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ABORTO E EVOLUÇÃO – Diário do Nordeste

Convivem, na minha maturidade, o menino que teve formação religiosa católica, o adolescente/universitário duvidando de tudo, enveredando pela leitura da filosofia, lutando por ideais; o homem jovem teoricamente racional que imaginava saber alguma coisa e fazer muito e; agora, nesta fase, senhor do direito de não ser enquadrado em nada e poder tentar ser livre. Discordo da excomunhão da família e dos médicos que livraram uma criança de 09 anos de uma gravidez indesejada. Nenhum direito, nem o canônico, deve desconhecer a realidade, tampouco acreditar que os seres humanos possam ser punidos por suas coerências existenciais quando não desrespeitam as normas legais do seu país e previnem consequências funestas. O que esperar de uma mãe de 10 anos, com duas filhas-irmãs, de uma avó, traída, de 23 anos, e de um padrasto que, mais dia, menos dia, estará livre para voltar a usar e abusar de quem não sabe e nem pode se defender? Essa excomunhão não combina com a fé, a inteligência e a razão de muitos teólogos e religiosos que compõem o corpo social da Igreja Romana. A excomunhão aconteceu exata no mês de fevereiro, quando se comemorava o bicentenário de nascimento de Charles Darwin, o cientista inglês que, segundo os historiadores Adrian Desmond e James Moore, passou 20 anos entre o temor religioso e o moral, Anglicano que era, para revelar a sua teoria da evolução das espécies. “É como confessar um crime”, dizia. Mas o fez. O “crime” era demonstrar à comunidade científica – conservadora e vitoriana – que a espécie humana não surgiu como narrado na Bíblia, mas por meio de um processo de seleção natural, explicação contida em detalhes no seu livro “A Origem das Espécies” que completa, em novembro, 150 anos. Darwin também foi execrado por sua Igreja, mas os tormentos pessoais passados e sua decisão conferiram à humanidade uma versão nova, coerente e revolucionária para a sua época. Voltando ao nosso tempo, é preciso que a Igreja Católica revise seus dogmas e preceitos legais para que não fique “pregando no deserto”. Todos os seres humanos que creem têm direito à salvação: “porque não há um justo, nem um sequer” (Romanos, 3:10).

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/03/2009.

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O QUE É POESIA? – Jornal O Estado

Escrevo para lembrar que amanhã, 14 de março, é o Dia Nacional da Poesia, criado em homenagem ao poeta Antônio Frederico de Castro Alves, nascido nesse dia, em 1847, e morto aos 24 anos. Era o poeta da abolição ou dos escravos, por sua indignação contra o comércio de pessoas negras que, no Século XIX, enriqueceu muitas famílias aqui no Brasil. Não sei bem o que é poesia. Como dizia o escritor russo, P.G. Antokolski, “a poesia não responde, questiona”. Acredito, portanto, que possa fazer um esforço para tentar (in) defini-la. Tem gente que pensa poesia como receita de bolo. Bastaria juntar capacidade de escrever em uma linguagem diferenciada, saber expressar emoção, ritmo e rimar com cadência, métrica, e ter-se-ia um poeta. Poesia, entretanto, é mais que isso. A tessitura de um poema passa por fios estéticos, usando-se ou não recursos formais de estilo. Poesia passa pela transfiguração da essência das palavras, mas não é só isso. Madame de Stael, escritora francesa do século XVIII, dizia que poesia “é a linguagem natural de todos os cultos”. Essa é uma definição elitista e simplista. Talvez a do poeta americano, do século passado, T.S. Eliot, seja mais abrangente “A poesia não é um modo de liberar a emoção, mas uma fuga da emoção; não é uma expressão da própria personalidade, mas uma fuga da personalidade”. Assim é que não seriam, necessariamente, poetas, mesmo que em versos metrificados e com metáforas, os que tratam de suas próprias vidas, da morte, do devaneio, do isolamento, os tidos como poetas existenciais. Tampouco seriam poetas, de pronto, os apenas românticos, os que falam de suas emoções; e os que se preocupam com o mundo, tidos como poetas sociais, a evocar questões igualitárias e políticas. Não sei, sério. Deixo, com vocês, dois textos, sem o nome do autor: “Aceitar o barco do sonho, pisar o chão da ilusão, sem esquecer a aurora, sem domar a gula, transgredindo, esperançando, devorando, roendo, voando, solo ou não”. Poesia? Segundo texto: “Entre alças, calças pés nus e a água corre, irrigando o chão, marcando o passo, em descompasso, pétreo, vítreo e a réstia vista assombra a luz, seca a água e os passos usurpam.” Seria poesia? Decida você, sem esquecer que as regras, quase sempre, destroem a arte. E poesia é arte. E, como cita Ferreira Gullar, a arte existe porque só a vida não basta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/03/2009.

