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O IDOSO E A REALIDADE

Começa a ter destaque em São Paulo o que se convencionou chamar de “condomínio assistido”, ou seja, um prédio ou casarão adaptado para receber idosos de classe média alta. Esses condomínios têm como característica a atenção especial para as limitações dos que estão ou vão chegando à terceira idade. As tomadas e interruptores de energia são dispostos à altura da cintura de uma pessoa adulta, as portas são mais largas para permitir a circulação de cadeiras de rodas, os pisos são antiderrapantes, os banheiros têm barras de apoio, há espaços para salas de convivência com jogos, existe enfermagem e há restaurante com cardápios especiais.
Esses “condomínios assistidos” são comuns nos países do Primeiro Mundo, com a diferença básica em sua maioria é de responsabilidade do Estado. As pessoas se inscrevem, obtêm vagas e organismos sociais fazem o controle de suas ações. No Brasil, embora exista a Lei federal 8.842, de 1994, se comprometa a dar autonomia, integração e participação do idoso como instrumento de cidadania, nada de prático e objetivo foi feito. Agora, cogita-se da criação do Estatuto do Idoso, como se a lei já não existisse. O necessário é fazer que as pessoas idosas sejam mais respeitadas e assistidas, pois com o crescente aumento da população de terceira idade, que está perto dos 15 milhões, ainda não há uma política efetiva de governo com suporte aos que se aposentaram, seus filhos ganharam o mundo, um dos cônjuges desapareceu e só resta a opção do isolamento.
O problema, voltando aos tais condomínios assistidos, é que a classe média alta – ou rica – é inexpressiva no Brasil. Mesmo em São Paulo, só há referências a poucas instituições particulares, menos de dez, considerando o universo dos habitantes da cidade. Não abrigam mais que 1000 pessoas. Mera ilusão.
Por outro lado, este ano tem eleição. De deputado estadual à Presidente da República. Seria bom que os candidatos atentos aos planos de crescimento do país, não deixassem de observar também para o detalhe de que parcela significativa do eleitorado tem mais de 60 anos, correspondendo a quase 9% da população total e pode eleger representantes específicos ou influir em resultados.
É claro que devemos nos alegrar com a auto-suficiência da Petrobrás, mas é preciso que o Sistema Unificado de Saúde tenha políticas públicas objetivas para os que já deram sua contribuição à sociedade e ainda são responsáveis financeiramente por cerca de 10 milhões de pessoas, pois 62,4% dos idosos sacrificam suas minguadas rendas com a manutenção de filhos e netos. Não basta uma vacinação anual, que objetiva mais diminuir custos de internação do que proteger idosos. A assistência ao idoso é algo mais complexo e sério, para servir apenas de mote demagógico. É preciso, igualmente, verificar que os planos e seguros de saúde estão limitando atendimentos e exames aos idosos, aqueles que fogem do descaso do SUS, mas estão sendo atropelados pela incapacidade de efetuar pagamento dos planos e dos remédios.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/04/2006.

