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AFINAL, O QUE ESTAMOS VENDO E VIVENDO? – Jornal O Estado

Os cientistas sociais, a imprensa, o governo com os seus órgãos de segurança/informação e a política brasileira foram abalados em seus alicerces. Como não prever o que aconteceu e vai continuar a existir nesta nova onda de protestos que, mesmo sem querer, parece ter sido atiçado em mínima parte, por uma inventiva propaganda de uma marca de veículos?
Essa propaganda objetivava a simples venda de veículos e clamava a todos: vão para a rua. Comprar carros e ir para a via limpa, bonita, asfaltada, sinalizada, segura e desfrutar da liberdade de pagar um carro, com juros, por longos anos. Essa é a quimera. A realidade, outra.
Um cartaz de manifestante fez o contraponto a essa falsa ilusão consumista de todas as classes sociais. Seu texto: “País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde o rico anda de transporte público”. E, um detalhe, nele não se falou sequer nas motocicletas, vendidas em longo prazo. Tão longo que boa parte dos seus guiadores é acidentada, antes mesmo de concluir os pagamentos, nos trânsitos caóticos de nossas cidades.
A empáfia das elites, da política brasileira e das propagandas que desejam vender tudo a qualquer preço, contavam – espalhavam – que o Brasil vivia o melhor dos mundos. Nada nos atingiria. As crises do mundo, não nos diziam respeito. Todos os brasileiros teriam acesso a tudo. De tanto comparar a propaganda massificada com a realidade, o povo cansou.
Depois da casa, móveis financiados – para minorar a crise da indústria moveleira. Tudo bem. Mas como e com que pagar as prestações da casa, dos móveis, da moto/carro, a alimentação e a conta da luz. A inadimplência aumentou.
Não há essa elevação tão explícita da pobreza a uma nova classe média. Há uma falsa ideia do seja a nova classe média. Há um mimetismo a partir de roupas, sapatos e adereços falsificados vendidos por camelôs em vias públicas de todo o país. Tudo espelhado em novelas mirabolantes com escancarado “merchandising” de tudo o que possa, subliminarmente, influir no desejo humano.
Seguindo os cânones mundiais, a caracterização político-econômica do perfil da nova classe média brasileira é um factóide, uma quimera, uma manobra. E quem foi para as ruas, de início, não foi essa ainda dita classe emergente, mas a velha classe média – a imprensada entre o desejo e a capacidade – que se sentiu lograda em todas as suas pretensões. As famílias de classe média têm, entre outros poucos objetivos, formar e encaminhar os seus filhos na vida.
Hoje, há cerca de sete milhões de universitários no Brasil. Alguns estudam em poucas universidades públicas e privadas de bom e razoável nível de excelência. A maioria se compraz a cursar sofríveis e medíocres faculdades para ser dono de qualquer graduação. Puro auto-engano. Todos os anos a sociedade lança profissionais que não são absorvidos por suas baixas qualificações. Há tantas profissões e oportunidades e poucos conseguem um emprego privado razoável. O Brasil produtivo precisa de gente qualificada e não há.
Por outro lado, faz certo tempo que se criou uma nova esperança nas famílias: a de ter seus filhos aprovados em concursos públicos. O emprego público gera uma suposta garantia de segurança para o futuro. São poucos os que passam. Os demais mandam currículos para empresas de recrutamento ou, através de amigos/parentes/políticos, tentam ocupação ou atividades terceirizadas por órgãos públicos para os quais não têm, em bom número, disposição de trabalho e as aptidões básicas necessárias.
Essa massa de jovens, sem esperança, quando não delinque, inferniza seus pais com demandas provocadas por uma sociedade de consumo em que a falsa aparência no vestir disfarça a ausência de conteúdo e equilíbrio para enfrentar a realidade.
Não estou dizendo que os milhões que foram às ruas são pessoas assim, mas certamente são os que se sentiram enganados por promessas de um país já quase rico e em que todos teriam oportunidades iguais. Não é a verdade. Só os preparados alcançam algum “sucesso”, essa falsa palavra que não traduz a verdade da vida.
Esse caldo, esse ressentimento coletivo, oriundo da maciça divulgação pela imprensa de desvios, desmandos, impunidades e dos exagerados gastos e cuidados com os preparativos de eventos esportivos, forjaram o estopim deste junho em que estádios novos, por conta dos altos preços cobrados, estavam repletos de gente das classes alta e média, convidados de empresas, governos e instituições, turistas, jornalistas, artistas e pouca gente do povo. Pobres, nem pensar. Sequer como vendedores ambulantes. E o futebol se diz esporte popular.
Nos entornos dos estádios havia mais gente que dentro das “arenas”. Eles intuíram que muita coisa estava errada, pelo aparato policial ostensivo. Ainda não existia sabedoria sedimentada para expressar, com clareza, esses muitos desacertos reclamados. Aconteceu o caos, gente séria, baderneiros e os infiltrados de sempre.
Agora, há uma infinidade de explicações da mídia, de articulistas e de cientistas políticos após as passeatas inovadoras, permeadas por vandalismos de marginais que capitalizam as aglomerações para os seus delitos.
As explicações, inclusive esta minha, são apenas sentimentos, esboços ou exteriorizações sociológicas que não resolvem essa questão ou o impasse em que o Brasil se meteu, depois de tanta orgia com o dinheiro público.
Agora, depois da fala da presidente Dilma e dos ajuizamentos contundentes do presidente do STF, Joaquim Barbosa, é hora de repensar, estudar e esperar que o nosso país pare de propagar o que não é possível fazer ou ser. Que cuide, pelo menos, de fazer o mínimo que a sociedade cobra. Nada de grandeza. Chega de fanfarra. Os políticos, de todos os matizes estão cautelosos, conjeturando e digerindo a crise. E você?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/06/2013.

