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ESTORINHA DA INVEJA – Jornal O Estado

Começo de uma estorinha do faz de conta: Um dia, alguém com os óculos na ponta do nariz, depois do cafezinho e com um olho na TV, abre o jornal e começa a folheá-lo. Vê jornal com fotos, escritos e notícias destacadas com nomes de pessoas, algumas conhecidas, especialmente uma. Essa sim, conhece bem. Gosta de promoção pessoal, propaganda disfarçada e faz mal feita. Só pode ser matéria paga, pensa. Assim, até eu, que não iria querer aparecer à custa de pagamento, só por pura vaidade. Não acredita em notícias boas, só notícia ruim é que vale: falência, separação, desastre, assalto, sequestro, doença e morte. O restante é arrumação. Quaisquer que sejam elas. E vai em frente na maledicência: Essa pessoa não é nada disso. Ela foi de minha turma por muito tempo e não tinha nada de especial. Houve um tempo, se lembro bem, ela quase arrebenta. Não sei se foi isso, mas é como se fosse e fica sendo. Ora já se viu, só pode ter alguma coisa por trás disso. Não adianta querer enganar, sempre tem alguma coisa de errado no reino dos escritos e das notícias. Meio descrente olha, mais uma vez, o nome da pessoa. Torce para que não seja ela, mas é. Também, só pensa em aparecer e se promover, sem ajudar a ninguém. Deixa pra lá, tenho mais o que fazer do que perder tempo com vaidades alheias. Eu, sim, é que merecia reconhecimento por tudo o que lutei na vida, assumindo responsabilidades e dando conta do recado. Mas, não ando me mostrando, bancando importante, dizendo que fiz isso ou aquilo. Prefiro ficar em meu canto, com a minha consciência tranquila, tomando as minhas biritas, pois não tenho inveja de ninguém, graças a Deus. Tive oportunidade de ganhar fácil, mas ninguém pega na minha munheca. Fim da estorinha.
Essa historinha, fictícia, uma parábola, mostra, quem sabe, a reação de muitos diante do que vê ou lê, especialmente sobre outras pessoas a quem não conhecem bem e delas falam mal. Ela está muito mais relacionada com a estória pessoal de quem vê e lê, com sua vida interior e frustrações, do que realmente sabe e pensa sobre os outros ou o que está escrito nos jornais ou suplementos. Os olhos dessas pessoas, muitas vezes, acompanham ressentimentos e não se despegam de mágoas, decodificações, idiossincrasias, desvios e queixumes. Aliás, a questão não se restringe a quem se olha ou o que se olha, e sim o que se fica a ruminar de inveja sobre o que se vê. A inveja é não querer que o outro tenha ou seja, mesmo sem saber de verdade quem o outro é, sente ou vive.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/06/2008.

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CULTURA E PENÚRIA – Diário do Nordeste

A maioria das pessoas não tem ciência da situação de penúria das entidades – privadas, especialmente – que cuidam da difusão da cultura no Brasil. Exceção é feita à Academia Brasileira de Letras – com renda imobiliária própria – e algumas poucas. As demais, representando mais de 95% da ação cultural brasileira, não possuem sequer sede, equipamentos e orçamento, vivendo das minguadas mensalidades de seus consócios que, muitas vezes, premidos por outros compromissos, deixam de pagá-las. As leis de incentivos à cultura, sejam municipais, estaduais ou federais, precisam de mudanças que lhes deem agilidade e capacidade de resolver essa situação que se agrava a cada dia. A figura do Mecenas, aquele que disponibiliza valores para auxiliar a cultura em suas várias formas, está cada vez mais difícil. Tentando procurar soluções, foi realizado na semana passada, em São Paulo, encontro com foco nas “Perspectivas do Investimento em Cultura”. Esse encontro aconteceu na Pinacoteca de SP, a mesma que teve agora quadros roubados por conta de ineficaz estrutura de vigilância. Do discutido ficou o consenso de que a Lei Rouanet, que destina recursos mediante projetos, precisa de reparos, pois não há gerenciamento eficaz dos processos apresentados e tampouco critérios na escolha e ação dos “pareceristas”, os que analisam os pleitos em nome do Ministério da Cultura. Duras críticas foram feitas à gestão da cultura nacional. Foi sugerida a criação de um Fundo Nacional de Cultura, o que seria ideal para todos, mas cultura não dá voto. De tudo o que lá foi exposto, sem reservas, ficou claro que essas entidades, sejam academias, institutos, produtoras de cinema, museus, teatros ou outras organizações sociais, precisam parar um pouco e pensar em ter gestões eficazes e outras soluções, não apenas as que passam por contribuições de doadores que, em contrapartida, recebem títulos disso e daquilo. Não há desdouro em revelar problemas, erros e improvisações. O mundo real perpassa o universo da cultura, pede atitudes, ações e soluções que não cabem em filmes, peças, pinturas, esculturas, ensaios, versos e nem na boa prosa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/06/2008.

