média de renda dos que se retiram é de 778 reais. Esses dados e, muitos outros, foram fruto de pesquisa Datafolha, em novembro de 2008. 61% já sofreram cirurgias e 82% tomam remédios, sendo, pela ordem, as maiores queixas: dores musculares, pressão alta, reumatismo, colesterol alto, problemas cardiovasculares, osteoporose, diabetes, doenças respiratórias e sinusite. Findo o tempo de trabalho é preciso manter vida ativa com autocuidados. Decidir as tarefas básicas para a independência pessoal, ter a mente ligada em novos interesses como caminhar ou exercitar-se, reunir-se em grupos e recriar laços familiares e/ou afetivos duradouros. Dizia o escritor J. Renard que “a velhice chega quando se começa a dizer: nunca me senti tão jovem”. Assim, é preciso ir aceitando as limitações com reflexão, dosando energia com prudência, mas certo de que o amanhã é sempre um vir-a-ser e o hoje é o que conta. A mente, com o povoamento de recordações, precisa ser re-instigada para o hoje com a leitura de jornal, revista e livro. Estar ligado ao que acontece no mundo dá o sentimento de pertença e isso é quase tão bom quanto uma meta. A atenção real nos relacionamentos neutraliza a ansiedade e ajuda na alegria de viver, pois ela, a vida, não é sonho, dizia o poeta Garcia Lorca.

João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/03/2009.

Sem categoria

BRASILULA E OBAMAMERICA – Jornal O Estado

Não houve grande repercussão na mídia americana dessa última ida de Lula aos USA. Na Casa Branca: conversas, risos, apertos de mãos, fotos e promessas adiadas, pelo menos, para 02 de abril, em Londres, na reunião do G-20 (dos 20 países ricos e mais remediados). Primeiro, é preciso dizer que a reunião com Obama foi sábado passado, 14, das 11 às 12 horas. Sem convite para almoço. Estava marcada para 17, terça, mas esse era o dia de São Patrício (o que denunciou a crueldade dos britânicos), celebrado pelos irlandeses-americanos e Obama priorizou o festejo. Antecipou-se, então, o contato com o ‘Brazil’. Parte da reunião, cerca de 40 minutos, foi de apresentações e discussões entre os grupos de cada país. Depois, Lula e Obama conversaram, a sós, por 20 minutos, com tradutores. O do Lula foi o Embaixador Celso Amorim, deu para ver. Presidentes não estão a sós com a presença de tradutores. Mas é assim que se faz na diplomacia. Todas as conversas do presidente dos Estados Unidos são, de regra, gravadas. Detalhe: nenhum novo interlocutor americano do poderoso Conselho de Segurança Nacional (NSC) ou Embaixador foi ainda designado para a América Latina. Todos do governo Bush permanecem. Não há, portanto, equipe de Obama para estudar e acompanhar os nossos problemas. A prioridade é a crise econômica ianque e do mundo e, a realidade mostra que a América Latina fica para depois. Só em abril, com o Encontro das Américas em Trinidad e Tobago, terra do Nobel de Literatura V.S. Naispaul, é que Obama dirá quem, em seu nome, indicará para discutir com os países do Hemisfério Sul. Alguns cientistas políticos e economistas dizem que o Brasil, com s ou z, não pode ser tratado mais como país excêntrico. Participa do G-20, luta, há anos, por um lugar no Conselho de Segurança da ONU e o faz concorrendo com Alemanha, Japão, Índia e África do Sul, entre outros. Temos matriz energética limpa, bancos vivos, contas externas saneadas, biodiversidade, sem dependência comercial a nenhum mercado e integramos o Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), corruptela de brick, tijolo. Sabemos que essa palavra bric/brick foi criada no pressuposto de que os tijolos são importantes para a reconstrução dos novos pilares do mundo. Precisamos, dizem, deixar de aceitar convite aos sábados pela manhã e não ficarmos, pelo menos, para o almoço. Mas, como se fala por lá: não há almoço grátis.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/03/2009.

Sem categoria

ABORTO E EVOLUÇÃO – Diário do Nordeste

Convivem, na minha maturidade, o menino que teve formação religiosa católica, o adolescente/universitário duvidando de tudo, enveredando pela leitura da filosofia, lutando por ideais; o homem jovem teoricamente racional que imaginava saber alguma coisa e fazer muito e; agora, nesta fase, senhor do direito de não ser enquadrado em nada e poder tentar ser livre. Discordo da excomunhão da família e dos médicos que livraram uma criança de 09 anos de uma gravidez indesejada. Nenhum direito, nem o canônico, deve desconhecer a realidade, tampouco acreditar que os seres humanos possam ser punidos por suas coerências existenciais quando não desrespeitam as normas legais do seu país e previnem consequências funestas. O que esperar de uma mãe de 10 anos, com duas filhas-irmãs, de uma avó, traída, de 23 anos, e de um padrasto que, mais dia, menos dia, estará livre para voltar a usar e abusar de quem não sabe e nem pode se defender? Essa excomunhão não combina com a fé, a inteligência e a razão de muitos teólogos e religiosos que compõem o corpo social da Igreja Romana. A excomunhão aconteceu exata no mês de fevereiro, quando se comemorava o bicentenário de nascimento de Charles Darwin, o cientista inglês que, segundo os historiadores Adrian Desmond e James Moore, passou 20 anos entre o temor religioso e o moral, Anglicano que era, para revelar a sua teoria da evolução das espécies. “É como confessar um crime”, dizia. Mas o fez. O “crime” era demonstrar à comunidade científica – conservadora e vitoriana – que a espécie humana não surgiu como narrado na Bíblia, mas por meio de um processo de seleção natural, explicação contida em detalhes no seu livro “A Origem das Espécies” que completa, em novembro, 150 anos. Darwin também foi execrado por sua Igreja, mas os tormentos pessoais passados e sua decisão conferiram à humanidade uma versão nova, coerente e revolucionária para a sua época. Voltando ao nosso tempo, é preciso que a Igreja Católica revise seus dogmas e preceitos legais para que não fique “pregando no deserto”. Todos os seres humanos que creem têm direito à salvação: “porque não há um justo, nem um sequer” (Romanos, 3:10).

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/03/2009.