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MANIFESTAÇÕES – Diário do Nordeste

A juventude anda às turras contra atos e fatos políticos e quem pega o pesado é a segurança pública. São manifestações marcadas pelas redes sociais, mas ainda não arrazoadas com profundidade.
Cria-se o clima, uma onda, e lá se vão multidões distintas a protestar nas ruas. A democracia comporta e pede isso.
A soberania popular, por outro lado, não dá carta branca ilimitada. Ela reclama analisar o que sentem e ouvem, mesmo com paixões, mas, antes, deve-se usar a razão.
A imprensa – ou parte dela – destaca os fatos e realimenta as reações.
Estabelece-se o confronto. É hora de reavaliar o Brasil. Os jovens trocam as redes sociais pelas ruas. E isso é saudável.
Por outro lado, em contraponto positivo, há uma luta da Política Nacional sobre Drogas. Nela se destaca o trabalho da Divisão de Proteção ao Estudante – Dipre, da Polícia Civil.
É luta para esclarecer, difundir a prevenção, a repressão, a recuperação e o combate aos traficantes. Esse trabalho cauteloso acontece em escolas, estabelecimentos públicos e privados que abrem os seus salões para ações de vigilância e duelo contra drogas.
Voltando ao princípio: Democracia é diversidade de pensar e agir. Muitos dos manifestantes poderão doar parte das suas energias e revoltas na colaboração a movimentos de proteção aos jovens iniciados nas drogas, especialmente o “crack”.
Isso também é cidadania. A droga é tão endêmica quanto os desmandos evidentes.
Valorizar a vida é não fechar os olhos a essa tragédia a minar famílias e o Brasil.
Denuncie, aja.

João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/06/2013.

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VALE CULTURA E CEUs das ARTES – Jornal O Estado

