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BENFOLIA – Diário do Nordeste

Há quatro anos fazemos um projeto: saber o que existe de música carnavalesca na cidade. Decidiu-se, não se sabe quem, nem a razão, que Fortaleza não se presta a carnaval. Assim, contra a corrente, instituímos o Benfolia em que compositores e cantores se submetem a uma seleção prévia, dividida em três etapas. Os 12 melhores vão para a final. Tivemos o cuidado de formar um jurado polivalente: musicistas, carnavalescos, jornalistas, homens públicos, arquiteto, médico, intelectuais, rainha do carnaval, produtores etc.
Nesta edição a festa tinha 25 jurados, o que diz da lisura da decisão. As 12 músicas selecionadas são novamente cantadas, há torcidas organizadas e a imprensa é convidada, só não percebeu talvez a sua importância que, além de premiar os três primeiros lugares em dinheiro, gravamos CD com as músicas selecionadas e o distribuímos gratuitamente com participantes, emissoras, comunicadores e formadores de opinião. A cada ano, homenageamos pessoas que, no passado ou presente, trabalham pelo carnaval. Não o Axé Music, mas sambas, choros, modinhas e que tais.
Os homenageados de 2012 foram: 1. o radialista Augusto Borges, por sua história profissional dedicada ao rádio e à televisão e na defesa da música local; 2. o compositor, carnavalesco e apresentador Dílson Pinheiro, divulgador de todas as manifestações mominas, inclusive o sincopado Maracatu; e 3. o figurinista Isidoro Santos, estilista e desfilante de fantasias grandiosas no Ceará e no Brasil. Íamos esquecendo: tivemos um “revival” de concurso de fantasias.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/02/2012

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FILÓSOFOS E CONCURSEIROS – Jornal O Estado

Com a capa em tons verdes e azuis o Prof. Oscar D’Alva e Souza Filho apresentou, como editor e coordenador, no ano passado, a versão terceira dos “Cadernos de Filosofia do Direito”, pelos alunos da disciplina Filosofia do Direito, da Universidade de Fortaleza. O caderno, como fica claro na denominação, reúne ensaios de jovens prestes a concluir o curso de direito. São 28 jovens universitários em rigorosa ordem alfabética aventurando-se a analisar Sócrates, Santo Tomás de Aquino, os valores como fundamentos, a utopia platônica, Fédon, a capacitação dos magistrados, Epicuro, Hans Kelsen, Immanuel Kant, Jürgen Habermas, independência e imparcialidade do juiz, René Descartes, John Locke, a última condição humana, Aristóteles, a sofística, Maquiavel, Grécia e Hipócrates, Clóvis Beviláqua, os sofistas, Grécia antiga e a aplicação da pena, empiristas e racionalistas em Kant, Código de Ética da Magistratura e os princípios da independência, ética e moral e, o pensamento maquiavélico.
São 446 páginas de estudo aplicado, com a densidade compatível ao saber de cada futuro bacharel. O professor Paulo Bonavides, meu mestre em três oportunidades, Escola de Administração, Faculdade de Direito e em curso de doutoramento que o MEC dissolveu, é o filósofo homenageado. Abre com “O Direito Natural e o Estado”, partindo das nascentes históricas do moderno direito natural até, no último capítulo, mostrar a reação conservadora que perfilha, no direito, a escola histórica. Como se vê, a obra que tem a apresentação do Coordenador do Curso de Direito da Unifor, Sidney Guerra Reginaldo, também filósofo, é um documento acadêmico de comprometimento de jovens com a filosofia do direito.
O que me alegra nessa leitura é a certeza de que há algo além dos milhões de jovens brasileiros que se dedicam, depois de formados nas diversas profissões, à dura e objetiva competição para alcançarem a garantia de empregos públicos em que terão bons salários e a certeza da estabilidade na carreira. Os milhões de jovens “concurseiros” são um fenômeno próprio deste Brasil atual. Submetem-se a cursos diretos, outros à distância, formam grupos de estudo, usam a internet, lêem l revistas, jornais, manuseiam livros, apostilas e dicas necessárias para evitar as pegadinhas das perguntas que constam dos exames. Vivem pelo Brasil afora, enfrentando estradas, rodoviárias, aeroportos, dormindo em pousadas e enfrentando, às vezes, a indiferença nas respostas dos já funcionários públicos às suas dúvidas e sonhos.
Este é o Brasil das não-baladas, das não-drogas, dos não presumidos e da não dissipação do tempo, o único bem irrecuperável para o homem. Filósofos, concurseiros, cada um a seu modo, e as suas pacientes famílias e amados acreditam, ainda, que este Brasil precisa deles para o seu porvir. À Luta.
(Em memória de Ivonete Maia, jornalista, professora, filósofa e vencedora no curso da vida)

