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INTERVENÇÕES PARA O FUTURO – Jornal O Estado

Convivo com arquitetos há décadas. No começo da minha vida profissional verifiquei, como hoje se diz, existir um “nicho” de mercado na área de planejamento urbano em todo o Nordeste brasileiro. Reuni alguns bons nomes como Marrocos Aragão, Juremir Braga, Jorge Neves, Maria Clara Nogueira Paes Caminha e, posteriormente, André Steindorfer. Juntos com profissionais de outras áreas passamos a trabalhar o caos. É claro que as nossas intervenções não tiveram a ousadia de um Napoleão III que modificou no século XIX- com a ajuda de Georges Haussmann, prefeito de Paris por 17 anos – a feição urbana da Cidade Luz.
O arquiteto deve ter uma antevisão do futuro e buscar formas que se ajustem ou se contraponham ao espaço urbano onde intervém. Não estou cogitando do arquiteto como mero criador de habitações uni ou plurifamiliares, mas com a função e a formação de urbanista quando a singeleza de meros traços define o que se pretende no processo de intervenção no tecido da cidade, deixando exposto para o julgamento de terceiros a sua genialidade ou uma mera cooptação com os desejos e o perfil ideológico dos governantes, a quem presta serviços.
Alguém, com mais bagagem urbanística do que eu, refere que Fortaleza não tem – salvo exceções – nada a preservar. Diz que as intervenções sofridas não podem ser criticadas por quem não é do métier. Discordo. O urbanismo não é dogma, privilégio ou casamata de arquitetos, por mais bem intencionados que sejam. O urbanismo comporta, por sua complexidade, uma visão multidisciplinar que começa com geógrafos, ecologistas, geólogos, passa por engenheiros, remonta aos historiadores, procura economistas para cálculos de viabilidade, administradores para ajustá-lo à realidade e advogados para ajustar/criar as legislações de áreas a serem preservadas, desapropriadas e renovadas.
Fortaleza, até os anos 60, não havia descoberto o mar. A visão recente da orla marítima; seu uso indiscriminado com a proliferação de edifícios de alto porte; a mixórdia de grandes barracas de toda natureza tal qual uma babel; os projetos da baía de lracema e o reordenamento da Av. Beira Mar(trecho Ideal – Iate), a implantação dos Veículos Leves sobre Trilhos – VLT de Parangaba ao Mucuripe, e a construção do Aquário exigem um pensar global, sem estrelismo, participação popular e uma coordenação lúcida – e não autoimposta – que possa emergir no decorrer das discussões.
Tudo isso tem a ver não somente com as mínimas ou grandes intervenções que Fortaleza precisa e deve sofrer para a Copa de Futebol de 2014, mas para encorajar a Prefeitura e o Estado a abrirem discussões mais profundas sobre o que fazem e o que ainda pretendem fazer. As intrigas, por exemplo, criadas com as ligações domiciliares e a expansão das redes de água e esgoto e o recapeamento asfáltico são provas de incoerência ou falta de espírito público.
O importante é que cada grande intervenção urbana seja para a Copa ou para a cidade que não vai parar após 2014, tenha o aval da sociedade e de técnicos isentos que, por enxergarem, muitas vezes, a ação de forma diferente, discordam, complementam, ajustam, e, por certo, enriquecem as concepções que são, quase sempre, cópias do que já se fez ou se faz em outras grandes cidades do Brasil ou do exterior.
Tomemos o exemplo de Paris. Lá as ZAC (Zone D’Aménagement Concerté) passam por todo um processo de análise histórica, social, financeira e gerencial, até que os urbanistas e a sociedade definam as mudanças estruturais de uma zona de recuperação.
A ousadia, ponto basilar ou característica nas intervenções urbanas de profundidade, deve ter como contraponto a coerência dos que podem e devem ajudar como agentes públicos, profissionais ou cidadãos a definir o futuro da cidade onde moram, tomando-as belas. E por falar em beleza, é bom lembrar São Tomás de Aquino:“As coisas belas são as que agradam quando vistas. Portanto, a beleza consiste na devida proporção; pois os sentidos deliciam com o que pertence à sua própria espécie, porque até o sentido é uma espécie de razão – exatamente como o é toda faculdade cognitiva”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23/03/2012

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GANHAR O NOBEL – Diário do Nordeste

