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NOVO ACADÊMICO – Jornal O Estado

Ubiratan Aguiar é o mais novo acadêmico da Academia Fortalezense de Letras. Pulsou em mim a alegria de trazê-lo a esse delírio coletivo, a pátria dos que se lançam ao desafio de expor os seus escritos aos olhos dos outros. Não importa seja prosa, verso ou prosa poética. O que conta é a coragem de abrir suas veias e deixar que o sangue se perpetue no papel.
Ubiratan Aguiar chegou ontem ao Palácio da Luz, matriz das academias de letras cearenses e palco nos últimos duzentos anos dos mais importantes acontecimentos do Ceará. Um Palácio que, de propriedade privada, passou a bem público e agora abriga os que trabalham com palavras e quimeras. A Academia Fortalezense de Letras, nascida neste século, pelas mãos de Mathusaíla Santiago e José Luís Lira, e, por tal razão, compromissada com o futuro, mas ajustada na sua sedimentação com a argamassa da história, a água do passado e até do limo que exsuda destas paredes de tijolos dobrados. Na solenidade eu perguntei, como se fora um padre, pastor ou rabino em uma cerimônia de casamento: – Ubiratan, você exerce atividade literária? – Você está interessado no bom funcionamento da instituição? – Você quer se unir a ela? Ele respondeu sim a cada pergunta. Mas o fez com a linguagem da alma.
De minha parte, afirmei que você exerce atividade literária e que seu histórico de vida não deixa dúvida quanto ao compromisso de zelar por nossa Academia. Por essa razão tomei a iniciativa de indicar seu nome, obtendo total acolhida dos nossos pares. Ubiratan Aguiar é madeira de lei: um cedro menino transplantado para Fortaleza e daqui — onde suas raízes foram fundeadas — esgalhou-se pelo Planalto Central, esse quase sertão vermelho cujo ar rarefeito parece incidir, muitas vezes, na razão coletiva. Mas Ubiratan sempre teve um plano piloto pessoal que o conduziu pelos caminhos da decência. E o faz segundo uma cronologia simples, verdadeira e consistente.
O que dizer de um homem que, por méritos pessoais, consegue iniciar sua vida política como vereador, alça-se a condição de deputado estadual, secretário de Estado e chega já na qualidade de Deputado Federal, a ser Constituinte, Presidente da Comissão de Educação e, por duas vezes, é eleito Primeiro Secretário da Câmara Federal?
A sua história pessoal já está inscrita nos anais da Câmara Municipal de Fortaleza, da Assembleia Legislativa do Ceará, da Câmara Federal e nos arquivos eletrônicos e julgados do Tribunal de Contas da União. Queremo-lo – disse eu – Ubiratan, em outra nova luta coletiva: a de fazer este Palácio da Luz ainda mais esplendoroso em conteúdo, formas e cores. Garboso na sua restauração necessária e do seu entorno.
Saiba, por fim, que a dúvida que persiste na indagação que sempre faz ao fim de seus versos não deixa de ser uma inquietação poética. E quem escreve especialmente versos, estabelece uma relação de caráter dialógico ao procurar fazer um acerto de contas com o seu eu profundo, medos, sonhos, história, signos, símbolos e mitos. Se esse sentimento chega com a maturidade, que seja bem-vindo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14/03/2008.

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MUNDO REAL – Diário do Nordeste