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/02/2012.

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REVER LIMITES – Diário do Nordeste

O Brasil vive uma euforia. Classes mudam de patamar. Famílias progridem. É tempo de rever ou estabelecer limites na família. A ausência de definição de limites provoca danos em todas as fases da vida de seus integrantes. A criança tem que conviver com um mínimo de regras definidas com carinho, mas firmeza. Ouve-se muito: tudo o que não tive vou dar a meus filhos. Não é bem assim, filhos devem ter o necessário e o possível, mas em termos. O importante, antes das “coisas” e facilidades que se dá, é que o casal tenha um objetivo comum na sua formação e inserção no mundo. As crianças testam os pais com choro, comportamento e outros. Definir regras de horários para estudo, lazer, higiene e convivência é básico. Os pais têm que deixar claro o que podem dar, o que não devem e o que é negociável. Um bom “não” significa para a criança limite de seu espaço pessoal, sua forma de demonstrar emoções, enfrentar o medo e saber usar a sua liberdade física, mental e verbal. Isso dará a ela a certeza de que a vida existe com limites. Em casa e na rua. Entretanto, não havendo consenso entre os pais, a criança começa a fazer jogos. Surge a mãe boazinha e o pai durão. Ou vice-versa. A criança sabe quando os pais hesitam e discutem. Aí forçam a barra. Agir em acordo, manter o combinado, o que foi dito, é a solução. É preciso firmeza desde cedo. Dói, talvez, Depois, será difícil, pois a facilidade em obter concessões com choro ou finca pé da criança balizará a relação. Presentes em excesso, facilidades e o não cumprimento do devido na educação e modos poderão dar o tom do futuro. Educar é definir limites e o que se espera de conduta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/02/2012

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COMO VAI A CULTURA NO BRASIL – Jornal O Estado

