Sem categoria

TRÊS FOTOGRÁFOS NORUEGUESES E UM PEDIDO DE DESCULPAS – Jornal O Estado

Acabamos de realizar uma excelente exposição fotográfica na Galeria BenficArte. Por um desses imprevistos aborrecidos, não pude estar presente ao coquetel na noite da sua abertura, 04 de julho passado. Peço desculpas públicas ao parente e colega, Marcos Soares de Castro, Cônsul da Noruega, e ao seu Cônsul Geral no Brasil, Jens Olsen. Eles, taças de vinho a mão, esperaram para brindar comigo. Unnskylde, desculpem.
Na manhã do dia seguinte, entretanto, passei muito tempo a admirar cada um dos quadros dos “Três Fotógrafos Noruegueses” que fogem ao lugar comum da fotografia. A mostra, gratuita, encerrada no dia 28, foi visitada por centenas de pessoas que assinaram o livro de presenças. Como costumo fazer, deveria escrever algo específico sobre a qualidade e o jeito peculiar de Pern Berntsen, VerenaWinkelmann e Rune Johansen mostrarem aquele país. Como “mea culpa” vou me privar de. O texto a seguir não é meu. É de autoria do crítico de arte e jornalista Lars Elton:
“A fotografia sempre é uma versão editada da realidade, e esse é um fator importante a levar em consideração diante destas imagens. Todas foram feitas na Noruega, um país conhecido por seus belos fiordes, pelo sol da meia-noite, pela aurora boreal, por ursos polares e renas. Ao mudarmos o foco ou viajarmos para outros lugares que não sejam os destinos turísticos tradicionais, talvez possamos encontrar o que vemos nas fotografias do trio Berntsen, Johansen e Winkelmann. Pois aqui há paisagens sem qualidades espetaculares, pessoas que talvez sejam um pouco esquisitas, paisagens urbanas sem elementos dramáticos e interiores criados ao longo do tempo, sem qualquer preocupação com os modelos estéticos das revistas de decoração.
Mas essas fotos têm algo em comum com a propaganda turística: na medida em que há pessoas nas imagens, elas mostram que os indivíduos que moram na Noruega têm bastante espaço, seus vizinhos moram longe, e a natureza é algo que, em grande parte, se pode apreciar sozinho, sem ser perturbado por outras pessoas. Essa experiência está tão profundamente arraigada na nossa alma que dificilmente podemos pensar em nós mesmos como noruegueses sem a natureza como referência.
No projeto “Placed”, de VerenaWinkelmann,realizado entre 2004 e 2008, em diversas pequenas e grandes cidades do sudeste da Noruega, as fachadas das casas compõem parte considerável do material fotográfico. De acordo com ela, as cidades norueguesas são compostas por construções independentes e solitárias num mundo sem fim – assim como as pessoas.A série inclui diversos retratos, mas as imagens não procuram caracterizar as pessoas retratadas. A fotógrafa não quer invadir a esfera privada, ela capta os rostos “na encruzilhada entre a sensibilidade e a autoconsciência”.
As fotografias de RuneJohansen também mostram casas isoladas. Como na Noruega,há espaço sobrando, é natural construir sua casa um pouco afastada da do vizinho. Ele retrata pessoas que moram em sítios isolados, mostrando os ambientes que essas pessoas construíram, as casas que ergueram e a paisagem que elas moldaram. Johansen nos proporciona um olhar privilegiado sobre o vizinho.
As fotografias das paisagens de Eggedalde Per Berntsen não contêm nenhum elemento dramático. São os detalhes e as amplas vistas que caracterizam a narrativa do fotógrafo. Mas é desses retratos cotidianos de uma paisagem insignificante que surge uma nova experiência. As imagens geram o reconhecimento das qualidades do ordinário, do potencial estético que reside naquilo que normalmente deixamos passar despercebido.
Um conhecido teórico da arquitetura, o norueguês Christian Norberg-Schulz (1926-2000), escreveu sobre o conceito genius loci, que pode ser traduzido simplesmente como ‘a alma do lugar’. Uma interpretação dessa ideia é que a paisagem onde o indivíduo cresce forma seu caráter. Nesse contexto, os três artistas apontam para uma compreensão da Noruega e dos noruegueses” . “Mea Culpa” em norueguês é Min Feil.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/08/2013

