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GARY VAUSE – Diário do Nordeste

Quando ninguém acreditava que a China seria a potência hoje reconhecida, William Gary Vause, então Vice-Dean da Stetson University, nos EEUU, resolveu estabelecer um intercâmbio de estudantes com o fechado governo chinês. Era o começo da década de 80 e ele parecia saber o que fazia. Havia estudado mandarim, a língua da cultura sino, quando servira, sem dar um tiro, ao Exército dos Estados Unidos, em tempos da Guerra da Coreia.
Finda a guerra, estudou em Yale, doutorou-se em direito, fez concurso para entrar na Stetson e focar em comércio internacional. Vencendo barreiras, resolveu passar seis meses na China de Mao. E não foi só, levou sua mulher, Celia, minha irmã. Depois repetiram a dose, passando mais alguns meses em Pequim e Guangdong , para incrementar o intercâmbio de estudantes que floresceu e deu frutos. O intercâmbio foi passo forte para o reatamento das relações comerciais e culturais entre os EEUU e a China. E, depois, com o mundo.
Gary Vause morreu de câncer aos 60, em 09 de maio de 2003. Era Reitor da Stetson e concluíra um novo campus em Tampa. Estive no funeral dele. Este artigo é uma homenagem, nos 10 anos de morte desse homem que viu uma ideia prosperar e abrir caminhos para as relações chinesas com o mundo.Poucos sabem disso, ele era sereno. Ex-alunos seus hoje são advogados chineses proeminentes. Seu livro “Internacional Trade and Investment” – Comércio Internacional e Investimento, em inglês e mandarim, publicado em 1982 pela Guangdong Publishing, é prova inconteste de seu descortino.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/05/2013.

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O FIM DOS CINEMAS DE RUA É IRREVERSÍVEL? – Jornal O Estado

João Soares Neto*
No século atual não se pode falar em irreversibilidade. Pode-se falar em mudança, mutação, melhoria do nível de educação/cultura e responsabilidade social das pessoas. As mudanças e mutações são exponenciais, mais rápidas do que a formação de um jovem ou a sedimentação da cultura em uma pessoa adulta. O amanhã gradativamente mais tecnológico é uma certeza, para o bem ou para o mal.
O processo de internação dos cinemas em espaços dos centros comerciais decorreu da sempre crescente violência nos centros e nas ruas das cidades. Já tem cerca de 20 anos esse “start up”, para falar do início, usando palavra da moda. De lá para cá, as cidades ficaram mais violentas por acúmulo de fatores: crescimento natural, migração, deficiência de vias e de transportes públicos, propagação de zonas consagradas como pontos de venda e uso – sem medo – de drogas, camelôs, em demasia, ocupando áreas de passeio, e o fenômeno dos sem-teto, quase sempre pessoas que desistiram de suas famílias e vidas. Ou vice-versa.
A ida para centros comerciais não foi planejada, mas consequência do já dito. Tentamos, por desafio ou estoicismo, a operação e a manutenção de dois cinemas no centro por cinco meses. Fizemos ajustes, mexemos na decoração, contamos com segurança contratada, divulgamos e exibimos filmes de arte. Vimos, além da sensação, certa ou imaginada, da insegurança do local, que os cinéfilos, os que entendem e analisam o cinema como arte, e os “cinemeiros”, os que gostam apenas gostam de cinema, não eram em número suficiente para garantir uma frequência sequer básica. Optamos por baixar os preços dos ingressos, misturar filmes de arte, em uma sala, e, em outra, com “blockbusters”, os de grandes produtoras e que, via de regra alcançam bom público jovem e adulto. Infelizmente, não deu certo.
Ainda hoje, muita gente reclama que há poucos filmes de arte em exibição, mas a culpa é, além da não formação de público, da baixa bilheteira, dos custos elevados com o pagamento às distribuidoras, do problema do Ecad, vigilante escritório de arrecadação, das obrigações sociais e dos impostos pagos.
Cinemas, como elemento auxiliar da educação e cultura, deveriam ser isentos de ISS e outros impostos, para poder formar público. A existência indiscriminada da meia-entrada ainda é permissiva, pois a maioria das pessoas consegue uma identidade escolar, sem estudar regularmente. As distribuidoras impõem a permanência dos filmes mesmo quando eles não têm públicos. Os exibidores não têm como sair desse dilema. Afora, os meses de férias, os cinemas quase não se pagam. Grandes redes exibidoras acabaram ou minguaram.
O público exige salas melhores, mais bonitas, com carpetes grossos, equipamentos de ponta, mas ainda precisa aprender a ter cuidado ao usá-las. Aprender a não sujar, não cortar poltronas ou colar goma de mascar, não colocar os pés/sapatos por cima da fila da frente, e não derramar líquidos de refrigerantes ou comidas no chão. Todos os cinemas têm lixeiras que deveriam ser bem usadas pelos espectadores, mas são poucos os que assim agem. Quer saber da educação do espectador veja uma sala de cinema logo depois da projeção. Os intervalos são maiores por conta da sujeira deixada.
Voltando ao assunto inicial, se algum dia o Brasil aumentar significativamente o Índice de Desenvolvimento Humano, gerando massa crítica, melhorar o nível médio efetivo de renda da população e motivar uma segurança pública guardiã e eficaz, os cinemas voltarão, naturalmente, aos centros e às ruas dos bairros das cidades.
João Soares Neto foi sócio do Clube de Cinema e é cinemeiro, desde adolescente.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/05/2013.

