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PAIS DE AGOSTO – Diário do Nordeste

Filhos são sempre benevolentes com as mães. Quase sempre são duros com os pais. Agora, neste agosto, filhos estarão acompanhando seus pais pela televisão e saberão se falarão verdades ou mentiras. Eles, em casa, conhecem os pais de chinelos e bermudas.
Ouvem seus resmungos nos telefonemas e sabem, pela convivência, que não há clima para conversa.
É um entra e sai constante de figuras que se trancam na sala para diálogos duros com os seus pais e até insultos mútuos eles trocam.
Os pais não os recebem, os de paletó, de chinelos e bermudas. Fazem a barba, vestem roupas engomadas e tentam não parecer preocupados.
Os filhos sabem que seus pais estão ansiosos, dormem pouco, fumam muito.
Alguns bebem, e não desgrudam os olhos nos canais de televisão, revistas e jornais que, muitas vezes, pisoteiam.
Falam mal de jornalistas e não aceitam os pedidos de rezas que as suas mães, avós de seus filhos, dizem estar fazendo.
Começou no dia 02, há quase uma semana, e não se sabe ao certo quando e como vai terminar. Tudo ainda é uma incógnita.
Juízes, assessores, advogados, réus, procuradores, testemunhas e jornalistas bisbilhoteiros deambulam pelos corredores da Corte que se acredita suprema e, todos, tentam dar a impressão de que estão tranquilos.
Ninguém está.
São reféns da história que ainda se escreve e ficará para sempre. Os filhos têm boa memória e sabem, mais que todos, quem são os seus pais.
Aguardam. Aguardam.

João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2012

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LER QUADRINHOS – Jornal O Estado

Tudo bem. Vão dizer que estou entregando a minha já consumida idade. Nada disso. O que declaro aos meus escassos leitores que chegam os olhos ao pé desta página 2 do DN é que comecei a ler quadrinhos muito cedo. Lia “Gibi” e percorri a iniciação com quadrinhos do Flash Gordon, Tarzan, Superman, Homem Submarino e as ilustrações para os livros do Monteiro Lobato, tão grande quanto questionado.
Ouvi dizer que a HQ no Brasil começou em 1905 com a revista “Tico-Tico”, depois veio o J.Carlos e cá estamos em 2012 vendo, rindo e escrevendo sobre essa arte sequencial, que se vale de pouco texto e imagens, formando “tiras”. Ainda hoje, avô de netos infantes, me dou ao luxo de ler, diariamente, os quadrinhos/tiras de Angeli, Laerte, Caco Galhardo, Adão e André Dahmer, todos na Folha de SP. Nordeste-DN, vejo o Mino com o seu Capitão Rapadura, Xuxu, Cabeção e D. Charmô.
Quem gosta de quadrinhos é, quase sempre, minimalista, alguém que se expressa com poucas palavras e tem humor diferenciado que, muitas vezes, não é percebido pelo ouvido desatento. Neste agosto, até o dia 26, está havendo no Shopping Benfica, 1º. Piso, o Fórum de Quadrinhos do Ceará. É gratuito, das 10 às 22 horas, Lá você poderá encontrar alegria ao ver cartoons, tiras, mangás e até participar de oficinas de super heróis, pintura infantil, desenho ligeiro e muito mais.
Artistas como Luís CS, Maxwell Duarte, Kaléo Mendes e Ladely Mendonça terão paciência para explicar, em oficinas, como funcionam a mente e a mão do quadrinista, Ajudarão você a fazer, pelo menos, um tira para que possa mostrar aos amigos, à paquera, aos filhos e aos netos. Procure no site www.shoppingbenfica.com.br e tire suas próprias conclusões. Vá ver. O quadrinho é uma iniciação cultural de bom nível e o desligará, por instantes, das verdades e promessas que este tempo pré-eleitoral nos mostra de todas as formas e cores. Menos em quadrinhos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/08/2012

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LER QUADRINHOS – Diário do Nordeste