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MÃE DE ONTEM E DE HOJE

Um dia desses comentava com amigos que a nossa geração – a minha e a deles – tinha vindo ao mundo de forma mais gentil. Os filhos nasciam, quase sempre, por mãos de médicos amigos ou de parteiras que, quase integrados às famílias, ofereciam a criança à mãe parida ainda envolta no líquido que a protegeu por longos meses. Após o parto, médico ou parteira lavavam o rosto e as mãos, tomavam café com bolo, davam adeus e saiam. A conta ficava para depois, sem pressa e sem ajustes prévios.
A partir daí era a mãe quem tomava as rédeas. O filho é teu, cuida dele. Quando muito, era ajudada por uma parenta ou empregada que fazia de tudo. Os filhos mamavam no peito, o berço ficava ali de lado da cama do casal e os outros irmãos, pois sempre tinham outros, entravam e saiam em algazarra, enquanto ela pedia, sem êxito, silêncio.
Essa mãe, quase sempre, era apenas dona de casa, daí encontrar tempo
para cuidar dos filhos, contar histórias, ouvir rádio, costurar, cerzir, ler e tomar banho ao final da tarde para, perfumada e vestida em leve vestido de algodão, esperar o marido que trazia novidades da rua.
Essas histórias e lembranças, em meio a este Dia das Mães de 2005, parecem ter acontecido em outra vida em que as portas das casas não tinham chaves de cilindro, nem eram protegidas por grades, eletrônica e trancas. As calçadas eram prolongamento do viver em família e os vizinhos não só se conheciam, mas formavam grupos de amigos que jogavam peladas, xadrez, damas, bila, triângulo, gamão ou baralho, com cartas já usadas e curtidas pelo tempo. Hoje, “é o menino do 201”, “a viúva do 402” e “o casal que briga no 702”. Parece que ninguém tem nome.
E é esse mesmo tempo, que nos mostra a face atual da maternidade, pois quem muda são as pessoas e as coisas. A mãe de hoje é, via de regra, mulher profissionalizada, ciente dos seus direitos, corresponsável pelo sustento da família, interconectada, programando-se para ter os filhos que determinar, deles cuidar com outros olhares, e assistida – quando pode pagar – por “enfermeiras” ou babás de carteira assinada. É neste tempo de medo e dúvida que a família se nucleariza e se fecha com temor das diásporas sociais. A mãe de hoje vê o parceiro não mais como alguém que chega da rua com certezas, verdades ou mentiras, mas um associado, alguém que com ela compartilha e se defronta no dia- a- dia com uma sociedade competitiva, quase nada solidária e sem muitas referências essenciais.
Às velhas mães ainda vivas, as que já se foram e as que estão no meio da tarefa braba de cuidar dos filhos e da vida, ficam o reconhecimento e estas lembranças catadas no passado, entremeadas com a vertigem do viver atual, tão imponderável quanto desafiador.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/05/2006.

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QUEM SOMOS, REALMENTE?

Alguém pergunta, talvez a título de especulação filosófica: o que leva você a classificar, rotular ou definir lugares e pessoas? Que lugares e pessoas? retruco. Qualquer pessoa, em qualquer lugar. Pode ser em um bar, restaurante, hotel, casa, avião etc. Fiquei pensando. A pergunta era meio vaga e dava margem a pensar em qualquer coisa. E foi aí que pensei na última coisa que imaginaria. Disse: banheiro. A razão, qual a razão?
E me vi em tantos banheiros espalhados pelo mundo, espaços diminutos que dizem muito de quem os construiu, mais ainda de quem os cuida e desnuda quem os usa.
Imagine um restaurante à margem de uma estrada neste nosso Brasil. Estou falando dos lugares onde todos param e já chegam procurando saber onde fica o banheiro. Primeira porta à direita, pois os banheiros são socializados, mas tendem sempre para a destra, mesmo quando são sinistros em odores e formas. E há ainda os que estão fechados e a chave nos é entregue como se fora o condão para o paraíso com um olhar duro pedindo a rápida devolução, depois de avaliar o nosso caráter.
E aí chegamos ao dito cujo. Chegamos, não é bem o termo. Ele chega até nós, em primeiro lugar, pelo evolar de gases e nos deparamos com a realidade sociológica que nos faz lembrar os que imaginam poder decifrar a alma das gentes, tal como proposto no início e já ando meio perdido aqui pelo meio. Pois bem, depois dos gases e odores, vem a realidade crua da descarga quebrada, da tampa cambaia, quando existe, e o desejo de sair rápido dali.
Saíamos do restaurante de estrada e penetremos no “banheiro social” de um clube. A primeira indagação: por qual razão o tal social? A segunda, por que a maioria dos homens faz xixi e não lava as mãos? A terceira, por que os vasos sanitários e mictórios não seguem uma linha cubista a la Salvador Dali e não têm um desvio para a esquerda?
Agora, estamos em um voo longo, desses que varam a noite. Amanhece: o banheiro está sujo, papéis higiênicos ao chão e na pia, detritos. Terra à vista, solo. Vamos direto à casa de um emergente, desses que entregam seu habitat às vontades e ao gosto de quem o ambienta. E aí pensamos, como seria bom que todos tivessem noção que um banheiro ou lavabo deve ser apenas adequado e limpo, sem aqueles adereços, que o fazem parecer uma lapinha.
E então, porque cansamos de andar por aí, voltamos à nossa morada. Chegamos, tiramos a roupa e vamos, imaginem, ao banheiro. E aí, defronte ao espelho e na nudez sem castigo, somos, finalmente, o que realmente somos. E será que caberia a pergunta: quem somos, realmente?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/05/2006.