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COME O QUÊ? – Diário do Nordeste

Comida é energia. Todos tentam se cuidar, fala-se em vários tipos de alimentação. A orgânica está na moda. Homens cozinham para amigos e os “chefs” de cozinha têm status equivalente ao das celebridades. Alex Atala é, segundo uma lista, o maior cozinheiro do Brasil. Montou rede de restaurantes, através de franquias, e “está podendo”.
No mundo, o maior “chef” é René Redzepi, dinamarquês, dono do restaurante “Noma”. Acontece que esse Noma teve um problema com mexilhões infectados. Então, quem nos garante que os donos, cozinheiros e ajudantes dos milhares de grandes, médios e pequenos restaurantes cuidam de saber a origem e a qualidade dos alimentos que compram e cozinham?
Sabe-se que as grandes redes de supermercados, restaurantes e as de fast-food têm centrais de distribuição para regiões, estados ou cidades. Tudo é transportado, já em porções plastificadas, em veículos refrigerados. E quando o veículo quebra? Quem poderá afirmar se estão na temperatura certa e se suas propriedades não se alteram com as mudanças dos freezers para os balcões, as prateleiras, as cozinhas e daí para as panelas?
Quem trabalha nas cidades recebe vales refeições e, quase sempre, procuram os locais com preços mais baratos. A comida a quilo é uma “instituição”. Todos os dias milhões fazem um ato de fé ao comer. Ano passado, as melhores cozinhas do Rio foram flagradas com comidas vencidas, acondicionamento irregular e falta de higiene. Hoje, devemos ter o direito de conhecer as cozinhas dos locais onde comemos. Faça isso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 19/05/2013

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MORTE E MEMÓRIA – Jornal O Estado