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A HISTÓRIA DE FRANCISCO, TAMBÉM JOSÉ. – Jornal O Estado

Depois de uma série de e-mails e telefonemas trocados, marco encontro com Luiza Amorim e seu marido, Kildare. Jovens, bem-apessoados, chegam e estou com visitas. Mesmo assim, atendo-os, e peço meia hora de tolerância. Na hora azada voltam, sentam e ela diz de seu projeto em fase de conclusão: escrever a biografia de Lustosa da Costa, o filho primeiro de “Seu Costa” e D. Dolores. Ela fala de sua vida acadêmica e da interrupção do trabalho como repórter de televisão para se dedicar integralmente ao final da história do Lustosa. Entrega-me um exemplar do livro que escreveu sobre a jornalista Adísia Sá. Vem munida de um MP-3 que usa, com a ajuda do marido, como gravador. Faz perguntas objetivas, certeiras e tem o cacoete de não querer ficar na superfície, mas mergulhar na essência da vida pessoal e profissional do procurador, jornalista e intelectual Francisco José Lustosa da Costa. Digo-lhe o que todo mundo sabe. O Francisco veio de Cajazeiras, Paraíba, onde perdeu o umbigo. O José cresceu em Sobral, sob os olhares vigilantes de sua família e as bênçãos de D. José Tupinambá da Frota, um dos seus ícones religiosos que talvez o tenha convencido a ser seminarista, por um tempo. O Lustosa surgiu em Fortaleza, depois dos anos no Seminário, com os Diários Associados, misturando faculdade, jornal e uma televisão incipiente em que o improviso abrigava os talentosos e dizimava os incapazes. Fez-se cronista político do primeiro time, ao tempo em que concluía direito e descobria que esta cidade era apenas uma Sobral maior e que ele poderia ser o exemplo da família que morava bem ao pé da Igreja da Piedade. E assim o fez. Foi abrindo caminho certo para os outros irmãos que, tendo a mesma carga genética, viraram deputado federal, ministro, historiadora, geógrafa, médico, jornalistas e escritores. E é desse tempo o meu conhecimento com ele. Alçávamos voos diurnos em direção aos ventos da realidade, mas tínhamos noites de quimeras no Náutico, Ideal e no restaurante Lido com Lúcio Brasileiro, Danilo Marques, Fernando Távora, Frota Neto e alguns mais. Depois, irmanado a Dorian Sampaio, ressuscita o Anuário do Ceará, dando-lhe nova feição e perspectiva exitosa. Aí a história muda e entra a cidade do Rio de Janeiro em sua vida, apenas um hiato, em que passa a ser jornalista maior. Mas, seria longe, além da costa, aonde resplandeceria o fulgor de seu talento. Brasília era a menina do cerrado e ele, Costa, curioso, atento e desbravador, queria conhecer seus meandros, participar das conversas que se transformavam em ações, leis, acompanhar o seu crescimento e criar seus filhos candangos, frutos da benfazeja união com Verônica. E o restante, quem quiser saber, compareça ao lançamento da biografia do Lustosa quando setembro chegar. Cuidem de reservar lugares, pois o Clube do Bode ocupará quase uma centena de cadeiras.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/06/2008.