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HORA DE SEMEAR

Está na época de plantar. Mesmo que se more em locais que não tenham chão por perto. Compre um jarro, arrume uma lata ou um vasilhame plástico, consiga um pouco de terra adubada e plante alguma coisa. Molhe. Pode ser uma flor, uma árvore diminuta, qualquer espécie vegetal que floresça. Não deixe de plantar. Você se alegrará com o milagre da vida gerada em suas mãos.
Está na época de conversar com amigos. Não o olá, como vai, tudo bem, oi, mas a conversa que se fala de coração aberto e se colhe a certeza da correspondência, do retorno sem nenhuma outra intenção que a da própria amizade. Aquela conversa que devemos ter para esvaziar comportas, abrir canais de solidariedade, entendimento e pontes de benquerença. Atritar é fácil, conviver certo é que é complicado e pede mão dupla com velocidade moderada em mútuos sentidos. Olho no olho, sentimento aflorado, sem medo de conter o espanto por ser você mesmo, não o produto que você tenta passar, mas aquele que você é. Amealhe suas confianças, mesmo que as dúvidas teimem em persistir. Existir é compartilhar, ainda que isto lhe dê comichões e petrifique suas ilusões, pois elas podem acontecer.
Está na hora de não provar nada, nem que é melhor ou pior. Cada um do seu jeito, suas histórias, seus lauréis, seus traumas, o mundo particular que lhe é permitido, sem precisar de devassas e justificações.
Está hora de não olhar para as horas, como se tudo fosse escoando sem jeito. Sempre haverá um jeito, mesmo que isso pareça difícil, mesmo que a tristeza teime em se fazer presente. Há turnos na vida, como o dia e a noite. E esses turnos podem ser claros, escuros, mas chegará um tempo da coexistência entre os diversos matizes e brilhará a luz que está dentro de cada de um nós. Dependerá do acesso ao interruptor que todos temos em algum lugar. É preciso procurá-lo, mas isso é outra história meio longa que não que cabe por aqui, mas vale a pena tentar encontrar, pois aí o plantio terá sentido e as flores ou frutos serão apreciados.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/05/2006.

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IRMÃ PETRONILLA – Diário do Nordeste

