Sou um homem cercado de papéis por todos os lados. Minha casa é, em parte, uma biblioteca desordenada. A outra, é uma quase pinacoteca, multifacetada. Houve um tempo, creio que em 1995, em que resolvi jogar fora livros, jornais, cartas pessoais e bilhetes antigos. Eram valiosos para mim, pelos ensinamentos, verdades e até pelas mentiras/tolices contidas. Fui exprobrado por cartas não pedidas, por meras letras de músicas encadeadas formando um texto amistoso, afetivo.E me imputaram culpa, como se destinatário fosse, imaginem, por carta de amiga madura a revelar suas conversas telefônicas com alguém, mais idoso ainda, já alquebrado, desenganado e, logo depois, finado. Os dois, pelas idades, estavam além do Bojador e não se consumaria o “tal amor”, se perto vivessem e nus estivessem. Mesmo assim, fez-se o dilúvio. E não me chamo Noé.
Esse foi o libelo, não que eu fosse um extraterrestre, um não culpado, mas as provas eram falsas e mal lidas. Nada resistiria a uma análise séria. Rasguei o que me restou. Assimilei a sentença por outro episódio e fui exilar-me em morada simples, despojada de tudo. De novo, pouco a pouco os papéis foram brotando. Hoje, quase vinte anos passados, já em outro pouso, sou cercado por livros, jornais esmaecidos, revistas, cartas e bilhetes com e sem nomes . Nem falo da internet: a essa dou o tratamento devido, a tecla mais usada é a de deletar, mesmo tendo perdido, com pesar, mais de 100 escritos a narrar uma história bonita, e encadeada com a vida.
Ontem, resolvi fazer mais uma limpeza, mas há uma dor, acreditem, em cada papel rasgado, em cada bilhete ou carta que se esfuma, ou nos livros doados, por tê-los lido ou por não ter conseguido ir até aos seus finais. Agora, neste instante, estou com duas folhas, de pessoa que, entre aspas, me enviou, há algum tempo, pois data não tem, texto atribuído a Nietzsche: “Ecce Homo”. O texto: “Um homem bem nascido adoça os nossos sentidos; ele é composto de uma fibra ao mesmo tempo dura, tenra e perfumada. Apraz-lhe somente aquilo que lhe é útil: o seu prazer e o seu desejo cessam quando ele ultrapassa os limites do útil. Advinha ele todos os meios para reparar os males, afastando-se dos acidentes adversos; aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte. De tudo o que ele vê, ouve, vive, colhe instintivamente a sua suma, é um princípio de seleção. Muitas coisas deixa cair. Está sempre em sua companhia, ou ocupando-se com os livros, ou com os homens, ou com as paisagens como discerne, como aceita, e le também honra. Reage a toda espécie de fascinação, lentamente, com aquela lentidão que lhe ensinaram uma longa prudência e uma soberba volúpia…”.
Paro por aqui, mas fico a pensar se o texto, citado apenas em parte, é mesmo de Nietzsche. Nunca tive a curiosidade de conferir. São quase 11 da noite e daqui observo os sofás do quarto abarrotados de livros, recortes revistas e jornais, de décadas passadas. Foram ficando e se quedaram lá, formando manchas cinzas no tecido dos móveis. Cá, onde escrevo, um anexo ao quarto, uma espécie de escritório, com mesa de mármore envelhecido repousa o caos, em forma de papéis. Ameaço ordenar o espaço, mas não tenho coragem, fica para outra vez. Sobra apenas o espaço para este limitado notebook, já velhusco. Agora é tempo de tentar dormir e, sem pauta ou musicalidade, admito, data vênia, ter composto um canto silencioso, mas com ritmo e compasso contemplativos, uma a ária de não rasgar papéis.
Da internet
“Um homem bem nascido adoça os nosso sentidos: ele é composto de uma fibra ao mesmo tempo dura, tenra e perfumada. Apraz-lhe somente aquilo que lhe é útil: o seu prazer e o seu desejo cessam quando lhe ultrapassa os limites do útil. Advinha ele todos os meios para reparar os males, afastando-se dos acidentes adversos; aquilo que não o aniquila torna-o bem mais forte. De tudo o que ele vê, ouve, vive, colhe instintivamente a sua suma; é um princípio de seleção: muitas coisas deixa cair. Está sempre em sua companhia, ou ocupando-se com os livros, ou com os homens, ou com as paisagens: como discerne, como aceita, como confia, ele também honra. Reage a toda espécie de fascinação, lentamente, com aquela lentidão que lhe ensinaram uma longa prudência e uma soberba volúpia; examina o enlevo que ascende a ele – está bem longe de ir-lhe ao encontro. Não acredita nem na “desventura” nem na “culpa”: prevê logo qualquer coisa, consigo mesmo e com os outros, sabendo sobretudo olvidar; é suficientemente forte para que tudo lhe redunde em benefício próprio. Pois bem; eu sou o oposto de um decadente, porque descrevi a mim mesmo.”
Friedrich Nietzsche
João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/04/2013.