O governo Dilma, através do MinC, resolveu instituir o Vale Cultura-VC para atender, principalmente, aos que se descrevem como promotores culturais, alguns dos quais fazem peças de teatro anódinas, filmes de discutível qualidade, escrevem livros- encalhados-de prosa e poesia e lançam CDs e Dvds de cantores/compositores emergentes ou veteranos. Os VC serão destinados a trabalhadores que ganham até 5 salários mínimos.
As micro e pequenas empresas não terão nenhum incentivo fiscal com a distribuição do VC a seus colaboradores. Enquanto isso, as grandes empresas poderão descontar 1% do IR devido para o mesmo VC. Com 50 reais por mês, os que ganham até cinco salários mínimos vão ter a opção de escolher, para si próprios e os seus, entre filmes, standups, comédias, dramas, livros, visitas a centros culturais, a museus e comprar CD e DVDs. De repente, quem sabe, ficarão cultos e com massa crítica para entender o Brasil, suas artes e manhas. No Nordeste, cerca de 90% dos trabalhadores estão enquadrados nessa faixa de até cinco salários. Esperamos que todos fiquem mais ilustrados.
O VC foi apresentado por medida provisória-MP no dia 13 deste maio de 2013 e, certamente, será objeto de altos estudos nas duas casas congressuais que nada pedirão em troca. É bom lembrar que o ministro da Educação, Aluizio Mercadante, disse, recentemente, em Recife, a estarrecidos ouvintes: “O que museu tem a ver com educação?”. Seria bom que a sua colega Marta Suplicy explicasse para ele qual a finalidade de um museu e a sua relação com a educação e a cultura.
Cumpre lembrar que 91% das cidades brasileiras não têm cinemas, 72% das comunas não possuem sequer uma livraria e apenas 23% contam com museus. No Nordeste, a situação ainda é pior, claro. Acredita-se que 42 milhões de brasileiros poderão ser beneficiados com a nova medida. Pensando em fraudes, o cadastramento será apenas de cinemas, livrarias, centros culturais, teatros, museus e lojas de discos.
Ao mesmo tempo, o Ministério da Cultura está abrindo “CEUs das Artes” para divulgar a cultura do Brasil na Europa. Não custa lembrar que, segundo dizem, só a cidade de Londres possui mais museus que o Brasil. Buenos Aires teria mais livrarias que o nosso país. A idéia da ministra Marta Suplicy presume ser inovadora. Ela adotou na sua administração amável, o “soft power” ou poder suave, na tradução literal. Essa expressão, na verdade, foi esculpida por Joseph Nye, cientista político americano. A Alemanha sabe-se, usa há tempos o “Goethe-Institut” e a China espalha os “Confúcios”. Muitos países atuam com outros instrumentos de difusão cultural. Agora, vamos nós.
Segundo Fernanda Mena, da FSP, o soft power “denota a capacidade de um país influenciar e persuadir por meio do seu poder de inspiração e atração”. Esperamos que esse poder suave possa realmente trazer cultura para o povo brasileiro com o VC e, ao mesmo tempo, encantar os europeus com os CEUs das Artes. Nós, os que tentamos trabalhar com cultura e arte, sabemos que há um longo caminho a ser seguido. As instituições de cultura e arte, como as academias, precisam de ajuda e rápido para os seus trabalhos sérios e permanentes. Os produtores culturais têm ONGs, amigos políticos e fazem disso um meio de vida. George Santayana, filósofo e ensaísta espanhol do século passado, advertia: “A cultura está sempre entre o dilema de ser profunda e servir a poucos ou popular e tornar-se superficial”.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/06/2013.

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FRAN MARTINS – Diário do Nordeste

Tive a honra de ser aluno de Direito Comercial do professor Fran Martins, na Faculdade de Direito da UFC. Tive a alegria de abrir e manter escritório no mesmo andar do seu, no edifício Jalcy, na Guilherme Rocha. A par disso, havia nele um duplo. Não bastava ser um grande mestre, autor de vários livros jurídicos, entre eles, o “Curso de Direito Comercial” que está hoje, 2013, na 36ª. edição.
Ele tinha na construção da sua personalidade literária um outro eu, um ficcionista que, segundo C.A. Viana: “segue a trilha da concisão; os períodos curtos desencadeiam o predomínio de blocos narrativos cujas construções tendem a períodos compostos por coordenação …”. Foi desse modo que o jurista conciliou a sua ficção neo-realista em “Ponta de Rua”, “Poços dos Paus”, “Mundo Perdido”, “Estrela do Pastor”, “O Cruzeiro tem Cinco Pontas”, “A Rua e o Mundo” e “Dois de Ouro” com a criação de uma visão técnica e didática do Direito Comercial; analisasse a Falência, dissertasse sobre as Sociedades por Quotas, desvendasse o Cartão de Crédito e empreendesse novos caminhos sobre o Direito Societário.
Se isso não basta, foi o único Diretor-Editor da revista Clã, desde o inicial, 1948, até o 29, 1988. Acresça-se ter dirigido o jornal O Estado.
Quinta, 13.05.2013, foi a data do centenário de nascimento desse homem plural, quase sisudo, mas cordial que, em 1996, nos deixou. As suas obras não mergulharam no limbo. Pelo contrário, formam um clã vivo de sucesso.