Permito-me, vez por outra, andar pelo centro da cidade. Esse espaço múltiplo contemplando praças, avenidas, ruas, passeios de pedestres, lojas, biroscas e estacionamentos de veículos. E o faço em horários diferentes, com alegria, ao receber o sol forte a me mostrar no corpo e na alma o mundo real da maioria dos brasileiros. Esse mundo passa pelos terminais de ônibus, espreme pessoas em longas viagens, cata empregos e frequenta lojas de preços baixos e usados. Ouvem-se músicas cujos ritmos, autores e intérpretes não são os da mídia dita cult. Enquanto o suor molha a camisa, camelôs tomam conta das calçadas vendendo capas de celulares, fraldas, brinquedos, relógios, CDs piratas, livros usados, pilhas e panos de chão. Amolam facas e tesouras, consertam rádios, óculos, panelas e sapatos, vendem cafés com bolos, salgadinhos, sanduíches e sucos. Cantam emboladas e tudo o que a sua imaginação permitir. E vejo que as calçadas estreitas, nos obrigam a fazer malabarismos para não ir de encontro às bancas e aos ambulantes, embora parados. Muitas vezes, temos que descer para a pista de rolamento. Os carros passam buzinando e os retrovisores até tocam os nossos braços. Ainda bem que levemente, pois o trânsito é, quase sempre, moroso e caótico. Os postes são repletos de soluções para a vida, em cartazes: cursinhos para concursos, cartomantes que prometem a resolução de pendências afetivas e financeiras. Há também os que trabalham vestidos de palhaços ou pernas de pau, com alto-falantes em punho, oferecendo em som estridente roupas e utensílios de lojas com tabuleiros na calçada. E recebo folhetos sobre financeiras, cartões de crédito, loteamentos, comidas a quilo, vendas de motos e até de motéis populares com preços promocionais. Este mundo encantado e real não nos deixa perder a essência profunda da nossa brasilidade, forjada na luta que nos acompanha por toda a vida e prova, que a cada olhar que cruzamos nestas calçadas esburacadas e encardidas, que somos todos iguais neste universo desvairado do qual não temos a chave da entrada e, muito menos, a da saída.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/03/2008.

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POR QUÊ? – Jornal O Estado

Não concordo que apenas, amanhã, 8 de março, seja o Dia das Mulheres. Aliás, concordo apenas do ponto de vista da comemoração, da luta contra os preconceitos e das vitórias profissionais que alcançaram, mesmo com ou apesar de muitos homens. Não vou cair no clichê de dizer que todo dia é dia da mulher. Tampouco direi que todo dia é dia do homem. Precisa ser criado o dia dos dois, parceiros. Esse dia deveria ser celebrado todos os dias. Mulheres e homens de hoje ainda são herdeiros de preconceitos, desacertos, afetividades truncadas e vidas sofridas. Estão se redescobrindo, ensaiando relações novas, mas pecam em seus fundamentos.
Mulheres e homens se chateiam, veem diferentemente as suas relações afetivas, têm níveis de paciência diversos e as suas crenças nos seres humanos e no trabalho obedecem a juízos de valor com níveis distintos de percepção.
Mulheres e homens precisam descobrir como as suas diferenças básicas podem ser diminuídas, rediscutidas e acertadas. Se não acertadas, mas assimiladas.
Nesse tempo de hoje em que muitos estão, em menor ou maior grau, insatisfeitos com o desenrolar de suas vidas é preciso humildade e sabedoria para discutir o simples. Por que ele não tem o mesmo nível de paciência dela? Por que ela se apega a detalhes que ele não vê? Por que ela reclama da sua desorganização e ele não aceita a pia coberta disso e daquilo? Por que ainda não descobriram uma forma cordial e leve de entender a função do dinheiro em suas vidas tão diferentes, mas complementares?
Porque não veem os filhos com os mesmos olhares e os criam divididos entre as suas formas diferentes de expressar o amor? Porque se apropriam de frases soltas ditas no calor de uma discussão e fazem disso um grande problema? Por que se trai, não o amor, mas o que não se aceita na outra pessoa, tão frágil quanto você?
Por que se discute sem o uso da razão e se deixa que tudo vá mais longe que o necessário? Por que não se aprende a pedir desculpas e não se cultiva o riso e a descontração como bases de uma relação, mesmo que ela seja difícil? Por que temos que ser vitoriosos em decisões bobas que vão se tornando maiores que a nossa capacidade de aceitar. Por quê?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07/03/2008.

