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PORTE DE ARMA

Ao ler, no pachorrento domingo passado, o caderno Veículos da Folha de São Paulo, deparei-me com a reportagem de capa sobre o Salão do Automóvel ora em consumação em Genebra, na Suíça. Não se preocupem, não vou falar dos veículos, seus modelos arrojados e futuristas, mas de uma observação quase solta, que mostra como é vista a segurança em nosso país. Ao comentar determinado modelo, cuja marca não vem ao caso, o repórter diz de forma corriqueira, acidental e banal que “o teto fechado ajuda em países violentos como o Brasil”.
É assim como nos enxergam hoje, um país violento, ilhado pela desigualdade que gera insegurança individual e coletiva, o que está causando paranoia em muitas pessoas. Todos querem ficar fechados, isolados em suas casas gradeadas, com medo do que possa acontecer nas ruas, como se não bastassem os outros golpes comedidos por espertos.
Fiquemos apenas nas ruas. Hoje, todos conhecemos pessoas que foram vítimas de assaltos quando estavam aguardando em seus carros a abertura do sinal, dito semáforo. Todas as cidades têm pontos considerados “negros”, isto é, onde os assaltos ocorrem com frequência regular. A própria polícia nomina os cruzamentos perigosos e a imprensa os divulga. Assim, ao invés de eliminá-los, torná-los livres para todos, indica-se que é preciso contorná-los ou correr o risco.
Estar sitiado em sua própria cidade passa a ser um fato que pode modificar comportamentos de pessoas pacatas, responsáveis e sérias. Avultam os assaltos em transportes coletivos e em veículos particulares. Nesta semana, ouvi relato em roda de amigos, dito pela própria senhora assaltada, ao cair da tarde, voltando de seu trabalho, em uma avenida de grande circulação. Ouviu um grande barulho e teve dois vidros do seu carro quebrados simultaneamente por assaltantes. Um, quebrou o vidro traseiro esquerdo. O outro, o vidro direito, lado do passageiro, no banco dianteiro. Ao mesmo tempo, um roubava a sua bolsa que estava no chão traseiro do carro e, o outro, armado de uma faca, ameaçava-a e desferia palavras de baixo calão, tomando-lhe pertences, inclusive celular.
Atônita, tentou reagir e teve a sorte de sair viva, embora traumatizada. Em seguida, fez o registro da ocorrência na polícia, sem esperança de solução. Resolveu tomar uma atitude, vai fazer um curso de tiro e tentar obter um porte de arma, pois este foi o segundo assalto que sofreu.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/03/2006.

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MULHERES, SUTILEZA E CAPACIDADE

A revista Forbes, editada no Brasil, resolveu escolher a alguns meses, mediante eleição pela Internet — o que é democrático, justo e evita direcionamento, — as mulheres mais influentes do país. A ideia e o fato demonstram que mulheres estão saindo de meras coadjuvantes para figurarem na vanguarda. Imaginem, há mulheres comandando ou liderando áreas tão diversas quanto agronegócios, hotelaria, preservação do meio ambiente, política, jornalismo, varejo, cosmético, literatura, gastronomia, finanças, medicina e outros.
Não faz muito tempo, o Código Civil restringia as ações da mulher. Precisava da autorização do marido para realizar atos de comércio. Era assim e isso acabou. Acabou, não por deferência dos homens, mas pela mudança na velocidade dos acontecimentos. Isto nos alegra e mostra ser essa transformação mais célere que a capacidade masculina pode absorver. Ela é um terremoto feminino benéfico, eclodido para ficar e alterar as relações interpessoais.
Em ocasião recente, estive em uma roda da qual fazia parte uma das mulheres eleitas. Ela comanda um grande negócio em todo o Brasil. Impressionou-me o seu jeito de levar a conversa para o rumo desejado, mesmo sendo pressionada por interlocutor alemão, sem precisar levantar a voz ou alterar o gestual. O exemplo citado não é fato isolado. Hoje, mulheres ainda jovens, exercem profissões liberais ou lideram pessoas com segurança e leveza, deixando de lado a ideia botocuda de que seus acessos ao poder, quando ocorriam, seriam frutos de concessão masculina.
Os homens, ainda ciosos do poder unilateral, quando não cedem espaço, são atropelados pela sutileza, capacidade, firmeza de atitudes aliadas a rostos simpáticos, mas reguladores de comportamento. Do que tenho visto e de algumas conversas ocasionais com mulheres de ponta, fica bem claro, que elas sabem definir quem são e quais os objetivos pessoais e profissionais a serem alcançados. Haverá um tempo ainda, espera-se breve, no qual homens e mulheres lutarão, explícita ou tacitamente, questionando essa avalanche do sexo feminino como profissionais de bom quilate. Até lá, é bom todos procurarem entender que mérito e capacidade independem de sexo, mas de história de vida, desempenho, garra e liderança.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/03/2006.

