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LUÍS ESTEVES – Jornal O Estado

Faz muito tempo. Eu estava prestes a casar e precisava mandar fazer os convites do casamento. Queria-os simples, sem dobras e nada de floreados.
Procurei saber quem melhor fazia convites. Não foi difícil chegar a essa conclusão. Relutei em ir lá, pois a sabia como a maior e mais tradicional empresa gráfica da cidade, clientela imensa, tanto privada, quanto pública. Mesmo assim, fui dar com os costados à Rua Senador Pompeu, 754. Qual não foi a minha surpresa ao ser recebido pelo próprio dono. Luís Esteves Neto, um jovem quarentão, bem-apessoado, de bigode e óculos, atendia ao balcão. Tratava a todos sem distinção, mas particularizando o atendimento. Eu vi. Ninguém me disse. Nesse dia havia muitos clientes a atender. Ele fazia os cálculos com rapidez, mostrava detalhes, trocava dois dedos de prosa e fechava as encomendas. Chegou a minha vez. Mostrei o modelo que havia feito. Ele pediu licença, foi lá dentro e trouxe uma pasta com vários modelos. Nenhum era exatamente o que eu queria, por serem muito elaborados, dourados ou sofisticados. Queria algo simples, mas com classe. Ele concordou comigo, combinamos o dia para ver as provas e o preço final. Antes de me despedir, ouvi o barulho das impressoras funcionando e perguntei como ele se acostumara a aquele nível de ruído. Ele abriu uma portinhola, pediu que entrasse e disse: vamos dar uma olhada. E lá fomos ver todas as seções, onde dezenas de pessoas trabalhavam. Umas em composição e fotolitos, outras em impressão, corte, vinco, acabamento e expedição. Era um mundo.
Estou escrevendo tudo de memória e relembro: eu era apenas um jovem profissional que estava prestes a casar e o Luiz Esteves já era um senhor empresário, líder, com clientes a esperar lá fora e empregados que solicitavam sua atenção. Vimos tudo e a todas as perguntas que fiz, ele respondia com atenção, calma e consciência de quem sabia o seu ofício, pois tinha crescido ali naquela gráfica de família. Ele já era a segunda geração dos Esteves e trabalhava com a energia de um calouro.
No dia marcado da prova, fui lá. O mesmo burburinho de gente e de máquinas. O modelo foi aprovado sem restrições. Voltei apenas para receber a encomenda já empacotada com papel madeira e um original do convite na parte externa. Tirei o cheque do bolso para pagar o previamente acertado. Ele segurou minha mão e disse sorrindo: João, este é o meu presente para o seu casamento. Não quis aceitar, mas não houve jeito. E foi assim, a partir daquele fato que a minha admiração pessoal por Luís Esteves. Surgiu e permanece. Independente do tempo e da sua passagem para a outra vida. Deus o guarde.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/02/2008.

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É CARNAVAL – Diário do Nordeste