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ENVELHECER – Diário do Nordeste

Acabei de ler um livro da escritora inglesa Elizabeth Taylor. Não confundir com a atriz homônima, também inglesa, mas que fez sucesso em Hollywood, Estados Unidos. “Mrs Palfrey no Claremont” é um romance curto sobre a solidão da velhice (“Ela aceitava a idade do modo que ela chegava, e estava chegando depressa”). Retrata com detalhes e humor tipicamente britânico a vida de uma senhora viúva que se recolhe em um hotel em Londres para fugir da solidão dos asilos de velhos. Vejam que trecho bonito e duro: “Envelhecer era um trabalho árduo. Era como ser um bebê ao contrário. Para um bebê, cada dia significa aprender coisas novas. Para os velhos, cada dia significa perder alguma coisa”. Mrs. Palfrey descobre, logo, que os poucos idosos residentes no hotel, têm uma teia de futricas, destacando-se a apresentação de parentes aos demais como forma de demostrar prestígio e fazer crer não estão sós no mundo. Ela tem um neto que mora em Londres que não lhe dá a menor atenção. Um dia, ela leva uma queda na cidade e é socorrida por um jovem, aprendiz de escritor. A esse jovem ela pede que se passe por seu neto. E o faz para não ficar por baixo. Dessa relação meio acidental, meio forçada, surge uma dependência emocional ao suposto neto que, algumas vezes, vive aflições nos contatos com os amigos de Mrs. Palfrey. O que importa e fica da história é a certeza de que as amizades são, algumas vezes, maiores que o parentesco. O que ela apenas pede ao falso neto é um pouco de atenção no vazio de tempo que é a sua vida de aposentada. Em inglês, aposentado é “retired”. Ao pé da letra são os retirados da circulação, do mundo produtivo. Quanto engano. Há muita sabedoria na convivência com idosos, pois passaram pelas alegrias e males da existência com capacidade de contemplação aliada à compaixão, sentimento pouco comum aos jovens, ainda envoltos com a falsa ideia da perenidade da vida. Não há tempo perdido no encontro com os mais velhos. Seus passos ou vozes vacilantes são iluminados pela sabedoria natural de conservar a esperança no próximo. Especialmente se o próximo deles se acercarem com carinho.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 02/03/2008

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O TEMPO MARCA – Jornal O Estado

Não importam idade, o sexo, cor, capitais e estado civil, todos vão recebendo marcas da vida ao longo dos dias. Todos vão somando alegnas, enganos, tristezas, acertos, dores, solidão, encontros e coisas que tais. De repente, as marcas vão povoando o espírito, quando não se transmudam em somatizações tão reais que podem ser auscultadas, sentidas e vistas. Essas marcas são mais fortes na medida em que não sabemos o nosso limite, a hora de mudar de rumo, de não entender o outro como projeção dos nossos desejos e aceitar que as promessas e juras são frutos de um contexto que se transforma no tempo com a lucidez ou a mudança de personagens.
As marcas ficam tênues quando entendemos e admitimos que nós temos todas as respostas e que ninguém é responsável pelos nossos desatinos e a indecisão que machuca, desconforta e imobiliza. Ninguém tem respostas para você ou sabe o tempero que nutre as esperanças e as alegorias que embalam os seus sonhos. Não há como procurar muletas e admitir que alguém possa resolver os seus problemas. Mergulhe na água da sabedoria, que é a sua praia pessoal, e saia ungido da certeza, da confiança em si mesmo.
Na medida em que você confia em si, os outros deixam de ser acessórios ou adornos e passam a ser companheiros e o compartilhamento é o somatório do esforço comum e não de frustrações e quimeras. A confiança em si é um pressuposto básico para a independência e sem independência não se pode ser livre e quem não é livre não sabe amar. O amor-submissão e o amor-dependência são relações ultrapassadas e neuróticas que reduzem os seus participes a meros marionetes do destino. A eclosão da independência e da liberdade se extravasam no amor próprio, na aceitação de si mesmo sem justificativas ou sentimento de culpa. A sua singularidade é um aviso, um balizamento para respeitar a identidade alheia e os acontecimentos devem abrir a sua mente em relação ao próximo que nunca será tão próximo que possa fundir¬ -se ou confundir-se com você. Como bem disse Ana Maria Ozório de Almeida: “Precisamos aprender a não carregarmos pesos demais, não escondermos de nós mesmos dores não saradas, não desperdiçarmos energia criativa, a energia do prazer, em remendos mal feitos”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/02/2008.

