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MÉDICO, AMANHÃ – Jornal O Estado

Bem que meu pai tentou, mas, teimosamente, não segui seu conselho. Não fiz vestibular para medicina, mas sempre admirei essa profissão que começa com a Anatomia e não tem fim. Dizia W. Whitman, poeta americano dos bons, “se existe alguma coisa sagrada, esta é o corpo humano”. O corpo humano é o templo dos médicos. É nele que vão descobrindo a alma do paciente, ouvindo suas queixas, conhecendo-lhe os cinco sentidos, interpretando-lhe os exames e curando-lhe os males. Nesta já não tão breve vida, conheci de perto e me tornei amigo de muitos médicos, homens e mulheres. O que mais me cativa nessa profissão é a capacidade que cada um tem de administrar sua vida, enquanto outras vidas dependem do que leram, mourejaram em plantões, hospitais mambembes, residências, especializações, mestrados e até doutorados. Não é fácil ser oftalmologista e dizer a alguém que ele vai ficar cego. Tampouco, como fica um anestesiologista ao defrontar com um acidente de choque anafilático? E o hematologista ao descobrir, entre lâminas e microscópios, a leucemia que, quase sempre, ceifa vidas? E o oncologista que não gosta de falar a palavra câncer, mas sabe que precisa ser honesto e objetivo em seus diagnósticos? Como fica um nefrologista vendo um ser sendo destruído pela ingestão diária de álcool? E o pediatra que escuta o choro do bebê que não pode dizer o que sente? E o pneumologista que tenta fazer com que seus pacientes e a humanidade parem de fumar e poupem seus pulmões? E o radiologista que lê os nossos ossos e músculos? E o que dizer do cirurgião, entre sangue, artérias e músculos, a limpar o campo para o seu trabalho árduo de extirpar ou remendar? E o psiquiatra que cuida da alma, mas vê o corpo como resposta a perguntas que não pode fazer ao paciente. Há tanta grandeza no trabalho dessas pessoas que se dividem em empregos para procurar ter a dignidade que o juramento feito por Hipócrates lhes cobra. Amanhã é o Dia do Médico, essa criatura que não tem hora, tampouco dia, para o não fazer nada, pois o corre-corre do mundo e das pessoas a faz sempre necessária para o nosso bem-estar.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/10/2008.

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LONGE – Diário do Nordeste

Resolvi dar uma trégua ao corpo e revigorar a alma. Ouvi-os e senti que precisava dar uma parada no trabalho e no dia-a-dia da minha cidade. Apenas um par de semanas, mas já estou voltando. Montaigne, escritor francês do século XVI, o das grandes descobertas, dizia: “Geralmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens, respondo que sei bem do que estou fugindo, mas não o que estou procurando.” Peguei o primeiro aeroplano e fui procurar novos ares. Não, não fui para o circuito Elizabeth Arden, tampouco aproveitar o sol das praias que restam ensolaradas em meio às estações que mudam com os hemisférios. Fui ver o que não conheço e rever o que vi pouco. Outros tempos, outros olhares. Esmiuçar lugares estranhos e passar longe do que costumeiramente se faz. Aprendi a viajar em aviões pequenos, ao lado do meu pai que me pedia para ler a bússola e segurar nos manetes. Depois, tomei peguei gosto e a estrada da vida, descobrindo que o mundo é também a minha casa. Vi sóis, chuvas, relâmpagos, trovões, ciclones, neves, desertos e florestas. Senti-me parte disso tudo, sem deixar de ter minhas referências. Amo a liberdade de ser apenas um e não fazer parte do todo que me abriga por um tempo, qualquer que seja ele. Olho para estranhos que nunca reverei e penso no que são e fazem e, algumas vezes, ouso até perguntar. Erro, quase sempre. Como desvendar a alma humana – se ela é um mistério – com um simples olhar? E me perco no encontro de ruas em que passo e repasso, procurando o que não sei. Mas, encontro o inesperado. Remexo em livros de uma livraria grandiosa ou despojada, ouço músicos de rua admirando a coragem de exporem seus chapéus à cata de trocados. Não faço fotos, retenho tudo na memória. Sento em um bar e bebo lentamente, esperando que esse longo drinque se transforme nos espirituais prometidos pelas águas límpidas dos rios que circundam as montanhas da terra de Sir Walter Scott. Não, não estou na Escócia. Lá só fui uma vez e basta. Estou longe, tão longe que o dia é noite e a noite se faz dia, segundo os meridianos de Greenwich.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/10/2008.