Sem categoria

A MULTINACIONAL – Diário do Nordeste

Ele, solteiro, 78 anos, um só pulmão, fim da carreira. De repente, é escolhido chefe supremo da multinacional fundada há dois milênios. Ela, já casou e batizou em todo o mundo, fez cruzadas, mandava em reis, príncipes e vassalos. Tem dogmas e uma estrutura pesada. O prestígio diminuiu nos últimos tempos. Vive da fé, da esperança e da caridade. Seu “core business” é a transcendência. Anuncia, sem provas, um espaço celeste, após a morte.
Ele agora reage a burocracia complexa acusada de corrupção, pedofilia, pompa e apegada ao manejo continuado do sistema. A sede é uma cidade-estado rica, vigiada por guarda anacrônica, vizinha a uma capital dissoluta, em política e prostituição.
Esse chefe está agora no Brasil e, para a sua vinda, foram gastos 350 milhões de reais:
1. Um grande cenário, com palco central – talvez o maior do mundo em aparato tecnológico “hi-tech”, som e imagem.
2. Hospedarias, igrejas, palácios e casas foram adaptados;
3. Fizeram terraplenagens, pavimentações, iluminações e aparatos em seu trajeto;
4. Milhares de seguranças estão tontos para coibir problemas;
5. Jovens do mundo apenas querem vê-lo, tocá-lo e ouvi-lo.
Ele já se expôs, pois acredita na bondade humana e espera contribuir para a juventude ser direcionada ao bem comum. Fui vê-lo em março. Manhã de domingo, ramos para todos, 200 mil pessoas. Não houve transtorno. Tal como aqui, transgrediu, desceu ao chão e afagou velhos, doentes e crianças. Telões o reproduziam. Neste domingo, fala de desapego, fé e perspectiva e já vai indo. Deixa marcas e exemplos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/07/2013.

