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BIOGRAFIAS BRASILEIRAS – Diário do Nordeste

Participei do 1º. Festival Internacional de Biógrafos, em tenda refrigerada sobre o calçadão da Praia de Iracema, tal como na Feira Literária de Paraty, a Flip. O ágape foi oportuno e repercutiu na grande mídia. Há uma ebulição provocada por questões judiciais, especialmente a de Roberto Carlos, contra Paulo César de Araújo, um dos palestrantes.
Cito apenas o bate-papo entre Ruy Castro e Mário Magalhães. Escutei-os com atenção e,no debate, houve perguntas de conteúdo e as de quem queriam aparecer. Ruy Cáustico, ops, Castro, é virulento em conteúdo, mas é moderado nas palavras. Mauro Magalhães, autor de “Marighella, foi um âncora culto. O desenvolto Ruy soltou a língua e espinafrou a “censura” de biografados vivos e a “ganância financeira” de familiares de mortos.
Todos sabem que a biografia é um escrito histórico, cronológico ou não, feito na terceira pessoa(ele-a) por alguém, de uma personalidade viva ou morta. A autobiografia é feita na primeira pessoa (eu) narrando ou esclarecendo fatos da própria vida do autor. A biografia autorizada é a que parte do próprio biografado ou de sua família com escritor convidado, após sua morte
Bios e grafia, gregos de origem, significam vida escrita. Neste novembro de 2013 a Academia Brasileira de Letras, por unanimidade, através da palavra de Ana Maria Machado, expressou no STF a repulsa ao cerceio à liberdade de expressão pedindo a derrubada dos arts. 20 e 21 do Código Civil que dão vez à censura. Os famosos passam metade da vida querendo aparecer e, de repente, querem o anonimato. Imagina.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/12/2013.

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FUTEBOL E CORAÇÃO – Jornal O Estado

O futebol não é uma caixa de surpresas.
Nada tenho de Nelson Rodrigues, óbvio. A paixão pelo futebol, um dos muitos temas de seus escritos, é uma constante desse intelectual polimorfo. Nelson, pernambucano feito carioca, soube dizer tudo, de forma clarificada. Falou de traves, chuteiras, jogadores, técnico, gramado, cartolas e torcedores.
Hoje, ao meu olhar, dois nomes despontam no Brasil na boa escrita/crônica esportiva – sem falar nos da terra de Alencar, por pudor e amizade. Refiro-me a Tostão e Xico Sá. Tostão, o grande atleta mineiro da seleção brasileira, ao tempo em que os craques ainda não eram “commodities” (mercadorias) de exportação. Médico, após ser jogador, tornou-se articulista profundo da arte e das mazelas do futebol. Xico Sá, jornalista cearense que torce pelos times pernambucanos e quase nada fala dos nossos sofríveis do futebol local. Desculpo, ele foi jovem para a mauriceia. São bons, cada um do seu jeito.
O fato é que, mesmo maduro, ainda corre em mim o sangue do menino que viu o Fortaleza sair dos desvãos da área marginal à esquerda da Santa Casa de Misericórdia, onde residia o técnico “Gavião, para a sede adquirida na Rua Júlio César, no Benfica, perto do Estádio Presidente Vargas, por meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, então presidente do “tricolor”.
O Fortaleza completou 95 anos de fundado e parece cativo na Terceira Divisão do futebol brasileiro. Vacila quando parece que vai subir. Desclassificou-se, neste 2013, por desamor dos atletas e de técnicos mambembes. Onde já se viu time de raça, na frente do placar, levar um gol nos minutos da prorrogação? Lembro Moésio, Mozart, Sapenha e tantos outros e sei o que eles fariam: discutiriam o tempo – ganhando-o – com o árbitro, cairiam em campo, iriam para frente, chutariam para as arquibancadas, mas não sairiam sem a vitória.
Hoje, os clubes locais importam comissões técnicas de segunda que indicam jogadores de suas preferências e esquecem os que vieram da base, das peneiras dos subúrbios, e amam as cores que vestem. Ederson, nascido em Pentecoste, foi da base do Ceará, saiu, e hoje, aos 24 anos, é o artilheiro do campeonato do Brasileiro A, pelo Atlético do Paraná.
O Fortaleza, o Ceará e o Icasa parecem estar na contramão do que se deve fazer quando os recursos são escassos para administrar a formação de bons times. Os beneméritos se foram. Os dirigentes atuais precisam conhecer a história do nosso futebol para chegar ao hoje. Devem descobrir e até inventar talentos, mexer com a autoestima dos peladeiros que querem ser um Neymar. Conversem e contratem, sem menosprezo, técnicos da terra (eles fazem milagres, sem falas vencidas, com equipes singelas por aí afora. O Sampaio Correia que o diga), não misturem jovens promissores com jogadores “rodados”, sem vinculação afetiva com o clube e respeito à torcida. Que altivez podem ter jogadores com “empresários” a mudar de camisa todos os anos?
Os 55 mil torcedores do Fortaleza que formaram, até hoje, o maior público do novo Castelão, superior até aos dos jogos da seleção brasileira na Copa das Confederações, mereciam um time com mais brio. Quando o jogo findou, o meu coração pulsava descompassado. A pressão arterial chegou aos 18. Era, de novo, menino. E foi ele quem me salvou do infarto.
Em tempo: deixei este escrito no aguardo. Esperei que o Ceará e o Icasa chegassem à série A, mas, tais como o Fortaleza, perderam na hora em que não podiam. Escrevo antes da última rodada da “Segundona”. Prefiro estar errado e que um dos dois consiga o milagre de subir.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/11/2013.