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FIDEL – Diário do Nordeste

O que falar sobre Fidel que já não tenha sido dito? Ditador? Revolucionário? Herói? Mito? Tudo já foi escrito em artigos, teses, livros, jornais, revistas, TV e filmes. O fato é que Fidel Alejandro Castro Ruz, 81 anos, deixou o poder efetivo que manteve por 49 anos sobre a Cuba que tomou de Fulgêncio Baptista. Sua luta hoje parece ser permanecer vivo, dar dignidade ao corpo alquebrado por doença a consumir todas as energias vitais. Não mais fará discursos com horas de duração, tampouco vestirá a sua farda de “Comandante”. Não usará mais os velhos aviões russos em que, garboso, viajava pelo mundo e aparecia na escada como estadista. O homem Fidel sente-se finito, cioso do que lhe resta e já não adiantará mais que assessores revisem – ou escrevam – e publiquem pronunciamentos seus no Granma, o diário oficial de Cuba. Sua voz poderá não ter vez no corpo doente. Talvez nada mais importe para quem não pode fumar os seus charutos, soltar baforadas e desaforos em direção aos Estados Unidos. Suas botas duras estão substituídas por chinelos moles. Seus álbuns de fotos restarão guardados em um velho armário e poucos terão acesso a eles. Lembrará ele do jovem advogado Fidel a descer de Sierra Maestra com seus companheiros e saberá que cada passada sua fechava um ciclo de Cuba e criava outro. Na planície, em La Habana, sonhou com a liberdade e tentou, a seu modo, escrevê-la de outra forma. Mas não há adjetivos para ela. Ou existe ou não acontece. E agora na lucidez que lhe é permitida pelos remédios que minoram suas dores lembrará certamente de seus tempos mexicanos quando cunhou a frase: “Pátria ou morte”. E terá a certeza de que Cuba sobreviverá a ele e nas casas de Havana, Santiago de Cuba e Trinidad jovens e velhos como ele estarão fumando e tomando rum, olhos e ouvidos nas notícias. Fidel talvez não queira mais falar com Chávez, tampouco responderá diretamente as mensagens que receberá ou sequer ouvirá o que prometem fazer por Cuba ou em Cuba os candidatos à eleição presidencial americana. Mas, mesmo se dizendo ateu, talvez agradeça as muitas rezas que mulheres cubanas ainda farão por ele.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/02/2008.

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EMPRESÁRIO DO IMPÉRIO – Jornal O Estado

Jorge Caldeira, jornalista, sociólogo, cientista político, agora eleito para a Academia Paulista de Letras, utilizou três anos entre a pesquisa e a publicação do livro “Mauá, Empresário do império”, edição da Cia das Letras, em 1995. O resultado das 557 páginas é consagrador.
Por muito tempo na lista dos livros mais vendidos, “Mauá” representa o resgate da figura de um menino pobre do Rio Grande do Sul que chegou ao Rio de Janeiro no ano da independência do Brasil com nove anos de idade. Empregou-se como “caixeiro”; aos 15 já sabia tudo de comércio e aos 30 era um grande empresário, homem à frente de seu tempo e foco de invejas até do Imperador D. Pedro ll, a quem fez, sutilmente, conduzir um carro de mão e utilizar uma pá no lançamento de uma ferrovia.
O trabalho, naquele tempo, era apenas para escravos. lrineu Evangelista de Sousa, o barão de Mauá, desmitificou essa ideia ao contratar técnicos e mão-de-obra na Europa, com visão de mundo que ainda hoje causaria furor. Lançou-se em empreitadas tão dispares como a indústria naval, criação de bancos, estradas de ferro, navegação na Amazônia, empréstimos no Uruguai, iluminação a gás no Rio de Janeiro e, ao final de sua vida, à atividade agropecuária, tendo a coragem de trazer chineses para ajudá-lo nessa tarefa. O livro não é só Mauá. Jorge Caldeira repassa, com uma visão moderna, toda a história brasileira do século XIX, desde a chegada da família real portuguesa enxotada por Napoleão, em 1808, sua estada no Rio de Janeiro, a influência dos traficantes de escravos, a distribuição de empregos públicos para os amigos da Corte e a tutela inglesa em todas as nossas ações. Relata ainda a volta de D.João Vi à Lisboa, as regências, especialmente a do Pe. Diogo Antonio Feijó e sua controvertida figura de filho de padre e de ter tido, tal como seu pai, vários filhos. Destaca a personalidade de D.Pedro I e se detém em D.Pedro II, que nunca teve a dimensão que alguns historiadores lhe conferem nestes duzentos anos da chegada da família real ao Brasil.
“Mauá” é também a história da fundação do Banco do Brasil, das tricas e futricas pela subscrição de suas primeiras ações e do uso, já naquela época, da instituição para beneficiar, a juros baixos, os amigos do Imperador, a quem Caldeira, por descuido ou sutileza, chama de rei em diversas partes de seu livro. Ele deve ser lido por todos os que acreditam no trabalho, na vitória da competência sobre a maledicência, na capacidade de superar obstáculos (faliu e deu a volta por cima) e de aliar tino empresarial a um conhecimento intelectual de fazer inveja, pois lia, em inglês, as obras de Adam Smith, Ricardo, Mill e Bentham. O resgate da figura de “Mauá” por Jorge Caldeira é um presente que se oferece aos jovens e, principalmente aos estudiosos da vida empresarial brasileira do Século XIX. Não basta comprar o livro, melhor que isso é lê-lo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/02/2008.