João Soares Neto,
escrito
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/06/2013

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ACADEMIA E PARLAMENTARES – Jornal O Estado

Na manhã de sexta-feira passada, dia 07 de junho de 2013, no Palácio da Luz, a Academia Cearense de Letras, sob a presidência de José Augusto Bezerra e a coordenação de Ubiratan Aguiar, conseguiu feito inédito. Ali estiveram presentes: o Senador Inácio Arruda; o coordenador da bancada federal, Antonio Balhmann; e os deputados Gorete Pereira, Ariosto Holanda, Artur Bruno, Chico Lopes, João Ananias, Raimundo Gomes de Matos e Vicente Arruda. O Dep. Danilo Forte mandou representante.
As motivações do encontro foram:
1º- o estado crítico em que se encontra a estrutura física do tricentenário prédio, já objeto de projeto, elaborado em 2009;
2º- a necessidade da Academia dispor de recursos tecnológicos para se tornar um ente cultural ajustado às demandas atuais da sociedade;
3º- a implantação de sistema de segurança para a proteção do acervo, demobiliário adequado, climatização esonorização da sede;
4º- implementação de projeto sistêmico para a criação–contando coma participação do Dep. Ariosto Holanda e do ocupante da Cadeira 35 – de um Centro Vocacional Cultural-CVC que, após implantado, poderá ser irradiado para todo o Ceará.
Os parlamentares, acompanhados dos já citados acadêmicos, de Ângela Gutierrez, de Ednilo Soárez e da diretora administrativa Regina Fiúza, visitaram todas as dependências dos dois pavimentos da Casa constatando o estado de penúria do auditório, da biblioteca, da pinacoteca e de todosos demais cômodos, com problemas de natureza estrutural.
O Palácio da Luz é um bem público, tombado como patrimônio histórico do Ceará, mas está, é preciso repetir, em situação crítica de segurança. Nele, além da Academia Cearense de Letras, reúnem-se, sistematicamente, mais de 15 entidades culturais, entre elas a Academia Fortalezense de Letras. Aventou-se a necessidade de criação, no centro da cidade, de um eixo cultural que contemple o perímetro da área que abriga equipamentos culturais, afora o Palácio da Luz, como o Instituto do Ceará, o Theatro José de Alencar, a Igreja do Rosário, a Igreja do Patrocínio, a casa de Juvenal Galeno, o Parque da Criança, o antigo Rotissérie, o Museu do Ceará, entre outros.
Depois, encaminharam-se ao banco onde repousa a escultura em bronze de Rachel de Queiroz, na vizinha Praça General Tibúrcio, também conhecida como Praça dos Leões em razão das esculturas desses animais que encimam os seus pórticos, antes tidos como monumentais.
A visita à Praça General Tibúrcio fez-se necessária em face da insegurança constatada. Em todos os seus quadrantes estão quiosques, ambulantes, vendedores de livros, famílias de pedintes e pessoas sem teto que se apropriaram daquele espaço público. Emborafosse manhã, o olor de excrementosse fazia sentir a cada passo. Os parlamentares ficaram, nas palavras deles próprios, estarrecidos com o “status quo” e se prontificaram a transmitir o que viram a seus demais pares.
Este relato, cru e fidedigno, parece uma constatação arquitetônica pontual. Embora não importe, é bom lembrar o escritor F.Scott Fitzgerald: “a literatura é arquitetura. Ela não é decoração de interiores”. A casa da literatura cearense reclama por cuidados de vera arquitetura, não é o caso de decoração de interiores
Estivemos, pois, a mostrar as faces sujas e fissuradas de um velho prédio construído com mão de obra nativa e indígena, ainda do final do século 18, pelo Capitão-Mor Antonio de Castro Viana. Em 29 de setembro de1802 o prédio foi arrematado para ser a sede da Câmara. Entretanto, não havia verba para o pagamento. Assim foi criado o “Subsídio das Aguardentes”, que determinava o pagamento de 4$000 por cada pipa de aguardente importada que desembarcasse em portos da província. A quitação do pagamento, feito dessa forma, só foi concluída em 03 de novembro de 1807. Em 1808, o então Governador Luiz Barba Alardo de Menezes, sob o argumento de que sua casa havia sido furtada, mudou-se para o local. Embora houvesse resistência da Câmara, passou a ser a sede do governo até 1970. A nova sede do Governo, o Palácio da Abolição, foi inaugurada em 04 de julho de 1970.
Mesmo aligeirado, este relato mostra a necessidade de recuperar, para preservar o que a História do Ceará nos legou. Não podemos deixar que essas conquistas sejam relegadas a um plano subalterno. Os jovens do novo milênio precisam de referências histórico-culturais para construir as fundações dos seus conhecimentos. Sem essas referências a juventude será tão oca como parte das conversas narcísicas trocadas a cada dia no Facebook e outras mídias.
O Palácio da Luz é do Ceará, todos os acadêmicos são transitórios e bem letíficos. Só a Academia Cearense de Letras, sua cessionária, é permanente.
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/06/2013.