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KENNEDY – A HISTÓRIA RECONTADA, 50 ANOS APÓS DALLAS – Jornal O Estado

“A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou o presente irãcom certeza perder o futuro.” JFK
Hoje, 22 de novembro, é data forte na história recente da humanidade. Há 50 anos, John Fitzgerald Kennedy- JFK, presidente dos Estados Unidos, morria assassinado na cidade de Dallas, Texas, vítima de um isolado atirador ou de complô, até hoje não bem esclarecido.
O menino “Jack”, seu apelido de família, era o segundo filho de Joseph Kennedy, empresário descendente de irlandeses, poderoso e, segundo muitos, sem escrúpulos. Joseph ganhou dinheiro de forma não republicana, como muitos ainda o fazem hoje no Brasil e no mundo. Achega-se a políticos, apoia-os generosamente, e, posteriormente, cobra, com denodo e ágio, o que doou. Joseph Kennedy chegou a ser em uma das contrapartidas aos seus favores, embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra. Quis que o filho JFK chegasse a Presidente. Assim aconteceu, mas as tragédias que se seguiram consumiram quase toda a sua família.
Joseph criou os filhos para o sucesso, mas a vida é caprichosa. O seu primeiro filho, também Joseph, morreu prematuramente na Segunda Guerra e coube, a John, educado com rigor e aprumo, com distinção na Harvard University, a honra de ser o primeiro escolhido, embora fosse tímido, mas brilhante. “Jack” também esteve na Segunda Guerra e dela saiu como herói da marinha por ter salvado colegas em um naufrágio. Assim, tempos depois, ingressa na política, elege-se deputado federal, senador e, em 1960, concorre com Richard Nixon à presidência. Sai vitorioso, ao lado da bela e elegante esposa, Jacqueline Bouvier, Jackie, descendente de franceses, que dava “finesse” ao casal. Segundo alguns historiadores, a vitória apertada foi discutível do ponto de vista ético.
Eleito, proclamou, na posse, um discurso histórico, feito a muitas mãos. Acercou-se de secretários (ministros, no Brasil) de alto nível e começou a governar. É bom lembrar, de passagem, que o mundo vivia a Guerra Fria, os EEUU brigavam com a URSS pela hegemonia espacial e a entrada dos soldados americanos no Vietnã foi respaldada por JFK. Além disso, Fidel Castro, que derrubara Fulgêncio Batista, o velho ditador de Cuba e amigo da América, assume ser comunista e recebe total apoio russo, inclusive com a entrega de mísseis apontados para os Estados Unidos. Asilados cubanos nos EEUU, especialmente Flórida e de outros estados, em abril de 1961, tentam, com discreto apoio de JFK, uma invasão (Baía dos Porcos) atabalhoada para aniquilar Fidel e são derrotados. JFK fica silente. A tensão aumenta, mas o governo americano fica quieto, apesar de impor embargo econômico total – e ainda vigente – sobre Cuba, a pequena ilha, calo eterno do gigante americano. Quase houve uma guerra nuclear.