Nesta semana, vi uma homenagem sincera. Era uma celebração religiosa. Pessoas do povo, de todas as idades, de forma espontânea, se juntavam e cantavam louvores pela graça que tiveram da companhia por 18 anos de Petronilla Isonni. Seu coração, cansado, se finou há uma semana, com a paz dos que não deixam rastros de problemas, mas caminhos de luz e concórdia. Era noite e a Igreja da Vila União estava repleta de famílias e de centenas de crianças assistidas pelo Lar São Domingos Sávio. E lá estavam também os aquinhoados, no passado, com a assistência, educação e paciência de Petronillia Isonni, essa italiana destemida que largou família e amigos, vindo, sob o manto de irmã salesiana, fundar essa casa de formação de pessoas na Vila União, subúrbio de Fortaleza, ao tempo em que tudo era mais difícil.
Tijolo a tijolo edificou, com o pouco que recebia, uma casa simples, despojada, mas digna de ter a palavra lar em seu frontispício. E o fez sem recursos, com quase nenhuma ajuda de governos, sem medo dos assaltos que aconteciam nas redondezas, das caras feias de fiscais, mas com o coração e as mãos plenos de esperança. Os tijolos, reunidos, tinham o sentido futuro da transformação de crianças pobres que a tratavam como segunda mãe, embora fosse rigorosa na educação e modos.
E a casa, com o tempo, se fez jardim de ensinamentos e posturas de vida, rendendo frutos humanos. Nessa celebração era evidente o bem querer nos olhares atentos, leituras dos textos e orações coletivas, nos aplausos que mãos simples ofereciam como presente, a quem tanto lhes deu e agora tinha ido para sempre. Naquela Igreja sem ornamentos, vi, ao final, a singeleza da encenação e crença de crianças transformadas em anjos e querubins em auto de louvor que ‘mostravam a chegada ao céu’ da Irmã Petronilla, gente de bem. E não faltou a recepção de Maria, José e Jesus à nova moradora das paragens celestes. Eu, quase um cético inato, deixei que viesse à tona o residual que temos consolidado da fé cristã e constatei, alegre, que a simplicidade torna as pessoas mais próximas, verdadeiras, generosas e felizes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/12/2007.

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CAFÉ DO ANTÔNIO TORRES – Jornal O Estado

Olá, Antônio Torres, estou por aqui. Assim começou o telefonema com esse grande escritor brasileiro, autor de 11 romances, detentor, entre outros, do Prêmio Machado de Assis, maior glória concedida pela Academia Brasileira de Letras. Marcamos para andar juntos no dia seguinte. Na hora certa, desço e ele já está lá. Somos nordestinos. Ele, do Junco ou Alagoinhas, Bahia. Eu, desta Fortaleza de tantas faces. Entretanto, estamos ambos ainda aprendendo a ser cidadãos do mundo e a andar por aí afora. Atravessamos juntos a avenida vazia de carros e nos pusemos em marcha. Céleres senhores de tênis e calções em busca do sol dessa manhã escancarada. Na verdade, estou com um “short” de pijama, pois não encontrei o calção. Pergunto a ele se alguém vai desconfiar. Ele diz: nada, parece até calção mesmo. Fazemos uma curva e a praia além já é outra, sendo a mesma. O sol bate no mar e o reflexo nos encadeia um pouco. Ou seriam os corpos jovens semi-desnudos que passam ao lado, parecendo voar, mas não mudam a nossa prosa?
Estamos, acidentalmente, passando em revista a história de cada um, antes e depois do Plano Collor. Temos lembranças e lambanças a contar do que sofremos com o ‘cinquentinha’ que amanheceu disponível naquele dia aziago. E, a cada passo, vamos nos mostrando por inteiro, como devem fazer os amigos e digo da felicidade de tê-lo visto na capa de O Globo como emérito escritor que é, julgando os que almejam ser ou já o são.
Suados, cruzamos, sentido contrário, a avenida e lá vamos nos enfurnar, do jeito que estávamos, em uma livraria. Entramos em território dele. Um amor de Café que leva o seu nome. Com balcão, mesas e cadeiras decorados com esmero, uma carinhosa logomarca feita pelo Ziraldo e placa metálica registrando a data de sua abertura, no ano de 2003. Deixamos que partículas de H20 diminuam o desgaste das andanças quilométricas e ele, não contente apenas com o reencontro, mima-me com seu último livro de crônicas, “Sobre Pessoas”. Lisonjeado, começo a folheá-lo.
Vejo, alegre, ser o livro dedicado a umas poucas pessoas. Entre elas,
Carlos Augusto Viana, Laéria Fontenele e Sérgio Braga. Agora, já estamos tomando o café da manhã, repondo, com sobra, calorias perdidas. Conversamos até sobre Machado de Assis e Capistrano de Abreu, enquanto pães, queijo e sucos juntam-se à negritude do café que me energiza para tentar, sem êxito, falar com Sérgio Braga e Carlos Augusto. Finda o café, o sol, já zenital, nos remete de volta à praia e à água de coco, enquanto procuro os amigos citados. Por milagre, Carlos Augusto atende com voz de barítono matutino, trocamos prosa e repasso o celular para o Antônio Torres, sem esquecer de olhar o Drummond em bronze, sentado, que parece dizer: “Lutar com a palavra é a luta mais vã, no entanto, lutamos mal rompe a manhã”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/12/2007.