Andei pesquisando para saber o que significa a palavra carnaval. Consta no Aurélio que era “no mundo cristão medieval, período de festas profanas que se iniciava no Dia de Reis (Epifania) e se estendia até a quarta-feira de Cinzas”. Diz, em seguida: “Os três dias imediatamente anteriores à quarta-feira de Cinzas, dedicados a diferentes sortes de diversões, folias e folguedos populares, com disfarces e máscaras”. Não há, nem nas definições seguintes, nada que explique a essência da palavra carnaval. Virei e mexi. Descobri em outras fontes três possíveis versões, talvez não confiáveis: 1- afastar a carne (carne vá), 2-carne nada vale (carnavalle) e 3- carro naval (car naval). Essas três versões permitem ilações de toda natureza e cada qual faça a sua, como melhor lhe aprouver. Desde que não ligue direção à bebida.
O fato é que, até hoje, apesar de ser uma festa profana, é atrelada ao calendário da Igreja Católica. Por sua vez, o calendário religioso depende das fases da lua ou do sistema lunar. Assim é que o domingo de Páscoa é sempre o primeiro domingo após a primeira lua cheia que acontece a partir de 21 de março. É uma festa móvel, como se vê, dependendo da lua, ora veja. Parece coisa de samba de crioulo doido, misturando fé, astronomia e diversão. Mas é assim que ainda hoje se marcam os dias de carnaval que pularam de três para quatro, cinco ou até uma semana, dependendo da cidade ser mais ou menos festeira.
Pelo sim, pelo não, estamos neste domingo de carnaval em pleno fazer nada, exceto para os que têm plantão obrigatório, e trabalham em órgãos de segurança, hospitais, transportes urbanos. E “brincantes” que se esbaldam, amanhecem no último dia, seja lá qual for, totalmente avariados, corpos moídos, ressacas física ou moral, quilos ganhos ou perdidos e contas que precisam ser pagas. E esse tempo de fazer nada me leva a indagar a razão de, “no Brasil, brasileiro”, a festa estar associada, desde os anos 40, a uma portuguesa, Carmem Miranda. Quem sabe se a baiana Ivete Sangalo, não venha a encarnar pela música, energia e séquito o ainda inculto e belo Brasil XXI?

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/02/2008.

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BOMBEIRO VOLUNTÁRIO – Jornal O Estado

Fazer ações de voluntariado não é ser bonzinho. É algo maior, nobre e que contagia. Imagine-se, por exemplo, você como “Bombeiro Voluntário”. Há um projeto em andamento pelo Corpo de Bombeiros do Ceará que, em parceria com entidades ou empresas, treina pessoas, maiores de 18 anos, com boa capacidade física e um mínimo de conhecimento, para agir em múltiplas situações de risco. É um curso bem montado, com aulas teóricas e práticas que capacitam pessoas a, em situações de emergência, salvar vidas. Essas vidas são salvas não apenas em incêndios, mas em acidentes de veículos, paradas cardíacas, queda de um raio, choques elétricos etc.
São apenas vinte horas de treinamento alegre, descontraído e eficaz dadas por instrutores dedicados e, o que é melhor, com situações práticas em que somos colocados à prova para, saindo de nosso casulo pessoal, lembrar que a nossa indiferença deve acabar e ajudar pessoas que se engasgam, crianças ou velhos que atravessam ruas sem prestar atenção, outras que são vítimas de fraturas em acidentes até que se chame e chegue uma ambulância ou médico, em enchentes, fogos que podem ser debelados com atitude, água ou extintor. Até lá, você, se tiver atitude e treinamento, poderá fazer a diferença e, na verdade, salvar vidas. O que se espera de quem deseja ser bombeiro voluntário é que dedique um pouco do seu tempo a aprender, tenha determinação para servir, disciplina para encarar o problema e desprendimento pessoal.
A indiferença, o distanciamento dos problemas do outro, é o contraponto ao voluntariado que passa pela crença de que se pode melhorar o mundo, não para aparecer como herói, mas porque isso nos conforta e faz bem a quem recebe a atenção e é salvo. Procure conversar com pessoas que já fizeram esse curso. Participei de um deles com entusiasmo e conclui que em cidades grandes com estrutura viária complexa e precária a ajuda médica pode demorar a chegar. E minutos podem fazer a diferença. Nesses minutos cruciais é bom que apareça um bombeiro voluntário. Você, por exemplo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/02/2008.

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VIDA DE ESTUDANTE – Diário do Nordeste

