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MAUÁ E UNIFOR – Diário do Nordeste

Com o zelo, a plasticidade e a classe costumeira, a Universidade de Fortaleza, com o apoio da Braspetro, está apresentando exposição sobre Irineu Evangelista de Souza, o empreendedor do século XIX, quando essa palavra ainda não existia. Sou fã dos empreendedores que aliam seu trabalho à criação diferenciada para a humanidade. Assim é que descobri há muito Monteiro Lobato, não apenas o grande escritor, mas o nacionalista e sofrido empresário, que até preso foi pela ditadura. Seu livro, “A Barca de Gleyre”, é o meu preferido. Ele previu até em “O presidente negro”, a eleição de um negro nos EUA, isso na década de 30. Voltando ao fio, a própria UNIFOR é fruto de um visionário. Edson Queiroz criou, do zero, uma universidade diferenciada que irrompeu com um magnífico campus, simplicidade, paisagismo exuberante, estratégia acadêmica, gestão eficaz e alcançou o reconhecimento público. A dedicação do Chanceler Airton Queiroz alia ao seu “hardcore” de ensino o declarado amor às artes e fez brotar ali um teatro com diferencial de qualidade pela escolha de peças, autores e atores de nível. Cuida de cada detalhe das exposições. Elas primam pela gentileza cultural e ambiental dando ao visitante uma aula preliminar até que se depare com a arte exposta. Agora, com a exposição sobre Mauá alia a arte a um necessário mergulho sobre a história brasileira do Século XIX e a empreitadas difíceis e díspares como a implantação de uma indústria naval; a criação de ferrovias; a navegação pela Amazônia; a iluminação à gás do Rio, sede do Império; a atividade agropecuária e empréstimos ao Uruguai. Até a pá entregue a D. Pedro II para um ato público tem a marca da ousadia privada. Mauá teve altos e baixos, como todo sonhador com o pé no chão e a cabeça no futuro. Conseguiu inovar até na contratação de técnicos e mão de obra da Europa e da China, quando só se usava escravos. Mauá é também a história financeira nacional quando da criação, subscrição e ingerência oculta nas ações do Banco do Brasil. Ele é, enfim, a lição de que o trabalho inovador, como obra de arte, também faz História.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/11/2008.

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MUSSA DEMES – Jornal O Estado

Ao longo da vida vamos conhecendo pessoas. Algumas passam. Outras ficam. Poucas se tornam amigas. Tenho uma concepção de amizade um pouco estranha. Para mim, ela é não uma experiência de troca de favores, tampouco é junção de interesses. Não é a identidade de costumes, vontades e gostos. Nem passa a ser amizade o encontro acidental ou até rotineiro. Amizade é aquela relação que vai brotando como um fio de água entre as pedras e não para de jorrar. O amigo não é o que fala ao seu corpo, ao bolso, mas o que toca a sua alma e lhe dá o direito de arengar em voz alta. . Foi assim com Mussa de Jesus Demes. Conhecemo-nos ao final da década de 60. Estávamos engatinhando na vida profissional. Cada um do seu jeito, no seu mundo, sem interesse ou favores pelo meio. De repente, éramos amigos de conversar horas, sem ver nem pra que. No começo dos 80 ele foi escolhido Secretário da Fazenda do Ceará e exultei por seu sucesso. Ele lá e eu na minha vidinha.
Depois, o Piauí, sua terra natal, o chamou. Ele, que amava aquele chão, voltou e lá foi eleito Deputado Federal. Telefonei parabenizando-o e, em uma de suas vindas à Fortaleza, nos encontramos. Passou horas fazendo a minha cabeça para que eu me candidatasse a Deputado Federal pelo Ceará na próxima eleição. Dizia que eu tinha jeito, capacidade e condições. Disse-lhe que não. Ele me pediu para pensar. Um dia, resolvi ir a uma cidade do interior e ver como a política funcionava. Não era nada do que eu sonhava. Conversamos novamente e falei para ele que não tinha jeito para uma campanha, apesar de achar honroso ser Deputado Federal. Mudamos de assunto e amizade continuou. Ele, especialista em Direito Tributário e Finanças, logo foi novamente chamado para ser Secretário da Fazenda do seu Estado, em meio a mandato. Foi eleito Deputado Federal por seis vezes consecutivas. Era um dos maiores especialistas no Brasil em Reforma Tributária e queria mudar esse caos dos mais de 100 tributos brasileiros. Lutou muito. Nunca fui a seu gabinete em Brasília, mas estive em Teresina algumas vezes para conversar com ele e juntos até almoçamos com o Heráclito Fortes em restaurante simples e bom, com boas risadas. Anos se passaram. Soube que ele estava doente. Liguei e senti o quanto a coisa o incomodava e a luta que estava enfrentando. No Natal passado, sem querer incomodá-lo, entreguei a seu irmão Pedro um bilhete e ele me ligou da forma mansa e carinhosa de sempre. Agora, ele se foi, do jeito que vão os bons, sem barulho, assistido por uma família ciosa de seu líder. Mussa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21/11/2008.