Sem categoria

MAIS MEIOS, MENOS MÉDICOS – Jornal O Estado

Recebi de uma jovem médica, filha de amigos, um desabafo. Transcrevo-o por ver em seu conteúdo o olhar e sentimento dos jovens formados em medicina. De repente, foram considerados “culpados” pelo caos da Saúde Pública. Ela usa uma expressão: “mais meios e não mais médicos”. Leiam:
“Só quem vivencia a realidade do sistema é quem sabe. O povo precisa é de atenção básica, de “mais meios” e não “mais médicos”. Também tive minha experiência na atenção básica. Há dois anos trabalhava numa cidade satélite de Fortaleza, a 31 km da minha casa. Sempre recebi o salário em dia e tinha transporte do centro da cidade até o posto. Não tinha 13o., nem carteira assinada, mas tirava uma semana de folga no fim do ano e um mês de férias não remuneradas. A falta de medicações básicas não era um problema constante e havia suporte do cardiologista e obstetra por meio de contratransferência.
Foi lá que recebi meu primeiro presente de paciente (um saco de mangas), conheci muita gente humilde e decente, fiz meu primeiro atestado de óbito e a primeira denúncia de violência sexual infantil que foi investigada. Aprendi muito com aquela população, desde o manejo de doenças crônicas até a convivência com pessoas em diversos tipos de sofrimento.
Entretanto, a demanda era enorme: havia duas vezes mais famílias que o preconizado pelo Ministério da Saúde para abrangência de uma unidade do PSF. O resultado era muita gente desassistida e fila a partir das 3 da manhã para conseguir “ficha” para um serviço que deveria ser de demanda livre. Foi lá também que sofri a primeira (e única até hoje) agressão física de um paciente. Havia um projeto há mais de cinco anos de divisão da área e construção de mais um posto, mas sem resposta da prefeitura. As agressões verbais recebidas eram diárias, a sensação de impotência frequente, e as reclamações na Secretaria de Saúde em vão.
Após seis meses, solicitei transferência para uma unidade com número de famílias adequado. Lá tinha tempo de fazer registros em prontuário, orientar o uso correto de medicações e conhecer um pouco da história de vida daquelas pessoas. Fiz pré natal e acompanhei os bebês após o parto, compensei todos os hipertensos e diabéticos que foi possível, realizava visitas domiciliares aos acamados com regularidade.
Mas o meu trabalho tinha um limite… Muitos pacientes retornavam com as mesmas queixas porque não conseguiam consultas com especialistas, acompanhamento com outros profissionais (fisioterapeuta, psicólogo…) ou realização de exames como TSH e urino cultura. Outros não melhoravam por falta de suporte social ou impossibilidade de mudança nos hábitos de vida devido à pobreza. Chegou um ponto em que eu senti que já tinha feito o possível por aquela população, e a sensação de impotência foi batendo de novo…
Comecei a pensar se valeria a pena continuar lutando em um sistema que me dava suporte, mas ainda insuficiente. Escolhi outro rumo para a minha vida e hoje vivencio problemas semelhantes em um hospital terciário do SUS, em Salvador.
Não exerci Medicina no interior, mas quando falam da vinda de médicos estrangeiros eu me pergunto se eles vão ter 10% da estrutura que eu tinha próximo de Fortaleza. Como irão fazer pré-natal sem exames de rotina? Como farão o acompanhamento de portadores de doenças crônicas sem remédios? Como tratarão as diarréias sem saneamento básico? Como falarão sobre tratamento não farmacológico sem a ajuda de uma equipe multidisciplinar? Lívia.”
Agora, falo eu: O depoimento da médica Lívia não difere muito dos já circulantes na Internet. A diferença é que conheço os seus pais, Vinícius e Zarely. Sei dos seus esforços para formar dois filhos em medicina. Do zelo, da compra do primeiro carrinho 1.000 e da saudade que dá por Lívia morar sozinha, trabalhando em Salvador. Assim é a vida dos jovens médicos. Eles pedem mais meios para o seu trabalho. Não reclamam da vocação, pedem ajuda para ter instrumental e os equipamentos básicos para diagnósticos.
Enquanto isso, as grandes cidades são invadidas por ambulâncias vindas do interior, aos solavancos, nas estradas esburacadas. As ambulâncias do SUS duram apenas três anos. Faltam manutenção e cuidados. Há milhares sucateadas. Os que as dirigem e os paramédicos são terceirizados, quase sempre. Por serem terceirizados não têm compromisso com o que usam e fazem. E essas empresas que terceirizam são, quase sempre, de políticos ou de seus amigos.
Entretanto, não culpemos apenas os governos, os políticos e os profissionais. A imprensa não deve ser silente e o voto não pode ser descompromissado. Esse cadinho origina a maior doença endógena do Brasil: a corrupção. Ela é cozinhada por ditos grandes empresários inescrupulosos mancomunados com todos os que estão no poder, sejam eles quem for. Só há corruptos porque sofrem assédios de corruptores acenando-lhe com o que seduz o ser humano, não apenas o dinheiro. Esses corruptores precisam ser identificados e punidos, pois alguns se aninham em entidades endinheiradas, outros têm amigos poderosos, uns tantos possuem mandatos e todos são sempre “educados, articulados e dadivosos”.
Não precisam poupar, obtém financiamentos, pedem concordatas, renegociam dívidas, fazem consórcios, obtém concessões, articulam e promiscuem gente incauta. As cornucópias públicas jorram dinheiro para as suas empresas, pois nunca recebem precatórios. São especializadas em tudo, obras e serviços cujas placas e valores raramente contêm os seus reais nomes, os preços das contratações e dos aditivos. Trabalham em bloco e são as mesmas, as de sempre. Brasil afora.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/07/2013.