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SOBRE ESCREVER – Diário do Nordeste

Algumas pessoas perguntam: como você tem tempo para escrever? Respondo: faço isso de há muito. É sempre uma tentativa de ir aprendendo a escrever ou, como diz Gabriel García Márquez: “para que me queiram(ler)”. Quem escreve deseja ser lido, aliviar-se, falar do que o alegra ou incomoda e também, se possível, interagir com o olhar e o pensar do outro. Gosto de escrever quando estou só, preferencialmente em casa e quando o silêncio só é banido por raros latidos do “Tico” ou o incômodo do telefone. Escrevo o que vem à mente, de memória, do que leio e vivo, mas estou sempre atento àquela frase de Shakespeare: “os loucos guiam os cegos”. Como todos somos cegos, quem escreve não passa de um louco a falar de sonhos, passado, presente, futuro, alegria, tristeza, filhos, família, pobreza, riqueza, desditas, vitórias, espertalhões, verdades e mentiras. Juntar tudo isso, da primeira palavra ao ponto final, é que nos torna diferentes, não especiais. Os que escrevem têm a mania, mesmo que inconsciente, de dizer isso e aquilo sobre a vida, lugares e pessoas. Acresça-se a isso a capacidade inesgotável de nos metermos onde não somos chamados e acreditar que poderemos melhorar o mundo com meras palavras. Desculpem, somos assim mesmo. As injustiças e os desmandos nos amolam, mesmo que sejamos participes ou coniventes. Vivemos a catar histórias e estórias e não descobrimos respostas para questões fundamentais: por que o homem mata outro homem? Os animais, ditos irracionais, só matam quando estão esfaimados. Se estiverem saciados, nada os incomoda, nem a presença do homem. Nós nos incomodamos com tudo e pouco fazemos de objetivo. Todos os dias compramos pão, mas nos esquecemos de dar bom dia a quem nos atende de pé e com um sorriso. Esse sorriso é a esperança vã ou séria a contaminar aos que não têm tempo de dizer olá, obrigado, bom dia, desculpe, fique bem, gosto de você etc. Por outro lado, a educação nos manda não dizer verdades e, sem querer, nos tornamos hipócritas. Não deveríamos ser, mas ter compaixão pelo outro, senti-lo, mesmo sem empatia ou reciprocidade no afeto. Mas eu falava nas razões de escrever e perdi o fio da meada. Isso é escrever.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/06/2008.

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NAMORAR, VERBO ANTIGO – Jornal O Estado

Não sei se vocês ainda lembram: ontem foi o dia dos namorados. Classicamente, namorar é procurar inspirar amor a alguém. É cortejar, cativar, desejar ardentemente, requestar etc. Ora, em tempos que as pessoas estão perdendo a ilusão e que cortejar é tão antigo, requestar é palavra que não se usa mais, não se pode traduzir, literalmente, o que hoje possa ser namorar. As mulheres ainda românticas acreditam que é um passo inicial de uma relação duradoura que leva ao casamento. Mas, para ser atual, há tantas variações desse verbo da primeira conjugação. Os jovens “ficam”. Os menos jovens tem “casos” e os maduros, os que saíram da primeira conjugação, não a do verbo, procuram entender e definir o nome da relação que os remete para a difícil tentativa de estar, de forma consistente, com outra pessoa. Tenho ido a casamentos na condição de padrinho, isto é, de amigo dos pais dos noivos ou de ‘conselheiro’ de um dos casantes. E ouço com atenção as homilias dos padres que, via de regra, são fracas, pois ditas por quem não viveu o que tenta explicar ou louvar. Pode até ter tido alguma relação, mas foi acidental, escondida. Não conviveu, não teve filhos e, se os teve, não os educou como pai, mas como ‘tio’. Assim, os padres estão fora, por não terem a vivência da história do amor entre um homem e uma mulher. Creio que os pastores e os rabinos têm mais autoridade para dizer o que significa o matrimônio, mas são presos aos seus evangelhos e se perdem também na idealização de uma relação real entre pessoas que, quase nunca, fizeram cursos de relacionamento humano e têm sexos diferentes, daí as visões não complementares sobre as coisas e os sentimentos do mundo. Mas, eu ia falando sobre namoro, palavra que está perdendo o sentido de arte, de descoberta do outro, pois tudo está tão direto e óbvio, a partir das roupas, dos gestuais e das ações de cada um. Com a morte do Artur da Távola, esse grande cronista que a política contaminou, o Brasil perde um dos grandes incentivadores do namoro, pois ele – que gostava também de música clássica- quer soubesse ou não, acreditava no amor tal um conservador ou um dinossauro, como os mais jovens veem os mais velhos. Em tempos de ‘união estável’, de divórcios sem necessidade de juiz, de mulheres que ainda dão o golpe da gravidez e da cobiça pelo que imagina que a outra pessoa possa ser ou ter, há falta de ilusão, enlevo, cortesia e de descoberta e isso vai dando uma versão ainda não bem definida do novo namoro, do novo casamento ou da relação como a arte do encontro e não da mera consumação do desejo. Vinicius e Drummond estão mortos. Chico desencantou-se com a tardia solteirice e Caetano volta ao seio dos meninos do Rio, daí restam os ‘bregas’ a falar obviedades do amor, sem apresentar nada de novo em tempos de Internet, Msn, de fins de semana sem pais e de uma liberdade que ainda não disse a que veio. Namorar não é fugir da solidão. É o encontro do riso, da alegria, mas é, sobretudo, a conjugação de esperanças, o compartilhamento de sonhos, de dores e a parceria na elaboração do rascunho de uma vida em comum que se pretende feliz, mas a escrita definitiva tem muitas versões.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/06/2008.