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O ENCONTRO – Jornal O Estado

‘O mistério do galo não está na ilusão de que ele seja capaz de fazer nascer o sol, mas em que seu canto anuncia a existência do sol, mesmo ainda por nascer
Cacá Diegues
Conheço pessoas inteligentes, capazes profissionalmente, independentes, mas, apesardisso, não tiveram a coragem de marcar um encontro. Esse encontro é duro, fere profundamente e, na maioria das vezes, deixa sequelas. É preciso ter coragem para assumir o risco desse encontro. Não importa que você seja jovem ou velho, bonito ou feio, alegre ou triste, crente ou ateu, casado ou não; o importante é o encontro. Mesmo que alguém ou circunstâncias forcem esse acontecimento, se ele aconteceu não fuja dele, não se esquive com o manto das aparências que nada cobrem e despem até o que é nu por natureza.
Esse encontro é um acerto de contas com o passado e um compromisso com o futuro. E aquele compromisso definitivo consigo mesmo, a que se referia Goethe. A partir desse encontro – e é Goethe quem diz – começa a acontecer todo o tipo de coisas para ajudar a você, o que não aconteceria se esse compromisso não existisse. Uma torrente de eventos emana das decisões favorecendo a pessoa com toda a espécie de encontros imprevistos e de ajuda material que homem nenhum poderia sonhar achar no seu caminho. Tudo o que você puder fazer ou sonhar, você alcançará. Sendo assim, mãos à obra. A ousadia contém genialidade, poder e magia. Comece agora.
Deixando Goethe de lado e encarando a loucura santa do prematuramente falecido poeta Paulo Leminski, é preciso “não discutir com o destino, o que vier eu assino”. É preciso assinar, colocar o nome no que você faz conscientemente, assumir o encontro com o destino. E o que é o destino? Será, por acaso, o mundo das coisas se acasalando ou se chocando com o mundo das ideias ou das palavras? Mas, como diria um filósofo de botequim, é preciso deixar o pessimismo para tempos melhores.
A hora do encontro é tempo de cataclisma e só se vence a tragédia com ação e riso. A ação é o remédio imediato. O riso é a capacidade de não levar a sério o seu drama, de debochar do seu ensimesmamento e encarar de peito aberto a nova consciência de sua individualidade, que o levaria irreversivelmente para a solidão a que todos estão sujeitos, não fora a solidariedade dos que ainda acreditam em você, a começar por você mesmo. É claro que essa hora do encontro nos mete medo. É preciso não ter medo do medo, pois como diz Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones: “O medo é uma coisa boa. Se você não tiver medo, pode acabar pulando pela janela”. Assuma os seus medos e admita que haverá um instante, independente das suas pretensões ou apreensões, em que tudo se tomará claro e o que lhe turvava os olhos passará a ser o colírio que mostrará o brilho da vida.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/10/2008.

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DESERTO E PROGRESSO – Diário do Nordeste

Voltei de uma viagem profunda, embora breve. Foram milhares de quilômetros em pássaros metálicos novos a mostrar que o futuro chegou com a correção e distinção do atendimento multilíngue. Desci na primeira parada, aturdido. Era o esplendor do novo em meio a um calor de frigideira de ovos. Apesar disso, pude conversar com gente de todo tipo, raça, credo e cabeça. Não deixei ninguém de fora. Assim, abordei intelectuais, cientistas, autoridades, ricos, remediados, pobres, religiosos, ateus, jovens e velhos. A todos, fiz a pergunta: o mundo vai acabar? A reação, quase sempre, foi de estranheza. Com exceções, se assustaram, mas disseram que não e, foram mais longe, enfatizaram, cada um a seu modo, que as crises, entre outros fatores, são ainda produtos de vícios do século passado, criadas pela ilusão do lucro fácil, ideologias, dominação político/militar e a simbiose entre as atividades produtivas e a grande especulação financeira. Tudo isso junto, deu, segundo ouvi e deduzi, origem à Grande Depressão de 1929, a Segunda Guerra, a Revolução Chinesa de Mao, passou pelas guerras com a Coréia e Vietnã, a Guerra Fria com a queda do Muro de Berlim e o fracionamento da União Soviética em países de etnias distintas, invasões de países árabes pela busca ávida do petróleo, até o triste 11 de setembro de 2001, a ocupação do Iraque e todos sabem o resto da história. Hoje, mais uma crise envolve o mundo e a mídia internacional se alimenta de desgraças e dos alvitres que desejam plantar e colher. Alheio a esse jogo de xadrez geopolítico, vi brotar no deserto escaldante um planejamento urbano meticuloso e centrado no futuro, ao tempo em que surgem edificações cintilantes, majestosas e até exageradas. Mas, são talvez símbolos metálicos e concretos de uma nova geração de raça ciente de seu poder econômico a fincar raízes estruturais que parecem gritar: vejam, nós não somos o que pensam ou ouvem, somos o que estamos a construir. E não param. Estou falando de Dubai, Emirados Árabes, mas não sou guia turístico. Sou catador da essência do que ouço e vejo, Vi, quem sabe, na grandiosidade, a eloquência silenciosa de vozes não auscultadas sobre seu destino e história de milênios. A viagem não parou aí. Isto foi só o começo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/10/2008