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MESTIÇAGEM E FUENTES – Diário do Nordeste

A 8ª. Bienal Internacional do Livro do Ceará usa como tema a Aventura Cultural da Mestiçagem, tal a força do convencimento vivenciado em suas andanças latino-americanas por Floriano Martins, curador geral e, pelo suporte recebido de Jorge Pieiro e Karine David, curadores, todos chancelados por Auto Filho, Secretário de Cultura. É provável que alguns intelectuais ainda não tenham atentado para a sutileza da iniciativa que procura introduzir o Ceará e Fortaleza no imaginário dos autores latinos que nos visitam e no mapa cultural dos países de língua hispânica. É importante lembrar também que nesta terça, dia 11, o maior escritor mexicano vivo, Carlos Fuentes, completou 80 anos. Ele está sendo alvo de manifestações culturais em todo o México. Não é oba-oba, mas uma sucessão de cursos, palestras, debates e seminários em que intelectuais latinos e de todo o mundo discutem o fazer literário de Fuentes e a sua cognição com o real e o fantástico, ao mesmo tempo em que se debruçam em temas sutis como as artes de narrar, fazer romance, filosofar, historiar, escrever ensaios, informar, editar, ler, olhar e filmar. O engraçado na vida de Fuentes é que, tal qual John McCain, o derrotado candidato à Presidência dos EUA, ele também nasceu no Panamá, onde os seus pais, mexicanos, exerciam a diplomacia. Fuentes também perdeu – misteriosamente – agora a sua quase certa indicação ao Prêmio Nobel de Literatura deste ano para o pouco conhecido escritor francês Le Clézio. As semelhanças param por aí. Fuentes acompanhou seus pais pelo mundo afora e passa a ser poliglota, criando uma percepção universal, sem perder a essência de sua mexicanidade que até foi criticada no lançamento de sua primeira obra “A região não transparente”. Agora, cinquenta anos depois, ela é relançada em edição Premium pela Associação das Academias de Língua Espanhola com a mesma pompa de um “Dom Quixote”, de Miguel de Cervantes, e de “Cem Anos de Sólida”, de Gabriel García Márquez. Sempre é bom lembrar, como queria Goethe, que quem não conhece línguas – e terras, digo eu – estrangeiras, não pode saber muito da sua.

João Soares Neto,
Cônsul do México no Ceará
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/11/2008.

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COISA PÚBLICA – Jornal O Estado