Você lê quantos livros por ano? Você vai a teatro, shows e cinemas? Qual foi a última vez que entrou em uma biblioteca, fez um cadastro e pediu um livro para ler? Você participa de algum grupo que discuta a realidade, filosofia, história, antropologia, música, religião, meio-ambiente, saúde, cultura etc.? Você se sente feliz ao receber um livro de presente?Você tem luz de cabeceira e a usa para ler? Ou utiliza uma cadeira confortável para ler o que lhe apetece? Você tem alguma familiaridade com o assunto cultura brasileira ou acha que isso é perda de tempo? Que tal ler um pouco sobre a cultura? É instigante, veja. Conto com alguns minutos seus. Vamos lá.
Estamos em princípios de 2012 e leio uma bela análise (Cultura sem expressão) de Flávia Tavares, para o suplemento “Eu&Fim de Semana”, do jornal Valor. Nele, em que me lastreio, Flávia faz uma análise concreta, correta e isenta da política cultural brasileira e destaca que a Ministra da Cultura Ana de Hollanda sempre é notada por sua timidez e forma de ser. Ana é filha de Sérgio, um dos ícones do início do Partido dos Trabalhadores que tinha na cultura, nas fábricas e na universidade o seu tripé de sustentação. Ana é irmã do cantor, compositor e escritor Chico Buarque e sempre esteve ao lado do partido nascido em São Paulo. Entretanto, Ana é mais que isso. Ela é atriz, cantora e compositora, mas não tem a malemolência e a baianidade de Gilberto Gil e Juca Ferreira, os dois ministros que a antecederam no Minc.
Já exerceu função pública, na direção do Centro de Música da Funarte, mas nada com o relevo e as cobranças devidas e indevidas ao MinC que, com pouca verba e contas a pagar, mexe com escritores, cineastas, artistas,mídia digital, compositores, músicos e o que mais se considerar cultura, no sentido amplo. A fogueira das vaidades começou cedo. Fato natural nesse mundo que vive dos meios de comunicação social, intrigas, de projetos com recursos da Lei Rouanet, de empresas estatais, grandes grupos e assemelhados. Emir Sader, sociólogo, havia sido lembrado e convidado para dirigir a Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, mas abriu a boca e falou o que não devia de sua futura superior hierárquica. Resultado: foi desconvidado.
Começava, a partir daí, uma guerra explícita contra Ana de Hollanda, inclusive com alusões à sua proximidade com integrantes do ECAD-Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos. Ana, no seu jeito simples de atuar, vai em frente e já tem um ano completo de ministério. O que se tem de concreto hoje na área é um Plano Nacional de Cultura com prioridades até o já próximo ano 2020. Afora isso, Ana esteve com Dilma apenas duas vezes e não gosta de ser entrevistada. Há rumores de sua saída. Há ciúmes e inveja. Dizem que a senadora Marta Suplicy poderia ser a sua sucessora, se Ana não for mantida por Dilma. Como dizia Boccaccio: “Apenas a miséria é sem inveja”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/02/2012

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O RICO E A CHINA – Diário do Nordeste

Um amigo telefona: o que achou da reportagem sobre o brasileiro, o oitavo homem mais rico do mundo? Nessa reportagem é citada uma frase atribuída a Deng Xiaoping, poderoso secretário geral do Partido Comunista Chinês, nascido no dia 22 de agosto de 1904, que saiu da China aos 15 anos com uma bolsa de estudos para viver na França, onde até foi metalúrgico e auxiliar de cozinha e instruiu-se, em seguida, em Moscou. A frase seria “Enriquecer é glorioso”. Ao que tudo indica, a frase correta é: “Socialismo não é pobreza. Ser rico é glorioso”. Deng morreu em 1997. Deixou plantada a semente do que definiu como “Socialismo de Mercado” e falava claro que a China seria diferente quando todos os estudantes chineses espalhados pelo mundo voltassem com os seus conhecimentos. Quando Richard Nixon era governante dos Estados Unidos (1969-1974) e foi o primeiro presidente americano a visitar a China – à época em que Mao Tse Tung insistia com a Revolução Cultural – surgiu o embrião da política do “ping-pong”. Além de outros objetivos de reaproximação, consistia em um amplo intercâmbio de jovens estudantes e professores americanos e chineses. Assim, o que acelerou a macro engrenagem da nova China, pós Mao, foi a apropriação do conhecimento científico e tecnológico que despontava nos anos 60 e nunca mais parou. É claro que a China absorveu, com sabedoria, tudo o que desvendou de bom no Ocidente. Por sua vez, empresas ocidentais acordaram para o potencial do mercado sino e lá se instalaram. Quanto à resposta sobre a pergunta inicial, eu poderia redarguir com outra: “O que é ser rico?”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/01/2012

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ARTIGO OU CRÔNICA? – Jornal O Estado