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FELIZ LIVRO NOVO – Jornal O Estado

Este virar de ano nos acena com uma conspiração nova, a de retomar o gosto pela leitura. Uma espécie de ONG ‘Leia Mais’ e uma organização social ‘Fique Lendo e não seja assaltado’ estão propagando nomes de autores cearenses que poderão ser visitados em livrarias e de lá saírem com você para a sua casa. Eles vão mostrar a você todos os seus sonhos, desejos, indignações, amores e desditas. Eles se revelam no que escrevem. Seja em prosa ou verso. Você ficará íntimo deles,
Você passa, por exemplo, na livraria Livro Técnico e pergunta ao Sérgio Braga o que tem de bom na atual literatura cearense e, certamente, ele mostrará muitos títulos e autores. Depende do que você gosta de ler: poesia, crônica, conto, ensaio e romance. Há tanta pessoa iluminada nesta terra que você pode, por falta de informação, preconceito ou comodismo, estar perdendo momentos prazerosos de leitura.
O livro é um mundo pequeno ou grande, só depende do olhar de quem o lê e de sua história pessoal, pois há um entrelaçamento entre o que você lê e o que sente. Muitas vezes, tem perguntas e respostas que não sabemos ou ousamos formular. Você que lê jornal está a um passo dos livros. Ao terminar de ler este jornal, espreguice-se, olhe o lá fora e pergunte a si mesmo qual foi o último livro que leu. Não lembra? Ótimo, está na hora de voltar a ler. Vamos começar pelas mulheres. Não deixem de ler Ana Miranda, Ângela Gutiérrez, Beatriz Alcântara, Giselda Medeiros, Natércia Campos, Regine Limaverde, Tércia Montenegro e tantas outras.
Entre os homens, para falar só nos vivos, vou lembrando de Airton Monte, Alcides Pinto, Almir Gomes de Castro, Audifax Rios, Carlos Augusto Viana, Carlos Emílio, Barros Pinho, Batista de Lima, Dimas Macedo, Francisco Carvalho, José Teles, Juarez Leitão, Pedro Salgueiro, Luciano Maia, Lustosa da Costa, Rui Câmara e uma pá de outros valorosos escrevinhadores, todos servidores de leitores desconhecidos.
Acredite, ler não é perda de tempo, é entrar em sintonia fina com você mesmo, sem precisar de testemunha. Basta um livro, luz do sol ou da lâmpada e pernas jogadas sobre qualquer rede ou sofá velho. Ia esquecendo: eu, por exemplo, leio sempre e mais de um livro ao mesmo tempo, alternando a leitura. Gosto de ler com um lápis à mão, especialmente se tiver uma borracha acoplada. Com ele vou grifando, discordando ou anotando o que me parece certo, risível ou errado. Faça isso nesse ano novo. Essa é uma forma segura de alimentar a sua alma, essa que conhece todas as suas mazelas e glórias e, nas noites insones, diz em seu silêncio: vai dormir, deixe de frescura.
Na primeira nervura do ano alvoreça o seu espírito, esqueça os erros seus e os do mundo e vá de livro novo, esse companheiro silencioso, capaz e disponível, que está ali ao seu lado, todas as horas, para o que der e vier. Feliz 2008.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/12/2007.