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ANTÔNIO ERMÍRIO – Diário do Nordeste

Só vi Antônio Ermírio de Moraes – AEM uma vez. Paletó amarfanhado, gravata de lado e os cabelos brancos, em desalinho.
Ele comandou, sem remuneração, por 35 anos, o Hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, ao qual dedicava tempo e talento. Além disso, cogeriu por 60 anos, o grupo Votorantim, fundado por seu pai, o ex-senador pernambucano José Ermírio de Moraes. AEM formou-se em engenharia metalúrgica, aos 21 anos, nos EEUU, e passou um ano trabalhando de graça para o pai, vendo se tinha jeito. Deu certo.
Em 1986, incensado por políticos que o viam capaz e rico, foi candidato a governador de SP. Como não era iniciado nas artes e manhas da política, foi derrotado, na reta final, por Orestes Quércia. A ideia de sua candidatura passava pela posterior possibilidade de ser presidente do Brasil. Não se saberá jamais o que haveria acontecido se ele tivesse ganhado a eleição.
Agora, no dia 04 deste junho, ele completou 85 anos. Há algum tempo passou a sofrer do mal de Alzheimer, após ter perdido dois filhos para o câncer.
O Alzheimer, doença neurológica incurável, mostra seu viés indistinto, pois AEM era pessoa ativa intelectualmente, sendo, desde 1999, membro da Academia Paulista de Letras. Escreveu três peças de teatro com críticas sérias à sociedade e à política. Embora sendo controlador de banco, fez constantes censuras ao modelo draconiano do mercado. Sua vida está sendo contada no livro “Antônio Ermírio de Moraes”, de José Pastore, editado pela Planeta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/06/2013.

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FUTEBOL NO JUNHO BRASILEIRO E O PAPA, NO RIO, EM JULHO – OE

O Brasil, desde o governo passado, resolveu patrocinar três eventos esportivos internacionais, dois de futebol – as copas das Confederações, neste ano de 2013, a do Mundo, em 2014 – e, as Olimpíadas, em 2016, no Rio.
Assim, por um bom período, o país vem se preparando para esses acontecimentos. Mandaram destruir todos os grandes estádios das maiores cidades brasileiras, como se dinheiro sobrasse, tudo estivesse errado, e exigiram outros novos(arenas) no padrão Fifa, com cadernos de encargos definindo tudo. Até a largura das cadeiras, posicionamento dos reservas e aboliram os alambrados protetores que separavam o público do campo de jogo. Deus queira que não ocorram invasões.
Trocaram os alambrados por muitos seguranças. Pediram obras de mobilidade urbana para os acessos a essas novas “arenas”. Enfim, o Brasil está cumprindo, do jeito que pode e sabe, essas exigências múltiplas.
A palavra confederação parece pouco ajustada para a Copa de futebol que, na próxima semana, se inicia no Brasil. Confederação significa, segundo o Aurélio, “uma reunião de diferentes Estados que, embora conservando a respectiva autonomia, formam um só, reconhecendo um governo comum.” Levada essa ideia, lato senso, para o esporte comandado pela Fifa – Federação Internacional de Futebol Associado pode ser admissível. Forma-se um elo entre as confederações continentais a ela submetidas, porém uno na gestão “fifiana”.
Ela estabelece as regras para os países que aceitam realizá-la. No duro, não seria um plano comum, mas delineado pela Fifa, com sede em Zurique, Suiça.
Ela planeja, coordena, controla, veicula,comercializa e aufere resultados com a modalidade futebol em todo o mundo, com copas diferentes, ano após ano, em todos os continentes.
Alguns estudiosos entendem que dois, três ou quatro jogos em uma cidade, televisionados para todo o mundo, inclusive para as próprios locais onde serão realizados, mudarão a economia e trarão milhares de turistas sequiosos para gastar o seu dinheiro em hotéis, refeições, compras,diversões e locomoção.
Dizem que a totalidade do arrecadado com os ingressos, com a exploração dos direitos de imagem e outros, irá para a Fifa, que distribuirá quotas entre os participantes. Olhando um pouco para a ficção temo uma eventual resposta negativa ao que se espera acontecer. No quesito aluguéis de casas e apartamentos já houve uma desengano geral. Muitos pensavam que conseguiriam milhares de reais, esquecendo que os hotéis estão disponíveis por poucas centenas de reais pela curta estada e, ainda mais, que os prováveis 10% de estrangeiros virão respaldados por pacotes de viagens dos seus países de origem, inclusive receptivos.
Há um bom filme uruguaio- francês- brasileiro, de 2007, “O Banheiro do Papa”, produzido, entre outros, por Fernando Meireles e dirigido a quatro mãos por Cesar Charlone e Enrique Fernandez que parece se ajustar a alguns momentos vividos por brasileiros sôfregos em lucrar com os eventos.
A película, baseada em fato real, mostra o alvoroço da pequena e carente cidade uruguaia de Melo, perto da fronteira com o Brasil, com a futura chegada do Papa João Paulo II, em 1988. No filme são usadas imagens de arquivo, como a verdadeira chegada de João Paulo II e a exploração política do fato.
A maioria da população pobre de Melo acredita que será uma oportunidade para ganhar dinheiro. Fazem planos e passam a produzir linguiças, algodão doce, bebidas, comidas e tem até um personagem que resolve construir, com toda a poupança da família, um banheiro para os necessitados. Mais não conto. A propósito, o Papa Francisco I, chega em julho ao Rio para diálogo com os jovens. É outro evento, este de resgate religioso. Cuidado com o “fator Melo”.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/06/2013.

