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A INDEPENDÊNCIA SOMOS NÓS – Jornal O Estado

Hoje é feriado. Dia da Independência do Brasil, este país que é nosso chão, nos dá abrigo e destino. E por ser Sete de Setembro é que me lembro da História e, se penso bem, D. Pedro I fez mais encenação que demonstrou atitude. Não me conformo com o fato de ele ter sido a pessoa que, anos após a Independência, se tornou como D. Pedro IV, mesmo que por alguns dias, Rei de Portugal. Ora, como um país escolhe alguém para Rei se, anos antes, lhe tirara a maior fonte de renda e poder? Tudo era um engodo de monarquia decadente.
Sim, o Brasil era mera fonte de renda para Portugal, nada mais que isso. A fuga da Corte Portuguesa de Lisboa, em 1808, com medo da França de Napoleão, trouxe algum desenvolvimento ao Rio de Janeiro, onde assentaram suas malas, tomaram dos donos as melhores casas, abriram pratarias e baús, criaram banco, imprensa e escola. Afinal precisavam de dinheiro, comunicar-se com os súditos e seus filhos e aderentes tinham que estudar. E assim o fizeram em meio ao lixo das ruas que cuidaram de mandar limpar. Passado o perigo napoleônico, seguiram o Atlântico e voltaram para a mesmice de todas as famílias reais, a comida desregrada, as fofocas e o não fazer nada, “pois trabalho é coisa de pobre”. Aqui ficaram os que deveriam mandar dinheiro para lá, para manter a pompa. Até que a República aconteceu.
Hoje, 185 anos depois, somos quase 190 milhões de pessoas, das quais 45 milhões ainda precisam do Bolsa Família para ter um mínimo e não morrer de fome. O restante, a tal população economicamente ativa de que falam os economistas, estuda, trabalha, cuida de suas famílias, paga quatro meses e meio de impostos por ano e acredita no Brasil, este país que elegeu e reelegeu, sem preconceito e com alegria, Lula para Presidente. Não, não estamos cansados, estamos fazendo o melhor que podemos, mas temos ainda o grave defeito de esperar milagres. Não há milagres, nós somos os milagres. Cada um de nós, a seu modo, é um herói anônimo e precisa melhorar a sua autoestima, deixar de esperar pelos outros e fazer a sua parte, sem esquecer de que honra e dignidade são flores que não murcham. Não concordo com Lima Barreto quando dizia que ‘o Brasil não tem povo, tem público’. Nós estamos deixando de ser público. Agora, quer queiramos ou não, vamos agir como povo. A independência somos nós.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/09/2007.

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ESCREVA, SEMPRE – Diário do Nordeste

Escrevo porque me faz bem. Não escrever é como se faltasse algo em mim. É preciso colocar no papel sentimentos, planos, atitudes, desejos, sonhos, amores, raivas, alegrias e desapontamentos. Dizia Fernando Pessoa que “a literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”. A vida é maior do que apenas trabalhar ou amar, é preciso mais e, para mim, esse mais consiste em viajar, ler, ver filmes e escrever.
Não sei se o que escrevo é literatura, mas como diria Pablo Neruda, “escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias.” Este é que é o problema, o meio, o recheio entre a primeira letra maiúscula e o ponto final. E toda pessoa que escreve sempre sabe que precisa ler, acerta e erra, muitas vezes não diz coisa com coisa, mas vale. Jorge Luis Borges, poeta grande que foi ficando cego ao longo da vida, falava que “corrigir uma página é fácil, mas escrevê-la, ah, amigo! Isso é difícil”. A escritora Clarice Lispector, brilhante e não tão lida quanto falada, dizia: “eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.” É isso mesmo, escrever vai tornando livre o que estava aprisionado ou não se sabia existir. Pouco a pouco, palavra a palavra, a escrita vai aparecendo e nos surpreende, pois o escrito que sai não é exatamente o que se pensava. Há uma diferença sutil entre o pensamento e a escrita. O pensamento vagueia, a escrita permanece e pode ter desdobramentos, voluntários ou não. Assim é que estou sugerindo a vocês, leitores, que escrevam. Não importa o que, tampouco a forma, se contém erros ou se você terá vergonha de mostrar a alguém. Isso é outra história. O que vale é esconjurar os pensamentos recorrentes, aquilo que o angustia ou alegra, dando-lhe forma e sentido. Bastam uma folha de papel, um lápis ou caneta. Ou um computador com os seus tantos recursos de correção e ajustes. Deixe sair, como se você próprio psicografasse a sua mente. A memória está além do nosso controle consciente. A memória, se escrita, tem vida própria.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/09/2007.