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MÉXICO – Jornal O Estado

Na reunião havida na semana passada, em Davos, na Suíça, os jornalistas quiseram confrontar os presidentes Lula, do Brasil, e Felipe Calderón, do México, por terem discordado de aspectos político-institucionais de alguns países latinos americanos. Ambos os presidentes riram da tentativa e trocaram forte abraço, como a dizer: somos diferentes, mas somos irmãos. Isso é verdade, acreditem.
O México tem, entre tantas coisas, terremotos, pirâmides e uma rica tradição pré-colombiana, graças aos aztecas e à sua cultura. O Brasil não tem nada disso. Se você for fazer um estudo comparativo entre a geografia e as culturas mexicana e brasileira não vai encontrar muita semelhança. Se for comparar o biótipo do mexicano com o do brasileiro não identificará muitos traços de uma raça comum. Apesar disso, na essência, somos muito parecidos, embora não usemos “sombreros”, não comamos muita pimenta, tampouco falemos espanhol e não tenhamos nada da tradição azteca. Isso é o estereótipo ou visão aligeirada do povo mexicano que poucos brasileiros conhecem. O México e o mexicano são muito, muito mais que isso.
O que nos une, de uma forma clara e inquestionável, é o que se convencionou chamar de “latinidad”, no dizer de Carlos Fuentes. Essa latinidade é esse nosso jeito não anglo-saxão, não germânico, não helvético ou escandinavo de ver e procurar entender o mundo e as pessoas. Um mexicano e um brasileiro, após pouca conversa, têm histórias e sentimentos em comum. Com outros povos não latinos não há essa identidade, por mais que se tente. Não falo da identidade latina estereotipada e propalada em filmes feitos por nós mesmos, que só retratam o que temos de mais atrasado como O Beco dos Milagres (mexicano, 1994), Guantanamera (cubano, 1995), e o nosso Central do Brasil, (brasileiro, 1997), que teimam em realçar as estéticas das nossas desgraças e mazelas. Não é a questão de colocar a nossa vida real embaixo do tapete, mas será que só temos misérias e tragédias para contar e mostrar?
A latinidade a que me refiro não é essa visão cruel, embora real, mas a certeza de que temos saída e estamos em meio a um processo novo de imensa transformação em que todos os povos são obrigados a interagir e colaborar. Pois foi essa identidade ou latinidade atual que me fez ir gostando do México e dos mexicanos, sem que isso me fosse imposto ou houvesse qualquer ideia preconcebida.
Pouco a pouco, fui conhecendo mexicanos de todas as classes sociais: estudantes, professores, profissionais liberais, diplomatas, religiosos, intelectuais, artistas e a cada dia via-me impressionado com a cultura não ostentantória de cada um. Não era cultura de fachada. Era gente de modo simples que falava duas, três ou quatro línguas, entendia de arte, música, literatura, cinema, gastronomia e sabia se situar no mundo como cidadãos de excelente nível. Conto um episódio de solidariedade espontânea: acompanhei quando um jovem brasileiro que lá estudava teve um grave acidente e foi prontamente acolhido e cuidado com carinho e atenção. O México é assim, as pessoas têm coração e atitude. Nós, também.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/02/2007.