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BOATARIA BRASIL – Diário do Nordeste

Há alguns dias o Brasil foi sacudido por “boato”, atingindo diretamente 14 milhões de pessoas simples assistidas pelo Programa Bolsa Família. Esse fato tido como criminoso quase causou um caos social nas agências da Caixa Econômica e nas lotéricas, a ela submetidas.
Boato, segundo o dicionário Aurélio, é “notícia anônima que corre publicamente sem confirmação”. A Polícia Federal tentou descobrir a origem desse boato que poderia ter causado danos graves à sociedade. Na realidade, houve apenas uma liberação operacional, antecipada, da Caixa.
Esta semana o boato em formação é que o abatimento concedido pelo Governo nas contas de energia pode acabar. A Medida Provisória – que o instituiu – perderá a validade amanhã, 03 de junho. Se o Congresso não tiver aprovado a MP, tudo voltará a ser como antes.
Há pessoas a espalhar boatos e aleivosias por achar engraçado ou para atingir alguém ou algo que os incomoda. O boato é ato covarde, pois parte da criação mentirosa ao atentar contra a honra de alguém ou provocar uma reação coletiva por fato equivocado e, muitas vezes, criminoso.
Muitos frequentadores de bares, alguns órgãos da mídia e parcela significativa de políticos propagam as intenções que desejam. São balões de ensaio a sondar ou confundir. As redes da Internet são outro foco constante de balelas, falsificação de textos e montagens grosseiras. Vai daí que a liberdade de dizer deve parar na responsabilidade legal pelo ato deliberado de causar dano a outrem. Todo computador possui identificação, e os telefonemas…

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/06/2013.

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PARADA GAY – Jornal O Estado

