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O TEMPO DOS CONSELHOS – Jornal O Estado

Não há como esconder. Cheguei ao tempo em que me chamam para conselheiro disso e daquilo. E eu que preciso tanto de conselhos e, pode acreditar, sei ouvi-los, embora faça muxoxos e banque o desinteressado. Banca, apenas isso. Confesso, de público, que a minha autoestima não sofre com o olhar alheio. Pelo contrário, cresce e absorve o que há de verdadeiro e bom nos que fazem das palavras não um açoite, mas um bálsamo.
Dizia que esse tempo de ser conselheiro é um tempo novo e nada nele se assemelha ao tempo da amealhação, da luta desmedida entre a dissonância comum entre nós e o resto do mundo e da descoberta que a vida tem outros sentidos e significados. Nesta estrada tomada na hora crepuscular, não faz mais morada muita coisa outrora julgada importante e não o era. A vida não vem em ondas, como diz a música, a vida é seca, cheia, minguante, dilúvio, deserto e floresta. É remanso sem ondas, mas são também ondas sem remanso. Mas ela não vem, sempre vai e se metamorfoseia naquilo que plantamos, atitudes e vozes ansiosas ou acalmadas. A escolha é sempre nossa, embora imaginemos que alguém possa puxar os cordéis e nos tornar marionetes. Pode não! E você sabe disso. Talvez incomode dar o chute na mesmice e destravar o infinito que mora em sua alma.
Mas comecei falando do tempo de ser conselheiro. Bobagem. Afinal, o aprendizado de ontem é História e o hoje se faz com a diferença e nunca com a mesmice. Há sempre um porto à espera, mas somos naus em busca de mares abertos da esperança e de piscosos cardumes de sentimentos. Vale não, dizer-se conselheiro é como cimentar a mudança e ficar postado, com a diferença que nenhum carteiro virá abrir a caixa de correspondência de suas emoções. Você, ó cara pálida, é que tem de descer desse muro feito com o medo e a indiferença e pisar no solo arenoso do perigoso e instigante ato de viver. Importa não que o Zé diga isso, a Maria reclame daquilo, a turma o triture. O que vale amigo/amiga é a sua pisada firme, mesmo que os ombros tremam.
Desculpe, estou bancando conselheiro e negando o que pretendi afirmar. Contradição, talvez. Mas não pensem que estou certo, a sua verdade está no bolso de sua alma, espírito, aura ou como quiser chamar e não precisa de cirurgia para suturá-la ou extraí-la, ela brota. Só não chamem a mim, pois de conselheiro tenho quase nada. Mas não espalhe, do contrário serei convidado a pedir o boné de tantos conselhos de que faço parte e se isso acontecer, ficarei de cabeça exposta e com ralíssimos cabelos desgrenhados.
(dedicada a Fernanda Quinderé e Ubiratan Aguiar, pelas vidas e crepúsculos editados)

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/09/2007.

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SETEMBRO – Diário do Nordeste