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INSÔNIA E BERGMAN – Jornal O Estado

‘Há mais de 20 anos que tenho insônias crônicas, coisa que, em si, não é perigosa, pois é possível vivermos dormindo muito menos do que se dorme. Cinco horas, para mim, são perfeitamente suficientes. Mas o que desgasta é a vulnerabilidade da noite, o que nela se dá enquanto dura: as proporções alteradas de tudo, o repisar de situações vividas, sejam elas estúpidas ou humilhantes, o arrependimento por maldades impensadas ou intencionadas. Amiúde, durante a noite, vêm me fazer companhia bandos de aves negras: a angústia, a fúria, a vergonha, o arrependimento, a neura. E até para a insônia existem rituais: mudar de cama, acender a luz, ouvir música, comer bolachas, beber chocolates ou água mineral. Um comprimido de Valium tomado na hora certa pode ser excelente, como também pode ser desastroso, provocando uma sensação que não raro redunda em ânsias’.
O longo trecho acima é uma homenagem e é de autoria do grande diretor de cinema, o sueco lngmar Bergman, recentemente falecido, já beirando os 90 anos. A insônia não o matou.
Faço parte do grupo de pessoas que dorme menos de seis horas por noite e somos cerca de 20% da população adulta, ou seja, de cada dez pessoas, 2 dormem menos de 6 horas. Descobri que tal fato parece ser genético. A minha mãe e os meus irmãos dormem pouco. No meu caso, em particular, sou um pássaro madrugador e, mesmo que saia à noite, pela manhã cedo estarei de pé, com todo o gás, pronto para a caminhada e mais um dia de trabalho. Agradeço se ninguém me convidar para nada que ultrapasse a meia-noite.
Houve um tempo em que me preocupei muito com essa história de dormir e a quantidade de horas de sono. Hoje já não dou muita bola e me acostumei com o fato de que parece irreversível. Se o seu caso é semelhante, não se preocupe. Você fica com mais tempo para fazer o que gosta. Dormir demais pode ser uma fuga da realidade e um descompasso com a ebulição de um mundo que tem tanta coisa a mostrar.
Dormir pouco não tem nada a ver com insônia. Insônia pode ser resultado de ansiedade ou depressão. Quase todo mundo já teve insônia. Ela se manifesta de duas formas: não se não consegue dormir assim que se vai para a cama e fica-se contando carneirinhos ou pensando bobagens. A segunda forma é acordar no meio da noite e não conseguir dormir mais. Descubra, por você mesmo, se dorme pouco ou se é insone. Se você e o seu relógio tiverem estiverem adaptados a dormir pouco, ótimo. Se, ao contrário, o que você tem é insônia, procure descobrir a razão. As nossas noites são a consequência dos nossos dias. Se você tem problemas psicológicos, assuntos pendentes a resolver, bebe muito, alguma doença ou seu estilo de vida é duro, é claro que a qualidade do seu sono não vai ser boa.
Um dia desses li uma reportagem com Michel Rimpoche, um jovem brasileiro, apesar do nome, que já é monge. Perguntaram a ele qual a forma de se atingir a paz. Ele respondeu tranquilamente que todo dia você deve fazer uma coisa boa a mais e uma coisa ruim a menos.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/08/2007

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GORBATCHOV E OS COMERCIAIS – Diário do Nordeste

