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DELMIRO E EDSON – Diário do Nordeste

Em 1966, o gaúcho Viana Moog, que havia morado nos Estados Unidos, escreve o livro/ensaio “Bandeirantes e Pioneiros”, comparando a colonização e o desenvolvimento americano geométrico, pela ética calvinista, ao crescimento aritmético brasileiro, decorrente da herança católica e portuguesa.
Agora, Jacques Marcovitch, ex-reitor da USP, agrega à historiografia brasileira, em três livros, seminários e exposição itinerante, retalhos significantes da vida empresarial começando com o menino pobre que virou o Barão de Mauá. Marcovitch parte do século XIX e perpassa o XX e, ao cabo, escolhe 24 empreendedores/pioneiros.
Nesse panteão estão dois cearenses: Delmiro Gouveia e Edson Queiroz. Delmiro nasceu no Ipu. Foi menino para o Recife e lá construiu o primeiro centro comercial no Derby. Ameaçado, vai para os confins das Alagoas extremando com a Bahia, onde explodia gloriosa a cachoeira de Paulo Afonso. Engenhoso e brilhante, Delmiro teve o pioneirismo de criar a primeira hidrelétrica do Brasil para movimentar a sua indústria de linhas. Morreu assassinado aos 54 anos.
Edson Queiroz veio criança de Cascavel, ajudou o pai comerciante e, tal como Delmiro, criou o primeiro centro comercial de Fortaleza, o Abrigo Central. Em seguida, explorou a venda de gás butano em quase todo o país, fundou indústrias, montou um sistema de comunicação e coroou sua vida implantando uma universidade, referência no Nordeste. Edson empregava milhares de pessoas quando faleceu aos 57 anos. Recomendo a todos em busca de um destino essa educativa exposição no Espaço Cultural da Unifor. Vale a pena. É grátis. Vá.

João Soares Neto,
da Academia Fortalezense de Letras
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/02/2012.

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FORTALEZA VIVA – Jornal O Estado