Recentemente, ouvi do Embaixador húngaro no Brasil, Csaba Szjjártó, que o seu pequeno país ganhou dez prêmios Nobel. Portugal, com apenas dez milhões de habitantes, tem um. Vários países latinos (Argentina,4;México,3;Chile,2;Peru, Colômbia e Costa Rica,1 cada) possuem galardoados. O Brasil, este gigante ascendente, ainda não conseguiu. Minto, em 1960, o inglês Peter Brian Medawar, nascido circunstancialmente no Rio, co-ganhou o de Medicina. Conta?
Falou-se, há décadas, que o D. Hélder Câmara seria indicado para o da Paz. Jorge Amado sonhou e morreu. O que se sabe da Fundação Nobel que confere os prêmios é gostar de ser lisonjeada. Cito o caso de Saramago. Em 1997, o governo português contratou a empresa sueca Jerry Bergström AB, para programar visitas de Saramago à Universidade de Estocolmo, participar de seminários, autografar livros, fazer discursos e comparecer a talk-show na TV Cultura de lá. Nesse mesmo ano, a Feira do Livro de Frankfurt-Alemanha, homenageou Portugal e Saramago, lá incensado, teve seu nome veiculado pela mídia amiga da Europa.
JS gostava de frases de efeito. Reparem: “O ser humano não merece a vida”. Como ele se dizia ateu, essa afirmação é, no mínimo, contraditória. Quem dá a vida? O fato é que no ano seguinte, 1998, Portugal “foi surpreendido” com o Nobel de Literatura para o José. A essa época, ele já morava em Lanzarote, ilhas das Canárias, Espanha, e sugeriu que os dois países se unissem formando uma só nação ibérica. Ingrato. O Brasil precisa de um Nobel em qualquer área. Quem você indicaria?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/03/2012.

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NOTÍCIAS DE LÁ E DE CÁ – Jornal O Estado

Devo notícias a ela. Vem todos os anos ao Brasil para férias. Confessa que já se sente estranha na terra desse trânsito louco, cheia de lixo, camelôs e trombadinhas. Agora, catou e enviou os poucos comentários que leu nos jornais alemães, não os mais notórios, e os rápidos flashes da TV sobre a visita de Rousseff à Merkel. Poucas linhas, nada substancial, mero protocolo, retórica diplomática e que tais. A culpa seria dos bancos internacionais; da crise que mexe com a Grécia e suas ilhas maravilhosas esvaziadas por falta de passageiros e navios problemáticos; passa pela Irlanda friorenta e não respeita a história italiana congelando cidades da costa, após a saída grotesca de Berlusconi, o autoproclamado garanhão.
Decisões são adiadas, greves, demissões e reduções de salários constrangem os governos da Espanha e Portugal. Sarkozy, acossado, só pensa na reeleição e transformou a premiê alemã em sua terapeuta pessoal. Lá na Rússia, Puttin foi eleito, apesar dos comentários de observadores, fala sem medo das suas ogivas nucleares. A ONU vê, atônita e sem reações, um anônimo, insone e desatinado militar americano invadir casas e matar, em madrugada sombria, nove crianças, três mulheres e quatro homens que apenas dormiam na sua pátria ocupada, o Afeganistão. Obama não precisava dessa, bastam os republicanos. São essas as notícias do mundo que trocamos em nossos periódicos e-mails. Mas, ela pede notícias de cá.
O que dizer? Chico Buarque faz show em meios às enchentes de São Paulo cantando as músicas de sempre. Rita Lee arma barraco em apresentação em Alagoas. O grande Chico Anysio agoniza em clínica particular do Rio que neutraliza a dor, dopa e prolonga o inevitável. Lula luta bravamente contra um câncer de garganta que o faz, por enquanto, calar. Romero Jucá, um senador de Roraima, que já foi líder de vários presidentes, independente de ideologias, é demitido por Dilma em face da rebeldia do seu PMDB, o partido que baliza qualquer governo e sabe as fichas que tem. Ao mesmo tempo, demitiu, sem prévio aviso o dep. Cândido Vaccarezza, do PT, da liderança na Câmara Federal. Pede para que diga algumas palavras sobre a Copa de Futebol. Dinamitaram vários estádios e os reconstroem com dinheiro público. A CBF – a entidade que controla o futebol – está em crise. Saiu o presidente Teixeira, 23 anos no poder. Entra Marin, 79 anos, pensando no futuro. Adriano, o imperador da bola, deixa o Corinthians após dois gols, excesso de peso e dinheiro muito no bolso. Enquanto isso, as cidades convivem com as vias de acessos aos futuros estádios asfixiadas por bicicletas, carros e motos vendidos em prestações mensais e mortais. Os hospitais públicos estão superlotados por motoqueiros com traumas, quando não vão a óbito. Só na cidade de SP há mais de 500 mil bicicletas. Imagine o número de motos.
Antigamente, quando por aqui passavam circos ditos internacionais, havia o Globo da Morte. Dois motoqueiros se cruzavam velozmente em um círculo vazado de aço e nós ficávamos enregelados lá nas arquibancadas. Hoje, as ruas são os atuais globos da morte, os motoqueiros vêm pela esquerda, direita, cruzam, não respeitam sinais e os acidentes ficam repetitivos.
Sei que já ouviu falar do Ficha Limpa, o projeto de origem popular que se transformou em lei e pune políticos corruptos. Vai valer nestas eleições municipais de outubro – aqui tem eleições de dois em dois anos – e muitos deles estão encrencados. Deveria ter ficha limpa para todos os brasileiros. Por que não?
A ferrovia Transnordestina e a transposição do Rio São Francisco estão quase paralisadas. No mais, sugiro para as jovens alemãs estudantes de medicina que se especializem em cirurgia ou dermatologia e venham para o Brasil. Ganharão muito dinheiro, pois as mulheres daqui estão obsedadas com as aparências e fazem plásticas, preenchimentos, botoxes e acreditam que podem parar o tempo que lhes dá, em contrapartida, as estrias, as celulites e as gordurinhas naturais que não aceitam. Elas não sabem, isso nada incomoda os homens de verdade, que também as possuem. Fique bem. Até a próxima. Auf Wiedersehen.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/03/2012

