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MEXENDO NO CUPINZEIRO – Diário do Nordeste

O cupinzeiro é o modelo dado pelo naturalista Richard Conniff ao descrever o que acredita ser uma forma arquitetônica perfeita. Para ele – não “mental”, mas quiçá gozador – o cupinzeiro possui arcos delineados, escadas espiraladas, túneis, acomodações indicando a posição social de cada cupim e até creches. Não estou brincando, ele fala em sistema de ventilação com entradas e saídas de ar e até no controle da umidade que se mantém em 90%. Não riam. Estamos no dealbar de 2012 e creio que há anos andam mexendo adoidado no cupinzeiro.
Deixo claro que meu conhecimento de Física é pífio. Nos anos 90 até andei fazendo curso sobre a Teoria do Caos e da Complexidade. Anotei, li, perguntei, ouvi e continuei a não entender o sistema caótico que se pressupõe auto-regulável. Por minha formação básica em ciências sociais desconfiava, desde sempre, das pessoas crédulas a acharem ser o mundo criado para dar certo e que tudo é muito simples. Nós seríamos os complicadores. Sei que nos EEUU e no lado norte do mundo ocidental há cientistas laureados assoalhando que o mundo, a natureza ou seja lá como chamemos, é repleto de sistemas complexos que encontram sempre uma forma de organização.
A auto-organização complexa que seria a matriz para as grandes empresas e governos parece não estar mais dando para o gasto neste cupinzeiro de instabilidades e incertezas. Olhe para o seu mundinho e veja se há o “estalo” espontâneo em que inundações param de ocorrer por excelentes obras públicas de contenção, políticos têm coerência, banqueiros padecem e todos trabalham porque estão felizes. Sei não.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/01/2012

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RIO, PACIFICAÇÃO E PAISAGEM – Jornal O Estado

“O passado é uma dívida; o futuro é uma especulação; mas quem cobra é o presente”.
Daniel Piza
Passei os últimos dias do ano passado no Rio de Janeiro. Não fui para o Reveillon. Não me importavam os artifícios dos fogos, cantores regiamente pagos, milhares de pessoas amontoadas e políticos fazendo média em Copacabana. Tampouco a árvore de Natal de 100 metros que parece apequenada na suja, mas ainda bela Lagoa Rodrigo de Freitas. Fui rever a minha segunda cidade, a que conheço desde meninote, antes do criativo trabalho de Burle Marx no paisagismo do Aterro do Flamengo e do alargamento da Avenida Atlântica. Fui dar um giro, de táxi, por favelas ditas pacificadas. Ruelas estreitas, camelôs por todos os lados, carros sobre os passeios, escadarias íngremes mesmo e gente. Muita gente. Cidadãos braquicéfalos mostram a nordestinidade de grande parte de seus pacatos ocupantes. Não creio que o Rio esteja em paz, pois faz muito pouco tempo a ação e há favelas ou comunidades, como dizem agora, que não têm as UPP -unidades de polícia pacificadora. Uma cidade pacificada não possui os índices que o Rio ainda apresenta de criminalidade e tampouco carece de milhares de seguranças particulares em todos os locais de indústria, serviços, comércio e prédios residenciais. É um trabalho em progresso, sim. Tem chão.
Fui ver o Rio da feira-livre da Rua Domingos Ferreira, onde morava o Elano de Paula que hoje vê melhor uma parte da cidade de sua cobertura ali por perto. Por falar em Elano, seu irmão querido, Chico Anysio, está grave e nada do que publicam na imprensa reflete a densidade do caso que compromete a vida do mais destacado e completo ator brasileiro. Chico não é só comediante, como muitos pensam. Escreve, dirige, pinta, faz cinema, tem livros publicados e possui a sensibilidade do beija-flor e a argúcia de lépido coelho.
Fui ver o Rio para saber que o escritório do Oscar Niemayer estava fechado nesta época de friagem e chuva acima do normal. Estive em restaurantes do povo, de gourmet e madames. Visitei antiquários e armarinhos. Depois, tomei a Avenida Brasil, passei por Campo Grande para me deliciar, a seguir, com o atlântico, oceano, e a atlântica mata. Fui indo, indo, deixando a restinga da Marambaia para traz até chegar às cercanias do Rio Frade que se transmuda em mar bem depois da usina atômica ativa e dos estaleiros renascidos.
Fui atestar que há muito a ser feito nas ainda estreitas estradas federais e estaduais com acidentes provocados por imperícia, negligência e grossa imprudência. Vi pouca polícia rodoviária, a não ser quando vítimas havia. No retorno, comendo rosquinha, fui me molhar na chuva dos dias um e dois deste janeiro que bendizia a minha gripe ainda não debelada. Fui e voltei pelo Antônio Carlos Brasileiro Jobim, o campo de pouso, que merecia acústica melhor nas suas gares ultrapassadas em sustentabilidade, arquitetura, luminotécnica e tecnologia. Como dizia o próprio Tom, o Brasil é…, mas gosto dele. Eu também.
Para variar, houve tamanho atraso do A-320 que se comprazia em aglomerar retardatários de conexões internacionais, por escassez de outras aeronaves. Cheguei tarde da noite, cidade vazia, não havia gente nas ruas, só as máquinas de multar davam plantão. Desci em casa, gratificando o motorista esclarecido que falava português de gente que leu no tempo certo. Esqueci no banco dianteiro do seu carro branco um guarda-chuva antigo, mas talvez ele não lembre que tenha sido eu quem o abandonou, pois a tempestade não chegara.
(Reverencio o jornalista, escritor e intelectual Daniel Piza, morto aos 41 anos, vítima de AVC. Perde o Brasil.)