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2008 É 10 – Diário do Nordeste

Percebi que, somando todos os números do ano de 2008, se obtém 10. No sistema decimal, 10 é a nota máxima. Os jovens, ao se referirem a alguém que é bom, dizem ´você é 10! ´. Dessa forma, vamos todos crer que o novo ano que chega será o máximo ou, no mínimo, bom. Terá a força da cor vermelha a lembrar sangue, vida, energia e movimento. Dizem os que entendem – o que não é o meu caso – que números que somam 10 significam 1 em numerologia, pois nela o zero nada representa. Assim, poderíamos supor que será, igualmente, o primeiro, o 1 que se expressa pela criatividade, inteligência, argúcia, competência e independência. Essa divagação, pseudo-esotérica, é um alerta de que nós fazemos o ano, com a nossa vida, sangue, energia e movimento. Esses elementos se somam à nossa capacidade de trabalhar, inventar, criar algo de forma original e, acima de tudo, ser independente. Usar o seu sangue, energia e movimento significa que você não deve ficar aí parado. Novos rumos podem ser encontrados, sendo inventivo e livre. Desse modo, ao chegar o próximo dia 01, terça-feira, feriado, faça limpeza na bagunça de seus relacionamentos, papéis, roupas, entulhos mentais ou de sua casa e trabalho. Mantenha algo natural, vivo, ao seu lado, preferencialmente uma árvore, um vaso de plantas ou flores, e aceite que o meio ambiente é seu e sua preservação depende de você.
E, mais que isso, é necessário que você propague a ideia de que, se bem cuidado, ele melhorará a nossa vida com ar puro, oxigênio e coisas tais. Abra as janelas, mas cuide de saber se não há gente negativa ou ladrões por perto, deixe que o sol entre em todos os cantos, especialmente no seu lugar de dormir ou trabalhar, que deve estar asseado. Use roupa limpa, mesmo que velha. E não esqueça de ter fé e acreditar no que faz, sem essa de fingir ser isso quando é aquilo. Assuma-se, respeitando o seu corpo magro ou gordo, a idade que tem, sem pensar que o tempo não passa. Mas passará bem melhor se você souber usá-lo a seu favor, vivendo o hoje, pois o futuro sempre será o amanhã.

JOÃO SOARES NETO,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2007.

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2006 E NÓS

Estamos aqui. 2005 já era. Não vale mais falar dele, passou. É passado. Depois da preguiça, da missa, da premissa, entra na liça o 2006. Vem com tudo o que tem de direito: cpi, carnaval, copa do mundo, eleições, secas, enchentes, inverno e tudo o que os outros anos têm de pior e do bom. O que é óbvio não se diz, mas os anos são feitos por nós. Nós, as pessoas. E os nós que atamos ou deixamos que atem ao nosso redor. Se admitirmos que nós fazemos o ano, então é hora de cada um ir arrumando o jeito de fazer a sua parte, com arte, destarte. Se acreditarmos que estamos cheios de nós, os que nos enredam, prendem o nosso hoje e quiçá o futuro, é bom lembrar da história de Alexandre, o Grande, o líder guerreiro macedônio que conquistou a Ásia e deu sentido ao império helênico, sobre o tal do nó Górdio.
O rei, chefão, imperador da Górdia, por onde passaria Alexandre, em sua guerra de conquista criou um nó. Esse nó era um entrelaçamento de cordas e não havia ninguém que conseguisse desatá-lo. Era um nó cego, onde não se via forma de desatar o seu emaranhado. Até que um dia, conta a história, Alexandre resolveu aparecer por lá e foi tentar desatar o nó. Chegou com o seu jeito de conquistador decidido, passo firme e encarou o dito nó. Olhou, matutou, coçou a cabeça coroada, não via como resolver o problema e não podia sair de lá desmoralizado. Olhou para o chefão da Górdia e, sem avisar a ninguém, desembainhou a espada e cortou o nó ao meio. Estava resolvido o problema, de forma inusitada, e a fama de Alexandre foi aumentando.
Assim é na vida real. De vez em quando precisamos tirar a nossa espada imaginária e cortar os nós que atam as nossas vontades, atitudes e decisões. Imagine o que deve ter passado pela cabeça de Alexandre. Muitos já tinham tentado desatar o nó górdio e todos voltavam de cabeça baixa. Ele, não. Da mesma forma que os demais, não sabia o jeito de desmanchá-lo, pois não conseguia que as pontas penetrassem no novelo que se formara. Deu uma de doido. Partiu o nó com a espada e todo novelo se desfez. Dar uma de doido, temporário, pode não só desatar nós, mas liberar o que temos aprisionado por medo, acomodação ou indiferença.
Sem querer dar uma de Paulo Coelho e assemelhados, é bom que, de vez em quando, se faça algo inesperado, diferente do que esperam e que nos deixe livre de aporrinhações antigas. Começo de ano é tempo de amolar espada, verificar que a bainha está lubrificada e não vai impedir que, a qualquer dia ou hora, se ouse empunhá-la. O importante é não ficar segurando o cabo da arma, pois até a paz precisa ser conquistada pela audácia e surpreender os que se imaginam reis da Górdia.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/01/2006