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SABERES DA CIDADE – Diário do Nordeste

A amiga Badida Campos, irmã de Techinha e filha do homem do fusca verde e do apartamento/biblioteca/relicário, escreve-me, como o faz desde sempre, dizendo da alegria em ter sido acolhida no poema “Saberes” do poeta pernambucano Alexandre Furtado. Nele, Furtado retrata, em versos livres, a história maurícia desde Duarte Coelho. Badida é pintora consagrada e tem a graça de, em muitos de seus quadros, incluir palavras que são saberes. Saber uma cidade não é apenas morar nela, tampouco contar estórias ou balelas por ouvir dizer. Saber é entranhar-se, misturar-se a todos, não apenas participar de confrarias que escolhe como grei para discorrer sobre pessoas ou fatos, sem conhecê-los na essência.
Saber uma cidade é procurar, antes de propagar necedade, obter informações corretas sobre o que vai escrever. A propagação do que não se sabe e é calúnia não se transforma em verdade. Essa talvez seja a razão de muitos que aqui chegam para o vestibular acadêmico ou o da vida e se arvoram em relatar o que não vivenciaram, palmilharam, sabiam ou sentiram. Saber uma cidade é ver, entender seus ritmos e mudanças, percorrê-la sem preconceitos e ajuizar as razões de cada fato. O historiador produz saberes, pois pesquisa, investiga e dialoga. O propagador do nada apenas quer dizer-se incluído, mas quiçá seja mero aprendiz do que não viveu sem consultar a história ou a veridicidade. Alberto Moravia–escritor italiano morto em 1990, parecido fisicamente com o Ariano Suassuna, paraibano de saberes pernambucanos–, tinha o cuidado de só escrever o que sabia ou pesquisava a fundo. É bom conselho.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/03/2012

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ALINHAVOS SOBRE O DIA DA MULHER – Jornal O Estado

