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ONTEM, DIA DA POESIA – HOMENAGEM A FRANCISCO CARVALHO – Jornal O Estado

Socorro-me com José Anderson Sandes, um jornalista tornado professor, e com José Lemos Monteiro, escritor e professor da Universidade de Fortaleza, para falar um pouco de linguagem ética, em homenagem ao 14 de março, Dia da Poesia, ontem acontecido.Poesias relembrando ainda Castro Alves, o grande condoreiro, e parabenizando a Regine Limaverde, uma poeta moderna, também nascida nessa data.
Sandes era o entrevistador, ao seu tempo de editor no Diário do Nordeste, em 02 de março de 2009, quando dialogou com Lemos sobre a linguagem poética. Lemos recorre ao formalismo russo, quando afirma: “os formalistas estiveram preocupados em descobrir aquilo que realmente caracteriza um texto como expressão poética. E, assim propuseram o princípio de que não é o autor, mas o modo peculiar de cada obra que deve ser objeto de cada análise. Em função disso, passaram a valorizar e pesquisar os elementos que se encontram imanentes no texto poético em si mesmo, como o estrato sonoro, o ritmo, a métrica, a rima etc”.
Tudo isso é para dizer a você ter sido escolhido o poeta grande, Francisco Carvalho, recentemente falecido, como o centro das atenções em exposição aberta pela Galeria BenficArte e a Academia Cearense de Letras. Foram escolhidos 14 poemas de Carvalho e mostrou-se a sua fortuna crítica. A Exposição está em curso e é gratuita.
Se você, caro leitor, chegou até a este ponto, certamente tem a sensibilidade de saber da importância da poesia na nossa vida. Dizia a Madame de Stael, escritora francesa do século 18:
“A poesia é a linguagem natural de todos os cultos”.É verdade. Entretanto, há pessoas a formular poesias, bastante diferente de ser poeta. Se ela não brotar como as águas surgidas por trás de uma pedra em pleno deserto, será um arranjo poético, se tanto, nunca uma poesia.
Louvo-me, outra vez, de Lemos para ir a Carlos Drummond de Andrade em seu poema “Ao Deus Kom Unik Assão”, na verdade, “Ao Deus Comunicação”. Pois bem, em parte desse poema, CDA, com todo o seu direito poético, escreve: “Eis-me prostrado a vossos peses/ que sendo tantos todo plural é pouco”. A ironia dele ao usar “peses”, como plural de pé, é parte de sua estilística.
Estariam os poetas a fugir do encontro com o sentimento e com a sua individualidade? Ortega y Gasset, filósofo espanhol falecido no primeiro quinto da segunda metade do século passado, asseverava: “Não se pode dizer que o poeta persiga a verdade, visto que a cria”.
Francisco Carvalho era um criador de verdades. Veja estes versos: “Agora eu sei o quanto basta à ceia do coração/ e o quanto sobra do naufrágio/das nossas utopias”. Ou quando fala, parecendo a fechar a última página do tempo maduro: “As minhas mãos/ já foram robustas/já plantaram/sementes de milho/nas terras dos filisteus/hoje só semeiam/ as lavouras do adeus”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/03/2013

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FUTEBOL E GESTÃO – Diário do Nordeste

O Brasil está cheio de estádios novos. Caros de manter. O Brasil está apinhado de dirigentes ultrapassados, dos clubes da terceira divisão ao presidente da Confederação Brasileira de Futebol. Caros de manter.
As “arenas” precisam de novos gladiadores, menos mercenários, de novos espectadores, não os do tipo romanos a pedir sangue ou a causar mortes. Precisam de novos árbitros, não os de encomenda, a decidir partidas em lances dúbios. Precisam de oxigenação, não de pelegos, como os das entidades sindicais e os de algumas patronais. Precisam de novos anseios, metas e resoluções. Não as engendradas pelo compadrio, uma das maiores doenças endógenas da pátria mamada. Desculpe, amada.
Faz tempo, o Brasil roda em círculos com as mesmas pessoas a usar clubes e entidades para ascensão social e financeira, posar na mídia amistosa, criar afinidades, aqui e alhures, comandar viagens e até causar desvios graúdos, com repercussões internacionais e acordos ajuizados a encobrir ‘comissões’ polpudas em transações não públicas.
Hoje, aposentados, políticos e policiais, ocupam postos de direção dos maiores clubes e de entidades. Nada contra, mas por quê? Quem quiser confirmar o dito, entre nos sites dos clubes e veja a formação de seus dirigentes.
As “arenas” novas foram impostas pela Federação Internacional de Futebol, uma espécie de ONU sem obrigações e muitos direitos. Seus dirigentes posam de estadistas e trafegam fácil entre governos. A cada quatro anos há um leilão para a escolha do local da próxima Copa do Mundo. Cobram tudo e dão nada. A propósito, você lembra quando e onde o Brasil ganhou a última Copa?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/03/2013