Não sei bem a razão porque insisto em falar neste assunto. Há um entendimento errado de que coisa pública não tem dono. A coisa ou bem público pertence a todos e está sob a guarda de administrações, sejam prefeituras, estados e a União e merecem o olhar atento de cada pessoa. Não sei se é assunto bom para hoje, mas amanhã não será um mero feriado, mas o dia da Proclamação da República, ocorrida no Rio de Janeiro na manhã de 15 de novembro de 1889. Consta que, embora com falta de ar, o Marechal Deodoro da Fonseca saiu de sua casa, forçado por partidários e camaradas. Reuniu a tropa militar que comandava e montado em um cavalo na Praça da Aclamação, disse a frase: “Viva a República.” Desceu do cavalo, voltou para casa e cuidar da dispnéia que o combalia. O império já estava podre e caiu de maduro. Todos torciam contra, até os próximos do Imperador D. Pedro II. Voltemos ao hoje. Em qualquer cidade brasileira há bens e prédios públicos abandonados, sem uso, ensejando saques e invasões. Na maioria das repartições públicas há sinais evidentes de ausência de comando, atendimento ineficaz, mesas e cadeiras vazias, energia elétrica gasta em profusão, amontoados de funcionários em conversas hilariantes tomando cafezinhos e, quase sempre, faixas reivindicatórias por melhores salários e condições de trabalho. Esse retrato tem exceções, é claro. Mas não há um só cidadão brasileiro que não tenha sentido o desleixo como são tratados os bens e coisas públicas. E esses mesmos cidadãos, eu inclusive, são os que elegem os administradores públicos maiores. Os de segundo e terceiros escalões são, quase sempre, frutos de conchavos políticos onde o mérito não é o que mais importa. Então é nossa culpa. Nada de apontar o mesmo dedo que digita números e nomes nas urnas eletrônicas para os políticos que se perpetuam no poder, graças a falta de compromisso social de cada um de nós. O próximo ano estará livre de eleições, mas será, quem sabe, o mais político desta década, pois em arranjos partidários serão conhecidos os candidatos a presidente da República e Vice, governadores de estados e seus vices, senadores, deputados federais e estaduais. Aproveite este fim-de-semana e faça uma reflexão pessoal sobre o seu voto e o seu compromisso como cidadão. A cidadania não é moda, é exercício. É a luta por seus direitos fundamentais, por um estado democrático de direito e a capacidade de se considerar apto a influenciar no destino de seu país, estado ou cidade. No final das contas, como disse J.Stuart Mill, “o valor de um Estado é o valor dos cidadãos que o compõem.” Viva a República.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/11/2008.

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PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA – Jornal O Estado

Bem que, há tempos, eu desconfiava. Já havia até falado para um amigo letrado e leitor de Saramago sobre este assunto. Agora, realmente, comprovei. A escolha dos agraciados com o Prêmio Nobel de Literatura é uma ação entre amigos suecos e demais europeus. Se não tiver nenhum bom nome europeu, os 18 da comissão podem até fazer uma concessão a autores de outros países. A comprovação é fruto das minhas leituras desataviadas que foram bater os olhos em reportagem de Eduardo Simões e Sylvia Colombo, para a Folha. Vi que Horace Engdalh é o porta-voz e secretário da Academia Sueca, a que concede os prêmios Nobel. Engdalh, ao falar para o jornal sueco Dagens Nyheter, afirmou, sem meias palavras, que “há autores de peso em todas as grandes culturas, mas você não pode descartar o fato de que a Europa ainda está no centro do mundo literário”. Não contente com as besteiras ditas, arrematou: “Os EUA são muito isolados, não traduzem o suficiente e não participam do diálogo de literaturas. Esta ignorância os limita. Eles também não se distanciam da cultura de massa que prevalece no país.” Os gringos ficaram com raiva e a resposta certeira veio do editor David Remnick, da consagrada revista New Yorker. Ele disse: “A análise de Engdalh é banal e presunçosa. A lista de omissões no Nobel é muitas vezes mais contundente do que a dos escolhidos. Já mereciam ter sido premiados Philip Roth, John Updike, Thomas Pynchon, Ian McEwan e Mario Vargas Llosa.” Ficou clara para mim a razão de autores como o brasileiro Jorge Amado, com suas mulatas e narrando a cultura popular da Bahia, e o argentino Jorge Luís Borges, com sua poesia sublime e prosa cortante, terem morrido sem o galardão. Brasil e Argentina têm grandes culturas? Segundo os critérios do tal Engdahl, certamente que não, pois ficamos nos trópicos. Há um viés ideológico declarado e uma proteção aos autores europeus. Abre-se, todavia, uma perspectiva com a morada definitiva de Paulo Coelho na França, tal como o ganhador deste ano, Jean Marie G. Le Clézio. Quem sabe se Engdahl não recebe de presente de Natal um exemplar do Exorcista e se maravilha com a literatura nele contida? Rezemos que sim e esperemos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/11/2008.