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LUTAS PRIMÁRIAS – Diário do Nordeste

Parece que os tempos andam mudando de verdade. Surge nos Estados Unidos Barack Hussein Obama. Vejam o nome, sugere ligação com o terror do Al Qaeda. Não tem. É filho de um queniano que foi estudar no Havaí, lá se encontrou com uma americana e com ela casou. Ali Nasceu Obama. Se brasileiro fosse, seria mulato. Nos Estados Unidos, ele é negro. O fato, independente de sua cor, é que Obama nasceu dois anos antes de John Kennedy ser assassinado e acontecer o fim legal da discriminação. Sua mãe o levou para a Indonésia onde passou anos. Voltou, estudou na Universidade de Colúmbia e, posteriormente, frequentou a Universidade de Harvard, de onde saiu advogado com louvor. Aos 46 anos, senador pelo Illinois, primeiro mandato, enfrenta Hillary Clinton, também senadora, herdeira política de seu marido Bill e figura proeminente do Partido Democrata que acredita ter chegado a sua vez de retomar a Casa Branca.
As eleições primárias, essas em curso, são uma peculiaridade americana. Custam milhões de dólares e quase nunca apontam surpresas. Neste ano, Obama é a novidade, consegue apoio forte dos jovens que, até bem pouco, não se interessavam em votar, pois lá o voto é opção. É claro que só em agosto sairão os nomes dos candidatos que irão disputar as eleições para Presidente dos Estados Unidos em novembro, mas cresce uma onda de adesões e contribuições financeiras de alto quilate para Obama. E isso só é lógico se os grupos econômicos que o apoiam acreditam na possibilidade de sua indicação e consequente eleição. Ele é casado, evangélico, duas filhas, fluente, articulado, longilíneo e autor de dois livros (Sonhos Desde Meu Pai e A Audácia da Esperança), realmente escritos por ele e são bons. Não se sabe se foi dele a simples frase de duas palavras que está mexendo com a América: nós podemos (we can). Para a turma jovem brasileira seria o caso de dizer que ele está, realmente, podendo. O que ainda não fica claro é como será o desfecho dessa história. Parece cedo demais para já se falar em final feliz.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/02/2008.