Todos os que acompanharam a Guerra Fria – mesmo vendo o esforço da Mikhail Gorbatchov para reestruturar (perestroika) a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e dar sinais de que havia uma abertura (glasnost), em meio a toda pesada estrutura de poder – não poderiam supor que a queda do Muro de Berlim, em 1989, decretaria, por via de consequência, o fim da URSS.
Dois anos depois, desestruturado o Politburo, Gorbatchov caiu em desgraça e teve que resignar no dia de Natal. Começava aí uma nova fase em sua vida, aos 60 anos. Tentava ter visibilidade internacional, participando de grandes fóruns de debate, criando uma fundação e adotando a postura de estadista em disponibilidade, mesmo tendo recebido em 1990 o cobiçado Prêmio Nobel da Paz. Volta então ao cenário mundial com desenvoltura, sem esquecer a amargura de não ter a legitimação do povo soviético que não o festejava como ele gostaria e acreditava merecer. Em 1997, para surpresa de todo o mundo, aceita fazer um comercial para a Pizza Hut, multinacional americana de fast-food, destinando os recursos para o que chamou de “arquivos Perestroika”. Parecia ser a necessidade de continuar na mídia e impactar os que já estavam esquecendo dele.
Agora, agosto de 2007, quando completa 76 anos, aceitou fazer um outro comercial. Desta vez, a proposta foi da elegante ‘Louis Vuitton’, mega organização francesa que produz valises de alto luxo, comanda negócios de champagne, moda, perfumaria e lojas. Como da vez anterior, Gorbatchov afirma destinar os recursos desta vez para a Cruz Verde Internacional, sua fundação. No comercial, ele está sentado de terno e cachecol no banco traseiro de uma limusine, tendo ao lado uma valise Louis Vuitton e, como fundo de imagem, o Muro de Berlim, supostamente intacto. A ‘Louis Vuitton’, indagada sobre a razão da publicidade em foco, diz que ela tem “valores essenciais”. Gorbatchov costuma comemorar o seu aniversário com um jantar no restaurante “Napoleão”, em Moscou. Napoleão Bonaparte, como se sabe, foi derrotado na Rússia, pelo inverno, em 1812. Agora, é verão em Moscou.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/08/2007.

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QUEM NÃO ARRISCA… Jornal O Estado

Os livros de autoajuda, religiosos, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas estão na moda. Até quem não lê, não tem fé ou não sabe onde vai dar uma análise, resolve enveredar por um desses caminhos imaginando ser a salvação ou a resposta a seus problemas, reais ou imaginários. Essas pessoas sentem necessidade de transformar suas vidas. Transformar significa mudar, dar nova forma. Não bastam, muitas vezes, uma plástica, lipoescultura, peeling, musculação, roupas novas, troca de amores, companhias ou amizades, mudança de estado civil, trabalho ou lazer. O que realmente conta é o que fica ou muda dentro de você. Não é o espelho que aprova você, você é quem vê o que está refletido nele. Muitos não veem ou não querem enxergar que a resposta está na sua alma, lá dentro, onde só você tem acesso.
Por outro lado, é verdade que toda pessoa é um ser em mutação à procura do novo, de encontrar uma forma diferente de pensar as mesmas e repetidas questões e descobrir uma saída. A busca dessa saída pode ser um processo doloroso e longo. Não é um passe de mágica. Partindo da ideia de que, se todo dia você caminha em uma mesma direção, só poderá chegar a um mesmo lugar. Será preciso viver e fazer diferente, necessário ousar e, principalmente, acreditar. Acreditar que a resposta está dentro de você e não nas circunstâncias ou nos circunstantes.
É preciso parar para pensar, avaliar e isso causa um profundo estresse e até deprê. Esse estresse ou deprê, se positiva a sua avaliação, trará enriquecimento, pois não se deve perder a capacidade de responder ao momentâneo desconforto físico e mental decorrente de mudanças. Cada pessoa deve ter o mínimo de maturidade para descobrir o óbvio: as situações em que nos envolvemos foram criadas por nós. Não importa se você se acha vítima ou algoz. Vale é a capacidade de transformá-las em fatos positivos. A paz que cada pessoa diz procurar só poderá ser encontrada dentro dela própria. Para obtê-la é preciso remexer fundo em sua história pessoal e usar uma hipotética sonda para auscultar a consciência. Não se pode, entretanto, em processos de ruptura ou transformação, esquecer a realidade, a nossa concreta história e as pessoas nelas envolvidos. Sonhar é bom, mas, infelizmente, sonhos não resolvem problemas reais. É preciso a coragem de admitir que o presente seja o único tempo que temos. O futuro será o produto virtual ou real da nossa postura perante o passado e a visão do presente. Não aceite que as críticas descabidas e os apoios, verdadeiros ou não, possam condicionar o seu vir-a-ser. Não é demais repetir que só a consciência de cada um descobrirá a resposta. Descubra suas forças internas e enfrente, com paciência e ânimo, as dificuldades. Para se respeitar como gente será preciso entender os seus próprios pensamentos, atitudes e sentimentos. Quem não arrisca nada, risca tudo.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/08/2007

