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OCUPE, DESOCUPE, CULPE OU DESCULPE – Jornal O Estado

Ocupar é verbo transitivo direto da 1ª. conjugação e seu uso, em outras línguas, não é de agora. A ocupação é antiga. Os romanos estavam na Judéia quando Cristo foi preso. Acreditavam ser ele ativista político e não líder religioso. Em rápidas e frágeis pinceladas: espanhóis e portugueses descobriram as Américas e delas fizeram o que quiseram, por séculos. França, Holanda e Inglaterra pintaram e bordaram na África. A Inglaterra ocupou a Índia. Árabes permaneceram na península ibérica por séculos. Napoleão, o conquistador francês, só foi vencido pelo inverno russo, em 1812, parecendo dizer: desocupe nossa terra. Alemães atravancaram quase a Europa inteira nos fins dos 30 e metade dos anos 40 do Vinte.
Aqui no Brasil, a coisa é, quiçá, mais simples: colocando o “zoom” no Brasil dos fins do século 20 e neste começo do 21, temos a figura do MST, Movimento dos Sem Terra, ocupando fazendas, versão pós-moderna do que desejava Chico Julião, no começo dos 60, com as “Ligas Camponesas”. Neste novembro, estudantes da USP ocuparam parte daquela universidade sob o pretexto de o campus ser território livre e poder-se, ali, fumar o que quiser. Falavam, sem saber, das favelas cariocas. Ali, a ocupação, começou em 1897, por ex-soldados desvalidos voltando da Guerra dos Canudos, após matar o nosso Antônio Conselheiro. Povoaram o Morro da Providência. Deu no que se sabe.
Hoje em dia, a onda grassa entre camelôs que já não se conformam em atuar como ambulantes. Sitiam praças, ruas e átrios de igrejas. Do outro lado da Terra, a queda da ditadura egípcia de Hosni Mubarak, no brotar da Primavera Árabe, começou com a ocupação da praça Tahir pelos jovens. Agora, meses depois, caiu o governo militar tampão egípcio com protestos na mesma praça. A esfinge de Gisé observa tudo.
Nos Estados Unidos, jovens de credos, raças e rendas desiguais, ocupam, há meses, a mini-praça Zucotti, próxima da Wall Street. Como sabem, a rua Wall fica na parte mais baixa do distrito de Manhatann, em NY. Imigrantes judeus holandeses ocupavam a área em 1615 e ergueram,em 1652, um muro (wall) para proteger a vila e os seus negócios. A área é nanica, mas reúne hoje – em ruas estreitas e sinuosas -altos edifícios de bancos e entidades financeiras que, até bem pouco, eram fortes.

Além da Grande Depressão de 1929, houve em 1987, no dia 19 de outubro, a Segunda-feira Negra, com a desvalorização alucinante das ações da Bolsa de Nova Iorque. Depois, em 11 de setembro de 2001, aconteceu o atentado às Torres Gêmeas que representavam o poderio da área. O problema econômico mundial causado pelos bancos e governos em 2008 ora se agrava. A Europa sofre.
O movimento “Ocupe Wall Street” já está em dezenas de cidades americanas e tende a crescer, mesmo com a repressão policial. Nesta penúltima semana de novembro de 2011, uma péssima notícia. A Super Comissão formada por 12 integrantes do Congresso americano, dos partidos Democrata e Republicano, não chegou a um acordo para o pacote fiscal que pudesse tirar o país da confusão econômica. Assim, os Estados Unidos, ficam mais vulneráveis.
Nessas ocupações e notícias atuais, de naturezas tão distintas quantos seus objetivos, não há quase mais nada de ideologia em jogo, parece mais um espasmo neste mundo desigual e desgovernado que caiu no fosso criado pelo “circo da ambição” de que falava o escritor John Taylor, em livro homônimo, em 1993.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO Jornal O Estado EM 25/11/2011.