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ANTIGAS E NOVAS MULHERES – Jornal O Estado

“Te ofereço um ramo de fogo/do pomar da lascívia/um ramalhete de todas/as pulsações da vida”. Francisco Carvalho (1927-2013)
Neste Dia da Mulher, neste orbe comum ao sexo feminino, não tão femíneo como o conhecemos no século passado, saúdo, parabenizo e louvo as novas mulheres. Elas tomam as rédeas de países, estados e cidades, de parlamentos, de forças armadas e polícias, de instituições financeiras pátrias e internacionais, formam opiniões na imprensa, protestam em público, ensinam e comandam escolas e universidades, efetuam pesquisas, aquinhoam a magistratura, constroem edifícios, chefiam empresas, e ocupam, cada vez mais, assentos de ônibus, trens, táxis e aviões, atarefadas com os seus celulares, i-Pads e notebooks, equipagens simplificadas e agendas lotadas.
No entanto, por respeito, tenho a ousadia quixotesca de ressaltar, mesmo de leve e por princípio, as antigas mulheres/mães, hoje apenas uma das múltiplas faces da fêmea pós-moderna: aquela a acordar cedo para malhar ou andar, maquiar-se, fazer o seu próprio café e dirigir-se ao trabalho, após definir o dia dos filhos.
Sou filho da mãe em tempo integral, com nove filhos, decidida, prestimosa e cuidadosa do estudo, conduta e vida de cada um. Hoje, aos 93 anos, sabe – e se orgulha disso – ter criado filhos responsáveis, autônomos e alforriados para ousar e fazer os seus próprios caminhos. Um terço dos seus filhos criou asas. E foram exato as mulheres, as voadoras. Uma, socióloga, vive, com o marido médico, na Alemanha, onde as duas filhas estudam medicina; outra divide o tempo entre os EEUU e o Brasil; e a terceira moureja no Piauí, onde foi funcionária federal de nível superior, professora universitária e, agora, já aposentada, comanda com o marido e filhos um crescente negócio a envolver quase todos, exceto a filha médica ora entranhada na Amazônia.
A mulher de hoje não é santa, tampouco satã. Sabe dos seus direitos e não vê no homem o mero amparo, o pagante das contas, mas alguém com quem dividir os sonhos raros e as muitas agonias da vida. Está na hora dos legisladores dos parlamentos do mundo deixarem de fazer distinções de gênero, sem privilégios, cotas e com obrigações recíprocas. Falo do mundo ocidental, pois pouco sei dos meandros dos seguidores de Buda, Maomé, Alá, Lao Tse, Confúcio e outros. Embora inclua idas por lá, mais de uma vez, não captei a essência de suas filosofias, preceitos e crenças.
Voltando aos jovens pares, creio ser tempo de abertura de uma nova ordem familiar, a do compartilhamento, com alvedrio. A do entendimento, sem submissão. A do enfrentamento conjunto de dificuldades para a solução possível. A dissolução, quando o enlace acaba.
Fim das aparências e conveniências.
Mulher não é só paixão, tampouco formas voluptuosas, mas pessoa, além disso. É sensatez com bússola ou GPS inatos a desbravar os intrincados mistérios do mundo real, velha casamata vencida e quimera de homens carcomidos de um tempo roto, já transposto e sem retorno.
Simone de Beauvoir, uma libertária francesa, do século XX, falava: “Nenhuma mulher nasce mulher, torna-se.” A frase é de efeito. Ela queria dizer apenas ser dado a ela a obrigação de lutar, trabalhar, igualar-se, ter senso crítico, a não repousar acomodada à espera do divórcio, da viuvez e dos cobres. Parabéns às novas mulheres, não necessariamente, mulheres novas.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/03/2013.