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/01/2012.

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DEUS E JESUS? – Diário do Nordeste

Ficção: Estamos em 4013, há sistemas de regulação full-nano-ultra nos bólidos, co-propriedades, e nas bibliotecas virtuais. Curioso, Ching, o anti-estro, resolve pesquisar o acontecido há dois mil anos. Insere perguntas, realimenta dispositivos que, de há muito, dizimaram o Google. Não há registros sobre 2013. Inexiste o Brasil. Encontra uma mínima referência a uma belicosa República Bolivariana, nas ex-Américas do sul e central. Ching desliga.
Hoje, dezembro de 2013: Intrigo-me com um novo livro: ”Não houve Jesus. Deus não Existe”, de Raphael Lataster. Ora, Jesus não nasceu em lugarejo da Palestina? Se fora hoje, precisaria do Bolsa-Família. Os Romanos geriam o mundo.Nada foi escrito sobre Jesus. Tudo surgiu após a sua morte, se viveu, como creem os três bilhões de cristãos espalhados pela Terra. O cristianismo, há dois milênios, prega santidade, mas perpetrou atrocidades, cruzadas, cismas; teve papas dissolutos, pastores empoderados e crimes financeiros. Apesar disso tudo, Jesus vive no coração dos que a Ele recorrem.
Hélio Schwartsman, filósofo/articulista da Folha, pondera: “Segundo o autor (Lataster), um mínimo de rigor historiográfico exigiria, se não concluir que nunca houve Jesus, pelo menos deixar de afirmar que sua existência histórica foi confirmada”. Ora, a fé cristã ensina: para ver a face de Deus é preciso morrer. Assim, a racionalidade perde forças. 2013 sequer é lembrado na ficção 4013. Enquanto isso, os evangelhos, pós Jesus, narram o que a oralidade preservou. Deus, Jesus, e a fé são forças, apesar de tudo. E então?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/12/2013

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DE MASCATE A VISCONDE – Jornal O Estado