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BODES E ATAS – Diário do Nordeste

Estive no Clube do Bode para saudar a 500ª. ata de sua vida livre, pública, publicizada, mutante, etílica,esfuziante, crescente, minguante, intelectual, verborrágica, crítica e de passos registrados pelo vigilante escrivão-mor Audifax Rios, o nosso Pero Vaz. Os cadernos de capa dura são fornecidos pelo pai de chiqueiro-mor, Sergio Braga, o bom livreiro com a infeliz carreira secundária de político e guardião de seus amigos.
De princípio, éramos poucos. Destaco, sem preocupação memorialista, as figuras de Barros Pinho, Carlos Augusto, Juarez, Teles, Augusto, Iranildo, Ubiratan, Pardal, Mônica, Giordane, Cláudio, Lustosa, Lúcio, Passeata, Falcão, Ruy, Erle, Airton, Narcélio, Pedro, Saraiva, Siquerinha e outros que, infelizmente, esqueço. Alguns já ocupam a terra do sempre. Outros, idealizaram-se. Éramos circunscritos à sala pequena, disputada, bem servida e democrática do Sérgio. Ela fica no final do grande corredor que é a Livro Técnico. Atulhada de livros, fotos e lambanças de todos nós. Lá, ele reina, atrás da escrivaninha e do computador aberto, na sua forma pacífica de pessoa grande e acolhedora.
Lá se fala de tudo e de todos, discute-se em linha doida. Novos/velhos candidatos a intelectuais com imprevisíveis produções distribuem convites para lançamentos. Anexo, pequeno banheiro, visitado por algumas próstatas cansadas ou a nascente do rio lastreado por lúpulo, malte, cevada e fermento. Se alguém sair antes do fim para outras (des)aventuras nas noites de sextas e vesperais de sábados, fica certo que seu nome será discutido, esmiuçado e que tais. Depois, a calçada.
Ata após ata, muitos se achegaram, até grafando nomes, orelhando conversas acreditando incorporarar a filosofia bodeana. Ledo equívoco. Meros passantes em busca da fama que não temos numa já quase decenária entidade sem lei ou ordem, consumidora de pães e mais material que espiritual. Agora, os veros bodes reafirmam a missão de exigir que Sergio comande e o Audifax perpetue em atas com palavras, desenhos e relevos o novo desígnio: não ter meta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/11/2011

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MANCHETE NO CHÃO – Diário do Nordeste

Os que nasceram dos anos 90 para frente, se não virarem historiadores ou jornalistas, não saberão que houve um grupo de comunicação chamado Manchete. Aconteceu assim: uma família de judeus ucranianos, em 1922, imigra ao Brasil com parcos capitais. Entre eles, um jovem de 14 anos, Adolpho Bloch
Esse menino era filho de gráficos que conseguiram comprar uma pequena impressora para fazer cadernetas do “jogo do bicho”. Nos anos 40, destemido e capaz, passa a trabalhar com Roberto Marinho, na Rio Gráfica, e ali cresce profissionalmente. Em 1952, funda a revista Manchete que, em pouco tempo, passa a ser a mais lida do Brasil.
Seu ex-colaborador Carlos Heitor Cony, sarcástico como sempre, diz que Adolpho não tinha vocabulário maior que 500 palavras. Mesmo assim, reuniu a nata dos escritores de então e deu-lhes emprego e espaço. A partir de Clarice, Drummond, Sérgio Porto, Otto Maria Carpeaux, o próprio Cony e outros. Arnaldo Niskier, jornalista, professor, escritor, acadêmico e uma espécie de sobrinho de “Seu Adolpho”lançou, agora, o livro “Memórias de um Sobrevivente”, focado na sua figura, que tinha JK como o seu maior amigo.
Niskier fala da vida e da obra do velho judeu, com suas revistas, emissoras de rádio e a TV Manchete, criada em 1983. Casado, sem filhos, morre em 1995. Em 2000 foi decretada a falência das empresas Manchete. A sede, invadida por sem tetos. Hoje, em notícia de pé de página na Folha, leio que foi implodida. Ali,o Governo fará apartamentos do “Minha Casa, Minha Vida”. Thomas Mann, escritor alemão, dizia: “A glória em vida é algo problemático: é aconselhável não se deixar deslumbrar por ela”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2011

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EMENTÁRIO DA CORRUPÇÃO – Jornal O Estado