Passeio os olhos pelo calendário e vejo datas neste setembro. Desde 2001 o dia 11 passou a ser aziago, segundo alguns, como se infortúnios fossem culpados pelos desatinos dos homens, religiões e nações. O 11 é igual a todos os dias. Pouco antes dele, o da Independência, que já se foi e pode ainda não ter chegado. No dia 13, uma irmã querida, lutadora e vencedora, comemorou seu aniversário e a chegada da primeira neta. Maria Laura é filha de médicos e nasceu agora em Manaus, onde o pai foi cumprir missão e ficou, não colhendo borracha, como o faziam os antepassados que para lá iam fugindo de nossas calamidades. Foi com estetoscópio para auscultar corpos e almas. E a jovem mulher seguiu-lhe os passos e mergulhou na arte de curar. Os dois, neófitos na paternidade, sofrem como pacientes, o que prova o efêmero de tudo, e se alegram com a Maria, palavra que vem da língua hebraica e significa senhora soberana, com serenidade, força vital e vontade de viver. Maria também é Laura, derivada do Latim e diz de coroa de folhas de louro. Assim, Maria Laura, una, vem com energia e virtual coroa a encimar sua cabeça. Bem-vinda.
Depois, já quando Virgem se despede e resplandece o equilíbrio da Balança, comemoro o nascimento, no mesmo dia – por uma dessas coincidências da sorte – de duas filhas muito amadas. Tanto que não fazem ideia quanto. E como viver é também colecionar recordações, lembro de suas chegadas ao mundo, os primeiros dias na pré-escola, as muitas viagens em que traspassamos estradas desconhecidas e vislumbramos sonhos. E lembro bem de todas as beiras das tardes em que as via na minha volta para casa. Hoje, estão no desabrolhar da vida, com âncoras fundeadas no meu coração. E, ao vê-las, meus olhos sorriem de tal forma expressa que não entendo como todos não percebem.
Por fim, como nada é perfeito, virá o fim do mês e a lembrança de que o dia 30 foi e será sempre o dia de olhar nos espelhos do sentimento a imagem consolidada da amiga que partiu e está, pois fincou sensações de entranhamento que inundam o céu de esperanças, mesmo em meio à zelação que a vida impôs.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/09/2007.

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EDUARDO CAMPOS, HOMEM MÚLTIPLO

Estávamos nos anos sessenta. Eu era estudante universitário e escrevia a coluna diária “Informes Acadêmicos” no jornal Correio do Ceará, dos Diários Associados, substituindo, definitivamente, Pedro Henrique Saraiva Leão, que fora estudar no exterior. Tempos depois, tive a ideia de escrever sobre administração e negócios. Procurei o Superintendente Eduardo Campos e falei do projeto de uma coluna diária abordando esse assunto totalmente novo e vário. Do seu jeito direto, voz tonitruante e decidida, ouviu, discutiu e aprovou a ideia. Passei a ter salário fixo e a coluna foi em frente.
Esta foi a forma de dizer que a minha admiração por Eduardo Campos vem de longe. Mesmo não privando de contato diário com ele, sempre que nos víamos havia uma boa troca de energia, por sua aura sem sombras. Certa vez, visitamos juntos a sua fábrica de liofilização de banana, lá pelo Mondubim. E jogamos conversa fora sobre como é difícil ser dono de qualquer coisa no Ceará. Ele sabia.
Os tempos passaram e eu tentei fazer algo diferente em educação, na então Av. Estados Unidos. Adivinhem quem era o vizinho da esquerda? Eduardo Campos, dirigindo a Ceará Rádio Clube, em sua nova fase. Visitei-o e participei que estava ao lado para o que o desse e viesse. É claro que sempre falávamos nos acontecimentos culturais desta cidade de tantos escritores e poetas, mas de poucos leitores dos livros que compram- e não leem – nos saraus de seus lançamentos.
Ele era sempre efusivo, guapo, olhar penetrante e jeito de quem sabe dizer o que quer. Eduardo Campos não deixou que o menino de Pacatuba morresse dentre dele e esse menino, órfão de pai aos quatro anos, sabia que seu destino era maior que o distrito de Guaiúba, onde nascera. Fortaleza o adotou e abrigou desde os seus nove anos e ele foi crescendo de mãos dadas com a cidade e se tornou homem valoroso e múltiplo. Radialista, jornalista, intelectual, administrador do então mais forte condomínio de empresas jornalísticas do Brasil e industrial.
E esse mesmo Eduardo Campos foi o civil cearense de maior prestígio e trânsito durante os governos militares, mas isso nunca invalidou as suas relações de amizade e respeito com pessoas de esquerda. No seu velório, entre outros, estavam pranteando-o, Manuel Raposo, Barros Pinho e José Júlio Cavalcante, então referências socialistas.
Tive a felicidade de estar em sua festa de oitenta anos e vi o carinho e aprumo da família em homenageá-lo ao lado de tantos colaboradores, amigos e colegas das muitas instituições das quais fazia parte. Uma noite de amor, brilho e descontração.
Incansável, foi no curso de uma palestra no Dragão do Mar que um acidente vascular cerebral o levou ao hospital e, por consequência, à morte. Hoje, exato nesta sexta feira, 21 de setembro de 2007, Eduardo Campos inauguraria o Museu do Instituto do Ceará, entidade que renovara e presidia. O menino que chegou em 1923, acaba de partir. A vida é ida e volta. E todos sabem que era um homem sempre a frente da sua quadra, fundando e cumprindo roteiros profissionais e singrando sonhos pessoais.
Ao final, pedindo que não julguem intromissão, sugiro que os membros do Instituto do Ceará deem o seu nome ao Museu que ele construiu e deixou pronto, não consentindo que as quimeras dos que semearam em objetos e livros a história, a historiografia, a antropologia e a geografia do Ceará e do Brasil, se transformem em mosaicos engastados em prateleiras fechadas, mas riquezas expostas para conhecimento de muitos que, doravante, possam e devam visitar o Museu Eduardo Campos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/09/2007.