“O prestígio sem mérito obtém considerações sem estima”.
N. De Chamfort, escritor francês, séc 18.
Em um dia como hoje, 28 de dezembro de 1813, há exatos duzentos anos, nascia Irineu Evangelista de Souza. Gaúcho do interior, de família pobre. Seu pai, João Evangelista de Souza, pequeno fazendeiro, foi assassinado. Em 1818 foi levado por um tio para o Rio. Partiu na vida, com três anos formais de estudo, como balconista e, já aos 15 anos, deu uma guinada.
Conheceu Richard Carruthers, escocês, ávido com a abertura do porto do Rio para o Reino Unido. Com Carruthers, de quem tornou-se amigo e, depois, sócio, Irineu aprendeu a ser guarda-livros e maçom, a falar inglês, e, a saber, que o mundo era maior que a única viagem que até então fizera.
A vida de Irineu deveria ser objeto de estudo nas boas escolas de administração deste XXI que se contentam em homenagear pessoas vivas, alguns dignos, e certos blefes nacionais. Essas escolas persistem em manter como referências modelos de gestão estrangeiros e incensa empresários europeus e/ou americanos. Pelo menos, a Associação Comercial do Rio de Janeiro, hoje presidida pelo cearense Antenor Barros Leal Filho, instituiu o prêmio Barão de Mauá, o pioneiro da industrialização brasileira. Esse galardão é conferido a pessoas e instituições que encerrem serviços prestados à formação e à difusão da educação.
Mauá teve fundição, estaleiro, navios, iluminação a gás, construiu estradas de ferro, foi deputado pelo Rio Grande do Sul, fundou banco e expandiu os seus negócios para o exterior. Em 1840, já estabilizado no Rio, mandou vir dos arroios gaúchos, sua mãe, Maria de Jesus; a irmã, Guilhermina, com a filha adolescente, Maria Joaquina. No ano seguinte, Irineu, de regresso de uma das muitas viagens de negócios à Inglaterra, traz uma aliança para Maria Joaquina, a sobrinha, que vira sua esposa. Tiveram 12 filhos.
Em 1854, aos 41, inaugura 15km da ferrovia que ligaria o Rio a Petrópolis, ocasião em que recebeu do próprio Imperador, Pedro II, com quem tinha desavenças, o título de barão de Mauá. Vinte anos depois recebe o título de Visconde, um nível acima do baronato, honra concedida pela monarquia por ele combatida com tanto fervor quanto o fim da escravatura.
Segundo Kenneth Maxwell, historiador britânico contemporâneo: “ele se opunha ao comércio negreiro e à escravatura…No auge de sua carreira, em 1860, controlava 17 empresas no Brasil,Uruguai, Argentina, Reino Unido, França e Unidos”. Nem tudo foi glória na vida de Irineu. Chegou a falir, mas conseguiu a plena reabilitação, antes de falecer em 1889, antes da proclamação da República.
Conheci, há tempos, Jorge Caldeira, professor e biógrafo, que tinha escrito, no ano de 1995, o livro “Mauá, o Empresário do Império”, pela Cia. das Letras. Fiz-lhe diversas perguntas sobre o livro e o Irineu. Jorge ficou intrigado com a minha curiosidade. Ela permanece. Irineus são poucos, ainda hoje.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/12/2013.

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PLATITUDES – Diário do Nordeste

Natal e fim de ano são tempos de platitudes. Se você não sabe o que é platitude, fique tranquilo. Já vai entender. Quando você recebe e-mails dizendo o óbvio, repetindo o de sempre, estamos diante de uma platitude. Quando alguém manda um cartão de natal sem assinar ou, ainda, quando a assinatura já é impressa, é quase certeza que vem platitude no texto, com redundâncias e afagos que não fazem muito sentido para quem os recebe. Algumas vezes, o remetente sequer tem afinidade conosco.
Agora, neste dezembrão sem fim, ouvi uma prédica que me deixou feliz. Em confraternização acadêmica, o Mons. Manfredo Tomás Ramos, agostiniano profundo, falou com a simplicidade de seu mentor. Santo Agostinho nasceu no século IV e, até hoje, 17 séculos depois, é contemporâneo e serve como antídoto às platitudes que recebemos pelo Correio, sempre atrasado; ou pelas tais mídias sociais que não pedem licença e invadem a nossa profanada quietude. Ela se esvaiu quando passamos o primeiro e-mail.
Agostinho, em A Trindade, X,10,14, nos faz pensar. Preste atenção: “Quem pode duvidar de viver, de lembrar, de compreender, de querer, de pensar, de saber, de julgar? Mesmo se duvida, vive; se duvida, lembra de onde nasce sua dúvida; se duvida, quer chegar à certeza; se duvida, pensa; se duvida, sabe que não sabe; se duvida, julga não dever concordar irrefletidamente. Portanto, quem duvida de outras coisas, não deve duvidar destas, pois se não existissem, não poderia mais duvidar de nada”.
Pensando melhor, que venham, então, as platitudes.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/12/2013