Deparo-me, por acaso, com um livro rico de capa dura e uma bela paginação intercalando textos, fotos antigas e contemporâneas. Sua capa mostra a Praça do Ferreira, não a antiga, mas a revisitada ou relida pelos arquitetos Delberg Ponce de Leon e Fausto Nilo. Creio que não entendi bem a explicação da foto da capa: “Praça do Ferreira – no fim dos anos 1960, a Coluna da Hora foi demolida, e em projeto de 1991 retornou à praça…”. A bela foto de Gentil Barreira já é da praça reformada em 1991. A estrutura da antiga Coluna não era em aço. A que aparece na capa é a releitura estética de Delberg e Fausto. Não há década de 1960. Há a década dos anos sessenta. Tirando esses pequenos detalhes, afora outros, há que se louvar a pesquisa de muitos e a organização de Patrícia Veloso, para a Terra da Luz Editorial. “Viva Fortaleza” teve o forte e decisivo apoio da Oi Futuro, Newland, Guanabara, Sobral & Palácio e o patrocínio da Oi, Coelce e Banco do Nordeste. Consta como realização do Ministério da Cultura, sem menção à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, tampouco da similar da Prefeitura de Fortaleza.
O exemplar que li me foi dado, a pedido, pelo engenheiro civil Luciano Cavalcante Filho, um dos responsáveis por incorporar edifícios sitiados no antigo bairro do Outeiro, hoje Aldeota, bem como na orla marítima. Fortaleza, em agosto de 1950, me via de calças (curtas) e paletó de casimira azul marinho com camisa branca, em trajo da Primeira Comunhão, na Rua Floriano Peixoto, entrando no Foto Moderno. Esse estúdio ficava do lado do sol, como se diz por aqui, no trecho entre as ruas Pedro Pereira e a antiga Trincheiras, depois Liberato Barroso. O calor do pós chuvas não era sentido por mim, garboso infante que, de vela enfeitada e laço de fita no braço direito, deixava-me fotografar.
Dali, com a minha mãe, fomos andando a pé para comer pastéis com caldo de cana na Leão do Sul, mercearia sortida, que ficava no lado sul da Praça do Ferreira, defronte ao Posto Mazine, no começo do antigo Beco dos Pocinhos, depois Rua Pedro Borges. Quase três da tarde. Saciados, ouvimos o repicar das triplas badaladas do antigo relógio da Praça do Ferreira. A praça de então era sombreada com fícus benjamins e dividida em alamedas paralelas que albergavam carros particulares e os de praça, precursores dos futuros táxis. No seu lado norte, entre a Rua Guilherme Rocha e a Travessa Pará, fulgia o novo Abrigo Central, construído, mediante licitação, na administração do Prefeito Acrísio Moreira da Rocha, pelo jovem empreendedor Edson Queiroz. Atravessamos a praça em diagonal e entramos na loja Flama, afamado magazine, vizinha ao edifício São Luiz que se erguia morosamente. Pulemos para o ano 1959. Meu pai havia comprado uma casa de pescadores (lado do mar) para passarmos as férias na praia. Era na altura da atual Nunes Valente. Mero calcamento tosco. Logo após veio o começo da construção, a casa foi ao chão, a via ficou pronta em 1963 e em 1964 recebeu o nome de John Kennedy, em homenagem ao presidente americano assassinado em 23 de novembro do ano anterior. Protestos de muitos a fizeram passar a ser a Av. Beira Mar. Isso já é outra história.
A publicação começa com uma profunda análise de Paulo Linhares sobre “A Fortaleza de Alencar” e agrega textos de qualidade de Ângela Gutiérrez, A. Carlos Coelho, Cláudia Albuquerque, Clélia Lustosa, Demitri Túlio, Fausto Nilo, Francisco Neto Brandão, Gylmar Chaves, Isabel Gurgel. Kadma Marques, Lira Neto, Natércia Pontes, Oswald Barroso, Peregrina Campelo, Régis Lopes e Romeu Duarte. As fotografias são de Alex Costa, Alex Uchoa, Bia Sabóia, Drawlio Joca, Fábio Lima, Gentil Barreira, JoOão Luís, João Palmério, Leo Kaswiner, Lia de Paula, Maurício Albano. Nelson Bezerra, Silas de Paula e Thiago Gaspar. Além de textos e fotografias atuais, esculturas de Sérvulo Esmeraldo e Zenon Barreto, contém ainda acervos fotográficos e objetos de pessoas amantes da cidade.
Esta sofrível e corrida Ficha Técnica tem apenas o objetivo de despertar a curiosidade dos que aqui viveram entre 1950-2010 ou a ela foram chegando, vindos do interior e de outros estados. Escolhi apenas a Praça do Ferreira como chamariz, pulmão e alma de Fortaleza. E um mero registro da construção da Av. Beira-Mar. O resto da cidade poderá ser descoberto, por cada leitor, na tessitura dos textos, nas breves legendas de Ângela B. Leal e Roberta Felix que adornam a profusão de admiráveis fotos, a tradução para o inglês e os agradecimentos que encerram as suas 240 páginas. Parabéns a todos os que participaram desse trabalho singular feito em 2011 e, desde já, histórico. Viva Fortaleza.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/03/2012

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LIMPAR TUDO – Diário do Nordeste

É hora de limpar tudo. Não só a classe política deve ter ficha limpa. Todos precisam ter ficha/vida limpa. Quais as razões de pessoas, ou seus grupos, se perpetuarem no poder em entidades de classe que usam dinheiro das empresas e trabalhadores? Como admitir que eleições sindicais e classistas sejam, quase sempre, um simulacro?
Você tem ideia do gasto com essa conjuração que remonta ao século XX? Pesquisem pela internet e verifiquem quem comanda o quê. Há dirigentes reeleitos de certas entidades empresariais que nem empresas possuem. O mesmo acontece em alguns sindicatos de trabalhadores. A gastança é grande.
Brasileiro não deve ter medo ou ser subserviente, seja pessoa, empresa, entidade ou repartição pública. A cidadania dá direitos iguais a todos. Se você endeusa alguém, ele(a) passa a acreditar que realmente é importante e o olha de cima para baixo. O Estado não faz favor quando cumpre bem a sua tarefa. Não seja Maria vai com as outras. Cobre resultados pelos muitos impostos pagos.
Você tem direitos. Veja o art. 5º. da Constituição. Nada é de graça no Brasil. Informe-se, leia, critique, opine. Exija sempre nota fiscal ao comprar. É seu direito. Como ficar indiferente se todos os dias os meios de comunicação mostram escândalos envolvendo poderes, ongs, fundos de pensão, empresas, bancos, fundações, licitações e concessões? Toda autoridade recebe delegação da sociedade. Se não cumprir, rua. Os agentes públicos devem satisfação e transparência à sociedade. A hora do bem bom passou. Ficha limpa para todos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/03/2012.