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MENOR E CRIME – Diário do Nordeste

Segundo as estatísticas e as ONGs, cerca de 30 mil jovens, entre 12 e 24 anos, são mortos a cada ano no Brasil. O crescimento demográfico do século XX foi desordenado. Graças à posição da Igreja não se permitiu o controle de natalidade. Por falta de ação do Estado e do elevado grau de pobreza, parte significativa da população brasileira, egressa do interior, ocupou favelas e margens de cursos de água das áreas urbanas. A grande maioria da juventude está sem rumo, perspectiva e é presa fácil para ser cooptada por criminosos.
Só no Rio, existem 5 mil adolescentes participando do crime organizado. Estas considerações refletem a nossa indignação quando um adolescente mata, a troco de nada, alguém que contraria a sua vontade ao não entregar, de pronto, o carro ou os bens que porta. Um exemplo, entre tantos: esta semana, um professor, ao lado de sua mulher, foram mortos por um grupo de adolescentes que já tinha cometido delitos. Chegava em casa de carro, apenas isso.
O Estatuto da Criança e do Adolescente é “coisa de Primeiro Mundo”, dizem alguns. Mas, no Primeiro Mundo, os adolescentes são julgados como adultos. Não criticamos a lei ou sugerimos mudanças, mas cobramos do Estado a sua aplicação na tão falada ressocialização que, na prática, não existe. Não sabemos se a redução da maioridade resolveria, mas sabemos que as famílias precisam ser assistidas, quando seus filhos são recrutados para ingressar na marginalidade. O pai de um dos acusados do crime do professor, disse: “foi difícil para mim, mas assim que soube, fui lá dizer que era meu filho porque acho que ele deve ser detido”. A que ponto, chegamos.
Enquanto isso, no Congresso Nacional, corre a ideia de dar estabilidade a 300 mil funcionários que entraram no serviço público sem concurso, fruto do apadrinhamento. Esse caos nacional não é só aéreo, é subterrâneo, pois está nas entranhas de uma ação política nefasta que perdeu o senso do limite e da compostura. Millôr Fernandes lançou um desafio: qual a diferença entre político e ladrão? Uma pessoa respondeu: o político, eu escolho e o ladrão me escolhe. Enfim, existe uma diferença.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/08/2007.

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MARCELO LINHARES – Jornal O Estado