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É DIA DA MULHER? – Diário do Nordeste

Há algumas mulheres que consideram estranho e discriminatório este Dia da Mulher, hoje comemorado. Falam que, em tempos de hoje, todos os dias são dos seres, humanos e animais. Há, entretanto, outras que acham pouco um só dia para reverenciar as mulheres. O fato é que hoje é o seu dia e, no meu olhar, não devem ser homenageadas apenas pelo gênero, mas por seus feitos na família, sua inclusão na cultura, no trabalho, na ciência, na história, na política e na certeza que é a incerteza que preside o viver. No Gênese, livro do Antigo Testamento, I, 27, está escrito: “E Deus criou o homem à sua imagem; fê-lo à imagem de Deus; e criou-os macho e fêmea”. Ainda no Antigo Testamento, II, 18, está dito: “Não é bom que o homem esteja só; façamo-lhe uma ajudante semelhante a ele”. Hoje, a linguagem seria outra. Não seria dito “criou o homem”, mas a espécie humana. Também não seria dito: “uma ajudante”, mas uma companheira. Eu diria mais, homens e mulheres devem ser compartes, isto é, devem compartilhar tudo, direitos e responsabilidades. Sem essa de provedor e tampouco de coitadinha. Neste mundo em que se luta pelo fim da submissão – de todas as formas – é importante que ambos participem igualmente dos esforços para a construção da vida em comum. No Talmude, Kiddushim, 49, livro religioso hebraico, está dito: “Dez medidas de palavras desceram a este mundo; as mulheres pegaram nove, e os homens, uma”. É tempo, pois, de falarmos em quantidades iguais de palavras e conteúdo, responsabilidades e direitos, com perspectivas semelhantes, sem ademanes e fricotes. Nietzche, na sua forma niilista de ser, escrevia em Zaratustra que “para a mulher, o homem é um meio: o objetivo é sempre o filho”. Não deve se pensar mais desse modo, filhos têm pais, mãe e pai, e é um desserviço ao filho afastá-lo do pai, sob o manto de protegê-lo e amá-lo desmesuradamente. Para louvar a mulher neste dia é preciso estar consciente de que vivemos outros tempos, em que mulheres e homens devem estar independentes para serem altivos, mas harmônicos, para que possam coexistir com recato, compaixão e amor. Como dizia Simone de Beauvoir: Nenhuma mulher nasce mulher: torna-se”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/03/2009.

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COSTA MATOS E O SEU RIO – Jornal O Estado