Terça-feira, 15, nove horas, Proclamação da República, o telefone toca: “João, gostaria que você escrevesse sobre a corrupção no Brasil. Houve manifestações públicas nos dias 7 de setembro, 12 de outubro e outra, hoje à tarde. Pouco se divulga na grande imprensa, exceto a Folha de SP que lançou até um caderno sobre Corrupção, em setembro passado, ajude”. Prometo. Pesquisei. Cumpro agora.
Em Roma, no princípio da era cristã, o poeta Juvenal dizia “Em Roma, tudo se compra”. Shakespeare, no século 16, na peça Hamlet, escrevia: “Há algo de podre no reino da Dinamarca”. Como se vê, a história é antiga. A corrupção é o ato ou o jeito sutil de seduzir e corromper. A partir da adulação do corruptor, da pretensa amizade e, afinal, da tentadora proposta que aguça o desejo de ganho fácil de alguém, surge o corruptível que se torna, em seguida, corrupto.
Dito isto, contarei que o Brasil não é o único país corrupto do mundo, embora apresente indicadores graves. Howard Hugues, excêntrico empresário norte americano, fornecedor de equipamentos na Segunda Guerra, foi um exímio corruptor de governos e sofreu vários processos federais. Há tudo sobre ele em biografias e no filme “O Aviador”. Existem dezenas de casos no mundo contemporâneo, no ocidente e oriente, e em países desenvolvidos, mas centremos o foco no Brasil.
No Brasil, ela foi endógena, desde a colonização portuguesa. Entretanto, penso que uma forma didática de tratar do assunto é situá-la a partir da Constituição de 1988, quando o Brasil voltou a ser, de fato, uma República. Há corrupção, mas existe combate duro. Isso também precisa ser dito. O Ministério Público, a Receita e a Polícia Federal são os entes mais destacados nesse embate complicado. Enumero dez casos emblemáticos, todos de domínio público. Lembram?
O primeiro foi a denúncia fraterna, em 1992, de Pedro que culminou com o desmanche do governo de seu irmão, Fernando Collor, acolitado por PC Farias que, anos depois, seria assassinado. O segundo ocorreu em 1993 com “Os Anões do Orçamento”, denunciado por José Carlos Alves dos Santos, diretor da própria Comissão, que mostrou os desvios das emendas parlamentares da Câmara dos Deputados e culminou com a renúncia do Dep. João Alves e a prisão da Dep. Raquel Cândido.
O terceiro foi o que envolveu Paulo Maluf e, em consequência, Celso Pita na segunda metade dos anos 90 com obras superfaturadas. Pitta morreu e Maluf resiste com o mandato de Dep. Federal. O quarto foi o escândalo da construção do prédio do TRT de São Paulo, em 1998 encabeçado por Luiz Estevão. O quinto viria do norte do país, a fraude da SUDAM, em 2001, encabeçado pelo Senador Jáder Barbalho que perdeu a Presidência do Senado e renunciou ao mandato, para não ser cassado. A Operação Anaconda, em 2006, a sexta, decorreu de ação da Polícia Federal, resultando na prisão de servidores públicos federais graduados.
O sétimo – e mais famoso – é o Mensalão, assim denominado por ajudar, a cada 30 dias, políticos comprometidos. Descoberto em 2003 por Roberto Jefferson envolveu parlamentares e bancos. O oitavo, em 2006, foi a “Máfia dos Sanguessugas”, afetando mais de 100 deputados/senadores com o superfaturamento de ambulâncias para prefeituras. O nono, A Operação Navalha, em 2009, já nas obras do Plano de Aceleração do Crescimento-PAC, aponta Zuleido Veras, dono da construtora Guatama, Silas Rondeau, ex-ministro e outros. O décimo é o Mensalão do DEM, no ano passado, que apresentou vídeos de José Roberto Arruda, ex-governador de Brasília, recebendo dinheiro.
Como se nota, o Ministério Público, a Receita, a Polícia Federal e o Judiciário têm feito as partes que lhes cabem, cortando nas próprias carnes e abrindo ações penais em todas as instâncias, até mesmo no Supremo Tribunal Federal.
(Dedicado ao falecido jornalista Temístocles de Castro e Silva, de quem se podia discordar, mas não negar o seu espírito de guardião de causas públicas)

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/11/2011.