Marcelo Caracas Linhares, bancário, advogado, deputado federal por quatro legislaturas, intelectual, historiador e, sobretudo, homem de bem, viajou para o eterno na terça, dia 14. Há muito o seu coração fraquejava. Vi-o, minutos antes da derradeira missa, após cumprimentar sua mulher, Irismar. Ele estava ele. A doença não lhe tirara os traços fidalgos e o jeito sereno de ser. Ano passado, dentro de um projeto ainda em curso, o entrevistei. Conversei com ele, amigos que éramos e colegas da Academia Fortalezense de Letras, e pedi-lhe para responder a 40 perguntas. Ele o fez, gentilmente. Aproveito, partes de suas respostas, e ele mesmo escreverá esta crônica. Paro aqui, agora é ele.
“Nos meus oitenta anos nunca imaginei responder perguntas sobre mim mesmo. Lembro-me sempre que a um Lorde inglês indagaram como havia chegado tão rápido àquela posição, eis que só tinha cinquenta anos. A resposta foi: ‘falando muito das coisas, pouco das pessoas e nada sobre mim mesmo’. A minha infância foi vivida em Guaramiranga, sozinho. Daí a influência na minha personalidade ser muito de minha família. Por outro lado, creio ser um pouco autodidata eis que tenho a impressão de haver feito o pior curso de direito de um aluno da Faculdade de Direito do Ceará. Parte dele estava no Crato e parte em Quixadá, vindo a Fortaleza fazer as provas. Deu-me muito trabalho recuperar, com novos estudos, o que deixei de fazer durante o curso. Na época em que entrei no Banco do Brasil, essa era uma das carreiras mais cobiçadas da mocidade de então. Ocorre que fui transferido para o Crato e depois para Quixadá. Mesmo assim, não me arrependo de haver nele ingressado. Fui aposentado, na última letra da carreira de advogado. Na realidade, fui um felizardo.
Não sei o que teria sido de mim sem a âncora que encontrei, Irismar. Se você verificar em todos os livros que escrevi – e são oito até agora – sem contar com aqueles de menos de 50 páginas que não se mantêm em pé, os oferecimentos são a ela. Nos momentos de maiores dificuldades, inclusive na vida política, foi ela que me ajudou a delas sair. Deus foi pródigo comigo pondo-a no meu caminho. Logo que nos casamos, filhos era uma meta. Depois, com o passar dos tempos, fomos vendo – Irismar e eu – os dramas que muitos amigos passavam com os seus descendentes. Hoje vemos que Deus, mais uma vez, nos abençoou. Fora o meu casamento, a coisa melhor que fiz na vida foi ser deputado federal. Preciso dizer nunca haver sido derrotado. Cada eleição obtinha mais votos que a anterior.
Só a fé nos conduz no reto cumprimento do dever. Nunca duvidei, graças a Deus, e minha fé continua inabalável”. Marcelo.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/08/2007.

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A ÚLTIMA LIÇÃO – Diário do Nordeste

Meu pai, infelizmente, já morreu. Era um homem simples, inteligente, cara de duro, mas pleno de ingenuidade. Era charmoso, atraente mesmo e nunca posou de santo. Casou cedo, trabalhou, viveu plenamente, criou nove filhos, todos independentes, nível superior de instrução e cidadãos do mundo. Morreu aos 70, de infarto, fim de tarde, no jardim de sua casa, ao lado de minha mãe. De repente, tento saber se fui seu amigo, se conversei com ele o desejado e se não fui egoísta. Só ele poderia responder. Sei que, após aposentado, veio ter comigo e me ajudava, dizendo não entender porque eu trabalhava tanto, se da vida nada se levava. Repetia isso, sempre.
E isso calou em mim. Nunca falei para ninguém, mas resolvi, passo a passo, diminuir o ritmo de trabalho e deixei de pensar em ser mais ou ter mais. Diminuí, faz muito tempo, só não pude parar, pois a dinâmica da vida nos impõe ação. Desacelerei. Passei a fazer coisas prazerosas, menos chatas, ver os netos, aceitar meus erros e ter mais tempo para o que sempre gostei: viajar, conversar, ler, escrever e fazer pouco, mas diferente, com responsabilidade.
Agrupei-me com dessemelhantes e dispensei o aparato burguês de viver. Tive baixos e altos e vi-me livre, foi duro. Essa liberdade não se transformou em ócio, mas me aprumou no rumo do novo. E, certamente, conheci pessoas erradas, até desonestas, posando de gente boa. Farsantes. Também conheci gente séria, simples, valiosa e desprovida de interesses. E penso que essa mudança se deu também por conta das ponderações repetidas do meu pai. Na hora de sua morte, corri para o hospital para onde foi levado, mas ele já não respirava. O médico que o atendeu, pediu gentilmente, ao sair do quarto e me deixar só com ele, que retirasse logo a aliança de seu dedo. Depois, seria impossível. Olhei, perplexo, para o seu semblante acalmado eternamente, segurei sua mão esquerda e tirei a aliança. Relembrei do que ele sempre dizia: “do mundo nada se leva”. Pois é, ele, através de sua mão, me repetia, pela última vez, a lição.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/08/2007.