Será que ainda precisamos comemorar o Dia da Mulher? O mundo tem mudado como um míssil. Quem era fraco passou a ser forte. Seria o caso da mulher? Quem era oprimido se liberta. Seria o caso da mulher? Quem sofria preconceito passou a ser referência. Seria o caso da mulher? Quem sustenta a família é o chefe dela. Seria o caso da mulher? Quem chefia empresas dá ordens. Seria o caso da mulher? Quem ia para a guerra era forte. Seria o caso da mulher? Creio que essas perguntas não cabem mais. Ou cabem? Decida.
Quais seriam as mulheres que merecem ser lembradas? Claro que você deve rememorar e reverenciar mulheres, no singular ou plural. Mas no imaginário dos homens há mulheres que poderiam ou careciam ser lembradas. Aqui e alhures. Quem você recordaria na sua cidade, no seu estado, no Brasil e no mundo? Podem ser ocupadas ou desocupadas. Domésticas, profissionais liberais, servidoras públicas, cientistas, executivas, políticas, religiosas, militares, ativistas sociais, o que for. O tempo de hoje não permite proibição. Veja quem se destaca no que faz, seja qual a atividade escolhida. Não esqueça de parar um pouco e pensar. Imagine-se convidando essa pessoa – e ela aceitando – para um encontro a dois.
Onde e quando seria tal encontro? Um almoço ou jantar? Capricharia na roupa ou sairia com a que está no trabalho? Levaria flores ou outro mimo? Que bebida você pediria? Um destilado, vinho, cerveja, refri ou uma simples água? Respeitaria a preferência dela? Qual a entrada para acompanhar a bebida? Dividiriam um prato? Ou cada um escolheria o seu? Dize-me o que comes; eu te direi quem és, falava Brilliant-Savarin, escritor francês. Falariam sobre música? Qual gênero? Cantor (a) preferido (a)? Cidades que gostam? Falariam de seus passados ou questionariam o presente? Será que ela ou você sabe o que é resiliência?
Essa palavra tem origem na engenharia e mostra a capacidade e o tempo que um material leva para se recompor, como algo que é comprimido e, em seguida, solto. Agora, a psicologia adotou a palavra para dizer se nos recuperamos rapidamente, voltando ao estado normal, ou ficamos remoendo o passado. O resiliente sabe que foi chamuscado, mas aquilo logo passa. Tudo volta ao normal. E o que é o normal?
Voltemos ao encontro. Faltando luz, você ficará aflito? Ou tomará a mão de sua companhia e dirá: não se preocupe, estou aqui. Lembro do que aprendi comigo mesmo: ninguém completa ninguém. Você não se basta, mas não tem vazio ou falta pedaço. Isso é bobagem de livro de auto-ajuda. Os desejos, quase sempre, não são semelhantes. Dialogue com a sua companhia sobre limites ou a falta deles. Encontro não é farsa. É aconchego. Caso seja romântico tente assobiar ou solfejar uma música do seu agrado. Qual seria a reação dela? Franziu a testa ou sorriu aprovando? Não faça gênero, seja o que é, se deseja voltar a encontrar com ela. No tal dia, se acontecer, ela descobrirá que tudo era fingimento ou confirmará a sua personalidade. Não crie grandes esperanças, Carpe diem. O passado já era. O presente se cria e o futuro a Deus pertence. Salvo para os ateus.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/03/2012

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LIMPAR TUDO – Diário do Nordeste

É hora de limpar tudo. Não só a classe política deve ter ficha limpa. Todos precisam ter ficha/vida limpa. Quais as razões de pessoas, ou seus grupos, se perpetuarem no poder em entidades de classe que usam dinheiro das empresas e trabalhadores? Como admitir que eleições sindicais e classistas sejam, quase sempre, um simulacro?
Você tem ideia do gasto com essa conjuração que remonta ao século XX? Pesquisem pela internet e verifiquem quem comanda o quê. Há dirigentes reeleitos de certas entidades empresariais que nem empresas possuem. O mesmo acontece em alguns sindicatos de trabalhadores. A gastança é grande.
Brasileiro não deve ter medo ou ser subserviente, seja pessoa, empresa, entidade ou repartição pública. A cidadania dá direitos iguais a todos. Se você endeusa alguém, ele(a) passa a acreditar que realmente é importante e o olha de cima para baixo. O Estado não faz favor quando cumpre bem a sua tarefa. Não seja Maria vai com as outras. Cobre resultados pelos muitos impostos pagos.
Você tem direitos. Veja o art. 5º. da Constituição. Nada é de graça no Brasil. Informe-se, leia, critique, opine. Exija sempre nota fiscal ao comprar. É seu direito. Como ficar indiferente se todos os dias os meios de comunicação mostram escândalos envolvendo poderes, ongs, fundos de pensão, empresas, bancos, fundações, licitações e concessões? Toda autoridade recebe delegação da sociedade. Se não cumprir, rua. Os agentes públicos devem satisfação e transparência à sociedade. A hora do bem bom passou. Ficha limpa para todos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/03/2012.