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CARNAVAL. CARNAVAIS

Até que fiz planos para este carnaval. Tinha duas boas alternativas. Neste domingo, com certeza, onde estiver, e com quem estiver, terei livros por perto. Pena que já tenha concluído o inteligente romance “Equador”, do português Miguel Sousa Tavares, mas penso reler partes do bom “Tudo Faz Sentido”, ensaios de Raul Bellow, ou lerei algo novo. Mas, o que gostaria mesmo era falar de carnavais passados, sem essa de saudosismo, só lembrança mesmo. Era assim:
Quando meninote, em um dia de carnaval, junto com uma turma, estávamos trepados na carroceria de um caminhão que nos levava ao corso, percorria a av. Dom Manuel e entrava na Duque de Caxias. Na D. Manuel, as famílias sentavam às calçadas e o mais que acontecia era serem saudadas com talco, serpentinas e confetes pelas pessoas dos veículos que passavam buzinando com gente nos estribos ou sentada em seus para-lamas. Na Duque de Caxias, era o carnaval de fato, em uma pista, os veículos, na outra, os blocos e maracatus. Música, gente pulando, o bloco dos “sujos”, mas a polícia só fazia olhar. Não havia brigas e, quando ocorriam, logo serenavam. Pois não é que nesse dia aspergi todo um tubo de lança-perfume em uma encabulada colombina que tentava se equilibrar dos solavancos do caminhão.
Já adolescente, azucrinei meu pai para me levar a uma festa noturna. Só consegui na terça –feira. Seria minha estreia em carnavais noturnos, alegria total. Com jeito de homem, o juizado de menores não encheria o saco, pois estaria acompanhado dos pais. Acontece que já havia combinado ir a uma festa vespertina – tinha disso- na casa de uma amiga. Nada mais que uma sala decorada com qualquer coisa, discos, sucos, sanduíches e vontade de pular de mãos dadas. Resolvi que iria às duas, à da tarde e à da noite. Fui à da tarde, tudo do jeito que imaginara e a paquera foi legal. Cheguei em casa lá pelas oito da noite, tomei um banho, decidi descansar um pouco e só acordei na quarta-feira. O sono era tão profundo que meu pai teve pena de me acordar.
Casado, convidei casais para um drinque na minha casa, antes de irmos à festa no Ideal Clube. Para completar, vestíamos todos uma mesma fantasia e lá fomos nós de apito na boca e muita disposição para brincar. Mesa grande, bebida farta e diversão limpa, sadia. Depois, vieram as festas infantis, mas aí as estrelas eram as filhas e agora, por acaso, estou olhando para uma foto delas brincando em uma matinée. Evoé.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/02/2006.