Sem categoria

ESCRITORES E MANIAS – Diário do Nordeste

Esta semana resolvi diminuir a quantidade de recortes de jornais que amontoam pastas em casa. Sempre que tento “me organizar”, dá uma pena imensa. Agora, por exemplo, estou em dúvida se devo jogar fora um trabalho de Adriano Schwartz, teórico literário, escrito em 21.12. 2004, para a FSP, no extinto “Sinapse”. Ele resolveu fazer um teste com os leitores para verificar se sabiam de algumas manias ou curiosidades de escritores.
Vou citar algumas, com alguns adendos meus:
1. Sobre Clarice Lispector: ela participou de um congresso de bruxaria na Colômbia, em 1975, quando falou sobre “Literatura e Magia”.
2. Cristovão Tezza, da nova geração de autores, escreve os seus romances à mão. Deu a José Mindlin, bibliófilo e leitor, os originais de seu romance “A Suavidade do Vento”. 3. Cecília Meireles esperou em vão, em dezembro de 1934, no café “A Brasileira”, em Lisboa, por Fernando Pessoa. Hoje, há uma estátua dele por lá. Depois, Pessoa mandou um livro seu, com desculpas: “Cecília Meireles, alta poeta…”.
4. Jorge Luís Borges, poeta e contista argentino, gostava de citar o seu nome e o do amigo Bioy Casares em meio a seus contos. Ele contava, rindo, que Casares era apenas uma invenção dele.
5. José Saramago, a quem conheci em Lisboa, sempre dava um jeito de incluir cães em seus romances. “Jangada de Pedra” é exemplo.
6. Paul Auster, escritor americano contemporâneo, coloca e discute cadernos de anotações em meio a seus romances. Em Noite do Oráculo ele cita: “quando segurei o caderno nas mãos pela primeira vez, senti algo próximo do prazer físico…”. Afinal, descarto ou não?.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/07/2013

Sem categoria

CLAUDIO BENEVIDES PAMPLONA, O ASTRÔNOMO – Jornal O Estado

As famílias Benevides e Pamplona integram a coletividade cearense há séculos. Têm muitos ramos. Entrelaçados com outros da terra, já ofereceram contribuições definitivas para as suas inserções no livro da história local. Políticos, profissionais liberais, cantores, administradores públicos, professores universitários, intelectuais e artistas plásticos. Não é preciso nominá-los, basta pesquisar pouco para encontrá-los nas ações que deram forma ao Estado do Ceará, tal como hoje o é.
Filho de Carlos Pamplona e Miriam Benevides, Cláudio Benevides Pamplona nasceu em Fortaleza, cidade brejeira da década de quarenta, cheia de fícus-benjamim, centrada na Praça do Ferreira, em meio a “blackouts” nos areais brancos onde as famílias de então faziam florescer aglomerados ou bairros, em quadriláteros, iluminação bruxuleante, sem saneamento básico, consumindo água da “Pirocaia”, transportada em carroças puxadas por jumentos.
Fortaleza era ocupada, desde o Pici (“Post of Command”) até os areais da Praia da Iracema, por forças americanas do norte que faziam dela uma base militar de jovens pilotos – com o suprimento de uma intendência cheia das cobiçadas sodas Coca-Cola e dos cigarros “Camel” e ”Lucky Strike”. Vieram para “flertar”com as moçoilas locais, atravessar o oceano Atlântico e alcançar o teatro de operações da Segunda Guerra na Europa, um dos seus fulcros.
Cláudio começou a estudar já na época da redemocratização brasileira, após a Guerra e a queda da ditadura de Vargas, e, descobriu-se talentoso em desenho (lado Pamplona) e canto orfeônico (lado Benevides). Mas formou-se em direito, já nos anos ditos de chumbo, quando o país estava imerso no regime militar. Bacharel em Direito, barítono, como muitos dos seus primos Benevides, cabeça apenas polvilhada de ciências sociais, deu uma guinada em seu destino e optou por dissentir do que se esperava dele.
Não seria advogado. Viu-se encantado com o mundo silencioso dos astros. Fez-se, apesar disso, professor da Universidade Estadual do Ceará, pois se casara e tinha obrigações a cumprir com o filho Carlos Neto que colocara no mundo. Mas seu lado perquiridor, inquieto e sagaz o fazia olhar mais para o firmamento que para o chão onde pisava. Não pesquisava divindades ou respostas para as aflições humanas, existenciais ou climáticas de nossa região. Olhava, com a ajuda de lentes telescópicas, bem mais alto e procurava, como se fora quase um Carl Sagan, aquilo que foge ao olho comum.
Foi, pouco a pouco, embrenhando-se nas nuvens sem fim da Astronomia, ciência natural que tenta desvendar, constatar ou renegar corpos celestes. Munido de telescópios, livros, desenhos e de uma busca desenfreada para o conhecimento da Astrofísica, coligindo nebulosas, aglomerados de estrelas, planetas e galáxias fez-se cientista.
Criou o seu próprio observatório a que deu o nome de Herschel-Einstein. Ajudou a fundar a Sociedade Cearense de Astronomia e até a NASA (National Air Space Administration) dele coletou informações sobre o universo azul que nos envolve a todos. Nesse seu mundo, fez a imersão com o escafandro da curiosidade e a luneta do sereno-intrigado, a procurar respostas certeiras para dar sentido à sua vida peculiar e inaudita.
Não queria ser diletante, mas observador integrado a uma comunidade científico-especuladora internacional que pode até parecer, aos olhos dos leigos, uma grei de esquisitos, pois não liga para as picuinhas dos homens comuns, os que brigam por pão, pedaços de terra, reconhecimento ou riqueza sem ter a mínima noção da grandeza do universo em expansão e movimento. Somos todos tão mínimos, micros, nanos e o Cláudio sabia disso e ele, mesmo sem o querer, se fez grande pela contribuição ao seu mundo que deu até se finar, no primeiro dia deste julho, aos 70 anos.
Releio Sir Issac Newton, cientista inglês, do século 18, citado por Brewster, in “Memoirs of Newton”, para entender e descrever o que se passa na cabeça de um cientista: “Não sei como pareço aos olhos do mundo, mas eu mesmo me vejo como um pobre menino que brincava na praia e se divertia em encontrar uma pedrinha mais lisa vez por outra, ou uma concha mais bonita que de costume, enquanto o grande oceano da verdade se estendia totalmente inexplorado diante de mim”.
Cláudio, a seu tempo, buscava o grande oceano, que é o firmamento, e as pedrinhas, que são os seus corpos celestes. Suas cinzas evolaram e se misturaram ao cosmos. Sua ascensão ao insondável foi cercada por manchas solares, meteoros, cometas e estrelas. Esses corpos celestes foram os seus querubins.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/07/2013.