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A ÁRVORE E OS JARDINEIROS DO BEM – Jornal O Estado

“Quanto mais o indivíduo aprende, tanto mais útil se torna para si e a sociedade”.
José Ingenieros (médico e filósofo argentino, séc. XX)
As árvores são símbolos de produtividade, de beleza e refrigério. Resolvemos, em 2002, criar um projeto social: Árvore do Bem. Ele surgiu sem alarde, sem mídia, mas com a tenacidade dos que acreditam poder fazer algo de forma coletiva, simples, clara e com a participação espontânea de pessoas/famílias que sabiam da credibilidade e dos objetivos a serem alcançados. Este registro que hoje faço é apenas uma homenagem aos jardineiros/doadores, gente de coração e atitude. Louvo os nossos colaboradores que se envolvem e dão tempo, energia e carinho em trabalho que leva meses em planejamento, escolha de instituições, implantação e o coroamento da festa que se fazia em um só dia. Hoje, são três.
Nesta semana, desde quarta e até hoje, sexta, estamos alegrando 1762 crianças desassistidas. Algumas têm câncer, outras são portadoras de alguma deficiência física ou síndromes que as tornam especiais, mas há centenas que são vivazes e estão por lá pela ausência de pais e familiares que se perderam nas drogas, o “crack”, em destaque.
Os jardineiros/doadores são pessoas que não querem aparecer, que não homenageiam autoridades e nem circulam em salões cheios do vazio de muitos. Não há bebidas. Neste ano de 2013, o trabalho foi intenso. A ideia já foi copiada e se vê festa em que o (a) organizador (a) gasta muito, divulga nas mídias, entre fotos, drinques e acepipes, pede lençóis, brinquedos ou força compras outras.
Nós não pedimos nada. Quem pede são as próprias crianças, com suas letrinhas infantis ou ajudadas pelas “tias”. Cada uma das 1762 crianças é identificada em cartão com sua foto, seu nome, sua idade, pretensão de presente e a chancela da instituição (são 20, ao todo) da qual faz parte. Cada pessoa faz a escolha livremente e, até o 15 de dezembro, retorna, alegre, com o presente solicitado.
A nossa equipe de trabalho fica feliz com o excesso de quefazeres; as salas e os corredores plenos de pacotes coloridos e a azáfama contínua. Em seguida, os brinquedos são separados, catalogados por instituições e rigorosamente entregues às crianças, em meio a folguedos, sob o olhar atento de alguns doadores, pois todos são convidados a participar da entrega pública que dura, neste ano, três manhãs, tão grande é a tarefa. Se você, leitor(a), quiser vir e ver, hoje, pela manhã, é o último dia de entrega, na Av. Carapinima, 2200, 1º. Piso.
Quem desejar plantar outras árvores por aí afora pode seguir a nossa metodologia, acima exposta, e fazer o mesmo no próximo ano. Só não podemos ceder os nossos sentimentos e os dos nossos fiéis jardineiros doadores, a quem agradecemos, desde sempre. Estes são intransferíveis. Como dizia d. Paulo Evaristo Arns, o valor do homem como pessoa é maior que todo o dinheiro do mundo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/12/2013

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FUTEBOL DO BRASIL – Diário do Nordeste