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UTOPIA E A REALIDADE

Um dia desses, meio por acaso, acessei um desses canais alternativos, de audiência tida como zero, e, para surpresa minha, lá estava José Saramago, o único prêmio Nobel de literatura dos países de língua portuguesa. Pois bem, Saramago, ficcionista dos melhores, dizia, para pasmo de todos, ser contra a utopia, como a queriam Platão em sua República e, depois, muito depois, Thomas Morus. Para Morus, a Ilha da Utopia deveria ser lastreada em dois pressupostos: a abolição da propriedade privada e a limitação das ambições pessoais à necessidade de suprir os interesses coletivos.
Se vi e ouvi bem, e posso não reproduzir com fidelidade, Saramago, a quem tive a oportunidade de ver fugazmente em uma feira de livros lá na Marquês de Pombal, perto da Estufa Fria, em Lisboa, falava que o dia de amanhã é a nossa utopia. E o dia imediato só reproduz o trabalho de hoje. Nada mais chão, mais terra a terra. Nada de intermitências da morte, nada de memorial de convento. Era o lúcido senhor do alto da sua maturidade, mesmo com toda a sua equipagem marxista, dizendo que a vida se faz com trabalho, caminho, determinação, ao invés de utopia.
Ora, utopos é nenhum lugar, qualquer lugar, ou um lugar que não há. O que há parece ser o caloteiro com cara de sério, os puxa-sacos, a violência crescente, a pobreza renitente, a doença escondida, a sordidez das páginas policiais, a promessa não cumprida dos que anunciam muito e se desfazem em desencantos. Mas, o mundo real não é só o que foi dito acima, é muito mais que isso. Ele é também produto da luta humana, da dedicação dos que não estão tramando, enganando, confabulando, matraqueando inconsequentemente, mas aqueles que estão fazendo a sua parte, as tais formiguinhas que muitos gostariam de ser, cigarras que são e nunca formigas serão. Mas, a utopia, paradoxalmente, mesmo que não saibamos, é o que faz o nosso caminho, seja com trabalho árduo, paciência, tenacidade, ou olhos nas transformações, esse vir a ser que começa a cada dia e nos impulsiona dos sonhos à realidade, a que recebemos com todos os sentidos e com a importância da vida.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/02/2006

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HÁ ESTRELAS NO CÉU

Esta semana, o Ceará perdeu duas estrelas. João Clímaco Bezerra e Aldemir Martins. Vieram do Cariri, João Clímaco, de Lavras da Mangabeira e, Aldemir, das Ingazeiras. Vieram pelos caminhos legítimos, naturais e crescentes da vida. Passos lentos, olhares firmes e vontades fortes. Há muitas biografias, resenhas, notícias e críticas sobre cada um. Não me proponho a isso. Desejo dizer apenas serem eles o milagre deste Ceará. São a esperança pessoal transformada em literatura e arte.
João Clímaco, o que veio primeiro, em 1913, fincou-se em Fortaleza, aqui viveu, formou-se em Direito, pertenceu ao grupo Clã, ensinou, escreveu e, já maduro, mudou-se para o Rio de Janeiro, a trabalho. Aldemir veio nove anos depois (em 1922), sentou praça no Exército, participou da Sociedade Cearense de Artes Plásticas e daqui foi também para o Rio, em 1945, e no ano seguinte para São Paulo, de onde as suas artes e cores explodiram.
Um e outro eram cearenses exilados, mas as suas faces, jeito de andar e de falar tinham toda a cearensidade possível. Expressavam-se, por palavras e tintas, como vitoriosos em suas lutas e o faziam, um com a sutileza da crônica e o mistério do romance. O outro, resplandecia nos objetos e animais, as cores fortes que o sol lhe incrustara e dera forma na alma.
Conheci João Clímaco por sua crônica no jornal Unitário, dos Associados. Lia-o com os olhos de menino, a cabeça tentando absorver o dito e o sugerido nas frases sempre bem tecidas e atadas. Depois, fui seu aluno na Escola de Administração. Haviam-no feito professor de psicologia e lá vinha ele de paletó, gravata de laço grosso em crochê e livros a mão, falar de behaviorismo e outros que tais. Uma vez, por conta da não regulamentação da escola, fomos ao Rio em comitiva. Voltamos com a escola legalizada no Ministério da Educação.
Via sempre exposições de Aldemir Martins, gostava de seus galos e gatos. Quando a Ignez Fiúza o trazia para exposições em sua galeria, eu ia por lá. Olhava o seu jeito meio manso, riso fácil e instigante. E foi por lá que comecei o meu pequeno terreiro, vigiado por cangaceiros, a cores e em bico de pena.
Passou o tempo, eles foram ficando por lá, até virarem as estrelas que João Clímaco não encontrara no céu em 1948. Estão lá.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/02/2006.