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AMIGOS NA TARDE – Diário do Nordeste

Uma dúzia de mini-louras são o bouquet que entrego ao Airton, sempre esnobando os tintos estrangeirados, oferecidos com prodigalidade pelos cobres não poupados dos Cavianele. Chego. Abraço a todos e vejo que a mesa está posta com esmero para o repasto tardio por quem faz do receber um aceno fraterno à benquerença e ao encontro de almas, eventualmente irmãs.
Lá abaixo o mar orvalha as pedras e o sol não está forte, como a se espreguiçar entre nimbos que embranquecem o firmamento azul. Um barco perdido vai na direção do seu trapiche, deixando o caís para os mais fortes, os de cascos de aço com limo coberto e que vagam pelo mundo.
Chistes, troças, leitura extemporânea de uma crônica para mexer com o Airton e o telefone toca. Era a descendência, trocando afagos. O aroma dos condimentos vem da cozinha, mas tenho que sair. Que pena, agora que os decibéis etílicos dos amigos estão no ponto do Totonho perpetuá-los em aquarela e o Levy ficar ruminando o seu quipá imaginário, para contar os gastos da casa que poderiam ser amealhados para um futuro que não se sabe existir, pois quando vem já é presente. E renovo o meu olhar para o oceano e miro o edifício onde mora uma filha querida. Descubro-me em dívida com o ir e vir das ondas, empurradas pela energia superior que a física não consegue explicar, em teorias ou fórmulas. Do lado direito, ouço o trinar de um pássaro aprisionado, mas livre, incomodado com a zoada que fazemos, enquanto os cristais à mesa aguardam a conspurcação dos tintos. Chamo o elevador, esta máquina que, por seus espelhos, transforma em vizinhos os que se querem isolados. E todos fingem fazer alguma coisa para não aprofundar conversas, quiçá sentimentos. E o chão aparece. Ligo o carro e sinto-me só na estreita rua deserta. Utilizo a metáfora da paz na rua que tomo à direita e vejo enfileirados uma miríade de prédios, guardiões de segredos, dores, alegrias e amores. É meio da tarde e o acelerador do carro trasmuta-me no pai que sou, mesmo que queira, vez por outra, bancar o menino levado que nunca fui com maestria.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/09/2007.