Não registro intimidade em minha relação com o poeta José Costa Matos, mas não me escuso de dizer que havia uma sutileza bilateral de tratamento, sem que isso fosse supérfluo, mas partida de uma identidade que foi surgindo pouco a pouco. Nascido em Ipueiras, terra que também concebeu Gerardo Melo Mourão, veio ter com os costados em Sobral e, em seguida, Fortaleza. Costa Matos foi ocupando espaços pela vida, tratando de ser gente, e conseguiu o feito profissional de integrar o Ministério da Fazenda e ser professor da Universidade Federal do Ceará. Para mim, como presidente da Academia Fortalezense de Letras, da qual ele era, com justiça, Sócio Honorário, o que resplandece para a posteridade é a sua vida literária, conquistando uma dezena de prêmios em concursos culturais em vários estados brasileiros. Para o poeta Francisco Carvalho: “Costa Matos é nome bastante conhecido nos meios literários de nossa terra, onde desfruta do maior prestígio entre as figuras do primeiro plano da intelectualidade cearense. No campo da poesia, tem-se distinguido pela publicação de algumas obras que lhe valeram o reconhecimento da crítica. É o caso, por exemplo, do livro de poemas ‘O Povoamento da Solidão’, colocado em primeiro lugar no Grande Prêmio Minas de Cultura, fato que teve excelente repercussão em todo o país”. Outro poeta, também seu colega da Academia Cearense de Letras, Carlos Augusto Viana, expressou para mim, o seguinte: “Costa Matos era um poeta lírico que desenvolvia, predominantemente, duas temáticas: a metafísica e a ontológica. Ele era um dos raros remanescentes no Ceará da corrente neo-simbólica’’. Foi assim que Pedro Henrique Saraiva Leão, presidente da ACL, falou: “O professor Costa Matos era um dos homens cultos do Ceará. Cultivava a simplicidade que falta a muitos. Era lido, cristão, probo e de fácil comunicação”. Em 02 de setembro de 2007, Costa Matos, escreveu sobre a Utilidade da Poesia no jornal Diário do Nordeste. Ele diz: “Pergunta-se muito que fazem os poetas no mundo. Expressão da vida, a poesia é também indefinível. Integra a literatura e esta é uma das artes… Mas formam religiões aqueles que têm o poeta como ser divorciado da realidade. Não se lembram de que realidade, também, está entre as nossas incompetências de conceituação. Cada pessoa tem as suas peculiaridades de percepção do real”. A minha percepção do real é que o cidadão Costa Matos, pai de família, professor e acadêmico, soube equilibrar-se na balança do viver e construiu um rio subterrâneo de admiradores e amigos que agora pranteiam sua partida e sabem, como ele poetava, que “a vida não dá presentes. A plenitude humana é trabalho de mineração, com galerias cavadas no infinito”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/03/2009.

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SAM, MARLBORO E… – Diário do Nordeste

Estou voltando da terra que foi do Tio Sam, depois virou de Marlboro e, agora, é do Obama. Fui neste fevereiro de inverno de frio e inferno de crise. Andei por cidades diferentes. Conversei com gente, os do povo, alguns que se acham importantes, estrangeiros de passagem e os que ficaram como imigrantes para obter o Green Card ou a Cidadania. Depois da euforia da posse, veio a ressaca da realidade, essa que passa pelos bolsos, invade casas, mexe com o dia-a-dia das empresas que reduzem pessoal e faz ficar no ar a dualidade cruel entre a esperança e o medo. Estava lá quando o pacotão do Obama foi aprovado, mas não escassearam críticas por conta da “falta de objetividade”. A Bolsa de Nova Iorque reagiu com queda alta. Obama, sem se importar com a “marola”, fez sua primeira viagem ao exterior. Foi ao vizinho Canadá, uma espécie de Estados Unidos passado a limpo, onde frustrou crianças de uma escola que se prepararam para recebê-lo. Tempo e segurança. Deu entrevistas, desconversou sobre protecionismo e voltou com o termômetro político ligado. Eu, sem que ele soubesse, fiz minhas pesquisas, inclusive com motoristas de táxi formados em engenharia e administração, mas que estavam na direção de banheiras comedoras de gasolina. Foram unânimes em dizer que a América está em recessão e que não sabem do futuro, mas torcem pelo Presidente. Fiz voos internos e pude ver executivos com notebooks abertos, quase todos de cenho franzido. Ninguém ria e as roupas eram pesadas, quiçá pelo inverno. As lojas, sejam as de mall, como eles chamam os shoppings por aqui, e as de rua estão, quase todas, em liquidação com até 50% de desconto. Algumas fazem isso como truque, mas a maioria está, de verdade, querendo vender a preços reduzidos para não fechar, Parece haver um esboço de mudança social, sente-se isso nos contatos, na mídia e surge, se não estou enganado, mais compaixão e respeito pelas pessoas, pois a cor diferente da pele ou da raça já não mais implica em submissão ou orgulho. A grande casa branca da Av. Pensilvânia, 1600, em Washington, está com caras novas, inclusive uma sogra, mas as ideias precisam ainda ficar mais claras.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/03/2009.