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TEMPOS CHINESES – Diário do Nordeste

A crise troava embaixo e eu voava de Dubai a Pequim. Sete horas depois, abria-se o novo aeroporto onde a imensidão da terra de Lao Tsé é transposta para a abóbada gigantesca que afirma, em arquitetura, aço e luzes o poder da nova China, a que emerge das Olimpíadas ao mostrar aos visitantes deste 2008 um país forte, com autoestradas, indústrias, universidades, arranha-céus hi-tec, hotéis, estádios, carros de luxo e um ar de futuro, no presente. Esquadrinhei o que ver, diferente da Ásia que vi em 1991. Olhei até como moradias humildes ficaram atrás de muros. Vi parques, palácios e jardins, lindos. Depois, fui aos arredores admirar as Grandes Muralhas. Metido a viajado, ousei usar o metrô (Bombardier-canadense), novo, limpo como um lençol branco e ir ao Ninho do Pássaro, estádio das cerimônias olímpicas. Mergulhei. Feliz, voltei à superfície e lá estava ele, majestoso em tom gris. Mas havia barreiras metálicas e me rendi à versão chinesa do mototáxi brasileiro. O guiador desse riquixá mecanizado, fica no selim do triciclo e há um banco de costas para dois passageiros. Seus guiadores andam por cima de passeios, cruzam faixas de pedestres e não dão bola para nada. Escapei. Milhares de turistas, quase todos asiáticos, abraçavam o Ninho. Obedeciam a ordens de guias com bandeiras coloridas. Eu me desguiava. Comprei o ingresso e entrei. Toquei a estrutura metálica e vi que tudo funciona nesse lugar onde deram e dão um show de tecnologia e organização. Agora, o lugar é palco diário para milhares de visitantes verem reapresentações e telões. Certamente que fui à Praça da Paz Celestial e à Cidade Proibida, que estava aberta, e o mausoléu de Mao, fechado. Outros tempos estes em que o mercado parece substituir o Livro Vermelho e a China é credora dos Estados Unidos, país que escolhe nesta terça um presidente entre a alvura republicana de McCain, herói de guerra, e a negritude redimida pós-Kennedy de Obama, filho de muçulmano. Vejo o último debate deles de um quarto de hotel neste outono chinês, enquanto meus olhos pairam na tela da CNN invasora – com legendas em Mandarim – e me belisco para sentir que não estou sonhando. Entramos no amanhã?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/11/2008.

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SOBRE A MORTE DE JOVENS – JORNAL O ESTADO

O que fazer quando a morte bate à porta de pessoas queridas? O que dizer então para os pais quando perdem filhos jovens e em plena efervescência da vida? Na dor, todos estão sós. Cada um sofre na sua forma pessoal, não há como comparar dores. Você pode ser mais forte ou contido, mas isso não quer dizer de sua dor, mas da forma como a expressa ou não. Você pode chorar rios de lágrimas, maldizer o Senhor e duvidar de sua fé, mas esse é o seu jeito. Talvez seja até o caminho da possível cura ou da conformação. A morte é uma trilha desconhecida pela qual todos passarão. Ela vem silenciosa, pungente e não poupa ninguém. Tem seus próprios tempos e modos. Escolhe e ceifa, não há como entender esse mistério. Se escolhe, elege. Se elege, deve ter alguma razão insondável. Mas vá dizer isso para pais inconsoláveis que, abruptamente, recebem a notícia da morte de seus filhos. Creio que devo invocar o filósofo Sócrates: “Pois bem, é hora de ir; eu para morrer, e vós para viver. Quem de nós irá para o melhor é obscuro, menos a Deus”. O que virá depois da morte? Como somos pecadores e não temos onisciência é que nos afligimos pelos que morrem, especialmente se jovens. O poeta russo Maiakovski achava que “não é difícil morrer nessa vida, viver é muito mais difícil”. Já se disse que os jovens que morrem são mais estimados pelo Céu e por tal razão seguem antes. Xenofonte, filósofo e historiador grego, ao receber a notícia da morte de seu filho, falou: “Eu sabia que meu filho era mortal”. Todos sabemos disso, mas como entender a ordem que ela escolhe? Svevo, escritor italiano do século passado, afirmava que “os mortos nunca foram pecadores”. Faz sentido. Os vivos são os pecadores. Se a morte é o encontro da paz, pensemos como Heine, poeta alemão, que dizia que a função de Deus é perdoar os mortos. A vida, penso eu, não tem grandes respostas, vive de perguntas. Essas perguntas, por exemplo, nos levam a admitir que a morte não faz sentido para os vivos. Por outro lado, será que a vida tem significação para os que deixaram de existir? Assim, em meio ao que escrevi ou transcrevi é que do meu jeito, meio sem jeito, me solidarizo com os que não encontram respostas prontas para as mortes de seus jovens filhos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 31/10/2008.