Tudo bem. Vão dizer que estou entregando a minha já consumida idade. Nada disso. O que declaro aos meus escassos leitores que chegam os olhos ao pé desta página 2 do Diário é que comecei a ler quadrinhos muito cedo. Lia “Gibi” e percorri a iniciação com quadrinhos do Flash Gordon, Tarzan, Superman, Homem Submarino e as ilustrações para os livros do Monteiro Lobato, tão grande quanto questionado. Ouvi dizer que a HQ no Brasil começou em 1905 com a revista “Tico-Tico”, depois veio o J. Carlos e cá estamos em 2012 vendo, rindo e escrevendo sobre essa arte sequencial, que se vale de pouco texto e imagens, formando “tiras”. Ainda hoje, avô de netos infantes, me dou ao luxo de ler, diariamente, os quadrinhos/tiras de Angeli, Laerte, Caco Galhardo, Adão e André Dahmer, todos na Folha de SP. Neste Diário, vejo o Mino com o seu Capitão Rapadura, Xuxu, Cabeção e D. Charmô. Quem gosta de quadrinhos é, quase sempre, minimalista, alguém que se expressa com poucas palavras e tem humor diferenciado que, muitas vezes, não é percebido pelo ouvido desatento. Neste agosto, até o dia 26, está havendo no Shopping Benfica, 1º. Piso, o Fórum de Quadrinhos do Ceará. É gratuito, das 10 às 22 horas, Lá você poderá encontrar alegria ao ver cartoons, tiras, mangás e até participar de oficinas de super heróis, pintura infantil, desenho ligeiro e muito mais. Artistas como Luís CS, Maxwell Duarte, Kaléo Mendes e Ladely Mendonça terão paciência para explicar, em oficinas, como funcionam a mente e a mão do quadrinista, ajudarão você a fazer, pelo menos, uma tira para que possa mostrar aos amigos, filhos e netos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/08/2012

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IVENS, UM TRABALHADOR SINGULAR – Jornal O Estado

Três homens simples, nascidos no interior do Ceará, nas décadas de 10(José Macedo), 20(Edson Queiroz) e 30(Ivens Dias Branco) do século passado, são, ao meu olhar, os responsáveis por grande parte do recente e atual desenvolvimento econômico cearense. Foram tão vanguardistas, como empreendedores, que essa palavra sequer existia. Já falei a respeito dos dois primeiros, José Macedo e Edson Queiroz. Agora, chega o tempo de falar de Francisco Ivens de Sá Dias Branco, que, na sua lúcida maturidade, é reconhecido como exemplo e referência, sem barreiras nacionais.
Conheci Ivens Dias Branco de forma indireta. Eu era meninote, morava na casa dos meus pais na Rua Mons. Otávio de Castro, no Bairro de Fátima, e ia às mesmas missas que o Sr. João Antônio Saraiva Leão, nosso amigo e quase vizinho, frequentava. O Sr. João Leão, assim conhecido, era católico, chefe, com d. Maria Amélia de família religiosa, missal a mão, composta de Consuelo, Tetezinha, Ruth, Veleda e Lúcia. Maria Consuelo, tempos depois, viria a casar-se com Ivens. Na nossa casa havia telefone – coisa rara na época – e, algumas vezes, Ivens e Consuelo conversavam através do número 5127.
O tempo decorre, e em 1976, após viagem pela Europa, Ivens nos convida à sua casa na Av. Antonio Sales. Foi nessa época que o conheci de perto. Sério, mas leve nas conversas sociais, mostrou-se pleno de leitura e informação sobre o mundo e os negócios. Tinha entusiasmo em contar sobre suas atividades e planos de futuro, não como vanglória, mas com a energia de quem estava no limiar da sua meta de jovem quarentão.
A BR-116 foi o caminho que já trilhara e a Fábrica Fortaleza ali se completou sendo ajustada, passo a passo, ao que hoje é. Arborizada, estruturada arquitetonicamente, e, com dimensões de layout industrial imponente, transformou-se em ícone consagrado de um conglomerado de sucesso. A M. Dias Branco S.A. granjeava respeito e reconhecimento por sua pujança e solidez. Dali se espraiou com, paradoxalmente, cautela audaciosa, para todo o Brasil e se fez líder verticalizada de sua área de negócios em trigo, massas e óleos vegetais. Permitindo-se ainda incursionar por círculos imobiliários com aprumo e eficácia.
Recentemente, Ivens foi homenageado pela Sociedade Beneficente Dois de Fevereiro na presença de alta autoridade governamental portuguesa. E lá fui não para lisonjeá-lo, que disso não sou. Fui por apreciar seus méritos e compartilhar, como conterrâneo, da alegria de toda a sua família ao vê-lo receber a honraria que a pátria de seu mentor e pai, Manuel Dias Branco, lhe outorgava.
Este pequeno e despretensioso apontamento é apenas um ato de consideração a alguém que dedicou sua vida ao trabalho, sem perder a singularidade, sempre acreditando que há algo novo a ser criado de forma bem feita. E assim o fez. E faz.