No próximo domingo, em São Paulo, milhares e milhares de pessoas irão às ruas para participar da Parada Gay. Diz a imprensa que esse evento é o maior do planeta, o que poderia, de princípio, fazer crer que naquela cidade há a maior concentração de homossexuais do mundo ocidental. O que não é provado, tampouco desmentido.
Sabe-se que nos orbes oriental e muçulmano ainda não existem a liberação explícita ou a aceitação da homossexualidade, tampouco as mulheres têm direitos civis iguais aos dos homens.No ocidente, entretanto, com políticos, profissionais liberais, celebridades e intelectuais declarada-ou mascaradamente – homossexuais, houve uma espécie de “libertação” dos seus desejos. A Parada é, então, o palco para extravasar. Nada mais que isso.
Foi um zoólogo americano, Alfred Kinsey, com ajuda de colegas, quem resolveu estudar, em 1948, o comportamento dos homens em relação ao sexo. Em 1952 fez o mesmo ao entrevistar 6 mil mulheres. Dessas duas grandes pesquisas saíram documentos e algumas conclusões em livros, criticados e elogiados. Eles formam, em conjunto,o “Kinsey Report”. Nesse documento, Kinsey e seus colegas resolveram estabelecer uma escala sobre a orientação sexual dos homens.
É preciso dizer que, como zoólogo, Kinsey havia, antes, pesquisado as vespas ou maribondos. Encantado com os resultados, publicou essa escala que, de princípio, vai de 0 a 6, mas abre um “x” para os assexuados. Assim, o zero, ou 0, seria o hétero puro; o 1 seria o hétero, ocasionalmente gay; o 2 seria o hétero, mais do que ocasionalmente gay;o 3 seria a pessoa que é dupla, bissexual;o 4 seria o homo ou gay mais que circunstancialmente hétero; o 5 é dado ao homo que, às vezes, faz o papel de hétero; e o 6 seria o exclusivamente homossexual.
Como se vê, há uma gradação numeral, zoológica – ou animal – a nos levar a crer que a pessoa nasce ou adquire essas orientações até a sua puberdade. Daí para frente já está assinalada para a vida. Por conseguinte, ser homossexual não parece ser uma escolha, tampouco motivo de orgulho, censura ou objeto de cura, mas um desígnio genético e/ou de comportamento.

Francisco Daudt(www.franciscodaudt.com.br), médico que optou por ser psicanalista, afirmou, nesta terça, no caderno Cotidiano da Folha de SP, C2: “Ora, tenha a santa paciência. Se há uma boa razão para a homossexualidade não ser uma escolha, uma opção, e sim um destino, é o fato de que a presença de atração gay na mente é perturbadora para a maioria dos homens”.
Essa afirmação de Daudt é seguida de outra, complementar: “a) Nenhum tipo zero (o hétero genuíno) será perseguidor de gay, pois, para esses, a homossexualidade nem é assunto. Os homofóbicos estão trazendo para fora uma luta de dentro de suas cabeças: ‘Gay são os outros’. b) Apenas os 6 tipos (de Kinsey) saem do armário sem maiores problemas, pois não conseguem outro tipo de vida”.
Ele assevera ainda: “Ninguém, em sã consciência, entraria no supermercado das orientações sexuais e, animadíssimo, poria em seu carrinho de compras o destino de ser gay, com a gôndola de ser hétero ao lado”. Em resumo, viver é procurar aceitar o outro tal como ele o é, sem detratá-lo, criticá-lo ou endeusá-lo.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/05/2013.

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GARY VAUSE – Diário do Nordeste

Quando ninguém acreditava que a China seria a potência hoje reconhecida, William Gary Vause, então Vice-Dean da Stetson University, nos EEUU, resolveu estabelecer um intercâmbio de estudantes com o fechado governo chinês. Era o começo da década de 80 e ele parecia saber o que fazia. Havia estudado mandarim, a língua da cultura sino, quando servira, sem dar um tiro, ao Exército dos Estados Unidos, em tempos da Guerra da Coreia.
Finda a guerra, estudou em Yale, doutorou-se em direito, fez concurso para entrar na Stetson e focar em comércio internacional. Vencendo barreiras, resolveu passar seis meses na China de Mao. E não foi só, levou sua mulher, Celia, minha irmã. Depois repetiram a dose, passando mais alguns meses em Pequim e Guangdong , para incrementar o intercâmbio de estudantes que floresceu e deu frutos. O intercâmbio foi passo forte para o reatamento das relações comerciais e culturais entre os EEUU e a China. E, depois, com o mundo.
Gary Vause morreu de câncer aos 60, em 09 de maio de 2003. Era Reitor da Stetson e concluíra um novo campus em Tampa. Estive no funeral dele. Este artigo é uma homenagem, nos 10 anos de morte desse homem que viu uma ideia prosperar e abrir caminhos para as relações chinesas com o mundo.Poucos sabem disso, ele era sereno. Ex-alunos seus hoje são advogados chineses proeminentes. Seu livro “Internacional Trade and Investment” – Comércio Internacional e Investimento, em inglês e mandarim, publicado em 1982 pela Guangdong Publishing, é prova inconteste de seu descortino.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/05/2013.