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ALINHAVOS SOBRE O DIA DA MULHER – Jornal O Estado

Será que ainda precisamos comemorar o Dia da Mulher? O mundo tem mudado como um míssil. Quem era fraco passou a ser forte. Seria o caso da mulher? Quem era oprimido se liberta. Seria o caso da mulher? Quem sofria preconceito passou a ser referência. Seria o caso da mulher? Quem sustenta a família é o chefe dela. Seria o caso da mulher? Quem chefia empresas dá ordens. Seria o caso da mulher? Quem ia para a guerra era forte. Seria o caso da mulher? Creio que essas perguntas não cabem mais. Ou cabem? Decida.
Quais seriam as mulheres que merecem ser lembradas? Claro que você deve rememorar e reverenciar mulheres, no singular ou plural. Mas no imaginário dos homens há mulheres que poderiam ou careciam ser lembradas. Aqui e alhures. Quem você recordaria na sua cidade, no seu estado, no Brasil e no mundo? Podem ser ocupadas ou desocupadas. Domésticas, profissionais liberais, servidoras públicas, cientistas, executivas, políticas, religiosas, militares, ativistas sociais, o que for. O tempo de hoje não permite proibição. Veja quem se destaca no que faz, seja qual a atividade escolhida. Não esqueça de parar um pouco e pensar. Imagine-se convidando essa pessoa – e ela aceitando – para um encontro a dois.
Onde e quando seria tal encontro? Um almoço ou jantar? Capricharia na roupa ou sairia com a que está no trabalho? Levaria flores ou outro mimo? Que bebida você pediria? Um destilado, vinho, cerveja, refri ou uma simples água? Respeitaria a preferência dela? Qual a entrada para acompanhar a bebida? Dividiriam um prato? Ou cada um escolheria o seu? Dize-me o que comes; eu te direi quem és, falava Brilliant-Savarin, escritor francês. Falariam sobre música? Qual gênero? Cantor (a) preferido (a)? Cidades que gostam? Falariam de seus passados ou questionariam o presente? Será que ela ou você sabe o que é resiliência?
Essa palavra tem origem na engenharia e mostra a capacidade e o tempo que um material leva para se recompor, como algo que é comprimido e, em seguida, solto. Agora, a psicologia adotou a palavra para dizer se nos recuperamos rapidamente, voltando ao estado normal, ou ficamos remoendo o passado. O resiliente sabe que foi chamuscado, mas aquilo logo passa. Tudo volta ao normal. E o que é o normal?
Voltemos ao encontro. Faltando luz, você ficará aflito? Ou tomará a mão de sua companhia e dirá: não se preocupe, estou aqui. Lembro do que aprendi comigo mesmo: ninguém completa ninguém. Você não se basta, mas não tem vazio ou falta pedaço. Isso é bobagem de livro de auto-ajuda. Os desejos, quase sempre, não são semelhantes. Dialogue com a sua companhia sobre limites ou a falta deles. Encontro não é farsa. É aconchego. Caso seja romântico tente assobiar ou solfejar uma música do seu agrado. Qual seria a reação dela? Franziu a testa ou sorriu aprovando? Não faça gênero, seja o que é, se deseja voltar a encontrar com ela. No tal dia, se acontecer, ela descobrirá que tudo era fingimento ou confirmará a sua personalidade. Não crie grandes esperanças, Carpe diem. O passado já era. O presente se cria e o futuro a Deus pertence. Salvo para os ateus.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/03/2012