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CINEMA E CULTURA – Jornal O Estado

A Academia Fortalezense de Letras está tentando levantar a discussão sobre a relação do cinema com o cultura. Não há nada de novo sobre o tema, mas apostaremos em uma abordagem diferente e atualizada. Não será preciso enumerar a quantidade de clássicos da literatura nacional e internacional que foram adaptados para o cinema. Uns, com êxitos de bilheteria. Outros, nem tanto. Não importa. O que vale é a revisita às obras e aos autores que serão apresentados. Escolhemos ouvir, para iniciar a discussão na noite de ontem, a opinião do professor universitário e crítico de cinema Luiz Geraldo Bezerra de Miranda Leão, uma das autoridades no assunto no Brasil, com livros publicados. Ele tem cultura linguística e longo conhecimento de cinéfilo para abrir essa série que, acreditamos, constará da apresentação – aberta ao público – de filmes, precedidos ou seguidos de debates. E esses debates não ocorrerão de forma aleatória, mas no intento de trazer novos públicos às academias, difundir a cultura e oferecer uma visão crítica do autor e sua obra e da teoria e estética dos filmes. Ao mesmo tempo, servirá para mostrar que aceitamos que a cultura é também o conhecimento sedimentado, mas vivemos no hoje e podemos nos valer dos recursos áudios-visuais para democratizar o saber que temos ou podemos adquirir. Vale, por oportuno, destacar que a Academia Brasileira de Letras, na gestão do Acadêmico Marcos Vinícios Vilaça, realizou uma série de seminários e conferências sobre as relações da cultura com a culinária, a moda, a cultura popular, a música popular, a ciência, a arquitetura, o urbanismo e a arte. Estamos, sem imitações, em boa companhia e abertos a associações com a Secretaria de Cultura, academias, cine-clubes e entidades nas discussões e prática. Inclusive, quem sabe, levantando alternativas locais ou regionais para o que se convencionou chamar de “favela movie”. Um exemplo disso está aí nas telas, o filme anglo-indiano “Quem Quer Ser Um milionário?”, dirigido por Danny Boyle que conseguiu vencer o Oscar de 2009, na categoria de melhor filme. Ao contrário do brasileiro “Cidade de Deus”, em que notoriamente se inspirou, procurou uma solução, talvez mágica, mas com encadeamento luminoso, sem deixar de ser um filme-denúncia da pobreza na Índia, porém com leveza e até alegria em meio a dramas pessoais e estruturais. A atual visão brasileira de cinematografia e estética sobre as mazelas das favelas, feita quase sempre por diretores ricos, passeia pela quase-denúncia e fica só nisso, sem trazer esperança que alimente os que vivem o drama narrado e quiçá um pouco de prazer, por que não, aos que se deslocam- pagando ingresso – às salas de cinema. Acrescente-se que, na saída, estarão lá os “guardadores” de carros e os trombadinhas. Mas isso é outro filme.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/02/2009.

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GLÓRIA EFÊMERA – Diário do Nordeste

Foi Andy Warhol, americano filho de eslovacos, nascido em 1928, e que se destacou na Pop Art ou arte popular usando a linguagem da publicidade e métodos de serigrafia para fazer suas obras, que incluiam retratos de famosos e reproduções distorcidas da embalagem da sopa Campbell e da garrafa de Coca-Cola, quem disse a frase: “no futuro, qualquer um, será célebre por 15 minutos”. Esse mesmo Warhol foi famoso por pouco tempo, criticado em vida, até atentado sofreu, e morreu um dia após ser operado de uma mera vesícula biliar, exato na data de hoje, 22 de fevereiro, em 1987. Para comprovar que a glória dele era efêmera, basta ouvir o que disse, em 2007, Robert Hughes, crítico de arte da revista Time: “Warhol foi uma das pessoas mais chatas que já conheci, pois era do tipo que não tinha nada a dizer…Mas, no geral, não tenho dúvidas de que é a reputação mais ridiculamente superestimada do Século XX”. Essa lembrança, neste domingo de carnaval em que os que não estão na folia abrem este jornal e leem o que escrevemos, é apenas para dizer da óbvia convicção universal de que nada é mais passageiro que a glória, qualquer que seja ela. Dizia Honoré de Balzac, escritor francês, que “a glória é um veneno que se deve tomar em pequenas doses”. Certa vez, fui a uma feira de quinquilharias, dessas que ocupam grandes áreas de um estacionamento. Em determinada barraca encontrei dois diplomas: um de mestrado e outro de mérito de guerra. Tive a curiosidade de perguntar ao dono quem os tinha vendido para ele. Ele respondeu: “as famílias vendem tudo, não querem saber de glórias passadas”. Comprei um deles e o presenteei a um amigo, como atestado de que somos nada e ao nada voltaremos pela ausência de lembranças futuras de vitórias pessoais, salvo exceções. Quantos adolescentes, por exemplo, sabem quem foi e o que fez Juscelino? Quantos universitários, que não cursam história, sabem onde nasceu e quem foi Capistrano de Abreu? Quem lembra do que fez Thomas Edison? Assim, nestes dias de não fazer nada, lembre-se disso e não esqueça de fazer o que lhe cabe, sem esperar por glória. A não ser que Glória seja alguém que lhe diga respeito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/02/2009.