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ALCIDES PINTO – Diário do Nordeste

Estava a virar meninote. Vizinho à casa dos meus pais havia uma criação de marrecos barulhentos. Lá aparecia um sujeito magro, esquisito, idade do meu pai, mas diferente. Dias, de paletó branco e gravata; meses depois, vestido de franciscano e, vezes, quase normal. Era irmão da D. Mirian, a vizinha da esquerda. Procurei saber o que ele fazia. Poeta, foi a resposta. Essa a minha iniciação com JAP. Distante, o quanto pode ser a relação de um menino com um homem estranho. Próxima, por me encantar a forma como se portava, sem ser o que os outros eram. Um dia, tive a ousadia de mostrar-lhe um escrito. Olhou, riu e disse: vá em frente. Décadas se passaram. Agora, em figura de admirador confesso, estou a amealhar palavras para dizer alguma coisa sobre o poeta, ensaísta, ficcionista e teatrólogo, o eterno visitante da casa dos marrecos. Premiado, consagrado, maduro e lúcido como pode ser quem vive além do real, tal novo Quixote de muitas dulcinéias. Não vê moinhos de vento, mas faz, com seus escritos, mudar o vento da mesmice da literatura brasileira, especialmente a que se configurou como a geração pós 45. Eis que, tempos depois, nos tornamos amigos, pois os maduros não têm idade, amealham lembranças e servem-se de benquerenças para o dia a dia, São, ao mesmo tempo, meninos com sonhos de usar baladeiras, jovens a sentir o cheiro de mulher, maduros a lutar pela vida, não como a traçamos. O fato é que passei a fazer parte dos que estavam próximos ao JAP, sem que pedíssemos prefácios, olhadas em manuscritos, ajudinhas literárias, coisas assim. Esse grupo, entre outros, tem gente como Sérgio, Teles e Carlos Augusto. Gente que o incitava a sair de casa, a escrever e a aceitar os loiros que procuravam sua cabeça gris e o seu coração de curumim. E lá estava ele bebericando uma cervejinha, o olhar iluminado ao passar de uma mulher faceira e sabendo estar entre os seus. Agora, JAP, tal como desejava, volta para o lugar marcado, no Estreito. Encantado por Machado de Assis que, mesmo em sua casmurrice, por ironia do calendário, resolveu, enfim, premiá-lo e, paradoxalmente, o fará em duas dimensões. Os poetas não morrem. Viram versos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/06/2008.

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CADA QUAL FAÇA SUA PARTE – Jornal O Estado