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A CONTA DE LUZ – Diário do Nordeste

Deveria ter escrito custo da energia, mas luz chama mais a sua atenção. Praticamente todos os brasileiros(99%) são usuários de energia elétrica, uma das mais caras do mundo, saiba você. Ela é cara, não apenas pelas privatizações, mas pela sanha dos impostos e os lucros das distribuidoras, inclusive nos serviços adicionais. Existe uma agência reguladora do assunto, a Agência Nacional de Energia Elétrica – Aneel. Agora, a Aneel trata de definir regras para o que chamou de 3º. Ciclo de revisão tarifária.
Há, no Brasil, 63 distribuidoras de energia, todas muito bem, obrigado. Quando houve a privatização/concessão estabeleceu-se que existiria revisão. Até agora, nada de positivo foi feito em favor dos consumidores de energia: todo o povo brasileiro e todas as empresas. O que pouca gente atenta é a quantidade de impostos que se paga na conta de energia. 45% do total vai direto para o Governo, em tributos e encargos. Deixando claro: se a sua conta é de 100 reais, 45 vão para os cofres públicos. Neste ano, até outubro, o governo havia arrecadado 54 bilhões de reais só da luz.
Ano passado, 2010, as despesas dos brasileiros com energia chegaram a 118 bilhões de reais. Sei que número não é bem agradável para o dia de domingo, mas todos devem saber o que pagam e porque pagam. Ninguém defende o consumidor brasileiro. Há uma Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres –Abrace, mas pouco se sabe de êxito em seus propósitos públicos. O que se vê é a exorbitância cobrada pela energia. Nos horários de pico, quando mais se precisa dela, é um saque.
Não há uma frente de deputados e senadores para atenuar a tributação e os encargos da conta de energia. Além da energia de sua casa, você ainda paga a iluminação pública que deveria ser coberta pelo IPTU. No Brasil, sabe-se, imposto não baixa. Abrange tudo o que você faz. Lembre-se disso ao acender o cigarro, pegar o transporte coletivo, ligar o carro, fizer refeições, tomar uma bebida ou abrir a televisão. O brasileiro deveria se preocupar mais com o que paga de impostos, encargos e taxas. Antes que seja tarde, apague a luz.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/11/2011

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E-MAIL E TELEFONE – Jornal O Estado

Antes mesmo de Steve Jobs despontar no mundo cibernético eu procurava – em tempo de brasilidade excessiva – mexer nos nacionais computadores. Cobra, por exemplo. Que jeito. Ia, passo a passo. Digo melhor, dedo a dedo. Não havia e-mail, existia lista telefônica por nome e endereço e a ajuda do 102 não era essa praga digitalizada. Agora, 48% dos brasileiros têm computadores, outros milhões usam e-mail e há 210 milhões de telefones celulares pré-pagos, pagos e institucionais. Como se presume que Deus vê e ouve tudo, imaginem a zorra que esses milhões de conversadores fazem ao telefone.
A toda hora, nossos endereços eletrônicos recebem convites de amigos e até de estranhos para participar de redes sociais. Ora, ora. Parece ser natural todos perguntarem os números dos nossos telefones e os e-mails. Não é. Atendentes, frentistas, amigos, colegas, corretores e vendedores abusam do direito de pedir o que pode nos incomodar 24 horas por dia. E se você quiser que o número do seu telefone não seja divulgado pela voz metálica do 102 há que pagar uma taxa mensal pela privacidade à gestora de sua conta que, unilateralmente, mensura os minutos das ligações que recebemos e fazemos. Quem nos diz que o minuto dela tem 60 segundos? Quem nos diz se tudo não é contado, inclusive os trins, trins e as vozes que pedem para deixar recado? Essas agências reguladoras governamentais, até agora, nada fizeram pelos consumidores, pois seus integrantes não são técnicos, mas políticos ou afins a serviço de partidos no poder que recebem boas remunerações e generosas doações dessas operadoras.
Quanto aos e-mails o problema é grave. Há serviços gratuitos e pagos. Os gratuitos – para você – são usados – por eles – para vendas de listagens empresariais por profissão, idade, sexo, renda, endereço etc. Os pagos seriam reservados. Os provedores prometem respeitar o seu usuário.. Quem garante? Todos recebem e-mails tidos como “Spams” ( mensagens comerciais não solicitadas, pornografia, propaganda política, sites de relacionamento etc) que precisam ser apagados ou rejeitados por antivírus. Os antivírus podem ser pagos ou gratuitos. E aí recomeça a história da invasão de sua caixa postal. É ato de fé ter um computador ativo neste mundo de “hackers” contumazes, espiões libertinos ou os interessados na nossa vida pessoal/profissional.
Milhares são os computadores que sofrem ainda invasões de detetives particulares ( as propagandas estão nos anúncios de jornais) e escutas – autorizadas ou não – pelos três poderes, até editando o que as pessoas falam para atingir os objetivos desejados. Como somos pós-modernos pagamos o preço. Hoje, temos uma vaga noção de tudo e conhecimento de quase nada, parafraseando Charles Dickens.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/11/2011.