Se eu fosse um fabricante de livros, faria um registro comentado das diversas mortes. Quem ensinasse os homens a morrer, ensiná-los-ia a viver. Montaigne
Não sei se você lembra quem foi Franz Paulo Trannin da Mata Heilborn. Depois, eu conto. O fato é que até hoje a sua biblioteca de 5.000 livros de primeira linha continua nas mesmas estantes. Morreu de um enfarto, brigava contra uma estatal que acreditava ter métodos e ações dos tempos dos dinossauros.
A viúva, passado o luto, fala em negociações não concretizadas. Erudito, polêmico, preconceituoso, mas inteligente. Escrevi dois artigos metendo o pau nele, mas me espantava a sua coerência excêntrica em seus escritos e falas. Mudando e mantendo o mesmo objetivo, estive agora na morada de outro intelectual morto. Jubilado, após glorioso percurso mundial diplomático, veio ter à sua terra e, após algum tempo, finou.
As paredes falsas, agregadas às existentes eram mais que necessárias para formar estantes repletas de livros, condecorações, diplomas e medalhas de vários países. Tudo está lá, pois como dizia o meu pai, nada se leva deste mundo. No tempo em que lá passei, mais do que o necessário para um visitante, a cabeça relembrava um encontro que, ainda jovem, tive com esse intelectual no Rio. Faz décadas. Não tenho a intenção de revelar o seu nome, mas direi que deixou um caminho iluminado em sua vida e em cada estante, nos detalhes do mobiliário, dos quadros, das gravuras e dos adornos muitos sobre mesas.
O fato ficou remoendo para, no mesmo dia, ao abrir o “Ilustríssima”, caderno literário da Folha, deparar-me com o artigo “Na cova da Fera”, de Lucas Ferraz, sobre Paulo Francis, a pessoa referida na primeira frase, para dar gancho a este escrito. Coincidência? “No lo creo”. Duas pessoas distintas e plurais, em tempos, atividades e lugares diferentes, deixam, ao partir, além dos livros escritos, os lidos, os grifados, e os velhuscos. Apelo a Agostinho, o santo e intelectual: “Ama e faze o que queres”. Enquanto é tempo, digo eu. A morte é um esconderijo, refrigério ou fuga?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17/05/2013

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MAES. COM – JOÃO SOARES NETO, PAI E AVÔ – Diário do Nordeste

Pesquisa feita em 12 países pela empresa de publicidade WMcCann, revela que, no Brasil, 83% dos filhos dão presentes admitindo que os seus sejam melhores do que os dos irmãos. Hoje, na família há mais competição e isso fica claro, a partir das próprias mães. Desde o fim do século passado, com o surgimento do culto exagerado ao corpo, dos partos não naturais e da fixação em esbeltez via regimes alimentares, academias, corridas, sucções ou bisturis, as mães são outras. Dessa forma, o exemplo vem da mãe e os filhos crescem vendo um mundo competitivo em que todos ficam confusos e têm, na individualidade, a marca registrada.
Caim e Abel estão lá na Bíblia para quem quiser ler. É história sabida. Mas, o que se vê hoje, nas famílias de todas as classes, é competição. Há algum tempo, os irmãos usavam roupas dos mais velhos e não tinham super-heróis como ídolos. Hoje, as festinhas de aniversários, mesmo as mais simples, são demonstrações afetadas e até abobalhadas. Não se comparam aos tempos da fraternidade endógena, pré-internet.
Mães vaidosas há que colocam as suas famílias no Facebook e no Instagram, sem saber do perigo de tocaia. Crianças dentes de leite têm celular. A Internet não é boa ou má, mas pessoas com mentes deturpadas farejam os incautos. Recentemente, vi o filme “Acreditar” (Trust) no qual um pedófilo, fingindo-se de adolescente, consegue desgraçar toda uma família. Vale ver. Neste Dia das Mães é bom que as famílias, os filhos e pais, façam uma reflexão sobre seus valores em curso. Isso pode ser o melhor presente.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/05/2013.