Muito se discute sobre a diferença entre artigo e crônica. Poderia falar, sem pretensões, que o artigo é mais sisudo, não comporta digressões e tem o objetivo de expressar a opinião do seu autor, seja jornalista ou não. Ou ter uma destinação científica ou acadêmica quando escrito por cientistas ou acadêmicos e veiculado em periódicos de universidades ou academias. A crônica é algo mais sutil. Mesmo quando escrita em jornal. É bom lembrar que Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Moreira Campos e Rachel de Queiroz, para ficar nos que não estão mais conosco, escreveram em jornais e sabiam da efemeridade e do difícil que é escrever para um público que deseja, de princípio, apenas saber notícias do dia. A crônica, como se vê, é lida de quebra, não é o principal produto das páginas impressas de um jornal. Como esta que estou escrevendo que está em um suplemento social, repleto de boas fotos, do jornal O Estado.
Li agora, neste janeiro de 2012, o jornal – ou seria um encarte? – “Pernambuco”, suplemento da revista “Continente” que mostra uma bela entrevista feita por Schneider Carpeggianni com o romancista e cronista mineiro Ivan Ângelo. A entrevista é sobre crônica, mas se indaga, de principio, qual a razão dele, autor premiado e festejado ter deixado, de lado, os romances. Ivan, penso eu, acredita que os romances de hoje, especialmente os best sellers, são feitos sem o grau de exigência necessário. De minha parte, concordo. Dou um exemplo: ganhei de presente um desses romances que passou meses como um dos mais vendidos no Brasil. Tentei ler o dito cujo. Não consegui. Voltei a encarar e acabei desistindo. Pode ser preconceito meu ou sei lá o que, mas “A Cabana” não fez jus às recomendações dadas pelo livreiro que o vendeu a quem me presenteou, com boas intenções.
Voltemos, então, à crônica. Ivan diz como produz uma crônica: “Eu trabalho a crônica com bastante abertura. Não é o assunto ou a quantidade de realidade que ponho nela que a torna uma crônica.” E continua: “Crônica não é um formato, como o soneto, um dos formatos do poema. Algumas das minhas crônicas, ou algumas crônicas, de um modo geral, são dissertações, outras são poema em prosa, outras são pequenos contos, ficções, outras são evocações, memórias, reflexões, recortes do cotidiano”.
E explica como seleciona crônicas escritas em jornal que, depois, resolve enfeixar em livro. Diz ele: “meu editor e eu procuramos montar a seleção de crônicas que compõem o livro ‘Certos Homens’ usando o critério da proximidade de assunto que um texto poderia ter com outro.”
Ao final, Ivan Angelo recomenda duas crônicas. Anúncio de João Alves, de Carlos Drummond de Andrade, e Partilha, de Rubem Braga. Valem a pena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/01/2012

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CHUVAS E PROBLEMAS – Diário do Nordeste

O ufanismo de alguns por estar o Brasil em situação econômica razoavelmente confortável em meio ao vendaval do endividamento de países europeus não contagia a outros. O país está assim em função das matérias primas que exporta nesta terra que, mesmo castigada, produz o que no mercado se convenciona chama de “commodities”. É claro que há um crescimento industrial, mas ainda não é o nosso carro chefe nas divisas. Por outro lado, o Censo de 2010 escancara a situação das favelas. Há mais de 11,4 milhões de pessoas morando em pequenas e grandes favelas. O Estado do Pará, a riqueza amazônica brotando ao lado, tem elevado grau de favelas que, dia a dia, aumenta. São mais de 1,2 milhões de favelados. A cidade de Belém adiciona ao problema o fato de parte dessa população morar em palafitas, apesar de uma das comunidades ser chamada de Terra Firme. Há favelas no Rio maiores que cidades. A Rocinha, por exemplo, tem quase 70 mil pessoas e não existe, em curto prazo, perspectiva de vislumbrar soluções que diminuam esse adensamento populacional. As casas térreas passam a agregar pavimentos, em função do casamento de filhos e afins. Além da ausência de uma urbanização mínima não há, para todos, água encanada, esgoto e coleta de lixo adequados e os parcos serviços públicos disponíveis são de duvidosa qualidade. Começa agora a época das chuvas e as encostas dos morros, os que sofreram abalos e provocaram mortes ano passado, ainda estão virgens de ações públicas eficazes. O Brasil sofrido precisa de atenção imediata dos governos. Abrigos, colchões e cestas básicas não são soluções.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/01/2012.