Sem categoria

FLIP E FLUPP – Diário do Nordeste

O Brasil está rediscutindo tudo. Não me refiro apenas às manifestações em curso, mas à cultura que hoje se faz no País. Gilberto Gil, em plena Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip-2013, falou sobre a conquista da Copa das Confederações: “O lugar para onde os jogadores correram para abraçar a torcida não tinha matiz racial brasileira, era esbranquiçada”.
Elementar, meu caro Gil. Pense nos preços dos ingressos. Ora, dizer isso em Paraty, cidade histórica fluminense, entre o Rio e São Paulo, em encontro rico, na primeira semana deste julho, sob o clima ameno do inverno, financiado por banco e em evidente empobrecimento…
Parte dos convidados não compareceu e faltou até tema para discussão. Improvisaram com a indignação dos jovens. Será que Gil foi para lá de graça? Não sei. Já fui à Flip e talvez não vote. Nada de especial, tendas, os “bichos grilos” de sempre, cariocas e paulistas “descolados” e artistas de moletons, todos rindo nas fotos, conversa fiada, editoras faturando e até um pouco de cultura, em suas várias formas.
Vai daí que a Flip provocou, no ano passado, a criação de uma sucursal nas favelas (lembram da Daslu e da Daspu?) do Rio. Pois bem, neste 2013, a Festa Literária das UPP- a FLUPP das favelas pacificadas pela polícia aconteceu nesta semana, na Penha, zona norte, quando autores estrangeiros vindos da Flip debateram, de graça, com o povo e até com intelectuais de vários matizes. Não soube de Gil por lá. Teria a oportunidade de trocar a verba pelo verbo, em área violenta e pobre, ainda em batalha e sem polícia pacificadora.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/07/2013