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OS OITO DE MAIO– 2013 – Jornal O Estado

Foi com respeito e reverência que a Galeria BenficArte reuniu, ontem, os reconhecidos Ascal, Claúdio Cesar, Emília Porto, Hélio Rola, João Jorge, Raimundo Netto, Sergei de Castro e Vando Figueiredo, na 3ª Edição da Exposição coletiva “Os Oito de Maio”, em homenagem ao Dia do Artista Plástico, nessa data comemorado. Nesse mesmo dia, em 1945, o mundo respirou em paz. A 2ª. Guerra acabara. Milhões de mortos, especialmente judeus, alemães e russos. Os destroços foram removidos, cidades reconstruídas, mas a mente humana e os interessem ainda engatilham conflitos. Para dar cor ao gris dessa nuvem diabólica os artistas se insurgem.
Somos filhos do sol, desta terra ainda – não de todo – aprontada para as sutilezas das artes plásticas. Somos, igualmente, teimosos em perseverar, não como Mecenas, mas como indutores do conhecimento em configurações e entretons. Isso nos dá alento para reunir artistas que não vêem o mundo com olhar vadio, mas o interpretam, deformando, reformando, mas nunca se conformando com o “status quo”.
Seria a arte uma doença? Se a resposta for sim, ela é antiga, endêmica e incurável. Não há como dissociar a arte, especialmente as artes plásticas, da evolução da humanidade, da contaminação global, da contação de suas histórias pérfidas ou magnificentes.
Os artistas que estão reunidos não são diletantes. Seja a construção abstrata de Emília Porto, a revolta ecológica de Helio Rola, os metais retorcidos e soldados em formosura por Ascal, a natureza ideal de Cláudio César, a inquietude de Vando Figueirdo, os traços gordos de Raimundo Neto, o jeito meio sem jeito de João Jorge Melo e a reclusão auto imposta pela poesiarte de Sergei de Castro.
São profissionais, artistas tímidos/vaidosos de suas artes verdadeiras, mas modestos nesta cidade em que paredes recém construídas e pintadas se enfeitam com gravuras impostas por mercadores de pseudo bom gosto e quadros com falsificações grosseiras de artistas expirados.
Os Oito que aqui estão representam faces do pensamento artístico local do final do breve século que foi o 20 e se embebedam de tintas para entender este novo século em que o imediato tecnológico se traduz na negação do detalhe que é o olhar perdido/ encontrado sobre as artes plásticas.
Há também oito promessas/perspectivas jovens: Charles Vale, Diego Sann, Felício da Silva, Galber Rocha, Geovane Queiroz, Júlio César, Ricardo Vieira e Samuel Bendix que despontam no Curso de Licenciatura em Artes Visuais do IFCE.A escola industrial transformada em universidade operacional. Eles são a convicção que a arte nunca morre, apenas muda de mãos. Eles são o futuro, logo, logo.
Olhe, mire, pisque, use colírio, fotografe, filme, pois o exposto merece que a sua retina o fixe e o seu sentimento o absorva. Repare os consagrados, lado a lado, sem discriminação, com os universitários das artes visuais. Somos assim. A arte permite isso e a adesão de todos, consente. Tudo pode ser visto, gratuitamente, até o dia 31 de maio na Galeria BenficArte. Vale ver, pois como queria André Malraux: “O que é arte? Somos levados a responder ser aquilo por meio do qual as formas tornam-se estilo”.

João Soares Neto
não é crítico de arte
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10/05/2013

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TEMPOS MÍNIMOS – Diário do Nordeste