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AFINAL, O QUE ESTAMOS VENDO E VIVENDO? – Jornal O Estado

Os cientistas sociais, a imprensa, o governo com os seus órgãos de segurança/informação e a política brasileira foram abalados em seus alicerces. Como não prever o que aconteceu e vai continuar a existir nesta nova onda de protestos que, mesmo sem querer, parece ter sido atiçado em mínima parte, por uma inventiva propaganda de uma marca de veículos?
Essa propaganda objetivava a simples venda de veículos e clamava a todos: vão para a rua. Comprar carros e ir para a via limpa, bonita, asfaltada, sinalizada, segura e desfrutar da liberdade de pagar um carro, com juros, por longos anos. Essa é a quimera. A realidade, outra.
Um cartaz de manifestante fez o contraponto a essa falsa ilusão consumista de todas as classes sociais. Seu texto: “País desenvolvido não é onde pobre tem carro, é onde o rico anda de transporte público”. E, um detalhe, nele não se falou sequer nas motocicletas, vendidas em longo prazo. Tão longo que boa parte dos seus guiadores é acidentada, antes mesmo de concluir os pagamentos, nos trânsitos caóticos de nossas cidades.
A empáfia das elites, da política brasileira e das propagandas que desejam vender tudo a qualquer preço, contavam – espalhavam – que o Brasil vivia o melhor dos mundos. Nada nos atingiria. As crises do mundo, não nos diziam respeito. Todos os brasileiros teriam acesso a tudo. De tanto comparar a propaganda massificada com a realidade, o povo cansou.
Depois da casa, móveis financiados – para minorar a crise da indústria moveleira. Tudo bem. Mas como e com que pagar as prestações da casa, dos móveis, da moto/carro, a alimentação e a conta da luz. A inadimplência aumentou.
Não há essa elevação tão explícita da pobreza a uma nova classe média. Há uma falsa ideia do seja a nova classe média. Há um mimetismo a partir de roupas, sapatos e adereços falsificados vendidos por camelôs em vias públicas de todo o país. Tudo espelhado em novelas mirabolantes com escancarado “merchandising” de tudo o que possa, subliminarmente, influir no desejo humano.
Seguindo os cânones mundiais, a caracterização político-econômica do perfil da nova classe média brasileira é um factóide, uma quimera, uma manobra. E quem foi para as ruas, de início, não foi essa ainda dita classe emergente, mas a velha classe média – a imprensada entre o desejo e a capacidade – que se sentiu lograda em todas as suas pretensões. As famílias de classe média têm, entre outros poucos objetivos, formar e encaminhar os seus filhos na vida.
Hoje, há cerca de sete milhões de universitários no Brasil. Alguns estudam em poucas universidades públicas e privadas de bom e razoável nível de excelência. A maioria se compraz a cursar sofríveis e medíocres faculdades para ser dono de qualquer graduação. Puro auto-engano. Todos os anos a sociedade lança profissionais que não são absorvidos por suas baixas qualificações. Há tantas profissões e oportunidades e poucos conseguem um emprego privado razoável. O Brasil produtivo precisa de gente qualificada e não há.
Por outro lado, faz certo tempo que se criou uma nova esperança nas famílias: a de ter seus filhos aprovados em concursos públicos. O emprego público gera uma suposta garantia de segurança para o futuro. São poucos os que passam. Os demais mandam currículos para empresas de recrutamento ou, através de amigos/parentes/políticos, tentam ocupação ou atividades terceirizadas por órgãos públicos para os quais não têm, em bom número, disposição de trabalho e as aptidões básicas necessárias.
Essa massa de jovens, sem esperança, quando não delinque, inferniza seus pais com demandas provocadas por uma sociedade de consumo em que a falsa aparência no vestir disfarça a ausência de conteúdo e equilíbrio para enfrentar a realidade.
Não estou dizendo que os milhões que foram às ruas são pessoas assim, mas certamente são os que se sentiram enganados por promessas de um país já quase rico e em que todos teriam oportunidades iguais. Não é a verdade. Só os preparados alcançam algum “sucesso”, essa falsa palavra que não traduz a verdade da vida.
Esse caldo, esse ressentimento coletivo, oriundo da maciça divulgação pela imprensa de desvios, desmandos, impunidades e dos exagerados gastos e cuidados com os preparativos de eventos esportivos, forjaram o estopim deste junho em que estádios novos, por conta dos altos preços cobrados, estavam repletos de gente das classes alta e média, convidados de empresas, governos e instituições, turistas, jornalistas, artistas e pouca gente do povo. Pobres, nem pensar. Sequer como vendedores ambulantes. E o futebol se diz esporte popular.
Nos entornos dos estádios havia mais gente que dentro das “arenas”. Eles intuíram que muita coisa estava errada, pelo aparato policial ostensivo. Ainda não existia sabedoria sedimentada para expressar, com clareza, esses muitos desacertos reclamados. Aconteceu o caos, gente séria, baderneiros e os infiltrados de sempre.
Agora, há uma infinidade de explicações da mídia, de articulistas e de cientistas políticos após as passeatas inovadoras, permeadas por vandalismos de marginais que capitalizam as aglomerações para os seus delitos.
As explicações, inclusive esta minha, são apenas sentimentos, esboços ou exteriorizações sociológicas que não resolvem essa questão ou o impasse em que o Brasil se meteu, depois de tanta orgia com o dinheiro público.
Agora, depois da fala da presidente Dilma e dos ajuizamentos contundentes do presidente do STF, Joaquim Barbosa, é hora de repensar, estudar e esperar que o nosso país pare de propagar o que não é possível fazer ou ser. Que cuide, pelo menos, de fazer o mínimo que a sociedade cobra. Nada de grandeza. Chega de fanfarra. Os políticos, de todos os matizes estão cautelosos, conjeturando e digerindo a crise. E você?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28/06/2013.