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PARA LULA, ALCKMIN, SERRA, GAROTINHO E OUTROS

Era um vez, um cara chamado Peter Drucker, o mais importante guru da teoria da administração do século XX. Canadense, mas naturalizado americano, influenciou gerações e gerações de administradores, gerentes, executivos e donos de pequenas, médias, grandes e imensas empresas. Seus livros são conhecidos de todos e não há – ou não deveria existir – uma só pessoa que tenha estudado administração, gerenciado ou dirigido uma empresa sem haver lido algo que Drucker escreveu. Se há alguém, deve ser a exceção para confirmar a regra, mas sugiro procurar qualquer livro de Drucker e comece a ler urgentemente. Ele não dará as respostas que desejamos saber mas, certamente, incitará você a descobri-las com mais atenção e método.
Drucker, morto recentemente, era alto, pachorrento no falar, desengonçado, requisitado para fazer palestras, dirigir seminários e receber honrarias. Por ser um guru já idoso e não se omitir quando questionado, foi, certa vez, indagado que conselhos daria a um presidente da República. O jornal que o questionou foi o The Wall Street Journal, de Nova Iorque, e o presidente eleito se chamava Bill Clinton.
Estou escrevendo na esperança de que alguém faça chegar este ao candidato Lula e aos demais. A experiência de Drucker o fez condensar em 06 pequenas regras o sucesso de uma gestão presidencial. Creio poder valer até para governadores e prefeitos.
As regras foram retiradas de histórias de antigos presidentes americanos, ajustadas por Drucker e condensadas por mim. São elas: 01. O que fazer? É a primeira pergunta que deve ser feita pelo eleito. 02. Concentre-se, não diversifique. Tenha foco, isto é, escolha o que tem de fazer de saída e o faça rapidamente. Cause impacto, execute e conclua. 03. Não aposte ou acredite em uma coisa ou projeto dito seguro. Quase sempre o tiro é falho, faça pesquisas e não siga a sua intuição. 04. Um verdadeiro dirigente não micro administra, não faz varejo e nem tem secretário-geral. E nunca faça uma coisa que alguém possa fazer em seu lugar. Tome a decisão, designe alguém competente para fazê-lo e deixe que o faça. 05. Um Presidente não tem amigos na administração, tem servidores. Essa máxima é de Lincoln. O dirigente que se esquecer disso, viverá para lamentá-lo. Os amigos sempre ficam tentados a abusar da posição e o poder que isto implica. 06. Uma vez eleito, desça do palanque, pare de fazer campanha e governe. Isso foi dito por Truman a John Kennedy.
Alguém vai entregar aos candidatos?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/02/2006.

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OS AVISOS DO CORPO

Estou escrevendo no computador e ouço um choro. É a minha secretária esvaindo-se em lágrimas. Recebera um telefonema. Seu pai acabara de morrer. Perguntei a idade. Era mais novo do que eu. Fico meio apavorado. Fumava e bebia muito, ela disse. E aí lembrei do meu amigo poeta ao me passar recado de seu cardiologista, amigo comum, dizendo que ele, o poeta, não era hipertenso. Não era, mas será, certamente. Será, pela simples razão do corpo pedir respeito. Pede com jeito: não coma demais, trabalho muito por conta disso. Pede com calma: não beba exagerado, veja seu fígado e as consequências para os rins. O amigo poeta, muitas vezes, não respeita seus limites. O corpo pede: vá dormir, e ele fica madrugada afora, catando insônia.
Minha secretária continua chorando. O pai morava longe e lá se vai ela. Liga para a mãe e o choro fica mais controlado. Consola a mãe e diz: logo estará chegando. Enquanto ela agora deve estar em uma dessas Brs esburacada, lembro do meu amigo cronista-psi tossindo feito um condenado. Tosse por fumar em demasia. Sabe disso e não cuida, mas diz se preocupar quando a minha pressão ascende ao bom ou ruim futebol do meu time. Continuo lembrando haver o pai da secretária morrido de infarto, mas invento, para mim: ele só morreu porque fumava e bebia. Todos morrem, nada a ver.
E aí lembro do amigo-editor, meio adoentado, semana dessas, por haver recebido um catatau de exames laboratoriais. Todos estavam bem, exceto um, o do colesterol e isso deve ter mexido com a cuca dele, e aí a pressão disparou e ele foi descansar em casa, de castigo. Pensa ser de ferro. Não é. Tem de se cuidar. Há centenas de lançamentos de autores vários, estreantes, repetentes ou delirantes, a serem feitos e só ele sabe cuidar disso com o seu jeito de quem não quer nada, mandando e-mails, correspondência com convite para todo mundo, telefonemas lembrando o compromisso e levando uísque para molhar o bico dos amigos. Tudo boca-livre. Ele é assim.
Estou lembrando também de outro poeta, ora virando memorialista, a comer de forma pantagruélica. Come de ficar triste e vai embora. Come menos, cara. Lembro de outro amigo que se zanga facilmente. Para com isso, você sofre. Lembro de tanta coisa, mas não esqueço das nossas vidas, responsáveis e, quiçá, inconsequentes. A vida precisa ser cuidada. Ouviu, pessoal?