João Soares Neto é empresário e escritor. Autor de 7 livros.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/08/2012.

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FILÓSOFOS E CONCURSEIROS – Jornal O Estado

Com a capa em tons verdes e azuis o Prof. Oscar D’Alva e Souza Filho apresentou, como editor e coordenador, no ano passado, a versão terceira dos “Cadernos de Filosofia do Direito”, pelos alunos da disciplina Filosofia do Direito, da Universidade de Fortaleza. O caderno, como fica claro na denominação, reúne ensaios de jovens prestes a concluir o curso de direito. São 28 jovens universitários em rigorosa ordem alfabética aventurando-se a analisar Sócrates, Santo Tomás de Aquino, os valores como fundamentos, a utopia platônica, Fédon, a capacitação dos magistrados, Epicuro, Hans Kelsen, Immanuel Kant, Jürgen Habermas, independência e imparcialidade do juiz, René Descartes, John Locke, a última condição humana, Aristóteles, a sofística, Maquiavel, Grécia e Hipócrates, Clóvis Beviláqua, os sofistas, Grécia antiga e a aplicação da pena, empiristas e racionalistas em Kant, Código de Ética da Magistratura e os princípios da independência, ética e moral e, o pensamento maquiavélico.
São 446 páginas de estudo aplicado, com a densidade compatível ao saber de cada futuro bacharel. O professor Paulo Bonavides, meu mestre em três oportunidades, Escola de Administração, Faculdade de Direito e em curso de doutoramento que o MEC dissolveu, é o filósofo homenageado. Abre com “O Direito Natural e o Estado”, partindo das nascentes históricas do moderno direito natural até, no último capítulo, mostrar a reação conservadora que perfilha, no direito, a escola histórica. Como se vê, a obra que tem a apresentação do Coordenador do Curso de Direito da Unifor, Sidney Guerra Reginaldo, também filósofo, é um documento acadêmico de comprometimento de jovens com a filosofia do direito.
O que me alegra nessa leitura é a certeza de que há algo além dos milhões de jovens brasileiros que se dedicam, depois de formados nas diversas profissões, à dura e objetiva competição para alcançarem a garantia de empregos públicos em que terão bons salários e a certeza da estabilidade na carreira. Os milhões de jovens “concurseiros” são um fenômeno próprio deste Brasil atual. Submetem-se a cursos diretos, outros à distância, formam grupos de estudo, usam a internet, lêem l revistas, jornais, manuseiam livros, apostilas e dicas necessárias para evitar as pegadinhas das perguntas que constam dos exames. Vivem pelo Brasil afora, enfrentando estradas, rodoviárias, aeroportos, dormindo em pousadas e enfrentando, às vezes, a indiferença nas respostas dos já funcionários públicos às suas dúvidas e sonhos.
Este é o Brasil das não-baladas, das não-drogas, dos não presumidos e da não dissipação do tempo, o único bem irrecuperável para o homem. Filósofos, concurseiros, cada um a seu modo, e as suas pacientes famílias e amados acreditam, ainda, que este Brasil precisa deles para o seu porvir. À Luta.
(Em memória de Ivonete Maia, jornalista, professora, filósofa e vencedora no curso da vida)

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/02/2012.

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BENFOLIA – Diário do Nordeste

Há quatro anos fazemos um projeto: saber o que existe de música carnavalesca na cidade. Decidiu-se, não se sabe quem, nem a razão, que Fortaleza não se presta a carnaval. Assim, contra a corrente, instituímos o Benfolia em que compositores e cantores se submetem a uma seleção prévia, dividida em três etapas. Os 12 melhores vão para a final. Tivemos o cuidado de formar um jurado polivalente: musicistas, carnavalescos, jornalistas, homens públicos, arquiteto, médico, intelectuais, rainha do carnaval, produtores etc.
Nesta edição a festa tinha 25 jurados, o que diz da lisura da decisão. As 12 músicas selecionadas são novamente cantadas, há torcidas organizadas e a imprensa é convidada, só não percebeu talvez a sua importância que, além de premiar os três primeiros lugares em dinheiro, gravamos CD com as músicas selecionadas e o distribuímos gratuitamente com participantes, emissoras, comunicadores e formadores de opinião. A cada ano, homenageamos pessoas que, no passado ou presente, trabalham pelo carnaval. Não o Axé Music, mas sambas, choros, modinhas e que tais.
Os homenageados de 2012 foram: 1. o radialista Augusto Borges, por sua história profissional dedicada ao rádio e à televisão e na defesa da música local; 2. o compositor, carnavalesco e apresentador Dílson Pinheiro, divulgador de todas as manifestações mominas, inclusive o sincopado Maracatu; e 3. o figurinista Isidoro Santos, estilista e desfilante de fantasias grandiosas no Ceará e no Brasil. Íamos esquecendo: tivemos um “revival” de concurso de fantasias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/02/2012