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SONHOS DE CONSUMO – Jornal O Estado

Tenho amigos e familiares espalhados pelo mundo. De vez em quando, um deles vem dá com os costados pelo Brasil. Da mesma forma, uma vez por outra, os visito. Um dos temas recorrentes de nossas conversas é o deslumbramento da classe média brasileira. Gastam o que podem e o que não podem. Estabelecem padrões de comportamento que são, de há muito, superados nos lugares citados.
Exemplos 1: Fulano tem um bom emprego ou uma empresa que está crescendo. Compra um apartamento novo, chama uma decoradora que o enche de mesas, cadeiras, espelhos, cortinas, gravuras ridículas e tudo o mais que couber. O carro já não condiz com o apartamento e “os vizinhos ficam reparando”. O que fazer? Compra um novo. E não fica só nisso, aí vem a festa de inauguração e sua mulher resolve mostrar às amigas o quanto está bem de vida. Contrata serviço de “buffet”, som e o marido já reclamando dos compromissos que vai ter que honrar.
Exemplo 2: A filha mais velha vai completar 15 anos e diz que todas as amigas fizeram uma festa maravilhosa. A mãe faz finca pé e se alia à filha. Conseguem. Sai a festa com cerimonial e tudo. O pai se sente meio ridículo dentro de um terno com gravata l apertando seu pescoço. Vê a quantidade de gente entrando e, sem querer, vai fazendo cálculos de como pagar as despesas da festa e a promissória vencida do seu negócio.
Exemplo 3: Mariazinha tem 09 anos e Carlinhos vai completar 08 anos e ainda não foram à Disneyworld e “todo mundo já foi”. “Isso é um absurdo”. “Temos que dar um jeito” e lá se vai o pai comprar um pacote para os filhos não ficarem frustrados. A humilhação começa no pedido de visto, pedem comprovante de salário, original do Imposto de Renda, passagens de ida e volta e o diabo a quatro. Finalmente chega o grande dia e toda a família vai para o aeroporto deixar os heróis.
Por outro lado, vamos dar só dois exemplos de estrangeiros
Exemplo 1: Wini é médico, alemão, tem clínica bem montada em Frankfurt e todo dia pedala sua bicicleta que deixa na estação e toma um tem para o trabalho. Volta ás sete, ajuda a mulher a fazer a comida e ensinar os deveres das filhas. No final de cada ano, planejam férias sempre procurando opções econômicas. Exemplo 2: Nako é engenheiro mecânico, japonês, trabalha distante 02 horas de casa, e sua mulher deixa os filhos numa escola pública enquanto rala como bibliotecária. Só têm folga aos domingos para um piquenique em um parque próximo de sua casa. Férias? Há anos que não gozam. Viagem? Foram uma vez a Kioto. Parece estar havendo alguma coisa errada nessas informações, mas, não. Os relatos são verdadeiros e mostram visões diferentes de mundo. Cristopher Larsh, autor de «A rebelião das elites”, deixa claro que a decadência das nações está intimamente ligada aos hábitos da classe média.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/02/2007.

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O PESO DO CHATÔ – Diário do Nordeste

Tive sequelas com uma tenossinuvite provocada pelo peso do livro, “Chatô”, o Rei do Brasil, de Fernando Moraes. Só agora, anos depois, é que me disponho a comentá-lo. Não como crítico, mas mero leitor. Não concordo com amigos afeitos a leitura de biografias que afirmam ser “Chatô” um grande livro. Não é. É grande, com 700 páginas ao longo das quais o autor demonstra pura vaidade flagrada até em retrato seu na orelha do livro, onde com um grosso charuto procura dar um ar “blasé” ao brilhante jornalista.E claro que a audácia de escrever sobre um personagem tão controverso como Assis Chateaubriand é meio caminho para o sucesso, especialmente se respaldado pelo prestigio da Companhia das Letras. Em determinadas partes do livro, chego a desconfiar que Fernando Moraes deixa de ser biógrafo para, no entusiasmo de sua narrativa, tomar-se um fabricante de monólogos e diálogos entre pessoas mortas há tempos. Diálogos sem testemunhas. Exemplo: na pág. 304 ele cita uma conversa entre o Cap. João Alberto (assessor da presidência) e G. Vargas. Ora, se são mortos, não havia testemunhas, como, então, citar frases não ouvidas? imaginação.
Não se pode dizer, por justiça, que o livro seja ruim. Às vezes chega a ser engraçado, contundente, especialmente quando transcreve os famosos artigos de Chatô. Chatô é material para filme hollywoodiano que já deveria estar pronto com o dinheiro recebido do governo, mas o filme não sai. Isso é outra história. Há ainda erros crassos, na pág. 550, Armando Falcão foi citado como deputado udenista. Vivo, o ex-ministro poderá ratificar que integrava o velho PSD. Valho-me de Carlos Heitor Cony que, em crônica na “Folha de São Paulo”, refutou inverdades sobre o comportamento do jurista Nélson Hungria narradas por Moraes. Para finalizar, eu diria que “Chatô” vale pela tentativa de entrelaçar a vida do discutido personagem às histórias política e econômica brasileiras, mostrar como permanecem atuais os seus métodos e como proliferam Chatôs pela imprensa de norte ao sul. Apenas isso.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/02/2007.