Sem categoria

AMIGO FALANTE – Jornal O Estado

“Meu maior pecado como escritor é jamais enganar, jamais querer agradar. Essa é minha forma de prestar serviço a quem me lê semanalmente”. L.Felipe Pondé
Sempre gostei de conversar com gente mais velha. É costume. Fui sempre amigo dos amigos do meu pai. Ouvia-os e, vez por outra, dava um palpite, uma opinião. Um deles, o saudoso Dorian Sampaio, colocou-me no mundo das discussões de assuntos sérios e dos nem tanto. Agora, recebo e-mails de amigo sobre o que está acontecendo no Brasil. O contorno dele: engenheiro, professor universitário, festejado, lido e viajado. Hoje, aposentado e apoquentado.
Ele escreve com desenvoltura e tem até perfil no Facebook. Acompanhou todas as manobras do MPL- Movimento Passe Livre e até postou algumas micromensagens. Agora, me vem com uma tese que diz acalentar a algum tempo e pede que eu a torne pública. Refutei: escreva para os jornais. Ele respondeu: cortam tudo nas cartas dos leitores e não dão espaço para desconhecidos. E insiste em dizer o que pensa. Vamos lá. Vou tentar sintetizar: ele não faz fé em economistas, mesmo os que, como ele, têm pós-graduação.
E, incisivo, pergunta: “qual foi o economista do mundo que previu a crise de 2008? Todos ficaram procurando desculpas e foram pegos de calças curtas. Depois, começaram a explicar o que não previram”. Detona Delfim Netto, André Lara Rezende, Paul Singer, Aloisio Mercadante, todos os ex-presidentes do Banco Central – que viraram empresários financeiros – e nem livra, sequer, os prêmios nobéis de economia.
Todos, segundo ele, queriam ser engenheiros, não passaram no vestibular e acabaram economistas. Peço para se acalmar. Ele escreve: estou revoltado com tudo. Arenga com o uso dos aviões da FAB e diz um nome feio. Mudo de assunto. Dou um tempo. Novo dia: leio e-mail: “E os cientistas sociais?” Até o Fernando Henrique entrou na conversa.
Afirma que “FHC anda namorando uma moça de menos de 40 e está se lixando para nós. Os cientistas políticos foram todos ludibriados com o engodo que se armou no Brasil já faz anos”. Pergunto se conhece ou lê Renato Janine Ribeiro, professor de ética e filosofia. Diz que sim, mas não fiquei bem certo. Mas, segundo ele, “todos os analistas políticos e sociais erraram feio ao não prever que o Brasil era uma bolha”. E manda brasa: “como o BNDES, banco do governo, pode ser sócio e emprestar dez bilhões ao Eike Batista? Como esse banco aposta muito no Friboi? Cada um que cuide de sua empresa, o governo teria que formar gente como eu, prepará-las para a vida. É hora de acabar com o embuste que é o SUS e o sistema hospitalar público”.
Dei um trégua, mas joguei uma isca no e-mail de retorno, dias depois: como é que você entrou no Facebook, pois os tais manifestantes são jovens e têm idade de serem seus netos? . Agora, ele vem com a tese de que Lula, ao voltar da África, dirá que tudo isso é culpa da elite burguesa que não tem o que fazer e está requentando o mensalão, desestabilizando a Dilma e pegando corda do “Estadão” e da Folha de SP.
Paro por aqui. Vocês concluam. Mandei uma cópia para ele.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/07/2013.

Sem categoria

BILHETES TROCADOS – Diário do Nordeste

Hoje é uma troca de bilhetes. O meu foi a lápis no nascimento da “Ferrugem”, filha sardenta. Hoje, mãe de três lindas filhas. Ela emoldura o final.
02.07.1973 – Esta carta é a sua apresentação ao mundo que a recebeu neste julho das férias, do sol, dos ventos do Ceará de 1973. Carta patética de um pai para uma filha recém nascida. Sua mãe deu-lhe a luz e eu, o mundo que é todo seu. Seu para poder explorá-lo, amá-lo e gozá-lo. Seu sem reservas, sem peias, sem medo. Não lhe prometo tradições. Sou como sou. Homem com defeitos. Homem que nasceu para viver com liberdade. Que nasceu para lutar e conseguir. Para se alegrar com suas vitórias e esconder os desencantos.
Não lhe prometo riquezas; prometo muito trabalho. Não lhe prometo riquezas. Prometo muito trabalho. Não lhe prometo glórias; prometo muita luta. Não lhe prometo felicidades; prometo amor, por toda a vida. Quem me dera pudesse lhe dar tudo. Tudo não será possível. Vou ter que lhe negar. Vou ter que ser pai. Pai como sinônimo de amigo. Liberal, atualizado, risonho.
Sisudo, se for preciso. Prometo ir vendo o mundo mudar. Na mudança, ir guiando-a. Guiando de leve, sem força, com ternura. Já fiz as minhas promessas. Lutarei para cumpri-las. Não lhe peço nada em troca. Você já é muito para mim.
02.07.2013 – Pai, obrigada pelo mundo! Tenho explorado, amado e gozado o melhor que posso. O mundo mudou muito, mas acredito que o princípio para viver e ser feliz continua o mesmo: amar e ser amado. Hoje me sinto amada e sinto um amor enorme por você. Ferrugem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/07/2013