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FORTALEZA VIVA – Jornal O Estado

Deparo-me, por acaso, com um livro rico de capa dura e uma bela paginação intercalando textos, fotos antigas e contemporâneas. Sua capa mostra a Praça do Ferreira, não a antiga, mas a revisitada ou relida pelos arquitetos Delberg Ponce de Leon e Fausto Nilo. Creio que não entendi bem a explicação da foto da capa: “Praça do Ferreira – no fim dos anos 1960, a Coluna da Hora foi demolida, e em projeto de 1991 retornou à praça…”. A bela foto de Gentil Barreira já é da praça reformada em 1991. A estrutura da antiga Coluna não era em aço. A que aparece na capa é a releitura estética de Delberg e Fausto. Não há década de 1960. Há a década dos anos sessenta. Tirando esses pequenos detalhes, afora outros, há que se louvar a pesquisa de muitos e a organização de Patrícia Veloso, para a Terra da Luz Editorial. “Viva Fortaleza” teve o forte e decisivo apoio da Oi Futuro, Newland, Guanabara, Sobral & Palácio e o patrocínio da Oi, Coelce e Banco do Nordeste. Consta como realização do Ministério da Cultura, sem menção à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, tampouco da similar da Prefeitura de Fortaleza.
O exemplar que li me foi dado, a pedido, pelo engenheiro civil Luciano Cavalcante Filho, um dos responsáveis por incorporar edifícios sitiados no antigo bairro do Outeiro, hoje Aldeota, bem como na orla marítima. Fortaleza, em agosto de 1950, me via de calças (curtas) e paletó de casimira azul marinho com camisa branca, em trajo da Primeira Comunhão, na Rua Floriano Peixoto, entrando no Foto Moderno. Esse estúdio ficava do lado do sol, como se diz por aqui, no trecho entre as ruas Pedro Pereira e a antiga Trincheiras, depois Liberato Barroso. O calor do pós chuvas não era sentido por mim, garboso infante que, de vela enfeitada e laço de fita no braço direito, deixava-me fotografar.
Dali, com a minha mãe, fomos andando a pé para comer pastéis com caldo de cana na Leão do Sul, mercearia sortida, que ficava no lado sul da Praça do Ferreira, defronte ao Posto Mazine, no começo do antigo Beco dos Pocinhos, depois Rua Pedro Borges. Quase três da tarde. Saciados, ouvimos o repicar das triplas badaladas do antigo relógio da Praça do Ferreira. A praça de então era sombreada com fícus benjamins e dividida em alamedas paralelas que albergavam carros particulares e os de praça, precursores dos futuros táxis. No seu lado norte, entre a Rua Guilherme Rocha e a Travessa Pará, fulgia o novo Abrigo Central, construído, mediante licitação, na administração do Prefeito Acrísio Moreira da Rocha, pelo jovem empreendedor Edson Queiroz. Atravessamos a praça em diagonal e entramos na loja Flama, afamado magazine, vizinha ao edifício São Luiz que se erguia morosamente. Pulemos para o ano 1959. Meu pai havia comprado uma casa de pescadores (lado do mar) para passarmos as férias na praia. Era na altura da atual Nunes Valente. Mero calcamento tosco. Logo após veio o começo da construção, a casa foi ao chão, a via ficou pronta em 1963 e em 1964 recebeu o nome de John Kennedy, em homenagem ao presidente americano assassinado em 23 de novembro do ano anterior. Protestos de muitos a fizeram passar a ser a Av. Beira Mar. Isso já é outra história.
A publicação começa com uma profunda análise de Paulo Linhares sobre “A Fortaleza de Alencar” e agrega textos de qualidade de Ângela Gutiérrez, A. Carlos Coelho, Cláudia Albuquerque, Clélia Lustosa, Demitri Túlio, Fausto Nilo, Francisco Neto Brandão, Gylmar Chaves, Isabel Gurgel. Kadma Marques, Lira Neto, Natércia Pontes, Oswald Barroso, Peregrina Campelo, Régis Lopes e Romeu Duarte. As fotografias são de Alex Costa, Alex Uchoa, Bia Sabóia, Drawlio Joca, Fábio Lima, Gentil Barreira, JoOão Luís, João Palmério, Leo Kaswiner, Lia de Paula, Maurício Albano. Nelson Bezerra, Silas de Paula e Thiago Gaspar. Além de textos e fotografias atuais, esculturas de Sérvulo Esmeraldo e Zenon Barreto, contém ainda acervos fotográficos e objetos de pessoas amantes da cidade.
Esta sofrível e corrida Ficha Técnica tem apenas o objetivo de despertar a curiosidade dos que aqui viveram entre 1950-2010 ou a ela foram chegando, vindos do interior e de outros estados. Escolhi apenas a Praça do Ferreira como chamariz, pulmão e alma de Fortaleza. E um mero registro da construção da Av. Beira-Mar. O resto da cidade poderá ser descoberto, por cada leitor, na tessitura dos textos, nas breves legendas de Ângela B. Leal e Roberta Felix que adornam a profusão de admiráveis fotos, a tradução para o inglês e os agradecimentos que encerram as suas 240 páginas. Parabéns a todos os que participaram desse trabalho singular feito em 2011 e, desde já, histórico. Viva Fortaleza.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/03/2012