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A LEITURA, O LIVRO E A INTERNET – Jornal O Estado

O caderno “Ilustríssima” da Folha, de 05 de fevereiro de 2012, contém o ensaio/crítica “O Erro de Machado”, do renomado Paulo Roberto Pires, crítico literário, professor da UFRJ, debatedor e autor de antologias, acerca das previsões do jovem – e futuro grande escritor – Machado de Assis sobre o fim do livro. Acreditava Machado, em seu “O jornal e o Livro”, de 1859, escrito quando tinha apenas 19 anos, que o livro iria acabar. Empolgado estava com a sua profissão de revisor – conseguida com a ajuda de Manuel Antônio de Almeida – no jornal Correio Mercantil. Nesse mesmo jornal, desde 1854, o advogado, escritor e político consagrado José de Alencar tinha a coluna “Ao Correr da Pena”, enquanto Manuel Antônio de Almeida, médico e jornalista, era o responsável pelo suplemento “A Pacotilha”, onde escreveu, sob a forma de folhetim e, anonimamente, o livro “Memórias de um Sargento de Milícias”.
Em uma parte do seu polêmico primeiro livro, Machado diz: “O jornal apareceu, trazendo em si o gérmen de uma revolução. Essa revolução não é só literária, é também social, é econômica, porque é um movimento da humanidade abalando todas as suas eminências, a reação do espírito humano sobre as fórmulas existentes do mundo econômico e do mundo social”. Machado imaginava que o livro iria perder a razão de existir: “O jornal, abalando o globo, fazendo uma revolução na ordem social, tem ainda a vantagem de dar uma posição ao homem de letras: Trabalha! Vive pela ideia e cumpre as leis da criação”.
Diz Paulo Roberto Pires: “Eivado de precipitação, o jovem Machado agarrava-se a certezas – moeda rara em sua obra futura. Naquele momento, porém, cumpria o que em alguma medida se espera de um intelectual em formação: curiosidade, desejo de intervenção e o direito, inalienável, ao equívoco.”
Agora, neste emergente século XXI, se prega, novamente, o fim do livro. Eu, por exemplo, ganhei de presente um I-Pad, esse instrumento portátil e gracioso inventado pela Microsoft na última contribuição de Steve Jobs à cibernética ou informática. Matada a empolgação e a curiosidade, o meu i-Pad ou tablet(tábua) se queda restrito, pois não vejo com prazer uma das suas funções, a de nos fazer ler livros não impressos. Quanta pretensão, essa que vem desde o fim do século passado.
Para quem gosta de ler, os que têm na cabeceira de sua cama uma luz de vigia com foco, uma rede ou uma velha cadeira, nada se compara ao prazer de comprar o livro, ler, virar a página e marcar trechos, com os quais concorda, discorda ou desconfia. O leitor verdadeiro pode até usar o I-Pad e que tais como instrumentos particulares de consulta dos novos dicionário/enciclopédia/conversação do mundo atual, o “Google” e o “Facebook” e outros, mas não há porque decretar o fim do livro como erroneamente pensou Machado de Assis, tal como se imaginava e dizia do fim do jornal quando da criação do rádio e do rádio quando da profusão da televisão. Depois, surgem o computador e, recentemente, essas múltiplas mídias que a geração Y, aquela nascida após 1979, teve à sua disposição desde sempre.
Os jornais sofreram, mas reinventaram-se, fragmentaram-se em cadernos temáticos para os seus vários públicos, postaram suas edições na Internet e criaram links com todas as mídias. Os livros impressos, de capa dura ou meras brochuras, feitos por grandes editoras ou editados por seus próprios autores, convivem bem com todos esses equipamentos, “gadgets”, invenções e congêneres. É bom não esquecer a pergunta – ainda atual – feita por Shakespeare, no século XVI, através do personagem Polônio, em Hamlet, “O que estais lendo, meu senhor”? Você é o que lê, não se engane.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/02/2012.