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DESERTO E PROGRESSO – Diário do Nordeste

Voltei de uma viagem profunda, embora breve. Foram milhares de quilômetros em pássaros metálicos novos a mostrar que o futuro chegou com a correção e distinção do atendimento multilíngue. Desci na primeira parada, aturdido. Era o esplendor do novo em meio a um calor de frigideira de ovos. Apesar disso, pude conversar com gente de todo tipo, raça, credo e cabeça. Não deixei ninguém de fora. Assim, abordei intelectuais, cientistas, autoridades, ricos, remediados, pobres, religiosos, ateus, jovens e velhos. A todos, fiz a pergunta: o mundo vai acabar? A reação, quase sempre, foi de estranheza. Com exceções, se assustaram, mas disseram que não e, foram mais longe, enfatizaram, cada um a seu modo, que as crises, entre outros fatores, são ainda produtos de vícios do século passado, criadas pela ilusão do lucro fácil, ideologias, dominação político/militar e a simbiose entre as atividades produtivas e a grande especulação financeira. Tudo isso junto, deu, segundo ouvi e deduzi, origem à Grande Depressão de 1929, a Segunda Guerra, a Revolução Chinesa de Mao, passou pelas guerras com a Coréia e Vietnã, a Guerra Fria com a queda do Muro de Berlim e o fracionamento da União Soviética em países de etnias distintas, invasões de países árabes pela busca ávida do petróleo, até o triste 11 de setembro de 2001, a ocupação do Iraque e todos sabem o resto da história. Hoje, mais uma crise envolve o mundo e a mídia internacional se alimenta de desgraças e dos alvitres que desejam plantar e colher. Alheio a esse jogo de xadrez geopolítico, vi brotar no deserto escaldante um planejamento urbano meticuloso e centrado no futuro, ao tempo em que surgem edificações cintilantes, majestosas e até exageradas. Mas, são talvez símbolos metálicos e concretos de uma nova geração de raça ciente de seu poder econômico a fincar raízes estruturais que parecem gritar: vejam, nós não somos o que pensam ou ouvem, somos o que estamos a construir. E não param. Estou falando de Dubai, Emirados Árabes, mas não sou guia turístico. Sou catador da essência do que ouço e vejo, Vi, quem sabe, na grandiosidade, a eloquência silenciosa de vozes não auscultadas sobre seu destino e história de milênios. A viagem não parou aí. Isto foi só o começo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/10/2008

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O ENCONTRO – Jornal O Estado