Semana passada fiquei alegre. A madura escritora Edla Von Steen me deu um presente. Doze anos depois de publicados os meus “Microcontos”, ela resolve aderir à ideia e o faz, como usei na segunda edição, bilíngue. Escolhi o espanhol, ela fez dois livros em um. Traduziu para o inglês e o francês, separados. Edla tem dezenas de livros publicados e é nome nacional. Ela sabe. A Flip/2013 trará Lydia Davis, contista americana, concisa. Tempos mínimos.
As palavras não podem transbordar, devem caber nos espaços. Li, agora, que o jornal “Estadão” está diminuindo de tamanho. Já havia cortado o seu caderno literário. Haverá menos espaço para jornalistas e colaboradores. Os jornais do mundo sofrem a concorrência de suas próprias edições digitais e das outras mídias como a TV, os blogs de notícias e as tais redes sociais.
Os jornais prezam seus espaços, vivem de anúncios, mas, no meu perceber, perdem ao publicar artigos de gente e fatos de outras paragens, sem identidade com o leitor que não os decifram. O leitor trabalha, estuda e se locomove em tempo duro de viver. Resta pouco para a leitura segmentada e cada um quer cor local, intrigas, esportes e notícias. Escritores/jornalistas nacionais, mediados à custa, quiçá, de “jabaculês”, são reproduzidos. Não bastam as televisões e suas redes? Somos obrigados a ler baboseiras dos ditos famosos. Cada jornal deveria, ao meu pensar, cuidar do seu leitor/assinante, da sua região e dos problemas locais ou regionais. Não pode ser do mundo. Aí tudo fica sem análise, sem crítica.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 05/05/2013.

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A VIDA EM CÓDIGO: SAULO RAMOS – Jornal O Estado

Faz anos. Ganhei o livro “Código da Vida”, de Saulo Ramos. Li-o, mais por curiosidade que por outra razão. O livro é derramado, aberto, sem censura. Aos 78 anos, em 2007, curado de um câncer, e sabedor de uma doença coronária grave, Saulo Ramos resolve contar sua vida, do seu jeito, seguindo seus cânones. Escreve como advogado, mas sem esquecer a sua vertente literária – tipo contador de histórias- como integrante de duas academias de letras: a de Ribeirão Preto e a Santista. O livro já teve mais de 20 reimpressões e deve aumentar os lucros da editora Planeta, agora que Saulo Ramos morreu, em 29 de abril último, vítima do coração já esfalfado, em face de sua dura, brilhante e, quiçá, romanesca vida.
Nasceu em 1929, em Brodowski, cidade pequena, vizinha a Ribeirão Preto. Lá, já havia nascido outro brasileiro ilustre, Cândido Portinari. Portinariestá lá na página zero do seu livro com um retrato em crayon de Saulo, aos 24 anos. Ele manuscreve e proclama: “Para Saulo, que honrará nossa Brodowski, lembrança afetuosa do Portinari, 1953”. Não deu outra, Saulo foi um dos maiores paulistas dos últimos tempos.
Nasceu pobre, chegou a ser caminhoneiro, mas descobriu na advocacia o seu destino. Discípulo de Vicente Ráo, um grande advogado, resolveu fazer carreira solo. Foi quase tudo na advocacia e na política brasileira. Só não foi mais porque não o quis. Começou trabalhando com Mário Covas, depois foi ajudar Jânio Quadros a ser presidente por sete meses e chegou a ser ministro da Justiça de José Sarney, de quem era grande amigo. Tancredo morreu como todos sabem, antes da posse na presidência. Havia um impasse. Saulo comandou a equipe que solucionou o problema constitucional. O resto já é história.
O livro não é um exercício de modéstia. Não poderia sê-lo. Saulo, aos 78, tinha a língua solta dos que acreditam estar próximo o encontro com o desenlace. É, talvez, uma autobiografia romanceada. Parte de um caso singular da defesa, por Saulo, de um pai, acusado de pedofilia pela própria mulher, a partir de gravação feita com os filhos. E esse eixo básico não é seguido. Há muitas vertentes e ocasiões em que o autor, vaidoso, nomeia várias celebridades. São tantas, entre elas, Che Guevara. Conta um jantar com ele, em 1962, em Punta Del Este, Uruguai. Em seguida, vem a concessão por Jânio Quadros da “Ordem do Cruzeiro do Sul” ao então ministro cubano. Por fim, afirma que Fidel Castro estaria por traz da trama que matou Guevara na Bolívia.
Paro por aqui, não vou tirar o prazer dos futuros leitores do livro. É um passeio pela história brasileira contemporânea. No livro, Saulo não poupa Lula. Diz cobras e lagartos do então presidente da República e se derrama em amores e elogiosa José Sarney. Não só Lula é criticado, até alguns integrantes do STF são descritos sem muita piedade pela azedia de Saulo. A história, que é o fim condutor da narrativa, não concluída no texto, merece um epílogo em que ele deslinda tudo.
Não gostei da batida citação – o livro tem 140 – atribuída a Charles Chaplin usada para fechar o livro. Ela, no meu pensar, é piegas e esgotada. Merecia outra, talvez dele próprio. Quem sabe, esta: “Espero que tais fatos esclareçam algumas interrogações daqueles que os viram acontecer e sejam úteis para as novas gerações, que ainda dependem dos historiadores, nem sempre muito fiéis, segundo tenho visto em isoladas manifestações de jornais. Mas advirto: os fatos são aqui narrados numa espantosa desordem cronológica, porém fielmente. Detesto a manipulação do passado e o mascaramento das versões”. Saulo Ramos.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/05/2013.