Por outro lado, JFK e Jacqueline deixaram que se criasse o mito do casal perfeito, ressurgindo a lenda do castelo do Rei Arthur (século VI), conhecido pela peça “Camelot”, baseado no livro de Geoffre de Monmouth. JFK admitia que seu governo fosse uma espécie de Távola Redonda, com muitos Cavaleiros. Assim, a Casa Branca, tornou-se requintada e receptiva, fazendo convites a chefes de Estado, intelectuais, celebridades, escritores, poetas, personalidades e artistas. Acreditem, até a grupo de jovens líderes/estudantes universitários brasileiros – que estava cumprindo estudo na mesma universidade que ele cursara – e do qual eu fazia parte, foi convidado e bem recebido. Conversamos com ele, nos jardins internos, local onde recebia os chefes de Estado. Isto é, entretanto, mero e irrelevante detalhe.
O fato é que a reconhecida e proclamada virilidade de JFK foi despertada por muitas beldades, destacando-se Marilyn Monroe que teve a audácia de cantar, de forma adocicada, os parabéns no aniversário do Presidente, em festa palaciana, na presença da primeira dama, a cuidar de dois filhos pequeninos. Marilyn morreria logo depois, sem “causa mortis” esclarecida.
Assim, chegamos a novembro 1963. A administração de JFK, louvada pela maioria, sofria oposição dos republicanos e de parte da imprensa. Já em campanha para a reeleição, o casal sorridente e belo, chega ao Estado do Texas. O Texas, fora tomado, narra a História, em batalha no século XIX, do território do México e, regularizado, posteriormente, por um ridículo acordo financeiro entre os dois países.
Na bela e trágica manhã/tarde de 22 de novembro de 1963, ensolarado e ameno outono, em carro aberto, desfilava em Dallas, o casal “Camelot”, elegante e radiante, acompanhado pelo governador Connaly e Nelly, sua mulher, era aplaudido pela multidão, cercado por carros e motocicletas com policiais e dois agentes dentro do veículo. JFK foi morto, na Praça Dealy, com tiros certeiros de fuzil, provavelmente por Lee Oswald.
Hoje, 50 anos depois, centenas de teses, estudos e biografias – autorizadas e não autorizadas, filmes de ação e documentários, levantam dúvidas sobre o fato, sequer esclarecido pela Comissão Warren, sobrenome do então presidente da Suprema Corte americana, equivalente ao Supremo Tribunal Federal. O relatório foi apenas conveniente e nada profundo. A maioria dos americanos acredita, ainda hoje, em conspiração. Máfia? Cuba? URSS? Texanos? Adversários/ L. Johnson?
Faço-me longo, mas não poderia deixar de me repetir, pois já escrevi – e escreverei – sobre JFK. Ele, aos nos receber, risonho e jovial, disse: “Quantos de vocês serão candidatos a presidente do Brasil?”. E a conversa foi, bem além disso, apesar do protocolo.
Finalizo: Charlei Bartlett, jornalista americano, ganhador do Prêmio Pulizter, a maior honraria da imprensa, escreveu, ainda em fins de 1963: “Nós tivemos um herói como amigo. A coragem dele era incomum. Tinha ele um senso de humor incrível, uma inteligência penetrante marcada pela curiosidade e, em geral, uma incomparável galhardia. Ele era o que possuíamos de melhor… e, vamos com o passar dos anos recontar a história, com um pouco de assombro”. Foi o que tentei.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/11/2013

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RICOS DO BRASIL – Diário do Nordeste