Sem categoria

SOCIEDADE CONSULAR – PRESTAÇÀO DE CONTAS – Jornal O Estado

Administrar a Sociedade Consular do Ceará- SCC, no biênio 2011/2013, foi uma honra, uma oportunidade, uma responsabilidade e restou provado que muito deveria ser percorrido e feito. Assim, com a ajuda dos colegas, levei a bom termo a missão que me foi confiada. Terça-feira, 02 de julho de 2013, aconteceu a posse da nova diretoria, encabeçada por Ednilton Soárez, cônsul da Finlândia, executivo exponencial, administrador público que saneou as finanças do Ceará e empresário de sucesso nos ramos educacional e de entretenimento. A essa comemoração compareceram autoridades e uma parcela da significativa coletividade de Fortaleza.
Nesse período de dois anos, saneamos a situação financeira do quadro social e hoje estamos com 300% a mais em caixa.
Todas as despesas foram assumidas, pessoalmente, pela presidência. Destacamos como os pontos mais relevantes da gestão:
1. A SCC teve a honra de ser homenageada pela Câmara Municipal de Fortaleza, por ocasião do Dia do Cônsul, em agosto de 2012. Nessa mesma ocasião, reparando omissão e fazendo justiça, outorgamos a “Medalha Bertrand Boris” ao ex-presidente e sempre companheiro, Luciano Montenegro.
2. Visitamos, em comitiva, o Complexo Portuário do Pecém.Ficamos informados de sua implantação e já cientes de sua expansão.
3. A convite do Secretário Ferrúcio Feitosa, que gentilmente nos recebeu, tivemos, como visitantes, a antevisão do ora já inaugurado Estádio (Arena) Castelão.
4. Igualmente, fomos recepcionados no quase concluído, à época, Centro de Eventos do Ceará. Esse equipamento, já em operação efetiva, deu um diferencial de qualificação ao setor de congressos, shows e exposições em Fortaleza.
5. O então comandante da 10ª. Região Militar, general de divisão Gomes de Mattos, nos ofereceu almoço festivo nas dependências do monumento histórico que é antiga Fortaleza da Nossa Senhora da Assunção.
6. Contatamos com a Dra. Mônica Barroso, dirigente da Coordenadoria de Políticas Públicas para a Mulher, para a concretização da ideia de um Censo para um maior amparo às mulheres estrangeiras presidiárias em nosso Estado. Elas, em sua maioria, são abandonadas por seus ex-companheiros, para quem serviam de “mulas” ou portadoras de drogas. O vice cônsul da Itália, Roberto Misici, foi interlocutor para assuntos de direitos humanos.
7. Fizemos, em agosto de 2011, em parceria com o Consulado da República Tcheca e a Galeria Benficarte, exposição, com coquetel, de reproduções fotográficas denominada: “Joze Plecnik – O Arquiteto de Praga”.
8. Realizamos duas festas de congraçamento de Natal, inclusive com a edição de músicas natalinas dos países cujos sócios honorários pertencem à SCC.
9. As nossas reuniões mensais aconteceram, com boa frequência, em datas previamente avisadas por e-mail e/ou telefone. Nelas discutimos as pautas necessárias ao nosso convívio.
10. Acrescente-se que A SCC passou a constar, oficialmente, nas seguintes publicações anuais ou bienais: “Anuário do Ceará”; – “Sociedade Cearense”; e “Personalidades Cearenses”.
11. Fomos recebidos, em audiência especial, pelo Governador do Estado, Cid Gomes, ocasião em que apresentamos sugestões para que os setores de comunicações e de turismo tivessem a acuidade de exercer uma programação visual multilíngue – o que foi cumprido – para os pontos turísticos do Ceará, aproveitando as copas das Confederações, já acontecida, e a do Mundo, a realizar-se em 2014.
12. Sugerimos ao governo do Estado, apresentando um estudo preliminar arquitetônico, para implantar uma espécie de panteão no passeio externo da face da Av. Barão de Studart do Palácio da Abolição com mastros e bandeiras dos países participantes da copa do Mundo. Essas nações sentir-se-ão gratificadas com a gentileza.
13. Igualmente, reinvidicamos ao governador Cid Gomes o preenchimento da vaga de Assessor de Assuntos Internacionais. Fomos atendidos. Ele designou o advogado Dr. Hélio Leitão Neto, mestre em direito, ex-presidente da OAB-Ce e professor universitário.
14. Decorrente da atuação da Assessoria de Assuntos Internacionais recebemos da Secretaria de Segurança a comunicação de que toda e qualquer ocorrência policial com naturais dos países que representamos nos serão imediatamente comunicadas.
15. Do ponto de vista de gestão, atualizamos os Estatutos Sociais, passamos a emitir boletos de cobrança bancária, comunicação via e-mail, criamos um site e distribuímos “bottons” a todos os associados.
Este histórico é um simples registro. Nada mais que isso. Ele enseja o conhecimento público das ações da Sociedade Consular e dos países e cônsules honorários que a integram: Alemanha (Dieter Gerding, Áustria (Reinhilde Lima, Belize (Airton Teixeira), Colômbia (Maurício Durán), Dinamarca e Noruega (Marcos de Castro); França (Fernanda Jensen), Finlândia (Ednilton Soárez), Hungria (Janos Fuzesi e Zsofia Eross), México (João Soares), Noruega, Portugal (Francisco Brandão), República Tcheca, Romênia (Luciano Maia) e Uruguai (JMaria Zanocchi). Agradeço, por fim, a cobertura jornalística desinteressada e espontânea de todos os veículos de comunicação cearenses em difundir os nossos principais eventos consulares, inclusive visitas de embaixadores e em missões culturais e comerciais.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/07/2013.