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HISTÓRIA LIVRE – Jornal O Estado

Era sábado à tarde. Dia de futebol, praia e bares, mas optei por ir à Escola Livre de História, coordenada pelo prof. Régis Lopes. Essa Escola, que tem dois meses de existência, procura, de forma diferenciada, fazer revisões críticas ou aprofundamento de obras e historiadores. Nesse sábado, seria discutida a obra de Capistrano de Abreu, o maior historiador brasileiro, nascido no Ceará, em 1853.
Como sou um aprendiz de Capistrano, embora não seja historiador, resolvi dar às caras no acontecimento. Cheguei, esbaforido, pois vinha de longe, mas a tempo de assistir a primeira palestra da tarde. Olhei e vi que jovens iam tomando assento e me quedei quase ao fundo da sala para ouvir. Ouvi uma jovem mestranda em História Social, Paula Virgínia Pinheiro Batista, falando com desenvoltura e carinho sobre o ofício do historiador na obra de Capistrano. Mais uma vez, dei-me conta da importância de Capistrano.
Oitenta anos após sua morte, estava sendo pesquisado, revisitado, com respeito e argúcia. Não só estava sendo apresentado, mas bem contextualizado de uma forma simples e didática. Com os olhos da memória revi a foto consagrada de Capistrano: rotundo, amarfanhado, míope e nada simpático. Mas sabia o seu ofício. E entendi, mais uma vez, que os valores da alma e do pensamento são os únicos permanentes. Não morrem com o tempo. Ouvi detalhes de suas cartas, tão bem tratadas por tantos, especialmente por José Honório Rodrigues e ali apresentadas em seus aspectos mais especiais. A palestra acabou e tive a curiosidade de saber um pouco mais, obtendo respostas lúcidas às minhas questões.
Depois, ouvi João Ernani Furtado Filho, doutor e professor universitário que conseguiu, de forma descontraída, com conhecimento e erudição, demonstrar que Capistrano tinha cumprido o seu papel de historiador, não só pela obra “Capítulos da História Colonial”, mas também por palestras, ensaios e as 1.500 cartas dirigidas a amigos e colegas. Ficava claro, mais uma vez, que a obra de Capistrano não se resumia a livros. A correspondência trocada com figuras como Pandiá Calogeras, Assis Brasil, Afonso de Taunay, Paulo Prado, João Lúcio de Azevedo e Guilherme Studart, entre outros, era rica, profunda, constituindo-se complemento importante de sua obra.
O sol já havia se posto quando o encontro terminou. Saí de lá alegre com aquela demonstração de amor à pesquisa, à História e, acima de tudo, ao Capistrano de Abreu, este cearense tão importante e não devidamente festejado. Recebi, de graça, mais uma lição, de que empáfia combina com disfarce e que o saber verdadeiro é simples, direto e sem lero lero.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/11/2007.

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2008 É 10 – Diário do Nordeste

Percebi que, somando todos os números do ano de 2008, se obtém 10. No sistema decimal, 10 é a nota máxima. Os jovens, ao se referirem a alguém que é bom, dizem ´você é 10! ´. Dessa forma, vamos todos crer que o novo ano que chega será o máximo ou, no mínimo, bom. Terá a força da cor vermelha a lembrar sangue, vida, energia e movimento. Dizem os que entendem – o que não é o meu caso – que números que somam 10 significam 1 em numerologia, pois nela o zero nada representa. Assim, poderíamos supor que será, igualmente, o primeiro, o 1 que se expressa pela criatividade, inteligência, argúcia, competência e independência. Essa divagação, pseudo-esotérica, é um alerta de que nós fazemos o ano, com a nossa vida, sangue, energia e movimento. Esses elementos se somam à nossa capacidade de trabalhar, inventar, criar algo de forma original e, acima de tudo, ser independente. Usar o seu sangue, energia e movimento significa que você não deve ficar aí parado. Novos rumos podem ser encontrados, sendo inventivo e livre. Desse modo, ao chegar o próximo dia 01, terça-feira, feriado, faça limpeza na bagunça de seus relacionamentos, papéis, roupas, entulhos mentais ou de sua casa e trabalho. Mantenha algo natural, vivo, ao seu lado, preferencialmente uma árvore, um vaso de plantas ou flores, e aceite que o meio ambiente é seu e sua preservação depende de você.
E, mais que isso, é necessário que você propague a ideia de que, se bem cuidado, ele melhorará a nossa vida com ar puro, oxigênio e coisas tais. Abra as janelas, mas cuide de saber se não há gente negativa ou ladrões por perto, deixe que o sol entre em todos os cantos, especialmente no seu lugar de dormir ou trabalhar, que deve estar asseado. Use roupa limpa, mesmo que velha. E não esqueça de ter fé e acreditar no que faz, sem essa de fingir ser isso quando é aquilo. Assuma-se, respeitando o seu corpo magro ou gordo, a idade que tem, sem pensar que o tempo não passa. Mas passará bem melhor se você souber usá-lo a seu favor, vivendo o hoje, pois o futuro sempre será o amanhã.