Estamos comemorando a Semana Internacional do Meio Ambiente e da Ecologia. Preservar o meio ambiente é uma preocupação recente da humanidade. Quando o cientista Charles Darwin concluiu que somos frutos da evolução das espécies e não, segundo ele, de algo sobrenatural, os homens tomaram conhecimento de que tinham de cuidar, por sua conta e risco, de sua casa, o planeta Terra. Tomar conhecimento é diferente de tomar consciência, pois esta precisa de sedimentação, discussão, transformação em uma ideia política e disseminação. A essa ideia política se deu o nome de Ecologia, palavra roubada do grego “oikos”- casa ou habitat – e de logo, que significa estudo, reflexão. Assim, a Ecologia pode ser entendida como o estudo das relações dos organismos uns com os outros e com todos os fatores naturais e sociais que compreendem o seu ambiente. Definida essa ideia, a humanidade começou a viver, no século XX, especialmente em seu último quarto, uma luta renhida para difundir, de forma clara e lúcida, o que eram e para que serviam os seres vivos, a luz, a água, o ar, o solo etc. A presunção de que éramos ou somos o único ser vivo inteligente não deixa de ser um óbice. A falta de humildade de encarar o problema, como se todos os recursos naturais fossem inesgotáveis, é produto de conveniências de um lado e de intransigências, de outro. A humanidade ainda não aprendeu a conviver em equilíbrio. Guerras, guerrilhas e lutas tribais estão vivas neste século, o tal da Agenda 21, que pretende ser a luz do mundo. Hoje, podemos mapear, via Google, todos os continentes com focos de conflito entre etnias, interesses econômicos e religiões. Isso provoca destruição de seres vivos, sejam homens, animais ou vegetais, bem como comprometimento da natureza por seu uso inadequado. As necessidades humanas, mesmo que em áreas pacíficas, cobram da natureza alimentos, casas e mobiliários que são feitos a partir da agricultura e da indústria. E, se de um lado, há necessidades desses bens, a ganância humana não estabelece limites e ignora o conceito de desenvolvimento sustentável: reposição de áreas devastadas de florestas, recuperação de cursos de água contaminados e do ar poluído pelo gás carbono que exala dos escapamentos de bilhões de veículos automotores e as indústrias. Esta conversa pode não parecer tão agradável para quem está acostumado a jogar ponta de cigarro, papel amassado e latas vazias em todos os lugares ou para os que acreditam que a natureza é a sua lixeira básica e lá depositam tudo o mais que lhes sobra. Fala-se em desenvolvimento sustentável, mas é preciso que cada pessoa, desde cedo, aprenda a fazer a sua parte, vivendo em harmonia com o meio-ambiente sem molestar todas as criaturas, sejam pessoas, animais ou as do reino vegetal. Pensar no mundo, mas cuidar de sua casa. Parece óbvio, mas não é.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/06/2008.

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VALIDAÇÃO – Diário do Nordeste

A palavra validação tem significado interessante. Vem do latim “validare” e é usada no sentido de dar validade a algo ou pessoa. É usada para deixar claro, por exemplo, que acreditamos em alguém. Mas, e sempre tem um mas, essa validação sempre vem, não por nós mesmos, e sim por termos conhecimento de um fato na TV, rádio, jornal ou em papos. O “validador” é alguém confiável e, por conta disso, o que fala tem sentido e se dá fé. Neste 30 de abril, o Brasil recebeu de uma agência internacional de análises de risco a sua validação como “Grau de Investimento” (investment grade). Passa a ser agora um país confiável onde os estrangeiros podem investir sem medo. Outro exemplo de validação: existia em São Paulo, até esta semana, uma brasileira de 43 anos, com filhos, formada em teatro e que nunca teve vez na televisão nacional. Foi escolhida por Walter Salles para participar do filme “Linha de Passe”, ainda inédito. Pois ela, Sandra Corveloni, disputando com grandes figuras – sem saber, diga-se de passagem – como Angelina Jolie, Julianne Moore e Catherine Deneuve, ganhou o prêmio de melhor Atriz do Festival de Cannes, espécie de Oscar ‘cult’ europeu. Voltando ao fio da conversa: assim, o Brasil virou importante por conta dos outros. Agora, os nossos “experts” em economia começam a tecer loas ao que criticavam e as ações sobem e descem no embalo dos que sabem e podem manejar os cordões do mercado financeiro. Certamente, como o que escrevo só vai publicado dias depois, vocês verão nestes dias nas TVs e jornais a “descoberta” de Sandra Corveloni e seu endeusamento por entrevistadores que nunca a notaram antes. Nós todos somos, salvo exceções, vaquinhas de presépio, induzidos a achar que tal coisa é boa porque alguém usa ou faz; que fulano é importante porque saiu escrito; que o lugar é bom porque beltrano e cicrano o frequentam. Quanta bobagem. Valide ou valide-se por você mesmo, decida o seu pensar, não vá por aparências, propaganda, notícias plantadas e interesses. O Brasil está vivendo um grande momento, isto é um fato. Basta ter bom senso para ver. Do mesmo modo, Sandra ganhou por ter valor, desconhecido pelos que hoje a validam.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/06/2008.