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VIDA EM GRUPO – Diário do Nordeste

De um modo geral, tentamos ser cordial, sempre procurando entender o pensamento e as idiossincrasias alheias. Ouvindo mais que falando, lembrando das datas de aniversário dos amigos mais chegados, enquanto a maioria não se toca. Procuramos, na medida das nossas imperfeições, ser solidário, discreto, presente e não nos furtar de tentar ajudar. Essa toada acima é de gente que participa de grupos. Seja associação de classe ou religiosa, clubes de serviço, social ou cultural, roda informal de amigos etc. Todos participamos de várias rodas, desde o nascer do sol. A par disso, os grupos criam, via de regra, depois de determinado tempo, uma inércia que cai em vazio existencial, só preenchido pela fofoca, visão distorcida de pessoas, transigência exagerada com alguns e intransigência com outros.
Na realidade, parece haver, quase sempre, uma espécie de inveja latente, nessas manifestações irônicas e isso só desmerece quem as faz, não as pessoas que são objeto do pseudo-chiste ou pseudo-gracejo. Creio que pessoas, tidas e havidas como maduras, não precisam desse humor candente e perverso, para manter uma roda funcionando; alimentada, muitas vezes, por bebida e carência de afetividade. Essa constatação não é nossa. Ela é pública e comum a muitos grupos. A afetividade é atitude, não é gesto encenado para o público. Não são palavras ou discursos ocos de sentimento e plenos de metáforas que traduzem um relacionamento consistente ou uma data. A atitude é aquietada e não precisa de visibilidade. Ela se basta.
Essas questões não são nossas, algumas pessoas que participam de grupos pensam assim, apenas não têm um canal ou a coragem de dizê-las e nos pedem para ser mensageiro. E as escrevemos na procura de caminho que leve grupos e pessoas que os integram, quase sempre de boa vontade, mas carentes de fraternidade, a um encontro não seja presidido apenas por mexericos e inconsequências. Brincar com o outro é uma atitude salutar, mas usar sempre uma pseudo-brincadeira como achincalhe ou disfarce de questões pessoais irresolvidas é outro caso e merece reflexão. Por que faço isso? A que isso me leva? O que quero justificar com essa minha ação?
Eu mesmo, nos grupos de que participo, não me isento de culpa, mas há exagero nessas manifestações em turmas sedimentadas e que emperram no vazio. Nada de ser reformador do mundo, muito menos analista de comportamento, somos mero jogador de palavras. Mas sempre é bom entender que a falsa alegria de alguns no denegrir, mesmo que de brincadeira, contamina o mundo real em que vivemos e a boa relação que deveremos manter, apesar de nossos defeitos estruturais, humanos que somos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/02/2007.

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VIAJAR POR PRAZER – Diário do Nordeste