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AFETAÇÃO E EDUCAÇÃO – Diário do Nordeste

Tem-se notado, neste país e mundo afora, uma geração de jovens adultos completamente desinteressada pela realidade da vida, da política e do futuro. Essa geração, não por seus méritos, teve a sorte de nascer de pais trabalhadores, estudiosos, criativos e ativos na produção do bem-estar de suas famílias. Assim, eles, após programas de viagens pagas de intercâmbio ao exterior, passam em vestibulares e surgem em carros reluzentes, a disputar, no vácuo de valores essenciais, relógios, roupas de marcas, férias, hotéis, moradas, restaurantes e baladas. As contas pagas, quase sempre, com cartões de crédito das famílias.
Há uma peculiaridade entre a maioria desse contingente: confundem afetação com educação. A afetação é a representação da ‘persona’ criada a partir da versão entendida por boas maneiras, um mero verniz. Tratam bem o empregado desde admitido pertencer a outra casta. Até podem gerir, porém não mourejam como os pais o fizeram. Frequentam o trabalho com enfado, pois têm mais a fazer.
Não se pode generalizar, é claro. Esse fato causa problemas em processos de sucessão de empresas familiares. Pequenas ou grandes. Nos tempos de hoje os casamentos não são eternos. Acabam na justiça ou acordos ou se mantêm por interesses. Surgem conflitos. E a canoa vai. Ou se esvai.
A educação é basilar, natural, livre, refere sentimentos de alegria, de tédio, de revolta e de respeito. A afetação é pretensa, para uso exterior. Não são raros os casos de rupturas e decadências familiares logo na sucessão, pela inapetência dos descendentes. Cumprem luto breve e dividem o butim.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/03/2013

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FACULDADE DE DIREITO – 110 ANOS – Jornal O Estado