‘O mistério do galo não está na ilusão de que ele seja capaz de fazer nascer o sol, mas em que seu canto anuncia a existência do sol, mesmo ainda por nascer
Cacá Diegues
Conheço pessoas inteligentes, capazes profissionalmente, independentes, mas, apesardisso, não tiveram a coragem de marcar um encontro. Esse encontro é duro, fere profundamente e, na maioria das vezes, deixa sequelas. É preciso ter coragem para assumir o risco desse encontro. Não importa que você seja jovem ou velho, bonito ou feio, alegre ou triste, crente ou ateu, casado ou não; o importante é o encontro. Mesmo que alguém ou circunstâncias forcem esse acontecimento, se ele aconteceu não fuja dele, não se esquive com o manto das aparências que nada cobrem e despem até o que é nu por natureza.
Esse encontro é um acerto de contas com o passado e um compromisso com o futuro. E aquele compromisso definitivo consigo mesmo, a que se referia Goethe. A partir desse encontro – e é Goethe quem diz – começa a acontecer todo o tipo de coisas para ajudar a você, o que não aconteceria se esse compromisso não existisse. Uma torrente de eventos emana das decisões favorecendo a pessoa com toda a espécie de encontros imprevistos e de ajuda material que homem nenhum poderia sonhar achar no seu caminho. Tudo o que você puder fazer ou sonhar, você alcançará. Sendo assim, mãos à obra. A ousadia contém genialidade, poder e magia. Comece agora.
Deixando Goethe de lado e encarando a loucura santa do prematuramente falecido poeta Paulo Leminski, é preciso “não discutir com o destino, o que vier eu assino”. É preciso assinar, colocar o nome no que você faz conscientemente, assumir o encontro com o destino. E o que é o destino? Será, por acaso, o mundo das coisas se acasalando ou se chocando com o mundo das ideias ou das palavras? Mas, como diria um filósofo de botequim, é preciso deixar o pessimismo para tempos melhores.
A hora do encontro é tempo de cataclisma e só se vence a tragédia com ação e riso. A ação é o remédio imediato. O riso é a capacidade de não levar a sério o seu drama, de debochar do seu ensimesmamento e encarar de peito aberto a nova consciência de sua individualidade, que o levaria irreversivelmente para a solidão a que todos estão sujeitos, não fora a solidariedade dos que ainda acreditam em você, a começar por você mesmo. É claro que essa hora do encontro nos mete medo. É preciso não ter medo do medo, pois como diz Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones: “O medo é uma coisa boa. Se você não tiver medo, pode acabar pulando pela janela”. Assuma os seus medos e admita que haverá um instante, independente das suas pretensões ou apreensões, em que tudo se tomará claro e o que lhe turvava os olhos passará a ser o colírio que mostrará o brilho da vida.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/10/2008.

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LONGE – Diário do Nordeste

Resolvi dar uma trégua ao corpo e revigorar a alma. Ouvi-os e senti que precisava dar uma parada no trabalho e no dia-a-dia da minha cidade. Apenas um par de semanas, mas já estou voltando. Montaigne, escritor francês do século XVI, o das grandes descobertas, dizia: “Geralmente, a quem me pergunta a razão das minhas viagens, respondo que sei bem do que estou fugindo, mas não o que estou procurando.” Peguei o primeiro aeroplano e fui procurar novos ares. Não, não fui para o circuito Elizabeth Arden, tampouco aproveitar o sol das praias que restam ensolaradas em meio às estações que mudam com os hemisférios. Fui ver o que não conheço e rever o que vi pouco. Outros tempos, outros olhares. Esmiuçar lugares estranhos e passar longe do que costumeiramente se faz. Aprendi a viajar em aviões pequenos, ao lado do meu pai que me pedia para ler a bússola e segurar nos manetes. Depois, tomei peguei gosto e a estrada da vida, descobrindo que o mundo é também a minha casa. Vi sóis, chuvas, relâmpagos, trovões, ciclones, neves, desertos e florestas. Senti-me parte disso tudo, sem deixar de ter minhas referências. Amo a liberdade de ser apenas um e não fazer parte do todo que me abriga por um tempo, qualquer que seja ele. Olho para estranhos que nunca reverei e penso no que são e fazem e, algumas vezes, ouso até perguntar. Erro, quase sempre. Como desvendar a alma humana – se ela é um mistério – com um simples olhar? E me perco no encontro de ruas em que passo e repasso, procurando o que não sei. Mas, encontro o inesperado. Remexo em livros de uma livraria grandiosa ou despojada, ouço músicos de rua admirando a coragem de exporem seus chapéus à cata de trocados. Não faço fotos, retenho tudo na memória. Sento em um bar e bebo lentamente, esperando que esse longo drinque se transforme nos espirituais prometidos pelas águas límpidas dos rios que circundam as montanhas da terra de Sir Walter Scott. Não, não estou na Escócia. Lá só fui uma vez e basta. Estou longe, tão longe que o dia é noite e a noite se faz dia, segundo os meridianos de Greenwich.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/10/2008.