Viajar é sair do cotidiano. Viajar a turismo é fazê-lo em busca do prazer. O ser humano é um feixe de nervos que, de vez em quando, precisa de um tempo de relaxamento, descontração, para torná-lo apto a novas obrigações e emoções. Qualquer viagem dá oportunidades múltiplas a pessoas que, revisitando ou conhecendo cidades ou países, poderão sentir sensações e emoções diferentes, a partir de seus valores pessoais.
A viagem nacional e, especialmente, a internacional, seja qual for o destino, é sempre uma nova porta que se abre ao nosso conhecimento. E um tempo que reservamos para nossas prioridades ou, simplesmente, para observar, descansar e curtir. Algumas pessoas têm, por incrível que pareça, medo de viajar sozinhas. Alegam desconhecimento de outra língua além do vernáculo, insegurança em aeroportos para fazer conexões ou trabalheira com malas, câmbio de moedas e registro em hotéis. Para essas pessoas a melhor solução é viajar em grupo. O primeiro passo de quem faz turismo é a descontração. Nada de levar muita roupa, pensar em ficar elegante. Deixe isso para a volta. Viaje sem medo de ser simples. Amanheça o dia rindo para o espelho e não se preocupe com falar errado, em gostar do que pode parecer ridículo para os outros. Uma maneira eficaz de ser um bom turista é não comparar compras, não reclamar porque comprou caro ou deixou de comprar. O segundo passo é aproveitar o tempo. Nada de ficar curtindo o apartamento, piscina ou o hall do hotel. Ande, descubra o que está acontecendo na cidade e peça ao guia para lhe indicar teatros, livrarias, shoppings, restaurantes, museus etc. O terceiro passo é não forçar a natureza. Não faça nada só para agradar aos outros. Seja boa companhia. Defina o que lhe é prazeroso.
O quarto é ousar, é tentar descobrir por seus próprios pés um lugar que lhe interesse, seja um barzinho com seis mesas, museu com seu pintor preferido ou loja com uma tremenda liquidação. O quinto é fazer amizades, descobrir gente pelo seu lado positivo, descontração e alegria de viver. O sexto é saber que você não será nunca mais a mesma pessoa depois de uma viagem, curta que seja. Você será muito mais rico, mais consciente do mundo e poderá estabelecer melhores juízos de valor. O sétimo é esquecer problemas, queixas e lembrar que o tempo acalma até as maiores tempestades. Considere-se livre. E curta, pois a vida é breve. O oitavo e último passo é saber como usar o seu dinheiro. Não interessa a ninguém o quanto você leva e o que você faz dele. Lembre-se de que trazer presentes para as pessoas queridas é bom, mas é você quem merece os melhores presentes. É claro que estes passos não constituem dogmas. São apenas sugestões, referências que, ajustadas a cada situação e pessoas, poderão até servir aos que acreditam que os limites do mundo passam muito além da nossa porta.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/02/2007.

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BLANCHARD É INSTITUIÇÃO – Jornal O Estado

“Convenci-me, com o correr dos anos, de que, assim como as pessoas, também as instituições trazem, ao nascer, um signo que indicará para sempre a sua trajetória”.
Blanchard Girão

Neste mesmo jornal, em outro caderno, eu tinha o prazer de ler os escritos semanais de Blanchard Girão. Ele sempre trazia palavras gentis para escritores, iniciantes ou não, que lhes mandavam livros a lançar e cuidava de usá-las com muita sutileza. Aqui no O Estado, que o acolheu em sua maturidade, Blanchard exercia a alegria de escrever sem pauta, com liberdade, aprumo, distinção e graça. Era, quem sabe, nestes tempos de sua vida, uma forma de encontrar o seu eu profundo, relevar as ingratidões e tocar o bonde, não o que levava e trazia do Liceu do Ceará, mas o que conduziu como motorneiro seguro em trilhos certos da sua história pessoal, tornando-o uma instituição como jornalista, ativista político, cronista e memorialista.
Conheci Blanchard ainda menino. Possuíamos algumas afinidades. Éramos ambos torcedores e conselheiros do Fortaleza, esse clube que mexe com nossos sentimentos e coronárias por conta de suas vitórias e tropeços. Depois, por vias indiretas, tivemos tênues laços familiares, mas o que caracterizava o nosso não tão próximo relacionamento era a forma gentil como sempre me acolheu. Ele era um exemplo vivo de sensibilidade e civilidade, qualidades tão em falta, sem perder a capacidade de indignar-se com elegância e tampouco transigir em suas convicções ideológicas.
Não sei dos detalhes que antecederam o infarto que o vitimou, mas sei que a sordidez humana pode, por via telefônica, tecer ameaças contra familiares e isto, para quem ama os seus, causa dor profunda. Não sei também que incompreensão possa ter sofrido recentemente, mas sei que a amargura e o desencanto são hospedeiros de reações que o nosso espírito não aceita e o corpo padece.
Estas palavras, desataviadas, não são um mero registro protocolar. Elas refletem, do meu jeito e modo, o pesar de todos os que conheceram a trajetória do menino que se criou nas areias claras da avenida João Pessoa, passou por tantos domicílios e residências, mas se quedou por destino ao redor da Praia do Mucuripe, na rua do jangadeiro Manoel Jacaré, não menos herói que o Dragão do Mar, mas que repousava sempre nas cercanias de sua Fortaleza querida, por ele decantada e que agora reclama, em vão, por sua presença.

João Soares Neto,
cronista.
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/03/2007