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ANTES DOS JOGADORES, O “CRACK”. – Jornal O Estado

O Brasil está se preparando de forma esfuziante para receber a Copa do Mundo de Futebol de 2014. Constrói ou recupera estádios, amplia aeroportos e interfere nos problemas de planejamento urbano das cidades de modo a tornar o trânsito mais fácil neste país que mais parece a Coreia e a China dos anos 90, milhões são as motocicletas que hoje fazem uma espécie de bailado ou roleta russa em todas as estradas rurais, urbanas e rodovias estaduais e federais. O antigo vaqueiro usa moto que compra facilitada. Pintores, comerciários, bancários, mecânicos e demais profissionais usam, com direito e oportunidade, motos. Os jovens, de modo geral, querem a moto como guia de sua liberdade e meio de transporte. Isto sem falar nos milhares de consórcios de veículos que vendem aos borbotões. Não vou mexer neste vespeiro que é de todos sabido. Este será o Brasil de 2014.
Cuidemos do hoje. O que faz medo neste Brasil de 2012, dois anos antes dos jogadores entrarem em campo, é a epidemia de “crack”, a droga que chegou para ficar e infesta o país. Em pequenas, médias e grandes cidades brasileiras o “crack” está nas esquinas e acomete os que, sem esperanças, dissipam suas energias em pedras que os levam a uma degradação inigualável. Não há mais como fazer vista grossa a esse drama que o Brasil vive sem que os governos federal, estaduais e municipais somem forças decisivas e multiprofissionais para debelar as “cracolândias” que se espalham em lugares ermos, construções abandonadas e assolam jovens, principalmente.
A operação deflagrada pelo Governo de São Paulo apenas espalhou o amontoado de pessoas que definira um espaço para o uso, como se fossem invisíveis na sociedade. Hoje, hordas sem rumo, vagueiam pela capital paulista. Essas procissões de viciados clamam por olhares humanos da coletividade que os vê como párias. O Brasil não pode distinguir os seus nacionais, todos merecem – e carecem – a atenção que a Constituição diz assegurar. Há um mapa sombreado do Brasil elaborado pelo Observatório do Crack que mostra o nível de consumo em todo o país e revela o perigo que a sociedade brasileira está passando. Não são fatos isolados, é uma feia e clara epidemia que entristece e pede solução efetiva. Não fique indiferente. Veja o site www.enfrenteocrack.org.br.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/01/2012

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PAPÉIS AVULSOS – Diário do Nordeste

Ao redor de minha cama há jornais, revistas e livros. O mesmo acontece no meu escritório de casa, do trabalho e no carro. Os papéis vão tomando todos os espaços de mesas e das cadeiras. Uma bagunça. Hoje, resolvi fazer limpeza nesses papéis avulsos. Estou gripado e a seleção do que será jogado fora é dolorosa. Espirros alérgicos e culpa. Será que não precisarei disso ou daquilo em algum tempo? Assim, contra a minha vontade vou escolhendo muitos para descartar. Cada revista, caderno literário, recorte ou livro é olhado piedosamente e, num rasgo de desapego, vou enchendo um grande saco. Neste instante, percebo que falei em papéis avulsos. Dou-me conta que uso o título de um livro de contos de Machado de Assis. Nesse livro, que recomendo, há a crítica aguda machadiana ao seu tempo e às instituições da época. Os contos são do final do século 19, mas há contemporaneidade nas análises, no “ A Sereníssima República”. A propósito, a nossa República não anda nada calma. Há excesso de questões irresolvidas entre os poderes e as mídias– que ainda incluem o papel dos jornais, revistas e livros – nos mostram as crateras de desentendimento, a contrafação e o jogo sujo da delação por interesses contrariados. Partidos e sindicatos, malthusianos como polvos, ocupam espaços para os seus e surge o quase isolamento da Chefe do Estado por falta de confiança em auxiliares que escolhera como confidentes. Nós, cidadãos e eleitores, somos as aranhas de que fala Machado, sem tessituras concretas. Há espasmos, mas prevalecem a voz e o desejo dos arautos em burocracia, dificuldades com soluções negociadas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/01/2012