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REGISTROS DA VIDA – Jornal O estado

Não importam a idade, o sexo, a cor, o que faça e o estado civil, todos vão recebendo registros da vida ao longo dos dias. Todos vão somando alegnas, enganos, tristezas, acertos, dores, solidões, encontros e coisas que tais. De repente, os registros vão povoando o espírito, quando não se transmudam em somatizações tão reais que podem ser auscultadas, sentidas e vistas.
Esses registros são mais fortes na medida em que não sabemos o nosso limite, a hora de mudar de rumo, de não entender o outro como projeção dos nossos desejos e aceitar que promessas e juras são frutos de um contexto a se transformar com a lucidez ou a mudança de personagens. Os registros ficam tênues quando entendemos e admitimos que nós temos todas as respostas e que a outra pessoa não é responsável pelos nossos desatinos e a indecisão que machuca, desconforta e imobiliza.
Ninguém tem respostas para você, ninguém sabe o tempero que nutre as suas esperanças e a alegoria a embalar os seus sonhos. Basta de procurar explicar-se e de admitir que alguém possa resolver os seus problemas. Mergulhe na água da sabedoria e saia ungido da certeza, da confiança em si mesmo. Na medida em que você confia em si, os outros deixam de ser acessórios e passam a companheiros e o compartilhamento é o somatório do esforço comum e não de frustrações e quimeras. Só temos a capacidade de falar por nós mesmos e as respostas para os dilemas humanos e os nossos registros são singulares, não há receita pronta para isso.
A confiança em si é um pressuposto básico para a independência sem a qual não se pode ser livre e quem não é livre não sabe amar. O amor-submissão e o amor-dependência são relações ultrapassadas e neuróticas a reduzir os seus participes a meros marionetes do destino. A eclosão da independência e da liberdade se extravasam no amor próprio, na aceitação de si mesmo sem justificativas ou sentimento de culpa.
A sua singularidade é um aviso, um balizamento para respeitar a identidade alheia e o sinal a abrir sua mente em relação ao próximo que nunca será tão próximo que possa fundir¬-se ou confundir-se com você.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/08/2007.

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BREGA BRASIL – Diário do Nordeste

Vocês sabiam, amigos Airton Monte e Carlos Augusto, amantes de música, que a agência de publicidade F/Nazca Saatchi, contratou agora os serviços do Datafolha para fazer uma pesquisa sobre o gosto musical dos brasileiros? Pesquisaram, do norte ao sul, 2.166 pessoas, maiores de 16 anos, em 135 cidades e chegaram a uma conclusão que parece surpreender a paulicéia, mas que mostra a cara brega do Brasil, esse que chora e ri nas novelas e se esgoela acompanhando músicas de dor de cotovelo e cantores sertanejos. Se você pensou, amiga Eliana, que ia dar Zizi Possi ou Marisa Monte, quebrou a cara. Nada de Betânia, Gil, Gal, Caetano ou Chico, tidos como “cults”. O brasileiro comum parece não gostar de metáforas, só entende letras acessíveis, diretas, rimas claras a mexer com o seu emocional conturbado pelas tragédias, desesperanças e falta de oportunidades.
Nenhum dos letristas sofisticados foi, sequer, lembrado. Não é triste, Colares? E a grande campeã não tem nem gravadora. Ela mesma produz os seus discos, ouviram Sílvia, Sônia e Josino? Não está situada no eixo Rio – São Paulo. É do norte do país, da terra do Tacacá e do Caruru, Belém do Pará e é a Banda Calypso. Segundo Eduardo Miranda, produtor do programa Ídolos, a “A Calypso é a verdade do povo brasileiro”.
Vocês sabem, Alexa, Cris, Mel e Bruna, quem são Zezé e Chimbinha? São as figuras de proa da Calypso. Depois, em segundo lugar, vem Zezé Di Camargo e Luciano, bem lembrados pelo filme-romance de suas vidas. Bruno e Marrone ficam em terceiro. E Roberto Carlos, meloso e agora plastificado, está em quarto lugar. Depois, aparecem, pela ordem, Daniel, Leonardo, Ivete Sangalo, Calcinha Preta, Amado Batista, Aviões do Forró e Jota Quest.
Não, não fiquem tristes, amigos, pois sei de gente que, na intimidade de seus quartos, deixam rodar músicas bregas e posam de ouvidos refinados, dizendo-se admiradores de Milton Nascimento. Não adianta fugir à natureza, à genética produtora desse povo tão singular a desaprovar governos, mas adorando líderes com discursos plenos de emoções. Só cantando somos o que somos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/08/2007.