Com o andamento da vida, ainda que não se queira, voltam muitas coisas do passado. E escrevo sobretudo para jovens que andam reclamando do celular, computador, I-Pod etc. E querem carro. A coisa era diferente. Estou lembrando do meu tempo de estudante. Não existia nada disso, tampouco havia o “Google” para pesquisar. Era uma corrida louca, pois fazia, ao mesmo tempo, duas faculdades. Administração, pela manhã. Direito, à noite. Trabalhava à tarde, escrevia uma coluna diária em jornal, era correspondente de uma revista e fazia política universitária. Com as sofridas e próprias economias havia comprado um carrinho. Uma “gaforinga”, como o chamava o meu professor Parsifal Barroso, então governador do Estado, a quem tinha a ousadia de dar carona, imagine. Pois bem, esse carrinho, um Anglia, era bem conservado, apesar de velho e o grande luxo – para mim – de possuir vidros com maçanetas que os faziam subir e poder usar o banco traseiro como biblioteca ambulante. Talvez eu precise explicar que o meu primeiro carro, anterior a esse, era uma anciã camioneta Hudson, boléia de madeira, freio em uma só roda, sem vidros e apenas compatível com a minha quase liseira. O Anglia era, pois, uma evolução. Troquei-o por um Dauphine, bem menos usado, suando para pagar a volta. Quase no final do curso de Administração, resolvi criar uma empresa. Éramos eu e eu. Escolhi um pomposo nome e fui fazer pesquisas e dar consultoria. Assim é que, de um dia para a noite, me vi diretor de um curso de idiomas. Esse curso era uma franquia e o franqueado de Fortaleza havia me contratado para organizá-lo e, sem prévio aviso, sumiu. Liguei para São Paulo, contei o fato e eles responderam: fique você no lugar dele. Pense tudo isso junto na cabeça de um cristão mal entrado nos vinte. Mas, fui à luta e deu certo. No ano seguinte, passei o curso para frente e continuei a trabalhar, ao mesmo tempo em que dava aulas, sem saber de quase nada. Apesar do corre-corre, fui um razoável estudante. Terminei os cursos com boa média e um carro Gordine zero. Era a glória.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/01/2008.

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DOUTOR ÉDISON – Jornal O Estado

Recebo, com alegria, um belo convite de formatura em Direito. Parece, à falta de outra palavra, meio performático, primor de design em papel de qualidade, as mensagens de sempre, juramento, fotos dos concludentes na primeira infância e agora quando se formam na profissão mais simples e complexa que alguém pode escolher. Ela é simples, quando usada apenas como meio de dizer: estou formado e fico por aqui. Complexa, se encarada como profissão e missão, pois cobra estudos contínuos no cipoal das doutrinas e jurisprudências amazônicas e só dão azo a quem souber remar livros, pesquisar, ouvir e, naturalmente, ter sensibilidade e capacidade de colocar por escrito as suas ideias com o embasamento teórico que as apoia. E, certamente, souber fazer sustentação oral de suas ideias fundamentadas nos autos.
Mas eu falava de um belo convite muito especial para mim, por conter uma particularidade: a formatura de um amigo na faixa dos sessenta anos. Ele, em meio à vida e à lida, resolveu se entregar a uma de suas paixões: o estudo do direito. Era comum em nossas rodas que ele falasse sobre leis, procurasse interpretá-las, apontasse erros, tivesse a acuidade de ver a essência de tudo o que permeia o vasto mundo real em que os legisladores as fazem e os agentes públicos as aplicam. Um dia, creio eu, tomou a decisão e resolveu se matricular em um curso de Direito. Quem sabe para legitimar o que sabia na prática. E o fez na condição de avô, cabelos brancos e pai de pequenos e adultos, inclusive advogados. Anos se passaram e ele mourejando, cuidando da vida como jornalista, estudando nas horas em que devia e podia, sendo o chefe de família que sempre foi. Agora, do seu jeito direto, entrega-me o convite. Antes de abri-lo, pergunto se será o orador da turma? Sim, diz ele. Não é surpresa, pois é uma pessoa articulada e sabe falar. Sugiro que o discurso seja breve para ser bem ouvido e trocamos amenidades. Ele se vai e vejo as muitas páginas desse gracioso convite, histórico para os formandos, um ‘mix’ de jovens e maduros, todos alegres em suas becas e ciosos de seus feitos. Por senso de justiça, sem que ele o saiba – certamente desautorizaria – divulgo o seu nome como exemplo de determinação: José Édison Silva.