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DELMIRO E EDSON – Diário do Nordeste

Em 1966, o gaúcho Viana Moog, que havia morado nos Estados Unidos, escreve o livro/ensaio “Bandeirantes e Pioneiros”, comparando a colonização e o desenvolvimento americano geométrico, pela ética calvinista, ao crescimento aritmético brasileiro, decorrente da herança católica e portuguesa.
Agora, Jacques Marcovitch, ex-reitor da USP, agrega à historiografia brasileira, em três livros, seminários e exposição itinerante, retalhos significantes da vida empresarial começando com o menino pobre que virou o Barão de Mauá. Marcovitch parte do século XIX e perpassa o XX e, ao cabo, escolhe 24 empreendedores/pioneiros.
Nesse panteão estão dois cearenses: Delmiro Gouveia e Edson Queiroz. Delmiro nasceu no Ipu. Foi menino para o Recife e lá construiu o primeiro centro comercial no Derby. Ameaçado, vai para os confins das Alagoas extremando com a Bahia, onde explodia gloriosa a cachoeira de Paulo Afonso. Engenhoso e brilhante, Delmiro teve o pioneirismo de criar a primeira hidrelétrica do Brasil para movimentar a sua indústria de linhas. Morreu assassinado aos 54 anos.
Edson Queiroz veio criança de Cascavel, ajudou o pai comerciante e, tal como Delmiro, criou o primeiro centro comercial de Fortaleza, o Abrigo Central. Em seguida, explorou a venda de gás butano em quase todo o país, fundou indústrias, montou um sistema de comunicação e coroou sua vida implantando uma universidade, referência no Nordeste. Edson empregava milhares de pessoas quando faleceu aos 57 anos. Recomendo a todos em busca de um destino essa educativa exposição no Espaço Cultural da Unifor. Vale a pena. É grátis. Vá.

João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/02/2012.

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A LEITURA, O LIVRO E A INTERNET – Jornal O Estado

