Hoje é feriado. Dia da Independência do Brasil, este país que é nosso chão, nos dá abrigo e destino. E por ser Sete de Setembro é que me lembro da História e, se penso bem, D. Pedro I fez mais encenação que demonstrou atitude. Não me conformo com o fato de ele ter sido a pessoa que, anos após a Independência, se tornou como D. Pedro IV, mesmo que por alguns dias, Rei de Portugal. Ora, como um país escolhe alguém para Rei se, anos antes, lhe tirara a maior fonte de renda e poder? Tudo era um engodo de monarquia decadente.
Sim, o Brasil era mera fonte de renda para Portugal, nada mais que isso. A fuga da Corte Portuguesa de Lisboa, em 1808, com medo da França de Napoleão, trouxe algum desenvolvimento ao Rio de Janeiro, onde assentaram suas malas, tomaram dos donos as melhores casas, abriram pratarias e baús, criaram banco, imprensa e escola. Afinal precisavam de dinheiro, comunicar-se com os súditos e seus filhos e aderentes tinham que estudar. E assim o fizeram em meio ao lixo das ruas que cuidaram de mandar limpar. Passado o perigo napoleônico, seguiram o Atlântico e voltaram para a mesmice de todas as famílias reais, a comida desregrada, as fofocas e o não fazer nada, “pois trabalho é coisa de pobre”. Aqui ficaram os que deveriam mandar dinheiro para lá, para manter a pompa. Até que a República aconteceu.
Hoje, 185 anos depois, somos quase 190 milhões de pessoas, das quais 45 milhões ainda precisam do Bolsa Família para ter um mínimo e não morrer de fome. O restante, a tal população economicamente ativa de que falam os economistas, estuda, trabalha, cuida de suas famílias, paga quatro meses e meio de impostos por ano e acredita no Brasil, este país que elegeu e reelegeu, sem preconceito e com alegria, Lula para Presidente. Não, não estamos cansados, estamos fazendo o melhor que podemos, mas temos ainda o grave defeito de esperar milagres. Não há milagres, nós somos os milagres. Cada um de nós, a seu modo, é um herói anônimo e precisa melhorar a sua autoestima, deixar de esperar pelos outros e fazer a sua parte, sem esquecer de que honra e dignidade são flores que não murcham. Não concordo com Lima Barreto quando dizia que ‘o Brasil não tem povo, tem público’. Nós estamos deixando de ser público. Agora, quer queiramos ou não, vamos agir como povo. A independência somos nós.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/09/2007.