João Soares Neto, escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/01/2008

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CONVERSA DE DOMINGO – Diário do Nordeste

E agora que janeiro está próximo do fim, ainda lembra do que prometeu e pediu na virada do ano? Recorda que deu um balanço nos problemas, relacionamentos, visual, peso, imagem pública e idade? Como diria o Ponte Preta, tudo era óbvio e ululante. Tem aquela história de você ser uma pessoa única (se não o fora, um trem a teria dividido?), de seus planos pessoais não serem iguais aos de ninguém e coisa e tal. Daí, entre o calor e os respingos de chuva, fala-se muito em reinventar a vida, não deixá-la morna, modorrenta e igual à de anos passados. Até eu devo ter escrito isso por aqui. Desculpem, na hora com certeza estava pensando assim.
Como este espaço é limitado, menos de 400 palavras (pode conferir), e não se propõe a aconselhamento, mas a articular ideias, breves que sejam, imagine-se em um “ashram”, um lugar aquietado, simples, em qualquer parte da Índia onde vive um Iogue de meia idade, uma espécie de guru. Lá, nos ashrams, eles têm vida contemplativa, extrema languidez de movimentos e falam inglês lento. E para esses lugares estão indo milhares de ocidentais à procura de paz. Vão ao exterior descobrir o seu interior. Assim, sem viajar, creia-se, por exemplo, em um ashram seu, exclusivo, que pode ser um quarto silencioso ou a sombra de uma mangueira frondosa. Dê uma de guru de si próprio, desempregue o Paulo Coelho. E, ao mesmo tempo, seja um aprendiz. Difícil? E o que é fácil? Como se fora um espelhamento veja-se refletido na sua imaginação, sem precisar abrir os olhos. Feche os olhos para ver. Experimente. Isso é conversa de domingo, dia da preguiça, exceto para os muçulmanos e judeus. Vá lá, cara. Tente. Não custa nada, nem precisa de plano de saúde ou fila do SUS. Basta parar e pensar em você mesmo. Um mergulho na alma. Se você não acredita que tem alma, dê uma olhada na consciência. Dá no mesmo. Vá devagar, a Índia é longe embora você não tenha saído de seu lugar. Tente o que chamam por aí de sincronização, uma espécie de embreagem que não permite solavancos na sua aquietação, mesmo que momentânea. E não esqueça de ter compaixão por você e pelos outros.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/01/2008

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SEM DESTINO – Jornal O Estado

Permiti-me passar uns dias longe de tudo. Distante, sem computador e fora de contato, exceto por raros telefonemas. Não sou acostumado a isso. Sempre fui multiuso, ocupado, cuidando disso e fazendo aquilo. Na virada do ano resolvi dar folga a mim mesmo, família e amigos. E o que fiz? Li um livro (Doublê de Corpo) com mais de 400 páginas, de Tess Gerritsem, uma médica que resolveu abandonar o estetoscópio para escrever romances policiais intrincados com pinceladas de conhecimento científico. Não precisa ter estudado medicina legal, basta ler sem ninguém por perto. Ao mesmo tempo, viajei e deixei que as alturas me conduzissem entre nuvens, cirros ou nimbo-estratos, de uma banda à outra desse mar-oceano que nos banha. E tive, uma vez mais, a sensação aquietada da grandeza do universo, exceto pelos raros solavancos ao cruzar ilhas que permeiam as muitas novas terras do sul e norte.
Desci, vi parques, estradas, praias e gentes. Gentes, assim mesmo no plural, pois eram de muitas partes e de costumes vários. Umas vozes de acentos sincopados, outras com sons guturais fortes, acres, que não têm nada a ver conosco, livres por natureza e atitudes. Andei a esmo, sem destino, uma espécie de “easy rider” maduro, sem o chapéu do James Dean. E parei para rever um mosteiro sombreado. Velho conhecido que estava de cadeado à porta. Em compensação, fui a uma grande livraria. Dessas que têm um charmoso café onde xícaras, copos, livros, computadores, papéis, dividem as mesas entre jovens e maduros que estão lá esquecidos do mundo e um atendente gay fala com erudição afetada. De lá saí mais pesado, com o olhar raso de avidez pelo conteúdo do que levava. Como todo mortal, fiz compras de impulso, nada compulsivo. E até comprei Dvds remasterizados da série Flash Gordon que vou compartilhar com amigos cinemeiros. E, sem que a Cláudia Leitão e o Auto Filho estivessem por perto, entrei, por mera curiosidade, em duas bibliotecas públicas. Modernas, claras, envidraçadas, limpas, bonitas, frequentadas, informatizadas, onde se tira foto ao chegar. Lá, empanturrei-me de tudo, até de jornais, revistas, brochuras apregoando isso e aquilo ou representando valores, não necessariamente os meus.
E, agora, estou de volta. Dirigindo, olhar atento, paro no sinal. Os vidros fechados recebem toques de dedos magros à espera de um trocadinho. Abro o vidro para a realidade e vejo um assalto logo ali na frente. É isso aí.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/01/2008.