A história da Faculdade de Direito do Ceará, fundada em 21 de fevereiro de 1903, tem quase o dobro de vida da Universidade Federal do Ceará. Sua primeira sede foi no prédio do atual Museu do Ceará, na rua São Paulo, e o seu primeiro ano letivo foi aberto exato em um 1º. de março, como hoje, pelo seu primeiro diretor, Nogueira Acioly.
Hoje, sexta, 1o. de março de 2013, às 19h00, o reitor da UFC, Jesualdo Farias, e o professor Cândido Albuquerque, ex-aluno, advogado referência, ex-presidente da OAB-CE e diretor atual, abrem as comemorações dos 110 anos da nossa velha, mas sempre revigorada, escola de direito. Berço maior das ciências sociais e jurídicas do Ceará. Igualmente, foi a semeadora da cultura e da política cearense no último século tendo produzido o maior número de governadores do Estado.
Ao me inscrever para o vestibular de 1961 tive a impressão de ser a escadaria do prédio velho bem mais alta. Na minha imaginação, eram muitos degraus a subir. A importância do passo a dar deu-me essa percepção. As provas eram escritas e orais. Lembro da banca de Português. Perguntaram-me sobre um “que” em determinado texto.
Cioso, respondi ser um pronome relativo. Os três examinadores olharam para mim e um deles disse: “Tem certeza?” Com nervos à flor da pele, redargui. “Tenho, sim”. Riram e o professor Miramar da Ponte olhou para mim e disse: “Você está certo”. Aliviei.
Havia Latim no vestibular e tínhamos de estudar as “Catilinárias”, de Cícero. O professor Agerson Tabosa foi cavalheiro, como constatei depois, e pediu para recitar o seu início. E o fiz: “Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra. Quamdium etiam furor iste tuus nos eludet”. Era só o gravado na memória e ele, felizmente, não pediu mais. Após o exame de inglês, vi-me aprovado. Foi a glória.
No primeiro ano tive a honra de ser aluno do professor Heribaldo Costa, em Introdução à Ciência do Direito, um dos mais brilhantes entre os primorosos Paulo Bonavides, Olavo Oliveira, Fran Martins, Roberto Martins Rodrigues, Aderbal Freire, Clodoaldo Pinto, Amorim Sobreira, Luiz Cruz de Vasconcelos e outros.
Participei do Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua. Em face do regime parlamentarista brasileiro adotado em 1962 o CACB resolveu eleger deputados. Éramos muitos candidatos e fui eleito no 2o. Lugar. O primeiro foi para Tarcísio Leitão, já a cursar o quinto ano.
Colamos grau, de forma solene, na Concha Acústica da Reitoria da Universidade Federal do Ceará, então sob o reitorado de Antônio Martins Filho, na noite de 16 de dezembro de 1965.
Nossa turma manteve, durante mais de 40 anos, uma reunião anual, sempre em torno do dia 16 de dezembro, no Náutico Atlético Cearense, organizada pelo brilhante advogado Stênio Rocha Carvalho Lima – a nos enviar correspondências e fazer contatos por telefone – a quem, na última reunião acontecida, conferimos um diploma de Mérito. O colega Ernani Porto e eu o saudamos
Éramos mais de cem na turma. Muitos deles galgaram postos públicos, na magistratura, no ensino superior, no ministério público, na política, e a grande maioria ralou os seus cintos nas secretarias de varas em nossos tribunais. Seria injustiça citar alguns e a memória deslembrar de outros.
Volto às comemorações. Sugiro, extra-pauta, a criação de um Instituto da Faculdade de Direito do Ceará, através do qual, os ex-alunos ou egressos, poderiam fazer contribuições e doações. Creio no dinamismo do professor Cândido Albuquerque para dar, neste ano de 2013, a visibilidade merecida à nossa vetusta Academia Livre de Direito do Ceará, seu nome original, dotando-a das condições materiais e de quadro de professores à altura da honra e glória de sua história como fomentadora de conhecimento. O ato de entender a vida, segundo Aristóteles.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01/03/2013

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DROGAS E VIDAS – Diário do Nordeste

A liberdade invocada pelos americanos, constitucionalmente, para portar armas (não esqueça: a guerra é a constante na terra de Lincoln) parece ser a mesma dos adictos sobre as suas vontades. A decisão do governo paulista de internar os milhares de viciados em “crack”, até contra as suas resistências, tem sido questionada.
Sem entrar no mérito legal da discussão, lembro: não só os viciados em “crack”, cocaína e outros causam problemas às suas vidas, às suas famílias e à sociedade. Não há um fim de semana sem alcoólatras a provocar mortes no trânsito ou crimes contra pessoas.
No dia 23 de janeiro, a jornalista Iara Biderman, na Folha, entrevistou os psicanalistas Antonio Alves Xavier e Emir Tomazelli, autores do livro “Idealcolismo”. Segundo eles, o alcoólatra é como um fanático religioso “porque ele transforma a bebida em uma substância divina. Ao beber o ´deus álcool´, comunga com essa substância… acredita que vira deus, não tem que enfrentar as limitações e frustrações do ser humano. Vira todo-poderoso e se entrega a esse ídolo que o faz sentir-se onipotente”. Concordemos ou não com essa abordagem, os autores retratam o dependente: “deixa de ser humano, de se responsabilizar pelo que faz com sua vida – a culpa é do álcool, não dele. E acaba perdendo a sua parte ética, porque fica perdido em sua individualidade, sem considerar o outro”.
Como, mais das vezes, retoma a vida normal nas segundas-feiras, não traz sentimento de culpa e debita ao álcool os estragos feitos em família, amigos, ao dirigir ou ao se envolver em discussões causando danos morais a terceiros.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/02/2013.