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ROBINHO E OUTROS – Jornal O Estado

A revista Veja, edição de 04 de fevereiro de 2009, trouxe uma longa reportagem sobre o comportamento de atletas que, nascidos pobres, alcançam sucesso e fortuna no começo da sua vintena de anos. A partir daí, suas cabeças entram em parafuso e começam a aprontar. Não são só os que alcançam sucesso e fortuna que se metem em enrascadas. Todos os dias, em emissoras de rádios e de televisão do Brasil, são inúmeros os programas policiais que contam casos de estupros, brigas em festas, mortes de cônjuges, assaltos, sequestros, assassinatos, roubos etc. O que há, no caso dos atletas, é a sua superexposição à mídia e a voracidade de certa imprensa e de pessoas ávidas por fama, dinheiro e sensacionalismo. Os mostrados em programas policiais são os delinquentes ou são pessoas do povo, todos tratados sem muito escrúpulo para um público cativo, sequioso por desgraças, escândalos e lágrimas. Vale lembrar ainda que há muitos cantores, atletas e artistas brasileiros que têm filhos pelo Brasil e mundo afora. Após os shows e jogos, caíam na gandaia e transavam com as fãs. Não havia ainda a preocupação com preservativos, pois a Aids não existia. Tampouco se falava de exame de DNA. Posteriormente, foram aparecendo filhos não desejados, frutos de relações ocasionais e, em alguns casos, de mútuas inexperiências ou irresponsabilidades dos envolvidos. As mulheres, sempre tratadas como vítimas, apareciam chorosas em programas de televisão e rádio, mostrando os filhos nascidos e o descaso do “pai desnaturado”. Não faltavam – e não faltam – advogados para defendê-las e, passado o tempo, surge o DNA, para configurar ou não a paternidade. Não há como defender pessoas que, no seu juízo perfeito ou mesmo em baladas, se envolvem com mulheres que não conhecem bem e por quem não têm nada, além da circunstancial atração física. Entretanto, não se pode demonizar essas pessoas que apenas se imaginavam desejadas e não conjeturavam a armadilha da gravidez. Voltando ao começo, é preciso que a mídia, seja brasileira ou estrangeira, acabe com o sensacionalismo barato que envolve celebridades ou não. Quem sabe se o tempo utilizado nesses programas ou reportagens poderia ser mais bem aproveitado com outros temas?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/02/2009.

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A GALINHA E O TRIGO – Diário do Nordeste