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GARCÍA E RODRÍGUEZ – Diário do Nordeste

Estou voltando de um voo rasante e pude confirmar o que já havia constatado o “The New York Times”, em novembro passado. Hoje, nos Estados Unidos, entre os dez sobrenomes mais comuns, já há dois nomes hispânicos. Vocês sabem que houve uma guerra entre os Estados Unidos e o México entre os anos de 1846 e 48. Antes disso, o Texas já havia sido anexado à América em 1836. Depois, sem entrar no mérito, apenas citando o fato, durante dois anos, os Estados Unidos guerrearam contra o México e, através do Tratado de Guadalupe-Hidalgo, uma espécie de rendição, em 1848, os atuais estados do Texas, Novo México, Arizona e Califórnia passaram a fazer parte da nação americana.
A área desses estados é maior que a de muitos países europeus e sua grande fronteira com o México tem permitido, desde esse tempo, a imigração sazonal ou permanente de milhões de mexicanos, legais e “indocumentados”. São, na maioria, trabalhadores, temporários ou não, que, inicialmente, mourejavam nas grandes fazendas. Depois, nas indústrias que ali foram sendo instaladas. Hoje, começo de 2008, os Estados Unidos têm 300 milhões de pessoas. Desses, 44 milhões são latinos. A realidade nos mostra que a cultura americana não pode mais desconsiderar a força dessa latinidade espalhada da Califórnia, no Oeste, à Flórida, no sul. Os latinos têm identidade cultural própria que os leva, entre outras coisas, a preservar seus sobrenomes de origem, embora usem prenomes americanos. Assim é que García e Rodríguez estão entre os dez sobrenomes mais comuns nos Estados Unidos, segundo dados do último Senso. E, entre os 25 sobrenomes mais comuns, já há seis latinos. Esses fatos têm motivado escritores, sociólogos, filósofos, antropólogos e cineastas a discutirem sobre uma ‘nova América’, onde todos possam ter direitos, liberdade, igual oportunidade de trabalho e um sentimento de pertença, sem a formação de comunidades isoladas. Essa integração, tão sonhada, passará ainda pela vontade política e já se manifesta na eleição crescente de congressistas com sobrenomes latinos, mas, ciosos de sua cidadania americana.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/01/2008.

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DE LEIGO PARA LEIGOS – Jornal O Estado