Deve haver alguma resposta para a distância que separa empreendedores dos clubes brasileiros. O que se sabe é que os clubes vivem de patrocínios de grandes marcas, dos governos federal (Caixa, Banco do Brasil, Petrobrás e outros), estaduais e até de endividados municípios. Além das altas cotas pagas pela televisão que, em contrapartida, determina os horários dos jogos ao sabor de sua programação.
A maioria dos clubes tem pendências fiscais e trabalhistas, o que míngua o pagamento de suas infladas folhas de pagamento. A entidade que comanda o futebol esteve no foco de comissões parlamentares de inquéritos que se esvaíram pela magia de intervenções e interesses
Agora, neste final de 2013, última rodada do Brasileiro, série A, houve cenas de mútuas agressões por torcidas organizadas. Elas repercutiram na mídia mundial com queixas à segurança dos estádios e relembraram os movimentos populares que marcaram a Copa das Confederações.
A nação e o povo brasileiro precisam analisar as razões do afastamento da sociedade das diretorias dos times que nos representam. As várias séries são arquitetadas para ocupar o ano e deveriam servir para a descoberta de novos neymares. Júlio César, o goleiro veterano e preferido, está em clube inglês da segunda divisão. Éderson, 24, o cearense artilheiro da Série A, sequer está cogitado.
Sabe-se que a Copa do Mundo é uma espécie de “Fórmula Um”. A diferença é ser a cada quatro anos. Exige tudo do país-sede e nada dá em troca, exceto obras, cumprimento de reeditados cadernos de encargos e arrogância.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/12/2013

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O ESTADO, 77 ANOS DE COMBATE – Jornal O Estado