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/01/2006.

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MICHELLE NÃO É MAIS UMA CANÇÃO

Não sei se todos lembram da canção francesa chamada “Michelle”. Era linda. Hoje, Michelle é nome de presidente de República. Michelle Bachelet, médica, descasada, com três filhos havidos de dois pais diferentes, ex-ministra da Saúde e da Defesa, é eleita presidente do Chile e toma posse agora em março. Ela é a nova mulher, não mais a que recebia o marido ao começo da noite, banhada e empoada, mas a que volta para casa quando a tarefa se esgota. Mas ela não está só.
Neste começo de 2006, mulheres maduras, formação superior destacada, tomam as rédeas de dois países deste mundo emergente em que vivemos. Michelle, no Chile e Ellen Johnson-Sirleaf, assumiu agora o comando da Libéria, país africano, fundado por ex-escravos libertados dos EUA. E na posse de Ellen, economista, pós-graduada em Harvard, estava outra mulher capaz, decidida e de origem simples, pois filha de imigrantes negros: Condoleezza Rice, Secretária de Estado, cabeça pensante americana, mesmo que possa pensar errado. Isto é outra história. O que vale aqui é a vida dessas mulheres. E não é bom esquecer de Angela Merkel, doutora em física, ex-ministra do Meio Ambiente, desde novembro passado, desbancou o poderoso Gerhard Schröder, e é a Premier da Alemanha. Imaginem.
O importante nesta conversa é que mulheres despontam em partes diferentes do mundo e o fazem de jeito bem distintos. Michelle derrotou um empresário multimilionário, Sebastian Piñera, no Chile. Ellen lutou e ganhou de um grande ex-atleta de futebol, George Weah, rico e ídolo famoso. Condoleezza, não tinha ninguém para promovê-la, nem casada é. Há quem diga poder ser em 2008 a candidata, imaginem, do conservador e branco Partido Republicano. Angela era física, morava na parte oriental-comunista e, com a unificação, surgiu como política. E aí está.
Acabaram-se as evitas, as isabelitas, e até as damas de ferro, tipo a Margareth inglesa. Hoje, a lucidez, a coragem, a capacidade, a liderança sutil e o sentimento de inclusão são as forças não só dessas mulheres citadas, mas de todas as outras, anônimas ou não, que não fazem mais só o modelo ‘boa esposa e virtuosa dona de casa’, a espera de um marido exemplar ou de uma pensão, quando o amor finda. É neste mundo novo, tão novo que nós, bichos homens, machistas ou não, ficamos tontos. Há que se aprender a conviver com essas mulheres que crescem, aparecem e permanecem. Deve eclodir um sentimento de júbilo pela nova divisão de tarefas no mundo real, pela certeza de que se poderá ter liderança com delicadeza, profissionalismo com ritmo sensorial, companheirismo sem subserviência ou melodrama, carinho sem hora ou local marcado e amor sem dependência.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/01/2006.