Sem categoria

SISTEMAS E ESQUEMAS – Diário do Nordeste

A presidente Dilma afirma apoiar a democracia das ruas. Pede um pacto social. O povo exige ações e transparências. As empresas têm CNPJ e as pessoas, CPF. Eles nos desnudam para bancos, governos, empresas, imprensa etc. Há muito a ser revelado nas artes e manhas da administração pública.
Muitos indagam por que um sindicato nos representa, sejamos nós pedreiro, engenheiro, administrador ou gráfico? Os sindicatos, patronais ou de empregados, são dirigidos por grupos que deles se apoderam e não os largam. Arrecadam, sem pena. Vejamos o Sistema “S”, criado pela ditadura Vargas, há 70 anos.
Cada Estado tem ricas federações com o grosso dinheiro das contribuições sociais de lutadores e patrões. Elas encastelam afilhados, realizam viagens para o nada, dão festas, prêmios e até prestam serviços sociais com cursos que, quase nunca, são gratuitos. Olhemos o caso da Federação das Indústrias de SP, a FIESP, cujo grande prédio está iluminado de verde-amarelo, neste junho. Pois bem, o seu presidente usa o prestígio e os recursos da entidade para autopromoção a uma possível candidatura à Prefeitura de SP. Do lado dos trabalhadores, é o mesmo e ainda elegem deputados que apenas lutam pela manutenção de privilégios. E proliferam.
Não esqueça, por fim, que os governos sempre contratam as mesmas empresas para todos os serviços e obras. Elas recebem financiamentos do BNDES e até são associadas de órgãos estatais. O modelo se reproduz em alguns estados e municípios. É hora de abrir essa caixa preta. O povo quer e deve saber.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/06/2013.