Imprensa é liberdade. O resto é armazém de secos e molhados”. Parafraseando Millôr Fernandes.
Quando o advogado José Martins Rodrigues e, o seu irmão, o banqueiro Júlio Rodrigues fundaram o jornal O Estado, em Fortaleza, Ceará, no dia 24 de setembro do ano de 1936, o Brasil caminhava a passos dúbios que desembocariam, no ano seguinte, no Estado Novo, com a emergência de Getúlio Vargas como o detentor absoluto do poder que se fez discricionário e voraz. Só em 1946 voltaria a ser uma democracia, com a eleição de Eurico Gaspar Dutra. Nesses 10 anos iniciais, O Estado foi um aliado do governo, mercê da assunção de Francisco Menezes Pimentel, aliado de Martins Rodrigues, como Interventor.
Restabelecida a Democracia, O Estado retomou suas frentes de luta e incorporou o ideal libertário que surgiria, efetivamente com Wenelouis Xavier Pereira. Como este relato segue uma linha histórica, o faço com a leitura da Cronologia de Fortaleza, volume II, escrito em 2001 por Miguel Ângelo de Azevedo=Nirez. Ajudou-me também uma rica conversa com o brilhante Professor Roberto Martins Rodrigues, filho do fundador José Martins Rodrigues. Este viria a se tornar um dos maiores políticos brasileiros, chegando a ser Ministro da Justiça.
Assim, vieram depois novos donos. Alfeu Faria de Aboim e Walter de Sá Cavalcante,em 1942; Antônio Gentil, o controla, em 1945; depois Cláudio e Fran Martins, comandam os anos 50; e Sérgio Philomeno até 1964. Em 1965, repito, impõe-se a figura destemida do advogado Wenelouis Xavier Pereira, que se tornou o timoneiro da fase clarificada e independente, sem partidarismo político ou a defesa dos grupos empresariais que o mantiveram até então, com diversas linhas editoriais.
A dolorosa e difícil independência perdura até hoje com o seu herdeiro e seguidor Ricardo Palhano, acolitado por seus irmãos e abençoado por sua mãe, a Procuradora Wanda Palhano. Estamos em 2013, mas não podemos esquecer os muitos jornalistas e colaboradores que ilustraram as páginas de O Estado nestes 77 anos. A todos, mesmo os não nomeados, homenageio. Começo com os do fim da década de pessoa de Joaquim Alves, editor da coluna “Educação e Ensino”; os dos anos 40 com Silvia Porto, que escrevia sobre Literatura e Artes. A vanguardista edição dominical bicolor com ênfase “No Jornal dos Nossos Filhos”, destacando o pioneirismo da fundação da Cidade da Criança pela professora Zilda Martins Rodrigues. Os dos anos 50, com Afrânio Coutinho em “Correntes e Cruzadas”; Dinah Silveira de Queiroz com “Filosofia Prática” e Roberto Martins Rodrigues, que passa a escrever, quiçá, a primeira coluna política do Ceará.
Aí chegamos aos anos sessenta, e para dizer que não falarei em armas e dragões, identifico as críticas e observações do cinéfilo Francisco (Chico) Sampaio, ilustre professor e fundador do colégio Geo, com métodos que começaram a mudar o perfil das demais escolas privadas do Ceará. Luciano Diógenes, após o fechamento dos Diários Associados no Ceará, passou a escrever no O Estado, tal como a novel jornalista, oriunda do curso de Comunicação da UFC, Regina Meyer Marshall, que fincou as bases de sua atuação destacada como colunista, fruto espontâneo de sua vivência social, mas com acuidade e capacidade crítica. Cléa Petrelli vem dar um charme diferente às coisas mundanas, às viagens e à política.
Nos anos 80, Wanda Palhano inova com a criação de “A Semana”, folhetim diferenciado. De 90 para cá quase todos são parceiros da contemporaneidade. Agora, neste dezembro de 2013, depois da homenagem recebida pela Assembleia Legislativa do Ceará ao jornal independente que é O Estado, cumpre realçar os que aqui mourejam de segunda à sexta nas pessoas dos jornalistas Macário de Brito, o mais atilado e “globe-trotter” dos jornalistas da terra; Fernando Maia, um dos mais antigos e bem informados colunistas políticos; Flávio Torres, com a sua alegria contida e candura natural; Antonio Viana, veterano radialista/jornalista com enfoque na política do interior; Rubem Frota, publicitário e jornalista, com informações sócio- econômicas; Natalício Barroso, intelectual e um dos mais cultos na análise da arte e da cultura; Solange Palhano com o seu jeito coloquial, pessoal e direto de falar de dores, amores, viagens e família. Isto sem contar os colaboradores nacionais como Sebastião Nery, Cláudio Humberto e Carlos Chagas.
Não há como lembrar todos, mas a mostra é significativa, sem deslembrar que jornal é como um filme. A diferença é que nunca acaba. Mas, tal como em todos os filmes, nos jornais há o Expediente, os créditos para os que o produzem, dirigem e atuam. Em letras pequenas, ele mostra o equilíbrio da presidência ou produção, de Wanda Palhano; da superintendência ou direção geral cuidadosa de Ricardo Palhano, com a ajuda irmanada de Soraya(financeira), Solange(institucional) e Rebeca(marketing).
Tudo isso sendo tocado na redação por Carlos Alberto Alencar (editoria geral), Daniel Nogueira (editor) Marcelo Cabral (economia), Nonato Almeida e Felipe Muniz(reportagem), Thatiany Nascimento(cotidiano) e J.Júnior(diagramação).
O Estado é tudo o que foi dito, mas o é por conta especial dos seus leitores e anunciantes que acompanham a sua trajetória e sabem que nestes 77 anos muitos jornais cearenses deixaram de existir. Ele está firme e tem ciência de que a independência custa caro, mas vale a pena.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13/12/2013

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O BRASIL REAL – Diário do Nordeste

O Brasil real é diferente do que a ilusão da propaganda nos mostra.
O IBGE expõe a situação de 2012: perto de 10 milhões de jovens, entre 15 e 29 anos, não estudam e nem trabalham. São chamados de “nem-nem”. No Nordeste, chegam a 24% do todo. O que fazem esses jovens? Basta ler jornais, ouvir rádio, ver TV, olhar as ruas e as respostas aclararão. Deles, 32,4% não concluíram sequer o curso fundamental. O que esperar do futuro de pessoas sem formação para competir no seletivo mercado de trabalho?
Hoje, qualquer concurso público, exige o curso médio completo e haja
concorrência. Exemplo? 50 mil inscritos para Guarda Municipal, em uma capital. Esses jovens, mesmo sem trabalhar, procriam. As mulheres com filhos compõem 58% desse universo. A solução deles? Procuram programas sociais, como bolsa-família e outros. Não seria mais lógico investir na educação formal e profissional, na motivação de professores que fazem greves todos os anos por conta de salários baixos?
21,5% das famílias mais pobres nordestinas estão nesses programas. São 49,1 milhões de brasileiros dependendo do bolsa-família. Muitos não poderão sair do caos social que vai do Amazonas até o Rio Grande. Basta ver o crescente da população carcerária, apesar da impunidade. O contingente que declara ganhar até ¼ do salário mínimo corresponde a 36,3% da população de 200 milhões. Não são apenas números, mas o atestado de descompromisso da nação a se arvorar de quase rica. A fazer eleições nos anos pares a custos altos e resultados pífios. Além de Copas e Olimpíadas, circos armados.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/12/2013

