Começo de uma estorinha do faz de conta: Um dia, alguém com os óculos na ponta do nariz, depois do cafezinho e com um olho na TV, abre o jornal e começa a folheá-lo. Vê jornal com fotos, escritos e notícias destacadas com nomes de pessoas, algumas conhecidas, especialmente uma. Essa sim, conhece bem. Gosta de promoção pessoal, propaganda disfarçada e faz mal feita. Só pode ser matéria paga, pensa. Assim, até eu, que não iria querer aparecer à custa de pagamento, só por pura vaidade. Não acredita em notícias boas, só notícia ruim é que vale: falência, separação, desastre, assalto, sequestro, doença e morte. O restante é arrumação. Quaisquer que sejam elas. E vai em frente na maledicência: Essa pessoa não é nada disso. Ela foi de minha turma por muito tempo e não tinha nada de especial. Houve um tempo, se lembro bem, ela quase arrebenta. Não sei se foi isso, mas é como se fosse e fica sendo. Ora já se viu, só pode ter alguma coisa por trás disso. Não adianta querer enganar, sempre tem alguma coisa de errado no reino dos escritos e das notícias. Meio descrente olha, mais uma vez, o nome da pessoa. Torce para que não seja ela, mas é. Também, só pensa em aparecer e se promover, sem ajudar a ninguém. Deixa pra lá, tenho mais o que fazer do que perder tempo com vaidades alheias. Eu, sim, é que merecia reconhecimento por tudo o que lutei na vida, assumindo responsabilidades e dando conta do recado. Mas, não ando me mostrando, bancando importante, dizendo que fiz isso ou aquilo. Prefiro ficar em meu canto, com a minha consciência tranquila, tomando as minhas biritas, pois não tenho inveja de ninguém, graças a Deus. Tive oportunidade de ganhar fácil, mas ninguém pega na minha munheca. Fim da estorinha.
Essa historinha, fictícia, uma parábola, mostra, quem sabe, a reação de muitos diante do que vê ou lê, especialmente sobre outras pessoas a quem não conhecem bem e delas falam mal. Ela está muito mais relacionada com a estória pessoal de quem vê e lê, com sua vida interior e frustrações, do que realmente sabe e pensa sobre os outros ou o que está escrito nos jornais ou suplementos. Os olhos dessas pessoas, muitas vezes, acompanham ressentimentos e não se despegam de mágoas, decodificações, idiossincrasias, desvios e queixumes. Aliás, a questão não se restringe a quem se olha ou o que se olha, e sim o que se fica a ruminar de inveja sobre o que se vê. A inveja é não querer que o outro tenha ou seja, mesmo sem saber de verdade quem o outro é, sente ou vive.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/06/2008.