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SISTEMAS E ESQUEMAS – Diário do Nordeste

A presidente Dilma afirma apoiar a democracia das ruas. Pede um pacto social. O povo exige ações e transparências. As empresas têm CNPJ e as pessoas, CPF. Eles nos desnudam para bancos, governos, empresas, imprensa etc. Há muito a ser revelado nas artes e manhas da administração pública.
Muitos indagam por que um sindicato nos representa, sejamos nós pedreiro, engenheiro, administrador ou gráfico? Os sindicatos, patronais ou de empregados, são dirigidos por grupos que deles se apoderam e não os largam. Arrecadam, sem pena. Vejamos o Sistema “S”, criado pela ditadura Vargas, há 70 anos.
Cada Estado tem ricas federações com o grosso dinheiro das contribuições sociais de lutadores e patrões. Elas encastelam afilhados, realizam viagens para o nada, dão festas, prêmios e até prestam serviços sociais com cursos que, quase nunca, são gratuitos. Olhemos o caso da Federação das Indústrias de SP, a FIESP, cujo grande prédio está iluminado de verde-amarelo, neste junho. Pois bem, o seu presidente usa o prestígio e os recursos da entidade para autopromoção a uma possível candidatura à Prefeitura de SP. Do lado dos trabalhadores, é o mesmo e ainda elegem deputados que apenas lutam pela manutenção de privilégios. E proliferam.
Não esqueça, por fim, que os governos sempre contratam as mesmas empresas para todos os serviços e obras. Elas recebem financiamentos do BNDES e até são associadas de órgãos estatais. O modelo se reproduz em alguns estados e municípios. É hora de abrir essa caixa preta. O povo quer e deve saber.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/06/2013.