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AIDS: opiniões, cuidados e responsabilidade de todos – Jornal O Estado

“Às vezes fico pensando que a Aids parece mesmo coisa da CIA misturada com o Vaticano. Sei que é um pouco de loucura pensar nisso, mas faz sentido, faz. Faz muito sentido”. Cazuza, cantor brasileiro.
Cazuza morreu de Aids, aos 32 anos, em 07 de julho de 1990.
Segundo os médicos Caio Rosenthal, infectologista, e Mário Scheffer, medicina preventiva, em artigo em 01.12.2013, na Folha, 30 pessoas morrem de Aids e 100 novos casos são registrados no Brasil, a cada dia. Repito, a cada dia. Há algum tempo o Brasil foi considerado exemplo para o mundo na prevenção e tratamento do HIV, mas houve um relaxamento de todos, pacientes, médicos e dos governos. A ideia de transferência do tratamento dos infectados para as unidades básicas de saúde foi um erro, afirmam os dois citados médicos.
Este artigo não pretende causar pânico, mas não acho certo saber e não alertar os que continuam a fazer sexo de forma indiscriminada sem o uso regular de preservativos. A “camisinha” não pode ser considerada careta. Ela é defesa para os que se aventuram na promiscuidade e os que, mesmo não promíscuos, têm parceiros fora das suas relações. Para Rosenthal e Scheffer o problema é grave: “No ritmo da incompetência, ministro e secretários da Saúde deveriam ser processados a cada novo caso de criança que nasce com HIV, um flagelo perfeitamente eliminável. Erráticos, os dados oficiais apostaram que a Aids avançaria em direção aos heterossexuais, às pessoas de baixa renda e ao interior do país. Concentrada nas áreas urbanas, a verdade é que a epidemia ressurge com força total entre os homossexuais e outras populações negligenciadas”.
Exageros à parte, há uma postura nacional, embora contestada por alguns, de combate à doença e de apoio integral ao paciente. Deu certo, mas precisa continuar, sem descuidos e ambiguidades.
Desse modo, fica o alerta a todos os que, além dos governos, possam ajudar nessa cruzada que, em 1º de dezembro, teve seu Dia Nacional de Combate à Aids, sem a cobertura devida da imprensa, ocupada em relatar o acidente no estádio do Corinthians, em São Paulo, e ouvir as desculpas do presidente da Confederação Brasileira de Futebol, um “desaposentado” e controvertido ancião que sequer respeitou os mortos ao asseverar que nada impedirá que a abertura da Copa seja naquele estádio, ainda em construção.
Hipócrates, o médico grego, nascido 460 anos antes de Cristo, tornado patrono da classe esculápia, já dizia: “Para males extremos, extremos remédios, levados ao máximo rigor, são os mais válidos”. O médico Alexandre Padilha, Ministro da Saúde, bem que poderia meditar sobre críticas às medidas preventivas, ainda censuradas por igrejas e seitas. Não há prodígio para a Aids. Só os antivirais adequados, iniciados logo depois do diagnóstico, são as respostas adequadas para que os pacientes possam conviver com a doença. A cura está próxima, já há vacina em teste. Enquanto isso, todos precisam de cuidados. E, se infectados, correr para a busca de socorro médico e dos retrovirais disponíveis no Brasil. Cuidar-se é viver.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/12/2013