Reconto, com adaptação minha, estória atribuída a George Orwell que corre há décadas. Ela mostra a diferença entre os que não plantam e os que cuidam de plantar. Consta que existia uma galinha vermelha. Ela achou alguns grãos de trigo e perguntou a seus colegas de fazenda: vocês me ajudam a plantar? A vaca disse: não. O pato: nem eu. Eu também não, falou o porco. Eu, muito menos, completou o ganso. Então, eu mesma planto, falou. E o trigo foi plantado, cresceu e amadureceu em grãos dourados, Da mesma forma, na colheita, perguntou: quem me ajuda a colher o trigo? O pato disse um não, seco. Não faz parte das minhas funções, disse o porco. Não, estou só contando o tempo de serviço para me aposentar, disse a vaca. Vou nada, posso perder o seguro-desemprego, respondeu o ganso. Então eu mesma vou colher o trigo, disse a galinha. Um dia, ela convocou a todos, mais uma vez, para ajudar a preparar e assar o pão. As respostas continuaram a ser negativas: um queria hora extra; outro gozava, agora, do seguro-doença; uma disse que não sabia fazer. Enfim, nada. Ela assou sozinha, cinco pães. Cheiravam, estavam bonitos e todos se achegaram seguindo o aroma de pão novo e querendo comê-los. A galinha falou que não, pois estava cansada de trabalhar só e faminta. Foi aí que houve uma reunião dos quatro. A vaca falou em egoísmo e sovinice. O pato chamou-a de capitalista safada. O ganso exigia os seus direitos e o porco só grunhiu. Resolveram ir até o governo da fazenda, mas antes pintaram faixas com palavras de ordem, tipo justiça social e pão para todos. O funcionário do governo, um jaboti, os recebeu, ouviu cada relato, mandou que preenchessem formulários em cinco vias, pediu que reconhecessem as firmas, cobrou uma taxa e os despachou para o chefe. Este, do alto de sua crista, pois era um galo, disse: que se faça justiça, todos tem direito aos pães. E mandou uma intimação à galinha, dizendo que ela deveria, sob pena de prisão, repartir os pães e que aquilo era apenas redistribuição de renda, meta da fazenda. Ela aceitou calada e nunca mais fez nada. Consta ter ela entrado em um movimento social e recebe uma bolsa qualquer.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/02/2009.

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AMOR EM ALEMÃO – Jornal O Estado

Há mais de duas décadas, em meio ao espanto de sua família, uma jovem socióloga resolvia abandonar seu emprego certo e ir para a Alemanha. Iria fazer uma complementação de estudos, um mestrado, coisas assim. Quis a vida que ela conhecesse um também jovem médico alemão que aqui concluía uma das fases de seu curso. Conheceram-se, encantaram-se, mas cada um tinha uma vida a cumprir em continentes diferentes. E foi aí que ela consolidou seus planos e teve a coragem de dizer: eu vou. E foi. Em lá chegando, tudo era estranho, diferente e o pouco do alemão que sabia não dava para quase nada. Resolveu, antes de qualquer curso profissional, melhorar sua conversação e escrita na língua de Goethe que já dissera o óbvio, em ‘As Afinidades Eletivas’: “Toda atração é recíproca”. Enquanto isso, o amor urdia e a atração crescia. Ela foi pedida em casamento com a presença da família do candidato. Comunicou o fato, com alegria, aos pais que lhes responderam que isso não valia para eles: pedido de casamento e casamento, só aqui, debaixo dos seus olhos e na lei brasileira. E, além dos pais, havia uma tia que dela cuidara por toda a vida e se sentia abandonada e triste. Enfim, vieram, casaram no civil e religioso, solteiros que eram, cortaram o bolo, foram abençoados, bateram fotos, ganharam presentes e, mais que de repente, voltaram para a realidade fria da Alemanha. E aí já não eram mais ela e ele, era um casal, com compromissos com a vida, mudando de cidades e à procura de casa. Suaram, trabalharam, cada um na sua faina, e conseguiram comprar a de seus sonhos, cercada de árvores e flores, em uma rua pequena, aquietada e charmosa de uma cidade que ainda tem bonde e os vizinhos se conhecem. E tiveram que ir duas vezes à maternidade e de lá saíram com duas filhas bonitas, misturas de sangues e raças, nascidas na germanidade sob o credo de Bismarck: “Nós alemães tememos a Deus, mas a nada mais no mundo”. E essas filhas foram crescendo sadias, estudiosas e felizes. Hoje, são duas jovens em processo de definição profissional. Multilíngues, cidadãs do mundo, cantoras amadoras e, ciosas também de sua brasilidade, adeptas e intérpretes da bossa nova. E, para confirmar essa brasilidade, já vieram mais de 20 vezes ao Brasil e aqui se reabastecem de alegria para viver o duro e competitivo mundo real que o século XXI apresenta a todos os jovens da Europa.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/02/2009.