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REPÓRTER – Jornal O Estado

Gosto de notícias pelo rádio, jornal, televisão e Internet. Não a notícia requentada, mas aquela originada do trabalho de um repórter. O que vai atrás dos fatos, pesquisa, conversa, analisa, critica e a transmite, mesmo sabendo que a história possa estar incompleta ou em desdobramento. Atualmente, seja dirigindo o carro, sentado no computador, olhando a televisão ou folheando jornal, ficamos ouvindo, vendo ou lendo sobre o que acontece do mundo. É claro que há ênfase no noticiário local, mas os veículos de comunicação dão destaque ao que acontece no país e no mundo. Basta ver que jornais, agências de notícias e de televisão mantêm repórteres e até estúdios nos centros geradores de notícias. O que vale no repórter é não só a pauta ou tarefa que lhe é passada, mas o seu descortino, o jeito de ir fundo na matéria brotando de seus contatos, fontes básicas de informação, da conversa pretensamente solta com o povo e das testemunhas circunstanciais de quaisquer acontecimentos. Um exemplo desse fato é Macário Batista, viajante à cata de notícia pelo mundo. Escreve e mora aqui ao lado, mas vive de mala e cuia por tudo o que é lugar. Outro, o Wilson Ibiapina, saiu de Fortaleza para cobrir notícias de Brasília para o Sistema Verdes Mares e já mora a vários lustros naquela cidade. Todas as manhãs dá notícias na programação da Rádio Verdes Mares. Em Paris, Realli Jr., jornalista da Folha de São Paulo, se fixou e até escreveu livro sobre os fatos e as pessoas noticiadas em sua faina lá exercida há dezenas de anos.
Além dos repórteres generalistas, há os especializados em cobrir áreas diversas como política, economia, esportes, clima, artes, cultura etc. Todos esses ramos da reportagem nos mantêm – na comodidade de nossas vidas – capazes de saber o que está acontecendo com o país e os políticos; como vai indo o nosso trabalho ou dinheiro; as razões para nosso time ter ganhado ou perdido; o que temos para ver de melhor nos cinemas, teatros, exposições; a roupa que vestiremos etc. Ninguém se dá conta de como seria o mundo sem informação, sem o repórter que, no mínimo, procura destrinchar fatos e oferecer um sentido profissional à comunicação tão importante à vida de todos. Como todos têm o direito ao seu dia, amanhã será o Dia do Repórter, a quem a sociedade tanto deve e talvez nem disso saiba.

JOÃO SOARES NETO,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/02/2008.

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HORÓSCOPOS – Diário do Nordeste

A maioria das pessoas se descuida do hoje na esperança de um futuro melhor. Acreditam que chegará um tempo em que tudo estará bem. As dívidas serão pagas, haverá bom emprego, carro novo substituirá o comprado no consórcio e a casa própria será alcançada. E fazem isso não como atitude, determinação e desempenho profissional, mas sob o manto da magia, esperança e da fé. Não apenas da fé religiosa. A que nos é legada, quase sempre, pelos ancestrais e que cultuamos ou não. Mas na procura de oráculos, divindades e a crença, por exemplo, na astrologia. Há revistas, livros, sites, “blogs” aos milhares na Internet, isto sem falar nas colunas de horóscopos de revistas e jornais espalhados pelo mundo.
Muita gente, ao abrir o jornal ou revista, vai direto ao horóscopo e se sente influenciada pela predição do seu signo. Há ainda os que pagam por mapas astrais, tarôs e quiromantes. Procuram respostas para questões pessoais e formas de superar medos, desvios de personalidade ou de meras limitações. Sabedores disso, muita gente aproveita e se estabelece, como “consultores” pessoais nessa área, tão mítica quanto atraente, na busca de respostas para questões não resolvidas do mundo real ao qual pertencemos. E as colunas de horóscopo, embora singelas e feitas até para dar ânimo ou esperança, não são muito diferentes dos livros de autoajuda que vendem como banana e, quase sempre, restam guardados sem que seus leitores encontrem ali soluções miraculosas.
No fim da década de 50, os filósofos Roland Barthes, francês, e Theodor Adorno, alemão, fizeram trabalhos distintos sobre horóscopos. Roland Barthes escreveu o livro “Mitologias”, em que analisa a coluna de horóscopo da revista “Elle”. Adorno se valeu do “Los Angeles Times” e sua coluna diária sobre signos para escrever “As estrelas descem à terra”. Ambos desmistificam o assunto. Para Adorno tratava-se de “superstição de segunda mão”. Barthes dizia que a sua leitura é prova de “semi-alienação”. Para Ricardo Musse, sociólogo, USP, baseado nos dois citados, os horóscopos de hoje, como os de antes, são “espelhos do mundo social”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/02/2008.