JOÃO SOARES NETO,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/12/2007.

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O OUTRO LADO DE MIM

Algumas pessoas falam que não gostam de ler best-sellers. Nada a ver. Conheço intelectuais de verdade que gostam de ler esse tipo de romance. É melhor ler um best-seller que nada. Eles são fantasiosos e têm um condão de nos tirar da realidade, de mostrar um mundo diferente e, quase sempre, seus protagonistas conseguem superar dificuldades e vencem. E ninguém pode falar desse tipo de literatura sem mencionar Sidney Sheldon. Ele já vendeu mais de 300 milhões de livros. Seus livros são lidos da primeira à última página, com avidez e à espera do desfecho quase óbvio. É como se todas as populações brasileira, mexicana e portuguesa, juntas, tivessem lido um livro seu. Eu li vários. Quem não se lembra de “O Reverso da Medalha”, “A Ira dos Anjos”, “Juízo Final”, “A Herdeira” e tantos outros?
Sheldon tem hoje 88 anos, mantém-se lúcido e acaba de escrever sua autobiografia ou memórias. Em “O outro lado de mim” fala de sua vida, vitórias e fracassos. No dizer do jornalista Federico Mengozzi, falando sobre o dito Sheldon, só os bem-sucedidos podem falar de seus fracassos. E Sidney romanceia sua vida, como não poderia ser diferente. Judeu, discriminado e vivendo a juventude em plena Depressão americana, quis se suicidar, de desespero, aos 17 anos. Seu pai, que nunca tinha lido nada, sabia do gosto do filho pela leitura de romances. O flagrou misturando bebida com remédios, e falou para ele: “A vida é como um romance, não é? Está cheia de suspense. Você não faz ideia do que vai acontecer até virar a página”.
Usando essa metáfora, fez com que o filho mudasse de ideia e até de nome. Sidney trocou o sobrenome judeu Schechtel por Sheldon e foi encarar sua múltipla vida. Só aos 52 anos começou a escrever romances. Antes, escrevia peças de teatro e roteiros para cinema. Até um Oscar ganhara como roteirista. Rico, famoso e ciente de sua finitude, resolve agora abrir seu passado e o faz do jeito que sempre soube conquistar leitores ao redor do mundo, parecendo íntimo e semelhante ao homem cotidiano, mas, ao mesmo tempo, misturando fracassos, sonhos, esperanças e bom humor.
Ler memórias, mesmo romanceadas, é uma forma de cada um ir mexendo com os próprios botões, examinando seus significados, erros, medos, necessidades, desejos e atitudes. Como a vida é complexa e diferente para cada pessoa, é sempre bom lembrar o que disse o pensador inglês John Churton Collins: “A metade dos nossos erros na vida vem do fato de que nos deixamos levar pelos sentimentos, quando deveríamos raciocinar, ou de que raciocinamos quando deveríamos nos deixar levar pelos sentimentos”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/01/2006.