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THOMAZ POMPEU E A ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS – Jornal O Estado

Desde 2000, a UNESCO – entidade da ONU a cuidar da Educação, Ciências Naturais, Humanas e Sociais, Cultura, Comunicação e Informação – consagra o dia 21 de fevereiro como o Dia Internacional da Língua Materna.
Na noite de ontem, exato 21 de fevereiro deste 2013, na imensidão da abóbada celeste ainda não de todo desvendada, pairava no planeta Terra, no hemisfério sul, no Brasil, no Ceará, em Fortaleza, com a lua em quarto crescente, quase um plenilúnio, a Academia Cearense de Letras, reunida para falar sobre Thomaz Pompeu. Cultuou-se a língua e a linguagem.
Aconteceu no Palácio da Luz, centro histórico de Fortaleza, na Rua do Rosário, defronte à Igreja dos Homens negros, asilo de segregados pela escravatura envergonhadora. Igreja essa ressaltada e descrita em tintas nas pinturas e nas músicas em ritmo afro de Descartes Gadelha.
A palavra de Thomaz Pompeu foi lembrada a seus seguidores para exercer “a serenidade de investigadores da verdade”. A propósito, a acadêmica Ângela Gutiérrez já havia louvado em 2009, em discurso ali proferido quando da comemoração dos 105 anos da ACL, as suas múltiplas faces de jornalista, professor, pesquisador de história, geógrafo, educador, administrador público, pensador, homem de letras e empreendedor.
Sobre essa face singular ela refere: “Por que relembrar o empreendedor, o pioneiro, que fundou a primeira fábrica de fiação e tecidos do Norte-Nordeste, atentando para o aproveitamento de nossa vocação algodoeira, que foi sócio majoritário e gerente da primeira Companhia de bondes do Outeiro, que foi fundador e presidente do Banco do Ceará, do Centro Industrial e da Associação Comercial, colaborando para o progresso da terra, na crença de que progresso e ciência deveriam andar de mãos dadas”.
Outros empreendedores já integraram a referida ACL. Os principais: Antonio Martins Filho, o reitor fundador/empreendedor da Universidade Federal do Ceará; o jornalista Eduardo Campos, escritor, condômino dos Diários Associados e industrial; e o seu hoje presidente, o empresário imobiliário e bibliófilo José Augusto Bezerra.
A propósito, o maior bibliófilo – amante e colecionador de livros – brasileiro foi também um empreendedor, José Mindlin, criador da Metal Leve.
Os empreendedores citados confiavam e seus seguidores acreditam, além do arrojo em suas ações, no estudo, na informação, no conhecimento e na cultura, indispensáveis ao Brasil atual, a exigir qualificação para qualquer tarefa ou encargo. A educação e a cultura são chaves insubstituíveis para o futuro. Thomaz Pompeu já sabia disso.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 22/02/2013

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RATZINGER E ROMA – Diário do Nordeste

Era uma vez um menino batizado, crismado, primeira comunhão, missas e, no bolso esquerdo, um terço de madeira. Comungava às primeiras sextas-feiras do mês. Entrou na universidade, convidou um doutor em Teologia para pregar a Páscoa. Empós, encontrou-se com o padre. Viu-o de roupas civis: o que houve? Pedi licença e questiono a minha fé. Deus existe?
Cheguei a Roma no fim do Concílio Vaticano II. Com a ajuda de parente bispo, penetrei no conclave. Sentei-me e escutei. Eles adequavam a Igreja às mudanças. Aboliram o latim e a batina. Os padres, frente aos fiéis, celebrariam a missa no vernáculo de país e mais. Voltei outras vezes a Roma e sempre me espantou a pompa das cerimônias, a riqueza dos museus e a ridícula guarda suíça. João XXIII morre e surge Ratzinger.
Estava a zapear a TV e parei numa estação americana. Ratzinger debatia sobre filosofia e fé. Impressionou-me sua cultura e não me surpreendi com a escolha. Fora lastreada na sua longa história Vaticana, na “Intelligentzia”, chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, a julgar questões intricadas, desde a Inquisição.
Ratzinger eleito mostrou-se cauteloso, em meio às intrigas. O Vaticano é uma Monarquia absoluta. Os fiéis não esqueceram João XXIII e em dos primeiros atos dele foi abrir a canonização, logo acontecida. Pedofilia, escândalos financeiros, divisões e intrigas entre a hierarquia. Elas debilitaram sua saúde e culminaram, após a prisão de seu mordomo, com o calculado gesto de renúncia. Sugestão: Vamos unir a Igreja de Roma à Anglicana e abolir o celibato?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/02/2013.