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GONZAGA MOTA:AO VENTO QUE FICA – Jornal O Estado

Luiz Gonzaga Fonseca Mota era economista, técnico em desenvolvimento econômico da então quase universidade – que foi o Banco do Nordeste – e Professor da UFC, quando convidado para ser Secretário de Planejamento do Estado. Depois, como do conhecimento dos que lidam com a história contemporânea, em eleição direta, tornou-se Governador do o Ceará. Em sequência, por três mandatos, foi Deputado Federal. Não é sobre o político Gonzaga Mota que vamos arrazoar. Esse mister precisa de distanciamento crítico e tempo, o que ainda não aconteceu.
O que tenho às mãos é um novo livro de Gonzaga Mota, “Ao Vento: Poemas”. Finalizado em branco e preto, com arguto prefácio do intelectual e jornalista Cid Sabóia de Carvalho e capa de Hermínio Castelo Branco, o Mino. Relembro que Gonzaga, Mino e eu, fomos contemporâneos, amigos das antigas, nascidos nos tempos em que Vargas mandava no Brasil enquanto uma guerra mundial – onde milhões de pessoas foram mortas pela insânia coletiva – findava e dividia a Terra em sistema de ideias. O que era mal para uns, era Bem para outros. E vice-versa.
Hoje, 2012, Vargas é memória longínqua, o mundo está sem eixo, o economista-técnico, o professor-planejador, o aluno bem olhado na pós-graduação por Mario Henrique Simonsen, o jovem político de sucesso festejado pelos áulicos que sempre circundam os poderes, quaisquer que sejam eles, se vê, maduro e longe da astúcia devastadora. Tem escaras subjetivas – e inertes – causadas pelos que o incensavam com afagos e tapinhas às costas, ditas amigas. Preenchido de fé, cercado de estreita e verdadeira benquerença familiar, desde a mulher amada, filhos e netos, veste as sandálias dos simples escribas de província e deixa o coração transbordar de sentimentos, seja em prosa e, agora, em versos.
Em “Ao Vento” o leitor cuidadoso viajará na face madura/criança do homem que se vê poeta estreante e não tem receio de falar do que o move e o mundo. Na auto-apresentação, ele escreve: “Acredito ser o filósofo e o poeta figuras bastante parecidas, pois ambos procuram entender as inquietações da vida”. E enumera quais são elas: a religião e a ciência; o ser e o não ser; a gratidão e a ingratidão; a esperança e a desesperança; o certo e o errado; o amor e o ódio; o bem e o mal; a alegria e a tristeza; o eterno e o efêmero; o começo e o fim.
E “Ao Vento” se desfolhará, página por página, aos seus leitores e, especialmente, aqueles entes queridos do autor, os que, afinal, valem a pena e permanecem nos transbordos das estações da vida. Hoje, o menino de classe média, bem educado por família ciosa de que só a educação, os princípios e o conhecimento constroem, remexe na sua cornucópia de lembranças e, em metáforas, separa o essencial do oba-oba que pulula, como doidivanas, no circuito do poder. E reflete: “Levar a vida tão a sério/às vezes, tenho dúvidas/Talvez sejam instantes de melancolia/ motivados por desilusões do dia-a-dia”. Na contracapa do seu livro, Gonzaga cita Fernando Pessoa (Sopra o Vento): “… Dos ramos que ali caíram/Sei que só há mágoas e dores/Destinadas a não ser/Mais que um desfolhar de flores”.
Ao Vento, não. À Vida. E longa.

João Soares Neto,
escritor
(Publicado no Jornal O Estado, 13 de janeiro de 2012, www.joaosoaresneto.com.br e www.amigosdolivro.com.br)
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/01/2012.