A Infomoney,via Google, divulgou, esta semana, pesquisa do banco UBS e da Wealth X na qual as 50 pessoas mais ricas do Brasil possuem, juntas, 259 bilhões de dólares ou 600 bilhões de reais. Em 2012, possuíam 300 bilhões. Um deles, diz a mídia, na volúpia de ficar mais rico, largos empréstimos do BNDES e outros agentes públicos, está com problemas.
Essas pessoas têm, em média, 64 anos, e 90% são homens. 46% delas não possuem nível universitário e os mais ricos comandam bancos e investimentos.
Ficaram ricos por esforço: 38%. Os que cresceram, a partir de heranças, perfazem 32%. Os restantes, 30%, apenas herdaram e vivem de suas rendas. Ludwig Börne, escritor alemão, dizia, no século XIX: “a riqueza endurece mais rápido o coração do que a água fervendo endurece um ovo”. Sim e não, digo eu. Há gente rica neste Brasil que usa o tempo e o dinheiro para fazer o bem, com empenho pessoal, misturando-se aos necessitados e agindo de forma discreta.
Exemplo? “Estevam Duarte de Assis, 57, que vendeu a rede Bretas(supermercados) por R$ 1,3 bi, doa a maior parte de seus ganhos”. A reportagem é do jornal “Valor”, pag.B5, de 11.11.2013. Segundo o repórter Marcos de Moura e Souza, Assis, casado e sem filhos, mora em Belo Horizonte “num quartinho equipado apenas com um banheiro”. E dirige um Pálio.
Ele não parou de ganhar dinheiro, mas “dedica parte de seu tempo à recuperação de rapazes e moças que se afundaram no mundo das drogas, sobretudo o crack”, através de unidades da Fazenda Esperança, liderada pelo frade teutônico Hans Stapel. É bom saber disso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/11/2013.

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DONA BEATRIZ – Jornal O Estado

“Nenhuma mulher nasce mulher, torna-se”. Simone de Beauvoir (1908-1986), escritora francesa, em “Segundo Sexo”.
Estava ausente nos noventa anos de dona Beatriz Rosita Gentil Philomeno Gomes (foto), no 30 de outubro passado. Fui colega de seu filho Pedro Philomeno Gomes Neto, na Faculdade de Direito da UFC. A propósito, Antenor Barros Leal Filho, nosso coevo, dizia para o Pedrinho, em seu humor: “Com uma mãe dessa até eu”. Brincadeiras à parte, este texto é uma forma de dizer um pouco de dona Beatriz, não só a mulher de Francisco Philomeno Gomes, tampouco a mãe extremada de oito filhos que deram certo, sequer a religiosa de fé inquebrantável e nem a elegante que Lúcio Brasileiro louva, desde sempre.
A dona Beatriz a que me refiro é a senhora não só das prendas e valores já referidos, mas a grande companheira de viagens com amigas como Consuelo Dias Branco, Iracema Oliveira e Alzira Ximenes, entre outras.
Por um desses acasos, estava eu em alguns países em que esse grupo fluía, décadas passadas. Milton Dias, o cronista, amigo querido, agora romancista póstumo por conta dos quereres de Paulo Elpídio de Menezes Neto e Pedro Paulo Montenegro, também fazia parte da turma e alegrava a todos, com suas tiradas espirituosas, fumando em demasia, brindando com vinhos e varando noites até que, um dia, a água da limpeza matutina aspergisse sobre nós.
E nos vimos em Madri, em festa genetlíaca aos 22 de agosto e, depois, Londres, em hotel de nível. Ao chegar no grande lobby, dona Beatriz sentou-se ao piano de cauda e fez os circunstantes tomarem tento de sua presença. E exercitou com a mesma desenvoltura com que trocava de idiomas nos diferentes países europeus. Até Roberto Campos, então embaixador brasileiro na Inglaterra, a convocou para um Chá das Cinco.
Nos anos 70 passei a trabalhar em Jacarecanga, próximo à sua casa, e, sempre que podia, parava na Fábrica Philomeno, para trocar ideias com o Sr. Chico Philomeno ou comprar algumas redes especiais. Sempre gostei de conversar com pessoas mais velhas e sábias. O sr. Chico era agradável no trato e atinado em sua simplicidade. Tal como ele sempre usei roupas leves no trabalho, mas não o branco que portava, quase sempre, nas calças e “slacks”.
Voltando à dona Beatriz: peço desculpas públicas pela não presença. Andava por outros caminhos. Antes de terminar, deixo patente a admiração pela digna matriarca que soube encanecer sem perder o porte, a fé, o amor da família e o respeito notório. Parabéns. Saúde.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/11/2013