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SENSIBILIDADE – Jornal O Estado

Fui a uma missa de Trigésimo Dia. Era numa igreja católica, certamente. A diferença é que era uma concelebração na noite que ensombrava neste maio calorento e úmido. Havia um padre e um pastor. Cada qual na sua eloquência, interpretando evangelhos complementares sobre a vida e a vida após a vida. As palavras eram soltas, mesmo que pré-pensadas, fugiam da liturgia usual e mostravam garantia de benquerença com a família. O conteúdo e a crença de cada um dos dois não causavam dano ao outro, mas sinergia e coesão. Falavam sobre amor e compaixão, não de forma ritualística, mas humana, quase casual e fácil compreensão laica. Por outro lado, a trilha sonora da cerimônia não havia sido encomendada aleatoriamente. Dignificava o ouvido e os dedos – puxando ou retendo cordas – que criavam acordes de quem havia partido. Dignificava, sobretudo, pelas melodias e o conteúdo simbólico dos versos de cada uma das canções escolhidas com carinho, sensibilidade e atenção. Havia dor, é claro, mas compungida. No ambiente cabiam a sonoridade da música e de seus intérpretes, a partir de uma criança de 10 anos. Essas ressalvas definem claramente a delicadeza dos que, mesmo pesarosos e privados de seu marido, irmão, pai, avô e líder, souberam honrar sua ausência-presença com amor e sutileza, inclusive na seleção de fotos a paginar o livreto de acompanhamento. É nesses momentos que se conhece o nível de educação, discrição e respeito de todos e cada um. Lá do meu canto, acompanhava tudo e sentia o pesar dos que lá estavam por parentesco e amizade. É claro que a maioria era de amigos, até os que não precisavam ir lá à frente apertar mãos e saíram como chegaram: silentes, com respeito e atenção, pois essa missa era, acima de tudo, um ato de fé e esperança. Não era fruto da razão, ultrapassava seus limites, pois segundo Anatole France: “A razão não tem tantas virtudes assim. É preciso, para servir aos homens, rejeitar a razão, como uma bagagem embaraçosa e, elevar-se sobre as asas do entusiasmo. Quem raciocina, não voa”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30/05/2008.

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PERSONALIDADE – Diário do Nordeste

A Brazilian-American Chamber of Commerce realizou, na quinta-feira, a sua 38ª. edição de entrega do prêmio Personalidade do Ano na cidade de New York. Essa grande festa anual tem nível de respeitabilidade internacional por conta de sua seletiva Diretoria e do Comitê Honorário. Os nomes que os integram são destaques em suas áreas de atuação e têm um zelo na escolha de cada personalidade que é eleita, anualmente, exceto no ano de 2001, por conta dos ataques de 11 de setembro. Este ano, a personalidade brasileira escolhida foi a senhora Yolanda Vidal Queiroz, dirigente do grupo Edson Queiroz, desde o falecimento de seu marido, em 08 de junho de 1982, em acidente aéreo. Não há dúvida que os patrimônios material e imaterial deixados por Edson Queiroz, espargidos por todo o Brasil, são significativos e relevantes. Não se pode deixar de realçar o empenho da família e executivos nos vários ramos em que atuam com discrição, responsabilidade, eficácia e descortino. Mas, cumpre destacar que D. Yolanda Vidal Queiroz, com seu jeito cordial de falar com todos, enfeixou e passou a liderar milhares de pessoas na complexa estrutura organizacional. Tem crescido, em atuações marcantes no ensino superior, com a respeitável Universidade de Fortaleza, exemplo de gestão acadêmica e de êxitos; na distribuição de gás liquefeito de petróleo em todo o Brasil; na indústria de eletrodoméstico; na sempre crescente atuação na área de águas minerais; imobiliária e fazendas; e no complexo de rádios, jornal e televisões que abrange não só o Ceará, mas outros estados brasileiros. E, repito, tudo isso é edificado e consolidado, no dia a dia, com cautela e sensibilidade femininas, atenta aos detalhes, auscultando familiares, mas tendo consciência de que a sua palavra final é decisiva. O que nos alegra, como cearenses, é que D. Yolanda é a primeira mulher brasileira a ser distinguida com esse laurel internacional que faz justiça à força do seu trabalho, respeito aos colaboradores e à crença de que somos operários da vida e que nossas mentes são fábricas de sonhos que precisam ser implantadas, mas sem os ruídos dos moinhos de ventos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/05/2008.