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O OUTRO LADO DE MIM

Algumas pessoas falam que não gostam de ler best-sellers. Nada a ver. Conheço intelectuais de verdade que gostam de ler esse tipo de romance. É melhor ler um best-seller que nada. Eles são fantasiosos e têm um condão de nos tirar da realidade, de mostrar um mundo diferente e, quase sempre, seus protagonistas conseguem superar dificuldades e vencem. E ninguém pode falar desse tipo de literatura sem mencionar Sidney Sheldon. Ele já vendeu mais de 300 milhões de livros. Seus livros são lidos da primeira à última página, com avidez e à espera do desfecho quase óbvio. É como se todas as populações brasileira, mexicana e portuguesa, juntas, tivessem lido um livro seu. Eu li vários. Quem não se lembra de “O Reverso da Medalha”, “A Ira dos Anjos”, “Juízo Final”, “A Herdeira” e tantos outros?
Sheldon tem hoje 88 anos, mantém-se lúcido e acaba de escrever sua autobiografia ou memórias. Em “O outro lado de mim” fala de sua vida, vitórias e fracassos. No dizer do jornalista Federico Mengozzi, falando sobre o dito Sheldon, só os bem-sucedidos podem falar de seus fracassos. E Sidney romanceia sua vida, como não poderia ser diferente. Judeu, discriminado e vivendo a juventude em plena Depressão americana, quis se suicidar, de desespero, aos 17 anos. Seu pai, que nunca tinha lido nada, sabia do gosto do filho pela leitura de romances. O flagrou misturando bebida com remédios, e falou para ele: “A vida é como um romance, não é? Está cheia de suspense. Você não faz ideia do que vai acontecer até virar a página”.
Usando essa metáfora, fez com que o filho mudasse de ideia e até de nome. Sidney trocou o sobrenome judeu Schechtel por Sheldon e foi encarar sua múltipla vida. Só aos 52 anos começou a escrever romances. Antes, escrevia peças de teatro e roteiros para cinema. Até um Oscar ganhara como roteirista. Rico, famoso e ciente de sua finitude, resolve agora abrir seu passado e o faz do jeito que sempre soube conquistar leitores ao redor do mundo, parecendo íntimo e semelhante ao homem cotidiano, mas, ao mesmo tempo, misturando fracassos, sonhos, esperanças e bom humor.
Ler memórias, mesmo romanceadas, é uma forma de cada um ir mexendo com os próprios botões, examinando seus significados, erros, medos, necessidades, desejos e atitudes. Como a vida é complexa e diferente para cada pessoa, é sempre bom lembrar o que disse o pensador inglês John Churton Collins: “A metade dos nossos erros na vida vem do fato de que nos deixamos levar pelos sentimentos, quando deveríamos raciocinar, ou de que raciocinamos quando deveríamos nos deixar levar pelos sentimentos”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/01/2006.