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SOCIEDADE CONSULAR – PRESTAÇÀO DE CONTAS – Jornal O Estado

Administrar a Sociedade Consular do Ceará- SCC, no biênio 2011/2013, foi uma honra, uma oportunidade, uma responsabilidade e restou provado que muito deveria ser percorrido e feito. Assim, com a ajuda dos colegas, levei a bom termo a missão que me foi confiada. Terça-feira, 02 de julho de 2013, aconteceu a posse da nova diretoria, encabeçada por Ednilton Soárez, cônsul da Finlândia, executivo exponencial, administrador público que saneou as finanças do Ceará e empresário de sucesso nos ramos educacional e de entretenimento. A essa comemoração compareceram autoridades e uma parcela da significativa coletividade de Fortaleza.
Nesse período de dois anos, saneamos a situação financeira do quadro social e hoje estamos com 300% a mais em caixa.
Todas as despesas foram assumidas, pessoalmente, pela presidência. Destacamos como os pontos mais relevantes da gestão:
1. A SCC teve a honra de ser homenageada pela Câmara Municipal de Fortaleza, por ocasião do Dia do Cônsul, em agosto de 2012. Nessa mesma ocasião, reparando omissão e fazendo justiça, outorgamos a “Medalha Bertrand Boris” ao ex-presidente e sempre companheiro, Luciano Montenegro.
2. Visitamos, em comitiva, o Complexo Portuário do Pecém.Ficamos informados de sua implantação e já cientes de sua expansão.
3. A convite do Secretário Ferrúcio Feitosa, que gentilmente nos recebeu, tivemos, como visitantes, a antevisão do ora já inaugurado Estádio (Arena) Castelão.
4. Igualmente, fomos recepcionados no quase concluído, à época, Centro de Eventos do Ceará. Esse equipamento, já em operação efetiva, deu um diferencial de qualificação ao setor de congressos, shows e exposições em Fortaleza.
5. O então comandante da 10ª. Região Militar, general de divisão Gomes de Mattos, nos ofereceu almoço festivo nas dependências do monumento histórico que é antiga Fortaleza da Nossa Senhora da Assunção.
6. Contatamos com a Dra. Mônica Barroso, dirigente da Coordenadoria de Políticas Públicas para a Mulher, para a concretização da ideia de um Censo para um maior amparo às mulheres estrangeiras presidiárias em nosso Estado. Elas, em sua maioria, são abandonadas por seus ex-companheiros, para quem serviam de “mulas” ou portadoras de drogas. O vice cônsul da Itália, Roberto Misici, foi interlocutor para assuntos de direitos humanos.
7. Fizemos, em agosto de 2011, em parceria com o Consulado da República Tcheca e a Galeria Benficarte, exposição, com coquetel, de reproduções fotográficas denominada: “Joze Plecnik – O Arquiteto de Praga”.
8. Realizamos duas festas de congraçamento de Natal, inclusive com a edição de músicas natalinas dos países cujos sócios honorários pertencem à SCC.
9. As nossas reuniões mensais aconteceram, com boa frequência, em datas previamente avisadas por e-mail e/ou telefone. Nelas discutimos as pautas necessárias ao nosso convívio.
10. Acrescente-se que A SCC passou a constar, oficialmente, nas seguintes publicações anuais ou bienais: “Anuário do Ceará”; – “Sociedade Cearense”; e “Personalidades Cearenses”.
11. Fomos recebidos, em audiência especial, pelo Governador do Estado, Cid Gomes, ocasião em que apresentamos sugestões para que os setores de comunicações e de turismo tivessem a acuidade de exercer uma programação visual multilíngue – o que foi cumprido – para os pontos turísticos do Ceará, aproveitando as copas das Confederações, já acontecida, e a do Mundo, a realizar-se em 2014.
12. Sugerimos ao governo do Estado, apresentando um estudo preliminar arquitetônico, para implantar uma espécie de panteão no passeio externo da face da Av. Barão de Studart do Palácio da Abolição com mastros e bandeiras dos países participantes da copa do Mundo. Essas nações sentir-se-ão gratificadas com a gentileza.
13. Igualmente, reinvidicamos ao governador Cid Gomes o preenchimento da vaga de Assessor de Assuntos Internacionais. Fomos atendidos. Ele designou o advogado Dr. Hélio Leitão Neto, mestre em direito, ex-presidente da OAB-Ce e professor universitário.
14. Decorrente da atuação da Assessoria de Assuntos Internacionais recebemos da Secretaria de Segurança a comunicação de que toda e qualquer ocorrência policial com naturais dos países que representamos nos serão imediatamente comunicadas.
15. Do ponto de vista de gestão, atualizamos os Estatutos Sociais, passamos a emitir boletos de cobrança bancária, comunicação via e-mail, criamos um site e distribuímos “bottons” a todos os associados.
Este histórico é um simples registro. Nada mais que isso. Ele enseja o conhecimento público das ações da Sociedade Consular e dos países e cônsules honorários que a integram: Alemanha (Dieter Gerding, Áustria (Reinhilde Lima, Belize (Airton Teixeira), Colômbia (Maurício Durán), Dinamarca e Noruega (Marcos de Castro); França (Fernanda Jensen), Finlândia (Ednilton Soárez), Hungria (Janos Fuzesi e Zsofia Eross), México (João Soares), Noruega, Portugal (Francisco Brandão), República Tcheca, Romênia (Luciano Maia) e Uruguai (JMaria Zanocchi). Agradeço, por fim, a cobertura jornalística desinteressada e espontânea de todos os veículos de comunicação cearenses em difundir os nossos principais eventos consulares, inclusive visitas de embaixadores e em missões culturais e comerciais.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/07/2013.