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OS INSUCESSOS DE CADA UM

Tem gente que na primeira ou segunda paulada na moleira passa a reclamar da vida, das injustiças que recebe, da falta de sorte, de desamparo e coisa e tal. Acredita que é o último dos mortais, esquecido por Deus (quando imagina ter fé), família, amigos e que há uma trama contra ele. Mergulha em um alheamento e, não raro, fica deprimido, sorumbático e macambúzio. Esquece que as moleiras são fechadas na infância e ser humano é bicho de cabeça dura.
Não importa quantos anos tenhamos. Não importa que nos digam que é assim mesmo. Não importa que a gente saiba que poderia ter tido um pouco mais de cuidado, atenção, tenacidade, simplicidade e lutado mais. Na hora do insucesso não há consolo. É quase o fim do mundo. Quase. É preciso que se assimile o insucesso e isso leva um tempo. O tempo é relativo, não é absoluto. E cada um tem o seu próprio tempo.
Os insucessos, se bem assimilados, mastigados, digeridos, podem ser uma grande fonte de aprendizado. Eles podem nos tornar mais lúcidos, atentos e vigilantes com os nossos sonhos e realidades. Nada de se associar aos que consideram um insucesso o tal do fim do mundo. Ele não o é. Ele é didático, sábio e se presta para que descubramos a que viemos, as companhias que escolhemos, como estamos traçando os nossos caminhos, e se há jeito de mudá-los. Sempre há.
Eles podem ter o condão de nos tornar mais humildes, menos vaidosos e mais comuns. Gente. Os insucessos são feitos para mostrar que a vida povoa desencontros, topadas, tempo jogado fora com bobagens, a crueza dos espelhos que teimam em nos mandar recados e não escutamos. Enfim, o insucesso pode até ser uma conquista, se dele tirarmos lições, não estas bobas e óbvias que estão aqui listadas, mas as resgatadas da purgação das dores, da nossa história de vida, seja ela breve ou longa.
Tem também aquela historinha manjada do cara que estava perdido numa ilha e conseguiu com muito esforço fazer uma choupana. A choupana pegou fogo. Ele reclamou de Deus e se considerou derrotado. Um navio viu a fumaça do fogo e o salvou. Pois é.
Insucessos podem também servir para mostrar que nunca estamos sós. Há amigos, sim. Mesmo que poucos ou que não nos façam festas, não endossem os nossos erros e critiquem atitudes. Amigo é bicho esquisito, tão esquisito quanto nós.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/01/2006.

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MICHELLE NÃO É MAIS UMA CANÇÃO

Não sei se todos lembram da canção francesa chamada “Michelle”. Era linda. Hoje, Michelle é nome de presidente de República. Michelle Bachelet, médica, descasada, com três filhos havidos de dois pais diferentes, ex-ministra da Saúde e da Defesa, é eleita presidente do Chile e toma posse agora em março. Ela é a nova mulher, não mais a que recebia o marido ao começo da noite, banhada e empoada, mas a que volta para casa quando a tarefa se esgota. Mas ela não está só.
Neste começo de 2006, mulheres maduras, formação superior destacada, tomam as rédeas de dois países deste mundo emergente em que vivemos. Michelle, no Chile e Ellen Johnson-Sirleaf, assumiu agora o comando da Libéria, país africano, fundado por ex-escravos libertados dos EUA. E na posse de Ellen, economista, pós-graduada em Harvard, estava outra mulher capaz, decidida e de origem simples, pois filha de imigrantes negros: Condoleezza Rice, Secretária de Estado, cabeça pensante americana, mesmo que possa pensar errado. Isto é outra história. O que vale aqui é a vida dessas mulheres. E não é bom esquecer de Angela Merkel, doutora em física, ex-ministra do Meio Ambiente, desde novembro passado, desbancou o poderoso Gerhard Schröder, e é a Premier da Alemanha. Imaginem.
O importante nesta conversa é que mulheres despontam em partes diferentes do mundo e o fazem de jeito bem distintos. Michelle derrotou um empresário multimilionário, Sebastian Piñera, no Chile. Ellen lutou e ganhou de um grande ex-atleta de futebol, George Weah, rico e ídolo famoso. Condoleezza, não tinha ninguém para promovê-la, nem casada é. Há quem diga poder ser em 2008 a candidata, imaginem, do conservador e branco Partido Republicano. Angela era física, morava na parte oriental-comunista e, com a unificação, surgiu como política. E aí está.
Acabaram-se as evitas, as isabelitas, e até as damas de ferro, tipo a Margareth inglesa. Hoje, a lucidez, a coragem, a capacidade, a liderança sutil e o sentimento de inclusão são as forças não só dessas mulheres citadas, mas de todas as outras, anônimas ou não, que não fazem mais só o modelo ‘boa esposa e virtuosa dona de casa’, a espera de um marido exemplar ou de uma pensão, quando o amor finda. É neste mundo novo, tão novo que nós, bichos homens, machistas ou não, ficamos tontos. Há que se aprender a conviver com essas mulheres que crescem, aparecem e permanecem. Deve eclodir um sentimento de júbilo pela nova divisão de tarefas no mundo real, pela certeza de que se poderá ter liderança com delicadeza, profissionalismo com ritmo sensorial, companheirismo sem subserviência ou melodrama, carinho sem hora ou local marcado e amor sem dependência.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/01/2006.