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DELMIRO E EDSON – Diário do Nordeste

Em 1966, o gaúcho Viana Moog, que havia morado nos Estados Unidos, escreve o livro/ensaio “Bandeirantes e Pioneiros”, comparando a colonização e o desenvolvimento americano geométrico, pela ética calvinista, ao crescimento aritmético brasileiro, decorrente da herança católica e portuguesa.
Agora, Jacques Marcovitch, ex-reitor da USP, agrega à historiografia brasileira, em três livros, seminários e exposição itinerante, retalhos significantes da vida empresarial começando com o menino pobre que virou o Barão de Mauá. Marcovitch parte do século XIX e perpassa o XX e, ao cabo, escolhe 24 empreendedores/pioneiros.
Nesse panteão estão dois cearenses: Delmiro Gouveia e Edson Queiroz. Delmiro nasceu no Ipu. Foi menino para o Recife e lá construiu o primeiro centro comercial no Derby. Ameaçado, vai para os confins das Alagoas extremando com a Bahia, onde explodia gloriosa a cachoeira de Paulo Afonso. Engenhoso e brilhante, Delmiro teve o pioneirismo de criar a primeira hidrelétrica do Brasil para movimentar a sua indústria de linhas. Morreu assassinado aos 54 anos.
Edson Queiroz veio criança de Cascavel, ajudou o pai comerciante e, tal como Delmiro, criou o primeiro centro comercial de Fortaleza, o Abrigo Central. Em seguida, explorou a venda de gás butano em quase todo o país, fundou indústrias, montou um sistema de comunicação e coroou sua vida implantando uma universidade, referência no Nordeste. Edson empregava milhares de pessoas quando faleceu aos 57 anos. Recomendo a todos em busca de um destino essa educativa exposição no Espaço Cultural da Unifor. Vale a pena. É grátis. Vá.

João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/02/2012.

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FORTALEZA VIVA – Jornal O Estado