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OS HOMENS AZUIS E O ROSA DAS MULHERES – Jornal O Estado

“A vida é trapaceira/e mata os dias com prazer;/ a morte galopa/ e a sua estrada ressoa.” Biagio Marin, poeta italiano, século XX.
Neste mês de novembro os homens do Brasil estão sendo chamados a fazer exames urológicos. Deveriam fazer todos os tipos de exames. Diz-se que o mês precisa se tornar azul, como rosa foi o outubro dedicado, não sei qual a razão, apenas ao câncer de mama feminino. As mulheres, tal como alguns poucos homens, podem ter câncer de mama.
Assim, o rosa deveria cobrir todos os tipos de cânceres ou cancro, – como querem os portugueses – que atingem as mulheres, não apenas as mamas, mas todo o seu corpo, especialmente os fatais, como o do colo de útero.
Agora, vamos falar dos homens azuis, esses que, por falta de informação, negligência, pobreza extrema ou nível de conhecimento, deixam que seus corpos sejam tomados pelos cancros, não só os de próstata, mas os de pulmão, de reto, intestino e garganta. Entre outros. Não bastam os prédios iluminados de rosa ou azul. O que a saúde pública, em todos os níveis, deveria fazer passa por mais que isso. Não há uma ligação endógena entre o Sistema Unificado de Saúde, o SUS, e a maioria dos seus pacientes que acorrem aos postos de saúde e hospitais. Que vinculação possui um (a) paciente pobre com médico assoberbado com horários difusos, plantões complementadores de parcos salários e o estresse que lhe aflige, compassivo que é?
Os médicos, brasileiros e os que estão chegando, não suprem a demanda dos que, por exemplo, constituem os milhões a viver das bolsas oferecidas pelo governo. Essas pessoas deveriam ser obrigadas, para receber as tais bolsas, a fazer exames periódicos e assim evitar os custos futuros de cirurgias que poderiam ser evitadas.
Enganam-se, entretanto, os que imaginam que só o “outro” pode ser acometido por doenças graves. Os antigos “males insidiosos”. As doenças são compartilhadas entre pobres e ricos, jovens e maduros, independente de pigmentação externa seja branca, parda ou negra.
Os planos de saúde necessitariam, igualmente, obrigar cada beneficiário a se submeter a exames que levassem à prevenção dos 18 tipos de cânceres identificados pelo Instituto Nacional do Câncer. A cada novo ano 500 mil pessoas são acometidas e, se não tratadas devidamente, poderão chegar a óbito.
Assim, rosas e azuis, previnam-se, conversem com parentes e amigos, saiam do medo do insondável para examinar o que poderá ser cuidado, se identificado em tempo hábil. O Brasil deve mudar os discursos ufanistas que se repetem a cada dois anos com promessas para todos os problemas. Deve, pelo menos, repensar as razões dos gastos descomunais com a saúde, por gestões inadequadas, falta de atenção primária, prevenção e descaso. A morte deve ser consequência da vida e não fruto do desamparo aos pobres, dentro de velhas ambulâncias vindas do interior para as capitais. Eles sequer sabem dizer o que sentem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/11/2013.

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DEUS E NÓS – Diário do Nordeste

