Não há como esconder. Cheguei ao tempo em que me chamam para conselheiro disso e daquilo. E eu que preciso tanto de conselhos e, pode acreditar, sei ouvi-los, embora faça muxoxos e banque o desinteressado. Banca, apenas isso. Confesso, de público, que a minha autoestima não sofre com o olhar alheio. Pelo contrário, cresce e absorve o que há de verdadeiro e bom nos que fazem das palavras não um açoite, mas um bálsamo.
Dizia que esse tempo de ser conselheiro é um tempo novo e nada nele se assemelha ao tempo da amealhação, da luta desmedida entre a dissonância comum entre nós e o resto do mundo e da descoberta que a vida tem outros sentidos e significados. Nesta estrada tomada na hora crepuscular, não faz mais morada muita coisa outrora julgada importante e não o era. A vida não vem em ondas, como diz a música, a vida é seca, cheia, minguante, dilúvio, deserto e floresta. É remanso sem ondas, mas são também ondas sem remanso. Mas ela não vem, sempre vai e se metamorfoseia naquilo que plantamos, atitudes e vozes ansiosas ou acalmadas. A escolha é sempre nossa, embora imaginemos que alguém possa puxar os cordéis e nos tornar marionetes. Pode não! E você sabe disso. Talvez incomode dar o chute na mesmice e destravar o infinito que mora em sua alma.
Mas comecei falando do tempo de ser conselheiro. Bobagem. Afinal, o aprendizado de ontem é História e o hoje se faz com a diferença e nunca com a mesmice. Há sempre um porto à espera, mas somos naus em busca de mares abertos da esperança e de piscosos cardumes de sentimentos. Vale não, dizer-se conselheiro é como cimentar a mudança e ficar postado, com a diferença que nenhum carteiro virá abrir a caixa de correspondência de suas emoções. Você, ó cara pálida, é que tem de descer desse muro feito com o medo e a indiferença e pisar no solo arenoso do perigoso e instigante ato de viver. Importa não que o Zé diga isso, a Maria reclame daquilo, a turma o triture. O que vale amigo/amiga é a sua pisada firme, mesmo que os ombros tremam.
Desculpe, estou bancando conselheiro e negando o que pretendi afirmar. Contradição, talvez. Mas não pensem que estou certo, a sua verdade está no bolso de sua alma, espírito, aura ou como quiser chamar e não precisa de cirurgia para suturá-la ou extraí-la, ela brota. Só não chamem a mim, pois de conselheiro tenho quase nada. Mas não espalhe, do contrário serei convidado a pedir o boné de tantos conselhos de que faço parte e se isso acontecer, ficarei de cabeça exposta e com ralíssimos cabelos desgrenhados.
(dedicada a Fernanda Quinderé e Ubiratan Aguiar, pelas vidas e crepúsculos editados)
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/09/2007.