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BILHETES TROCADOS – Diário do Nordeste

Hoje é uma troca de bilhetes. O meu foi a lápis no nascimento da “Ferrugem”, filha sardenta. Hoje, mãe de três lindas filhas. Ela emoldura o final.
02.07.1973 – Esta carta é a sua apresentação ao mundo que a recebeu neste julho das férias, do sol, dos ventos do Ceará de 1973. Carta patética de um pai para uma filha recém nascida. Sua mãe deu-lhe a luz e eu, o mundo que é todo seu. Seu para poder explorá-lo, amá-lo e gozá-lo. Seu sem reservas, sem peias, sem medo. Não lhe prometo tradições. Sou como sou. Homem com defeitos. Homem que nasceu para viver com liberdade. Que nasceu para lutar e conseguir. Para se alegrar com suas vitórias e esconder os desencantos.
Não lhe prometo riquezas; prometo muito trabalho. Não lhe prometo riquezas. Prometo muito trabalho. Não lhe prometo glórias; prometo muita luta. Não lhe prometo felicidades; prometo amor, por toda a vida. Quem me dera pudesse lhe dar tudo. Tudo não será possível. Vou ter que lhe negar. Vou ter que ser pai. Pai como sinônimo de amigo. Liberal, atualizado, risonho.
Sisudo, se for preciso. Prometo ir vendo o mundo mudar. Na mudança, ir guiando-a. Guiando de leve, sem força, com ternura. Já fiz as minhas promessas. Lutarei para cumpri-las. Não lhe peço nada em troca. Você já é muito para mim.
02.07.2013 – Pai, obrigada pelo mundo! Tenho explorado, amado e gozado o melhor que posso. O mundo mudou muito, mas acredito que o princípio para viver e ser feliz continua o mesmo: amar e ser amado. Hoje me sinto amada e sinto um amor enorme por você. Ferrugem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/07/2013

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AMIGO FALANTE – Jornal O Estado