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LINCOLN – O filme e a Virtude JORNAL O ESTADO

A história ou estória sempre é contada pelos vencedores. Os derrotados estão mortos, desaparecidos ou não têm espaço para contá-la. Vi o festejado filme “Lincoln” dirigido por Steven Spielberg, a partir de poucos capítulos do livro “Team of Rivals – The Political Genius of Abraham Lincoln, algo como Jogo de Rivais – A Genial política de Abraham Lincoln”.
Spielberg está rico se dá ao luxo de bem escolher e dirigir. Ele desejava se acostar a D.W. Grifith(Abraham Lincoln) e a John Ford com (A Mocidade de Lincoln), grandes diretores e recriadores, cada um a seu jeito, de vários aspectos da vida do menino pobre até a sua chegada à presidência, mas assassinado no começo do segundo mandato.
O Lincoln de Spielberg não conta a história de sua vida de 56 anos (1809-65). É apenas um breve recorte da sua atuação como estadista. Este “Lincoln” mostra, repito, um viés pouco notado na sua biografia. Abraham, como o profeta onomástico, guerreia para unir os americanos. A história é um intricado jogo de interesses entre os partidos Republicano ( o de Lincoln) e os Democratas, visando a aprovação da 13a. emenda à Constituição americana. Lincoln queria – e conseguiu – a abolição da escravatura e precisava jogar pesado para obter votos adversários na Câmara de Representantes. Assim, na verdade, houve distribuição de dinheiro e de cargos para os resistentes aos argumentos de Lincoln. Ao final, cederam. Tudo isso é mostrado, mas encoberto pela virtude/moral/ética calvinista: A pátria acima de tudo.
Esse filme receberá prêmios e poderia ser visto por todos. Especialmente, jornalistas, políticos, advogados, cientistas políticos, magistrados, inclusive os membros do Supremo Tribunal Federal e, certamente, pelos apenados do 1º. mensalão.
Houve uma manobra abjeta, mas ela tinha um objetivo nobre. A pergunta filosófica é: Os fins justificam os meios?. J.B. Butler, filósofo inglês do século 18 deve ter sido lido por Lincoln. Ele assevera: “A virtude, enquanto tal, considera consideráveis vantagens aos virtuosos”.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/02/2013.

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PARTIDOS E CARGOS – Diário do Nordeste

O Estado brasileiro quer regular tudo e acaba não cuidando de muita coisa. Os políticos são essencialmente práticos e não acreditam em teorias. Dane-se a reforma política tão falada e nunca implementada. Querem saber, objetivamente, onde estão verbas, obras, empregos, viagens e visibilidade para eles. Os dos executivos até tentam estabelecer planos, padrões, referências e limites a essa busca sem fim de benefícios e pressões de algumas empresas, sempre ao lado dos governos, quaisquer que sejam.
Imaginem, agora, o quanto estão sendo pressionados os novos prefeitos. Eles precisam de maioria nas câmaras municipais e isso só acontecerá se os vereadores ficarem ledos. Têm pleitos sempre maiores que a capacidade das urbes de absorvê-los. Uma legislação política esdrúxula permitiu a criação 30 partidos e seus dirigentes sabem o que pedir.
Pedem cargos no primeiro escalão, comissionados sem exigir formação e experiência, exceto alguns, e a profusão de vagas “terceirizadas”, sem seleção, mão-de-obra locada a empresas amistosas. Todos devem ter ficha limpa, lembrem-se.
Ninguém sabe, ao certo, quantos são os terceirizados nas 5.570 prefeituras brasileiras, sejam pequenas ou a da cidade de São Paulo. Os políticos têm tudo mapeado e inibem as tentativas sérias da imprensa e dos gestores para formar equipes eficazes. A sociedade, a que paga tudo, deve ter informações em nome da transparência com relatórios, infográficos e números. Cada Prefeito deve dizer como foi recebida a cidade e o que pretende, a partir da realidade, executar. Esclareça até março. Aguardamos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/02/2013