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PORTA DA IGREJA – Diário do Nordeste

Manhã e dia de trabalho. Sol forte. Acompanhava o trânsito lento da Rua Moreira da Rocha quando tudo empacou. Estava ao lado da Igreja da Santa Luzia olhando para a esquerda. Vi o simpático Padre Apolônio ao lado de outra pessoa, também de “clergyman”, verificando o exterior do templo. Aprumei a visão e conclui que o outro era o Arcebispo de Fortaleza, Dom José Antônio Tosi.
Tráfico, parado. O que fazer? Estacionei o carro e fui ter com os dois. Interrompi o que falavam dando bom dia e perguntei a D.José Antônio, com quem nunca falara, porque ele aparecia tão pouco. Foi o bastante. Ele, mais ou menos, retrucou assim: estou com erisipela de tanto andar pelas comunidades de Fortaleza. Procurei dizer que não me referia às comunidades, mas Fortaleza, como um todo. O antístite não me deu tréguas: Estou cansado dessa história.
Padre Apolônio, nervoso e conciliador, sugeriu que eu fosse à sacristia comprar o seu livro, de nome significativo e texto acessível: “O que ainda tenho a dizer e o que disseram de mim”. Voltei, livro a mão, pedi desculpa pela intromissão, cumprimentei-os e me despedi. Liguei o carro e pensei: Agi errado. Não deveria ter entrado na conversa dos dois. Lembrei, meio sem querer, de D. Aloísio Lorscheider disponível para qualquer pessoa, cristã ou não. De sua integração com as lutas sociais, sem prejuízo para a condução do rebanho.
Rememorei o dia em que troquei ideias com o seu sucessor, o filósofo D. Cláudio Hummes – em um salão de hotel – sobre o celibato dos sacerdotes, enquanto a Bíblia fala em apóstolos casados (1 Coríntios 9:5 e 1Timóteo 3:12 ). Foi uma conversa amena e ele, de forma serena, falou apenas que era obediência.
O bispo, na hierarquia da Igreja Romana, segundo o Dicionário de Liturgia, do Padre Sabino Loyola, exerce, em grau eminente, três funções: a de profeta, sacerdote e pastor. O pastor é aquele que tem paciência com os balidos de suas ovelhas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/11/2011

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NOTÍCIAS PÚBLICAS – Jornal O Estado

