João Soares Neto*
No século atual não se pode falar em irreversibilidade. Pode-se falar em mudança, mutação, melhoria do nível de educação/cultura e responsabilidade social das pessoas. As mudanças e mutações são exponenciais, mais rápidas do que a formação de um jovem ou a sedimentação da cultura em uma pessoa adulta. O amanhã gradativamente mais tecnológico é uma certeza, para o bem ou para o mal.
O processo de internação dos cinemas em espaços dos centros comerciais decorreu da sempre crescente violência nos centros e nas ruas das cidades. Já tem cerca de 20 anos esse “start up”, para falar do início, usando palavra da moda. De lá para cá, as cidades ficaram mais violentas por acúmulo de fatores: crescimento natural, migração, deficiência de vias e de transportes públicos, propagação de zonas consagradas como pontos de venda e uso – sem medo – de drogas, camelôs, em demasia, ocupando áreas de passeio, e o fenômeno dos sem-teto, quase sempre pessoas que desistiram de suas famílias e vidas. Ou vice-versa.
A ida para centros comerciais não foi planejada, mas consequência do já dito. Tentamos, por desafio ou estoicismo, a operação e a manutenção de dois cinemas no centro por cinco meses. Fizemos ajustes, mexemos na decoração, contamos com segurança contratada, divulgamos e exibimos filmes de arte. Vimos, além da sensação, certa ou imaginada, da insegurança do local, que os cinéfilos, os que entendem e analisam o cinema como arte, e os “cinemeiros”, os que gostam apenas gostam de cinema, não eram em número suficiente para garantir uma frequência sequer básica. Optamos por baixar os preços dos ingressos, misturar filmes de arte, em uma sala, e, em outra, com “blockbusters”, os de grandes produtoras e que, via de regra alcançam bom público jovem e adulto. Infelizmente, não deu certo.
Ainda hoje, muita gente reclama que há poucos filmes de arte em exibição, mas a culpa é, além da não formação de público, da baixa bilheteira, dos custos elevados com o pagamento às distribuidoras, do problema do Ecad, vigilante escritório de arrecadação, das obrigações sociais e dos impostos pagos.
Cinemas, como elemento auxiliar da educação e cultura, deveriam ser isentos de ISS e outros impostos, para poder formar público. A existência indiscriminada da meia-entrada ainda é permissiva, pois a maioria das pessoas consegue uma identidade escolar, sem estudar regularmente. As distribuidoras impõem a permanência dos filmes mesmo quando eles não têm públicos. Os exibidores não têm como sair desse dilema. Afora, os meses de férias, os cinemas quase não se pagam. Grandes redes exibidoras acabaram ou minguaram.
O público exige salas melhores, mais bonitas, com carpetes grossos, equipamentos de ponta, mas ainda precisa aprender a ter cuidado ao usá-las. Aprender a não sujar, não cortar poltronas ou colar goma de mascar, não colocar os pés/sapatos por cima da fila da frente, e não derramar líquidos de refrigerantes ou comidas no chão. Todos os cinemas têm lixeiras que deveriam ser bem usadas pelos espectadores, mas são poucos os que assim agem. Quer saber da educação do espectador veja uma sala de cinema logo depois da projeção. Os intervalos são maiores por conta da sujeira deixada.
Voltando ao assunto inicial, se algum dia o Brasil aumentar significativamente o Índice de Desenvolvimento Humano, gerando massa crítica, melhorar o nível médio efetivo de renda da população e motivar uma segurança pública guardiã e eficaz, os cinemas voltarão, naturalmente, aos centros e às ruas dos bairros das cidades.
João Soares Neto foi sócio do Clube de Cinema e é cinemeiro, desde adolescente.
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/05/2013.