Deparo-me, por acaso, com um livro rico de capa dura e uma bela paginação intercalando textos, fotos antigas e contemporâneas. Sua capa mostra a Praça do Ferreira, não a antiga, mas a revisitada ou relida pelos arquitetos Delberg Ponce de Leon e Fausto Nilo. Creio que não entendi bem a explicação da foto da capa: “Praça do Ferreira – no fim dos anos 1960, a Coluna da Hora foi demolida, e em projeto de 1991 retornou à praça…”. A bela foto de Gentil Barreira já é da praça reformada em 1991. A estrutura da antiga Coluna não era em aço. A que aparece na capa é a releitura estética de Delberg e Fausto. Não há década de 1960. Há a década dos anos sessenta. Tirando esses pequenos detalhes, afora outros, há que se louvar a pesquisa de muitos e a organização de Patrícia Veloso, para a Terra da Luz Editorial. “Viva Fortaleza” teve o forte e decisivo apoio da Oi Futuro, Newland, Guanabara, Sobral & Palácio e o patrocínio da Oi, Coelce e Banco do Nordeste. Consta como realização do Ministério da Cultura, sem menção à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, tampouco da similar da Prefeitura de Fortaleza.
O exemplar que li me foi dado, a pedido, pelo engenheiro civil Luciano Cavalcante Filho, um dos responsáveis por incorporar edifícios sitiados no antigo bairro do Outeiro, hoje Aldeota, bem como na orla marítima. Fortaleza, em agosto de 1950, me via de calças (curtas) e paletó de casimira azul marinho com camisa branca, em trajo da Primeira Comunhão, na Rua Floriano Peixoto, entrando no Foto Moderno. Esse estúdio ficava do lado do sol, como se diz por aqui, no trecho entre as ruas Pedro Pereira e a antiga Trincheiras, depois Liberato Barroso. O calor do pós chuvas não era sentido por mim, garboso infante que, de vela enfeitada e laço de fita no braço direito, deixava-me fotografar.
Dali, com a minha mãe, fomos andando a pé para comer pastéis com caldo de cana na Leão do Sul, mercearia sortida, que ficava no lado sul da Praça do Ferreira, defronte ao Posto Mazine, no começo do antigo Beco dos Pocinhos, depois Rua Pedro Borges. Quase três da tarde. Saciados, ouvimos o repicar das triplas badaladas do antigo relógio da Praça do Ferreira. A praça de então era sombreada com fícus benjamins e dividida em alamedas paralelas que albergavam carros particulares e os de praça, precursores dos futuros táxis. No seu lado norte, entre a Rua Guilherme Rocha e a Travessa Pará, fulgia o novo Abrigo Central, construído, mediante licitação, na administração do Prefeito Acrísio Moreira da Rocha, pelo jovem empreendedor Edson Queiroz. Atravessamos a praça em diagonal e entramos na loja Flama, afamado magazine, vizinha ao edifício São Luiz que se erguia morosamente. Pulemos para o ano 1959. Meu pai havia comprado uma casa de pescadores (lado do mar) para passarmos as férias na praia. Era na altura da atual Nunes Valente. Mero calcamento tosco. Logo após veio o começo da construção, a casa foi ao chão, a via ficou pronta em 1963 e em 1964 recebeu o nome de John Kennedy, em homenagem ao presidente americano assassinado em 23 de novembro do ano anterior. Protestos de muitos a fizeram passar a ser a Av. Beira Mar. Isso já é outra história.
A publicação começa com uma profunda análise de Paulo Linhares sobre “A Fortaleza de Alencar” e agrega textos de qualidade de Ângela Gutiérrez, A. Carlos Coelho, Cláudia Albuquerque, Clélia Lustosa, Demitri Túlio, Fausto Nilo, Francisco Neto Brandão, Gylmar Chaves, Isabel Gurgel. Kadma Marques, Lira Neto, Natércia Pontes, Oswald Barroso, Peregrina Campelo, Régis Lopes e Romeu Duarte. As fotografias são de Alex Costa, Alex Uchoa, Bia Sabóia, Drawlio Joca, Fábio Lima, Gentil Barreira, JoOão Luís, João Palmério, Leo Kaswiner, Lia de Paula, Maurício Albano. Nelson Bezerra, Silas de Paula e Thiago Gaspar. Além de textos e fotografias atuais, esculturas de Sérvulo Esmeraldo e Zenon Barreto, contém ainda acervos fotográficos e objetos de pessoas amantes da cidade.
Esta sofrível e corrida Ficha Técnica tem apenas o objetivo de despertar a curiosidade dos que aqui viveram entre 1950-2010 ou a ela foram chegando, vindos do interior e de outros estados. Escolhi apenas a Praça do Ferreira como chamariz, pulmão e alma de Fortaleza. E um mero registro da construção da Av. Beira-Mar. O resto da cidade poderá ser descoberto, por cada leitor, na tessitura dos textos, nas breves legendas de Ângela B. Leal e Roberta Felix que adornam a profusão de admiráveis fotos, a tradução para o inglês e os agradecimentos que encerram as suas 240 páginas. Parabéns a todos os que participaram desse trabalho singular feito em 2011 e, desde já, histórico. Viva Fortaleza.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/03/2012

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LIMPAR TUDO – Diário do Nordeste

É hora de limpar tudo. Não só a classe política deve ter ficha limpa. Todos precisam ter ficha/vida limpa. Quais as razões de pessoas, ou seus grupos, se perpetuarem no poder em entidades de classe que usam dinheiro das empresas e trabalhadores? Como admitir que eleições sindicais e classistas sejam, quase sempre, um simulacro?
Você tem ideia do gasto com essa conjuração que remonta ao século XX? Pesquisem pela internet e verifiquem quem comanda o quê. Há dirigentes reeleitos de certas entidades empresariais que nem empresas possuem. O mesmo acontece em alguns sindicatos de trabalhadores. A gastança é grande.
Brasileiro não deve ter medo ou ser subserviente, seja pessoa, empresa, entidade ou repartição pública. A cidadania dá direitos iguais a todos. Se você endeusa alguém, ele(a) passa a acreditar que realmente é importante e o olha de cima para baixo. O Estado não faz favor quando cumpre bem a sua tarefa. Não seja Maria vai com as outras. Cobre resultados pelos muitos impostos pagos.
Você tem direitos. Veja o art. 5º. da Constituição. Nada é de graça no Brasil. Informe-se, leia, critique, opine. Exija sempre nota fiscal ao comprar. É seu direito. Como ficar indiferente se todos os dias os meios de comunicação mostram escândalos envolvendo poderes, ongs, fundos de pensão, empresas, bancos, fundações, licitações e concessões? Toda autoridade recebe delegação da sociedade. Se não cumprir, rua. Os agentes públicos devem satisfação e transparência à sociedade. A hora do bem bom passou. Ficha limpa para todos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/03/2012.