Minha mãe, com 92 completados domingo passado, diz para não se brincar com as coisas do mundo e cuidar das palavras. Lembrei disso ao ouvir Orlando Silva falar que era “indestrutível”. Dias depois, era ex-ministro. Semana passada, o Ex-presidente Lula brigava pelo nome do Ministro Haddad, da Educação, para a vaga de candidato a prefeito pelo PT de São Paulo. Enquanto isso, Marta Suplicy chorava implorando por uma prévia. Nesta semana, Haddad está, mais uma vez, atrapalhado pelo Enem. Onde já se viu fazer pré-teste igual a texto de exame? E, ainda por cima, culpar um colégio. Colégios e cursinhos vivem de “bizus”, desde sempre. O Colégio Christus tem 60 anos e é acreditado. A culpa é da preguiça de reformular, pelo menos, o enunciado e a natureza das questões. O resto é desculpa.
Aldo Rebelo mês passado foi derrotado pelo Gov. de Pernambuco, Eduardo Campos. Agora, é ministro do Esporte. Ana Arraes, mãe de Eduardo e nova ministra do Tribunal de Contas da União, adversária de Aldo na disputa pelo TCU, promete bem fiscalizar as contas da Copa agora gerida pelo alagoano Rebelo que é deputado por São Paulo. Aldo chama futebol de ludopédio, como purista da língua portuguesa que é.
O Dep. Tiririca, filho do Ceará e o mais votado por São Paulo, recebe, segundo ele, 500 pessoas por dia, em seu gabinete na Câmara dos Deputados. Fiz umas contas. Se ele passar cinco horas trabalhando, o que é uma gracinha, terá que atender cem pessoas por hora ou menos de um minuto por pessoa. Como serão essas conversas? Imagino: Secretária abre a porta. Oi, sou fulano, quero isso. Prazer, sou o Dep. Tiririca. Tenho não. Volta depois. Tchau. Fecha a Porta. Entra outro.
Estudantes de Filosofia e História da USP lutam com a Polícia Militar de SP pelo direito de fumar o que quiserem no Campus. O Brasil está no 84º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano: temos 73,5 anos de expectativa de vida, estudamos entre 13,8 e 7,2 anos e ganhamos, em média, 10 mil dólares por ano. Apesar disso, somos a 6ª. economia do mundo.
Juazeiro do Norte é a terceira maior cidade produtora de sapatos do Brasil, mas a maioria da população usa chinelo ou sandália. A revista Veja apresenta, abertamente, a amante por dezoito anos de Juscelino Kubitschek, morto em 1976, Maria Lúcia Cardoso, que permaneceu casada todo esse tempo. Qual o objetivo desse “furo”? Jô Soares escreve livro em que o personagem esgana mulheres gordas. Freud talvez explique. O Brasil perde para a pequena Cuba na contagem geral de medalhas e fica no terceiro lugar do Pan-Americano de Guadalajara, México.
O cineasta espanhol Pedro Almodóvar lança, com seu humor rascante, um filme bizarro. “A Pele que Habito”, segundo ele, reflete as mudanças do século. Ora, o século tem apenas 11 anos e o mundo habita, neste novembro, sete bilhões de pessoas.
Os motociclistas são os brasileiros que mais dão despesas ao SUS. Falando da crise: Frau Merkel pode ter salvo o Euro. Dilma está em Cannes na França, mas é outono. Nada de cinema. Cinema é na primavera. Agora é reunião do G-20 para discutir a quebradeira do mundo. Não seria melhor em Asmara, na Eritreia? Os europeus precisam de dinheiro, mas não perdem o estilo: tapis rouge.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 04/11/2011.

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DEFINIÇÕES – Diário do Nordeste

Ela é cearense, mãe, avó e pintora renomada de alma e saber grandes. No seu dia a dia, em recanto bonito de sua casa misturado com árvores acolhedoras, livros a mancheia, lidos e mexidos, quadros dos outros e seus com frases contidas/insertas e bem certas, instalações e adornos pendurados, ela dá aulas a pessoas escolhidas que querem aprender a pintar ou usam o tempo e os pincéis como terapia para os desalentos da vida.
Desde que a irmã se encantou, para tristeza verdadeira de nós, os poucos, em um começo de junho do último ano findado em quatro do século morto, passamos a conversar de forma aleatória, mas sempre. Amigos. Poucas vezes ao vivo, pois mora na cidade das pontes e dos dois rios. A de João Cabral de Melo Neto, o poeta do menos, adotada por Ariano, o menestrel suassunense armorial. Poucas vezes pelo fio, mesmo sem fio, pois há tarefas a cumprir nos duplos horários descompassados. Trocamos e-mails.
Ela me incita a entrar no Facebook, mas não aceito. Esse mundo virtual nada virtuoso. Somos expostos e fazem de nós o que querem. Editam, mexem no texto e contexto plantando coisas não ditas e sem raízes/razão. Agora, em resposta a uma provocação minha, manda-me algumas definições de aluna sua. Pelas definições, você verá que as aulas não constam meramente de pincéis, cavaletes e tintas. A arte, como ela faz, transcende a cromatologia, as duas dimensões e apoderando-se da filosofia não fica aprisionada nas dimensões da tela. Surrealista? Mais que isso.
Assim, surgem iluminuras nas conversas misturadas com café, avental sujo e a volatilidade da fumaça expandida após o trago profundo. Veja, com atenção, o que uma sua aluna acredita ser quietude: “tento fazer daquilo que não tem som, o ruído de mim mesma”. Sobre a enigmática e portuguesa palavra saudade, ela pinta: “a viagem que o meu coração faz não tem final”. Quem sabe, triste, define a passagem da esperança: “só quero um dia me lembrar do lugar por onde nunca passei”. Contemporânea – paradoxalmente romântica – incorrigível arremata: “sofrer por amar não tem século”. E como os outros, filósofos ou artistas, conclui: “Ilusão, tu me abortas”. Ainda há salvação no mundo, pensar é o caminho. Badida.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/10/2011