“Meu maior pecado como escritor é jamais enganar, jamais querer agradar. Essa é minha forma de prestar serviço a quem me lê semanalmente”. L.Felipe Pondé
Sempre gostei de conversar com gente mais velha. É costume. Fui sempre amigo dos amigos do meu pai. Ouvia-os e, vez por outra, dava um palpite, uma opinião. Um deles, o saudoso Dorian Sampaio, colocou-me no mundo das discussões de assuntos sérios e dos nem tanto. Agora, recebo e-mails de amigo sobre o que está acontecendo no Brasil. O contorno dele: engenheiro, professor universitário, festejado, lido e viajado. Hoje, aposentado e apoquentado.
Ele escreve com desenvoltura e tem até perfil no Facebook. Acompanhou todas as manobras do MPL- Movimento Passe Livre e até postou algumas micromensagens. Agora, me vem com uma tese que diz acalentar a algum tempo e pede que eu a torne pública. Refutei: escreva para os jornais. Ele respondeu: cortam tudo nas cartas dos leitores e não dão espaço para desconhecidos. E insiste em dizer o que pensa. Vamos lá. Vou tentar sintetizar: ele não faz fé em economistas, mesmo os que, como ele, têm pós-graduação.
E, incisivo, pergunta: “qual foi o economista do mundo que previu a crise de 2008? Todos ficaram procurando desculpas e foram pegos de calças curtas. Depois, começaram a explicar o que não previram”. Detona Delfim Netto, André Lara Rezende, Paul Singer, Aloisio Mercadante, todos os ex-presidentes do Banco Central – que viraram empresários financeiros – e nem livra, sequer, os prêmios nobéis de economia.
Todos, segundo ele, queriam ser engenheiros, não passaram no vestibular e acabaram economistas. Peço para se acalmar. Ele escreve: estou revoltado com tudo. Arenga com o uso dos aviões da FAB e diz um nome feio. Mudo de assunto. Dou um tempo. Novo dia: leio e-mail: “E os cientistas sociais?” Até o Fernando Henrique entrou na conversa.
Afirma que “FHC anda namorando uma moça de menos de 40 e está se lixando para nós. Os cientistas políticos foram todos ludibriados com o engodo que se armou no Brasil já faz anos”. Pergunto se conhece ou lê Renato Janine Ribeiro, professor de ética e filosofia. Diz que sim, mas não fiquei bem certo. Mas, segundo ele, “todos os analistas políticos e sociais erraram feio ao não prever que o Brasil era uma bolha”. E manda brasa: “como o BNDES, banco do governo, pode ser sócio e emprestar dez bilhões ao Eike Batista? Como esse banco aposta muito no Friboi? Cada um que cuide de sua empresa, o governo teria que formar gente como eu, prepará-las para a vida. É hora de acabar com o embuste que é o SUS e o sistema hospitalar público”.
Dei um trégua, mas joguei uma isca no e-mail de retorno, dias depois: como é que você entrou no Facebook, pois os tais manifestantes são jovens e têm idade de serem seus netos? . Agora, ele vem com a tese de que Lula, ao voltar da África, dirá que tudo isso é culpa da elite burguesa que não tem o que fazer e está requentando o mensalão, desestabilizando a Dilma e pegando corda do “Estadão” e da Folha de SP.
Paro por aqui. Vocês concluam. Mandei uma cópia para ele.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/07/2013.

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FLIP E FLUPP – Diário do Nordeste

O Brasil está rediscutindo tudo. Não me refiro apenas às manifestações em curso, mas à cultura que hoje se faz no País. Gilberto Gil, em plena Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip-2013, falou sobre a conquista da Copa das Confederações: “O lugar para onde os jogadores correram para abraçar a torcida não tinha matiz racial brasileira, era esbranquiçada”.
Elementar, meu caro Gil. Pense nos preços dos ingressos. Ora, dizer isso em Paraty, cidade histórica fluminense, entre o Rio e São Paulo, em encontro rico, na primeira semana deste julho, sob o clima ameno do inverno, financiado por banco e em evidente empobrecimento…
Parte dos convidados não compareceu e faltou até tema para discussão. Improvisaram com a indignação dos jovens. Será que Gil foi para lá de graça? Não sei. Já fui à Flip e talvez não vote. Nada de especial, tendas, os “bichos grilos” de sempre, cariocas e paulistas “descolados” e artistas de moletons, todos rindo nas fotos, conversa fiada, editoras faturando e até um pouco de cultura, em suas várias formas.
Vai daí que a Flip provocou, no ano passado, a criação de uma sucursal nas favelas (lembram da Daslu e da Daspu?) do Rio. Pois bem, neste 2013, a Festa Literária das UPP- a FLUPP das favelas pacificadas pela polícia aconteceu nesta semana, na Penha, zona norte, quando autores estrangeiros vindos da Flip debateram, de graça, com o povo e até com intelectuais de vários matizes. Não soube de Gil por lá. Teria a oportunidade de trocar a verba pelo verbo, em área violenta e pobre, ainda em batalha e sem polícia pacificadora.

João Soares Neto
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/07/2013