O Instituto DataFolha realizou, agora, neste 2013, pesquisa com 2.517 pessoas de 154 cidades brasileiras. Alguns resultados podem ser considerados surpreendentes: 69% não concordam com a posse de armas para a defesa pessoal; 68% acham que a sociedade deve aceitar a homossexualidade como fato; 74% disseram que os adolescentes criminosos devem ser punidos como se adultos fossem. Quanto ao uso de drogas, 83% são a favor da sua total proibição. 50% dos entrevistados aquiesce com a adoção da pena de morte. 46% são contra e 4% não sabem.
A pergunta subjetiva sobre a crença em Deus obteve o maior percentual (85%). Essas pessoas acreditam que ter fé em um ser superior faz com que ajam de forma melhor no seu comportamento. Qual o sentido?
No livro “Purgatório”,145, Dante Alighieri acreditava, no séc. 14, que Deus “seria o amor, que move o sol e as estrelas”. Era o etéreo. Depois, Baudelaire, já no sec. 19, afirmava que “Deus é o único que, para reinar, nem precisa existir”.
Hoje, neste tempo de crenças difusas, manifestações, outros se dizendo ateus, é milagre que Deus ainda seja regulador da conduta humana para a maioria dos viventes a se entrechocar em seus lares, nos trabalhos e nas ruas. Se analisarmos qualquer cidade, sem a lupa do preconceito, será lúcido concluir que o bem praticado pela maioria supera o mal muito alardeado por alguns poucos. O bem, tal o prosaico, não dá manchetes, não incrementa audiência e sequer é considerado para a maior parte das pessoas sequiosas por novos escândalos e desastres. Paradoxal?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/11/2013

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CORPOS CANSADOS – Jornal O Estado

Amigo liga e reclama do cansaço. Fala da fadiga em dirigir para chegar ao trabalho. Reclama dos pedintes, dos flanelinhas, dos manifestantes, dos desvios, das motos e do ar condicionado quebrado, o que lhe dá duas opções: baixar o vidro e ficar inseguro ou subir o vidro e torrar a paciência com o calor. Liga o rádio e só ouve desgraça. Desliga. Sugiro que mande consertar o ar condicionado do carro. Ele fala alto: como, se não tenho tempo.
Coloca um cd e lembra que já o ouviu tantas vezes que sabe até a sequência das músicas. Uma delas é de Roberto Carlos. Está cheio das notícias com os pré-candidatos às eleições de 2014 e com a polêmica sobre a publicação de biografias não autorizadas do dito Roberto Carlos e das posições do Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Resume para mim o seu pensamento: as pessoas passam mais da metade da vida querendo ser famosos ou conhecidos e, em seguida, rejeitam o assedio, a crítica sobre detalhes de sua vida privada que preferem esquecer ou não tornar público.
Uma ligação está na espera e peço desculpas para desligar. Zanga-se comigo. Respondo com o meu resto de resignação: retornarei. Atendo o novo chamado. A vida vai nos mostrando situações comuns às das outras criaturas. Há fatos e situações, mesmo administrados, que permeiam a nossa cota de resiliência. Todos passamos por situações semelhantes. Vivemos acossados por obrigações e somos instados a cumprir até três expedientes diários. Cobram-nos quando, exaustos, deixamos de ir a algum compromisso social ou de classe. Que jeito.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/11/2013

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O PENSADOR SEMA(I)NAL – Diário do Nordeste

O que é filosofia? Não cabe discutir neste espaço. Platão, Cícero, Aristóteles e Sócrates são pensadores antes da Era Cristã. Depois, vieram outros. Diferentes correntes e seguidores. Há formas de se chegar à filosofia além da academia. Livros à venda. São gratuitos, em bibliotecas públicas. E, para todos os gostos, na Internet, em versões questionáveis. Outro caminho será ler teses de mestrados e doutorados, com bibliografias e citações. Existe, saibam vocês, alternativa.
Neste Diário do Nordeste, um pensador, de forma amável nos brinda, todos os sábados, na capa do Caderno 3, com a sua filosofia, em meia página no “The Mino Times”. A partir do nome burlesco, Hermínio Castelo Branco, o Mino, dá lições que não devem ficar despercebidas pelos leitores que apenas “passam os olhos” pelo jornal.
Mino formou-se em Direito, escolheu ser ele mesmo, sem anel no dedo. E o que isso diz? Que ele pinta e escreve com habilidade. Escrever simples é difícil. Escrever tal o “Mino – O pensativo”, não é tarefa para qualquer um. As palavras dele, emolduradas com seus desenhos, auxiliam o leitor a refletir. Ele, já disse, é pintor e dos bons.
Vou rematar com um texto ‘miniano’ que nos faz pensar: “O que cabe a nós é apenas a clara incerteza do desconhecimento, que se vai traduzindo nas tênues respostas de tudo o que nos é permitido. Minha filosofia se quer saber, é vivenciar a sabedoria da insegurança, ou seja, procurar viver com segurança, segundo a possível coragem, tudo aquilo que é incerto, duvidoso, impreciso e por ainda conhecer”. Que tal?