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OS AVISOS DO CORPO

Estou escrevendo no computador e ouço um choro. É a minha secretária esvaindo-se em lágrimas. Recebera um telefonema. Seu pai acabara de morrer. Perguntei a idade. Era mais novo do que eu. Fico meio apavorado. Fumava e bebia muito, ela disse. E aí lembrei do meu amigo poeta ao me passar recado de seu cardiologista, amigo comum, dizendo que ele, o poeta, não era hipertenso. Não era, mas será, certamente. Será, pela simples razão do corpo pedir respeito. Pede com jeito: não coma demais, trabalho muito por conta disso. Pede com calma: não beba exagerado, veja seu fígado e as consequências para os rins. O amigo poeta, muitas vezes, não respeita seus limites. O corpo pede: vá dormir, e ele fica madrugada afora, catando insônia.
Minha secretária continua chorando. O pai morava longe e lá se vai ela. Liga para a mãe e o choro fica mais controlado. Consola a mãe e diz: logo estará chegando. Enquanto ela agora deve estar em uma dessas Brs esburacada, lembro do meu amigo cronista-psi tossindo feito um condenado. Tosse por fumar em demasia. Sabe disso e não cuida, mas diz se preocupar quando a minha pressão ascende ao bom ou ruim futebol do meu time. Continuo lembrando haver o pai da secretária morrido de infarto, mas invento, para mim: ele só morreu porque fumava e bebia. Todos morrem, nada a ver.
E aí lembro do amigo-editor, meio adoentado, semana dessas, por haver recebido um catatau de exames laboratoriais. Todos estavam bem, exceto um, o do colesterol e isso deve ter mexido com a cuca dele, e aí a pressão disparou e ele foi descansar em casa, de castigo. Pensa ser de ferro. Não é. Tem de se cuidar. Há centenas de lançamentos de autores vários, estreantes, repetentes ou delirantes, a serem feitos e só ele sabe cuidar disso com o seu jeito de quem não quer nada, mandando e-mails, correspondência com convite para todo mundo, telefonemas lembrando o compromisso e levando uísque para molhar o bico dos amigos. Tudo boca-livre. Ele é assim.
Estou lembrando também de outro poeta, ora virando memorialista, a comer de forma pantagruélica. Come de ficar triste e vai embora. Come menos, cara. Lembro de outro amigo que se zanga facilmente. Para com isso, você sofre. Lembro de tanta coisa, mas não esqueço das nossas vidas, responsáveis e, quiçá, inconsequentes. A vida precisa ser cuidada. Ouviu, pessoal?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/01/2006.