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ÁRIA DE PAPÉIS NÃO RASGADOS – Jornal O Estado

Sou um homem cercado de papéis por todos os lados. Minha casa é, em parte, uma biblioteca desordenada. A outra, é uma quase pinacoteca, multifacetada. Houve um tempo, creio que em 1995, em que resolvi jogar fora livros, jornais, cartas pessoais e bilhetes antigos. Eram valiosos para mim, pelos ensinamentos, verdades e até pelas mentiras/tolices contidas. Fui exprobrado por cartas não pedidas, por meras letras de músicas encadeadas formando um texto amistoso, afetivo.E me imputaram culpa, como se destinatário fosse, imaginem, por carta de amiga madura a revelar suas conversas telefônicas com alguém, mais idoso ainda, já alquebrado, desenganado e, logo depois, finado. Os dois, pelas idades, estavam além do Bojador e não se consumaria o “tal amor”, se perto vivessem e nus estivessem. Mesmo assim, fez-se o dilúvio. E não me chamo Noé.
Esse foi o libelo, não que eu fosse um extraterrestre, um não culpado, mas as provas eram falsas e mal lidas. Nada resistiria a uma análise séria. Rasguei o que me restou. Assimilei a sentença por outro episódio e fui exilar-me em morada simples, despojada de tudo. De novo, pouco a pouco os papéis foram brotando. Hoje, quase vinte anos passados, já em outro pouso, sou cercado por livros, jornais esmaecidos, revistas, cartas e bilhetes com e sem nomes . Nem falo da internet: a essa dou o tratamento devido, a tecla mais usada é a de deletar, mesmo tendo perdido, com pesar, mais de 100 escritos a narrar uma história bonita, e encadeada com a vida.
Ontem, resolvi fazer mais uma limpeza, mas há uma dor, acreditem, em cada papel rasgado, em cada bilhete ou carta que se esfuma, ou nos livros doados, por tê-los lido ou por não ter conseguido ir até aos seus finais. Agora, neste instante, estou com duas folhas, de pessoa que, entre aspas, me enviou, há algum tempo, pois data não tem, texto atribuído a Nietzsche: “Ecce Homo”. O texto: “Um homem bem nascido adoça os nossos sentidos; ele é composto de uma fibra ao mesmo tempo dura, tenra e perfumada. Apraz-lhe somente aquilo que lhe é útil: o seu prazer e o seu desejo cessam quando ele ultrapassa os limites do útil. Advinha ele todos os meios para reparar os males, afastando-se dos acidentes adversos; aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte. De tudo o que ele vê, ouve, vive, colhe instintivamente a sua suma, é um princípio de seleção. Muitas coisas deixa cair. Está sempre em sua companhia, ou ocupando-se com os livros, ou com os homens, ou com as paisagens como discerne, como aceita, e le também honra. Reage a toda espécie de fascinação, lentamente, com aquela lentidão que lhe ensinaram uma longa prudência e uma soberba volúpia…”.
Paro por aqui, mas fico a pensar se o texto, citado apenas em parte, é mesmo de Nietzsche. Nunca tive a curiosidade de conferir. São quase 11 da noite e daqui observo os sofás do quarto abarrotados de livros, recortes revistas e jornais, de décadas passadas. Foram ficando e se quedaram lá, formando manchas cinzas no tecido dos móveis. Cá, onde escrevo, um anexo ao quarto, uma espécie de escritório, com mesa de mármore envelhecido repousa o caos, em forma de papéis. Ameaço ordenar o espaço, mas não tenho coragem, fica para outra vez. Sobra apenas o espaço para este limitado notebook, já velhusco. Agora é tempo de tentar dormir e, sem pauta ou musicalidade, admito, data vênia, ter composto um canto silencioso, mas com ritmo e compasso contemplativos, uma a ária de não rasgar papéis.
Da internet
“Um homem bem nascido adoça os nosso sentidos: ele é composto de uma fibra ao mesmo tempo dura, tenra e perfumada. Apraz-lhe somente aquilo que lhe é útil: o seu prazer e o seu desejo cessam quando lhe ultrapassa os limites do útil. Advinha ele todos os meios para reparar os males, afastando-se dos acidentes adversos; aquilo que não o aniquila torna-o bem mais forte. De tudo o que ele vê, ouve, vive, colhe instintivamente a sua suma; é um princípio de seleção: muitas coisas deixa cair. Está sempre em sua companhia, ou ocupando-se com os livros, ou com os homens, ou com as paisagens: como discerne, como aceita, como confia, ele também honra. Reage a toda espécie de fascinação, lentamente, com aquela lentidão que lhe ensinaram uma longa prudência e uma soberba volúpia; examina o enlevo que ascende a ele – está bem longe de ir-lhe ao encontro. Não acredita nem na “desventura” nem na “culpa”: prevê logo qualquer coisa, consigo mesmo e com os outros, sabendo sobretudo olvidar; é suficientemente forte para que tudo lhe redunde em benefício próprio. Pois bem; eu sou o oposto de um decadente, porque descrevi a mim mesmo.”
Friedrich Nietzsche