Estou convivendo com duas pessoas queridas que lutaram contra o câncer. Um homem e uma mulher. Ambos maduros e que, apesar de inteligentes, não se cuidavam bem. O homem não fazia os exames rotineiros para detectar o câncer de próstata. Quando foi cuidar, ele havia se instalado e ameaçava a área periférica. Chorou, reclamou, desanimou. Pessoas amigas falaram duro e ele se mandou para São Paulo. Fez radioterapia e quimioterapia, reclamava muito dos enjoos e do sofrimento. Voltou mais magro e com o marcador (psa)ainda alterado. Tomou injeções de hormônio na barriga e já está com ótimo peso, marcador (psa) no nível normal, retocou o cabelo, anda de moto nos fins de semana e trabalha com afinco.
A mulher, esclarecida e decidida, agiu ainda a tempo e conseguiu debelar o que invadia suas células. Tem o bom senso de fazer exames periódicos e mudou a sua cabeça. Agora, reserva mais tempo para ela e sua família.
Não estou devassando a privacidade de pessoas queridas. O que estou tentando fazer é utilizar este espaço em que escrevo para alertar a todos, mulheres e homens, da necessidade de ser informado, fazer prevenções de saúde. Basta reservar algum tempo e fazer os exames por um plano de saúde ou até pelo SUS. O que não se pode é ignorar que existem formas de prevenir. Admitindo, só para continuar o papo, que alguém seja surpreendido por um câncer. Chore, reclame, dê muro na parede. Quando o choro secar, vá à luta. Não se considere derrotado de véspera. Há muitos recursos médicos, desde que bem utilizados e no tempo adequado.
Se você não tiver dinheiro, venda qualquer bem, reúna a família e os amigos, conte a sua história e peça ajuda sem medo. Se não tiver quem ajude, vá atrás de seus direitos de cidadão na Secretaria de Saúde, no Decon ou denuncie a um promotor ou procurador. O direito à cura é fundamental. A única coisa que um doente com câncer não pode fazer é desanimar e deixar que a depressão roube as suas defesas. Pelo contrário, descubra-se forte, pergunte, leia, encha o saco dos médicos, converse com quem já passou por algo semelhante e vá em frente, com fé e sem essa de coitadinho.
Se tudo estiver bem com a sua saúde, dê graças a Deus e, se for o caso, cuide para não ficar obeso, ande, mantenha uma dieta balanceada com frutas, legumes e carnes brancas, apague o cigarro, modere no álcool, informe-se, não esqueça dos exames de rotina e faça as pazes com quem brigou. Ódio é a pior doença.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11/01/2008.

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VERMELHO E VERDE – Diário do Nordeste

Neste seis, domingo, dia dos Reis Magos, vá despertando para o ano real. Não vivemos tempos de reis, somos vassalos de uma máquina estatal a impor regras, cobrar impostos e a nos fazer, a cada semáforo, deparar com pedintes, flanelinhas, entregadores de propaganda, vendedores e malabaristas.
Na realidade, malabarista é quem consegue, a cada sinal, sair ileso ou imune aos gestos, acenos, apelos, batidas no vidro da janela pedindo um trocadinho ou vendendo. É claro que a maioria tem bom coração, mas as cidades estão sitiadas para quem se locomove em veículo próprio. Deduz-se que não há magos que nos façam acreditar estarmos vivendo todos uma época de bonança. A maior bonança para o ser humano é a oportunidade de trabalho, sentir-se digno e capaz de levar para si e os seus o resultado de sua faina. O dinheiro que lhe dá o sustento e respeito por si próprio. Sei que os indicadores sociais revelam melhoria na renda da população mais pobre, mas há ainda um número grande de sem-teto, desempregados e crianças abandonadas em qualquer cidade brasileira.
É claro que alguns recebem dinheiro do bolsa-família e outros programas. Mesmo assim, mendigam. Falta-lhes trabalho, um elo básico entre o homem e a sua dignidade. Se não ganha a vida com o suor do rosto, a vida perde sentido. Como não há mais reis e magos, é preciso que os dirigentes do Brasil, estados e municípios, que veem no turismo um caminho para o crescimento econômico, atentem para o choque que estrangeiros sentem ao ver cenas de crianças, homens, mulheres grávidas e esquálidas, disputando os segundos que medeiam o vermelho e o verde dos sinais. E o sinal vermelho pode ser um momento de reflexão para todos nós, fechados em nossas casamatas móveis olhando, com piedade ou indiferença, a cena a centímetros, e desviando dos catadores. Não há como não ver, não ser atingido. Não importa que o verde do sinal abra, pois, em seguida, outro vermelho nos fará parar, ver, e pensar no próximo, aquele que apela, pede, movido pela desigualdade que o revolta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/01/2008.