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/10/2013.

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REVISITAÇÃO EM “ÍCONES DO BENFICA”

“A pintura é uma poesia que não se vê e se sente, e a poesia é uma pintura que se sente e não se vê”. Leonardo Da Vinci, artista e cientista, 1452-1519.
A Galeria BenficArte, com a experiência de cem mostras e exposições já realizadas, abriu nesta quarta-feira, 23, o concurso “Ícones do Benfica”, idealizado para iniciar comemorações pelos 14 anos do Shopping Benfica. Vá e veja, está bonita.
Vale lembrar que a inauguração do Shopping Benfica, em 30 de outubro de 1999, foi plasticamente inovadora. A ampla estrutura metálica, concebida com gosto e aprumo, fugia do lugar comum dos tetos de centros comerciais. Era e é arte. Além disso, grandes painéis de 80 artistas plásticos emolduravam o sonho de se fazer um centro de compras com responsabilidade social, arte e cultura.
E assim feito. A música era tocada pela Camerata da Universidade Federal do Ceará e o Reitor Emérito Antônio Martins Filho cortou a fita simbólica. Houve dois prêmios, equivalentes, em dinheiro, a viagens aos Estados Unidos e à Europa. Agora, sonho adolescente em curso, neste fim de outubro e até o dia 15 de novembro a Exposição “Ícones do Benfica” estará aberta, de forma gratuita, à visitação pública no 2º. Piso. Das 10 às 22 horas, nos dias de semana. Aos domingos: das 15 às 20 horas.
“Benfica Sobre Tela”, ou “Ícones do Benfica”, conta com 24 pintores inscritos no concurso. O objetivo foi mostrar a todos a arte plástica atual praticada em Fortaleza e realçar os símbolos dessa região que é, sem dúvida, o maior perímetro cultural de Fortaleza. Nela estão enfocados prédios da UFC, detalhe de jogo de futebol entre Fortaleza X Ceará, a feira semanal da Gentilândia, as vilas, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios e figuras ilustres como o compositor Alberto Nepomuceno e o Reitor Antônio Martins Filho. E tem mais.
Os artistas inscritos são: Amanda S. de Lima, Antônio Rocha, Audifax Rios, Bárbara M. Lemos, Cantídio Brasil, César Albano, Cezarina do Vale, Dornelles, Ed Rocha, Emília Porto, Expedito Lima, Gilson Pontes, Jarbas Carlos Miranda, Jô Fernandes, Jozefo Lejc, Jota, Levi, Marcelo Justino, Marildo Montenegro, Nonato Araújo, Paulo Fernandes, Ramon Rocha, Ricardo Fernandes e Wellington Alves. As criações de cada um foram livres e obedeceram apenas a um padrão de telas 1,00×0,70m ou 0,70×1,00m, por eles recebidas gratuitamente e, posteriormente, emolduradas pela própria Galeria BenficArte.
Essa coleção de arte contemporânea de talentosos e/ou promissores pintores locais fará parte do acervo da Galeria BenficArte. Os três melhores trabalhos serão referendados duplamente, pelo público visitante e por julgadores. Cada visitante, devidamente identificado por seu CPF, terá direito a votar em três obras. A par disso, haverá um corpo de jurados, com notoriedade.
A coleção permanecerá aberta, repito, até o dia 15 de novembro próximo. Após, se dará o julgamento. Aos vencedores, os prêmios. Aos demais, o certificado de participação e os agradecimentos.
Encerrado o certame, a exposição “Ícones do Benfica” poderá iniciar itinerância gratuita em instituições públicas e privadas, com o objetivo de oferecer a chance de visualização de tintas, pinceis e pensamentos dos artistas, em quadros que captaram, em variadas técnicas e figurações, o encanto, os recantos, as cores, as dores e a essência dessa bela e culta região da cidade de Fortaleza.

*João Soares Neto não é crítico de arte.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 25/10/2013.