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/04/2013.

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PROPAGANDA E CIDADANIA – Diário do Nordeste

No dia do último aniversário de Fortaleza vi anúncios de pessoas, empresas e entidades que pouco fazem em favor da cidadania, mas propagam seu amor pela cidade da qual tiram suas benesses. Que amor é esse? Não é amor fazer a sua tarefa, tampouco dar empregos ou participar de associações de classe cujos dirigentes se comprazem com declarações às colunas de jornais e rádios, nas saídas e chegadas do aeroporto, a propagar encontros com autoridades federais. Na verdade, apenas fazem parte de grupos de pressão, sempre a reivindicar. As fotos vão para as colunas e tudo fica na mesma. Não sai nada de concreto.
Que amor é esse, quando muitos sonegam, outros maquiam seus balanços, quase sempre dando os pulos certos e alguns são sempre recentes amigos de infância de quaisquer governantes?
Por que não apresentam seus balanços sociais, as escolas que abrem ou apoiam, os órgãos de benemerência ajudados? Está na hora de se aprender a fazer distinção entre propaganda e cidadania. Toda pessoa, empresa/entidade tem o direito de fazer propaganda, mas só os tolos não enxergam as que apenas, vaidosas, dizem de seus valores e nada têm a mostrar de concreto como atos cidadãos
Cidadania é outra coisa, não passa pelo viés do interesse, nem pela necessidade patológica de parecer magnânimo. Cidadania é fazer o simples em favor do bem comum. Cidadania não é pedir presente de lençol e dar festa nababesca. Gastar o dinheiro da festa inútil, em benefício de necessitados, poderia começar a ser ato cidadão. As farsas precisam ser desmontadas para que se conheça quem faz propaganda e quem opta pela cidadania.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/04/2013