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OS INSUCESSOS DE CADA UM

Tem gente que na primeira ou segunda paulada na moleira passa a reclamar da vida, das injustiças que recebe, da falta de sorte, de desamparo e coisa e tal. Acredita que é o último dos mortais, esquecido por Deus (quando imagina ter fé), família, amigos e que há uma trama contra ele. Mergulha em um alheamento e, não raro, fica deprimido, sorumbático e macambúzio. Esquece que as moleiras são fechadas na infância e ser humano é bicho de cabeça dura.
Não importa quantos anos tenhamos. Não importa que nos digam que é assim mesmo. Não importa que a gente saiba que poderia ter tido um pouco mais de cuidado, atenção, tenacidade, simplicidade e lutado mais. Na hora do insucesso não há consolo. É quase o fim do mundo. Quase. É preciso que se assimile o insucesso e isso leva um tempo. O tempo é relativo, não é absoluto. E cada um tem o seu próprio tempo.
Os insucessos, se bem assimilados, mastigados, digeridos, podem ser uma grande fonte de aprendizado. Eles podem nos tornar mais lúcidos, atentos e vigilantes com os nossos sonhos e realidades. Nada de se associar aos que consideram um insucesso o tal do fim do mundo. Ele não o é. Ele é didático, sábio e se presta para que descubramos a que viemos, as companhias que escolhemos, como estamos traçando os nossos caminhos, e se há jeito de mudá-los. Sempre há.
Eles podem ter o condão de nos tornar mais humildes, menos vaidosos e mais comuns. Gente. Os insucessos são feitos para mostrar que a vida povoa desencontros, topadas, tempo jogado fora com bobagens, a crueza dos espelhos que teimam em nos mandar recados e não escutamos. Enfim, o insucesso pode até ser uma conquista, se dele tirarmos lições, não estas bobas e óbvias que estão aqui listadas, mas as resgatadas da purgação das dores, da nossa história de vida, seja ela breve ou longa.
Tem também aquela historinha manjada do cara que estava perdido numa ilha e conseguiu com muito esforço fazer uma choupana. A choupana pegou fogo. Ele reclamou de Deus e se considerou derrotado. Um navio viu a fumaça do fogo e o salvou. Pois é.
Insucessos podem também servir para mostrar que nunca estamos sós. Há amigos, sim. Mesmo que poucos ou que não nos façam festas, não endossem os nossos erros e critiquem atitudes. Amigo é bicho esquisito, tão esquisito quanto nós.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/01/2006.

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O OUTRO LADO DE MIM

Algumas pessoas falam que não gostam de ler best-sellers. Nada a ver. Conheço intelectuais de verdade que gostam de ler esse tipo de romance. É melhor ler um best-seller que nada. Eles são fantasiosos e têm um condão de nos tirar da realidade, de mostrar um mundo diferente e, quase sempre, seus protagonistas conseguem superar dificuldades e vencem. E ninguém pode falar desse tipo de literatura sem mencionar Sidney Sheldon. Ele já vendeu mais de 300 milhões de livros. Seus livros são lidos da primeira à última página, com avidez e à espera do desfecho quase óbvio. É como se todas as populações brasileira, mexicana e portuguesa, juntas, tivessem lido um livro seu. Eu li vários. Quem não se lembra de “O Reverso da Medalha”, “A Ira dos Anjos”, “Juízo Final”, “A Herdeira” e tantos outros?
Sheldon tem hoje 88 anos, mantém-se lúcido e acaba de escrever sua autobiografia ou memórias. Em “O outro lado de mim” fala de sua vida, vitórias e fracassos. No dizer do jornalista Federico Mengozzi, falando sobre o dito Sheldon, só os bem-sucedidos podem falar de seus fracassos. E Sidney romanceia sua vida, como não poderia ser diferente. Judeu, discriminado e vivendo a juventude em plena Depressão americana, quis se suicidar, de desespero, aos 17 anos. Seu pai, que nunca tinha lido nada, sabia do gosto do filho pela leitura de romances. O flagrou misturando bebida com remédios, e falou para ele: “A vida é como um romance, não é? Está cheia de suspense. Você não faz ideia do que vai acontecer até virar a página”.
Usando essa metáfora, fez com que o filho mudasse de ideia e até de nome. Sidney trocou o sobrenome judeu Schechtel por Sheldon e foi encarar sua múltipla vida. Só aos 52 anos começou a escrever romances. Antes, escrevia peças de teatro e roteiros para cinema. Até um Oscar ganhara como roteirista. Rico, famoso e ciente de sua finitude, resolve agora abrir seu passado e o faz do jeito que sempre soube conquistar leitores ao redor do mundo, parecendo íntimo e semelhante ao homem cotidiano, mas, ao mesmo tempo, misturando fracassos, sonhos, esperanças e bom humor.
Ler memórias, mesmo romanceadas, é uma forma de cada um ir mexendo com os próprios botões, examinando seus significados, erros, medos, necessidades, desejos e atitudes. Como a vida é complexa e diferente para cada pessoa, é sempre bom lembrar o que disse o pensador inglês John Churton Collins: “A metade dos nossos erros na vida vem do fato de que nos deixamos levar pelos sentimentos, quando deveríamos raciocinar, ou de que raciocinamos quando deveríamos nos deixar levar pelos sentimentos”.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/01/2006.