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CRISTINA, ARGENTINA OU “ARGENTINA HOY” – Jornal O Estado

Em 26 de outubro de 2007 escrevi, neste jornal O Estado, o artigo “Argentina, Cristina”. Faltavam dois dias para a eleição presidencial. Havia voltado de lá, conversara e ouvira que a mulher de Néstor Kirchner seria eleita. Em certa parte do meu texto, dizia: “Assim, a partir de segunda, o país vizinho que oscila entre a alegria com que encara o futebol e a amargura com que se deixa dominar pelo dramático compasso do tango e pelas tragédias pessoais, amanhece com a mesma face e isso já pode ser dito, pois Néstor e Cristina formam uma dobradinha e governam juntos, sem nenhum preconceito. A grande maioria dos argentinos encara a eleição com indiferença”.
Como previsto, Cristina foi eleita e começou a dirigir, em comunhão de atos, com o seu marido, Néstor. Acontece que a tragédia, não a grega, mas a portenha, faz parte da essência argentina. Em 27 de outubro passado, Néstor morre de infarto inesperado. Velórios pungentes em Rio Gallegos, província de Santa Cruz, sua primitiva base eleitoral, e em Buenos Aires, onde se federalizaram. Cristina adorna-se de preto, aumenta os cílios, potencializa a biografia de seu marido, esquece seus erros e dá toques escuros ao vermelho de sua longa cabeleira. Sua imagem cresce ao sabor da economia.
Dispara dardos contra o grupo detentor do jornal “El Clarín”, fecha-se na Casa Rosada com poucos amigos e assessores e disputa as prévias, uma inovação no processo eleitoral de lá. Sai fácil na frente com mais intenções de votos que todos os outros candidatos. Agora, completa um ano de seu luto. Seu filho Máximo, 34 anos, cria o movimento social esquerdista “La Cámpora”, para perpetuar o kirchernerismo – ou seria o “Cristinazo”? -, tudo com o tempero do velho peronismo.
Domingo passado, 23 de outubro, Cristina foi reeleita. Vai recomeçar com um país mais fortalecido, tal como o Brasil, vendedor de commodities, como a soja e o trigo. Midiática, apenas sorri com a postura de viúva antiga, na maturidade dos seus 58 anos.
Seu vice-presidente é Amado Boudou, 48 anos, economista, empresário, ex-ministro da economia, jovial e amante de rock. Fala-se, desde já, em reforma constitucional para um terceiro mandato, mas há a sombra da crise econômica a rondar o mundo e a formar seguidos estoques de veículos lá fabricados, 80% dos quais são vendidos a um pais, com o qual tem trânsito e diferenças antigas, dirigido por outra mulher, Dilma. Lá, como aqui, a nova história começou em 2003.
Todos estes assuntos foram discutidos esta semana sob o tema “Argentina Hoy”, por Carlos La Rocca, assessorado por Carlos La Rocca Jr., na abertura de seminário em que a Sociedade Consular do Ceará realiza. A ideia é aprofundar estudos sobre cada país que possua representação consular no Ceará.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/10/2011