O caderno “Ilustríssima” da Folha, de 05 de fevereiro de 2012, contém o ensaio/crítica “O Erro de Machado”, do renomado Paulo Roberto Pires, crítico literário, professor da UFRJ, debatedor e autor de antologias, acerca das previsões do jovem – e futuro grande escritor – Machado de Assis sobre o fim do livro. Acreditava Machado, em seu “O jornal e o Livro”, de 1859, escrito quando tinha apenas 19 anos, que o livro iria acabar. Empolgado estava com a sua profissão de revisor – conseguida com a ajuda de Manuel Antônio de Almeida – no jornal Correio Mercantil. Nesse mesmo jornal, desde 1854, o advogado, escritor e político consagrado José de Alencar tinha a coluna “Ao Correr da Pena”, enquanto Manuel Antônio de Almeida, médico e jornalista, era o responsável pelo suplemento “A Pacotilha”, onde escreveu, sob a forma de folhetim e, anonimamente, o livro “Memórias de um Sargento de Milícias”.
Em uma parte do seu polêmico primeiro livro, Machado diz: “O jornal apareceu, trazendo em si o gérmen de uma revolução. Essa revolução não é só literária, é também social, é econômica, porque é um movimento da humanidade abalando todas as suas eminências, a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo econômico e do mundo social”. Machado imaginava que o livro iria perder a razão de existir: “O jornal, abalando o globo, fazendo uma revolução na ordem social, tem ainda a vantagem de dar uma posição ao homem de letras: Trabalha! Vive pela ideia e cumpre as leis da criação”.
Diz Paulo Roberto Pires: “Eivado de precipitação, o jovem Machado agarrava-se a certezas – moeda rara em sua obra futura. Naquele momento, porém, cumpria o que em alguma medida se espera de um intelectual em formação: curiosidade, desejo de intervenção e o direito, inalienável, ao equívoco.”
Agora, neste emergente século XXI, se prega, novamente, o fim do livro. Eu, por exemplo, ganhei de presente um I-Pad, esse instrumento portátil e gracioso inventado pela Microsoft na última contribuição de Steve Jobs à cibernética ou informática. Matada a empolgação e a curiosidade, o meu i-Pad ou tablet(tábua) se queda restrito, pois não vejo com prazer uma das suas funções, a de nos fazer ler livros não impressos. Quanta pretensão, essa que vem desde o fim do século passado.
Para quem gosta de ler, os que têm na cabeceira de sua cama uma luz de vigia com foco, uma rede ou uma velha cadeira, nada se compara ao prazer de comprar o livro, ler, virar a página e marcar trechos, com os quais concorda, discorda ou desconfia. O leitor verdadeiro pode até usar o I-Pad e que tais como instrumentos particulares de consulta dos novos dicionário/enciclopédia/conversação do mundo atual, o “Google” e o “Facebook” e outros, mas não há porque decretar o fim do livro como erroneamente pensou Machado de Assis, tal como se imaginava e dizia do fim do jornal quando da criação do rádio e do rádio quando da profusão da televisão. Depois, surgem o computador e, recentemente, essas múltiplas mídias que a geração Y, aquela nascida após 1979, teve à sua disposição desde sempre.
Os jornais sofreram, mas reinventaram-se, fragmentaram-se em cadernos temáticos para os seus vários públicos, postaram suas edições na Internet e criaram links com todas as mídias. Os livros impressos, de capa dura ou meras brochuras, feitos por grandes editoras ou editados por seus próprios autores, convivem bem com todos esses equipamentos, “gadgets”, invenções e congêneres. É bom não esquecer a pergunta – ainda atual – feita por Shakespeare, no século XVI, através do personagem Polônio, em Hamlet, “O que estais lendo, meu senhor”? Você é o que lê, não se engane.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/02/2012.

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BENFOLIA – Diário do Nordeste

Há quatro anos fazemos um projeto: saber o que existe de música carnavalesca na cidade. Decidiu-se, não se sabe quem, nem a razão, que Fortaleza não se presta a carnaval. Assim, contra a corrente, instituímos o Benfolia em que compositores e cantores se submetem a uma seleção prévia, dividida em três etapas. Os 12 melhores vão para a final. Tivemos o cuidado de formar um jurado polivalente: musicistas, carnavalescos, jornalistas, homens públicos, arquiteto, médico, intelectuais, rainha do carnaval, produtores etc.
Nesta edição a festa tinha 25 jurados, o que diz da lisura da decisão. As 12 músicas selecionadas são novamente cantadas, há torcidas organizadas e a imprensa é convidada, só não percebeu talvez a sua importância que, além de premiar os três primeiros lugares em dinheiro, gravamos CD com as músicas selecionadas e o distribuímos gratuitamente com participantes, emissoras, comunicadores e formadores de opinião. A cada ano, homenageamos pessoas que, no passado ou presente, trabalham pelo carnaval. Não o Axé Music, mas sambas, choros, modinhas e que tais.
Os homenageados de 2012 foram: 1. o radialista Augusto Borges, por sua história profissional dedicada ao rádio e à televisão e na defesa da música local; 2. o compositor, carnavalesco e apresentador Dílson Pinheiro, divulgador de todas as manifestações mominas, inclusive o sincopado Maracatu; e 3. o figurinista Isidoro Santos, estilista e desfilante de fantasias grandiosas no Ceará e no Brasil. Íamos esquecendo: tivemos um “revival” de concurso de fantasias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/02/2012